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Introdução ao Pensamento de Bahá'u'lláh
Nova Ordem Mundial - Novos Paradigmas
Shoghi Effendi - Um Tributo
Free Interfaith Software

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Washington Araújo : Nova Ordem Mundial - Novos Paradigmas
Nova Ordem Mundial
Novos Paradigmas
- PELA UNIDADE DA HUMANIDADE -
Washington Araújo
Editora Planeta Paz

Um tributo aos visionários, sonhadores, poetas e profetas - renomados ou anônimos - que almejaram viver em um mundo unido, amante da paz e sem fronteiras.

É para esta meta - a meta de uma Nova Ordem Mundial, divina em origem, de âmbito irrestrito, equitativa em seus princípios, e de características desafiadoras - que a humanidade atribulada deve dirigir seus esforços.

Shoghi Effendi

Existe um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-sc de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está voltado para o passado.

Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés.

Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos.

Mas uma tempestade sopra no paraíso e prende-se em suas asas com tanta forca que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu.

Essa tempestade é o que chamamos progresso.
Walter Benjamin
Prefácio

Como é bom poder apresentar ao leitor um livro de artigos e crônicas ao mesmo tempo comovente e atual. Especialmente quando a forma e o conteúdo nos deliciam. É assim esta mais recente obra do escritor, pensador e brilhante orador, Washington Araújo. Quando à forma: é simples, direta, às vezes terna, outras contundente - mas, sempre gostosa de se ler. Quanto ao conteúdo: temas atuais, importantes, quase vitais do dia a dia do Brasil e do mundo, mas ao mesmo tempo mostrando uma nova e original visão. A grande maioria recebeu espaços nos principais jornais brasileiros, de Natal ao Rio de Janeiro. Mas, para quem perdeu a oportunidade de apreciar através da imprensa, aí vai em forma de livro.

A sua leitura nos prendc. Faz-nos pensar, toca nossos preconceitos mais arraigados e nos convida a novas e fundamentais reflexões.

E, como não se comover com o seu artigo Sou Cidadão de que País? Ou com a ternura que nos sacode e envergonha de O Afeto que se Enterra? E, também, como deixar de se emocionar com o autor quando ele nos fala dos índios, a quem ele tão bem conhece e ama?

Em todos os textos vemos irromper uma nova voz. Voz que se levanta para nos mostrar a realidade, mas que também nos convida a refletir sobre a condição humana. Mas não pára aí. Nos mostra uma nova luz. Uma nova esperança. Fala de uma Nova Ordem Mundial emergente. Garante que não seremos subrnersos no mar da incerteza e do pessimismo.

E nos desafia a novas alturas de realizações para o bem e o serviço à inteira raça humana.

E é este o trabalho de Washington Araújo.

Trabalho incansável, incessante para tornar realidade a visão de Bahá'u'lláh - a unificação de todo o gênero humano, a eliminação das fronteiras, não apenas entre as nações e raças, mas entre as almas humanas. Este grande legado de Bahá'u'lláh, hoje sendo redescoberto e objeto de estudo por intelectuais e pensadores, é a inspiração das abordagens do Washington Araújo.

E ele o faz com primor, com arte, com convicção, com beleza, mas sempre com uma inabalável fé na Dimensão grandiosa do ser humano.

Parafraseando Brecht: há muitos homens bons, mas há os que pela sua tenacidade se tornam imprescindíveis.

Washington Araújo pertence a esta segunda categoria.

Farhad Shayani

Presidente da Sociedade Brasileira de Médicos pela Paz

Introdução
CAI O MURO DE BERLIM
UNIFICAÇÃO DAS "ALEMANHAS" APAGA ÚLTIMA CICATRIZ
DA GRANDE GUERRA
O LESTE EUROPEU RESPIRA LIBERDADE COM O FIM DO
IMPÉRIO SOVIÉTICO
AFASTADO PERIGO DE HOLOCAUSTO NUCLEAR
EUROPA UNIDA: SURGE UM PAÍS-CONTINENTE
PAÍSES LIVRES SE UNEM PARA DEFENDER A PAZ NO
GOLFO PÉRSICO
ISRAEL E OLP APÓS 45 ANOS FAZEM A PAZ
O MUNDO SE REÚNE NO RIO DE JANEIRO PARA PROTEGER
O MEIO-AMBIENTE
ESTADOS UNIDOS, CANADÁ E MÉXICO SE UNEM NA NAFTA
MULHER INDÍGENA CONQUISTA O NOBEL DA PAZ DE 1992

MAIORIA DOS PAÍSES SUL-AMERICANOS CONQUISTA DEMOCRACIA

MERCOSUL REÚNE ARGENTINA, BRASIL,
PARAGUAI E URUGUAI
APARTHEID NA ÁFRICA DO SUL TEM OS DIAS CONTADOS

ESCRITORA NEGRA GANHA O NOBEL DE LITERATURA DE 1993

Estas são algumas das notícias que a imprensa divulgou em todo o mundo. Simbolizam dois eventos concomitantes: o epitáfio da Velha Ordem e a primeira lufada de ar puro da Nova Ordem Mundial que está nascendo. Ante nossos olhos atônitos.

Mutação acelerada.

É assim que resumo os recentes acontecimentos mundiais. Como águas de muitos rios que avançam rumo a um imenso oceano, onde se encontram metas, aspirações e sonhos de povos, racas e nações. Estamos também navegando para este grande oceano a que chamamos de mundo e começamos, desde logo, a apreciar a bela variedade humana que o conjunto nos proporciona.

Conflitos seculares sepultados. Ideologias salvadoras em derrocada. Conceitos infantis, como o da superioridade racial, abolidos.

As concepções que a emergência de uma Nova Ordem Mundial propicia não podem nos deixar alheios ao grande processo posto em movimento, desde meados do século XIX.

Um tempo para rever suposições e avaliar paradigmas ultrapassados e que já não nos satisfazern mais. Tempo de resgatar o humano da humanidade, a divindade de Deus. Tempo de construir a paz duradoura entre os povos do mundo. E a planetização da raça humana.

Em breve, as linhas a que chamamos de fronteiras entre as nações, serão completamente anuladas, não pela força de uma guerra que, como epidemia fazia sucumbir o espírito humano; mas, antes, pelo poder de uma época que será a consumação da promessa de todos os tempos - um novo céu, uma nova terra.

A uma moral doentia, divorciada dos princípios eternos que sustentam a Justiça, cabe-nos restaurar a sua essência, na prática cotidiana. Cada um no seu oficio a oferecer os mais belos frutos para a cura das nações.

O primado dos Direitos Humanos, protegendo como um imenso manto os povos sofridos, assegurando-lhes as garantias e direitos fundamentais estabelecidos na Carta das Nações Unidas.

O resgate da imensa solidão de espírito de nossos bravos antepassados indígenas.

A valorização da mulher em todos os segmentos da vida social, encerrando o longo período a que foram confinadas como cidadãs de segunda classe.

A dádiva da educação aos Meninos de Rua, que passeiam impunes seus projetos de vida, vítimas de uma velha ordern "lamentavelmente defeituosa" e que são, antes de tudo, a matéria-prima da civilização que desejamos, genuinamente, edificar.

O racismo, que corrompeu milhões de seres humanos e barbarizou outros tantos ao longo da história da humanidade torne-se uma página virada.

A unidade religiosa através da compreensão de que em todos os Livros Sagrados encontramos um reflexo de uma mesma realidade espiritual: somos todos irrnãos e temos um "destino comum inevitável". E observo com alegria uma busca do homem moderno pelo transcendental, pelo místico: é um retorno à simplicidade da existência, da comunhão com o Eterno.

Estes e outros temas merecem nossa atenção e esforços, pois caracterizam o espírito desta época em que vivemos.

Feitas estas considerações, resta-me agradecer aos amigos: Cyrus Monadjemi, Edna Duarte, Farhad Shayani, Iradj Roberto Eghrari, Osmar Mendes, Qodrat Soltani, Razi Milani, Robert Miessler, Shahín Rezaiéh e Virgínia Montejo pelo constante apoio, estímulo e encorajamento, sem os quais este Iivro não viria à existência e também à minha querida esposa, Ceres e aos filhos, Thomas, Jordana e Anísa, pelos muitos meses em que os privei de um convívio familiar pleno, meu crescente amor.

Washington Araújo
Nova Ordem Mundial
Novos Paradigmas

PARADIGMA. Muita atenção ao ouvir esta palavra de origem grega: paradeigma. Ela ficará na história dos anos finais deste século. O que vem a ser um paradigma? É um conjunto de conceitos, bem estabelecidos, que reputam verdades como fundamentais, constituindo um padrão ou modelo. A título de ilustração, os defensores do sistema geocêntrico firmaram um paradigma no qual a Terra era o centro do universo. Uma mudança de paradigrna foi estabelecida pelo astrônomo e físico italiano Galileu Galilei (1564-1642), descartando-se o conceito anterior e afirmando-se o sistema heliocêntrico: o Sol tem sua primazia no universo.

Um exemplo mais corriqueiro é necessário. Por volta de 1965, a Suíça era o maior fabricante de relógios do mundo, chegando a responder por 85% do mercado mundial de relógios de pulso. Certo dia, um dos empregados de uma de suas grandes relojoarias concebeu a invenção de um relógio que utilizaria o quartzo. Os executivos da fábrica, ouvindo seus técnicos, consideraram a idéia inócua: como imaginar um relógio sem corda, sem as dezenas de microengrenagens?

Não satisfeito com a avaliação de sua idéia, o tal funcionário apresentou-a a uma fábrica de relógios japonesa resultando isso em uma revolução na indústria relojoeira. Hoje, a Suíça, mesmo incorporando o quartzo em seus relógios, ocupa não mais que 10% desse mercado mundial. O Japão e os Estados Unidos detêm a liderança do mercado.

E este é, apenas, mais um exemplo da importância de um paradigma. A mudança de concepção de um relógio dissociado dos padrões correntes de produção causou uma reviravolta em todo um segmento industrial.

Isto posto, constatamos que uma mudança paradigmática é causadora, em muitos casos, de vertiginosos progressos e lança luz sobre áreas até então inibidoras de pesquisas para adoção de novas metodologias, parâmetros e padrões. Sem a coragem de criar, questionar e refletir sobre o "não refletido", não existiriam descobertas e invenções. E, portanto, inexistiria progresso científico.

Albert Einstein foi emblemático ao afirmar que "algo so é impossível até que alguém duvide e acabe por provar o contrário"; e, tempos depois, daria sua receita pessoal, uma receita com a marca da genialidade e com palavras simples, porém profundas, disse: "Penso 99 vezes e nada descubro. Deixo de pensar, mergulho no silêncio e a verdade me é revelada."

À medida que nos aproximamos do terceiro milênio, encontramos condições propícias ao surgimento de novos paradigmas. Estes por sua vez causarão uma guinada profunda no futuro da humanidade. Talvez mais, ou pelo menos tão revolucionário e instigante quanto o enunciado de Einstein para uma Teoria da Relatividade, alterando profundamente o rumo da Física e, por conseguinte, outros campos de pesquisa científica.

As idéias correntes, aceitas sem contestação, conduzem a humanidade ao conformismo e produz uma reação contrária, às vezes brusca: é lago plácido que se agita com o arremesso de uma pedra, as ondas perturbam o status quo.

Não é de se admirar que Galileu tenha tido que abjurar suas idéias, heréticas para a época, ante o calor de uma fogueira que selaria seu destino. Alí arderia a chama da ignorância e o combustível do conformismo reduziria a cinzas uma nova visão da ciência. Mas o que nos interessa, basicamente, são as mudanças estruturais nas relações entre nações, bem como aquelas entre indivíduos.

A proclamada Era de Aquário nos remete a ternas do humanismo, ao positivismo de Comte, à filosofia de Sartre e também ao misticisrno. A busca da felicidade volta a ser a meta hodierna. E um contraponto ao racionalisrno e envolve expoentes brilhantes como Fritjop Kapra com seus Tao da Física e Ponto de Mutação, Stephen Hawking com uma nova teoria para a criação do universo. São os físicos iluminados, nestas últimas décadas, pela luz do espírito humano em "busca de meios para se satisfazer".

O conceito de governo autocrático, com as decisões tomadas de cima para baixo, deve dar espaço aos postulados da ciência política, que elabora o governo participativo, onde as bases expressam seus anseios, esperanças e necessidades; e se engajam em um processo efetivo de mudanças estruturais, sendo partícipe da construção de seu futuro. Foi-se o tempo em que o destino de uma cidade ou de uma nação deveria ficar concentrado nas mãos de um governante. A História mostra o quanto tal realidade impede o progresso.

O processo decisório que no momento é uma vertente da autocracia e, portanto, viciado em posturas demagógicas e em "salvadores da pátria", deve ser substituído pelo princípio da consulta coletiva. As partes envolvidas em um problema devem ser ouvidas, os fatos devem ser claramente estabelecidos e a liberdade de voz e voto, na tomada da decisão, devem constituir as bases de um processo decisório sadio e eficaz.

O conceito de liderança individual que sempre se pautou na supremacia da personalidade do líder, visto como uma forma de possuir prestígio pessoal, alimentador de vaidades e meio para a obtenção de recursos materiais, deve ceder lugar a sentimentos mais nobres e elevados, que coloquem o bem coletivo acima do desejo individual. E tem na conjugação de qualidades morais, espirituais e éticas, uma nova senda a ser trilhada, na qual o ato de servir será a aspiração maior. Serviço inegoístico passa a ser a característica exigida das novas lideranças. Cursos de formação de líderes darão especial atenção ao resgate desses valores.

O sentimento de superioridade racial, com sua longa história de sofrimentos, guerras e conflitos étnico-raciais cederá espaço à proposta de unidade racial, onde todos são considerados irmãos, descendentes de Adão, frutos de uma mesma árvore, chamada humanidade. Com o ressurgimento de movimentos racistas na Europa, em especial na Alemanha contra a minoria turca residente no país, os países tendem a investir na prevenção desse mal, chegando a impor sanções econômicas drásticas - tal o ocorrido contra o apartheid na África do Sul.

A idéia do nacionalismo, com sua visão limitada da humanidade, não mais resiste à constatação da crescente interdependência entre as nações do mundo, ainda mais quando observamos que nenhuma nação é autosuficiente na produção de matérias-primas essenciais (alimentos, por exemplo) e por conseguinte, não conseguirá preços competitivos no mercado internacional. A par disso, o desenvolvimento tecnológico a que chegamos exigirá um verdadeiro pool de países para a otimização da produção mundial. A amplitude de um reconhecimento da unidade do gênero humano requer a superação do conceito de soberania nacional. Um dos mais veementes exernplos da necessidade desse novo patamar de relações intemacionais é a preocupação mundial com o meio-ambiente e a ecologia do planeta. O planeta é um bem que interessa a todos, independente de sua origem nacional. A humanidade avança, então, para o conceito integral de que "a terra é um só país e os seres humanos seus cidadãos". Estamos em uma era de planetização. As lealdades menores cedem espaço a uma lealdade maior, que abarque o mundo em um processo contínuo, com um sistema monetário e alfandegário únicos, além de uma série de benefícios que passarão a ser comuns em qualquer país daquele continente.

O sistema de educação, que ora privilegia a aquisição de conhecimentos técnico-científicos, o uso da razão pura e simples, a constatação dos fenômenos naturais, deverá ser complementado por uma visão integral e coesiva do ser humano, dando destaque aos frutos do espírito humano em um contexto de livre e independente busca da verdade e de renascimento das qualidades morais e espirituais como honestidade, veracidade, solidariedade: "Uma flor é bela, não importa em que jardim floresça. A luz é boa, não importa em que lâmpada brilhe." Avançamos para uma compreensão toda abrangente de que "o conhecimento é um ponto, os ignorantes o multiplicaram!"

O papel da Imprensa, marcado pelo corporativismo e pelo poder financeiro como agente manipulador da informação estão com os dias contados. A gestação de um novo paradigma requer a coragem de se publicar a verdade, embora se apresente escamoteada a inteligência para reconhecê-la, embora se encontre sob muitos disfarces. Os meios de cornunicacão darão asas à imaginação humana e vocalizarão seus mais belos anseios por um mundo unido. Chegaremos ao verdadeiro papel da Imprensa: refletir a realidade e sobre a realidade, em completo compromisso com a verdade dos fatos e das opiniões.

A visão da justiça, que temos visto ser distorcida ao longo dos séculos, também parece estar em processo de mutação. Quando os trabalhadores empunham faixas e cartazes reinvindicando menor jornada de trabalho semanal, aumento salarial, creches para seus filhos, ajudas para saúde, alimentação e transporte, dentre outros benefícios sociais, bem sabemos que no fundo o que se deseja é a justiça social. Uma justiça abrangente, de responsabilidade participativa e ensejadora de uma justa distribuição de renda. Sinais positivos, nesse campo, mostram o aperfeiçoamento das instituições representativas de trabalhadores: sindicatos, federações e confederações, associações de moradores. Organizações Não-Governamentais (ONG) também proliferam em todo o mundo. Defendem as mais diversas causas, do urso panda ao mico leão, da mata atlântica às savanas, dos meninos de rua às prostitutas infantis, da medicina alternativa à energia nuclear para fins pacíficos, dos aborígenes australianos aos indígenas da América.

O progresso da homeopatia, em contraponto à medicina alopática, também reviram os fundamentos da medicina moderna. A necessidade de encontrar na Natureza a panacéia para todos os males. O resgate da arte de curar dos antigos, uma cura que não tenha contra-indicações e seus nocivos efeitos colaterais; e, também, da utilização de métodos espiritualistas, como o uso de orações e súplicas. Nessa vertente observamos o progresso acelerado da cura pela água, os florais de Bach e a grande aceitação das plantas e ervas medicinais, ensejando o florescirnento das farmácias de manipulação. Uma nova concepção da cura que resgata o poder lúdico, da música e da dança como formas de liberar o potencial humano de seus tormentos e nos remete aos mitos que se entrelaçam na memória coletiva da raça humana.

A idéia de ecumenismo, onde as religiões e os diversos credos devem conviver pacificamente, para uma visão ampla de que a base de todas as religiões é uma só: servir e adorar o mesmo Deus. Nesse caso, a teologia moderna deve considerar a revelação divina como progressiva: a verdade religiosa é relativa, não absoluta. Nessa ótica, o hinduísmo (Krishna), o budismo (Buda), o judaísmo (Moisés), o cristianismo (Jesus), o islã (Maomé), a Fé Bahá'í (Bahá'u'lláh) representam diferentes estágios na evolução da revelação religiosa. Assim, também, vemos o surgimento do Conselho Mundial de Igrejas, do World Wildlife Fund (Fundo Mundial para a Natureza) e das Associações Interreligiosas. São os primeiros passos concretos para um novo paradigma de relações, onde o maior beneficiário será o espírito humano.

Imaginemos, agora, um mundo com todas essas transformações em sua plenitude!

As palavras de Chaplin, em seu libelo anti-belicista - conhecido como o Último Discurso, no filme O Grande Ditador, a nos lembrar que "não somos máquinas, homens é o que somos!" E que é concluído com um comovente apelo no ar: "Ergue os olhos, Hannah!" E Hannah aqui é o símbolo humano que representa cada um de nós.

Apesar de estarmos vivendo as dores do parto desta nova era, ainda não nos apercebemos disso inteiramente. Não obstante, de maneira inexorável, seguimos rumo a um maravilhoso destino, não importando que temores e retrocessos tenhamos que enfrentar, ou mesmo se o desânimo vez por outra recair sobre nós. A verdade é que somos uma geração forjadora de uma Era Áurea, inigualável, única, anseio e meta de passadas gerações.

Uma Lealdade Mais Ampla

ENGOLFADAS em uma grave crise moral e ética, as nações se debatem sobre a validade do conceito real da palavra patriotismo. Em nome desta palavra, milhões de seres humanos foram literalmente exterminados em guerras genocidas.

Da Alemanha do III Reich, na década de 40, com seu conceito infundado na supremacia da raça ariana - repositório de uma doutrina monstruosa, alicerçada no constrangimento racial, na qual era recusado o direito aos judeus, aos africanos e até aos orientais de pensar e de viver conforme seus pensamentos e crenças, assim denunciado por Jean Paulhan (1884-1968), em seu As Incertezas da Linguagem, até a criação por ato de força da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, temos alguns exemplos históricos de quão odiento se torna um nacionalismo desenfreado, que desconhece o que há de mais essencial no homem: seu livre arbítrio. E a própria história da civilização se faz refém desta palavra: sem uma base real de valores éticos e morais, o patriotismo assemelha-se a uma caricatura, tal o seu desgaste no contexto de um mundo interdependente, transformado em uma grande aldeia global, pelo poder advindo com o progresso das telecomunicações.

A falta de sinceridade dos que se autodenominam patriotas erradicou das nações o sentimento de um autêntico patriotismo. O escritor peruano Mario Vargas Llosa no seu Contra Vento e Maré denuncia este patriotismo "na literatura que fornece amparo aos militares e aos funcionários que costumam ser pobres literariamente".

André Gide (1869-1951), no seu Defesa da Cultura, é enfático ao afirmar que os nacionalistas deram à palavra patriota um sentido estreito, obstinado e hostil, conceitos estes que "não ousamos mais empregar"; e denuncia um dos maiores males de tal patriotismo: "não podemos admitir que o amor ao país de origem de cada um seja principalmente feito do ódio aos outros paises..."

No importante ensaio A Federação e a Unidade da Itália, Proudhoun (1809-1865) coloca a questão com grande objetividade sobre o futuro da raça humana: "Pereça a pátria e salve-se a humanidade."

Nunca é demais recordar a história. Na Grécia, o patriotismo, era a interminável discussão de seus cidadãos, na polis, e como assinalou Ortega y Gasset, não se pode entender a cultura mediterrânea sem esse "genial apetite de conversação". Foi o apogeu das cidades: lugares onde o sentimento de patriotismo confundia-se com a própria vida cotidiana da cidade.

Os filósofos gregos tinham uma visão peculiar de pátria. Para Cícero (106-43 a.C.), a definição era toda abrangente, cristalizando o anseio universal de um mundo uno, acima de fronteiras: "onde me sinto bem, minha pátria é ai" escrevia ele no Capitulo V, de As Tusculanas. Para Ovídio (43 a.C. - 17 d.C.), em Fastos, o conceito estava relacionado com a força - enquanto valor moral - podendo também ser visto como força de caráter: "Qualquer país é pátria para os fortes, como o é o mar, para os peixes." Para os gregos, a condição essencial da cidadania era a participação ativa do indivíduo na vida pública.

O crepúsculo da polis comprometia a lealdade à lei. Como assinalou Gilberto Kujawski "o homem, jogado ao relento, sem o abrigo e o aconchego da polis, proclama-se cidadão do mundo, o que, longe de indicar um estado de euforia e de alargamento da consciência, como pode parecer, denotava apenas que o desespero do homem helenista, alijado da polis, era tão grande e desmedido quanto o próprio mundo. Cidadão do mundo, náufrago do desespero."

Em Roma, constata-se que a substância de sua história residia em seu direito público. O ponto chave era o princípio de segurança do Estado romano. Portanto, os historiadores são concordes em afirmar que o amor à segurança do Estado era a forma de se ver o patriotismo romano. Os jurisconsultos e filósofos romanos também encontraram no conceito de pátria um tema aguçado para suas reflexões.

Quinto Cúrcio, no primeiro século da era cristã, afirmava ser "pátria, todo lugar que o homem forte escolher para morada". Deve ser destacado o pensamento modernista de Caio Júlio César, que teve uma visão unificada de Roma, incluindo-se suas províncias, através da demolição dos muros de Roma. Tal idealismo sem limites teve como reação seu assassinato, por parte da nobreza conservadora em sua época.

Enquanto na Grécia o patriotismo dava-se naquele "plebiscito diário", em Roma fundava-se este no direito, algo firme como a rocha no qual se achava encravado o mundo.

As relações entre os grupos sociais da Antiguidade fundavam-se, principalmente, na força. Os Estados antigos nasceram da luta constante com os Estados limítrofes e com os povos bárbaros, seus vizinhos.

O ataque maciço encetado no século VIII pelo Islamismo na Europa marcou a união do Continente com o Cristianismo, abrindo novas lealdades fundadas no sentimento religioso. A história da Espanha, enquanto Estado, dá-nos uma visão do significado social e espiritual de tal conflito. Nessa época, o império assírio, absorvendo os Estados menores do Ocidente Asiático, chegou a constituir um poder universal.

O Islamismo foi a primeira grande religião mundial a mencionar o conceito de unidade nacional. Nascido em 570 d.C., em Meca, então capital da Arábia, Maomé encontrava-se no meio de um povo formado por mais de cem tribos belicosas, herdeiras de uma tradição de politeísmo e que haviam resistido às diversas tentativas de evangelização, considerando as guerras como sendo a única ocupação digna do homem.

O desafio de Maomé era nada menos que converter seu povo ao monoteísmo e consumar sua união, fundamentada na fé religiosa. Ensinando princípios éticos semelhantes aos do Antigo Testamento, declarando-se um Porta-Voz de Deus, encontrou forte oposição de seus contemporâneos, o que lhe obrigou a partir de Meca para Medina, cidade onde começou a cumprir a verdadeira missão de sua vida: construir uma nação espiritual. No Alcorão, seu livro sagrado, Maomé revelou como sendo uma ordem divina: "Que haja em vós uma nação que convoque para o bem."

T.W. Arnold em The Preaching of Islam atesta que "as tribos árabes foram assim impelidas a submeterem-se ao Profeta, por ser ele não apenas o chefe da mais poderosa força militar da Arábia, mas também o expoente de uma teoria de vida social que estava tornando fracas e ineficazes todas as demais. Conseguira Maomé introduzir na sociedade anárquica de seu tempo um sentimento de unidade nacional, uma consciência de direitos e deveres mútuos como jamais os árabes haviam sentido".

Cognominado de O Construtor das Nações, a Mensagem de Maomé poderia ser codificada nos seguintes princípios básicos:

* O patriotismo era parte da Fé.

* Havia um idioma compulsório para todos, cuja adoção era requisito básico de cidadania no império islâmico.

* Não existia distinção de classe, e se estabeleceu igualdade de direitos entre todos os muçulmanos.

* Havia um sistema jurídico, com suas leis e cortes de justiça, independente da vontade do governo.

* A todo cidadão era assegurado o direito de ser membro real e verdadeiro da nação, assim como numa democracia moderna.

* Era um Estado Teocrático.

O teólogo muçulmano, Siyyid Amir Alí, em seu The Spirit of Islam resumiu com objetividade a contribuição islâmica ao mundo: "O Islã deu ao povo um código que, por arcaico que fosse em sua simplicidade, era capaz do desenvolvimento máximo, de acordo com o progresso da civilização material. Concedeu ao Estado uma constituição flexível baseada numa justa apreciação dos direitos e dos deveres humanos. Limitou impostos, fez todos os homens iguais perante a lei, consagrou os princípios do autogoverno. Estabeleceu um controle sobre o poder soberano pela subordinação da autoridade executiva à lei - lei esta baseada na sanção religiosa e nas obrigações morais."

Historiadores ocidentais parecem unânimes em considerar o nacionalismo como a real contribuição criadora de Maomé, para o desenvolvimento humano.

Na segunda metade do século XV, começa a tomar forma o conceito de um patriotismo nacional. É iniciado o processo de formação de nações no continente europeu, com a alavancagem da França, Inglaterra, Espanha e Portugal.

Este irromper dos primeiros estados-nações coincidiu com o período das grandes navegações e do "alargamento do mundo".

Um fenômeno cultural especialmente importante no processo formativo das nações é a constatação que a língua tem sido o grande catalisador de unidade nacional.

O poeta Fernando Pessoa (1888-1935), no Livro do Desassossego, de seu alter-ego Bernardo Soares, declara que "não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa."

O pensador Albert Camus (1913-1960) visita o tema, afirmando que "tenho uma pátria: a língua francesa"; e ainda com pequenas variações, Jorge de Sena (1919-1978), em seu livro Poesias, assim se define: "eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátria de que escreve é a língua em que por acaso de gerações, nasci."

Muito se poderia registrar sobre o processo formativo das nações e, por conseguinte, da própria idéia de pátria, no entanto deve-se levar em consideração que tal idéia tem sinalizado a história do mundo, visto com um sentimento individual tão importante quanto as tradicionais forças da alma humana.

Stendhal (1783-1842) escreveu que "a verdadeira pátria é aquela onde encontramos o maior número de pessoas que se parecem conosco"; enquanto Byron (1788-1824) registrava em Os Dois Foscaris que "quem não ama a sua pátria, não pode amar coisa alguma".

Michelet (1798-1874) sintetizou seu pensamento com a oportuna reflexão: "Quanto mais o homem avança e penetra no espírito de sua pátria, melhor contribui para a harmonia do globo: aprende a reconhecer essa pátria, em seu próprio valor e em seu valor relativo, como uma nota em um grande concerto; através dela, toma parte nele; nela, ele ama o mundo. A pátria é a necessária iniciação na pátria universal."

Rui Barbosa (1849-1923), em seu renomado discurso no Colégio Anchieta, em 1903, afirmou que "a pátria é a família amplificada. E a família, divinamente constituída, tem por elementos orgânicos a honra, a disciplina, a fidelidade, a bem-querença, o sacrifício."

Feitas estas considerações, é particularmente necessário chamar a atenção para o pensamento de Shoghi Effendi (1897-1957), o líder mundial da Fé Bahá'i, que fora enfático ao prenunciar o estabelecimento de uma nova ordem mundial, como fruto da mais recente revelação divina trazida por Bahá'u'lláh (1817-1892). Sua visão da humanidade constitui um excelente resumo da história das nações, dentro de um contexto evolutivo.

Ele afirmou que "o princípio da Unidade do Gênero Humano representa a consumação da evolução humana - uma evolução que teve seus primórdios no despontar da vida em família, seu desenvolvimento posterior ao alcançar a solidariedade de tribo, a qual por sua vez, levou a constituição da cidade-estado, cuja expansão subseqüente resultou na instituição das nações independentes e soberanas."

A visão que ele compartilhou com a humanidade em seus escritos é holística, em essência, e nas suas palavras declara que "a unificação da humanidade inteira é o distintivo da etapa da qual a sociedade humana atualmente se aproxima"; e que uma vez estabelecida a unidade da família, de tribo, cidade-estado e de nação - "a unidade do mundo é agora a meta à qual a humanidade, em sua aflição, dirige seus esforços."

A crença de Shoghi Effendi repousa na inabalável convicção de que Deus - o Senhor da História - tem um desígnio para a raça humana e que a interdependência dos povos e nações do mundo "não obstante o que digam ou façam os que incentivam as forcas divisoras do mundo - já é fato consumado".

Longe de expor um libelo contra um patriotismo são e legítimo, Shoghi Effendi referira-se ao nacionalismo desenfreado que ao longo a história humana, vitimou povos e nações, e afirmara ter chegado o momento em que tal sentimento deveria ceder lugar "a uma lealdade mais ampla - ao amor à humanidade como um todo".

Os primeiros índices de que tal previsão começa a ser, finalrnente, assimilada na vida diária das nações do planeta é a aprovação unânime de um arrojado plano de unificação do continente europeu.

No âmago desse plano, encontram-se as facilidades de que todos os países signatários desse Acordo de Unificação continental passarão a desfrutar: extinção de barreiras econômicas, liberação de fronteiras dos países, adoção de um padrão monetário comum e de um sistema unificado de pesos e medidas, favorecimento do intercâmbio cultural, legislação comum - são alguns dos fatores que reputamos extremamente positivos.

Não se poderia afirmar que o exemplo europeu seja o único, mas talvez o primeiro nessas proporções. No cenário internacional, bem podemos discernir variados movimentos de unificação. Na América do Sul temos um tímido início, com o estabelecimento de um Mercado Comum do Cone Sul, o Mercosul. Na América do Norte aprovou-se o Acordo de Unificação dos Estados Unidos, Canadá e México; e tudo nos leva a crer que o modelo era existente, em breve cedera lugar "àquela lealdade mais ampla" de amor ao gênero humano, referida por Shoghi Effendi.

Nos últimos anos, dois eventos realizados no Brasil lançaram nova luz sobre a visão de Shoghi Effendi. O primeiro, a realização da II Conferência Mundial de Meio-Ambiente e Desenvolvimento, a ECO-92, no Rio de Janeiro, reuniu em uma Cúpula histórica e única nos anais da história das nações a quase totalidade dos chefes de estado do mundo. Todos deixaram de lado suas discordâncias e se concentraram no bem comum de seus povos e na preservação do planeta. O segundo evento foi a Reunião dos Países Ibero-Americanos, em Salvador, e teve como tema central Unidade e Desenvolvimento.

Os próximos anos serão repletos de novos indícios e, então, veremos que a inescapável missão dessa geração de governantes e governados, igualmente, não é outra que o estabelecimento de um novo patamar de relações internacionais, dentro do conceito enunciado por Bahá'u'lláh de que "a terra é um só país e os seres humanos seus cidadãos".

A Lei é Soberana

A MELHOR salvaguarda de uma nação encontra-se na observância e acatamento pleno de seu ordenamento jurídico, que tem como fonte primordial a Constituição Federal, sua Carta Magna.

