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Stanwood Cobb : Unidade Mundial
Stanwood Cobb
UNIDADE MUNDIAL
Um Modelo para a Sociedade Futura
EDITORA BAHÁ'Í BRASIL
P R E F Á C I O

Para cada um de nós - cidadãos do mundo de hoje, o tema aqui apresentado - o do estabelecimento de uma Nova Ordem Mundial neste planeta - é ainda mais urgente agora do que quando este livro foi escrito, há 30 anos!

É uma grata satisfação compartilhar a mensagem oportuna e alentadora contida nestas páginas com os leitores de língua portuguesa em todo o mundo.

Assembléia Espiritual Nacional
dos Bahá'ís do Brasil
CAPÍTULO I
QUE NOS RESERVA O DIA
DE AMANHÃ?

Que nos reserva o dia de amanhã? Este é o pensamento ansioso presente em todas as mentes. É a questão vital que absorve não só o nosso país, mas as demais nações do mundo.

A própria humanidade tem em suas mãos o poder de determinar o que nos trará o dia de amanhã. O futuro está dentro do domínio de nossa vontade. Mas que é nossa vontade? Vontade de paz ou vontade de guerra? Vontade de viver em anarquia internacional, ou em unidade mundial e organização internacional?

Em sua carta de Ano Novo de 1949, o Whaley-Eaton Service proclama esta mensagem: - "Um fato é indiscutível: o mundo antigo já se foi para nunca mais voltar. Um novo mundo deve ser construído, com novos objetivos e novos métodos para alcançá-los. Que espécie de mundo novo? Onde é que nos encontramos, e para onde é que estamos nos deixando levar?"

Albert Schwietzer, em Out of My Life and Thought (De Minha Vida e Meu Pensamento), diz: "A atitude afirmativa (o desejo de progredir), em si, poderá produzir apenas uma civilização parcial e imperfeita. Somente se esta atitude tornar-se interior e ética, poderá o conseqüente desejo de progredir possuir o necessário discernimento para distinguir o valioso do menos valioso, e empenhar-se em atingir uma civilização que não consistia apenas em feitos de conhecimento e poder, mas que - antes de mais nada - produza homens que sejam individual e coletivamente, mais espirituais e mais éticos -" (e, Schweitzer poderia ter adicionado, mais felizes e alegres).

Essa declaração é muito profunda. Atinge as raízes das causas do caos que reina agora em nosso mundo dilacerado pela guerra. O desejo humano de progredir - agora predominantemente secular e materialístico em suas expressões - chegou a um beco sem saída. O progresso está paralisado, desviado e ameaçado de extinção, ante a predestinada e fatal luta das massas no mundo inteiro - tanto dentro como fora da Cortina de Ferro - em busca de maiores privilégios e prosperidade.

Essa luta - por ilusória e sem diretrizes que pareça em muitas de suas manifestações - é, basicamente, de caráter ético; é uma busca de equidade em que se empenham seres humanos explorados e desprivilegiados.

Mas desde que a maldição da época em que vivemos está no seu secularismo, esse anseio de justiça por parte das massas é levado pelo caminho errado. Tornou-se uma intensa luta pelo poder, a qual não leva a solução alguma. Essas lutas pelo poder só podem levar a um caos ainda maior, a ainda mais injustiças de um lado ou de outro.

Schweitzer nos dá o diagnóstico certo, acompanhado da solução correta. Os julgamentos e as atividades dos que dirigem o mundo devem derivar do plano da ética. A motivação deve ser espiritual. Então suas expressões - práticas e benéficas no plano material - não sofrerão colapso algum devido ao choque entre as vontades conflitantes dos grupos humanos.

Perguntamos se parece pouco prática a afirmação de que novas ondas de motivação espiritual devam penetrar, apoiar e impulsionar as atividades humanas coletivas sobre este planeta, antes que o desejo de progredir possa operar, outra vez, em bases seguras e estáveis? O que é necessário é uma renascença espiritual para introduzir o milênio material de paz e prosperidade universais, que já se tornou o sonho e a esperança da humanidade.

E de onde viria tal renascença espiritual senão dos dirigentes mundiais? Tolstoi, em "O Reino de Deus", aponta sabiamente que, para se atingir aquele padrão mundial de afetuosa fraternidade e paz que é o objetivo concreto e final do esforço cristão, não é necessário esperar até que todos os seres humanos, ou mesmo a maioria deles, venham a motivar-se espiritualmente. Basta que a maior parte da liderança mundial se dedique a esse fim, e as massas seguirão sua orientação como sempre têm seguido a liderança inspirada através dos movimentos históricos e periódicos da humanidade.

Aos que dirigem, é que cabe a responsabilidade. O povo não tem outro recurso senão depender de seus dirigentes. Mesmo em nossa democracia, tão altamente alfabetizada e loquaz, nada podemos fazer salvo através da liderança. Os mais sábios dentre nós, na qualidade de cidadãos, pouco mais podem fazer do que utilizar-se do voto ou de agitação. Não dispomos da experiência nem dos conhecimentos especializados - muitas vezes secretos - sobre os quais baseamos ações e decisões sábias. Até mesmo o próprio Congresso está se tornando cada vez mais dependente das pesquisas efetuadas por equipes de especialistas ligados a seus comitês ou postas sob a direção da Biblioteca do Congresso para pesquisar e auxiliar os trabalhos do Congresso.*

Mesmo quando discordamos de nossos líderes políticos e procuramos estabelecer movimentos populares a fim de corrigir e melhorar suas decisões, somos obrigados a depender de outros dirigentes para esta nova organização.

Se essa dependência de dirigentes é óbvia na tão adiantada civilização norte-americana, quanto mais nos países onde as massas são analfabetas, ignorantes e mal informadas. Para estes, o único recurso será submeter-se à sua liderança e também nela confiar para lhes trazer aquela justiça a que tanto aspiram, seja de um modo tácito ou clamoroso.

A liderança inspirada pode moldar nações inteiras, tal como aconteceu em nossa própria†, nos anos críticos e iniciais do forjamento da constituição e do governo federal, até hoje, servem de modelo para o mundo todo.

Liderança criativa evolui, a cada ano que passa e, em cada país, estabelece novos usos e costumes, práticas e artes que lhe impulsionam a civilização. Algumas vezes - e hoje necessitamos disso desesperadamente - a influência de tal liderança ultrapassa as fronteiras nacionais e emana uma inspiração expansiva sobre toda a humanidade.

Essa é sobretudo a natureza, e também o campo, daqueles grandes dirigentes espirituais cujas mensagens tendem a atingir um âmbito universal e cuja influência se estende sobre todo o planeta. Esses arautos mundiais da verdade e do direito, encaram toda a humanidade como sua platéia, e o planeta inteiro como teatro de sua ação. É cósmica sua visão; é universal sua mensagem. Assim como fez Isaías, pregam um evangelho de paz e fraternidade para o mundo inteiro; como ele, antecipam um tempo em que "o conhecimento de Deus cobrirá a terra, como as águas cobrem o mar."

A influência de toda liderança sempre visa o futuro e, é progressista, mas a dos grandes líderes espirituais do mundo não apenas olha para o futuro, mas é até profética. Estes sentem o pulso da própria humanidade, à qual seus grandes corações se dedicam, numa espécie de amor quase que sobrehumano; com uma sensibilidade que distingue entre a verdade e o erro, percebem o Propósito Cósmico que deveria prevalecer nas atividades humanas assim como prevalece no desenvolvimento do universo inteiro. Vêem, por assim dizer, os esquemas do Destino, e ao cumprimento destes é que eles dedicam todas as suas energias e força de vontade.

Esse poder de dirigir o mundo não é dado a muitos seres humanos. A faculdade, porém, de encarar o futuro e dedicar a vontade, as habilidades, e os esforços, ao aperfeiçoamento da espécie humana - isto é um dom e um privilégio ao alcance de todos os homens. Podemos nos sintonizar com as vibrações cósmicas que atuam sobre toda a humanidade para sua inspiração e seu progresso e, em proporção com as habilidades de cada um, receber algum poder de liderança, quer pequeno ou grande, em benefício de um mundo enfermo.

Poderíamos indagar (como o próprio autor já o fez muitas vezes) se o progresso é inerente ao universo. Ainda estamos para receber, das pessoas assim interrogadas, uma resposta negativa. Não é verdade que nós todos vivemos e agimos na crença de que a existência é, inerentemente, progressiva? Progressiva não só para o universo material, mas também para os seres humanos, tanto individual como coletivamente.

Se, entretanto, prosseguirmos em nossa pesquisa, para sabermos como esse desejo cósmico de progredir pode influenciar e estimular os movimentos da humanidade, seremos obrigados a concluir que será somente através do poder da liderança inspirada. Ao homem foi dada vontade própria, e só poderá progredir por sua própria iniciativa.

A vontade Criadora não se revela aos homens por mensagens inscritas no céu, nem através de proclamações em altos brados que penetrem os vácuos inter-estrelares. Não! É a pequena voz interior que guia a humanidade, através daqueles que têm o dom do ouvido cósmico. "Que ouçam os que têm ouvidos!" É este, eternamente, o método do Eterno. E desde sempre tem havido aqueles que respondem e tomam sobre si a tarefa colossal de transmitir à humanidade as diretrizes divinamente inspiradas, para seu benefício e seu crescente bem-estar.

Só assim o progresso pode advir à massa viva, sensível e racional da humanidade. Nossa evolução física não é consciente, mas nossa evolução cultural o é, resultando de uma liderança consciente e inspirada, bem como de uma reação consciente e efetiva a essa liderança. É deste modo que a humanidade caminha para a frente. Assim foi no passado, como também o será no futuro.

Que grande responsabilidade, então, repousa sobre aqueles seres humanos que possuem o dom da liderança e se sentem chamados a exercer seu poder! "Alimentai minhas ovelhas" foi a última exortação de Cristo a Seus discípulos. Pois, em verdade, não passamos de ovelhas, precisando ser guiadas, se é que pretendemos alcançar a Terra Prometida.

Hoje, a procura e necessidade de uma liderança é maior do que em qualquer outra fase da história. Todo povo, no mundo inteiro, labuta sob grandes deslocamentos e dilemas que o ameaçam de um desastre nacional. Perplexos, todos procuram líderes que os guiem à segurança e à prosperidade.

Mas os problemas das nações individualmente, não são nada comparados com os problemas do mundo inteiro, como uma arena de conflitos planetários que clama soluções planetárias. Soluções individuais não são suficientes. Nenhuma nação pode viver isoladamente agora. As soluções precisam ter caráter universal.

E assim como cada grupo nacional anseia desesperadamente por orientação, também o planeta como um todo clama por líderes de ação mundial, dotados de visão e poder de influência tão grandes que possam movimentar toda a humanidade para frente, livrando-a de seu dilema, de seu caos, e guiando-a a um futuro de ordem e segurança, de paz e fraternidade, de justiça e amor universais. Este líder apareceu no século dezenove, trazendo uma mensagem de progresso espiritual, como também secular - profundamente espiritual, embora sobretudo prática - o que subseqüentemente evoluiu num movimento que abrange o mundo.

CAPÍTULO II
HOUVE UM HOMEM

Bahá'u'lláh é a mais extraordinária figura espiritual, e a mais progressiva das produzidas pelo século dezenove. A história de Sua vida é dramática. Nasceu em Teerã, Irã, em 1817, descendente de nobre e rica família. Seu pai era Ministro de Estado no governo do Xá.

Jovem brilhante, Sua extraordinária força de atração era sentida por todos. Nunca freqüentou escola ou universidade, sendo-lhe ministrados em casa apenas os rudimentos da educação. Cedo na vida, entretanto, Ele se distinguiu por Sua sabedoria e conhecimentos extraordinários, bem como por Sua generosidade e bondade para com todos.

Esperava-se que Bahá'u'lláh, como primogênito, seguisse a tradição da família, dedicando-se à carreira de estadista, mas, em vez disso, escolheu a vereda da reforma religiosa e humanitária, a qual se transformou, a seu tempo, em grande movimento mundial, conduzindo-O, todavia, por espinhosos caminhos de perseguição, exílio e prisão perpétua. O corrupto clero islâmico do Irã não apreciou com muita satisfação as fortes correntes de reforma que Bahá'u'lláh lhe dirigiu e, possuindo o controle, tanto da igreja como da lei, conseguiu banir o Profeta para a colônia penal turca de 'Akká, na Palestina. Nessa cidade, em cujo clima pestilento poucos prisioneiros podiam sobreviver por muito tempo, Bahá'u'lláh foi mantido prisioneiro de 1868 a 1892 - encarcerado, às vezes, num fétido calabouço, outras, num conjunto residencial.

Bahá'u'lláh tinha tal poder de conquistar o amor dos governantes turcos de 'Akká, que tinham que ser trocados freqüentemente pelo Sultão. A um desses governantes que tornou-se Se amigo, Bahá'u'lláh deu uma pena que foi humilde instrumento de revelação. O filho desse governante, Prof. Fikret Bey, do Robert College em Constantinopla, mostrou-me esta pena, em 1908, como um de seus bens mais estimados.

Por ocasião de sua morte, em 1892, Seu filho mais velho, 'Abdu'l-Bahá, tornou-se, por designação do Profeta, líder e expositor da recém-nascida Fé Mundial Bahá'í, cujos ensinamentos atingiram este país*, pela primeira vez em 1893, no Congresso das Religiões Mundiais, durante a Feira Mundial de Chicago. Também 'Abu'l-Bahá permaneceu prisioneiro em 'Akká, até o ano de 1908, quando a Revolução Turca o libertou. Em 1912, ele passou um ano nos Estados Unidos numa viagem missionária de costa a costa.

O escritor teve o privilégio de visitar 'Abdu'l-Bahá em fevereiro de 1908 - enquanto ainda era prisioneiro e, novamente em 1910, quando ele finalmente era livre e residia num local de altitude mais saudável, nas encostas do Monte Carmelo - passando na primeira ocasião, três dias como seu convidado, e na segunda, uma semana. Mais tarde o privilégio de muita intimidade com esse grande líder espiritual - que parecia ser a própria essência de sabedoria e amor - foi renovado em Paris, Washington, Boston e Nova York.

O âmago da mensagem universal de Bahá'u'lláh consistia na paz e unidade mundiais, - conceito este, no qual, antes de 1860, nem a Europa nem a América tinham o menor interesse, e muito menos o Oriente. Em parte alguma percebiam os líderes religiosos que a paz era a mais imperiosa necessidade do mundo. Bahá'u'lláh, porém, possuía a convicção profética de que a paz mundial era a vontade de Deus para a humanidade nesta era e, assim sendo, haveria de ser atingida, não importando as objeções dos homens, e a despeito das fraquezas humanas.

O desenvolvimento dessa visão levou Bahá'u'lláh a posteriores pronunciamentos nos quais ele delineou fatores subsidiários de uma grande civilização mundial destinada a ser a realização culminante da humanidade - dessa humanidade que atingia, afinal, a etapa adulta, estando amadurecida ao ponto de poder seguir um programa de âmbito universal e erigir o edifício há muito sonhado da fraternidade mundial que os profetas previram, os filósofos discutiram e os poetas imaginaram.

Escolhendo os governantes do mundo ocidental para recipientes dessa mensagem de paz, a estes, tanto individual como coletivamente, Bahá'u'lláh dirigiu epístolas de grande apelo e autoridade, conclamando-os, em nome de Deus, a cessar as guerras e estabelecer a paz mundial, a federação mundial e a fraternidade mundial. Repetidamente advertia-os da desintegração e do colapso completo da civilização contemporânea, a não ser que fossem restabelecidos os padrões divinos de moralidade como base maciça da sociedade humana.

A variedade e o âmbito dos assuntos tratados nessas epístolas, bem como sua sublime dignidade, fizeram delas um poderoso farol iluminador no caminho da história, do século dezenove até nossos dias. Um excerto fragmentário pode servir de exemplo quanto ao teor dessa mensagem:

"Temei a Deus, ó reis da terra... Observai as injunções postas sobre vós em Seu Livro... Palmilhai a vereda da justiça... Ajustai vossas diferenças e reduzi vossos armamentos, para que a carga de vossas despesas seja aliviada. Sanai as dissensões que vos dividem e não mais tereis necessidade de armamentos, salvo os que a proteção de vossas cidades e territórios possa exigir..."

"Ó margens do Reno! Nós vos vimos cobertos de sangue, pois as espadas da vingança foram desembainhadas contra vós; e tereis ainda outro turno. Ouvimos as lamentações de Berlim, muito embora esteja ela, no dia de hoje, em notável glória."

Aos governantes da Grã-Bretanha, Rússia, Turquia, Irã, França, Alemanha, Áustria e dos Estados Unidos, e do Papa, esse prisioneiro mandou de Adrianópolis, continuando a enviá-las mesmo depois que o encarceramento final o colocou atrás dos muros de mais de dois metros de espessura, da antiga prisão fortaleza de 'Akká, na Palestina, famosa através dos séculos como São João de Acre das Cruzadas. Cada uma das mensagens atingiu seguramente as mãos da augusta pessoa a quem estava endereçada, e o tom de autoridade em que se achavam vazadas em nada diminuiu pelo fato de o autor tê-las composto por detrás das grades duma prisão. Onde estão hoje as dinastias, cujos dirigentes receberam aquelas epístolas? Rússia? Alemanha? Áustria? França? Turquia? Irã? Somente na Grã-Bretanha, apesar de grandes convulsões, ainda reina a mesma dinastia. A Rainha Vitória foi o membro individual a receber a mensagem. Sua neta, Marie da Rumênia, mais tarde escreveu sobre a Fé de Bahá'u'lláh: "Une todos aqueles que têm procurado palavras de esperança. O germe da verdade eterna que se encontra nesta semente, só pode criar raízes e esaplhar-se."

