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Amor em Tempos de Guerra
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Pedro Arturo Rojas : Amor em Tempos de Guerra
AMOR EM TEMPOS DE GUERRA
O Encontro de um Socialista com Bahá'u'lláh
Pedro Arturo Rojas Arenas
Revisão: Prisca Ardjomand
APRESENTAÇÃO

No trajeto da vida de Pedro Arturo Rojas Arenas, lemos a história do mundo contemporâneo. Vemos aqui retratado um tempo de desafios e grandes transformações sociais, o cenário necessário à aprendizagem deste buscador. Aliás, o termo "buscador" caracteriza bem o autor de "Amor em Tempos de Guerra".

Esse espírito de busca tem permeado o seu compromisso com a humanidade no exercício de sua militância político-sindical, na prática do magistério, no convívio com os amigos, nas alegrias e desencontros das sendas do amor, na relação com suas filhas, na união com a bem-amada e no processo de autoconhecimento, que o levaram ao encontro de Seu Senhor.

Nesta longa e apaixonante busca, ele encontrou a Fé Bahá'í e seus ensinamentos: Unidade de Deus, Unidade das Religiões, Unidade da Humanidade. A esse respeito, Bahá'u'lláh, profeta fundador da Fé Bahá'í, diz: "Sois todos frutos de uma mesma árvore e folhas de um mesmo ramo."

Com reverência e simplicidade, com amor e sinceridade, em um estilo pleno de leveza e com nuances poéticas, o autor nos convida a conhecer o caminho por ele percorrido. Neste relato, dedicado às novas gerações, traduz-se o legado da busca de uma geração que não mede esforços na desafiante tarefa de estabelecer os fundamentos de uma nova civilização.

Henrique Beltrão
Professor do Departamento de Letras da
da Universidade Federal do Ceará
e coordenador do Programa "Sem fronteiras"
na Rádio Universitária
INTRODUÇÃO

Já em 1989 eu tinha pensado em elaborar um ensaio autobiográfico. No entanto, foram necessárias varias sugestões para aceitar esse desafio.

Em 1998, Catherine Monajjem, Membro do Corpo Auxiliar na época, recomendou-me escrever um rascunho que poderia ser apresentado à consideração da Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá'ís do Brasil.

Posteriormente, Washington Araújo, em 1999, solicitou a vários bahá'ís um resumo sobre suas experiências de encontro com a Revelação Bahá'í. Mais recentemente, no ano 2000, após eu ter compartilhado parte de minha experiência de vida com um grupo de estudantes da Universidade Federal e da Universidade Estadual do Ceará, Márcia Almeida, da Pastoral Universitária de Fortaleza, animou-me a fazê-lo. Um período de repouso de várias semanas, por recomendação médica, acompanhado de um maior número de orações diárias, criou as condições adequadas para que isso acontecesse.

Também, agradeço a todas aquelas pessoas maravilhosas que são mencionadas neste relato autobiográfico. Em particular à minha amada esposa, Maria Valdelina Pereira Rojas Arenas. Às pessoas que só conheci mais recentemente e que não foram mencionadas neste texto, algumas das quais são como gotas de orvalho para o meu coração apaixonado. Aos queridos professores Henrique Beltrão e Fabíola Tavares pela cuidadosa revisão do primeiro rascunho; a Keyvan Bueno Nikobin pelas valiosas sugestões, e a Prisca Ardjomand por suas observações, que melhoraram não só a qualidade literária do texto, mas também sua coerência temática e emocional.

Pedro Arturo
Fortaleza, Maio de 2001
AMOR EM TEMPOS DE GUERRA

"Teu paraíso é Meu amor; teu lar celestial, a reunião Comigo."

Bahá'u'lláh
CAPÍTULO I
NA CORDILHEIRA LESTE DA COLÔMBIA

"Em verdade, a natureza é a encarnação de Meu nome, o Criador, o Fazedor."

Bahá'u'lláh

A Colômbia faz parte do continente americano. Como resultado da colonização espanhola, apresenta uma formação multiétnica, tal como acontece na maior parte dos países latino-americanos. É um país de grandes paradoxos, de imensa diversidade climática, biológica e cultural. País de Gabriel García Marquez (prêmio Nobel de Literatura) e de Manuel Elkin Patarroyo (inventor da primeira vacina sintética contra a malária), sua história é semelhante à dos demais países latino-americanos, perpassando, de forma geral, pelos mesmos períodos: território indígena, território colonial, formação das repúblicas, primeiros surtos de industrialização e inserção no mercado mundial e nos blocos regionais de nações.

A segunda metade do século XX constitui para a Colômbia uma fase de significativas transformações sociais, econômicas, culturais e políticas. Concluída a Segunda Guerra Mundial, o país tinha intensificado o processo de industrialização e desenvolvido alguns grandes centros urbanos. Foi uma época em que também se intensificaram os conflitos sociais. Os pequenos camponeses expulsos de suas terras pelos grandes fazendeiros, entre os anos 30 e 40, organizaram as "autodefensas campesinas", assessorados pelas lideranças radicais do partido liberal e do então recentemente criado Partido Comunista. Os fazendeiros, interessados em ampliar suas propriedades para cultivo do café, utilizaram métodos violentos para atingir seus objetivos. Grande parte das "autodefensas campesinas" constituiu as guerrilhas liberais e foi núcleo embrionário das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), nas décadas de 50 e 60.

O Departamento* de Santander situa-se no Nordeste Colombiano. Seu território ocupa parte da Cordilheira Leste e parte do Vale do Rio Magdalena, aproximando-se um pouco do território fronteiriço da República da Venezuela. Santander foi cenário das primeiras lutas pela independência da Colômbia do domínio espanhol no final do século XVIII e um importante centro manufatureiro até a segunda metade do século XIX. Possui um território de variadas altitudes e climas, sendo uma parte de sua área propícia para o cultivo do café.

*O que seria um Estado no Brasil.

Meu pai, Pedro José Rojas Pinto, nascido no dia 27 de junho de 1911, era filho de pequenos camponeses. Depois de um desentendimento com seu pai, Abel Rojas, por causa da distribuição do lucro de uma colheita de macaxeira, resolveu abandonar a vida no campo para tentar a sorte no povoado mais próximo, conhecido como Rionegro (no Departamento de Santander). Ali começou uma vida nova, trabalhando como empregado numa padaria. Com sua dedicação e disciplina e almejando sua autonomia econômica, conseguiu estabelecer seu próprio negócio de comércio na pequena cidade. Quando já era um comerciante próspero, apaixonou-se por minha mãe, Margarita Arenas Mantilla, filha também de pequenos camponeses. Eles se casaram e iniciaram sua vida familiar em Rionegro, onde nasceram os primeiros filhos, meus queridos irmãos Gerardo e Alberto.

