Announcing: BahaiPrayers.net


More Books by Shoghieh Shaikhzadeh

Jornadas na Senda do Amor - Peças de Teatro
Tahirih - A Pura
Free Interfaith Software

Web - Windows - iPhone








Shoghieh Shaikhzadeh : Jornadas na Senda do Amor - Peças de Teatro
JORNADAS NA SENDA DO AMOR
SHOGHIEH SHAIKHZADEH
Editora Planeta Paz

"Chegará o dia em que a Causa propagar-se-á tão rapidamente como o raio, quando seu espírito e ensinamentos serão apresentados nos palcos ou nas artes, e na literatura como um todo. A arte pode melhor despertar os sentimentos nobres do que o frio racionalismo, principalmente entre as massas."

(Carta escrita em nome de Shoghi Effendi a um indivíduo, 10 de Outubro de 1932)

À memória do meu querido esposo, Mohamad Shaikhzadeh,

meu companheiro e apoiador no serviço desta Grandiosa Causa.

PREFÁCIO
"Ó FILHO DA JUSTIÇA!

Aonde pode ir o apaixonado senão à terra de sua bem-amada? E aquele que procura, poderá ele ficar tranqüilo longe do desejo de seu coração? Para quem ama verdadeiramente, a união é vida e a separação morte. Vazio de paciência está seu peito; privado de paz, seu coração. A miríades de vidas ele renunciaria a fim de se apressar para onde se encontra a bem-amada."

BAHÁ'U'LLÁH

Em todas as épocas da história humana, podemos testemunhar a dedicação e o sacrifício de pessoas que abraçaram Causas que iriam transformar a humanidade. Através de seus atos demonstraram ao mundo a grandeza dessas Causas.

Desde o início da história da Fé Bahá'í, vemos que no Irã, país berço da Fé, mais de vinte mil pessoas, entre elas homens, mulheres, jovens, idosos e até mesmo crianças, ricos ou pobres, sábios ou iletrados, deram seu sangue em prol desta Causa. Além dos mártires no Irã, muitas outras pessoas, em diversas partes do mundo, tiveram uma vida inteira de dedicação e sacrifícios pela Fé que amavam. Esses heróis abnegados davam testemunho, em suas próprias vidas, das palavras de Bahá'u'lláh:

"Seja eu incluído, ó meu Senhor, no número dos que foram tão comovidos pelos suaves odores emanados em Teus dias, que eles ofereceram suas vidas por Ti, apressando-se à cena de sua morte, em seu ardente desejo de contemplar Tua beleza, e em seu anseio por atingir Tua presença. E se alguém lhes perguntassem, no caminho: 'Aonde ides?' - diriam: 'Vamos a Deus, o Possuidor de tudo, o Amparo no perigo, O que existe por Si próprio."

Tendo em vista a importância dessas vidas, e que a dramatização e a teatralização nos possibilitam uma maior percepção dos fatos, tenho tentado retratar algumas dessas vidas por estes meios artísticos.

Espero que este livro possa ascender no coração do leitor aquela chama inestinguível que nos faz embarcar em maravilhosas jornadas na senda do amor.

SHOGHIEH SHAIKHZADEH
Anís Zunúzí
(? - 1850)
Adaptado da obra
"Zunúzí, uma história de amor"
de R. Mehrabkhani
NARRADOR
"Ó FILHO DA JUSTIÇA!

Aonde pode ir o apaixonado senão à terra de sua bem-amada? E aquele que procura, poderá ele ficar tranqüilo longe do desejo de seu coração? Para quem ama verdadeiramente, a união é vida e a separação morte. Vazio de paciência está seu peito; privado de paz, seu coração. A miríades de vidas ele renunciaria a fim de se apressar para onde se encontra a bem-amada."

As demonstrações de amor e sacrifício dos amantes do Báb são um relato que pena alguma pôde ainda descrever de forma digna. Quando lemos a história da Fé, vemos que milhares de homens e mulheres, jovens e velhos, ricos e pobres, sábios e iletrados foram de tal modo encantados pelas magnéticas palavras do Báb, um jovem de 25 anos, que chegaram a cantar histórias de amor na hora de seu enforcamento, a pronunciar melodias e cânticos na boca do canhão e a dançar com velas encrustadas por todo o corpo na hora do seu martírio.

Estes mártires, verdadeiramente, viviam no Vale do Amor. O vale do Amor é um vale muito ardente. A entrada neste vale só é possível para os que possuem coração de leão, não é para raposas covardes. Neste vale deve-se obedecer a três condições básicas: Primeiro, o esquecimento de tudo menos de Deus. Segundo, esquecer de si mesmo perante a vontade do Bem Amado. E por fim, suportar todas as aflições no caminho do Amado.

Neste vale há subidas e descidas, transformações e mudanças. O juízo dos amantes é sempre variável e miríades de provas se encontram em cada um de seus passos, até que o enamorado caminhante põe seus pés na etapa do entendimento e saboreia a delícia do conhecimento com o paladar do espírito.

Um destes amantes foi Mírzá Muhammad 'Alí-i-Zunúzí, o qual ficou em tal grau cativo de seu Bem Amado, que era-lhe mais gratificante sacrificar sua vida do que se separar do Báb, ainda que fosse por um instante sequer. Desta forma lhe foi conferido pela língua dO Exaltado o título de Anís, o qual significa companheiro.

Este atributo, além de seu significado aparente, tem, com toda certeza, um significado mais íntimo. Era esta associação eterna que faria possível que o desprendido jovem encontrasse o "Senhor dos Mundos" e ficasse abraçado por toda a eternidade ao "Bem Amado das Nações".

(entra Anís)
ANÍS

Nasci em Zunúz, numa aldeia que se encontra na região de Azerbaijão, no Irã. Meu pai era um dos eruditos de Zunúz e nos últimos anos de sua vida mudamos para Tabríz. Eu era o caçula dentre os seus três filhos e quando eu tinha dois anos, meu pai faleceu.

Depois de algum tempo, minha mãe casou-se com um erudito sacerdote de Tabríz. Meu padrasto era um homem muito fidedigno e religioso, de tal forma que todas as pessoas da cidade depositavam nele grande confiança. Ele cuidou de nós com muita atenção e se esforçou ao máximo para nos dar boa educação.

Assim, eu era um jovem afortunado que havia chegado à posição de sacerdote, contava com o respeito de meus concidadãos e possuía segurança, riqueza e independência. Me casei e fui pai de duas ternas crianças que davam calor ao meu lar.

Sabem (pensativo), verdadeiramente não importa a minha vida antes do reconhecimento da tão sublime Revelação do Báb, Revelação esta que transformou a minha vida em chamas.

"Que dias felizes aqueles que passei com o Bem Amado (com alegria) . O resto da minha vida foi vazio, sem sentido" Foi neste período da minha vida que o Báb veio à cidade de Tabríz, dando as boas vindas a todos que ansiavam por esta nova Revelação Divina.

(levanta as mãos)

Aquela Divina Beleza honrou com Seus passos, por três vezes consecutivas, a cidade de Tabríz. A primeira vez foi quando Ele estava a caminho da prisão de Mah-kú. A segunda vez que lá esteve, foi vindo da prisão de Chihríq e a caminho novamente da mesma penosa prisão. E a terceira e última vez, foi para o seu martírio, quando enfim empreendeu o Seu vôo ao mundo celestial.

Na primeira viagem, apesar das dificuldades que se colocavam diante das pessoas que desejavam encontrar O Báb, algumas conseguiram alcançá-Lo e dentre estas pessoas, eu tive o privilégio de estar.

Este encontro acendeu um fogo na minha alma. Ninguém, ninguém conhece os significados encerrados naqueles olhares do Bem Amado e as palavras pronunciadas por Ele naquela ocasião. Eu comecei a viver em tal estado de êxtase e felicidade que alguns chegaram a dizer que eu havia enlouquecido. Tornei-me um cativo do meu Bem Amado. Era muito mais grato em sacrificar minha vida do que em me separar Dele, ainda que fosse por um instante sequer.

Quando o Amado Báb partiu de Tabríz, indo a Mah-kú, a saudade no meu coração aumentou ainda mais. Então decidi percorrer montanhas e vales para chegar na presença do meu Bem Amado. E quando voltei a Tabríz (pausa, rosto radiante) meu coração estava mais flamejante. Comecei, então, a ensinar e me dediquei ardentemente a diálogos com os sacerdotes.

(com seriedade) Os inimigos da Fé acreditavam que, com o encarceramento e exílio do Báb em Mah-kú e Chiríq, apagariam a luz de Deus. Porém, a Fé adquiria uma força cada vez mais crescente. Resolveram então afligir e ferir aos amigos de Deus. Assim, na cidade de Tabríz, como em tantas outras a vida dos babís corria grande perigo.

(Pausa. Respira fundo) Meus familiares, temerosos por minha vida e vendo que os conselhos e advertências que me davam não adiantavam nada, (mostrar a porta) me prenderam em um cômodo da casa, impedindo a minha saída. Esta foi a minha primeira aflição no caminho do meu Bem Amado, mas, com paciência, eu a aceitei. Naquele quarto solitário, eu comungava com o meu Senhor. Dia e noite estava dedicado à oração e, com o coração ardente, os olhos banhados em lágrimas e a língua pronunciando palavras de louvor, dirigia minha face a Chihríq. Tal era o meu grau de turbulência, que, à meia-noite, meus lamentos e soluços eram ouvidos por toda a casa. Por fim, adoeci (vai abaixando aos poucos até sentar no chão) e a dor do amor fez do meu fraco corpo um hóspede do leito.

(sentado no chão, com fraqueza)

Certa noite, enquanto estava preso na minha cela, volvi meu coração ao Báb e lhe implorei com as seguintes palavras: (levanta a cabeça e as mãos implorando por auxílio divino) 'Tu vês, ó meu Bem Amado, meu cativeiro e desamparo, e sabes com que ansiedade anelo contemplar Tua face. Com a luz de Teu semblante dissipa a treva que me oprime o coração.' Quantas lágrimas de agonia e dor derramei naquele instante! Senti-me tão tomado de emoção que parecia ter perdido a consciência. De repente ouvi a voz do Báb e, eis que me chamava! Mandou-me levantar. (levanta-se e olha firme para a platéia) Contemplei a majestade de Seu semblante ao apresentar-se diante de mim. Sorria enquanto olhava-me nos olhos. (rosto radiante) Precipitei-me com rapidez e lancei-me a Seus pés. (voz firme) 'Regozija-te', dizia-me, 'aproxima-se a hora em que, nesta mesma cidade, serei suspenso diante dos olhos da multidão, e cairei vítima do fogo do inimigo. (pausa) A ninguém escolherei, senão a ti, para participar comigo da taça do martírio. Assegura-te que esta promessa que te dou será cumprida'.

(com crescente radiância) Senti-me extasiado pela beleza daquela visão. Ao voltar a mim, senti-me imerso em um oceano de júbilo, um júbilo que todas as tristezas do mundo não poderiam obscurecer. Aquela voz continua a ressoar nos meus ouvidos. Aquela visão sobre mim paira durante o dia, bem como nas horas da noite. A memória daquele sorriso esplendoroso já dissipou a solidão da minha prisão. Estou firmemente convencido de que não se pode adiar mais a hora em que há de ser cumprida a sua promessa. (pausa)

Sabem, depois desta dia, tão grande paz e tranqüilidade se apoderaram de mim, que minha família com muita alegria e satisfação libertou-me do meu cativeiro. Naqueles dias eu estava em outro mundo, não encontrando nenhum familiar, amigo ou confidente com quem pudesse compartilhar o segredo que guardava no meu coração.

(com alegria) Em meu lar todos presenciavam a minha alegria, sentiam-se felizes em ver a minha felicidade. (suspirando) Mas que diferença há entre estes dois mundos. Eles estavam felizes porque achavam que eu tinha apagado o meu amor pelo Báb. Mas eu estava feliz por ter ouvido dos lábios do Báb a promessa da união.

É claro que eu tinha os mais nobres sentimentos humanos para com os meus familiares. Lógico, eu amava profundamente os meus dois filhos, queria com ternura a minha jovem esposa e tinha grande afeto pelos meus pais.

Mas tais amores, comparados com o amor pelo Bem Amado, eram semelhantes à luz da vela frente ao sol do meio dia. Este sol iluminou e deu calor às raízes da minha própria existência. (pausa)

Enquanto todos me achavam um louco, eu também os considerava loucos. Um dia, um sacerdote me disse que eu estava enlouquecendo. Um grande lamento surgiu em meu coração e lhe respondi (com espanto) 'Eu não sou louco por haver reconhecido o prometido Qá'im. Louco és tu, que tem negado o Prometido'. (pausa)

Sim, não demorou muito para que o Báb, no dia 16 de junho de 1850, por ordem do primeiro ministro Amír Kabir chegasse na cidade Tabríz e fosse hospedado na residência designada pelo governador. O governador pensava que o propósito do Primeiro Ministro era a libertação daquele Santo e lhe dispensou o maior dos respeitos tanto no caminho quanto na chegada. Três dias depois foi enviada, pelo antigo soberano, a ordem de execução do Báb.

Passaram aproximadamente três semanas, desde o recebimento da ordem e a execução do Báb. Neste ínterim, alcancei a presença do meu Bem Amado Báb e recebi as Suas graças. Assim que meu padrasto e meus familiares souberam, imergiram novamente no oceano do temor. Meu padrasto, por um lado sentia a dor da desonra e, por outro, temia pela minha vida. Ele me escreveu: (tira uma carta do bolso)

"Ó filho degenerado, apesar de que me tens feito vil e desprezível entre os doutos de Tabríz e já que agora o perigo te acerca mais, na qualidade de pai te aconselho e te dou minha benevolência, dizendo-te que não temas nem te aflijas pela fama de tua associação com o Siyyíd-i-Báb, já que o homem é pecador. Tens errado. Mesmo assim as portas do arrependimento e remissão estão abertas. Se te arrependeres e pedires clemência, tua posição não diminuirá e serás salvo por mim."

Como eram diferentes o conteúdo desta carta e a minha forma de pensar. Eu temia que o Bem Amado mudasse a Sua Promessa no último instante e meu pai pedia para não temer a conseqüência da minha ação, prometendo aceitar o meu arrependimento. (guardando carta)

Escrevi-lhe uma carta de resposta e na sua margem citei o seguinte verso do poeta Háfiz:

"Sou um amante libertino
e me pedes que me arrependa.
Deus me livre de fazê-lo!
Deus não o consinta!"
(pausa)

Meu padrasto se abalou pelo poder desta resposta. Ele era um famoso mullá, possuía propriedades e bens e vivia no ápice do êxito da vida material. Seu desejo era que eu me parecesse com ele, enquanto o meu desejo era ver que ele não sacrificasse uma soberania perdurável por um mundo material.

