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Osmar Mendes : O Sacrifício Máximo no Caminho de Deus
O Sacrifício Máximo no Caminho de Deus
Dar a Vida por Amor ao Bem-Amado
Para Meditar, Amar,Confiar, Servir
Editora Bahá'í do Brasil
Textos:
Habib Taherzadeh
Tradução
Osmar Mendes

Esta publicação é dedicada aos mártires de todas as religiões, em todos os tempos.

Apresentação

O pai dos conhecidos bahá'ís, Adib Taherzadeh e Habib Taherzadeh, Sr. Táhir-i-Málmiri, natural da cidade de Yazd, na Pérsia, escreveu um livro contando sobre a vida dos mártires de sua cidade natal, livro esse já traduzido para o inglês, mas ainda inédito. O Sr. Habib Taherzadeh, baseado nos dados desse livro, escreveu a história dos martírios de três destacados fiéis, que formam o corpo principal desta obra. São episódios muito emocionantes, que inclusive poderão chocar leitores que desconheçam histórias semelhantes, de outros mártires iranianos. Mas foi a realidade, contada de maneira muito objetiva e humana pelo Sr. Habib Taherzadeh.

Para dar uma moldura à obra, que efetivamente trata do mistério do sacrifício máximo no caminho de Deus - dar a vida por amor ao Bem-Amado divino - adicionamos uma tradução de trechos do livro do Sr. Adib Taherzadeh, "The Revelation of Bahá'u'lláh" explicando o que significa a "força sobrenatural dos mártires." Incluímos orações do Báb e de 'Abdu'l-Bahá e textos de Bahá'u'lláh versando também sobre os mártires e a importância de seus atos heróicos para comprovar a autenticidade do poder desta Revelação Divina.

Esta obra foi preparada especialmente para os bahá'ís. Tem um objetivo, do qual falamos no final do livro, na parte: "CONCLUINDO..."

Leiam primeiro todo o livro. Depois, a sua conclusão final.

A pedido do Sr. Habib Taherzadeh, a tradução foi feita por seu filho espiritual, Osmar Mendes, que organizou também o restante da obra.

Tenhamos todos um bom proveito com a sua leitura.
Oração do Báb

Quão numerosas as almas revivificadas que foram expostas a deplorável humilhação em Teu Caminho, por haverem exaltado Tua Palavra e glorificado Tua Unidade divina. Quão profuso o sangue que foi derramado por causa de Tua Fé, a fim de vindicar a autenticidade de Tua Missão divina e celebrar Teu louvor.

Como eram vastas as possessões injustamente apreendidas no Caminho de Teu amor, para que se afirmasse o sublime grau de Tua santidade e se louvasse Teu Nome glorioso!

Quantos foram os pés que pisaram o pó, a fim de magnificar Tua santa Palavra e exaltar Tua glória! Quão inumeráveis as vozes que se levantaram em lamento e os corações que se atemorizaram, as penosas tribulações que nenhum outro, senão Tu, pode avaliar, e as adversidades e aflições que permaneceram inescrutáveis a todos menos a Ti Próprio; tudo isso, ó meu Deus, para estabelecer o sublime grau de Tua santidade e demonstrar o caráter transcendente de Tua glória.

Estes decretos foram por Ti ordenados, de modo que todas as coisas criadas pudessem dar testemunho de não haverem sido trazidas à existência por outra causa, senão Teu amor. Tu lhes tem negado as coisas que trazem tranqüilidade a seus corações, que qualquer coisa associada com Teu santo Ser é muito superior e exaltada acima de tudo mais que lhe pudesse satisfazer, desde que Teu indômito poder abrange todas as coisas e nada poderá jamais frustrá-lo.

Tu, em verdade, fizeste ocorrer esses momentosos eventos para que as pessoas dotadas de percepção pudessem reconhecer prontamente o sublime grau de Tua unidade divina e afirmar a exaltação da Tua santidade.

O Sacrifício no Caminho do Todo-Glorioso
Palavras de Bahá'í 'lláh

Entre as provas que demonstram a verdade desta Revelação, figura a seguinte: em cada era e Dispensação, sempre que a Essência invisível se revelava na pessoa de Seu Manifestante, certas almas, obscuras e desprendidas de todas as coisas terrenas, iam, em busca de iluminação, ao Sol Profético e à Lua da guia divina e atingiam a Presença Divina. Por esta razão, os sacerdotes da época e os possuidores de riqueza desdenhavam e zombavam dessas pessoas...

Nesta, a mais resplendente Era, porém - nesta, a mais poderosa Soberania - vários sacerdotes. iluminados, diversos homens de consumada erudição e doutos possuidores de sabedoria madura, atingiram Sua Corte, beberam da taça de Sua Presença Divina e foram agraciados com a honra de Seu mais excelente favor. Renunciaram. por causa do Bem-Amado, ao mundo e a tudo o que nele está...

Todos eles foram guiados pela luz do Sol da Revelação Divina, confessaram e reconheceram Sua verdade. Tal foi a fé da maioria, que renunciaram bens e parentes, e aderiram ao beneplácito do Todo-Glorioso. Renderam a alma ao Bem-Amado e sacrificaram tudo em Seu caminho. Os peitos tornaram-se alvos para os dardos do inimigo, e as cabeças adornaram as lanças do infiel. Nenhuma terra restava que não tivesse bebido o sangue dessas personificações do desprendimento, nem espada que não lhes houvesse ferido o pescoço. Bastam as ações para atestar a verdade das palavras.

Não será suficiente para o povo deste dia o testemunho dessas almas santas, que tão gloriosamente se levantaram para oferecer a vida pelo Bem-Amado - e que o mundo inteiro se maravilhou pela forma de seu sacrifício?

Com que amor, que devoção, que exultação e santo êxtase, sacrificaram a vida no caminho do Todo-Glorioso! A verdade disto todos atestam...

Considera tu estes mártires, cuja sinceridade é inquestionável e de quem o texto explícito do Livro afirma a veracidade, todos os quais, assim como tens testemunhado, sacrificaram vidas, bens, esposas, filhos - tudo, e ascenderam aos mais altos aposentos do Paraíso. Será justo rejeitar o testemunho que esses seres desprendidos e elevados deram da verdade desta proeminente e gloriosa Revelação, e considerar aceitáveis as denúncias feitas contra esta Luz resplandecente por este povo infiel, que por ouro abandonou sua fé e por amor à liderança repudiou Aquele que é o Dirigente Primário de toda a humanidade?

"Ó... tu que rendeste tua vontade a Deus!

Por rendição do eu e perpétua união com Deus se entende que os homens devem fundir a própria vontade inteiramente na Vontade de Deus, e considerar os próprios desejos como simplesmente nada à face de Seu desígnio.

Qualquer coisa que o Criador mande que Suas estruturas observem, elas devem se levantar para cumprir diligentemente e com o maior júbilo e fervor.

De modo algum devem permitir que as fantasias lhes obscureçam o juízo, nem devem considerar as próprias imaginações como sendo a voz do Eterno...

O grau da absoluta rendição do eu transcende todos os demais graus e exaltado acima destes há de permanecer para sempre."

Do livro Seleção dos Escritos de Bahá'u'lláh.
páginas 117, 119 e 209.
Oração de 'Abdu'l-Bahá
Ele é Deus!
Ó Senhor, meu Deus!

Ó Tu, que ajudas ao fraco, socorres o pobre e salva o desamparado que para Ti se volta.

Com a maior humildade ergo minhas mãos suplicantes ao Teu Reino de beleza e com ardor te invoco, falando do íntimo de meu ser:

Ó Deus, meu Deus!

Ajuda-me a Te adorar, fortalece meus poderes para Te servir; ampara-me com Tua graça em minha servitude a Ti; derrama sobre mim as copiosas graças de Tua benevolência, dirige para mim os olhares de Tua amorosa bondade e imerge-me no oceano de Teu perdão.

Permite que eu seja confirmado em minha fidelidade à Tua Fé e concede-me a máxima certeza e segurança, para que eu possa desligar-me inteiramente do mundo, voltar minha face com toda devoção em direção à Tua face, ser fortalecido pelo poder irresistível das provas e testemunhos, e, investido de majestade e poder, possa ultrapassar todas as regiões do céu e da terra. Verdadeiramente, Tu és o Misericordioso, o Todo-Glorioso, o Soberano, o Compassivo.

Ó Senhor! Estes são os sobreviventes dos mártires, aquele grupo de almas abençoadas. Têm suportado todas as tribulações e demonstrado paciência em face da injustiça opressora. Renunciaram todo conforto e prosperidade, submetendo-se espontaneamente a terríveis sofrimentos e adversidades no caminho de Teu Amor, e estão ainda cativos nas garras de Teus inimigos, que continuamente os atormentam amargamente e os oprimem porque prosseguem fIrmemente em Teu caminho reto. Ninguém há que possa ajudá-los. Além dos ignóbeis e maldosos, não há ninguém para com eles se associar e conviver.

Ó Senhor! Estas almas têm provado amarga agonia nesta vida terrena e, em sinal de seu amor pela beleza radiante de Teu semblante, em sua ansiedade em atingir Teu Reino Celestial, têm tolerado todas as indignidades que o povo da tirania tem infligido sobre elas.

Ó Senhor! Enche seus ouvidos com versos de Ajuda Divina e de uma rápida vitória. E liberta-os da opressão daqueles que comandam terrível poder. Detém as mãos do malfeitor e livra estas almas de serem dilaceradas pelas garras e dentes de bestas ferozes, pois em seu amor por Ti ficaram fascinadas e a elas foram confIados os mistérios de Tua Santidade. Permaneceram humildemente à Tua porta, tendo atingido o Teu exaltado limiar.

Ó Senhor! Generosamente revigora-as com um novo espírito, ilumina seus olhos para que possam contemplar Tuas maravilhosas evidências na escuridão da noite; destina-lhes todo o bem que existe em Teu Reino de eternos mistérios; toma-as como estrelas brilhantes, irradiando sobre todas as regiões; árvores frondosas carregadas de frutos e ramos, movendo-se sob as brisas do alvorecer.

Verdadeiramente, Tu és o Generoso, o Poderoso, o Onipotente, o Irrestrito. Não existe outro Deus senão Tu, o Deus de Amor e de amorosa compaixão, o Todo-Glorioso, o que sempre perdoa.