Como os negócios de meu pai continuavam a progredir, ele decidiu estabelecer uma mercearia na zona comercial da cidade de Bucaramanga, capital do Departamento de Santander. Posteriormente, como resultado de seu sucesso comercial, adquiriu duas fazendas: La Siberia, de 250 hectares, e El Pomarroso, de 300 hectares aproximadamente. La Siberia, com uma altitude média de 1700 metros, foi propícia para o cultivo de café e de cana de açúcar. El Pomarroso, com uma altitude média de 500 metros, foi destinada à pastagem de gado. Meu pai mudou-se para um bairro privilegiado da cidade de Bucaramanga depois de construir uma ampla casa em uma área de 540 metros quadrados. Ele representava o empresário próspero, refletindo um processo de ascensão econômica e social de uma parte de sua geração. Durante esse período de mudança de residência nasceram meus queridos irmãos Martha (1946), Enrique (1948) e Luis Francisco (1950). Eu nasci no dia 15 de dezembro de 1947 às 6:30 da manhã. Morava conosco também a nossa querida e inesquecível tia Paulita.

Minha mãe era uma pessoa religiosa desde sua infância e repassou para seus filhos atitudes de amor e reverência a Deus, assim como práticas tradicionais da Igreja Católica.

Os primeiros anos de minha infância transcorreram nesse ambiente religioso e social de uma cidade de porte médio da época. Bucaramanga tinha uma população aproximada de 120.000 habitantes em 1950. Fiz o primeiro grau no colégio Virrey Solis, dirigido por padres franciscanos. A época das férias escolares (um a dois meses) passávamos na fazenda cafeeira. Ali desenvolvi um profundo amor pela natureza. Desfrutava extasiado as paisagens das montanhas e percorria curioso todos os caminhos da fazenda, reconhecendo habitantes, plantas e animais, assim como fontes de água cristalina e lugares misteriosos. Essas caminhadas exploratórias eram compartilhadas com meus irmãos mais novos, Enrique e Luis Francisco. Os irmãos mais velhos permaneciam um pouco distantes de nossas experiências.

Desde a infância tornei-me uma pessoa religiosa. Orava nos recantos da casa da fazenda e desfrutava da contemplação das estrelas à noite. Depois do jantar, meus pais, meus irmãos, o mordomo, alguns de seus filhos e eu deitávamos no pátio de estender o café. Durante várias horas compartilhávamos histórias misteriosas e, às vezes, assustadoras. Eram lendas rurais repassadas oralmente pelos camponeses. No final daqueles mágicos encontros era-nos colocado um desafio: "quem vai agora sozinho e apanha bagaço de cana no engenho?" Ninguém se movia. Já devia ser quase 23:00 horas.

CAPÍTULO II

O CENÁRIO INTERNACIONAL DOS ANOS 60 E A BUSCA PELA JUSTIÇA NA AMÉRICA LATINA

"A mais amada de todas as coisas, a Meu ver, é a justiça..."

Bahá'u'lláh

Os anos 60 foram marcados pelo confronto constante e explícito entre dois modelos de desenvolvimento econômico e social que apareciam como antagônicos: o socialismo e o capitalismo. Importantes movimentos de libertação nacional aconteceram na época; particularmente significativos foram os de Cuba e Argélia. A década de 60 foi também marcada pela participação cruel e massiva do governo dos Estados Unidos na guerra do Vietnã. Foi uma década de confrontos científicos entre a URSS e os EUA. A URSS colocou o primeiro homem no espaço extraterrestre. A República Popular da China emergia como uma grande esperança socialista para os movimentos de libertação do terceiro mundo, depois da vitória de Mao Tse-Tung em 1948.

Nesse cenário polarizado e cheio de expectativas pela possibilidade de uma sociedade mais justa e melhor, muitos jovens latino-americanos foram sensibilizados para a causa da justiça. No colégio Virrey Solis, onde eu cursava o segundo grau, as idéias democráticas e socialistas filtravam-se através dos jornais que retratavam os movimentos sociais e os conflitos no campo e nas cidades da Colômbia. Na maior ilha do Mar das Antilhas, Fidel Castro conquistava o poder no comando de um grupo de heróicos guerrilheiros contra a ditadura impiedosa de Fulgêncio Batista. Os governos latino-americanos, pressionados pelo Pentágono norte-americano, apressaram a realização das reformas agrárias formais ou marginais e desenvolveram a famosa "Aliança para o Progresso", para evitar um possível avanço revolucionário no continente.

Na época, Francisco Julião organizava as ligas camponesas no nordeste brasileiro. Importantes intelectuais somavam esforços com o movimento de cultura popular. Paulo Freire desenvolvia sua pedagogia libertadora, escrevendo mais tarde o livro "Educação como Prática da Liberdade". A burguesia brasileira respondeu com o golpe militar de 1964. Paulo Freire foi para o exílio no Chile e importantes intelectuais e artistas brasileiros abandonaram o país.

Na Colômbia já existiam as FARC, e novos movimentos guerrilheiros foram iniciados, inspirados na experiência de Cuba e da República Popular da China. É o caso do ELN (Exército de Libertação Nacional) e do EPL (Exército Popular de Libertação). Os ideais de uma justiça social mais ampla permearam também algumas lideranças da Igreja Católica. A Teologia da Libertação estendeu-se pelo sul e centro do continente americano. O padre Camilo Torres, então recém formado como sociólogo na Bélgica, passou a lecionar no curso de sociologia da Universidade Nacional da Colômbia, criado em 1963. Camilo Torres interessou-se pelos problemas das camadas populares das cidades e pelos movimentos rurais da época, e ingressou na guerrilha depois de criar a Frente Popular em uma conturbada e fulgurante campanha de agitação social.

Sendo estudante de segundo grau, eu era um assíduo leitor, não só dos textos escolares, mas também de revistas e jornais de opinião. Aos 18 anos aderi à Juventude Democrata Cristã e organizei, em parceria com dois colegas* da minha turma, um jornal crítico com o nome "Mundo Estudantil". Constituímos com muita solenidade o grupo MERSC (Movimento Estudantil de Reestruturação Social da Colômbia) e criamos um programa radiofônico no colégio. Contamos com a tolerância e certo beneplácito do reitor do colégio, padre Bernardo Martínez.

*Roberto Santos e Raúl Ballesteros

Depois de assistir a um curso sobre Cristianismo e Sociedade, realizado na cidade de Mérida, Venezuela, e organizado com apoio do Partido Democrata Cristão, que tinha conquistado a presidência da república desse país irmão, fui nomeado secretário ideológico da Juventude Democrata Cristã na minha cidade, Bucaramanga. A Juventude Democrata Cristã estava interligada nacionalmente através do MESC (Movimento Estudantil Social Cristão), organização que realizava encontros periódicos na capital do país, onde jovens de vários Departamentos participavam da avaliação das atividades e do planejamento dos programas de ação.