No tempo em que Bahá'u'lláh estava preso, 'Akká era notória como zona pestilenta e febril, lugar em que as possibilidades de sobrevivência eram limitadas. Bahá'u'lláh, Sua família e discípulos, somando oitenta e quatro pessoas, foram aprisionados em um quartel militar cuja falta de higiene e de espaço era verdadeiramente lamentável. Em breve, a malária e a disenteria apareceram, causando a morte de alguns. Dois anos foram cumpridos na caserna, e sete numa casa cujas condições eram de início quase tão más quanto as do quartel.

Ainda assim, não somente mensagens dirigidas aos governantes do mundo saíram desse horrendo recinto, mas também uma riqueza em ensinamentos sobre educação, economia, sociologia, evolução, imortalidade, bem como beatitudes, meditações, orações e profecias - todos manaram da inspirada pena de Bahá'u'lláh, criando um desenho e um padrão em que se basear uma sociedade espiritualizada de um mundo unido.

Deve-se compreender que Bahá'u'lláh não elaborou esse plano mundial. Veio-lhe - foi dito claramente - como uma revelação. Seus ensinamentos, quer os espirituais ou os que se referem à organização do mundo, não são simples sínteses de pensamento contemporâneo ou passado. Bahá'u'lláh apresentou esse movimento de reforma mundial não na qualidade de filósofo, mas como Profeta; não em tom de conselho ou de exortação, mas como agente compulsório do Destino. Não por desejo pessoal, mas por uma bem definida convicção espiritual, aceitou Ele essa missão de reformar a humanidade. Na epístola dirigida ao Xá do Irã, Bahá'u'lláh declara:

"Ó rei, em verdade, eu estava como qualquer um dentre a humanidade, adormecido sobre meu leito. Os sopros do Todo-Glorioso manaram sobre Mim e Me ensinaram o conhecimento de tudo quanto houve... E Ele ordenou que Eu proclamasse entre a terra e o céu... Não estudei as ciências que os homens possuem, nem freqüentei escolas... Está é uma folha que a brisa da Vontade de teu Senhor moveu... fazendo que Eu falasse em Sua comemoração em meio às nações..."

Qual era a aparência desse extraordinário personagem?

Devemos a descrição da aparência de Bahá'u'lláh ao único ocidental que O visitou, o professor Browne, famoso orientalista da Universidade de Cambridge, na Inglaterra. A visita foi feita em 1890, dois anos antes do passamento do profeta. Escreveu o professor Browne:

"Sua face, que contemplei, jamais será esquecida por mim. Aqueles olhos penetrantes pareciam ler-nos a própria alma; poder e autoridade assentavam-se em sua ampla fronte... Desnecessário me era perguntar em presença de quem eu estava, enquanto me curvei frente àquele que é objeto de uma devoção e um amor que os reis poderiam invejar e os imperadores suspirar em vão."

E que disse Bahá'u'lláh ao professor Browne? Uma breve declaração prenhe de esperança e segurança para este planeta devastado pelas guerras, foi feita serenamente a esse letrado inglês, no ano de 1890 - como uma bênção sobre a humanidade que mostrara a Bahá'u'lláh apenas desprezo, crueldade, prisão e privação:

"Só desejamos o bem do mundo e a felicidade das nações; que todas as nações se tornem uma na fé e que todos os homens sejam como irmãos; que os laços de afeição e unidade entre os filhos dos homens sejam fortalecidos, a diversidade de religiões cesse e as diferenças de raça sejam anuladas. Que mal pode haver nisso? Ainda há de ser assim; essas contendas infrutíferas, essas guerras ruinosas passarão, e a Suprema Paz virá... Não foi isso que Cristo profetizou?... Essas contendas, carnificina e discórdia cessarão, e todos os homens deverão ser como membros da mesma raça, de uma só família... Que ninguém se vanglorie de amar sua pátria; que se orgulhe, sim, de amar sua espécie."

Bahá'u'lláh morreu no ano de 1892, com a idade de setenta e cinco anos. O sepulcro do Profeta, em Bahji, já é lugar de peregrinação mundial. Seus ensinamentos, desde então, se têm espalhado pelo mundo inteiro. Tiveram especial divulgação os grandes princípios para uma consciência social e organização social de um só mundo, os quais podem ser resumidos assim:

Unidade de todas as religiões
Unidade do gênero humano
Independente investigação da verdade
A religião deve ser causa de unidade
Eliminação de preconceitos de qualquer espécie -
nacional, político, de raça, religião e classe
Igualdade de direitos entre o homem e a mulher
Educação universal
Reconciliação entre a ciência e a religião
Uma língua universal auxiliar

Solução espiritual e prática do problema econômico

Um tribunal universal para solucionar problemas internacionais

Paz mundial.

Não mais podem estes princípios, hoje em dia, ser chamados de novos, mas muito novos eram na década de 1860. Agora os pensamentos e as ações dos progressistas do mundo inteiro deles se acham impregnados. Bahá'u'lláh inalava o espírito desta era, que é o alvorecer da Comunidade do Homem. Tolstoi, certa vez, escreveu a um amigo: "Passamos nossas vidas tentando decifrar o mistério do universo, mas houve em 'Akká, na Palestina, um prisioneiro dos turcos, chamado Bahá'u'lláh, que possuía a chave."

Os seguidores de Bahá'u'lláh provem de todas as raças e religiões. Grupos organizados existem em mais de duzentos países. A literatura bahá'í já foi traduzida em mais de cem línguas e, presentemente, o está sendo em muitos idiomas adicionais.*

Esse movimento mundial já demonstrou habilidade única em trazer a seu aprisco membros não só de todas as nações, mas de todas as raças e religiões, ganhando de muitos líderes mundiais palavras de simpática elogio.

Os capítulos que se seguem foram feitos para levar ao leitor uma breve descrição dos principais fatores na formação da Nova Ordem Mundial de Bahá'u'lláh.

CAPÍTULO III
UM MUNDO EM PAZ

"Como em outros séculos, uma escolha de âmbito mundial se faz outra vez necessária - e outra vez possível," diz Adolf A. Berle Jr. em "Natural Selection of Political Forces". "Se agora a escolha for bem feita, nossos filhos poderão gozar de um verdadeiro oásis de paz, mais duradoura e espiritualmente mais serena, do que a história tem conhecido até agora. As multidões estão no vale da decisão - mas, segundo as palavras de Joel, o dia do Senhor está próximo, no vale da decisão."

O milagre do rápido crescimento do desejo de paz em todo o mundo, está diretamente relacionado ao desenvolvimento de novas e terríveis armas mortíferas. A guerra, enquanto se confinava ao solo, já era tragicamente destrutiva, mas no ar, e na escala recentemente alcançada, é por demais devastadora para que a humanidade a possa suportar.

Cada uma das duas Guerras Mundiais deixou, como seu mais importante resultado, a formação de uma entidade que visava acabar com as guerras. Verdade é que estas organizações têm sido frágeis, mas sinceras. A última delas, a Organização das Nações Unidas, - em conseqüência do grande e crescente horror à guerra sentido pela humanidade - tem conseguido mais lealdade, apoio e sinceros esforços da parte de todos os povos da terra, do que sua precursora, a Liga das Nações.

É fato impressionante que o fundador de cada uma dessas organizações de paz, estava familiarizado com os escritos e a mensagem de Bahá'u'lláh, que principiou, desde 1870, a conclamar a humanidade ao trono níveo da paz.

Em mensagens aos principais governantes do mundo, enviadas de Adrianópolis e da prisão-fortaleza de 'Akká, Bahá'u'lláh, em nome de Deus, os conclamou a uma conferência mundial onde deveriam ser dados os passos para abolir a guerra e organizar um governo mundial de ordem supra-nacional. Não havia no mundo ainda, nesta época, um desejo de paz bem definido. Ao contrário, as principais nações recorriam à guerra - em menor ou maior grau - como meio de engrandecimento nacional, de adquirir riquezas ou construir impérios. Com tais objetivos se empregara sempre a guerra no passado.

Assim, pois, o mundo de 1870 pouca atenção deu às proclamações de Bahá'u'lláh. Não tomou em consideração, porém, um item que mais tarde viria a induzir os homens a um desesperado esforço em prol de uma paz permanente. Bahá'u'lláh predisse que os engenhos de guerra se tornariam de tal maneira mortíferos e arrasadores que chegariam ao ponto de forçar a humanidade a desistir totalmente da guerra. Acontecimentos mundiais já provaram a verdade deste prognóstico. Por triste que seja, não é o idealismo que está afinal induzindo a humanidade a proscrever a guerra. Não é o senso moral mas o medo de aniquilação total que, sob condições inteiramente novas e inesperadas, força os governos a adotar convicções e planos novos e, inesperados.

A natureza humana pode não mudar muito, como afirmam os cínicos. As diretrizes da atividade humana porém, mudam freqüentemente, e nunca tanto quanto hoje. Assim, pois, existe hoje o que não existia em 1870 - um anseio universal de se evitar a guerra, o que equivale à vontade universal de paz.

Um fator muito importante para a realização da paz universal é a ligação de Oriente e Ocidente. A espécie de paz que visualizamos não é a mera cessação das guerras, mas sim uma estreita e efetiva união e cooperação cordial entre os povos da terra, até agora divididos, especialmente do Oriente e Ocidente. Desde tempos remotos, quando atingia-se a união só através da conquista, jamais a Europa e a Ásia se amalgamaram.

Alexandre, cuja invasão atingiu o próprio coração da Ásia, foi impedido pela morte prematura, de levar a cabo seu grandioso esquema de unir essas duas civilizações tão díspares. Grande era sua visão da unidade mundial, mas mesmo sobrevivendo, poderia ele ter transformado seu sonho em realidade? Provavelmente não, pois o tempo não estava ainda maduro.

Roma, até no auge de seu poderio, jamais pode penetrar na Ásia além do Oriente Próximo. Conseqüentemente, a civilização greco-romana, a maior civilização unitária até agora conhecida pelo mundo, confinou-se ao Mediterrâneo e às suas hinterlândias.

Duas vezes a China, atingindo alturas incomuns de poder militar e ambição, avançou seus exércitos conquistadores para o Ocidente, em direção à Europa, mas sem sucesso. Ghenghis Khan dominou quase toda a Ásia e Europa, não deixando porém, uma influência unificadora permanente.

A Europa, afinal com sua crescente tecnologia, energia e poder militar, haveria de subjugar a Ásia, mas tal domínio nada tem contribuído para a unidade. Bem ao contrário. A Ásia, passiva em sua impotência, passou a nutrir profundos ressentimentos, os quais - tão cedo apresentou-se uma oportunidade - deram origem a uma onda de efetivo nacionalismo. Somente na época atual, pois, pode a Ásia, havendo adquirido real independência e igualdade, tomar assento no concerto das nações e participar sinceramente do esforço que visa a unidade mundial. É fato altamente significativo que agora a Índia e a Indonésia desempenham seu papel nas Nações Unidas, junto com outras nações asiáticas que haviam previamente conseguido manter ou adquirir independência.

Agora, pela primeira vez na história do planeta, o palco está pronto para que Oriente e Ocidente, em termos de igualdade, realizem sua verdadeira união. Bahá'u'lláh pôs grande ênfase na importância suprema de tal união. Cada um desses dois companheiros do planeta possui inestimáveis tesouros para repartir, e sua verdadeira amizade e efetiva harmonia farão que a civilização do mundo avance aos saltos.

"O Oriente necessita de progresso material, enquanto que um ideal espiritual é o que falta ao Ocidente," disse 'Abdu'l-Bahá,* falando em Paris, em 1911. "Seria bom que o Ocidente se dirigisse ao Oriente em busca de iluminação, oferecendo em troca seus conhecimentos científicos. Tal intercâmbio de dons é necessário. Leste e Oeste se devem unir, a fim de que cada um supra o que falta ao outro. Dessa união resultará a verdadeira civilização, onde o espiritual se expresse e complete no material. Com esse intercâmbio, virá a prevalecer a maior harmonia, todos os povos se unirão, um estado de grande perfeição será alcançado, haverá uma firme amalgamação, e este mundo se tornará um espelho brilhante para refletir os atributos de Deus."

O mundo anseia pela paz. Nenhuma de suas nações componentes no entanto, está disposta a renunciar ao nacionalismo, ao ponto indicado por Bahá'u'lláh como necessário para se poder formar uma organização mundial efetiva.

Duas considerações imperativas não foram ainda preenchidas nas Nações Unidas. A primeira é a renúncia da soberania nacional ao ponto de se aceitar, sem direito de veto, as decisões de uma corte mundial. O segundo requisito, indispensável para a obtenção de uma paz estável, é o desarmamento nacional - sendo mantido apenas o poderio suficiente para garantir a ordem interna - e o estabelecimento de uma força policial internacional.

O mundo não está preparado ainda para dar esses dois momentosos passos. Nem devem eles ser dados sem a devida cautela. O autor ouviu 'Abdu'l-Bahá em Washington, no ano de 1912, dar uma significativa resposta a uma senhora que, em sua paixão pela paz, perguntou se nós não deveríamos dar o exemplo, desarmando-nos primeiro. Ele respondeu que não seria seguro para um país desarmar-se enquanto os demais permanecessem armados; mas sim, deveria ser um processo simultâneo.

Talvez queiramos perguntar o que neste mundo levará a tal processo simultâneo. A resposta é eventos. Pois eventos têm um poder miraculoso para modificar a ação humana e lhe fornecer nova motivação. Basta lembrar-nos, como exemplos disso, das I e II Guerras Mundiais, as quais nos compeliram a criar a Liga das Nações e as Nações Unidas. E eventos na Coréia obrigaram o estabelecimento de uma força de polícia internacional simbólica, com uma rapidez que deliberações parlamentaristas jamais teriam produzido.

Os bahá'ís no mundo inteiro aguardam acontecimentos que venham precipitar ações em cumprimento à Nova Ordem Mundial de Bahá'u'lláh - ações para as quais a humanidade, na época em que estas linhas estão sendo escritas, não se acha bastante amadurecida, nem podendo concebê-las ou fazer planos inteligentes para sua realização.

Esses futuros eventos, quando vierem, provavelmente não parecerão benéficos, mas seu impacto, por mais calamitoso que seja, terá ao menos o resultado de precipitar a humanidade numa paz e ordem mundial duradouras.

A paz mundial não é assunto que se resolva apenas com tratados feitos entre governos. É, isso sim, coisa que interessa a cada cidadão desse lar da humanidade que é nosso mundo. Aí é que se justifica o exercício de nosso livre arbítrio para evitarmos a anulação do progresso e o aniquilamento da espécie humana - o que nos ameaça.

Oxalá tivéssemos o mesmo ardente zelo pela propaganda da paz como o demonstramos pela da guerra!

Foi para esse ideal que Bahá'u'lláh exortou a humanidade nos últimos anos do século dezenove. O ponto cardeal de seus ensinamentos é a necessidade de ser abolida da consciência de todo indivíduo, toda espécie de preconceito. Suas palavras "e pela vontade de Deus, Suprema Paz virá" implicam no nascimento deste zelo pela paz em nossa consciência social. Pois a vontade do Criador exprime-se nos assuntos humanos somente através da agência da vontade humana.

A lealdade é assunto muito delicado para se tocar, e uma nova orientação é sempre antecipada com receio e apreensão. As treze colônias originais dos Estados Unidos levaram mais de trinta anos para adquirirem uma espécie de unidade na lealdade mais ampla à federação do que ao Estado. Não devemos esperar, pois, que seja diferente ou mais rápido, o modo como os cidadãos dos vários países do mundo possam reagir agora ao momentoso projeto da federação mundial. É muito maior a escala desta, e são muito mais complexas as relações envolvidas, do que no caso da fundação dos Estados Unidos.

Como poderemos esperar alcançar lealdade para com o gênero humano em primeiro lugar, e em segundo lugar à nossa pátria? "Que ninguém se vanglorie de amar seu país; que se orgulhe, antes, de amar sua espécie," escreveu Bahá'u'lláh há oitenta anos atrás.

Isto é uma tarefa maior. Mas a vontade de conseguir pode fornecer os meios. Isto deve ser compreendido: o fato de colocarmos o amor à humanidade em primeiro lugar, acima de tudo, não nos veda um saudável orgulho em fazer de nossa nação a mais digna unidade possível na agregação de unidades que venham a compor a sociedade unitária mundial, justamente como o princípio do federalismo não impediu o crescimento sadio dos treze estados ao se fundirem numa nação.

"Vós todos sois frutos de uma só árvore e folhas de um só ramo."

CAPÍTULO IV
UMA NOVA ORDEM MUNDIAL

A abolição da guerra será apenas o primeiro passo no plano colossal que há de organizar o mundo numa união efetiva, funcionando plenamente como unidade federativa, dedicando-se ao estabelecimento de uma civilização universal que se baseie na justiça e na boa vontade, e se exprima em formas de prosperidade, beleza e alegria de viver mais gloriosas do que mesmo os maiores poetas e visionários do mundo conceberam até agora.

"Todos os homens foram criados para levar avante uma civilização de evolução contínua... Em breve a ordem atual será posta de lado e uma nova se estenderá em seu lugar...