'Abdu'l-Bahá
A Força Sobrenatural dos Mártires

Tentemos descobrir, através do estudo das Escrituras, bem como da história da Causa, a razão para a extraordinária força espiritual demonstrada por muitos mártires da Fé.

A história confIrma que sempre que um crente é conduzido à cena de seu martírio por seus carrascos, ou após ter sido selvagemente torturado antes da morte, lhe é dada a oportunidade da escolha entre renegar sua fé e ser libertado, ou confirmá-la e dar a vida no caminho de Deus.

Se naquele momento de decisão ele for incapaz de separar-se inteiramente das coisas do mundo, de suas delícias e prazeres, ou das alegrias e contentamento da vida junto de seus amados, parentes e amigos, então tal pessoa permanecerá inteiramente presa a este mundo e, conseqüentemente, separar-se-á de Bahá'u'lláh. É neste ponto, sob a ameaça de morte, que a pessoa se priva do poder sustentador de Bahá'u'lláh, e como resultado enche-se de medo e renuncia à Fé a fIm de salvar sua própria vida. Embora considerado um fiel seguidor do Mensageiro Divino antes de se ver confrontado com esse difícil teste e dolorosa tribulação, no entanto, devido ao fato de não ter sido capaz de desligar-se das afeições mundanas, sucumbe à pressão dos testes e, como um homem no alto de uma montanha, perde o equilíbrio e desaba para o fundo do abismo.

Já tratamos anteriormente, em detalhes, da idéia de que a única barreira que separa o ser humano do Manifestante de Deus é seu apego a este mundo. É essa barreira que impede o fluxo permanente do poder divino à alma humana, e tira do indivíduo o manto da coragem e da fé.

Por outro lado, se o crente, na hora culminante do teste máximo no caminho de Deus, decide não renunciar a essa preciosa dádiva espiritual, que é sua fé, em troca de uma vida transitória, tal pessoa alcança o cume do desapego. Este é o limite supremo, pois não pode haver desapego maior do que dar a própria vida por amor ao Bem-Amado divino. No momento em que toma tal decisão, ficando inteiramente desapegado do mundo, torna-se pleno de poderes vindos do alto tornando-se um verdadeiro gigante espiritual. As confirmações de Bahá'u'lláh descerão no mesmo instante sobre ele, envolvendo-o e fortalecendo-o.

Embora caminhe entre os homens, na realidade é transportado a outro mundo. O medo desaparece instantaneamente de seu ser. Em vez de temor, sua face irradia tal alegria e energia que deixa atônitos aqueles que olham para ele enquanto se dirige ao local de seu martírio.

Bahá'u'lláh confirma em muitas Epístolas que poderes muito fortes descerão sobre a alma que se desapega deste mundo. Para citar um exemplo, em uma de Suas Epístolas, Ele afirma que se um crente desapegar-se de tudo menos de Deus, terá a força para influenciar as realidades de todas as coisas criadas, e realizar tudo o que deseje. Tal pessoa nada olhará a não ser a face de seu Bem-Amado e não temerá a ninguém, mesmo que todos os povos se levantem contra ele.

Pessoas como Badí' ou Mullá Ridá, que ascenderam ao ponto culminante da fé, possuíam poderes extraordinários, inclusive uma força sobre-humana. Estavam tão atraídas a Bahá'u'lláh que a separação física não cortara o elo da verdadeira comunhão com Ele. Que os dois sentiam-se na presença de Bahá'u'lláh não era uma mera expressão de palavras ou uma ilusão. Com certeza foi uma experiência real para eles. Badí', por exemplo. quando de seu martírio, ou durante as muitas horas de tortura pelas quais passou, estava tão unido a Bahá'u'lláh e via-se tão claramente na presença de seu Bem-Amado que não foi afetado por nenhuma das torturas que lhe foram infligidas.

Para apreciar verdadeiramente o estado espiritual das pessoas como Badí' e Mulláh Ridá - e tantos outros mártires da Fé - somente alcançando o mesmo estado elevado de fé.

Com certeza, milhares de homens e mulheres que deram a vida no campo do martírio, e alegremente se sacrificaram no caminho de Deus, tais pessoas sentiram-se na presença de Bahá'u'lláh de forma tão vívida e com um sentimento tão real, que dar a vida por Ele tomou-se um motivo de alegria, em vez de tortura.

Para citar um exemplo, a seguinte história foi contada por Táhir-i-Málmiri (pai do autor do livro) sobre Mírzá Áqay-i-Halabí Sáz, que era um crente devotado e que teve o privilégio de chegar à presença de Bahá'u'lláh. Ele trabalhava como funileiro e tinha uma loja em um dos bazares de Yazd. Em 1891, sete bahá'ís foram executados por ordem de Muhammad Mírzá, o Jalálu'd-Dawlih, o governador de Yazd.

Tais bahá'ís são conhecidos como os primeiros sete mártires de Yazd, cuja história de seus martírios Bahá'u'lláh escreveu para o jornal "The Times", de Londres. Os setes foram acorrentados juntos e conduzidos na direção do bazar em meio a cenas de júbilo geral, e a cada esquina um deles era executado de forma a mais bárbara possível. Outros crentes, que eram lojistas ou comerciantes, foram instruídos a permanecer em seus locais de trabalho, tendo sido forçados a fazer como os outros, decorar suas lojas para celebrar o evento.

Hájí Mírzá estava sentado em sua loja, o coração cheio de pesar por ver tão trágica seqüência de eventos. Então chegou o pior momento, quando os últimos dos sete mártires, acorrentados, passaram em frente à sua loja. A próxima esquina, onde um deles foi decapitado, não ficava longe de sua loja. Hájí Muhammad-Táhir-i-Malmirí escreve que Hájí Mírzá costumava dizer aos seus irmãos de fé em Yazd sobre a experiência singular que tivera, vendo aquela cena de martírio próxima de sua loja. Ele viu, para sua total surpresa, o próprio Bahá'í 'lláh passando em frente à sua loja, dirigindo-se ao local onde o martírio iria ocorrer. Hájí Mírzá imediatamente saiu da loja para seguir Bahá'u'lláh, mas Este lhe fez sinal com a mão para voltar à loja. De lá, Hají Mírzá olhou para a esquina fatídica e viu que Bahá'u'lláh alcançara o grupo de mártires justamente no instante em que o carrasco removia a corrente de um deles para matá-lo.

Naturalmente Hájí Mírzá sabia que Bahá'í 'lláh encontrava-se em 'Akká e não em Yazd, mas não teve dúvida ser Bahá'í 'lláh quem ele vira no bazar. Decorrente desta surpreendente visão, entendeu que os mártires não eram deixados sozinhos no momento de seu martírio, que sua coragem ilimitada e heroísmo sem paralelo não provinham de si mesmos. Bahá'u'lláh os fortalecia com Seu poder infalível, e que aqueles que alcançavam o ponto culminante da fé e da certeza eram capacitados a sentir a presença de Bahá'u'lláh ao seu lado. Interessante registrar que o próprio Hájí Mírzá foi posteriormente martirizado em Yazd.

O que Hájí Mírzá testemunhou no bazar, embora não haja como provar sua realidade, não foi mera imaginação. A Revelação de Bahá'u'lláh não é um culto criado pelo homem, ou inspirado num ser humano. Qualquer culto que a mente dos homens tenha criado pode somente alcançar os limites da própria experiência humana, devido suas limitações naturais. Ao contrário, a Revelação de Bahá'u'lláh, que é originária de Deus, libera potencialidades inimagináveis, tanto materiais como espirituais, no ser humano e na sociedade, e, como outras religiões, provoca fatos misteriosos que os humanos não podem entender de forma alguma. A história da Fé mostra muitos episódios semelhantes ao testemunhado por Hájí Mírzá.

The Revelation of Bahá'í u'lláh.
por Adib Taherzadeh III Volume, págs. 192/196
O Martírio de Ali Akbar Hakkák

Quando Vahíd passou por Yazd na primavera de 1850, em sua caminhada fatídica para Nayríz, encontrou uma comunidade florescente, cujos membros estavam fortemente unidos na Causa do Báb e ativamente disseminavam seus ensinamentos. Entre os crentes havia um homem chamado Alí Akbar Hakkák, um ardoroso seguidor do Báb e, mais tarde, como iremos ver nesta narrativa, seria o primeiro dos crentes de Yazd a dar sua vida pela fé que amava e servia devotadamente.

Alí Akbar era um jovem de boa aparência, brilhante de inteligência, com pouco mais de trinta anos de idade. Era casado e possuía um filho. Sua profissão era de gravador, altamente qualificado em sua especialidade. Todos admiravam a alta qualidade de seu trabalho, sua beleza insuperável. Mas o que agradava em especial na pessoa de Alí Akbar, no entender de muitos de seus concidadãos, era o encanto de suas maneiras, sua devoção e os traços nobres de seu caráter.

Tão pronto abraçou a nova Fé, levantou-se decididamente para espalhar seus ensinamentos entre seus amigos e levá-los à luz da verdade. Sua ação corajosa de ensino levantou oposição violenta e hostilidade total de parte do clero fanático e do povo mal-orientado pelos líderes religiosos. Ele sabia perfeitamente a enormidade da tarefa que assumira e os graves perigos que iria enfrentar.

As notícias dos trágicos eventos que ocorreram em Nayríz no verão de 1850, que levaram à morte de Vahíd e o horrível massacre de seus corajosos companheiros, motivaram Alí Akbar a fazer peregrinação e visitar aquele histórico local onde seus irmãos de fé haviam lutado e caído. Sem nenhum preparativo, logo deixou Yazd sozinho em sua árdua viagem. Fez todo o caminho a pé - uma distância de quase 500 quilômetros - como uma demonstração de homenagem e de seu profundo amor por seus irmãos sacrificados. Caminhou dia e noite, através de desertos, montanhas e vales, de horizonte a horizonte que se descortinavam aos seus olhos à medida que avançava em sua longa caminhada. Na volta à sua casa, fez o mesmo trajeto, e novamente a pé.

A solidão cruel e as dificuldades pelas quais passou durante a viagem, como também as experiências muito significativas que viveu em Nayríz, serviram para dotar todo o seu ser com sua inspiração. Seu coração estava completamente cheio de entusiasmo e coragem e sua face plena de luz e de alegria sem par.