No encontro anual de 1965, foi questionado por um setor do MESC o envolvimento da direção nacional do Partido Social Democrata Cristão (PSDC) em acordos com o Partido Conservador, motivado pela disputa para a presidência da república. O apoio da cúpula do PSDC ao candidato do partido conservador foi interpretado pela liderança do MESC como traição aos seus ideais e, a partir desse momento, este se desvinculou do PSDC, criando posteriormente o MUAP (Movimento Universitário de Ação Popular).

Concluído o segundo grau, decidi fazer o curso de Sociologia na Universidade Nacional da Colômbia. Eu achava que esse curso me forneceria elementos valiosos para uma melhor compreensão do país e, em conseqüência, a possibilidade de participar ativamente no processo de transformação social. Foi uma decisão ética que fiz a contragosto de alguns de meus familiares que consideravam a sociologia uma profissão de poucas perspectivas ocupacionais.

Eu experimentava nesses anos um certo desencanto com relação às práticas institucionais da Igreja Católica, que achava extremadamente ritualistas, sentindo-me mais atraído por um cristianismo social. Tomei como fonte de inspiração de minha religiosidade os textos do Novo Testamento e entrei em contato com a literatura da Teologia da Libertação. Lembro-me da leitura do livro de Camilo Torres: "Cristianismo y Revolución". Para muitos cristãos, foram palavras de luz e esperança.

CAPÍTULO III

A LUTA DE CLASSES E A UTOPIA DA FRATERNIDADE NOS ANOS 70

"O propósito da Justiça é o surgimento da unidade entre os seres humanos."

Bahá'u'lláh

No ano de 1967 iniciei o curso de Sociologia na Universidade Nacional da Colômbia, sediada em Santafé de Bogotá. Ali entrei em contato com os clássicos da sociologia, através da leitura das principais obras. Com seu inconfundível carisma, o Doutor Dario Mesa, excelente professor de Teoria Social e de História Moderna, cimentou em seus alunos uma perspectiva crítica dos principais problemas sociais da nossa época. Outras leituras paralelas de autores neomarxistas, como J. Lukács, V.I. Lênin, Mao Tse-Tung, Leon Trosky, N. Poulantzas, A. Gramsci, Paul Baran, Ernest Mandel, H. Marcuse, L. C. Mariátegui, Celso Furtado, Theotônio dos Santos, Antonio Garcia e Mario Arrubla, aprimoraram a nossa formação. Nessa época, o pensamento de J. Habermas era pouco divulgado.

O ambiente intelectual e político da Universidade Nacional constituía um cenário empolgante e desafiador para um jovem que tinha concluído recentemente o curso de segundo grau numa cidade do interior. Os professores eram formados na Europa e nos Estados Unidos. Grupos políticos de esquerda faziam presença continuamente através de jornais, palestras, atividades artísticas e até organizando protestos dentro da Universidade. Os jovens do recém criado MUAP (Movimento Universitário de Ação Popular) constituíam uma pequena parcela dessa diversa e movimentada paisagem política. Ao curso de Sociologia da Universidade Nacional chegavam estudantes de todas as regiões do país, de distintas classes sociais, expressando também diversas misturas raciais. Geralmente eram pessoas questionadoras da ordem social existente, algumas com experiência em movimentos políticos ou intelectuais em suas regiões.

As greves operárias, as paralisações cívicas e as invasões de terra promovidas pela ANUC (Associação Nacional de Usuários Camponeses) aconteciam sistematicamente. No interior da universidade gestou-se um movimento intelectual nacionalista que reivindicava a mudança da grade curricular dos cursos existentes na universidade, particularmente os cursos da Faculdade de Ciências Humanas. As palavras de ordem eram "por uma cultura nacional, científica e popular". O mentor do curso de Sociologia, Doutor Orlando Fals Borda, tinha se formado nos Estados Unidos; como nos objetivos da criação do curso prevalecia uma perspectiva assistencialista, a ênfase da grade curricular era dada na área das técnicas de pesquisa e da promoção da comunidade. Em verdade, o curso de Sociologia visava formar os quadros técnicos necessários para operacionalizar as novas políticas sociais do Estado. Era o caso da reforma agrária, do programa de modernização da agricultura e da oferta de moradia urbana. Estes programas eram promovidos respectivamente pelo INCORA (Instituto Colombiano de Reforma Agrária), pelo ICA (Instituto Colombiano Agropecuário) e pelo ICT (Instituto de Crédito Territorial). Instituições norte-americanas, como a Ford Foundation e a Wisconsin University, financiavam programas de assistência técnica e de aprimoramento de professores e a realização de pesquisas sociais.

Os grupos socialistas reclamavam uma reforma radical que levasse em conta uma formação mais teórica e política dos sociólogos, na contramão da orientação empírica predominante. Um grupo de professores da Faculdade de Ciências Humanas elaborou o documento "Neocolonialismo e Sociologia". O movimento cultural e político foi abrangendo universidades públicas de outros Departamentos e a luta pela reforma universitária constituiu-se num movimento nacional estudantil. Além das reformas na grade curricular, os estudantes pediam uma maior participação nos órgãos de tomada de decisões das universidades públicas. O movimento foi vitorioso e as reformas em grande parte foram estabelecidas.

Durante esse tempo (1967-1970) permaneci como membro ativo do MUAP, acompanhando este importante movimento político e cultural. Durante o período de férias visitávamos comunidades distantes da cidade capital para realizar projetos de alfabetização, lazer ou treinamento em primeiros socorros, apoiando as associações comunitárias. Nessas visitas, que duravam um mês aproximadamente, tive a oportunidade de conhecer o Departamento del Chocó, uma das regiões mais carentes da Colômbia.

No ano de 1969 nosso grupo universitário de ação popular teve conhecimento da obra de Paulo Freire no Brasil e de seu exílio no Chile. O ministério chileno da educação, do presidente Eduardo Frei, acolheu Paulo Freire como assessor. O governo democrata cristão do Chile promovia assentamentos de camponeses e criava fazendas cooperativas. O sistema pedagógico de Paulo Freire foi aplicado nesses projetos, procurando aumentar o nível cultural e a participação das comunidades rurais na execução de seus próprios planos de desenvolvimento. Um pequeno grupo de jovens do MUAP decidiu, então, viajar até Santiago do Chile para conhecer essa importante experiência.