"O equilíbrio do mundo já foi abalado pelas influências vibrantes dessa grande, dessa Nova Ordem Mundial..."

Nada no universo é estático; e a história é o estudo desse movimento nas atividades humanas. A velocidade desse movimento porém, nos oitenta anos transcorridos desde que Bahá'u'lláh escreveu as palavras acima, tem sido como a de um furacão, quando a comparamos com o desenvolvimento de épocas anteriores.

De dez a quinze séculos se passaram para que a sociedade evoluísse do status de família para o de clã e, deste, para o de tribo; em seguida, para o de estado feudal e, deste último, para o de nação. Cada uma das transições foi marcada por grandes distúrbios, mas, ao relativo caos, seguiu-se uma certa ordem, nas diversas partes do globo, enquanto a civilização progredia.

Então, no lapso de cinqüenta anos, ocorreu neste planeta o milagre da aniquilação do espaço e do tempo.

Desde os tempos dos romanos, até o ano de 1840 da era cristã, a velocidade de locomoção havia seguido o mesmo ritmo. No reinado da Rainha Vitória, ainda eram necessários treze dias para se ir de Roma a Londres, assim como no tempo em que a Inglaterra era dominada pelos romanos. Por volta de 1924, a viagem por terra passou a ser seis vezes mais rápida e, por mar, quatro vezes. Hoje* voa-se em torno do mundo em pouco mais de três dias.

Durante o mesmo período, as comunicações pularam de dias e semanas (o tempo que uma carta levava para ser entregue a seu destino) para poucos minutos - tempo em que um telegrama chega a qualquer parte do mundo.

Nosso lar planetário tem diminuído proporcionalmente e, nesses últimos anos, temos sido forçados a nos convencer de que, sob as atuais condições, as atividades humanas devem ser administradas como se fossem de uma sociedade mundial unitária. Uma Nova Ordem Mundial é inevitável.

Não podemos continuar a viver sob as condições do século vinte, guiados por conceitos do século dezoito. A maior parte de nossos problemas atuais pode ser atribuída à nossa pouca vontade de promover trocas igualmente rápidas em nosso modo de pensar e em nossa consciência, como cidadãos deste mundo unitário. A marcha do progresso "abalou nosso equilíbrio."

Uma civilização de amplitude planetária emergirá das ruínas do nacionalismo, tal como este por sua vez emergiu dos destroços do feudalismo. As formas antigas precisam ruir, antes de poderem evoluir as novas. O nacionalismo já cumpriu sua missão, mas permanece relutante em abandonar suas prerrogativas. Somente experiências como guerras mundiais, depressões gerais, revoluções de âmbito mundial, poderão converter a psicologia nacionalista em psicologia internacional. Sob a opressão de tais eventos, é que estamos testemunhando, no entanto, essa mesma transformação ante nossos olhos.

O presente quadro pouco conforto traz àqueles que lutam nessa situação tão difícil. Viver e participar dos eventos do mundo de hoje é como se submeter - em situação de extrema seriedade - a uma delicada intervenção cirúrgica. A maneira como o paciente suporta a intervenção e como convalesce depende, em grande parte, da fé que ele deposita na perícia do cirurgião. Se duvidar do êxito da operação ou da competência de seu cirurgião para levá-la a bom termo, seus temores o farão passar por um inferno de sofrimento, além de suas dores físicas, e o medo terá tanta probabilidade de matá-lo quanto a própria doença. A segurança de cura e a confiança que deposita no cirurgião o farão atravessar a crise envolto numa maré de esperança e certeza que realmente determine seu restabelecimento físico. A ciência psico-somática confirma isso.

Se quisermos sobreviver e levar avante a civilização para o único desenvolvimento possível em sua evolução - uma sociedade mundial unitária - haveremos de nos submeter, evidentemente, a algumas intervenções cirúrgicas em nossos pensamentos e conduta como cidadãos.

Bahá'u'lláh não ofereceu esse plano de Ordem Mundial como tratado filsófico. Seu ponto de vista não é meramente o de um sociólogo. Ele falou com autoridade espiritual e fundou uma religião dedicada à tarefa de estabelecer uma civilização mundial unitária. Bahá'u'lláh tinha uma fé definida e concreta de que a dinâmica espiritual necessária havia jorrado da fonte divina diretamente à consciência da humanidade, a fim de realizar essa Nova Ordem Mundial.

Algumas características da estrutura da civilização mundial de Bahá'u'lláh, conforme exposto em 1936 por Shoghi Effendi, atual* dirigente mundial da Fé estabelecida por Bahá'u'lláh - já podem ser discernidas surgindo dentre os conflitos e as convulsões no mundo de hoje:

I

"A unidade da raça humana, tal como a anteviu Bahá'u'lláh, implica no estabelecimento de uma comunidade mundial, onde todas as nações, raças, credos e classes se achem estreita e permanentemente unidos, e na qual a autonomia dos Estados membros, a liberdade pessoal e a iniciativa individual que os compõem estejam definitiva e completamente salvaguardadas."

Nestes últimos trinta anos, a comunidade já superou o império. A Grã-Bretanha estabeleceu a Comunidade Britânica de Nações, dando autonomia a seus membros; a Holanda seguiu o exemplo, mais recentemente, e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas substituiu o império dos Czares. Já foi proposta a criação dos Estados Unidos da Europa. Coroando o arco destas organizações de âmbito mundial, está a Organização das Nações Unidas que já contém, algumas provisões para o estabelecimento da comunidade mundial.

II

"Tal comunidade - segundo nós a idealizamos - deve consistir num corpo legislativo mundial, cujos membros, sendo os representantes de toda a humanidade, venham, finalmente, a controlar todos os recursos das nações componentes, promulgando leis que sejam as necessárias para regular a vida, satisfazer as necessidades e ajustar as relações entre todas as raças e povos."

Talvez seja um sonho distante a visualização do controle dos recursos do mundo por um corpo legislativo mundial, mas, se a posse e o controle dos recursos econômicos há de, periodicamente, mergulhar o mundo em guerra, tal como evidencia a história moderna, a humanidade poderá ver-se forçada a adotar tais medidas. O fato de serem salvaguardadas os interesses e a liberdade pessoal de cada indivíduo nas nações componentes diferencia nitidamente este ideal de comunidade mundial de qualquer característica de um Estado policial mundial.

III

"Um executivo mundial, apoiado por uma força internacional, executará as decisões tomadas por essa legislatura mundial e aplicará as leis por ela feitas, salvaguardando a união orgânica da comunidade. Um tribunal mundial arbitrará, emitindo seu veredicto final e compulsório em todas e quaisquer disputas que possam aparecer entre os vários elementos de que se constituirá este sistema universal."

No transcurso de uma geração já tivemos duas tentativas de estabelecer um tribunal deste tipo; mas ambos, a Liga das Nações e o Conselho das Nações Unidas, têm sofrido a mesma frustração de seus objetivos, por falta de força que implemente suas decisões, o que constitui um exemplo de nossa relutância em modificar nossos padrões de modo a conformá-los à inevitável marcha do progresso da civilização.

IV

"Um mecanismo de inter-comunicação mundial será criado, atingido todo o planeta, livre dos empecilhos e restrições de caráter nacional, e que funcione com admirável rapidez e perfeita regularidade."

O mecanismo desta inter-comunicação mundial, nós já o possuímos, mas sua libertação dos empecilhos e restrições nacionais está longe de se realizar e, uma vez mais, evidencia nossa relutância em abandonar velhos hábitos.

V

"Uma metrópole mundial atuará como sistema nervoso central da civilização mundial, o foco em cuja direção as forças unificadoras da vida convergirão, e do qual influência vivificantes se irradiarão."

Essa idéia segue como corolário à de governo mundial, mas a fraseologia aqui empregada implica em algo mais do que magnífica coleção arquitetônica de prédios com todos os seus pertences. Prédios não irradiam "influências vivificantes". Só podemos inferir que isso significa um organismo espiritualmente orientado - legislativo, executivo, humanitário e educacional, habitando a dita metrópole. Nem poderia uma força inferior exercer a potência que seria exigida para irradiar influências vivificadoras para a população de todo o planeta.

VI

"Uma linguagem mundial será inventada, ou escolhida dentre as existentes, ensinada nas escolas de todas as nações federadas, como auxiliar à língua materna. Um alfabeto mundial, uma literatura mundial e um sistema uniforme e universal de moeda, bem como de pesos e medidas, simplificarão e facilitarão o intercâmbio e a compreensão entre as nações e raças da humanidade."

O trágico colapso da moeda, hoje em dia, clama por essa solução de "sistema uniforme e universal de moeda". O comércio mundial exige que se unifique o sistema de pesos e medidas. A língua universal é condição sine qua non para que se possa atingir uma civilização universal.

VII

"Nessa sociedade mundial, reconciliar-se-ão a ciência e a religião, as duas forças mais potentes na vida humana, vindo elas assim a cooperar e se desenvolver em harmonia. A imprensa, sob tal sistema, enquanto der total vazão à expressão dos diversos pontos de vista e convicção da humanidade, cessará de ser manipulada maliciosamente por interesses de grupos, quer sejam eles privados ou públicos, e se libertará da influência de governos e povos em contenda."

Estamos todos cientes, hoje em dia, da colossal potência para o mal que pode ter a propaganda, a mais mortífera de todas as armas. Mas, o acima exposto vai além da manipulação política da imprensa, sustentando que esta se deva livrar, efetivamente, da perniciosa manipulação "por interesses de grupos sejam eles privados ou públicos". Isso atinge o âmago da questão, pois, a imprensa, uma vez garantida sua cabal liberdade, seria vastamente diferente da atual.

VIII

"Os recursos econômicos do mundo serão organizados, suas fontes de matéria prima serão exploradas e completamente utilizadas, seus mercados serão coordenados e desenvolvidos, e a distribuição de seus produtos, eqüitativamente regulada."

Sub-comitês da Organização das Nações Unidas já começaram estudos analíticos referentes a esses assuntos. Também os esforços em curso, a fim de remover as barreiras alfandegárias, e a sua eliminação entre países europeus, constituem passos em direção desse ideal.

As demais afirmações de Shoghi Effendi sobre o assunto, nos descortinam visões deslumbrantes do que poderemos esperar quando o mundo unificado tiver emergido das ruínas do nacionalismo. É possível que isso não aconteça em nossa era, mas que evolua através das comoções atuais transformando-se na espécie de mundo que gostaríamos fosse herdado por nossos filhos.

Shoghi Effendi, em A Pattern for Future Society (Um Padrão para a Sociedade Futura), escreve: "Cessar-se-ão as rivalidades entre nações, e seus ódios e suas intrigas; a animosidade e o preconceito racial serão substituídos por amizade, compreensão e cooperação entre as raças. As causas de conflito entre religiões serão eliminadas de uma vez por todas; abolir-se-ão completamente as barreiras e restrições econômicas, enquanto a desmedida distinção entre as classes será obliterada. A extrema miséria de um lado e, do outro, a enorme acumulação de bens, hão de desaparecer. A enorme energia gasta e dissipada na guerra, quer econômica ou política, será consagrada a tais fins que estenderão o âmbito das invenções humanas e desenvolvimento técnico, para o aumento da produtividade da raça humana, o extermínio das doenças, a ampliação de pesquisas científicas, a elevação do padrão de saúde física, o aprimoramento e o refinamento da mente humana, a exploração dos recursos do planeta ainda não usados - cuja existência nem foi suspeitada, o prolongamento da vida e a promoção de qualquer outro meio de estimular a vida intelectual, moral e espiritual de toda a espécie humana.

"Um sistema federal mundial, governando toda a terra e exercendo autoridade incontestável sobre seus recursos inimaginavelmente vastos, harmonizando e incorporando os ideais de Oriente e Ocidente, liberto da maldição da guerra e suas misérias, e devotando-se à exploração de todas as fontes de energia disponíveis na superfície do planeta, um sistema no qual a força é a serva da justiça, e cuja vida é sustentada por seu reconhecimento universal de um só Deus e sua fidelidade a uma Revelação comum - tal é a meta para a qual a humanidade, impelida pelas forças unificadoras da vida, está se movendo."

Nossa vontade de alcançar esse milênio é o único fator que retarda sua realização. O progresso é inerente ao universo e às atividades humanas. Nada pode detê-lo. Bahá'u'lláh disse ao Professor Browne: "Pela Vontade de Deus, a Suprema Paz virá."

Por sombrias que sejam hoje as nossas perspectivas, o mundo cada vez mais aproxima-se do cumprimento dessa bênção.

CAPÍTULO V
A SOLUÇÃO DO PROBLEMA ECONÔMICO

É possível que as principais motivações, bem como as mais importantes necessidades terrenas dos seres humanos, sejam de caráter econômico. No mundo de hoje, certamente, os problemas econômicos ocupam posição ímpar. E por causa da extraordinária divisão ideológica dos povos do mundo atual, em torno da teoria e da prática da economia, até mesmo os problemas de primeira instância, tais como a paz e a federação mundiais, dependem de uma solução prévia do conflito econômico.

A maioria dos economistas, sem dúvida, pareceria despropositada a idéia de que valores espirituais pudessem figurar numa consideração do remédio para nossa aflitiva situação econômica. No entanto, nas milhares de greves que têm atormentado o mundo industrial neste último meio século, por quê clamaram os grevistas? Por justiça. E o que é a justiça senão uma qualidade moral ou espiritual? Em economia, ela se expressa na devida distribuição das necessidades vitais em troca de trabalho ou serviços prestados. Falando recentemente sobre alguns problemas mundiais com um brilhante advogado e especialista em relações públicas em Washington, de súbito lhe perguntei: "Se lhe pedissem que escolhesse uma só palavra, um só princípio que resolvesse todos os problemas da humanidade, qual seria?" Ele refletiu por um momento e então respondeu: "Justiça!"

O marxismo acusa a religião de trair as massas. Todavia, de que outra fonte, a não ser da religião, provêm nossos conceitos de princípios morais, como por exemplo a justiça? A ciência não tem pretensão alguma de haver incutido tais idéias na consciência humana. Mas a religião faz isto, e sempre o fez. Até a nossa era, porém, nenhuma religião entrou de um modo explícito no campo da economia. Inclusos, entretanto, nos volumosos ensinamentos que Bahá'u'lláh legou ao mundo há oitenta e poucos anos, se encontram certos princípios básicos de um padrão econômico global.

Os princípios enunciados por Bahá'u'lláh foram: 1) seguridade social; 2) imposto de renda de taxação crescente; 3) participação nos lucros industriais.

1) Quando o sábio persa anunciou estes princípios em 1870, quase não existia ainda o conceito de seguridade social. Bahá'u'lláh declarou ser responsabilidade do Estado o meio de subsistência de seus cidadãos. Ninguém deve ser deixado às garras da miséria total. Onde e quando o emprego não for disponível, o trabalhador deverá receber manutenção mínima.

Foi preciso que se desencadeasse a Grande Depressão de 1930 para que o mundo chegasse à mesma conclusão. Até então os governos consideravam que sua função nada tivesse a ver com o meio de vida do cidadão individual. Era seu dever proteger a propriedade mas, quanto à vida humana, esta deveria ser deixada ao acaso ou à caridade.

Avanços tão rápidos têm sido feitos no conceito e na prática da seguridade social, que hoje não se manteria um governo que anunciasse insensivelmente que nada tem a ver com a situação econômica de seus cidadãos. Pelo contrário, os governos atualmente caem ou sobem de acordo com o grau de seu interesse aparente no bem-estar de seus cidadãos, tanto individual como coletivamente.

Parece pois, que este, o primeiro dos grandes princípios de Bahá'u'lláh - o bem-estar e a normalidade econômica do indivíduo - está sendo uma vez por todas, como idéia mundialmente aceita.

Bem verdade é que a consumação disto não se deve exclusivamente às declarações de Bahá'u'lláh. Seus seguidores diriam que resulta das mesmas inspirações sobre o planeta que emanaram tão poderosamente através de seu profeta. Faz parte do Espírito-dos-Tempos, assim como a paz mundial e a federação mundial. Uma necessidade vital na evolução da humanidade como um todo organizado, veio a ser reconhecida, afinal, e posta em prática de um modo inteligente.

2) O conceito de imposto de renda de taxação crescente, quando anunciado por Bahá'u'lláh, não fora ainda formulado ou usado em nenhuma parte do mundo. Essa idéia começou a surgir com a aurora do século XX e atualmente, é de um modo geral aceita e posta em prática. Baseia-se na justiça. É possível que seus limites ainda não tenham sido atingidos. Praticado em combinação com a seguridade social, tende a remover o vasto abismo que até agora existe entre as misérias e tragédia da extrema pobreza e o deslumbramento da riqueza colossal, com seus luxos fúteis e desperdiçadores. A consciência da humanidade, ora despertando, exige em toda parte essa nova eqüidade.

Bahá'u'lláh não nos esclareceu quanto ao limite que o processo de nivelamento deveria atingir, deixando isto ao critério dos futuros governos. Segundo explicou 'Abdu'l-Bahá mais tarde, o objetivo e o resultado seriam a redução das grandes rendas, assegurando-se assim a todos os seres humanos o suficiente, pelo menos, para suas necessidades diárias. À competência humana seria ainda preservado o direito de ganhar recompensas, rendas maiores, e luxos.

A prática do imposto de renda de taxação crescente já está firmada em todos os países do mundo. Aborrece a quem tem grandes proventos. E rara é a pessoa de alguma renda, à qual esse imposto agrade. O fato é que o público em geral ainda não acordou para a vasta importância que tem o imposto de renda, como elemento moderador de fortunas, penhor de justiça social e um dos deveres essenciais do cidadão moderno.