Vivemos em um tempo marcado pela falta de perspectivas favoráveis ao bem-estar e tranqüilidade da nação brasileira, um tempo em que o princípio legítimo da autoridade encontra-se comprometido pela ausência de cumprimento da Lei, o que nos remete para um clima de crise, caracterizado principalmente pela exaustão sem paralelos da fonte da autoridade moral, que deve residir, precípuamente, naqueles que são detentores de poder decisório nos níveis federal, estadual e municipal.

"A lei é soberana e a ela todos devem obedecer." É o princípio moral e ético a ser invocado. Sempre que este princípio é violado, temos como conseqüência a instabilidade institucional, gerando seqüelas nas esferas política, econômica e social.

A sociedade não mais considera o "jeitinho brasileiro", tão decantado na filosofia popular, como legítimo, uma vez que tal expressão passou a figurar como um conceito-ônibus - aquele no qual ações delituosas, favorecimentos ilícitos e outras formas de corrupção encontram-se abrigados.

A responsabilidade dos governantes em coibir o enraízamento de desvios de comportamento social, como norma de conduta, é de todo imperativo, pois os exemplos das autoridades passam a ser vistos pelos governados como espelhos a serem refletidos.

Sentimos ser oportuno convidar a sociedade brasileira a uma pausada reflexão sobre a essência da crise que, cíclica, periodicamente prejudica o desenvolvimento do país, causando danos imensuráveis à população e comprometendo as futuras gerações. E esta essência é tanto moral quanto ética.

No memento em que valores imutáveis como a honestidade, a veracidade, a lealdade são questionados e estes questionamentos passam a ser considerados como normais na vida do país, encontramo-nos, então, no caminho de desintegração moral, qual seja: a derrocada dos padrões que tornam um povo nação, subvertendo os salutares alicerces de um patriotismo são e altruístico.

É imperativo refletir sobre o espírito da época em que vivemos, quando a comunidade internacional se torna mais e mais interdependente e busca uma unidade política, social e econômica, como estágios avançados do sonho dourado de passadas gerações, expresso de forma cristalina nas palavras de Bahá'u'lláh: "a terra é um só país e os seres humanos seus cidadãos".

O Brasil por sua multifacetada diversidade racial e étnica, por sua longa tradição de país pacifista e pela posição que ocupa no cenário internacional, tem uma missão a cumprir na realização do conceito de cidadania mundial.

Se observarmos atentamente os estertores da situação a que denominamos crise, constataremos que a nação clama por justiça, enquanto valor moral, ornamento maior do caráter humano, bem como justiça nos aspectos derivativos de justiça social e econômica; enfim, um valor a ser preservado em todos os relacionamentos humanos, sejam institucionais ou individuais, e que está alicerçada nos pilares da recompensa e da punição.

Quaisquer medidas corretivas - para terem efeito duradouro e visando erradicar por completo este mal que, como uma epidemia, atinge o país - devem inevitavelmente, refletir a preocupação de sanar moral e eticamente o tecido social do qual é feito o Brasil.

Leis promulgadas com elevado espírito de justiça e de todos aqueles valores previamente mencionados, encontrarão guarida no seio da população reforçando em cada um, o sentimento de proteção da lei como base para a restauração da ordem, além de ensejar um campo propício para o exercício pleno da cidadania.

O livro da história, vide Gibbon ou Toynbee, está repleto de exemplos das causas da ascensão e queda dos povos; e em todas as páginas pode-se discernir o princípio de integração e desintegração. A integração tem se manifestado através da ordem ou lei, amparada na justiça, visando o bem estar e a tranqüilidade dos povos e o seu reverso dá-se, exatamente, pelo eclipse, parcial ou permanente, do sol da justiça.

O momento é de reflexão sobre esta situação que, ainda se pense transitória, causa infelicidade à nação e compromete seu radiante futuro.

Da Ética e do Jeitinho Brasileiro
- DEIXE que vou dar um jeitinho.

Quantas vezes ouvimos esta frase mágica em nosso cotidiano! O jeitinho, em questão, não é outro senão aquele que buscamos para contornar algum imperativo legal, ou mesmo de ordem moral. De tão assimilado em nossa sociedade, já deixamos transparecer em outros países essa nossa característica de apelarmos, nas horas difíceis, para o famoso jeitinho brasileiro.

Ao estacionar o carro em local proibido, ao furar a fila em algum banco ou na telefônica, ou mesmo para adquirir um emprego sem passar por todas as formalidades previamente anunciadas, eis que surge o jeitinho.

Aparentemente inocente, simpático até, a forma de solicitar o jeitinho varia de pessoa para pessoa e de autoridade para autoridade; mas, em todos os casos, a essência é a mesma: burlar o estabelecido, passar por cima da lei, auferir privilégios e benefícios.

O bordão de Boris Casoy para "passarmos o Brasil a limpo" somente terá efeito se nos detivermos sobre as causas e a prevenção de nossa conduta como cidadãos, no respeito ao dispositivo legal de que a lei é para todos e a ela todos devem se submeter.

Fonte precípua de corrupção, elemento de desagregação do conceito de cidadania, crescemos com uma visão deturpada da lei. E o memento onde a Lei da Selva, que é a do mais forte, e também a Lei do Gérson de sempre querer levar vantagem, torna a dianteira e solidifica o sentimento de que a lei deve ser para os outros, não para nós mesmos; e que a lei somente deve ser invocada se em beneficio próprio - em contraposição com o benefício da sociedade como um todo.

Em 25 de agosto de 1992, ao proferir uma palestra para os formandos do curso promovido em Natal pela Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG), abordei este tema. O título de minha palestra era: Ética na Política. Naquela tarde, o senador Almir Lando lia o relatório da CPI, da qual o Deputado Benito Gama era o presidente, com cobertura televisiva em cadeia nacional.

Uma das conclusões a que cheguei era a de que o ensino básico precisava passar por uma completa reformulação. Em minha visão, tão importante quanto uma criança aprender e alfabeto e o sistema numérico, deveria ser, paralelamente, ensiná-la com exemplos práticos o significado de princípios morais e éticos como honestidade, veracidade, fidedignidade, acatamento às leis.

Natural, que os adultos pudessem exemplificar tais pressupostos morais. No entanto, é impossível visualizar uma nação próspera, fraterna e justa, sem que o fortalecimento desses aspectos comezinhos, condizentes com a formação de um caráter nobre, estejam firmemente enraizados.

Uma sociedade áurea não será construída com indivíduos de chumbo. Mais do que nunca, essa afirmação mereceria uma reflexão profunda dos pais e educadores e, também, daqueles que são formadores de opinião em suas diversas áreas de abrangência.

Mas, como jogar luz sobre ética e moral em um país tão dilacerado pelo mau-caratismo, onde vemos nos telejornais "a vida como ela é" a nos convidar como meros expectadores e, com o tempo, a considerar a situação atual como absolutamente normal? É o momento de questionar os valores morais nas pautas dos telejornais, as mensagens, explícitas ou subliminares, que a dramaturgia televisiva nos serve a cada noite.

Não se trata de censura, trata-se de posicionamento. Existe um bem major a ser preservado e que diz respeito ao futuro da nação: o que estamos fomentando nas mentes das crianças colabora com a construção de um novo Brasil?

Nos Estados Unidos, li no The New York Times, que as próprias emissoras de televisão se reúnem para adotar um código de ética. O primeiro fruto foi o de que cada programa a ser exibido na telinha doméstica passará a ter uma espécie de certificado, não de censura, mas de advertência aos pais sobre a idade recomendada para sua audiência.

É um passo inicial, nada mais que isso, mas um grande passo na ótica de uma educação moral. É bem verdade que, não faz muitos anos, tínhamos no Brasil tais certificados, estes de censura: "cenas de sexo explícito", "violência excessiva" e "violência moderada". Existirá algo mais patético do que o adjetivo "moderado" seguindo e substantivo "violência"?

Não precisamos de uma excelente memória, uma vez que os enredos das novelas se repetem à exaustão, para constatar que os personagens que possuem algum senso moral alcançam pouco IBOPE em detrimento de outros não tão éticos assim, que, em sua maioria, tornam-se personagens símbolos da vida nacional. Odete Reutmann ou o médico Felipe Barreto, os mais recentes, exemplificam essa crua afirmação. E que fim levou o Beija-Flor, aquele personagem simpático e que era ridicularizado por ser honesto?

A maior tragédia de um homem é aquilo que morre dentro dele, enquanto ainda está vivo. E lamentavelmente o que morre primeiro são os seus sentimentos mais tenros, aqueles que remontam à sua infância. Saint-Exupéry, como grande humanista que foi, certa vez assim se autodefiniu: "Sou de minha infância como se é de um país."

Nesta era da informação global, uma época predita por Daniel como sendo um tempo "em que o conhecimento encheria a terra assim como as águas enchem o mar", de Gramsci, e MacLuhan, os meios de comunicação em massa tem uma responsabilidade que transcende os simples números do ibope. Uma responsabilidade com as novas gerações. Algo assim inescapável.

A Utopia como Matéria
Prima da Realidade

QUANDO me perguntaram que lugares gostaria de conhecer, dois nomes me cruzaram a mente: Utopia, de Thomas Moms e Pasárgada, de Bandeira. Quem sabe, colaborar para a realização integral de seus postulados como ideais para uma vida pacata e feliz?

Estou em Natal e aqui sou signo do mundo, um mundo em acelerada mutação. Ainda bem que para melhor. E isso, apesar dos céticos, na emergência de uma Nova Ordem Mundial. Não a Pax Americana, nem e sol crescente japonês, nem a idéia da Belíndia, tão comum no Brasil dos anos oitenta. Mas sim fincar raízes aqui em Natal, e nutrir o sentimento de pertencer a este mundo que segue inexoravelmente para seu destine: a unificação.

Terminado o conflito ideológico que abalou o mundo por quase um século, desaparecendo um muro em Berlim, resta-nos fazer uma colagem do que restou. São os versos e a voz de Marina Lima à pergunta "quem vai colar os tais caquinhos do velho mundo?" E a resposta monossilábica e única possível: nós.

Nunca houve tanta esperança como hoje. A esperança que se resgatou dos ideários políticos e sociais, para se alojar no Coração do homem. Definitivamente. Existe uma frente de trabalho que, mesmo que ainda submersa, está a nos convocar para erguer um novo patamar nas relações humanas. O resgate do ser humano integral, que busca aliar suas necessidades materiais e espirituais e, dessa conjugação, emergir solene no palco de um Novo Mundo.

Para Câmara Cascudo, o potiguar univérsico que deitou raízes em nossa consciência, "o homem moderno deve ter um telescópio em um olho e um microscópio no outro".

Munido desses instrumentos observe então Natal, esta pacata e bela capital nordestina, e seus movimentos de renovação. Em meio ao caos de uma Ordem cambaleante, despencando por si mesma, encontro, com uma satisfação há muito aguardada, os sinais de algo novo que surge. Em contraponto ao clima de "Aqui e Agora" que se abateu sobre o país, em circuito nacional, estamos passando pelas dores do parto de uma nova era, penso.

Vejamos alguns breves sinais positivos:

* A cruzada de Herbert de Souza, o Betinho, e também dos homens de boa vontade, para debater o espectro da fome que assola um mínimo de 32 milhões de brasileiros, conjugando governos e instituições civis. Trata-se de detonar o vergonhoso muro de Berlin que existe em nossa sociedade, separando os cidadãos em classes.

* A proliferação dos Conselhos Comunitários de bairros e das Associações de Moradores. Ultrapassando o paradigma de que tudo que é bom deve vir de cima. Estas instituições, ainda embrionárias, serão o fermento para a mudança da mentalidade passiva, que alimenta o assistencialismo a que nos acostumamos. Elas oxigenam a cidadania em seu conceito latu-sensu.

* O estabelecimento dos Conselhos Municipais de Defesa da Criança e do Adolescente. Esta luta não será vã. As crianças, indefesas em meio a este processo de mutação, são a matéria-prima de uma sociedade justa e fraterna.

* A eficiência crescente dos Conselhos e das Delegacias da Mulher, buscando reprimir nosso ranço machista e ultrapassado, que sempre teimou em não considerar que a humanidade é um pássaro: uma asa é o homem e a outra, a mulher. O pássaro jamais poderá alçar vôo sem a harmonia dessas duas asas.

* A criação de uma Sociedade dos Amigos da Orquestra Sinfônica do RGN e a reforma da imponente sede do Instituto Histórico, encravado na Praça da Conceição, e as novas instalações do auditório da Academia Norte-Riograndense de Letras lembram-nos que a pior chaga de nossa sociedade está na ausência da educação e da cultura. Embora sinais tênues, a simples menção desses fatos nos rejuvenescem o coração e a mente.

A propósito, não faz muito tempo, convidado pelos concluintes de Economia da UFRN para discorrer sobre o desenvolvimento econômico, ensejei a criação de um Fórum de Estudos dos Problemas Econômicos do RON. Era lançada a semente do FEERN, onde os próprios estudantes, muitas vezes diletantes, colocariam um pé no chão duro da realidade social de nosso Estado. E o FEERN está florescendo.

A própria leitura de nossos matutinos transborda desses sinais. Os Cadernos de Cultura proliferam, as contribuições transcendem nossas limitações. É confortador ler tais cadernos. As mulheres escrevendo excelentes ensaios sobre a condição feminina. E o cardápio a que podemos nos servir é bem variado: Bloomsday, Fujimorização, James Joyce e até a boa lembrança de nosso excêntrico Mr. Blue, do Miles Connoly. O ressurgimento de "O Galo", nossa aguardada Fênix. Os poetas retornando ao seu ofício de escavar na realidade os belos sentimentos que sempre acalentaram a humanidade.

O cinema em Natal também merece destaque. Temos os últimos filmes anunciados no JB e n'A Folha, nos cinemas do Natal Shopping e nos gêmeos Rio Verde. Ao mesmo tempo, podemos apoiar os pequenos Festivais de Cinema que incluem cults como o "Mahabaratha" e no outro gênero, "O Barão de Munchausen". A par disso, proliferam as colunas com os vídeo lançamentos.

Na programação televisiva aqui produzida, os talk-shows são uma constante. Com uma sintonia fina nos seus scripts, talvez pudéssemos extrair mais de tantas horas de gravação e em benefício de maiores segmentos da população natalense. Mais um pouco e, quem sabe?, poderíamos ter, até, um programa em alguma FM da cidade, dedicado à música clássica e, pasmem, à literatura.

O jargão já dizia que a matéria prima da cultura é a dor/sofrimento. E nesse caso, o Nordeste possui tudo in natura a ser lapidado.

Os livros, em Natal, como diria o poeta, estão sendo semeados "a mão cheia" e é raro um fim de semana sem que Natal não tenha acesso ao lançamento de um novo livro. Agora mesmo, recebo um exemplar da recente revista de nossa Academia de Letras, enviado pelo mestre Veríssimo de Melo.

Imagino a realização de um grande fórum cultural em Natal, reunindo representantes das entidades criadas para fomentar cultura e, assim, elaborar uma programação anual de eventos, buscando-se a participação de toda a coletividade. A mentalidade já existe e pulsa. Resta enfrentar os desafios que uma nova era coloca diante de nós.

E o desafio é tão somente nosso. Trocar os olhos pessimistas por olhos não exatamente otimistas, mas antes, realistas. Nós somos a realidade. Eis a palavra de ordem urgente. Quando poderemos divulgar a ocorrência de uma epidemia maciça de saúde, renovação, alto astral a exigir a atenção e a participação de todos?

Idéias do Primeiro Mundo

FAZER o Brasil chegar ao decantado Primeiro Mundo tem sido uma aspiração mencionada por nossas elites políticas e intelectuais.

A questão merece alguns breves comentários. A idéia de tal mudança, de modo geral, nos conduz a imaginar lugares comuns àqueles países com uma economia estável, com inflação inexistente e ausência de cifras elevadas no endividamento externo.

Mas existem outras características, simples e benéficas, de cidades do primeiro mundo que poderíamos assimilar com relativa facilidade. Talvez, assim, compreendêssemos que não é apenas doença que contagia. Saúde, também.

Sistema de trânsito. Muitos dos sinais de trânsito são acionados pelo próprio pedestre. Isso facilita o tráfego e cria condições únicas de segurança, uma vez que o tempo tem início pelo sujeito que pretende atravessar uma rua. Em determinadas avenidas e ruas do centro das cidades européias, um transeunte, ao colocar o pé na via, faz com que os motoristas comecem a frear seus automóveis.

As multas de trânsito são altíssimas. Algumas, dependendo do tipo da infração, chegam a representar 10% do valor de um automóvel popular.

Sendo o Brasil recordista em matéria de acidentes de trânsito, idéias simples colocadas em ação geram mais benefícios que excelentes planos que nunca saem do papel no qual foram bolados. Quem perdeu um ente querido, ou um amigo, no trânsito, entende do que estou falando.

Educação das crianças. É muito corriqueiro, ao visitar o Museu do Louvre, Versalhes, Trocadero e a Torre Eiffel, em Paris, ou o Tâmisa, o "Big Ben", o Palácio de Buckingham, em Londres, encontrarmos centenas de crianças em idade de alfabetização, percorrendo esses lugares com seus professores, que funcionam como dedicados guias turísticos de seus pupilos. Os museus enchem-se da algazarra dos pequenos visitantes, mas logo se acostumam com eles. Eles, por sua vez, assistem às mais memoráveis aulas de história de suas vidas: visitam in loco onde foi forjado seu país.

O grande benefício seria que, ao investirmos nas futuras gerações, estaríamos fortalecendo o sentimento de pertencer a um país e a uma cidade, nutrindo amor à sua própria história, além de incentivar simpatia pelas artes em geral.

Liberdade de pensamento. Uma característica do primeiro mundo é, sem dúvida, o direito que todos tem de expressar seu pensamento, expor suas aspirações ou simplesmente protestar contra aquilo que acreditam estar causando prejuízo à cidade ou à nação. Daí que temos as célebres tribunas livres do Hyde Park, em Londres, e do Central Park em New York, para citar apenas dois exemplos. Para que servem? Alí os cidadãos têm o direito, como se estivessem em um parlamento, de expressar o pensamento. Simples e direto. A polícia está alí, também. Só que para proteger os manifestantes contra qualquer tipo de agressão. E a democracia, literalmente, nas ruas.

Ecologia no programa escolar. Uma criança francesa ou alemã aprende a respeitar a natureza, na Escola. Cultivam, sob a supervisão de professores, hortas comunitárias em terrenos das próprias escolas. Entidades ambientalistas são convidadas a, regularmente, promover palestras e exposições aos alunos sobre ecologia e meio-ambiente. Crescem "verdes", ou seja, prontas para, no futuro, desenvolver atividades ambientalistas.

Juizado de pequenas causas. É uma realidade em muitos países europeus e norte-americanos. No Brasil, em fase de experiência no Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e até na Paraíba estes Juizados estão sendo implantados. Uma batida no trânsito, uma agressão física, desacato à autoridade, ou infringência de uma lei sobre saúde pública já podem ser resolvidas sem a extensa tramitação burocrática previstas em nossos códigos civil e penal.

A vida do cidadão seria menos atabalhoada e os efeitos terapêuticos da justiça seriam mais rapidamente percebidos.

Orquestra sinfônica e corais. Os concertos de música erudita, e até mesmo popular, em lugares públicos marcam os finais de semana de verão e da primavera em Copenhague, Toronto, Marselha ou Frankfurt. Um palco e nele uma Orquestra Sinfônica, ou um grande Coral, se apresentam para assinalar uma data como o Dia da Terra, Dia do Trabalho ou Dia da Criança. O Poder Público arca com as despesas e a população, sem nada desembolsar, se deleita com os grandes mestres da música clássica.

Criminalidade. Os Estados Unidos, Canadá e Japão, para citar alguns do "Grupo dos Sete" - aquele grupo de países desenvolvidos que detêm cerca de 2/3 do PIB mundial - entendem que a criminalidade está intimamente relacionada com a educação básica. Leis estão sendo elaboradas prevendo redução de penas àqueles delinqüentes que concluem na penitenciária, cursos de alfabetização e outros que tratam, por exemplo, de direitos humanos.

Com superlotação em nossas penitenciárias, este exemplo que vem do Primeiro Mundo poderia ser rapidamente assimilado.

Como nos diziam os Titãs: o povo "não quer só comida; a gente quer comida, diversão e arte."

Um Alento de Esperança

DIA dos Direitos Humanos. Uma data cheia de significados. Diariamente, ao assistirmos os telejornais ou mesmo ao folhearmos as páginas dos jornais, temos a estranha sensação de que o homem, hoje, constitui-se em sua maior ameaça na constante busca de felicidade. Uma felicidade que passa, certamente, por expressões de direito individual tão antigos quanto a própria existência humana no planeta: liberdade, segurança, bem-estar. E que têm como conseqüências práticas, saúde, moradia, educação e trabalho.

Em uma primeira análise, constatamos que tais direitos individuais não exigem justificativas para sua razão de ser mas, lamentavelmente, são esses mesmos direitos que, por sua constante violação em tantas regiões do mundo, nos fazem sentir diminuídos em nossa dimensão maior: a humana. Uma dimensão que não conhece fronteiras de país, nacionalidade, raça, cor, classe social ou credo religioso.

A necessidade de existir um dia consagrado à comemoração dos direitos humanos está intimamente relacionada com a sempre crescente preocupação de milhões de pessoas em conter esta aceleração de violações, que maculam a natureza espiritual e social do ser humano. Uma data que nos leva a refletir sobre os caminhos que a humanidade vem trilhando em plena alvorada do século XXI e, também, sobre as perspectivas nem sempre felizes e promissoras que tais caminhos nos levarão.

No século XVIII, logo após a Revolução Francesa, surgia a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão - um documento preocupado substancialmente com a proteção das liberdades individuais e que viria a ser a forma embrionária de outro documento, abrangente, elaborado pela Organização das Nações Unidas (ONU) e assinado por mais de uma centena de países em 10 de dezembro de 1948. Promulgava-se em seu foro mais adequado a Declaração Universal dos Direitos do Homem, onde se estipulava a garantia aos direitos individuais e, por ser mais avançada, tratava dos direitos econômicos, sociais e culturais inerentes a todos os seres humanos.

Apesar da forma solene e bem estruturada com que veio à existência legal e jurídica este importante documento sobre os direitos humanos, temos que reconhecer que nem sempre é fácil converter em ação compromissos escritos, por melhores que sejam.

A realidade é que os documentos internacionais constituem o mais amplo repositório de boas intenções que não se concretizam, no todo ou em parte, pela própria inexistência de elementos efetivos de compulsão no relacionamento entre nações soberanas.

Prova desta afirmação anterior é que, apesar de todo o progresso nos campos material, científico e tecnológico, a violação dos direitos fundamentais do homem continua a existir em diversos países, conforme atestam os inúmeros relatórios de organismos internacionais, como o Conselho Econômico e Social da ONU, suas Comissão e Sub-Comissão de Direitos Humanos, a Anistia Internacional, o Parlamento Europeu e os diversos comitês de defesa dos direitos humanos, ora existentes em dezenas de países do mundo.

Concomitante com a fome, a miséria e as enfermidades que prosperam ao lado da riqueza e dos gastos improdutivos, verdadeiras e inomináveis atrocidades são cometidas contra a dignidade das pessoas, pelo simples fato de terem maneiras distintas de pensamento, credo, raça, cor ou nacionalidade.

O Dia dos Direitos Humanos é um alento de esperança na sofrida consciência da humanidade - uma esperança de que uma nova realidade se estabeleça no campo dos direitos individuais. Esta esperança, que nunca deve esmorecer, passa necessariamente pelas palavras pronunciadas por Bahá'u'lláh (1817-1892) de que "homem é aquele que, mais do que amar sua pátria, ama sua espécie - a espécie humana".

Estas palavras têm atravessado o século com o mesmo vigor e poder criativo, prontas para, como sementes lançadas no solo dos corações humanos, germinar em uma civilização áurea, amante da paz, alicerçada em uma fraternidade universal e indivisível, na qual o Dia dos Direitos Humanos será qualquer dia do ano e na qual o conteúdo da Declaração Universal dos Direitos do Homem não constituirão sonhos, mas sim, amplas avenidas pavimentadas na realidade.

Direitos Humanos em Viena

VINTE e cinco anos depois da Conferência Mundial de Direitos Humanos, convocada pela ONU para Teerã em 1968, seus países-membros reuniram-se em Viena, de 14 a 25 de Junho de 1993, para tratar do mesmo tema. Um tema vital e indispensável para o bem-estar dos seres humanos em todo o planeta.

A questão dos direitos humanos não se relaciona apenas com governos nacionais, mas também aos indivíduos. A interdependência entre raças, povos e nações é uma realidade. O sofrimento da parte afeta o todo.

A primeira ação sistemática para proteger os Direitos Humanos está em se avaliar a situação atual, destacando suas principais conquistas e, também, as falhas em sua proteção e promoção.

Por exemplo, as entidades que militam nesta luta deveriam divulgar anualmente um relatório pormenorizado de violações, bem como de suas ações para coibi-las. Outra ação seria o apoio integral às ações encetadas pelas Nações Unidas, como a participação nas Conferências de Direitos Humanos.

Os obstáculos encontrados na proteção dos Direitos Humanos, uma vez claramente identificados, deveriam receber detida análise, visando à tomada de ações efetivas.

Um ponto vulnerável diz respeito à falta da implementação dos dispositivos legais referendados na Constituição e que regulam os direitos humanos. Daí, decorre que, aqueles que têm seus direitos violados, encontram dificuldades sobre a que instituição recorrer para sua preservação.

A ausência de uma disciplina para o estudo específico dos Direitos Humanos no programa curricular do Curso Superior de Direito, ministrado pelas universidades, debilita a formação de advogados e juristas comprometidos com a defesa dos Direitos Humanos.

Surge então outra questão: Como prevenir violações e quais os meios para superá-las?

Uma boa iniciativa seria a de disseminar amplamente o que são direitos humanos, que dispositivos legais os protegem, qual a forma mais eficaz de conscientizar a população desses Direitos. Um exemplo seria a produção de cartilhas ilustradas, em linguagem simples e direta; bem como de cartazes ilustrados para afixação em órgãos oficiais - incluindo-se ministérios e autarquias, estabelecimentos de crédito, entidades da sociedade civil, e as escolas de primeiro e segundo graus.

Outros seriam:

* A formulação de uma estrutura legal, contemplando a criação de um "Ouvidor-Geral dos Direitos Humanos" ou "Ombudsman para os Direitos Humanos", a ser acionado na ocorrência de violações, em muito viabilizaria um programa sério de promoção e proteção dos Direitos Humanos.

* Programar anualmente comemorações, envolvendo instituições que atuam nesta esfera; poderiam ser implementadas na semana em que se comemora o "Dia Internacional dos Direitos Humanos", promulgado pelas Nações Unidas.

* Fortalecer um Departamento para os Direitos Humanos, vinculado a cada seccional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), dotando-o de quadros técnico-jurídicos para assegurar maior efetividade a suas ações.

* Estabelecer ou revisar, dotando-a de meios mais efetivos, uma Convenção Internacional para Prevenção e Promoção dos Direitos Humanos, contemplando as novas formas de violação ocorridas pós-Conferência Mundial de Direitos Humanos, realizada em Teerã há 25 anos passados. Nesta nova Convenção pretendida, ou em sua revisão, se for o caso, se contemplaria as situações limites nas quais se processaria urna intervenção do todo para proteger a parte.

* Assegurar recursos necessários para as atividades de direitos humanos das Nações Unidas no futuro, através do estabelecimento de um Fundo para os Direitos Humanos, oferecendo a todos os cidadãos a possibilidade de financeiramente apoiar este Fundo.

Um Pássaro Chamado Humanidade

OS PRECONCEITOS contra as mulheres vêm de muito longe. Estão nos provérbios (Fevereiro tem 28 dias. É o mês em que as mulheres falam menos.) e nas canções populares (Paraíba masculina, mulher macho sim senhor) de diversos povos.

Nos conselhos dos mais velhos e na obra de filósofos, em sermões religiosos, nos textos de renomados pensadores, não é muito difícil encontrar, cronologicamente, alguns focos desse preconceito, tanto na religião quanto na literatura, na vida social ou política.

"Estamos cientes que não existem quaisquer fundamentos morais, práticos ou biológicos que justifiquem a superioridade masculina" declarou a Casa Universal de Justiça em 1986 e que "só quando as mulheres forem bem recebidas em todos os campos da atividade humana, em condições de igualdade, é que se criará o clima moral e psicológico do qual poderá emergir a paz internacional". Para que nossa geração seja responsável pela culminação de um novo estágio civilizatório - o da Unidade Mundial - repassemos os tropeços históricos, tendo como porta-vozes nada menos que as mais conceituadas personalidades em suas épocas.

Muitas autocríticas poderiam ser feitas pelo cristianismo. Em seu nome, santos e teólogos hostilizaram o sexo feminino.

No Gênese (2:22), temos a formação da mulher: "E a costela o Senhor Deus tomara ao homem, transformou-a numa mulher e lha trouxe." São Paulo advertia contra as mulheres. Santo Tomás de Aquino afirmava ser a mulher um ser "ocasional" e "acidental". No Livro de Provérbios (11:22), a mulher é redimida enquanto posse do homem: "A mulher virtuosa é a coroa de seu marido, mas a que procede vergonhosamente é como podridão de seus ossos." Em outro versículo (31:10), é levantada a questão da honra: "Mulher virtuosa, quem a achará?" para na frase seguinte avaliá-la como mercadoria: "O seu valor excede em muito o de finas jóias."

Santa Tereza de Jesus (1515-1582), em seu Caminho da Perfeição orienta o caminho da submissão marital ao escrever que a mulher, para ser bem casada, se seu marido está triste deve mostrar-se triste; e se ele está alegre, ela, ainda que não o esteja, há de mostrar-se.

Eurípides (485-406 a.C.) toma Hipólito como seu alter-ego e argumenta ardoroso que "a mulher é um flagelo desmedido que posso provar; o pai que a gera e cria estabelece um dote a quem a leve, a quem o livre de tamanha praga!" Abomina as inteligentes pois "Afrodite lhe inocula o pecado" e lhes destina a sentença final de que "a mulher não deveria ter nenhuma serva em torno de si e sim viver no meio de mudos animais, assim não tendo a quem dizer, de quem ouvir palavra." O mesmo Eurípides coloca estas palavras na boca de sua Medéia: "afinal, se a natureza fez-nos a nós mulheres de todo incapazes para as boas ações, não há para a maldade artífices mais competentes do que nós."

Virgílio (70-19 a.C.) define a mulher como sendo sempre "coisa variável e mutável". Publío Siro (Séc. I), em suas Sentenças declara que "a mulher ou ama ou odeia; não há outra alternativa."

É atribuída a Petrônio (6-66 d.C.) esta estrofe: "Confia teu barco aos ventos, mas às meninas não confies tua alma, porque mais segura é a onda que a fidelidade da mulher." O mesmo Petrônio refere-se à mulher para ser implacável com seus desafetos: "Aquele para quem uma mulher não é castigo suficiente, merece várias" enquanto Petrarca (1034-1374) visita o tema para não conceder o status humano à mulher: "a mu1her é coisa móvel por natureza."

Para Guillaume Bouchet (1514-1594) existem "mil invenções para fazer as mulheres falarem, e nem uma para as fazer calar."

O renomado Montaigne (1533-1592) insiste em deixar às mulheres os afazeres domésticos: "A ciência e ocupação mais útil e honrosa para uma mulher é o governo da casa." E depois escreveria que o papel da mulher seria o de "sofrer, obedecer, consentir."

A volubilidade feminina é afirmada por Miguel de Cervantes (1547-1616) nessas palavras: "é condição natural das mulheres desdenhar a quem as quer e amar a quem lhes tem aversão."

Shakespeare (1564-1616) coloca estas palavras na boca de Hamlet: "Leviandade, teu nome é mulher!" E no Ato V de Antonio e Cleópatra dispara que "a mulher é prato para os deuses, quando não é o diabo que o prepara."

La Bruyére (1645-1696) foi enfático, negando-lhe a moderação como característica: "as mulheres são dos extremos: são melhores ou piores que os homens."

Chesterfield (1694-1773) escreve a seu filho em 5/11/1748 para aconselhar que "um homem sensato apenas brinca com elas (as mulheres), graceja com elas, agrada-as, lisonjeia-as, como faz com uma criança brincalhona e precoce", para concluir dizendo que "nunca as consulta sobre assuntos sérios ou nelas confia."

Montesquieu (1689-1755), do alto de sua sabedoria sentencia que "nas mulheres jovens, a beleza supre o espírito. Nas velhas, o espírito supre a beleza."

Voltaire (1674-1778) invocava um argumento pseudobiológico para explicar a "inferioridade" da mulher: "o sangue delas é mais aquoso." Depois, em 0 Ingênuo, afirmaria que "Deus criou a mulher para que domasse os homens." Rousseau (1712-1778) estava convicto de que cabia às mulheres "agradar aos homens, servi-los, fazerem-se amar por eles, educá-los quando pequenos, cuidar deles quando crescem, consolá-los, tornar-lhes a vida agradável e doce."

Diderot (1713-1784) escreve que "embora exteriormente pareçam civilizadas, elas continuam a ser, interiormente, verdadeiros selvagens." O poeta Byron (1788-1824) sustentava que a mulher deveria ler somente livros religiosos, edificantes ou, então, livros de culinária. Lamennais (1782-1854) dizia-a de "estátua viva da burrice".