Eu fiz essa viagem com Javier Andrade, um colega do curso de Direito da Universidad del Valle. Foram 9.800 quilômetros de estradas que percorremos em duas semanas, iniciando no final do mês de março de 1970. Fizemos um intervalo de três dias em Lima, capital da república-irmã, o Peru, chegando a Santiago do Chile no mês de abril. Um total de sete jovens do MUAP viajou com o mesmo propósito. Hospedados na casa de um ativista sindical da JOC (Juventude Operária Católica), entramos em contato com a equipe de Paulo Freire e participamos de um curso sobre educação e cultura popular, coordenado por Ernani Fiori, no escritório da CORA (Corporação da Reforma Agrária). Logo após, observamos o funcionamento dos círculos de cultura e alfabetização em um assentamento camponês da Província de Coquimbo, ao Norte de Santiago do Chile.

De regresso à Colômbia, com o apoio do IICA (Instituto Interamericano de Ciências Agrícolas) e a coordenação de João Bosco Pinto, discípulo de Paulo Freire, iniciamos uma experiência de alfabetização no litoral norte, no Departamento de Sucre, uma região semelhante ao nordeste brasileiro da época. O programa foi bem-sucedido, mas as pressões dos fazendeiros sobre as autoridades locais fizeram com que as atividades fossem encerradas com certa antecipação. Posteriormente eu realizaria como trabalho monográfico de minha formatura uma reflexão sobre o sistema pedagógico de Paulo Freire.

Depois dessa enriquecedora experiência, voltei para meus estudos na Universidade Nacional da Colômbia, onde me apaixonei por Ana Nury Gutiérrez Gómez, uma colega do curso conhecida como "Nury Cielo". Realizamos uma cerimônia naturista de casamento no dia 20 de agosto de 1972 e fomos morar juntos. Do ritual, realizado numa montanha a 3.200 metros de altitude, participaram duas testemunhas: Miguel Angel Hernández e Gloria Abella. Miguel fez um belo poema e, em seguida, plantamos um pé de pinheiro, o qual molhamos com algumas gotas de nosso sangue.

Desses anos realmente extraordinários ficaram lembranças de pessoas inesquecíveis* e alguns grandes amigos da universidade. Em particular, lembro de Nicolás Boris Esguerra Pardo e de Jaime Eduardo Jaramillo Jiménez. Boris, nascido em Santafé de Bogotá, era um jovem cristão de classe média, profundamente interessado pelos problemas sociais da época. Pessoa de costumes refinados, a lealdade e a moderação fizeram dele um sábio conselheiro. Jaime Eduardo era um jovem da cidade de Manizales, apaixonado por literatura e por temas sociais, disciplinado no estudo, excelente amigo e confidente. Compartilhamos os nossos questionamentos éticos e intelectuais e esse profundo amor pela justiça que os autênticos buscadores carregam no âmago de seus sensíveis corações.

*Jorge Enrique Barragán, Alejandro Sabaleta, Eliécer Arévalo, Carlos Rosero, Clara I. Gonzáles, Maria Consuelo Mejía, Nisma Orozco, Julieta Rendón, Arsenio Hurtado, Mario Alvear...

CAPÍTULO IV
A MILITÂNCIA POLÍTICO-SINDICAL (1973-1979)
"A ordem atual é deploravelmente defeituosa."
Bahá'u'lláh

Durante o tempo em que permaneci estudando na Universidade Nacional, tive a oportunidade de entrar em contato com algumas pessoas que praticavam a ioga. As idéias e práticas derivadas do Hinduísmo aliviaram meu espírito inquieto e harmonizaram a minha sensibilidade e razão. O reconhecimento de uma versão de Deus que se dilui na energia do universo também foi uma reconfortante descoberta religiosa. Nos dois últimos anos do curso de Sociologia coloquei em prática os exercícios do livro "Ciência da Respiração Ioga", de Ramacharaca, e entrei num processo gradativo de desapego do mundo.

Porém, esse estado emocional entrava em evidente contradição com uma sociedade cada vez mais polarizada e violenta. Foi nessa fase de novos questionamentos que comecei a trabalhar no ICA (Instituto Colombiano Agropecuário) como pesquisador do Departamento de Sociologia Rural. Poucos meses depois nasceu minha amada filha Margarita Maria, em 1º de agosto de 1973. O ICA era uma entidade criada no contexto da Aliança para o Progresso, promovida pelos EUA. Ela tentava contribuir para a modernização da produção rural desenvolvendo atividades de pesquisa, educação e extensão agropecuária. Ainda que as mais importantes pesquisas estivessem ligadas à agricultura comercial, tentava de algum modo beneficiar também os pequenos produtores. O ICA possuía várias fazendas experimentais e gerenciava os famosos Projetos de Desenvolvimento Rural em várias localidades da Colômbia. No ICA trabalhavam cerca de 5.000 funcionários, entre técnicos, operários, engenheiros e pesquisadores em diversas áreas das ciências (especialmente Agronomia, Veterinária, Sociologia e Economia).

Na empresa agia um pequeno grupo político cognominado MOIR (Movimento Operário Independente e Revolucionário), que promovia a busca de melhores condições salariais e de trabalho. A disciplina, sigilo e perspicácia de suas ações me levaram a entrar em contato com eles. Participei de várias reuniões onde eram apresentados uma nova versão da história da Colômbia e o programa político que orientava essa organização. Passei a colaborar nas atividades por achar nobres os seus objetivos e corretas as suas estratégias. Fiz parte do Comitê de Rádio e Imprensa do sindicato durante uma greve que foi deflagrada em 1974. O movimento desenvolveu a capacidade dos trabalhadores em se organizar e seu nível de consciência de classe. Como resultado da greve, algumas melhoras foram estabelecidas pela empresa. Concluído o movimento, houve uma fase de inquéritos e ameaças que pairavam sobre os participantes mais destacados.

Nesse momento, recebi uma oferta para trabalhar em uma Regional da empresa estatal INDERENA (Instituto de Recursos Naturais Renováveis) sediada na minha cidade natal, Bucaramanga. Apesar das limitações próprias de um cargo de chefia, consegui participar de algumas atividades educacionais no sindicato da empresa.

No dia 10 de outubro de 1975 nasceu minha amada filha Laura Patrícia. Morávamos em um bairro situado a uns 150 metros do Rio de Oro, no município de SanJuan de Girón. A partir desse ano comecei a lecionar na UIS (Universidade Industrial de Santander). Na UIS fiz parte de um grupo de professores que lutavam pela qualidade do ensino público e em defesa da universidade. Participávamos de assembléias e publicávamos um folhetim político-cultural. Por causa de nossas atividades um pouco arrojadas, criou-se um ambiente hostil a nosso grupo, e finalmente fui demitido em maio de 1976. Passei vários meses percorrendo o país em busca de emprego em alguma outra universidade pública, e no mês de agosto desse ano fui chamado para lecionar na Universidade de Pamplona.