Quando chegar o dia em que o imposto de renda for pago com a motivação espiritual, como sugeriu Bahá'u'lláh, o milênio terá chegado! Falando a esse respeito, em 1912, 'Abdu'l-Bahá declarou que os cidadãos do futuro adeririam voluntariamente, e com senso de responsabilidade espiritual, ao princípio da divisão de riquezas.

Através da apropriada administração dos impostos de renda e de herança, a justiça econômica será assegurada. O equilíbrio econômico daí resultante é apenas uma das aplicações da grande lei de Justiça com a qual Bahá'u'lláh, no desempenho da missão que Ele assumira, veio impregnar a vida coletiva e individual da humanidade.

3) Altamente importante para um bem sucedido padrão de economia, é o ajustamento dos interesses respectivos do capital e do trabalho de modo a assegurar a harmonia e a estabilidade na indústria. As convulsões, os ajustes cataclísmicos, as revoluções, violentas ou pacíficas que sejam, ocorrendo cada vez mais por todo o planeta, relacionam-se sobretudo a esse problema. E, se esse problema puder ser solucionado de uma vez por todas, os demais problemas econômicos do mundo poderão ser pacífica e sensatamente resolvidos pelo sábio esforço internacional.

Os problemas de comércio internacional, de utilização tecnológica dos recursos naturais do planeta e de aumento de produtividade agrícola - tudo isso é de mais fácil solução do que aquele que envolve o capital e o trabalho. O mundo está enfrentando aqueles problemas, importantes que são, com certa medida de confiança nos resultados. O que se faz necessário é apenas um pouco de tempo e paciência - numa humanidade consagrada à paz - para por a funcionar as soluções.

Porém, entre capital e trabalho, não há solução que seja aceita universalmente. Todas as dificuldades com as quais o mundo hoje se defronta nascem de sua maior crise - o despertar das massas para a consciência de seu próprio poder, levando-as a exigirem um ajuste eqüitativo entre estes fatores: produção, salários e consumo.

Em janeiro de 1947, Theodore Helme escreveu no "New Age Interpreter" (Intérprete da Nova Era): "Os trabalhadores do mundo estão em franca rebelião, e a rebelião tem origem num instinto mais profundo do que eles mesmos reconhecem. Nasce de sua situação social, a de serem considerados na qualidade de mercadoria a ser comprada e vendida no mercado de mão de obra que oferecer melhor preço. Acontece, porém, que trabalhadores não são mercadoria; são, sim, seres humanos dotados de impulsos espirituais que, para sua expressão natural, exigem uma liberdade não existente dentro das limitações materiais e psicológicas que o presente status quo de classe lhes impõe.

"É inevitável que essa repressão espiritual e resultante vazio interior sejam sentidos por aqueles cuja vida se haja tornado a mais maquinal. Em nossa civilização industrializada, tais indivíduos constituem um vasto número. Já se tornaram uma força poderosa. Na terminologia usada na luta entre as classes, são o proletariado. No cenário americano, constituem o que chamamos de Trabalho. Dentro deste grupo volumoso, se opera uma espécie de fermentação espiritual."

O sociólogo ocultista, Rudolf Steiner, declarou: "O destino da história do mundo, para o presente e para o futuro imediato, depende daquilo que está passando pela cabeça desse proletariado moderno. Estes, pois, estão lutando pelo poder, pelo controle através da maioria, e suas ações devem ser consideradas como consideramos os resultados do curso natural de acontecimentos de um fenômeno elementar... Devemos julgá-los em suas ações, de certa forma, como julgamos um terremoto ou a preamar.

"As velhas fórmulas nada conseguirão para resolver o enigma do trabalho. Será simplesmente uma continuação da política de vai e vem que visa a impedir os dois irreconciliáveis elementos de se precipitarem num alvoroço de sabotagem nacional. As necessárias medidas corretivas devem ser tomadas em níveis mais fundamentais.

"Para que se consiga isso não é possível encarar o trabalho como se fosse um problema isolado. Antes e tudo, devemos considerá-lo em sua relação à sociedade com um todo. Urge efetuar-se uma reorganização de nossa estrutura social de modo que, doravante, homem algum seja relegado a certa classe social mas, antes, seja integrado no organismo social de tal maneira que, seja qual for a natureza de seu serviço, ele possa participar, de algum modo, criativamente, na vida econômica, política e espiritual da coletividade da qual é parte integrante.

"Isso não é possível na presente estrutura unilateral da sociedade. Será exeqüível somente quando os três departamentos primários da vida - o econômico, o político e o espiritual - estejam de tal modo constituídos que possam ter funcionamento autônomo, cada um deles de acordo com sua natureza inerente e, no entanto, coordenado numa unidade perfeita."

Qual será a resposta? O comunismo faz lá as suas reivindicações. O socialismo, suas experiências. O capitalismo, com sua livre iniciativa, tenta manter-se nos padrões ancestrais de produção. E um sem fim de teorias variadas se encontram entre estes extremos.

É importante que se ache a resposta, pois não é apenas um problema acadêmico. É um problema, sim, que implica numa luta "a ferro e fogo" pelo mundo todo. O fator econômico é o verdadeiro pulso da humanidade. Um padrão estável e eficaz precisa ser encontrado, ou a civilização poderá ruir com a luta entre as classes.

O sindicalismo não é a resposta para o problema de capital e trabalho e jamais poderá ser. A organização do trabalho, tal como se constitui atualmente, só visa a guerra industrial - se e quando necessária - a fim de realizar seus objetivos. Assim, pois, na presente situação industrial, a guerra industrial está sempre iminente.

Isso não quer dizer que seja condenado o sindicalismo ou mesmo seu uso de guerra para a obtenção dos fins que colima. Sendo a situação industrial o que tem sido até o presente, o trabalho não teve outro meio de conseguir o que lhe parecia ser, com justiça, seu direito. E a história do sindicalismo é, em sua maior parte, a história de relevantes serviços prestados aos trabalhadores, conseguidos através de luta árdua e perigosa.

Todavia, uma condição de guerra crônica não oferece estabilidade ou vantagem à sociedade. Essa guerra que se verifica no terreno econômico pode ser tão desastrosa para a humanidade quanto a que se trava entre as nações, a qual, hoje em dia, a inteligência e consciência do homem tão universalmente condenam.

Qual é, pois, a solução? Deve ser uma que faça justiça tanto aos empregadores como aos empregados, e assegure tais vantagens mútuas que permita a estabilização permanente da situação trabalhista.

A reciprocidade, chave para a estabilidade em todas as relações humanas, pode ser tão efetiva no problema trabalhista quanto o é nos outros problemas da vida. Qualquer situação ou ajuste entre duas partes que prometa benefício a ambas, é uma situação estável, porque nenhuma das duas teria motivo de querer rompê-la. É o caso em todas as relações que a vida nos apresenta, seja entre marido e esposa, dona-de-casa e empregada, vendedor e comprador, empregador e empregado.

Um modo de expressar reciprocidade e democracia em relações industriais foi incluído no padrão econômico geral que Bahá'u'lláh delineou. Seria um princípio obrigatório. Sua efetiva aplicação resolveria de uma vez por todas o problema do capital e trabalho, assegurando estabilidade e êxito econômico para o sistema de livre iniciativa; e viria, afinal, a incrementar o bem-estar geral e a prosperidade. E essa solução mágica do problema industrial - da questão entre capital e trabalho - é a repartição dos lucros.

No tempo em que Bahá'u'lláh enunciou este decreto econômico, a repartição dos lucros não era praticada em lugar algum, como princípio econômico definido e consciente. Na penúltima década do século dezenove, foi experimentada na França, e na última década passou para a Inglaterra e a Bélgica; no início do século presente, atingiu êxito notável em algumas empresas industriais dos Estados Unidos.

O progresso desse movimento econômico, lento e espasmódico, foi desastrosamente afetado pelas crises financeiras, especialmente pela Grande Depressão da década de 1930. (A maior dificuldade na aplicação de qualquer teoria da repartição de lucros não está tanto no modo de dividir os lucros existentes como o que fazer quando não há lucros!)

A verdadeira repartição dos lucros, segundo foi delineada por Bahá'u'lláh e definida em teoria econômica moderna é: rateio de uma pré-determinada porção dos lucros líquidos entre os trabalhadores. Frente a essa definição, o sistema de bônus não pode ser considerado repartição de lucros, nem o sistema que encoraja a aquisição de ações pelos operários de uma empresa, nem qualquer outro sistema que deixe ao critério da gerência, exclusivamente, a porção dos lucros a ser concedida aos trabalhadores no fim do ano. O sistema verdadeiro de repartição de lucros deve garantir aos operários, no início do contrato de trabalho, a porcentagem dos lucros líquidos que lhes deverá caber.

A repartição dos lucros, como movimento econômico, tem encontrado grandes dificuldades, pelo fato de ter sofrido oposição de ambos os lados, tanto do trabalhador quanto da direção da empresa.

O trabalhador tem se oposto à repartição por diversas razões, principalmente porque suspeita que não passe de uma disfarçada política de forçar o aumento de produção. O sistema de bônus, por exemplo, foi utilizado com essa finalidade, redundando em desvantagem para o operário. O trabalhador precisa estar firmemente convencido, em primeiro lugar, da sinceridade absoluta do motivo e da prática, antes de aprovar qualquer aplicação ao problema industrial, da repartição dos lucros.

Há também óbvios motivos de interesse do sindicalismo, os quais têm causado sua persistente e histórica resistência à repartição.

De arte do industrial, a repartição é vista com maus olhos por causa das dificuldades técnicas com as quais se defrontaria ao aplicá-la numa empresa grande; porque faltam soluções satisfatórias para os períodos em que não existem lucros; e porque seria necessário que os trabalhadores tivessem acesso aos livros das indústrias da nação, em algumas das quais não é permitido nem mesmo aos acionistas estarem a par dos reais lucros líquidos.

Todavia, a despeito destes obstáculos enormes, a repartição de lucros, seja de uma forma ou de outra, está caminhando para a frente e demonstrando definitivamente êxito notável na promoção de harmonia entre empregador e empregado, aumentando a produção dentro de um grau humano e praticável, e de tal modo interessando os operários na obtenção de lucros anuais, que torna mais eficiente em todos os aspectos tanto a direção da empresa como sua produção e, concomitantemente, reduz os desperdícios.

A repartição dos lucros, onde sinceramente empregada, oferece tão claras vantagens ao trabalhador que, em todas as empresas que a adotam, os problemas de ajuste trabalhista saem completamente do campo de batalha da greve, deixando antever uma era de estáveis relações entre capital e trabalho.

Da parte do industrial a repartição dos lucros e atraente em virtude de sua promessa de solução harmoniosa e pacífica do problema trabalhista, assegurando também tais ganhos em economia ou custo de produção, que compensam em grande parte, se não totalmente, a porção de lucros concedida aos trabalhadores.

Gostaríamos de sublinhar aqui, porém, que a repartição dos lucros, segundo o conceito de Bahá'u'lláh, não é simplesmente um plano econômico para harmonizar as relações entre o capital e o trabalho. É, isso sim, mais uma aplicação do grande princípio mundial da Justiça. Visa a assegurar entre trabalho e capital uma divisão socialmente eqüitativa dos lucros, auferidos que são, sob iniciativa e esforço mútuos. Tal como esboçado por Bahá'u'lláh, a repartição é medida obrigatória para a justiça industrial; e deve ser aplicada, quer tenha ou não o efeito de aumentar a produção ao ponto de proteger os industriais e acionistas contra um eventual prejuízo.

As greves, em semelhante ordem econômica, seriam eliminadas. Em caso de disputa radical entre a direção e os operários, a corte de justiça teria a jurisdição. Sobre esse mesmo assunto, logo no começo deste século, 'Abdu'l-Bahá falou sobre a necessária responsabilidade da lei e do governo para manter a paz industrial: "A interferência das cortes de justiça e do governo nas dificuldades existentes entre trabalhadores e industriais não pode ser comparada com a que se efetua entre cidadãos privados, em que o público não se encontra envolvido, e com a qual o governo não se deve ocupar. Na realidade, muito embora possam aparentar ser assuntos entre particulares, essas dificuldades entre patrões e empregados causam prejuízo geral; pois o comércio, a indústria, a agricultura e os demais negócios de um país estão intimamente ligados. Se um destes sofrer um abuso, o detrimento afeta a massa. Assim, as dificuldades entre operários e industriais tornam-se causa de detrimento geral."

Na terminologia moderna, o padrão econômico de Bahá'u'lláh pode ser considerado o de um sistema humanitário, de livre iniciativa capitalista, limitado e eqüitativo. 'Abdu'l-Bahá, em suas palestras públicas feitas nos Estados Unidos, frisou a impossibilidade de qualquer êxito para as tentativas que visavam a estabelecer a igualdade econômica. Declarou ele: "Igualdade absoluta é impossível. Pois a igualdade absoluta em fortunas, honras, comércio, agricultura e indústria acabaria em falta de conforto, desânimo, desorganização dos meios de existência e em desapontamento geral. A ordem da comunidade seria totalmente destruída." Uma simples olhadela por detrás da Cortina de Ferro confirmaria esta declaração!

Se bem que, por razões de ordem prática, o padrão econômico da Nova Ordem Mundial de Bahá'u'lláh seja tratado, separadamente neste capítulo, devemos compreender que, na realidade, no Estado Mundial Bahá'í, a economia não existiria como fator isolado. Este vasto e potente campo de esforço humano seria integrado no padrão geral de uma grande civilização, espiritualmente motivada e repousando em fundamentos de suprema justiça.

Como está bem claro hoje, em vista dos conflitos ideológicos e militares que se travam pelo mundo todo, o que se precisa é de uma unidade que substitua o caos prevalecente - unidade entre trabalho e produção dentro de cada país, e unidade econômica entre todos os países do mundo.

Afinal, de todas essas experiências de caráter econômico, há de surgir um padrão uniforme de perfeição. Os bahá'ís afirmam, porém, que essa meta tão necessária não poderá ser atingida sem motivação e orientação espirituais. Justiça suprema deverá permear todas as relações econômicas sobre o planeta. Só uma consciência espiritual desperta conseguirá isso. Os líderes, tanto da produção como do trabalho, devem ser inspirados para que almejem a justiça em vez do interesse próprio.

"Os segredos da inteira questão econômica", declarou 'Abdu'l-Bahá, "são de natureza espiritual e se relacionam ao mundo do coração e do espírito... A doença que aflige a sociedade é a falta de amor e a ausência de altruísmo. Não se acha verdadeiro amor no coração do homem, e a condição é tal que, a menos que suas suscetibilidades sejam avivadas por alguma força, de modo a desenvolver a unidade, o amor e a harmonia, não poderá haver melhora ou tranqüilidade entre os seres humanos. O amor e a união são as necessidades do mundo de hoje."

Na área da economia - assim como na área maior da federação e paz mundiais - forças espirituais são consideradas necessárias para inspirar, guiar e estimular a humanidade a esforçar-se por alcançar as metas planetárias de necessidade vital. O problema não é e natureza secular. No fundo, é espiritual. As capacidades espirituais desenvolvidas em indivíduos e em grupos são essenciais à efetiva organização da unidade mundial, incluindo tanto seus fatores políticos como os econômicos.

Nunca houve uma religião que a tal ponto entrasse no campo econômico para dominá-lo afinal. Algumas religiões no passado exerceram certa influência nesse campo, como, por exemplo, o judaísmo, cujas leis tendiam a preservar uma simples economia agrícola, mantendo a propriedade privada da terra. O cristianismo trouxe uma onda de instituições de caridade, desconhecidas ao mundo pagão contemporâneo, que, subseqüentemente, evoluiriam em uma das características intrínsecas da grande civilização cristã. E o islã, semelhante ao judaísmo, mostrou em seus primeiros estágios um sincero interesse pelo bem-estar do indivíduo dando um forte apoio à justiça simples na defesa deste.

Em todas essas religiões, porém, assim que esmoreciam o zelo primitivo e o fervor primaveril, os padrões de justiça destinados a proteger as massas sucumbiram à exploração por parte dos que ocupavam os lugares de autoridade. Tal exploração é a que Cristo ataca em muitas de Sus prédicas. E foi isso, e não Sua predicação moral, que O levou à crucificação.

Bahá'u'lláh sempre aplica o grande poder do Espírito Santo, como relevante fator nas atividades temporais do homem. Nenhum aspecto da atividade humana - quer seja individual, quer coletiva - deve ser visto como puramente secular. Seu padrão para uma Nova Ordem Mundial está, em todos os seus aspectos, imbuído de Espírito. Declarou Ele, de fato, que essa civilização mundial, sem o poder do Espírito Santo, não se tornaria realidade. Previu também que, sem grande sofrimento e angústia, a humanidade não atingiria tal hegemonia do Espírito em suas motivações. Teve uma previsão do vale da sombra da morte pelo qual os mortais teriam de passar antes de alcançar os campos ensolarados da paz e segurança mundiais. Estamos atualmente nesse tenebroso vale, do qual - declararam os bahá'ís - só poderemos emergir através da orientação e do poder do Espírito.

CAPÍTULO VI
É PRECISO ELIMINAR OS PRECONCEITOS

O alicerce da federação mundial, da paz universal, é constituído, necessariamente, da harmonia e fraternidade entre os povos e as nações. Na realidade, é tão importante o fator amizade, que, em todos os pronunciamentos referentes à Nova Ordem Mundial, Bahá'u'lláh insistiu na eliminação de toda espécie de preconceito - quer fosse de religião ou raça, de pátria ou política.

