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Washington Araújo : Shoghi Effendi - Um Tributo
Shoghi Effendi
Um Tributo
Washington Araújo
Editora Bahá'í do Brasil

Dedico este livro a todos os que lutam pelo estabelecimento da justiça no mundo.

...desejo-lhe todo sucesso para uma pronta publicação e distribuição de seu livro entre os amigos.

Amatu'l-Bahá Rúhíyyih Khánum
Haifa, 3/2/1994
Prólogo

Apreciei com muita satisfação seu magnífico livro Shoghi Effendi, Um Tributo e não tenho dúvida de que será uma doce surpresa para todos os bahá'ís, assim como foi para mim. O que poderá ser mais belo que falar sobre um ser bem-amado, um personagem muito querido e diferente de todos os outros?

Realmente me enche de alegria que a sua dedicação à nossa amada Fé e seu estudo constante das escrituras bahá'ís hajam produzido um fruto tão excelente e raro. Com uma apresentação cuidadosa, este livro, como aqueles anteriormente escritos por você, vem fornecendo, de forma ordenada e gradual, uma visão completa da vida desta Personagem excepcional.

Muitos bahá'ís profundos e eruditos têm a opinião de que para se entender a Causa de Bahá'u'lláh e poder aplicá-la na vida das nações e dos indivíduos, torna-se necessário estudar os livros, escritos e a vida de Shoghi Effendi. Como você bem confirma, o mundo bahá'í está profundamente agradecido e em dívida com nossa amada Mão da Causa de Deus, Amatu'l-Bahá Rúhíyyih Khánum, esposa do amado Shoghi Effendi e sua fiel e única companheira dos últimos anos, que com seu talento literário nos presenteou A Pérola Inestimável (The Priceless Pearl), que descreve a vida do amado Guardião.

Querido Washington, sabíamos que inspirados neste livro, como no do Dr. Ugo Giachery, os historiadores do futuro escreveriam muitos livros sobre a vida de Shoghi Effendi, mas não esperava que tão rapidamente e contemporâneo nosso, surgiria uma pessoa, corajosa e audaz, que tomaria em suas mãos tão delicada e sagrada tarefa, vindo a oferecer aos amigos de língua portuguesa um livro tão necessário e importante.

Neste tempo de crises financeiras, seu livro é economicamente oportuno e será de grande ajuda para o estudo dos amigos tornar acessível sua aquisição. Através de sua inteligente adaptação do livro A Pérola Inestimável, este livro brinda os leitores, tanto quanto possível com um momento de conhecimento e intimidade com Shoghi Effendi. Aos que tiveram a oportunidade e bênção de conhecer pessoalmente o amado Guardião, muitas partes de seu livro lhes oferece o prazer de recordar momentos sagrados de sua vida na companhia de seu Amado. Aos que não puderam usufruir desta experiência maravilhosa, seu livro os ajudará a captar o esforço sacrificado e a visão de quem levou adiante um ministério de ininterrupto amor e serviço pela Causa de Bahá'u'lláh.

Agradeço-lhe profundamente, querido Washington, por levar-me ao passado, ao ano de 1953, quando tive a honra e privilégio de estar na presença do "Sinal de Deus na Terra" como lhe designara 'Abdu'l-Bahá, o Centro do Convênio em Sua Vontade e Testamento.

Não há dúvida de que ao estudar seu livro os amigos compreenderão e apreciarão a grandeza e a majestade de Bahá'u'lláh e Sua Mensagem e tratarão, como Shoghi Effendi bem explica e enfatiza, de aplicar estes Ensinamentos em suas vidas e assim transformar o mundo inteiro.

Mas'ud Khamsí
Prefácio

Empreender a missão de conhecer Shoghi Effendi torna-se uma aventura maravilhosa, pois qual a hodierna busca do Santo Graal, encontramos sempre em sua personalidade diamantina, uma nova faceta brilhante.

"Saudações e louvor, bênção e glória repousem sobre aquele primeiro ramo da Árvore Divina e Sagrada do Lótus que brotou abençoado, terno, verdejante e florescente das Santas Árvores Gêmeas, a pérola mais maravilhosa, única e inestimável que brilha nos agitados mares gêmeos."

'Abdu'l-Bahá1

Estas são as palavras imortais, que para sempre serão recordadas com imenso amor e contentamento por esta e pelas futuras gerações de bahá'ís em sua intensa busca por conhecer um pouco mais da marcante e magnética personalidade do Guardião da Fé Bahá'í, Shoghi Effendi.

Combinando autoridade, amor, perseverança, genuína amizade e compreensão entre aqueles que tiveram o privilégio único de encontrá-lo face a face, deparamo-nos com este inesgotável legado que vem de geração a geração despertando crescente interesse, um legado composto de milhares de cartas escritas por ele mesmo ou em seu nome e por tantas recordações devidamente registradas por aqueles que tiveram em suas vidas esta inestimável honraria: servir a ele, O Sinal de Deus na Terra.

A vida de Shoghi Effendi era tão impregnada pelos aromas da Nova Era que sua biografia, pode-se afirmar, tem início com a própria alvorada da incipiente Fé de Bahá'u'lláh em 1844.

Naquele ano o mundo viria a testemunhar no Irã uma potente revolução espiritual e social com o advento de um novo Manifestante Divino, de um Mensageiro predito nos livros sagrados do passado. Com efeito, tratava-se do aparecimento de uma nova primavera espiritual, com suas características básicas de fazer brotar no solo dos corações humanos uma nova rosa, a rosa do amor. Uma rosa que não conhece limites e fronteiras.

Uma vez mais se cumpriam as profecias do passado: não mais a humanidade era deixada à mercê de seus próprios caprichos, havia uma nova orientação e guia. A fonte era Bahá'u'lláh e Seu arauto, o Báb.

Sendo a Fé Bahá'í a mais recente revelação divina a humanidade, não é de se admirar a largueza de visão lançada por Suas Figuras Centrais, trazendo luz à mística relação do homem com Seu Criador, desvendando os mistérios da vida espiritual, provendo uma panacéia universal para as dores seculares que desde há muito vem angustiando o corpo debilitado da humanidade.

Ao se contemplar este tema tão universal, encontramos o amor divino permeando a todos e a tudo com um novo espírito - um espírito revolucionário, onde as verdades eternas são renovadas e adaptadas à nova realidade. Assim, declarando que "somos as folhas e os ramos de uma mesma árvore... as flores coloridas de um mesmo jardim... as gotas de um mesmo mar e as estrelas de um mesmo céu..." Bahá'u'lláh lança os alicerces da construção de uma nova civilização baseada no amor e na fraternidade entre todos os componentes da família humana.

Às vezes me encontro pensando na vida de Shoghi Effendi, nos seus dias atribulados, nos olhos fechando-se de cansaço após a conclusão de exaustivos trabalhos literários, nos múltiplos sorrisos de boas vindas aos peregrinos oriundos de tantas regiões do mundo, nos seus desafios únicos, na mística que permeava suas ações e na influência que através de seu mais profundo eu, transformava completamente aqueles que nele percebiam a chispa acesa da Vontade Divina.

Ao descansar a cabeça no travesseiro, deixando atrás de Si o mundo e seus ritmos, que pensamentos ocupavam-lhe a mente?

Os sentimentos agitam-se em meu coração ao constatar que tivemos um Guardião tão maravilhoso e tão cheio de bênçãos, um Guardião de um gênio, vitalidade, força e majestade Únicas.

Poder-se-ia perguntar, e com toda razão, o que um brasileiro teria a dizer de uma vida como a de Shoghi Effendi, tendo somente conhecido esta Causa em 1975, dezoito anos após seu falecimento?

A resposta, nem ele mesmo sabe. No entanto, recorda claramente que em uma manhã fria de maio de 1983, ao visitar seu túmulo em Londres, tornado de grande emoção, abriu seu livro de orações bahá'ís e com a voz embargada pronunciou "Inúmeras vezes, ó meu Deus, um coração enregelado veio a flamejar com o fogo de Teu amor..." E foi em meio às lágrimas incontidas e desde há muito represadas, sentiu um impulso interior para render um tributo à memória deste precioso ser, surgido dos "dois Mares gêmeos".

A visão que Shoghi Effendi tinha do mundo era originada da própria visão de 'Abdu'l-Bahá. Esta visão ele compartilhou durante sua existência com um mundo sofrido e desiludido, e de sua pena fluíram a guia para as gerações presentes e futuras.

Não se poderia separar as duas realidades que tanto se imantaram em seu ser: a visão e o visionário.

A um tempo ele era o pintor e sua pintura, era o violinista e sua música. Se existiu um cidadão do mundo, ele era este cidadão.

Este livro deve ser visto apenas como mais um tributo à memória eloqüente de Shoghi Effendi. Ele ocupará os espaços celestiais da genialidade e da percepção aguçadas do Espírito que no mundo se move.

É meu desejo que os que venham a lê-lo possam beneficiar-se dos dignificantes exemplos que uma vida tão bela ofereceu ao mundo.

Agradecimentos

À Mão da Causa de Deus, Amatu'l-Bahá Rúhíyyih Khánum por seu encorajamento e guia, sem os quais este livro seria apenas um projeto e também por sua gentil autorização para a utilização de excertos e fotografias do amado Guardião Shoghi Effendi, publicados em sua magistral obra The Priceless Pearl, toda a minha gratidão e profundo amor.

A Hooper Dunbar, por seu encorajamento e orientação quanto às fontes citadas neste livro, meu profundo reconhecimento e estima.

A Mas'ud Khamsí, por seu incansável e tão oportuno aconselhamento e amorosa guia e também por suas inspiradoras palavras que passaram a constituir o prefácio desta obra, minha terna gratidão e renovada amizade.

Ao amigo de todas as horas, Iradj Roberto Eghrari, pelas muitas noites, em Haifa e no Cairo, em que conferimos os originais deste livro e por suas sábias instruções visando o aperfeiçoamento do texto, uma dívida de amizade que aumenta.

Ao querido amigo Robert Miessler por sua competente assistência e árduo trabalho de revisão e diagramação do texto, minha terna gratidão.

Aos queridos Margot Worley e Rubens Dantas, meu reconhecimento e gratidão pelas oportunas sugestões para melhor apresentação do texto.

E finalmente, agradeço à minha esposa Ceres e aos meus filhos queridos: Thomas, Jordana e Anísa por terem me permitido muitos meses de recolhimento e serenidade, ocasiões em que os privei do convívio familiar pleno, minha admiração e profundo amor.

Washington Araújo
Shoghi Effendi
Um Tributo
Capítulo 1
Um Pequenino os Guiará

Muitos anos antes do falecimento de 'Abdu'l-Bahá, um bahá'í persa perguntou se existia alguém ao qual todos deveriam dirigir-se após Sua morte. 'Abdu'l-Bahá respondeu com esta epístola:

Sabei em verdade que este é um segredo muito bem guardado. Assemelha-se a uma jóia oculta em sua concha. Está predestinado que será revelado. Chegará o momento em que sua luz tornar-se-á visível e que sua evidência será manifesta e seus segredos serão esclarecidos.2

Em 1897 um crente americano escreveu ao Mestre (título dado a 'Abdu'l-Bahá por Bahá'u'lláh) dizendo que na Bíblia está escrito que depois dEle "um pequenino os guiará" (Isaías 11:6), e então perguntou se isto significava que existia uma criança e também se a mesma já havia nascido.

A visão de Isaias, a qual ele se referira em sua forma completa é: "O lobo habitará com o cordeiro e o leopardo deitar-se-á junto ao cabrito; o bezerro, o leão novo e o animal cevado andarão juntos e um pequenino os guiará." Neste versículo temos a descrição de Shoghi Effendi que dedicou todos os seus dias ao estabelecimento da unidade entre todos os povos através do erguimento da estrutura da Nova Ordem Mundial, veículo para a divulgação e implantação dos princípios revelados por seu bisavô, Bahá'u'lláh.

Naquele mesmo ano, o secretário particular de 'Abdu'l-Bahá, Dr. Yunis Khán sem saber que aquela pergunta havia sido formulada, anota em seu diário que 'Abdu'l-Bahá havia revelado a seguinte Epístola em resposta a esta pergunta:

Ó Serva de Deus!

Verdadeiramente esta criança nasceu e está viva, e dela surgirão coisas maravilhosas das quais ouvireis no futuro. A verás dotada com o aspecto mais perfeito, com suprema capacidade, com perfeição absoluta, com poder consumado e com potência inigualável. Seu rosto brilhará com um resplendor que ilumina todos os horizontes do mundo; portanto não esqueças disso enquanto fores viva, já que épocas e séculos guardarão as marcas dele.

Saudações e louvores estejam convosco.
'Abdu'l-Bahá3

Uma das características do Mestre, Aquele que é referido como o Mistério de Deus (Sirrulláh), é justamente este sincronismo espiritual, o clã místico conectando-O com as inquietações do corpo dos crentes.

Para Deus e Seus Eleitos nada, absolutamente nada é inescrutável. Há um desígnio divino permeando os corações e as mentes. Pode parecer surpreendente que uma Epístola tão importante não fosse conhecida no Oriente. Deve ser lembrado, no entanto, que naqueles dias as Epístolas eram transmitidas verbalmente ou através de cópias e que naqueles anos as nuvens escuras da violação do Convênio haviam-se tornado ainda mais espessas em torno do Mestre. Quanto maior a escuridão, mais intensa a luz da chama!

No entanto, nesta Epístola, podemos depreender dois aspectos principais sobre este ser que estava destinado a conduzir o Povo de Bahá.

Primeiramente, as características das quais ele estava dotado:

* terá o aspecto mais perfeito;
* terá suprema capacidade;
* terá perfeição absoluta;
* terá poder consumado;
* terá potência inigualável.
Os talentos de Shoghi Effendi foram múltiplos:

* o Guardião, aquele homem de visão, que podia sentir no Carmelo as instituições vitoriosas da Causa em pleno funcionamento;

* o Guardião, historiador que traçou, dentro de uma perspectiva divina, uma nova história do homem no palco do mundo;

* o Guardião, intérprete da Palavra Revelada, que traduzia em ações concretas o oceano da Revelação Divina;

* o Guardião, administrador que utilizaria cada oportunidade e cada vida devotada na construção de um refúgio predito por Bahá'u'lláh, amplo o suficiente para abrigar os povos e raças da Terra, dentro de um conceito todo-abrangente de unidade orgânica da raça humana;

* o Guardião, construtor que fazia brotar do nada os belos jardins, os maravilhosos edifícios, os poéticos Templos nos continentes, como a transmitir na pedra e no cimento os cânticos espirituais de almas puras e sinceras que se consumiram no fogo divino do Amor imperecível e eterno;

* o Guardião poeta, fazendo-nos sonhar e oferecer a vida uma e mil vezes, tal a clareza e a beleza de suas palavras, que enterneciam tanto o coração quanto à alma.

Quem poderia ser insensível ao ler seus títulos de amor ao Báb, suas odes à grandeza de Bahá'u'lláh, suas expressões de devoção sem reservas a 'Abdu'l-Bahá e a Bahíyyih Khánum, a Folha Mais Sagrada?

Enfim, temos o Guardião poderoso, dotando de sentido a vida de uma crescente legião de servos de Bahá'u'lláh, a Abençoada Beleza, servos anelantes que buscavam, como o maior mérito de suas existências, trazer alegria e contentamento ao seu coração!

"Um rosto que nunca deixaria de produzir luz..."

Ah, o poder do Guardião! Tão eloqüente quanto seus escritos, tão veemente como sua extrema humildade, tão imperativo, quanto as cláusulas do Testamento.

A sua dedicação estava acima das contingências e limitações. Soubemos apreciar o que ele realizou em trinta e seis anos de Guardiania?

Aquela Epístola de 'Abdu'l-Bahá também continha as profecias sobre seu futuro glorioso e que, conforme a História testemunharia nos anos posteriores, seriam cumpridas de forma completa e integral:

* dele surgirão coisas maravilhosas das quais ouvireis falar no futuro;

* seu rosto brilhará com um resplendor que ilumina todos os horizontes do mundo;

* épocas e séculos guardarão sua marca.

Menos de quatro décadas se passaram de seu falecimento e continuamos atônitos com o poder de suas ações em modelar a estrutura da Ordem Mundial delineada por Bahá'u'lláh. À medida que os anos sucedem-se, somos levados a aumentar nossa dívida de gratidão por suas obras, que continuam norteando a Comunidade Bahá'í na compreensão dos princípios deixados por Bahá'u'lláh.

A um tempo, estamos diante de uma jóia sempre vindo a lume, e a outro, somos por uma forma misteriosa os instrumentos que Deus utiliza em cumprimento a sua visão, sonhos e esperanças.

Muito ainda falta transpor do plano da visão para o da ação. Mas, em cada sinal da marcha triunfante desta Causa, ei-lo, é o amado Guardião que nos sorri, iluminando-nos com o brilho de sua visão da Ordem Mundial deixada por Bahá'u'lláh.

Naquele mesmo diário Yunis Khán registra que, certa vez, caminhando com 'Abdu'l-Bahá, perguntou-Lhe: "Alguém me escreveu da América dizendo ter ouvido que o Mestre havia declarado que aquele que surgiria após Ele, havia nascido recentemente e se encontrava neste mundo. Se é assim, temos então nossa resposta, mas e se não for assim?..."

Depois de aguardar um instante, escreveu o Dr. Yunis Khán com o olhar radiante de satisfação Ele disse: "Sim, é verdade."4

E anotou então em seu diário: "Ao ouvir estas boas novas, minha alma regozijou-se, senti a confiança de que a violação do Convênio não teria nenhum resultado e que a Causa de Deus triunfaria em todo o mundo, e que este mundo tomar-se-ia um reflexo do mundo celestial."

Após este momento, 'Abdu'l-Bahá concluiu dizendo: "O triunfo da Causa de Deus encontra-se em suas mãos."5

É muito interessante conhecermos as impressões causadas ao Dr. Yunis Khán em seu primeiro contato com o neto do Mestre. Ele escreveu em seu diário:

"Por muitos dias, os que residiam na casa para os peregrinos, em Haifa (Israel), haviam solicitado ao Afnán (o pai de Shoghi Effendi) que lhes permitisse ver Shoghi Effendi. Um certo dia, esta criança de quatro meses foi trazida inesperadamente à sala onde o Mestre recebia visitas. Os crentes aproximaram-se dele com grande alegria e também me foi concedido este privilégio, mas eu disse a mim mesmo: 'Observa-o somente como se fosse uma criança bahá'í.' Porém, não pude controlar meus sentimentos, porque uma força interior obrigou-me a inclinar-me diante dele e por um instante senti-me enfeitiçado pela beleza desta criança de peito. Beijei sua cabeça e senti nele tal poder que não consigo expressar, somente posso dizer que ele parecia-se com aquelas crianças que se vêm retratadas nos braços da Virgem Maria. Por vários dias, percebi o rosto desta criança diante de mim, depois disso esqueci-me dela gradualmente. Em outras duas oportunidades tive estes mesmos sentimentos, uma vez quando ele havia completado nove anos e outra vez quando tinha onze anos de idade."6

Seja como for, somente após o falecimento de 'Abdu'l-Bahá, quando retirou-se de Seu cofre o Seu Testamento, o mundo bahá'í veio a saber que Shoghi Effendi era esta pérola inigualável. E quão inestimável e gloriosa era esta pérola deixada por 'Abdu'l-Bahá.

Não obstante, com o passar dos anos, tornou-se mais evidente que ninguém a compreendera realmente, até que em novembro de 1957 foi chamada a voltar aos Mares de onde havia nascido.

À medida que o tempo passa, temos uma compreensão mais definida de sua verdadeira natureza e missão, pois melhor o conhecemos. Sentimos ser urgente abrir clareiras em nossos espíritos para entesourar esta pérola - da qual somos os felizes herdeiros!

"A criança é a essência secreta de seu progenitor"

Shoghi Effendi nasceu em 'Akká, na antiga Palestina, hoje Israel, no vigésimo sétimo dia de Ramadán de 1314, no calendário muçulmano. Esta data equivale ao domingo, 12 de março de 1897 do calendário gregoriano. Tais datas foram encontradas em uma das cadernetas de anotações que ele trazia consigo, escrita por seu próprio punho.

Era o primeiro neto de 'Abdu'l-Bahá, filho de Sua filha mais velha, Díyá'íyyih Khánum e de Mírzá Hádí Shírázi, um dos Afnáns e portanto, parente do Báb.

Seu Avô sempre Se dirigia a ele como "Shoghi Effendi". Ainda mais, deu instruções para que sempre se adicionasse Effendi (que significa Senhor) ao seu nome, e orientou ao seu pai que sempre o tratasse por Shoghi Effendi.

Em 1897, ano do nascimento de Shoghi Effendi, 'Abdu'l-Bahá e Sua família ainda eram prisioneiros do Sultão da Turquia, 'Abdu'l-Hamid, e residiam na Casa de Abdu'lláh Pashá, que ficava a pouca distância do quartel-militar turco onde Bahá'u'lláh, 'Abdu'l-Bahá e o grupo de crentes que Os acompanhava haviam sido encarcerados, quando de sua chegada a 'Akká em 1868.

Para se ter um vislumbre do que deve ter acontecido no coração de 'Abdu'l-Bahá, quando aos 53 anos de idade nasceu-Lhe este primeiro neto, deve ser lembrado que Ele já havia perdido mais de um filho, dos quais o mais querido e perfeito, Husayn, uma criança bonita e séria, falecera aos poucos anos de idade. Das quatro filhas do Mestre, três deram-Lhe 13 netos, mas este era o maior deles. Era testemunho da expressão "a criança é a essência secreta de seu progenitor", o que não se deve considerar neste caso como sendo a herança de seu próprio pai, mas sim, de anteriormente a seus pais, dos Profetas de Deus e da nobreza de seu avô, 'Abdu'l-Bahá.

Sobre seu nome "Shoghi", que literalmente significa "o que anseia", 'Abdu'l-Bahá escreveu:

Ó Deus!

Este é um ramo que brotou da árvore de Tua misericórdia. Permite que ele cresça por Tua graça e mercê, e de acordo com as chuvas de Tua generosidade faz com que ele seja um ramo verdejante, florescente e com frutos. Alegra os olhos de seus pais, ó Tu que concedes a quem desejes, e confere-lhe o nome Shoghi, para que possa ansiar por Teu Reino e elevar-se aos domínios do Invisível.7

E então, temos o complemento do significado do seu nome: aquele que anseia pelo Reino. Um vislumbre de seu futuro grandioso. Com efeito, ele soube como ninguém elevarse a estes domínios, intangíveis, aparentemente etéreos e, seguindo a aspiração do Amado Mestre ao conceder-lhe o nome Shoghi, caminhou por toda sua vida no plano místico, mas com pés práticos.

"Estas mãos se parecem com as de meu Pai"

Graças às anotações de Ella Goodall Cooper, uma das primeiras peregrinas ocidentais que estiveram na presença do Mestre em 1899, temos o relato deste encontro pessoal entre 'Abdu'l-Bahá e Shoghi Effendi na Casa do Abdu'lláh Pashá, ocorrido em março daquele ano:

"Certo dia... estava reunida com as senhoras da Família na sala da Folha Mais Sagrada com o intuito do servir o chá... O amado Mestre estava sentado em seu lugar preferido do divã, de onde se podia ver o azul mediterrâneo sobre os muros através da janela situada à Sua direita. Estava ocupado escrevendo epístolas e a tranqüila paz era interrompida apenas pelo burburinho do samovar, diante do qual achava-se sentada no piso uma das jovens servas que estava preparando a chá.

Em pouco tempo, o Mestre levantou o rosto de Seus escritos e, com um sorriso, pediu a Díyá'íyyih Khánum que entoasse uma oração. Quando ela terminou, apareceu uma pequena figura na porta aberta que estava atrás de 'Abdu'l-Bahá. Depois de haver retirado os sapatos entrou diretamente na sala, com o olhar fixo no rosto do Mestre. 'Abdu'l-Bahá devolveu-lhe o olhar com urna expressão tão carinhosa de boas vindas que parecia chamá-lo a aproximar-se dEle. Shoghi, aquele belo menino, com seu lindo rosto de camafeu e seus olhos escuros, atraentes e comovedores, caminhou lentamente em direção ao divã, atraído ao Mestre como se fosse por um fio invisível, até que parou de pé, muito próximo, diante dEle.

Enquanto aguardava ali por um instante, 'Abdu'l-Bahá não o abraçou, mas sim, permaneceu sentado e imóvel e somente balançou Sua cabeça por duas ou três vezes, de forma lenta e impressionante, como se estivesse dizendo: 'Vocês vêm? Este laço que nos une não é somente o de um avô físico, mas sim algo muito mais profundo e cheio de significados.' Enquanto nós aguardávamos a que ela faria, a criança pequena inclinou-se, e tocando as bordas do manto de 'Abdu'l-Bahá reverentemente, beijou-O e logo colocou-se de novo em seu lugar, e em nenhum momento desviou seu olhar do rosto adorado do Mestre. Logo em seguida voltou-se e saiu correndo a brincar como qualquer criança normal... Neste tempo ele era o único neto de 'Abdu'l-Bahá, e como tal, era de grande interesse para os peregrinos."8

"Quão grande deve haver sido," escreveria Rúhíyyih Khánum, a esposa de Shoghi Effendi, muitos anos depois, "a luta do avô para manter dentro de certos limites Seu amor por esta criança, para que a chama deste amor não colocasse em perigo sua vida, devido ao ódio e a inveja do seus múltiplos inimigos, que sempre buscavam um calcanhar de Aquiles para provocar Sua queda. Muitas vezes, quando Shoghi Effendi falava do passado e de 'Abdu'l-Bahá, não somente senti quão absorvente e ilimitado havia sido seu próprio amor pelo Mestre, mas também que ele havia compreendido que 'Abdu'l-Bahá restringia e ocultava a paixão de Seu amor por ele para protegê-lo e para resguardar a Causa de Deus de seus inimigos."

Shoghi Effendi, escreveu Rúhíyyih Khánum, "era uma criança pequena, sensível, muito ativa e travessa".

Em seus primeiros anos não era muito forte e sua mãe teve muitas vezes motivo para preocupar-se com sua saúde. Apesar disso, ao crescer, desenvolveu uma constituição férrea, adicionada a qual, a força extraordinária de sua natureza e vontade, permitiram-lhe vencer todos os obstáculos que se colocaram em seu caminho nos anos posteriores.

De compleição delgada, inclusive na idade adulta, mais baixo que seu avô, Shoghi Effendi parecia-se mais fisicamente com seu bisavô, Bahá'u'lláh. "Ele relatou-me," continua Rúhíyyih Khánum, "que a irmã de 'Abdu'l-Bahá, a Folha Mais Sagrada, em certas ocasiões segurava suas mãos entre as dela e dizia: 'Estas se parecem com as mãos de meu Pai."9

Pode parecer falta de respeito dizer que o Guardião "era uma criança travessa", atesta Rúhíyyih Khánum, "mas ele mesmo me disse que era o pequeno chefe reconhecido por todas as outras crianças. Fervilhando de alegria, entusiasmo e audácia, sorridente, esta criança pequena comandou muitas travessuras. Sempre que acontecia algo, por trás disso encontrava-se Shoghi Effendi! Esta energia ilimitada foi muitas vezes fonte de ansiedade quando subia e descia correndo a grande e alta escada do andar superior da casa, provocando preocupação entre os peregrinos que se encontravam no andar térreo, aguardando para ver o Mestre."

Sua exuberância era irreprimível e desde a infância a mesma força haveria de fazer do homem um comandante em chefe tão incansável e resoluto das forças de Bahá'u'lláh, conduzindo-as de vitória em vitória, e certamente, à conquista espiritual de todo o planeta.

Temos um testemunho de muita confiança sobre esta característica do Guardião: 'Abdu'l-Bahá mesmo escreveu esta frase curta em um presente que deu como agrado a seu pequeno neto: "Shoghi Effendi é um homem sábio, mas corre demasiadamente de um lugar para outro!"10

"Tu disseste: escreve. Eu escrevi... Este não é o momento para que leias e escrevas."

"Certamente que não se deve inferir que Shoghi Effendi precisava de bons modos,..." escreve Rúhíyyih Khánum. "No Oriente ensinava-se às crianças - e com maior razão ainda aos filhos e netos de 'Abdu'l-Bahá - que deviam demonstrar cortesia e bons modos mesmo que ainda estivessem no berço. A família de Bahá'u'lláh descendia dos reis e a tradição familiar, sem considerar ainda Seus ensinamentos divinos que ordenavam a cortesia como algo obrigatório, assegurava que uma conduta nobre e a cortesia seriam características distintivas de Shoghi Effendi desde sua infância."11

Nesses dias, quando Shoghi Effendi era criança, ele se acostumara a levantar-se quase ao amanhecer e passar a primeira hora do dia na casa do Mestre, onde eram ditas orações e toda a família participava do desjejum com Ele. As crianças sentavam-se no piso com as pernas dobradas e os braços cruzados sobre o peito, em atitude de grande respeito, quando então pediam-lhes que entoassem uma oração para 'Abdu'l-Bahá. Não se ouviam gritos nem se observava qualquer conduta indevida. O Dr. Zia Baghdadí, amigo íntimo da família, registra em suas lembranças daqueles dias, que Shoghi Effendi era sempre o primeiro a levantar-se e chegar a tempo para o desjejum. Ele também relata a história da primeira Epístola que Shoghi Effendi recebeu de 'Abdu'l-Bahá. O Dr. Baghdadí assegura que Shoghi Effendi tinha apenas 5 anos, e pedia continuamente ao Mestre que escrevesse algo para ele, e então 'Abdu'l-Bahá escreveu esta comovedora e instrutiva carta de Seu próprio punho e letra:

Ele é Deus!

Ó Meu Shoghi, não tenho tempo para falar, deixa-Me só! Tu disseste "escreve", Eu escrevi. Que outra coisa pode-se fazer?

Este não é o momento para que leias e escrevas, é o momento para pular de um lugar para outro e de entoar "Ó meu Deus!", portanto, memoriza as orações da Abençoada Beleza e entoa-as para que Eu as possa ouvir, já que não tenho tempo para nenhuma outra coisa.12

Parece que logo após ter recebido esta carta, ele começou a memorizar numerosas orações de Bahá'u'lláh e logo as entoava em voz tão alta que toda a vizinhança podia ouvir sua voz. Segundo o Dr. Baghdadí quando seus pais e outros membros da família do Mestre chamaram sua atenção, Shoghi Effendi respondeu: "O Mestre escreveu-me dizendo que devia entoar as orações de modo que Ele pudesse ouvi-las. Faço o melhor que posso!" E continuou entoando-as em voz alta durante muitas horas durante todo o dia. Finalmente solicitaram ao Mestre que lhe pedisse que não continuasse agindo assim, ao que 'Abdu'l-Bahá respondeu que não deviam molestar Shoghi Effendi.

Nessa linda epístola, encontramos os fundamentos de sua educação espiritual. Os nutrientes concentram-se na força dinâmica do Verbo Divino. Dai, uma chave para compreendermos quão avassalador foi o efeito desse mesmo Verbo na vida do amado Guardião. A verdade é que ele amou e enamorado ficou com a Palavra desde os primeiros dias de sua infância!

Nas lembranças de um bahá'í sobre aqueles dias, ele registrou que uma vez Shoghi Effendi entrou na casa do Mestre, retirou sua pena e começou a escrever. 'Abdu'l-Bahá aproximou-Se suavemente dele, e tocando seu ombro disse:

Este não é o momento para escrever, agora é o momento de brincar, escreverás muito no futuro.13

Muitas vezes, o Mestre observava que mesmo a altas horas da noite a luz do quarto de Shoghi Effendi ainda estava acesa. Nessas ocasiões, Ele dirigia-Se à porta de seu quarto e ordenava: "Basta! Deves dormir!" Mas esta seriedade intelectual de Shoghi Effendi muito Lhe agradava. Em certa ocasião em que ele estava trabalhando, o Mestre entrou na sala e ficou ali em pé, observando o jardim pela janela, por trás da cadeira de Shoghi Effendi; daquele aposento podia-se ouvir os risos e barulhos da família na outra sala. 'Abdu'l-Bahá dirigiu-Se a Shoghi Effendi e disse: "Não desejo que sejas como eles, mundanos."14

Em outra oportunidade, Shoghi Effendi disse a Rúhíyyih Khánum que o Mestre voltou-Se para Sua esposa dizendo: "olha seus olhos, são como água cristalina."

Shoghi Effendi também se lembrava de como o Mestre, que havia estado de pé olhando pela janela que dava para o portão principal, estivera observando-o entrar animadamente e logo subir a escada. 'Abdu'l-Bahá chamou-o o disse-lhe: "Não caminhes assim! Caminha com dignidade!"15

"Beija a luz dos olhos da companhia das almas espirituais..."

Mas, voltemos aos anos da infância de Shoghi Effendi na cidade-prisão de 'Akká. Mesmo que não tenhamos dúvidas de que 'Abdu'l-Bahá fez tudo que pôde para que a infância de Seu neto precioso fosse a mais feliz possível, não se pode esquecer quão grandes eram os perigos que os rodeavam, naqueles anos logo após a queda do Sultão da Turquia. Foi durante estes anos que Shoghi Effendi lembrava-se de 'Abdu'l-Bahá ter-lhe dito que não deveria beber café na casa do nenhum bahá'í, pois temia que seu neto querido fosse envenenado.

Por volta de 1907, época de grandes perigos gerados pelas maquinações dos rompedores do Convênio, Shoghi Effendi foi enviado com sua governanta para estudar em Haifa, no Colégio dos Jesuítas. Dessa época, ele relatou a Rúhíyyih Khánum que quando tinha nove ou dez anos de idade, tivera um sonho no qual ele e mais um colega árabe da escola achavam-se na casa em 'Akká onde havia nascido. O Báb entrou na sala e logo em seguida apareceu um homem com um revólver e disparou contra Ele. Então, voltando-se para Shoghi Effendi, disse: "Agora é a tua vez!" e começou a persegui-lo. Nesse instante Shoghi Effendi acordou.

Este sonho foi relatado a 'Abdu'l-Bahá que lhe respondeu com uma Epístola:

Ele é Deus!
Shoghi Meu,

Este sonho é muito bom. Estejas seguro de que o haveres alcançado a presença de Sua Santidade, a Exaltada, seja minha alma sacrificada por Ele! É uma prova de haveres recebido a graça de Deus e de haveres obtido Sua maior mercê e supremo favor. O mesmo serve para o rosto do sonho. É minha esperança que tu possas manifestar as efusões da Beleza de Abhá e que possas aumentar dia a dia tua fé e conhecimento.

Ao anoitecer ora e suplica e durante o dia realiza o que se espera de ti.

'Abdu'l-Bahá16

Conforme é afirmado por Rúhíyyih Khánum "todo o curso dos estudos de Shoghi Effendi era direcionado por ele no sentido de preparar-se para servir o Mestre, desempenhando o papel de intérprete e tradutor de Suas cartas para o inglês."17

A 25 do março de 1912, 'Abdu'l-Bahá, Shoghi Effendi e vários secretários iniciaram sua viagem à Europa via Alexandria, pelo navio SS Cedric, da Linha White Star. Quando o navio atracou em Nápoles, os fiscais sanitários italianos declararam que os olhos de um dos secretários, um dos servos e de Shoghi Effendi, estavam enfermos, ordenando-lhes que regressassem ao Oriente Médio.

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A PÉROLA INESTIMÁVEL
Shoghi Effendi, o neto de 'Abdu'l-Bahá.
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Verdadeiramente, esta criança nasceu e dela surgirão coisas maravilhosas... no futuro.

'Abdu'l-Bahá

Durante um dia inteiro 'Abdu'l-Bahá fizera o possível para alterar esta decisão, mas, ao entardecer, após uma dolorosa despedida, viu-Se obrigado a embarcar e empreender viagem para a América. Shoghi Effendi assegurou a Rúhíyyih Khánum que não sofria de nenhuma doença nos olhos, mas que o Dr. Amín Fareed havia insistido com 'Abdu'l-Bahá que ele deveria regressar, adicionando todo tipo de argumento em apóia à decisão do médico italiano. Ele atribuíra todo o episódio à intervenção do Dr. Fareed no caso, o que, conforme afirma Rúhíyyih Khánum "é tão típico da ambição desmesurada e as intermináveis intrigas que existem dentro das famílias orientais".18

Não deve ser fácil imaginar a dor que este acontecimento deve ter causado a um adolescente de 15 anos de idade, que empreendia sua primeira grande aventura na vida, ainda mais em se tratando de Shoghi Effendi, tão apegado a seu avô, tão ansioso pela travessia em um grande navio e também por ser uma grande viagem ao Ocidente, numa época em que percursos tão longos eram realmente um acontecimento devido à sua raridade.