Quando ingressei como professor na Universidade de Pamplona, tive o propósito de seguir três orientações: ser um excelente professor, conhecer as forças políticas atuantes na cidade e agir com inteligência e cautela na formação de um núcleo de amigos de nossa organização política. Em Pamplona, constituíram-se um comitê intersindical, que representava 15 organizações, e um pequeno núcleo de jovens estudantes (A Juventude Patriótica). Nessa época fui eleito presidente do sindicato de professores universitários. Pouco tempo depois, a diretoria da Universidade de Pamplona demitiu 10 professores vinculados ao sindicato. Iniciou-se um movimento que durou 4 meses e teve a participação de professores, estudantes, sindicatos amigos e da própria população da cidade. Realizamos passeatas na cidade e uma marcha sobre a capital do Departamento, a cidade de Cúcuta, apresentando posteriormente nossas reclamações na Assembléia Departamental. O governador removeu o reitor, e os professores foram reincorporados em seus cargos. Estabeleceu-se o 14º salário e gerou-se um ambiente mais democrático na universidade.

Nesse período mantive contato com vários camponeses da localidade e reconheci admirado sua religiosidade. A reflexão sobre aqueles fatos me levou a ter uma clara consciência de que os grupos socialistas, na Colômbia, menosprezavam ou simplesmente ignoravam esse importante aspecto da cultura do povo: a religião. Na época, a luta da Frente Sandinista de Libertação Nacional na Nicarágua culminava com a vitória contra o ditador Anastásio Somoza. Muitos cristãos participaram desse movimento popular. Enquanto isso acontecia, na América Central eu era chamado pela direção regional de nosso grupo para um inquérito popular. Eu e o secretário da Juventude Patriótica fomos punidos por nossas atitudes liberais, com um período de suspensão por seis meses. O fato era que tínhamos desconhecido uma orientação da direção regional no sentido de realizar uma comemoração do 1º de maio contra a burguesia, a política norte-americana e o expansionismo soviético. Ainda que não simpatizássemos com a política soviética, achávamos errado colocar esse assunto como palavra de ordem. O excessivo envolvimento nas atividades sindicais e políticas, por sua vez, tinha-me afastado da vida familiar. O domingo era o único dia que eu dedicava completamente às minhas filhas. Passeávamos pela Praça Almeida e tomávamos sorvete sentados em algum banco da praça. Eram momentos de uma feliz e inesquecível proximidade.

CAPÍTULO V

A CRISE DO SONHO SOCIALISTA E A BUSCA DE NOVAS UTOPIAS (1980-1984)

"... aquele que procura, poderá ele ficar tranqüilo longe do desejo de seu coração?"

Bahá'u'lláh

O desencanto com a prática política essencialmente antidemocrática do grupo socialista no qual militava e as limitações de natureza ética e espiritual derivadas de sua ideologia, limitações que se refletiam nas relações humanas e no agir cotidiano dos militantes socialistas, levaram-me à busca de novos horizontes ideológicos. O meu casamento também havia entrado em crise, passando por uma fase de intermináveis recriminações. Na sala de aula eu me questionava com inquietante ansiedade: como posso ser um professor universitário e orientar meus alunos quando eu mesmo estou me sentindo perdido? O que vou passar para meus alunos? Pedi demissão do cargo de professor e escrevi uma carta de despedida a todos os amigos que compartilharam a experiência do movimento pela defesa da universidade pública na cidade de Pamplona. Minha esposa solicitou separação judicial de corpos e de bens.

Tive, então, a desafiante sensação de ter chegado a uma praia desconhecida logo após ter-se afundado o navio em que eu viajava. Era o começo de uma nova caminhada, o início de uma busca apaixonada por uma luz que de novo iluminasse e aquecesse minha vida.

Viajei para Santafé de Bogotá, onde entrei em contato com alguns amigos. Como sentia grande interesse em conhecer mais de perto a Teologia da Libertação e sua atuação na Nicarágua, continuei a viagem até a Cidade do Panamá em fevereiro de 1980. Lá instalado, dediquei vários dias de pesquisas sobre a história do Canal e a visitas às suas instalações. Escrevi um artigo que foi publicado no Suplemento Literário do jornal Vanguarda Liberal de Bucaramanga. Ali relatava o desejo de autonomia do povo panamenho perante a presença de tropas norte-americanas e a recusa com relação à construção de um novo e mais moderno canal naquele país.

Conheci, nessa visita ao Panamá, um colombiano que participava de programas sociais inspirados na Teologia da Libertação. Ele me deu algumas sugestões para que eu pudesse conhecer mais de perto seus autores e protagonistas na América Central. Viajei para San José de Costa Rica, onde funcionavam o DEI (Departamento Ecumênico de Investigações) e o Seminário Bíblico Latino-americano. Ali fui convidado para uma oficina sobre a Teologia da Libertação. O único requisito para participar era comprovar a participação em movimentos sociais por um período superior a dois anos. Como fui membro ativo de vários sindicatos por mais de seis anos, não tive maiores dificuldades em obter a declaração disso.

Nessa oficina, entrei em contato com os textos do Antigo e Novo Testamentos sob outro olhar. O livro do Êxodo, por exemplo, era interpretado como o relato do processo emancipatório do povo judeu, como uma luta de libertação nacional. Outros livros do Antigo Testamento eram interpretados nessa perspectiva. O Novo Testamento de Jesus Cristo era interpretado como uma mensagem de vida tanto espiritual como material. As palavras de Jesus na Sinagoga (Lucas 4 : 18-20)* entendiam-se como um apelo à conquista dos direitos humanos fundamentais; Jesus trazia vida, vida em abundância. Vinha libertar os escravos e esmagar os opressores. O conceito de pecado era relacionado especialmente com a injustiça social: o pecado maior é a exploração dos pobres.

* "O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu; enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres, para sarar os contritos de coração, para anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a restauração da vista, para pôr em liberdade os cativos, para publicar o ano da graça do Senhor."

Estabelecido na Colômbia, entrei em contato com um grupo de leigos e padres desse movimento que me forneceram revistas e materiais utilizados no treinamento de facilitadores do CINEP (Centro de Investigações e Educação Popular). Nesses textos encontrei uma música que era ensinada para crianças na época do Natal, onde o Menino Jesus era apresentado como um futuro guerrilheiro. Isto chocou-me profundamente. Eu achava que um Mensageiro de Deus, um Mestre Espiritual da humanidade, não podia ser manipulado dessa forma. A partir de então tomei certa distância da Teologia da Libertação.