Ao retomar ao lar depois de uma longa ausência, reassumiu seu trabalho, e ao mesmo tempo redobrou seus esforços de ensino dos ensinamentos do Báb. Dia e noite trabalhava sem parar para atrair almas receptivas à Causa e iluminar as mentes obscuras de seus concidadãos.

Alí Akbar bem sabia que uma cidade decadente como Yazd, onde as forças da ortodoxia religiosa estavam fortemente entrincheiradas, sua ousadia no falar e sua atitude desafiadora incorriam no perigo, cedo ou tarde, de um sério conflito com as autoridades, a ponto de levar risco à sua própria vida. Mas não temia a morte. Sempre pensara que se algum dia o pior lhe acontecesse, ele de bom grado ofereceria a vida pela Fé que tanto amava.

Suas intuições não eram infundadas, nem demorou muito para se materializarem. Os fanáticos mulás (sacerdotes), observando quão rapidamente a mensagem do Báb ganhava terreno, ficaram alarmados. Permitir o florescimento desta nova Fé significava a ruptura de sua autoridade e o colapso de sua hierarquia. Portanto, buscaram logo acabar com tal Movimento, utilizando todos os meios que suas mentes malévolas podiam imaginar. Entre outras coisas, juntaram forças com o governador para conspirar contra os bábís, dizendo que eram inimigos jurados do Islã e do Estado. Insistiram junto ao governador para cortar o mal pela raiz antes que a planta crescesse e se tornasse uma árvore frondosa. E como Alí Akbar era um dos mais conhecidos expoentes dos novos ensinamentos, seu nome foi o primeiro a abrir a lista dos que seriam acusados de heresia.

Finalmente, chegou a hora fatídica. Um dia, foi chamado ao escritório do governador na praça-forte, para ser interrogado. A acusação contra ele era que se tornara bábí e estava engajado em ativamente disseminar seus princípios. Foi-lhe dito para renegar a nova fé, após o que poderia ir embora livremente. Apenas devia repudiar sua aceitação do Báb. Alí Akbar permaneceu silente. O governador ameaçou-o de morte, insistindo que renunciasse essa crença herética. Algumas pessoas proeminentes encontravam-se presentes na sala, que admiravam a arte e o nobre caráter de Alí Akbar; pediram a ele desistir e salvar a vida e sua honra. No entanto, declinou gentilmente as recomendações, permanecendo firme e decidido. O governador, no ímpeto de indignação, sentenciou sua prisão. Logo após, enviou telegrama à capital pedindo instruções das autoridades federais.

Passaram-se dois meses e nenhuma resposta chegava de Teerã. O prisioneiro foi solto sob fiança, após pagar uma soma de dinheiro que lhe foi extorquida. Passaram-se mais dois meses e meio durante os quais nada se ouviu sobre seu caso. Enquanto isso, trabalhava normalmente e também ensinando a Fé com o mesmo zelo imbatível, sem se preocupar com o fado sombrio que pesava sobre sua cabeça.

Mas a mensagem longamente esperada pelos inimigos da Causa do Báb acabou chegando. "Quem quer que seja comprovadamente bábí, deve ser morto sumariamente." - o que dizia a mensagem. O governador prontamente tomou as ações que julgava cabíveis. Chamou o Farráshbáshí (o encarregado oficial das prisões e condenação de acusados), instruindo-o a prender Alí Akbar e trazê-lo à sua presença na manhã seguinte.

Levado à presença do governador bem cedo no dia seguinte, este pediu-lhe para renegar a nova crença e sua ad são ao Báb. De outra forma, seria executado imediatamente. Alí Akbar afirmou, de forma calma e serena, que jamais renunciaria àquilo que era o que mais amava e o mais sagrAdo de seu coração, pois se assim o fizesse estaria repudiando o próprio Deus, Seus Profetas e o Livro Sagrado também. O governador, irado com a impertinência da resposta, ordenou ao Farráshbáshi para explodi-lo imediatamente da boca de um canhão, a não ser que voltasse atrás e repudiasse sua fé.

A surpreendente notícia de que um bábí seria executado aquela manhã se espalhou rapidamente pela cidade como fogo num palheiro. Milhares de pessoas, de todas as partes da cidade, acorreram a até então vazia praça Sháhzádih, que ficava em frente ao local de adoração e estudo, chamado Hazmh Mullá. Em pouco tempo toda a área ficou lotada por uma massa ansiosa de expectadores. No caminho que o séqüito fazia com o acusado, era crescente o número de pessoas a acompanhá-lo e observar sua passagem. Janelas e telhados das casas também estavam cheios de curiosos, olhando a praça. Muitos buscavam espaço sobre os muros ao lado do portão principal do Hazírih, que ofereciam melhor visão do espetáculo previsto.

Não longe dali, os funcionários que preparavam o canhão, traziam-no para o centro da praça sobre uma carroça.

A vítima foi levada ao local de sua execução, com as mãos acorrentadas pelas costas. Estava acompanhado pelo Farráshbáshi, pelo carrasco e por um grupo de funcionários e guardas. O séqüito saiu do prédio onde se localizava o escritório do governador, dentro do forte, ao som de tambores e trombetas. Passou pelo portão principal, atravessou a ponte sobre o fosso, continuando pelas ruas arenosas até o local onde posicionaram o canhão.

É oportuno, aqui, dizer algo a respeito da carreira e da personalidade do Farráshbáshí, que exerce um papel muito importante neste e em outros episódios. Na hierarquia do governo local naquele tempo, o Farráshbáshi ocupava um posto de chefe-executivo. Era parte do seu trabalho verificar pessoalmente que as ordens para a tortura ou a morte de criminosos e hereges fossem completa e rigorosamente cumpridas. Era ele uma pessoa muito rude e de coração-de-pedra por natureza. Nunca demonstrava simpatia ou leniência com suas vítimas. Sabia bem que quanto mais cruel fosse, mais subiria sua posição e maior seria o temor e o respeito que teria do público. De fato, tornara-se o homem mais temido em Yazd e o povo assustava-se como se estivesse vendo a morte somente ao vê-lo aproximar-se.

No entanto, por estranho que pareça, esse homem ficara tão impressionado com a personalidade encantadora de Alí Akbar, que quando o entregaram para ser morto, decidiu fazer um esforço genuíno para salvar sua vida. Sendo experimentado em fazer as pessoas mudar de opinião, pelo cargo que ocupava, pensou poder facilmente quebrar a teimosia de Alí Akbar, fazendo-o desistir de sua fé por alguma forma de intimidação ou persuasão.

Onde está o homem, perguntava a si mesmo, que não implorasse pela vida quando frente a frente com uma séria ameaça de morte? Quem seria tão louco a ponto de voltar as costas para recompensas, honra, posição e riqueza? Quem suportaria ver seus amados expostos à tortura e angústia? Tais devem ter sido os padrões de pensamento que se formaram em sua mente e o motivaram a promover as seguintes ações naquela fatídica manhã de 27 de Ramadán, 1268 A.H. (9 de abril de 1851).

Porém, embora pouco conhecesse do homem que conduzia para o martírio naquele dia, muito menos poderia imaginar já ter ele definitivamente morrido para o mundo e suas atrações, que não temia a morte e estava até ansioso para livrar-se de sua prisão carnal.

Voltemos agora nossa atenção para o tumultuado espetáculo na praça Sháhzádih. Tão logo o séqüito alcançou o local onde o aparato da morte havia sido erguido, o Farráshbáshi deu início ao seu plano de quebrar a firmeza do condenado e fazê-lo retratar-se. Começou com uma execução falsa. Nesse sentido, fingiu estar furioso, dirigindo à vítima um montão de impropérios e ofensas de toda natureza. Mostrou tal estado de raiva que todo o seu corpo tremia e sua face se contorcia furiosa, levando temor a todos os que olhavam para ele. Então, com uma voz que cortava o ar como um trovão, disse: "Herege amaldiçoado! Renegue seu credo odioso ou explodirei você da boca deste canhão, agora mesmo." Alí Akbar tomou uma profunda respiração e com perfeita serenidade e paz espiritual lhe disse que o quanto antes lhe dessem a morte maior seria sua gratidão a ele.

O Farráshbáshi, abismado pelo espírito indomável do prisioneiro condenado, voltou-se subitamente para o carrasco e para a equipe que lidava com o canhão e gritou: "Apressem-se, explodam esse idiota para o inferno, imediatamente. Ele não merece piedade, apenas a morte." Naturalmente o canhão não havia sido carregado, sendo toda a encenação prevista para provocar a reação que esperavam de parte do condenado. Pensavam aterrorizá-lo, induzindo-o a renegar sua fé.

O carrasco amarrou Alí Akbar à boca do canhão, enquanto um soldado preparava, fingidamente, o canhão para ser acionado. Tudo pronto para a execução. O clímax foi quando o soldado acendeu a mecha para disparar o canhão. Mostrou a chama à vítima, bem em frente de seus olhos, para assustá-lo definitivamente. Olhou para o Farráshbáshí esperando apenas a ordem de: "Fogo!"

Enquanto isso acontecia, a multidão se impacientava cada vez mais, ansiosa para ver o ato final da execução. Mas esse instante não ocorreu tão rapidamente como esperavam.

E a reação de Alí Akbar? Naqueles momentos de tensão e agonia, quando a crescente onda de adversidades subiu a ponto de engolfá-lo totalmente, ele permaneceu firme e imperturbável como uma rocha. Sua face não mostrava sinal algum de medo ou agitação. Ao contrário, brilhava com a luz da alegria e do triunfo.

O Farráshbáshí ficou amargamente desapontado. Num relance de imaginação, percebeu que seu esquema ilusório, com seu clima assustador, falhara em seu propósito. Sentiu se, pela primeira vez, frustrado em seu jogo de levar o Prisioneiro à intimidação e renúncia.

Enquanto ainda estava acesa a mecha que detonaria o canhão e os expectadores se mostravam histéricos ante a visão e a explosão humana que iria ocorrer, o Farráshbáshí correu para frente, levantou as mãos em direção ao detonador e disse: "Não detone! Não detone! Espere um momento! Quero dar a Alí Akbar uma última chance. Tenho certeza que ele está arrependido." Então ordenou ao carrasco desamarrar o prisioneiro. Livre das cordas, Alí Akbar ouviu o Farráshbáshí dizer-lhe lamentar tê-lo feito passar pelo que passou e que tanto ele como o governador não queriam sua morte. Em seguida, levou Alí Akbar para a entrada da cisterna de água que ficava próxima da praça. Os guardas dispersaram a multidão que lá se abrigara, para permitir que o Farráshbáshí e o prisioneiro pudessem conversar a sós. Enquanto isso ocorria, o Farráshbáshí já havia mandado buscar a esposa e o filho de Alí Akbar, para que eles também pedissem ao prisioneiro desistir de sua crença. Seria uma última tentativa.