Se na época de Péricles os atenienses geradores da democracia negavam à mulher a cidadania, vinte e dois séculos depois Napoleão Bonaparte (1808-1873) ainda pontificava em nome do sexo masculino: "A mulher é nossa propriedade e nós não somos propriedade dela. Ela nos dá filhos, nós não damos filhos a ela. Ela é, pois, nossa propriedade, tal como a árvore frutífera é propriedade do jardineiro."

Para Henri-Becque (1837-1899) "só há duas espécies de mulher: as que comprometemos e as que nos comprometem".

Cânone da opressão masculina, encontramos estas palavras de Benito Pérez Galdós (1843-1930): "A mulher é um estorvo social, uma forma de obscurantismo, e se o homem não tivesse de nascer dela, deveria ser suprimida."

Nietzsche (1844-1900), em seu consagrado Assim Falou Zaratustra, escreveu: "Vais ver mulheres? Não esqueças o chicote." E, em 1888, afirmaria ainda que "quando uma mulher se torna erudita, é sinal de que há algo errado..."

Jules Renard (1864-1910) definiu a mulher como "um caniço gastador". Paul Valéry (1871-1945) conclui que "a mulher e inimiga do espírito, quer dê, quer recuse o amor". Mas ainda encontramos nesta retrospectiva das citações de pensadores, filósofos, escritores e poetas alguns lampejos de sobriedade:

Schiller (1759-1805) resgatando a realidade feminina de forma impecável, sincera, bela. Ele em seu poema Dignidade das Mulheres escreve:

Honrai bem as mulheres!
Elas trançam e tecem
Rosas celestiais para a vida na terra;
Trançam os laços beatíficos do amor,
E na graça dos véus de seu leve recato,
Com mãos abençoadas animam, vigilantes,
O fogo duradouro de belos sentimentos.

O Marques de Maricá (1773-1825) lança um interessante método de aferir um povo: "Pode-se graduar a civilização de um povo pela atenção, decência e consideração que as mulheres são educadas, tratadas e protegidas."

Balzac (1799-1850) "sentir, amar, sofrer, devotar-se, será sempre o texto da vida das mulheres" e filosofa que "as mulheres vêem tudo ou não vêem nada, segundo as disposições de sua alma: a única luz delas é o amor".

Analisemos, agora, um pouco da situação da mulher no Brasil, nas primeiras décadas deste século. Uma época em que mulheres saíram às ruas para conquistar o direito ao voto. Qual a reação no Congresso Nacional?

Nos anais de nosso legislativo máximo encontramos alguns excertos de discursos inflamados, condenando esta luta. Citamos apenas dois trechos dessas elocuções:

Estender o voto à mulher, é uma idéia anárquica, por que, no dia em que for convertido em lei, ficará decretada a dissolução da família brasileira. A concorrência dos sexos nas relações da vida ativa anula os laços sagrados da família.

- Senador Muniz Freire

Conquanto reconheça que a mulher tem capacidade intelectual e aptidão para exercer o direito do voto, não deve exercê-lo; por que sua única missão deve constituir em ser o Anjo tutelar da família.

- Senador Serzedêlo Correia

Esta situação de menosprezo pela mulher na vida política, não era algo isolado, apenas no Brasil. Um simples exemplo dessa constatação e este excerto do editorial da revista Harper, de novembro de 1933: "Nada mais antibíblico do que permitir que as mulheres votem."

Vista neste contexto, a mulher foi negligenciada em sua maior dimensão, a do amor. Grandes mulheres se destacaram ao longo dos séculos. Suas realizações são inumeráveis. Quão grande foi o valor de uma Maria Madalena que, nos primórdios do cristianismo, manteve-se inabalável em sua crença, quando a fé dos apóstolos fraquejava.

Ou o exemplo de uma Zenóbia (Séc. III d.C.), que após a morte de seu esposo, o governador-geral de Atenas, assumira o governo vindo a enfrentar o poderoso Império Romano; anexou a Síria e o Egito e com sagacidade política conduziu sua nação. A história registra que o governo de Roma declarou "não importa que comandante enviemos, não podemos derrotá-la, portanto o próprio Imperador Aureliano deve ir e dirigir as legiões de Roma contra Zenóbia..."

E que dizer de uma Joana D'Arc, a personificação da coragem e da fé, a inflamar não apenas uma nação, mas antes a própria civilização cristã?

Tahirih (1817-1852) marcou o século passado com transcendente heroísmo. Filha de um sacerdote muçulmano, ornou-se famosa pela conjugação da beleza, eloqüência e sabedoria. Abandonando o uso do véu, a despeito do costume entre as mulheres de sua pátria, o Irã, e participando de acalorados debates sobre temas místicos e espirituais, acumulou seguidas vitórias contra os expoentes masculinos mais representativos do pensamento de seu tempo. Tendo o governo iraniano lhe aprisionado, apedrejada nas ruas, exilada cidade a cidade, anatematizada, correndo risco de vida, foi incansável na defesa dos direitos de suas irmãs de sexo. A um ministro da corte do Irã, em cuja casa estava encarcerada, foi incisiva: "Podeis me matar, mas não podeis impedir a emancipação da mulher!"

A inspiração de Tahirih proviera de sua fé nos ensinamentos da Fé Bahá'í que, com tanto ardor, abraçara. Esta Fé ensinava que a humanidade assemelhava-se a um pássaro, no qual uma asa era o homem e a outra, a mulher e que para que este pássaro pudesse alçar vôo, era necessário que houvesse equilíbrio entre as asas.

A Organização das Nações Unidas (ONU) designou o ano de 1975 como o "Ano Internacional da Mulher" e que resultou no estabelecimento de 8 de Marco como o Dia Internacional da Mulher, logo institucionalizado pela ONU. A escolha da data nos remete ao 8 de março de 1857. Naquele dia, na cidade de New York, 159 operárias de uma indústria têxtil foram queimadas vivas em uma fábrica, num incêndio criminoso, durante uma greve em que reivindicavam igualdade salarial e redução da jornada de trabalho. É, portanto, um eloqüente tributo à árdua luta da mulher, através dos tempos, por seus direitos.

Em 1992, quando a Organização Internacional do Trabalho (OIT) declarava ainda faltar 475 anos para que a mulher "alcance igualdade com os homens nas esferas superiores do mercado de trabalho" era o momento para refletir que, como afirmou 'Abdu'l-Bahá (1844-1921), se até agora o mundo foi governado pela força, tendo o homem subjugado a mulher - devido à sua maior força física e as inegáveis características agressivas - podemos ver que a balança da história está mudando; a força perde seu ímpeto e com satisfação observamos que a intuição e as qualidades espirituais de amor e serviço - qualidades estas nas quais a mulher é forte - tornam-se ascendentes.

Conseqüentemente a Nova Ordem Mundial será menos masculina, mais permeada pelos ideais femininos ou, melhor dizendo, será uma Era na qual os elementos masculinos e femininos estarão em maior equilíbrio.

Para o estabelecimento da paz mundial, um dos pré-requisitos mais importantes, embora dos menos reconhecidos, volta a refletir a Casa Universal de Justiça, "é a emancipação da mulher ou seja, a concretização da plena igualdade entre os sexos"; e conclui que "a negação dessa igualdade perpreta uma injustiça contra metade da população do mundo e promove entre os homens atitudes e hábitos nocivos que são levados do ambiente familiar para o local de trabalho, a vida política e em última esfera, para as relações internacionais".

Os Livros Sagrados da Humanidade

OS LIVROS SAGRADOS da Humanidade são o elo místico que une a humanidade ao seu Criador, impulsionam a civilização e fundam os preceitos para a vida em sociedade, através do aperfeiçoamento individual.

As palavras detêm uma força, magia e inebriante beleza que cativa os ouvintes de corações puros e sinceros, fornecendo a cada ser humano que as ouve um sentido nobre para sua existência.

É-nos inconcebível um mundo sem os sopros vivificadores da Divindade. Em todos os tempos, a história registra a presença da Palavra Sagrada permeando mentes e corações e forjando o progresso material e espiritual.

Considerando que Deus não pode ser concebido ou objetivamente conhecido - uma vez que esta Realidade Suprema está além de nosso entendimento racional - Ele é, Oculto enquanto Essência e é Manifesto através de seres humanos que Ele escolhe e que, com o manto de profeta revela-nos, pelo Seu Verbo, de época em época, a Sua Vontade.

Nos Livros Sagrados, Bhagavad-Gita, Antigo Testamento, Tri-Pitakas, Novo Testamento, Alcorão e Kitáb-i-Aqdas, encontramos o "verbo feito carne" nos templos humanos de Krishna, Abraão, Moisés, Buda, Jesus Cristo, Maomé e Bahá'u'lláh.

Em todas estas Escrituras o homem é poderosamente convocado para seu Criador, através do exercício de virtudes como o amor, a bondade, a compaixão, a justiça, a eqüidade e a retidão.

É a transcendência, a meta de cada indivíduo saber que, colocando sua vida em conformidade com os preceitos divinamente ordenados, propicia o cumprimento do objetivo de sua criação: conhecer e adorar a Deus.

O Bhagavad-Gita. Também referido como Sublime Canção, Canção do Senhor ou a Mensagem do Mestre é um dos pilares da literatura sagrada mundial.

Neste Livro, Krishna, que viveu na Índia antiga há mais de 5.000 anos, apresenta uma mensagem de amor, fé e esperança. Reverenciado por budistas, hindus e brâmanes, e também, por excelência, o livro autoritativo da religião hindu.

Sua filosofia é um episódio da antiga epopéia hindu, chamada Mahâbhârata (Mahâ = grande, Bhârata = Índia), que compreende 250 mil versículos, descrevendo a grande guerra entre os Kurus e os Pândavas.

A batalha tem início quando Brishma, comandante dos Kurus, deu o sinal, tocando a sua corneta ou concha e logo respondido pelos Pândavas. Arjuna pede então a Krishna no princípio da batalha que deixasse parar o carro no meio do espaço entre os dois exércitos e eis que vê de perto seus parentes e amigos, em ambos os lados, ficando horrorizado por constatar que tratava-se de uma guerra fratricida, dizendo a Krishna que preferia morrer inerme e sem se defender, do que matar seus parentes.

A resposta de Krishna é um comovente discurso filosófico, que forma a maior parte do Bhagavad-Gita.

Escrito na melhor tradição dos livros sagrados, a luta aqui relatada não é outra que a luta travada no espírito humano do Bem contra o Mal. A supremacia do espírito sobre o egoísmo, paixões e prazeres mundanos. Sua leitura nos leva a diversos de compreensão de verdades místicas e esotéricas.

Diz-nos Krishna:

Eu sou a Origem de tudo. O universo inteiro de Mim emana. Os sábios, que são Minha imagem e semelhança, conhecendo esta verdade, dirigem-se a Mim com adoração.

O Homem real, o Espírito, não pode ser ferido por armas, nem queimado pelo fogo; a água não o molha, o vento não o seca nem move.

Quem conhece a verdade de que o Homem real é eterno, indestrutível, superior ao tempo, a mudança e aos acidentes, não pode cometer a estultice de pensar que pode matar ou ser morto.

Sabei que o Ser Absoluto, de que todo o Universo tem o seu princípio, está em tudo, e é indestrutível. Ninguém pode causar a destruição desse Imperecível.

Todo o ser e toda coisa são o produto de uma infinitésima porção do Meu poder e da Minha glória.

Quem tudo faz em Meu nome; quem Me reconhece como o alvo de todos os seus mais nobres esforços; quem Me adora, livre de apegos e sem odiar a ninguém, esse chegará a Mim.

É também uma canção apaixonada do Criador por Sua criação, abrindo-lhe imensas veredas para seu progresso no mundo do espírito.

Milhões de seres humanos continuam se deleitando com a profundidade deste Canto e nele, seguem encontrando as energias interiores que podem revitalizar sua vida e aperfeiçoar caráter.

O Antigo Testamento. Antiga Aliança e Pentateuco são outras designações do livro sagrado dos judeus que, complementado com o Novo testamento ou o Evangelho de Cristo, formam a Bíblia Sagrada, o livro mais lido no mundo.

Os judeus são os descendentes do pequeno povo de Israel e o Antigo Testamento conta sua história entre 1800 e 500 anos antes de Cristo.

Em doze séculos, o Povo da Bíblia recebeu diversos nomes. Primeiro, Hebreus, antes de sua entrada no país de Canaã, aproximadamente em 1235 a.C.; depois o Povo de Israel, quando se estabeleceram em Canaã, até o exílio - por volta de 1235-586 a.C.; e finalmente, os Judeus, em 536 a.C., após o exílio.

Os mais antigos vestígios do texto bíblico foram descobertos em 1947, nas proximidades do Mar Morto, rolos de pergaminho de 2.000 anos, conservadas em jarras. Na Idade Média, os monges copiavam a Bíblia em pergaminhos.

O Antigo Testamento pode ser classificado em cinco grupos distintos: A Lei, Os Livros Históricos, Os Livros Poéticos, Os Profetas e Os Livros Deuteronômicos. Foi redigido em dez séculos, não sendo assim obra de um único autor, mas de uma imensa gama de escritores, na maior parte anônimos.

Nesta epopéia religiosa, anterior à invenção da escrita, transmitida oralmente de pai para filho, há milênios, há estilos bastante diversificados: narrativas históricas, como o Livro dos Reis; contos, como Jonas; poemas, como em Cântico dos Cânticos; orações, como os Salmos; ensinamentos, como Provérbios.

É interessante observar que a ordem de classificação dos textos bíblicos não correspondem a ordem cronológica em que foram escritos: a primeira página da Bíblia foi escrita no século VI a.C.; as seguintes, quatro séculos antes; enquanto que o canto de Jonas escrito no século IV a.C. precede o livro do Profeta Miquéias datado do século VIII a.C.

Foi o primeiro livro impresso por Gutenberg, em 1450, dando início ao que chamamos de "galáxia de Gutenberg em expansão". Em 1980, foram vendidas 10 milhões de Bíblias, em 275 línguas.

É um livro que desde sua existência inspira poetas, pintores, escultores, escritores e pensadores de diferentes raças, e nações.

Erasmo (1469-1536) sintetiza, assim, a importância desse livro através dos tempos: "Eu desejo que a Bíblia seja traduzida em todas as línguas, para que os escoceses, irlandeses, assim como os turcos e os árabes a possam ler e compreender. Eu gostaria que o lavrador a cantasse seguindo seu arado, que o tecelão a cantarolasse enquanto tecesse e que o viajante esquecesse seu cansaço relendo suas histórias."

O Antigo Testamento se inicia com a narrativa da Criação, e um belo poema dedicado à glória de Deus:

No começo, Elohim criou os céus e a terra. A terra era deserta e vazia e o espírito de Elohim planava acima das águas.

- Gênesis 1:1-2.

Épico, relatou a aventura do homem buscando conhecer e amar seu Criador. Encontramos em suas páginas as mais emocionantes elocuções poéticas:

Não tenha medo, eu o resgatei, eu o chamei pelo seu nome, você é meu. Quando você atravessar as águas, eu estarei com você e os rios não vão submergi-lo. Quando você andar no meio do fogo, você não se queimará e a chama não o consumirá. Pois eu sou Javé, seu Deus, o santo de Israel, seu salvador. Não tenha medo, pois estou com você. Juntarei o seu povo do oriente e do ocidente. Direi ao norte: dê! e ao centro: não segurem, aproximem meus filhos de longe e minhas filhas da extremidade da terra, todos aqueles que se chamam com o meu nome, todos aqueles que, para a minha glória, eu criei, formei e fiz.

- Isaías 43:1-7.

A narrativa contempla histórias que formam o inconsciente coletivo da raça humana: Adão e Eva, Caim e Abel, Torre de Babel, Arca de Noé, Abraão, Nascimento de Isaac, Expulsão de Ismael, Sacrifício de Isaac, Luta de Jacó, José do Egito, Sarça Ardente, Saída do Egito, Travessia do Mar, Lei da Aliança, Davi contra Golias, a estrangeira Rute e centenas de outras.

O nome de Deus é formado neste Livro por consoantes que não podem ser pronunciadas. É o Tetragrama Sagrado. Elohim, Deus, Javé, Jeová, Adonai são nomes substitutos como o Senhor, Todo-Poderoso, o Pai.

Javé, em hebraico, lê-se da direita para a esquerda: HWHY. O Antigo Testamento conservou apenas as quatro consoantes do nome de Deus. Esse nome que vem do verbo ser, pode ter três significados: (1) Eu sou quem eu sou, (2) Eu sou aquele que é, (3) Eu sou quem eu serei.

A lei fundamental é: "Você amará Javé, seu Deus, com todo o seu coração, com toda a sua alma e com todo o seu poder." (- Deuteronômio 6:4) e "Você amará a seu próximo como a si mesmo."

- Levítico 19:18.

Tão poderoso é o texto bíblico, que vem inspirando ao longo do tempo o comportamento humano, estabelecendo as bases da legislação da grande maioria dos países do mundo, que encontra nos Dez Mandamentos a base do seu ordenamento jurídico, moral e ético:

* Você não terá outros deuses além de mim.
* Você não fará ídolos.
* Você não falará em vão o nome de Javé.
* Lembre-se do dia de Sabá para o santificar.
* Honre seu pai e sua mãe.
* Não mate.
* Não cometa adultério.
* Não roube.

* Você não prestará falso testemunho contra o seu próximo.

* Você não vai cobiçar a casa do seu próximo; você não vai cobiçar a mulher do próximo, nem seu criado, nem sua criada, nem seu boi, nem seu asno, nada que pertencer ao seu próximo.

- Êxodo 20:3-17.
Diz-nos, ainda, este Livro Sagrado:

A Deus pertencem os pilares do mundo. Sobre eles Ele colocou a terra...

- Samuel 1:2-8.

Que minha língua se cole no céu da boca caso eu não louve Jerusalém com toda a minha alma!

- Salmos 137:6.

Javé me disse: eu coloquei minhas palavras na sua boca!

- Jeremias 1:9-10.
Vou dispersá-lo entre as nações.
- Levítico 26:33.
Aquele que dispersou Israel o reunirá de novo.
- Jeremias 31:10.

Escute, Israel, os preceitos e as sentenças que digo. Vocês vão aprender e vão cuidar de colocá-los em prática.

- Deuteronômio 5:1.

E a pontificar sobre o sequioso espírito humano, temos este belo Salmo de Davi:

Javé, meu Deus, eu chamo durante o dia, grito de noite na sua presença, que chegue a você a minha oração, ouça o meu clamor. E para você eu grito, Javé, desde o amanhecer a minha oração o procura. Porque Javé rejeita a minha alma, me esconde a sua face?

- Salmo 88.

O Tri-Pitakas. Em sânscrito significa As Três Seções das Escrituras Budistas, compreende o Sutra-Pitaka (Sermões), o Vinaya-Pitaka (Preceitos da Fraternidade Budista) e o Abhidarma-Pitaka (Comentários).

Sidarta Gautama, o Buda, nasceu em 556 a.C., filho único do rei Suddhodana e de sua esposa Maha Maya, em Kapilavastu, no sopé do Himalaia, atual Nepal. Ele foi a Grande Luz da Ásia.

Também conhecido como o Sakyamuni, ou o "Sábio do Clã Sakya" por seus adeptos budistas, abandonou a vida principesca, vindo a se tornar um mendigo em busca da realidade espiritual. E no ano 521 a.C., à sombra de uma árvore, atinge a iluminação. Após 45 anos, pregando a sabedoria e a compaixão, entrou no Nirvana ou alcançou a "Grande Morte".

Este foi um dos acontecimentos mais belos e significativos da história da humanidade, enriquecendo a mente humana e transbordando bondade, amor e compaixão através dos séculos e até os dias atuais.

Na China, o Budismo foi introduzido no ano 67 da era cristã, durante o Reinado de Ming, da Dinastia Han. Mas, na realidade, isso ocorreu 84 anos mais tarde, quando as escrituras budistas foram traduzidas na China no ano 151 d.C., pelo Imperador Huan.

Durante 1.700 anos as traduções para o chinês se processaram, alcançando a cifra de 1.440 escrituras contidas em 5.586 volumes.

Seguiram-se traduções para o coreano, japonês, ceilonês, cambojano, turco, para quase todas as línguas orientais e também para o latim, francês, inglês, alemão, italiano e português, estando hoje acessível em quase todas as línguas do ocidente e do oriente.

Certa vez, alguns noviços se aproximaram de Buda e perguntaram-lhe a que preceitos deveriam obedecer. Então ele disse:

Aqueles que desejam entrar na senda para ser fiéis discípulos de Buda devem observar quatro preceitos fundamentais: (1) procurar boas companhias, (2) entender a lei, (3) fortalecer a mente através da reflexão e (4) praticar a virtude. No entanto, quanto à norma de conduta, dou dez mandamentos, que são:

I. Não matar.
II. Não roubar.
III. Não falar mal dos outros.
IV. Não mentir.

V. Não ingerir alimentos antes das horas pré-fixadas e se abster de bebidas alcoólicas.

VI. Não assistir a festas e espetáculos.

VII. Abster-se de perfumes, ungüentos, adornos e grinaldas.

VIII. Não cobiçar nada de ninguém.
IX. Evitar o conforto de leitos macios.
X. Abster-se de receber esmolas em dinheiro.

Os Ensinamentos do Sábio do Mundo são a força motriz de grande parte da humanidade, cativando milhões de seres humanos, sendo a religião que conta com o maior número de adeptos em todo o mundo.

Em seu Livro Sagrado encontramos estas palavras:

O Eu é o mestre do eu. Que outro mestre poderia existir?

Tudo existe - é um dos extremos. Nada existe - o outro extremo. Devemos sempre nos manter afastados desses dois extremos e seguir o Caminho do Meio.

O que somos é conseqüência do que pensamos. Qual a raiz do Mal? A cobiça, o ódio e a ilusão.

O Mal é feito unicamente pelo eu, nasce do eu, é trazido à existência pelo eu.

Qual é o caminho da salvação? É a retidão; é a meditação; é a sabedoria.

Saber de cor todos os Vedas não conduz à Verdade. O conhecimento útil, a verdadeira ciência, só pode ser adquirido pela prática.

Antes de dar, o coração se alegra; durante o ato de dar, ele se purifica; e, depois de dar, ele se sente satisfeito.

Fazei de vós mesmos uma luz. Confiai em vós mesmos: Não dependais de mais ninguém. Fazei de meus ensinamentos a vossa luz. Confiai neles. Não dependais de nenhum outro ensinamento.

O Novo Testamento. Também chamado de A Nova Aliança, o convênio feito por Deus com Jesus em favor de todos os homens, tem inspirado o comportamento humano através dos tempos.

Um Livro pleno de amor e devoção, subvertendo a moral da época, renovando os alicerces da sociedade em que era apregoado, extrapolou as fronteiras nacionais para criar uma civilização: A civilização cristã.

Compreende 27 livros do cristianismo, religião fundada por um judeu, Jesus de Nazaré há 2000 anos e é aceito como Palavra de Deus, para um em cada três homens no mundo. Os cristãos reconhecem como sagrados os livros da religião judaica que formam o Antigo Testamento. O Novo Testamento escrito pelos primeiros cristãos, sobre a vida de Jesus e das primeiras comunidades cristãs.

Sua mensagem é quase sempre conhecida coma Evangelho do, grego, significa Mensagem Feliz e para Jesus significava a boa nova de libertação para todos os homens.

A ordem tradicional dos Livros do Novo Testamento: os quatro evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João), os Atos dos Apóstolos, as Cartas de Paulo, as Cartas aos Hebreus, as Cartas de Pedro, as Cartas de João, as Cartas de Judas e o Apocalipse de João.

Todos esses livros foram escritos em grego entre os anos 51 e 100 da era cristã. Os escritos originais não foram encontrados, existindo, no entanto, cerca de 5.000 cópias antigas.

O evangelho de Marcos foi concluído por volta de 65-70 d.C., os de Mateus e Lucas, 75-80 d.C.

O fragmento de manuscrito mais antigo é anterior ao ano 150 e foi encontrado no Egito. Os manuscritos que contêm o Novo Testamento completo datam do século IV. São eles: o Codex Vaticanus, conservado na Biblioteca do Vaticano e o Codex Sinaiticus, descoberto no mosteiro de Santa Catarina, no Monte Sinai e conservado no Museu Britânico de Londres.

Durante a Idade Média, até a descoberta da imprensa, a Bíblia era recopiada nos mosteiros. Em 1456 Gutenberg imprimiu seu primeiro exemplar.

As primeiras traduções apareceram no século II: em latim, siríaco (Séc. II), copta (Séc. III), gótico, georgiano, etíope (Séc. IV), em armênio (Séc. V), árabe, chinês, anglo-saxão (Séc. VIII), alemão, eslavônio, franco (Séc. IX).

No Novo Testamento encontramos os relatos da vida de Jesus: nascimento, Jesus e João Batista, a ressurreição de Lázaro, a Última Ceia, o Jardim de Getsêmane, a subida do Calvário, a Ressurreição dos mortos - bem como relatos dos primeiros cristãos e seu heroísmo na proclamação desta Mensagem: Pentecostes, os primeiros conflitos com as autoridades, o evangelho de Samaria, a conversão de um etíope, a fundação da Igreja de Antioquia, a concílio de Jerusalém, o assassinato de Tiago, Estevão - o primeiro mártir cristão, a fuga de Pedro, dentre outros.

Atualmente, o Novo Testamento está traduzido em 459 línguas e mais de 15 milhões de exemplares são vendidos ou distribuídos todo ano. É, de longe, o livro mais lido e adquirido no mundo.

Alguns dos ensinamentos deste Livro:

Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá fome, quem confia em mim jamais terá sede.

- João 6:35.
O maior amor é o de dar a vida por seus amigos.
- João 15:13.

Aquele que me segue não caminha nas trevas, ao contrário, ele terá a luz da vida.

- João 8:12.

Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens a quem ele ama.

- Lucas 2:14.

Mas eu lhes digo, a vocês que me ouvem: amem seus inimigos, façam o bem àqueles que os detestam. Aquele que esbofeteia sua face, apresente-lhe também a outra.

- Lucas 6:27.

Quando ele se aproximava da porta da cidade, eis que levavam um morto. Era um filho único e a mãe era viúva. ... Jesus tacou o caixão e os carregadores pararam. Ele disse: "Jovem, eu lhe digo, levante-se." O morto sentou-se e começou a falar. E Jesus o entregou à sua mãe.

- Lucas 7:12-16.

Por volta da nona hora, Jesus clamou bem alto: "Eli, Eli, lamma sabactáni", isto é, "meu Deus, meu Deus, porque você me abandonou?" Logo a seguir, um deles correu a pegar uma esponja, encheu-a de vinagre e a colocou na ponta de um caniço para dar-lhe de beber. E Jesus ainda deu um grito bem alto, e entregou o espírito. E eis que a cortina do santuário dividiu-se em duas, de alto a baixo, a terra tremeu, as rochas se fenderam.

- Mateus 27:46-53.

Pois Deus amou o mundo, a ponto de dar-lhe seu único filho, para que, seja quem for que confie nele, não pereça, mas tenha a vida eterna.

- João 3:16.

E eu vi um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra se foram, e o mar não mais existe. E eu vi a nova Jerusalém descer do céu, pronta coma uma esposa... E eu ouvi uma voz dizer, do trono: "Eis a abriga de Deus com os homens. Ele enxugará toda lágrima de seus olhos. Nem luto, nem grito, nem dor existirão mais, pois o primeiro universo se foi."

- Apocalipse 21:1-4.

O Alcorão. O Alcorão é um dos livros mais influentes da história. Para 800 mil muçulmanos, espalhados em pelo menos 40 países do mundo ou um sexto da humanidade, ele é a Palavra textual de Deus.

É um belo poema, uma oração e um código de leis que se sobressai por sua pureza de estilo, sabedoria e verdade, constituindo por essas características uma força indutora de comportamento religioso, social e político da humanidade.

Maomé, que nasceu em Meca, na Arábia, em 570 d.C. e faleceu aos 62 anos em Medina, foi o Porta-Voz de Deus à humanidade e seu livro, o Alcorão. Sobre ele, afirmou que "se um livro pudesse por as montanhas em marcha ou fazer a terra rachar ou os mortos falarem, esse livro seria o Alcorão. (13:13) E sua função religiosa está bem delineada: "Fizemos descer sobre ti o livro, com a verdade, para a instrução de todos os homens. Quem seguir a senda da retidão, fá-lo-á em seu benefício e quem se desencaminhar fá-lo-á em seu prejuízo. Não és responsável por eles." (39:41)

As imagens e expressões que lhe caracterizam refletem o meio e a época em que o Alcorão foi revelado: um meio de desertos e oásis, de comércio rudimentar e de atividades agrícolas-pastorís. Maomé, o Profeta, transmite a mensagem em uma linguagem que eles entendam.

Prescrevendo ao homem uma vida de submissão à vontade divina, esta mensagem rapidamente espalhou-se pelo mundo: da Índia à Espanha e, durante a época áurea da civilização islâmica, muitas nações diferentes foram unidas em uma grande fraternidade.

O Alcorão compreende 114 capítulos (Suras) revelados por Maomé, dos quais 86 em Meca e 28 em Medina; e compreende nada menos que 6236 versículos.

Cada capítulo é uma preleção, na qual os ouvintes são exortados a seguir determinadas normas morais ou a aplicar determinadas leis; ou mesmo a crer em determinadas verdades, extraindo conclusões dos fatos históricas que lhes são narrados.

Em síntese, o conteúdo do Alcorão representa um dogma, o da religião islâmica; uma lei, a lei corânica, que compreende os códigos penal, civil, constitucional e militar; normas para o comportamento individual e social; e narrativas históricas.

Dessas narrativas, muitas são referidas pelos textos bíblicos, como a criação de Adão e Eva e sua expulsão do Paraíso, a história de José e seus onze irmãos, a perseguição do Faraó aos judeus e seu êxodo para a Terra Prometida, a história de Salomão e da rainha de Sabá, o nascimento de Jesus Cristo e diversos outros, com grandes semelhanças em relação às versões da Bíblia.

Circunscrevê-lo, no entanto, apenas ao mundo muçulmano seria um erro, por sua amplitude e poderosa convocação para que o homem se enobreça com a comunhão da Palavra revelada.

O Alcorão apresenta Jesus Cristo como um profeta que anunciou a vinda de Maomé: "Sim, o Messias, Jesus, filho de Maria, é o Profeta de Deus, sua Palavra, que ele lançou em Maria, um Espírito emanado dele." (4:171)

Diz-nos Maomé:

Se todas as árvores da terra fossem cálamos, e o mar, e mais sete mares fossem tinta, não esgotariam as palavras de Deus, o Poderoso, o Sábio.

- 31:27.

De vós deve surgir uma nação que pregue o bem, e recomende a probidade, e proíba o ilícito. Esse é o caminho da vitória.

- 3:104.

Ó meu povo, sede justos na medida e no peso e em nada lesai os outros, e não corrompais a terra.

- 11:85.

Deus não muda o destino de um povo até que o povo mude o que tem na alma.

- 13:11.

Sabei que a vida terrena nada é senão um divertimento e um jogo, e adornos e fútil vanglória, e rivalidade entre vós à procura de mais riquezas e filhos. Assemelha-se a vegetação que se segue a uma chuva.

- 57:20.

O Kitáb-i-Aqdas. Diferentemente dos Livros Sagrados já abordados, Bahá'u'lláh (1817-1892), o Profeta fundador da Fé Bahá'í, o escreveu de seu próprio punho, junto com outra centena de obras, como o Kitáb-i-Iqán, As Palavras Ocultas e Os Sete Vales e designou o seu livro de leis como O Sacratíssimo Livro, O Kitáb-i-Aqdas, que pode ser considerado como a mais brilhante emanação de sua mente.

Filho de um ministro da Corte do Xá da Pérsia, tendo nascido em 12 de novembro de 1817, na cidade de Teerã (Irã), Bahá'u'lláh, a exemplo dos Mensageiros de Deus que O procederam, teve a experiência mística de sua designação como Revelador da Palavra Divina em outubro de 1852, enquanto aprisionado na fétida masmorra de Teerã, chamada Siyáh-Chál (Cova Negra). Daquele lugar sombrio ele escreveu:

Fomos confinados por quatro meses em um lugar repugnante como nenhum outro... A masmorra estava imersa em espessa escuridão, e Nossos companheiros de prisão somavam aproximadamente cento e cinqüenta almas: ladrões, assassinos e salteadores. Embora superlotada, não tinha nenhuma outra saída a não ser a passagem pela qual entráramos. Nenhuma pena pode retratar aquele lugar, nem língua alguma descrever seu odor fétido. A maioria daqueles homens não tinham roupas, nem sequer uma esteira para deitar. Só Deus sabe o que Nos sobreveio nesse mais nauseabundo e lúgubre dos lugares!

Sendo seus seguidores condenados aos mais violentos atos de crueldade e perversidade, tais como serem explodidos em bocas de canhões, retalhados até a morte com machados e espadas ou forçados a marchar para a morte com velas acesas inseridas em feridas abertas em seus corpos, tentaram obriga-los a renegarem sua Fé em troca da sobrevivência: este era o cenário em que a Revelação Divina, uma vez mais, habitava um templo humano.