No final desse ano (1980) encontrei por acaso Ruben Darío Mayorga, um amigo colombiano que conheci em 1974. Ele morava em Fortaleza, Brasil, e lecionava no Departamento de Economia Agrícola da Universidade Federal do Ceará. A forma como ele descreveu o ambiente intelectual e cultural do país animou-me a visitar, poucos dias depois, a Embaixada do Brasil em Santafé de Bogotá. Solicitei informações sobre os cursos de pós-graduação em Sociologia nas universidades brasileiras. Enviei minha documentação para a Universidade Federal do Rio Grande do Sul e para a Universidade Federal do Ceará. A experiência que já tinha como professor e pesquisador e o fato de ter realizado a monografia de graduação sobre o sistema pedagógico de Paulo Freire facilitaram a minha seleção. Entrei em contato telefônico com o professor André Haguette, coordenador do mestrado em Sociologia da UFC, e no dia 10 de março de 1981 cheguei a Fortaleza.

Dediquei-me intensamente às leituras e trabalhos e obtive um bom aproveitamento nas disciplinas do curso, alternando atividades acadêmicas, desenho e dança. No Reveillon daquele ano faleceu meu amado pai, mas eu não fiquei sabendo de imediato. A tristeza tomou posse de mim nesse dia, apesar de eu não saber do acontecido. No final do ano de 1982 ingressei na Pastoral Universitária de Fortaleza e participei ativamente de suas reuniões e projetos. Conheci seres humanos maravilhosos que ainda hoje são meus amigos: Vicente Belém Pinho, Terezinha Façanha, Heloise Riquet, Inés Silvia Vitorino Sampaio e a leal colega Maria Neuma P. Lopes.

Depois de um desencontro amoroso tive o privilégio de conhecer, em Fortaleza, Maria Valdelina Pereira. Entre muitas caminhadas e conversas pelo centro e pelas praias da cidade nos tornamos namorados. No dia 8 de dezembro de 1983, quando já tinha decidido retornar à Colômbia para visitar minha família, particularmente minhas filhas Margarita e Laura, eu e Maria Valdelina passamos o dia juntos, e no pôr-do-sol daquele dia fizemos a inesquecível promessa perante o mar: se nos encontrássemos novamente e nenhum de nós dois tivesse assumido compromisso com outra pessoa, nosso casamento se realizaria.

CAPÍTULO VI
O ENCONTRO COM O MEU SENHOR (1985)
"Pedi e se vos dará. Buscai e achareis."
Mateus 7,7

Voltei para a Colômbia, ao encontro da minha família, no final do ano de 1983. Meu pai tinha falecido no dia 31 de dezembro de 1981. No breve testamento, em que indicava algumas orientações sobre seu funeral, solicitou não informar ao filho que morava fora do país até uma semana após seu falecimento, com o propósito de que eu não tivesse despesas pela viagem. Assim, fiquei sabendo de sua ascensão para o mundo espiritual no dia 6 de janeiro de 1982. Liguei para minha mãe e passei o dia lembrando dos ensinamentos e do modelo de vida que nosso pai passou para nós. Quando ele contraiu malária, e posteriormente teve uma trombose cerebral, sua vida mudou radicalmente. Tornou-se uma pessoa mais espiritual e tolerante e também mais amigo de seus filhos. Ele gostava de conversar na hora das refeições comentando episódios de sua vida ou fatos recentes de nosso país. Logo que cheguei, minha mãe ofereceu-me a quitinete onde meu pai morou, no térreo da nossa casa. Nas primeiras semanas em que dormi ali tive um sonho em que ele me chamava dizendo: "Arturo, é melhor você vir comigo e descansar desse mundo tão agitado!" Eu saí da quitinete por uns dias e mudei os móveis de meu pai.

No mês de janeiro de 1984 comecei a lecionar como Instrutor Associado no Departamento de Sociologia da Universidade Nacional da Colômbia, em Santafé de Bogotá. O país vivia conflitos constantes no campo e na cidade. A Universidade Nacional era um foco a mais desses conflitos. Poucos meses depois de iniciadas as aulas, um confronto entre estudantes e polícia, com bombas incendiárias e disparos, deixou alguns mortos e muitos feridos, e a Universidade Nacional foi fechada indefinidamente. Como os salários foram suspensos para os professores que não eram efetivos, minha situação de sobrevivência tornou-se difícil e voltei para a cidade de Bucaramanga. Passei alguns dias desenhando as plantas do quintal da nossa casa para relaxar, enquanto procurava um novo emprego.

Recebi uma oferta para trabalhar no projeto hidroelétrico URRÁ II, no Departamento de Córdoba, região norte da Colômbia. Poucos dias depois de iniciado o meu trabalho, compreendi com desagrado que o nosso papel era o de persuadir uma comunidade indígena para abandonar suas terras ancestrais que seriam alagadas com a represa da hidroelétrica. Achei que essa função não era condigna com minha ética profissional, e desisti do contrato. Como podia eu ser instrumento de uma instituição que pedia aos primeiros moradores dessas terras para abandoná-las?

Passei um tempo mais calado do que de costume, dada minha difícil situação. Nessas circunstâncias reencontrei um amigo da época escolar, Gabriel Blanco. Em várias de nossas extensas conversações observei um tipo de conhecimento particularmente esclarecido no bojo de suas idéias. Perguntei se ele fazia parte de um grupo especial. Por três meses ele não respondeu a minha pergunta. No mês de outubro de 1984 ele me convidou a uma reunião de um grupo de amigos.

Em um dia de Sábado, às 16:00 horas, cheguei pela primeira vez à sede daquele grupo. Minha primeira impressão foi de admiração pela simplicidade e sinceridade das pessoas ali reunidas. Observei, especialmente, que não existia uma chefia explícita ou um tipo de manipulação, comum nos grupos políticos e sindicais que eu conhecia. Ali estavam a senhora Simín e o senhor Habib Rezvani, o senhor Rafael e a senhora Teresa Duque, alguns jovens como Pedro Abdul, Tahirih, Naghmeh e Nayyirih. Eles eram bahá'ís.

Li um folheto que tratava sobre a Fé Bahá'í e sua comunidade mundial. Nele, havia informações sobre a história e o sistema administrativo dos bahá'ís e também sobre seus princípios básicos: unidade de Deus, unidade das religiões, unidade da humanidade. Outros ensinamentos eram explicados, como a eliminação dos extremos de pobreza e riqueza, igualdade de direitos entre homens e mulheres, interdependência de capital e trabalho, etc. O folheto comentava que um governo mundial deveria ser estabelecido. No final, convidava para a busca independente da verdade. Fiquei admirado de encontrar tão belos ensinamentos. Pensei: é tudo isso que constitui o ideário de um ser humano nesta época. Mas estas pessoas serão realmente sinceras? Como posso confiar nelas? Bem poderiam fazer parte de uma outra armadilha de algum interesse estrangeiro.