"Todo o derramamento de sangue e todas as guerras na história da humanidade foram produtos de preconceitos", declarou 'Abdu'l-Bahá em 1912, num discurso feito sobre a Fé Mundial de Bahá'u'lláh no Clube Metafísico de Boston. "Esta terra não é mais que um lar, um só berço. Deus criou a humanidade com os mesmos dotes e iguais direitos de viver sobre a terra. Preconceito racial e a separação dos homens em nações procede da ignorância ou de motivos humanos. Por que nos separarmos por fronteiras artificiais e imaginárias? Habitamos um só globo, uma só terra, uma só pátria."

Por onde quer que se espalhe a Fé Mundial de Bahá'u'lláh, ela harmoniza e une seus adeptos. Não há consciência ou distinção de raça ou cor. Na realidade, aqui está sendo formado o núcleo de uma nova raça - raça humana, livre de todas aquelas divisões que se acumularam através de milhares de anos de experiências e erros sobre esta triste e velha terra.

Se quisermos ver por que e como surgiram essas divisões, é só olhar para trás. Mas o melhor é nos mantermos olhando para frente, para o dia feliz em que não mais existirem tais separações e antagonismos desnecessários e prejudiciais. Tal é a esperançosa visão que estimula os bahá'ís em suas notáveis atividades em todo o mundo.

O preconceito está profundamente arraigado na natureza tanto biológica quanto emocional do homem. O homem primitivo compartilhou a aversão instintiva dos animais a tudo o que é estranho e diferente. A civilização vem alargando os horizontes da mente bem como da consciência humana, pondo em contato, paulatinamente, todas as partes do mundo, umas com as outras, de modo que o sentido de estrangeiro quase que se encontra entre as relíquias do passado.

A civilização, entretanto, por meios puramente seculares, não se demonstrou capaz de eliminar o preconceito. Assim que uma das fontes de preconceito desaparece, outra logo vem ocupar-lhe o lugar, à medida que os interesses e desejos dos vários grupos se põem em aparente conflito uns com os outros. Na realidade, verifica-se o fato alarmante de que o preconceito virulento pode ser rapidamente espalhado por propaganda entre as massas, como, por exemplo, no caso do nazismo e no do comunismo.

Para que a humanidade se atenha, porém, àquela unidade de organização, àquela idéia de "Um Mundo Só" que já principiamos a vislumbrar como meta não apenas desejável, mas também imprescindível à sobrevivência da humanidade, torna-se mister que, de algum modo, se acabe com o preconceito.

Como um passo positivo, temos o louvável feito da Organização das Nações Unidas ao elaborar, pela primeira vez na história, uma Declaração Universal dos Direitos Humanos. Isso, em si mesmo, já prova que a consciência do mundo está despertando no que concerne ao preconceito. Moral e legalmente, cinqüenta e oito países do mundo já adotaram, após vários anos de estudo, uma declaração básica da justiça e da proteção, sob a égide da lei, nacional e internacional, que é o direito inalienável de todo ser humano sobre a terra. A primeira parte do Artigo 2o desta Lei de Direitos visa diretamente ao preconceito: "Pertencem a cada um todos os direitos e liberdades expostos nesta Declaração, sem distinção de nenhuma espécie, tais como a de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião pública ou de outra espécie qualquer, origem nacional ou social, propriedade, nascimento ou outro status que seja."

Todas as cinqüenta e oito nações juraram apoiar e executar os artigos dessa Declaração. Ainda existem inúmeras dificuldades a serem vencidas, e a que ponto, em última análise, tal proteção dos direitos humanos poderia ser levada a efeito é, de fato, questão controversa. Esforços sinceros estão sendo, e continuarão a ser envidados para ativar esses direitos humanos. Existem sempre, porém, os "intangíveis" costumes sociais de cada país, nos quais nenhuma força exterior poderia interferir, e também sobrevivem entre as massas, as sempre perigosas correntes de nacionalismo.

Desde que o preconceito é uma qualidade negativa, uma espécie de erva daninha que floresce em solos ácidos, torna-se necessária uma atitude positiva e construtora. As mesmas coisas que conduzem à unidade eliminarão, por si mesmas, o preconceito. Uma compreensão mais completa da inter-relação econômica e cultura e da interdependência das várias nações e áreas do mundo, tenderá a estimular a consciência da necessidade da unidade mundial. É nesse campo que vemos um aumento não só em esforços mas também em resultados.

O campo natural para o desenvolvimento de uma atitude emocional sadia é o da juventude. Os adultos têm de ser reconvertidos, recondicionados. O processo é lento e difícil. A juventude, porém, pode mais facilmente ser educada em rumos novos, tanto de percepção como de reação emocional. E, quanto mais cedo começar essa educação, tanto mais estáveis e vantajosos serão os resultados.

Conseqüentemente, os bahá'ís dão grande importância à educação de seus filhos segundo a ampla e universal doutrina da unidade do gênero humano. Bahá'u'lláh declarou ser essa nova consciência da unidade o primeiro requisito para a unificação do mundo e a federação mundial. O estudo da matemática, das ciências e das línguas é, na opinião bahá'í, de importância secundária em relação à conscientização nessa grande área humanizada de unidade.

Hitler propagou o ódio. Os bahá'ís propagam um amor vitalizante por toda a humanidade. A mera ausência do preconceito não será suficiente. O que é necessário é a presença de uma força ardente e construtiva, força que só o amor pode fornecer. O oposto do ódio não é a ausência desse sentimento, mas a presença dinâmica do amor. Nada menos será suficiente.

As palavras de Bahá'u'lláh ao Professor Browne, em 1890, dão relevo a essa verdade: "Fechai vossos olhos às diferenças de raça e, à luz da unidade, acolhei a todos. Não desejamos senão o bem do mundo e a felicidade das nações; que todas as nações se unam em uma só fé, e todos os homens sejam irmãos; que os laços de afeição e unidade entre os filhos dos homens sejam fortalecidos, a diversidade de religião cesse, e sejam anuladas as diferenças de raça... Não foi isso que Cristo predisse?"

Laços de afeto e unidade não são estabelecidos por governos ou corpos legislativos de nenhuma espécie. Mesmo a reciprocidade cultural - se bem que promova esclarecimento e dissipe a bruma da ignorância (que já foi chamada a mais densa de todas as matérias) - não engendra afeto.

Durante suas viagens pelos Estados Unidos, em 1912, 'Abdu'l-Bahá, em uma de suas palestras, declarou que "a doença que afeta a sociedade é a ausência de amor e altruísmo. Declaramos ser o amor a causa da existência de todos os fenômenos, enquanto sua ausência produz a desintegração ou a inexistência..."

De outra feita disse ele: "O amor é a mais alta lei neste grande universo de Deus. O amor é a lei da ordem entre as essências simples, por meio do qual elas são distribuídas e agrupadas em substâncias compostas, neste mundo de matéria. O amor é a força essencial e magnética que organiza os planetas e as estrelas que brilham no espaço infinito... O amor é a mais alta das honras para todas as nações dos homens..."

Traçando assim o poder dessa atração, o amor, como a força coesa e criadora no universo, podemos mais facilmente compreender o significado da declaração de que "a doença que afeta a sociedade é a ausência de amor e altruísmo." É a essa força cósmica de amor que Bahá'u'lláh quer se referir quando diz "que os laços de afeto e unidade entre os filhos dos homens sejam fortalecidos; que a diversidade de religião cesse, e sejam anuladas as diferenças de raça."

Essa força está muito além da atitude morna da tolerância. É o ingrediente ativo a ser injetado novamente em seu fervor prístino na consciência humana, a fim de aniquilar o cancro do preconceito.

Acolher no coração todo o mundo é muitas vezes considerado uma ridícula impossibilidade. De fato o é, se considerarmos apenas em termos da intimidade pessoal que caracteriza nossas relações imediatas. Um amor impessoal é difícil de definir, e mais difícil ainda de se compreender. Aquela qualidade de espírito que repudia as iniqüidades profundamente arraigadas, as explorações e crueldades sociais tão aguçadamente, e que não pode manter-se apática perante as vítimas do preconceito - tal atitude social aproxima-se do poder do amor, como força universal. "Ama teu próximo como a ti mesmo" leva uma conotação mundial hoje em dia, tão íntimas se têm tornado as relações entre os membros da família mundial. Essa é uma das razões pelas quais o preconceito está afetando a sociedade mais profundamente do que em idades que já se foram. Sabemos que, se não conseguirmos um clima de compreensão, acabaremos por perecer. Compreensão é o passo preliminar a ser dado com a finalidade de estabelecermos aqueles laços de afeto e unidade entre os filhos dos homens, alicerce do bem-estar dos povos.

Bahá'u'lláh frisa constantemente a consciência da unidade. "Que ninguém se vanglorie de amar a sua pátria; que se orgulhe, isso sim, de amar sua espécie." É esse amor transcendente que é o antídoto para o preconceito. E é por esse padrão de cidadania da sociedade de um mundo único, que cada um de seus componentes precisa se esforçar.

Evidentemente, isso não é terreno para sofrer a interferência de um governo executivo. A conquista do preconceito é tarefa e responsabilidade de cada um de nós. A diversidade existirá sempre, pois a diversidade é legítima. Constitui um dos mais importantes ativos no balanço das relações humanas, dando cor, beleza e interesse a toda a nossa vida cultura; é o que provê a gama de talentos necessária para o desempenho de todo o trabalho do mundo. Desgostarmo-nos de pessoas por serem "diferentes", por não seguirem o padrão dos nossos costumes sociais, é ridículo e trágico.

Pressionando-nos sob todos os aspectos da vida atual, compelindo-nos ao reconhecimento de sua verdade e à urgência de sua aplicação, estão as singelas e sublimes palavras de Bahá'u'lláh, pronunciadas há 80 anos:

"Este punhado de pó que é a terra, é apenas um lar; que o seja em unidade."

CAPÍTULO VII
UM MUNDO - UMA LÍNGUA

Quer seja ou não tudo por causa dos vãos esforços do homem em tomar de assalto as portas do céu com a Torre de Babel, o fato é que existem aproximadamente oitocentas línguas diferentes em uso hoje no mundo. A maioria dos habitantes do mundo está presa às barreiras de sua língua nativa. Somente poucos, os mais cultos, adquirem os meios de se comunicar com pessoas de outras nacionalidades, pelo estudo de idiomas estrangeiros.

A maioria dos campos de atividade humana hoje é organizada em escala mundial. Conferências e convenções de cientistas de todo gênero, artistas de diversas especialidades, educadores, organizações de serviço social e filantropia, interesses culturais de toda espécie, além de entidades oficiais e governamentais, agora reúnem-se constantemente, com a participação de confrades do mundo inteiro.

Depois da Primeira Guerra Mundial, a Conferência de Versailles teve que mandar traduzir cada cláusula dos tratados de paz, bem como todos os debates preliminares em torno delas, trinta e seis vezes. A Organização das Nações Unidas viu-se frente a um obstáculo similar, mas o resolveu mais efetivamente, reduzindo a cinco o número de idiomas oficiais - sendo que, mais tarde, reduziu o número para três (inglês, francês e espanhol), em tradução simultânea através de fones de ouvido.

O crescente intercâmbio de estudantes e o vasto aumento de edições de livros didáticos científicos, em todos os campos, apresentam outra gigantesca tarefa de tradução.

Podemos agora compreender a importância da recomendação de Bahá'u'lláh referente a uma língua mundial auxiliar, a ser ensinada universalmente: "Está rapidamente se aproximando o dia em que todos os povos do mundo adotarão uma língua universal e uma escrita comum". (E quando isso acontecer) "o homem poderá viajar para qualquer cidade e será como se estivesse entrando em sua própria casa. Essas coisas são obrigatórias e absolutamente essenciais. É incumbência de todo homem de visão e compreensão esforçar-se para traduzir em realidade e ação aquilo que foi escrito..."

O mecanismo para adoção e implantação da língua auxiliar, tal como esboçou Bahá'u'lláh há quase um século, é extremamente simples. Tudo o que essa realização planetária exige é que as nações, por intermédio de seus delegados em convenção, concordem na escolha de uma das línguas existentes, ou de uma artificial, como por exemplo o Esperanto, e determinem depois que seja ensinada em todas as escolas do mundo. Assim, em uma geração apenas, a língua universal estaria em uso efetivo.

Não foi somente nem principalmente por motivos práticos que Bahá'u'lláh proclamou a necessidade de se estabelecer uma língua universal. São as influências psicológicas e espirituais que dão a uma língua universal, no desígnio de Bahá'u'lláh, sua importância primária. Os governantes do mundo sempre compreenderam a eficácia da língua como meio de unificação. Os turcos efetivaram essa unidade de língua proibindo o uso de qualquer das línguas subordinadas, pelo menos na forma escrita, dentro dos limites do seu império. Assim, o uso escrito do búlgaro, do armênio e de outras línguas definhou entre os povos sob seu jugo. Somente no século XIX vieram a existir dicionários destas línguas, e estes foram compilados por missionários norte-americanos. Essa psicologia de domínio aplicada pelos turcos parece ter alguma justificativa, uma vez que a restauração destas línguas veio realmente a despertar o sentimento de nacionalismo entre os povos conquistados, nacionalismo esse que acabou por exprimir-se em movimentos revolucionários.

Os Estados Unidos da América apresentam um exemplo marcante de como um idioma comum pode unir raças das mais variadas origens. Tivessem as colônias continuado as culturas lingüísticas separadas, de parte de ingleses, suecos e holandeses, adicionando-se ainda a essa babélica confusão as línguas faladas pelas subseqüentes ondas de imigração em massa de italianos, noruegueses, poloneses, judeus, mexicanos e outros, jamais teria sido conseguida aquela união nacional que dá a esse país poder e prosperidade. A existência de um povo alfabetizado e de uma só língua, contando com mais de cento e cinqüenta milhões de almas, é um fato único em toda a história. A unidade de língua tem sido um dos mais importantes fatores em promover a educação, em facilitar invenções, em elevar o padrão de vida, em tudo, de fato, que compõe a civilização americana.

Assim, se a língua pode ajudar a criar um sentimento de nacionalismo, pode igualmente ajudar a criar um sentimento de internacionalismo.

'Abdu'l-Bahá frisou esse ponto de vista numa palestra feita aos esperantistas, no ano de 1912, em Washington: "A menos que a unidade de idioma seja atingida, a Suprema Paz e a unificação da humanidade não poderão ser efetivamente organizadas e estabelecidas, porque a função da língua é a de retratar os mistérios e segredos do coração humano. O coração é como uma caixa, e a língua é a chave. Podemos abrir a caixa usando a chave, e observar assim as jóias nela contidas. A questão de um idioma internacional auxiliar é, pois, da maior importância, porque é o meio de tornar possível a educação internacional, e de revelar a evidência e a história do passado. A divulgação dos fatos conhecidos do mundo humano depende da língua. A explicação dos ensinamentos divinos só pode ser transmitida por esse meio. Enquanto persistirem a diversidade de língua e a falta de compreensão mútua, essas metas gloriosas não poderão ser atingidas. O primeiro serviço, pois, a ser prestado ao mundo do homem é o de estabelecer esse meio auxiliar de comunicação internacional. Isso há de se tornar causa de tranqüilidade para toda a comunidade humana. Por seu intermédio, as ciências e letras serão difundidas entre as nações, provando ser meio de desenvolvimento e progresso de todas as raças. Devemos envidar o máximo esforço para que se estabeleça no mundo inteiro esse idioma internacional auxiliar. É minha esperança que, através das graças de Deus seja aperfeiçoado, e que homens selecionados dos vários países do mundo possam organizar um congresso internacional cuja meta principal seja a promoção desse meio universal de comunicação."

Chegamos agora à importante questão de qual língua seria ou deveria ser selecionada para esse fim. Obviamente, a adoção de uma língua já existente seria mais econômico do que uma artificial, pois uma das mais importantes, entre as já existentes, uma vez escolhida, possuiria uma vasta e rica literatura acessível, imediatamente, a todos os povos do mundo.

Os maiores obstáculos para a adoção de uma língua já existente seriam os ciúmes nacionalistas e as inércias. A língua, como a pouco demonstramos, tem sido fator importante no imperialismo. Já foi reconhecida, também, como potente arma de penetração nacionalista, tanto econômica como cultural. Assim, muito embora a escolha de uma língua já existente simplificasse muito o estabelecimento da unidade lingüística, os obstáculos com que se defrontaria tal seleção, pelo menos no presente, são quase insuperáveis.

Foi em vista disso que Zamenhof concedeu a idéia, há quase meio século, de criar uma língua artificial baseada nos idiomas europeus mais disseminados, língua essa que ele chamou de Esperanto (aquele que tem esperança). Humilde professor, esse ardente filólogo devotou suas horas de folga à criação e aperfeiçoamento de sua língua auxiliar durante a vida inteira, usando também para esse fim seu modesto rendimento profissional, com grande zelo e sacrifício. A principal razão que levou Zamenhof a criar essa língua universal foi o fator ao qual Bahá'u'lláh deu tanto relevo - o estabelecimento da amizade e união entre todos os povos do mundo.