O Farráshbáshí sentou-se ao lado de Alí Akbar na pequena plataforma no alto da longa escada que levava ao reservatório subterrâneo. O local era frio e calmo, em contraste com o tumulto e barulho lá fora. Com suas palavras confortadoras, o Farráshbáshí tentava, ao máximo de suas habilidades, levar o prisioneiro à renúncia de sua fé, alcançando, assim, sua liberdade e felicidade.

"O governador" - disse-lhe, "oferecerá a você uma alta recompensa e conferirá a você uma honraria muito elevada. Você será cerimoniosamente recebido na corte, e pessoas proeminentes, e também os sacerdotes de Yazd, demonstrarão a você grande estima. Você subirá muito no conceito de todos e viverá até o fim de seus dias em paz e felicidade." "Estou certo que você não é um bábí." - continuou com muito tato o Farráshbáshí - "deve ter sido acusado falsamente. Apenas uma palavra renegando a fé do Báb libertará você, lhe trará a liberdade e assegurará felicidade e honras para o resto de sua vida." Enquanto isso, outros funcionários juntaram-se à conversa, adicionando sua quota de encorajamento e apelo ao prisioneiro. Mas nada fez Alí Akbar renunciar à sua fé. Durante o tempo todo permaneceu com uma calma imperturbável, não atendendo a nenhum dos apelos.

O Farráshbáshí ficou completamente desapontado e zangado. Quando saiu do lugar para onde tinham ido, seguido do prisioneiro e dos funcionários, podia-se ver claramente seu sobrecenho carregado e uma feição que demonstrava o desespero de sua resolução.

A manhã estava chegando ao seu ponto culminante, o sol alcançando o zênite, quente, brilhante, contrastando com a penumbra sombria que cobria o séqüito fatídico. A multidão gritava, xingava, demonstrando sua impaciência. Novamente o povo aglomerado dificultava a passagem do Farráshbáshí e seus acompanhantes. Abriram caminho rumo ao centro da praça. O Farráshbáshí levantou a mão, mostrando o canhão, o que significa que o mesmo deveria ser carregado para a execução sumária. Nesse momento, a esposa e o filho de Alí Akbar foram trazidos à cena principal. Ela usava um véu sobre a cabeça, encobrindo-a, e o menino de 4 anos, ao seu lado, tremia, assustado, segurando a mão da mãe fortemente. Era um lindo menino e parecia muito elegante em suas melhores roupas.

Tão pronto seus olhos fixaram seu esposo e viu o aparato da morte preparado para ser usado, seu sangue esfriou e seu corpo todo tremeu, desesperada. Chorava e se lamentava em voz alta ao se aproximar do marido. Seus passos falhavam. É um tabu em Yazd que uma mulher decente não deve deixar sua voz ser ouvida por estranhos. Mas naquele momento de angústia suprema, ela esqueceu das convenções e manifestou o que ia em seu coração. Sua voz foi ouvida pela multidão, todos a olhando estáticos, segurando a respiração, ansiosos para ver a reação de Alí Akbar. Ela implorou: "á Alí Akbar! Tenha piedade de nós! Não nos abandone. Não deixe seu f1lho sofrer, órfão, nem sua esposa uma viúva. Não permita que nossa felicidade seja arrasada pela agonia da morte." E pedidos semelhantes, ditados pelo desespero de salvar o esposo querido.

Para Alí Akbar a provação de ver seus amados implorando por ele, expostos ao olhar de uma multidão hostil, foi realmente das mais difíceis de suportar. Ele amava profundamente a esposa e era por demais apegado ao menino. Uma família cujo amor era um exemplo para todos. Lá se encontravam os dois, esposa e filho, diante dele, figuras trêmulas, assustadas, implorando para que ele não as abandonasse, olhando o palco fatídico para a cena final da tragédia que se abatera sobre eles. Não podia suportar mais. Em desespero, voltou as costas à esposa e ao filho, para não olhar suas faces. Eles deram a volta e ficaram em frente de Alí Akbar novamente. Seu filho correu para ele e exclamou: "Pai, pai! Por que me deu as costas? Não me ama mais?" Alí Akbar manteve-se em silêncio. Sua força de resistência chegava ao fim. Ergueu os olhos ao céu, como que implorando ajuda, ansioso, numa expectativa suprema. Parecia pedir a Deus para que não lhe desse mais provas neste mundo. Chegara ao final de suas forças humanas.

Neste ponto do drama que a multidão assistia, alguns se apiedaram e demonstravam simpatia pela agonia da fama. Até o rude e insensível Farráshbáshí estava profundamente tocado. Estava também amargamente desapontado. Todo o episódio fora uma experiência que mexera com sua paciência como nunca antes. Sentia não ter podido resolver o caso como queria. Constatou, finalmente, que nada, nada - nem honras e vida longa, nem o apelo da família, nada, nada demoveria Alí Akbar de sua firmeza na fé. Não renunciaria jamais!

Levado ao desespero, o Farráshbáshí, ordenou a execução. A vítima foi novamente atada à boca do canhão, o qual foi carregado desta vez. O espaço necessário na praça foi aberto, para o tiro fatal. O Farráshbáshí puxou a esposa e o filho de Alí Akbar para o lado, que se agarravam fortemente a ele. Quem olhou para Alí Akbar viu que, nesse momento culminante, sua face resplandecia de luz, demonstrando um contentamento divinal, além da compreensão humana.

À ordem do Farráshbáshí, o executor acendeu a tocha e levou-a ao detonador. Fogo! Mas, o que aconteceu? O canhão não disparou! Todos se surpreenderam. Vontade divina? Novamente a tentativa da detonação. Nada! O Farráshbáshí apressou-se na direção de Alí Akbar, e, desesperado, gritou: "Não queremos ver você morto, Alí Akbar. Agora, parece que Deus também não quer. Houve um milagre. Dou a você uma última chance, talvez você pense duas vezes e recue de sua decisão nos últimos minutos que lhe restam".

Alí Akbar nada falou, sua face numa expressão de clemência, parecendo dizer: "Por que tenta me segurar? Não v que tenho pressa em partir? Não me segure mais. Imploro." Sua esposa e seu filho, ainda outra vez, agarraram-se a ele, chorando e implorando que desistisse.

Tudo, porém, em vão!

O Farráshbáshí estava exasperado. Deu um passo atrás, mandou a esposa e o filho se afastarem da vítima e ordenou nova tentativa de detonação. O canhão foi recarregado e logo em seguida, acionado, ouviu-se o som terrível que sacudiu toda a praça e os prédios vizinhos. Uma língua de fogo saiu da boca do canhão, atravessando o peito do condenado, seguida de uma nuvem de fumaça em meio aos gritos e estupefação da multidão, de um lado, e dos lamentos e lágrimas da viúva e do órfãozinho, de outro.

Passava do meio-dia. O calor do sol era sufocante. A praça arenosa em frente ao Hazírih estava cheia de pedaços do corpo de Alí Akbar, pedaços de braços, das pernas, fragmentos gerais do que fora um corpo humano.

O governador havia determinado que os restos mortais do condenado deveriam ficar desenterrados na praça até u hora do por do sol. Lá ficariam expostos à avalanche de barbárie da multidão enfurecida, ignorante, fanática, pum serem estraçalhados ainda mais.

Quando a noite chegou, alguns parentes da vítima que se mantiveram ao longe olhando tudo, conseguiram, com muito cuidado, recolher apenas a cabeça de Alí Akbar, junto com os braços e as pernas, que estavam praticamente descarnados. O que restou de seu corpo foi enterrado num local no que agora se situa no lado oposto ao portão de entrada do atual cemitério bahá'í Muitos anos depois um pequeno mausoléu foi construído naquele local para marcar o lugar onde e seus restos mortais foram sepultados.

A renúncia suprema de Alí Akbar investe sua memória de um glória que o passar dos anos e dos séculos jamais poderá diminuir.

A Vida e o Martírio de Mírzá Hasan Fázil

A despeito da violenta comoção em 1850, que levou à partida de Vahíd de Yazd, como também os subseqüentes levantes que sacudiram a Pérsia de cima abaixo, o crescimento do movimento bábí em Yazd continuou imbatível até o ano de 1852, quando os sacerdotes muçulmanos começaram a sentir-se profundamente alarmados. Eles não podiam mais permanecer indiferentes a uma Fé cujos ensinamentos e código de leis ab-rogava as leis do Islã e estava destinada também a abolir a instituição do clero religioso.

Tal movimento constituía um sério desafio à sua autoridade e não podia ser tolerado. Portanto, os líderes mulás (sacerdotes) em Yazd se juntaram numa tentativa de exterminar a nova fé. Iniciaram uma vasta campanha de vilificação e de oposição feroz aos seguidores da fé do Báb, os quais eram acusados de hereges, traidores, inimigos jurados da igreja e de toda autoridade estabelecida no país. Através de seu poder supremo de influência sobre o povo, levantaram sentimentos de 6dio de parte da população fanática, encorajando atos de violência contra os bábís. O governador e as autoridades civis também caíram como presas fáceis às maldosas maquinações do clero e aderiram oficialmente à perseguição e punição severa àqueles hereges, conforme prescrevia a lei do Islã.

Em pouco tempo, o palco estava pronto para um ataque feroz aos seguidores do Báb, e os sacerdotes começaram a manipular as alavancas da perseguição.

A primeira vítima a ser publicamente martirizada pelas autoridades, sob instigação dos mulás, foi o jovem Mírzá Hasan Fázil. Estava em seus anos vinte e era muito meigo em suas maneiras. Demonstrava tais traços de piedade e devoção que muitas pessoas o consideravam um santo. Durante sua adolescência, dedicou-se aos estudos religiosos, tornando-se profundamente versado no Alcorão, na teologia e nas tradições muçulmanas. Diferente de muitos jovens de sua idade, Mírzá Hasan não casou cedo, e era ainda muito jovem quando, em virtude de sua vida pura e santa, recebeu a ordenação para atuar como líder das orações na mesquita Sar-i-Jam. Sua designação causou grande alegria e admiração entre o povo, e todos aqueles que se reuniam em sua congregação recebiam muita inspiração de seus sermões, nos quais freqüentemente se referia ao advento do prometido Qá'im e destacava os sinais e as profecias que revelavam que o tempo de sua manifestação estava próximo.