(pausa) No dia 8 de julho, o Báb rodeado por soldados e despojado da Sua faixa da cintura e de Seu turbante verde, que eram os sinais visíveis da sua descendência direta do profeta Muhammad, foi conduzido ao quartel. A cidade de Tabríz estava mergulhada em profunda comoção, a população enchia as ruas dificultando a passagem da comitiva.

(com firmeza) Ó Rei dos reis do amor, o Báb, desprovido de Seu cinto e turbante, caminhava com sublime majestade até a prisão, adornado com uma coroa divina e um cinto celestial. Ao se aproximar do quartel, consegui finalmente abrir caminho através da multidão e, rompendo a fileira dos soldados, alcancei a proximidade do Báb, segurei a túnica do meu Bem Amado e lhe disse: (ajoelhando-se, como se estivesse agarrado à túnica do Báb) "Meu Senhor, não me separes de Ti" (levantando-se aos poucos, primeiro o rosto e depois o resto do corpo/ com alegria) Ele, sorrindo, tomando-me pelos braços, levantou-me e disse: "Tu estás junto de Mim. Amanhã se atestará o prescrito".

Neste dia fui aprisionado com dois outros jovens, na mesma cela de Aqá Siyyid Husayn, o amanuense do Báb. Ao todo, éramos cinco pessoas. Ficamos em uma das celas do quartel militar enquanto quarenta soldados foram colocados em cima dos terraços e ao redor do calabouço a fim de nos vigiar.

O Báb passou a noite na cela junto conosco e sussurrou melodias de amor nos ouvidos daquela companhia de fiéis até o último momento. Óh, mas as provações divinas estão sempre conosco e nos testam até o último instante de nossas vidas. Assim, naquela noite, aquele Santo, volvendo a Face para os seus discípulos e com a intenção de prová-los e dar uma lição à humanidade, dirigiu-nos as seguintes palavras:

"Amanhã será o dia do Meu martírio. Oxalá um de vós se levante agora e, com as próprias mãos, possa pôr fim à Minha vida. Prefiro morrer nas mãos de um amigo que nas do inimigo."

Quão grandiosas foram tais palavras e quão sublime a prova. Como era possível imaginar que um fiel amante pudesse, com as próprias mãos, levar à morte um Enviado de Deus?

Ao ouvir este pedido, os presentes ficaram completamente perplexos sem saber o que fazer e começaram a chorar amargamente. Mas (levanta) eu levantei, tirei minha faixa da cintura (tira faixa) e exclamei: "qualquer que seja o Teu desejo, assim o cumprirei." (pausa) Eu tinha de obedecer a ordem do Meu exaltado mestre. (pausa, olha firme para a platéia) O Báb olhou nos meus olhos e me mostrou um doce sorriso, então ouvi a voz melodiosa do Senhor pronunciando "Este mesmo jovem será Meu Anís, será Meu companheiro e oferecerá sua vida em Meu caminho.

Sim, a bênção do meu Mestre me atingiu na manhã seguinte. No dia 9 de julho, um guarda veio me levar na presença dos sacerdotes para receber minha sentença.

Meu padrasto e os demais membros da minha família perguntavam incessantemente sobre a minha condição e estavam cada vez mais desiludidos pela ineficácia das medidas de liberação que tentavam realizar. Por fim compreenderam que eu jamais iria voltar. Foi assim que fizeram sua última tentativa, desta vez mediante a provocação de meus ternos sentimentos para com minha esposa e meus filhos. Minha irmã e minha esposa levaram meu filho de dois anos ao quartel e se reuniram ao meu lado. Ajoelhando-se várias vezes aos meus pés e beijando-me com os olhos cheios de lágrimas, minha irmã lamentou-se: "Irmão, peço-te pelo Alcorão e pelo Profeta do fim dos tempos que escondas tua crença no fundo do teu ser, como é permitido no Islã. Que te salves do precipício da perdição e favoreça com tua vida a tua esposa e filhos, tua mãe e irmãos."

Ó irmã! Se chovessem espadas no caminho do Amado, levaria o pescoço erguido... Avançando até encontrá-lo. (pausa)Durante anos tenho desejado este momento. Graças a Deus, por fim alcancei o meu propósito. Sê paciente e agradecida, e não te lamentes nem te aflijas. Dentro em breve, pelo decreto do Onipotente e Poderoso Criador, surgirá uma nova raça de homens que nos glorificarão com as melhores lembranças e as mais excelsas obras. Se levantarão com alegria e regozijo no lugar deste grupo que nos considera merecedores da morte. Eles contemplarão em nossos túmulos e epitáfios o lugar de descanso das graças e das confirmações celestiais e através de nós elevarão ante a corte do Altíssimo suas orações e súplicas. Portanto, não estejas triste.

NARRADOR

Após ter se despedido deles, Anís se dirigiu ao altar do sacrifício. Tirou sua túnica, deixando-a num lado e vestindo uma outra nova de cor branca. Como a anelada hora havia chegado, pediu para ser suspenso de tal maneira que todo o seu corpo se situasse na frente de sua Santidade, O Báb, para assim poder fixar seus olhos até o último instante naquele formoso rosto e converter-se em um escudo protetor Daquela divina Manifestação. Amarraram-no de tal forma que sua cabeça se situou sobre o peito de seu Amado.

Escreveram que as últimas palavras sussurradas repetidamente por seus lábios, antes que seu corpo se convertesse na alvorada das balas mortais, foram:

"Ó meu Mestre! Estás contente comigo?"

Anís se sacrificou primeiro, para converter-se em nada depois. Seu ser se desvaneceu em seu Bem Amado, alçando-se como o vivo testemunho das palavras de Bahá'u'lláh, refletidas nos Sete Vales: "Pois, quando um verdadeiro amante e afável amigo encontra o Ser amado, a irradiação da beleza do Amado e o fogo do coração do amante criarão uma conflagração que consumirá todos os véus e envolturas, ainda tudo o que possua. Mais ainda, seu próprio ser será consumido e nada restará senão o Amigo.

LEONORA STIRLING ARMSTRONG
(1897 - 1980)

Baseada em cartas autobiográficas e em texto escrito pelo

Sr. Hooper Dunbar

(No palco uma máquina de datilografar sobre uma mesa, uma cadeira, alguns livros, uma pasta com as cartas de 'Abdu'l-Bahá e Shoghi Effendi, uma mala. Leonora está em cena, sentada à mesa, quase de costas para a platéia. Música instrumental ao fundo)

NARRADOR

Referindo-se aos portadores da Palavra Divina, Sua Santidade O Báb proclamou:

"Ó meus queridos amigos! Vós sois nesse dia os portadores do Nome de Deus. Vós fostes escolhidos como os repositórios de Seu Mistério. Cumpre a cada um de vós manifestar os atributos de Deus e exemplificar por vossas ações e palavras os sinais de Sua retidão, Seu poder e glória.

Ó Minhas Letras! Vós sois as testemunhas do amanhecer do Dia Prometido de Deus. Purificai vossos corações dos desejos terrenos e deixai as virtudes angélicas serem vossos adornos. Esforçai-vos para que, através de vossas ações, possais dar testemunho da verdade destas Palavras de Deus, e acautelai-vos para que, voltando atrás, Ele "Não vos possa mudar por outros, que não serão iguais a vós" e tomarão de vós o reino de Deus.Não olheis vossas fraquezas e debilidades; fixai, sim, vosso olhar no invencível poder do Senhor, nosso Deus, o Onipotente.Erguidos em Seu Nome, colocai vossa confiança inteiramente Nele e assegurai-vos da vitória final."

Esta é a história de uma jovem pioneira que em sua vida exemplificou estas palavras sagradas. Seu nome é Leonora Stirling Holsapple Armstrong.

Leonora (datilografa um pouco, levanta, dá uma caminhada pensativamente) Nasci na cidadezinha de Hudson, um município de Nova York. Meus pais eram bem conhecidos, a minha querida mãe, além de ensinar em uma escola, servia ativamente no serviço social.

Porém, a minha infância foi logo ofuscada pela tragédia e tristeza, pois a saúde de minha mãe piorava a cada dia. Por fim, quando eu tinha 5 anos, ela faleceu. A morte prematura da minha mãe teve um efeito profundo sobre mim e a minha irmã mais nova, Alethe. (pausa) Jamais tivemos o que se pode chamar de um verdadeiro lar. (pausa) Às vezes penso como pudemos suportar através daqueles anos de nossa infância e adolescência igual solidão, igual sofrimento e até crueldade, (pausa) eu não sei. Posso lembrar como, ainda criancinha, sempre à noite, antes de ir para a cama, me ajoelhava ao lado da cama da minha irmã e agoniada, implorava a Deus, com toda a intensidade do meu ser, para nos deixar sentir a Sua Presença, Sua Proximidade, Sua Proteção. Pouco sonhava, então, de que maneira aquela oração seria atendida."

Mas Ele nos atendeu, quando eu tinha treze anos, a minha avó materna, a qual chamávamos de "mamãe Stirling", após longos anos de busca espiritual encontrou e abraçou a Fé Bahá'í. Primeiro, ela começou a nos ensinar as verdades do Novo Dia. Pouco a pouco fiquei muito atraída pela Revelação de Bahá'u'lláh e comecei a memorizar passagens e orações dos Escritos.

Em 1919, tive o privilégio de participar na Convenção Nacional realizada em Nova York quando as Epístolas do Plano Divino de 'Abdu'l-Bahá foram desveladas: Óh, como eu queria ser uma pioneira e servir à Causa. Imediatamente, escrevi ao Mestre, expressando meu desejo de sair para qualquer parte do mundo a fim de difundir a mensagem de Bahá'u'lláh. 'Abdu'l-Bahá me mandou então uma carta: (pega carta que está entre os livros)

"Tendes expressado o vosso grande desejo de estar a serviço do Divino Limiar e curar os enfermos com o Remédio Divino - o enfermo que está atormentado com paixão e egoísmo. A doença espiritual é mais severa que a física, pois, pode ser que a última possa ser convertida, com pouco remédio, em vigor, enquanto a primeira não será curada por mil remédios conhecidos. Minha esperança é que possais vos tornar uma médica espiritual."

(Pausa. Balança a cabeça enfaticamente) Minha esperança é que possais vos tornar uma médica espiritual!

(Espontaneamente) Que desafio! Se esta era realmente a esperança do Mestre para mim, poderia eu deixar qualquer obrigação me impedir de pelo menos tentar cumpri-lá? Mas o único membro da minha família que me animava a dedicar a vida na administração do Remédio Divino, isto é, da Fé de Bahá'u'lláh, era a minha avó, a mamãe Stirling.

Foi então, no início de 1920, que li a Epístola do Mestre a Martha Root, elogiando o seu trabalho de ensino na América do Sul e salientando a importância dele ser continuado por outros. De imediato, pareceu-me que ali estava a tarefa definitiva para mim.

(Deixa a carta sobre a mesa, com um sorriso) Martha Root veio especialmente a Boston para falar comigo. Sabem, o que ela mais enfatizou foi que a chave para o sucesso era o desprendimento. E desprendimento significava renunciar à família, a pessoas amigas, ao conforto, à profissão. Significava a oportunidade de ganhar a benção de "ser pobre em tudo exceto em Deus". Finalmente, decidi que iria para o Brasil.

Mas aí comecei a pensar nos obstáculos que a minha família e os amigos colocavam na minha frente. Comecei a deixar minha decisão se enfraquecer pois pensava sobre os perigos e rigores deste país distante (com lamento e tristeza) e eu estaria sozinha, sem amigos e sem saber uma palavra do português.

De repente, tive a idéia de dar uma escapada até Montreal para consultar com a minha mãe espiritual, a querida May Maxwell. (com satisfação) Ela salvou a situação, embora estivesse gravemente enferma, sentou-se na cama e em tons vibrantes que ainda ecoam na minha memória, disse: "Leonora, por que esperas? Vá em frente!" (pausa) "Irei no primeiro navio", foi a minha resposta.

Assim, no meu coração eu nutria a visão de uma missão gloriosa, a expansão da luz de Deus. No dia 15 de janeiro de 1921 saí de Nova York a bordo do "Vasari". Na minha bolsa (pega bolsa), eu levava todas as minhas economias, as quais eram suficientes apenas para as modestas despesas de duas semanas.

Ao chegar ao Brasil, fiquei esperando alguma notícia do Sr. Guido Gnochi, o qual morava em Santos. Martha Root tinha escrito a ele informando sobre a minha chegada.

Ansiosa, esperei por doze dias sem ter nenhuma notícia e vendo minhas escassas economias acabarem, até que veio um telegrama do Sr. Guido informando que pegasse um navio e o encontrasse na costa de Santos. (com tristeza) Oh, quando chegamos em Santos presenciei o desembarque de todos os passageiros, vendo-os serem carinhosamente abraçados por seus parentes e depois se retirarem, até não restar mais nenhum. Só eu restava no convés (olha para cima) olhando para aquela chuva torrencial. E se esse Guido Gnochi não aparecesse? Para mim ele era apenas um nome. (pausa) Após o que me pareceu um tempo imenso, lá vinha Guido (com sorriso) uma pequena figura embaixo de um enorme guarda chuva.

Depois de algum tempo, por intermédio do Guido eu soube de um Congresso Nacional de Esperanto a ser realizado no Rio. Ele me deu a sugestão de escrever, pedindo permissão para apresentar um trabalho sobre a Fé em esperanto e eu aceitei. Mas devo confessar, meu desejo secreto era que recusassem o meu pedido pois viajar sozinha ao Rio para tomar parte em um Congresso Nacional de Esperanto me assustava. Além disso só fazia 3 meses que eu estava no país e nem o português sabia.

Mas a minha proposta foi aceita e eu não podia fugir, assim estudei minha palestra linha por linha, ou melhor, palavra por palavra, usando um pequeno dicionário inglês/esperanto que eu havia recebido de presente. Para meu grande alívio, depois que terminei a palestra, o presidente declarou (com sorriso) ter sido provado que o esperanto podia ser entendido mesmo quando falado por pessoas de nacionalidades diferentes e me levou para uma entrevista no jornal. Resultado, na edição de domingo, se não me engano na primeira página, saiu um artigo com o retrato de 'Abdu'l-Bahá e o meu. E mais tarde toda a palestra foi publicada em uma revista esperantista de alguns países europeus. Creio que esta foi a minha primeira vitória sobre a minha timidez natural.

Depois do Rio de Janeiro eu tinha o objetivo de prosseguir para a Bahia, mencionada por 'Abdu'l-Bahá nas Epístolas do Plano Divino. Então escolhi Salvador, na Bahia, sendo que viajava constantemente percorrendo várias cidades deste imenso país.

Em junho de 1921, 'Abdu'l-Bahá me escreveu uma epístola. Essa Epístola se transformou numa fonte de grande consolo para mim, uma vez que, coincidentemente, chegara no momento que eu acabara de saber da morte da minha amada avó.