A obra de Zamenhof foi boa, de fato - tão boa que nenhuma tentativa subseqüente de criar uma língua universal conseguiu superar o Esperanto. O International Auxiliary Language Association, num recente estudo científico das várias línguas artificiais competidoras, chegou à conclusão de que o Esperanto, pela sua simplicidade e longa prioridade no campo, mantinha importante dianteira sobre todas as outras.

Afirma-se que o Esperanto pode ser aprendido em seis semanas e falado com fluência em seis meses. Seu vocabulário, sendo baseado nas línguas de derivação latina, teutônica e eslava, pode ser assimilado com facilidade especial pelos povos ocidentais. E sua gramática é reduzida a quase nada.

O Esperanto fez grandes progressos nas décadas subseqüentes à Primeira Grande Guerra, chegando ao ponto de ser adotado como matéria obrigatória em algumas escolas secundárias européias, e permitido como matéria facultativa em outras. O surgir do Hitlerismo, acompanhado da Segunda Guerra Mundial, veio a ser um empecilho ao seu progresso. Nesse ínterim, novos idiomas concorrentes apareceram em campo, tais como Novo Latino, o Edo, o Esperantido e o Inglês Simplificado.

Após a devida consideração de todos esses candidatos artificiais à adoção planetária, tornamos a contemplar as grandes vantagens oferecidas por uma língua já existente, se alguma pudesse ser harmoniosamente selecionada. A qualquer língua artificial faltaria aquele encanto estético que foi acumulado pelas línguas históricas do mundo através dos séculos.

Sem nenhuma paixão, podemos citar diversas vantagens do inglês como candidato ao uso mundial. Em primeiro lugar, por razões de comércio, turismo e influência política, o inglês já deu a volta ao mundo. Em segundo, quer em composições originais, quer em traduções, o inglês tem uma literatura mais vasta do que a existente em qualquer outra língua - de maior volume, talvez, incluindo-se as traduções, do que todas as outras literaturas do mundo juntas. Em terceiro lugar, a gramática inglesa é mais simplificada do que a de qualquer outra língua existente. Contra a vantagem, porém, da fácil assimilação do inglês, há o problema de suas abomináveis variações entre pronúncia e ortografia. Deficiência lamentável essa, que teria de ser remediada antes de sua adoção para uso mundial. Pode acontecer, de fato, que o inglês promova sua própria utilização com tal rapidez que, quando o mundo estiver finalmente preparado para fazer a seleção, seu uso já seja fato consumado.

Historicamente, já existiram brilhantes épocas culturais que floresceram sob as vantagens de uma língua cultural comum. No Império Romano, o latim era a língua universal - oficial e cultural. Por toda a grande cultura islâmica, que floresceu desde a Índia até a Espanha, o árabe era a língua universal de estudo, cultura e ciência. Na Europa da Idade Média e da Renascença, o latim da Igreja tornou-se a língua universal, facilitando-lhe os estudos e a universalização de sua cultura por todos os países europeus. A história, assim, prova a verdade e a lógica desse princípio advogado por Bahá'u'lláh - a adoção de uma língua internacional auxiliar para um mundo que se aproxima rapidamente de uma só órbita - a órbita da Comunidade do Homem.

Ao olharmos para trás, é possível antever o futuro, e visualizar o que uma verdadeira língua auxiliar universal poderia significar para a expansão e o enriquecimento da vida de cada um, e para as facilidades que dela adviriam aos governos, ao comércio, à ciência e às atividades industriais.

Se, como recomendou Bahá'u'lláh, os países do mundo, em conferência, selecionassem uma das línguas existentes, ou uma artificial, e determinassem seu ensino em toda e qualquer escola do mundo, assim, dentro de apenas uma geração, a língua auxiliar estaria em vigor. Então, na verdade, por onde quer que se viajasse, seria como "se estivesse entrando na própria casa", pois entenderíamos a todos os que encontrássemos, em qualquer parte que fossemos.

O comércio e o turismo seriam estimulados e facilitados pela língua universal. A possibilidade de termos o mundo inteiro como campo para o exercício de nossas habilidades vocacionais e profissionais, sem dúvida, estimularia o fluxo do bem-estar físico e cultural em todas as partes. Os benefícios de uma língua mundial, entendida por todos, parecem tão óbvios, que a gente chega a pensar porque é que os magnatas do rádio e do cinema, as companhias de aviação e de turismo não começam a promover a idéia, mesmo que fosse apenas do ponto de vista de vantagem prática e comercial.

A grande dinâmica do plano, todavia, é essencialmente dedicada à evolução espiritual e cultural da raça humana. "O entendimento próprio do homem é o homem". A língua é o único veículo desse entendimento na maioria das relações humanas. É certamente essencial, numa sociedade mundial unificada, que os homens tenham um meio comum de expressar esse entendimento.

CAPÍTULO VIII
CIÊNCIA E RELIGIÃO

O firme e vitorioso avanço da ciência não somente promoveu o predomínio tecnológico mas também tendeu a secularizar a vida humana. De um ponto de vista, ficou provado ser isso uma vantagem, uma vez que libertou a mente do homem e suas atividades criadoras das correntes e algemas das crenças e tradições religiosas. Seres humanos já não são queimados em praça pública por proclamarem verdades científicas.

A secularização, entretanto, de todas as atividades do homem, de todos os seus interesses no planeta, tem acarretado também trágicas conseqüências. O ser humano - em distinção ao animal - possui a capacidade de desenvolver percepção bem como motivação espiritual, mas destes objetivos preciosos e necessários a ciência o desviou, embotando quase completamente os poderes espirituais do homem, no que concerne à vida diária. O resultado é uma civilização materialista de raízes pouco profundas em solo ácido - o que Sorokin descreve como "sensate culture" (cultura baseada nos sentidos) e a espécie de civilização que Toynbee verifica, através de seu estudo da história, haver terminado sempre em colapso.

A despeito de todos os esforços dos religiosos, a fim de infundir na vida zelo e compreensão espirituais, a ciência continua a aumentar o domínio devastador que já exerce sobre a mente e alma humanas. Pois a ciência controla agora o treinamento das forças mentais e a formação da inteligência humana em todo o nosso vasto e poderoso sistema educacional.

Há, em verdade, todos os indícios de que o mundo inteiro se seculariza mais e mais a cada dia que passa; em vez de mais espiritual, torna-se cada vez menos, com o decorrer dos anos. O modernismo, com sua mágica e magnética força de ciência aplicada e tecnologia, está a revolucionar as velhas culturas, a destruir as ancorações ancestrais e levar os povos do mundo a flutuar ao léu num mar que se torna mais tempestuoso e perigoso a cada ano que passa.

Em parte alguma do mundo demonstra a religião tradicional o poder de sustar essa vasta enchente de secularização científica. Ao contrário, o enorme poder da ciência - com sua força dupla, de saber e fazer, de combater a ignorância e a inércia e de criar padrões de vida mais altos - devasta a vitalidade de todas as antigas religiões do mundo. Nenhuma delas, nem mesmo o cristianismo, religião sob a qual essa ciência moderna se desenvolveu - pode recuperar sua influência minguante, seu poder de motivação.

A fim de recapturar a imaginação do homem e exercer mais uma vez domínio sobre seu caráter, a religião deve, primeiramente, entrar em acordo com a ciência, não lhe concedendo uma partícula sequer de verdade ou princípio, mas sim, dando à verdade espiritual uma nova forma de expressão, em termos compatíveis com os fatos científicos conhecidos e aceitos. Há de haver uma reconciliação entre a ciência e a religião. Ambas são necessárias à humanidade.

No tempo em que os teólogos do ocidente "esclarecido" pugnavam com os cientistas sobre "Origem das Espécies" de Darwin, e com a descoberta geológica de que foram precisos milhões e anos e não apenas seis dias para a criação da terra, um toque de clarim soou no Oriente Próximo, a fim de conclamar à razão e ao esclarecimento. Não foi atendido, abafado que estava pelo clamor das contendas. Bahá'u'lláh fez da reconciliação da ciência e da religião um dos pontos cardiais dos ensinamentos bahá'ís. Sustentou a autoridade da ciência. "O conhecimento é como asas para o ser humano, ou uma escada para ele subir. Adquirir conhecimento é incumbência de todos, mas conhecimento daquelas ciências que sejam proveitosas para o povo da terra, e não daquelas que começam por meras palavras e por meras palavras terminam. Os possuidores das ciências e letras têm um grande direito entre os povos do mundo." Assim Bahá'u'lláh sustentou, inequivocamente, que o progresso do gênero humano dependia do aspecto da verdade revelado pela ciência tanto quanto daquele revelado pela religião.

Em 1912, 'Abdu'l-Bahá, filho de Bahá'u'lláh, disse a um auditório norte-americano, que a ciência e a religião eram as duas asas com as quais a civilização deveria voar. "Podemos pensar na ciência como uma das asas e a religião como a outra. Um pássaro precisa de duas asas para voar; uma só seria inútil. Qualquer religião que contradiga a ciência, ou a ela se oponha, é apenas ignorância... Uma religião que consista somente em ritos e cerimônias, em preconceito, não é a Verdade... Grande parte da discórdia e da desunião do mundo é criada por essas oposições e contradições feitas pelo homem. Se a religião estivesse em harmonia com a ciência, muito do ódio e da amargura que trazem tribulação à humanidade teria fim. Eu vos digo: Pesai cuidadosamente na balança da ciência e da razão tudo o que vos é apresentado como sendo religião. Se o conceito passar no teste, aceitai-o, porquanto é verdadeiro. Se, porém, não estiver de acordo, rejeitai-o, pois é ignorância: É impossível a religião ser contrária à ciência, mesmo que alguns intelectos sejam fracos ou imaturos demais para entender a verdade. Deu fez religião e a ciência para serem a medida, por assim dizer, de nossa capacidade de compreensão. Atentai para não negligenciardes tão maravilhosa força. Pesai todas as coisas nessa balança. Ponde todas as vossas crenças em harmonia com a ciência; não é possível que haja contradição, pois a verdade é uma só. Quando a religião, livre de suas superstições, tradições e dogmas pouco inteligentes, mostrar sua conformidade com a ciência, haverá então no mundo uma grande força para união e purificação que varrerá todas as guerras, discórdias e lutas, e então a humanidade se unirá através do poder do amor de Deus."

Ao divulgar os ensinamentos de Bahá'u'lláh ao Ocidente ('Abdu'l-Bahá freqüentemente frisou que, pela primeira vez na história, o Fundador de uma das maiores revelações se tornara defensor da causa da ciência, e esclareceu a interdependência da religião e da ciência nas verdades do progresso. "A humanidade foi criada," declarou Bahá'u'lláh, "a fim de levar avante uma civilização que sempre há de evoluir." Ao falar na Leland Stanford University, em 1912, 'Abdu'l-Bahá chamou a ciência de "iluminação do mundo humano", dizendo:

"A maior das conquistas humanas em sido sempre de natureza científica. É a descoberta da realidade das coisas... Os mais altos elogios são merecidos pelos homens que dedicam suas energias à ciência; e o mais nobre dos centros é aquele em que se estudam e se ensinam as ciências e artes. A ciência tende sempre a iluminar a humanidade... Todas as descobertas humanas foram outrora segredos e mistérios selados, guardados no seio do universo material, até que a mente do homem - o maior dos eflúvios divinos - os penetrou, tornando-os dóceis à sua vontade e ao seu propósito."

Tal como se dá em todos os conflitos, um entendimento mútuo do papel desempenhado por cada combatente eliminaria a luta que se trava para obter predomínio sobre a mente do homem. Se a ciência precisa ser guiada na aplicação dos frutos de seu trabalho, a religião com sua influência pode preencher essa necessidade. Se a religião encara o bem-estar físico e um sempre crescente conhecimento da natureza ao nosso redor como parte do plano do Criador para a evolução humana, pode esperar da ciência colaboração eficaz para esse fim.

George Sarton, professor de história da ciência na Universidade de Harvard, afirmou a necessidade dessa mais ampla compreensão, de forma bela e completa, em seu livro "The Life of Sciente" (A Vida da Ciência):

"A maior história que clama por ser narrada é a do ritmo das mútuas relações entre a ciência, a arte e a religião. História essa que não é das mais fáceis de ser contada, porque não é uma história de progresso como a da ciência, mas de vacilações e vicissitudes, de harmonia seguida de caos, de beleza misturada com horrores... é a história da sensibilidade do homem aos problemas fundamentais da vida e aos seus principais valores."

Delineando as quatro épocas da história da ciência, Sarton traz à tona, de maneira surpreendente, quão forte tem sido o ritmo. Os alicerces da ciência foram lançados para nós pelas civilizações mesopotâmicas, cujos estudiosos e cientistas eram os sacerdotes; é a eles que devemos as bases da medicina, da navegação, da astronomia e de algumas das matemáticas. O segundo desenvolvimento nos veio através dos gregos, tal como aprendemos, do modo tradicional, em nossas escolas e universidades. A terceira etapa, porém, deve ser atribuída à ascensão meteórica do islã, cujos califas Abbassidas sorveram avidamente das fontes antigas de conhecimento persas e hindus, tanto quanto das gregas. O islã por quase quatrocentos anos marchava na vanguarda do mundo científico, de um extremo ao outro de seu império, da Espanha até a Índia, fazendo processar-se, entre os seus estudiosos, um intercâmbio do grande volume de conhecimentos antigos, e a tocha foi levada à frente com novas descobertas. Os doutos da cristandade, desde o Século XI, aproximadamente, ocuparam-se sobretudo, por mais de duzentos anos, na tarefa de retraduzir, do árabe para o latim os mesmos conhecimentos que lhes haviam sido negados quando a Igreja fechou suas portas à Grécia pagã. Assim foi que o islã pavimentou o caminho para a Renascença, a qual, por sua vez, nos levou ao quarto grande desenvolvimento da ciência, em nosso moderno mundo ocidental.

Em duas dessas quatro épocas, foi o estímulo da religião que patrocinou o desenvolvimento da ciência.

Como que antecipando as necessidades das futuras gerações nascidas na idade áurea da ciência, Bahá'u'lláh nos deixou uma declaração relativa a Deus, que parece afinada à compreensão da mente científica.

"A unidade, em seu verdadeiro sentido, é que Deus deve ser compreendido como o poder único que anima e domina todas as coisas, as quais não passam de manifestações da energia desse poder."

É notável o cuidado com que foi evitada qualquer definição de Deus. As palavras são: "deve ser compreendido", como se, atrevendo a grande idade científica que alvorece, toda a exploração científica dessa energia pudesse ser abrangida nessa compreensão. Pois as palavras "todas as coisas" incluem a energia mental e o vasto campo das inspiradas realizações intelectuais do homem.

E a declaração não termina aqui. É prefaciada com as palavras "A unidade, em seu verdadeiro sentido, é". Que unidade? Unidade de pensamento entre a ciência e a fé sobre a verdade, obviamente. Também a unidade entre os sistemas religiosos, cujos ensinamentos básicos encontrariam plena confirmação nessas palavras. Desde que a unidade básica possa ser realizada entre as religiões a respeito de sua crença mais fundamental - a existência de Deus - e a unidade sobre a verdade básica seja estabelecida entre a ciência e a religião, conseguimos aproximar-nos da unidade em todos os demais campos.

Assim como o matemático inglês que confessou a mim que, se não tivesse fé numa maravilhosa ordem moral no universo, a vida não valeria a pena de ser vivida, há milhões de pessoas inteligentes que não podem aceitar os credos das igrejas, mas que anseiam pelo pão de uma fé razoável. Mesmo um cientista agnóstico encontraria uma simpática compreensão de sua atitude mental em várias das declarações de Bahá'u'lláh relativas à Divindade e à completa incapacidade da mente humana para compreender a Deus.

Bahá'u'lláh, de um modo tão razoável, aponta o fato de que nós não conhecemos nem mesmo a realidade de nosso ser interior nem a do nosso próximo. Sabemos de que depende nosso funcionamento físico - pelo menos, quase que o sabemos - e nossas investigações na mente humana e, ultimamente, o estudo da medicina psicossomática nos levaram a começar a compreender as emoções e os processos mentais. Existem em nós, todavia, domínios de consciência que transcendem tudo isso. E nem sequer conhecemos a fonte da centelha da vida física.

Nossas pesquisas no campo da psicologia nos iniciaram na compreensão daquilo que Bahá'u'lláh chama de "características e atributos". Os atributos ou as características de todas as coisas, inclusive a nós próprios, são os padrões pelos quais as reconhecemos. Essa, então, seria a única maneira pela qual poderíamos apreender a existência da Divindade - pelas evidências dos atributos divinos. Assim teve razão aquele professor de teologia que viu na majestade, beleza e sublimidade da criação, evidência da energia daquele "poder único que anima e domina todas as coisas."

Verdade, sabedoria, amor, misericórdia, conhecimento, etc, são da mesma maneira, atributos daquele Poder infinitamente maior do que qualquer ser humano ou toda a humanidade junta, mas dos quais todos nós participamos, podendo considerá-los como algo mais próximo da Realidade Divina e muito além do nosso ser físico e animal.

Essas características e sua inspiração para a mente e alma humanas são o estudo daquilo a que 'Abdu'l-Bahá se referiu como "ciência divina", distinta da ciência material. Aqui está um novo ponto de reconciliação entre a ciência e a religião. Assim como a humanidade se beneficiou imensamente da inteligência dos cientistas, também o próprio cientista há de achar proteção para seu trabalho se ligar sua inteligência a esse "poder único que anima e domina todas as coisas".

A fé nos atributos divinos - verdade, sabedoria, amor, misericórdia, conhecimento, beleza, poder - e o esforço para praticá-los na vida, nos possibilitaram a construção da escada pela qual subimos do estado selvagem ao ponto em que nos encontramos hoje.