O primeiro sinal de sua missão como profeta foi alí recebido, em um momento em que sua morte parecia ser iminente. Ele descreve então aquele momento místico, o qual transformaria uma vez mais o rumo do destino humano, nestas palavras:

Uma noite, em sonho, essas exaltadas palavras foram ouvidas de todos os lados: "Verdadeiramente, Nós Te faremos vitorioso por Ti mesmo e por Tua pena. Não lamentes pelo que Te tem sobrevindo, nem temas, pois estás em segurança. Em breve, Deus fará que se ergam os tesouros da Terra - homens que hão de ajudar-Te por Ti e por Teu Nome, por meio do qual Deus ressuscitou o coração dos que O reconheceram."

O Kitáb-i-Aqdas foi revelado em 1873, enquanto Bahá'u'lláh fora transferido para a casa de 'Udi Khammár, na cidade-prisão de 'Akká, Palestina.

É um Livro que contém as jóias inestimáveis de sua Revelação, inculca princípios para o estabelecimento de uma Nova Ordem Mundial, prescreve a existência de instituições administrativas dessa mais recente Fé Mundial e se sobressai como um Livro único e incomparável entre as Sagradas Escrituras do passado.

Shoghi Effendi (1897-1957) sobre a importância deste precioso Livro escreveu que "diferentemente do Velho Testamento e dos Livros Sagrados que o precederam, nos quais não existem preceitos efetivamente emitidos pelo próprio Profeta; diferente dos Evangelhos, nos quais os poucos ditos atribuídos a Jesus Cristo não fornecem um roteiro certo quanto à administração futura dos assuntos de Sua Fé; diversamente mesmo do Alcorão - o qual, embora explícito nas leis e preceitos formulados pelo Apóstolo de Deus, silencia sobre o assunto importantíssimo da sucessão - o Kitáb-i-Aqdas, revelado do começo ao fim pelo próprio Autor da Revelação, não só preserva para a posteridade as leis e preceitos básicos sobre os quais deverá assentar a estrutura de sua Ordem Mundial, mas também estabelece, além da função de interpretação que é conferida a seu sucessor, as instituições imprescindíveis à preservação e integridade e da unidade de Sua Fé."

O Kitáb-i-Aqdas é descrito por São João no Apocalipse como "o novo céu" e a "nova terra", como "o tabernáculo de Deus", a "Cidade Santa", a "Noiva" e como "a Nova Jerusalém descendo de Deus".

Neste Livro, destinado a ser a Carta Magna da futura civilização mundial, Bahá'u'lláh anuncia a Lei Suprema, proclama-se o Rei dos Reis, declara este Livro como "a Balança Infalível" estabelecida entre os homens.

O Kitáb-i-Aqdas trata da sucessão, designando 'Abdu'l-Bahá como sucessor de Bahá'u'lláh e intérprete de seus ensinamentos, antecipa a instituição da Guardiania e da Casa Universal de Justiça, estabelece as leis espirituais, morais e éticas, especifica as proibições, faz repreensões e advertências a governantes, a indivíduos e à coletividade.

Sobre o Livro, Bahá'u'lláh escreveu:

Não penseis que vos tenhamos revelado um mero código de leis. Não, mais exatamente, deslacramos o Vinho seleto, com os dedos da grandeza e poder. Disto, dá testemunho aquilo que a Pena da Revelação revelou. Meditai nisto, ó homens de discernimento!

Este Livro é um céu que adornamos com as estrelas de Nossos mandamentos e proibições. Dizei, ó homens! Tomai-o com a mão da resignação ... Por Minha vida! Foi enviado de uma maneira que pasma as mentes dos homens. Na verdade, é o Meu mais momentoso testemunho a todos os povos, e a prova do Todo-Misericordioso para todos que estão no céu e na terra.

Por Minha vida, se soubésseis o que desejamos para vós ao revelar Nossas sagradas leis, ofereceríeis vossas almas por esta sagrada, poderosa e sublime Causa.

Sempre que Minhas leis aparecem como o sol no céu de Minhas palavras, devem ser obedecidas fielmente por todos, ainda que Meu decreto seja de tal natureza que faça romper-se o céu de cada religião. Ele age de modo que seja do Seu agrado: escolhe, e ninguém pode questionar Sua escolha. Qualquer coisa que Ele o Bem-Amado, ordene, isto é, em verdade, amado.

O Kitáb-i-Aqdas tem uma linguagem direta ao espírito humano, firme como um rochedo, inebriante como uma flagrante rosa, belo e enternecedor como um pôr-do-sol, amplo como um oceano. Concede vida aos mortos espiritualmente, sacia a sede dos peregrinos em busca da Presença de Deus, o Bem-Amado.

É, a um tempo, uma dádiva para nossa civilização, despontando como a fonte da autoridade moral para uma Nova Ordem em um momento em que a família humana encontra-se gravemente enferma e infeliz por ter se afastado de Deus por tão longo tempo.

Neste Livro, está escrito:

Não vos lamenteis em vossas horas de provação, nem nelas regozijeis; procurai o Caminho do Meio que é vos lembrardes de Mim em vossas aflições, e reflexão sobre o que vos possa advir no futuro. Assim vos informa Aquele que é o Onisciente.

Casai-vos, ó povos, para que apareça de vós quem faça menção de mim. ...

Sois apenas vassalos, ó reis da Terra! Apareceu Aquele que é o Rei dos Reis, adornado em Sua mais maravilhosa glória, e vos convoca a Si Próprio, o Amparo no Perigo, o que Subsiste por Si.

A verdadeira liberdade consiste na submissão do homem a Meus Mandamentos, embora isto pouco vos seja sabido. Fossem os homens observar o que Nós lhes mandamos do Céu da Revelação, eles atingiriam, com toda a certeza, a liberdade perfeita.

Associai-vos a todas as religiões com amizade e concórdia, para que possam inalar de vós a doce fragrância de Deus.

O equilíbrio do mundo foi alterado através cia influência vibrante desta nova e mais grandiosa Ordem Mundial. A vida regulada do gênero humano foi revolucionada por meio deste Sistema único, maravilhoso - cujo igual jamais foi testemunhado por olhos mortais.

O Kitáb-i-Aqdas é o mais recente livro sagrado da humanidade, revelado em árabe em meados do século passado. Ficou acessível ao Ocidente no ano de 1993 através da tradução para o inglês, a partir da qual rapidamente procedeu-se a tradução para inumeráveis outros idiomas, inclusive para a língua portuguesa.

Seca no Nordeste: um Povo Marcado para Sofrer

"Não entendo como alguém pode renunciar em um país que tem tanta água!" Foi este o comentário de Ben Gurion, em 1961, ao tomar conhecimento da renúncia de Jânio Quadros.

Alguns países são acometidos por terremotos, como México e o Japão, e por furacões como os Estados Unidos e que chegaram a receber nomes como Tornado, Niño e Andrews. Outros sofrem com maremotos, como os escandinavos e a costa do Japão. Nesses casos os fatores climáticos são a causa da devastação das cidades, ceifando vidas violentamente e causando imensos prejuízos com a destruição de bens.

Na América Central, as guerrilhas são uma constante. Na África do Sul, a odiosa segregação racial, chamada de apartheid. No Golfo Pérsico, as seculares guerras entre os próprios países árabes e entre estes e Israel. Aqui, a origem dos conflitos é a intolerância e a imaturidade das nações em alimentar ódios infundados na supremacia teológica e no nacionalismo desenfreado.

Na América do Sul os conflitos armados, com a única exceção da malfadada guerra das Malvinas/Falklands, são uma página virada. Comparativamente, vivemos em uma terra onde a paz fez sua morada.

No entanto, no Brasil a rebelião do clima nos leva a vivenciar os males da seca que, crônica, dizima a população, colocando outra grande parcela nas frentes de trabalho. São os flagelados de ontem e de hoje e se não houver decisões imediatas para estancar suas causas, serão os de amanhã.

A região nordeste, é importante ressaltar, ocupa uma área de 1.660.333 km2, ou seja, 20% do território nacional, incluindo 9 estados, do Maranhão à Bahia, integrando 1.426 municípios. Com essa formidável dimensão, que daria para conter mais que uma dezena de países, como os da Europa ou da África, foi delimitada uma região de 950.000 km2, englobando 1.027 municípios que formam o chamado "Polígono das Secas".

As principais causas da miséria da região são: (a) cultivo da terra com métodos primitivos, (b) extensos latifúndios estéreis, (c) minifúndios deficitários, (d) escassez de oportunidade de emprego e (e) o flagelo da seca. Sobre esse último, objeto desse breve ensaio, podemos apontar duas alternativas principais, capazes de resolver ou atenuar o problema da seca:

Criação artificial de condições ambientais para a modificação climática (ausência ou baixa densidade pluviométrica), mediante a geração de fumaça escura, pela queima incompleta de combustíveis a uma certa distância da costa, o que aumentaria a temperatura da superfície do mar e, conseqüentemente, a evaporação que, por sua vez, daria origem a nuvens que, sopradas pelos ventos alísios do Sudeste, penetrariam no interior onde se precipitariam natural ou artificialmente. Tal processo, colocado em prática durante longos anos ensejaria a modificação do clima da região.

Realização de um conjunto de obras de engenharia, compreendendo a transposição de vazões do rio São Francisco e do Tocantins, de modo a perenizar os grandes rios secos regionais, nos estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco. Ao mesmo tempo, seriam construídas novas represas (tipo a Armando Ribeiro Gonçalves, no Açu) e implantados grandes projetos de irrigação. Ao lado de uma agricultura irrigada seria desenvolvida uma agricultura de sequeiro mais tecnificada e produtiva com menor dependência do clima inconstante.

Uma região com terras férteis - como as que circundam o legendário rio São Francisco, o Vale do Jaguaribe, e a Chapada do Apodi ou o Vale do Açu, somente para citar alguns - não precisava passar pelos horrores que a seca, tal uma guerra, periodicamente castiga seu povo. As secas, convêm lembrar, também progridem, com aumento da área de abrangência e infelicitando ainda maiores contingentes populacionais.

Vale a pena refletir sobre a segunda alternativa.

Em anos recentes foi elaborado um estudo pelo Midland Bank, instituição inglesa, sobre as imensas possibilidades da agricultura irrigada na região nordestina, concluindo que "no Nordeste seria possível fazer nove Califórnias". Segundo o estudo, dispomos de "área, terrenos, mais sal e mais água que aqueles da Califórnia". A confiança do Midland nestas potencialidades levou-o, em 1983, a abrir um escritório técnico em São Luis do Maranhão.

Este trabalho foi utilizado para subsidiar as negociações do Brasil no final do governo Figueiredo com um pool de bancos que deveriam financiar a transposição do rio São Francisco a estados do Nordeste pela calha natural de rios até o Jaguaribe, no Ceará. A Califórnia havia feito com êxito essa experiência, recolhendo água do Rio Colorado através de sete Estados. Lá, o Rio Colorado, além de promover farta irrigação, era usado para hidrelétricas e saneamento urbano e beneficiava nove estados americanos e o México. A expectativa é que, tendo o nosso rio São Francisco, o Velho Chico, vazão oito vezes maior, poderíamos conseguir muito mais!

Em 1985, o DNOS, extinto no governo Collor, realizou estudos de pré-viabilidade de Sobradinho até o leito do Rio Jaguaribe, no Ceará, e o Rio Açu (Piranhas), entre Paraíba e Rio Grande do Norte. O estudo recebeu apoio do Banco Mundial, que enviou especialistas de empresas americanas que fizeram idêntico trabalho com rios dos Estados Unidos. O Plano de Ação para Irrigação no Nordeste Semi-Árido Complementado com Águas do Rio São Francisco encontra-se disperso pelas Secretarias Nacional de Irrigação e de Recursos Estratégicos e o Departamento Nacional de Obras contra as Secas (DNOCS), que dividiram o acervo e as funções do DNOS.

O projeto que inclui plantas de obras, cálculo de custos, túneis, bombas para elevação das águas, reservatórios, grandes lagos, canais e usinas hidrelétricas para geração de energia, tem orçamento de US$ 2,5 bilhões.

Segundo o engenheiro Virgílio Marques, um dos assistentes do engenheiro Ribamar Simas, o coordenador do estudo em questão, "o projeto é desejável, viável e factível"; e vai além, "não é coisa do outro mundo, antes, é comum em todo o mundo".

O principal obstáculo diz respeito ao volume de recursos financeiros exigidos para torná-lo realidade. O fato alvissareiro é que esta seria uma solução com o caráter de permanência.

Enquanto as nove Califórnias não saem do papel, o nordestino segue forjando seu destino, rezando para São Pedro liberar as chuvas e entoando sua sina nas músicas de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, como Asa Branca e Triste Partida. Um povo marcado para sofrer.

É nesse cenário que a subnutrição, o analfabetismo e os homens-gabirus (com menos de um metro de altura) vêm a existência, chocando os técnicos da Organização Mundial da Saúde (OMS) e sendo manchete, na Folha de São Paulo e no Jornal do Brasil. A verdade é que o sofrimento da parte é o sofrimento do todo.

As opções de sobrevivência dos flagelados da seca incluem o êxodo para as Estados do sul, onde engrossam o contingente dos bóias-frias e buscam as construções que necessitam de serventes e pedreiros. Estarão então engajados no destino de São Paulo, de ser "a cidade que não pode parar".

Vivendo em favelas, tendo muitas vezes o céu como teto, vivendo com as doenças que proliferam em áreas alagadiças (obviamente não saneadas), estes símbolos vivos do Nordeste repousam pensando nas Aracatis, Cariris e Caicós de suas vidas.

É o drama de Samuel Becket encenado de fio a pavio. Esperando um Godot que não vem. Um Godot que simbolizaria dias melhores, esperança de chuvas, o campo vestido do verde dos olhos de Kalu, musa de Luiz Gonzaga.

Com esta realidade social no Brasil, somos convidados a refletir sobre temas polêmicos como distribuição de renda, desigualdades sociais e regionais, reforma agrária e eliminação do imenso fosso que separa os brasileiros entre ricos e miseráveis.

A justiça social, como um amplo guarda-chuva, aglutina todos estes temas, pois a justiça "é a mais amada entre todas as coisas", como já proferia Bahá'u'lláh em meados do século passado. Uma justiça que não é dada de mãos beijadas, mas antes, é construída através de ações efetivas, congregando instituições governamentais e a sociedade civil igualmente. Na nossa unidade intrínseca voltaremos a encontrar forças para superar a adversidade.

Neste contexto soa extemporâneo e de muito mau-gosto cogitar idéias disparatadas como a criação de uma república dos pampas. A própria idéia já é um contraponto na marcha da História. Somente aqueles países que foram subjugados por outras nações, como a Yugoslávia e a Tchecoslováquia se encontram hoje se engalfinhando em lutas fratricidas, pela quimera de uma soberania nacional, em um mundo que caminha para a unificação.

Arrisco-me a inferir que as energias dos ditos "separatistas" seriam infinitamente melhor aproveitadas, se despendidas em esforços para realizar a unidade latino-americana, após o ensaio geral chamado Mercosul. Um bom exemplo disso foi a realização da Conferência Ibero-Americana de Chefes de Governo e de Estado, na Bahia. O tema reflete bem a disposição dos convencionais: Unidade e Desenvolvimento.

O momento é de unir forças, reforçar os laços de solidariedade que sempre caracterizaram o Brasil e, juntos, buscarmos alterar o futuro do Nordeste. Essa será a tarefa prévia ao início do projeto para desviar o curso do Velho Chico, o rio São Francisco.

A Última Gota de Orvalho

ANDAR pelas ruas de muitas cidades brasileiras é um convite direto e ostensivo à reflexão sobre a condição humana. Em algumas calçadas encontramos mães, com seus filhos pequenos, estendendo a mão em busca de um auxílio. Em deficientes físicos, expondo suas chagas abertas aos passantes.

Quantas vezes este quadro tem me abatido o ânimo! Lembro de minha visita a Nova Delhi, em dezembro de 1987. Caminhar pela Jam Path Road, uma das principais avenidas, com largura suficiente para que cerca de quinze scooters (carros com três rodas) pudessem manobrar simultaneamente era uma aventura somente inferior à grande aventura que é sobreviver na Índia.

Filas quilométricas de Indianos em seus tradicionais trajes branco para os homens e vermelho escarlate para as mulheres formam um cenário exótico e perturbador.

Um mar de gente: ondas sincronizadas de braços, pernas e cabeças em movimento Uma sensação pesada de solidão. Estava só em meio a milhares de pessoas atravessando uma rua. Era uma rua do Planeta Índia e em mim toda a solidão do mundo paradoxalmente se fazia presente.

Algo que me chamava a atenção: em Nova Delhi é crime pedir esmola. Infringiu a lei, vai para a cadeia e a fiscalização era tão presente quanto ausente era o policiamento do trânsito. Assim, poucas vezes se ouvia alguém pedir, quase sussurrando: "Uma rúpia par favor..."

As noites, enfrentando um frio de 12 a 14 graus centígrados, podia-se deparar com uma multidão de pessoas deitadas, lado a lado, uma fila Indiana dos adormecidos. Eles buscavam se aquecer com o calor dos corpos inertes. Esse calor substituía os nossos cobertores Tabacow ou Parahyba.

Essa realidade me pesava na consciência. Triste, muito triste, a condição humana. As palavras de John Donne sobre os sinos que dobravam "por mim e por você" adquiriam um novo sentido. O sentido da realidade.

Deixo a capital da Índia de lado e penso no nordeste brasileiro. A pobreza, no nosso caso, é bastante diferenciada. Não seria exagero afirmar que nossos "mais pobres" equivalem à "classe media" Indiana.

Mas, sem buscar a inspiração Indiana, sem tornar crime o ato de pedir aos passantes - que, em grande parte é fruto de um processo de má distribuição de renda, o qual assola o país há muitas décadas - sobressai um questionamento: Não existiria solução para ajudar os necessitados, aqueles que passam fome nas ruas, expondo suas chagas como alegorias ante a (in) sensibilidade pública?

Lembro-me de uma frase do sábio persa Bahá'u'lláh (1817-1892) que, em meados do século passado, afirmara: "o conhecimento é um ponto, os ignorantes o multiplicaram." Muitas vezes as soluções são simples, objetivas, factíveis, viáveis.

Acontece que temos uma tendência de, ao tentarmos escrever uma linha reta, primeiro desenharmos um círculo, e depois, esticando um lado e o outro, chegar a tal linha reta pretendida.

Nesse contexto, pensei em algo simples. Vejamos: poderia existir uma fundação de assistência social, seja nova ou a adaptação de alguma instituição já existente, cujo único objetivo seria oferecer trabalho, abrigo e alimentação, sob controle, aos que se alojam.

Seria uma forma de ajudar os que realmente precisam e desejam ser ajudados, diferenciando-os daqueles outros que, como manipuladores, expõem suas misérias como forma legítima de auferir rendimentos.

O que não falta no Brasil é trabalho para ocupar essa multidão que faz ponto nas esquinas, praças e ruas, pessoas muitas vezes bem dispostas, coradas, até sorridentes em muitos casos.

Pintar meios-fios de ruas, podar árvores, regar canteiros públicos, capinar terrenos baldios, varrer as ruas - estes serviços podem ser prestados por qualquer pessoa bem intencionada, se bem orientada.

A remuneração seria a alimentação e, quem sabe, o alojamento transitório, até que se encontre uma forma razoável de suspender a mera ação assistencialista.

Falar na Índia sem mencionar seu poeta maior, Rabindranath Tagore, seria de todo imperdoável. Por isso, cito os versos onde o poeta condena a natureza egoística do homem, que na longa estrada da vida, muitas vezes está desatento àqueles que lhes estendem as maos:

Perdi minha última gota de orvalho!
Exclamava a flor ao céu do amanhecer
Que acabara de perder todas as suas estrelas.
Sou Cidadão de que País?

ELES estão na Praça da Sé em São Paulo, mergulhando nas fontes da Glória no Rio de Janeiro. Em todos os lugares eles estão, como se fossem onipresentes, a estampar seu uniforme: roupas encardidas, literalmente descamisados, brincando em volta de uma árvore, adormecidos em um banco de praça.

Este é o retrato de um Brasil que luta para chegar ao 1º mundo. Com a crescente preocupação dos organismos internacionais, o Brasil viu-se na liderança dos países com a cruel estatística, aquela que aponta para o imenso número de menores exterminados, os meninos de rua que, sem cerimônia, nos oferecem a verdadeira realidade brasileira: miséria e fome, ante-sala nacional da delinqüência.

O drama dos menores abandonados é, muito provavelmente, a ponta do iceberg social. São cerca de 4.000 meninos de rua, assassinados por ano no Brasil. São, então, 4.000 motivos anuais para reflexão tanto de nossas classes dominantes quanto da sociedade brasileira em geral.

É de todo lastimável que a questão do Menor seja ainda tratada como uma questão de polícia, e não na esfera do bem-estar social. A angústia de nossos "meninos do Brasil" foi bem sintetizada nesses versos de Ângela Diniz Dumont Teixeira:

Sou cidadão de que país?
Sou herói de qual história?
Que bandidos terão roubado meu direito
de viver minha vida de menino?

Quantas vezes tenho me deparado com este quadro surrealista, no qual crianças são chamadas à vida ainda com seus 8, 9, 10 anos de idade. Estão desabrigadas, à mercê de uma sociedade cada vez mais materialista e insensível ao drama que extrapola as fronteiras do Eu.

Para este contingente de crianças do Brasil, muito pouco se tem feito. Eles perderam seus pais e ganharam um país onde passear sua penúria, a terrível penúria da condição subumana a que são sujeitos. Este tema sempre me absorveu e comoveu.

Quando estive em Delhi, na Índia em 1988, este quadro havia me chocado brutalmente. Lá, como é do conhecimento geral, o ato de esmolar constitui uma contravenção penal, a imensa massa de miseráveis nasce, vive e morre nas ruas.

Agora, da Índia de 1988 para o Brasil dos anos 90, encontro já muitas (e assustadoras) semelhanças. É a semelhança do sofrimento abatendo primeiro os mais fracos, aqueles que não tem forças para sobreviver: a vida adulta soterrando a infância. Quando olho meus filhos bem agasalhados, uniformizados para a escola, sendo chamados à mesa para as refeições ou, quando sou chamado a aplaudir seus desenhos de árvores e sóis infindáveis, ou de uma casa com uma porta e uma janela dou-me conta que sou um privilegiado!

Compreendo, então, que o que de melhor podemos oferecer às nossas crianças é nada mais, nada menos, que um lar tranqüilo, serene, em paz. Nada como os limites aconchegantes de um lar.

Mas e toda esta multidão de menores adormecidos nas ruas do país? Dormem eles com sua dor, qual mutilados de uma guerra silenciosa que ceifa as vidas de novas gerações a cada dia, e dorme nossa nação, insensível a esta geração que Se perde na luta por alimentos, abrigos, escolas. Gilberto Dimenstein ficou impressionado quando uma garota de rua havia perguntado a Paula Simas, de sua equipe:

- Tia, será que não dá pra mim nascer de novo?

Este é o ponto. Os meninos e as meninas de rua gostariam de "nascer de novo". Anseiam por ter uma nova chance na vida, quem sabe nascer em algum lar, não ter que se preocupar com comida e com cama para dormir. Mas, lamentavelmente, no dia-a-dia, eles vão compreendendo que não existe uma maneira de "nascer de novo". Na verdade, eles morrem de novo a cada dia, pois a real idade sufoca a esperança. Sufoca mas não mata. Uma breve reflexão do problema nos faz chegar a alguns questionamentos essenciais:

1. Os menores abandonados, são abandonados por quem?

2. Viver nas ruas foi opção dessas crianças?

3. Por que olhamos estas crianças com o estigma de delinqüentes mirins e de futuros trombadinhas?

4. Por que nos justificamos em não ajudá-los, cultivando o sentimento ingênuo de que eles são instrumentos de pais profissionais na arte de mendigar?

É preciso dar um basta nisso tudo e reescrever nossa história com as tintas claras da solidariedade, desfazer este verniz sujo da omissão, começar a extirpar esta imensa cicatriz que marca a alma brasileira.

'Abdu'l-Bahá, o renomado sábio persa, nos ensinou que "o homem está no grau mais elevado da materialidade e no início da espiritualidade: ou seja, ele é o fim da imperfeição e o principio da perfeição. Tem um lado animal, assim como um lado angélico e o objetivo do educar é o de treinar as almas humanas para que o seu lado angélico possa sobrepujar o seu lado animal."

É chegada a hora de termos Movimento de Meninos de Rua em todas as capitais do Brasil. A situação dos menores abandonados no Rio de Janeiro, São Paulo e Recife é rapidamente vivenciada por todo o País. Ao vermos aquelas crianças vivendo ao relento, bem poderíamos imaginar a voz de suas consciências a tomar de empréstimo as palavras da poetisa Ângela Teixeira:

Engatinho na esquina do mundo.
Do outro lado, a rua.
Não sei por onde me levam meus passos.
Para onde?

Finalmente, estou cada vez mais convencido, que para reverter esta dolorosa realidade nacional a educação é o primeiro front a ser atacado. Só que neste front o Brasil também não figura em um bom lugar nas estatísticas. Nossos professores recebem salários aviltantes. São também abandonados por um sistema impiedoso, onde, na prática, a educação é relegada a um décimo piano na ordem das prioridades governamentais. Aos educadores compete a tarefa de passar a limpo o rascunho onde se escreve BRASIL.

O Afeto que se Enterra

A CHACINA dos meninos de ma, ocorrida no Rio de Janeiro, foi tão deprimente quanto o massacre sérvio em Bósnia-Erzegovina. Ou para lembrar algo mais próximo da gente, teve a marca da brutalidade de Carandiru, a penitenciária paulista de triste memória. A diferença é que na guerra carioca, os que tombaram eram crianças e adolescentes, representantes de um exército brancaleone de 36 milhões de menores sem teto, saúde, educação. A diferença é que, em Carandiru, as vítimas eram "apenadas" e se sentiam relativamente seguras dentro do presídio. O massacre é mais uma incômoda janela que se abre para o desconcertante drama social do Brasil.

Na dor dos menores indefesos, senti a necessidade de fazer tributo aos que tombaram na Candelária, símbolos vivos de toda uma multidão de rostos anônimos a perambular pelo País.

O tributo são artigos a que chamei de:
Estatuto de Meninos de Rua

Artigo I. O menino de rua tem direito à infância, não a céu aberto, mas sim, abrigado no coração dos que amam.

Artigo II. O menino de rua tem direito à infância em dobro e, portanto, enquanto ainda nas ruas, envelhecendo rapidamente, continuará sempre um menino.

Artigo III. O olhar do menino de rua será o olhar do Brasil e a sua tristeza cairá como um manto sobre o Brasil.

Artigo IV. A ninguém é permitido aumentar a dor do menino de rua, pois para ele, a suprema dor é viver nas ruas.

Artigo V. Todos estão chamados a prestar contas da lei de solidariedade humana. A nenhum menino de rua poderá ser negada a solidariedade, chova torrencialmente ou o sol deixe de se por.

Artigo VI. Incumbe a cada pai e a cada mãe olhar o rosto de um menino de rua com aquele amor especial com que contempla seus filhos ao anoitecer.

Artigo VII. Um menino de rua que é espancado, é um pouco de nós que é espancado. A palavra espancamento deixa de existir no relacionamento da sociedade com os meninos de rua.

Artigo VIII. Nas noites de chuva, o rosto de um menino de rua deverá surgir em nossa TV, logo após o Boa Noite do Jornal Nacional, também em cadeia nacional.

Artigo IX. A profissão "Menino de Rua" será regulamentada em lei específica, sendo abolidas as atividades ora existentes:

* Pedinte nas avenidas, ruas e praças do Brasil;

* Vigia em estacionamentos improvisados e inseguros;

* Usuário de drogas e assemelhados;

* Menor delinqüente nos logradouros públicos do País.

Artigo X. Expressões como "finjo que não vejo" e "desculpe, mas não tenho como lhe ajudar" estão severamente proibidas e não poderão servir como argumento para a omissão de socorro ao Menino de Rua.

Artigo XI. Todos os automóveis deverão facilitar a passagem de um Menino de Rua. Seu atropelamento é terminantemente proibido. Não se deve atropelar a dor móvel a que chamamos de Menino de Rua.

Artigo XII. A nenhuma autoridade constituída será permitido afirmar que governa para o povo e em seu nome exerce o poder, enquanto nas encruzilhadas da vida, os filhos do povo estejam marginalizados.

Parágrafo Único. No lugar em que um Menino de Rua estiver dormindo, seja embaixo de uma árvore ou sobre um banco de praça, deverá ser afixada uma placa com as palavras: EM OBRAS.

Artigo XIII. A ninguém será permitido maldizer a vida, reclamar do destino, se sentir infeliz enquanto houver um menino vivendo nas ruas. A eles, tão somente, serão permitidos tais desabafos.

Artigo XIV. As Meninas de Ruas, precocemente gestantes, não poderão solicitar pontapés de transeuntes como forma de aborto. A elas a sociedade deverá amparar, abrigar, cuidar.

Parágrafo Único. A sociedade, para os fins deste artigo, será representada pela pessoa que primeiro tiver conhecimento da gravidez.

Artigo XV. O homem resgatará sua condição humana, no momento em que ao contemplar o rosto de um Menino de Rua, lhe pedir perdão pelo muito que deixou de lhe socorrer. Até então, será apenas um esboço de homem.

Que mais poderia ser dito dos sete meninos exterminados na Candelária? Destinos do Brasil. Pedaços de nós. Afeto que se enterra em nosso peito varonil.

Racismo: uma Reflexão Oportuna

NADA mais atrasado do que atos de racismo. Foi-se o tempo em que os homens eram valorizados por sua cor da pele. Leis foram necessárias para alterar o conceito arcaico de que o belo tinha a aparência anglo-saxônica. Isso remontava à era Vitoriana da Inglaterra em que ser Wasp (branco, anglo-saxão, protestante) equivalia a ter assento na primeira classe da vida de uma nação. Mas, vejamos, aboliu-se por decreto o preconceito racial, esquecendo-se de erradicar as atitudes raciais que derivavam para o mesquinho e o ridículo da vida.

O preconceito e uma arma carregada e pronta para abater direitos humanos mais elementares. Essa arma não deve ficar ao alcance dos adultos. As crianças não nascem preconceituosas, mas podem, por tentativa, incorporar esse vírus em sua personalidade, vindo assim a causar crescente desagregação e sofrimento àqueles que não tem a sua mesma cor de pele.

Não é demais lembrar os fogos que incendiaram Los Angeles. Foi o caso Rodney King, um negro violentamente espancado por policiais brancos norte-americanos que detonou a questão nos Estados Unidos. Uma questão que havia sido habilmente levantada por Martin Luther King, o nobre pastor protestante, ganhador do Nobel da Paz, que sonhara com uma sociedade livre, justa e fraterna. Depois de Luther King, a América não foi mais a mesma.

Equivocam-se os que pensam que o preconceito racial é uma página virada na história brasileira. Os números do IBGE, em seu Censo 90, confirmam o engano. Os negros, embora maioria no Brasil, são ainda tratados como uma minoria e vítimas da ignorância daqueles que se auto-proclamam seres superiores, fundamentados em sua cor de pele. É o velho tema da supremacia da raça ariana, bem ao estilo do Hitler do III Reich Nazista.

E ainda assim, os negros nos oferecem uma contribuição eloqüente e muitas vezes superior a dos brancos, ao progresso desse país, não obstante ocuparem poucas posições de destaque na vida política, social e cultural do Brasil.

Muito além de um romantismo invocado pelo seriado Raízes, de Alex Haley ou pela inesquecível O Direito de Nascer, com o pungente drama de Albertinho Limonta e Mamãe Dolores, a questão, por ser delicada, necessita ser amplamente abordada, ventilada, oxigenada. Somente através de uma compreensão profunda da unidade do gênero humano e de todas as suas implicações é que podemos atingir um novo patamar de solidariedade humana.

Há mais de um século, na antiga Pérsia, Bahá'u'lláh referindo-se à humanidade, proclamou que "somos as folhas e os ramos de uma mesma árvore, as estrelas de um só céu, as gotas de um mesmo mar". Não obstante, apesar de ser esta uma verdade cristalina, corroborada pelas mais sofisticadas teses de antropologia, sociologia, psicologia e biologia, continuamos a fazer de conta que não é com a gente. A mudança de atitude implica em reconhecer sua importância, em pesar e medir os benefícios que tal mudança, baseada em esforço sincero, requer.

Lamentavelmente, o preconceito racial tem suas origens encravadas em nossa própria história e que remontam ao próprio descobrimento da América, em 1492, com os descobridores brancos que aqui aportaram. O resto da história todos conhecemos: os indígenas foram considerados animais - por serem pagãos (não cristãos); não usavam roupas e não se comunicavam através de um idioma dito civilizado. Em minha mente registro uma cena do filme A Missão, com De Niro. Crianças indígenas são levadas à Espanha para fazerem uma apresentação musical da missa, em latim, a um conselho de cardeais. Ao término, são comparados a papagaios, que bem amestrados conseguiriam a mesma melodia e pureza vocal. Vistos como mão de obra barata, foram escravizados, vilipendiados e ao escassear tal mão de obra, importaram-se os negros da África, nos navios negreiros, escrevendo-se uma epopéia de dor e tragédia únicas: seres humanos tratados como mercadorias expostas à venda. Castro Alves bem vocalizou seus poemas "esse horror nos mares" e fez sua prece ao "Senhor Deus dos Miseráveis".