No entanto, podemos confirmar que o Mestre mencionou Shoghi Effendi nas três cartas que escreveu à Sua irmã, a Folha Mais Sagrada, Bahíyyih Khánum, durante Suas viagens, nas quais demonstra Sua preocupação com Shoghi Effendi e revela-Lhe Seu grande amor por ele:

Escreve-me imediatamente sobre o estado de Shoghi Effendi, informando-Me de tudo, sem nada Me ocultar...19

Beija a luz dos olhos da companhia das almas espirituais, Shoghi Effendi...20

Beija a flor fresca do jardim da doçura, Shoghi Effendi.21

Temos também uma Epístola de 'Abdu'l-Bahá dirigida a Shoghi Effendi, na qual expressa preocupação por sua saúde:

Ele é Deus!

Shoghi Effendi! Sobre ele esteja a glória do Todo-Glorioso! Ó tu que és jovem em anos e tens um rosto radiante! Tenho conhecimento que estás enfermo e obrigado a guardar repouso; não importa, de tempo em tempo é essencial descansar, do contrário, como 'Abdu'l-Bahá, por causa do trabalho excessivo, te debilitarás, perderás força e não poderás trabalhar. Portanto descansa alguns dias, não importa. Espero que estejas sob cuidado e a proteção da Abençoada Beleza.22

Finalmente terminou a grande viagem do Mestre, aos 69 anos de idade e, exausto devido aos esforços hercúleos, regressou ao Egito em 16 de junho de 1916. Sua família apressou-se a reunir-se com Ele. Shoghi Effendi, chegou aproximadamente 6 semanas após Seu regresso.

Estes anos, logo após o regresso do Mestre, não obstante a proximidade dos anos da guerra que estavam por vir, Rúhíyyih Khánum sente terem sido "os anos mais felizes da vida de Shoghi Effendi".23

O senso de justiça foi uma das lições de 'Abdu'l-Bahá.

Certo dia, Shoghi Effendi relatou o seguinte acontecimento a Rúhíyyih Khánum: Em um dia quando regressava com o Mestre de Alexandria a Ramleh em uma carruagem de aluguel, acompanhados por um Pashá que ia como convidado à casa de 'Abdu'l-Bahá, ao chegarem e depois de terem descido do veículo, o Mestre perguntou ao cocheiro quanto devia-lhe pela viagem.O homem então pediu um preço exorbitante. 'Abdu'l-Bahá recusou-Se a pagar e o homem insistiu agressivamente, a ponto de segurar o Mestre pela faixa que tinha em Sua cintura, sacudindo-Lhe violentamente, insistindo em seu preço. Shoghi Effendi disse que esta cena na frente de um hóspede distinto lhe causara grande constrangimento. Ele era muito pequeno para ajudar o Mestre e sentiu-se horrorizado e humilhado. Nem assim, 'Abdu'l-Bahá, que manteve a serenidade, aceitou ceder. Quando finalmente o homem o soltou, 'Abdu'l-Bahá pagou-lhe exatamente o que era devido e disse-lhe que sua conduta o havia privado de uma boa gorjeta que tinha intenção de lhe dar e seguiu andando acompanhado dele e do Pashá.24

Não há dúvida de que esses fatos deixaram uma impressão no caráter do Guardião para o resto de sua vida, que jamais lhe permitiria ser intimidado, nem enganado, nem se importar se isso causava embaraço ou inconvenientes a ele ou àqueles que trabalhavam com ele.

De Beirute, em 8 de maio de 1914, Shoghi Effendi escreveu a um dos secretários do Mestre em Haifa, a quem conhecia bastante, repreendendo-o por não mantê-lo bem informado sobre o que ocorria na Terra Santa: "Transcorreu muito tempo sem que tenha recebido notícias de Haifa e nenhuma palavra tua. Verdadeiramente, jamais pensei que isso aconteceria. Espero que esta escassez de palavras transforme-se em numerosas cartas cheias de boas novas da Terra Santa... Quase terminei o mapa dos Estados Unidos da América. É um mapa muito pitoresco e bonito. Por gentileza envia-me a lista das cidades dos Estados Unidos visitadas pelo Mestre em ordem seqüencial. Assim poderei localizá-las no mapa."25

Dessa forma, aos 17 anos, temos um belo exemplo de sua inclinação pela cartografia. Estas eram suas primeiras incursões na área. Uma atividade que para sempre o acompanharia durante os anos da Guardiania.

Até o último dia de sua vida, Shoghi Effendi costumava anotar a data em que recebia seu jornal The Times de Londres, costume este adquirido, sem dúvida, quando residia na Inglaterra. O Times era provavelmente o melhor jornal em inglês do mundo e o único jornal mencionado por Bahá'u'lláh por seu nome em uma de Suas Epístolas, como assinalou Rúhíyyih Khánum.

Nestas cadernetas de notas, também era registrada pelo Guardião uma numeração detalhada do calendário bahá'í, os princípios básicos da Fé, notas em francês sobre o período dos profetas hebraicos, cálculos solares e lunares, pesos e medidas, cópias de Epístolas e dados que mostram que ele havia aprendido o sistema Abjad de numerologia, assim como diversos outros assuntos. As características essenciais do Guardião já existiam desde sua adolescência.

Shoghi Effendi sempre se mostrou muito ativo em manter correspondência com amigos bahá'ís através de cartas pessoais. Em uma destas, dirigida a Syed Mustafá Roumie, que se encontrava na Birmânia, ele afirmava estar muito feliz pelas "boas novas do rápido progresso da Fé no Extremo Oriente". Nesta carta, datada de 28 de julho de 1914, sabemos que compartilhou as notícias com o Mestre e que "um terno e sagrado sorriso inundou Seu rosto radiante e Seu coração encheu-se de alegria. Recordei então, que o Mestre está bem de saúde porque lembro o que disse e que lhe cito: 'Em qualquer tempo e em qualquer lugar em que escuto as boas novas da Causa minha saúde física progride e melhora.' Portanto te digo que o Mestre sente-Se muito bem e feliz. Transmite esta boa notícia aos crentes da Índia..."26

Animado pelo motivo supremo de servir 'Abdu'l-Bahá e aliviar parte do trabalho e das preocupações que recaíam sobre Seus ombros, em uma carta datada de 15 de janeiro de 1918 que Shoghi Effendi escreveu a Ele quando estava em Beirute, lemos o seguinte:

Tenho recomeçado meus estudos, dedico-me e concentro-me neles ao máximo para adquirir o que me seja de benefício e preparo para servir a Causa nos dias vindouros.27

Registrou Rúhíyyih Khánum: "Parece-me estranho, ao escrever estas linhas, compreender o pouco que Shoghi Effendi mencionava sobre sua vida pessoal; causavam-lhe desagrado as anedotas e não tinha tempo para lembranças quando estas referiam-se a ele mesmo."28

A aspiração maior de sua vida era dedicar-se integralmente ao serviço de 'Abdu'l-Bahá.

Em 1918, Shoghi Effendi recebe seu grau de bacharel em Artes. Em uma carta dirigida a um amigo na Inglaterra, datada de 19 de novembro, escreveu:

Sinto-me tão feliz e privilegiado por poder dedicar-me aos serviços do Bem-Amado depois de concluir meu curso de artes e ciências na Universidade Americana em Beirute. Estou muito ansioso e esperançoso de saber de ti e de seus serviços à Causa e que ao comunicá-los ao Bem-Amado farei com que Ele sinta-Se feliz, alegre e forte. Os quatro últimos anos têm sido de indescritíveis calamidades, de opressão sem precedentes, de inenarrável miséria, de severa fome e dor, de derramamento de sangue e conflitos sem paralelos. Mas agora que a pomba da paz voltou ao seu ninho e morada, surge uma oportunidade dourada para a promulgação da Palavra de Deus. Esta será promovida agora e a Mensagem será entregue sem a mínima restrição nesta região liberada. Esta é, verdadeiramente, a era do serviço.29

O trabalho de 'Abdu'l-Bahá aumentava diariamente à medida que chegavam torrentes de cartas, informações e finalmente os peregrinos a Haifa. Isto se refletia nas correspondências pessoais de Shoghi Effendi:

Tão cheio de atividades e acontecimentos tem sido o dia, que minha cabeça está um turbilhão. Nada menos que umas vinte pessoas, de um príncipe a um soldado raso, tem solicitado entrevistas com 'Abdu'1-Bahá.30

Desde a manhã até o entardecer, incluindo o cair da noite, o Bem-Amado tem estado ocupado ditando Epístolas, enviando Seus instrutivos e dinâmicos pensamentos de amor e unidade a um mundo triste e desiludido.31

E ainda em outra carta ele escreveu: "Enquanto escrevo-te estas linhas, novamente vejo-me necessitando apresentar-me a Ele para anotar Suas palavras em resposta a súplicas que acabaram de chegar."32

Cada palavra refletia a energia, a devoção e o entusiasmo ilimitado deste pequeno príncipe, de pé junto ao idoso rei e servindo-Lhe e apoiando-Lhe com toda a vitalidade de sua juventude e a extraordinária avidez de sua natureza.

Shoghi Effendi sempre queria que toda tarefa fosse feita imediatamente e sem mais demora e tudo que estava sob seu controle pessoal progredia nesse ritmo. Esta era, certamente uma das marcas que ele legaria às futuras legiões de administradores bahá'ís.

Ele sentia uma grande atração pela natureza. Suas descrições do Mestre quando visitava os Santuários duas vezes durante o dia e caminhava pelo terreno florido, refletiam seu júbilo durante esses dias preciosos, junto ao seu Bem-Amado. Mas o fim dessa benção aproximava-se rapidamente para Shoghi Effendi. Estava decidido que agora ele devia ir para a Universidade de Oxford na Inglaterra, com o objetivo declarado de aperfeiçoar seus conhecimentos de inglês, podendo traduzir melhor as Epístolas de 'Abdu'l-Bahá, assim como outros textos sagrados para esse idioma.

Durante esse mesmo período, em carta a amigos da Inglaterra e da Birmânia, Shoghi Effendi dá-nos a notícia surpreendente de que 'Abdu'l-Bahá pretendia realizar outra grande viagem via Oceano Índico para a Índia, Indochina, Japão e as Ilhas do Havaí, e através da América seguiria para Londres, França, Alemanha e Egito.

Portanto não nos deve surpreender que Shoghi Effendi despedira-se de 'Abdu'l-Bahá em algum dia da primavera de 1920 com a consciência tranqüila e acreditando plenamente que voltaria mais preparado para servi-Lo e, sem dúvida, com o coração confiante de que dessa vez com toda certeza acompanharia seu Avô em uma viagem tão maravilhosa, e que teria o privilégio do servi-Lo noite e dia durante muitos anos ainda por vir.

Capítulo 2
O Falecimento de 'Abdu'l-Bahá

Em 29 de novembro de 1921, chegou às 9:30 horas da manhã o telegrama fatídico no escritório de Major Tudor Pole:

SUA SANTIDADE 'ABDU'L-BAHÁ ASCENDEU AO REINO DE ABHÁ. INFORMEM AMIGOS. A FOLHA MAIS SAGRADA.33

Tudor Pole, conforme suas anotações, avisou imediatamente muitos amigos por telegramas, telefonemas e cartas. Ele não desejava dar este golpe pesado a Shoghi Effendi por telefone, então deve ter solicitado a ele que viesse imediatamente a seu escritório. Mais ou menos ao meio-dia Shoghi Effendi chegou a Londres, vindo de Oxford, e dirigiu-se rapidamente a este escritório. No momento em que chegou, Tudor Pole não se encontrava em sua sala, mas no tempo em que ali permaneceu, observou o nome de 'Abdu'l-Bahá em um telegrama aberto que estava em cima da mesa, lendo-o em seguida.

Quando Tudor Pole retornou, encontrou Shoghi Effendi aturdido, desorientado, como se tivesse sofrido um colapso devido a esta catastrófica notícia. Levaram-no, então, à residência da Sra. Grand, uma das bahá'ís de Londres, recostaram-no em uma cama e mantiveram-no em repouso, por alguns dias. Rouhangeze, a irmã de Shoghi Effendi que estudava em Londres, Lady Blomfield e outros, fizeram o que estava a seu alcance para consolar aquele jovem com o coração destroçado.

O Dr. John Esslemont respondeu imediatamente às suas necessidades e quando tomou conhecimento da notícia, seu primeiro pensamento foi para ele, Shoghi Effendi. Em uma carta de 29 de novembro de 1921, ele escreveria:

Mui Querido Shoghi,

Na verdade foi como "um relâmpago lançado do céu" quando recebi o telegrama de Tudor Pole esta manhã: "O Mestre faleceu tranqüilamente em Haifa ontem pela manhã"... Deve ser muito duro para ti, distante de tua família e inclusive longe de todos os amigos bahá'ís. Que irás fazer agora? Suponho que regressarás a Haifa o mais breve possível. No entanto, serás muito benvindo se desejares passar alguns dias aqui... Envia-me um telegrama... e terei um quarto pronto para ti... Sentir-me-ei muito contente se puder ser de alguma ajuda. Bem imagino o quão destroçado deve se sentir teu coração e o quanto deves ansiar por estar em casa, e que terrível vazio deves sentir em tua vida... Cristo estava mais próximo daqueles que Lhe amavam depois de Sua ascensão do que antes dela, e é a minha oração que seja assim com o Bem-Amado e conosco. Devemos fazer nossa parte para assumir as responsabilidades da Causa, e Seu Espírito e Seu Poder estarão conosco e em nós.34

Poucos dias depois, Shoghi Effendi, Lady Blomfield e sua irmã seguiram para Haifa. Em uma carta, infelizmente sem data, a um estudante bahá'í de Londres, escreveu:

Durante alguns dias a terrível notícia tem vencido meu corpo, minha mente e minha alma, a tal ponto que me acamaram por uns dois dias, quase inanimado, com a mente distraída e muito agitado. Gradualmente Seu poder animou-me e infundiu-me uma confiança que, é a minha esperança, haverá de guiar-me e inspirar-me doravante em meu humilde serviço. O dia tinha que vir, mas quão repentino e inesperado foi! Sem dúvida, o fato de Sua Causa ter criado tantas e tão belas almas em todo o mundo é uma garantia segura de que viverá e progredirá, e que em breve haverá abarcado o mundo todo! Imediatamente parto para Haifa a fim de receber as instruções que Ele tenha deixado, e agora tomei a decisão suprema de dedicar minha vida a Seu serviço, e com a Sua ajuda cumprir Suas instruções durante todos os dias de minha vida.

Os amigos têm insistido para que eu fique alguns dias descansando neste lugar com o Dr. Esslemont, depois do golpe que recebi, e amanhã empreenderei o regresso a Londres e dali à Terra Santa.

O movimento que se despertou agora no mundo bahá'í é um ímpeto para esta Causa e despertará toda alma fiel para assumir as responsabilidades que o Mestre legou a cada um de nós.

A Terra Santa continuará sendo o foco central do mundo bahá'í; agora entrará em uma nova era. O Mestre, com Sua grande visão, consolidou Seu labor, e Seu espírito assegura-me que logo manifestar-se-ão seus resultados.

Parto para Haifa na companhia de Lady Blomfield, e se me detenho em Londres devido à minha passagem, irei então ver-te e te contarei quão maravilhosamente o Mestre traçou Seu trabalho após Sua partida e que extraordinárias palavras Ele pronunciou a respeito do futuro da Causa...

Com orações e fé em Sua Causa, sou aquele que te deseja todo o bem em Seu serviço.

Shoghi35

Esta carta foi escrita antes de ter sido divulgado a Última Vontade e Testamento de 'Abdu'l-Bahá.

Devido às dificuldades com seu passaporte, Shoghi Effendi passou um telegrama para Haifa dizendo que não poderia chegar antes do fim do mês. Embarcou da Inglaterra no dia 16 de dezembro acompanhado por Lady Blomfield e por Rouhangeze, chegando de trem a Haifa às 5:30 da tarde de 29 de dezembro de 1921, proveniente do Egito. Muitos amigos foram à estação recebê-lo. Registrou-se na ocasião que ele mostrara-se muito impressionado em sua chegada e que foi preciso ajudá-lo a subir as escadas.

Em casa, a única pessoa que em alguma medida podia aliviar seu sofrimento era a sua amada tia avó, a irmã de 'Abdu'l-Bahá. Tão frágil, tão serena, tão humilde em todos os momentos, e que nas últimas semanas tinha sido uma rocha firme à qual apoiavam-se os crentes em meio à tormenta que se abatera repentinamente sobre eles. A profundidade de sua alma, seus modos, sua posição, haviam-lhe preparado para o papel que desempenhou na Causa e na vida de Shoghi Effendi, neste período muito difícil e perigoso.

Poucos dias depois chegara o doloroso dever de Shoghi Effendi escutar as disposições do Testamento do Mestre. Com o intuito de compreender ainda uma pequena porção do efeito que teve sobre ele, deve ser lembrado que em mais de uma ocasião ele dissera a Rúhíyyih Khánum e também a outros bahá'ís que estavam presentes à mesa da Casa dos Peregrinos do Ocidente, que ele não tivera conhecimento prévio da existência da Instituição da Guardiania e menos ainda que havia sido designado Guardião, e que o máximo que esperava era que na condição de ser o neto mais velho, 'Abdu'l-Bahá poderia ter querido deixar instruções sobre como deveria ser eleita a Casa Universal de Justiça, e que talvez ele tivesse sido designado para supervisionar que tais instruções fossem cumpridas e viesse então a atuar como convocador da reunião na qual se processaria esta eleição.

A ausência do Mestre causara tanto sofrimento e angústia a Shoghi Effendi que em uma carta dirigida nesta época a Sra. Whyte, escreveu: "Muitas vezes passo por momentos de profundo abatimento, de grande tristeza e de agitação, já que aonde quer que eu vá recordo de meu querido Avô, por qualquer coisa que faço sinto a terrível responsabilidade que Ele colocou tão repentinamente sobre meus débeis ombros."

Nesta mesma carta, de 6 de fevereiro de 1922, ele ainda desabafou com sua amiga: "Com quão intensidade sinto a profunda necessidade de que seja efetuada dentro de mim uma regeneração completa, uma poderosa efusão de forca, de confiança, do Espírito Divino em meu espírito anelante, antes que eu me levante para ocupar meu predestinado lugar na vanguarda de um Movimento que sustenta princípios tão gloriosos. Sei que Ele não me deixará só, confio em Sua guia e creio em Sua sabedoria, mas o que anseio é a convicção duradoura e a segurança de que Ele não me faltará. A tarefa é tão avassaladora em sua grandeza, o conhecimento da inadequação de meus esforços e de minha própria pessoa é tão profundo, que não posso senão ceder e desfalecer quando encaro minha tarefa."36

É evidente que esta nobre mulher escreveu cartas tão inspiradoras a Shoghi Effendi que ele disse que ao lê-las "sentiu-se comovido até as lágrimas" e logo exclamava: "Quantas vezes em minha juventude e fraqueza, tenho precisado de tempos em tempos, de um chamado rigoroso, de uma lembrança poderosa, de uma palavra de ânimo e consolo!"44

"...Incumbe a vós cuidar de Shoghi Effendi..."

Foi em meio a essa angústia, essa tortura que lhe tocava as ínfimas profundezas de seu ser que ele, com apenas 24 anos de idade descobrira ser:

"O ramo sagrado e abençoado que brotou das Árvores Sagradas Gêmeas", cuja "sombra abrigaria toda a humanidade", que ele era "o Sinal de Deus, o ramo escolhido, o Guardião da Causa de Deus, a quem todos os Aghsán (ou seja, os descendentes de Bahá'u'lláh), os Afnán (os descendentes do Báb), as Mãos da Causa de Deus e Seus amados deveriam volver-se."37

Anos mais tarde Shoghi Effendi escreveria em seu livro A Presença de Deus, que "a primeira seção do Testamento havia Sido redigida durante um dos períodos mais sombrios do Seu encarceramento na prisão-fortaleza de 'Akká". No texto desta primeira seção foi-lhe conferida a estupenda posição de Guardião, sendo este um segredo zelosamente guardado por seu Avô, que escrevera Seu Testamento por Seu próprio punho e letra, sendo este documento "conservado embaixo da terra durante muito tempo..."

Shoghi Effendi também descobriu que ele era "o intérprete das palavras de Deus", e que quem se opusesse. contendesse, disputasse ou não acreditasse nele, o havia feito com Deus; quem quer que se desviasse, se separasse ou se desligasse dele, o havia feito com Deus, e que o Mestre havia invocado a ira, a feroz indignação e a vingança divina sobre tal pessoa.

Soube, também, que ele era a cabeça permanente, durante sua vida, da Casa Universal de Justiça, e que tanto ele quanto este Corpo receberiam a guia infalível do Báb e de Bahá'u'lláh, e que o que eles decidissem seria de Deus; que quem quer que os desobedecesse, que quem quer que se rebelasse contra eles, estaria desobedecendo e se rebelando contra Deus.

Ele também viu que o Mestre havia se referido a ele com ternura:

O vós, fiéis amados de 'Abdu'l-Bahá! Incumbe-vos cuidar diligentemente de Shoghi Effendi... para que sua natureza radiante não seja manchada pelo pó do desalento, para que dia após dia aumentem sua felicidade, seu júbilo e espiritualidade, e possa vir a ser uma árvore com frutos.38

Escreve Rúhíyyih Khánum que "os crentes aceitaram Shoghi Effendi, mas sua via crucis foi aceitar-se."39

A sensação de abandono, de sua falta de méritos, do apaixonado anseio por seu Avô, durante os primeiros anos da Guardiania, tornou-se ainda mais desconsoladora. Recorda-se que algumas semanas antes do falecimento de 'Abdu'l-Bahá, Ele entrara repentinamente na sala onde se encontrava o pai de Shoghi Effendi e lhe dissera: "telegrafem a Shoghi Effendi para que ele regresse imediatamente."40

"A mãe de Shoghi Effendi," escreve Rúhíyyih Khánum "relatou-nos que quando ouviu isto, consultou com sua mãe e chegaram a conclusão que enviar um telegrama significava dar um susto desnecessário a Shoghi Effendi, decidindo então enviar-lhe por escrito as instruções do Mestre; a carta chegou somente após Seu falecimento. Ela explicou, posteriormente, que como o Mestre estava usufruindo de boa saúde, jamais pensaram que Ele viesse a falecer. Sem dúvida, o motivo era bom, mas muito característico da intromissão familiar em algo que consideravam como um assunto interno, e com uma visão bastante limitada para compreender que 'Abdu'l-Bahá sempre tinha razão e devia sempre ser obedecido. Não há dúvida de que este elemento tragicamente humano causou danos incalculáveis nos tempos de Bahá'u'lláh, de 'Abdu'l-Bahá e de Shoghi Effendi. Impediu, certamente, que Shoghi Effendi visse uma vez mais o seu Avô; e muitas vezes dizia-se que se não tivesse ocorrido dessa forma, o Mestre poderia ter lhe dado alguns conselhos ou instruções especiais, sem mencionar ainda no infinito consolo que lhe significaria ter contemplado o rosto de Seu Avô uma vez mais neste mundo."41

De diversas fontes sabemos que a 3 de janeiro de 1922, pela manhã, Shoghi Effendi visitou o Santuário do Báb e o Sepulcro de seu Avô. Mais tarde, durante este dia, na casa de sua tia mas não em sua presença, foi lido em voz alta a Vontade c Testamento do Mestre, diante de nove homens, em sua maioria membros da família de 'Abdu'l-Bahá, sendo-lhes mostrado seus selos, assinaturas e este documento em sua totalidade. Instruiu-se então que um dos presentes fizesse uma cópia deste documento. Em uma carta escrita pessoalmente por ele, dirigida a um bahá'í antigo, ele declarou:

O Testamento de 'Abdu'l-Bahá foi lido no dia 7 de janeiro de 1922 em Sua casa, na presença de bahá'ís da Pérsia, América, Índia, Egito, Inglaterra, Itália, Alemanha e Japão..."42

Era adequado que a Folha Mais Sagrada e não o próprio Shoghi Effendi anunciasse ao mundo bahá'í as disposições do Testamento do Mestre. A 7 de janeiro ela enviou dois telegramas à Pérsia com o seguinte teor:

FORAM REALIZADAS REUNIÕES COMEMORATIVAS EM TODO O MUNDO. O SENHOR DE TODOS OS MUNDOS REVELOU SUAS INSTRUÇÕES EM SUA VONTADE E TESTAMENTO. SERÁ ENVIADA CÓPIA. INFORMEM AOS CRENTES...43

VONTADE E TESTAMENTO ENVIADO. SHOGHI EFFENDI CENTRO CAUSA.44

É interessante recordar que 'Abdu'l-Bahá, antecipando acontecimentos que Ele previra claramente, havia escrito à Assembléia de Teerã o seguinte, em resposta a uma pergunta que Lhe fora formulada:

Vocês perguntaram em nome de quem devem ser registrados perante o governo as propriedades e os edifícios doados e em nome de quem devem ser feitas as escrituras legais: devem ser registradas em nome de Mírzá Shoghi Rabbaní, que é filho de Mírzá Hadi Shirázi e encontra-se em Londres.45

Naquele ano, ainda persistiam as maquinações malévolas produzidas pelos rompedores do Convênio. Uma situação difícil herdada por Shoghi Effendi após o falecimento do Mestre. A 16 de janeiro o Guardião escreveu sua primeira carta aos bahá'ís persas, animando-os a que se mantivessem firmes e protegessem a Fé e compartilhando com eles em termos comovedores sua dor pelo falecimento do amado Mestre.

A 22 de janeiro, Shoghi Effendi envia um telegrama aos bahá'ís americanos:

FOLHAS SAGRADAS ALENTADAS INQUEBRANTÁVEL LEALDADE E NOBRE RESOLUÇÃO AMERICANOS. DIA DE FIRMEZA. ACEITEM MINHA AFETUOSA COOPERAÇÃO.46

Um dia antes havia-lhes dirigido sua primeira carta que principiava assim: "A esta primeira hora, quando a luz do amanhecer cai sobre a Terra Santa, enquanto a penumbra do falecimento do querido Mestre ainda cobre pesadamente nossos corações, sinto como se minha alma se volvesse com amor e anseio e cheio de esperanças àquela grande companhia de Seus amados de além-mar..."47

Quão terrível foi a notícia do falecimento de seu Bem-Amado em 1921 e que ele em uma carta escrita em fevereiro do 1922 a um primo distante assim expressou: "Ah! Levarei comigo ao túmulo um amargo remorso por não haver estado com Ele durante seus últimos dias nesta terra; não importa o que eu possa fazer por Ele no futuro, não importa até que ponto meus estudos na Inglaterra retribuam Seu maravilhoso amor por mim."48

As primeiras oposições

Pouco depois da ascensão de 'Abdu'l-Bahá, Muhammad Alí, este irritado e pérfido meio-irmão de 'Abdu'l-Bahá, havia dado entrada em uma petição, baseando-se na lei islâmica (ele, que além de tudo ainda queria ter o direito de ser o sucessor de Bahá'u'lláh!), reclamando uma parte dos bens de 'Abdu'l-Bahá, aos quais acreditava ter direito por ser Seu irmão. Este cruel inimigo da Causa de Deus fez vir seu filho que estava na América atuando como seu procurador, para que se unisse a ele neste novo ataque à Fé e direto contra o Mestre e Sua família. Insatisfeito ainda com essa exibição de sua verdadeira natureza, solicitou às autoridades civis que lhes concedessem a custódia do Santuário de Bahá'u'lláh, tendo como fundamento que ele era o legítimo sucessor de 'Abdu'l-Bahá. As autoridades britânicas recusaram-se a atendê-lo, considerando este assunto restrito à esfera religiosa. Ele foi então pedir a intervenção do Muftí de 'Akká, que era a autoridade islâmica na cidade, também não obtendo sucesso.

Nos primeiros capítulos de sua biografia da vida do amado Guardião, Rúhíyyih Khánum escreve:

Vendo fracassar suas ações, enviou seu irmão menor, Badiulláh, com alguns de seus prosélitos, para visitar o Santuário de Bahá'u'lláh e ali, no dia 30 de janeiro, se apoderaram à força das chaves do Santuário Sagrado que estavam nas mãos do zelador bahá'í, afirmando assim o direito de Muhammad Alí ser o zelador legal do lugar de repouso de seu Pai.

Este ato imoral provocou uma comoção tal na comunidade bahá'í que o Governador de 'Akká ordenou que as chaves fossem entregues às autoridades, colocou guardas no Santuário e não fez mais nada, recusando-se a entregar as chaves a qualquer uma das partes.

Não é necessária muita imaginação para antever quão doloroso deve ter sido este golpe no coração de Shoghi Effendi. Esta notícia chegou-lhe ao anoitecer por um mensageiro agitado, em uma ocasião em que todos se encontravam profundamente preocupados com o fato de pela primeira vez em décadas, os Restos Mais Sagrados estarem em poder do inimigo inveterado do Centro do Convênio.49

Nessa época, o assunto que mais preocupava Shoghi Effendi, sem dúvida, continuava sendo o Santuário de Bahá'u'lláh em Bahjí, Israel. As autoridades retinham em seu poder as chaves do interior do Santuário; o direito de acesso a outras partes do Santuário era partilhado por igual entre os bahá'ís e os rompedores do Convênio; o zelador bahá'í cuidava dele como de costume e parecia estar pendente qualquer decisão.

Shoghi Effendi não descansou um segundo sequer até que, diante das declarações prestadas às autoridades, respaldadas pela pressão insistente de bahá'ís de todas as partes do mundo, conseguiu recuperar a custódia do Sepulcro Sagrado.

Em 7 de fevereiro de 1923 ele escreve a Tudor Pole: "Tenho mantido uma ampla conversa com o Coronel Symes e tenho-lhe explicado detalhadamente o estado exato da situação e a voz inequívoca e esclarecedora de toda a Comunidade Bahá'í e sua inquebrantável decisão de permanecer firme na Vontade e Testamento de 'Abdu'l-Bahá. Recentemente enviei uma mensagem a Muhammad 'Alí, com um requerimento da soma de 108 libras esterlinas, por gastos com a policia, alegando que por ter sido ele o agressor, estava obrigado a quitar estas despesas. Até o momento ele não havia cumprido estas exigências e aguardo os acontecimentos com profunda ansiedade."50

No dia seguinte, Shoghi Effendi recebeu este telegrama de seu primo, que se encontrava em Jerusalém:

SUA EMINÊNCIA SHOGHI EFFENDI RABBANI, HAIFA. CARTA RECEBIDA; PASSOS IMEDIATOS TOMADOS; A DECISÃO FINAL DO ALTO COMISSARIADO É A NOSSO FAVOR; A CHAVE É SUA.68

E é assim que, devido a seus contatos, as autoridades decidiram-se em favor do Guardião e a chave foi oficialmente devo1vida ao legítimo responsável pelo Santuário, de quem havia sido retirada à força há mais de um ano.

Mesmo quando estava assegurada definitivamente a guarda do Qiblih, o ponto de adoração do mundo bahá'í, a casa que Bahá'u'lláh havia ocupado em Bagdá encontrava-se ainda nas mãos dos inimigos xiitas da Fé. A batalha para recuperar a custódia bahá'í seria motivo de preocupação e ansiedade para Effendi durante muitos anos.

Muitos eram os golpes assacados contra Shoghi Effendi, por inimigos da Causa que agora se sentiam encorajados pelo falecimento do Mestre. As autoridades locais referiam-se a ele como "o rapaz".51

Apesar ainda de sua extrema juventude, o imberbe estudante de Oxford, não importa quão digno fosse seu porte, recusava-se inclusive a pretender parecer-se com o idoso patriarca que todos tão bem conheciam como uma das características de Haifa - muito amado ou muito odiado, conforme o caso - mas, sempre respeitado como sua personagem mais destacada. Shoghi Effendi recusou-se a usar turbante e as amplas túnicas orientais que sempre haviam sido usadas pelo Mestre; recusou-se a ir à Mesquita às sextas-feiras, que constituía uma prática habitual de 'Abdu'l-Bahá, dentre outros procedimentos que Lhe eram peculiares.

Nesse contexto conturbado de tensões insuportáveis, Shoghi Effendi nomeou um corpo de 9 pessoas para que atuasse como uma Assembléia e, no dia 7 de abril de 1922, este corpo anota em suas atas que havia recebido uma carta da Folha Mais Sagrada na qual ela declara que "o Guardião da Causa de Deus, o Ramo escolhido, o Chefe do povo de Bahá, Shoghi Effendi, sob o peso de tristezas e sofrimentos ilimitados, viu-se obrigado a sair daqui por algum tempo, com o intuito de descansar e restabelecer-se, e logo poder retornar à Terra Santa para render seus serviços c cumprir com suas responsabilidades".52

Capítulo 3
Bahíyyih Khánum, uma Fortaleza de Amor

Bahíyyih Khánum, a Folha Mais Sagrada, era o seu amparo e a sua segurança em seus momentos difíceis. Nos momentos de solidão era nela que ele ia a busca de forças e sempre voltava revigorado.

Nunca é demais recordar a qualidade do amor da Folha Mais Sagrada pelo amado Guardião da Causa de Deus. Em uma carta escrita em 24 de agosto de 1924 ela declara:

O amado Guardião da Causa está gozando de boa saúde e através dos magníficos esforços que os amigos estão realizando em todos os países, para fortalecer e aumentar os laços de unidade e amor de uns pelos outros, sua dor tem sido aliviada e por isso temos grande esperança de que, dentro em breve ele regressará a Terra Santa. Aqui reassumirá seu contato pessoal com os amigos de todo o mundo e lhes inspirará com sua guia para uma atividade ainda maior.53

Os últimos anos de sua vida foram de total entrega a seu amado Shoghi Effendi!

Em 1929 ele, referindo-se à sua tia-avó, havia escrito que "agora no entardecer de sua vida com sombras cada vez mais profundas reunindo-se rapidamente à sua volta, causadas pela deficiência de sua vista e diminuição de suas forças", os bahá'ís norte-americanos deveriam seguir avante com a construção da cúpula de "nosso amado Templo".

Em Interlaken (Suíça), Shoghi Effendi recebe a notícia do falecimento de Bahiyyih Khánum a Folha Mais Sagrada. Ela faleceu em Haifa, em 15 de julho de 1932.

Em março daquele ano, estimula os bahá'ís norte-americanos a continuarem seus esforços para a construção de "nosso amado Templo".

Na ocasião ele escreveu: "Minha voz sente-se reforçada uma vez mais pelo que pode vir a ser a última e apaixonada súplica da Folha Mais Sagrada, cujo espírito, que agora revolve sobre as fronteiras do Grande Além, anseia por levar em seu vôo ao Reino de Abhá uma segurança da feliz consumação de um empreendimento cujo progresso tem alegrado enormemente seus últimos dias terrenos."54

A 15 de julho daquele ano, ele escreve à América, informando de seu falecimento e lamentando em tom de confidência "o repentino desaparecimento de meu único apoio terreno, a alegria e o consolo de minha vida" e instruindo que de imediato informe os amigos que "uma perda tão dolorosa torna necessário suspender por nove meses, em todo o mundo bahá'í, todo tipo de festividade religiosa".55

Dois dias depois desta mensagem, em termos comovedores, permeados de ternura e genuíno amor, Shoghi Effendi presta um elogio escrito da vida, da posição e das realizações da bem-amada irmã de 'Abdu'l-Bahá:

Mui querida Folha Mais Sagrada! Através da névoa das lágrimas que enchem meus olhos posso ver claramente tua nobre figura diante de mim, enquanto escrevo estas linhas, e posso reconhecer a serenidade de teu bondoso rosto. Mesmo quando nos separa a sombra do sepulcro, ainda assim posso contemplar teus olhos azuis, de profundo amor, e posso sentir, em sua tranqüila intensidade, o imenso amor que tinhas pela Causa de teu Pai Todo-Poderoso, o apego que te conectou ao mais humilde e insignificante dentre seus seguidores, o cálido afeto que nutrias por mim em teu coração. A lembrança da beleza inefável de teu sorriso sempre continuará alegrando-me e estimulando-me na senda cheia de espinhos que é meu destino seguir. A recordação do toque de tua mão me incitará a seguir firmemente em tua senda. A doce magia de tua voz me recordará, quando a hora da adversidade estiver em seu ponto mais negro, para que me segure na corda que mantiveste com tanta firmeza em todos os dias de tua vida. Leva esta minha mensagem a 'Abdu'1-Bahá, teu exaltado e divinamente designado Irmão:

Se a Causa pela qual Bahá'u'lláh lutou e trabalhou, pela qual Tu sofreste anos de penosa agonia, por cujo motivo fluíram torrentes de sangue sagrado, fosse encontrar-se em dias vindouros envolta em tempestades mais violentas do que aquelas que já tenho suportado, segue Tu dando sombra com Teu cuidado e sabedoria que a tudo abarca, a criança frágil e indigna que Tu designaste. Intercede, ó nobre e bem favorecida vergôntea de um Pai Celestial, por mim e não menos pelas massas laboriosas de Teus ardentes amantes, que tem jurado aliança imperecível em Tua memória, cujas almas têm sido nutridas com as energias de Teu amor, cuja conduta tem sido amoldada pelo inspirador exemplo de Tua vida..."56

Rúhíyyih Khánum cita um acontecimento que ela e sua mãe, May Maxwell, testemunharam em 1923. Em uma reunião, um crente oriental, repentinamente emocionado, jogou-se aos pés de Shoghi Effendi. O barulho de tal gesto chamou a atenção de todos. Neste momento exato, Bahiyyih Khánum pôs-se de pé em um salto, com um grito, tão frágil e franzino, temendo que algo houvesse acontecido com o Guardião. Somente acalmou-Se quando informaram-Lhe que não houvera nada sério. "Esta cena", escreve Rúhíyyih Khánum "gravou-se para sempre em minha memória."57

O anel de ouro que o amado Guardião usava, no qual estava gravado o Máximo Nome, havia sido um presente da Folha Mais Sagrada muitos anos antes, e este mesmo anel Shoghi Effendi presenteou a Rúhíyyih Khánum no dia em que lhe disse que a havia escolhido para ser sua esposa.