Neste mesmo período, quando eu aguardava com o coração cheio de alegria a primeira visita da minha única irmã, soube da sua morte em um acidente durante o caminho. (pausa) Ainda naquele mesmo ano de 1921, uma dor profunda me surpreendeu quando veio a notícia do passamento de 'Abdu'l-Bahá. Eu desejava tanto encontrá-Lo nesta vida. (triste) Todas estas notícias partiram muito o meu coração. (com crescente entusiasmo) Mas logo as mensagens do Amado Guardião começaram a chegar e ele me encorajava a nunca desanimar, mas, sim, redobrar os meus esforços, e orientava-me com sua infalível sabedoria, seu caloroso encorajamento. Em uma de suas cartas, ele assim escreveu (pega carta)

"Sinto-me muito afeiçoado ao seu trabalho. Seu nome, asseguro-lhe, ornamentará os anais da Causa e inspirará muitos pioneiros bahá'ís no futuro. Você não pode se dar conta do esplendor e significado do trabalho que está realizando no presente. Orarei para que possa ser orientada e fortalecida pelo espírito do nosso Amado Mestre, que, estou certo, te orientará e cuidará para sustentá-la no seu trabalho. Persevere e nunca perca o estímulo.

"O amado Guardião havia pedido que eu traduzisse livros e folhetos também para o espanhol. Como não tinha muito conhecimento deste idioma, decidi fazer um curso para estrangeiros na Espanha. Porém, ao lá chegar adoeci a tal ponto que eu corria risco de ficar cega de um olho e um diagnóstico errado me levou a uma séria operação no nariz, a qual chegou a me abalar tanto que eu pensei que não iria resistir.

Mandei um telegrama a Shoghi Effendi pedindo permissão para uma visita, a resposta veio imediatamente: "Seja muito bem vinda." Com coragem renovada, parti. Passei em Haifa um período de nove inesquecíveis dias como hóspede do querido Guardião.

Quando voltei à Bahia, embora não tivesse conseguido realizar o meu plano do curso intensivo de espanhol, consegui adquirir um pouco mais de conhecimento da língua e assim completei a tradução para o espanhol de "Bahá'u'lláh e a Nova Era", e mais tarde, a pedido do Guardião, traduzi o "Kitáb-i-Iqán", o Livro da Certeza.

Em 1940, após 19 anos da minha chegada ao Brasil, através do trabalho de ensino, tradução e serviço social tive a alegria de ver formada oficialmente a primeira instituição bahá'í no Brasil, a Assembléia Espiritual Local do Bahá'ís de Salvador e tive o privilégio de ser membro daquela Assembléia.

No ano de 1941, casei com um inglês chamado Harold Armstrong. Ele me deu grande apoio. Durante os próximos anos moramos em diversos lugares do Brasil e criamos vários filhos adotivos, o que era um sonho desde a minha infância.

Nos finais dos anos cinqüenta, dei um maior impulso ao trabalho de tradução e aprendi o braile em português. Foi nesta época que me mudei para Juiz de Fora, no estado de Minas Gerais.

(Senta-se novamente, um pouco de costa para a platéia e começa a datilografar)

NARRADOR

Em 1961, Leonora teve a alegria de ver estabelecida a primeira Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá'ís do Brasil.

Em 1973, a Casa Universal de Justiça a indicou membro do Corpo Continental de Conselheiros na América do Sul. Sete anos de serviço restaram a Leonora, depois que foi indicada Conselheira. Suas costas se arquearam, curvada por anos e anos de tradução e datilografia, seu pescoço endurecia e tornava-se cada vez mais dolorido, porém, antes de moderar os seus esforços Leonora ampliou imensamente as suas atividades e viagens.

Gradativamente a sua saúde levou-a à cama e, durante seus últimos meses decidiu voltar a Bahia. Na Bahia, os amigos amorosamente lhe prestaram assistência. Ainda na semana final de sua vida ela reuniu forças para uma última efusão. Amparada na sua cama escreveu a tradução da recém chegada versão inglesa da Epístola de Cura e da Epístola do Fogo, de Bahá'u'lláh, uma herança final para os seus muitos filhos espirituais.

No dia 17 de outubro de 1980, seu precioso espírito mansamente levantou vôo para o Reino de Abhá. A Casa Universal de Justiça imediatamente telegrafou:

"Corações entristecidos passamento da eminente Leonora Stirling Armstrong, Arauta do Reino, amada serva de 'Abdu'l-Bahá, mãe espiritual da América Latina. Seus sessenta anos de valorosos e devotados serviços para a Causa no Brasil, derrama brilho sobre os anais da Fé naquela terra promissora. Solicitamos serviços memoriais nos Mashriqu'l-Adhkárs de Wilmette e Panamá. Recomendamos ardentes súplicas no mais excelso santuário para o radiante progresso do seu espírito no Reino de Abhá."

LUA GETSINGER
(1871 - 1916)
Adaptado da obra
"Lua Gestsinger"
de William Sears e Robert Quigley
ATO I
(Música instrumental ao fundo)
NARRADOR

Hoje, vamos apresentar uma personagem que se destacou dentro da história da Fé Bahá'í. Ela é Lua Getsinger, Arauta do Convênio. Durante os dias em que a senhora Ellen Moore carregava Lua no ventre, a sua sede de conhecimento estava direcionada para a religião. A senhora Moore aproveitava toda oportunidade para falar, fosse em casa, em público, na igreja; e fazia as suas perguntas mas não encontrava respostas. Assim, seu coração estava cheio de angústia e tristeza. Na sua agonia espiritual orou, fervorosamente, ao Deus Todo-Poderoso:

VOZ-OFF (FEMININA)

Ó Deus, se esta criança que estou carregando no ventre for uma menina, dê-lhe a chance de falar abertamente e de saber a verdade da qual eu, sua mãe, fui privada.

NARRADOR

Sua oração foi respondida, pelo menos, em parte. A criança era uma menina. Seu nome, Lua. Lua Moore nasceu no primeio dia de novembro de 1871. A infância de Lua foi cheia de espantos e admiração. Suas professoras logo perceberam que estavam lidando com uma criança abençoada. Lua cresceu e tornou-se eloquente e talentosa. (entra Lua) Sua mãe foi estimulada a enviá-la para onde aqueles raros talentos pudessem ser devidamente desenvolvidos.

LUA

A minha querida mãe, sempre desejando o melhor para mim, ajudou-me a ir para Chicago para estudar arte dramática. Meus amigos ficaram confusos. "Por que Lua, com seu dom, preferiu Chicago à Nova York? Há muito mais futuro em Nova York! "Até eu não sabia porque havia tomado esta decisão, mas toda vez que pensava em ir para Nova York, uma força interior me dirigia para Chicago. Em Chicago, superava meus professores, mas nada me deixava satisfeita. Gradualmente, percebi que nenhuma carreira, por mais triunfante que fosse, poderia satisfazer o meu interior.

NARRADOR

Toda a vida de Lua tornou-se uma busca pelo Espírito da Verdade. Ia de igreja em igreja, em busca de respostas àquelas perguntas que sua mãe havia plantado há anos em seu coração. Lua tinha somente 22 anos quando a famosa Feira Mundial iniciou-se em Chicago, em 1893. Foi nesta ocasião que o Parlamento Mundial da Religião reuniu-se e a primeira palavra veio para o mundo ocidental sobre uma nova e maravilhosa Fé.

LUA

Enquanto o Parlamento da Religião se realizava , eu orava a Deus, O Todo-Poderoso e pedia que Ele me ajudasse a encontrar a verdade. Enquanto lia o jornal, vi a notícia sobre o Parlamento da Religião. Naquele artigo meus olhos viram pela primeira vez o nome de Bahá'u'lláh. Aquele ia ser um dia de grandes descobertas para mim. Senti uma irresistível urgência em visitar um amigo, onde encontrei um desconhecido persa. De repente, comecei a conversar espontaneamente com ele e perguntei : "Você ouviu falar do persa Bahá'u'lláh e Sua Fé?" Houve um longo momento de silêncio, ele olhou para mim sorrindo e disse: "Sim, eu sou um seguidor de Bahá'u'lláh." E, assim, fiz muitas perguntas que foram respondidas com uma simplicidade e clareza que acenderam dentro de mim uma chama. Eu estava tão impaciente e ansiosa que o desconhecido me disse que deveria ser paciente e que chegaria o dia em que iria aprender mais sobre esta nova Fé. Fui para casa e orei a noite toda.

De manhã cedo,uma querida amiga bateu à minha porta e disse: "Lua, eu encontrei uma nova e maravilhosa religião. Eu acho que é exatamente o que você está buscando". Agradeci, mas disse a ela que já havia feito uma maravilhosa descoberta por conta própria. Mas a Madame Maartens foi insistente: "Há uma reunião hoje a noite, vá e veja você mesma.". Eu estava impaciente, mas ela havia sido sempre tão companheira que eu não podia desapontá-la, fui ao encontro. Quando cheguei lá, fui apresentada ao palestrante, meu coração encheu-se de alegria, lá estava o desconhecido na minha frente.

NARRADOR

Durante as semanas de estudo intensivo que se seguiram, Lua estava sempre entre os primeiros a chegar e os últimos a partir. Que dias de emoções eram aqueles! Os questionamentos foram sendo todos respondidos: Sim, Bahá'u'lláh é o retorno de Cristo. Sim, Ele cumpriu todas as profecias da Bíblia. Sim, todas as raças são iguais perante Deus. Sim, sim, sim - tinha a resposta de todas aquelas perguntas feitas por sua mãe, enquanto Lua ainda estava no ventre materno. Gradualmente, todas as suas dúvidas foram removidas. Durante aqueles dias, Lua memorizou as palavras de Bahá'u'lláh. Ela absorvia cada palavra, sempre buscando uma maior compreensão. Conforme os meses passavam, o inevitável aconteceu. Lua, mais uma vez, eclipsou o seu professor. Sua insistente demanda por maiores informações sobre Sua gloriosa mensagem foi redobrada.

LUA

Me foi dito que havia um homem maravilhoso na Terra Santa, o filho de Bahá'u'lláh. Seu nome era 'Abdu'l-Bahá. Ele poderia responder todas as minhas questões. Oh, se eu pudesse alcançá-Lo, seria guiada à nascente desta verdade espiritual! Formamos um grupo de 15 pessoas, dentre os quais estavam a querida May Maxwell e meu marido, Edward Getsinger. Nenhuma palavra poderia trazer maior felicidade ao nosso coração do que a visita ao Mestre. 'Abdu'l-Bahá vivia na cidade-prisão de 'Akká e ainda era considerado prisioneiro, assim como os peregrinos que estavam com Ele. Ele nos disse:

"Esta é a prisão e em uma prisão não se encontra descanso. Vocês permanecerão nesta prisão conosco e serão contados como prisioneiros. Em verdade, vocês são meus companheiros no serviço ao mundo, e vocês estão na prisão como Eu, e em tudo somos companheiros".

NARRADOR

Esta era a Lua que iria tornar-se a "instrutora-mãe"do Leste, e a "Arauta" do novo-dia que breve alvoreceria na América. 'Abdu'l-Bahá deu-lhe o título persa, Levá, o Estandarte. Ela iria agitar a bandeira do Convênio em várias terras. (pausa) Chegou o dia que aqueles peregrinos deveriam partir. Naquela ocasião, dentre as palavras de conforto e inspiração ditas por 'Abdu'l-Bahá, estavam:

"Agora chegou o tempo em que devemos nos separar, mas nossa separação é apenas física, em espírito estamos unidos... Nunca esqueçam isto, olhem um para o outro com os olhos da perfeição; olhem para mim, sigam-me, sejam como Eu; não pensem em si mesmos ou em suas vidas, se estão comendo ou dormindo, se possuem conforto, se estão bem ou doentes, se estão com amigos ou inimigos, se estão recebendo louvor ou crítica. Olhem para mim, sejam como eu; vocês devem morrer para si mesmos e para o mundo; assim, nascerão novamente e entrarão no Reino do Céu. Vejam como uma vela dá sua luz. Ela oferece sua vida gota por gota, a fim de emitir a chama da sua luz ."

Lua

Apesar das instruções do Mestre serem compassivas e amorosas, para mim, deixar a presença de 'Abdu'l-Bahá era o maior desastre possível. Eu sentia estar sendo banida da companhia do meu amado Mestre. Sentia que 'Abdu'l-Bahá mandava-me de volta para ensinar-me paciência. Sabia quão desesperadamente precisava aprender esta lição, mas deixar a presença de 'Abdu'l-Bahá era como sair da luz do sol para entrar na escuridão.

Agora, eu tinha um objetivo, deveria falar com todo o mundo sobre Bahá'u'lláh. Oh, Mestre como me encorajastes! Um dia Ele me disse: "Lua, você deve tornar-se corajosa como Tahereh" e me deu uma oração para recitar para alcançar este objetivo, mas como eu sabia da glória e grandeza de Tahereh, disse-lhe: "Mestre, isto está além de mim, eu sou muito fraca, cheia de faltas. Se eu orar para ser como ela, Deus saberá que estou mentindo." 'Abdu'l-Bahá olhou-me e disse: "Você deve!" E me disse que deveria orar sempre para ser como Tahereh, a qual rompeu com o passado, abandonou o véu, e soprou a trombeta que ajudou a anunciar o Novo Dia de Deus.

NARRADOR

'Abdu'l-Bahá diversas vezes dissera a Lua: "Dia e noite você deve se engajar em difundir os ensinamentos de Bahá'u'lláh. Nada lhe será mais proveitoso". Assim, ela se esqueceu de tudo, exceto do ensino da Palavra de Deus. Começou a semear em todas as partes da América. A vida de Lua tornou-se um exemplo vivo das Palavras de Bahá'u'lláh: "Sê irrestrito como o vento, enquanto levares a Mensagem de Deus...Ele sopra em todas as direções, como ordenado pelo seu Criador."

LUA

Um dos desejos mais profundos da minha vida era que um dia me fosse permitido seguir os passos do Mestre, mesmo que fosse por uma distância muito curta. Um dia, estava caminhando com 'Abdu'l-Bahá e alguns amigos, nas brancas areias do mar perto de Akká. Eu estava caminhando um ou dois passos atrás do Mestre, quando percebi Suas pegadas naquela areia.

De repente, espontaneamente, comecei a caminhar atrás de 'Abdu'l-Bahá e a trilhar nos Seus passos, colocando meus sapatos um após o outro nas Suas pegadas. 'Abdu'l-Bahá, sem se virar, disse para mim: "O que você está fazendo? "Estou seguindo os Seus passos, Amado Mestre. Sem uma palavra, 'Abdu'l-Bahá continuou caminhando vigorosamente.