Foi mencionado em várias ocasiões como tendo dito que desejava estar entre aqueles que estariam vivos para testemunhar o Dia da manifestação do Qá'im, de forma que ele pudesse servir Sua Causa e oferecer sua vida como um pequeno sacrifício em Seu caminho.

Seu ardente desejo não ficou sem resposta. Quando a maré da declaração profética do Báb alcançou Yazd, Mírzá Hasan foi dos primeiros a responder ansiosamente ao chamado divino. Porém, em sua função como sacerdote e líder da oração, tinha que manter sua Fé em absoluto segredo, de outra forma seria demitido e levado a julgamento público como herege. No entanto, a influência regenerativa da nova Fé sobre sua alma foi tão grande que ele não pode mais esconder a luz sob um palheiro. Muitas das pessoas que o conheciam, incluindo membros de sua congregação, não estavam cegos às mudanças que observam nas atitudes e na aparência de Mírzá Hasan nem se enganaram quanto à origem dessa transformação.

Sendo extremamente murmuradores e inquisitivos por natureza o povo começou a falar dele às escondidas, e sempre que o viam davam indiretas fazendo alusões maldosas à nova fé. Aos poucos a palavra "bábí' foi sendo mencionada com relação a ele. As referências do próprio Mírzá, Hasan, cautelosas e simbólicas como eram não deixavam duvida na mente de seus ouvintes quanto à fonte de tão significativas alusões. Aos poucos os rumores cresceram tanto que chegaram aos ouvidos de sacerdote principal, o líder mula da comunidade, ninguém menos que o temido Navváb Mírzá Abdu'l-Hy.

Quem era esse mulá?

Pedimos licença aos leitores para sair um pouco da história de Mírzá Hasan, para adicionar algumas linhas sobre a vida e as atividades desse homem.

Navváb Mírzá Abdu'-Hy era o mais influente e cruel dos líderes mulás de Yazd. Tinha poder absoluto de vida e morte e ninguém ousava contestar sua autoridade. Mesmo o governador não se opunha às decisões e desejos do Navváb. Em sua corte ele mantinha um grande número de servidores e guarda- costas recrutados dentre os elementos mais degradados da população. Além disso, tinha inúmeros informantes e delatores a seu serviço, que espiavam a vida particular dos cidadãos.

Sempre que Navváb aparecia em público, exageradamente vestido com suas roupas longas, vistosas, turbante característico de sua posição, carregando uma bengala com cabo de prata, era saudado efusivamente pelas pessoas em altas vozes. Algumas vezes desfilava montado num burro ricamente decorado, dirigindo0se ao escritório do governador, ou à casa de um outro grande mula. Quando passava, pelas ruas tortuosas e estreitas, ou pelas arcadas dos bazares, e saudá-lo efusivamente, ou mesmo correndo para ajoelhar quando caminhava solenemente pelas praças empoeiradas ou vielas antigas, seguido de um grupo de admiradores servis, todos os que passavam pelo grupo apressavam-se para prostrar-se no chão para beijarem a sola de suas sandálias.

Na administração da justiça, era severo e injusto. Buscava sempre uma oportunidade para auto-engrandecimento. Mandava seus homens prender pessoas por razões injustificadas ou falsas acusações, prendendo-as no porão de sua casa, ou nos estábulos, para aguardarem julgamento arbitrário. Então, fazendo uma interrogação farsante, ele ou mutilava as pessoas ou determinava punição física sobre os acusados. Naturalmente, aqueles a serem punidos com castigo físico podiam redimir-se pagando um emolumento adequado para acalmar a ira de seu acusador. De todos os acusados que passaram pela porta de sua corte, raríssimos voltaram de lá livres ou inocentados. Pelo menos, deviam pagar algum dinheiro para conseguirem a liberdade.

De todas as punições físicas, o bastinado era mais comum. As vítimas eram deitadas com as pernas para cima, amarradas, a sola dos pés expostas para receber as chicotadas com uma vara especial, dezenas, centena de vezes, causando na vítima um dor insuportável. O número de chicotadas era determinado pelo Navváb, podendo chegar até mil, dependendo da gravidade da ofensa julgada. Os que sofriam castigo maior, nem sempre suportavam, desmaiando e entrando em estado de como por um longo período. Alguns até morriam depois de alguns tempo devido ao choque que as fortes e contínuas chibatadas lhes causaram.

Aqueles condenados à morte por terem cometido algum crime maior, ou por acusação de heresia ou adesão ao credo bábí, eram enviados ao governador para serem executados em público, ou o próprio Navváb mandava seus homens flagelar e acabar com a vida do acusado. Tortura após tortura, o corpo da vítima ficava mutilado. No caso dos bábís, e depois dos bahá'ís, a maioria deles era exposta à ira do povo fanático, para derramarem sobre os inocentes fiéis seu ódio e vingança, instigados por seu líder religioso principal. Eram submetidos à morte brutal, cuja maldade é difícil de se conceber quão bárbara podia ser.

Voltemos, agora, à narrativa do episódio do martírio de Mírzá Hasan. Quando o Navváb soube dos falatórios de que Mírzá Hasan havia se unido aos bábís, ficou extremamente perturbado e colérico. Imediatamente colocou em ação o processo de sua investigação particular, recorrendo aos seus informantes junto ao povo. Eles logo confirmaram o que era voz corrente e acrescentaram que Mírzá Hasan estava ativamente empenhado na difusão da nova fé, fazendo com que muitos dos crentes de sua congregação aderissem também à fé do Báb. Isto era considerado como o protetor do Islã e o apoiador de suas instituições. Não podia permitir a existência de uma ovelha negra em seu rebanho, ainda mais na posição de um líder da oração e que estava empenhado em solapar a estrutura interna da hierarquia da qual ele, Navváb, era o líder inquestionável.

Decidiu tratar do caso imediatamente com toda a rudeza que o traidor merecia. Não havia porque esperar, nem precisava armar qualquer esquema para atacá-lo. O governador já havia expressado sua anuência para as ações cabíveis em casos como esse, de heresia confessa e rebeldia maldosa. Navváb era livre para decidir o que fosse para defender o Islã e garantir a segurança do Estado. Portanto, consciente do perigo que Mírzá Hasan representava para todos eles, clero e governo, decidiu não descansar enquanto não acabasse com a vida do traidor.

Bem cedo na manhã de 22 de abril de 1852 (2 de Rajab, 1268 - do calendário muçulmano) - o Navváb enviou seus homens para a mesquita de Sar-i-Jam, com ordem de lá esperarem até que Mírzá Hasan tivesse terminado as orações matinais e então acompanhá-lo à sua corte para uma entrevista com seu mestre.

Nesse entretempo, Mírzá Hasan nem imaginava que a hora da renúncia maior de sua vida, pela qual ansiava devotadamente, estava se aproximando rapidamente. Ele era acostumado, já como um hábito, a ir diariamente à mesquita bem de madrugada, para orar, e somente após ter cumprido seu dever religioso é que voltava ao lar para tomar sua refeição matinal. Aquele dia fatídico não lhe foi diferente quando saiu de casa e dirigiu-se à mesquita. Antes do nasce; do sol já lá se encontrava, sem saber que as orações que faria naquela manhã seriam as últimas a entoar naquele tempo. E, na verdade, as últimas de sua vida.

Quanto terminou suas devoções e estava para sair da mesquita, os homens do Navváb vieram ao seu encontro: o saudaram. Não precisam explicar a natureza de sua missão. Mírzá Hasan percebeu, num segundo de intuição, qual o objetivo da visita. Longe de alarmar-se, aceitou o convite com genuína satisfação e ansiedade. Estava pronto para ir imediatamente. Os homens do Navváb ficaram atônitos com tal atitude corajosa e despreocupada. Certamente, pensaram, o mulá ignorava totalmente o que lhe esperava, senão não estaria tão calmo e aquiescente.

No caminho em direção à casa do Navváb, Mírzá Hasan mostrava-se muito feliz e alegre, como se estivesse caminhando por uma estrada encantada. Sua forma de caminhar, destemida e jubilosa, dava a impressão que ele se encaminhava para o local de suas núpcias. Mas, quando as pessoas observaram os homens de Navváb piscando e dando sinais jocosos atrás de Mírzá Hasan, pressentiram logo o que estava ocorrendo e o destino fatal que esperava o Jovem mulá. Conseqüentemente, logo grupos de curiosos seguiram atrás do séqüito, dirigindo-se à casa do Navváb, para saber do que se tratava, enquanto outros permaneciam parados, apenas olhando e imaginando o que estaria acontecendo.

Ao chegarem à casa do Navváb, este aparentemente já os estava esperando. Estava sentado à entrada, sobre uma plataforma ao lado da porta principal de ferro, com seu manto envolvendo todo o corpo e segurando uma bengala na mão como um símbolo de autoridade, enquanto que alguns de seus servidores estavam ao seu lado, subservientes, prontos para qualquer ação. Aparentemente, o Navváb havia decidido, decorrente de seu desprezo e vaidade, interrogar o acusado na rua, em vez de levá-lo para dentro de sua casa.

Obviamente, não desejava ter sua casa maculada pelos pés de um bábí, além do que o populacho em frente estava pronto para avançar sobre a vítima e exterminá-la a seu comando.

Quando levado à presença do Navváb, Mírzá Hasan saudou-o de maneira cordial e calorosa, mas este, furioso, lançou sobre o jovem bábí um olhar malévolo - "Mulá" - exclamou peremptoriamente. "Recebi relatórios bem fundamentados indicando que você tomou-se bábí e que está envolvido em desviar os fiéis. Quero que você repudie a Fé do Báb imediatamente."