Sem dúvida, segundo os relatos daqueles que conviveram com o amado Guardião naqueles anos, o amor que ele dedicava a Bahiyyih Khánum era incomparavelmente superior a qualquer sentimento dedicado aos que privavam de sua convivência.

Capítulo 4
A Carta Magna da Ordem Administrativa Bahá'í

Em um portentoso tributo que fluíra da pena de Shoghi Effendi e registrado em seu livro, A Presença de Deus, ele assim destaca a importância da Ultima Vontade e Testamento de 'Abdu'l-Bahá: "a Carta que deu origem a essa Ordem Administrativa, definindo-lhe os contornos e pondo em movimento os seus processos, não é outra senão o Testamento de 'Abdu'l-Bahá"58 e destaca que este Documento é:

* o Seu major legado à posteridade,
* a mais brilhante emanação de Sua mente,

* o mais poderoso instrumento forjado para assegurar a continuidade das três épocas que constituem as partes componentes da Revelação de Seu Pai.59

A Última Vontade e Testamento de 'Abdu'l-Bahá é também nas escrituras do amado Guardião como sendo: "a de uma futura civilização mundial e que pode ser considerada em alguns aspectos o suplemento de um Livro tão importante quanto o Kitáb-i-Aqdas - que foi assinado e lacrado por 'Abdu'l-Bahá e inteiramente escrito de Seu próprio punho, cuja primeira parte foi redigida durante um dos mais tenebrosos períodos de Seu encarceramento na fortaleza-presídio de 'Akká..."60 Dentre os diversos temas abordados, "estabelece a Instituição da Guardiania como um cargo hereditário e esboça-lhe as funções essenciais."61

Redigido em três partes distintas, porém, inseparáveis, este Documento contém 54 parágrafos, 9 dos quais refere-se especificamente a Shoghi Effendi. A seguir, destacamos os mencionados parágrafos:

Primeira parte, § 2º.

Saudações e louvor, bênção e glória, cubram aquele ramo primaz do Loto Sagrado e Divino, que brotou abençoado, tenro, verdejante e florescente, das Santas Árvores Gêmeas, a mais maravilhosa pérola inestimável e sem igual, que cintila dos encapelados mares Gêmeos.

...

...ele é o ramo abençoado, sagrado, que brotou das Santas Árvores Gêmeas. Bem-aventurado quem procurar abrigar-se à sua sombra, que ampara a toda a humanidade.

...
§ 17º.

Ó meus amados amigos: após o desaparecimento deste injuriado, deverão os Aghsán (Ramos), os Afnán (Brotos) do Sagrado Lótus, as Mãos (Pilares) da Causa de Deus, os amados da Beleza de Abhá, dirigir-se a Shoghi Effendi, o jovem ramo que brotou dos dois Sagrados Lótus, o fruto da união dos Dois rebentos da Árvore da Santidade - pois ele é o sinal de Deus, o ramo escolhido, guardião da Causa de Deus, aquele a quem devem dirigir-se todos os Aghsán, Afnán, Mãos da Causa de Deus e Seus amados. É o expositor das palavras de Deus, e a ele sucederão os primogênitos de seus descendentes diretos.

§ 18º.

O sagrado e jovem ramo, o guardião da Causa de Deus, como também a Casa Universal de Justiça, a ser eleita e estabelecida universalmente, estão ambos sob o amparo e a proteção da Beleza de Abhá, sendo abrigados e guiados infalivelmente pela Sua Santidade, o Excelso, seja minha vida sacrificada por ambos! Qualquer coisa que eles decidam, provem de Deus. Quem a ele não obedecer, nem a eles, não estará obedecendo a Deus; quem se revoltar contra ele e contra eles, se terá revoltado contra Deus; quem se lhe opuser terá feito oposição a Deus; quem com eles contender, terá contendido com Deus; qualquer um que dispute com ele, disputa com Deus; qualquer um que o negue, terá negado a Deus; quem nele não acreditar, deixa de crer em Deus; quem se desviar, separar e afastar dele, terá, em verdade, se desviado, separado e afastado de Deus. Que a ira, a violenta indignação, vingança de Deus, caiam sobre tal homem! A poderosíssima fortaleza há de conservar-se segura e inexpugnável, através da obediência àquele que é o guardião da Causa de Deus. Incumbe à Casa de Justiça, a todos os membros dos Aghsán, Afnán, Mãos da Causa de Deus, mostrarem sua obediência, submissão e subordinação ao guardião da Causa de Deus, dirigir-se a ele, e ser humildes em sua presença. Aquele que se lhe opuser, terá feito oposição ao Verdadeiro, e criará cisma na Causa de Deus, subverterá Sua Palavra, e tomar-se-á uma manifestação do Centro de Sedição.

...

É meu objetivo demonstrar que as Mãos da Causa de Deus devem estar sempre vigilantes, e logo que descubram estar alguém começando a opor-se e a clamar contra o guardião da Causa de Deus, devem expulsá-lo da comunidade de Bahá, e de modo algum aceitar qualquer desculpa.

...
§ 19º.

Ó vós, amados do Senhor! Cumpre ao guardião da Causa de Deus designar durante a sua vida quem deve ser seu sucessor, para que não surjam divergências após seu passamento. O designado deve manifestar em seu caráter desprendimento de todas as coisas deste mundo, deve ser a essência da pureza e dar provas de possuir temor a Deus, conhecimentos, sabedoria e erudição. Se, portanto, o primogênito do guardião da Causa de Deus não manifestar em sua pessoa a verdade das palavras: "A criança é da essência secreta do pai", isto é, se não herdar da espiritualidade inerente (ao guardião da Causa de Deus), não correspondendo à sua gloriosa linhagem com um caráter digno, então ele (o guardião da Causa de Deus) deverá escolher outro ramo para ser seu sucessor.

...
§ 21º.

Ó amigos! As Mãos da Causa de Deus devem ser nomeadas e apontadas pelo guardião da Causa de Deus. Todas devem estar à sua sombra e obedecer a seu imperativo. Se alguém, dentro ou fora do grupo das Mãos da Causa de Deus, desobedecer e tentar causar divisão, cairão sobre tal pessoa a ira e vingança de Deus, pois terá motivado cisma na verdadeira Fé Divina.

...
§ 23º.

Esse corpo das Mãos da Causa de Deus está sob a direção do guardião da Causa de Deus. Ele deve continuamente exortá-las a esforçar-se o mais que lhes for possível para difundir as fragrâncias divinas e guiar a todos os povos do mundo.

SHOGHI EFFENDI
Uma foto de seus tempos de colégio.
Shoghi Effendi e Bahiyyih Khánum

Uma foto provavelmente de 1919, antes de Shoghi Effendi continuar seus estudos na Inglaterra.

...
§ 26º.

Esta Casa (a Casa Universal de Justiça) fará todas as leis e todos os regulamentos que não foram previstos explicitamente no Texto Sagrado. Resolverá todos os problemas difíceis, e o guardião da Causa de Deus será seu sagrado chefe e distinto membro perpétuo. Caso não presencie pessoalmente as deliberações, ele deve nomear alguém para representá-lo. Se qualquer membro cometer um erro prejudicial ao bem comum, deverá ficar ao critério do guardião da Causa de Deus a expulsão desse membro, para cujo lugar, nesse caso, as pessoas elegerão outro.

...
Terceira parte, § 11º.

Ó vós, fiéis amados de 'Abdu'l-Bahá! Incumbe-vos tomar cuidado por Shoghi Effendi, o broto e fruto dos dois sagrados e divinos Lótus, para que o pó do desânimo e tristeza não lhe macule a natureza radiante, mas sim, dia a dia aumentem-lhe o contentamento, o júbilo e a espiritualidade, e assim ele cresça e se torne uma árvore frutífera.

...
O último parágrafo.

Pois ele é, após 'Abdu'l-Bahá, o guardião da Causa de Deus, e os Afnán, as Mãos (pilares) da Causa e os amados do Senhor devem obedecer-lhe e a ele se dirigir. Quem não lhe obedecer, terá deixado de obedecer a Deus; quem dele se afastar, ter-se-á afastado de Deus; e qualquer um que o negue estará negando ao Verdadeiro. Acautelai-vos para que ninguém interprete erroneamente essas palavras e - do mesmo modo que aqueles que romperam o Convênio depois do Dia da Ascensão (de Bahá'u'lláh) - dê um pretexto, levante o estandarte da revolta, torne-se obstinado e abra amplamente a porta da falsa interpretação. A ninguém é concedido o direito de difundir sua própria opinião ou expressar suas convicções particulares. Todos devem dirigir-se ao Centro da Causa e à Casa de Justiça, para que sejam guiados. E quem se volver para qualquer outra coisa terá, em verdade, cometido um erro lastimável.

Esteja sobre vós a Glória das Glórias!
Capítulo 5
Os Primeiros Anos de Guardiania

São anos de dor e intenso sofrimento. Seu coração sentia a falta da ternura de seu bem-amado Avô. Desde o início de sua vida, estivera sob a influência daquele que era a "personificação de cada virtude bahá'í".

Foram anos também em que o próprio Shoghi Effendi debatia-Se com sentimentos de "remorso por não ter estado com o Mestre" em Seus últimos dias de vida.

Para os bahá'ís que trabalhavam no Centro Mundial, em (Israel), pelo menos durante este período, não havia um dia especial para descanso.

A sua confiança nas palavras de 'Abdu'l-Bahá constituía a conexão que lhe levaria a tomar as primeiras decisões.

Nesses primeiros anos, não apenas sentiu maior aflição mas também foi mais severo consigo mesmo e com os que o acompanhavam. Fixava uma quantia muito modesta para o seu descanso no verão e não importava se aumentava as pessoas que estavam consigo, esta mesma quantia deveria ser suficiente. Se havia mais pessoas, a economia deveria ser ainda maior. Nunca viajou a não ser de terceira classe, mesmo quando já era um homem de meia-idade. Rúhíyyih Khánum recorda "de muito poucas vezes nas quais íamos a algum lugar de trem na primeira ou segunda classe e, mesmo assim, isso só ocorria quando o trem estava muito sujo ou lotado, tornando impossível a viagem na terceira classe. Se viajava de noite ele dormia nos bancos duros de madeira, com a cabeça repousando sobre sua mochila, o que era muito mais do que podiam suportar seus acompanhantes".

Tinha duas normas: uma era para Si mesmo como Representante da Fé, identificado ante o público como tal e com a honra da Causa que era sinônimo de sua honra; a outra era como indivíduo, incógnito, já que não era requerida uma apresentação pessoal sob outra forma que não a de um homem meticuloso e naturalmente modesto, que se mostrava renitente em gastar em luxos os fundos que sua elevada posição colocava à sua disposição. Não tinha que prestar contas a ninguém no mundo, nenhum bahá'í na terra questionaria o que ele fizesse.

À medida que avançava em idade e o peso que levava desgastava-lhe cada vez mais, segundo afirma Rúhíyyih Khánum, ela tratou de pressioná-lo ao grau máximo, para que fosse um pouco menos duro consigo mesmo, um pouco menos exigente, para que ao menos aceitasse as modestas comodidades de um hotel confortável, que periodicamente se preocupasse com a sua saúde, que ocupasse um quarto com banheiro, que se alimentasse com alimentos mais nutritivos e de melhor qualidade, já que só comia uma vez durante o dia.62

Ele somente aceitou esta pequena mudança graças a Amélia Collins, devido ao grande amor que nutria por ela, que se acostumou a oferecer-lhe uma soma de dinheiro antes de iniciar suas férias, rogando-lhe que o utilizasse consigo mesmo, e em qualquer coisa que lhe aprouvesse. Rúhíyyih Khánum escreve: "Foi somente depois de súplicas veementes de minha parte no sentido de que ele devia aceitar o que ela lhe dava com tão terno amor e preocupação com ele, que deveria usar uma pequena parte consigo mesmo; o resto gastou adquirindo coisas para os Jardins, os Lugares Sagrados e os Arquivos; isto lhe dava verdadeiro prazer e assim era cumprida de uma ou de outra maneira a intenção de Milly."63

Shoghi Effendi contou a Rúhíyyih Khánum que em um destes verões, no início da Guardiania, "adquiriu uma bicicleta e passou por muitos lugares andando nela. Ele tinha pouco apego pelas máquinas e era tipicamente um intelectual", escreveria depois sua esposa, Rúhíyyih Khánum.

Apesar desse seu retiro, que constituiu sua primeira ausência da Terra Santa, as forças que Shoghi Effendi havia colocado em ação estavam frutificando. Um dos peregrinos que vinha da Terra Santa informou a Convenção Bahá'í Americana, em abril de 1922, que:

"...nossa visita foi a pedido de Shoghi Effendi. Em Haifa, conhecemos bahá'ís da Pérsia, Índia, Birmânia, Egito, Itália, Inglaterra e da França. Quando cheguei senti com força a impressão de que Deus está no céu e que tudo vai indo bem no mundo... Conhecemos Shoghi Effendi, vestido com roupas escuras, uma figura comovente. Pensem vocês o que ele representa hoje! Todos os complexos problemas dos grandes estadistas do globo são como jogos de crianças se comparados aos grandes problemas deste jovem, ante quem encontra os problemas do mundo inteiro... Ninguém pode ter uma idéia das dificuldades que ele enfrenta... O Mestre não se foi. Seu espírito está presente com maior intensidade e poder... No centro dessa irradiação encontra-se o jovem Shoghi Effendi. O Espírito flui deste jovem. Na verdade ele é jovem no rosto, forma e atitudes, porém seu coração, caráter e espírito são divinos. Somente ele pode salvar o mundo e construir uma verdadeira civilização. É tão humilde, modesto e desprendido que é comovente observá-lo. Suas cartas são uma maravilha. É uma grande sabedoria de Deus conceder-nos esse grande ponto central de guia para enfrentarmos problemas difíceis. Estes problemas que se parecem com os nossos, chegam-lhe de todas as partes do mundo. Ele os enfrenta e os resolve da maneira mais informal..."64

O seu senso de responsabilidade, uma missão divina colocada sobre seus jovens ombros, era de todo surpreendente. Pouco tempo usava para descansar. Era como alguém sempre pronto para dar a largada em um novo projeto que trouxesse crescente glória ao avanço da Causa.

Certa ocasião Shoghi Effendi havia se retirado para dormir às 3 horas da madrugada e já estava em pé às 6, e em outra ocasião trabalhou durante 48 horas sem comer e sem beber.

Shoghi Effendi regressou a Haifa na tarde de 15 de dezembro de 1922, relata o noticioso bahá'í Star of the West: "com saúde e felicidade radiantes e reassumiu as rédeas de seu cargo de Guardião da Causa Bahá'í que lhe fora designado na Vontade e Testamento de 'Abdu'l-Bahá..."65

As cartas e telegramas dele bem refletem este novo estado de espírito. Dois dias após sua chegada, ele escrevia aos bahá'ís da Alemanha: "O fato de eu não ter podido manter estreito contato com os amigos, devido às circunstâncias dolorosas sobre as quais não tinha nenhum controle... é para mim motivo de grande tristeza e de profundo e amargo remorso..." mas logo em seguida continua dizendo "agora regressei a Terra Santa com renovado vigor e com o espírito refrescado..."66

"O Guardião apenas preocupa-se com o bem-estar da Fé..."

Tão logo os bahá'ís souberam que o Guardião havia retornado a Terra Santa, inundaram-no com cartas de todas as partes do mundo. Isto fez com que Shoghi Effendi avaliasse essa nova situação e assim, de forma clara, colocou o problema nesta carta dirigida a um primo distante:

"Um de meus problemas mais urgentes é o da correspondência individual. Imitar o Mestre seria presunçoso de minha parte e considerando a rápida expansão do Movimento, não é algo factível. Estou certo de que você compreenderá que manter correspondência pessoal com alguns e não escrever para outros dará lugar a ciúmes, desalento e mesmo desunião, já que você sabe muito bem quão grande é o número dos que esperam muito e fazem pouco. Eliminar por completo a correspondência individual e confiar em mensagens escritas de formas indiretas, redigidas por meus ajudantes e colaboradores, mesmo que eu dedique meu tempo à correspondência direta das Assembléias de todo o mundo, é igualmente um problema difícil. Certamente que considerarei valiosas tuas considerações sobre este assunto espinhoso. Esta última opção tem a objeção evidente de que corta por completo toda relação pessoal com os amigos individualmente."67

Durante 36 anos este problema de como achar tempo para atender sua correspondência foi motivo de preocupação para o Guardião. Finalmente resolveu não deixar de responder individuais, especialmente do Ocidente e daqueles países onde existiam novos bahá'ís, já que ele descobriu, por dolorosa experiência, que as Assembléias bahá'ís espalhadas pelo mundo não eram suficientemente sábias na forma de tratar os seres humanos de maneira que curassem suas feridas e os mantivessem ativos na Fé.

Ocorre que esta correspondência individual não era bem vista em todos os casos pela Instituição Nacional que, ao tomar conhecimento de uma notícia importante, sentia que ela deveria ser o filtro oficial de onde a notícia fluiria.

Em uma carta de 1941, escrita em nome do Guardião a uma Assembléia Nacional, assim ele apresentou seu posicionamento em assuntos desta natureza:

Shoghi Effendi tem declarado reiteradamente aos crentes de todas as partes do mundo que os bahá'ís estão inteiramente livres para escrever a ele sobre qualquer assunto que desejem; é natural que ele se sinta igualmente livre para responder da forma que deseje. No momento atual, quando as instituições da Causa recém começam a funcionar, ele considera que é essencial manter esta volumosa correspondência, por muito que isso se some a seus múltiplos deveres restantes. Acontece que às vezes, a primeira indicação que recebe sobre algum passo importante que tem influência sobre os interesses da Causa, seja de uma ou de outra forma, provêm de uma carta pessoal ao invés de uma Assembléia; naturalmente seria preferível que a informação proviesse de um corpo administrativo, mas não importa qual seja sua procedência, o Guardião somente preocupa-se com o bem-estar da Fé, e quando ele estima que certa medida é prejudicial, dá a conhecer seu ponto de vista na resposta. Ele está completamente livre para assim proceder.68

Dentre tantas atribuições e pesadas responsabilidades, ainda assim, as cargas que realmente superavam sua resistência eram as atividades dos rompedores do Convênio.

Em janeiro de 1923, escreveu a Husayn Afnán: "Pelas experiências passadas, presumo que você compreendeu que sou partidário da mais completa sinceridade, de uma justiça escrupulosa em todos os assuntos relacionados com a Causa e de uma atitude descompromissada referente aos inimigos do Movimento, os nakazeus (expressão utilizada nas escrituras bahá'ís para designar os rompedores do Convênio) cujos esforços vis e incessantes somente poderão ser frustrados por Deus."69

A pessoa a quem Shoghi Effendi escreveu esta carta era um dos netos de Bahá'u'lláh e sobrinho de 'Abdu'l-Bahá e chegou a ser ele mesmo um notório violador do Convênio pouco tempo depois; três de seus irmãos casaram-se com três netas do Mestre - duas delas, irmãs do Guardião - e com ele teceram uma trama tão emaranhada de sentimento familiar, deslealdade e ódio, que ao fim toda a família de 'Abdu'l-Bahá se viu implicada e assim Shoghi Effendi perdeu todos os seus parentes.

Vemos aqui, brilhando no jovem Guardião, a visão do estadista, a grande sombra Protetora da Fé e o Defensor dos Fiéis, quem 'Abdu'l-Bahá havia legado a Seus seguidores como Sua maior dádiva, Seu bem mais entesourado.

"Façamos com que a Causa seja a paixão dominante de nossas vidas..."

Nas cartas desses primeiros anos Shoghi Effendi menciona repetidas vezes a necessidade de "levantar-se para oferecer seus serviços a este mundo desatento e sofredor". Em uma carta a um dos amigos, escreveu: "Chegou o momento para que os amigos... pensem não como vão servir a Causa mas como a Causa deve ser servida."70 Bem poderíamos seguir meditando sobre estas palavras até os dias atuais. Quais são suas necessidades, qual é a sua direção e quais são suas metas? Em dezembro de 1923, ele escreveu a uma das Assembléias:

A inescrutável sabedoria de Deus decretou que nós, aqueles eleitos como os portadores da Maior Mensagem do mundo para a humanidade enferma, devemos trabalhar e promover nosso labor sob as condições de vida mais exasperantes, em um ambiente adverso e marcado por provas sem precedentes, e sem recursos, influência ou apoio, alcançar de forma contínua e gradual a conquista e regeneração dos corações humanos.71

Não importa quão grande possam ser nossas tribulações, quão inesperadas as misérias da vida, tenhamos sempre presente a vida que Ele, o Mestre, viveu antes de nós e, inspirados e agradecidos, conduzamos nossa carga com constância e firmeza, para que no mundo vindouro, na divina presença de nosso amante Consolador, possamos receber Seu verdadeiro consolo e recompensa por nossas obras.72

Qualquer coisa que nos possa acontecer, e não importa quão obscura possam parecer as perspectivas futuras, se somente cumprirmos com nossa parte poderemos descansar confiantes de que a Mão do Invisível está trabalhando, configurando e modelando os acontecimentos e circunstâncias do mundo, e preparando o caminho para que finalmente realizem-se nossos objetivos e esperanças para a humanidade.73

Nosso dever primordial é criar, mediante nossas palavras e ações, nossa conduta e nosso exemplo, a atmosfera que torna possível que as sementes das palavras de Bahá'u'lláh e de 'Abdu'l-Bahá, semeadas tão profusamente durante quase oitenta anos, possam germinar e produzir aqueles frutos que são únicos, que assegurem a paz e a prosperidade a este mundo transtornado.74

Levantemo-nos para ensinar Sua Causa com retidão, convicção, compreensão e vigor... façamos com que seja a paixão dominante de nossas vidas. Dispersemo-nos para os rincões mais afastados da terra, sacrifiquemos nossos interesses pessoais, nosso conforto, nossos gostos e prazeres, mesclemo-nos com as diversas raças e povos do mundo, familiarizemo-nos com seus modos, tradições, pensamentos e costumes.75

Já em janeiro de 1922, em uma de suas primeiras cartas aos crentes americanos, ele havia declarado: "É estritamente proibido aos amigos de Deus, em todas as partes do mundo, interferir em assuntos políticos."76 Utiliza a palavra pioneiro em suas primeiras cartas e, em 1925, anexa uma lista de localidades bahá'ís em todo o mundo.

Shoghi Effendi foi igualmente claro ao definir a relação que desejava que os bahá'ís tivessem com ele e de que forma deveria ser considerado. A 6 de fevereiro de 1922, escreveu a um dos bahá'ís persas:

Quero que me conheçam, quero ver-me a mim mesmo, não importa que feito possa alcançar no futuro, como um e somente um dos numerosos trabalhadores em Sua Vinha... Não importa o que ocorra, confio em Seu (de 'Abdu'l-Bahá) maravilhoso amor por mim. Oxalá que eu não impeça através de minhas ações, pensamentos ou palavras, a torrente de Seu Espírito sustentador, que tanto necessito para enfrentar as responsabilidades que Ele colocou sobre meus jovens ombros...77

A 5 de março do mesmo ano, escreveu a seguinte nota em uma carta dirigida aos amigos americanos:

Permita-me expressar, também de todo coração, meu desejo de que os amigos de Deus em todos os países não me considerem sob nenhuma outra luz que não a de um verdadeiro irmão, unido a eles em nosso serviço comum no Sagrado Limiar do Mestre e que se refiram a mim em suas cartas e verbalmente sempre como Shoghi Effendi, porque não desejo ser conhecido por nenhum outro nome, exceto o que ouvia pronunciar nosso Bem-Amado Mestre, um nome que, descartada qualquer outra designação, é o que melhor conduz a meu crescimento e progresso espirituais.78

Em 1924 enviou um telegrama à Índia, no qual dizia, de forma clara e inequívoca:

MEU ANIVERSÁRIO NÃO DEVE SER COMEMORADO.79

Em 1930, sua secretária escreveu em seu nome o seguinte:

No que se refere à posição de Shoghi Effendi: não ha dúvida de que ele não tem nenhuma outra salvo a que o Mestre lhe confere em Seu Testamento e este Testamento declara também a posição de Shoghi Effendi. Se alguém interpreta mal uma parte do Testamento interpreta mal o Testamento inteiro.80

Em sua carta geral conhecida como A Dispensação de Bahá'u'lláh, deixou claro, de uma vez e definitivamente, sua própria posição, dissociando-se categoricamente das prerrogativas e posição que Bahá'u'lláh havia conferido a 'Abdu'l-Bahá:

À luz desta verdade, orar ao Guardião da Fé, dirigir-se a ele como senhor e mestre, designá-lo como Sua Santidade, buscar sua bênção, celebrar seu aniversário ou comemorar qualquer acontecimento relacionado com a sua vida, equivaleria a afastar-se daquelas verdades estabelecidas que estão guardadas em nossa amada Fé.81

Em 1945, sua secretária escreveu em seu nome:

...(Shoghi Effendi) nunca tem chegado ao extremo de proibir que os amigos possuam fotografias suas: simplesmente ele deseja que dêem a ênfase ao amado Mestre.82

Capítulo 6
Aspectos da Personalidade
de Shoghi Effendi

Escreveu Rúhíyyih Khánum, referindo-se a Shoghi Effendi, que "ele tinha uma voz indescritível e cheia, nem muito aguda nem muito baixa, clara, de um ritmo muito bonito ao falar, seja em inglês ou em persa, e se tornava ainda mais bela quando entoava em árabe ou em persa. Para mim sempre tinha aquele tom de lamento de uma pomba solitária que arrulha sobre o ramo de uma árvore. Era estranha a diferença de sua voz quando, após ter estado no Santuário do Báb, entrava no Santuário do Mestre e recitava ali, aquela oração de 'Abdu'l-Bahá... 'Humilde e em lágrimas, levanto minhas mãos suplicantes...' Sentia-se então na voz do Guardião uma ternura e uma ânsia que não se podiam ouvir em nenhum outro lugar, esta diferença nunca deixava de existir, nunca mudava e sempre era perceptível".

Ele era, basicamente, uma pessoa de coração muito terno e quando estava em paz consigo mesmo, expressava esta bondade e ternura inatas não só para aqueles próximos de si, mas também aos crentes, de diversas maneiras.

A força do Convênio tomou de empréstimo sua jovem vida, modificando profundamente o seu destino. Rúhíyyih Khánum recorda-se de tê-lo ouvido dizer várias vezes: "Quando leram para mim o Testamento do Mestre, deixei de ser uma pessoa normal."83

O fato de Shoghi Effendi ser muito severo em todos os assuntos relacionados com a proteção da Fé não significava dizer que ele não podia mostrar-se também suave e bondoso.

Uma vez ou outra quando havia algum terremoto em um país onde residissem bahá'ís, ele passava telegramas com o seguinte teor:

TELEGRAFEM SE OS AMIGOS ESTÃO BEM. ESTOU ANSIOSO POR NOTÍCIAS SOBRE TERREMOTO PÉRSIA E TURQUESTÃO.84

Muitas vezes tal gesto era seguido de ajuda econômica para os que se achavam em desesperadora necessidade.

Quando soube que um bahá'í americano, que havia contraído uma grave doença enquanto encontrava-se na Pérsia, regressava com sua esposa para os Estados Unidos, Shoghi Effendi telegrafou aos amigos de Beirute, Alexandria e Nova York, pedindo-lhes que fossem recebê-lo no porto e que o ajudassem em tudo o que lhes fosse possível.

O Guardião enviou sete telegramas em um breve espaço de tempo, referindo-se a uma única bahá'í que havia tido várias dificuldades para chegar a Haifa, e à sua partida após a peregrinação.

Sua eficiência em assuntos como estes, bem corno sua consideração, refletiam-se neste telegrama do Egito:

DEWING BAHÁ'Í DE NOVA ZELÂNDIA CHEGA ESTA NOITE AO CAIRO POR UM DIA. SOLICITO ENCONTRÁ-LO NA ESTAÇÃO...85

Um rapaz de 17 anos queria ir para a América Latina, durante o primeiro Plano de Sete Anos, mas foi aconselhado que era muito jovem e que devia esperar ate que atingisse a maioridade e tivesse concluído a maior parte de seus estudos. Shoghi Effendi enviou um telegrama à Assembléia Nacional Americana pedindo que reconsiderassem a decisão e lhe permitissem ir. Shoghi Effendi mencionava com orgulho a resposta deste jovem a respeito da necessidade de pioneiros.

Uma anciã inválida desejava ir à África do Norte como pioneira: Shoghi Effendi a estimulou para que o fizesse e o local aonde Ella Bailey viera a falecer está assinalado com uma estrela de ouro em um dos seus mapas.

Rúhíyyih Khánum recorda que uma peregrina disse a Shoghi Effendi, enquanto achavam-se sentados à mesa, que seu marido a autorizava a se oferecer como pioneira e se ele tinha alguma sugestão sobre o lugar aonde deviam ir. O diálogo foi o seguinte:

Shoghi Effendi respondeu de imediato: "África."
- Algum lugar em especial da África?
- "África do Sul", respondeu ele.

Um tanto surpresa com estas respostas rápidas em poucos vocábulos, voltou a perguntar:

- "Alguma cidade em particular?"
Ao que ele respondeu: "Johanesburgo."86

E desta forma, com quatro palavras, decidiu-se o seu destino e o da sua família.

A um jovem peregrino que havia expressado seu interesse em contrair matrimônio, Shoghi Effendi disse-lhe: "Não esperes por muito tempo que alguém caia do céu!"87

Em certas ocasiões, o espírito que animava um bahá'í era tal que Shoghi Effendi via-se persuadido a mudar suas próprias instruções. Um exemplo disso é o caso de Marion Jack, a quem 'Abdu'l-Bahá chamou de "General Jack" e o Guardião de "heroína imortal", dizendo que ela era um exemplo resplandecente para os pioneiros das gerações atuais e futuras, tanto no Oriente quanto no Ocidente, e que ninguém a havia superado em "constância, dedicação, abnegação, sacrifício e intrepidez", exceto a "incomparável Martha Root". Jackie, como a chamavam, morava em Sofia na Bulgária e quando irrompeu a guerra, preocupado pelo lugar perigoso onde se encontrava, Shoghi Effendi enviou-lhe um telegrama dizendo:

"Aconselho regresse Canadá, telegrafe se dispõe de recursos para isto." Ela respondeu "... seria possível a Suíça..." Então Shoghi Effendi telegrafou: "Aprovo a Suíça", mas ainda assim ela não queria deixar seu posto como pioneira e suplicou que lhe fosse permitido permanecer na Bulgária, ao que o Guardião respondeu: "Aconselho permanecer em Sofia. Carinhos."88

Existe um grande mistério nos níveis de serviço.

Shoghi Effendi sempre aconselhou aos amigos que prosseguissem com moderação e sabedoria, mas se não atuavam assim e decidiam elevar-se a alturas de heroísmo e sacrifício pessoal, ele sentia-se sumamente orgulhoso deles.

Rúhíyyih Khánum cita, então, o dilema do ser moderado e sábio ou ser mártir no caminho de Deus, fazendo alusão a um avião que, enquanto taxia na pista, está dentro das leis de segurança da terra, mas quando levanta vôo, a uma velocidade vertiginosa, passa então a ser regido pelas leis do espaço celeste.

Shoghi Effendi possuía, em certa medida, a qualidade de um bom jornalista que compreende que o fator tempo na comunicação das noticias é de grande importância, que a rapidez tem por si mesmo um impacto e estimula a imaginação.

Com exatidão, compilava estatísticas, buscava feitos históricos e elaborava nos mais minuciosos detalhes seus mapas e planos.

O NOVO GUARDIÃO

Shoghi Effendi na época em que foi designado Guardião da Fé Bahá'í, em 1921.

IMAGEM
Um mapa feito por Shoghi Effendi em 1914.

"A economia era um princípio muito rígido em Shoghi Effendi", escreveu Rúhíyyih Khánum "ele tinha idéias muito sólidas em assuntos de dinheiro. Em mais de uma oportunidade recusou-se a permitir que um indivíduo com dívidas realizasse sua peregrinação e dizia que ele devia primeiro saldá-las. Jamais vi o Guardião pagar uma conta que não houvesse antes somado cuidadosamente, seja por uma refeição em restaurante seja por um pagamento de milhares de dólares. Se cobravam-lhe a mais, chamava a atenção, e também se cobravam-lhe a menos, também chamava à atenção."89

"Como uma explosão de vida e luz Shoghi Effendi exerce sua influência em meu coração"

Shoghi Effendi assemelhava-se a um imenso ímã: ele atraía tanto o amor e o carinho, quanto o respeito e a reverência de tantos quantos com ele se relacionassem, seja pessoalmente ou através de simples correspondências. Para cada um ele evocava novos sentimentos, sentimentos que transitavam na esfera do sagrado e da servitude ao próximo. Nas próximas linhas, algumas das impressões dos peregrinos bahá'ís e de alguns de seus "correspondentes":

Ele tinha contato estreito com os gastos de todos os fundos. Sentia uma preocupação entusiástica pelas estatísticas bahá'ís.90

O Guardião sempre se mostra cortês e não perde a paciência com perguntas de pessoas imaturas.91

Ainda que lhe agrade a expressão de apreço com referência aos jardins, aos Santuários e sobre os seus planos mundiais, o Guardião parece esquivar-se de louvores dirigidos a ele pessoalmente ou mesmo que se lhe agradecesse por algo...92

Toda a sua natureza, seus gostos, suas preferências e seus desagrados são intensos.93

Se ele deseja algo, deseja-o com paixão, de forma imediata, completa e perfeita.94

É do seu agrado o prado verdejante, as paisagens vermelhas e brancas, os roxos cardeais, os ciprestes.95

Quanto aos alimentos, as cores, as roupas: só algumas coisas o agradam com paixão, nunca ele deseja outras coisas e jamais se cansa delas!96

Embora seu único passatempo pessoal fosse a fotografia, "desagradava bastante ao amado Guardião ser fotografado", escreveu Rúhíyyih Khánum, "portanto, as fotografias existentes não refletem sua verdadeira 'imagem'. Antes de tudo, as emoções fluíam com tal velocidade sobre seu rosto que seria necessário fazer uma série de fotografias para captar seus múltiplos estados de ânimo."97

Sendo a consorte eleita por ele por "todos os mundos de Deus", Rúhíyyih Khánum, que depois viria a ser designada Mão da Causa de Deus, em sua magistral biografia sobre a vida do amado Guardião intitulada A Pérola Inestimável, escreveu estas impressões de todo especiais:98

* Ele é o Guardião e a natureza de sua relação com Deus é um mistério. Ele pode compreender qualquer mistério, pode interpretar os textos mais místicos da Fé, pode escrever coisas que são de uma natureza mística profunda; ele se vê impelido a fazê-lo.

* Bahá'u'lláh foi o Profeta. Ele disse todo o necessário para o mundo no momento atual. O Mestre foi a personificação de Seus poderes e ensinamentos. Ele introduziu no mundo um ingrediente de serviço em seu sentido verdadeiro, de bondade e uma vida religiosa em sua forma mais elevada e imperecível. Mas faltava algo mais; é nisto onde muitas pessoas, inclusive membros da família do Mestre e alguns dos bahá'ís têm tropeçado com a perspectiva das coisas. Eles queriam um segundo 'Abdu'l-Bahá, uma série repetida de patriarcas sob a forma dos Guardiões.

* A impressão mais forte que tenho de Shoghi Effendi é a de um objeto que vai em uma única direção com força e velocidade enormes. Se Bahá'u'lláh brilhou como o Sol e o Mestre seguiu irradiando suavemente Sua luz, como a lua, Shoghi Effendi é um fenômeno completamente diferente, tão diferente come o é um objeto que se dirige vertiginosamente para sua meta, de um outro objeto que está em repouso e brilha.

* Ele também poderia ser comparado a uma substância química. Bahá'u'lláh reuniu tudo o que era necessário, o Mestre misturou tudo e o preparou; então Deus lhe adiciona um elemento como um fermento universal, que é necessário para que o todo se aclare: este é o Guardião... ele existe para cumprir com as necessidades da Causa - e em conseqüência, com aquelas do próprio planeta, nesta época.