Tais referências e fatos históricos não podem ser tomados em benefício próprio, para justificar qualquer animosidade racia1. Ter preconceito é tanto uma atitude moral, quanto uma questão de consciência. Não faz muito tempo, Ana Flávia, a filha do governador capixaba, foi espancada por ser de cor. O caso, graças à personagem envolvida foi parar na justiça. Uma reflexão é oportuna. Quantas Anas Flávias são humilhadas, ofendidas e agredidas em Natal, Vitória, Rio de Janeiro, Brasília ou São Paulo? Como ser humano, fiquei não apenas compadecido pela jovem capixaba, mas pela atitude mesquinha e despropositada da agressora e de seu jovem filho, que encontravam, na cor da pele argumento suficiente para legitimar uma agressão cruel aos direitos de outro ser humano. Naquela tarde, imaginei os imensos sinos de John Donne a dobrarem por Ana Flávia, pelos agressores, por mim e por você que me lê.

Nosso alento é que o racismo é um mal que tem cura. Basta que nos sintamos na pele da vítima e bem sabemos que pele de vítima não tem cor. Em ambos, flui o sangue que irriga os sentimentos humanos mais belos e altruísticos. Um sangue que lhe afirma o direito de pertencer à grande família a que chamamos de Humanidade.

Outra verdade essencial à questão é que o racismo, como atestou a Casa Universal de Justiça, em 1986, "perpetua uma violação demasiada ultrajante da dignidade dos seres humanos para poder ser tolerado sob qualquer pretexto, retarda o desenvolvimento das potencialidades ilimitadas das suas vítimas, corrompe os seus perpetuadores e desvirtua o progresso humano".

Se algum privilégio ou atenção alguém deveria merecer, justo seria que o beneficiário fosse aquele que é tratado como minoria. A verdade é que, pela longa história de discriminação e violência racial com que as pessoas de pele negra foram tratadas, eles merecem não nossa compaixão, mas antes e acima de tudo, nosso amor e respeito à sua ascendência e genealogia. Por ter muitos amigos negros, fato que me orgulha de forma especial, sei o quanto sofrem com a discriminação. Sei também quão dignos, nobres e leais são, nada ficando a dever a qualquer outra raça.

Ao analisarmos detidamente como surge o preconceito racial, concluiremos que o mesmo nada mais é que uma falha em perceber os laços comuns que unem todos os povos. Para ativar esses laços comuns é fundamental a manutenção de contatos e convivência com pessoas de outras raças e etnias. O estudo das diversas formas e manifestações de preconceitos raciais, em nossas vidas diárias, contribuiria bastante para a eliminação de tais discriminações.

Regimes de segregação racial como o Apartheid da África do Sul deveriam ser rapidamente modificados, através do reconhecimento pleno de que tal concepção violenta a própria honra da humanidade, uma vez que fomenta, em povos das mais variadas nações, profundos sentimentos de mal-estar e repugnância. Tais mudanças na atitude social serão rapidamente alcançadas se os princípios relevantes - morais e espirituais - forem corajosamente estabelecidos e se homens e mulheres de boa vontade passarem a considerar uns aos outros através da expressão prática de tais ideais, seja em sua vida individual, na vida comunitária e social.

Uma raça que produz uma grande alma, vibrante estadista, filósofo da não-violência como o Mahatma Gandhi ou que produz um arauto da unidade racial, como Luther King; um herói enlouquecido de esperança e liberdade como o nosso Zumbi dos Palmares; os apaixonados pela humanidade, como um Enoch Olinga ou Louis Gregory; dois incansáveis combatentes do Apartheid na África do Sul, como Biko e Nelson Mandela, para citar alguns poucos, são antes de tudo um orgulho e um exemplo brilhante para estas e as futuras gerações.

O Brasil, país etnicamente formado pelo cadinho das raças negra, branca e indígena, não encontra respaldo histórico para que aceitemos, passivamente manifestações de racismo. O sangue que nas veias do brasileiro corre, tem certamente um bom percentual de cada raça. É esta miscigenação que caracteriza o povo brasileiro como pacifista por índole, amistoso e hospitaleiro e avesso a qualquer violação dos direitos humanos elementares. A cor da pele, definitivamente não torna superior ou inferior um cidadão. Mas o que torna um cidadão superior é o escopo de sua visão do mundo. Somos um planeta e um só povo. E este povo é multirracial, multireligioso e multinacional.

O racismo somente será abolido quando atacarmos a questão em sua origem: o coração humano. É, portanto, uma questão que transcende os limites legais e requer, antes de tudo, uma solução espiritual; ou seja, por uma combinação de adequada educação - nutrida pela livre pesquisa da verdade - e pela implementação de ações práticas por toda a sociedade, governantes e governados.

A Música Tem Cor?

NESTA crônica focalizaremos um pouco da contribuição do negro à música. Sabemos o quanto a música enche de alegria e paz o mundo. E, através da música, nos ensina Bahá'u'lláh, podemos atingir a presença de Deus. Seria de todo impossível conceber a música sem a contribuição do negro. Vejamos alguns exemplos. A nível internacional:

O jazz não teria vindo à existência, sem Louis Armstrong, Miles Davis, Dizzy Gillespie dentre outros.

O blues não seria concebido sem Ella Fitzgerald, Alberta Hunter, Ray Charles (com Georgia on my mind), Billie Holliday.

As baladas perderiam o sabor sem Edith Piaf com a La vie em rose, sem Nat King Cole e sua filha Nathalie Cole, sem Johnny Mathis (com My love for you), sem Billy Paul (com Just the way you are); só para citar alguns expoentes dessa tradição musical. E Stevie Wonder, o cego que vê música na arte com que faz a vida. Os timbres preciosos de Tina Tuner, Diana Ross (com MacArthur Park e Last Dance), o jamaicano Jimmy Cliff a rejuvenescer a rica música do Caribe. E nos nossos dias, como nos imaginar sem a alegria e o ritmo contagiantes de uma Tracy Chapman com Baby can I hold you ou de um Michael Jackson cantando We are the world e Billy Jane?

A nível brasileiro, a riqueza musical é realmente impressionante. Os estilos e as contribuições são múltiplos e a genialidade também:

A poesia em feitio de acordes, de Lupiscínio Rodrigues e Ataulfo Alves a embalar tantas gerações de enamorados e boêmios de todas as cores.

Os moinhos e as rosas que não falam do eterno mestre Cartola, um pedreiro que deixava a pá do cimento de lado e nos brindava com poesia em estado bruto e puro.

O ritmo, a elegância e as vozes de Noite Ilustrada e Agostinho dos Santos, unanimidades nacionais em décadas que passaram, mas que guardam suas marcas. Os belos: Acalanto, Dora, Suíte dos Pescadores e Só Louco de um certo gênio da Bahia de Todos os Santos, mestre Dorival Caymmi.

E o grande Luiz Lua Gonzaga a retratar o nordeste brasileiro, tornando-o uma região trágica e épica com os clássicos: Asa Branca, Triste Partida, Kalu e o não menos importante Paraíba Masculina. A voz grandiosa de Jamelão, Roberto Silva e da grande dama da MPB, Clementina de Jesus a entoar, em pleno Municipal do Rio de Janeiro, Marinheiro Só.

A poesia azul do portelense Paulinho da Viola, que confidencia baixinho, mas com extrema sensibilidade que "foi um rio que passou em minha vida e só me deixou saudade".

O talento de Luiz Melodia a nos encantar com Pérola Negra, em um antológico lamento das lavadeiras cariocas, escrevendo uma bela página na história das classes mais sofridas desse país.

A forca do canto de Milton Nascimento, o Bituca de Três Pontas, a nos embalar com a bela Travessia, Nos Bailes da Vida e Nascente e que se firma como a mais bela voz do Brasil.

O canto esotérico e universal do poeta Gilberto Gil, com Domingo no parque, Drão, Realce, A Linha e o Linho, e Aquele Abraço. A alegria e o samba no pé de um Martinho da Vila a entoar: Canta, canta minha gente, deixa a tristeza prá lá, canta forte canta alto que a vida vai melhorar.

O ritmo e a ginga de um Jorge Benjor com Chove Chuva, A Banda do Zé Pretinho e Filho Maravilha. A melodia de um Paulo Diniz a transpor para a música o belo poema José de Drummond. O vozeirão envolvente, firme e emocionante de Alcione, a nossa maranhense enluarada.

E entre os mais recentes, como é bom destacar a rica diversidade da composição de Djavan, que inclui Sina, Samurai e Oceano. O romantismo popular de Wando, com Chora Coração e Moça. A voz vigorosa e harmoniosa de Tim Maia a nos presentear com Primavera Festa dos Santos Reis e outros sucessos dançantes.

Feitas essas rápidas observações, podemos concluir que a cor da música é a cor do sentimento que encontra abrigo no coração humano.

Porque lutamos para preservar o urso panda, a tartaruga marinha, a baleia branca e a mata atlântica? Pelo fato de estarem em extinção e porque o mundo será menos belo sem eles. E estão em extinção, por nossa causa, pois somos os ditos civilizados - predadores.

Que lástima viver em uma época como esta, célere em conhecimentos científicos, marcada pelas maravilhas tecnológicas, a era da informação global (sem trocadilhos), um mundo que realiza uma Conferência Mundial de Meio Ambiente, reunindo 160 chefes de estado e ao nosso lado nos depararmos com cenas de racismo explícito, injustificado, torpe.

Não por acaso que a padroeira do Brasil é uma Santa negra, Nossa Senhora de Aparecida. Aqui, podemos ser exemplos para o mundo de uma unidade racial inigualável. Para tanto, necessitamos apoiar a criação de instituições que combatam o racismo, sem tréguas, que lutem pela proteção dos negros e de seus direitos humanos inalienáveis e, também, que advoguem o cumprimento integral do dispositivo constitucional o qual prevê punições (duras!) aos transgressores que fomentam e praticam atos de racismo.

Um SOS Unidade Racial deveria ser criado em cada estado do Brasil, para inibir tais violações. Aos transgressores, a lei. Nada mais que a lei. Que as vítimas sejam encorajadas a processarem seus algozes. Não se constrói uma nação sã, sem indivíduos igualmente sãos.

Vítimas de Genocídio no Irã

DESENCADEANDO uma ampla e irrestrita campanha de violência, ódio e culminando com as famosas execuções sumárias de membros da indefesa comunidade bahá'i iraniana, o Aiatolá Khomeini fez aquele país, outrora resplandecente como uma verdadeira jóia no Oriente, mergulhar uma vez mais nos obscuros e tétricos períodos que caracterizaram a Idade Média. Evidenciando-se como uma potência, sendo uma exceção em termos de progresso material, o Irã explode hoje em uma vasta e infindável desintegração moral e social. Atinge seu fundo com o sempre crescente fanatismo religioso, desde há muito característica dos povos orientais. De 1978 a 1982 pouco mudou, ou melhor, quase nada mudou. Revolucionou-se o que? Um sistema carcomido pelos preconceitos seculares, em que à mulher o chaddor aprisionava e à religião a superstição tolhia.

A revolução no Irã deveria ter emulado a verdadeira revolução ocorrida naquele mesmo país, em 1844, quando, em Shiráz, alguém que viera a ser conhecido como o Báb (a Porta) se proclamara como Precursor de uma mais recente Manifestação de Deus, Bahá'u'lláh; que por sua vez, fundara a Fé Bahá'i. Trazendo uma mensagem de paz e unidade entre os seres humanos e proclamando aos reis e governantes da terra, bem como aos líderes do pensamento humano e aos povos do mundo, que "a terra é um só país e os seres humanos seus cidadãos". Ele, Bahá'u'lláh, viera inaugurar "um novo ciclo do poder humano, quando todos os horizontes estão iluminados. ..."

Princípios tão revolucionários e necessários para a segurança e bem-estar do gênero humano, como a harmonia essencial entre a religião, a ciência e a razão e a eliminação de todas as formas de preconceitos, quer sejam de raça, classe, cor ou credo - foram, na segunda metade do século passado, proclamados enfaticamente por Bahá'u'lláh. E foi nesta mesma Shiráz, na qual o Báb anunciou sua vinda, que em 5 de dezembro de 1982, vários membros da Comunidade Bahá'í foram cruelmente assassinados e várias dezenas de bahá'ís aprisionados. Uma única acusação: eram bahá'ís. Sim, porque no Irã é crime ser bahá'í. É crime também acreditar na unidade mundial, é crime acreditar que "o homem e a mulher tem direitos e oportunidades iguais".

Sobre isto, os bahá'is correm muito perigo, pois se lembram das palavras de 'Abdu'l-Bahá, o Exemplo Perfeito dos ensinamentos bahá'ís, que disse: "a humanidade é como um pássaro, uma asa é o homem, e a outra asa, a mulher.... um pássaro não poderá alçar vôo se as duas asas não estiverem em equilíbrio!"

Gostaria que os que me lêem, soubessem aquilo que o coração não mais pode suportar. Mas tem que suportar. No dia 16 de novembro de 1982, o Sr. Habibulláh Hawjí foi enforcado. O Sr. Yadulláh Siphir Arfá foi executado por um pelotão de fuzilamento e o Sr. Manutchéhr Vafaí foi apunhalado, em sua residência. O assassino deixara o punhal em seu corpo. E dele pendia uma nota explicativa sobre o motivo de seu bárbaro crime: ele era um bahá'í e merecia a morte. No dia 21, cinco bahá'ís foram presos e a eles concedidos 30 minutos para que cada um renegasse sua Fé. Devido à coragem desses bahá'is, aliás, algo comum entre os bahá'ís - já tão acostumados a serem alvo de violências e crueldades, - três deles receberam da Corte Religiosa de Shiráz a sentença de morte. Os outros dois continuam na prisão aguardando a sua hora.

A verdade é a única arma que os bahá'ís possuem para se defender e com ela nunca falta fogo. Isto tem sido evidenciado desde o nascimento da Fé Bahá'í em 1844, tempo suficiente para que aproximadamente 20 mil pessoas fossem martirizadas. Assim, sempre tem sido com o alvorecer de quaisquer religiões mundiais. Olhemos o alvorecer do cristianismo. Olhemos o início do islamismo.

Observemos, agora como testemunhas, o destino dos bahá'ís no Irã. São mais de 500 mil pessoas, na "primeira linha". Para eles não existe a certeza do amanhã. Nem mesmo do próximo instante. Passos apressados à noite, certamente são dos bahá'ís, que se dirigem para a relativa segurança dos seus lares. Barulhos ensurdecedores à noite, tochas acesas, tiros cruzando o ar e impropérios ditos em tons altos e vibrantes, são certamente dos algozes e acusadores. São daqueles que mancham o sagrado nome do Islã com atos que, indubitavelmente, fariam o próprio Maomé se envergonhar e exclamar: "Este não me pertence!"

Como bahá'í do Brasil e integrante da grande família de Bahá'u'lláh, hoje espalhada em mais de 125 mil localidades do mundo, o que me consola é saber que aquele sangue não tem sido derramado em vão. É saber que, em qualquer parte onde residam bahá'ís, eles devem trabalhar e se esforçar dia e noite para promover a unidade do gênero humano. A religião, acreditam os bahá'ís, deve ser motivo de amor e unidade entre seres humanos. Crêem, também, na progressividade religiosa: existe apenas um Deus, que de tempos em tempos envia uma nova mensagem para a humanidade. Esta mensagem faz o homem progredir espiritual e materialmente. E assim crêem os bahá'ís nos ensinamentos e princípios sagrados de Jesus Cristo, de Buda, de Moisés, de Maomé.

A fonte é a mesma e vem revivificar os corações humanos, trazer-lhes paz e felicidade e, notadamente, acender em cada coração a chama do amor de Deus. Que mal há nisso? Por que se deve pagar com a vida o privilégio inigualável de ser um bahá'í? A ONU aprovou inúmeras resoluções repudiando enfaticamente os crimes perpetrados contra esta minoria inocente. O Parlamento Europeu e o Conselho da Europa também fizeram o mesmo. Governos soberanos de todo o mundo aprovaram moções de repúdio e solicitaram a rápida cessação de todas essas atrocidades. Será a situação dos bahá'ís, no Irã, a "ponta do iceberg"? Não será tempo de nos olharmos uns aos outros como irmãos e compreendermos que existe um planeta... um só povo?

No momento em que me dirijo aos leitores do Jornal do Brasil, sei que bahá'ís estão sendo executados, friamente, calculadamente, barbaramente. Crianças ficarão órfãs e mulheres ficarão viúvas. Pergunta-se: onde está a consciência da humanidade? É, acho que o coração não pôde suportar. E gritou.

Solidão de Espírito no Brasil

TODOS aqueles que têm se dedicado à proteção dos direitos humanos das populações indígenas, conhecem bem as dificuldades envolvidas nesta tarefa. O dilema crucial criado entre as posturas paternalistas ou românticas e a exploração e a perseguição impiedosa apontam para a necessidade de novas formas de atuação, que ajudem os próprios indígenas a reconhecerem seu valor e a terem voz e força para defender seus direitos.

Para muitas cabeças pensantes, o problema indígena terá solução com uma FUNAI bem aparelhada, sensível aos anseios de seus tutelados, assistencialista em essência. Uma "casa de farinha", aqui e outra mais adiante, passagens aéreas para transporte de índios enfermos entre capitais do País, um centro de distribuição de sementes para favorecer a agricultura das aldeias.

Para outras cabeças, também pensantes, a solução está na realização de incontáveis reuniões e seminários, visando arrecadar boas quantias de recursos financeiros. Uma nova Fundação dos Povos da Floresta, um Fundo Amazônico, tudo isso lastreado por shows ecológicos e outras pirotecnias, com potencial para a transmissão de imagens por satélite.

Permito-me afirmar que índio não quer show e muito menos novas fundações, por melhores que sejam como idéias. Imagine-se alguém chegar a uma UTI de hospital e buscar salvar os pacientes com tais expedientes. ... São muitas as necessidades prementes. Algo muito mais simples, os índios desejam: eles querem ser ouvidos. Nada mais.

Mas, o que o índio tem a dizer? Ah! Ele tem muito a dizer. Vejamos:

Espoliação e desespero

Somos uma nação subjugada pelos potentes, uma nação espoliada, uma nação que está morrendo aos poucos, sem encontrar o caminho, porque aqueles que nos tomaram esta pátria, não têm dado condições para nossa sobrevivência.

- Marçal, Tribo Guarani.
O que reivindicam

Não queremos emancipação, nem integração. Queremos o nosso direito de viver. Jamais o branco compreenderá o índio. Queremos ser um povo livre, como antigamente. O índio está cercado, amordaçado por uma burocracia que não funciona. Por isso nós vamos a campo.

- Tupay, Tribo Guarani.
Resgate de sua espiritualidade

Éramos um povo sem lei, mas nos dávamos muito bem com o Grande Espírito, criador e legislador de tudo. Vocês, brancos, diziam que éramos selvagens. Vocês não entendiam nossas preces e nem procuravam entender. Quando cantávamos para o Sol, a Lua ou o Vento, diziam que estávamos adorando ídolos. Sem compreender, nos condenavam como almas perdidas, só porque nossa forma de adoração era diferente da de vocês.

- Tatanga Mani, Tribo Stoney.
Direitos sobre a terra

Quando fomos criados, recebemos nossa terra para viver e datam desse tempo nossos direitos. Tudo isto é verdade. Tínhamos o peixe, antes dos missionários chegarem, antes do homem branco chegar. Fomos postos aqui pelo Criador e este direito é tão antigo quanto à lembrança do meu avô. Não fui trazido e nem cheguei aqui de um país estranho. Fui posto aqui pelo Criador.

- Wenincock, Tribo Yakima.
A ação dos ditos civilizados

Antes, eu pensava que era o único homem que insistia em ser amigo do branco, mas desde que eles vieram e acabaram com nossas tendas, cavalos e tudo o mais, é difícil para mim acreditar ainda nos brancos.

- Motavato, Tribo Cheiene.

O homem branco, aquele que se diz civilizado, pisou duro não só na terra, mas na alma do seu povo.

- Carmindo Maxacali, Tribo Juruna.
Falta de sensibilidade

Os que ainda não tem problemas de terra, vão ter. É preciso garantir primeiro. Passar uma estrada em cima de uma aldeia é um crime. Porque não desviar? O Brasil é grande. Isto é triste!

- Txibaibou, Tribo Bororó.
Lembrança de massacres

O que foi feito em minha terra, eu não quis, nem pedi. Os brancos percorrendo minha terra... Quando o homem branco vem ao meu território, deixa uma trilha de sangue atrás dele. Os homens que o Pai Grande (o governo) nos manda não têm sentimentos nem coração.

- Mahpia Luta, Tribo Sioux.
Pacifistas sempre

Quando povos entram em cheque, é melhor para ambos os lados reunirem-se sem armas e conversarem sobre isso, e encontrarem algum modo pacífico de resolver.

- Sinteh Galeshka, Tribo Sioux Burles.
O início de seu sofrimento

Nosso sofrimento começou com o primeiro navio que chegou ao Brasil.

- Sampré, Tribo Xerente.
Causas do genocídio

Onde estão muitas outras tribos de nosso povo, antes poderosas? Desapareceram diante da avareza e da opressão do homem branco, como a neve diante de um sol de verão. Vamos deixar nos destruir, por nossa vez, sem luta, renunciar à nossas casas, à nossa terra dada pelo Grande Espírito, aos túmulos de nossos mortos e a tudo que nos é caro e sagrado? Sei que irão gritar comigo: Nunca! Nunca!

- Tecumseh, Tribo Shawnee.
Filosofia indígena

Nós usamos o remédio das plantas. Temos crenças, benzedores. Acreditamos que Deus colocou a natureza para o homem aproveitá-la. Deus criou todas as coisas, todos os animais, para o índio servi-Lo. Nosso povo não pode esquecer da tradição. Interessa-nos só o que é nosso. O que é importante em nossa vida é nosso costume.

- Eugênio, Tribo Bororó.
Direito à autodeterminação

Os índios são povos livres, que há milhares de anos vivem nestas terras. Não podemos aceitar que outro povo decida os caminhos que devemos trilhar.

- Xangré, Tribo Kaingang.

Nós preferimos morrer livres a viver como escravos. Para muita gente, nós somos apenas uma coisa.

- Txibae Euroró, Tribo Bororó.

As palavras de lideranças indígenas, acima referidas, constituem apenas uma gota da sabedoria de nossos ancestrais comuns. Mas, nelas pode-se sentir o aroma da verdade, em uma época tão marcada pela hipocrisia e vaidade intelectual. São ilhas de sensatez sinalizando por justiça, uma justiça que lhes escapa do seu destino nestes últimos quinhentos anos - desde que Colombo aportou em São Salvador, em 1492.

Nestes cinco séculos (1492/1992), bem poderíamos refletir sobre as palavras de Carl G. Jung. Ele esteve em contato com os índios Pueblos, do México. Registrou daquela sua memorável viagem, a entrevista com o cacique dos Pueblos, Ochiwei Biano, que havia dito que os brancos "estão sempre ansiosos, à procura de algo incessantemente"; afirmara que o problema dos brancos "é que eles pensam com a cabeça e por isso são como loucos". Jung então lhe perguntou se não deveríamos pensar com a cabeça, como eles pensavam. Biano respondeu que "nós pensamos aqui" e apontou para seu coração.

É bastante interessante a reflexão final de Jung: "Aquilo a que damos o nome de civilização, missão junto aos pagãos, expansão da civilização, etc... tem uma outra face, a de uma ave de rapina cruelmente tensa, espreitando a próxima vítima, face digna de uma raça de larápios e piratas. Todas as águias e outros animais rapaces que ornam nossos escudos heráldicos, me parecem os representantes psicológicos apropriados de nossa verdadeira natureza."

Quando poderemos, em uníssono, dizer a nossos "condenados da terra", como os cognominou Jean-Paul Sartre, estas palavras eloqüentes da renomada escritora bahá'í, Rúhíyyih Rabbaní: "Vocês são uma raça grandiosa; seu povo no Mundo Novo, antes da chegada do homem branco, levantou grandes cidades e templos lindos. Vocês fizeram com suas próprias mãos, estátuas maravilhosas e vasos de cerâmica, de ouro e de prata, jóias... Outras pessoas no mundo estão estudando cada vez mais a história indígena, descobrindo cidades e templos antigos escondidos nas selvas, nas montanhas e nas planícies, desenterrando-os, para que as pessoas possam visitá-los e se maravilhar com a grandeza da obra dos índios."

O que podemos fazer, para resgatar nossos índios dessa imensa solidão de espírito a que temos lhes confinado? É urgente e vital um novo posicionamento da sociedade brasileira, visando proteger a integridade étnica, moral e cultural de seus descendentes, hoje tão escassos e vivendo em condições subumanas, vítimas potenciais de nossa elevada corrupção moral, guerras e conflitos ruinosos. Um bom começo seria a implementação do artigo 231 de nossa já tão envelhecida Constituição, apesar de ter sido proclamada há apenas tão pouco tempo e que diz em seu caput:

São reconhecidos aos índios sua organização, costumes e línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.

Restituir a Dignidade Usurpada

SE o Brasil não consegue ir ao Primeiro Mundo, o Primeiro Mundo vem ao Brasil. E vem na esteira da ecologia, armado de estandartes e slogans pela salvação do planeta. Uma coisa é certa: a salvação do planeta passa pelo Brasil.

A Conferência Mundial de Meio-ambiente, a se realizar em junho vindouro, ainda tem o atrativo de promessas de verbas milionárias do Grupo dos Sete, e todo o charme da mídia. Seremos redescobertos, quinhentos anos depois de Colombo chegar a este continente, certo de que estava chegando à Índia.

O cenário está armado e as tabas também. Uma cidade para os índios, que há cinco séculos povoavam esta terra, está sendo providenciada. Tudo parecerá muito coerente e racional: deixam de ser manchete os seqüestros e a inflação disparada, os meninos de rua serão escanteados e entram em campo, com todas as suas disparidades, as propostas de preservação da floresta amazônica, da proteção do mico-leão, da manutenção da já escassa mata atlântica, e para dar ainda um colorido primeiro mundista, teremos temas como as chuvas ácidas e o efeito estufa; também onde deverá ser localizado (?) o lixo atômico.

Enfim, teremos direito ao cardápio de primeiro mundo. Mas os convivas estarão preparados para tal banquete? Onde estarão os principais personagens da Festa? Provavelmente, em alguma taba, invocando os deuses para abençoar o Rio durante os dias da Conferência. Nossos indígenas acontecerão no The New York Times, no Der Spiegel, no Le Monde. Quem sabe, não voltaremos a ver nosso Raoni, acompanhado do Sting, pontificando em alguma das sessões da Conferência?

Esta deveria ser a Conferência da Reflexão sobre o destino dos primeiros habitantes da América, pois, que certeza temos de, em 2002, quando se realizar uma nova edição do evento, os sobreviventes destes povos ainda poderem preencher o círculo de uma taba? Tudo está armado para a preservação do meio-ambiente, mas, estará tudo armado para a preservação daqueles que sempre viveram no Todo-Ambiente?

Estas questões afloram em minha mente e tem razões para que seja assim: A população ameríndia, em 1492, foi estimada entre 70 a 90 milhões de habitantes e apenas 150 anos depois, este contingente não ultrapassava os 3,5 a 4 milhões de indígenas, e hoje, não passam de 221.000 almas, espalhadas pelo território nacional.

No dicionário, a palavra que resume estes números frios é uma só: genocídio. A história se encarregou de colocar, lado a lado, os protagonistas do genocídio: índios, em uma taba, e a raça branca pontificando nos salões da Conferência sobre os destinos não apenas da América, mas do planeta. Acredito que, se estas reflexões não forem feitas, esta reunião constituirá um agravo a mais no longo encadeamento de pilhagens e saques cometidos contra os habitantes originários do Novo Mundo. Ouvir o índio deve ser a palavra de ordem. Mas antes, é necessário um desarmar dos espíritos, e desnudamento dos estereótipos nos quais os aprisionamos: tolos, preguiçosos, infantis, ridículos.

Estes sobreviventes indígenas não esperam compaixão; exigem respeito. Não almejam declarações pomposas, querem o que é seu. Novas leis, também não é o que se deseja; necessitam, urgentemente que o artigo 231 da Carta Magna do país seja implementado antes que passe a figurar em outro famoso emendão como nova forma de supressão de direitos. Nada mais elementar, não é Watson?

Carmindo Maxacali, dos Jurunas, declarou em carta ao então deputado Mário Juruna, em 10/08/83: "O homem branco, aquele que se diz civilizado, pisou duro não só na terra, mas na alma do seu povo." E não só pisou duro como, e o que é pior, continua pisando.

Até quando? A desilusão dos indígenas pode ser vista a olhos nus, e do fundo do poço a que foram confinados em nossa pseudocivilização, já emitem os sinais do desespero contido: no primeiro semestre deste ano, 19 indígenas do Mato Grosso cometeram suicídio, elevando para 67 os suicidas indígenas, no Brasil desde 1987. Não deixaram cartas, pois isso é coisa de suicida branco, mas deixaram com seu sangue a resposta aos excessos da civilização, traduzida pela desesperança na sociedade branca e pela supressão daquilo que sempre foi seu: a terra com seus recursos naturais, sem fronteiras e sem fome.

Fim de século, fim de muro. A partitura levada ao palco do mundo nos leva a crer no surgimento de uma nova ordem mundial, alicerçada firmemente em uma paz duradoura entre nações, sem fantasmas da guerra fria, sem pesadelos de novas ditaduras. Estamos na ante-sala de novas forças sociais. Políticas, uma vez que esta ordem demonstrou estar "lamentavelmente defeituosa" e que uma nova ordem vai se pondo. Com efeito, a cidadania mundial substituirá a cidadania nacional.

Mas, para isto, urge que tenhamos uma visão da unidade orgânica da humanidade, tão claramente definida por 'Abdu'l-Bahá o sábio persa do século passado: "Todos os homens são folhas e frutos de uma mesma árvore, são ramos da árvore de Adão: todos têm a mesma origem." Não será lícito e pouco utópico pensar que chegou o "ponto de mutação", o momento de iniciarmos a reparação da justiça? E o começo não poderia ser o de restituir a dignidade que extorquimos de nossos antepassados, a ferro e fogo? O muro de Berlim dos indígenas ainda não foi derrubado. Cairá por si só, pela podridão dos conceitos morais falidos. Esta frase poderia ser uma pergunta ou uma afirmação. Cabe a cada um de nós, concluir por uma ou outra forma gramatical.

É um grave equívoco acreditar que "porque as pessoas são analfabetas ou vivem uma vida primitiva", assinalou Shoghi Effendi em 1957, "sejam desprovidas de inteligência on sensibilidade. Ao contrário, elas podem muito bem olhar para nós, com os males de nossa civilização, com a corrupção moral, com as guerras ruinosas, hipocrisia e vaidade, como pessoas que devem ser observadas tanto com suspeita quanto com desprezo".

Não, nem só de taba vive o índio. Ele vive quando sua dimensão humana é recuperada, a justiça torna-se manifesta e, principalmente, quando deixarem de ser, como Jean-Paul Sartre denunciou, "os condenados da terra". Que a ECO-92 faça ecoar estas reflexões, por muito além da aldeia Kari-Oca, aquela taba a ser montada em Jacarepaguá pelo Governo Federal.

Inevitável Destino Comum

NO ANO em que se comemora o quinto centenário da descoberta da América, sinto ser importante ouvir as outras vozes da América - as vozes dos vencidos e dos condenados da terra, as vozes dos que não receberam o seu devido lugar na história.

Este é para mim um tema muito especial, pois como bem definiu o consagrado autor de Quarup "os índios fascinam a gente porque são anteriores ao tempo". Sem muito esforço, somos impelidos, se tão somente penetrarmos na agonia indígena, a concordar com Mark Twain, quando declara que "foi uma coisa admirável descobrir a América. Mas teria sido mais admirável não descobri-la!"

Refiro-me aos milhões de indígenas que, cidadãos livres, originários dessas vastas extensões territoriais, viram seus sonhos ruírem, suas civilizações serem saqueadas e obliteradas suas descendências... exterminadas.

Em 1492, a população ameríndia era estimada em nada menos que 90 milhões de habitantes. No Brasil, os números de 1500 indicavam uma população de cerca de 5 milhões. No entanto, não haviam transcorrido 150 anos desde a chegada do homem branco a estas terras, que o contingente populacional fora reduzido dramaticamente, a menos que 5 milhões de almas. No Brasil, em outubro de 1991, as estatísticas da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) apontavam a existência de apenas 221.047 indígenas, no território nacional.

Um genocídio lúgubre, um extermínio de imensas proporções aconteceu na América e foi assim que a vida da América, a jovem América, foi ceifada!

O momento é de reflexão. Já tendo levantado este palpitante tema na Academia Brasileira de Letras (ABL, 16/10/91), na Fundação Cultural de Curitiba (FCC/PR, 23/2/92) no Centro de Convenções do Hotel Tambaú (João Pessoa/PB, 8/2/92) e em mais de uma dezena de auditórios de 13 estados brasileiros, incluindo sessões do Fórum Global/Eco/92 (Rio de Janeiro, 13/6/92), constato com tristeza que esta é uma história submersa, de um crime cometido há tantos séculos e ainda impune.