Este é o único credo ensinado por Bahá'u'lláh: ressuscitar estes atributos em cada consciência individual e aplicar sua potência curadora aos nossos desajustes, nossos preconceitos, nossa ignorância, para que se possa estabelecer a unificada, pacífica sociedade mundial, que é o único passo possível para a frente na marcha do progresso humano neste planeta.

Que desavença poderia continuar a haver entre a ciência e a religião em tais bases para uma fé ativa?

CAPÍTULO IX
EDUCAÇÃO

A educação é um dos fatores mais importantes na evolução da humanidade. Só existe um aspecto da vida que é mais potente, e esse é a religião.

Em épocas caracterizadas pelo zelo religioso e pela piedade, a religião e a educação caminham de mãos dadas. Juntas, elas constituem uma força unificadora, inspiradora e diretiva, que coordena todo o pensamento humano e toda a sua expressão, dentro de um padrão tradicionalmente aceito. Em tais períodos, a educação serve àquilo que é, na realidade, seu objetivo mais fundamental - ao treinamento do caráter.

Em geral, esse padrão concorre para o progresso. Nas proximidades do fim de cada grande época, porém, sucede uma espécie de cristalização - como se fosse uma esclerose da civilização, o que é anti-progressista. Então, em prol do progresso, padrões de há muito estabelecidos, com sua forte e autoritária influência sobre a reverência e a lealdade da humanidade, tem que ser destruídos. É o dia do iconoclasta, período de confusão e caos.

Assim é a época em que vivemos hoje. Os antigos marcos estão desaparecendo. Diretrizes inquestionavelmente seguidas durante séculos apodreceram e caíram. Todas as autoridades e todas as lealdades estão sujeitas a serem questionadas. A não ser a devoção à ciência e ao progresso tecnológico, não existe nenhuma idéia central ou lealdade comum, para guiar a humanidade ou canalizar suas expressões e atividades. Assim acontece que, para esta geração não existe nenhuma meta unificadora definida para a qual, com segurança, possamos progredir.

A confusão dessa época atinge também os meios educacionais. A educação tornou-se impotente para operar na sociedade com aquela influência de que é realmente capaz. E por se haver desassociado completamente da religião, passando a olhá-la até com suspeita, a educação de hoje quase não possui mais as influências formadoras de caráter que sempre exerceu durante os períodos de forte predomínio religioso.

É um fracasso trágico! Pois a educação, especialmente quando conjugada às inspirações e lealdades religiosas, tem um poder imenso para moldar caráter, inspirar a consagração a metas sublimes, e apontar e conduzir ao caminho do progresso.

Esse quadro está longe de ser a situação atual. Os próprios educadores identificam-se em demasia com a confusão da época, para poderem libertar a humanidade dos laços do materialismo tecnológico que a prendem. É o caso do cego a conduzir o cego. Na realidade a educação, nos dias em que vivemos, tende mais a expressar as "marés" sociológicas do que a regular estas "marés".

Ainda assim, em meio a esta era de desintegração, temos presenciado potentes exemplos da força que a educação tem para moldar a juventude. Tragicamente, essa influência tem sido ilusória e maléfica. Hitler, em menos de uma geração, fez do nazismo uma força dinâmica, reduzindo à impotência aqueles que ele não conseguia alistar à sua lealdade. Ele foi capaz de fazer isto porque podia induzir a educação, de uma forma ou outra, a ser unificada e polarizada segundo uma ideologia que, embora anti-religiosa, ainda pode incutir em seus adeptos aquela lealdade e aquele zelo que caracterizam a religião. O comunismo, onde seguido ardentemente, apresenta um fenômeno similar.

É muito mais fácil, naturalmente, suscitar lealdade à ideologias egocêntricas do que àquelas que exigem o sacrifício: é mais fácil despertar e dirigir no homem um processo brutalizante do que induzi-lo a um desenvolvimento altruísta e nobre. Em outras palavras, os homens transformam-se mais facilmente em demônios do que em santos. O que é de se maravilhar é que os santos e a santidade, no entanto, têm exercido tão grande influência através de toda a história dessa humanidade incorrigível.

Como era de se esperar, Bahá'u'lláh deu grande proeminência à educação, ao delinear a formação da futura Sociedade Mundial. É principalmente através de influências educativas, que deveremos desenvolver a ideologia e a lealdade consagradas à meta da paz mundial. Somente através da educação do jovem e do adulto é que os elementos caóticos e adversos que compõem a sociedade humana atual, podem ser guiados e fundidos naquela unidade mundial, dinâmica em seu funcionamento, a qual agora acreditamos ser a pedra angular do progresso humano.

Bahá'u'lláh tinha duas grandes metas mundiais: construir uma humanidade espiritualmente regenerada, e estabelecer um mundo funcionalmente unido. Em ambas, a educação é intrínseca.

No programa educacional bahá'í, o fim do analfabetismo é o primeiro passo a ser dado em direção a uma inteligente e unificada humanidade. Bahá'u'lláh especificou a necessidade da educação universal. O analfabetismo e a ignorância têm de ser eliminados do planeta. Falhar nisto é pecar frente a Deus; e no caso de descuido por parte dos pais, deve haver providências governamentais (ditame este especialmente necessário no Oriente).

"O homem é o talismã supremo. A falta de educação apropriada, porém, o privou daquilo que ele possui inerentemente."

Quando Bahá'u'lláh deu ao mundo, por volta de 1870, o padrão para uma civilização universal, o concito de educação gratuita universal existia somente em alguns países e, mesmo neles, funcionava apenas parcialmente. Desde essa época, mais alguns países têm providenciado os meios para a educação universal. E nos países mais adiantados, nos quais universalizou-se a educação primária e tornou-se gratuita a secundária, e onde vem-se generalizando cada vez mais a educação universitária, produziu-se uma dinâmica modificação no padrão educacional, com óbvia conseqüências sociológicas. Observamos aqui uma notável elevação no nível de cultura humana, a par de um surpreendente progresso no campo tecnológico. Bem verdade é - como disse Bahá'u'lláh - que a educação desperta e revela preciosos valores no homem.

Ainda hoje, entretanto, a educação em três-quartos do mundo é usada mais para manter e cristalizar o tradicional regime de castas, do que para universalizar a alfabetização e o desenvolvimento da inteligência.

Só nas últimas duas décadas* é que todas as nações deram alguma importância, pelo menos ostensivamente, à meta da alfabetização universal, até que veio a ser afinal, parte estabelecida da ideologia do mundo. Nenhum governo, por mais insincero que ainda seja seu interesse na educação das massas, ousaria proclamar abertamente uma insensível indiferença à educação de até seu mais humilde cidadão.

Assim, parece provável que antes do fim deste século, uma das mais importantes metas de Bahá'u'lláh para a civilização mundial, já tenha sido atingida. Os cidadãos do mundo saberão, pelo menos, ler e escrever.

A alfabetização, todavia, é apenas a base mais rudimentar para a educação. Não é a educação em si. Quais seriam os fatores importantes no currículo, segundo os indicou Bahá'u'lláh?

O primeiro e o mais importante, com meio de se alcançar a unidade do mundo e a federação mundial, é que a juventude precisa ser treinada em valores mais amplos e nobres do que presentemente. Como assinalou Bahá'u'lláh, as lealdades prestadas à família, ao clã e à nação, que têm evoluído gradativamente na sociedade humana, não correspondem aos horizontes mais amplos da atualidade, não satisfazem as necessidades de hoje.

Tal como declarado nos requisitos para a "Paz Mundial e a Federação Mundial", é preciso que haja uma nova lealdade, mais universal, à própria humanidade como um todo, um zelo e uma dedicação ao conceito de "um só mundo". O amor à família, ao clã, à pátria, é digno de louvor e continuarão a permanecer em suas legítimas posições no padrão social. Todavia, somente se e quando for imprimido nos seres humanos um amor mais amplo - amor pelo nosso mundo - poderá uma Organização das Nações Unidas funcionar com êxito.

Os pais bahá'ís, no mundo inteiro infundem em seus filhos desde a infância, como lei espiritual, o conceito de que são membros de uma só família humana. A primeira lealdade é para com Deus; a segunda é para com a humanidade, depois das quais seguem as que devemos à pátria e à família. Essa atitude tudo abrange, incluindo o menor e o particular, em ver de ser uma atitude particular tendendo à exclusão seletiva.

Livros didáticos e cursos em ciências sociais, no futuro revelarão a unidade da vida humana sobre o planeta. Visarão despertar uma apreciação sincera pelas outras culturas e religiões, e pelas aspirações dos povos. A beleza e o valor da variedade terão mais ênfase. Preconceitos de cor, raça e religião serão eliminados por doutrinação, tanto espiritual quanto intelectual.

O surgir da ciência no papel de usurpadora de lealdades humanas e a secularização da educação, são dois dos mais notáveis fatores da civilização moderna. A relação entre estes dois fatores é a de causa e efeito. Foi porque a religião desafiou e se opôs, por todos os lados, às descobertas da ciência, que os intelectuais se revoltavam contra a Igreja e contra sua influência na educação.

Assim, reciprocamente, podemos afirmar que nenhum sistema de educação no futuro espiritualizará seu currículo de um modo satisfatório, antes de conseguir harmonizar a religião com a ciência. É tão premente necessidade da humanidade, que Bahá'u'lláh considerou esse princípio um dos mais importantes da Nova Ordem Mundial, tal como descrita, no capítulo anterior. Ele previu, como vimos, que essa harmonia acabaria sendo atingida, e os fatores espirituais da existência humana ensinados de um modo científico.

Um profundo respeito pela lei será engendrado em cada cidadão através do ensino de valores espirituais. Na realidade, a própria lei repousa, em última análise, sobre alicerces espirituais. Se nós não tivéssemos ensino espiritual, seríamos inconscientes da justiça, misericórdia e sabedoria. O próprio requisito para a formulação de leis que governem a sociedade, é a compreensão dessas qualidades espirituais. Se não tivéssemos conceito de certo e errado, não teríamos critério de Justiça no qual basear a lei. Não possuíssemos idéia do que significa a misericórdia, nossa aplicação da lei careceria de consideração humana e não levaria em conta as circunstâncias atenuantes que possam envolver um malfeitor. Não fosse a sabedoria nosso dote espiritual, a formação e a aplicação das leis seriam míopes e restritas.

Nossos problemas atuais - o da delinqüência juvenil, o do divórcio, o do crime - todos atestam a falta de ênfase dada à formação espiritual do caráter em nossos sistemas educacionais.

Quando o autor esteve em Paris, em 1913, nos interesses de uma escola itinerante para meninos, foi convidado a visitar 'Abdu'l-Bahá, que estava ali residindo por alguns meses. No transcorrer da conversa fui interrogado sobre as matérias que ensinava. "Álgebra, geometria e latim", foi a resposta. "Ensinais as verdades espirituais?" indagou 'Abdu'l-Bahá em tom sério, fixando seus olhos profundamente luminosos sobre seu visitante. O autor, embaraçado para explicar como era que matérias espirituais não figuravam no currículo preparatório para a universidade, respondeu em brevidade, "Não - não há tempo para isso."

'Abdu'l-Bahá não fez comentários; não havia necessidade de os fazer. O autor, com suas próprias palavras, havia se condenado e a toda sua geração. "Nenhum tempo para as verdades espirituais!" Tempo há para tudo mais - para a ciência em toda a sua larga extensão; para a cultura - toda que a mocidade possa absorver; para recreio e diversões. Mas tempo nenhum para o espírito!

A ênfase que Bahá'u'lláh dá aos alicerces espirituais de civismo, corrigiria essa falta trágica na educação moderna. Através dessa formação espiritual, o caráter se tornaria mais capaz de enfrentar as agruras e tentações da vida; mais resoluto em empreendimentos; de mais fértil e criativa imaginação; mais responsável diante dos chamados do dever; mais digno e capaz como verdadeiro cidadão de uma democracia mundial.

Em várias de suas declarações referentes à educação, Bahá'u'lláh sustenta fortemente o valor do intelecto - "A mais brilhante jóia na realidade do homem". Nossa capacidade intelectual nos ergueu ao ápice da existência, fisicamente falando. Não só nos libertamos das restrições impostas pela natureza; chegamos ao ponto mesmo de conquistá-la e sobre ela exercer domínio - tudo dominamos salvo a nós próprios e nossas inclinações animais. Somos monarcas, possuidores do poder imenso, mas desprovidos da realeza necessária para que o usemos de um modo digno.

A orientação adequada das nossas forças intelectuais, assim como nosso procedimento como cidadãos em outros campos de atividade, é conseguido através da manutenção de padrões morais em nosso currículo educacional. É a principal meta de educação, advogada por Bahá'u'lláh.

O currículo que Ele sugeriu é até mais prático e mais vocacional em seu aspecto, do que os empregados nas escolas modernas mais progressistas: "Que não sejam ensinadas as matérias que começam apenas por palavras e assim também terminam, mas, antes, aquelas às quais está afeto o bem-estar humano."

Há uma crescente tendência agora em eliminar-se dos currículos modernos muito material supérfluo, dando-se menos atenção à tradicional educação clássica e mais às ciências físicas e sociais. O estudo de línguas será, no decorrer do tempo, grandemente simplificado com a criação da língua auxiliar internacional. Então, em toda parte do mundo, será necessário o estudo de apenas um outro idioma, além do nativo. Essa língua auxiliar, cujo estudo será iniciado no curso primário, será tão bem aprendida que abrirá ao estudante toda a importante literatura do mundo, tanto cultural como científica.

A educação não estará completa, porém, enquanto cada estudante não estiver preparado, pelo ensino que teve, para ganhar a própria vida. Este aspecto prático é muito frisado nos ensinamentos de Bahá'u'lláh. O trabalho executado em sincero espírito de servir é considerado equivalente à adoração - isto é, é um serviço prestado a Deus, tanto quanto ao homem. Conseqüentemente, todos devem ser preparados para carreiras de caráter vocacional ou profissional, algum ofício ou alguma ciência ou arte. Ficar inativo, quando se pode trabalhar, é pecado. "Em verdade, o mais desprezado dentre os homens perante Deus, é o que se senta e mendiga." Qualquer tipo de parasita econômico é assim denunciado. Se um jovem sai da escola secundária ou da faculdade sem estar preparado para uma carreira, isto é um erro grave, segundo o programa educacional de Bahá'u'lláh.

Talvez a mais revolucionária declaração feita por Bahá'u'lláh sobre a educação - se levarmos em conta a época e o lugar em que foi feita - tenha sido aquela referente à educação feminina. Extraordinário foi um oriental ter proposto tal princípio, quando ainda o Ocidente mal havia começado a reconhecer sua validade. Suas razões eram bastante diferentes e muito mais fundamentais do que aquelas que, desde então, trouxeram mesmo à mulher ocidental oportunidades educacionais.

Bahá'u'lláh declarou que as mulheres deveriam ter direitos educacionais iguais aos dos homens, por serem elas as mães dos futuros cidadãos. A menos que as mães da espécie humana sejam cidadãs esclarecidas, não poderemos esperar que a cidadania do mundo o seja. A educação básica concerne em grande parte aos valores morais e espirituais, e assim é de responsabilidade da mãe à criança, muito antes que esta chegue à idade escolar. A santidade tradicional da maternidade assume, assim, seu lugar numa nova estrutura adaptada a uma era em que a educação universal se torna imprescindível no progresso social.

Não convém ao Oriente ficar atrás do Ocidente no que se refere à educação, e o plano de Bahá'u'lláh a oferece à mulher oriental em bases mais aceitáveis, talvez, do que aquelas nas quais o Ocidente baseia sua evolução na educação da mulher. Talvez, também essa nova avaliação da maternidade seja algo que o Ocidente precise rever. Assim, Bahá'u'lláh, foi mais moderno que os modernos quando disse, oitenta e tantos anos atrás,* que a educação deve ser providenciada pelos pais, mas na falta de tais providências, o Estado deve assumir a educação das crianças e se por razões econômicas a preferência tiver que ser levada a efeito, então a escolha deve recair sobre a menina, futura mãe do cidadão de amanhã!

A explicação de Bahá'u'lláh sobre os fatores psicológicos e espirituais que envolvem a aquisição de conhecimento pelo homem, traz novas luzes à epistemologia. O mistério ainda não foi satisfatoriamente resolvido, com respeito a como é que as sensações e percepções que nos vêm através de nosso sistema nervoso podem ser transformados em memórias e conceitos. Ainda menos explicável é nossa maravilhosa habilidade para conceber, generalizar e formar idéias abstratas - uma força criadora que nos eleva completamente acima do mundo animal, e nos permite compreender e dirigir a natureza à qual, se fossemos simples animais, estaríamos condicionados e obedientes.

Qual é a plena extensão dessas forças é algo que ainda estamos para aprender. O que é certo, porém, é que uma psicologia mais espiritualista seria de grande estímulo no desdobramento de novas e maravilhosas energias criadoras na raça humana.

As forças criadoras possuídas pelo homem utilizar-se-iam, então, muito mais do que no presente, daquela nossa faculdade tão extraordinária, a qual denominamos de intuição, inspiração ou subconsciente. Esse fenômeno da inspiração é na realidade, segundo Bahá'u'lláh, o poder da alma capaz de dotar a mente humana de um contato mais direto com a Mente Universal. Assim é, em suma, a explicação bahá'í daquele estranho poder de intuição que desempenha um papel tão extraordinário nas inspirações e realizações do gênio.