Ethel Revell, que lhe servia como secretária em Haifa, disse em certa ocasião ao escritor Marcus Bach que "após sua entrevista com Shoghi Effendi, ele jamais seria o mesmo".99

Posteriormente, ao mesmo escritor, o Dr. Loftulláh Hákim diria que "Shoghi Effendi havia concedido ao mundo a mais ampla idéia do heroísmo da fé" e que ele "estava ensinando os homens a viverem na verdade e na retidão e em harmonia com o Espírito de Deus."100

Shoghi Effendi evocava sentimentos de imenso amor por parte dos bahá'ís. Um amor assim torrencial. Sérgio R. Couto, um dedicado bahá'í residente na Bahia, certa vez iniciou uma aula sobre a vida do Guardião, lendo este tributo que ele havia lhe dedicado:

Em qualquer jardim, a rosa é considerada a rainha das flores. Quem a vê e contempla, jamais poderá esquecer sua beleza, suas cores e matizes, e a doce fragrância de seu aroma. No entanto, para aquelas pessoas destituídas do sentido da visão, a rosa se faz sentir e causa uma impressão através do impacto ou da sensação maravilhosa do seu delicado perfume sobre seu espírito e sua alma. Falar sobre o Guardião, descrever sua personalidade torná-se para mim uma tarefa semelhante a do cego ao tentar descrever uma rosa. Sou um cego falando da luz, um surdo tentando explicar a música, um mudo tentando recitar uma poesia. Assim sou eu. No entanto, assim como o alvorecer é uma explosão de vida e luz, assim Shoghi Effendi exerce a sua influência em meu coração, sendo uma explosão de vida e luz para o meu caminho... Que minha vida lhe seja oferecida em sacrifício.

Em 1954, Shoghi Effendi falou enfaticamente para os peregrinos em Haifa:

Posso adverti-los, posso admoestá-los, mas não posso criar o espírito; o resultado real é tristeza para mim e perigo para os crentes... Deveriam fazer suas malas e partir e ninguém tem o direito de impedi-los quando são independentes; que peguem seus passaportes e sigam... A Causa triunfa, não obstante a inatividade de grande número de seus defensores; ela atua de uma forma misteriosa.101

Em certa ocasião uma peregrina do Canadá disse ao Guardião que, ao ensinar a Fé aos esquimós, era-lhes muito difícil compreender o significado de coisas como o rouxinol e a rosa porque isto eles desconheciam completamente. A reação de Shoghi Effendi ante esta observação foi muito típica. Quando se despediu desta amiga deu-lhe um frasco pequeno com attar de rosas da Pérsia, a quinta-essência do que é uma rosa, e disse-lhe que perfumasse com ele os esquimós, já que era possível que desta forma tivessem uma idéia do que queria dizer Bahá'u'lláh quando escrevia sobre a rosa.

"Foi o semeador de trigo que, nos primeiros dias de nossa Fé,

levantou-se e transformou-se em um herói ou mártir, e não os eruditos..."

Shoghi Effendi não apenas inculcou continuamente nos bahá'ís o respeito que se devia ter por pessoas de todos os tipos étnicos, como também lhes ensinou que são realmente o respeito e sobretudo a reverência, as qualidades necessárias para completar um caráter humano e nobre.

O seu amor pelos povos indígenas, aqueles povos simples e anônimos em sua quase totalidade, cognominados por Jean-Paul Sartre como "os condenados da terra", recebeu realmente uma "porção especial de seu amor". Tendo em mente que 'Abdu'1-Bahá "igualou-os, em seus países, às primitivas tribos árabes nômades, que na época do aparecimento de Maomé e dentro de um curto período de tempo tornaram-se destacados exemplos de educação, de cultura e de civilização para o mundo inteiro", e também Sua enfática profecia de que "maravilhas similares ocorrerão hoje se os índios forem ensinados adequadamente e se o poder do Espírito Santo entrar apropriadamente em suas vidas"102 estas magníficas palavras tiveram um efeito profundo em seu coração.

Inúmeras foram as ocasiões nas quais o Guardião admoestava as Assembléias Nacionais do Canadá e das Américas para que trouxessem essas almas para a sombra da Causa de Bahá'u'lláh. Em algumas de suas últimas cartas, escritas no ano de seu falecimento (1957) as Assembléias Nacionais do Hemisfério Ocidental, ele enfatizou energicamente este tema, referindo-se ao "excessivo atraso na conversão dos indígenas americanos".103

Para ele o ensino aos índios deveria ter "uma atenção especial" e afirmava que deveriam existir "Assembléias inteiramente formadas por indígenas" e que esses povos tão sofridos e explorados deveriam compreender que "são iguais e co-participes nos assuntos da Causa e que Bahá'u'lláh é a Manifestação de Deus para eles".104

O seu amor pelas diversas minorias é bem refletido nesta sua declaração:

Em nossa Fé, diferente de todas as demais sociedades, as minorias, como compensação por terem sido vistas como estando em uma situação inferior, recebem especial atenção, amor e consideração...105

Tal era a sua convicção de que os povos minoritários e discriminados, pobres e sem cultura, foram os maiores responsáveis pela "mudança nos destinos humanos, muito mais do que aqueles que dispunham de fama, riqueza e segurança" que ele afirmaria de forma emocionante:

Foi o semeador de trigo que, nos primeiros dias de nossa Fé, levantou-se e transformou-se em um herói ou em um mártir, e não os eruditos sacerdotes de sua cidade!106

"Tudo era um testemunho de como um homem deve calmamente andar sobre a terra sagrada"

A reverência de Shoghi Effendi para com as Manifestações de Deus, o Báb e Bahá'u'lláh, e 'Abdu'l-Bahá, seja através de seus escritos ou na demonstração de seus atos, formam um belo painel que bem pode ser emulado por todos os bahá'ís. Sobre esta faceta brilhante, registramos as observações de Rúhíyyih Khánum:

Quando Shoghi Effendi aproximava-se de um dos Santuários podia-se sentir que, em todo o seu ser, ele estava consciente disso. A maneira como caminhava à medida que dele aproximava-se, a forma como, silenciosamente e com grande dignidade e reverência aproximava-se do Limiar, curvava-se ante sua frente, a forma como no interior do Santuário jamais dava as costas Àquele ponto onde se achava sepultado um daque1es seres infinitamente sagrados e preciosos, o tom de sua voz, a falta de pressa naquelas ocasiões - tudo era um testemunho de como um homem deveria aproximar-se de um Santo dos Santos, andando calmamente sobre a terra sagrada.107

Aquela sensação de estar diante de seu glorioso Avô, com os braços cruzados sobre o peito, foi uma das lições de reverência aprendidas ainda na infância que jamais ele pôde esquecer.

Em 1923, escreveu a uma Assembléia Nacional: "A dignidade da Causa requer que se restrinja o uso e a circulação da gravação contendo a voz do Mestre."108 Em 1933, dirigindo-se à mesma Assembléia emitiu instruções para que não circulasse um folheto contendo o texto original de uma Epístola de Bahá'u'lláh dirigida à Folha Mais Sagrada.

Vivemos em um tempo onde a perspectiva da reverência e o senso de dignidade parecem estar desgastados ou obscurecidos pelos afazeres do mundo. é necessário destacar um fato registrado por Rúhíyyih Khánum que bem poderia inspirar-nos em assuntos de tão grande relevância:

A Prefeitura de Haifa colocou o nome Bahá em uma rua pequena que ficava oposta à casa de 'Abdu'l-Bahá e a casa dos Peregrinos Ocidentais. Shoghi Effendi ficou indignado e imediatamente enviou seu secretário para que entrevistasse o presidente da Câmara Municipal para protestar, já que este era o nome do Fundador de nossa Fé e não apenas considerávamos inapropriado, mas antes uma insolência As autoridades reuniram-se e mudaram o nome para Rua Irã. Recordo que o Guardião sentia-se tão indignado quando isso aconteceu que declarou que se o nome não fosse mudado de imediato, ele mesmo iria arranca-lo com as próprias mãos...109

Foi Shoghi Effendi quem decidiu o estilo para o projeto arquitetônico do Edifício dos Arquivos Internacionais. O próprio arquiteto disse mais de uma vez que "o desenho é de Shoghi Effendi e não meu".110 O seu gosto artístico era inigualável.

Hoje, milhões de pessoas, vindas dos mais longínquos recantos do globo, visitam a Terra Santa. Em Haifa, encontrarão inúmeros motivos para referendar esta afirmação.

Capítulo 7
Oceanos de Luz

Uma das grandes realizações de Shoghi Effendi foi, sem sombra de dúvida, a aquisição e o desenvolvimento dos lugares sagrados bahá'ís na Terra Santa. Para termos um rápido vislumbre do escopo de suas ações nessa direção é suficiente expor alguns números significativos:

Em 1921, as propriedades bahá'ís circundantes ao Santuário do Báb no Monte Carmelo, em Haifa, totalizavam 10.000 metros quadrados e em 1957, ultrapassavam os 230.000 metros quadrados. As propriedades circundantes ao Santuário de Bahá'u'lláh, cm Bahjí, 'Akká, em 1921 eram tão somente 1.000 metros quadrados e à época de seu falecimento em 1957, estendiam-se a nada menos que 257.000 metros quadrados!

Muito embora 'Abdu'l-Bahá tivesse iniciado a construção do Santuário do Báb, tendo inclusive concluído seis de suas salas, Ele não considerava o Edifício concluído. Shoghi Effendi relata que, "certa vez, estando Ele olhando para o Santuário sagrado proferiu esta frase: 'O Santuário ainda não foi construído. Isso será feito com a graça de Deus. Até este ponto, trouxemos a construção.'"

Em 1915, 'Abdu'l-Bahá afirmou que "o Santuário do Báb será construído com o estilo mais belo e majestoso".

Fica óbvio que estava destinada a Shoghi Effendi a missão de levar a empreitada avante. Com imbatível zelo, ele cumpriu o desejo expresso de Bahá'u'lláh e de 'Abdu'l-Bahá. Foi assim que ele adquiriu os terrenos e adicionou três novas salas ao Santuário, seguindo o estilo das seis salas remanescentes.

Em outubro de 1953 ele concluiu finalmente aquele Edifício, referido per Bahá'u'lláh na Epístola do Carmelo como o Centro Mundial Espiritual de Sua Fé. Assim procedendo, afirmou o Sr. Zikrulláh Khadém, "ele não somente agradou ao coração do Profeta-Mártir da Fé Bahá'í (o Báb), concretizou o desejo do Autor da Revelação Bahá'í (Bahá'u'lláh), bem como do próprio Centro do Convênio ('Abdu'l-Bahá), mas, igualmente, ele havia cumprido com as promessas de Deus citadas nas Escrituras Sagradas do passado..."

Na realidade, Shoghi Effendi criou um novo estilo, sendo um novo céu e uma nova terra. As profecias referentes aos terraços de luz, luz sobre luz, que se relacionam aos terraços do Santuário (Alcorão 24:35), estavam cumpridas. A profecia que diz "oito sustentarão o trono de teu Senhor sobre elas naquele dia" (Alcorão 69:17), está evidenciada nas arcadas, o octógono, as estrelas de oito pontas nos jardins e assim por diante. Os pequenos minaretes sobre os oito cantos do octógono não apenas confirmam o templo do Senhor anteriormente mencionado no Alcorão, mas também o protegem.

Shoghi Effendi mesmo orientou o arquiteto, Sutherland Maxwell que levasse em consideração o significado do número 8 no Alcorão e o quadruplicasse, colocando assim 8 colunas para cada uma das 4 arcadas. Recomendou também que ele projetasse 18 vidraças ogivais em volta do clerestório, representando, dessa forma, as 18 Letras da Vida.

O Guardião afirmou também, conforme o relato do Sr. Zikrulláh Khadém, que o Santuário do Báb, não obstante toda a sua beleza e atração maravilhosa, estavam à sombra do Santuário de Bahá'u'lláh, assim como o número 8, simbólico do octógono das colunas da arcada, ficava à sombra do número 9, o valor numérico de Bahá.

Shoghi Effendi havia designado os Santuários do Báb e de Bahá'u'lláh como "Daryáy-i-Nur" (Oceano de Luz) e "Kúh-i-Nur" (Montanha de Luz), respectivamente estes nomes designam os dois maiores diamantes do mundo.

"Abençoada... é a pessoa que te visita e ao teu redor circunda, que serve em teu limiar..."

Tão grande devem ter sido sua felicidade e emoção por ter concluído seu trabalho majestoso, que se sentiu impelido a registrar estes sentimentos com estas belas elocuções, que ficarão para a posteridade e que Shoghi Effendi compartilhou em sua Mensagem do Naw-Rúz (Ano Novo Bahá'í) de 1955:

* Sobre ti, ó Rainha do Carmelo, estejam as mais puras e ternas saudações, as bênçãos mais graciosas e elevadas.

* Glorificado é Ele, cujas pegadas enobreceram o local onde te ergues, Aquele que determinou teu Assento e que te exaltou em Sua Epístola e em Seu Livro.

* Como é grande a força do teu poder, um poder que deslumbra as almas dos favorecidos de Deus e Seus Mensageiros.

* Sinto que te contemplo em meus sonhos, estabelecida sobre teu trono glorioso, coberta de branca vestimenta, ornada com tua coroa dourada, resplandecente com as luzes que brilham dentro de ti e ao teu redor, clamando em tons sonoros e erguendo tua voz entre a terra e o céu.

* Parece-me que percebo as almas dos santos e dos habitantes dos reinos do Alto, apressando-se, com a maior alegria, ansiedade e êxtase, apontando para ti, girando ao teu redor, inalando o perfume de tuas flores e rosas, buscando bênção da terra de teus precintos, curvando suas frontes no chão diante de Ti, em reconhecimento à majestade e à glória que envolve o Sagrado Pó que dentro de ti repousa, a Pérola que em teu seio está entesourada.

* Abençoada, imensuravelmente abençoada é a pessoa que te visita e ao teu redor circunda, que serve em teu limiar, rega tuas flores, inala a fragrância de santidade de tuas rosas, celebra teu louvor e glorifica tua posição por amor a Deus, teu Criador, nesta sagrada e radiante, nesta grande, augusta e maravilhosa era.

Capítulo 8
As Grandes Amizades

Shoghi Effendi deu uma nova dimensão à palavra amizade. Ele sabia todas as conjugações do verbo cativar e declinava-as ao longo de seus dias, trazendo contentamento e grande radiância àqueles que cruzavam em sua vida.

Dostoievski certa vez afirmou que "Deus, encontra-se nos detalhes". Esta afirmação tem um certo sentido especial quando debruçamo-nos sobre toda essa legião de amigos e verdadeiros irmãos que como plantas em um belo pomar, Shoghi Effendi soube cultivar.

O tato e a cortesia com que a todos brindava, a maneira dignificante com que destacava os esforços e conquistas dos outros, o ombro amigo oferecido àqueles em desespero, a lembrança de uma flor ou mesmo de uma cor preferida - nada lhe escapava e formavam um belo mosaico de amizades que no mais das vezes ampliava-se àquelas mais elevadas fronteiras do espírito humano.

A sinceridade de seu coração transparecia em sua múltipla correspondência e assim ele doava-se a todos, resgatando em cada um o toque divino com que foi criado.

Para uma melhor apreciação da importância que as amizades tinham em sua vida, traçaremos um rápido painel de alguns desses privilegiados amigos.

Martha Root: o que pode conquistar o poder de uma fé intrépida

Uma instrutora bahá'í trouxera muita felicidade ao coração do amado Guardião. Seu nome: Martha Root.

Dentre seus inumeráveis e heróicos serviços prestados no Caminho de Deus, um destaca-se pela magnitude com que se revestiu: a aceitação de Bahá'u'lláh como Profeta de Deus pela Rainha Maria da Romênia, sendo ela a "primeira cabeça coroada a aceitar a Fé".111

Martha Root conheceu 'Abdu'l-Bahá durante Suas visitas aos Estados Unidos e, em 1919, quando foram reveladas as Epístolas do Plano Divino, ela levantou-se para levar as Boas Novas aos mais longínquos rincões do globo. Ela não conheceu fronteiras para liberar a Mensagem. Foi uma chama de fogo, incandescente e brilhante, em seu maior esplendor e intensidade.

Desde o nascimento desta Fé, ninguém houvera viajado tanto, por tanto tempo e cobrindo tantas terras e países distintos. Martha Root era a causa desse orgulho e satisfação, um exemplo luminoso na marcha gloriosa da Fé de Bahá'u'lláh.

As suas grandes viagens de ensino, quatro das quais fizeram-na dar a volta ao mundo, aliadas ainda às suas qualidades espirituais, conquistaram o afeto e a admiração de Shoghi Effendi. Rúhíyyih Khánum escreve que "nenhum outro crente, através de seus serviços, lhe proporcionaram tanta satisfação por suas vitórias singulares".112

Ele a chamou de o "arquétipo do instrutor viajante bahá'í" e em 1926, referindo-se a ela, escreveu "em seu caso temos testemunhado, verdadeiramente, de forma inequívoca, o que pode conquistar o poder de uma fé intrépida quando unida a um caráter sublime; as forças que pode liberar, e as alturas a que se pode alcançar".113

Ele a acompanhava de longe durante seus longos anos de maravilhoso serviço no campo do ensino. A comunicação entre os dois era constante, os aconselhamentos sucediam-se. Na vida atormentada do amado Guardião, ela era um exemplo de amor e de confiança mútuos.

Para ilustrar esta "confiança mútua", podemos citar o telegrama que ela enviou-lhe em 1926, com as seguintes palavras: SAUDAÇÕES CARINHOSAS. APROVAS SEGUIR COM O PLANO ORIGINAL QUE PRINCIPIA EM PORTUGAL EM FINS DE NOVEMBRO? FAVOR TELEGRAFE-ME. Eis a sua resposta: SEGUE O QUE A GUIA DIVINA TE INSPIRAR. CARINHOSO AFETO.114

Em um outro telegrama, ela escreve: TERNO CARINHO. ANSEIO NOTÍCIAS TUAS. Em uma carta que lhe envia, ele diz: "...gerações ainda não conhecidas glorificarão a lembrança de alguém que tem preparado o caminho com tanta energia, rapidez e beleza para o reconhecimento universal da Fé de Bahá'u'lláh." Ele a chama de "a inigualável arauta da Causa".115

É tocante conhecermos o efeito que as cartas de Martha Root tinha sobre Shoghi Effendi. Em 10 de julho de 1926, ele escreve-lhe:

Tuas cartas têm-me dado forças, alegria e estímulo em um momento em que me senti deprimido, cansado e desconsolado.116

E, em 1927, ele assegura-lhe que sua correspondência não lhe sobrecarrega em nada:

...ao contrário, refresca minha alma fatigada e faz renascer em mim o espírito de esperança e confiança, que as preocupações opressivas e as angústias múltiplas, em ocasiões tendem a obscurecer.117

Em 28 de setembro de 1939, em Honolulu, falece Martha Root. Ela estava ardendo de dor, durante aquelas últimas semanas, após uma viagem pelas Antípodas, e regressava a América para ajudar na conquista do primeiro Plano de Sete Anos. Literalmente sucumbiu, enquanto caminhava, "entregando uma vida, que o Guardião disse, bem poderia ser considerada como o fruto mais nobre que havia produzido, ate então, a Idade Formativa da Dispensação de Bahá'u'lláh".118

Shoghi Effendi soube da noticia em um momento em que ele próprio achava-se enfermo, com 40 graus de febre. Sentou-se na cama, pálido, debilitado fisicamente, muito transtornado por essa notícia repentina, ditou um telegrama aos bahá'ís na América, do qual citamos alguns excertos:

Inumeráveis admiradores Martha em todo o mundo bahá'í lamentam comigo término terreno sua vida heróica... Posteridade consagrá-la-á como a Mão mais destacada... primeiro século bahá'í... primeiro finíssimo fruto Idade Formativa Fé...119

Shoghi Effendi disse ainda mais que se sentia impelido a compartilhar com os gastos da construção de seu sepulcro com a Assembléia Nacional americana, o sepulcro de uma pessoa cujas "ações conferiam brilho imperecível à Comunidade Bahá'í Americana".120

À amiga, em cuja casa Martha falecera, ele telegrafou: "...regozije-se por haver ela ocupado um assento no Concurso Supremo..."121

Menos de urna semana depois de seu falecimento, Shoghi Effendi a designava, postumamente, Mão da Causa de Deus. Posteriormente escreveria, que ela havia sido "a Mão mais destacada do primeiro século bahá'í".122

Dr. John E. Esslemont: o Mais Íntimo dos Amigos

É necessário, por um dever de justiça, prestar um tributo ao Dr. John Ebenezer Esslemont, o consagrado autor bahá'í, por seu apoio constante e abnegada devoção ao serviço do nosso amado Guardião.

Em 1924, ele recebeu o convite de Shoghi Effendi, que lhe perguntava se ele poderia passar o inverno em Haifa. Em princípios de novembro daquele ano, ele deixava Londres. Mesmo com a saúde abalada, devotou-se integral e totalmente ao trabalho de ajudar o Guardião com sua multifacetada correspondência.

Sua história remonta a dezembro de 1914, quando ele conversando com alguns amigos que haviam se encontrado com 'Abdu'l-Bahá, leu um folheto com a Mensagem Bahá'í e desde então ficou encantado com a beleza dos ensinamentos. Era o que poderíamos chamar de "uma alma desperta".

Sob seus auspícios, um pequeno grupo de pessoas declarou-se bahá'í em Bournemouth, Inglaterra, onde residia, e logo em seguida era formada a primeira Assembléia Espiritual daquela cidade, sendo ele seu primeiro coordenador.

Posteriormente, ele foi eleito para a Assembléia Espiritual Nacional do Reino Unido, vindo a ser seu vice-coordenador. Foi durante a Primeira Guerra Mundial que, não satisfeito com a literatura bahá'í que era bastante escassa na época, ele empreendeu sua grande missão de escritor: aprendeu persa para poder ler as escrituras no original e desse esforço surgiram os primeiros nove capítulos do celebrado livro Bahá'u'lláh e a Nova Era, que posteriormente o Guardião iria aclamar como sendo "a mais completa obra introdutória à Fé".

Nos anos 1919/1920, ele tem o privilégio de visitar 'Abdu'l-Bahá em Haifa, lá permanecendo por dois meses e meio. Durante esta visita, escreveu ele, "'Abdu'l-Bahá tratou várias vezes do livro comigo."123 O Mestre revisou e corrigiu três capítulos e meio do livro, após instruí-lo a traduzir para o persa.

Este livro recebeu desde sua publicação mais de 100 traduções para os mais diversos idiomas do planeta. Referindo-se ao seu conteúdo, à linguagem poética, à sistematização dos assuntos abordados, a Rainha Maria da Romênia escreveu:

Um livro glorioso, de amor e bondade, força e beleza. Nenhum homem pode deixar de tornar-se melhor por causa deste livro.

Em abril de 1925, Martha Root visita o Dr. John Esslemont no Hospital em Haifa e diz-lhe:

...mesmo que você não faça coisa alguma, ainda assim você estará trabalhando muito a cada dia, pois seu livro continua espalhando a Mensagem em todas as terras...124

A ligação de Shoghi Effendi com Esslemont era muito estreita. Apenas para transmitir uma rápida evidência dessa bela amizade, podemos citar uma referência feita pelo escritor bahá'í, Moojan Momen, em seu livro Dr. J. E. Esslemont no qual ele informa-nos a existência de um envelope nos arquivos da Assembléia Espiritual Nacional do Reino Unido, com a seguinte inscrição:

O TESOURO MAIS RARO, PRECIOSO E QUERIDO QUE SHOGHI EFFENDI OFERECE A SEU INESQUECÍVEL AMIGO DR. ESSLEMONT - UMA GOTA DO SANGUE SAGRADO E COAGULADO DE BAHÁ'U'LLÁH. HAIFA, 25 DE DEZEMBRO DE 1919.

Ao comunicar o falecimento do Dr. John Esslemont, em Haifa, a 22 de novembro de 1925, Shoghi Effendi escreveu a seus familiares na Inglaterra:

Surpreendido pela dor ante o inesperado falecimento mui querido Esslemont. Todos devotos esforços foram inúteis. Asseguro-lhes meu profundo pesar e condolências e dos bahá'ís de todo o mundo. Segue carta.125

Quatro dias depois, volta a escrever-lhes, dizendo:

Não é um exagero dizer que não encontro palavras para expressar de forma adequada a sensação de perda pessoal que sinto ante o falecimento de meu querido colaborador e amigo John Esslemont.126

Para Shoghi Effendi, ele era "o mais íntimo dos amigos, um conselheiro de confiança, um colaborador infatigável, um companheiro afetuoso".127 Rúhíyyih Khánum escreve que "o Guardião chorou por este amigo de seu tempo de estudante" e de imediato, enviou telegramas à Inglaterra, à Alemanha, à Pérsia e à Índia, orientando a que comunicassem seu pesar aos familiares do Dr. John Esslemont, nenhum dos quais era bahá'í, e que "celebrassem reuniões comemorativas especiais".128

Em 30 de novembro daquele ano, Shoghi Effendi escreve:

...com olhos lacrimejantes, suplico ante o Limiar de Bahá'u'lláh - e peço que vocês também o façam - em minhas ardorosas orações pelo completo desenvolvimento nos reinos do além, de uma alma que alcançou tão elevada posição espiritual neste mundo...129

Em fins de 1925, Shoghi Effendi designa o Dr. John Esslemont, postumamente, como Mão da Causa de Deus.

Anos após seu falecimento, o amado Guardião designa-o como sendo "um dos três luminares da Causa nas Ilhas Britânicas" e chama-o de "o primeiro dos 19 discípulos de 'Abdu'1-Bahá".130

Amélia Collins, uma Devoção Exemplar

Outra personalidade que se destacou na vida de Shoghi Effendi foi Amélia Collins, membro do Conselho Internacional Bahá'í. A ele, o Guardião da Causa de Deus, Milly, como era carinhosamente chamada por Shoghi Effendi e pelos amigos na Terra Santa, dedicou o seu amor, respeito e admiração.

Ela aceitou a Fé Bahá'í em 1919. Seu pai era ministro da Igreja Luterana e seu marido que não era bahá'í, após os dois primeiros dias de peregrinação já estava impregnado pelo amor do Guardião.

Em uma de suas viagens à Europa em 1937, seu esposo veio a falecer a bordo de um navio e ela tinha que transferir o corpo de volta para os Estados Unidos. Foi nestes momentos de pesar que, escreveu ela, "eu recebi tal bondade do Guardião que toda a minha tristeza chegou ao fim". Na ocasião Shoghi Effendi enviou-lhe esta mensagem:

Imensamente desolado súbito falecimento amado esposo. Coração cheio de calorosa simpatia. Oferecendo orações especiais. Avise escola de verão de Geyserville realizar reunião em memória reconhecimento seu generoso apoio Instituições. Possa Bem-Amado ajudá-lo a alcançar meta que ele estava resolutamente aproximando-se em seus últimos anos de vida.131

Algum tempo depois quando Milly, como a Sra. Collins era chamada, novamente visitava Haifa, Shoghi Effendi disse-lhe: "Seu esposo está na presença do Mestre e Ele está orgulhoso de seus serviços."132

Ela tudo fez para minimizar seus muitos serviços, evitando-lhe o cansaço de uma rotina opressiva. Um gesto de sua devoção pode ser visto no fato de que toda a correspondência que ela escrevia a ele, era dirigida a Rúhíyyih Khánum que então lhe transmitia o conteúdo.

Evitava desta forma, o que muitos crentes em seu egoísmo pueril faziam, chegando a colecionar dezenas de cartas escritas pelo Guardião. Ela somente queria vê-lo feliz. Este era seu objetivo desde que soube que ele era o Sinal de Deus na Terra, o Guardião da Causa de Deus, divinamente designado pelo Mestre.

Inúmeras vezes, Milly suplicava ao Guardião que tirasse umas férias e para isso, oferecia doações financeiras espontâneas, as quais, não raras vezes, o Guardião utilizava para adquirir peças decorativas para os jardins, os Lugares Sagrados e o Edifício dos Arquivos. Ciente disso, ela insistia que ele usasse consigo mesmo o dinheiro doado, para viagem de repouso ou para qualquer coisa que ele desejasse.

O SECRETÁRIO DE 'ABDU'L-BAHÁ

Uma foto provavelmente de 1919, quando se ocupava em datilografar as Epístolas reveladas pelo Mestre.

'ABDU'L-BAHÁ E SHOGHI EFFENDI

O Centro do Convênio e o futuro Guardião em Haifa, nos degraus da Casa do Mestre, durante os últimos anos em que viveram juntos.

No entanto, constituía um verdadeiro prazer para o Guardião utilizar estas doações para o progresso da Causa. O seu amor pelo Guardião era correspondido pelos gestos de afeto com que ele a distinguia.

Amélia Collins costumava dizer que para ela todo o sofrimento da vida do Guardião estava refletido em suas mãos.

Certa vez perguntaram-lhe: "Milly, porque tudo o que você faz traz tanta alegria ao coração do amado Guardião?" Ao que ela respondeu, com simplicidade: "Desde que li o Testamento de 'Abdu'l-Bahá, decidi dedicar-me a cumprir o Seu desejo de que deveríamos 'tomar o maior cuidado por Shoghi Effendi para que o pó do desânimo e da tristeza não lhe maculasse a natureza radiante...'"

Ela foi membro da Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá'ís dos Estados Unidos e Canadá por mais de vinte anos. Estava sempre atenta e vigilante no desejo de atingir o bel-prazer do Guardião.

Ao observarmos o mundo bahá'í ficamos atônitos ao admirar suas ações, que incluíam contribuições para a aquisição de terrenos para futuros templos, sedes nacionais e outras propriedades bahá'ís; a tradução e publicação da literatura bahá'í, o apoio ao estabelecimento de pioneiros bahá'ís nas Américas, nas Ilhas do Havaí e do Pacífico Sul, bem corno na Europa e na África - todas estas atividades foram generosamente providas por ela. Muitos dos pioneiros que receberam sua ajuda não sabiam que provinha dela, de uma forma total ou parcial. No entanto, todos estes meritórios serviços ela prestava com total amor e desprendimento, santificada acima de qualquer espécie de ostentação e que foram constantes ate os últimos momentos de sua vida.133

A própria Milly nunca mencionava suas muitas e generosas contribuições à Fé, sendo que muitas delas foram oferecidas diretamente ao Guardião. Ela sempre desejava que fossem "contribuições confidenciais". As Mãos da Causa de Deus somente tomavam ciência de suas ações através da leitura das atas recebidas de dezenas de Assembléias Espirituais Nacionais de todo o mundo. Ela sempre teve o cuidado de, ao efetuar alguma remessa financeira, escrever: "Estou enviando dinheiro. Favor não mencionar meu nome."134

Ela havia submergido no oceano do amor do Guardião e era uma de suas características, agir sem esperar qualquer tipo de reconhecimento ou de louvor e muito menos ainda, que algum de seus serviços fosse publicamente anunciado.

Sempre que os amigos bahá'ís defrontavam-se com tremendas dificuldades no campo do ensino e pioneirismo ou em qualquer outra esfera de ação, ela estava pronta para colaborar. Em tais ocasiões ela dizia:

Se o Guardião ainda estivesse vivo, ele não gostaria de ver as tarefas pela metade. Eu estou pronta para ajudar. Mas, por favor, não mencione meu nome.135

Quando o Sr. Abúl-Qásim Faízí a conheceu, em Haifa, ela ocupava um pequeno quarto que antes servira ao Sr. Sutherland Maxwell, na casa de 'Abdu'l-Bahá, e ali ela desfrutava do mais completo contentamento e alegria, porque naquela mesma casa e sob aquele mesmo teto, residia seu amado Guardião.

Em 1946, Shoghi Effendi escreve-lhe:

Seus magníficos serviços internacionais, sua devoção exemplar e agora este distinguido serviço impelem-me informar sua elevação à posição de Mão da Causa de Bahá'u'lláh. Você é a primeira a quem tem sido conferida esta honra enquanto viva. Quanto ao momento de anunciá-lo deixe-o à minha discrição.136

Em 1947, Shoghi Effendi escreve-lhe uma carta que termina com estas palavras:

Eu sinto verdadeiro orgulho de você... e admiro-a ainda mais profundamente ante o espírito que lhe anima. Possa o Bem-Amado recompensá-la, tanto neste mundo como no vindouro por suas ações verdadeiramente exemplares...137

Desde sua infância que ela acalentava o desejo de possuir um portão ou uma porta. Ela recordava que "em minhas brincadeiras de bonecas... tentava sempre fazer uma porta para a casinha das bonecas e então eu utilizava pequenas barras de ferro e de outros materiais, mas nunca satisfazia meu desejo. Quando morávamos em New England, meu marido Tom perguntou-me sobre a porta e então eu disse-lhe que não desejava gastar dinheiro com uma porta agora. Com o passar do tempo eu abracei a Fé e esqueci-me por completo deste meu desejo. Eu não queria mais pensar nas coisas do mundo. Após o falecimento de meu esposo eu fui chamada a Haifa para o serviço da Fé e então ofereci uma contribuição ao Guardião na esperança de que ele a usasse para suas necessidades pessoais. O tempo passou e um dia eu recebi uma carta de Shoghi Effendi. Nela estava uma fotografia de um imenso e belíssimo portão e uma nota em que me perguntava se eu gostava dele, informando-me também que o mesmo havia sido comprado com o dinheiro que eu havia lhe oferecido! Imediatamente, eu enviei uma mensagem a ele, dizendo: Extremamente belo".138

Na Mansão de Bahá'u'lláh em Bahjí, o lugar mais sagrado do planeta para os bahá'ís, o amado Guardião, em um tocante tributo a ela, deu o seu nome a este portão monumental: Portão Collins.

Certo dia, pouco depois do falecimento de Shoghi Effendi, referindo-se a ele, ela disse: "Você sabe, eu nunca tive a alegria de ter um filho. Assim eu o adotei corno meu próprio filho e no mundo do espírito e da fé eu o entronizei, podendo ele reinar sobre meu destino e minha vida."139

Ela faleceu em 1º de janeiro de 1962. Shoghi Effendi chamou-a de "proeminente benfeitora da Fé", "muito amada irmã" e também de "mui querida colaboradora".140

May e Sutherland Maxwell: Servitude Consagrada

Era uma relação de grande amor. Naqueles primeiros anos, o membro mais distinguido dos Maxwell no mundo bahá'í era, sem sombra de dúvida, a indômita discípula de 'Abdu'l-Bahá, May Maxwell.

Em certa ocasião, o próprio Guardião disse a Rúhíyyih Khánum que se ela não fosse a filha de May Maxwell, não teria contraído matrimônio com ela! A conexão de May com 'Abdu'l-Bahá era imensa. Ela tomou conhecimento de Seu falecimento por telefone em 1921 e, literalmente, sucumbiu. A família testemunhou o colapso de sua saúde física, e de seu esposo Sutherland partiu a inspiração de, em 1923, fazer uma nova peregrinação a Haifa. Era este o remédio para sua recuperação física e emocional, e assim partiram os três: May, Sutherland e a filha para Haifa.

Naquela Terra Santa, eles foram testemunhas oculares daquilo que chamaram de "o ressuscitar de uma alma". O que fez May recuperar-se tão rapidamente? O amor de Shoghi Effendi - é a resposta. Daquele primeiro encontro com o recém-designado Guardião da Causa de Deus, May fez brotar de seu terno e meigo coração, um amor irresistível por Shoghi Effendi. Ele passava a ser o centro de sua existência.

Dessa mesma época, têm início os laços profundos, fundamentados no espírito, que iriam unir aquela família ao Guardião.

Quando aos 70 anos, May levantou-se para a arena do pioneirismo internacional, vindo a estabelecer-se na América do Sul, o Guardião lhe telegrafou: "Aprecio profundamente esta nobre resolução." Esta era mais uma de suas decisões de que o Guardião se sentiria orgulhoso. Mas os caminhos de Deus são inescrutáveis. Ao chegar em Buenos Aires, na Argentina, May falece. A notícia transtorna o amado Guardião. Seu rosto evidenciava a penosa angústia e preocupação ao transmiti-la à sua amada esposa.

Shoghi Effendi, em inspiradora mensagem dirigida ao seu esposo Sutherland, que se encontrava em Montreal, orientava-o sobre como realizar seu sepultamento em Buenos Aires, e solicitava que ele projetasse seu túmulo naquela cidade, convidando-o então a residir com o casal em Haifa. Sutherland, como era de se esperar, obedece integralmente às instruções do Guardião e ao mudar definitivamente para Haifa, vem a ser um precioso instrumento nas mãos do Sinal de Deus na Terra, transpondo para sua prancheta as idéias do Guardião para a construção da superestrutura do Santuário do Báb, dentre outros serviços que ele ainda viria a prestar.

A servitude de Sutherland é crescentemente reforçada. Nos anos 1949/1950, adoece gravemente, com breves retornos aos tempos de sua infância e é desenganado pelos médicos que lhe prestam assistência. No entanto, seu espírito reconheceria o Guardião sempre que adentrava em seu quarto. Shoghi Effendi, nesta época, costumava lhe ungir com attar de rosas, sendo este um de seus muitos gestos de carinho para com ele. Em 1952, estando em Montreal, no Canadá, Sutherland falece. Uma consternação a mais se aloja no coração de nosso amado Guardião.