De repente, senti uma forte dor no meu tornozelo, quando olhei para baixo percebi que havia sido picada por um escorpião. Gritei, mas o Mestre não se virou nem diminuiu Sua caminhada. Continuei andando com grande dificuldade, o tornozelo estava inchando rapidamente, a dor era intensa, mas cerrando os dentes eu me esforçava para continuar. Quando o sofrimento tornou-se quase insuportável, o Mestre virou-Se para mim e disse: "Isto é o que realmente significa seguir os Meus passos". Assim, mais uma vez, o amado Mestre me ensinou a lição do sacrifício no caminho de Bahá'u'lláh.

NARRADOR

Em outra ocasião, chegou uma carta de 'Abdu'l-Bahá onde Ele a convocava para realizar uma de suas missões mais importantes. Lua ficou surpresa ao abrir a carta do Mestre e ver que lá havia outra carta. Era uma carta escrita por 'Abdu'l-Bahá ao rei da Pérsia que estava em Paris. A carta explicava que mais uma vez os fanáticos religiosos na Pérsia começavam a executar os seguidores da Fé Bahá'í. 'Abdu'l-Bahá havia escolhido uma mensageira especial. Apesar de haver muitos bahá'ís em Paris naquela época, foi Lua que vivia na América que Ele escolhera como mensageira. Assim que Lua chegou a Paris, procurou o Primeiro Ministro da Pérsia. (Entra o secretário oficial)

SECRETÁRIO OFICIAL
Pois não, a senhora deseja alguma coisa?
LUA

(segurando um envelope nas mãos) Sim, por favor, poderia levar uma mensagem minha para sua Excelência e me permitiria aguardar a resposta?

SECRETÁRIO OFICIAL

Não, não. De jeito nenhum. Ele não está disposto a receber ninguém pois seu filho está seriamente doente e não há nenhuma expectativa de vida para o menino.

LUA

(insiste gentilmente) Mas você não poderia sequer perguntar-lhe se eu posso vê-lo amanhã, caso neste interim seu filho estiver melhor?

SECRETÁRIO OFICIAL

(franzindo as sombrancelhas impacientemente) Minha senhora, como estava lhe dizendo, pode ir embora. Já lhe disse que ele não vai falar com ninguém.

NARRADOR

Mas Lua não partiu. Finalmente, o secretário oficial olhou-a mais uma vez. Ela sorriu para ele com paciência amorosa.

SECRETÁRIO OFICIAL

(balança os ombros e diz impacientemente) Muito bem. Espere aqui então. (sai)

LUA

Enquanto o oficial foi trazer uma resposta para mim sobre a audiência com o primeiro-ministro, eu orava a Deus, o Todo-Poderoso para que me concedesse a bênção de poder cumprir a minha missão.

SECRETÁRIO OFICIAL

(retorna com um olhar confuso) O ministro a verá amanhã. Mas somente sob suas próprias condições!

LUA

Oh, que bom. Muito obrigada. Agradeço muito pela sua atenção.

(Secretário oficial sai de cena)
LUA

Naquela noite em Paris, reunimos tantos bahá'ís quanto nos era possível. Quando estávamos reunidos, eu lhes disse sobre minha tarefa.Contei aos amigos como o Mestre me ensinou que sempre que temos dificuldades estas serão resolvidas através de orações sinceras, como Ele havia ensinado sobre o poder da oração para as dificuldades revelada pelo Báb. E assim, durante toda aquela noite tivemos uma vigília de orações pelo menino. Na manhã seguinte, retornei ao escritório do primeiro-ministro.

SECRETÁRIO OFICIAL

(entra e recebe Lua com sorriso de boas-vindas) Ah, a senhora quer uma resposta?

LUA
Como está o menino, está melhor?
SECRETÁRIO OFICIAL

A crise passou. Ele está bem no caminho da recuperação.

LUA
Que maravilha. Graças a Deus!
SECRETÁRIO OFICIAL
O primeiro-ministro já irá recebê-la.
(saem de cena)
NARRADOR

E assim, Lua foi bem sucedida, duas petições alcançaram o rei, uma através da Primeiro Ministro e outra entregue pessoalmente por Lua. Por algum tempo depois da apresentação destas 2 petições, houve uma notável interrupção nas perseguições aos bahá'ís.

LUA

(dos bastidores) Ó, 'Abdu'l-Bahá como te agradeço. Ó meu Amado Mestre, como a persistência que me ensinastes com tanto amor e como as orações realizadas com sinceridade com os amigos abriram as portas!

ATO II
NARRADOR

Em 1908, quando Lua tinha 38 anos, 'Abdu'l-Bahá foi libertado da prisão. Imediatamente, Ele fez planos para visitar o Ocidente. 'Abdu'l-Bahá iria mostrar, pessoalmente, o que ensinava sobre o que significa levantar-se e ensinar a Causa de Deus. Foi, primeiro, ao Egito, depois à Europa e, posteriormente, à América. Um dos mais grandiosos dias de Lua foi quando 'Abdu'l-Bahá chegou à América.

(Lua entra)
LUA

Oh, que dias maravilhosos eu tive com meu amado Mestre! Eu não queria ficar longe do meu Bem-Amado nem sequer por um instante. Lembro-me de um dia quando eu estava em Haifa e me preparava para partir. 'Abdu'l-Bahá disse sorridentemente: "Lua, você irá começar a planejar a sua volta para cá assim que chegar na América?". Então, respondi com honestidade: "Não, amado Mestre, eu deverei começar a planejar assim que entrar no barco".

NARRADOR

'Abdu'l-Bahá passou os meses de junho e julho em Nova York. Foram dias de extrema alegria para Lua. No fim de junho, entretanto, 'Abdu'l-Bahá chamou Lua e lhe disse que queria que ela fosse ensinar na Califórnia. Lua ficou frenética. Não queria deixá-Lo. Estava tão ansiosa para ficar com Ele, que frequentemente esquecia-se da lição de paciência que Ele estava tentando ensiná-la.

LUA

Eu fiquei tão desesperada com esta notícia de que ficaria longe de meu Mestre que fui logo visitar minha querida amiga Juliet Thompson, e expliquei-lhe um plano que tinha em mente.

NARRADOR

'Abdu'l-Bahá havia pedido a Juliet que pintasse um retrato de Lua. Esta era uma maravilhosa indicação do grande amor que Ele tinha por Lua. Então todo o plano de Lua circundava-se em torno da pintura.

LUA
Juliet! Juliet!
(Juliet entra)
JULIET
O que aconteceu?
LUA

Juliet, o Mestre pediu para que você pintasse meu retrato, por favor, querida, diga-Lhe que você não pode pintar meu retrato se eu estiver na Califórnia.

JULIET
Ele sabe disso.
LUA

Mas se você lembrá-lo, talvez Ele ache que é mais importante que eu fique aqui com Ele.

JULIET
O importante é ser obediente para com o Mestre.
LUA

Eu sou obediente, irei à Califórnia, mas só quando não puder mais estar com o Mestre.

JULIET
Lua, Lua... seja obediente.
NARRADOR

Para Juliet, era impossível recusar algo que Lua lhe pedisse. Então Juliet foi até o Mestre e disse que não poderia pintar o retrato de Lua se ela estivesse na Califórnia. O Mestre riu e disse que Lua retornaria a Nova York em um ano.

JULIET

Lua, querida, o Mestre disse que depois de um ano, quando você voltar eu poderei pintar seu retrato. Suas instruções finais foram: "Diga à Lua que vá a Califórnia".

LUA

(depois de um minuto de silêncio) Sim, eu obedecerei o Mestre. Mas Juliet você sabe que amanhã o Mestre irá para Montclair. Vamos vê-Lo, depois eu partirei.

JULIET

(espantada) Mas, Lua, nós não podemos fazer isso. Não fomos convidadas, além disso você tem de ir à Califórnia.

LUA

Mas, nós temos uma desculpa perfeita. Você tem as provas de todas aquelas fotografias recentes tiradas de 'Abdu'l-Bahá. Ele deve vê-las, para aprová-las.

JULIET
Você realmente crê nisso?
LUA
Claro, querida.
(As duas saem de cena)
NARRADOR

E assim, foram juntas para Montclair. O Mestre olhou para as fotografias, mas não olhou para Lua. Ela começou a pensar que o Mestre nunca mais olharia para ela novamente, pelo menos, até que ela partisse para a Califórnia. A próxima visita de 'Abdu'l-Bahá foi a New Jersey, o Mestre convidou todos os bahá'ís a se juntarem a Ele numa grande festa da unidade. Sim, 'Abdu'l-Bahá também convidou Lua.

LUA

Fiquei muito encantada e feliz com este convite do Mestre, mas para minha tristeza percebi que assim que a festa terminasse, 'Abdu'l-Bahá aguardava a minha partida para a Califórnia. Logo que a festa terminou, percebi que havia me machucado com uma erva de uma trepadeira venenosa; a dor e o inchaço eram insuportáveis. Mas eu estava cheia de felicidade, assim estaria incapacitada, especialmente para longas viagens, e poderia ficar perto do meu Amado Mestre. Rapidamente, falei com Juliet sobre minha feliz aflição.

JULIET

(entra e olha os tornozelos inchados de Lua) "Oh, Lua. 'Que castigo'."

LUA
Não, é uma recompensa.
JULIET
Isto é um teste.
LUA

Isto é guia. Por favor, Juliet vá até o Mestre e diga-lhe que meus pés estão inchados devido ao veneno e que não posso caminhar. Assim, não tenho possibilidade de ir a Califórnia.

NARRADOR

Relutante, Juliet levou a mensagem. O Mestre riu, novamente, e disse: "Eu curarei Lua". Juliet voltou com uma xícara de chá.

JULIET
O Mestre mandou você tomar este chá.
NARRADOR

Lua foi obediente e tomou o chá até a última gota.

LUA

No fim da mesma tarde o Mestre veio me visitar, Ele disse sorrindo: "Você está bem Lua, você pode partir para a Califórnia. Eu a curei com um copo de chá gelado". Eu fui curada tanto interiormente quanto exteriormente, e para minha intensa felicidade a viagem transformou-se em uma benção. 'Abdu'l-Bahá me mandou na frente para preparar o caminho, logo Ele e Seus companheiros uniram-se a mim na Califórnia.

NARRADOR

O Mestre apontou Lua como a Arauta do Convênio e exortou-a a ir avante e proclamar esta verdade. Neste momento, Lua foi transfigurada, ela era uma chama de Deus, como um metal que é colocado no fogo, tudo o que havia sido no passado foi queimado. Agora, ela possuía as características do fogo. A chama que o Mestre acendeu no coração de Lua, acenderia outras chamas por toda a América, e assim ela ganharia o título de "Instrutora-mãe do Ocidente".

LUA

Durante muitos meses estive afastada do meu Amado Mestre por um oceano, todo dia orava para que pudesse servi-Lo. Em um destes dias, quando retornava triste para casa devido minha falta de perfeição no caminho da Causa de Deus, uma carta com carimbo da Palestina estava me esperando. Que alegria! Era uma carta do Mestre onde Ele me chamava para levar a mensagem de Bahá'u'lláh para a India. Imediatamente obedeci. Minha alegria completou-se quando, depois desta viagem, o Mestre chamou-me para ir à Terra Santa até a Sua presença. Permaneci durante sete meses na presença de meu Bem-Amado. (Pausa) Um dia diante d'Ele perguntei-Lhe se permitiria que eu fosse uma mártir e pedi aos amigos que orassem nos Santuários Sagrados para que eu tivesse o privilégio de morrer pela Fé. (Pausa) Quando, pela primeira vez, 'Abdu'l-Bahá ouviu o meu pedido, riu com prazer e olhou-me com muito carinho e amor. Quando insisti no meu pedido, o Mestre tornou-se silencioso e não respondeu. (Com um suspiro) Não implorei mais.

NARRADOR

Já se passavam sete meses que Lua estava na presença do Mestre. Um dia 'Abdu'l-Bahá chamou-a e com profundo amor disse-lhe que deveria retornar à América. Lua aprendeu a sua lição de desprendimento nessa conversa com o Mestre antes de sua partida. 'Abdu'l-Bahá perguntou-lhe: "O que farás se eles contestarem estes ensinamentos?"

LUA

Eu me dirigirei a 'Abdu'l-Bahá e pedirei confirmação espiritual. Depois de repetir o nome de Bahá'u'lláh abrirei meus lábios e então direi o que me for dado para ser dito.

NARRADOR

E Abdul'-Bahá perguntou-lhe: "O que farás se te perseguirem?"

LUA

Saberei que é um presente celestial, e que o amor de Deus está jorrando sobre mim.

NARRADOR

E o Amado Mestre perguntou: "E o que farás se te aprisionarem?"

LUA

Agradecerei a Deus por ter andado na Sua senda e por me ter permitido compartilhar daquilo que 'Abdu'l-Bahá tem sofrido há anos.

NARRADOR

'Abdu'l-Bahá permaneceu em silêncio por um instante e depois perguntou: "E o que farás se te matarem?"

LUA

Eu saberei que o primeiro pedido que fiz em toda minha vida a 'Abdu'l-Bahá me foi concedido, e que fui privilegiada ao dar minha vida para que os homens possam ouvir a Palavra de Deus.

NARRADOR

Os olhos de Lua estavam cheios de lágrimas. Ela olhou para o seu Amado e disse:

LUA

No minuto que meu espírito estiver livre do meu corpo, eu voarei para Deus, de quem espero nunca mais me separar por toda a eternidade.

NARRADOR

Houve um longo silêncio, os olhos do Mestre estavam fechados. Ele disse: "Quando alguém parte para ensinar, deve pensar sobre todas estas questões. Deve estar preparado para tudo que venha no Caminho de Deus." (Pausa) Lua agarrou-se à mão de 'Abdu'l-Bahá naquele último dia. Seus olhos pousavam sobre aquele semblante que ela amava mais do que qualquer outra coisa sobre a terra. 'Abdu'l-Bahá conhecia o seu coração. Lua virou-se e, chorando silenciosamente, deixou Sua presença, mas o seu coração permaneceu. Ela nunca mais veria aquela face amada, nem ouviria aquela voz maravilhosa. Ela estava partindo. Estava deixando o Seu Amado Mestre para nunca mais vê-Lo neste mundo. Nunca mais! (Pausa) Quando Lua chegou ao Egito ficou terrivelmente doente e foi forçada a deixar o barco. Enquanto estava no Egito a guerra irrompeu e ela não pôde viajar.

LUA

Apesar da minha saúde enfraquecida, tentava aumentar o ritmo das minhas atividades de ensino. Os amigos imploravam para que eu descansasse. Eu sorria e respondia: "O Mestre jamais descansa e sempre diz: "O descanso material pode nos privar do descanso espiritual". (Pausa) Num dia de primavera, no Cairo, quando voltava para casa encontrei vários estudantes que estavam ansiosos para ouvir mais sobre a Fé Bahá'í. Eu estava muito fraca e cansada. Depois de alguns minutos, pedi desculpas e fui para o meu quarto.