O verbo descobrir merece especial consideração. Descobrir significa "tirar a cobertura, retirar o véu, destampar, deixar ver, mostrar - achar, encontrar pela primeira vez". Assim, no espírito e na acepção do vocábulo descobrimento, podemos muito facilmente reconhecer que, quando os europeus aqui aportaram, nós já dispúnhamos de uma cultura forte e bem desenvolvida. Aqui, ressalte-se, não era uma terra de ninguém. O mínimo que se poderia dizer é, que ao descobrir a América, a Europa diminuía sua ignorância acerca da existência de terras e povos que não conhecia.

O que ocorreu, no entanto, não foi um mero descobrimento, mas sim, um encobrimento. Encobriu-se o que aqui existia, e por força dos propalados processos civilizatórios, a lei do mais forte, daqueles que dispunham de sabres e armas de fogo, reinou soberana.

Como deixar de ver o trauma engendrado na alma dos povos indígenas da América? Como ser surdo aos lamentos de povos desiludidos, ovelhas desgarradas de reinos perdidos, desaparecidos? Como deixar de sentir uma imensa dívida de gratidão pela bravura de nossos ancestrais indígenas, que em luta desigual, jamais se dobraram à arrogância, à vaidade, à hipocrisia de seus conquistadores?

Nestes 500 anos, habita entre nós a angústia dos povos Asteca, Maia, Inca e de todos os povos das florestas, sejam da Amazônia ou dos Andes.

Como ficar impassível ante a agonia de Atahualpa, o Grande Inca, o Rei e Guia da Nação Inca, despojado de seu império, um império que, segundo historiadores renomados, sobrepassava em opulência e desenvolvimento as grandes capitais européias, em sua época?

Reduzido à condição de mero prisioneiro do governo espanhol, Atahualpa, esse Imperador sem Império, fora sentenciado à morte. Seu martírio foi descrito de forma pungente e inigualável, nessas palavras de fogo do Nobel da Paz de 1973, Pablo Neruda: "Ataram-lhe e pescoço e um gancho penetrou na alma do Peru."

E hoje, quando assistimos na qualidade de testemunhas, via satélite em nossos lares, essa procissão de miseráveis, com gravadores na mão, a recolher palavras soltas ao vento de nossas lideranças políticas, promessas seculares que não se cumprem, sentimo-nos diminuídos em nossa condição humana, pois espoliamos a raça indígena em vão. E poderíamos exclamar do fundo de nossos corações: Antes não tivessem sido queimados os navios por ordem de Cortês!

Deixemos que esses passageiros pré-colombianos cumpram seu destino elevado, tenham restituído sua dignidade usurpada. Povos, outrora nobres e altivos, não se contentarão, jamais, em serem apenas figuras folclóricas arquivadas no sótão empoeirado de nossa autoproclamada civilização.

É tempo de meditar sobre os pensamentos de Albert Schweitzer, considerado como o São Francisco de nosso século, que afirmou categoricamente: "A nossa civilização está condenada porque se desenvolveu com mais vigor materialmente que espiritualmente. Seu equilíbrio foi alterado."

É tempo de ouvir as vozes desses povos. Carmindo Maxacali, da Tribo Juruna, resumiu os cinco séculos da América nesta sentença: "O homem branco, aquele que se diz civilizado, pisou duro não só na terra, como na alma de seu povo."

Tatanga Mani, da Tribo Stoney, diagnosticava com precisão a causa do divórcio do homem branco com a natureza, ao declarar: "Vocês sabiam que as árvores falam? Pois é verdade. Falam entre si e falarão com você, se quiser escutar. O problema é que os brancos não escutam. Não aprenderam a escutar os índios e assim não creio que possam ouvir outras vozes na natureza."

Em uma pequena frase, Sampré, da Tribo Xerente, identifica claramente a gênese do martírio de seu povo: "Nosso sofrimento começou quando o primeiro navio chegou ao Brasil."

É imperioso resgatar a verdadeira dimensão de nossos indígenas. E esta dimensão é a humana. Seus talentos e habilidades, a força de seu caráter, sua espiritualidade, sua medicina natural, seu senso de amor e preservação do meio-ambiente - são algumas das lições que necessitamos urgentemente aprender. Eles, os povos indígenas, são os primeiros ecologistas.

Em meados do século XIX, na antiga Pérsia, hoje Irã, surgia um desses luminares da humanidade, Bahá'u'lláh (1817-1892). Em seus ensinamentos destinados a estabelecer uma nova ordem mundial, ele "igualou os índios em seus países, às primitivas tribos árabes nômades na época do aparecimento de Maomé, quando dentro de um curto espaço de tempo, se tornaram destacados exemplos de educação, cultura e de civilização para o mundo inteiro".

Podemos afirmar que estes povos hoje espoliados têm um legado cultural e espiritual a nos transmitir e de amplas proporções. São estes povos que chamam as orações de "belas palavras" e que tem escritos tão belos e inspiradores, como esta poesia mística recolhida da mitologia Kogni, da Colômbia:

Primeiro estava o mar
Tudo estava escuro
Não havia sol
Nem lua
Nem gente
Nem animais
Nem plantas
O mar estava em todas as partes
O mar era a Mãe
A Mãe não era gente
Nem nada
Nem coisa alguma
Ele era espírito do que iria vir
E ela era pensamento e memória.

Seria injusto não mencionar o exemplo vibrante, a conduta íntegra do sertanista brasileiro Rondon. Um homem além do seu tempo. Ele bem soubera apreciar a natureza humana de nossos ancestrais indígenas. Para fornecer uma medida de sua reverência e amor pelos índios, citaremos algumas palavras de sua conferência proferida em 7 e 9 de outubro de 1915, no Teatro Fênix do Rio de Janeiro, referentes ao desbravamento do homem branco nas terras dos índios Nambikuaras:

Estamos invadindo suas terras, é inegável! Preferiríamos pisá-las com o assentimento prévio de seus legítimos donos. Havemos de procurar todos os meios para lhes mostrar o quanto almejamos merecer esse consentimento e que não temos outra intenção senão a de os proteger. Sentimo-nos intimamente embaraçados por não podermos, por palavras, fazer-lhes sentir tudo isso. Eles nos evitam, não nos proporcionam ocasião para uma conferência, com certeza por causa da desconfiança provocada pelos primeiros invasores que profanaram seus lares. Talvez nos odeiem, também, porque do ponto de vista em que estão, de acordo com a sua civilização, todos nós fazemos parte dessa grande tribo guerreira que desde tempos imemoriais lhes vêm causando tantas desgraças, das quais as mais antigas revivem nas tradições conservadas pelos anciões.

Esta crônica da América se conclui com as palavras que o cacique Seattle, da Tribo Duwamish, dirigiu ao presidente Ulisses Grant, dos Estados Unidos da América, em 1855:

Sabemos que o homem branco não compreende nosso modo de viver. Para ele, um lote de terra é igual a outro, porque ele é um forasteiro que chega na calada da noite e tira da terra tudo o que necessita. A terra não é sua irmã, mas sim, sua inimiga, e depois que a conquista, ele vai embora... Ele trata sua mãe - a terra - e seu irmão - o céu, como coisas que podem ser saqueadas, vendidas como ovelhas ou miçanga cintilante. Sua voracidade arruinará a terra, deixando-se para trás apenas um deserto... Se te vendermos nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. Nunca esqueças de como era esta terra quando dela tomaste posse... E com tua força, o teu poder e todo o teu coração, conserva-a para teus filhos e ama-a como Deus nos ama a todos. De uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo. Esta terra é por Ele amada. Nem mesmo o homem branco pode evitar nosso destino comum.

A Odisséia dos Povos Indígenas

LANCEI, durante a ECO-92, meu livro Estamos Desaparecendo da Terra em três fóruns distintos: Parlamento da Terra (Earth Parliament), Índio 92: 500 Anos de Resistência e Fórum Global. Foi estimulante conviver, durante aqueles dias de junho de 1992, com lideranças indígenas de tantos países da América. Em todos os pronunciamentos, o desejo de tornar clara a odisséia desses povos para preservar não apenas sua soberania enquanto Nações Indígenas, mas antes, sua própria sobrevivência.

O drama dos povos indígenas teve um início; lamentavelmente, parece não ter um fim. Tudo teve começo quando Cristóvão Colombo aqui chegou pensando estar aportando na Índia, em 1492. Este foi o princípio de uma epopéia sem igual, sangrando o continente e que levou ao extermínio de tantas civilizações indígenas: 90 milhões de índios habitavam a América, à época do descobrimento e hoje, 500 anos depois, esta população não ultrapassa os 5 milhões.

Mas as vozes do passado estão límpidas, registradas, prontas para serem ouvidas: encontrarão eco na sociedade contemporânea? Até mesmo o conceito de "terceiro mundo" encontra-se bem delineado entre os sobreviventes indígenas.

Enquanto no Primeiro Mundo as tribos norte-americanas, em especial, lutam por sua soberania enquanto nações independentes, as tribos do Terceiro Mundo almejam meios para sua sobrevivência física, sendo suas populações tratadas de forma desumana, como cidadãos de terceira classe.

Chamam minha atenção os gestos de solidariedade espontaneamente evocados por índios que não sabiam se comunicar entre si, dada a grande diversidade de línguas e dialetos. Existia uma certa comunicação de olhos e de sentimentos, como nunca antes pudera perceber, apesar de já haver convivido com índios do Brasil e de outros países sul-americanos.

A dor da rejeição é algo comum entre todos os indígenas - isto ficou muito claro.

Pontificando nas tribunas antes ocupadas por Jacques Cousteau e por Ted Turner e sua radiante Jane Fonda, pude compreender a altivez com que os índios defendiam seus direitos, acusando as lideranças brancas de seus países e propondo nada menos que o direito à autodeterminação do destino e condução de seus povos.

À minha mente atenta e ao meu comovido coração, vinham-me à lembrança as palavras de Carmindo Maxacali, da tribo Juruna, ao afirmar que "o homem branco, aquele que se diz civilizado, pisou duro não só na terra, como na alma do seu povo" e o incontido apelo de Sampré, da tribo Xerente, afirmando em alto e bom som que "o nosso sofrimento começou quando o primeiro navio chegou ao Brasil".

No Parlamento da Terra, os índios de diversas nações expressaram sua riqueza artística: danças criativas, peças teatrais, monólogos e em todas essas manifestações podia-se constatar o quanto o meio-ambiente lhes é sagrado. O meio-ambiente, para os índios, é uma extensão de sua própria existência física: isso é inegável.

Um jornalista japonês da Asahi Broadcasting, com sede em Tókio, me entrevistou com um tema no mínimo polêmico: O caso Paiakan. Aliás, este caso teve uma repercussão imensa no Fórum Global 500. Em síntese, minhas respostas buscaram ver o caso como um todo e então teci os seguintes comentários:

O cacique Paulinho Paiakan, da tribo Caiapó, pelo seu elevado grau de aculturação à sociedade dos brancos, uma vez comprovado o estupro da jovem Letícia, deveria ser levado a julgamento, dentro do conceito de que todos são iguais perante a Lei, conforme dispõe em seu primeiro artigo a Constituição Brasileira.

No início de 1992, o boxeador norte-americano Mike Tyson foi julgado e condenado pelo estupro da jovem Desirée Washington e foi condenado a 6 anos de encarceramento.

No entanto, nem a comunidade negra norte-americana, nem a Associação Americana de Pugilistas Profissionais dos Estados Unidos foram condenados, ou mesmo receberam tratamento insidioso da imprensa daquele país, condenando-se por extensão negros e pugilistas indistintamente.

Nessa linha de raciocínio, busquei comparações entre os dois casos, representantes de processos civilizatórios distintos: um, negro e de renome mundial, e outro, indígena e sem nome. Considero importante denunciar o tratamento sensacionalista dado no Brasil a delitos perpetrados por indígenas, reforçando voluntariamente ou não, preconceitos ancestrais que remontam a longos séculos de discriminação, bem como fortalecendo os mais baixos sentimentos racistas - sendo o racismo um ato vil, que corrompe tanto a vítima quanto seu perpetrador.

Ao folhearmos a história destes cinco séculos, nos depararemos com farto material, onde o homem branco estuprou indígenas às centenas. Nem precisaríamos ir muito longe. Recentemente Gilberto Dimenstein publicou seu excelente livro-reportagem sobre a prostituição infantil no norte do Brasil, intitulado: Meninas da Noite. Em um dos capítulos está descrito como sendo "algo muito comum" e estupro de meninas indígenas, no interior do Estado do Pará.

Meninas, de 9 a 14 anos, como as de Cuiú-Cuiú, ostentando cartazes nas costas com a inscrição "Vende-se". Assim, Cuiú-Cuiú ganhou manchetes na Folha de São Paulo e no exterior, sendo então conhecidas pelos leitores do The Times e do Washington Post.

À exceção da Folha, outros órgãos da imprensa nacional denunciaram os horrores de Cuiú-Cuiú? O bom senso nos leva a um rotundo não. É preciso que se apurem as responsabilidades. Um erro não justifica outro, nos ensina a sabedoria popular. No entanto, tudo está devidamente documentado por Dimenstein que, in loco, viu essa realidade de nosso Brasil.

Arrisco-me, então, a inferir que se fossem instruídos processos para cada caso de estupro praticado por brancos contra indígenas no Brasil e na América, os tribunais seriam abarrotados de trabalho e ao mesmo tempo teríamos um atestado de quão perversa tem sido nossa sociedade com esses povos.

A defesa desses povos não comporta casuísmos. Paulinho Paiakan deverá se submeter à justiça e se os autos do processo assim o determinarem, deverá cumprir a sentença condenatória.

Mas e quanto ao descrédito que se lançou sobre os sobreviventes indígenas do País? Quem lhes aliviará o peso que recai sobre essa etnia ameaçada pela milionésima vez? Um grande educador do século passado, Bahá'u'lláh (1817-1892) dizia que a "a justiça é sustentada pelos pilares da recompensa e da punição" e que "a mais amada entre todas as coisas é a justiça".

Faça-se justiça e busquemos erradicar de nossas mentes e corações a imagem do índio como sendo a manifestação da selvageria dos instintos animalescos. Os índios, sem adotar uma postura romântica ou paternalista, são pessoas como nós, com fraquezas e virtudes inerentes a cada ser humano. Eles buscam, como nós, a felicidade e a salvaguarda de seus direitos humanos fundamentais: liberdade, direito à terra, respeito às suas origens, etnia, línguas, credos, costumes e tradições.

Exupéry: o Camponês das Estrelas

ERA o ano de 1973. Lembro que Gilberto Marques me apresentava um livro que logo repeli como algo infantil. Aos 14 anos o ardor juvenil nos faz senhores do mundo. Tudo está ao nosso alcance. Nada nos impedirá de consertar o inacabado da criação. E a doce ilusão de que fomos talhados para uma grande missão: a de povoar o mundo com sentimentos nobres e elevados. "Não vou perder meu tempo com este livro. Estou terminando de ler Crime e Castigo..." Foi a minha sentença. Com todo o aparato de algo irrevogável!

Passaram-se os dias e semanas e o entusiasmo do Gilberto não diminuía. Eu tinha que ler o tal livro. Tratava-se de 0 Pequeno Príncipe. Até então, era o chamado livro das candidatas aos concursos de misses. Assim foi que, com suspeita, comecei a leitura e enternecido a interrompia, profundamente comovido. E tudo se tornou diferente. O livro mexeu comigo de tal maneira, que comecei a decorar as aventuras do garoto de cabelos cor do sol. E pouco depois já estava reproduzindo desenhos do livro em meus cadernos.

A verdade é que, vencido o preconceito inicial, mergulhei de ponta no universo de Antoine de Saint-Exupéry. Um mergulho sem retorno. Expressões como criar laços, cativar, essencial, amizade arrebatavam-me para o campo da filosofia. Outro destino que se me apresentava e que não visualizava possibilidades de retorno.

Data dessa época minha fixação pelas grandes amizades. Mas o que elevaria uma amizade ao superlativo? Com o tempo descobri que uma amizade é uma carga de recordações. E uma grande amizade é quando podemos chamar as recordações de belas. São pontos de convergências iluminados por gestos despretensiosos. Acontece que esses gestos precisam ter um certo quê de transcendência. Em suas palavras "a civilização é o nascimento de um império interior".

A atmosfera exupéryana me marcou de tal forma, que é difícil compreender a vida sem buscar reter o nó que une todas as coisas. E assim, devorei Terra dos Homens, com a descrição do heroísmo de Guillaumet, a quem Exupéry dedicara o livro que logo aquinhoaria o Grande Prêmio da Academia Francesa de Letras de 1939. Para ele, nenhuma fortuna do mundo poderia adquirir a lealdade de um Mermoz, Reine ou de um Guillaumet.

Em sua vida, encontramos um libelo contra a massificação do ser humano. Em seus livros e milhares de cartas, o ritual da amizade que é a "troca de invisíveis riquezas" tornava-se parada obrigatória.

Nele, o transcendente se fez letra, palavra e som. "A grandeza de uma profissão é talvez, antes de tudo, unir os homens; só há um luxo verdadeiro, o das relações humanas". Na época em que buscava uma identidade espiritual, a lição desse "camponês das estrelas" foi certeira: "A grandeza de um homem e... a de sentir, colocando uma pedra, que contribui para construir o mundo."

Nasceu em Lyon (França) a 29 de junho de 1900, filho do Conde Jean de Saint-Exupéry e Marie de Foscolombe; em 1912, já traduzia do latim, Julio César. Neste ano, no aeródromo de Amberieu, tem seu batismo do ar, com o piloto Védrines e então sabemos de seu primeiro poema, nesse dia: "As asas fremiam sob o vento da noite / O motor com seu canto embalava a alma adormecida / O sol nos roçava com sua cor pálida."

Ele é o Pequeno Príncipe e é o Grande Caide da Cidadela. Como o primeiro, nos ensina a ter cuidado com a vaidade, pois uma flor o atormentou e também a cativar, pois o que é essencial não está ao alcance dos olhos. Como o segundo, é a lei no deserto do espírito humano: julga aqueles que constroem uma catedral como sendo um amontoado de pedras postas de uma certa maneira; e ordenava que a catedral devesse ser fundada no coração do homem. A preocupação em construir impérios, rechaçar inimigos do espírito humano, delimitar áreas de Convivência - eis o legado do Grande Caide.

Existem pessoas que marcam o seu tempo de forma inconfundível Um bom exemplo é Saint-Exupéry, o poeta-piloto, que dizia muito sem cerimônia: "sou de minha infância assim como se é de um país." Ardente construtor de "profundas amizades", seu espírito aventureiro e sua facilidade em recriar sentimentos esquecidos - como lealdade -, tudo mesclado em uma poética original, torna Saint-Exupéry uma referência oportuna nos dias que correm.

Dos Grandes, Um Pouco - o Livro de Veríssimo

O INTELECTUAL sempre será um artesão das palavras, dando-lhes vida, criando realidades e retransmitindo, às gerações que surgem, a tocha do pensamento livre, em busca de retratar a verdade de seu tempo.

Digna de louvor a iniciativa do mestre Veríssimo de Melo, ao lançar em 10 de setembro último, na Academia Norteriograndense de Letras, o seu Dos Grandes, Um Pouco. Ele, como ninguém, com seu estilo direto, afável, coloquial, nos faz refletir sobre o irrefletido, nos aproxima a lupa que esmiúça detalhes, que tornam um escritor um grande escritor; uma vida, uma grande vida.

A galáxia de Gutenberg continua se expandindo e ganhando novas colorações. Vivemos em uma época de mutações, onde se busca sempre o máximo. Máxima informação, máxima atualização, máxima essencialização. Veríssimo faz isso em sua mais recente publicação. Textos que deleitaram milhares de leitores, sejam do Jornal do Brasil ou do Diário de Natal / O Poti, passando pelo Jornal do Comércio e o Notícias Culturais, ganham nova vida com o "day-after", qual seja, o que tais artigos suscitaram na mente crítica de seus companheiros de ofício.

Gilberto Kujawski, em inspirado prefácio, retrata o autor como um anfitrião que prepara a casa para receber, em companhia de seus amigos, personalidades que marcam pelo que de melhor produziam: a poesia de Carlos Drummond de Andrade, o pacifismo da filosofia de Octavio Paz, a crônica de Rubem Braga, a sabedoria transbordante de Câmara Cascudo, a beleza do pensamento de Ortega y Gasset!

E eis que estamos como que face a face com estes ilustres convidados. Que fazemos? Vamos conhecê-los como são: humanos. Retratando aspectos pitorescos, com uma prosa ágil e temperada por seu característico bom humor, Veríssimo torna este livro uma preciosidade. Na aridez de nossa literatura, encontramos descanso em sua leitura. Não seria esta uma regra de ouro, sempre perseguida pelos que escrevem?

E sua crônica sobre o amor, em Ortega y Gasset. Um capítulo especial. A súbita viagem de Soledad, sua amada, de Madrid, deixara a cidade "vazia e sem vida" e tudo em Madrid passava a ser periférico, a mesma Madrid que antes lhe era "o centro".

Um sentimento - o Amor - que faz todos os vivos se debruçarem em busca de seus significados mais profundos. Pois que o amor é a própria força da gravidade: mantém o mundo em ordem, antítese do caos. Este mesmo amor faz o nosso Diógenes afirmar, conforme lemos neste primeiro Pacote Literário que "Este Ortega y Gasset sabia do amor. Amava". E arremata, dirigindo-se a Veríssimo: "Você sempre permitiu que seus olhos fossem seduzidos pelos astros."

O importante é que temas assim, nos fazem encontrar nos livros o prazer de deleitar o espírito, mesmo que estejamos tão sofridamente acostumando nossos olhos a temas como crise moral, impeachment, passar o País a limpo.

Rito e o Marco de Touros

UM container de emoções. É o que define o livro de Marize Castro. Com a tinta da realidade transformada em poesia, encontramos traços de genialidade submersa. Um rito de passagem: Marize que se transmuta em outras Marizes, densas, profundas, enfim encontramos a Marize-Esfinge.

Da Pérsia antiga, ao vislumbrar a brilhante trajetória de Marize Castro, vêm-me à lembrança a vida da poetisa Tahirih, a precursora dos direitos femininos, que em uma sociedade desatenta às potencialidades da mulher, encerrada na longa noite do preconceito, representou o dobro de finados de uma sociedade que vetava à mulher o direito de existir com dignidade.

A lembrança veio, após ouvir a poeta declamar: "O homem que eu toque deixará de ser homem. Será flor, trilho, estrada ou anjo." Daí, uma medida do que nos privamos durante tantos séculos.

Para ser sorvido com avidez no Rito, encontramos definições lapidares. Para a poeta "aquilo que os leigos chamam de lágrimas" nada mais são que "águas salgadas" inundando-lhe os olhos. O homem detém duas características essenciais: silêncio e transparência. A autora se autodefine como "Dama de aguda voz/Alvo inflável/Terra tênue/Animal se reinventando". Lembrando Fernando Pessoa, na bela Lisboa, sabemos que a correnteza do Tejo leva consigo as lágrimas da autora.

O instigante, no livro, é a originalidade da construção poética. Temas como solidão, amor, morte, saudade, destino e dor se entrelaçam, fornecendo novas visões daquilo que a dor julga por bem deixar em seu itinerário entre os humanos.

Um livro enxuto, onde o supérfluo não encontra espaço. Em Rito tudo é bem pesado, medido, aquilatado, avaliado.

Na noite de autógrafos, após uma hora na fila, estava a me perguntar o que a levou a dar este título ao livro. Pouco depois lhe perguntava: Marize, quantas Marizes existem em você e há quanto tempo aguardando o sinal verde para vir a lume? E a resposta convicta: nove anos. Foi o tempo necessário para que nascesse robusto o Rito.

Aqueles que não a quiseram facetada em ostra, noite e ruínas, como bem sugere a poesia da página 63, poderão, com certeza, se deliciar com outras Marizes múltiplas, encantando, trazendo à existência sentimentos que vibram e sonham.

Após sua leitura, fica a questão que sempre ronda os poetas: O que faz alguém guardar dentro de si tantos tesouros? O que lhe propicia uma colheita tão generosa de frutos gerados pela insaciabilidade do espírito humano? E então nos deparamos com a nova Marize que, se antes perambulava em nossa mente, agora assume nova realidade. Algo assim denso e mutante.

A verdade é que estamos diante de um novo referencial. Um referencial poético. Assim corno o Marco de Touros assinala o inicio da colonização portuguesa no Brasil, Rito assinalará uma nova fase na história poética deste país-continente.

Reflexão em Tel-Aviv

A PRINCÍPIO parece uma visão do nosso Nordeste. Um clima quente e seco, céu azul e uma leve brisa que vem do mediterrâneo A terra está mais para areia. Após um vôo de mais de 14 horas, parecia estar visitando algum município do sertão do Rio Grande do Norte. No entanto, eu pisava em Tel-Aviv. Para a história, seu berço natural. Para mim, a magia de retornar àquela que é referida em todos os idiomas, inclusive o árabe (por razões sinuosas, é verdade) como sendo a Terra Santa.

A segurança do Estado de Israel é reforçada. Se o viajante conseguir passar pelo aeroporto Ben Gurion, pode ficar tranqüilo e se sentir apto a transpor qualquer barreira alfandegária em qualquer país do mundo. Geralmente três jovens, de 17 a 20 anos, se revesam em formular as mesmas perguntas: "Você traz algum envelope, algum presente para alguém que resida em Israel? Em que situação você abriu as malas pela última vez? Alguém, suspeito, demonstrou interesse por sua bagagem?" Ao final do interrogatório, um pedido de desculpas pelos transtornos causados e a explicação de que Israel é alvo de muitos atentados, pelos motivos desde há muito conhecidos.

Após esta primeira abordagem em terra israelense, as bagagens são revistadas meticulosamente. Eles não se desviam de suas questões e são simpáticos quando demonstramos não entender alguma pergunta. É um país jovem e feito por jovens que foram talhados para amar e defender seu país. Pensei comigo que, assim eles forjavam as futuras Goldas Meir e Moshes Dayán. A um tempo, lembram personagens de Leon Uris, Ari e Barak Ben Canaã. Estão decididos a cumprir com suas responsabilidades, acima de qualquer outra inconveniência.

A primeira impressão é a de se estar adentrando, por algum descuido óbvio, em um vilarejo bíblico. Clima de nordeste brasileiro, povo queimado de sol. Estava familiarizado, ou melhor, aclimatado.

Fui tomado por uma profunda reflexão e recordei a ira sanguinária de Herodes, para assassinar as crianças recém-nascidas; as reuniões dos primeiros cristãos, perseguidos, nas catacumbas, para louvar o Filho de Deus; e este, trinta anos depois, a reunir pescadores simples e humildes como Pedro, confiando-lhes a missão de serem "pescadores de homens e de almas"; me deparei com o heroísmo dos judeus rebelados no alto da fortaleza de Massada, dispostos a cometer suicídio a fim de preservar sua liberdade como povo e nação; vi ante meus olhos o avanço dos Cruzados, sob a ordem de Carlos Magno, a converter com ferro e fogo os novos cristãos e a tomar a Terra Santa dos muçulmanos; e, atravessando séculos, senti o desespero dos passageiros do Exodus, sem água e sem alimentos, recusando-se a retornar à Europa e deixando atrás de Si seis milhões de irmãos de crença nos fornos crematórios de Treblinka, Jadwiga e Sobibor.

Um povo disperso, os judeus deixam correr nas veias os sonhos com a Eretz Israel, ou seja, a Terra Sagrada - que por direito natural lhes pertencia, desde um tempo que não tem princípio. A sua luta é a sua própria razão de viver.

Em um tempo, a enfrentar milhares de legionários romanos, a saquear e a buscar seu extermínio quase completo; e em outro, com alguns séculos de distância, a se defender de mísseis lançados de Bagdá. Uma ilha sagrada em meio a um oceano de nações hostis. No meio, um povo querendo preservar seu direito à vida. Uma vida que resguarda relíquias de um passado imemorial, mas, como uma chama, que se ateou em algum lugar de seus sentimentos mais profundos.

Épico, Israel carrega este adjetivo como nenhuma outra nação que visitei. Fizeram florescer o deserto. Com o sangue, suor e lágrimas invocados por Churchill durante a Grande Guerra.

Uma voz que vem do rádio de nosso sharrutz (táxi coletivo), me é familiar. É a voz do velho Luiz Lua Gonzaga, cantando as penúrias de sua infância no Nordeste, com um refrão chamando Januário. É emocionante reconhecer aquele timbre vocal único. Mais emocionante ainda, é constatar os laços de amizade que o povo israelense nutre pelos brasileiros. Fui, em diversas ocasiões, testemunha da solidez destes laços.

Entender os paradoxos de Israel, tanto o antigo como o novo, nos remete a uma busca de compreensão do próprio sertanejo nordestino. Aqui, luta-se pela sobrevivência, em meio a tantos recursos naturais. Lá, luta-se pela existência, ira e simples, de uma maneira de viver, o famoso way of life que, do exacerbado consumismo americano, não guarda vestígios.

Uma metrópole pequena, Tel-Aviv combina passado, presente e futuro. Edifícios modernos estão ladeados por igrejas, sinagogas e mesquitas centenárias. Em paz, todas absorvem o mesmo contato com o divino. Ali, a latitude espiritual parece ser a mesma. O mesmo Deus nutre a todos. É ver para conferir.

Haifa, uma de suas principais cidades é o maior porto marítimo do país, é um solene convite para caminhar pelos jardins persas, visitar os santuários bahá'is encravados no legendário Monte Carmelo, bem perto da caverna de Elias.

Em Jerusalém, a majestade de um tempo passado, como título de um filme épico, uma cidade de uma glória que passou. Ruas apinhadas de judeus, cristãos, muçulmanos, bahá'is, turistas de todos os matizes, circundando aquele estreito conjunto de pequenas ruas e becos, chamado de Via Crucis. Para uns, uma emoção nova a cada esquina. Para outros, oportunidade de se adquirir bijuterias orientais, tapetes persas verdadeiros e falsificados, samovares, souvenires da cidade de Salomão a encher a vista.

Uma babel nasceu e se reproduziu celeremente em Israel. Todas as línguas, parece-me, são faladas, formando um belo painel da lingüística, eterna fonte de comunicação e de mal-entendidos através dos tempos. Como diria Átila aos seus hunos: "as palavras são folhas soltas ao vento". É isso o que ocorre, todos falam e parecem se entender, mas fica sempre a pergunta, estarão se compreendendo?

Na Igreja do Santo Sepulcro, as várias ordens religiosas se revezam em missas, que seguem os mais variados ritos. Padres, frades e freiras, túnicas brancas, pretas e marrons entram e saem por aqui... ah, aqui, alguém me informa que foi a pedra onde o corpo de Cristo teria sido lavado, após ter sido retirado da Cruz.

Um desconhecido, de forma reverente, me oferece (para comprar) pequenos vidrinhos com água do rio Jordão, aquele mesmo rio onde o Salvador fora batizado por João, o Batista. E à sua porta, um velho frade, simpático, me oferece (também para comprar) pequenos crucifixos de madeira. Aquela madeira, ele me explica, é descendente daquela usada na pesada cruz que, há dois mil anos, tanta luz lançou à humanidade.

Para uma quarta visita a Israel, comporto-me como marinheiro de primeira viagem. Tudo é novidade, quando o espírito está sequioso de algo transcendente.

Tenho vontade de me recostar em algum canto e refletir um pouco Sobre a triste condição humana. Nossas lutas por um palmo de terra. Nossos preconceitos infantis contra outras nações. Nossas reservas, infundadas, contra raças diferentes da nossa. Nosso egoísmo, alimentado de nossa profunda ignorância espiritual. Nossa ridícula forma de ver o próximo, aquele sujeito que tem todos os nossos defeitos e vícios e nenhuma de nossas qualidades e virtudes.

Sigo para Jericó e passo em frente ao Monte das Tentações. Recordo das infindáveis missas que assisti, enquanto adolescente nos colégios em que estudei. A busca incontida de uma compreensão para o propalado "pecado original". Um monte como outro qualquer, mais modesto que a Serra do Cabugi, na BR que liga Natal a Assu, no entanto, um símbolo profundo ancorado na história da cristandade.

Retorno a Haifa. É o momento de escrever alguns cartões a Enélio, Veríssimo, Vicente, a Américo de Oliveira da Costa. Todos em Natal. Temos necessidade de transpirar alguns sentimentos a alguns amigos queridos. Na Terra Santa, encontramos todo o tempo do mundo. Da mesma forma que, como escreveu um filósofo, "se o mar tem uma pátria, este mar é a Grécia", acredito que, se o tempo tem uma pátria, Israel é esta pátria.

Nos belos "Jardins Persas", no Monte Carmelo, descubro veracidade e as grandes possibilidades que uma frase encerra e que foi responsável por uma mudança radical em minha visão do mundo: "A terra é um só país e os seres humanos seus cidadãos".

E em mim, como caracteres gravados em crisólito, transporto a certeza de que a vida possui apenas três grandes prazeres: amar, ler e viajar.