Em 1953, Rúhíyyih Khánum e Amélia Collins, seguindo instruções do Guardião, seguem para Montreal, ocasião em que Rúhíyyih Khánum doa à Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá'ís do Canadá, sua residência, a única residência visitada por 'Abdu'l-Bahá no Canadá por ocasião de Suas históricas viagens à América do Norte.

Estando lá, a 9 de maio daquele ano, o Guardião envia-lhe esta mensagem:

Instruí Assembléia Montreal reunir amigos sepulcro Sutherland para render tributo sua memória. Aconselho colocar flores Santuário e comprar também em meu nome cem dólares melhores flores, em sua maioria azuis para cobrir seu sepulcro. Coloque também seguinte inscrição: COM GRATIDÃO EM MEMÓRIA SUTHERLAND MAXWELL, MÃO DA CAUSA, TALENTOSO, MUI QUERIDO AMIGO ARQUITETO SUPERESTRUTURA SEPULCRO BÁB. SHOGHI. Traga cópias fotografias grande tamanho amigos reunidos sepulcro. Telegrafe data hora reunião para celebra-lo Santuário.

Azul, a cor preferida de Sutherland Maxwell, uma simples lembrança nunca esquecida por Shoghi Effendi.

Capítulo 9
O Falecimento de Shoghi Effendi

Quatro de novembro de 1957. O mundo amanheceu órfão. Shoghi Effendi falecera. Para a imensa legião de seus amigos, colaboradores, sócios da "empreitada divina", irmãos de fé, era como Se o futuro lhes tivesse sido arrancado.

Saía da cena terrena o verdadeiro irmão, o guia e o protetor e guardião dos amantes de Bahá'u'lláh e, paralelamente, nascia o homem mito, de quem "os séculos e épocas futuras" iriam guardar as marcas.

Os corações recusavam-se a aceitar esta nova realidade. Reeditava-se, guardadas as proporções, aquele trágico 27 de novembro de 1921.

Partia, assim, para "os mares gêmeos de onde surgira", aquela que era "a pérola mais maravilhosa, inestimável e sem igual".

Alguém que tivesse vivido no século XIII, teria sido um dos diletos e amados companheiros de São Francisco de Assis.

Alguém digno da elegia fúnebre que um dos anônimos Incas, em sua dor pela morte de Atahualpa, expressou:

A terra nega-se a sepultar seu Senhor, como que envergonhada do cadáver de quem a amou, como se temesse devorar seu guia. As lágrimas em torrentes, juntas, se recolhem.

Que homem não cairá em pranto por quem amou?
Que filho não haverá de existir para seu pai?141

Shoghi Effendi, por suas palavras e suas ações, foi uma testemunha do Eterno. Ele nos legou livros que possuíam o poder de respirar, como se seres vivos fossem, e a cada palavra transmitia a doçura de sua alma, a delicadeza de seu espírito, o misticismo de seu coração e também, e ao mesmo tempo, compartilhava conosco a usina de idéias e de novos paradigmas que estavam armazenados em sua mente, prolífica, ágil, destemida, que nos arremessava uma e outra vez, ao glorioso destino predito para esta Causa, desde tempos tão distantes como os dias de Isaías, Daniel e Jó.

Parte o Guardião que nos ensinou os significados mais íntimos de palavras como sacrifício, renúncia, visão, e que ao escrever A Presença de Deus invocou o heroísmo e a bravura inquestionáveis de milhares de vidas que em um outro momento, alçaram-se às alturas da nobreza e mais elevado senso de dignidade humana de que se tem conhecimento.

Ele, que compreendeu tantos anos antes de todo mundo, a grandeza e dimensão histórica dos dias em que vivíamos, nos deixou.

Não se teriam mais os seus braços que, como Ugo Giachery registraria, "assemelhavam-se ao abraço de todas as mães do mundo".

Não se ouviria mais a sua terna voz a entoar a Epístola da Visitação nos Santuários Sagrados, com tanta humildade que a todos comovia pela infinita devoção de suas atitudes.

Não se teria a quem recorrer quando, no berço da Fé, as vidas inocentes fossem ceifadas pela sanha mórbida das gerações de algozes que tantas vezes tentou nublar o Sol de Bahá, fixo no horizonte da Vontade do Todo-Poderoso.

Quem faria o inventário das realizações que ele atrás de si deixou?

Parafraseando Einstein sobre Mahatma Gandhi, poder-se-ia afirmar naquele 4 de novembro que "as gerações futuras teriam dificuldade em acreditar que tal homem tenha algum dia pisado em nossa terra".

"Amado Guardião gravemente enfermo... suplicando orações proteção divina..."

Na noite anterior estava debruçado na conclusão de mais um de seus belos mapas. Era um mapa contendo as vitórias de Bahá'u'lláh em todas as terras naquele ano que era o ponto mediano da sua Cruzada Espiritual de Dez Anos. Antes de adormecer porém, lera a volumosa correspondência. Sua viagem com Rúhíyyih Khánum a Londres foi para adquirir os móveis que decorariam o interior do majestoso Edifício dos Arquivos Internacionais. Nele seriam expostos os objetos relacionados com a sagrada trajetória do Báb, de Bahá'u'lláh e 'Abdu'l-Bahá, bem como dos heróis e mártires que haviam renascido em seus livros. Acometido de influenza (a gripe asiática), ele seguiu a recomendação médica para que permanecesse em repouso, adiando seu retorno a Haifa. Vítima de uma trombose das coronárias, seu coração deixou de bater. Mas, em contrapartida, os corações dos crentes em todos os recantos do globo iriam, nos dias seguintes, disparar mais acelerados com a fatídica notícia.

Rúhíyyih Khánum sua amada esposa, recebeu este doloroso dever de informar aos amantes que o seu amado Guardião falecera. Ela estava preocupada com a comoção que, como um raio, instalar-se-ia naqueles semblantes outrora tão acostumados a tê-lo como seu apoio, desde o falecimento do seu Amado Mestre, 'Abdu'l-Bahá, em 1921.

Naquele dia sua primeira comunicação, singela, mas reveladora da trágica situação, foi ao Conselho Internacional Bahá'í, que ele criara e nutrira. Suas palavras:

AMADO GUARDIÃO GRAVEMENTE ENFERMO INFLUENZA ASIÁTICA. INFORMEM LEROY ET INFORMEM TODAS ASSEMBLÉIAS NACIONAIS. INFORMEM AMIGOS SUPLICANDO ORAÇÕES PROTEÇÃO DIVINA FÉ.

Neste mesmo dia, Rúhíyyih Khánum envia telegrama a Haifa, para que dali fosse compartilhado com todas as Assembléias Nacionais. Eis o texto do telegrama:

SHOGHI EFFENDI BEM-AMADO TODOS OS CORAÇÕES SAGRADO LEGADO CONFERIDO CRENTES PELO MESTRE FALECEU REPENTINAMENTE ATAQUE CARDÍACO ENQUANTO DORMIA DEPOIS GRIPE ASIÁTICA. URJO CRENTES MANTEREM-SE FIRMES AFERRAREM-SE INSTRUÇÕES MÃOS AMOROSAMENTE INDICADAS RECENTEMENTE REFORÇADO ENFATIZADO PELO AMADO GUARDIÃO. SOMENTE UNIDADE CORAÇÕES UNIDADE PROPÓSITO PODEM ATESTAR DIGNAMENTE LEALDADE TODAS ASSEMBLÉIAS NACIONAIS CRENTES FENECIDO GUARDIÃO QUE SE SACRIFICOU COMPLETAMENTE NO SERVIÇO FÉ. RÚHÍYYIH.142

E, seguindo a inspiração que fluía de seu coração destroçado, desta vez de Londres, transmite a todas as Assembléias Nacionais do mundo, em 5 de novembro, este telegrama:

BEM-AMADO TODOS CORAÇÕES PRECIOSO GUARDIÃO CAUSA DEUS FALECEU TRANQUILAMENTE ONTEM APÓS GRIPE ASIÁTICA. FAÇO CHAMADO MÃOS ASSEMBLÉIAS NACIONAIS CORPOS AUXILIARES PROTEJAM CRENTES AJUDANDO-OS ENFRENTAR DESOLADORA PROVA SUPREMA. FUNERAIS NOSSO AMADO GUARDIÃO SÁBADO LONDRES SE CONVIDA MÃOS A ASSISTIR MEMBROS ASSEMBLÉIAS AUXILLARES QUALQUER INFORMAÇÃO IMPRENSA DEVE DECLARAR QUE PRÓXIMA REUNIÃO MÃOS HAIFA ANUNCIARA MUNDO BAHÁ'Í SEUS PLANOS FUTUROS. URGE REALIZAR REUNIÕES COMEMORATIVAS SÁBADO. RÚHÍYYIH.143

Armada com o poder da fé, Rúhíyyih Khánum providenciou um cemitério em Londres, que "era um lugar tranqüilo e bonito, rodeado de árvores" e de onde o ar enchia-se "dos cantos dos pássaros".

Marcou então o funeral para as 10:30 horas do sábado, 9 de novembro. Começaram a chegar de todo o mundo bahá'í as mensagens de dor, pesar e aflição. Reúnem-se com ela, as Mãos da Causa de Deus, pela seqüência da chegada a Londres: Hasan Balyuzi, John Ferraby, Ugo Giachery, de Roma; Amélia Collins, de Haifa; Adelbert Muschlegell e Hermann Grossman, da Alemanha. E, nos dias imediatamente seguintes, todas as Mãos estavam reunidas em Londres. Na véspera do funeral, as Mãos reuniram-se para selecionar os textos sagrados para a cerimônia fúnebre.

Finalmente, no último dia do adeus, centenas de bahá'ís seguiram o cortejo fúnebre do Guardião, que incluía mais de 60 automóveis e dirigia-se ao Great Northern London Cemitery. Ao chegar no local, aguardava uma imensa multidão de crentes, reunindo a quase totalidade da comunidade das Ilhas Britânicas, em Londres, para "render tributos ao sagrado Guardião" e como escreveria Rúhíyyih Khánum "cujos restos mortais, por alguma razão misteriosa, Deus havia escolhido confiar àquele país".

Naquela atmosfera de lágrimas, amor e gratidão a Deus, ouviu-se com reverente devoção o serviço memorial e aquela sepultura se transformou num imenso jardim florido, tamanha a profusão das flores oferecidas. Em uma corbeille de flores vermelhas e brancas, especialmente encomendadas por Rúhíyyih Khánum, uma linda inscrição que sintetizava os sentimentos daquela dolorosa manhã:

DE RÚHÍYYIH E TODOS OS TEUS AMADOS E AMANTES DE TODO O MUNDO, CUJOS CORAÇÕES ESTÃO DESTROÇADOS.

Ao terminar a solenidade, Rúhíyyih Khánum solicitou que se realizassem condignas reuniões memoriais, informando o mundo bahá'í sobre o funeral:

AMADO GUARDIÃO COLOCADO DESCANSAR LONDRES ACORDO LEI AQDAS EM BELO LUGAR APÓS IMPRESSIONANTE CERIMÔNIA CELEBRADA PRESENÇA MULTIDÃO CRENTES REPRESENTANDO MAIS 25 PAÍSES ORIENTE OCIDENTE. MÉDICOS ASSEGURAM REPENTINO FALECIMENTO NÃO CAUSOU SOFRIMENTO ABENÇOADO ROSTO TINHA EXPRESSÃO INFINITA BELEZA PAZ MAJESTADE. DEZOITO MÃOS CAUSA REUNIDAS FUNERAL URGEM CORPOS NACIONAIS SOLICITEM TODOS CRENTES CELEBREM REUNIÕES COMEMORATIVAS DEZOITO NOVEMBRO RECORDAÇÃO MANANCIAL GUIA DIVINA QUEM NOS ABANDONOU DEPOIS TRINTA SEIS ANOS COMPLETO SACRIFÍCIO PESSOAL INCESSANTE LABOR CONSTANTE VIGILÂNCIA. RÚHÍYYIH.

Capítulo 10
Shoghi Effendi e a Nova Ordem Mundial

Muitas décadas, antes de significar uma palavra de ordem ou compor os discursos dos mais renomados estadistas destes últimos anos do século XX, o tema de uma Nova Ordem Mundial já era familiar, e mais que isso, compunha o ideal de uma vida: a vida de Shoghi Effendi.

O mundo, como uma casa, rua, vila ou cidade, possui uma certa ordem natural. A ordem é um reflexo da própria natureza. O sistema solar simboliza quão ordenado é o Universo: os planetas possuem seus movimentos de rotação e translação, estando cada planeta em seu espaço pré-ordenado. Na natureza as estações sucedem-se com suas características sempre visíveis: primavera, verão, outono e inverno. O reino vegetal possui sua ordem de crescimento: semente, caule, ramo, folha, flor e fruto. O reino humano também: do embrião ao adulto.

Qualquer alteração, por menor que seja, na seqüência de seus sucessivos estágios, comprometeria a consumação de suas potencialidades imanentes.

A organização da vida social também possui seus estágios de desenvolvimento. Uma sociedade tem na família sua célula-mater. Na história humana encontramos o ciclo do crescimento social: da família ao patriarcado, do patriarcado às tribos (as 12 Tribos de Judá), das tribos às cidades-estados (Jerusalém) e das cidades-estados às nações (Arábia).

No momento, encontramo-nos no limiar de mais uma mutação essencial na vida ordenada do planeta: das nações à unidade mundial.

Este novo estágio será o grande passo da humanidade para alcançar seu futuro comum: UM PLANETA, UM SÓ POVO.

Em cartas brilhantes, conhecidas como as Cartas da Nova Ordem Mundial, ele traçou com cores vívidas, argumentou poderosamente, convocou não apenas os governantes e líderes de pensamento, mas, também convidou de forma convincente os homens de boa vontade para estabelecerem os alicerces de uma Nova Ordem Mundial duradoura.

Ele foi, por assim dizer, o mestre de obras desta Nova Ordem e seus esforços foram incansáveis e insuperáveis na formulação dos princípios norteadores de um novo establishment mundial.

Uma missão árdua: como fazer com que o mundo atual, com seu "padrão enraizado de conflitos" pudesse transformar-se em um mundo onde a harmonia e a cooperação fossem suas características distintivas?

Continuamente inspirado pela poderosa Mensagem de Bahá'u'lláh, da qual era o seu designado Guardião, ele enfatizou inúmeras vezes que tal ordem mundial somente poderia se estabelecer, se estivesse fundamentada em uma "inabalável consciência da unidade da humanidade" - uma verdade espiritual confirmada por todas as ciências humanas que reconhecem existir "apenas uma espécie humana, ainda que infinitamente variada no que se refere aos aspectos secundários da vida".144

Na realidade, a aceitação da unidade da humanidade é o "requisito fundamental para a reorganização e administração do mundo como um só país - como o lar da humanidade".145

IMAGEM
O MANUSCRITO DE SHOGHI EFFENDI

Um tributo de Shoghi Effendi a Bahiyyih Khánum, em que anuncia seu falecimento em 1932.

Shoghi Effendi contemplava a Nova Ordem Mundial não como uma miragem, uma utopia ou um sonho muito belo, mas ainda assim um sonho. Antes, ele traçou os passos iniciais para transpor sua visão do plano dos mais belos sentimentos para o das realizações factíveis. Ressaltou que o reconhecimento da unidade da humanidade exige nada menos que:

* a reconstrução e desmilitarização de todo o mundo civilizado;

* um mundo organicamente unificado em todos os aspectos essenciais de sua vida: seu mecanismo político, sua aspiração espiritual, seu comércio e suas finanças; de sua escrita e seu idioma; e

* não obstante tudo isso, infinitamente variado quanto às características nacionais de suas unidades federadas.146

Em 1931, ele indicou o real significado da realização dos passos acima mencionados, claramente afirmando que isto não implicava em "subverter os alicerces da sociedade existente mas antes em alargar sua base e remodelar as instituições de acordo com as necessidades de um mundo em constante transição"147

Enfatizou ainda mais, no mesmo ano, que tal princípio "não pode estar em conflito com nenhuma obrigação legítima, nem minar qualquer lealdade essencial. Seu fim não é abafar a chama de um patriotismo são e inteligente no coração dos homens, nem abolir o sistema de autonomia nacional, que é tão indispensável como freio dos males da centralização excessiva. Não desconsidera, tampouco tenta suprimir, as diversidades de origem étnica, climática, histórica, idiomática e de tradição, de pensamento e costumes, que diferenciam os povos e as nações do mundo".148

Afastados os receios e temores que a nova ordem mundial viesse, erroneamente, a suscitar, Shoghi Effendi explicitou um novo paradigma para as relações internacionais ao declarar que a aceitação e prática da unidade da humanidade "exige uma lealdade mais ampla, uma aspiração maior que qualquer outra que jamais animou a raça humana. Insiste em que os impulsos e os interesses nacionais sejam subordinados às necessidades de um mundo unificado. Repudia a centralização excessiva, por um lado, e ao mesmo tempo, nega qualquer tentativa de uniformidade" e concluiu afirmando que o "seu lema é a unidade na diversidade".149

À medida que os anos se passavam mais detalhada e cheia de vida era a visão de Shoghi Effendi:

* A limitação inevitável da soberania nacional irrestrita era o prólogo indispensável à formação da futura união de todas as nações do mundo.

* Alguma forma de Super-Estado mundial haveria de evoluir, a cuja autoridade todas as nações do mundo cederiam de boa vontade todo e qualquer direito de: fazer guerra, cobrar impostos e possuir armamentos além do necessário para a manutenção da ordem interna nos seus respectivos domínios.

* Tal Estado incluiria, dentro de sua órbita:

- Um Executivo Internacional, capaz de exercer autoridade suprema e indiscutível s sobre qualquer membro recalcitrante da comunidade.

- Um Parlamento Mundial, cujos membros seriam eleitos pelo povo nos seus respectivos países e cuja eleição seria confirmada por seus respectivos governos.

- Um Supremo Tribunal, cujas decisões teriam efeito compulsório, mesmo no caso de as partes envolvidas não concordarem em submeter voluntariamente as questões à sua consideração.150

Nesta mesma visão Shoghi Effendi podia visualizar uma nova comunidade mundial onde:

...fossem permanentemente demolidas todas as barreiras econômicas e definitivamente reconhecida a interdependência de Capital e Trabalho, em que o clamor do fanatismo religioso e das lutas religiosas houvesse sido silenciado para todo o sempre; em que a chama da animosidade racial se encontrasse finalmente extinta; em que um código único de direito internacional - fruto do juízo ponderado dos representantes federados do mundo - tivesse como sanção a intervenção imediata e coercitiva das forças combinadas das unidades federadas; finalmente, uma comunidade mundial em que a fúria de um nacionalismo caprichoso e militante estivesse transmutada numa consciência permanente da cidadania mundial - assim é, em seus traços mais amplos, a Ordem prevista por Bahá'u'lláh, uma Ordem que virá a ser considerada como o mais belo fruto de uma era em lenta maturação.151

Ele transcendia seu tempo, e suas idéias encontraram forma na vida de milhões de seres humanos que abraçaram integralmente seu ideal.

A Nova Ordem Mundial tem que corresponder a uma circunstância especial, a maturidade de todos os seres humanos que, de uma forma ou de outra, compartilharão de um mesmo destino comum.

Por que seria o estabelecimento de uma Ordem Mundial justa, fraterna, ordeira, pacífica, uma utopia?

É natural que os céticos objetem: "Esta visão de Shoghi Effendi é muito bonita, mas como acreditar que tal visão poderá se realizar? Será que não estaremos perseguindo uma utopia?"

A questão inicial seria então: "O que é uma utopia?" A história da humanidade demonstra exaustivamente que muitos ideais que durante séculos foram rotulados como "meras utopias", com o passar do tempo, tornaram-se reais.

Por exemplo àquele que há 100 anos discursava que o trabalho infantil seria abolido, aquele que há 300 anos falava que a escravidão seria superada, aquele que há 500 anos afirmava que a Terra gira em torno do Sol e aquele que há 800 anos proclamava que a peste seria erradicada, foram objetos de risos!

A realidade é que o trabalho infantil, a escravidão, o geocentrismo e a peste que haviam sido aceitos pela humanidade como um todo e durante eras foram tidos como inalteráveis e irrevogáveis foram sendo substituídos por novos e mais vibrantes ideais. Somente alguns poucos - loucos para uns, visionários para outros, utópicos para a grande maioria - lutaram com todas as suas forças contra estas contradições da vida social e, finalmente, foram estes últimos os vitoriosos.

Não precisamos vasculhar muito a História. Os últimos anos nos oferecem sólido material para um breve teste sobre o que é utopia e o que é realizável:

* Alguém acreditaria que as superpotências poderiam firmar amplos tratados de limitação de armas nucleares?

* Alguém acreditaria que o Muro de Berlim, aquela trágica cicatriz na vida espiritual da humanidade, poderia ser destruído?

* Alguém acreditaria que em poucos anos, estariam lançadas as bases de uma unificação européia?

* Alguém acreditaria que as mulheres alcançariam os postos máximos na condução de seus países, como ocorreu na Índia, na Argentina, em Israel, na Inglaterra, nas Filipinas e... no Paquistão?

* Alguém acreditaria que seria possível a realização em uma única cidade do planeta - o Rio de Janeiro - de uma conferência reunindo a quase totalidade dos Chefes de Estado e de Governo do mundo? E, ainda mais para tratar sobre a situação do meioambiente?

* Alguém acreditaria que dezenas de países unir-se-iam para aniquilar a beligerância de um país que se apossou de outro, como foi o caso da chamada "guerra do golfo pérsico"?

* Alguém acreditaria que Israel e a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) fariam a paz no Oriente Médio, encerrando guerras travadas há décadas?

Jonathan Schell escreveu que "se é utópico querer sobreviver, então ser realista significa querer estar morto".152

Aos céticos uma pergunta: Por que seria o estabelecimento de uma Nova Ordem Mundial, justa, fraterna, ordeira, uma utopia? Ao contrário, ao considerarmos esta visão uma utopia, seria mais razoável, considerarmos como ainda maior utopia a manutenção da vida do homem no planeta.

A verdade é que, pela primeira vez na história, muitas pessoas desejam mudanças profundas no mundo e para estas pessoas esta visão converteu-se em uma necessidade existencial.

Shoghi Effendi, em março de 1941, escreveu estas contundentes e oportunas palavras:

O mundo, em verdade, move-se para seu destino. A interdependência dos povos e nações da Terra - não obstante o que digam ou façam os que incentivam as forças divisoras do mundo - já é fato consumado... O bem-estar da parte significa o bem-estar do todo, e o sofrimento da parte traz o sofrimento do todo. A Revelação de Bahá'u'lláh - para usarmos Suas próprias palavras - prestou um novo impulso e fixou uma direção nova a este vasto processo que atualmente opera no mundo.153

Capítulo 11
O Pensamento Vivo de Shoghi Effendi

Em fins de 1921, consumiu-se aquela Chama incandescente, que iluminou o mundo de forma tão constante, e que para si nada mais almejou que o título único e inigualável de 'Abdu'l-Bahá (Servo de Bahá).

Uma Chama que se alimentou do próprio Fogo do Amor de Deus, abrasando todas as coisas e que, paralelamente, nutria o espírito de seu abençoado neto mais velho, Shoghi Effendi, e o mundo bahá'í recebia, conseqüentemente, o grande legado.

Podia, como o tempo testemunharia, enxugar as lágrimas. o legado era construído na sua personificação de lealdade à missão que lhe foi confiada por um Avô dadivoso, vigilante, que das Alturas guiar-lhe-ia, e nós, os bahá'ís do mundo, voltamos a ter um referencial, um ponto de apoio em todas as horas, e em suas próprias palavras ao fim de cada carta, passamos a ter "um verdadeiro irmão".

A juventude nesta Fé, tinha uma missão especial. Nasceu através de um jovem, fruto da vontade divina, revelada a um mercador de Shiráz, em 23 de maio de 1844, com tão somente 25 anos de idade. Agora, 77 anos depois, em 28 de novembro de 1921, um jovem enfrentou um novo desafio: Shoghi Effendi aos 24 anos de idade recebeu o encargo divino entesourado na Última Vontade e Testamento de 'Abdu'l-Bahá. "O triunfo da Causa", profetizou o Mestre quando ele ainda era criança, "está em suas mãos".

Em um período de formidáveis conquistas, cobrindo nada menos que 36 anos de serviços contínuos, ele escreveu milhares de telegramas e mais de 26.000 cartas a crentes e Assembléias Espirituais Bahá'ís.

Estes escritos permanecerão, para sempre, como um legado indispensável para as deliberações do corpo supremo da Fé Bahá'í, a Casa Universal de Justiça.

A palavra resgatava seu extraordinário efeito de moldar novos paradigmas de conduta espiritual, moral, social e intelectual. Da Palavra Revelada ele retirou a guia e com sua pena modificava o rumo da história humana.

O efeito dos escritos do Guardião na vida dos bahá'ís é de grande estímulo e motivação. Nessa carta do querido pioneiro persa no Brasil, Razi Milani, podemos bem avaliar esse efeito:

"...estamos nos anos 1949/1950. As portas da peregrinação estão ainda fechadas devido à situação política de Israel e os bahá'ís do Irã estão ansiosos e sempre na expectativa das vitórias do progresso da Causa em todo o mundo, o que o amado Guardião transmitia com uma certa freqüência. Como estudante em Teerã, recebi a notícia que havia chegado um telegrama do Guardião e que os bahá'ís eram convidados a reunir-se à noite no grande salão da Sede Nacional Bahá'í. Evidentemente, todos para lá acorreram. À noite, depois de serem entoadas as orações, Sr. Furután, que na época ainda não havia sido designado Mão da Causa e era o secretário da Assembléia Espiritual Nacional do Irã, leu a tradução do telegrama com um apelo de fundos para a aquisição dos tijolos dourados que o Guardião estava encomendando para revestir a cúpula do Santuário do Báb. O Sr. Furután, depois da leitura do telegrama, falou e citou fatos históricos da vida do Báb e de Seu martírio e finalmente de como Seus restos mortais chegaram à Terra Santa no tempo de 'Abdu'l-Bahá, e de como 'Abdu'l-Bahá iniciou a obra. Finalmente, agora o Guardião estava concluindo a obra. Eu, como a maioria dos participantes já estávamos banhados em lágrimas..."

Incansável na promulgação da Mensagem de Bahá'u'lláh, intrépido na defesa dos ideais personificados na existência terrena de 'Abdu'l-Bahá, iluminado na interpretação do Texto, guiado por Deus, Shoghi Effendi construiu em sua vida ímpar um refúgio para a sua e as futuras gerações, concedendo-lhes um sentido para a vida.

Para todos, foi um consolo e uma esperança. Sua humildade, devoção, amor genuíno, constituem nossa dívida de eterna gratidão. Em seus escritos, um oceano de novos significados de sentimentos nobres e tão antigos quanto a própria existência humana. Sua meta era uma só: cumprir com a Vontade de 'Abdu'l-Bahá.

As traduções e os escritos de Shoghi Effendi ocupam parte preponderante em sua vida. Suas primeiras ações como Guardião foram justamente as de tornar acessíveis traduções de orações e epístolas de 'Abdu'l-Bahá. No período que vai de 1922 a 1944, ele traduziu inumeráveis passagens, excertos, orações, epístolas, odes, apologias, dissertações e profecias da Pena Suprema de Bahá'u'lláh, bem como das escrituras do Báb e de 'Abdu'l-Bahá.

O renomado orientalista, da Universidade de Londres, Sir Denison Ross, referindo-se aos escritos do Guardião, declarou que "quanto ao seu estilo em inglês, na realidade não poderia ser melhorado".154 Este é apenas mais um dos eloqüentes testemunhos da magnitude de sua expressão naquele idioma.

Rúhíyyih Khánum observou o seguinte sobre a forma que ele usava para escrever: "...ele não gostava de escrever em grandes folhas de papel e geralmente escrevia seus livros em pequenos blocos de papel pautado. Toda a sua composição era à mão e se na primeira prova existiam muitas correções a serem feitas, voltava pacientemente a recopiar o texto. Passava todos os seus manuscritos à máquina... e inseria modificações à medida em que avançava."155

Shoghi Effendi era meticuloso, lutava com as palavras, queria nada menos que o significado exato de cada termo. Não se contentava com menos. Na história da literatura mundial encontramos os exemplos de um Balzac ou de um Flaubert. Ao fim, como inferiu um escritor, o seu texto reluzia como a alvorada de um novo dia que surgia.

A seguir, embora de forma inadequada, uma vez que leremos 59 textos escolhidos arbitrariamente - alguns dos quais escritos em seu nome, por secretários por ele autorizados - buscaremos uma conexão com o seu pensamento à medida que os anos inexoravelmente avançavam. Veremos então que "o fio invisível" tornava-se mais presente. Era o mesmo fio condutor que em sua tenra infância comovia os peregrinos que tinham o privilégio de, em um mesmo recinto, encontrá-lo ao lado do Mestre. A sua vida, tão grande e intensa foi sua comunhão com o Centro do Convênio de Bahá'u'lláh, pode ser compreendida como o próprio pulsar da Causa de Deus durante 36 anos. Os quatro primeiros textos selecionados referem-se, obviamente, ao período em que ele não havia ainda sido designado Guardião da Causa de Deus.

Aos 21 anos

1. Sinto-me tão feliz e privilegiado por poder dedicar-me ao serviço de meu Bem-Amado após concluir meu curso de Artes e Ciências na Universidade Americana de Beirute. Estou muito ansioso e esperançoso de saber de ti e de teus serviços na Causa... Os quatro últimos anos têm sido de indescritíveis calamidades, de opressão sem precedentes, de miséria inenarrável, de severa fome e dor, de derramamento de sangue sem paralelo. Mas agora que a pomba retornou a seu ninho e morada, apresenta-se uma oportunidade áurea para a promulgação da Palavra de Deus. Ela será promovida agora e a mensagem será compartilhada sem a menor restrição nesta região livre. Esta é, em verdade, a Era do Serviço.156

Aos 22 anos

2. O Mestre Bem-Amado está, com certeza, com excelente saúde, fisicamente forte, sempre ativo, revela centenas de Epístolas a cada semana, lê inumeráveis súplicas, recebe muitas visitas e peregrinos, e regularmente acorda à meia-noite para orar e meditar.157

Aos 23 anos

3. ...É minha esperança poder adquirir rapidamente o melhor que este país e sociedade (Inglaterra) possam oferecer, para então regressar a meu lar e remodelar as verdades fundamentais da Fé em uma nova forma, para assim servir no Sagrado Limiar.158

Aos 24 anos

4. Ultimamente tenho estado submerso em meu trabalho, revisando muitas traduções e enviei ao Sr. Hall minha versão da Epístola à Rainha Vitória, que está repleta de conselhos mundiais muito vitais e significativos, que este mundo triste e desiludido necessita com tanta urgência!159

5. Durante alguns dias, a terrível notícia (o falecimento de 'Abdu'l-Bahá) tem vencido meu corpo, minha mente e minha alma a tal ponto que me colocaram na cama por dois dias, quase sem sentidos, com a mente distraída e muito agitado. Gradualmente Seu poder me animou e infundiu em mim uma confiança que, é minha esperança, haverá de guiar-me e inspirar-me de agora em diante em meu humilde serviço. O dia tinha que vir! Mas quão repentino e inesperado foi!... Imediatamente parto para Haifa para receber as instruções que Ele deixou e agora tomei a decisão suprema de dedicar minha vida a Seu serviço e, com Sua ajuda, cumprir suas instruções durante todos os meus dias.160

Aos 25 anos

6. Levarei comigo ao túmulo um remorso amargo por não haver estado com Ele ('Abdu'l-Bahá) durante Seus últimos dias nesta terra; não importa o que possa fazer por Ele no futuro, não importa até que ponto meus estudos na Inglaterra retribuam Seu maravilhoso amor par mm.161

7. Quero que me conheçam, quero me ver a mim mesmo, não importa o quanto venha a progredir no futuro, como um, e apenas um, dentre os numerosos trabalhadores em Sua Vinha.162

8. Com quanta intensidade sinto a urgente necessidade de que se efetue dentro de mim uma regeneração completa, uma poderosa efusão de força, de confiança, do Espírito Divino em meu anelante espírito, antes que me levante para tomar meu lugar predestinado na vanguarda de um Movimento que sustenta princípios tão gloriosos. Sei que Ele não me deixará só, confio em Sua guia e acredito em Sua sabedoria, mas o que anseio é a convicção duradoura e a segurança de que Ele não me falhará. A tarefa é tão acabrunhadora em sua grandeza, o conhecimento do inadequado dos meus esforços e de minha própria pessoa é tão profundo, que não posso senão ceder e desfalecer ao enfrentá-la...163

Aos 26 anos

9. Quão frequentemente ouviu-se o amado Mestre dizer: Se cada um dos amigos assumisse a tarefa de cumprir, integralmente, e com todas as suas implicações, apenas um dos ensinamentos da Fé, com devoção, desprendimento, constância e perseverança, e o exemplificasse em todos os atos e atividades de sua vida, o mundo tornar-se-ia outro e a face da terra refletiria os esplendores do Paraíso de Abhá.164

10. Primeiro, e antes de tudo, deveríamos empregar todos os meios para purificar nossos corações e motivos, pois do contrário, seria inútil envolvermo-nos em qualquer empreendimento. Também é essencial que nos abstenhamos da hipocrisia e da cega imitação, visto que seu mau odor seria logo percebido por todo homem de compreensão e sabedoria.165

Aos 27 anos

11. É nosso dever e privilégio traduzir o amor e devoção que temos pela nossa amada Causa em feitos e ações que sejam úteis para o mais alto benefício da humanidade.166

Aos 28 anos

12. Se lerdes as palavras de Bahá'u'lláh e de 'Abdu'lBahá com desprendimento e atenção, e nelas vos concentrardes, descobrireis verdades antes desconhecidas e obtereis uma compreensão dos problemas que têm desafiado os maiores pensadores do mundo.167

13. Devemos tornar-nos inteiramente desprendidos e devotados a Deus, de tal modo que todos os dias e em todos os momentos busquemos somente aquilo que Deus gostaria que fizéssemos e da maneira como Ele gostaria que o fizéssemos. Se fizermos isso com sinceridade, teremos perfeita unidade e harmonia com os outros. 168

14. Se nós bahá'ís não podemos obter uma cordial unidade entre nós mesmos, então falhamos em compreender o propósito principal pelo qual o Báb, Bahá'u'lláh e o Amado Mestre viveram e sofreram.169

15. Se professarmos lealdade a Bahá'u'lláh, ao nosso Amado Mestre e ao nosso querido Guardião, então precisamos mostrar nosso amor através da obediência a esses ensinamentos explícitos. Ações e não palavras, são o que eles exigem e nenhuma intensidade de fervor no uso de expressões de lealdade e de louvor compensarão a falta de vivência no espírito dos ensinamentos.170

Aos 29 anos

16. Estou contente e gratificado em saber que a voz da Bahia reforçou o chamado dos bahá'ís do mundo por justiça e eqüidade em conexão com a Causa de Bahá'u'lláh. Possa este esforço combinado, tão espontânea e gloriosamente demonstrado, produzir os resultados desejados. Asseguro-lhe minhas contínuas orações por seus bem-estar, felicidade e sucesso.171

17. Sua continuada presença no Brasil, eu sinto, é vitalmente importante e do maior valor. Se puder encontrar uma ocupação que a capacite a visitar diversos Estados desse país, isso será altamente satisfatório... O Mestre a está guiando das alturas e está verdadeiramente satisfeito com suas múltiplas atividades. Não se desespere ou se sinta desanimada, recorde da promessa de Bahá'u'lláh e das enfáticas asseverações de nosso Amado. Recobre o ânimo e redobre seus esforços sumamente considerados.172

Aos 30 anos

18. Sua detalhada carta estimulou minhas esperanças e renovou meu vigor e força no serviço à Causa. Eu recomendar-lhe-ia fortemente a concentrar-se em umas poucas almas capazes e receptivas e através de íntima associação, prestimosidade e amorosa bondade, imbuí-las com o espírito de franca adesão à Causa. Sou muito grato pelas traduções das apreciações da Rainha da Romênia e confio que no futuro você será ajudada por competentes assistentes no importantíssimo campo da tradução. Persevere em seus esforços e não hesite em escrever-me sempre que se sentir impelida a fazê-lo.173

Aos 31 anos

19. É muito triste quando tais diferenças de opinião e crença ocorrem entre marido e mulher e, indubitavelmente, em tempos de dificuldade. Entretanto, a maneira como poderia ser remediado não é agindo de tal modo a que se aliene a outra pessoa. De fato, um dos objetivos da Causa é de ocasionar um laço mais íntimo nos lares. Portanto, em todos os casos desta natureza, o Mestre costumava aconselhar a obediência aos desejos da outra pessoa e oração. Ore para que seu esposo possa gradualmente ver a luz e ao mesmo tempo aja de tal modo a atraí-lo para mais perto em vez de criar prevenção. Assim que esta harmonia esteja assegurada então será capaz de servir sem empecilhos.174