(Lua sai de cena )
NARRADOR

Pouco tempo depois, eles ouviram um forte grito de dor. Lua estava em grande agonia. Mesmo então, ela pensou em somente uma coisa: 'Abdu'l-Bahá. Ela gritou...

LUA

(fala dos bastidores) Deus é o Mais Glorioso! Deus é o Mais Glorioso! Deus é o Mais Glorioso!

NARRADOR

Desta vez, o anjo da morte não se manteve longe. Lua aproximava-se dos seus 45 anos quando morreu, tão jovem e tão bonita. (Pausa) 'Abdu'l-Bahá sentiu profundo pesar quando recebeu a notícia da sua morte. Um dos secretários de 'Abdu'l-Bahá escreveu: Ele ficou profundamente abalado e sentiu mais do que qualquer um de nós esta grande perda. Desde aquele dia ouvi-O exclamar mais de 100 vezes: Que perda! Que perda! Que perda!" (Pausa) 'Abdu'l-Bahá telegrafou para os amigos na América: "A serva de Deus, Lua, acesa com o fogo do amor de Deus partiu. Lua, a folha abençoada, tem sido a causa de guia de muitas almas. Ela foi dotada de um coração que estava atraido, uma língua eloqüente, e passou seu tempo dia e noite ensinando." Neste momento, ela está chamando do Reino e dizendo: " Sabem vocês que benção eu atingi?". Lua, sem lar na terra, agora no mundo das alturas tem o seu palácio. Esta é a promessa de seu Amado Mestre.

MARTHA ROOT
(1872 - 1939)
Adaptado da obra
"The Passing of Exquisite Music"de Ann Boyles
e do "Curso Para Pioneiros"

(No palco uma mesa com cadeira, algumas malas, uma roupa branca em um baú, pastas com recortes de jornal, máquina de datilografar. Música instrumental, Martha está em cena, sentada)

NARRADOR

"Tu és realmente uma Arauta do Reino e precursora do Convênio, e te sacrificas. Mostras bondade para com todas as nações. Estás espargindo a semente que a longo prazo trará milhares de colheitas. Plantas uma árvore que dará folhas, flores e frutos até a eternidade, e cuja sombra crescerá dia a dia em magnitude."

Shoghi Effendi, designou-a como "aquela indômita e fervorosa discípula de 'Abdu'l-Bahá" e modelo de instrutora bahá'í viajante; chamou-a também de "Arauta sem par da Causa".

Martha Root nasceu no dia 10 de agosto de 1872 em Ohio, nos Estados Unidos. Ingressou na Universidade de Chicago, tornando-se professora e jornalista.

MARTHA

(Levanta e caminha) Meu contato com a Fé e como me declarei bahá'í é uma história muito curiosa. Como jornalista, eu vivia fazendo reportagens sobre viagens, moda, automóveis, esportes, sociedade e religião. Mas eu sempre estava procurando "A Grande História".

Bem, "A Grande História" era tão grande que a princípio eu não quiz saber nada a respeito dela. Meu primeiro contato com ela foi em 1908 em um restaurante. Eu estava cobrindo a Convenção Internacional para o jornal da cidade de Pittsburgh, quando fomos com um pequeno grupo jantar em um restaurante.Se não me engano, quando o garçom trouxe a conta, estávamos discutindo se os ateus seriam ou não condenados eternamente. Decidimos então ir para casa e lá continuar a discussão.

Estávamos começando a ir embora, quando um senhor da mesa ao lado, pediu desculpas e ofereceu seu pequeno parecer sobre o assunto. Ele disse que estava acabando de voltar de uma viagem à Palestina e ao Egito, e tinha lá verificado que seguidores de outras religiões além do Cristianismo estavam levando uma vida bastante decente. De fato, ele era de opinião que a humanidade estava entrando em uma Nova Era onde todos reconheceriam que amam ao mesmo Deus, não importando o nome pelo qual o chamam.

Para mim, tudo aquilo parecia muito esquisito, mas considerando que eu era a editora do jornal Religião e Sociedade, dei o meu cartão de visitas. Além disso, uma jornalista nunca sabe de que fonte imprevisível, uma boa história pode aparecer.

Este homem chamava-se Roy Wilhelm. É, havia algo no olhar deste homem que eu não sabia dizer o que era, mas ele não parecia um fanático religioso. Ele parecia bem normal, digno e bondoso. Então, quando perguntou se poderia me escrever sobre o assunto, concordei. Logo depois, um livro chegou pelo correio. Daí a pouco, outro, e depois mais um.

Por mais ou menos um ano, Roy Wilhelm, persistentemente, enviou-me literatura bahá'í, a qual eu nunca lia. Simplesmente enviava para os líderes Teosofistas, pessoas do Novo Pensamento. Certamente eu não queria ser vista com um livro bahá'í. Eu deixei o meu primeiro livro num balcão de uma farmácia. Mais tarde, descobri que a esposa do dono da farmácia o pegou, leu, e tornou-se bahá'í. (sorrindo) Acho que meu instinto jornalístico falhou um pouquinho neste caso.

Mas Roy insistiu. Ele respondia às minhas perguntas e convidava-me a ler mais livros. É, comecei a eventualmente ler os livros que ele enviava. E então, sendo uma repórter, decidi encontrar outros bahá'ís e descobrir o resto da história. Viajei, então, para Nova York, Washington e Chicago para colher os fatos.

É, eu colhi os fatos. E, após um ano recolhendo fatos, eu acordei uma manhã e descobri que estava apaixonada. Eu estava tendo um romance com a religião, eu estava totalmente envolvida pela Fé Bahá'í! E então o que eu poderia fazer? Abracei-a e a fiz minha. É lógico, escrevi sobre ela.

De que forma posso expressar o que significou para nós, um pequeno número de bahá'ís na América, a vinda de 'Abdu'l-Bahá em 1912? Alguns de nós, como Lua, O seguiu para tudo quanto foi lugar! Outros, como Fred Mortensen, viajaram embaixo de vagões para ficar perto dEle.

Eu queria desesperadamente encontrá-Lo. Vê-Lo com os meus próprios olhos, e não mais através dos olhos daqueles que tinham sido tão felizes por vê-Lo. Então tirei alguns dias de folga do trabalho e dei um jeito de ir a todas as reuniões em que 'Abdu'l-Bahá estava nas regiões de Nova York e Washington.

Mas ver 'Abdu'l-Bahá em pessoa foi a maior surpresa! Energia personificada! Eu sempre havia imaginado 'Abdu'l-Bahá como uma pessoa de natureza espiritual profunda e muito dócil.

Oh, mas o Mestre era muito mais do que a nossa imaginação poderia conceber! Ele cintilava! Que vibração! Que dinamismo! Nós mal podíamos acompanhá-Lo! (pausa)

Eu obtive permissão para fazer uma entrevista com 'Abdu'l-Bahá. No início imaginei que seria uma entrevista. Claro, uma entrevista especial, porém, apenas uma entrevista. Eu lhe perguntaria algumas coisas e Ele responderia, e talvez eu até escrevesse um artigo para o jornal, baseado no que Ele havia dito. (sorrindo) Isso era o que eu imaginava até entrar na presença de 'Abdu'l-Bahá. (com emoção) Quando fui conduzida à Sua presença, toda habilidade jornalística que eu havia adquirido desapareceu. Seu rosto era luz deslumbrante, eu não podia olhar. Ele foi tão meigo, tão amoroso. Era como um querido e amoroso pai. (senta-se na cadeira) Sentei-me ao seu lado, e Ele pegou as minhas mãos e as segurou.

Fiquei olhando para aquelas mãos que cobriam as minhas e pensei: "Estas são as mãos do Centro do Convênio de Bahá'u'lláh, o filho de Bahá'u'lláh!" Não podendo controlar minhas lágrimas, deixei-as cair sobre Suas mãos. (pausa com suspiro) Eu chorei, chorei e chorei até sentir que com certeza não havia mais lágrimas dentro de mim. Quando terminei, Ele secou meus olhos e disse na mais suave, na mais doce voz que já ouvi: "Agora, minha filha, diga-me o que é que há?"

Como Ele sabia? Eu não pretendia contar para ninguém - e certamente não iria incomodar 'Abdu'l-Bahá sobre aquilo que me causava tanto sofrimento. (com dificuldade) "Eu tenho um caroço... (coloca mão no seio) ... talvez dois... no meu seio. Eu não contei para ninguém. Fiz uma operação horrível há tempos e agora não poderei ter filhos. Não quero ir para outro médico. Por favor, me ajude." (pausa) E assim Ele fez. Ele foi o meu Médico de confiança. E nós dois eramos os únicos a saber. (levanta-se)

Em 1919, as Epístolas do Plano Divino, escritas por 'Abdu'l-Bahá foram lidas na Convenção Nacional Bahá'í Americana. O efeito foi eletrizante! Ouvir aquelas palavras do Mestre que ressoavam por toda a sala dizendo:

"Oh, se Eu pudesse viajar, nem que fosse a pé e na maior pobreza, para estas regiões e exclamar o chamado de Yá Bahá'u'l-Abhá, nas cidades, vilas, montanhas, desertos e oceanos, promovendo os Divinos ensinamentos! Infelizmente, não o posso fazer. Quão intensamente deploro! Queira Deus, vós o possais."

Quando ouvi estas palavras do Mestre, comecei a planejar viajens para ensinar a Fé, e escrevi para 'Abdu'l-Bahá. Ele respondeu dizendo que era para todos os bahá'is da América do Norte viajarem a fim de ensinar. Bem, Ele não teve de dizer isto uma segunda vez, era exatamente o que estava esperando. Antes de ter tempo para pensar, voltei para o quarto, fiz as malas e marquei passagem para a América do Sul. (pega a mala) Assim, em 1919, iniciei os meus 20 anos de ensino contínuo, dando quatro voltas ao redor do mundo, viajando de trem, de navio, em carros e carruagens, em pequenos barcos e até mesmo a pé. (deixa mala no chão)

Na minha primeira viagem para a América do Sul, o navio aportou em Belém, no Pará e aproveitei para visitar o principal jornal da cidade. Lá ninguém falava inglês, nem esperanto. Por sorte encontrei um senhor, que era o melhor advogado do Pará, e ele falava inglês. Então ficou combinado que eu escreveria um artigo de mil palavras sobre a Fé e que ele traduziria. Este foi o meu primeiro contato no Brasil.

A próxima cidade foi Recife, onde também encontrei dificuldades com a língua. Bem, quando fui me hospedar no hotel encontrei uma mulher americana. Oh, Bahá'u'lláh! Como Tu tens nos guiado, como Tu abres as portas. Esta senhora, a sra. Vegas, era prima de Lua Getsinger, famosa instrutora bahá'í nos Estados Unidos. Falamos sobre Lua e uma grande simpatia estabeleceu-se entre nós. Com ela, visitei os cinco jornais da cidade, sendo vários artigos publicados e tendo sempre a sra. Vegas como intérprete.

Próximo destino: Salvador. E depois São Paulo, Rio de Janeiro e por fim a cidade de Santos. Durante toda esta viagem, sempre visitava as autoridades, bibliotecas, jornais...

E enquanto eu viajava pela América do Sul, enviava relatórios para 'Abdu'l-Bahá relatando com todos os detalhes que pudesse, sobre os lugares que visitava. Que alegria receber uma resposta de Suas abençoadas mãos!

(pega uma carta) 'Abdul'-Bahá respondeu: "É claro e evidente que o poder do Reino está te ajudando, que os olhos de Sua amorosa bondade estão virados para ti, que as hostes do Concurso Supremo estão te ajudando e o poder do Espírito Santo te está amparando. Dentro em breve os resultados desta poderosa incumbência serão descobertos e evidenciados perante os olhos de todos os homens." (guarda a carta)

Como poderia qualquer pessoa deixar de continuar se mexendo, servindo, ensinando, após receber uma carta tão cheia de amor? E após o Mestre ter partido deste mundo, o amado Guardião me escrevia. Algumas vezes, cartas como estas eram a única forma de me manter seguindo. (senta-se) Muitas vezes, enquanto meu querido pai era vivo, eu voltava para casa durante alguns meses para cuidar dele. (levanta-se)

Oh, meu querido pai! Foi o único da minha família que entendeu uma faísca do que eu havia encontrado na Fé Bahá'í. Ele se manteve ao meu lado quando o restante da minha família tentava me internar devido as minhas "noções excêntricas".

Eu tentei inundar a todos com amor quando despejavam grosserias sobre mim, da mesma forma que o Mestre nos havia dito para fazer - da mesma forma que Jesus nos ensinou. Mas admito: por muitas vezes esta foi uma tarefa díficil.

Mas quem em sua vida foi mais abençoada que eu?

Lembro-me de quando estive em Budapeste no início de 1926, e veio à minha mente que a rainha Maria da Romênia precisava e merecia receber a mensagem de Bahá'u'lláh. Bem, o ministro americano me afirmou que eu não tinha a menor chance de ver a rainha. Mas isto não iria me deter. Simplesmente, contatei uma de suas damas de companhia, lhe enviei uma foto de 'Abdu'l-Bahá e o livro "Bahá'u'lláh e a Nova Era". (estala os dedos) Mágica, dentro de 24 horas eu estava frente a frente com a rainha, dentro de seu próprio palácio.

E, me digam, que roupa eu usaria para visitar uma Rainha? Eu revirei meu baú e achei um lindo vestido longo, branco, (pega o vestido) que eu havia usado em 1921 numa Convenção Bahá'í. Vestir-me apropriadamente era importante. Sempre fiz questão de usar branco para as ocasiões especiais. Oh, eu sei que nunca fui de grande beleza, mas quando ia falar sobre a Mais Preciosa Dádiva na Fé Bahá'í fazia o possível para vestir-me de acordo. Esta era uma regra que nunca quebrei - e não era fácil estar sempre limpa, bem arrumada, roupa bem passada, com o tipo de programação que eu mantinha. Em todo caso, para a querida Sua Majestade, eu certamente me vesti de branco. (guarda vestido)

E os presentes? Eu tinha de levar alguns pequenos presentes apropriados para a ocasião. Presentes são importantes. Eu sempre levei presentes às pessoas com quem eu ia ter uma entrevista. Mas o que eu levaria para a Rainha Maria? Bem, eu pensei e pensei.