Mírzá Hasan permaneceu frio e sereno em em face de tão veemente hostilidade. Sentiu piedade por seu opressor, que havia descido a tão baixo estado de paixão e cuja visão interna ficara tão cega pelo véu do poder e das vaidades terrenas. Ignorando sua ordem e sua arrogância, Mírzá Hasan deu um passo mais próximo ao Navváb, falando-lhe numa linguagem muito digna: "Que Deus lhe dê paz." O Navváb enrubesceu de indignação com tal atitude de Mírzá Hasan, seus olhos queimando de ódio, ordenando-o novamente a renunciar ao Báb. Mírzá Hasan manteve silêncio por alguns momentos e, então, com voz calma e baixa, disse: "Que Deus lhe dê paz." O Navváb, queimando de ódio, ordenou mais uma vez que a vítima renegasse o Báb, advertindo-o que se não o fizesse seria imediatamente enviado ao Qal's (a praça-forte onde estava localizado o gabinete do governador), onde dariam fim à sua vida desgraçada. Mírzá Hasan lançou-lhe um olhar de compreensão e perdão enquanto ele vociferava suas imprecações. Navváb ficou ainda mais furioso. Suas narinas se dilatavam, seu peito arquejava. Levantou com raiva sua bengala e bateu forte na cabeça de Mírzá Hasan. Ordenou então aos seus homens levarem o acusado ao governador, dizendo tratar-se de um bábí e que deveria ser tratado como um herege merece.

Neste ponto, é oportuno dizer alguma coisa sobre o Qal's. Naqueles dias, nada mais deprimente poderia ser imaginado a uma pessoa do que ser levada para ser interrogada no Qal's. Mesmo aqueles que lá iam a negócios, freqüentemente sentiam-se apreensivos e inquietos. Pois uma vez lá dentro, a pessoa não sabia se sairia, em segurança, inteira, sem ser molestada - ou se sairia morta. Existem muitos relatos de pessoas inocentes que foram aprisionadas, ou mesmo executadas, simplesmente porque haviam dito algo que desagradou um superior, ou agiu de forma que o governador considerou desrespeitosa à sua autoridade ou à sua pessoa. Portanto, a palavra "Qal's" evocava lembranças sinistras, sempre associadas à morte, tortura, prisão, flagelação, estorções, etc. Muitas pessoas ficavam alarmadas só de olhar para aquele lugar, ou de ver os homens que lá trabalhavam, particularmente o carrasco, que estava sempre presente na corte, brandindo sua espada ou adaga de forma ameaçadora. Na verdade, seu trabalho não estava restrito à execução das sentenças de morte. Fazia parte de seu trabalho agir como um espantalho despertando terror no coração de todos aqueles que iam visitar o governador. Na função de carrasco, usava um uniforme vermelho e permanecia rígido e imutável à entrada da corte do governador. Todos os que passavam em frente dele tremiam de medo à vista de seu semblante assustador, especialmente quando simulava o ato de cortar a garganta, de uma vítima imaginária, com sua faca sanguinolenta, que carregava muitas vezes entre os dentes.

Retomando à narrativa principal, tão pronto o Navváb deu a ordem, seus homens seguraram Mírzá Hasan e o escoraram, até o Qal's. À medida que o cortejo passava pelas ruas, um número crescente de pessoas seguia atrás. Mírzá Hasan, o tempo todo, mostrava-se feliz e sua face brilhava com ansiedade e alegria. Muitos se surpreendiam ao olhar para ele e vê-lo mo bem e Imperturbável. Diziam: "Talvez ele pensa que o governador vai colocar em seu peito uma medalha de honra, ou presenteá-lo com uma sacola cheia de ouro." - zombavam. "Pobre criatura" - diziam outros, "não imagina ser hoje o último dia que está vendo a luz do dia."

Quando Mírzá Hasan foi levado à presença do governador, este o admoestou seriamente, reprovando sua conduta e dizendo que seria morto se não renegasse ao Báb. A execução seria sumária. Mírzá Hasan permaneceu calmo e sereno. Enquanto isso, as pessoas que se encontram no local esbravejavam impropérios veementes. Um mulá, gritando, lhe dIsse que, tornando-se bábí, tinha traído a religião sagrada de seus paIs. Outro, fez um apelo apaixonado ao governador, afIrmando ser sua alteza o protetor do Islã e que devia varrer com energia toda heresia de seu meio. O governador, então, de uma forma solene e impressiva, declarou que prometera acabar com a vida de todo seguidor do Báb que lhe caísse nas mãos. Ninguém presente ergueu a voz em defesa de Mírzá Hasan. Todos sabiam que ele estava irremediavelmente condenado pelo Navváb, que tinha plenos poderes, os quais, ninguém ali presente, nem mesmo o governador, ousara contestar. Além disso, pensavam, se mostrassem o menor sinal de simpatia pelo condenado estariam ofendendo o Navváb e eles próprios fIcariam numa situação perigosa.

Ao observar o ambiente hostil daquela reunião Mírzá Hasan sentiu dor no coração ao ver a cegueira daquelas pessoas, cujas mentes estavam obcecadas pelas crenças convencionais e pela influência que a posição social e as riquezas mundanas exerciam nas pessoas. Não é de se estranhar que não o compreendessem, nem que tivessem profunda aversão por ele, pela fé que professava. Seria fútil, pensou, tentar argumentar em sua defesa ou tentar provar a veracidade da missão do Báb. Aquelas pessoas careciam de ouvidos que ouvissem. Por isso, permaneceu silente, demonstrando uma atitude de resignação.

O governador se impacientou rapidamente. Não viu razão de prolongar o caso. O homem, pensou, foi condenado por uma das mais altas autoridades do Islã, e sua sentença de morte teria de ser o corolário da condenação. Tudo o que ele, governador, teria de fazer, era mandar executar a sentença. No entanto, queira ouvir uma palavra de culpa de parte do condenado, para considerar-se duplamente seguro do que estava fazendo. Nesse sentido, voltou-se mais uma vez para o acusado, gritando irritado: "Mulá! Se você continuar hesitando em renegar o credo bábí, você morrerá imediatamente. Esta é a última chance que lhe dou." Mírzá Hasan, exultante, sentindo em seu peito uma energia muito grande, com exaltação respondeu-lhe fIrmemente: "Sua Excelência! Eu me glorifico em oferecer minha vida no caminho de meu Senhor!" Que Deus vos perdoe e vos conceda paz." - ou palavras como essas. O governador ficou estupefato com a resposta. No calor daquele momento fez sinal ao carrasco para explodi10 na boca de um canhão. Então, quando a vítima era levada para fora da sala, o governador levantou as mãos e exclamou: "Hoje o povo de Yazd testemunhará o destino trágico que espera todos os seguidores da mal-fadada seita do Báb."

Quando Mírzá Hasan dirigiu-se para fora da sala do governador aquela manhã, sentiu estar colocando os pés no limiar da eternidade. Sabia que a última hora de sua vida terrena estava rapidamente passando e que em breve seu espírito seria libertado de sua morada de carne e osso. Sua face irradiava confiança e felicidade, e o pensamento de que logo estaria reunido com seu Bem-Amado alegrava seu coração.

Àquela hora do dia, a manhã já se findava e o sol brilhava forte sobre a vistosa cúpula das mesquitas, como também sobre as paredes sujas das casas e nas ruas lamacentas que formavam a parte tradicional da cidade velha. Os bazares e as hospedarias ferviam de pessoas, moradores e visitantes de várias camadas sociais e profissões - lojistas, tecelões, vendedores de água, dervixes, condutores de camelos, etc - todos se agItavam febrilmente em seus trabalhos. Então, subitamente, corre a notícia da execução de um bábí. Um alvoroço geral à medIda que a notícia corria de boca em boca, de rua em rua, de bazar em bazar. De todas as partes, as pessoas buscavam o encontro do séqüito que levaria o condenado. Não demorou, ouviu-se o som do caminhar da procissão. Imediatamente as pessoas deixaram seus afazeres, acorrendo rapidamente ao centro da praça Sháhazádíh. Na confusão do tumulto das pessoas, os gritos daqueles que se prensavam na multidão, pelo sufoco que passavam, ou dos que eram pisados pelos mais impacientes, nem eram notados. Todos queriam, ansiosamente, ver o que iria acontecer, e pegar o melhor lugar para assistir o espetáculo trágico. A praça fervilhante - homens, mulheres - todos vociferando impropérios. Às janelas das casas, e nos telhados, um grande número de pessoas já estavam prontas para testemunhar a execução.

Enquanto isso, o Qal's, normalmente ermo e soturno devido à execução iminente, ressurgira à vida, tornando-se momentaneamente um centro de atenções e muita atividade.

O carrasco e outros funcionários mostravam-se muito ocupados nos preparativos da execução. Um canhão, numa carroça, foi trazido do quartel militar, levado pesadamente até o centro da praça onde a sentença seria cumprida. A vítima, acorrentada, era levada pelo carrasco, que caminhava à frente do séqüito, seguido de um grande número de funcionários do governo. A procissão deixou as dependências do Qal' s ao som de tambores e címbalos, acrescido pelo crescente volume de vozes do povo, cada pessoa gritando o que lhe vinha de seus sentimentos fanáticos e cegueira espiritual. Uma confusão geral, um barulho infernal. Xingos, gozações tudo para ridicularizar a vítima inocente que calma e confiante caminhava imperturbável, feliz até por estar a caminho do encontro do Bem-Amado e para sua morada eterna. Na praça, o séqüito quase não pôde continuar, tanta a aglomeração. Tiveram de abrir caminho para chegar ao local da execução.

A vítima foi levada, finalmente, ao local de sua execução. O cunhado de Mírzá Hasan, chamado Khusraw, aproximou-se dele profundamente perturbado, atônito. Lutara para poder chegar perto de seu cunhado, em meio à multidão. Sabendo que Mírzá Hasan nada comera pela manhã, trouxera-lhe pão e queijo. Este agradeceu-lhe as atenções, mas recusou se alimentar, dizendo que iria deixar sua morada física não precisando, certamente, de alimento nesse momento.

O canhão foi preparado, o carrasco autorizado a cumprir sua fatídica missão. No entanto, ainda outra vez, diante da boca do canhão, Mírzá Hasan foi solicitado a renunciar sua fé. Mas ele não ouviu. Manteve seu silêncio de paz, firme à beira da eternidade. O carrasco, desapontado, deu continuidade ao seu trabalho. Tudo pronto, a vítima à boca do canhão, este carregado e pronto para ser acionado - a multidão abriu espaço para a execução.