Aos 32 anos

20. As pessoas jovens e entusiasmadas que trabalham pela Causa... habitam um lugar terno em meu coração. Lembrar-me-ei de suas esperanças, seus planos e suas atividades em meus momentos de oração no Sagrado Santuário. Insto-os a estudarem profundamente os pronunciamentos revelados de Bahá'u'lláh e os discursos de 'Abdu'l-Bahá e não confiarem demasiadamente na interpretação dada por oradores e instrutores bahá'ís. Que o Todo-Poderoso te sustente e guie em teu caminho. 175

Aos 33 anos

21. Cabe-nos o dever de ponderarmos sobre isso (atos de opressão contra a Fé) em nosso coração, esforçarmo-nos diligentemente para alargarmos nossa compreensão desta Causa e levantarmo-nos, de modo resoluto e sem reservas, a fim de desempenharmos nosso papel, por menor que seja, neste drama maior da história espiritual do mundo. 176

22. Muitas vezes é-nos dito pelo Mestre que sob tais circunstâncias deveríamos consultar nossos amigos, especialmente as Assembléias, e procurar a sua orientação. Seria muito bom se você procurasse essa orientação e tivesse alguns dos amigos como confidentes. Possivelmente a vontade de Deus é melhor atingida através da consulta. 177

Aos 34 anos

23. Não deveríamos, no entanto, esquecer-nos que uma das características essenciais deste mundo são as adversidades e tribulações e que superando-as conseguimos nosso desenvolvimento moral e espiritual. Como diz o Mestre, os pesares são como os sulcos do arado; quanto mais profundos, tanto mais abundantes serão os frutos que colheremos. 178

Aos 35 anos

24. No Bayán, o Báb declarou que todas as religiões do passado foram adequadas para tornarem-se universais. A única razão pela qual falharam em atingir este alvo foi a incompetência de seus seguidores. Ele então prossegue fazendo uma promessa definitiva de que este não será o destino da revelação "Daquele que Deus tornará manifesto"; de que ela será universal e incluirá todos os povos do mundo. Isso mostra que no final seremos bem sucedidos. Mas não poderemos através de nossas limitações, deficiências em nos sacrificarmos e relutância em nos concentrarmos em nossos esforços na disseminação da Causa, atrasar a realização desse ideal? E o que significaria isto? Significaria que seríamos responsabilizados perante Deus, que os povos permaneceriam por mais tempo errantes, que as guerras não seriam evitadas tão cedo e que os sofrimentos humanos durariam mais tempo. 179

25. Presentemente a Causa não necessita de mártires que dêem a vida pela sua fé, mas de servos que desejem ensinar e estabelecer a Causa no mundo inteiro. Viver para ensinar no presente é como ter sido martirizado naqueles primeiros dias. 180

26. Se estudardes a história de Nabíl vereis como a Fé tem sido alimentada pelos sacrifícios constantes dos amigos. Através de sofrimentos, perseguições e de constantes preocupações a Mensagem de Bahá'u'lláh tem sido estabelecida no mundo inteiro. 181

Aos 36 anos

27. Um bom bahá'í, portanto, é aquele que organiza sua vida de modo a devotar tempo tanto para as suas necessidades materiais quanto para o serviço da Causa. 182

Aos 37 anos

28. Caríssimos amigos! A despeito da elevada posição da Guardiania e da função vital desta instituição na Ordem Administrativa de Bahá'u'lláh, e por mais acabrunhadora que deva ser a responsabilidade que pesa sobre ela, não se deve, de modo algum, exagerar sua importância, não obstante a linguagem do Testamento. Por grandes que sejam os méritos ou as realizações do Guardião da Fé, jamais deverá ele, sob quaisquer circunstâncias, ser exaltado ao grau que lhe permita participar, com 'Abdu'l-Bahá, da posição ímpar que o Centro do Convênio ocupa, e muito menos ainda deverá ser elevado à condição ordenada exclusivamente para o Manifestante de Deus. Tão grave divergência dos preceitos estabelecidos de nossa Fé nada menos é que aberta blasfêmia. 183

29. Todos os indivíduos, sem restrições, sem temer as incertezas, os perigos e a falta de dinheiro que afligem a nação, devem levantar-se e assegurar, na medida da suas capacidades, que um fluxo contínuo e abundante de fundos entre na Tesouraria Nacional, da qual depende em grande parte a execução vitoriosa do Plano... 184

Aos 38 anos

30. Existem inúmeras maneiras de ensinar a Causa. Podeis escolher aquela que melhor convier à vossa natureza e vossa capacidade.185

Aos 39 anos

31. Nossas aflições e provações são, às vezes, bênçãos disfarçadas, pois nos ensinam a ter mais fé e confiança em Deus e aproximam-nos mais dEle. 186

32. ...O resultado final de tal batalha, que certamente será gigantesca, é claro para nós crentes. Uma Fé nascida de Deus e guiada por Seu Espírito Divino e todo-penetrante, não pode deixar de, finalmente, triunfar e firmemente estabelecer-Se, não importando quão consistentes e insidiosas as forças com que tem de batalhar. Os amigos deveriam ser confiantes e agir com a máxima sabedoria e moderação, e deveriam especialmente abster-se de qualquer ato provocativo. O futuro certamente é deles.187

Aos 40 anos

33. ...O instrutor bahá'í deve ser a personificação da confiança. Nisto está sua força e o segredo de seu sucesso. Embora estejais sós, e por maior que seja a apatia do povo a vosso redor, deveis acreditar que as hostes do Reino estão do vosso lado e, com seu auxílio, havereis de vencer as forças das trevas com as quais a Causa de Deus se defronta. Perseverai, sedes contentes e confiantes, portanto. 188

Aos 41 anos

34. Os crentes devem dar a Mensagem mesmo àqueles que não lhes parecem estar prontos para recebê-la, porque nunca podem julgar, realmente, até que ponto a Palavra de Deus pode exercer influência sobre os corações e as mentes do povo, mesmo dos que parecem carecer de qualquer poder de receptividade aos Ensinamentos! 189

35. O campo, em verdade, é de tal imensidão, o período tão crítico, a Causa de tamanha grandeza, os trabalhadores tão poucos, o tempo tão curto e o privilégio de tão inestimável valor, que nenhum seguidor da Fé de Bahá'u'lláh, que seja digno de ser chamado por Seu Nome, pode hesitar por um momento sequer. 190

Aos 42 anos

36. Quanto maiores as provações e sofrimentos, tanto mais fortemente deveriam crescer vossa lealdade e devoção pela Causa. Pois é somente através de repetidas tribulações e provações que Deus experimenta seus servos, e eles deveriam vê-las como bênçãos disfarçadas e como oportunidades pelas quais podem adquirir uma consciência mais plena da Vontade e Propósito Divinos. 191

Aos 43 anos

37. A questão da instrução e educação das crianças, caso um dos pais não seja bahá'í, diz respeito apenas aos próprios pais, que deveriam decidir sobre isto da maneira que julgarem melhor e mais conducente à manutenção da unidade de sua família, e ao futuro bem-estar de seus filhos. Quando as crianças atingem a maioridade, contudo, devem ter completa liberdade para escolher sua religião, não importando a vontade e os desejos de seus pais. 192

Aos 44 anos

38. Cumpre a todo bahá'í na flor da idade ter como seus deveres preeminentes aprofundar seu conhecimento e aperfeiçoar-se nos padrões bahá'ís de virtude e conduta íntegra.193

39. Devemos sempre olhar para frente e procurar fazer no futuro aquilo em que talvez tenhamos falhado no passado. Fracassos e provações, se usados corretamente, podem tornar-se os meios de purificação de nosso espírito, de fortalecimento de nosso caráter e de nos capacitar a atingir alturas mais elevadas de serviço.194

Aos 45 anos

40. ...A mais difícil e nobre tarefa no mundo de hoje é a de ser verdadeiro bahá'í; isto exige que derrotemos não somente os males prevalecentes em todas as partes do mundo, como também a fraqueza, os apegos ao passado, os preconceitos e o egoísmo, que podem ser herdados ou adquiridos, em nosso caráter; que manifestemos um exemplo iluminado e incorruptível aos nossos concidadãos. 195

Aos 46 anos

41. Nem todos somos capazes de servir a Causa da mesma maneira. Porém uma das maneiras em que todo bahá'í pode disseminar a Fé é pelo exemplo. Isto move os corações das pessoas de um modo tão profundo como as palavras jamais o podem. 196

42. Fundamentalmente toda a batalha da vida está dentro do indivíduo. 197

43. O mundo de hoje necessita do espírito bahá'í. As pessoas anseiam por amor, por um alto padrão para o qual olhar, bem como por soluções para seus graves e numerosos problemas. Os bahá'ís deveriam derramar sobre aqueles que encontram, o caloroso e vivificante espírito da Causa e isto, combinado com o ensino, não pode deixar de atrair à Fé aqueles que sinceramente buscam a verdade. 198

Aos 47 anos

44. Um maior grau de amor produzirá maior unidade, porque capacita as pessoas a tolerarem-se umas as outras, a serem pacientes e a perdoarem. 199

45. Este amor entre os crentes é o ímã que, acima de tudo, atrairá os corações e trará novas almas à Causa. A razão é que, obviamente, os ensinamentos, por mais belos que sejam, não podem mudar o mundo a não ser que o espírito do amor de Bahá'u'lláh esteja refletido nas comunidades bahá'ís. 200

46. Aconteça o que acontecer a essa incipiente Fé Divina nas décadas futuras ou nos séculos vindouros, quaisquer que sejam os pesares, os perigos e as adversidades da próxima etapa do seu desenvolvimento universal, de qualquer setor que sejam lançados os ataques contra ela pelos seus adversários presentes ou futuros, por maiores que sejam as revezes e empecilhos a suportar, nós que tivemos o privilégio de apreender, até onde nossas mentes finitas podem alcançar, o significado destes fenômenos maravilhosos associados com o seu nascimento e consolidação, não podemos alimentar dúvidas quanto ao fato de que o já realizado nos seus cem primeiros anos de vida constitui uma garantia suficiente de que continuará a progredir celeremente, conquistando alturas mais elevadas, eliminando todos os obstáculos, abrindo novos horizontes e ganhando vitórias ainda mais importantes, até que a sua missão gloriosa, estendendo-se pelos escuros recôncavos dos tempos vindouros, esteja totalmente cumprida. 201

Aos 48 anos

47. Talvez a maior provação a qual os bahá'ís tenham sido submetidos proceda de outros bahá'ís; mas por causa do Mestre deveriam estar sempre prontos a tolerar os erros dos outros, desculpá-los por palavras ásperas que tenham proferido, perdoar e esquecer. Ele vos recomenda insistentemente esta maneira de proceder. 202

Aos 49 anos

48. No mundo que nos cerca, vemos decadência moral, promiscuidade, indecência, vulgaridade, maus modos - os jovens bahá'ís devem ser o contrário destas coisas e por sua castidade, retidão, decência, consideração e boas maneiras atrair outros, velhos e jovens, para a Fé. O mundo está cansado de palavras; quer exemplos, e compete à juventude bahá'í fornecê-los.203

Aos 50 anos

49. Nem deve qualquer um dos pioneiros neste estágio inicial da construção das comunidades nacionais bahá'ís, descuidar-se do requisito prévio fundamental para qualquer empreendimento de ensino bem-sucedido, que é adaptar a apresentação dos princípios fundamentais de sua Fé ao ambiente cultural e religioso, às ideologias e ao temperamento das diversas raças e nações... diferindo largamente em seus costumes e padrões de vida, devem ser cuidadosamente consideradas e, de maneira alguma, negligenciadas.204

Aos 51 anos

50. É antes a qualidade de devoção e sacrifício de si próprio que traz recompensa no serviço desta Fé e não os meios, capacidades ou apoio financeiro.205

Aos 52 anos

51. Quando sofremos tais infortúnios, devemos lembrar que os próprios Profetas de Deus não foram imunes a estas coisas que os homens sofrem. Eles conheceram pesar, enfermidade e dor, também. Eles ergueram-se acima destas coisas através de Seu espírito e é isto que também devemos tentar, quando estamos aflitos.206

Aos 53 anos

52. É muito lamentável que alguns crentes pareçam não perceber o fato de que a Ordem Administrativa, as Assembléias Locais e Nacionais, são o padrão para o futuro, por muito inadequadas que possam por vezes parecer. Temos de obedecer e apoiar estes organismos, porque esta é a Lei Bahá'í. Até que o aprendamos a fazer não teremos verdadeiros progressos... A deterioração da confiança no Organismo Nacional despedaça a Fé, confunde e aliena os amigos e impede o que o Mestre desejava acima de tudo, que os bahá'ís fossem como um só espírito em muitos corpos, unidos e amigos. Os bahá'ís estão longe de serem perfeitos, tanto como indivíduos ou quando servem nos organismos eleitos, mas o sistema de Bahá'u'lláh é perfeito e gradualmente os crentes atingirão a maturidade e o sistema trabalhará melhor. O olhar vigilante do Guardião impede quaisquer erros sérios, e os crentes devem sabê-lo e dar toda a colaboração às suas Assembléias.207

Aos 54 anos

53. É um grande erro acreditar que porque as pessoas são iletradas ou vivem vidas primitivas, sejam desprovidas de inteligência ou de sensibilidade. Pelo contrário, elas podem muito bem olhar para nós, com os males de nossa civilização, com sua corrupção moral, suas guerras ruinosas, sua hipocrisia e vaidade, como pessoas que merecem ser observadas tanto com suspeita quanto com desprezo. Devemos encontrá-las como iguais, desejando-lhes o bem, como pessoas que admiram e respeitam sua descendência antiga, e que sentem que elas interessar-se-ão, como nós o estamos, por uma religião viva e não pelas formas mortas das igrejas atuais.208

Aos 55 anos

54. Não há nada que traga mais sucesso na Fé do que o serviço. É o ímã que atrai as confirmações divinas. Por isso, quando as pessoas são ativas, elas são abençoadas pelo Espírito Santo. Quando são inativas, o Espírito Santo não encontra um repositório em seu ser e assim ficam privadas de seus salutares e estimulantes raios.209

Aos 56 anos

55. ...Agora que compreende que seu esposo está doente, deve ser capaz de reconciliar-se com as dificuldades que enfrentou emocionalmente com ele e, por mais que sofra, não tome uma atitude implacável. Sabemos que Bahá'u'lláh muito rigorosamente desaprovou o divórcio; e incumbe, realmente, aos bahá'ís, fazer um esforço quase sobre-humano a fim de não permitir que um casamento seja dissolvido.210

Aos 57 anos

56. A África está verdadeiramente despertando e se encontrando e, sem dúvida, tem a dar uma grande mensagem e uma grande contribuição para o progresso da civilização mundial. De acordo com o grau em que seus povos aceitaram a Bahá'u'lláh, serão eles abençoados, fortalecidos e protegidos. 211

Aos 58 anos

57. ...Os olhos dos povos do mundo estão começando a focalizar-se sobre nós; e à medida que o dilema da humanidade vai de mal a pior, nós seremos observados ainda mais intensamente pelos não-bahá'is, para verem se estamos apoiando nossas próprias instituições de todo a coração e de forma integral; se somos o povo da nova criação ou não; se vivemos à altura de nossas crenças, princípios e leis, tanto em atos como em palavras. Não podemos ser demasiadamente cuidadosos. Não podemos ser demasiadamente exemplares.212

Aos 59 anos

58. Há uma necessidade extrema de que os próprios bahá'ís aprofundem-se em sua própria fé. Eles não estudam suficientemente os ensinamentos; em conseqüência, não agem com a devoção própria que bahá'ís como eles deveriam demonstrar e, tampouco, colhem a força espiritual da Fé proporcionada pelo estudo, oração e meditação. 213

Aos 60 anos

59. Os bahá'ís são o fermento de Deus, que deve levedar a massa de sua nação.214

As predileções literárias

Shoghi Effendi era grande leitor da versão da Bíblia feita pelo rei James, bem como dos historiadores Carlyle e Gibbon, estilos que muito admirava, especialmente o de Gibbon cujo Declínio e Queda do Império Romano tanto lhe deleitava que, conforme registrou Rúhíyyih Khánum "não me recordo nem uma única vez em que ele não tivesse por perto um desses volumes em sua sala e, em geral, quando viajava. Havia um pequeno exemplar na edição econômica de bolso deste livro quando Ele faleceu. Era sua própria Bíblia favorita da língua inglesa e muitas vezes lia-me seleções, interrompendo-se com exclamações do tipo: "Oh, que estilo! Que domínio do inglês! Que frase eloqüente!"215

Não é de admirar-se tais sentimentos de aprovação pelo texto gibboniano. Desnecessário enfatizar que a produção literária de Edward Gibbon constitui um precioso ícone da inteira literatura inglesa. Historiador e Filósofo do século XVIII, nascido em Putney, Condado de Surrey, Edward Gibbon, segundo o Professor Charles Robinson Jr., da Brown University, "estava mais preocupado com o pensamento humano, a criatividade e a corrosão moral do que com a economia ou a arqueologia...".216 Apaixonado que era pela "política, pela guerra e pela religião", diria Gibbon "...descrevi o triunfo da barbárie e da religião" e em um momento melancólico, conforme acentua Robinson, declarava que "a História é pouco mais do que o registro dos crimes, loucuras e desventuras da humanidade".217

Um dos mais belos frutos produzidos pela mente de Shoghi Effendi foram os seus escritos e a perfeição com que historiou o primeiro século da Era Bahá'í (1844/1944) em seu renomado A Presença de Deus. Bem poderíamos refletir sobre a verve, o estilo e a amplitude da visão de Gibbon nestes próximos textos, que simbolizam de forma bastante precária, suas mais de 3.000 páginas dedicadas a 1.400 anos de história ocidental, refletindo o primeiro parágrafo escrito em 1776 e a último, escrito em 1787, do consagrado Declínio e Queda do Império Romano ao qual dedicou nada menos que 20 anos de sua vida. Nestas passagens poderemos constatar um estilo tão admirado pelo Guardião:

* No segundo século da era cristã, o império de Roma abrangia a mais bela parte da terra e o segmento mais civilizado da humanidade. As fronteiras daquela vasta monarquia eram guardadas por antigo renome e disciplinada bravura. A influência branda mas eficaz das leis e dos costumes havia gradualmente cimentado a união das províncias. Seus pacíficos habitantes desfrutavam até o ponto de abuso dos privilégios da opulência e do luxo...218

* A atenção desses peregrinos, e de todos os leitores, será despertada pela história do declínio e queda do império romano, a maior e quiçá a mais espantosa cena da História da humanidade. As diversas causas e os efeitos progressivos vinculam-se a muitos dos acontecimentos mais interessantes dos anais humanos; a política dos Césares, que manteve por tanto tempo o nome e a imagem de uma república livre; as desordens do despotismo militar; o surgimento e o estabelecimento de seitas do cristianismo; a fundação de Constantinopla; a divisão da monarquia; as invasões e colônias dos bárbaros da Germânia e da Cítia; as instituições do direito civil; o caráter e a religião de Maomé; a soberania temporal dos papas; a restauração e decadência do império ocidental de Carlos Magno; as Cruzadas dos latinos no Oriente; as conquistas dos sarracenos e dos turcos; a ruína do império grego; o estado e as radicais mudanças de Roma na Idade Média. O historiador pode aplaudir a importância e a variedade de sua matéria, mas conquanto tenha consciência de suas próprias imperfeições, deve amiúde denunciar a deficiência de seus dados. Foi entre as ruínas do Capitólio que pela primeira vez concebi a idéia de uma obra que distraiu e ocupou perto de vinte anos de minha vida e que, por mais longe que esteja da medida de meus desejos, entrego finalmente à curiosidade e à imparcialidade do público.219

Uma certa característica de Edward Gibbon, conforme se pode depreender de suas palavras, era a sua atração pelo sagrado. Ele escreveu:

Foi em Roma, no dia 15 de outubro de 1764, enquanto os frades descalços entoavam as vésperas de Júpiter, que a idéia de escrever sobre a decadência e a queda da cidade me veio à mente pela primeira vez.220

Igualmente, por sua conexão com o místico e o sagrado, porém de Fonte distinta, certo dia Shoghi Effendi teve a inspiração de erguer um monumento literário em memória dos primeiros cem anos da era bahá'í, cem anos marcados por personagens que entregaram suas vidas para que a Causa que tanto amavam pudesse viver. Foi assim que surgiu seu livro: A Presença de Deus.

Nos textos acima, tivemos um descortinar da amplitude da visão de Gibbon. Quanto ao estilo bem podemos dar razão a seus críticos que consideravam que "havia pontuação demais e parágrafos de menos". No entanto, que solidez de pensamentas e idéias!

Buscaremos transmitir algumas breves impressões sobre três dos escritos do amado Guardião.

O escopo, a largueza de visão, a liberdade do pensamento, a íntima comunhão com as Manifestações Divinas, bem como seus profundos conhecimentos da história espiritual da humanidade, oferecem-nos materiais que tão somente historiadores no futuro poderão adequadamente aquilatar.

O Advento da Justiça Divina

Escrito em 1938, é um livro que aborda o papel, sem precedentes, da juventude na Ordem Mundial de Bahá'u'lláh. Tendo como destinatário os bahá'ís dos Estados Unidos da América e do Canadá, nele, Shoghi Effendi delineia os passos essenciais para o crescimento e desenvolvimento da Fé Bahá'í.

O foco é centrado nos pré-requisitos espirituais de nossas vidas se desejarmos ser dignos da tarefa divina que nos foi confiada.

Em uma carta escrita em seu nome, ele nos diz: "Muita ênfase pode ser dada aos aspectos sociais e econômicos dos Ensinamentos; mas o aspecto moral nunca poderá ser superenfatizado."

Aqui o autor rende tributos à "energia dinâmica que anima os destemidos pioneiros da Ordem Mundial de Bahá'u'lláh". Destaca as qualidades de fidelidade, vigor e minuciosidade que os crentes vêm demonstrando nas realizações do Plano de Sete Anos da América. Aborda a natureza "das crises que se repetem", aludindo a Comunidade Bahá'í como "a principal cidadela que ainda permanece" no continente americano, ao tempo em que traça um perfil das possibilidades do futuro, fazendo alusão "à eleição da Casa Universal de Justiça e seu estabelecimento na Terra Santa, o centro espiritual e administrativo do mundo bahá'í".

É há um tempo um vigoroso chamado para o ensino da Fé e uma preparação para criar-se o "alicerce necessário" sobre o qual iriam estabelecer-se as Instituições Bahá'ís, a nível local e nacional.

A mística que sempre tem animado esta Causa recebe especial atenção neste texto, que decorridos mais de cinco décadas, permanece tão atual quanto o foi à época de sua publicação.

Shoghi Effendi explica o que são as "hostes invisíveis", o que é "a nova raça de homens", o que é "sacrifício em vida", o que é "Providência Divina" e também, dentre outras questões, "porque os Manifestantes de Deus suportam o peso de todas as calamidades" e de forma iluminadora nos responde porque "nenhuma era anterior pode rivalizar esta era em sua glória".

Conclui transmitindo sua visão do despertar da América Latina e do próprio destino da América.

O Dia Prometido Chegou

Em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, Shoghi Effendi dirigiu esta longa carta aos bahá'ís do Ocidente. Nela é esclarecido e explicado o significado da crise desta era. Em pouco mais de 120 páginas Shoghi Effendi aborda a Missão de Bahá'u'lláh e do Báb.

Em seu primeiro parágrafo, defrontamo-nos com o poder de sua palavra:

Uma tempestade de inédita violência varre atualmente a face da terra, e não podemos prever seu curso. Os efeitos imediatos são catastróficos, mas as conseqüências finais serão gloriosas além do que possamos imaginar.221

Cada palavra tem o seu devido valor, seja o do observador atento do cenário mundial, seja o do historiador imparcial ou mesmo o do visionário que confia na ação de uma Providência Divina.

Shoghi Effendi vê as tribulações da humanidade não apenas como "uma calamidade retribuidora" mas também um "ato de disciplina santa e suprema", considerando ser tal estado caótico "uma visitação de Deus" e também "um processo purificador para toda a humanidade".

A atenção do autor detém-se na recepção de indiferença em alguns casos, e de arrogância em outros, que os líderes e governantes do mundo deram a Mensagem de Bahá'u'lláh na segunda metade do século XIX.

O curso da história passa a ser visto da perspectiva dos destinatários da Mensagem, e das suas reações a tão formidável Chamado. Estes receptores detinham a quase totalidade do poder temporal no mundo: Napoleão III (França), Kaiser Guilherme I (Alemanha), Czar Alexandre II (Rússia), Rainha Vitória (Inglaterra), Sultão 'Abdu'l-Azíz (Turquia), Imperador Francisco José (Áustria), Násiri'd-Dín Sháh (Pérsia), governantes da América e também o Papa Pio IX, o clero e crentes de várias fés.

As epístolas de Bahá'u'lláh dirigidas individualmente aos governantes do mundo foram enfáticas e claras. Segundo Shoghi Effendi, Bahá'u'lláh disse-lhes que a não ser que os laços de afeição e unidade entre todos as homens fossem ampliados, a não ser que as nações se unissem em amigável cooperação para trazer paz ao mundo, a não ser que os direitos de todos os homens e especialmente os dos pobres e humildes fossem garantidos e salvaguardados, a não ser que os homens e especialmente os líderes vivessem suas vidas de acordo com o que fosse do agrado de Deus e não de seu próprio agrado - seus reinos, suas possessões, seus privilégios, seus prazeres - todos lhes seriam tirados pelo Senhor da Vinha (O Messias) o qual, então, daria a vinha (a terra) àquelas almas dignas dentre os eleitos, que sobrevivessem da grande aflição que a humanidade teria trazido para si mesma.

Recusando-se, em sua maioria, a atender ao seu Chamado, os destinatários destas inspiradas mensagens tiveram os seguintes destinos, conforme registrado por Shoghi Effendi neste portentoso livro:

O Sultão 'Abdu'l-Azíz, Rei do Império Otomano, foi deposto após uma rebelião do Palácio e assassinado em 1876. A I Guerra Mundial resultou na dissolução do Império Otomano, na abolição do Sultanato e na proclamação de uma República.

Alexandre Nicolau II, o Czar da Rússia, depois de sofrer vários atentados contra sua vida, morreu assassinado, após uma revolução sangrenta que culminou com a perseguição do clero, sendo executado o Czar e sua família, extinguindo-se então a dinastia dos Romanoff.

Francisco José, o Imperador da Áustria e Rei da Hungria, foi engolfado em tragédias e calamidades que afligiram sua nação, criando-se uma república das ruínas de seu vão Santo Império Romano, desaparecendo por conseguinte do mapa político da Europa.

Napoleão III, o Imperador da França que, ao receber a Epístola de Bahá'u'lláh teria declarado: "Se isto é de Deus, sou duas vezes Deus", teve humilhante derrota na Batalha de Sedan (1870) que foi registrada como uma das grandes capitulações militares da história moderna. Ele perdeu seu reino e passou seus últimos anos de vida no exílio, seu império entrou em colapso e uma feroz guerra civil foi seguida pela coroação de William I, o Rei Prussiano, coma Imperador do Império Germânico Unido, que passou a ocupar o Palácio de Versalhes.

Násiri'd-Dín Sháh, o Rei da Pérsia, na plenitude de seu poder, foi assassinado enquanto orava na noite da celebração do seu jubileu, que ficaria na história como o maior dia nos anais da Nação Persa. Seus descendentes foram rápida e ignominiosamente eclipsados, marcando o desaparecimento da dinastia Qajár.

A Rainha Vitória, do Império Britânico, a única cabeça coroada louvada por Bahá'u'lláh por suas ações proibindo o tráfico de escravos e por ter confiado o reino ao conselho dos representantes do povo, foi preservada, sendo a mais longa de qualquer dinastia britânica. Sua bisneta, a Rainha Maria da Romênia, espontaneamente declarou a grandeza da Mensagem de Bahá'u'lláh, vindo a declarar-se sua seguidora.

O Imperador William I, da Alemanha, enfrentou duas tentativas de assassinato. Seu trono foi usurpado por William II, cujo orgulho levou a Europa à Guerra de 1914/1918, precipitando a revolução na capital da Alemanha. A Constituição de Weimar marcou a extinção do Império, em severos termos que provocaram "as lamentações" profetizadas por Bahá'u'lláh em meados do século anterior.

O Papa Pio IX, o inquestionado cabeça da mais poderosa Igreja da Cristandade, foi compelido a submeter-se à deposição do Estado Papal e da própria Roma, na qual a bandeira do Papa havia tremulado por mil anos e, para testemunhar a humilhação das ordens religiosas sob sua jurisdição, terminou seus anos sofrendo de enfermidades físicas e mentais. A virtual extinção da soberania temporal do Papa foi simbolizada pelo reconhecimento formal do Reino da Itália.

Neste livro, Shoghi Effendi aborda a existência de um fenômeno dual, onde de um lado surge a agonia de uma ordem desgastada e atéia, e de outro, as dores do parto de uma "Ordem divina e redentora".

Descreve o relacionamento entre a Maior Civilização, a Maior Justiça e a Maior Paz; descortina as verdades fundamentais da Fé; identifica o único refúgio para nossa civilização; enumera os "falsos deuses da humanidade"; explica as sete velas para alcançar a unidade e aborda, dentre outros temas, qual a posição dos ensinamentos bahá'ís referentes ao patriotismo e à lealdade à nação.

Conclui traçando um perfil incisivo da Grande Era "que está por vir" e identificando o dever de cada bahá'í, "não importando a confusão da cena, nem a perspectiva sombria do momento atual, nem a escassez dos recursos a nosso dispor - de trabalharmos serenamente, prestando nosso quinhão de apoio, confiantes e incansáveis, de qualquer modo que as circunstâncias permitirem à operação das forças dispostas e guiadas por Bahá'u'lláh", que escreve ele, "deverão conduzir a humanidade para fora do vale da miséria e da vergonha, para as mais sublimes alturas de poder e glória".

A Presença de Deus

Um livro de proporções épicas. Emocionante crônica dos primeiros 100 anos da Fé Bahá'í. Este livro equivale a muitos volumes, uma vez que é o resultado de um garimpo que incluiu toda a literatura bahá'í em persa e em inglês. Fontes bahá'ís e não-bahá'ís são igualmente citadas.

Concluído em janeiro de 1944, nascido em anos de grandes provações, em meio a um mundo envolto na mais brutal guerra que a humanidade testemunhara, este livro foi um alento de esperança, uma obra-prima a alertar-nos de que um Deus que é todo amor e compaixão, e que é o Unificador e o Redentor, não nos esqueceria.

Muitas vezes referido como "a história centenária da Causa Bahá'í" este livro é muito mais que isso. É a expressão da genialidade e da visão de Deus. O próprio autor não desejava escrever uma história detalhada dos primeiros cem anos da Fé, mas sim "revisar os feitos mais salientes do nascimento e da elevação da Fé, o estabelecimento de suas Instituições Administrativas e a série de crises que a projetavam de forma misteriosa, através da liberação do poder Divino dentro dela, de vitória a vitória".

Nesta obra monumental, ele aborda, por exemplo:

* O padrão da história religiosa e em particular da história bahá'í, onde muita luz é lançada sobre a dialética de "crise e vitória".

* Sumariza os diversos aspectos dos ensinamentos da Fé Bahá'í, e, em especial, aqueles relacionados com as Dispensações anteriores.

* A natureza do Convênio de Bahá'u'lláh e Sua Ordem Mundial.

* O significado do estabelecimento e do surgimento da Ordem Mundial como sendo a própria Ordem Administrativa ainda embrionária da Fé Bahá'í.

* A posição e o destino do continente americano.

* A posição das Figuras Centrais da Fé: O Báb, Bahá'u'lláh e 'Abdu'l-Bahá, e Sua relação com as religiões anteriores.

* Estratifica o conteúdo dos mais importantes escritos das Figuras Centrais da Fé.

George Townshend, o ex-cônego da Catedral de St. Patrick, em Dublin, ao fazer a introdução deste livro, escreveu:

Esta é uma história de nossos dias, baseada em um tema pouco vulgar -história impregnada de amor e felicidade, de visão e força, que conta triunfos já obtidos e vitórias mais amplas ainda por alcançar; e, embora se desenvolva em quadros de tragédia desoladora, conduz a humanidade, no seu final, não para um futuro tenebroso, inospitaleiro, mas sim, para uma radiosa estrada, liberta de sombras, pela qual há de ir a um destino inevitável - aos descerrados portais da Cidade Prometida, a Cidade da Paz Eterna.222

É uma leitura absorvente. A mística está em ação ao fazer brotar de seus personagens atitudes nobres e heróicas que a posteridade jamais poderá esquecer. A pequenez dos inimigos de Deus recebe também detalhada atenção. O drama é um só: estabelecer o Reino de Deus na Terra, como prometido por todos os Profetas do passado. A um leitor sensível, será um convite terno para "o país das lágrimas". Aqui, a atmosfera torna-se rarefeita de devoção e cada fato produz um efeito avassalador. Os parâmetros divinos são diversos dos humanos.

O lirismo e a poesia estão presentes em passagens singelas e evocativas de um amor que a tudo abrasa e aquece... e como nos sentimos carentes de tal amor!

Recordemos uma das páginas deste livro, onde Shoghi Effendi deixa-se transportar para o coração de 'Abdu'l-Bahá que aos 69 anos veio ao Ocidente proclamar a Mensagem de Seu Pai, e remete-nos a esta comovente reflexão:

Quem poderá saber quais as recordações que se agitavam dentro dele ('Abdu'l-Bahá), quando se defrontou com as águas tonitruantes do Niágara, respirando o ar de liberdade de uma terra bem distante, ou contemplou, por ocasião de um breve descanso, os campos verdes de Glenwood Springs, ou locomovia-se com um séqüito de crentes orientais pelos caminhos dos jardins do Trocadero em Paris, ou quando, ao anoitecer, passeava sozinho ao longo do majestoso Hudson em Riverside Drive em New York ou andava pelo terraço do Hotel Du Parc em Thonom-les-Bains, com vista para o Lago de Genebra, ou quando apreciava, de Serpentine Bridge em Londres, a corrente perolada de luzes por baixo das árvores, estendendo-se até onde o olhar podia abarcar?

Recordações dos sofrimentos, da pobreza, das calamidades que sempre ameaçaram Seus primeiros anos;

Recordações de Sua mãe, que vendeu seus botões de ouro para prover o sustento dEle e dos irmãos, e que foi forçada, nos momentos mais atrozes, a colocar um punhado de farinha seca na palma de Sua mão para mitigar-lhe a fome;

Recordações da infância, quando era perseguido e ridicularizado por um bando de brutos nas ruas de Teerã;

Do quarto úmido e sombrio, que anteriormente servira de necrotério, ocupado por Ele, quando detido no quartel de 'Akká, e do encarceramento na masmorra daquela cidade - recordações como estas, por certo, povoavam-Lhe a mente.

Devem ter-Lhe ocorrido, também, pensamentos relacionados com o cativeiro do Báb nos redutos montanhosos do Azerbaijão, quando à noite era-Lhe negada uma simples lâmpada, como também a lembrança de Sua execução cruel e trágica, quando centenas de balas crivaram-Lhe o peito juvenil.

Acima de tudo devem Seus pensamentos ter-se centralizado em Bahá'u'lláh, a Quem amava tão apaixonadamente, Cujas provações presenciara e Cujos sofrimentos compartilhara desde a meninice.

O Siyáh-Chál de Teerã, infestado de bichos repugnantes; a bastonada que Lhe infligiram em Amul;

A humilde comida com que enchiam Seu kashkul quando vivia como um dervixe nas montanhas do Curdistão;

Os dias em Bagdá, quando não possuía uma muda de roupa sequer, e Seus discípulos alimentavam-se com um punhado de tâmaras;

O encarceramento dentro dos muros de 'Akká, onde por nove anos foi-Lhe negada até a vista da vegetação;

E a humilhação a que foi submetido na sede do governo daquela cidade - quadros como esses, pertencentes a um passado trágico, devem frequentemente tê-Lo tornado preso de sentimentos que eram um misto de gratidão e de pesar, ao testemunhar as inúmeras demonstrações de respeito, de estima, e as honrarias que Lhe eram agora prodigalizadas e que eram também proporcionadas à Fé que Ele representava.

"Ó Bahá'u'lláh! Que fizeste Tu!" - ouviu-se-Lhe exclamar certa tarde, quando era conduzido rapidamente, para atender ao terceiro compromisso daquele dia, em Washington, segundo relatou a cronista de Suas viagens - "Ó Bahá'u'lláh! Que a Minha vida seja sacrificada por Ti! Ó Bahá'u'lláh! Que minha alma seja oferecida por Teu amor! Quão prenhes de provações foram Teus dias! Quão rigorosos os sacrifícios por que passaste! Quão sólidos os alicerces que lançaste finalmente e quão glorioso o estandarte que levantaste!"