(tira presentes do baú)

Eu não conseguia me decidir sobre nenhum, então levei "O Maior Nome" e "Os Sete Vales", um pequeno frasco de perfume, uma caixa de balas, um ramo de lilás brancos, e o artigo de um Congresso sobre Educação que eu havia assistido recentemente em Edinburgh. Vocês sabem, antes do casamento, ela era a Princesa de Edinburgh. Achei que talvez isso fosse o suficiente. (guarda os presentes)

Ela me encontrou no topo de uma escada em forma de espiral. Enquanto eu subia, eu podia vê-la de pé. Ela era uma verdadeira rainha. A rainha Maria veio rapidamente à frente com um sorriso de boas-vindas. Como ela era linda, parecia uma flor, e seus grandes olhos azuis brilhavam com a luz de um grande espírito - ela sabe, ela entende, ela ama! Eu me curvei (curva-se) e fiquei dominada pela emoção, devido ao que via em seus olhos e depois que ela me cumprimentou, suas primeiras palavras foram: "Eu acredito que estes Ensinamentos são a solução para os problemas mundiais de hoje!"

Na noite anterior, até as três horas da madrugada, a rainha tinha lido o livro "Bahá'u'lláh e a Nova Era". E assim, imaginem só como foi a nossa conversa... Foi simplesmente divina! (pausa) A rainha Maria, que era uma escritora nata, começou imediatamente a escrever nos jornais. Em um dos seus artigos, assim escreveu:

(pega pasta e lê) "Uma pessoa trouxe-me um Livro. Eu escrevo com letra maiúscula porque é um livro glorioso, sobre amor e bondade, força e beleza. A mensagem que Bahá'u'lláh e seu filho 'Abdu'l-Bahá deixaram é surpreendente. Eu recomendo a todos vocês. Se alguma vez o nome de Bahá'u'lláh ou 'Abdu'l-Bahá chegar até vocês, não desprezem Suas Escrituras. Procurem Seus Livros e deixem que suas gloriosas, pacíficas palavras e lições criadoras de amor penetrem em seus corações, assim como penetraram no meu." (guarda a pasta)

Estas palavras foram escritas logo após o primeiro encontro com a rainha Maria e foram registradas em mais de 200 jornais nos Estados Unidos e Canadá - e também foram traduzidas para leitores da China, do Japão e em todo o Pacífico. (Pausa)

Minha segunda viagem para a China em 1937 foi muito diferente. Cheguei com uma expectativa de meses de trabalho frutífero, mas a guerra também já havia chegado naqueles remotos lugares do Pacífico.

Eu estava fazendo meu trabalho, dando aulas, escrevendo artigos para o jornal, levando livros bahá'ís para a biblioteca, quando de repente, as invasões aéreas começaram em Shangai. O zumbido, o som repetido - tick, tick, tick - mais alto, mais alto sobre nossas cabeças... Silêncio..... E daí (voz aumentando num grito e se abaixa como se estivesse se escondendo) as bombas, as horríveis explosões, o horror, a casa tremendo. Eu, no andar superior da casa, tinha certeza que ela havia sido atingida. Inclinei minha cabeça e rezei. Mas então aquele terrível zumbido e os roncos foram sumindo,o bombardeameno parou e, mais tarde, eu soube que 1200 pessoas morreram naquelas explosões, algumas delas a dois quarteirões de onde eu estava.

Eu sabia que não tinha sentido ficar em Shangai naquelas condições. Eu tinha de sair. Porém, não é facil fugir de um país com 23 itens de bagagens! Entre um e outro bombardeio eu empacotava desesperadamente. Ao chegar no navio me disseram que eu tinha direito a apenas uma das malas. (com tristeza) Uma mala! Felizmente eles afrouxaram um pouco quando souberam que eu era jornalista e me deixaram levar a máquina de datilografar também.

Bem, lá estavamos sentados e eu tinha que fazer alguma coisa a fim de levar meu pensamento para longe da possível aniquilação, então me dirigi ao homem que estava ao meu lado e comecei a lhe dar a Mensagem. Vocês podem imaginar a minha felicidade e surpresa quando ele respondeu: "Eu conheço a Fé Bahá'í muito bem! E eu a conheço. Você é a Srta. Martha Root que nos deu uma palestra sobre os princípios bahá'ís na Universidade de Michigan em 1931". É, acho que eu tinha mesmo... Naquele exato momento eu soube que Bahá'u'lláh estava tomando conta de mim e tudo ficaria bem.

Ah, e a minha viagem para a Pérsia, para os lugares sagrados bahá'ís. Pérsia. Abençoada terra de Bahá'u'lláh! Eu vivi uma vida inteira naqueles quatro meses. Não foram muito seguros também. Muitas vezes eu parei para pensar e agradecer a Bahá'u'lláh por aquela viagem através da Pérsia, pois sabia que só por Seu favor e Sua bondade estive em segurança. Cada passo era um drama interior e admito que às vezes ficava com medo.... Indo secretamente à casa do Báb em Shíráz, à casa de Bahá'u'lláh em Teerã, sentindo como se meu coração fosse explodir por ter tido o privilégio de orar naqueles Santuários abençoados. (com um suspiro começa a andar para o centro)

Tantas jornadas, tantas maravilhosas jornadas. Mas estas foram mais que viagens de um lado para o outro. Se elas tivessem sido apenas isto, eu já teria sucumbido há muito tempo... pelo cansaço, pela solidão de estar em um quarto estranho, numa cidade estranha, doente demais para chamar um bahá'í.... os itinerários absurdos.... os terremotos, os furacões... até a dura economia diária. Admito que por vezes sofri, derramei algumas lágrimas por causa disso tudo. Porém, mais que jornadas de um lado para o outro, as minhas jornadas foram dentro de mim mesma, eram aventuras espirituais.

E que aventuras! Aventuras para as quais você não necessita de 23 itens de bagagens. Nem sequer uma peça! Ou a máquina... ou nem mesmo um visto. Ah! sempre haverão jornadas, eu acho. Estaremos a caminho por toda a eternidade. Pelo menos é o que eu espero. (pega uma mala e sai de cena)

NARRADOR

Martha deixou Bombay no dia 29 de dezembro de 1938, com destino à Australia, Tasmânia e Nova Zelândia. De lá, planejara viajar ao Hawai. Seu corpo, porém, pelo câncer que há vinte anos nele se desenvolvia, decorrente de um tumor no seio, enfraquecera muito nos últimos seis meses, com fortes dores nos ossos, particularmente nas costas, transmitindo-se para as pernas, que gradualmente a incapacitava de caminhar, ou mesmo se mover no leito.

Martha deixou este mundo no dia 28 de setembro de 1939, aos 67 anos, na cidade de Honolulu, no Hawai. Martha acabara de embarcar em mais uma viagem, mas nesta não precisou dos inúmeros volumes de bagagem que sempre tinha de carregar consigo, nem precisou das dezenas de livros de endereços.

Aos bahá'ís do Irã, cujo amor por Martha Root era incomensurável, o Guardião telegrafou anunciando seu falecimento, dizendo:

"A folha pura, a instrutora ilustre, o sinal de desprendimento, a tocha de amor e afeição, o exemplo de coragem e fidelidade, o consolo do povo de Bahá - Martha Root - ascendeu ao cume da habitação eterna. O Concurso do Alto recebeu-a, saudando-a com as seguintes palavras: Bem-vinda, ó glória dos instrutores. Muito bem, muito bem, ó tu que te sacrificaste inteiramente em tua atração pelo Reino do Senhor dos Sinais Manifestos. Abençoada és mil vezes por este grau iluminado, exaltado, elevado, inacessível."

RÚHU'LLÁH
(1884-1896 )
Adaptado do vídeo
"Rúhu'lláh - The twelve year old martyr"
de Manouchehr Farid

(Música instrumental ao fundo. Nos bastidores estão batendo no assassino com chicote e estão gritando)

GUARDA 1
96, 97, 98, 99, 100
ASSASSINO
(que está apanhando, grita) Chega!
GUARDA 1
(que está batendo) Por hoje basta!
(Os dois guardas trazem o assassino para o palco)
GUARDA 2

(pendura o chicote na frente do assassino) Abra os seus olhos e olhe para este chicote! se você gritar ou reclamar de novo sobre a comida ou falar bobagem, eu vou pendurar você neste teto e com este chicote cortar seu corpo em pedaços (grita) Entendeu, seu assassino?

ASSASSINO
Sim, senhor.
GUARDA 1
Promete não reclamar mais?
ASSASSINO
Sim, prometo.
(Os guardas saem)
ASSASSINO

(senta-se devagar com raiva) Sim prometo, prometo quando sair daqui não deixarei nenhum de vocês vivos (repete devagar) prometo, prometo (deita no chão)

(Dos bastidores ouve-se a voz de algumas pessoas que estão conversando)

GUARDA 1
O que eles fizeram?
GUARDA 2

Eles são descrentes, são babís, e por ordem do governo de Zanján ficarão aqui até ser resolvida a situação deles.

GUARDA 1

Como será que podem dizer que uma criança é descrente?

GUARDA 2

Não sei o que dizer, esse menino realmente é muito inteligente e sábio. No caminho todos os soldados e guardas ficaram admirados com o menino e cuidaram bem dele.

GUARDA 1
Qual é o seu nome?
VARQÁ

Meu nome é 'Alí Muhammad, me chamam de dr. Varqá, sou filho de Mírzá Mihdí Yazdí.

CHEFE
Este menino é seu?
VARQÁ
Sim.
NAIEB
Qual é o nome dele?
VARQÁ
Ruhú'lláh.
NAIEB

(voz alta) Guardas, levem a comida deles para a minha sala e os levem para a cela. (Guardas, levam os dois, com grilhões no pé e correntes, para a cela)

GUARDA 1

Ó assassino! Trouxe visita para você, agora você não está mais sozinho. (enquanto Rúhú'lláh e Varqá entram, o guarda fala com gozação para o assassino) Veja, este senhor é médico, mostre suas feridas para ele, quem sabe pode curá-las.

(Ruhú'lláh vai perto do assassino e o cumprimenta)

VARQÁ
Meu filho, vem aqui e não amole este senhor.

(Querem levar Rúhú'lláh para prendê-lo do outro lado da cela)

VARQÁ
Por favor, deixem-no perto de mim.
GUARDA 2

( fala para o outro) Ele tem razão, vamos deixar a criança perto do pai.

(Levam o menino para perto de Varqá. Neste ínterim o guarda fala para o assassino)

GUARDA 1

Ó assassino! Cuidado para não ser enfeitiçado por eles, com as suas palavras eles enfeitiçam as pessoas para se tornarem babís. Os mullás falam que os babís enfeitiçavam as pessoas dando tâmaras para comerem. Logo após elas se tornavam babís. Pouco a pouco, como perceberam o truque passaram a não comer mais as tâmaras. Aí sabe o que eles começaram a fazer?

Mudaram o feitiço, estão fazendo cápsulas de essência de tâmara e quando têm uma reunião, os bábís sentam perto da porta ou no fundo da sala, e ficam segurando esta cápsula no meio dos dedos. Quando um visitante fica de boca aberta eles jogam a cápsula dentro da boca do visitante e aí o coitado é enfeitiçado e pronto, torna-se bábí.

VARQÁ

Eu, como médico, nunca vi alguém tirar a essência da tâmara e depois fazer comprimido.

RÚHÚ'LLÁH

E, também, uma pessoa educada não fica de boca aberta na frente do outros.

GUARDA 1

Não sei, pois foi o mulá quem disse isso, talvez tenha alguma sabedoria.

(os guardas saem, e depois de um instante, o assassino meio levantado, olha para Varqá e Rúhú'lláh, depois em direção à porta, e diz...)

ASSASSINO
Miseráveis, vão para o inferno! (deita novamente)
VARQÁ
Querido Rúhú'lláh, quero te perguntar uma coisa.
RÚHÚ'LLÁH
O que foi, pai?
VARQÁ

Quando estávamos chegando à cidade, você tentava esconder do povo este grilhão que prende o seu pé; este grilhão é no Caminho da Abençoada Beleza e você tem vergonha?

RÚHÚ'LLÁH

Pai, eu não tinha a intenção de esconder o meu pé, eu amo Bahá'u'lláh, na verdade eu queria que este grilhão fosse o maior do mundo. Afinal eu sei que isto é no Caminho da Abençoada Beleza. Desculpe se eu falhei, mas é que eu estava tentando cobrir o meu pé, pois de manhã cedo estava muito frio.

ASSASSINO

(depois de alguns segundos) O Naieb fala a verdade? Vocês são bábís?

RÚHÚ'LLÁH
Não senhor, nós somos bahá'ís.
ASSASSINO
E qual é a diferença?
VARQÁ

Todas as Revelações anteriores falaram sobre duas revelações gêmeas: uma é a do Báb e a outra é a Revelação de Bahá'u'lláh. Primeiro o Báb se declarou em Shíráz e deu as boas-novas da vinda de Bahá'u'lláh, os seguidores do Báb passaram a ser chamados de babís. E quando Bahá'u'lláh declarou a sua missão, acabou o período da Era Bábí e uma nova revelação, uma religião mundial começou e os seguidores desta Grandiosa Causa são os bahá'ís.

ASSASSINO
(com gozação e risada) Uma religião mundial!
RÚHÚ'LLÁH
Por que você está rindo?
ASSASSINO

Hoje em dia qualquer um abre uma loja e em nome da religião está vendendo santidade.

VARQÁ

Sim, você está certo. Infelizmente este amor por Deus que as pessoas têm em seus corações muitas vezes foi manipulado por algumas pessoas guiadas por seus desejos e interesses egoístas, como você disse. Por outro lado, um pequeno número de pessoas, através da aceitação de dificuldades e aflições, indicaram o Caminho de Deus e da Sua Verdade.

RÚHÚ'LLÁH

Sempre foi assim, o reconhecimento dos Mensageiros de Deus nunca foi possível por outros meios. Pense na religião maometana, como o profeta Muhammad foi sacrificado para guiar a humanidade. E ainda mais, pense na época de Cristo, onde primeiro sacrificaram o próprio Cristo e depois, por mais de 300 anos, os cristãos suportaram o martírio a fim de provar a veracidade da Sua missão.

ASSASSINO

Por que inocentes devem ser maltratados, mortos e ter seu sangue derramado?

VARQÁ

(depois de alguns instantes) Quando entramos na cela o Naieb o chamou de assassino, posso perguntar por quê?

ASSASSINO
Porque matei um desumano.
VARQÁ
Por que matou?
ASSASSINO

Porque sofri crueldade e injustiça. Porque queria o que era meu por direito, porque eu não tinha nenhuma outra alternativa.

VARQÁ

Que direito? Por que sofreu crueldade e injustiça? Posso lhe perguntar?

ASSASSINO

(depois de alguns segundos) Meu nome é Háfez. Nasci no Curdistão. Quando era muito jovem, eu estava procurando um serviço onde pudesse trabalhar honestamente. Por fim, achei um senhor que tinha algumas terras e ele me contratou, então combinamos que no fim de todo ano ele me daria 1/10 do lucro.