Decidi, então, pesquisar. Assisti a todas as reuniões, li vários livros* de Bahá'u'lláh e de outros autores que falavam sobre a Fé Bahá'í. Passaram-se seis meses e concluí que os ensinamentos bahá'ís constituíam um bom guia, sendo um projeto social e espiritual incomparável, e que eu poderia participar desse esforço por construir um mundo melhor. Declarei-me bahá'í em abril de 1985, aceitando Bahá'u'lláh como o mensageiro de Deus para nossa época e comprometendo-me a estudar e praticar os seus ensinamentos.

*As Palavras Ocultas, Os Sete Vales, O Livro da Certeza, Os Rompedores da Alvorada, Bahá'u'lláh e a Nova Era etc.

Três aspectos importantes nas dimensões religiosa, política e intelectual examinei cuidadosamente para tomar a minha decisão. O primeiro aspecto tinha a ver com Jesus Cristo e Bahá'u'lláh. Bahá'u'lláh constituía realmente o retorno de Cristo ou era um falso profeta? Como poderia meu coração reconhecer e amar Bahá'u'lláh sem trair Jesus Cristo? O livro de William Sears, "Ladrão na Noite", ajudou-me a esclarecer esses questionamentos. Um outro aspecto se relacionava com a capacidade de compreender a raiz espiritual dos problemas sociais e econômicos. Eu tinha sido ativista sindical e político por vários anos. Como poderia entender de imediato que toda transformação social e política é incompleta se não está acompanhada de uma profunda transformação espiritual? A meditação e a leitura de textos de 'Abdu'l-Bahá me ajudaram nesse aspecto.

O terceiro aspecto era do tipo intelectual. Formado em um discurso materialista centrado na luta de classes, eu achava difícil incorporar os avanços teóricos da sociologia marxista em um discurso mais abrangente e complexo. À luta de classes, fundada no antagonismo entre capital e trabalho, devia-se contrapor o conceito de interdependência entre capital e trabalho. À ênfase excessiva dos interesses de classe e nação, um novo conceito de solidariedade e cidadania: a cidadania mundial.

Um detalhe curioso: mais de mil vezes eu tinha passado na frente daquele local que fica perto da casa de meus pais. No entanto, nunca tinha me dado conta de sua existência. Só agora, depois de transitar durante tantos anos por essa rua, enxergava pela primeira vez a placa: Sede Bahá'í.

CAPÍTULO VII

OS PRIMEIROS ANOS DE SERVIÇO À CAUSA DE BAHÁ'U'LLÁH

(1986-1994)

"Levantais-vos para promover a Minha Causa e enaltecer Minha Palavra."

Bahá'u'lláh

No ano seguinte à minha declaração como bahá'í, tive a oportunidade de participar da Convenção Nacional dos Bahá'ís da Colômbia. Lá entrei em contato com bahá'ís de todo o país e conheci entre eles a Sra. Doris e o Sr. Luis Sanchez, Hamilton Bretón, Sra. Inesita Montenegro, Leonardo Duque, Leslie Garrett e os irmãos Arbeláez. Comecei a colaborar nas atividades educacionais e de apoio às Assembléias Locais das cidades de Cúcuta e San Alberto. Mais tarde tive o privilégio de conhecer a empolgante história da Universidade Rural em Puerto Tejada, Departamento de Norte Del Cauca. A Universidade Rural constitui uma rica experiência de um trabalho sistemático de educação e desenvolvimento rural inspirado nos princípios bahá'ís. As atividades da Universidade Rural são realizadas em parceria com o famoso Instituto Ruhí.

Na leitura das Epístolas do Plano Divino de 'Abdu'l-Bahá encontrei inspiração e ânimo para ser pioneiro. 'Abdu'l-Bahá afirma que se algum bahá'í conhece um outro idioma, deve se levantar para servir em outro país. Manifestei a minha disponibilidade à Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá'ís da Colômbia. O Conselheiro, Doutor Farzam Arbab, num encontro que tivemos, orientou-me para que eu selecionasse uma das cinco metas internacionais dos bahá'ís da Colômbia na época: fronteira com a Venezuela, fronteira com o Brasil, Equador, Panamá e El Salvador. Assisti a um treinamento intensivo para os bahá'ís que se preparavam para realizar o "ano de serviço" e viajei para El Salvador em fevereiro de 1989. Cheguei ao aeroporto da capital San Salvador, onde um oficial do exército me perguntou: "quanto tempo pensa permanecer no país?". Eu respondi que pelo menos um mês. Ele sorriu e escreveu no meu passaporte: 03 dias de permanência no país. Por mediação da Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá'ís de El Salvador, minha permanência foi ampliada para 30 dias.

El Salvador era um país que vivenciava naquele período uma prolongada e violenta guerra civil. Nas principais avenidas, freqüentemente, o exército estacionava tanques blindados, e nos percursos dos ônibus urbanos era comum a revista de passageiros. Eu participava das reuniões bahá'ís em San Salvador e visitava semanalmente duas cidades: Santa Ana e San Miguel. O propósito dessas visitas era prestar apoio às comunidades bahá'ís nessas duas localidades. Duas semanas após minha chegada, e passado o mês de jejum bahá'í, entrei em contato com várias universidades do país. Fui chamado para lecionar "Seminário de Monografia" na Universidade Pedagógica de El Salvador (UPES). Trabalhei nessa Universidade por dois semestres consecutivos.

No dia 12 de novembro de 1989, data comemorativa do nascimento de Bahá'u'lláh, a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) lançou sua famosa ofensiva final sobre a capital do país. O governo solicitou através da TV que toda a população permanecesse em casa. Foram dias de muita tensão, de encarniçados combates entre o exército e a guerrilha do FSLN.

Em El Salvador conheci várias famílias bahá'ís: os Torres, os Rivas, os Elaghian, os Farrand, os Retana, pessoas corajosas, espiritualizadas e trabalhadoras que percorriam o país para levar os ensinamentos de Bahá'u'lláh num cenário carregado de incertezas. Voltei para a Colômbia ao fim da ofensiva guerrilheira.

No mês de julho de 1993 viajei para Manaus, Brasil, e participei de uma conferência bahá'í sobre o desenvolvimento da Amazônia.* Antes de chegar a Manaus, passei por Tabatinga (fronteira do Brasil com a Colômbia) e colaborei com algumas atividades para a promoção do Instituto Indígena do Amazonas. Nessa região vários pioneiros bahá'ís trabalhavam coordenadamente, entre eles Floresmiro Rodríguez, Olavo Novaes, Mauro Rosas e a família Ramos. Paulo Ramos me ofereceu um convite para ser pioneiro em Cabo Verde, África Ocidental. Encaminhei meus documentos através da Assembléia Espiritual Nacional (AEN) dos Bahá'ís do Brasil, e em janeiro de 1994 viajei para Madrid, entrando em contato com o Secretário da AEN dos Bahá'ís da Espanha, senhor Luis Cirera Fonte. Cheguei de trem a Lisboa e liguei para o Doutor Pierre Martel, que trabalhava no escritório da UNICEF da cidade de Praia, República do Cabo Verde.