Reflexão após a Eco 92

NA SEGUNDA metade do século passado, um prisioneiro do governo turco, de nome Bahá'u'lláh, olhava da janela de sua cela que dava para o mar, um mundo diferente. Ele via o mundo unido, sem barreiras, sem fronteiras, sejam espirituais ou materiais. Dali, em uma frase que com o tempo tornar-se-ia célebre, ele sintetizou os anseios de épocas e eras passadas: "A terra é um só país e os seres humanos seus cidadãos."

Brasil, 1992. Chefes de Estados soberanos, presidentes e primeiros-ministros, reis e rainhas, reuniam-se para consultar o futuro do planeta, através do tema palpitante deste final de século: o meio-ambiente e o desenvolvimento das nações do mundo.

Durante 13 dias, o mundo testemunhou através das maravilhas efetuadas pelos meios de comunicação, um vislumbre da realização daquela visão de Bahá'u'lláh. Foram dias nos quais o Rio de Janeiro foi considerado, por dezenas de chefes de Estado como sendo "a capital do mundo" e todos os que naquela histórica reunião participaram, foram chamados de "cidadãos do mundo".

Com efeito, em uma única cidade do planeta, podia-se ter a certeza de que a meta perseguida com afinco por pessoas de boa vontade, de todos os continentes, territórios e ilhas do planeta, formando um belo mosaico da unidade essencial do gênero humano, com sua multiplicidade racial e étnica, com os sons melodiosos de dezenas de línguas, com suas vestes peculiares - estava, enfim, ao alcance de todos nós.

A sociedade civil estava representada por milhares de pessoas engajadas em centenas de Organizações Não Governamentais: Associações de Defesa do Ar; Greens in Europe Parliament; Futuro da Terra; Greenpeace; Hope of the Future; Fórum Internacional de Artes, Cultura e MeioAmbiente; Terre des Hommes; World Vision; World Health Foundation for Peace, Fundação para a Paz e o Progresso; União para a Conservação Mundial; Fundação Gaia; One World Now; Peace Corps; Planeta Fêmea; para citar apenas alguns, e mais todos os órgãos das Nações Unidas.

Foi um festival de arte e beleza no Fórum Global, onde as vozes dessas ONGs se elevavam em defesa de uma pátria comum para os povos do mundo, povos em busca de uma paz real e duradoura.

A música de Itamar Correia, que denunciava em suas letras "as brincadeiras atômicas", o Fórum dos Anjos em sua tocante Vigília e o Brahma Kumaris, que sensibilizavam por suas músicas de elevação espiritual, os poemas musicados do Vozes das Florestas, a música ecológica dos Filhos de Ghandi e da Escola de Samba Quilombos, a pureza original de diversas tribos indígenas no programa do "Índio 92", a Cerimônia Xavante dos Wa'Ya executada pelo emocionante balé da Companhia de Dança Meia Ponta, a inventividade e a emoção trazida pelo índio Kevin Locke, o som sul-americano do Hermanos de Sangre e as quarentas vozes das crianças da Escola das Nações, de Brasília, dão-nos uma rápida amostra do que foram as noites desses dias que serão, para sempre, recordados como o grande passo da humanidade para alcançar seu futuro comum: Um planeta, Um só Povo.

A grande lição da Conferência Mundial de Meio Ambiente e Desenvolvimento foi a de que é possível reordenar os afazeres humanos e criar uma nova ordem mundial.

O planeta, como uma casa, uma rua, uma vila ou cidade, pode ter uma ordem. A ordem é um reflexo da natureza. O sistema solar simboliza quão ordenado é o universo: os planetas têm sua esfera de rotação e de translação, estando cada planeta em seu espaço pré-ordenado. Na natureza, as estações se sucedem: primavera, verão, outono e inverno. O reino vegetal tem sua ordem: semente, caule, ramo, folha, flor e fruto. O reino humano também: embrião, recém-nascido, criança, adolescente, adulto. O que nos dá motivo de otimismo quanto ao futuro da humanidade é a certeza da vinda da nova ordem mundial - o estabelecimento do Reino de Deus na terra, pelo qual estamos orando há 2000 anos na Oração do Pai Nosso - é o fato de que a humanidade coletivamente, está emergindo do seu estágio de adolescência e finalmente entrando na sua fase de adulto.

A organização na vida da sociedade humana também tem seus estágios. Uma sociedade tem como sua célula-mater a unidade da família. Na história humana encontramos este crescimento da família ao patriarcado, do patriarcado às tribos (Tribos de Judá), das tribos às cidades-estados (Jerusalém), das cidades-estados às nações (Arábia). E agora?

Estamos no limiar de mais uma mutação essencial na vida ordenada do planeta: das nações, ao estágio da unidade mundial.

Religião e Ciência - Forças Unificadoras

RELIGIÃO E CIÊNCIA: um conflito? Era o que dizia o cartaz. Durante muito tempo, encontramos cientistas e teólogos em uma situação que poderia transformar esta questão em afirmação. Conflito existe, apenas, entre cientistas e religiosos, não entre religião e ciência. Tanto em uma área, quanto em outra, encontramos materialistas e idealistas. Ambos tiveram seus mártires.

A perseguição religiosa tem origem na interpretação dos textos sagrados, em seu sentido literal.

Um exemplo clássico é, em determinado momento histórico, a afirmação de que a Terra é redonda. Os teólogos logo se opuseram: como explicar então a localização do céu, em cima, e do inferno, embaixo? O resultado levou à fogueira astrônomos como Galileu Galilei; e os que enveredaram por estudos científicos foram tratados como hereges. Sem piedade, religiosa ou não. A evolução do homem também colocou essas duas forças em oposição. A ciência tratou de romper tratados teológicos e soterrou consagradas interpretações de estudiosos eminentes das Sagradas Escrituras.

Ambos são responsáveis diretos pelo progresso da civilização. Mas não será a ciência conhecimento e seu inverso, superstição?

A ciência não pode ser creditada como fruto de inteligências brilhantes, mas sim como algo fundado na realidade.

A religião é aquele elemento agregador, que une a criatura ao seu Criador. É também a arte do bem viver, se purificada do formalismo, da superstição e da apatia.

O professor J. S. Haldane, da Universidade de Cambridge, em seu livro Science, Moral and Religion, ao responder crítica de um eminente teólogo - que afirmara que a ciência dava grande importância "a unidade e auto-suficiência do universo material" - respondeu que a ciência se apoiava unicamente naquilo que apoiava essa auto-suficiência, não apenas no que podia ser mensurado, embora a auto-suficiência, útil e viável, pudesse ser colocada à prova a qualquer tempo.

Bahá'u'lláh ensinava que os átomos e partículas eletrônicas, através da lei da atração, se uniam, vindo a gerar matéria. A água, a terra ou o ar, são mutações da matéria. A forma de espírito manifesta na matéria - a nível mineral - chama-se coesão. A próxima forma mais elevada da criação é a forma vegetal, onde, além da coesão, possui o poder de crescimento, sendo este o espírito do reino vegetal. A próxima forma de existência é a animal que, além da coesão e crescimento, possui a capacidade de locomoção e a percepção sensória. Em um plano mais avançado da criação surge o homem, que além de consolidar as características dos reinos anteriores, distingue-se pelo que chamamos de intelecto. O homem é, portanto, uma espécie distinta, não sendo possível a transformação de um símio em homem.

Nesses anos finais do século XX, encontramos uma maior compreensão entre cientistas e religiosos. Fritjoph Kapra, com seu Ponto de Mutação, nos fornece excelentes argumentações para acreditar que estamos no limiar de um novo estágio dessas relações.

A Fonte da Nova Ordem Mundial

A VIDA de Bahá'u'lláh é uma vida, por todos os motivos, incomum. Nosso pensamento ocidental, acostumado a mensurar por parâmetros lineares a vida de qualquer biografado, sente-se tolhido neste caso. Um Personagem corno Bahá'u'lláh encontra o palco do mundo pequeno para conter aquele Espírito que, vez por outra, toma a forma de "templo humano" e "habita entre nós". É nada menos que "o verbo feito carne". Sua influência ultrapassa os limites de Sua época, impulsionando significativamente a civilização.

A verdade é que se torna uma dessas "missões impossíveis" querer circunscrever nosso Biografado na forma linear do ciclo vital nascimento/morte. A tarefa é (resume-se na resposta a uma pergunta): como descrever o que é puro Espírito?

Dai, decorre uma segunda questão: Como apresentar esta vida, se não por parâmetros a que estamos acostumados? Buscarei me aventurar nesta trilha, embora convencido de que as palavras serão toscas para transmitir de forma adequada quem foi Bahá'u'lláh. A característica predominante de sua vida é a qualidade de um amor intenso pelo gênero humano.

Bahá'u'lláh nasceu na Teerã de 1817, entre a alvorada e o nascer do sol de 12 de novembro. Filho de um vizir da corte persa, logo se sobressaiu pela elevada conduta moral, pela sensibilidade ante o sofrimento dos necessitados e por uma inteligência inata. Estes predicados valeram-lhe o título de "Pai dos Pobres" e fizeram com que fosse, ainda que informalmente, um conselheiro da Corte.

Sua juventude teve tranqüilidade até 1844, data em que abraçou com intrepidez e ardor a Causa do Báb, uma Causa que trazia novo alento de vida não apenas à Pérsia mas, como se veria nos anos e décadas seguintes, ao próprio corpo da humanidade e estava destinada a promover a maior revolução espiritual de todos os tempos. Primeiro, comovendo os alicerces da sociedade persa, engolfando em um mutirão messiânico, ricos e pobres, cultos e iletrados, homens e mulheres de todas as idades. E, progressivamente, conquistando corações e mentes além fronteiras. Ninguém poderia ser indiferente ao que estava se desenvolvendo naqueles anos.

Convém mencionar algumas características sobre a Pérsia, hoje Irã, em meados do século passado. Um relato histórico de Lord Curzon sobre aquela época é enfático:

Todos os observadores concordam em representar a Pérsia como uma nação débil e atrasada, dividida em si por práticas corruptas e feroz intolerância. Ineficiência e miséria - frutos da decadência moral - grassavam em todo lugar. Nas camadas mais altas até as mais baixas, parecia não haver capacidade para se efetivar reformas nem sequer a vontade de instruí-las seriamente. A vaidade nacional pregava uma grandiosa auto-satisfação. Uma mortalha de imobilidade pairava sobre todas as coisas, e uma prevalecente paralisia mental tornava impossível qualquer desenvolvimento.

Recebida com um banho de sangue, acirrando os ânimos do fanatismo e da intolerância religiosa do Islã, berço de onde nascia a nova Revelação, a verdade é que a Causa do Báb, na medida em que trazia a Voz de Deus aos ouvidos de milhões de pessoas, transformou de forma incontestável a vida social, moral e espiritual da Pérsia. O país não foi mais o mesmo. O mundo não foi mais o mesmo.

O próprio Autor de tão estupenda revelação foi alvo de perseguição e violências de um clero muçulmano rebelado à sua Palavra e de um sistema teocrático de governo, carcomido pela corrupção e ambição sem paralelos dentre as monarquias então existentes no contexto internacional.

Aprisionado em fortalezas nas longínquas regiões montanhosas do país, como as de Mah'ku e Chihriq, o Báb, a despeito de dias tão turbulentos esteve placidamente a transmitir seus novos ensinamentos e a alimentar a chama que se ateou nos corações que atenderam a seu chamado. Vinte mil pessoas foram trucidadas pelo crime de não renegarem a nova Fé. Cenas trágicas da alvorada de uma nova Fé, que encontrava claros paralelos com a saudação que a mesma humanidade, muitas gerações antes, oferecera a Jesus de Nazaré. Na descricão do renomado historiador Ernest Renan, temos uma visão do heroísmo suscitado naqueles dias:

"Um dia que talvez não tenha igual na história do mundo, foi aquele em que ocorreu o grande massacre de bábís em Teerã. Avançavam, entre carrascos, mulheres e crianças com pavios acesos, flamejantes nas feridas. As vítimas eram arrastadas com cordas e obrigadas a caminhar com chicotadas Quando chegavam ao lugar do suplício, lhes era oferecida a vida novamente desde que abjurassem sua Fé. Um algoz disse a um pai que se não abjurasse, serraria o pescoço de seus dois filhos sobre seu peito - eram dois garotos, o maior dos quais tinha quatorze anos... vermelhos com seu próprio sangue, com as carnes dilaceradas, escutavam calmamente o diálogo - o pai respondeu, deitando-se no chão, que estava pronto e o maior dos filhos, reclamando com ímpeto os direitos de primogênito, pediu para ser decapitado primeiro..."

Foi a esta Causa que Mírzá Husayn 'Alí, depois cognominado Bahá'u'lláh, dedicou sua vida: tinha então 27 anos. Deixava atrás de Si o conforto e a tranqüilidade de um lar, os privilégios de uma das mais tradicionais famílias da província de Mazindarán. Líder inato, tornou-se referencial da oprimida massa de seguidores do Báb, ainda cumprindo rigoroso encarceramento.

Sua sabedoria e argúcia levaram-No a coordenar, em junho de 1848, a primeira reunião desses seguidores no vilarejo de Badasht.

Ali, naquela aldeia, a pauta de temas incluía desde um plano para a libertação do Báb, até uma proclamação inequívoca dos postulados básicos da mensagem divina da qual ele era o portador, firmando-a como uma religião independente, com seus próprios ensinamentos e tendo seu próprio Livro Sagrado, o Bayán.

O drama vivido pelo Báb, teve o ato final com o seu fuzilamento, aos 31 anos de idade, em uma praça pública de Tabríz, ao meio-dia de 9 de julho de 1850. As peculiaridades deste drama inspiraram os intelectuais da época, como o filósofo Leon Tolstoi, o eminente orientalista britânico Edward Granville Browne, e inspirou a peça teatral intitulada O Báb, protagonizada em Moscou por Olga Grinewskaia e depois encenada em prestigiosos palcos de diversas capitais da Europa.

Em agosto de 1852, perturbado com o destino de seu Mestre, tendo sido inclusive testemunha ocular de seu assassinato, um jovem chamado Sadíq disparou uma pistola no Xá, buscando vingar a trágica morte de seu Amado. No entanto, utilizara balas de festim. Em decorrência deste ato impensado, instaurou-se uma nova onda de massacres aos seguidores da nova Fé. Bahá'u'lláh foi condenado à prisão no Siyáh-Chál (Cova Negra), um calabouço subterrâneo em Teerã que, em anos passados, servira como reservatório de um banho público. Acompanharam-no diversos de seus companheiros.

Diariamente um deles era escolhido para a sessão de tortura e finalmente para ser trucidado. Quando o carrasco vinha buscar um deles, aquele cujo nome era chamado, "dançava literalmente de júbilo, beijava com êxtase as mãos de Bahá'u'lláh abraçava seus companheiros de crença e, então, não se contendo de alegria avançava para o local do martírio".

Durante quatro penosos meses, na companhia de cerca de 150 delinqüentes, assassinos e salteadores de estradas, com o pescoço agrilhoado pelas pesadas correntes Qará-Guhár (hoje em um museu de Teerã) Mírzá Husayn 'Alí recebeu a missão divina - o "manto de profeta". Este mesmo Espírito Imortal que há 3.500 anos passados revelou-se a Moisés no Monte Sinai, através da Voz que fluía da Sarça Ardente; há 3.000 anos na forma do Fogo Sagrado inspirou Zoroastro; há 2.000 anos através da pomba que baixava sobre a cabeça de Jesus Cristo, na Judéia; e há 1.300 anos comunicou-se com Maomé através do Anjo Gabriel, agora, ali, naquele fétido calabouço o chamado divino inspirou Mírzá Husayn 'Alí personificado por uma Jovem.

Sobre essa memorável ocasião, Bahá'u'lláh escreveu:

Uma noite, em sonho, estas exaltadas palavras foram ouvidas de todos os lados: "Verdadeiramente, Nós Te faremos vitorioso por Ti Mesmo e por Tua Pena. Não lamentes pelo que Te tem sobrevindo, nem temas, pois estás em segurança. Em breve, Deus fará que se ergam os tesouros da Terra - homens que hão de ajudar-Te por Ti e por Teu Nome, por meio do qual Deus ressuscitou o coração dos que O reconheceram."

Em breve, ficou comprovado de forma irrefutável que Bahá'u'lláh não tivera qualquer envolvimento com o atentado à vida do Xá. Com a saúde debilitada, o Xá ordenou que ele fosse exilado para Bagdá, na Mesopotâmia.

Em 1863, o governo turco, atendendo pedido do governo persa; baniu Bahá'u'lláh para Constantinopla. Esta notícia causou grande comoção aos seus discípulos. Afluíram à casa de seu Mestre, para hipotecar sua solidariedade e demonstrar seu desapontamento. A família viu-se forçada a acampar por doze dias no Jardim de Najíb Páshá, nos arredores da cidade de Bagdá. Foi durante estes doze dias (21 de abril a 2 de maio de 1863), dezenove anos após a declaração do Báb, que Bahá'u'lláh deu a vários de seus companheiros as boas novas de ser ele o Prometido de todos os Profetas do passado.

Aquele jardim onde se consumou tão eloqüente proclamação veio a ser então conhecido pelos bahá'is como O Jardim do Paraíso e aqueles dias passaram à história como O Festival do Ridván, anualmente celebrado em cerca de 125 mil localidades onde residem bahá'is.

A viagem a Constantinopla durou de três a quatro meses. A caravana contava com Bahá'u'lláh, sua família e mais vinte e seis seguidores. Permaneceram naquela cidade apenas quatro meses, sendo novamente o grupo banido para Adrianópolis. Após quatro anos e meio, fruto das maquinações de seus opositores, um édito do Sultão Abdu'l-Azíz o condenou a encarceramento perpétuo na cidade-prisão de 'Akká, a pior colônia penal do Império Turco, onde passou seus últimos 24 anos de vida.

Sobre esta prisão, um provérbio popular na região dizia que "os pássaros que sobrevoassem 'Akká cairiam mortos tão nauseabundo era o ar".

Dali, o Prisioneiro continuou dirigindo mensagens aos reis e governantes da Terra, bem como aos líderes espirituais das grandes religiões. Ele anunciava que as promessas de todos os tempos estavam cumpridas. Em um tempo, em que o esplendor e a ostentação dos monarcas refletiam o vasto poder que exerciam, era curioso observar com que poder e majestade a eles ele se dirigiu, de forma coletiva:

Ó Reis da Terra! Já veio aquele que é o Senhor soberano de todos.

O Reino é de Deus, o onipotente Protetor, O que subsiste por Si Próprio.

Ó Reis da Terra! A Maior Lei foi revelada neste Lugar, nesta cena de transcendente esplendor. Tudo oculto veio à luz...

Sois apenas vassalos, ó reis da terra! Aquele que é o Rei dos Reis apareceu, adornado de Sua glória... e vos convoca a Ele Mesmo...

As epístolas de Bahá'u'lláh, dirigidas individualmente aos governantes do mundo foram enfáticas e claras. Disse-lhes que a não ser que os laços de afeição e unidade entre todos os homens fossem ampliados, a não ser que as nações se unissem em amigável cooperação para trazer paz ao mundo, a não ser que os direitos de todos os homens e especialmente os dos pobres e humildes fossem garantidos e salvaguardados, a não ser que os homens e especialmente os líderes vivessem suas vidas de acordo com o que fosse do agrado de Deus e não de seu próprio agrado - seus reinos, suas possessões, seus privilégios, seus prazeres - todos lhes seriam tirados pelo Senhor da Vinha (O Messias) o qual, então daria a vinha (a Terra) àquelas almas dignas entre os eleitos, que sobrevivessem da grande aflição que a humanidade teria trazido para si mesma. Recusando-se, em sua maioria a atender ao seu Chamado, os destinatários destas inspiradas mensagens tiveram o seguinte destino:

Sultão 'Abdu'l-Azíz, Rei do Império Otomano, foi deposto após uma rebelião do Palácio e assassinado em 1876. A I Guerra Mundial resultou na dissolução do Império Otomano, na abolição do Sultanato e na proclamação de uma República.

Alexandre Nicolau II, o Czar da Rússia, após sofrer vários atentados contra sua vida, morreu assassinado. Uma revolução sangrenta culminou com a perseguição do clero, sendo executado o Czar e sua família, extinguindo-se a dinastia dos Romanoff.

Francisco José, Imperador da Áustria e Rei da Hungria, foi engolfado em tragédias e calamidades que afligiram sua nação, criando-se uma república das ruínas de seu vão Santo Império Romano, desaparecendo por conseguinte do mapa político da Europa.

Napoleão III, Imperador da França que, ao receber a Epístola de Bahá'u'lláh teria declarado: "Se isto é de Deus, eu sou duas vezes Deus", teve humilhante derrota na Batalha de Sedan (1870), a qual foi registrada como uma das grandes capitulações militares da história moderna. Ele perdeu seu reino e passou os últimos anos de vida no exílio. Seu império entrou em colapso e uma feroz guerra civil foi seguida pela coroação de William I, o Rei Prussiano, como Imperador do Império Germânico Unido, que passou a ocupar o Palácio de Versalhes.

Násiri'd-Dín Sháh, o Rei da Pérsia, na plenitude de seu poder, foi assassinado quando orava, na noite da celebração do seu jubileu, que ficaria na história como o maior dia nos anais da nação persa. Seus descendentes foram rápida e ignominiosamente eclipsados, marcando o desaparecimento da dinastia Qajár.

A Rainha Vitória, do Império Britânico, a única cabeça coroada louvada por Bahá'u'lláh - por suas ações proibindo o tráfico de escravos e por ter confiado o reino ao conselho dos representantes do povo - foi preservada, sendo a mais longa de qualquer dinastia britânica. Sua bisneta, a Rainha Maria da Romênia, espontaneamente atestou a grandeza da Mensagem de Bahá'u'lláh, vindo a se declarar sua seguidora.

O Kaiser Guilherme I, da Alemanha enfrentou duas tentativas de assassinato de sua vida. Seu trono foi usurpado por Guilherme II, cujo orgulho levou a Europa à Guerra de 1914/1918, precipitando a revolução na capital da Alemanha surgindo o comunismo em várias cidades do país. A Constituição de Weimar marcou a extinção do Império, em severos termos que provocaram "as lamentações" profetizadas por Bahá'u'lláh na metade do século anterior.

O Papa Pio IX, o inquestionado cabeça da mais poderosa Igreja da Cristandade foi compelido a submeter-se à deposição do Estado Papal e da própria Roma, na qual a bandeira do Papa havia tremulado por mil anos e para testemunhar a humilhação das ordens religiosas sob sua jurisdição, sofrendo de enfermidades físicas e mentais, terminou seus anos. A virtual extinção da soberania temporal do Papa foi simbolizada pelo reconhecimento formal do Reino da Itália.

Daquela longínqua prisão em 'Akká, foi liberado ao mundo o espírito da nova era. Os ensinamentos de Bahá'u'lláh giram em torno da unidade do gênero humano. Para a consecução desta extraordinária meta, ele delineou os princípios básicos, que levados à prática, dariam início a um novo, estágio na história humana:

A livre pesquisa da verdade, sem influência ou preconceito. A verdade é uma só e é indivisível. Alertava a humanidade para ver Deus "com seus próprios olhos" e não pelos de outrem. Assim, formulara o princípio de que a revelação divina é contínua e progressiva. Ou seja: existe Um Deus, Uma Verdade, Uma Humanidade. Estamos diante de uma grande escola que seria a humanidade. Os professores desta escola chamaram-se: Abraão, Krishna, Moisés, Zoroastro, Cristo, Buda, Maomé, o Báb e agora Bahá'u'lláh. Todos ensinaram o amor ao próximo, o amor a Deus e trouxeram leis e ensinamentos adequados à época em que vieram. Seus livros sagrados são recitados por seus milhares de seguidores, nas diversas regiões do planeta: o Baghavad-Gita, o Pentateuco, o Evangelho de Buda, o Zend-Avesta, o Novo Testamento, o Alcorão, o Bayán, o Kitáb-i-Aqdas. O Reitor é o mesmo: Aquele que lhes enviou para impulsionar a civilização.

A igualdade de direitos e oportunidades para o homem e a mulher é um dos predicados para a Nova Era. Desde seus primórdios, com a designação de uma mulher extraordinária como discípula nesta Causa, a poetisa Tahirih (1817-1852), que por si só protagonizou um drama único nos anais da história religiosa e cujas palavras finais ante aqueles que lhe tiraram a vida ecoam ainda hoje como fonte de consolo para a libertação feminina: "Podeis me matar quando bem o quiseres, mas não podeis impedir a emancipação das mulheres." Visualizando a humanidade como um pássaro, no qual uma asa representa o homem e a outra asa, a mulher, para concluir que o pássaro não pode alçar vôo no espaço ilimitado sem o equilíbrio entre as asas. Neste aspecto, sua mensagem soou como "um dobre de finados", pelos longos séculos em que a mulher fora brutalmente discriminada.

A harmonia essencial entre a religião, a ciência e a razão, considerando que sendo a verdade una, não seria racional aceitar um aspecto em detrimento de outro. Seus ensinamentos são enfáticos ao afirmar que "o conhecimento é um ponto, os ignorantes o multiplicaram".

A eliminação das diversas formas de preconceitos. Ele concebia um mundo uno, onde diferenças raciais, nacionais, culturais, dentre outras, não encontravam abrigo à sombra de Deus. É comovente imaginar Bahá'u'lláh, em sua cela na fortaleza de 'Akká proclamar: "Vós sois as folhas e os ramos de uma única árvore, as gotas de um mesmo mar, as estrelas de um mesmo céu" ou mesmo refletir sobre estas palavras: "Quando o homem volve a face para Deus vê que todos são seus irmãos" e que "a luz da unidade é tão poderosa que pode iluminar a Terra inteira".

Para Bahá'u'lláh a humanidade ultrapassara os estágios evolutivos de família (Patriarcado), tribo (Tribos de Judá), cidade-estado (Jerusalém), nação (Arábia) e dirige-se inevitavelmente para a unidade mundial. Em suas palavras, afirmava-se o conceito todo-abrangente de cidadania mundial: "A terra é um só país e os seres humanos seus cidadãos." É no mínimo instigante constatar que por caminhos muitas vezes inovadores, ou pouco ortodoxos as nações envidam esforços para atingir este novo estágio a que são convocadas desde o século passado.

A educação compulsória universal, a que todos deveriam ter acesso, foi um dos princípios delineados por Bahá'u'lláh, para se alcançar o entendimento mundial; e que seja conducente a um sentimento de mútua responsabilidade pela família humana. Referindo-se ao ser humano como "uma mina rica em jóias de inestimável valor" e afirmando que a educação tão somente poderia fazê-lo "revelar suas potencialidades", estavam lançadas as bases a tornar realidade a profecia do Antigo Testamento de um tempo predito no qual "o conhecimento enchessem a terra assim como as águas enchiam o mar".

Ainda mais, os ensinamentos bahá'ís declaram que "a ignorância é indiscutivelmente a principal razão para o declínio e a queda dos povos, e para a perpetuação dos preconceitos".

O restabelecimento do primado da justiça recebeu consideração especial. Ele declarou que "a Justiça é a mais amada dentre todas as coisas" e também que ela se sustenta em dois pilares: recompensa e punição. Parte considerável de seus escritos relacionam-se com a Justiça, enquanto bem supremo e abrigo ideal para a civilização. Com efeito, bem podemos situar a situação caótica em que o mundo se defronta, como sendo a ausência da administração da justiça em seus afazeres.

Com o olhar no retrovisor da história, pode-se afirmar que com o poder liberado por suas palavras, a força de seu verbo regenerador e, sobretudo, a excelência desta vida consagrada à unificação dos povos e raças da terra, somos impelidos a uma profunda reflexão sobre o destino glorioso a que é alçado o ser humano. Aconselhando-O, primeiramente, a "possuir um coração puro, bondoso e radiante", ele o convoca para "ser amigo de sua alma nos reinos espirituais", a purificar o próprio coração "para sua descida" e a nada plantar nele, salvo "a rosa do amor".

Ao anunciar que a humanidade atingiu a época de sua maturidade, ele declarou que fomos criados para "conhecer e adorar a Deus" e para "levar avante uma civilização em constante evolução". Dessa maneira, ele deu uma nova meta espiritual aos seres humanos, qual seja, buscar a salvação coletiva e não, tão somente, a individual.

É necessário destacar que a palavra Deus, que é um símbolo para aquela transcendente realidade através da qual toda a existência é regida e mantida, Deus não é o produto da imaginação humana, uma criação da mente, ou mesmo uma fantasia inventada, irreal ou ainda um mero reflexo de circunstâncias particulares, tanto sociais como econômicas.

Os ensinamentos de Bahá'u'lláh asseguram que Deus não pode ser conhecido em Sua essência. Ele está além de nossa compreensão. Deus, aquela "Essência Incognoscível" é mais que o criador do homem, Ele é também, o Senhor da História.

Os ensinamentos e as orações por ele reveladas trazem, conforme atestou a Rainha Maria da Romênia, "paz à alma e esperança ao coração" e são, nas palavras do Mahatma Gandhi "um consolo para a humanidade".

Em suas orações, o coração sensível pode contemplar a perfeita comunhão entre o amante e o Amado: "Não sei, ó meu Deus, qual é este fogo que ateaste em meu ser... nem o céu nem a terra podem nublar seu esplendor" ou quando ele comunga "Ó meu Deus, faze de Tua Beleza meu alimento...", "Ó Tu Senhor Bondoso! Une a todos, faze as religiões concordarem e torna as nações uma só, para que sejam como uma só família..."

Tendo mostrado nos primeiros anos de durezas como se deve glorificar a Deus, embora num estado de pobreza e ignomínia, Bahá'u'lláh, nos últimos anos da vida mostrou como, cercado de honras e afluência, ainda se deve glorificar ao mesmo Deus.

A lembrança dos dias de Bahá'u'lláh é um legado único para a humanidade. Pois foram em dias atribulados e de tão intensos sofrimentos que pôde prosperar a árvore, sempre verdejante desta Causa.

O eminente orientalista, o falecido professor Edward G. Browne, da Universidade de Cambridge, dá as seguintes impressões colhidas por ocasião de sua visita a Bahá'u'lláh em Bahjí, em 1890:

O meu condutor parou por um momento enquanto eu tirava os sapatos. Então, com um rápido movimento de mão, retirou-se e, enquanto eu passava, repôs as cortinas. Encontrei-me num largo compartimento, em cujo fim se achava um baixo divã, havendo do lado oposto à porta duas ou três cadeiras. Embora suspeitasse vagamente para onde ia e com quem havia de estar (pois nenhuma informação distinta me fora dada), passou-se um ou dois segundos antes que eu, palpitante de admiração e reverência, me certificasse de que a sala não estava deserta. No canto onde o divã tocava na parede, estava sentada uma maravilhosa e venerável figura, coroada de um taj, de feltro, do tipo usado pelos dervixes mas de altura e feitio não comuns, ao redor do qual estava amarrado um pequeno turbante branco. Jamais me esquecerei da fisionomia Daquele a Quem olhava, embora não possa descreve-la. Aqueles olhos penetrantes pareciam ler-nos a própria alma; poder e autoridade residiam naquela testa larga, enquanto as linhas profundas no rosto indicavam uma idade que os cabelos pretos de azeviche e a barba fechada que quase tocava na cintura pareciam desmentir. Não me foi preciso perguntar em cuja presença estava, enquanto me curvei diante Daquele que é objeto de uma devoção e um amor que os reis poderiam invejar e os imperadores almejar em vão!

Uma voz cheia de dignidade e doçura convidou-me a sentar e prosseguiu: Louvado seja Deus por teres atingido... Vieste ver um prisioneiro e exilado... Só desejamos o bem do mundo e a felicidade das nações; não obstante, consideram-Nos provocadores de luta e sedição, dignos de cativeiro e exílio... ...Que todas as nações se unam em uma mesma fé e todos os homens se tornem irmãos; que os laços de unidade e afeição entre os filhos dos homens sejam fortalecidos; que cesse a diversidade de religião, e as diferenças de raça sejam anuladas - que mal há nisso?... E assim há de ser: essas lutas infrutíferas, essas guerras arruinadoras, hão de passar e a "Paz Máxima" há de vir... Vós na Europa não precisais disso também? Não foi o que Cristo predisse?... Vemos, entretanto, vossos reis e governantes gastarem os tesouros mais livremente com os meios de destruição da humanidade, do que com aquilo que lhe pudesse proporcionar felicidade... Essas lutas, carnificinas e discórdias devem cessar, e todos os homens ser como uma família... Que o homem não se vanglorie pelo amor à pátria e sim pelo amor à sua espécie.

Se não me falha a memória, foram estas as palavras que além de muitas outras, ouvi de Bahá. Que aqueles que as lêem julguem por si mesmos se o propagador de tal doutrina merece morte e encarceramento, e se é mais provável que o mundo ganhe ou perca com a sua difusão.

A lembrança dos dias de Bahá'u'lláh é um legado único para a humanidade. Pois foram em dias atribulados e de tão intensos sofrimentos que pôde prosperar a árvore, sempre verdejante desta Causa.

O amor que ele infundiu naqueles que abraçaram sua Causa tem concedido um sentido nobre às suas vidas. Por não possuir ordem eclesiástica, nos últimos 150 anos, dezenas de milhares de pessoas deixaram seus países para se estabelecer em outras regiões do planeta, proclamando as boas novas de sua vinda. São profissionais liberais, comerciantes, cientistas, educadores, ou pessoas muito simples que se deixaram consumir pela visão de um novo mundo, sem fronteiras e sem guerras.