Comecei a trabalhar para ele com muita honestidade e devoção e assim cada ano eu produzia mais do que no ano anterior, até que ele se tornou um dos homens mais ricos da cidade. Conquistou muito respeito e posição social. Minha vida também, graças a Deus, ficou bem melhor, me casei e tive filhos.

Até que no ano passado, depois que foi vendida a produção, ele me deu uma pequena quantia e falou que queria me pagar mensalmente e bem menos do que antes. Protestei, ele deu risada. Não deu nenhuma atenção e me gozou. Eu disse que iria dar queixa para o governo e ele me respondeu : "Pode fazer o que quiser". E ainda me ameaçou dizendo que se eu fizesse alguma coisa contra ele, iria acabar com a minha vida.

Comecei então a procurar outro trabalho, mas não achei, pois ele tinha influência e poder, tinha muito dinheiro. Os governantes não fizeram nada, muito menos os sacerdotes.

Eu decidi então lutar e pegar o que era meu por direito... Um dia, coloquei fogo no armazém dele e fugi para as montanhas. Quando souberam, foram atrás de mim, mas como não conseguiram me encontrar. Foram até a minha casa e torturaram e molestaram minha mulher e meus filhos. (quando fala, chora e Varqá e Rúhú'llah cabisbaixos e com tristeza, escutam) Até que numa noite sai do meu esconderijo para visitar a minha família, quando lá cheguei, eu vi que não tinha mais casa. Ele tinha colocado fogo na minha casa e matado minha mulher e filhos. Então, enlouqueci. Peguei minha espingarda e matei o desgraçado.

RÚHÚ'LLAH
Ó OPRESSORES NA TERRA!

Retirai as vossas mãos da tirania, porque jurei não perdoar a injustiça de nenhum homem. Este é Meu Convênio, o qual decretei irrevogavelmente, na epístola preservada, e selei com Meu selo de glória.

(Pausa)
VARQÁ

A resposta para sua pergunta está na sua própria vida. O seu mestre, enquanto necessitava, reconhecia o seu mérito, mas quando tornou-se rico, começou a querer a sua riqueza e ele tornou-se injusto.

O que quer que você veja neste mundo não é nada senão ilusão e vã imaginação, não é realidade divina. Somente quando o homem esquecer de tudo exceto de Deus encontrará a felicidade. Os manifestantes divinos revelaram-se com o objetivo de ensinar esta grande lição de renúncia aos desejos egoísticos e ajudar a dirigirmo-nos ao reino do Alto.

ASSASSINO

Muito bem, os manifestantes divinos vieram para guiar a humanidade para o caminho reto. Moisés, Cristo e Maomé já vieram, se é para alguém aprender alguma lição só poderá ser através deles.

RÚHÚ'LLÁH

O que você está dizendo? Se você aceita Sua Santidade Jesus Cristo como um mensageiro de Deus e Ele disse: "Eu voltarei". Então você quer dizer que ele é um mentiroso? (pausa) Se você disser isso para um cristão ele corta a sua orelha!

O profeta Muhammad refere-se ao Dia da Ressurreição em cada página e verso. Hoje todos os povos da Terra estão esperando, mas o que e quem, eles mesmos não sabem. Os judeus esperam o Messias prometido no Velho Testamento, mas quando ele aparece e diz: "Eu sou o Messias prometido", eles o matam e dizem: "Não, você é Jesus!"

E assim, os muçulmanos que agora esperam o Prometido, fazem exatamente o mesmo que fizeram os seus irmão judeus, matam o Prometido e o continuam procurando no fundo do poço de suas imaginações e ilusões. Eu te pergunto como um muçulmano: quando o prometido Qái 'm manifesta-se, é sua obrigação obedecê-lo, ou não é?

ASSASSINO
Claro que é minha obrigação.
RÚHÚ'LLÁH

E se ele disser que o tempo de Sua Santidade Muhammad já acabou?

ASSASSINO

Eu digo, você não é o Qá'im, vá abrir a sua loja em outro lugar.

RÚHÚ'LLÁH
Ah, então é Ele quem tem de lhe obedecer?
ASSASSINO
O quê?
VARQÁ
Muito bem, meu filho, você deu um ótimo exemplo.
RÚHÚ'LLÁH

Eu disse que então é Ele quem lhe deve obedecer. Ele é quem deve obedecer todas as autoridades religiosas. Quando hoje nosso senhor Jesus Cristo aparece e diz: "Eu sou o Messias prometido. Eu sou Bahá'u'lláh, o Prometido de todo o mundo, livrai-vos de todas as vãs imaginações e observai a verdade. Eles dizem:

"Não, você é Mírzá Husayn 'Alí, você não é Cristo, o prometido de todos os mundos. Nós conhecemos a sua mãe. Nós conhecemos o seu pai. Nós sabemos onde você nasceu." Exatamente aquelas mesmas palavras ditas para Cristo pelos líderes judeus. (com muito amor) Meu amigo, hoje Deus veio para a terra. Hoje Deus manifestou-se entre os homens.

ASSASSINO
Meu querido menino, você fala com todos assim?
RÚHÚ'LLÁH
Não, primeiro eu olho nos olhos deles.
ASSASSINO
Você também olhou para os meus olhos?
RÚHÚ'LLÁH...

Claro, naquele primeiro instante quando entrei e lhe cumprimentei.

ASSASSINO

Desculpe-me por não lhe ter tratado bem. Você está esclarecendo a minha mente. Desde que eu nasci sempre aprendi a ouvir cegamente os líderes religiosos. Mas qual é a verdade? Como posso encontrá-la? Até agora aprendi a me acomodar, mas eu sinto que as suas palavras têm outro sentido, você quer dizer que eu sou responsável por mim mesmo, que eu devo achar a verdade?

VARQÁ

Certo Háfez, é assim mesmo. Cada um deve se tornar um pesquisador. Deve purificar o seu coração, que é o repositório da realidade divina, e então procurar a verdade. "Abrasa o fogo do amor e queima todas as coisas, põe o pé então na terra dos que amam." (Naieb entra e entrega uma fotografia para Varqá)

NAIEB

Coloque o nome das pessoas que estão nesta foto aqui atrás, que eu quero levar para Sua Majestade, o Rei. (Enquanto Varqá escreve os nomes, o outro guarda que está com o chefe fala para o assassino)

GUARDA 1

Ó assassino! Sabe que amanhã é o aniversário de 50 anos de reinado do xá, e que ele deve libertar todos os prisioneiros, e você também deve ser libertado. (Guarda pega a foto e sai de cena)

VARQÁ

(depois de alguns segundos com tristeza) Amanhã é o aniversário de 50 anos do reinado do Xá, 50 anos de martírios de inocentes, 50 anos de derramamento de sangue, mais de 20.000 inocentes foram martirizados no Caminho de Deus, o peito do Báb foi perfurado com centenas de balas e agora ele quer fazer festa?

(logo depois, de trás de cena vem um barulho de alguém caminhando, pára na porta e com voz alta diz)

NAIEB

O grandioso chefe sr. Jafár Gholi Khán está chegando!

(O chefe com o assistente Naieb entram, todos se levantam)

CHEFE

(com voz alta para Varqá) Por que você não voa, afinal o significa do seu nome é pomba. Então voe. (com voz brava) Fala, por que não fala?

VARQÁ

Como pode um pássaro voar, quando está nas mãos de um opressor?

CHEFE

Faça um milagre. Você que é o profeta, faça um milagre para tirar este grilhão do seu pé.

VARQÁ

(com muito respeito) Desculpe-me, mas quando eu falei que sou um profeta e que faço milagres?

CHEFE

Você é muito corajoso, por que atrás desta foto escreveu o nome do Báb, não foi avisado de que esta foto seria levada para o rei?

VARQÁ

Sim, senhor. O senhor falou mas eu não posso mentir, e o rei neste meio século conhece muito bem os bahá'ís e sabe que eles querem o bem de toda a humanidade.

CHEFE

Você com toda esta sabedoria por que não é muçulmano?

VARQÁ

Nesta grande Revelação 20 mil pessoas foram sacrificadas e martirizadas para ensinar a fé muçulmana, através da força divina da revelação de Bahá'u'lláh a árvore da religião muçulmana foi regada.

CHEFE

Olha Varqá, eu não quero matar você e seu filho. Isto que você sente e acredita, guarde no seu coração, mas, aparentemente diga que não é bahá'í. Assim, vou deixar vocês sairem da prisão, devolvo todos os seus livros e digo para o rei que depois de investigarmos descobrimos que vocês não são bahá'ís e por isso foram libertados.

VARQÁ

Me desculpe, mas eu vou manter a minha consciência tranqüila e por isso devo continuar dizendo a verdade.

CHEFE

(depois que Varqá fala isso, chefe começa a sair) Você é quem sabe, mas deixa eu lhe dizer algumas últimas palavras, saiba que isto que digo não é mentira, eu lhe dou uma parte do meu salário, pego mais 500 tumans do rei, e o torno meu próprio médico particular.

VARQÁ

(com ar de quem acha tudo muito estranho) Será que uma pessoa que reconheceu a verdade divina vende a sua fé por causa de dinheiro, ou ao invés de seu amado se contenta com a riqueza do mundo?

CHEFE

(bravo) Eu queria lhe dar uma posição elevada, mas você não merece, então fique aqui mesmo até que tenha alguma resposta.

(Chefe está saindo, quando Rúhú'lláh o chama de volta)

RÚHÚ'LLÁH

Desculpe-me, mas posso perguntar uma coisa, senhor?

CHEFE

(com carinho) Claro meu filho, parece que você ainda está na sua sã consciência. Pode perguntar.

RÚHÚ'LLÁH

Todas estas medalhas que o senhor tem, para que são?

CHEFE

São para provar os meus merecimentos, para que todos saibam como sou importante.

RÚHÚ'LLÁH

(com ar de espanto) E quem as deu para o senhor? Foi Deus?

CHEFE
Foi o nosso rei, o rei dos reis.
RÚHÚ'LLÁH
Mas que interessante, posso tocar nelas?
CHEFE

Parece que você está começando a ter juízo. Pode tocar.

(Rúhú'lláh pega uma medalha e de repente ela cai)
CHEFE
(grita) Ó menino estúpido!
RÚHÚ'LLÁH

Desculpe senhor, eu não tenho culpa. Não queria que isso acontecesse... (quando se abaixa para pegar a medalha e dá-la ao chefe, passam-se alguns segundos. Pega medalha, levanta-se depois diz) Senhor, que merecimento é este que pode ser facilmente arrancado com dois dedos de um menino?

(Com braveza, chefe pega a medalha, vai até a porta para sair, mas antes volta-se ao Naieb e diz)

CHEFE

Tire os grilhões dos pés dos dois e também as algemas do menino.

NAIEB
O que Vossa Senhoria disse?
CHEFE
Faça o que eu mando.
NAIEB

(chama os dois guardas) Tragam as chaves para os grilhões e algemas. (logo entram os guardas com as chaves)

NAIEB

Em todos esses anos, nunca vi alguém ter tamanha sorte, nunca aconteceu de soltarem os grilhões de um prisioneiro. (sai de cena)

ASSASSINO

(estende as mãos) Este é um milagre. Este é um milagre.

VARQÁ

(faz a oração enquanto assassino continua falando: "É um milagre. É um milagre.")

"Dize: Ó Deus, meu Deus! Adorna minha cabeça com a coroa da justiça, e minha fronte com o ornamento da eqüidade. Tu, verdadeiramente, és o Possuidor de todas as dádivas e graças."

(Rúhú'lláh olha para o pai, depois se levanta, apontando para o chicote pergunta)

RÚHÚ'LLÁH
Por que deixaram isso aqui?
ASSASSINO

Hoje deram 100 chicotadas no meu pé e deixaram o chicote na minha frente para eu não me esquecer.

RÚHÚ'LLÁH

(vai na frente do assassino e pergunta)E foi muito difícil para você suportar a dor?

ASSASSINO
Quer a verdade? Foi muito difícil, muito difícil.
RÚHÚ'LLÁH

Se Deus quiser você logo estará melhor. (anda em direção ao chicote e como se o estivesse segurando diz) Bang 1! Bang 2!

VARQÁ

Sente-se meu filho. Não faça nada para que coloquem os grilhões e as algemas em nós novamente.

RÚHÚ'LLÁH

(senta-se ao lado do pai) Sim, senhor. Posso deitar no seu colo?

VARQÁ

Claro, meu filho. (depois de alguns segundos Rúhú'lláh dorme) Ó Deus! Aceita o meu filho em Teu caminho.

ASSASSINO

Os prisioneiros estão fazendo festa, disseram que como amanhã comemora-se os 50 anos de reinado, o rei vai libertar os prisioneiros. Quem sabe vão libertar vocês, afinal até os grilhões e algemas já tiraram, isto quer dizer que vocês não cometeram um pecado tão grande.

VARQÁ

Ninguém sabe sobre o seu próprio destino. Aquilo que Deus quiser será realizado e nós devemos aceitar a vontade de Deus. (faz um trecho da oração...)

"Com um olhar Ele realiza cem mil esperanças, num relance cura cem mil doenças incuráveis... Ele cumpre com a Sua vontade, Ele ordena o que Lhe apraz. Assim, te é melhor curvares a cabeça em submissão e colocar Tua confiança no Senhor Todo-misericordioso."

Enfim, nós estamos nas poderosas mãos Dele! Vamos tentar descansar um pouco.

(Dormem, toca a música de fundo. Depois vai amanhecendo, e ouve-se o som do galo e pássaros. Rúhú'lláh, levanta-se de repente.)

VARQÁ

O que aconteceu meu filho? Durma mais um pouco, ainda é muito cedo.

RÚHÚ'LLÁH

(senta-se e conforme vai falando levanta os braços) Sonhei, meu pai. Sonhei que você e eu éramos duas pombas. O senhor voou e foi embora, e desesperadamente estava esperando por mim. Eu batia as minhas asas, mas não conseguia voar para chegar até o senhor. Até que, finalmente, voei e cheguei até o senhor e voamos juntos aos mais altos céus.

VARQÁ

Deus queira que este seja um sonho bom meu filho, Deus queira que seja bom.

(Assassino olha para eles com muito amor)
RÚHÚ'LLÁH

Tenho um sentimento tão bom, agora me sinto tão feliz. Pai, quero meditar. Quero orar (e assim levanta as mãos e faz esta oração):

"Enaltecido seja Teu Nome, ó meu Deus, por haveres manifestado o Dia que é o Rei dos Dias, o Dia que anunciaste a Teus eleitos e Teus Profetas, em Tuas mais excelentes Epístolas, o Dia em que difundiste sobre toda a criação o esplendor da glória de todos os Teus Nomes. Grande é a felicidade de quem se dirigiu a Ti, entrou em Tua Presença e percebeu os tons da Tua voz."