"Certo dia, quando Ele passeava", testificou a mesma cronista, "evocou os dias da Abençoada Beleza, referindo-Se com tristeza à Sua estada no Sulaymáníyyih, a Sua solidão e as injustiças que Lhe fizeram. Embora tivesse relembrado muitas vezes esse episódio, a emoção dominou-O tanto naquele dia, que soluçou de maneira audível, Seu pesar.... Todos os que O acompanhavam choraram com Ele e ficaram imersos em tristeza quando ouviram a relato das provações funestas por que passou a Antiga Beleza, e testemunharam a meiguice de coração que Seu filho demonstrou."223

A Presença de Deus não se concentra muito, como pode parecer, nos detalhes dos eventos da Fé, mas antes, detém-se no significado destes eventos. Dividido em quatro períodos, e com 26 capítulos, pode ser devidamente considerado um material único em sua temática e estilo nos anais da história espiritual da raça humana.

Tomando por empréstimo as palavras do renomado teólogo Karl Barth ao afirmar que "quando os anjos estavam ocupados em sua tarefa de louvor a Deus, executavam a música de Bach, mas quando 'reunidos em família' ouviam a música de Mozart", podemos, igualmente, afirmar que estes mesmos anjos meditavam através da leitura das Sagradas Escrituras, mas, também quando reunidos 'em família', encontravam deleite na leitura de A Presença de Deus. E os anjos devem possuir um senso bastante apurado de misticismo e espiritualidade, já que são anjos!

Capítulo 12
O Tempo como Testemunha

Um ministério de ininterrupto amor e servitude como foi o de Shoghi Effendi somente poderá ser devidamente analisado em épocas futuras, uma vez que estamos próximos demais de seus feitos.

Não obstante, podemos estar seguros de que os desafios e problemas que foram enfrentados pelos estadistas, governantes, líderes e pensadores, afiguram-se pálidos à luz dos grandes desafios que a ele coube enfrentar.

Além de dar feições distintivas à Ordem Mundial de Bahá'u'lláh, que estava tomando forma como guia e refúgio para a inteira humanidade, assegurar a pureza original do Texto Sagrado que ele tão bem soube interpretar e proteger, adicione-se, ainda, que em cada dia de sua existência ele testemunhou o padrão de crescimento desta Fé, e descreveu, em 1944, este padrão como "...uma série de pulsações, de crises alternadas com triunfos, que a conduz cada vez mais para perto do seu destino divinamente pré-determinado".224

Crises e Triunfos. Duas palavras com significados profundos de vida, amor e morte. Duas palavras muito familiares na vida e no pensamento de Shoghi Effendi.

Nas 214 passagens a seguir enunciadas, atravessando 54 anos relacionados com sua vida, as crises e os triunfos são os lados de uma mesma medalha e convidam-nos insistentemente a meditar sobre a grande bênção que tivemos em receber tão amoroso Guardião.

1897

1º de março - equivalente ao 27º dia de Ramadán do ano 1314 do calendário muçulmano, um domingo, nasce Shoghi Effendi em uma casa conhecida como a Casa de Abdulláh Páshá, em 'Akká (Palestina), filho de Mírzá Hájí Shirází, parente do Báb e de Díyyá'íyyih Khánum, filha mais velha de 'Abdu'1-Bahá.

1898

10 de dezembro - chega à Terra Santa o primeiro grupo de peregrinos bahá'ís do Ocidente, sendo recepcionados por 'Abdu'l-Bahá na casa de Abdulláh Páshá.

1899

Março - é registrado o primeiro relato escrito por um ocidental, Ella Goodall Cooper, sobre a infância e a ligação espiritual de Shoghi Effendi, então com dois anos, com seu Avô, 'Abdu'l-Bahá.

Neste ano, chegam à Terra Santa os abençoados restos mortais do Báb.

1901

20 de agosto - 'Abdu'l-Bahá é reencarcerado na cidade-prisão de 'Akká, atualmente Israel.

1902

Tem início a construção do Templo Bahá'í de Ishqabád, Rússia.

1907

Thorthon Chase, o primeiro bahá'í norte-americano, conhece Shoghi Effendi, então com 10 anos de idade.

1908

Setembro - com a revolução dos Jovens Turcos, 'Abdu'l-Bahá é libertado da prisão.

1909

21 de março - tem início a primeira Convenção Bahá'í dos Estados Unidos da América.

1910

6 de agosto - a Dra. J. Fallscheer, após uma visita médica ao lar de 'Abdu'l-Bahá, escreve suas impressões sobre Shoghi Effendi, então com 13 anos de idade. Em seu relato, recorda que se referindo a Shoghi Effendi, ela disse a 'Abdu'l-Bahá: "Mestre, se posso falar abertamente, devo dizer que em seu rosto de criança existem olhos escuros de um sofredor, de alguém que muito sofrerá!" Ao que o Mestre respondeu: "Meu neto não tem olhos de quem abre novas sendas, de um lutador ou de um vencedor, mas em seus olhos, pode-se observar profunda lealdade, perseverança e meticulosidade..."225

1911

16 de abril - Louis Gregory, o primeiro bahá'í da raça negra designado Mão da Causa de Deus, conhece Shoghi Effendi, que se encontrava na ocasião em Ramleh, um subúrbio de Alexandria.

1912

25 de março - 'Abdu'l-Bahá, Shoghi Effendi e vários secretários iniciam uma viagem à Europa, partindo de Alexandria a bordo do vapor SS Cedric, da linha White Star. Ao chegar em Nápoles, Shoghi Effendi e dois servos de 'Abdu'l-Bahá são instados pelas autoridades sanitárias italianas a retornarem a Terra Santa. Suspeitavam que eles estivessem doentes dos olhos.

1913

16 de junho - 'Abdu'l-Bahá chega ao Egito, regressando de Sua longa viagem, aos 69 anos, exausto pela intensa maratona cumprida no Ocidente. Shoghi Effendi, pouco tempo depois, reunisse a Ele.

1914

3 de maio - Shoghi Effendi escreve a um amigo que, retornando aos estudos no Colégio Protestante Sírio, em Beirute, "está reorganizando as atividades e as reuniões bahá'ís".226

28 de julho - Shoghi Effendi escreve a um amigo bahá'í, Said Mustafá Rumí, na Burma, que o Mestre lhe dissera que "aonde quer que escute as boas novas da Causa minha saúde física progride e melhora".227

1915

Fevereiro - Shoghi Effendi conquista o Primeiro Prêmio dos Estudantes Adjudicados, outorgado pela União dos Estudantes.

1918

19 de novembro - Shoghi Effendi comunica a um amigo na Inglaterra que concluiu seu Curso de Artes e Ciências, na Universidade Americana de Beirute.

1919

Abril - Shoghi Effendi escreve sobre a dor, a fome, a desolação e o derramamento de sangue que a I Grande Guerra causa na Palestina, havendo crescentes ameaças de bombardeio em Haifa, fazendo com que 'Abdu'l-Bahá se mude com Sua família para uma aldeia aos pés de uma montanha.

27 de setembro - Star of the West publica uma foto de Shoghi Effendi com a legenda O neto de 'Abdu'l-Bahá e informa que ele é o tradutor de Epístolas recentes do Mestre.

1921

5 de maio - um bahá'í indiano registra que Shoghi Effendi deu uma palestra para os bahá'ís em Lindsay Hall, Londres.

22 de novembro - Shoghi Effendi, estudante em Oxford, envia ao Sr. Hall sua versão em inglês da Epístola de Bahá'u'lláh à Rainha Vitória, assinalando que "este mundo triste e desiludido necessita" daqueles conselhos "com urgência!"228

29 de novembro - as 9:30 horas, no escritório de Tudor Pole em Londres, chega o telegrama fatídico que diz: SUA SANTIDADE 'ABDU'L-BAHÁ ASCENDEU REINO ABHÁ. INFORMEM AMIGOS. A FOLHA MAIS SAGRADA. Ao meio-dia Shoghi Effendi toma conhecimento do telegrama. Sente o mundo desabar à sua volta. Neste mês, o Dr. John Esslemont, do Sanatório Bournemouth, próximo a Londres, escreve uma emocionante carta a Shoghi Effendi na qual diz: "...que irás fazer agora? Suponho que retornarás a Haifa o mais breve possível. Entretanto serás muito bem-vindo aqui... envia-me um telegrama e providenciarei um quarto para ti..."229 Shoghi Effendi aceita o convite.

1922

3 de janeiro - na Terra Santa é oficialmente lida em voz alta a Última Vontade e Testamento de 'Abdu'l-Bahá na presença de nove homens, na maioria membros da Sua família, incluindo a Folha Mais Sagrada. Shoghi Effendi, que antes havia estado no Santuário do Báb e no Túmulo de 'Abdu'l-Bahá, não participou desta solenidade.

7 de janeiro - a Última Vontade e Testamento de 'Abdu'l-Bahá é lida na presença de bahá'ís da Pérsia, Índia, Egito, Inglaterra, Itália, Alemanha, Estados Unidos e Japão. Por motivos de saúde e por "delicadeza de sua parte", Shoghi Effendi também não participou desta reunião.

Neste mesmo dia, a Folha Mais Sagrada envia telegrama à Pérsia comunicando: REALIZARAM-SE REUNIÕES COMEMORATIVAS EM TODO O MUNDO. O SENHOR DE TODOS OS MUNDOS REVELOU SUAS INSTRUÇÕES EM SUA VONTADE E TESTAMENTO. SERÁ ENVIADA COPIA. INFORMEM CRENTES.230

9 de janeiro - Shoghi Effendi designa o Conselho Internacional Bahá'Í.

16 de janeiro - a Folha Mais Sagrada telegrafa à América comunicando que Shoghi Effendi foi designado Guardião por 'Abdu'l-Bahá, em Sua Vontade e Testamento.

Ainda nesta data, Shoghi Effendi escreve aos bahá'ís persas animando-os a permanecerem firmes, a protegerem a Fé, e compartilhando com eles sua dor pelo falecimento do amado Mestre.

22 de janeiro - Shoghi Effendi envia telegrama aos bahá'ís norte-americanos: FOLHAS SAGRADAS ALENTADAS INQUEBRANTÁVEL LEALDADE E NOBRE RESOLUÇÃO AMERICANOS. DIA DE FIRMEZA. ACEITEM MINHA AFETUOSA COOPERAÇÃO.231

24 de janeiro - Sir Herbert Samuel, Alto Comissário Britânico para a Palestina, escreve-lhe expressando sua preocupação de que o falecimento de Sir 'Abdu'l-Bahá lhe impedisse de continuar seus estudos em Oxford.

30 de janeiro - Rompedores do Convênio apoderam-se das chaves do Santuário de Bahá'u'lláh em Bahjí, que se encontravam nas mãos do administrador bahá'í, alegando seu direito de Muhammad 'Alí "ser o responsável legal do lugar de repouso de Seu Pai". As autoridades resolvem então lacrar as portas de acesso ao Santuário.

Fevereiro - em carta a um primo distante, Shoghi Effendi desabafa sua amargura e "remorso por não ter estado com Ele em Seus últimos dias nesta terra..."232

19 de março - Shoghi Effendi escreve a um dos professores da Universidade Americana em Beirute informando-o de sua posição: "Em resposta à sua pergunta se fui designado oficialmente para representar a Comunidade Bahá'í: Em Seu Testamento 'Abdu'l-Bahá designou-me como cabeça do conselho universal que deve ser eleito em seu devido tempo pelos conselhos nacionais que representam os seguidores de Bahá'u'lláh em diversos países..."233

5 de abril - Shoghi Effendi, sob pressões e "sofrimentos inigualáveis" parte de Haifa com destino a Europa, visitando os Alpes Berneses na Suíça, com o intuito de descansar e restabelecer-se, e em breve retornar a Haifa, reassumindo suas responsabilidades. A Causa fica sob o comando da Folha Mais Sagrada.

21 de abril - Os Santuários do Báb e de Bahá'u'lláh recebem iluminação elétrica. Embora Shoghi Effendi não estivesse em Haifa, os planos delineados por 'Abdu'l-Bahá estavam sendo postos em ação.

15 de dezembro - Shoghi Effendi retorna de seu retiro voluntário para assumir suas tarefas em Haifa. Escreveu um dia depois: "...apesar de que esse período tenha sido muito prolongado, sem dúvida tenho sentido que a partir deste momento amanheceu para mim um Novo Dia, que um retiro tão necessário... sobrepujaria em muito em seus resultados, qualquer serviço imediato que tivesse podido render no Limiar de Bahá'u'lláh."234

Neste ano, Shoghi Effendi conclui sua primeira tradução inglesa, como Guardião, das Escrituras Sagradas Bahá'ís: As Palavras Ocultas de Bahá'u'lláh.235

1923

20 de janeiro - Bahá'ís norte-americanos telegrafam a Shoghi Effendi: AMÉRICA REGOZIJADA NOMEAÇÃO LHE OFERECE SEUS DEVOTOS SERVIÇOS COOPERAÇÃO.236

Janeiro - Shoghi Effendi faz um apelo à Comunidade Bahá'í do Mundo para ter um ajudante "competente em meu trabalho atual de tradução".237 O Dr. John Esslemont, seu amigo desde os tempos de estudos na Inglaterra, oferece-se para esta função, mudando sua residência para Haifa.

8 de fevereiro - tem desfecho favorável o processo legal para recuperação da custódia do Santuário de Bahá'u'lláh. Nesta data, um primo de Shoghi Effendi, em Jerusalém, transmite-lhe o seguinte telegrama: SUA EMINÊNCIA SHOGHI EFFENDI RABBANI, HAIFA. CARTA RECEBIDA. PASSOS IMEDIATOS TOMADOS. A DECISÃO FINAL DO ALTO COMISSÁRIO É EM NOSSO FAVOR. A CHAVE É SUA.238

16 de fevereiro - declaração do primeiro nativo bahá'i do Havaí, Mae Tilton Fantom.

Fevereiro - devido às maquinações dos rompedores do Convênio, Shoghi Effendi escreve aos Estados Unidos que todas as correspondências devem ser postadas via registrada.

12 de março - Shoghi Effendi convoca o estabelecimento dos Fundos Bahá'ís, Local e Nacional.

Março - Shoghi Effendi envia aos bahá'ís da América sua tradução revisada de As Palavras Ocultas de Bahá'u'lláh.

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O GUARDIÃO
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O TÚMULO DE SHOGHI EFFENDI EM LONDRES

Mármore branco de Carrara, uma coluna Coríntia, um globo destacando o mapa da África e sua águia em estilo japonês.

Ainda neste ano:

* Shoghi Effendi busca a solidão dos Alpes suíços para descansar, refletir e "comungar consigo mesmo". Regressará em novembro do mesmo ano.

* Shoghi Effendi escreve uma carta aos bahá'ís da América intitulada América e a Maior Paz, referindo-se ao papel que Deus destinou a essa parte do mundo.

* Shoghi Effendi escreve à Assembléia Nacional da Índia e da Birmânia orientando que elas deviam incluir mulheres bahá'ís em todas as atividades administrativas em iguais condições com os homens.

* Em sua segunda carta geral sobre administração bahá'í, informa o estabelecimento das Assembléias Espirituais Nacionais da Inglaterra, Alemanha e Índia.

1924

5 de abril - em Turshíz, Khurasán (Irã), dois bahá'ís são espancados até a morte: Shaykh Abdu'l-Majíd e Sadíqu'l-Ulamá.

22 de junho - em Firúzábád, na província de Fárs (Irã), Aqá Husayn-'Alí é martirizado.

18 de julho - em Teerã, distúrbios anti-bahá'ís culminam com o assassinato do vice-cônsul americano, Major Robert Imbric, sob a acusação de que ele era um bahá'í, embora de fato, não o fosse.

- Neste ano é estabelecida a Assembléia Espiritual Nacional do Egito.

1925

10 de maio - a Corte Religiosa de Apelações de Beba, no Egito, ao julgar o casamento entre bahá'ís e muçulmanos, faz uma histórica declaração de independência da Fé: "A Fé Bahá'í é uma nova religião, inteiramente independente, com crenças, princípios e leis próprias... Portanto, nenhum bahá'í pode considerar-se muçulmano, nem vice-versa..."239

22 de novembro - falece prematuramente em Haifa, aquele que era "seu mais íntimo amigo, um conselheiro de confiança, um colaborador infatigável, um afetuoso companheiro", o Dr. John E. Esslemont.

31 de outubro - com a deposição de Ahmad Sháh, termina a Dinastia Qajár, no Irã.

30 de novembro - Shoghi Effendi designa Mão da Causa de Deus postumamente, o Dr. John E. Esslemont.

Ainda neste ano, Shoghi Effendi introduz as qualificações definitivas para afiliação à Fé de Bahá'u'lláh.

1926

30 de janeiro - no Palácio Controceni, em Bucareste, Martha Root tem a primeira de suas oito entrevistas com a Rainha Maria da Romênia, a pedido da própria Rainha, que havia recebido o livro Bahá'u'lláh e a Nova Era que Martha havia lhe enviado.

Fevereiro - Shoghi Effendi escreve a um crente: "Encontro-me submerso em um mar de atividades, angústias e preocupações. Minha mente está profundamente cansada e sinto que estou voltando a ser ineficiente e lento devido à fadiga mental."240

11 de abril - Shoghi Effendi recebe telegrama de Shiráz que dizia cruamente: DOZE AMIGOS DE JAHROM FORAM MARTIRIZADOS. A AGITAÇÃO PODE ESTENDER-SE A OUTRAS LOCALIDADES. No mesmo dia, responde: HORRORIZADO REPENTINA CALAMIDADE. SUSPENDAM ATIVIDADES. FAÇAM CONTATO AUTORIDADES CENTRAIS. COMUNIQUEM PARENTES PROFUNDOS SENTIMENTOS DE PESAR.241

4 de maio - o jornal canadense, Toronto Daily Star, publica uma declaração da Rainha Maria da Romênia referindo-se à Fé. A 29 de maio, Shoghi Effendi, em uma carta confidencial, escreve que esta publicação foi "o acontecimento mais surpreendente e altamente significativo no progresso da Causa".242

29 de junho - em Zavaríh, próximo a Isfahán (Irã), três bahá'ís são martirizados: Aqá Asadulláh, Aqá Siyyid Rafí'á e Aqá Hasan.

21 de agosto - Shoghi Effendi escreve à Assembléia Nacional Americana: "No Times lemos que a Rainha Maria da Romênia visitará a América. Parece que a Causa tem-lhe despertado grande interesse. É por isso que devemos estar atentos... os amigos devem comportar-se com grande reserva e sabedoria e não devem tomar nenhuma iniciativa sem prévia consulta com a Assembléia Nacional."243

27 de agosto - a Rainha Maria da Romênia escreve a Shoghi Effendi: "Fiquei profundamente emocionada ao receber sua carta. Na verdade uma grande luz aproximou-se de mim com a mensagem de Bahá'u'lláh e 'Abdu'1-Bahá... Com a cabeça inclinada reconheço que também eu sou somente um instrumento em Mãos mais poderosas e regozijo-me com este conhecimento."244

30 de agosto - Shoghi Effendi escreve: "Estou considerando diligentemente a forma e os meios para a formação de algum tipo de Secretariado eficiente e competente em Haifa..."245

1927

25 de marco - em Ardibíl, no Azerbaijão, 'Aqá 'Abdu'l-Azím é martirizado.

Março - Shoghi Effendi escreve a Martha Root: "...te asseguro, minha queridíssima Martha, que onde quer que estejas, seja na Escandinávia, na Europa Central, na Rússia, na Turquia ou na Pérsia, minhas fervorosas e contínuas orações te acompanharão, e confio que serás protegida, fortalecida e guiada no cumprimento de tua missão única e sem precedentes como a defensora exemplar da Fé Bahá'í."246

19 de junho - em Kirmán (Irã), Karbalá'í Asadu'lláh-i-Saqátfurúsh é martirizado.

Neste ano é redigido e adotado o Estatuto nacional bahá'í "formulado e promulgado pelos representantes eleitos da Comunidade Bahá'í Americana". Shoghi Effendi sobre ele escreveu que "era uma exposição digna e fiel da base constitucional das Comunidades Bahá'ís em todos os países".247

1928

27 de maio - falece, Hájí 'Abu'l-Hasan (Hájí Amin), Mão da Causa de Deus.

22 de junho - os bahá'ís de Ishqabád, na Rússia, informam a Shoghi Effendi que o governo soviético através de uma Resolução Geral de 1917 havia nacionalizado todos os Templos. Oferece aos bahá'ís o direito de arrendamento por quantia bastante elevada. Caso não aceitassem, o Templo seria vendido em partes a terceiros. Shoghi Effendi orienta as Assembléias Nacionais a defenderem os bahá'ís da Rússia, refutando as acusações que lhes eram imputadas. Dois anos depois Shoghi Effendi telegrafa à Assembléia de Ishqabád: CUMPRAM DECISÃO AUTORIDADES ESTADO.248

13 de dezembro - o Tribunal Criminal da Turquia realiza um julgamento pleno e imparcial da Fé. "Nunca na história bahá'í", escreveu Shoghi Effendi, "os funcionários oficiais de um Estado pediram aos seguidores de Bahá'u'lláh que lhes apresentassem a história e os princípios da Fé". O coordenador da Assembléia Local de Istambul citou Bahá'u'lláh, dizendo perante a Corte: "Ante a justiça, dize a verdade e nada mais."249

1929

14 de fevereiro - tem início a construção de três salas adicionais do Santuário do Báb.

3 de março - é aprovado pelo Conselho da Liga das Nações resolução apoiando a reivindicação dos bahá'ís, da Casa de Bahá'u'lláh em Bagdá.

4 de maio - o Governo Britânico na Palestina autoriza a Comunidade Bahá'í de Haifa a administrar de acordo com a lei, assuntos de foro pessoal como o matrimônio, colocando a Fé assim, em condições de igualdade com as comunidades: judaica, muçulmana e cristã. Shoghi Effendi referiu-se a esta ação como "uma ação de tremendo significado e sem precedentes na história da Fé em qualquer país".250 Foi assim que o próprio casamento do Guardião pode tornar-se legal ante as leis do país.

15 de junho - Shoghi Effendi escreve que "enquanto as diversas Assembléias Espirituais Nacionais não estiverem em uma situação estável e bem organizadas, seria impossível estabelecer, inclusive, uma Casa de Justiça informal..."251

27 de novembro - tem início a restauração da Mansão de Bahá'u'lláh, em Bahjí, Israel.

5 de dezembro - Shoghi Effendi toma posse do Palácio de Qárs, a Casa de Udi Kammár, conhecida também como a Mansão de Bahá'u'lláh e onde "Bahá'u'lláh passou os anos mais tranqüilos e felizes de Sua vida" e que esteve por mais de 40 anos nas mãos de Alí Muhammad e outros rompedores do Convênio.

Neste ano Shoghi Effendi escreve uma carta geral intitulada "A Ordem Mundial de Bahá'u'lláh".

1930

4 de julho - Shoghi Effendi escreve: "Sinto-me profundamente cansado após um ano de trabalho árduo, especialmente porque consegui adicionar às minhas tarefas a tradução do Kitáb-i-Iqán, a qual já enviei a América."252

Nesse ano Shoghi Effendi escreve uma carta geral intitulada: A Ordem Mundial de Bahá'u'lláh - Considerações Adicionais.

1931

3 de março - em carta a Martha Root, Shoghi Effendi escreve referindo-se a Narrativa de Nabíl / Os Rompedores da Alvorada: "Após oito meses de trabalho árduo e contínuo, acabo de concluir a tradução da história dos primeiros dias da Causa. A obra conta com aproximadamente 600 páginas e outras 200 páginas de notas adicionais que tenho selecionado de diferentes livros durante os meses do verão..." Shoghi Effendi dedicou a monumental obra com estas palavras:

À FOLHA MAIS SAGRADA,

A ÚLTIMA SOBREVIVENTE DE UMA IDADE HERÓICA E GLORIOSA.

DEDICO ESTA OBRA EM SINAL DE IJMA GRANDE DÍVIDA
DE GRATIDÃO E AMOR.253
Ainda neste ano:

Shoghi Effendi conclui o trabalho de restauração da Mansão de Bahá'u'lláh, ficando aquele edifício renovado e remobiliado com toda a sua beleza original.

A redação dos Estatutos da Assembléia Espiritual dos Bahá'ís de Nova Iorque foi outro grande passo na evolução da Ordem Administrativa Bahá'í. Sobre este documento, Shoghi Effendi escreveu: "ele... servirá como uma pauta para todas as Assembléias Locais Bahá'ís na América e será um modelo para todas as comunidades locais no mundo bahá'í."254

Shoghi Effendi, desejando informar ao público em geral a atitude da Fé diante de problemas econômicos e políticos importantes, bem como informar o verdadeiro propósito de Bahá'u'lláh, escreve sua carta geral intitulada A Meta de uma Nova Ordem Mundial.

Martha Root concede a primeira entrevista de um bahá'í na Radio KGU, no Havaí.

É estabelecida a Assembléia Espiritual Nacional do Iraque.

1932

15 de julho - falece Bahiyyih Khánum, a Folha Mais Sagrada, em Haifa, Israel. Shoghi Effendi encontrava-se em Interlaken, na Suíça.

19 de novembro - chega ao porto de Haifa o monumento que embelezará o Túmulo de Bahiyyih Khánum, a Folha Mais Sagrada, nas encostas do Monte Carmelo.

Ainda neste ano:

Shoghi Effendi escreve sua carta geral intitulada A Idade Áurea da Causa de Bahá'u'lláh, uma exposição magistral da divindade de Sua Fé que, conforme ele escreveu, "se alimenta de fontes ocultas do poder celestial".

É publicado, ainda neste ano A Narrativa de Nabíl ou Os Rompedores da Alvorada, tradução imortal de Shoghi Effendi, iniciada em 1930. Esta tradução pode ser colocada, segundo Rúhíyyih Khánum, entre "as narrativas clássicas e épicas da língua inglesa". Sobre esta obra o dramaturgo Gordon Bottomby disse que "viver com esta obra tem sido uma experiência que se destaca em uma vida; e mais que isso, é uma experiência comovedora tanto em si quanto pela luz psicológica que ela lança sobre o Novo Testamento".255

1933

28 de outubro - Shoghi Effendi informa o falecimento, em 23 de outubro, de Keith Ransom-Kehler na Pérsia, onde seguiu com a missão a ela confiada por Shoghi Effendi para entrevistar-se com o Xá e interceder pelos perseguidos bahá'ís persas. Shoghi Effendi designou-a como "a primeira e distinguida mártir norte-americana". Nesta data Shoghi Effendi comunica sua designação como Mão da Causa de Deus.

1934

8 de fevereiro - Shoghi Effendi escreve sua mensagem intitulada A Dispensação de Bahá'u'lláh, dirigida "Aos Amados de Deus e Servos do Misericordioso em todo Ocidente".

10 de maio - Shoghi Effendi consegue junto às autoridades governamentais da Palestina "a isenção de impostos sobre a totalidade da área em volta do Santuário, no Monte Carmelo".256

9 de dezembro - as Escolas Bahá'ís Tarbiyát, em Teerã, são fechadas por ordem do governo iraniano.

Neste ano são estabelecidas as Assembléias Espirituais Nacionais do Irã e da Nova Zelândia.

1935

Shoghi Effendi oferece aos bahá'ís ocidentais a tradução de Seleções dos Escritos de Bahá'u'lláh que "é constituído das passagens mais características e até agora não publicadas das obras principais do Autor da Revelação Bahá'í".

1936

23 de janeiro - Shoghi Effendi escreve à Rainha Maria da Romênia agradecendo pelo "maravilhoso testemunho que Vossa Majestade tem feito" para publicar no Bahá'í World.

4 de fevereiro - Martha Root tem sua última entrevista com a Rainha Maria da Romênia.

18 de fevereiro - Shoghi Effendi volta a agradecer a Rainha Maria da Romênia pelo envio através de Martha Root, do original de seu histórico testemunho sobre a Fé de Bahá'u'lláh.

Neste ano, Shoghi Effendi escreve O Desenvolvimento da Civilização Mundial, onde expõe a situação do mundo, o rápido declínio político, moral e espiritual que estavam evidentes, a debilidade tanto do cristianismo quanto do islamismo, os perigos que a humanidade corria devido à sua negligência e o remédio divino trazido por Bahá'u'lláh.

1937

25 de março - Shoghi Effendi e Rúhíyyih Khánum, após visita ao Santuário de Bahá'u'lláh, tendo ele recitado a Epístola de Visitação, seguem para os aposentos da Folha Mais Sagrada, onde é celebrada a simples, mas tocante, cerimônia de seu casamento. A mãe de Shoghi Effendi envia este telegrama à América: ANUNCIEM ASSEMBLÉIAS REALIZAÇÃO CASAMENTO AMADO GUARDIÃO. HONRA INESTIMÁVEL CONFERIDA SOBRE SERVA DE BAHÁ'U'LLÁH RÚHÍYYIH KHÁNUM SRTA. MARY MAXWELL. UNIÃO DO ORIENTE E OCIDENTE PROCLAMADA PELA FÉ BAHÁ'Í FOI ASSEGURADA. DÍYYA'IYYIH MÃE DO GUARDIÃO.257

Abril - tem início o primeiro Plano de Sete Anos da América.

Maio - em Yazd, vários bahá'ís proeminentes são aprisionados durante quatro anos em Teerã e um deles morre na prisão.

Neste ano Shoghi Effendi conclui a tradução de Orações e Meditações de Bahá'u'lláh.

1938

30 de abril - Shoghi Effendi envia telegrama ao mundo bahá'í informando o falecimento da bem-amada esposa de 'Abdu'l-Bahá: SANTA MÃE MUNIRIH KHÁNUM ASCENDEU REINO ABHÁ. COM SUA RICA MOMENTOSA VIDA MARCADA SERVIÇOS ÚNICOS QUE VIRTUDE SUA EXALTADA POSIÇÃO ELA RENDEU DURANTE TENEBROSOS DIAS VIDA 'ABDU'L-BAHÁ. TODAS FESTIVIDADES RIDVÁN SUSPENSAS. INFORMEM DELEGADOS CONVENÇÃO DEVOTAR SESSÃO ESPECIAL SUA MEMÓRIA ASSEGURANDO CONDIGNA REUNIÃO MASHRIQU'L-ADHKÁR. SHOGHI.258

25 de dezembro - Shoghi Effendi escreve sua mensagem intitulada O Advento da Justiça Divina, dirigida "Aos Bem-Amados de Deus e às Servas do Misericordioso em toda parte dos Estados Unidos e do Canadá". Esta mensagem foi escrita durante o ano em que Shoghi Effendi passou na Europa, devido às atividades terroristas que se desenvolviam na Palestina.

1939

28 de setembro - em Honolulu, falece aquela que foi "o Arquétipo do Instrutor Viajante Bahá'í", Martha Root.

2 de outubro - Shoghi Effendi designa Mão da Causa de Deus postumamente, Martha Root.

5 de dezembro - Shoghi Effendi telegrafa à Assembléia Nacional dos Estados Unidos: ABENÇOADOS RESTOS RAMO MAIS PURO E MÃE MESTRE TRASLADADOS A SALVO RECINTOS SAGRADOS SANTUÁRIOS MONTE CARMELO. APAGADA HUMILHAÇÃO AMPLAMENTE PERPETUADA. MAQUINAÇÕES VIOLADORES CONVÊNIO FRUSTRAR PLANO DERROTADAS. DESEJO ACARICIADO FOLHA MAIS SAGRADA CUMPRIDO. IRMÃ, IRMÃO, MÃE, ESPOSA 'ABDU'L-BAHÁ REUNIDOS UM LUGAR ASSINALADO CONSTITUIR CENTRO FOCAL INSTITUIÇÕES ADMINISTRATIVAS NO CENTRO MUNDIAL FÉ...259

Neste ano tem início a disputa pública pelo nome bahá'í entre a Assembléia Espiritual Nacional dos Estados Unidos e Ahmad Sohrab, um rompedor do Convênio.

1940

Shoghi Effendi conclui a tradução de A Epístola ao Filho do Lobo, revelada por Bahá'u'lláh. Nela está contida uma seleção dos escritos de Bahá'u'lláh, feita por Ele Mesmo durante os dois últimos anos de Sua vida.

3 de março - Shoghi Effendi anuncia o falecimento de May Bolles Maxwell. Aos 70 anos ela seguiu para a América do Sul para estabelecer-se como pioneira, vindo a falecer de um ataque cardíaco quase que imediatamente após sua chegada a Buenos Aires. Ela que foi a Mãe Espiritual da França e do Canadá, escreve então Shoghi Effendi, "ao laço sagrado que forjaram seus assinalados serviços foi agora agregado inestimável honra de uma morte de mártir. Dupla coroa foi ganha com méritos".260

2 de junho - Shoghi Effendi e Rúhíyyih Khánum deixam St. Malo, fronteira da França com Inglaterra, um dia antes da ocupação militar da cidade.

28 de julho - Shoghi Effendi e Rúhíyyih Khánum partem da Inglaterra com destino à África do Sul.

1941

17 de fevereiro - falece, John Henry Hyde-Dunn, Mão da Causa de Deus, em Sidney, Austrália.

28 de março - Shoghi Effendi escreve sua mensagem intitulada O Dia Prometido Chegou dirigida "aos Amados de Deus e às Servas do Misericordioso em todo o Ocidente. Amigos e co-herdeiros do Reino de Bahá'u'lláh". Nela ele "denuncia a perversidade e a vida pecaminosa desta geração". Um bahá'í muito humilde escreveu a Shoghi Effendi na ocasião da publicação deste livro: "O Dia Prometido Chegou é uma flor de livro para mim, amo-o; agora a única coisa de que necessito é uma compreensão clara de meu próprio coração. Obrigado Shoghi Effendi por sua bondade, você não pode saber o quanto tem feito por mim... Que temos feito nós alguma vez por você? Você fez tudo por nós..."261

Neste ano Shaykh Kázim é martirizado em Bunáb, Azerbaijão.

1942

13 de fevereiro - em Nayríz, província de Fárs, Ustad Habibulláh Mu'ammarí é martirizado.

13 de março - falece, Siyyid Mustafá Rumí, Mão da Causa de Deus.

20 de março - conta Rúhíyyih Khánum em seu diário que, enquanto Shoghi Effendi estava escrevendo seu livro A Presença de Deus, "dois aviões de caça do exército que efetuavam exercícios chocaram-se nas asas, perdendo o controle e por fim, caindo por terra. Um deles passou tão perto de nossa casa que pensei que atingiria a sala de Shoghi Effendi..."262

25 de junho - Shoghi Effendi designa Mão da Causa de Deus postumamente, 'Abdu'l-Jalil Sa'ad, na data de seu falecimento no Egito.

Dezembro - é concluída a construção do Templo Bahá'í em Wilmette, Chicago (EUA).

Ainda neste ano a Casa do Báb em Shiráz, no Irã, é depredada.

Em fins deste ano Shoghi Effendi expressou a Sutherland Maxwell seu desejo de que ele projetasse uma superestrutura para o Santuário do Báb.

Membros dissidentes da família de Shoghi Effendi são excomungados da Fé.

1943

3 de janeiro - escreve Rúhíyyih Khánum em seu diário: "...outro dia Shoghi Effendi entrou em minha sala muito preocupado por seu trabalho. Perguntei então porque ele não lia livros de outros autores cujos temas fossem similares ao que ele estava escrevendo (A Presença de Deus) para sentir-se estimulado, e ele respondeu-me: 'Não tenho tempo. Não tenho tempo. Por vinte anos não tenho tido tempo!'"263

25 de dezembro - Shoghi Effendi aprova o projeto dos "originalíssimos minaretes atuais" do Santuário do Báb.

1944

22 de janeiro - Shoghi Effendi conclui o último capítulo de A Presença de Deus: Retrospectiva e Perspectiva. Foram necessários mais de dois anos para escrevê-lo: estava sobrecarregado e esgotado pelos mais de 20 anos de Guardiania. O livro foi publicado em meados de novembro deste ano.

12 de maio - em Abadí, província de Fárs (Irã), uma multidão de cerca de 4.000 pessoas depreda a Sede Bahá'í e vários bahá'ís são espancados cruelmente.

23 de maio - Shoghi Effendi conclui sua monumental obra da história do primeiro centenário da Fé de Bahá'u'lláh, chamada A Presença de Deus.

1944

23 de maio - Shoghi Effendi informa ao mundo bahá'í a aprovação do projeto da superestrutura do Santuário do Báb, elaborado por Sutherland Maxwell.

Neste mesmo dia é celebrado o Centenário da Fé Bahá'í e inicia-se a Convenção Bahá'í para toda a América.

8 de agosto - em Shárúd (Irã), após três semanas de agitação anti-bahá'í, três bahá'ís são assassinados: Aqá Muhammad Jadhbání, Aqá Asadu'lláh Nadiríh e Hasan Muhájirzádih.

1945

14 de julho - Shoghi Effendi designa Mão da Causa de Deus postumamente, Siyyid Mustafá Rumí.

1946

11 de abril - Shoghi Effendi solicita a Sutherland Maxwell que inicie a execução da primeira metade do projeto do Santuário do Báb.