*No Estado de Amazonas funcionam dois importantes projetos de educação e desenvolvimento coordenados pelos bahá'ís da região, através da Associação para o Desenvolvimento Coesivo da Amazônia: O instituto Leonora Armstrong, em Manaus, e o Politécnico Rural, no distrito de Iranduba.

Cabo Verde é um pequeno país formado por várias ilhas que somam ao total uma superfície de 5.000 km2, situado a umas 500 milhas do litoral Oeste da República do Senegal. Sua população é de aproximadamente 500.000 habitantes, sendo 80% da população de raça negra. Foi colônia portuguesa até 1974, quando junto com a Guiné Bissau alcançou a independência na luta liderada por Amílcar Cabral. A principal atividade econômica é a pesca de atum e a extração de sal. A maioria da população sobrevive com pequenos negócios de comércio, serviços ou transporte. Cabo Verde recebe ajuda técnica e alimentar de vários países, tais como a França, EUA, Rússia, Portugal e a República Popular da China. Praia, capital do país, tem uma população aproximada de 70.000 habitantes. Na ilha de São Thiago, onde fica a capital do país, também existem duas pequenas vilas: Assomada e Tarrafal.

Estabeleci-me em Assomada, onde funcionava o projeto bahá'í de desenvolvimento rural integral. Minha missão era assumir a direção da Escola Rural recentemente criada por um grupo de amigos bahá'ís. A escola funcionava na Ribeira dos Engenhos, numa fazenda que o estado cedeu para os bahá'ís administrarem. A fazenda estava rodeada de pequenos núcleos familiares ou clãs, que viviam de uma incipiente atividade agrícola. A idéia era fazer da escola um centro técnico agropecuário. Os jovens das famílias camponesas, no entanto, almejavam deixar o país e trabalhar como operários na Europa. Foi possível formar uma turma de 14 alunos, e as aulas foram iniciadas. Pouco depois, a fundação responsável pelo projeto entrou em falência e as aulas foram suspensas. Sem emprego, depois de acompanhar durante 6 meses o projeto tive de abandonar o país.

CAPÍTULO VIII
O RETORNO AO BRASIL (1996-1997)

"Aonde pode ir o apaixonado senão à terra de sua bem amada?"

Bahá'u'lláh.

Instalado de novo na Colômbia, passei a lecionar durante dois anos, no Departamento de Saúde Pública da Universidade Industrial de Santander, a disciplina "Sociologia da Saúde". Nessa ocasião participei de duas pesquisas: uma sobre o impacto ambiental do projeto hidroelétrico do Rio Sogamoso e outra, com a prefeitura da cidade de Bucaramanga, relacionada com o diagnóstico e proposta de desenvolvimento integral das prostitutas da cidade.

Durante os doze anos que tinham transcorrido desde a promessa feita a Maria Valdelina Pereira em Fortaleza, mantinha comunicação regular através de cartas e ligações telefônicas. Como nosso reencontro fora adiado várias vezes por diversas razões, decidi enviar uma "carta-ultimatum" para Valdelina, dizendo que ela deveria viajar à Colômbia e conhecer a minha família ou dar por encerrado nosso namoro por correspondência. Recebi Valdelina no aeroporto de Santafé de Bogotá às 23:00 horas do dia 15 de julho de 1996. Reconhecemo-nos imediatamente. No dia seguinte visitamos o famoso Museo Del Oro, em Bogotá, e à noite iniciamos viagem para Bucaramanga. Valdelina conquistou a minha família com sua simpatia e carinho. Ela só permaneceu cinco dias em Bucaramanga e voltou para Fortaleza. Eu me comprometi a visitar sua família no fim do ano. No dia 12 de novembro cheguei a Fortaleza, às 14:00 horas. Nesse mesmo dia às 20:00 horas assistimos pela primeira vez em Fortaleza à comemoração do nascimento de Bahá'u'lláh. Participavam dessa comemoração a família Seabra, Farbob, Odete, a senhora Zenaide Santana, Cristina e algumas crianças e jovens.

Passei um mês em Fortaleza encaminhando a documentação necessária para realizar o casamento. Como os documentos não estavam completos, voltei à Colômbia em dezembro de 1996 e retornei para Fortaleza em março de 1997. No dia 19 de abril realizaram-se a cerimônia civil e a cerimônia bahá'í de casamento. A cerimônia bahá'í teve a presença de vários membros da Assembléia Espiritual local dos Bahá'ís de Fortaleza. Num ambiente espiritual, logo após a leitura do Conselhos sobre o Casamento de 'Abdu'l-Bahá e algumas orações, recitamos o versículo divinamente ordenado: "Anuiremos todos, verdadeiramente, à vontade de Deus". A senhora Zenaide Santana encerrou a cerimônia com uma magnífica peça musical. No dia 26 de abril foi realizada a cerimônia católica na igreja Santa Edwiges, num belo anoitecer na praia do Pirambu.

O próximo capítulo, número IX, ainda está sendo vivenciando e só será dado a conhecer no futuro.

Resenha sobre a Fé Bahá'í

A Fé Bahá'í é a mais jovem das religiões mundiais independentes. O seu fundador, Bahá'u'lláh (1817-1892), é o mais recente na linha dos Mensageiros de Deus. O tema central da Mensagem de Bahá'u'lláh é o conceito de que a humanidade representa uma única raça e que é chegado o dia de sua unificação em uma única sociedade global. Deus, declarou Bahá'u'lláh, pôs em marcha forças históricas que estão rompendo as barreiras tradicionais de raça, classe, credo e nação, e que irão, no devido tempo, dar à luz uma civilização universal. O principal desafio que se coloca aos povos do mundo é aceitar o fato da unidade do gênero humano e auxiliar os processos de sua unificação. Um dos propósitos da Fé Bahá'í é contribuir para que isto se torne realidade.

A Fé Bahá'í é uma comunidade mundial formada por mais de cinco milhões de pessoas e, de acordo com o Livro do Ano da Enciclopédia Britânica, já é a segunda religião mundial geograficamente mais distribuída no planeta. Ela está presente em mais de 130.000 localidades ao redor do mundo e possui uma diversidade de mais de 2.100 diferentes grupos étnicos, refletindo sua dedicação ao ideal da cidadania mundial.


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