(depois levanta, anda um pouco, olha para a direita e para a esquerda, levanta a mão) Lembra-se daquele dia quando a minha avó, mandou nosso empregado Kalíl matar o senhor, pai? Mas ela não sabia que Kalíl, tinha através do senhor aceitado esta Causa Abençoada e que assim ele lhe contaria tudo. (abaixa a mão) Assim, Kalíl foi falar com o senhor (senta ajoelhado com as mãos nos joelhos) e então o senhor foi obrigado a sair da cidade. Eu e meus irmãos ficamos com a nossa avó, (levanta de novo) então ela foi até um dos sacerdotes e queria que ele escrevesse uma sentença de morte para o senhor, o sacerdote disse: "Eu não posso escrever a sentença de morte dele, até que a sua blasfêmia não seja comprovada."

A avó respondeu: "Eu vou provar a blasfêmia dele através de uma de suas crianças. (levanta as mãos) Então minha avó veio até mim e disse: "Um dos amigos de teu pai quer te ver" e me levou até o sacerdote. E me perguntou: "Você pode fazer uma das suas orações?" Eu fiz de cor toda a oração obrigatória longa (em pé, as mãos repousando nos joelhos)

"Vês, ó meu Deus, quanto meu espírito se agita dentro deste corpo em seu anseio de te adorar, em seu ardente desejo de Te lembrar e louvar; vês como dá testemunho daquilo que a Língua do Teu mandamento atestou, no reino da Tua Palavra e no céu do Teu conhecimento. Nesta posição, ó meu senhor, gosto de pedir tudo o que está Contigo, para que eu possa demonstrar minha pobreza, e glorificar Tua riqueza e generosidade, declarar minha incapacidade e manifestar Teu poder e domínio."

(depois, se levanta e erguendo as mãos diz): Depois que terminei a oração, o sacerdote olhou para a minha avó e disse: "A senhora deveria envergonhar-se de si mesma, como eu posso mandar matar uma pessoa que ensinou ao seu filho, numa idade tão tenra, o conhecimento e o amor de Deus?"

(Abaixa as mãos, e então se curva e se levanta três vezes e diz o seguinte trecho da oração obrigatória longa) "Maior é Deus do que todos os grandes!" (depois, senta e põe as mãos sobre os joelhos. Termina a música)

VARQÁ

(depois de alguns segundos) Que Deus aceite a sua oração, meu filho. Que Deus aceite a sua oração.

(neste intervalo, vem um barulho de trás da cena e ouve-se: "Levem todos os prisioneiros para dentro das celas, e os soldados devem subir nos telhados para vigiar todos os lados, para que ninguém possa fugir. Se você observar qualquer movimento suspeito atire imediatamente". Os três se entreolham com preocupação e estranheza)

RÚHÚ'LLÁH

Parece que aconteceu alguma coisa (vai até a porta) Há duas pessoas vindo para cá.

NAIEB

(enquanto estão indo para a cela fala para chefe) Não se preocupe, eu vou dar um jeito.

ASSASSINO
O que aconteceu, o que você acha que aconteceu?
CHEFE
Abra a porta. (O Naieb abre a porta)
CHEFE

Abra as algemas deste homem (abre as algemas de Varqá, enquanto o chefe continua pensando) Enfim, vocês conseguiram fazer o que queriam.

VARQÁ
Mas nós não fizemos nada de errado.
CHEFE

Vocês o fizeram muito bem feito. O que mais queriam fazer? (anda de um lado para o outro) Durante 50 anos vocês babís estão tumultuando este país através de um clima de terror e medo, e não deixaram sossegada por um segundo as autoridades deste país.

VARQÁ

Foram os próprios chefes de estado que criaram este clima de terror e medo. Durante estes 50 anos o que o senhor viu dos babís e dos bahá'ís, além de sua inocência, seu auto-sacrifício, sua fé, sua crença e amor a Deus?

CHEFE

Enfim, vocês fizeram aquilo que queriam, (e fala com muita braveza) mataram o rei, no dia dos 50 anos do reinado dele o mataram!

VARQÁ
Quem fez isso?
CHEFE

Vocês, foram vocês que o mataram, eu tenho certeza que foram vocês bábís (grita) e eu não vou deixar nenhum de vocês vivos.

VARQÁ

Esta não é uma decisão que o senhor acabou de tomar, há 50 anos que vocês querem acabar com os bahá'ís, mas será que conseguiram? Muito pelo contrário, com estas perseguições, vocês acabaram ajudando para que todo o mundo conhecesse cada vez melhor esta Revelação. Agora é a sua vez. Faça aquilo que deseja.

CHEFE

(com braveza levanta a faca na direção deles e fala para Varqá) O que você quer, mato primeiro você ou seu filho?

VARQÁ
Para mim, não há diferença.

(chefe sai correndo em direção a Varqá e o acerta, e Rúhú'lláh segurando o pai, fala chorando, enquanto o chefe sai caminhando para o outro lado da cena...)

RÚHÚ'LLÁH
Ó pai, ó meu querido pai! Pai querido!
CHEFE
(pergunta para Varqá) E agora, como se sente?
VARQÁ

Graças a Deus, eu estou bem melhor do que você. (cai no chão)

RÚHÚ'LLÁH

(ajoelha-se do lado do pai e grita alto) Meu querido pai. (joga-se em cima do pai, um pouco tempo depois levanta, olha para o chefe e diz) Assassino, mate-me também, mate-me (e vai até o chefe e fala) assassino (bate nele) Mate-me! Eu quero ir para perto do meu pai. Mate-me também.

(Chefe joga Rúhú'lláh na direção do pai, e ele cai em cima do pai)

ASSASSINO

(grita com choro) Ó assassino, escuta bem o que estou falando: juro por Deus, se você fizer alguma coisa com ele, eu mato você.

CHEFE

Ó safado, agora você também está do lado deles e fica me provocando. Levem-no daqui!

ASSASSINO

(Grita e chora enquanto o estão levando) Escuta , meu filho, se eu sair desta prisão direi a todos que Deus veio à Terra, que Deus manifestou-se entre os homens. (e assim o levam de uma vez)

(Rúhú'lláh senta-se de costas e fica olhando para a parede e chefe fica em pé pensando, depois de um tempo começa a caminhar de um lado para o outro, olha para Rúhú'lláh e depois fala para Naieb)

CHEFE

(com calma) Feche esta porta e saia daqui você também.

NAIEB

Por favor, chefe, Eu sei que eu não sou ninguém comparado ao senhor, mas por favor não faça nada com esta criança, não judie dela, é um inocente, por favor.

CHEFE

Saia. (anda e senta de novo) Ó Naieb, saia! (o Naieb sai)

RÚHÚ'LLÁH

(sentado, de costas) Eu quero o meu pai. Eu quero ir para junto dele.

CHEFE

Seu pai morreu, ele não está mais aqui para você ir para perto dele.

RÚHÚ'LLÁH

Se você me matar também, eu sem dúvida vou para junto dele, por isso ande e complete o seu crime, me mate também.

CHEFE

Não, não tenha medo, eu não vou fazer isso. A partir de agora o seu destino está nas minhas mãos.

RÚHÚ'LLÁH

E qual é a sua decisão? O que você quer fazer comigo?

CHEFE

Quero te levar aos mais altos tronos. Quero que você atinja as posições mais elevadas.

RÚHÚ'LLÁH
Como?
CHEFE

Olha, menino querido, você é um menino de apenas 12 anos, mas tem uma inteligência e percepção muito superior à da sua idade. Desde ontem, quando o vi pela primeira vez, percebi que se você for educado devidamente vai ter uma posição muito elevada.

RÚHÚ'LLÁH
Não, eu quero ir até o meu pai. (pausa)
CHEFE

(levanta) O seu pai morreu. Ele era um diabo que te aprisionou, ele era um diabo que, através do nome de pai, te fez prisioneiro. (anda em direção a Rúhú'lláh) Hoje você encontrou a salvação, meu querido filho.

RÚHÚ'LLÁH
Será que o senhor é muçulmano?
CHEFE
É lógico, que sou.
RÚHÚ'LLÁH
Aceita 'Alí como o sucessor de Muhammad?
CHEFE
Sim.
RÚHÚ'LLÁH

Mas o filho de Muljim pensava que 'Alí era um diabo que enganou o povo, e ele achava que matando Alí, ele livraria as pessoas do cativeiro. O senhor acredita na Sua Santidade Jesus Cristo como um Mensageiro de Deus? (chefe vai andando desesperado de um lado para o outro) Mas, os assassinos dEle acreditavam que tinham salvo a humanidade.

CHEFE

Eles não entendiam. Eles não conseguiam distinguir entre a verdade e a falsidade. Por exemplo, Muhammad se declarou quando a humanidade estava na maior ignorância e Cristo também se declarou quando o povo estava mergulhado em corrupção.

RÚHÚ'LLÁH

(pouco a pouco vira a cabeça e continua) Será que hoje o povo não está nesta mesma ignorância? Será que nesta época a humanidade não está mergulhada em corrupção? Será que quando Maomé se declarou o povo sabia que estava sendo ignorante, ou quando Cristo se declarou eles sabiam que eram corruptos? Em todas as épocas, a humanidade sempre pensa que eles são os melhores, que eles são civilizados, que eles podem fazer tudo e que os seus ancestrais é que eram maus, selvagens e ignorantes.

CHEFE

(grita) Chega! Tudo isso que o seu pai lhe ensinou é bobagem. Olhe para o seu futuro, olhe para o horizonte de luz que está a sua frente. Escute o que eu digo, e se você me seguir eu te darei uma posição muito elevada, muito alta. (pega nos braços de Rúhú'lláh) e todos vão lhe respeitar muito.

RÚHÚ'LLÁH
Uma posição como a do senhor?
CHEFE
Uma posição muito mais elevada que a minha.
RÚHÚ'LLÁH

(chefe está andando e falando e Rúhú'lláh atrás dele recita a Palavra Oculta)

Ó FILHOS DA VANGLÓRIA!

Por uma soberania efêmera, abandonaste Meu domínio imperecível e com as vestes ornadas do mundo vos enfeitastes, ufanando-vos disso. Por Minha beleza! Hei de reunir todos debaixo da coberta unicolor do pó e apagar as cores diversas de todos, salvo daqueles que escolheram a Minha própria cor, a qual é a expurgação de toda cor."

CHEFE

(anda nervoso e grita) Chega! (pega o pescoço de Rúhú'lláh e grita) Chega. (solta, vai andando para trás, olha para a mão, vai até a porta e diz) Naieb, venha aqui e traga uma corda.

RÚHÚ'LLÁH

(continua falando, vai encurralando o chefe até a parede oposta)

"Não penseis que os atos que perpetrastes tenham sido apagados de Minha vista. Por Minha beleza! Todas as vossas ações, Minha Pena as gravou em caracteres nítidos sobre tábuas de crisólito."

CHEFE
Naieb!!!
NAIEB

(chega até a porta e diz) Senhor, peço que não faça nada com este menino.

CHEFE
Mandei você trazer uma corda.
RÚHÚ'LLÁH
(mostra bastão) Por que o senhor não usa isto?
CHEFE
Eu vou usar isto mesmo.
NAIEB

(com choro) Senhor, por favor, eu imploro que não faça isso. Não o mate, você está sendo pior do que os que mataram Imam Husayn e Cristo. Por favor, deixe-o.

CHEFE

(com braveza) Suma daqui. (repete várias vezes) Suma. (e o chefe pouco a pouco vai sentando do lado da porta)

RÚHÚ'LLÁH

Por que você está esperando, sua excelência? Eu tenho pressa, o meu pai está esperando.

CHEFE

Seu pai morreu e você não está querendo entender isso. O corpo dele, que não tem mais vida, está jogado aqui.

(Música)
RÚHÚ'LLÁH

Faça o seu serviço e deixe o espírito do meu pai me levar. Chegou a hora de eu ir até ele e voar para o céu celestial.

(O chefe olha para ele e devagar vai pegar o bastão e traz até Rúhú'lláh que está sentado, coloca no pescoço dele e diz)

CHEFE
Diga as suas últimas palavras.
RÚHÚ'LLÁH
(levanta as mãos) 'Alláh'u'Abhá! Yá Bahá'ul-Abhá!
(Encerra-se com música)
GLOSSÁRIO

'Abdu'l-Bahá: "Servo da Glória", título de 'Abbás Effendi, o filho mais velho de Bahá'u'lláh.

Báb: "Porta". Título assumido por Mirzá 'Alí Muhammad depois da declaração de Sua missão em Shiráz em 23 de maio de 1844.

Bahá'u'lláh: Título de Mírzá Husayn 'Alí (1817-1892), o Profeta-Fundador da Fé Bahá'í. Em arábe significa "ao mesmo tempo a glória, a luz e o esplendor de Deus".

Bahá'í: Seguidor de Bahá'u'lláh.

Bahjí: Mansão onde Bahá'u'lláh, na cidade-prisão de 'Akká, passou seus últimos anos de vida. Significa "Deleite".

Bayán: "Expressão", "Explicação"; nome do Livro Sagrado revelado pelo Báb.

Hájí: Um muçulmano que tenha feito peregrinação a Meca.

Imame: Título dos doze sucessores xiitas de Muhammad. Também se aplica aos dirigentes religiosos muçulmanos.

Imame Jumih: O imame principal de uma cidade. Chefe dos mullás.

Irã: Sob o reinado da dinastia Pahleví (1925-1979) o antigo nome Irã substituiu a designação Pérsia. Em geral se refere à Pérsia quando trata-se de eventos históricos anteriores ao século XX. Os eventos mais recentes referem_se àquele país como Irã.

Khanúm: Senhora.
Kitáb: Livro.

Kitáb-i-Aqdás: O Livro Sacratíssimo, o Livro das Leis de Bahá'u'lláh.

Kitáb-i-Iqán: O Livro da Certeza.

Mirzá: Quando se coloca depois de um nome significa "Princípe"; se à frente, simplesmente "Senhor".

Mullá: Clérigo muçulmano.

Naw-Rúz: "Novo Dia". Nome que se dá ao Ano Novo Bahá'í.

Qá'im: O Prometido, conforme as Sagradas Escrituras do Islã.

Ridván: "Paraíso".
Siyyid: Descendente de Muhammad

Siyáh-Chál: "Cova Negra", prisão subetrrânea onde foi aprisionado Bahá'u'lláh.

Vizir: Ministro da Corte Persa.
Xá: Rei da antiga Pérsia, hoje Irã.
Xiitas: Seita do Islamismo.

Table of Contents: Albanian :Arabic :Belarusian :Bulgarian :Chinese_Simplified :Chinese_Traditional :Danish :Dutch :English :French :German :Hungarian :Italian :Japanese :Korean :Latvian :Norwegian :Persian :Polish :Portuguese :Romanian :Russian :Spanish :Swedish :Turkish :Ukrainian :