Era aproximadamente meio-dia e o calor do sol opressivo. A vasta multidão de observadores, na praça, vibrava de paixão e ansiedade. O barulho de vozes era tão intenso que podia ser ouvido em toda a cidade.

Ao negar o momento dramático, a multidão segurou a respiração e olhou sem piscar para a boca do canhão estática. Então, ao sinal do Farráshbáshí, o canhão detonou sua carga fatal com um som estrondoso. Um jato de fogo perfurou o peito da vítima, e uma massa disforme de carne em meio à fumaça do tiro, foi jogada longe, misturada com pedaços de membros despedaçados. O corpo de Mírzá Hasan foi abandonado à disposição de uma multidão histérica que cortou ainda em mais pedaços os restos já mutilados. Mais tarde, ao final do dia, os fragmentos foram juntados e enterrados em local próximo do Seminário de Yuzdárán num dos bairros da cidade. '

Mírzá Hasan passou pela prova suprema de uma morte VIolenta com um espírito imbatível. Sacrificou a vida com aquiescência radiante, para que as pessoas pudessem ser guiadas à luz d.a Verdade. Os seguintes versos formam um epílogo apropriado para sua memória imortal:

"Considero este corpo como de pouco valor;

O espírito de um bravo homem despreza esta morada de terra.

Adaga ou espada, assemelham-se a jasmins perfumados, Ou flores para decorar o banquete da morte com seu brilho."

Um vislumbre da Vida e dos Tempos de Mullá Muhammad Ridá, de Manshád

Um dos mais firmes discípulos do Báb em Yazd foi o erudito Mullá Muhammad Ridá, a quem Babá'u 'lláh deu o sobrenome de Rada'r Rúh ("Aquele cuja alma está contente"). - Tanto nos dias do Báb como de Bahá'u'lláh, ele se distinguiu como um grande instrutor e um devotado crente. Teve uma vida árdua, cheia de sofrimentos e provações por causa da Fé que abraçou.

Mullá Muhammad Ridá pertencia a uma família bem conhecida por sua vida nobre e virtuosa. Seu pai, Mulá Muhammad, era muito respeitado e admirado por seu conhecimento e vida piedosa. Tinha quatro filhos, dos quais Muhammad Ridá era o mais velho e o mais estudado. Mais tarde, todos os seus filhos alcançaram a honra suprema de dar a vida pela Fé que amavam e serviam tão bem. Toda a família vivia em Manshád, que é uma vila muito fértil, no meio de altas montanhas, distante cerca de 60 quilômetros de Yazd. O lugar é um recanto de veraneio muito conhecido e parecia uma bacia verde com elevadas margens voltadas para o céu.

Mulláh Muhammad Ridá, diferente da maioria de seus contemporâneos, devotava a maior parte do tempo estudando. E após alguns anos de estudo intensivo, distinguiu-se como conhecedor profundo da lei islâmica, teologia e medicina. Tornou-se figura bem popular nos círculos intelectuais e eclesiásticos de Yazd, sendo reconhecido por suas realizações eruditas. Por natureza, tinha a mente aberta, era zeloso e empreendedor. Com o tempo, suas idéias liberais lhe trouxeram conflitos de idéias com os líderes clericais de sua época, aos quais desprezava e desdenhava por suas atitudes pomposas e práticas corruptas.

Em 1844, quando as notícias alvoroçadoras da declaração do Báb chegaram a Yazd, Mulláh Muhammad Ridá foi dos primeiros a responder decididamente ao Chamado do Báb. Logo tornou-se um grande apoiador da nova Fé. Levantou-se com incomparável vigor para proclamar a nova Mensagem e como resultado de seu trabalho de ensino muitas pessoas em Yazd, e das vilas vizinhas, abraçaram a Causa do Báb, incluindo membros de suas famílias.

Não somente era Mullá Muhammad Ridá um instrutor proeminente e um erudito, como também um jovem de boa aparência e muito corajoso. Na primavera de 1850, quando o Ilustre Vahíd passou por Yazd, em sua fatídica viagem para Nayríz, o clero muçulmano de Yazd, por malícia e ódio à nova Fé, instigou o povo a cometer atos de violência contra Vahíd, e conseqüentemente uma série de tumultos ocorreram na cidade, quando pessoas fanáticas, apoiadas por soldados da guarda local, atacaram a casa de Vahíd e ameaçaram demoli-Ia e matá-lo, bem como a todos os seguidores do Báb que lá encontrassem.

Foi quando Vahíd encarregou Mullá Muhammad Ridá de repelir os ataques e defender a casa e suas imediações contra o ataque dos inimigos. Em decorrência, sempre que o populacho aparecIa, Mullá Muhammad Ridá e um punhado de seus amigos escolhidos, de espada em punho, contra-atavam como leões furiosos, pondo a correr os atacantes. A onda de ataques foi diminuindo e breve Vahíd pode deixar livremente a casa e partir para Nayríz.

Mais tarde, as notícias dos trágicos eventos em Nayríz chegaram ao conhecimento de Mullá Muhammad Ridá, o qual imediatamente partiu em peregrinação a Nayríz, caminhando através de estradas desertas e difíceis, até alcançar o local do martírio de Vahíd e seus devotados companheiros de Fé, heróis que haviam sacrificado a vida pelo amado Báb nus mãos de um inimigo traiçoeiro.

De Nayríz dirigiu-se a Shíráz, a cidade-natal de seu Senhor, recentemente martirizado, onde encontrou-se com alguns de seus proeminentes seguidores, como também alguns de Seus parentes. Na volta a Yazd, continuou a espalhar os ensinamentos do Báb, defendendo sua autenticidade sempre que encontrava oposição, oposição essa muito forte da parte dos sacerdotes. Na verdade, ninguém em Yazd igualava Mulláh Muhammad Ridá em audácia, ninguém -ousava desafiar seu poder de exposição e argumentação; bem como a mágica de sua palavra que atraía o respeito e a adesão de muitos à Causa do Báb.

Enquanto a onda de hostilidade contra ele crescia rapidamente, os sacerdotes imaginavam como melhor acabar com ele, para definitivamente afastar o perigo que a nova Fé representava para eles. Começaram uma veemente campanha de vilificação contra Mullá Muhammad, buscando por todos os meios denunciá-lo como herege, infiel e repudiador das leis do Islã. Emitiram ordem de morte a ele, pedindo ao governador de Yazd prendê-lo e matá-lo. Este, por sua vez ordenou ao prefeito da vila vizinha de Banáduk, que agisse como agente distrital para prender Mullá Muhammad Ridá Imediatamente e conduzi-lo à Yazd escoltado.

Nesse entretempo, Mullá Muhammad Ridá fora alertado sobre as atividades traiçoeiras dos sacerdotes, que planejavam sua morte. Ele sabia que mais cedo ou tarde sofreria o atentado para silenciá-lo e acabar com suas- atividades de ensino. Por essa razão, decidiu sair de Manshád por um tempo e buscar abrigo em local mais seguro até que a tempestade acalmasse. Como previsto, tão logo ele e seus irmãos haviam partido guardas montados invadiram sua propriedade, entraram em sua casa com ordem de prendê-lo. Não o encontraram, nem em casa nem em áreas vizinhas. Nenhum traço de Mullá Muhammad Ridá, nenhuma pista para onde teria ido. Não satIsfeItos com essa primeira derrota, os inimigos redobraram esforços para sua captura e pediram às autoridades organizar grupo de busca para percorrerem todas as vilas próximas e prende-lo para as ações da justiça. Como resultado de seus malévolos esforços, não só sua residência, como áreas vizinhas, eram inesperadamente atacadas muitas vezes, embora sem conseguirem o intento de prender Mullá Muhammad Ridá, o qual continuava livre, vivendo escondido em uma das vilas próximas. Amigos estavam sempre alertas às visitas dos soldados, avisando Mullá Muhammad para esconder-se.

Porém, à. medida que a situação foi piorando, Mullá Muhammad. Ridá preferiu seguir para mais longe, disfarçando-se e caminhando para uma vila próxima, de nome Mihríz, dIstante cerca de 20 quilômetros, onde ficou na casa de Siyyid Muhammad Báquir, também um devotado e sincero amigo. Mais tarde, foi para Yazd onde recebeu as atenções e proteção de Mírzá Muhammad Rízá, o médico ele para quem a Epístola a um médico foi revelada.

Posteriormente, voltou ao seu lar, permanecendo fora da vista das pessoas durante algum tempo. Somente à noite , quando a vila estava silente e no escuro, e todas as suas vielas e caminhos desertos, ele saía para as reuniões com os amigos, realizadas sempre em locais secretos e diferentes.

Manshád, porém - uma vila embutida na mais longínqua das altas montanhas, raramente visitada por estranhos era um lugar que praticamente todos se conheciam, do berço ao túmulo. Em um lugar como esse é impossível alguém acabar não sabendo dos movimentos e atividades de outra pessoa, mais cedo ou tarde, especialmente porque o povo, por natureza, era muito curioso e fofoqueiro. Também pelo fato das casas, de barro, ficarem bem próximas uma das outras, como uma colméia, dando pouca privacidade a seus moradores. Podia-se ouvir, do lado de fora, o que se falava dentro da casa. Os movimentos de pessoas, à noite, também foram despertando a curiosidade de muitos, que buscaram saber do que se tratava. Em pouco tempo, correram rumores da presença de Mullá Muhammad Ridá. Desta maneira, as autoridades logo foram informadas. Determinaram espiões e informantes para descobrirem o paradeiro do inimigo procurado.

Ciente de tais fatos, Mullá Muhammad Ridá entendeu que sua situação em Manshád tornara-se crítica, que os agentes inimigos observavam seus movimentos o tempo todo que uma nova incursão em sua busca logo ocorreria. Ainda mais seus familiares e amigos ficaram também profundamente preocupados com sua segurança.

Agindo por intuição do momento e encorajado por sua indomável fé e confiança, Mullá Muhammad Ridá embarcou numa aventura arriscada, a qual. embora cheia de dificuldades e duras privações, iria lhe permitir, por muitos anos, escapar da garra de seus perseguidores implacáveis. Sozinho e sem auxílio algum, subiu às montanhas e buscou refúgio num esconderijo pequeno bem no cume da montanha de Alí Mardán, que formava a parede ocidental de sua vila nativa.