É essa força que, brilhando através da mente, dá-lhe a luz capaz de iluminar áreas obscuras e intrincadas do pensamento; de resolver os mais complexos problemas, e de criar maravilhosas obras nas artes e nas ciências.

A intuição é uma das três principais qualidades de gênio, um dos três grandes fatores do processo criativo, sendo os outros dois a sensibilidade e o poder conceitual.

Através do cultivo da sensibilidade da criança, do alistamento de motivações espirituais e auxílios para o desenvolvimento do poder conceitual, e da abertura de um novo campo de ciência teórica e prática em torno do estudo da intuição - o poder criador da humanidade será grandemente desenvolvido.

As instituições educacionais não mais serão abominadas pelo gênio, como se fossem algo de que se deve fugir. Pela primeira vez na história da raça humana, o sistema educacional procurará entender o gênio, ajudá-lo em sua sede ávida de conhecimentos e poder, e fará da escola um lugar onde indivíduos de visão criativa se sintam como em sua própria casa.

Sir Francis Bacon disse: "Considero todo conhecimento minha província." Ainda no começo do século XIX, Thomas Jefferson pode adotar uma meta igualmente ampla. Mas segundo a opinião que hoje prevalece, não há esperança de que uma só pessoa possa adquirir a grande abundância de conhecimentos - abrangendo tantos setores diferentes - que a ciência tem trazido à existência.

Estamos na era da especialização, e a humanidade sofre com os desnivelamentos que resultam de tal treinamento. Será que temos de continuar com mais e mais especializações até aparecerem classes de cientistas tão distintos em seus processos mentais, como o são as classificações da ciência sob as quais operam?

Iss não é necessário. Que fique bem claro que a humanidade não pode criar um corpo de conhecimentos que ela não possa compreender, porque todo homem é dotado do poder de compreender toda a existência natural. É um poder inato no homem, embora não desenvolvido ainda.

No presente estado de vasta complexidade de conhecimentos, um conceito unitário da existência só pode ser atingido por meio da intuição. Se a intuição for reconhecida como um poder da alma mais imediato em sua ação do que os poderes mentais comuns, segue-se que, através do uso adequado da intuição, o homem poderá abarcar em essência, embora não em detalhe, a realidade de todos os campos de conhecimento que o homem possa criar.

É de se esperar, pois, que surja um novo tipo de pensador, capaz de abranger inteligentemente a realidade de todos os campos de conhecimento; não por especializar-se neles, mas através de um exame de todos os campos com o auxílio das forças intuitivas. Tais sintetizadores científicos, ou filósofos, serão usados como diretores de educação, de ciência e de ocupação humanos.

Por fim, um só currículo caracterizará a educação no mundo inteiro - cimentando a unidade do mundo por meio da grande força coesiva de ideais comuns, um corpo de conhecimentos comum, um objetivo unificado e harmonia moral e espiritual.

A obra da UNESCO (United Nations Educational Scientific and Cultural Organization) procede silenciosamente à disseminação de conhecimento cultural e científico entre os estudantes de todas as nações membros e, por fim, esse corpo comum de conhecimentos ajudará a desenvolver um currículo universal.

O efeito sobre a sociedade, dessa nova compreensão de totalidade, dessa nova consciência da unidade do conhecimento, será imenso. Funcionará como uma diretiva mais inteligente que leva ao progresso e à felicidade humana. Inspirará a arte e enriquecerá a cultura. Conferirá uma nova amplitude e dignidade a todas as associações e todos os empreendimentos humanos.

CAPÍTULO X
ESTE SÉCULO RADIANTE

O mundo inteiro vibra com novas idéias, novas aspirações e novos esforços. Os ideais e princípios necessários a uma civilização mundial, tal como a proclamada por Bahá'u'lláh, estão alvorecendo por toda parte na consciência da humanidade. Muitos destes ideais - educação universal, igualdade de direitos entre o homem e a mulher, seguridade social e abolição da miséria - já estão sendo realizados em parte e rapidamente se movem em direção à consumação completa. Outras idéias - tais como um língua auxiliar universal, um sistema monetário mundial, abolição dos preconceitos raciais, religiosos e nacionais; a harmonização da ciência e da religião - são compreendidas como essenciais para a unidade mundial.

Quanto tempo levará para que estes elementos essenciais à nova ordem mundial sejam universalmente aceitos, e efetiva e universalmente alcançados? Não há necessidade de recorrer-se a um vidente para responder a essa pergunta. Sociólogos, através da ciência da estatística, são freqüentemente capazes de prognosticar, com admirável fidelidade, situações em que estaremos daqui a algumas décadas. Conseguem isso traçando a curva do progresso passado, em qualquer setor, e continuando a traçá-la para o futuro. Isso pode ser feito até matematicamente, e esse processo chama-se extrapolação.

Um cuidadoso estudo de todas as tendências acima mencionadas, traçando-se a curva do progresso a partir de 1850, pareceria assegurar-nos êxito universal antes do fim do presente século.

Esse otimismo foi freqüentemente endossado por 'Abdu'l-Bahá em suas palestras públicas feitas nos Estados Unidos, nos primeiros anos do Século XX. Chamava ele ao século XX de "Século da Luz", de "Século Radiante", no qual a humanidade tornar-se-ia adulta e estabelecer-se-ia a unidade mundial.

"Em verdade, o Século Radiante já raiou, mentes estão progredindo, percepções se ampliam, o reconhecimento das possibilidades humanas está se tornando universal, susceptibilidades se desenvolvem e, sob todos os pontos de vista, o mundo humano está passando por uma reforma... está na convulsão de atividade evolutiva que indica a morte das velhas condições e o advento de ma nova era de reforma."

'Abdu'l-Bahá declarou enfaticamente que o século XX traria a consumação de toda essa atividade evolutiva, e testemunharia o amanhecer da unidade e paz mundiais. Ele descreveu os ensinamentos de Bahá'u'lláh como sendo "o verdadeiro remédio para o mundo enfermo, remédio para todas as necessidades e condições. Neles podem ser encontradas a realização de todos os desejos e aspirações, bem como a causa da felicidade do mundo humano; deles provêm o estímulo e a iluminação da mentalidade, o impulso para o progresso e evolução, a base para a unidade de todas as nações, o manancial de amor entre os seres humanos, o centro de acordo, o meio de paz e de harmonia, o laço único que unirá o Oriente e o Ocidente."

Como os bahá'ís acreditam que 'Abdu'l-Bahá tenha recebido poder profético ao vestir o manto do pai, prevalecem em suas fileiras um otimismo e uma fé geral. De fato, como observou recentemente um alto funcionário do governo (que não é bahá'í): "Os bahá'ís são os últimos otimistas que existem no mundo."

Com referência à continuação e ao sucesso culminante dessas tendências culturais e humanitárias já mencionadas, poderá haver, por parte de todos os seres que pensam - como já observamos no começo deste capítulo - uma segurança geral, embora não específica. Mas, um campo das aspirações humanas permanece bloqueado e obstruído a tal ponto que causa desespero geral. E esse desespero é realmente profundo, porque a aspiração a que nos referimos, a da paz mundial, é essencial à realização de todos os outros já referidos desejos da humanidade. Entre todos os ideais humanitários e progressistas, a Paz Mundial tem prioridade. A menos que ela seja alcançada, podemos perder todas as esperanças de obter qualquer coisa de valor estável sobre a face da terra!

É com desapontamento que verificamos a inexistência de métodos de previsão sociológica ou estatística que nos possam dar a medida de segurança que nossos corações desejam. Muitos são os fatores imprevisíveis, incontroláveis e incalculáveis neste campo de guerra e paz, para permitir previsões acertadas.

A única coisa que se pode dizer é que o mundo tem premente necessidade da paz; que, como um todo, o mundo deseja a paz e de fato está empenhado de todo o coração em conseguir este grande desiderato. Podemos ir além. Podemos afirmar que a guerra tornou-se tão temível que, se continuar, a humanidade não poderá sobreviver e que algum meio precisa ser encontrado para garantir sua eliminação deste planeta!

Bem verdade é que podemos dizer todas estas coisas e, ainda assim, ter pouca fé. Na realidade estamos hoje no ápice de nossa confiança quanto à possibilidade de realizar num período previsível aquele ultimato ao deus Marte, tão almejado durante estes últimos anos desalentadores.

Os bahá'ís, porém, mesmo neste campo de sangue e trevas, permanecem com sua fé intacta. Dois são os conceitos principais que os mantém acima do desencorajamento em face de quaisquer perigos que lhes ameacem. Em primeiro lugar, acreditam que o destino opera nas atividades humanas e que, como disse Bahá'u'lláh: - "É a vontade de Deus que a guerra cesse." Eles acreditam que uma grande Força Cósmica está disponível como alavanca para a paz mundial - Força esta que poderá ajudar a humanidade a contornar todos os obstáculos. Em segundo lugar, aceitam com a mais completa fé as repetidas afirmações de 'Abdu'l-Bahá, de que a paz e a unidade mundial "... serão conseguidas neste século."

Os bahá'ís têm fé. Mas são realistas também. Não esperam o apogeu da estrela da paz mundial, senão depois de trevas ainda mais profundas e de mais perturbações mundiais. Serão estas mesmas perturbações - e não apenas uma tendência geral de progresso idealístico - que forçarão a humanidade a acabar com as guerras e estabelecer a paz de uma vez para sempre.

Essas calamidades cataclísmicas já estão próximas, é o que se acredita. Assim predisse 'Abdu'l-Bahá. É o que nos previne o atual* dirigente mundial bahá'í, Shoghi Effendi. Uma década ou mais de imensos sofrimentos pairam sobre a humanidade, no mundo inteiro - sofrimentos que produzirão como fruto a universal e bem-sucedida devoção aos preceitos e à prática da paz mundial.

Essa provação planetária será breve. Será o cumprimento de todas as profecias bíblicas. A melhor preparação que cada um pode fazer para enfrentá-la é aumentar o apego de seu coração a Deus, e fortalecer suas forças espirituais. Com essa preparação, o indivíduo poderá não só suportar, mas também ensinar aos outros como enfrentar as provações e, por fim, sobreviver a elas. A humanidade não tem por onde escapar de seu dilema, acreditam os bahá'ís, a menos que se vire para Deus, e aprenda a espiritualizar as instituições humanas que, neste momento, se mostram tão orgulhosas e libertinamente seculares; tão carcomidas pelo cupim do mal que estão a ponto de ruir.

A estrutura da unidade e da federação mundiais deve ser erigida sobre um alicerce espiritual." Esta é, em poucas palavras, a mensagem da Fé Bahá'í. Nada menos que isso perdurará. A religião sempre foi uma força coesiva, capaz de unificar diferentes culturas e hábitos. No plano intelectual, os seres humanos serão sempre diferentes; e é assim mesmo que deve ser, pois o intelecto é, essencialmente, um instrumento analítico. Só no plano espiritual é que uma completa harmonia de meta e ação poderá ser atingida - sob devoção a uma verdade comum, a uma causa comum, e a metas aceitas como espiritualmente obrigatórias.

Assim, muito embora os primórdios da unidade mundial e a inauguração da federação mundial possam ser atingidos por meios seculares, os bahá'ís acreditam que essa nobre tentativa deva ser fortalecida e sustentada por uma consciência espiritual universal rapidamente crescente, que prestará completa lealdade ao conceito e à prática da unificação dos interesses humanos.

Certamente, todas as grandes religiões do mundo podem-se unir - e, de fato, unem-se - em lealdade a esse programa de paz e unidade. É a esplêndida meta, brilhando ao longe, à qual os primeiros cristãos dedicaram suas vidas - o estabelecimento do Reino de Deus na terra. Todas as religiões, na realidade, pregam essa fraternidade. Porém, a força dinâmica que molda a vontade humana e controla a vida dos homens, de alguma maneira morreu, deixando a Igreja em toda parte menos efetiva do que o dinheiro, os laboratórios de ciência ou a espada.

Será que uma nova e vital inspiração espiritual virá apoderar-se da humanidade e sobre ela imprimir o desejo e a determinação de viver mais nobremente? Os bahá'ís acreditam que sim. Eles dedicam suas vidas e todas as suas habilidades a essa grandiosa meta de uma humanidade espiritualizada, unida em amor e harmonia construindo nobres instituições dentro dos padrões de um mundo federado.

Quanto mais espessas forem as trevas que envolvem o mundo, tanto mais próxima estará a aurora. Essa é a fé que sustenta os bahá'ís em pensamento e ação. E, certamente, é bem verdade para todos nós que nenhuma atividade é ineficaz, se estiver dirigida à consecução dessas metas mundiais. O receio da futilidade pode paralisar a ação. Mas, nós podemos estar certos de que nenhum esforço é inútil, quando visa a metas predestinadas e inevitáveis.

Tudo aquilo que concerne ao progresso humano como um todo, concerne a cada indivíduo, como fator necessário a esse progresso. Repitamos o que foi dito no início deste livro: o mundo de amanhã será o que escolhermos e trabalharmos para que ele venha a ser.

Desta maneira, quanto maiores forem os obstáculos que ameaçam a paz mundial, tantos maiores devem ser nossos zelo e devoção a esse objetivo. O que o mundo necessita nesta época de transição é de uma suprema e espiritualizada dedicação a essas metas planetárias que, na realidade, são espirituais em essência.

Quando o autor despediu-se de Ernest Gross e desejou-lhe êxito em seu novo mister de delegado suplente às Nações Unidas, Gross observou sobriamente:

- Métodos seculares não são suficientes!

- Você quer dizer que precisamos de meios espirituais?

- Sim! - foi sua resposta sucinta.

Os bahá'ís bem que diriam "Amém!" a essas palavras. Eles se rejubilam com qualquer contribuição à unidade do mundo, da parte de qualquer indivíduo ou movimento coletivo. Percebem com sensibilidade progresso ou mesmo esforços sinceros para atingir as metas que eles vislumbram. E mesmo quando os desastres do mundo dificultam e põem em perigo essas metas, mantêm-se firmes à sua fé.

Josiah Royce, o maior de todos os filósofos que Harvard já produziu, deu uma inspiradora mensagem ao mundo, em seu livreto: "The Philosophy of Loyalty" (A Filosofia da Lealdade). Ao contrário da maioria de suas obras, esta pode ser facilmente compreendida. Nela, ele diz que o homem como indivíduo não atinge a maturidade antes de achar uma causa à qual se possa devotar e na qual se possa perder. É só então que sua vida individual eleva-se acima daquelas perturbações que, diariamente, aborrecem ou ameaçam a tranqüilidade, pois já não vive dentro de si mesmo e para si mesmo, mas dentro de e para um grande movimento que desafia os anos e parece sobreviver ao próprio tempo.

O homem é mortal, mas a Verdade não morre jamais. O homem como um indivíduo é frágil, mas, como leal aderente a uma Grande Causa, ele participa de infinita coragem e poder.

Tal tem sido a história da lealdade. É bem possível isso que Cristo tinha em mente, quando disse: - "Aquele que quiser salvar a sua vida perdê-la-á", ou seja, jamais atingirá a uma real maturidade. "Mas aquele que perder sua vida por Minha causa (pela causa da Verdade) terá a vida eterna."

Hoje, ao olharmos em torno de nós e observarmos os movimentos que tão arduamente ocupam os homens em todas as partes do mundo, podemos facilmente perceber que onde esses movimentos se tornam realmente efetivos, são movimentos de lealdade.

Não é difícil para nós percebermos hoje quais metas são dignas de nossos esforços. Não é só a escolha que é necessária, mas também dedicação; nem somente o esforço sábio, mas também potência espiritual. Nas grandes exigências atuais da humanidade ninguém poderá permanecer indiferente; nenhum homem poder-se-á manter neutro. Faz-se necessário que tomemos partidos. Devemos assumir lealdades.

Aquele movimento que contar com mais adesões e maior lealdade acabará por prevalecer. Não são só números que contam. A matemática é bem menos importante que o espírito. Os obstáculos haverão de ceder à devoção e ao zelo. Na crise atual da existência do mundo, Sá realmente intangíveis as dificuldades com que nos deparamos. E quanto mais depressa nos convençamos de que é com intangibilidade que estamos lidando, tão mais depressa abriremos a vereda do progresso. Força externa pode ser convocada para enfrentar forças externas. Mas o lado que puder convocar a maior quantidade de poderio intangível é que vencerá afinal. Quanto a essas forças intangíveis, deveríamos dizer que a Força do Mal possa sobrepujar a Força do Bem? Isso e coisa que jamais sucedeu em toda a história do Universo, e jamais sucederá. A Força do Bem vencerá a do Mal, e a ordem prevalecerá sobre a desordem. Mas a bondade, como mera bondade, não poderá vencer a batalha. À bondade é preciso que se adicione força. E então o mal, por si só, galvanizará, em ação bem-sucedida, esta força de bondade.

No planeta Terra, neste dia e durante a geração que transcorre, bondade significa paz mundial; e a força do bem é equivalente àquele poder do mundo federado capaz de garantir essa paz.

Que todos nós que oramos e trabalhamos por este grande fim, seguremos firmes à nobre visão de empenho que Browning expressou:

"Aquele que nunca virou as costas,
mas marchou altivo em frente.
Nunca duvidou que as nuvens se
desvaneceriam.
Nunca sonhou, embora o bem fosse derrotado,
que o mal triunfaria.
Afirmou que caímos para levantar,
ficamos atordoados para lutar melhor,
adormecemos para acordar."

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