Abril - tem início o segundo Plano de Sete Anos da América.

13 de dezembro - Shoghi Effendi designa Mão da Causa de Deus postumamente, Muhammad Taqíy-i-Isfaháni, na data de seu falecimento no Egito.

15 de dezembro - são concluídos os planos para a construção da arcada do Santuário do Báb.

1947

4 de julho - em Sháhí, Mazindarán (Irã), Abbás Sháhídzadeh é martirizado.

14 de julho - Shoghi Effendi escreve carta ao Comitê Especial das Nações Unidas referindo-se aos interesses religiosos bahá'ís na Palestina.

1948

11 de janeiro - em Sarvistán, província de Fárs (Irã), Habibulláh Hushmánd é martirizado.

7 de marco - às 22:15hs, Shoghi Effendi toma a histórica decisão de iniciar a construção da superestrutura do Santuário do Báb.

14 de maio - chega ao término o mandato britânico sobre a Palestina.

Neste ano, em Chálíh-Zamín, Mazindarán (Irã), três bahá'ís são assassinados após suas casas serem atacadas.

Neste ano sete Assembléias Espirituais Nacionais autorizam o Corpo Nacional Norte-Americano a atuar em seu nome como seu representante e sob a denominação de Comunidade Internacional Bahá'í, devidamente reconhecida e acreditada nas Nações Unidas (ONU).

Ainda neste 1948, o próprio Shoghi Effendi, pela segunda vez em 20 anos, inicia a escavação da pedreira por trás do Santuário do Báb. Este trabalho implicava em nada menos que a remoção de centenas de metros cúbicos de pedra.

1949

21 de janeiro - Shoghi Effendi tem entrevista oficial com Ben Gurion, o primeiro-ministro do recém-criado Estado de Israel.

1950

3 de fevereiro - em Kashán (Irã), Dr. Sulaymán Birgís é martirizado.

9 de julho - Centenário do Martírio do Báb com a conclusão da arcada e do parapeito do Seu Santuário no Monte Carmelo.

16 de dezembro - após um espaço de nada menos que 50 anos, Shoghi Effendi adquire a posse legal, por arrendamento, da Mansão de Mazraíh. Nesta casa viveu Bahá'u'lláh tão logo saiu da cidade-prisão de 'Akká.

1951

9 de janeiro - Shoghi Effendi anuncia ao mundo bahá'í:

PROCLAMO ASSEMBLÉIAS NACIONAIS ORIENTE OCIDENTE IMPORTANTE DECISÃO QUE É EPOCA DE FORMAR PRIMEIRO CONSELHO INTERNACIONAL BAHÁ'Í, PRECURSOR SUPREMA INSTITUIÇÃO ADMINISTRATIVA DESTINADA EMERGIR PLENITUDE TEMPO DENTRO RECINTOS SOB SOMBRA CENTRO MUNDIAL FÉ JÁ ESTÁ ESTABELECIDO CIDADES GÊMEAS 'AKKÁ HAIFA.264

12 de março - os bahá'ís em Taft (Irã) são atacados, resultando na morte de Bahrám Rawhání.

30 de julho - falece em Eliot, Maine (EUA), Louis Gregory.

5 de agosto - Shoghi Effendi designa Mão da Causa de Deus postumamente, Louis Gregory, sendo ele a primeira Mão da Causa de Deus da raça negra.

20 de dezembro - falece em North Lovell, Maine (EUA), Roy C. Wilhelm.

23 de dezembro - Shoghi Effendi designa Mão da Causa de Deus postumamente, Roy C. Wilhelm.

24 de Dezembro - Shoghi Effendi anuncia designação do primeiro contingente de 12 Mãos da Causa de Deus: Sutherland Maxwell, Mason Remy e Amélia Collins, na Terra Santa. Valiulláh Varqá, Tarazulláh Samandarí e Ali-Akbar Furután, na Ásia. Horace Holley, Dorothy Baker e Leroy Ioas, na América. George Townshend, Herman Grossman e Ugo Giachery na Europa.

Neste ano, em Aran, Kashán (Irã), um bahá'í é assassinado vítima de ataques de fanáticos xiitas.

1952

29 de fevereiro - Shoghi Effendi anuncia a elevação de 12 para 19 o contingente de Mãos da Causa de Deus. São designados: Fred Schopflocher no Canadá, Corinne True, nos Estados Unidos da América, Dhikru'lláh Khádem e Shu'á'u'lláh 'Alá'í na Pérsia, Adelbert Mühlschlegel, na Alemanha, Músá Banáni, na África, e Clara Dunn, na Austrália.

25 de março - falece em Montreal, no Canadá, Sutherland Maxwell, Mão da Causa de Deus, após dois anos de enfermidade. Homenageando a ele e a Ugo Giachery por seus serviços relacionados com a construção do Santuário do Báb, Shoghi Effendi concede seus nomes a duas das portas daquele Santuário.

26 de março - Shoghi Effendi designa Amatu'l-Bahá Rúhíyyih Khánum, Mão da Causa de Deus.

26 de abril - Shoghi Effendi designa Mão da Causa de Deus postumamente, John Henry Hyde-Dunn.

Abril - tem início a Cruzada Mundial Bahá'í de Dez Anos.

8 de maio - Shoghi Effendi anuncia ao mundo bahá'í a ampliação do Conselho Internacional Bahá'í: "Membros atuais agora incluem Amatu'l-Bahá Rúhíyyih Khánum eleita ligação comigo e Conselho. Mão da Causa Mason Remy, Amélia Collins, Ugo Giachery, Leroy Ioas, presidente, vice-presidente, vogal, secretário-geral respectivamente. Jessie Revell, Ethel Revell, Loftulláh Hákim, tesoureiro, secretários adjuntos oeste leste."

Outubro - inauguração das celebrações do centenário do nascimento da Missão Profética de Bahá'u'lláh.

Neste ano Shoghi Effendi adquire os vastos terrenos que circundam a Mansão de Bahá'u'lláh, em Bahjí, Israel, equivalendo a aproximadamente 145.000m2.

1953

12 de fevereiro - lançada a Cruzada Espiritual de Dez Anos, formulada pelo amado Guardião, durante a Primeira Conferência de Ensino, em Kampala (Uganda). A Conferência é concluída no dia 18.

29 de abril - Shoghi Effendi coloca um fragmento do reboco da cela da prisão do Báb em Máh-Ku, na cúpula dourada do Santuário, para contrastar com os sofrimentos do Báb, quando Ele não tinha nem mesmo uma vela à noite para iluminar Sua cela, com as glórias e as vitórias alcançadas pela Fé, na oportunidade em que o Seu exaltado Nome e Sua fama chegavam a aproximadamente 128 países e territórios do globo.

21 de abril - no primeiro dia do Ridván, pela primeira vez Bahjí foi iluminada com 99 postes de luz feitos de ferro fundido.

2 de maio - realiza-se a cerimônia de dedicação do Templo Bahá'í em Wilmette, Illinois, EUA.

6 de maio - na Conferência Inter-Continental de Ensino, realizada em Chicago (EUA), é lançada a Cruzada Espiritual de Dez Anos.

21 de julho - na Terceira Conferência Bahá'í Intercontinental de Ensino em Estocolmo, é lançada a Cruzada Espiritual de Dez Anos.

27 de junho - falece em Montreal, Canadá, Siegfried Schopflocher, Mão da Causa de Deus.

7 de outubro - na Quarta Conferência Bahá'í Intercontinental de Ensino, em Nova Delhi, Índia, é lançada a Cruzada Espiritual de Dez Anos formulada pelo Guardião.

Outubro - é concluída a construção do Santuário do Báb.

7 de dezembro - Shoghi Effendi designa Jalál Khazéh, Mão da Causa de Deus.

13 de dezembro - o ministro para Assuntos Religiosos do Estado de Israel escreve à "Sua Eminência Shoghi Effendi Rabbaní, Líder Mundial da Fé Bahá'í", informando-o de sua "decisão de estabelecer em nosso ministério um departamento específico para a Fé Bahá'í... Em nome do Ministério para Assuntos Religiosos do Estado de Israel desejo assegurar à Vossa Eminência que será concedida toda a proteção necessária aos Lugares Sagrados, assim como ao Centro Mundial Fé Bahá'í".

Neste ano, em Drúd, no Irã, é martirizado Aqá Rahmán Kulayní-Mamaqání.

10 de janeiro - vítima de um desastre aéreo, falece a Mão da Causa de Deus, Dorothy Baker, ao sobrevoar o Mar Mediterrâneo.

19 de março - após o falecimento de Dorothy Baker, Shoghi Effendi designa Paul Haney, Mão da Causa de Deus.

Março - tem início a construção do edifício dos Arquivos Internacionais em Haifa, Israel. Shoghi Effendi afirmou ser este "o primeiro dos edifícios principais destinados a constituir a sede do Centro Administrativo Mundial Bahá'í que seria estabelecido no Monte Carmelo."265

26 de abril - atendendo a convite formulado por Shoghi Effendi, o primeiro presidente eleito do Estado de Israel, Ben Zvi, juntamente com sua esposa e funcionários do governo, visitam o Santuário do Báb, em missão oficial. Esta foi a primeira vez na história da Causa que o chefe de uma nação independente realizava visita de tal significado.

1954

26 de maio - Shoghi Effendi e esposa seguem a Jerusalém, capital de Israel, para retribuir a visita do Presidente Ben Zvi.

27 de novembro - em mensagem dirigida ao mundo bahá'í, Shoghi Effendi escreve referindo-se ao edifício dos Arquivos: "A construção deste edifício será por sua vez o arauto para a edificação, durante o transcurso de sucessivas épocas da Idade Formativa da Fé, de várias outras estruturas, que servirão de sedes administrativas de instituições divinamente designadas tais como a Guardiania, as Mãos da Causa, a Casa Universal de Justiça. Estes edifícios circundarão, segundo a linha de um amplo arco e fazendo uso de uma arquitetura que harmonize com eles, os lugares de descanso da Folha Mais Sagrada, que ocupa a primeira posição entre os membros de seu sexo na Dispensação Bahá'í; de seu irmão, oferecido por Bahá'u'lláh como um resgate pela vivificação do mundo e sua unificação; e de sua mae, que Ele proclamou haver escolhido como Sua 'conserte em todos os mundos de Deus'. O término posterior deste empreendimento estupendo assinalará a culminação do desenvolvimento de uma Ordem Administrativa Mundial divinamente designada, e cujo começo pode ser encontrado tão distante quanto os marcos da Idade Heróica da Fé."266

Neste ano Shoghi Effendi designa os primeiros Membros do Corpo Auxiliar para agir como representantes das Maos da Causa de Deus.

1955

23 de abril - Durante o mês de Ramadán, que se inicia nesta data, Shaykh Muhammad-Taqí Falsafí incita a população contra os bahá'ís, através de pregação na mesquita Khuís em Teerã. A virulência de suas palavras é transmitida em cadeia de rádio para todo o Irã. Tem início uma nova escalada de violência e atrocidades são cometidas contra os bahá'ís.

17 de maio - o Ministro do Interior do Irã anuncia que o Parlamento Nacional emitiu decreto para a supressão da "seita bahá'í" e o aniquilamento das sedes bahá'ís.

22 de maio - a cúpula da sede nacional bahá'í em Teerã é demolida com a participação pessoal de várias autoridades e oficiais do exército, dentre estes o general Batmánqulích e o Shaykh Muhammad Taqí Falsafí.

28 de julho - em Hurmuzák, Yazd (Irã), sete bahá'ís são levados à morte em decorrência de ataques da população.

23 de agosto - Shoghi Effendi, em mensagem ao mundo bahá'í, informa a escalada de violência contra os bahá'ís do Irã: Sede nacional em Teerã demolida. Profanação da casa do Báb em Shiráz. Ocupação da casa ancestral de Bahá'u'lláh. Exumação e profanação de sepulturas bahá'ís nos cemitérios. Adultos espancados. Um bebê de 11 meses pisoteado. Uma jovem de 15 anos violentada. Crentes pressionados a renegar sua Fé. Seguindo as instruções do Guardião mais de 1000 grupos e Assembléias Espirituais Locais, em todo o mundo, protestam através de cartas e telegramas às autoridades por atos tão injustos contra seus irmãos amantes da lei. Shoghi Effendi inaugura um "Fundo de Ajuda aos Perseguidos" e em sinal de solidariedade bahá'í pede que seja construído em Kampala, no coração da África, um "Templo-Mãe" desse continente como "um supremo consolo" para "as massas oprimidas" de "nossos valentes irmãos" no berço da Fé.267

12 de novembro - falece em Stuttgart, Alemanha, Valiyu'lláh Varqá, Mão da Causa de Deus.

15 de novembro - Shoghi Effendi designa 'Alí Muhammad Varqá, Mão da Causa de Deus e Fideicomissário do Huqúqu'lláh, substituindo seu pai que recentemente falecera.

1957

25 de março - falece em Dublin, Irlanda, George Townshend, Mão da Causa de Deus.

27 de março - Shoghi Effendi designa Agnes Alexander, Mão da Causa de Deus, logo após o falecimento de George Townshend.

Abril - em mensagem do Ridván, Shoghi Effendi escreve que: "...o Plano traçado para assegurar a extensão e conclusão do arco que serve de base para a edificação de futuros edifícios que constituirão o Centro Administrativo Mundial Bahá'í, foi concluído com êxito."268

27 de junho - Shoghi Effendi escreve à Assembléia Nacional da Nova Zelândia orientando-a a dar "especial atenção aos Maoris"; estes, escreveu ele, "são de uma raça mui fina e um povo desde há muito admirado por suas nobres qualidades".269

Outubro - Shoghi Effendi, nesta sua última mensagem dirigida ao mundo bahá'í, anuncia "outro contingente das Mãos da Causa de Deus: Enoch Olinga, William Sears, John Robarts, na África Ocidental e do Sul; Hasan Balyuzi e John Ferraby, nas Ilhas Britânicas; Collis Featherstone e Rahmatulláh Muhájir, na região do Pacífico; e Abu'l-Qásim Faizí na Península da Arábia - grupo selecionado de quatro continentes do globo e que representa os Afnán, além de representar as raças branca e negra e cujos membros provém de ancestrais cristão, muçulmano, judeu e pagão."

4 de novembro - pela manhã, aos 60 anos, falece Shoghi Effendi em Londres, Inglaterra.

25 de novembro - em um conclave das Mãos da Causa de Deus em Haifa, Israel, e inexistindo qualquer Testamento e Última Vontade de Shoghi Effendi, estando ainda pendente a eleição da Casa Universal de Justiça, as Mãos assumem a suprema autoridade na condução dos interesses da Fé de Bahá'u'lláh no mundo.

Novembro - de acordo com as estatísticas aproximadamente 90.000 pessoas visitam os Lugares Sagrados Bahá'ís na Terra Santa anualmente.

Neste ano é concluída a construção do Edifício dos Arquivos Internacionais, que Shoghi Effendi chamou de "este Edifício imponente e de chamativa beleza".

1958

Neste ano foi construído o túmulo de Shoghi Effendi no Great Northern Cemitery, em New Southgate, Londres. O material utilizado foi o mármore de Carrara que ele havia escolhido para os monumentos em memória de seus ilustres parentes, em Haifa. Um desenho simples, como "ele teria desejado", constituído de uma coluna coríntia, tendo em cima um globo terrestre, com o mapa da África, "pois tinham sido na África as vitórias que mais trouxeram-lhe alegria em seu último ano de vida", e encimada por uma águia dourada, reproduzindo uma escultura japonesa que tanto ele gostava e que tinha em sua residência, em Haifa.

Águia... símbolo da vitória!
1976

11 de outubro - dezenove anos após o falecimento do amado Guardião, o primeiro monarca bahá'í, Sua Alteza Malietoa Tanumafili II, chefe do estado da Samoa Ocidental, presta tributo no túmulo do amado Guardião, Shoghi Effendi, em Londres.

Capítulo 13
Curiosidades

Ainda no início da Guardiania, ele disse: "Chegou o momento em que os amigos deveriam pensar não em como irão servir a Causa mas sim, em como a Causa deveria ser servida."

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Existia um provérbio corrente entre os trabalhadores árabes que dizia que quem quer que possua o anel do Rei Salomão, ao girá-lo no dedo, as coisas mudariam em um piscar de olhos. Estes trabalhadores costumavam afirmar que Shoghi Effendi possuía este anel.

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Como 'Abdu'l-Bahá, Shoghi Effendi amava a luz. Ele detestava a penumbra. Sua mesa de trabalho tinha sempre um foco de luz forte. Sua casa estava sempre iluminada. Os Santuários eram cheios de lâmpadas, pequenas e grandes.

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Quando chegou a notícia na Terra Santa de que um destacado líder sionista recém falecido teria sua sepultura nas encostas do Monte Carmelo, Shoghi Effendi fez um levantamento de fundos visando a imediata aquisição dos terrenos vizinhos ao Santuário do Báb. Assim, ele conseguiu salvaguardar aquele precioso Lugar Sagrado.

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Ao término de uma carta dirigida ao amado Guardião, a Rainha Maria da Romênia escreveu: "Que você e aqueles que se encontram sob sua guia, sejam abençoados e sustentados pela força sagrada daqueles que lhe precederam."

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Ao agradecer a bela fotografia autografada que a Rainha Maria da Romênia oferecera-lhe, Shoghi Effendi escreveu: "Guardarei este fino retrato, e eu asseguro-lhe que a Folha Mais Sagrada e a família de 'Abdu'l-Bahá compartilham completamente de meus sentimentos de viva satisfação ao receber uma fotografia tão extraordinariamente bela de uma rainha a quem temos aprendido a amar e admirar."

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A um peregrino bahá'í de raça mongol, o Guardião afirmou certa vez que a maior parte da população do mundo não era branca e não havia razão alguma para que a maioria dos bahá'ís fosse branca. Ao contrário, a Causa deveria refletir a situação existente no mundo.

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Em seu diário, Rúhíyyih Khánum anotou estas observações feitas por Shoghi Effendi: "Sei que é um caminho de sofrimentos. Tenho que caminhar por esta senda até o fim. Tudo que realizar, será com sofrimento."

"O objetivo da vida para um bahá'í é promover a unidade da humanidade."

"Não se pode ser um herói sem ação. Esta é a pedra de toque."

"Marion (Jack) é uma heroína devido à sua conduta, ao espírito heróico que nela se revela. Martha (Root) tinha ações heróicas. Continuou andando até que no caminho, tombou."

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"Se apenas estivesse feliz, se apenas me fizessem sentir-me feliz, então irias ver o que faria por esta Causa!" - este é o desabafo de Shoghi Effendi a Rúhíyyih Khánum em 16 de março de 1942.

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Uma observação de Rúhíyyih Khánum registrada em seu diário, no dia 3 de janeiro de 1943: "Qualquer pessoa que conhecesse a verdadeira história da vida de Shoghi Effendi choraria. Choraria por sua bondade. Choraria por seu coração puro e sensível. Choraria por seus esforços e preocupações. Choraria por seus longos, longuíssimos anos, durante os quais trabalhou cada vez mais sozinho, cada vez mais perseguido por aqueles que lhe rodeavam."

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Para economizar os fundos, o próprio Guardião supervisionava pessoalmente as escavações atrás do Santuário do Báb. Chegava a passar o dia inteiro no canteiro de obras.

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Um desabafo de Rúhíyyih Khánum em 24 de julho de 1944: "Shoghi Effendi não pode resistir muito mais. Estou muito preocupada por ele... estão lhe desgastando. Hoje ele estava em um estado terrível e chorou. Não posso escrever sobre isso. Não posso suportar! Pergunto-me como Deus pode suportar vê-lo assim."

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Shoghi Effendi estimulou vários crentes a escreverem sobre a Fé. Sempre que era publicado um livro por um bahá'í, ele imediatamente adquiria alguns exemplares.

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A.L.M. Nicolas, o erudito francês que traduzira o Bayán e que poderia ser considerado verdadeiramente um bábí, ao ler a tradução do Guardião da Narrativa de Nabíl, escreveu em uma carta a um bahá'í da França: "Agora posso morrer tranqüilo... Glória esteja sobre Shoghi Effendi que tranqüilizou meu tormento e angústia, glória esteja sobre ele por reconhecer o valor de Siyyid Alí Muhammad, o Báb..."

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Por sua humildade, Shoghi Effendi alterou ligeiramente o significado da tradução de uma palavra do Testamento de 'Abdu'1-Bahá. A palavra era inamovível; ele optou por membro vitalício. Refere-se a ele como chefe da Casa Universal de Justiça.

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Desde o início de seu ministério como Guardião da Fé Bahá'í, Shoghi Effendi utilizou o estilo de mensagens telegráficas. Ele explicou certa vez que assim procedia, não apenas por ser mais rápida a comunicação, mas também por seu efeito psicológico. Um telegrama transmite urgência e dramaticidade. Assim ele desenvolveu a linguagem dos telegramas até que a mesma alcançasse o status de obra literária.

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Durante os grandes conflitos políticos que antecederam, em 1948, a independência do Estado de Israel, Shoghi Effendi foi a única personalidade oriental e de elevada posição que não se ausentou da Terra Santa.

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No período de 1942 a 1952, o Guardião doou à Prefeitura de Haifa mais de US$ 10.000,00 para socorrer os pobres de todos os credos e denominações.

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Do livro de Marcus Bach sobre Shoghi Effendi, publicado em 1958, citamos estas observações do Guardião: "...o conceito ocidental de religião é: 'o que posso extrair da religião?' Os bahá'ís, no entanto, perguntam: 'o que estou desejando oferecer?' O que os primeiros seguidores de Cristo esperavam de sua Fé? Uma cruz..."270

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A amplitude do pensamento de Shoghi Effendi pode ser vislumbrada nestas sentenças: "Discriminar qualquer raça sob o fundamento de que é socialmente atrasada, politicamente imatura e numericamente uma minoria, é uma violação flagrante do Espírito que anima a Fé (Bahá'í)."

"A missão primordial desta Fé é o estabelecimento de uma civilização mundial."

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Uma analogia muito interessante e vivida de Rúhíyyih Khánum do Guardião enquanto administrador:

"Shoghi Effendi era um general espiritual que comandava um exército espiritual com o objetivo de conquistar prêmios espirituais; mas o método das campanhas era imemorial: organize suas forças, conceba sua estratégia, ataque seu alvo, ocupe a posição, mantenha desobstruídas as comunicações com sua base, traga reforços, estabeleça guarnições no território conquistado."

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No seu ministério, 1921/1957, a história mundial registrou as quedas dos seguintes reinos, e que são objeto de detalhada análise de Shoghi Effendi em seu livro O Dia Prometido Chegou:

* Monarquia Turca 1922
* Dinastia Qajár 1925
* Monarquia Espanhola 1931
* Monarquia Albanesa 1938
* Monarquia Sérvia 1941
* Monarquia Italiana 1946
* Monarquia Búlgara 1946
* Monarquia Romena 1947
* Monarquia Egípcia 1952
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Em seus 36 anos de Guardiania, o mundo passou por nova configuração no campo político. Em 1921, quando Shoghi Effendi foi designado Guardião da Fé Bahá'í, existiam 46 países independentes no mundo; em 1957, ano de seu falecimento, existiam 87.

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Países abertos à Fé, no período de 1844 a 1957:
* Ministério do Báb (1844-1850) 2
* Ministério de Bahá'u'lláh (1853-1892) 13
* Ministério de 'Abdu'l-Bahá (1892-1921) 20
* Ministério de Shoghi Effendi (1921-1957) 254
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Localidades onde residiam bahá'ís, em algumas datas de grande significação na história da Fé Bahá'í:

* 1921 40 localidades no Ocidente;
* 1944 1000 localidades no mundo;
* 1952 2400 localidades no mundo;
* 1953 2500 localidades no mundo;
* 1954 2900 localidades no mundo;
* 1955 3200 localidades no mundo;
* 1956 3700 localidades no mundo;
* 1957 4500 localidades no mundo.
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O número de Assembléias Espirituais Locais no mundo:

* 1928 102
* 1936 139
* 1946 505
* 1953 611
* 1956 900
* 1957 1000
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O número de idiomas aos quais foram traduzidas as literaturas bahá'í:

* 1944 41 idiomas
* 1950 60 idiomas
* 1952 71 idiomas
* 1955 167 idiomas
* 1957 237 idiomas
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O número de bahá'ís em tribos africanas:
* 1944 9
* 1952 12
* 1955 90
* 1956 197
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No ano em que Shoghi Effendi nasceu (1897), nove personalidades, nascidas no mesmo ano, iriam, como coroação de seus esforços e talentos, conquistar o Prêmio Nobel, sendo 4 de Química, 2 de Física, 1 de Fisiologia e Medicina, 1 de Literatura e 1 da Paz.

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FOTO
A ÁGUIA SOBRE O TÚMULO DE SHOGHI EFFENDI

Shoghi Effendi gostava muito de águias pois as considerava símbolo de vitória.

Bibliografia

1- A Última Vontade e Testamento de 'Abdu'l-Bahá, 'Abdu'l-Bahá, 4, Editora Bahá'í do Brasil.

2- The Priceless Pearl, Rúhíyyih Rabbaní, 1, Bahá'í Publishing Trust, London, 1969.

3- Ibid., 2
4- Ibid., 2
5- Ibid., 3
6- Ibid., 3
7- Ibid., 5
8- Ibid., 5-6
9- Ibid., 6-7
10- Ibid., 7
11- Ibid., 7-8
12- Ibid., 8
13- Ibid., 9
14- Ibid., 13-14
15- Ibid., 14
16- Ibid., 16
17- Ibid., 25
18- Ibid., 20
19- Ibid., 21
20- Ibid., 21
21- Ibid., 21
22- Ibid., 21
23- Ibid., 23
24- Ibid., 23
25- Ibid., 24
26- Ibid., 25
27- Ibid., 25
28- Ibid., 26
29- Ibid., 28
30- Ibid., 28
31- Ibid., 28
32- Ibid., 28
33- Ibid., 46
34- Ibid., 40
35- Ibid., 40-41
36- Ibid., 43
37- A Última Vontade, 'Abdu'l-Bahá, 3-4 e 14
38- Ibid., 32
39- The Priceless Pearl, Rúhíyyih Rabbaní, 44
40- Ibid., 45
41- Ibid., 45-46
42- Ibid., 46
43- Ibid., 47
44- Ibid., 47
45- Ibid., 47
46- Ibid., 52
47- Ibid., 52
48- Ibid., 31
49- Ibid., 53
50- Ibid., 70-71
51- Ibid., 54
52- Ibid., 56-57

53- Bahiyyih Khánum, La Hoja Mas Sagrada, 205, EBILA

54- Ibid., 144
55- Ibid., 144
56- Ibid., 146
57- Ibid., 147

58- A Presença de Deus, Shoghi Effendi, 438, Editora Bahá'í, 1983

59- Ibid., 438
60- Ibid., 441
61- Ibid., 442
62- The Priceless Pearls, Rúhíyyih Rabbaní, 61
63- Ibid., 61
64- Ibid., 62
65- Ibid., 63
66- Ibid., 63
67- Ibid., 67-68
68- Ibid., 68-69
69- Ibid., 70
70- Ibid., 74
71- Ibid., 74-75
72- Ibid., 75
73- Ibid., 75
74- Ibid., 75
75- Ibid., 75
76- Ibid., 76
77- Ibid., 76
78- Ibid., 76
79- Ibid., 76
80- Ibid., 76
81- Ibid., 76-77
82- Ibid., 77
83- Ibid., 79-80
84- Ibid., 125
85- Ibid., 125
86- Ibid., 126
87- Ibid., 129
88- Ibid., 126-127
89- Ibid., 131
90- Ibid., 79-80
91- Ibid., 80
92- Ibid., 81
93- Ibid., 81
94- Ibid., 82
95- Ibid., 82
96- Ibid., 82
97- Ibid., 79
98- Ibid., 82

99- Shoghi Effendi - An Appreciation, Marcus Bach, cap. 3, Hawthorne Books, New York, 1958

100- Ibid., cap. 3
101- The Priceless Pearls, Rúhíyyih Rabbaní, 133
102- Ibid., 137
103- Ibid., 137
104- Ibid., 137
105- Ibid., 137
106- Ibid., 138
107- Ibid., 138-139
108- Ibid., 140
109- Ibid., 141
110- Ibid., 141
111- Ibid., 100
112- Ibid., 101
113- Ibid., 101
114- Ibid., 102
115- Ibid., 103
116- Ibid., 103
117- Ibid., 103
118- Ibid., 105
119- Ibid., 106
120- Ibid., 106
121- Ibid., 106
122- Ibid., 106

123- Bahá'u'lláh e a Nova Era, John Esslemont, 5, Editora Bahá'í do Brasil

124- Some Early Bahá'ís of the West, O. Z. Whitehead, 178, George Ronald, 1976

125- The Priceless Pearl, Rúhíyyih Rabbaní, 91
126- Ibid., 91
127- Ibid., 91
128- Ibid., 92

129- A Compendium of Volumes of the Bahá'í World, I-XII, 1925-1954, 463

130- Some Early Bahá'ís of the West, O. Z. Whitehead, 179

131- Milly - A Tribute to Amélia E. Collins, 'Abu'l-Qásím Faizí, 8-9, George Ronald, 1977

132- Ibid., 9
133- Ibid., 18-19
134- Ibid., 20
135- Ibid., 20

136- The Priceless Pearl, Rúhíyyih Rabbaní, 258-259

137- Milly - A Tribute to Amelia E. Collins, 'Abu'l-Qásím Faizí, 14-15

138- Ibid., 23-24
139- Ibid., 21-22
140- Ibid., 9

141- Estamos Desaparecendo da Terra, Uma Visão Bahá'í do Destino Glorioso dos Povos Indígenas na América, Washington Araújo, 9-10, Editora Bahá'í do Brasil, 1991

142- The Priceless Pearl, Rúhíyyih Rabbaní, 447
143- Ibid., 447

144- A Promessa da Paz Mundial, A Casa Universal de Justiça, 23, Editora Bahá'í do Brasil, 1986

145- Ibid., 24
146- Ibid., 24
147- Ibid., 24
148- Ibid., 24-25
149- Ibid., 25
150- Ibid., 26
151- Ibid., 26-27

152- El Conflicto de La Paz, Hushmand Sabet, 58, Editorial Bahá'í de España

153- Chamado às Nações, Shoghi Effendi, 80, Editora Bahá'í do Brasil, 1979

154- The Priceless Pearl, Rúhíyyih Rabbaní, 216
155- Ibid., 201-202
156- Ibid., 26-27, carta de 19/11/1910
157- Ibid., 30, carta de 8/1919
158- Ibid., 37, carta de 18/10/1920
159- Ibid., 37, carta de 22/11/1921
160- Ibid., 40, carta de 3/12/1921
161- Ibid., 31, carta de 2/1922
162- Ibid., 76, carta de 6/2/1922
163- Ibid., 43, carta de 6/2/1922

164- Viver a Vida, uma Compilação, 8, carta de 12/1/1923, Editora Bahá'í do Brasil

165- Ibid., 8, carta de 19/12/1923
166- Ibid., 9, carta de 20/11/1924
167- Ibid., 9, carta de 30/1/1925
168- Ibid., 10, carta de 14/2/1925
169- Ibid., 10, carta de 12/5/1925
170- Ibid., 11, carta de 12/5/1925

171- Carta de 28/1/1926 dirigida a Leonora Armstrong, ainda não publicada

172- Carta de 16/10/1926 dirigida a Leonora Armstrong, ainda não publicada

173- Carta de 15/4/1927 dirigida a Leonora Armstrong, ainda não publicada

174- Uma Onda de Ternura, 37, carta de 15/7/1928, Editora Bahá'í do Brasil

175- O Aprofundamento, O Conhecimento e a Compreensão da Fé, 52, carta de 20/3/1929, Editora Bahá'í do Brasil

176- Ibid., 53, carta de 21/2/1930

177- Consulta - A Lâmpada que Guia, 36, carta de 12/11/1930, Editora Bahá'í do Brasil

178- Viver a Vida, 12, carta de 5/11/1930
179- Ibid., 12, carta de 20/2/1932
180- Ibid., 13, carta de 3/8/1932
181- Ibid., 13, carta de 30/11/1932
182- Ibid., 14, carta de 21/2/1933

183- A Dispensação de Bahá'u'lláh, Shoghi Effendi, 73, Editora Bahá'í do Brasil

184- O Segredo do Bem Viver, uma Compilação, 16, carta de 25/9/1934

185- O Indivíduo e o Ensino, uma Compilação, 34, carta de 18.11.1935, Editora Bahá'í do Brasil

186- Viver a Vida, 15, carta de 28/4/1936

187- Crise e Vitória, uma Compilação, 41, carta de 24/6/1936, Editora Bahá'í do Brasil

188- O Indivíduo e o Ensino, 36, carta de 30/6/1937

189- Ibid., 37, carta de 14/1/1938

190- O Advento da Justiça Divina, Shoghi Effendi, 72, Editora Bahá'í do Brasil

191- Viver a Vida, 17, carta de 23/2/1939

192- Educação Bahá'í, uma Compilação, 93, carta de 14/12/1940, Editora Bahá'í do Brasil

193- O Aprofundamento, O Conhecimento e Compreensão da Fé, 96, carta de 6/6/1941

194- Viver a Vida, 9, carta de 14/12/1941

195- Em Busca da Luz do Reino, 43-44, carta de 5/4/1942, Editora Bahá'í do Brasil

196- Viver a Vida, 21, carta de 14/10/1943
197- Ibid., 22, carta de 17/12/1943
198- Ibid., 23, carta de 18/12/1943
199- Ibid., 23, carta de 7/7/1944
200- Viver a Vida, 24, carta de 27/10/1944
201- A Presença de Deus, Shoghi Effendi, 552
202- Viver a Vida, carta de 18/12/1945
203- Ibid., carta de 19/9/1946

204- Captando a Centelha da Fé, 16, carta de 5/6/1947, Editora Bahá'í do Brasil

205- Viver a Vida, carta de 11/5/1948
206- Ibid., 33, carta de 5/8/1949

207- Assembléia Espiritual Nacional, uma Compilação, carta de 1/11/1950, Editora Bahá'í do Brasil

208- Captando a Centelha da Fé, 23, carta de 21/9/1951, Editora Bahá'í do Brasil

209- Viver a Vida, 38, carta de 12/7/1952
210- Uma Onda de Ternura, 59, carta de 6/3/1953

211- Captando a Centelha da Fé, 37, carta de 4/6/1954

212- Em Busca da Luz do Reino, 49, carta de 5/8/1955

213- O Aprofundamento. O Conhecimento e a Compreensão da Fé, 115, carta de 26/3/1956

214- Viver a Vida, 43, carta de 21/9/1957
215- Ibid., 38

216- Declínio e Queda do Império Romano, Edward Gibbon, 9, Companhia das Letras

217- Ibid., 10
218- Ibid., 29
219- Ibid., 490

220- A Biblioteca e seus Habitantes, Américo de Oliveira Costa, 182

221- O Dia Prometido Chegou, Shoghi Effendi, 5, Editora Bahá'í do Brasil

222- A Presença de Deus, Shoghi Effendi, 5
223- Ibid., 395-397
224- Crise e Vitória, 7
225- The Priceless Pearl, Rúhíyyih Rabbaní, 12
226- Ibid., 25
227- Ibid., 24-25
228- Ibid., 37
229- Ibid., 40
230- Ibid., 47
231- Ibid., 52
232- Ibid., 31
233- Ibid., 49
234- Ibid., 63
235- Ibid., 205
236- Ibid., 338
237- Ibid., 91
238- Ibid., 71
239- Ibid., 319
240- Ibid., 97
241- Ibid., 98
242- Ibid., 100
243- Ibid., 107
244- Ibid., 108
245- Ibid., 248
246- Ibid., 105
247- Ibid., 302
248- Ibid., 316
249- Ibid., 317
250- Ibid., 284
251- Ibid., 249
252- Ibid., 214
253- Ibid., 218
254- Ibid., 302-303
255- Ibid., 215
256- Ibid., 280-281
257- The Priceless Pearl, Rúhíyyih Rabbaní, 152

258- A Compendium of Volumes of The Bahá'í World, I-X, 1925-1954, 52

259- Ibid., 261
260- Ibid., 150
261- Ibid., 221-222
262- Ibid., 162
263- Ibid., 163
264- Ibid., 252
265- Ibid., 264
266- Ibid., 266
267- Ibid., 312
268- Ibid., 266
269- Ibid., 138

270- Shoghi Effendi - An Appreciation, Marcus Bach, cap. 4

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Araújo, Washington Luis Andrade de, 1959 -
Shoghi Effendi: um tributo / Washington Araújo.
- São Paulo: Bahá'í do Brasil, 1994.
Bibliografia.
ISBN: 85-320-0016-9
1. Bahai (Religião)
2. Bahaísmo
3. Effendi, Shoghi, 1897-1957
I. Título.
94-1179 CDD-922
Índices para catálogo sistemático:
1. Líderes religiosos: Biografia 922

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