As Bem-Aventuranças

Em um mundo que se distancia velozmente da tranqüilidade que sempre evoca o mundo espiritual, imagino almas em busca de comunhão com o Eterno, o Transcendente que a todos toca, comove, recria. Reconheço que nas palavras dos santos, que atravessam milênios, deparamo-nos com o mais fascinante de todos os mistérios: a transformação da natureza humana. A busca do seu Eu Verdadeiro é tão antiga quanto a existência do homem no palco da criação.

Há quase dois milênios, o homem - homem e mulher, registre-se - ouvia extasiado o Sermão da Montanha, com as belas Bem-Aventuranças. Palavras adornadas com o caráter intrínseco da santidade, impregnadas que são por seu elevado Espírito, que a tudo permeia, transmuta e chama à existência.

Gautama Sidarta, o Buda, é enfático ao afirmar que a serenidade do coração somente poderá ser atingida, através da renúncia às coisas materiais. Recordo a peregrina ocidental que ao visitar um templo budista na Índia, levava flores para Buda. Ao aproximar o belo ramo de flores para lhe aspirar o aroma, é interrompida por um dos fiéis que lhe diz: "Não aspire o perfume. Ele faz parte de sua oferenda ao Buda. É dele, portanto."

Nos evangelhos de Mateus e Lucas, eles contam, à sua maneira, as palavras de Jesus propondo a felicidade. O texto de Mateus apresenta um ideal de vida a realizar, para ser seguidor de Cristo: "Bem-aventurados os pobres de espírito, pois deles é o reino dos céus. Bem-aventurados os tristes, pois serão consolados. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão saciados." Segundo Lucas, o Sermão da Montanha não é evocativo de um ideal, antes, estas bem-aventuranças anunciam uma alteração na situação dos cristãos pobres e desprezados, para quem Deus abre um caminho de libertação: "Bem-aventurados os pobres, pois o reino de Deus lhes pertence. Bem-aventurados vocês que agora choram, pois sorrirão."

Reflito, então, sobre as Bem-Aventuranças de Bahá'u'lláh em que ele confidencia em tom de oração: "Não sei, ó meu Deus, qual é este fogo que acendeste em Teu domínio. Jamais poderá a terra nublar Seu esplendor, ou a água extinguir sua chama. Nem terão todos os povos do mundo o poder de Lhe resistir a força. Grande é a bem-aventurança de quem Dele se haja aproximado e ouvido o rugir..." E então constato que, em inumeráveis passagens de seus escritos, Bahá'u'lláh convida a todos a serem bem-aventurados ante os olhos de Deus, atingindo perfeições e virtudes celestiais e a buscar iluminação do "sol de sua palavra", fazendo uma convocação solene de que nos "apressemos a entrar no Paraíso, em sinal de Nossa misericórdia a vós, e sorvei, das Mãos do Todo-Misericordioso, o Vinho que é a vida verdadeira..."

Ninguém é deixado ao largo. Ele se dirige ao adormecido que desperta com a "Minha Brisa", ao sofredor que busca "refúgio à sombra de Meu pálio", ao sedento que se apressa "às águas suaves de Minha benevolência", àquele que sem vida "ressuscita através de Meus sopros vivificadores", ao homem que para "Ele se vo1ve..." e que adorna sua cabeça com o "ornamento do Meu amor", ao homem que buscava e que "atendeu ao Chamado", que prefere "seu irmão a si próprio", que "soube de Meu pesar e se levantou para Me apoiar entre Meu povo" e aqueles que atingiram o "temor de Deus".

O louvor a Deus tem especial menção: "Grande é a bem-aventurança daquele que venha a nadar neste Oceano e celebrar o louvor a Seu Senhor, o Benévolo, o Mais Amado"; e depois declara que "bem-aventuradas as horas passadas em louvor Daquele que é o Onisciente". As virtudes eternas como amor, justiça, constância, firmeza, servitude, pureza, renúncia, cortesia, retidão, desprendimento, veracidade, generosidade, honestidade, piedade - são uma vez mais reafirmadas como essenciais à criatura que anseia por encontrar seu Bem-Amado - e todos os que atingiram estas e outras virtudes descritas em seus escritos, são por ele cognominados de "bem-aventurados".

Os Sete Vales

O TEXTO MÍSTICO sempre encontrou corações sequiosos que o retivessem. A longa jornada do homem em busca de Si tem sido a grande aventura, a mais preciosa, aquela que é imprescindível, pois sem ela a vida carece de substância e fundamento.

Refulgindo como pérola exponencial da prosa mística, incomparável em sua beleza e profundidade, Os Sete Vales destaca-se entre as composições místicas que a humanidade tem conhecimento.

Esta obra admirável foi composta por Bahá'u'lláh (1817-1892), em uma época em que estivera na solidão do Sulaymáníyyih (Iraque) e foi escrita em resposta a uma pergunta do Shaykh Muhyi'd-Dín, o magistrado da cidade de Khániqín e que era um sufí proeminente. Embora não sendo seguidor do Báb (1819-1850), ele era um grande admirador de Bahá'u'lláh e, em sua missiva, havia proposto algumas questões de natureza eminentemente mística.

O tema central de Os Sete Vales é a jornada da alma humana, iniciada neste mundo contingente, até alcançar os reinos da proximidade de seu Criador. O objetivo da busca é conhecer a Deus e esse conhecimento somente será conquistado através de Sua Manifestação.

Os sete estágios, sete etapas ou as sete cidades eram termos com os quais os sufís estavam familiarizados, havendo inclusive sido descritas por Fariru'd-Dín 'Attár, um líder sufí, em seus primórdios. Eis, então, que Bahá'u'lláh elucida de maneira eloqüente o sentido e completo significado daqueles estágios. Antes de adentrar no primeiro vale, Bahá'u'lláh adverte aos que buscam que "enquanto o peregrino não se livrar de seu ego e não percorrer essas etapas, não alcançará o oceano da proximidade e união".

O primeiro vale é o Vale da Busca, cujo corcel a lhe conduzir será a paciência. "Nesta jornada, o peregrino alcança uma condição em que vê todas as coisas criadas vagarem aturdidas em busca do Amigo."

O segundo vale é o Vale do Amor, um estágio no qual o peregrino "torna-se inconsciente de si próprio e de tudo além de si e cujo corcel é a dor. Neste vale, o peregrino "não pensa salvo no Amado... e a todo o momento, oferece ele cem vidas na senda do Amado, a cada passo, joga mil cabeças aos pés do Bem-Amado."

O terceiro vale é o Vale do Conhecimento e o peregrino somente alcançará esta etapa "se, confirmado pelo Criador... escapar das garras da águia do amor". Neste Vale, o peregrino passa a perceber a perfeição em toda a criação, "rompe a gaiola do corpo e das paixões e se associa aos que residem no reino imortal". Este Vale representa o último plano da limitação, estando aberta ao peregrino a estrada do desenvolvimento espiritual.

O quarto vale é o Vale da Unidade e nesta nova etapa da jornada, o peregrino "contempla todas as coisas com os olhos da Unidade" e percebe que todas as variações "nas etapas de sua viagem... procedem da sua própria visão". Neste vale, o peregrino busca alcançar a unidade consigo, com o universo e com Deus.

O quinto vale é o Vale do Contentamento e o peregrino atingirá o estado de desprendimento e serenidade, esquecendo-se de si próprio e seu desejo mais acalentado é o de servir a Deus. Referindo-se a esta etapa, Bahá'u'lláh declara "que embora aparentemente, os peregrinos deste Vale habitem o pó, eles, no entanto, interiormente, acham-se entronizados nas alturas da significação mística".

O sexto vale é o Vale da Admiração, um Vale no qual o peregrino é lançado na confusão e a "todo momento lhe é apresentado um mundo admirável, uma nova criação e ele passa de maravilha em maravilha, estupefato ante as obras do Senhor da Unidade". O peregrino, cativado pela complexidade da Criação, atinge então uma nova compreensão, a de que "o coração é onde residem os mistérios eternos... não dissipes o tesouro da tua vida preciosa com as ocupações deste mundo efêmero".

O sétimo vale é o Vale da Verdadeira Pobreza e da Inexistência Absoluta. Bahá'u'lláh revela ser este "o estado da morte do ego e da vida em Deus, e de ser pobre no ego e rico no Desejado..." e assevera que neste Vale "o viajante deixa para trás as etapas da unicidade da Existência e da Manifestação, e atinge uma unicidade santificada acima desses dois graus"; e enfático, declara que "o êxtase, tão somente pode abranger este tema, e não palavras ou argumentos".

Ao finalizar esta obra, suas palavras são esclarecedoras: "para essas viagens não há término visível no mundo do tempo, mas o peregrino desprendido - se a confirmação invisível descer sobre ele e o Guardião da Causa o ajudar - pode atravessar essas sete etapas em sete passos, ou até em sete sopros; antes, até em um só sopro, se Deus assim quiser e desejar."

Leonora no Cais do Porto

EXISTEM pessoas que são marcantes em nossas vidas. Algumas chegam até a influenciar toda uma família e outras possuem o dom de, com sua maneira de vida, transformar a vida de milhares de pessoas de uma cidade, de um país, de um continente.

Vêm-me à mente a figura ímpar de Leonora Stirling Armstrong que, em princípios de 1921, tomou o vapor SS Vassari e, meses depois, aportava na Praça Mauá do Rio de Janeiro. Era um tempo difícil, onde as comunicações ainda engatinhavam, onde países, como o Brasil, transmitiam a idéia de animais selvagens pelas ruas das cidades e a profusão de doenças epidêmicas era uma constante.

Mas lá estava ela no porto da Praça Mauá. E era carnaval. Que viera fazer aqui? Sem conhecer a língua portuguesa, sem recursos financeiros pelo menos razoáveis, sem parentes ou amigos no Brasil. Lá estava ela, no cais do porto da Praça Mauá.

São essas pessoas imprevisíveis, que nos aguçam a admiração e nos deixam perplexos em um mundo onde tudo é natural e comum. Como não lembrar daqueles, considerados por Bertold Brecht, "imprescindíveis"? Sim, Leonora Armstrong se encaixava no perfil Brechtiano de "ser humano imprescindível".

A despeito de tanta fragilidade, esta jovem, com cerca de 25 anos, viera ao Brasil motivada por um fogo interior, que há alguns anos havia sido ateado em seu espírito. Era o desejo de seu coração se dedicar, de corpo e alma (como fez até seus 85 anos de vida!), ao serviço da inteira raça humana. Mas, qual era a fonte desse amor, dessa devoção capaz de lhe transformar de modo tão profundo os rumos de sua vida?

Era Bahá'u'lláh. Um nome árabe, significando a Glória de Deus. Ele viveu entre os anos 1817/1892, na antiga Pérsia, atual Irã. Proclamou-se Manifestante de Deus à humanidade para esta época e sua mensagem poderia ser delineada por alguns princípios básicos:

A livre pesquisa da verdade, sem qualquer influência ou preconceito: "A luz é boa. não importa em que lâmpada brilhe... uma rosa tem aroma, não importa em que jardim floresça!"

A eliminação de preconceitos de raça, classe, credo, cor ou nacionalidade: "Vós sois as folhas e os ramos de uma só árvore... vós sois as flores coloridas de um mesmo jardim, as gotas de um mesmo mar, as estrelas de um mesmo céu."

A igualdade de direitos entre o homem e a mulher: "A humanidade assemelha-se a um pássaro, onde uma asa é o homem e a outra é a mulher. O pássaro não poderá alçar vôo se não houver equilíbrio entre estas duas asas."

A harmonia essencial entre a religião, a ciência e a razão: "A religião que não aceita a ciência é pura superstição e a ciência que não aceita a religião nada mais é que materialismo puro."

A revelação divina é progressiva: "Os Mensageiros ou Profetas de Deus são enviados para educar a humanidade de época em época... A base de todas as religiões é uma só: Deus. O objetivo da criação do homem é conhecer e adorar a Deus."

Estes foram alguns dos princípios básicos que se agitavam no coração de Leonora. Ela havia sido tocada pelos sofrimentos a que fora submetido Bahá'u'lláh. Estes sofrimentos são realmente atrozes e angustiantes. Basta citar que por cerca de 40 anos ele esteve preso e exilado. Foi vítima de fanatismos seculares, que buscavam uma vez mais aprisionar o espírito de uma Nova Era. Enfrentando tiranias, ele, que era descendente direto de nobres e altas autoridades do império persa, perdeu todas as suas riquezas, através do confisco governamental. Aprisionado com mais de uma centena de salteadores de estradas, criminosos em geral, na Cova Negra (Siyáh-Chál) de Teerã, ele recebeu a inspiração divina para transmitir a Mensagem da Unidade do Gênero Humano.

Imaginemos estas cenas em meados do século passado, em um país muito atrasado do Oriente. Era um jogo de claro e escuro. O escuro da ignorância e do fanatismo cego, em contraposição com a claridade da luz da revelação divina. Seus princípios motivaram uma profunda transformação na sociedade de seu tempo que, por sua vez, repercutiu por todo o mundo.

Quantas vezes encontramos jovens se perguntando "a que Causa dedicar a vida?" Quantas vezes encontramos pessoas sequiosas por um ideal que seja nobre, elevado, digno, apartidário, acima de preconceitos, enfim uma Causa com inicial maiúscula? Sem regredir muito no tempo: o que a geração dos anos 60 queria com seu movimento da contracultura que desembocou no movimento hippie do "Paz e Amor" e em cantos de liberdade como o de Bob Dilan em Blowin'in the Wind?

Reflitamos sobre esta afirmação de Bahá'u'lláh: "A terra é um só país e os seres humanos seus cidadãos." Algo mais interessante e digno de meditação, para o estágio atual das relações internacionais? Provavelmente, não. Mas, isso foi proferido há mais de cem anos. A humanidade ultrapassou os estágios de família (Abraão), patriarcado (Jacó), tribo (as 12 tribos de Judá), cidade-estado (Jerusalém) e nação (Arábia), que é o estágio atual.

A próxima meta trazida por Bahá'u'lláh é a meta da Unidade Mundial, com o conseqüente sentimento de que somos, desde o início do mundo, nada menos que "cidadãos do mundo". Com efeito, nada mais atrasado do que essas guerras infrutíferas, essa violência que invade nossos lares, via satélite, essa desagregação do tecido social. A queda do Muro de Berlim, a última cicatriz da Segunda Guerra Mundial, o plano de unificação européia para 1992/1993 - são alguns dos sinais mais positivos de que estamos no limiar de uma nova era. É uma faxina em grande estilo, quando conceitos arcaicos e sem valor real são armazenados no sótão da experiência humana.

Mas, como é interessante começar a falar sobre a vida de uma pessoa, a jovem Leonora Armstrong, e então se deixar levar pela Causa que ela abraçou com todo seu ardor juvenil!

Apoiando o trabalho diuturno de creches e orfanatos, servindo como enfermeira em regiões carentes do norte e nordeste brasileiro, dando aulas a centenas de pessoas, traduzindo a literatura bahá'í do inglês para o português, ministrando conferências públicas sobre os princípios bahá'ís, esta jovem recriou uma nação. Ao falecer, em outubro de 1980, em Salvador, Bahia, ela deixou atrás de si um contingente imenso de admiradores de Bahá'u'lláh que será, com certeza, uma luz para as futuras gerações.

Algo é certo: o amor de Leonora por Bahá'u'lláh havia frutificado em milhares de corações deste país, pois hoje existe nada menos que 1230 municípios onde residem bahá'ís, sendo sua literatura - em cerca de 120 títulos de publicações - acessível a todos os brasileiros. Dentre esta imensa legião, estou eu com enorme dívida de gratidão. Ela me recriou para um novo mundo.

Nobre meio-fio branco

OS meios-fios de Natal estão sempre brancos. O branco nos faz refletir sobre a paz, a roupa ideal para iniciar o Ano Novo e me transmite a idéia da pureza original, em contraposição ao pecado original. Na música, o branco lembra a famosa Bandera Blanca e a valsa de mesmo nome. Na minha cidade, os meios-fios são de um branco único, eles realçam os limites dos canteiros com e sem flores e são um oásis para o pedestre em meio ao trânsito da cidade que palpita.

É um exercício para o coração; observar a alvura desses meios-fios que nunca terminam. Estão integrados na emoção do observador, as paisagens que lhes são familiares; e por ser branco, nunca cansa a vista; ao contrário, a deleita.

Pois bem, assim como a Torre Eiffel nos transporta a Paris, o Cristo Redentor ao Rio de Janeiro, o Coliseu a Roma, o Taj Mahal a Nova Delhi, a Esfinge ao Cairo, minha cidade se identifica pelo branco de seus meios-fios.

Não tem assim aquela altura própria de uma torre ou a força monumental do Coliseu. Nem mesmo o simbolismo de um Cristo imponente, que do alto da montanha abençoa a metrópole.

É um meio-fio simples, mas muito bonito, se bem apreciado que me transporta à minha cidade. Eles me falam de uma gente simples e humilde, que atravessa a vida sem pressa de chegar.

É uma referência que encravou raízes na minha infância remota. Raízes tão profundas que, mesmo após ter visitado esses famosos ícones referenciais da paisagem urbana de tantos países, o meio-fio branco me acompanhou como um amigo que segue na estrada da vida ao nosso lado, ele lá embaixo, branco, e eu, aqui em cima observando o ritmo do mundo.

"Que beleza!" - exclamaria o pintor de meio-fio branco, após uma nova mão de cal? Essa expressão traria, com certeza, a emoção do escultor extasiado, a ordenar ao Davi pétreo: "Fala!" O nosso pintor anônimo chamaria algum companheiro de ofício para louvar a qualidade da cal ou comentar sobre o branco de ontem e de hoje, qual o mais branco?

Não sei aferir que sentimentos esse pintor projeta em sua pintura de meios-fios, mas sei que me deleita observá-los, pintados interminavelmente, avançando pelas ruas, avenidas e cobrindo a cidade de uma perspectiva tão solenemente baixa.

Sempre que visito uma cidade ou um país passo alguns momentos olhando os meios-fios. Alguns são bonitos, feitos de mármore, outros de ferro fundido. Uns estão assim, digamos, desalinhados, outros delimitam belos jardins residenciais.

Os meus meios-fios, sem o branco providencial, seriam encardidos e às vezes pontiagudos. Dá gosto pensar que Deus deve se deleitar contemplando-os com sua paz ingênua, imune a qualquer tempestade da vida, simplesmente ali fincados, aguardando novas caiações.

Observo com uma ponta no coração que, muitas vezes, o branco se transmuda na cor do sofrimento. Sei que muitos dos artífices do meio-fio são o que os economistas chamam de flagelados da seca. Esses seres iguais a nós, que não sabem como lutar contra a falta de água e a quem não se concedem os recursos financeiros mínimos para mitigar a sede.

É o sofrimento resignado do branco, onde na cal se adiciona a saudade dos campos verdejantes e a falta de meios para o sustento da família. Eles, ali pintando mais um metro de meio-fio, integram-se ao meio-fio, conservando sua dignidade, alva, de uma alvura refulgente.

Segue o país o seu rumo, alternam-se os governantes no poder, muda-se o padrão monetário, anunciam-se os novos índices da inflação crescente, mas brancos permanecem os meios-fios.

Fecho, então, os olhos e guardo no coração a minha cidade em forma de maquete, cortada por imensas paralelas e transversais... brancas.

Autobiografia precoce

NASCI em 1959. Nem Brasília estava pronta, nem imaginávamos o sucesso que teria a Bossa Nova com João Gilberto, Tom Jobim e Nara Leão. A tropicália ainda era esboçada pelos jovens baianos. O Brasil estava na era de progredir 50 anos em 5, slogan de JK. Meus pais, como nordestinos estilos progressistas, se envolviam na formação de Ligas Camponesas e Paulo Freire escolhera Angicos, pequena cidade do interior norte-rio-grandense, para implantar seu novo método de alfabetização de adultos.

Infância no interior do Paraná. Motivos políticos, que eclodiriam em marco de 1964, levaram minha família para o sul do país. Após 6 anos, retornávamos a Natal. Vidinha pacata de estudante em Macau e Assu. Científico e curso técnico inconcluído, em Natal. Paixão pela literatura universal: Twain, J. Fenimore Cooper, Dickens, Dumas. Eram as tais leituras obrigatórias. Michel Quoist, com: O diário de Dany, era um incentivo direto a exercitar a escrita. Saint-Exupéry começa a exercer seu fascínio: "só há um luxo verdadeiro, o das relações humanas."

A minha geração aprendeu a ter na música sua válvula de escape. As letras de um Lennon, Dylan ou Joe Cocker tinham tanta importância quanto filosofia de vida como os Evangelhos de Lucas on Mateus. No Brasil ainda tínhamos a filosofia rebelde de uma Rita Lee e de um certo Raul Seixas. Gita e Ovelha Negra simbolizavam meados dos anos 70.

Nessa idade, é comum que questões existenciais nos ocupem a mente e deixem, muitas vezes perplexo, o coração. A violência nas cidades, as vítimas da tortura, os movimentos estudantis reprimidos, nos tornavam, por assim dizer, uma geração da penumbra. Nem dia, nem noite. Longos anos de penumbra, que nos arrebatavam parte de uma juventude promessa. A fome que, como epidemia, grassava na África, os conflitos armados no oriente médio, a escalada da guerra fria e o crescimento dos países que compunham o terceiro mundo, nos levava a perguntar se Deus, por acaso não havia nos esquecido: Por que lidar com esse povo?

Aos 20 anos somos muito solidários, sensíveis à dor dos outros e, nesse caso, pouco importava se o próximo sofria em Biafra, na Argélia on no Camboja. Queríamos, apenas, ser contra este estado de coisas. Raciocinávamos que não éramos culpados por esse caótico estado de coisas. Recebemos, de herança, um mundo em acelerado processo de desintegração moral, política e social. Uma herança pesada. Indesejável. A alienação parecia uma alternativa pouco convincente. Os cursos superiores eram moldados de forma a não termos o espírito de corpo. Tudo ameaçava o establishment. Um universitário ingressava na universidade dos créditos, pagando matérias em diversas turmas. Não mais existiria "a minha turma de faculdade". O melhor estava reproduzido no jingle de um jeans: "liberdade é uma calça velha, azul e desbotada."

E, então, eis que o espírito da contracultura, inconformismo, pegava minha geração, assim desprevenida. As barricadas dos estudantes parisienses, em 1968, ainda podiam ser ouvidas no Brasil e o refrão de Geraldo Vandré "quem sabe faz a hora, não espera acontecer", embora proibido, forneciam o combustível cúmplice das mudanças. Algo que sucedesse o naufrágio da juventude passada, de Hair e da ingênua saudação de "paz e amor". O Cinema Novo, liderado por Glauber Rocha corria mundo. No Brasil espaço lhe era negado. No entanto, Terra em Transe encantava a terra de Jean-Lug Godard.

Vivíamos o sonho de ter uma casa no campo, onde os livros e os amigos pudessem ser plantados, a esperança usasse óculos e "onde pudesse colher com amor a pimenta e o sal." Frases soltas ao vento dos anos 70 que bem diziam de nosso espírito na época.

Em 1975, conheço uma nova proposta religiosa. Era uma exposição simples, em uma galeria de arte, no centro da cidade. Os cartazes de cartolina branca contrastavam com as palavras em azul do pincel Pilot. Conhecia, então, que a Fé Bahá'í surgiu no Irã, a antiga Pérsia, e vinha despertando milhares de pessoas, em mais de uma centena de países do mundo. Sua mensagem: a unidade do gênero humano. Sua meta: criar uma civilização mundial, livre do bacilo da guerra; fraterna e justa.

Uma mensagem tão bonita e vibrante, me parecia bastante coerente a qualquer pessoa de bom senso, on minimamente bem intencionada. Não negligenciava a mensagem de Cristo ao contrário, reafirmava-a. Chego em casa naquele dia de julho, e anuncio que "sou um bahá'í". Começa daí a reação do preconceito inercial, causa de tantos conflitos e desentendimentos pessoais. "Não se envolva nisso. É exótico. Nunca ouvimos falar!" eram expressões seguidas por "Surgiu no Irã? Veja lá no que você está se metendo!" Tais eram os conselhos da família. Originário de uma família com sólida formação católica, tendo parentes consagrados ao serviço da Igreja e havendo estudado, invariavelmente, em tradicionais colégios de padres e freiras, subestimei a reação contrária de parentes e amigos. Minha pretensa contribuição ao entendimento religioso ruiu por completo.

Em meus pensamentos, tudo que conhecia dos ensinamentos bahá'ís era simples, claro, oportuno. Adequado ao espírito da época, enfim. Aprendi que todas as religiões são apenas uma e que esta era, sistematicamente, renovada através dos tempos. Nomes exóticos eram apresentados, com reverência, respeito: Krishna, Buda, Zoroastro, Maomé, Bahá'u'lláh. Eles tinham causado o progresso espiritual e material das civilizações. A identificação foi crescendo e os questionamentos foram surgindo: porque aprisionar o espírito da revelação divina a um rótulo congregacional ou a um conceito imutável? Porque tantos conflitos e guerras travadas em nome da religião? Servimos ao Deus que nos criou, ou ao Deus que nós criamos?

Acompanhando a longa luta das mulheres por sua emancipação, descobri o principio bahá'í de que o homem e a mulher têm direitos e oportunidades iguais. Descobri, ainda, que a paz mundial somente seria possível, quando a mulher fosse liberada de sua condição de inferioridade, a que estava aprisionada há tantos séculos.

Sempre solidário contra qualquer forma ou gesto de preconceito, lembro-me de que sempre busquei amigos que fossem discriminados por sua cor, ou mesmo, classe social. Fiquei deleitado com o princípio bahá'í de que devemos nos ver como sendo as estrelas de um mesmo céu, as flores coloridas de um único jardim, as folhas e os ramos de uma mesma árvore.

Aos 16 anos, estava impressionado pela perspectiva de um mundo unido e pelas possibilidades que uma frase entesourava: "a terra é um só país e os seres humanos seus cidadãos." Sedento por algo que tivesse o gosto de eternidade e que me fizesse teorizar com pés práticos, ansiava por uma Causa à qual pudesse dedicar toda a minha vida, algo assim sem reservas, ilimitadamente. Sentia-me como representante de uma geração indecisa de seu papel no mundo. Como iríamos movê-lo para um novo patamar de progresso e realizações? Uma coisa era certa. Estávamos prontos para revitaliza-lo, para transpor os belos ideais em ações concretas, que objetivassem o bem comum, acima de meras questões individuais.

Com nostalgia, recordo as tardes dos anos 70, envolvido em leituras de Herman Hesse (Sidarta/Demian) Marcuse (Eros e Civilização), Nietsche (4ssim Falou Zaratustra) ou em ver nas telas, pela décima vez, 2001 Uma Odisséia no Espaço. Vejo que tudo contribuía para um redirecionamento de minha sede interior, de busca do transcendente. Os Sete Vales e As Palavras Ocultas, ambos de Bahá'u'lláh eram ingeridos como remédio sem contra-indicações por meu espírito anelante. Em meio a esta nova dimensão em que me adentrava pairava a proposta global da Unidade do Gênero Humano, o novo estágio para o qual o mundo deveria conduzir seus esforços, uma vez que "todos os horizontes do mundo se encontram iluminados pela luz da unidade".

Imbuído pela convicção de que esta Causa estava destinada a criar um novo mundo, estabelecido firmemente no solo do coração humano, não poderia poupar esforços para vê-la progredir. Indiferença ou oposição de pessoas queridas não me abatiam o ânimo. Constatava, então, que esta minha nascente fé crescia um ímpeto e determinação, quanto maiores eram os ventos contrários da desaprovação. Não foi sempre assim? Os primeiros cristãos não exercitavam sua crença no Filho de Deus, escondidos nas catacumbas? Sem padres, pastores, rabinos e gurus que pudessem me consolidar na Fé Bahá'í, visto que ela não tem clero ou sacerdócio profissional, mesmo assim me imaginava como uma caravela que, após singrar mares e oceanos por tantos anos, encontrava enfim a terra firme. A terra de meu espírito.

Assim, aconteceu que eu me tornasse escritor de artigos para jornais, conferencista em tantos auditórios do Brasil e do exterior, defensor de negros, índios, meninos de rua e outros agrupamentos vítimas de opressão e discriminação. Em janeiro de 1985, encontro minha outra metade nas Minas Gerais, Ceres. E dessa união nascem três maravilhosos rebentos: Thomas (1986), Jordana (1988) e Anísa (1989). Três nomes que evocam a unidade do mundo: um inglês, outro israelense e outro... árabe. O amor à humanidade me levara a países como Índia, Israel, Egito e diversos países europeus, e americanos do sul e do norte. Em 1991, escreveria um livro-tributo aos sobreviventes indígenas na América. Rapidamente esgotado no Brasil, após uma bonita carreira que incluiu seu lançamento na Academia Brasileira de Letras e na ECO-92, agora se encontra em segunda edição, na Espanha. E penso que surgirão outras incursões nessa área.

Dezoito anos depois, com uma crença inabalável no destino glorioso da raça humana, sou um cidadão do mundo. Em construção.

Notas

OS ENSAIOS E CRÔNICAS constantes deste volume foram publicados em jornais e revistas e/ou constituem esboços de conferências públicas proferidas pelo autor, conforme abaixo especificados:

1. Nova Ordem Mundial, Novos paradigmas
- Jornal Tribuna do Norte, Natal, RN, 12/1/94

- Revista Bianual do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, 3/94

2. Uma lealdade mais ampla

- Conferência na Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG), 25/8/92

- O Poti, Natal, RN, 24/4/94
3. A lei é soberana

- Diário da Borborema, Campina Grande, PB,1 5/1/94

- Diário de Bauru, Bauru, SP, 10/12/93
- Jornal Tribuna do Norte, Natal, RN, 30/8/92
- Luta Bancária, Sindicato dos Bancários, 22/4/94
- O Atlântico, Itapema, SC, 8/2/94
- O Guaçuano, Mogi Guaçu, SP, 25/12/93
- O Progresso, Dourados, MS, 17/2/94
4. Da ética e do jeitinho brasileiro

- Conferência na Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG), 25/8/92

- Diário de Bauru, Bauru, SP, 1/12/93

- O Povo, Caderno de Domingo, Fortaleza, CE, 3/4/94

5. A fonte da Nova Ordem Mundial

- Conferência no Memorial Juscelino Kubitscheck, Brasília, 29/5/92

6. Seca no Nordeste: um povo marcado para sofrer

- Diário de Borborema, Campina Grande, PB, 19/9/93

- Jornal Diário de Natal/0 Poti, Natal, RN, 25/7/93

- O Norte, João Pessoa, PB, 19/9/93
- Revista Tudo, Campina Grande, PB, 22/8/93
7. Sou Cidadão de que País?
- Jornal de Natal, Natal, RN, 7/10/91
8. O afeto que se enterra

- II Seminário Nacional de Justiça e Segurança Pública, 20/8/93

- Jornal Tribuna do Norte, 9/2/94
- Véspera, nº 286, AGEN, 7/4/94
9. Racismo: nina reflexão oportuna
- Jornal de Natal, Natal, RN, 13/9/93
10. A Música tem cor?
- Jornal de Natal, Natal, RN 13/9/93
11. Vítimas de genocídio no Irã
- Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 5/12/82
12. Solidão de espírito no Brasil

- Conferência na Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, 20/12/91

- Diário de Natal, Natal, RN,25/10/91
- O Comércio do Porto, Porto, Portugal, 5/12/93
- O São Paulo, São Paulo, 16/1/92
13. Restituir a dignidade usurpada

- Jornal do Brasil, Caderno Idéias, Rio de Janeiro, 22/12/91

- Conferência na Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, 26/4/92

14. Inevitável destino comum
- Jornal de Natal, Natal, RN, 13/4/92

- Conferência no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, 25/3/92

- Fórum Global, ECO 92, Rio de Janeiro, 13/6/92
15. A odisséia dos povos indígenas
- Jornal Tribuna do Norte, 28/6/92
16. Dos Grandes, Um Pouco: o livro de Veríssimo
- Diário de Natal/0 Poti, Natal, RN, 13/9/92
17. Religião e Ciência, forças unificadoras

- Conferência na Universidade Santa Úrsula, Rio de Janeiro, 20/9/84

- Diário da Borborema, Campina Grande, PB, 23/1/94

- Diário de Bauru, Bauru, SP, 5/1/94
- Estado de Santa Catarina, SC, 10/3/94
- O Guaçuano, Mogi Guaçu, SP, 8/1/94
18. Leonora no cais do porto
- Jornal de Natal, Natal, RN, 18/11/91
19. Os Sete Vales

- Conferência na Associação Brasileira de Professores de Yoga (ABPY), Rio de Janeiro, 10/10/85

20. Um Pássaro Chamado Humanidade
- Jornal de Natal, Natal, RN, 5/10/93
21. Idéias do Primeiro Mundo
- Jornal Tribuna do Norte, Natal, RN, 22/l 2/93
22. Reflexão em Tel-Aviv
- Jornal Tribuna do Norte, Natal, RN, 17/1/94
23. Rito e o Marco de Touros
- Jornal Tribuna do Norte, Natal, RN, 23/2/94

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