Enquanto isso, nenhum de seus amigos, nem mesmo os membros de sua família, sabia de seu paradeiro, exceto seu irmão mais jovem de nome Mullá Bábáí, a quem confidenciou o segredo de seu destino, pedindo-lhe, porém, nada falar, a ninguém, de sua decisão. Se falasse, a sua própria vida estaria em perigo. Seu irmão manteve o segredo e agia com muito tato e precaução nos contatos com as pessoas. Além disso, prometeu a si mesmo levar alimentos, roupas e outras coisas necessárias para a vida de seu irmão no alto da montanha. Fazia isso com muita sabedoria e cuidado.

Em seu isolado e solitário esconderijo, Mullá Muhammad Ridá passou por muitas dificuldades e privações por não menos que três anos e meio. Além de expor-se à inclemência do tempo, em especial no inverno, vivia sempre atento a possíveis visitas inesperadas, do inimigo particularmente. Por exemplo, durante as horas do dia permanecia dentro de seu abrigo, pois de outra forma corria o risco de ser visto pelas pessoas do vale ou por casuais alpinistas, caçadores, e outros que, de vez em quando, saíam em aventuras, esportivas ou não. Às noites, não podia acender luzes, por razões óbvias; podia atrair ainda mais a atenção de curiosos. E sempre que acendia uma vela, ou fazia algum fogo, em espeCIal para aquecer-se no inverno, tinha de ser muito cauteloso para manter o fogo baixo e bem escondido.

Algumas vezes, à noite, quando o vale estava encoberto pela escuridão, Mullá Muhammad Ridá podia deixar seu esconderijo na montanha e cautelosamente descer a encosta para um local de encontro secreto na vila, onde ficava com os amigos e membros de sua família. Era como uma flama queimando com o amor do Báb, e sempre que vinha a tais reuniões, a alegria e contentamento dos amigos não tinham limites. Era uma fonte de inspiração para eles e um exemplo vivo de devoção e coragem. Nessas oportunidades, aprofundava os amigos no conhecimento da Fé, removia suas dúvidas, respondia a todos os seus questionamentos, tomando o firmes e devotados fiéis. Depois das reuniões, antes do nascer do sol, desaparecia na escuridão do vale, escolhendo os caminhos mais difíceis e menos freqüentados subia para seu esconderijo no alto da montanha. A não ser que a pessoa seja bem familiar com a topografia dos íngremes caminhos dessa região montanhosa, dificilmente poderá entender as terríveis dificuldades e os perigos que significam escalar suas enormes alturas durante o dia, quanto mais à noite, Um feito realmente miraculoso as escaladas de Mulláh Muhammad Ridá nas madrugadas.

Igualmente difíceis e talvez até mais perigosos eram os feitos realizados por Mullá Bábáí, seu indômito irmão, que em determinadas noites levava as provisões para o cume da montanha, onde se escondia o irmão, atento sempre aos olhares de informantes inimigos, que mantinham contínua vigilância à sua residência.

Fôssemos dar asas à imaginação, à luz do conhecimento que se tem das condições locais daquela montanhosa regi 0, e seguir as pegadas de Mullá Bábáí em uma de suas incursões noturnas, veríamos ele sair de sua casa cuidadosamente, ou da casa de algum amigo confiável, bem tarde da noite, levando consigo um amarrado de alimentos e outros objetos às costas. No silêncio da noite, a passos largos ou até saltos, algumas vezes parava no caminho, em meio às sombras misteriosas, sempre alerta e muito observador, com olhos e ouvidos bem abertos para ver e ouvir eventuais sons estranhos, possivelmente passos ou vozes de outras pessoas. Com extrema cautela, buscava os caminhos mais difíceis, subia encostas pedregosas, arrastava-se para não cair em precipícios, e pouco a pouco vencia todos os obstáculos alcançando o esconderijo do irmão. Além disso, Mullá Bábáí normalmente buscava rotas diferentes, tanto na subida como na descida, para nunca deixar pistas de seu itinerário. Jamais fazia duas vezes seguidas o mesmo caminho.

Porém, a despeito do maior segredo que os membros de sua família e seus amigos mantinham o tempo todo, novos rumores surgiram entre os moradores da vila, indicando que algumas pessoas haviam visto Mullá Muhammad Ridá à noite, dirigindo-se para as montanhas. Outros, podiam jurar que suprimentos e alimentos estavam sendo levados para ele durante a noite, embora ninguém pudesse informar em que parte da montanha ele se escondia.

Mas os inimigos faziam novas pressões continuamente junto às autoridades, urgindo-as a tomarem ações enérgicas para a captura desse fugitivo. Como resultado de suas persistentes demandas e instigações, grupos de pessoas foram formados para dar busca ao inimigo procurado. Percorreram as montanhas de alto a baixo, e em todos os lados. Cada grupo de busca estava bem equipado e incluíam montanheses e caçadores, experientes naquela região. Tentaram tudo para encontrar o esconderijo do acusado. No entanto, todas as expedições deram em nada, fracassando na busca do esperto inimigo. Alguns grupos passaram bem perto, em cima do local que Mullá Muhammad Ridá escolhera para se esconder.

Um determinado dia, porém, quando a intensidade da busca era maior nas áreas vizinhas, Mullá Muhammad Ridá foi obrigado a deixar aquele antigo abrigo por razões de segurança. Mudou-se então para a montanha do outro lado do vale, do lado oriental da vila. Lá, buscou refúgio numa cova acima de um profundo precipício, onde, abaixo, existia uma pequena aldeia turca ao pé da montanha. Permaneceu nesse abrigo por vários meses, até que foi obrigado a mudar-se outra vez, para um lugar mais seguro. Desta vez escondeu-se num local no mesmo sentido geográfico, porém na parte mais baixa do vale, um lugar chamado Darrih.

Tudo somado, Mul1á Muhammad Ridá suportou nada menos que quatro anos e meio de solidão, escondido, nas desoladas e inóspitas montanhas de Manshád. Na verdade, ele não ficara o tempo todo foragido. Alternava os períodos em que ficava totalmente afastado por outros nos quais juntava-se aos seus amigos e parentes. Algumas vezes, até um ano ficou na vila, de repente partia. Por exemplo, no inverno, quando toda a região ficava coberta de neve, e quando subir ou descer as montanhas era por demais perigoso e difícil, Mullá Muhammad Ridá descia e caminhava, disfarçado, pelas cidades e vilas da planície. Residia por algum tempo em casas de amigos em Yazd, em Mihríz, ou seguia para o sul, para Shíráz, Nauríz e outros lugares onde os amigos o aguardavam com alegria, para recebê-lo em suas comunidades. Sempre manifestava uma radiância de espírito, zelo e entusiasmo, que provocava admiração, devoção e amor de todos os que o viam e ouviam. Ensinava sempre. Consolidava o tempo todo. Suas andanças e períodos de reclusão duraram, no total, doze anos.

No entanto, os dias gloriosos e brilhantes que o destino lhe propiciara ainda, começavam a surgir no horizonte - dias que provariam ser o corolário de sua vida gloriosa. Através da associação com amigos em várias localidades, Mullá Muhammad Ridá veio a saber da existência de um grande líder espiritual, que vivia em Bagdá, de nome Bahá, e que assumira a responsabilidade de reabilitar os destinos dos seguidores do Báb, confusos e desorientados então, tornando-se o centro para o qual os fiéis se voltavam em busca de orientação, apoio e inspiração. Inflamado de amor pelo Báb, Mullá Muhammad Ridá imediatamente dirigiu seus passos na direção de Bagdá, e depois de longa jornada alcançou sua meta, atingindo a presença de Bahá'í 'lláh logo depois Dele ter regressado das montanhas de Sulaymáníyyih. Em Bagdá, sorveu uma porção do oceano da sabedoria divina e do conhecimento de Bahá'u'lláh, e pôde sentir um pouco de Seu crescente poder e de sua glória.

Ao retomar ao seu lar, levou consigo muitas Epístolas preciosas e testemunhos de Bahá'u'lláh para os crentes de Yazd, cada um dos documentos uma comprovação da influência e da ascendência da nova Fé de Deus. Esta viagem serviu para ampliar a visão e o entendimento de Mullá Muhammad Ridá, e através do poder criativo que Bahá'u'lláh instilara em seu coração em decorrência das leituras de Seus Escritos, foi levado a reconhecer Bahá'u'lláh como o Prometido anunciado pelo Báb alguns anos antes de 1863 quando Ele publicamente declarou Sua missão.

Assim, imbuído de novo espírito de fé, Mullá Muhammad Ridá levantou-se com renovado entusiasmo, lealdade e devoção incomparáveis, para promover a nova Causa de Deus na região onde morava. O poder de sua palavra e a natureza conclusiva das provas que acrescentava eram tais que inspiravam aqueles que sinceramente buscavam a verdade e silenciavam os opositores. Havia uma mágica em suas palestras que cativava o coração de seus ouvintes.

Algum tempo depois de ter regressado de. Bagdá, Mullá Muhammad Ridá começou a praticar medicina em li vila-natal. Gradualmente, através de seu conhecimento poder da fé, distinguiu-se como um médico competente m toda a região, de tal forma que pacientes de Yazd e vila vizinhas aglomeravam-se à porta de sua casa para serem atendidos. Cuidava de cada um com muita atenção e consideração, independente do fato de ser amigo ou desconhecido, ou até inimigo.

Enquanto isso, seus opositores tradicionais não desistiam de seus propósitos malignos. O zelo e entusiasmo com que Mulláh Muhammad Ridá realizava as atividades bahá'ís em sua casa ou em qualquer parte, aumentava o ódio e o fanatismo que moldavam o coração de seus inimigos. Esperavam apenas uma oportunidade para dar o bote final. Essa oportunidade surgiu em 1868 e levou-o ao martírio pela ação malévola e cruel do inimigo, o diabólico Hájí Resúl, que vivia em Mihríz e atuava como prefeito da vila naquele distrito. Foi ele quem, nos primeiros dias da Manifestação do Báb havia aderido à nova Causa, mas logo depois desistiria, unindo-se aos inimigos do Báb. Esse homem, seja por instigação das autoridades de Yazd, seja por impulso de sua própria natureza maldosa, enviou uma carta bem escrita a Mullá Muhammad Ridá, entregue por um de seus servos. Nela pedia a gentileza de visitá-lo em sua casa em Mihríz para atender a um dos membros de sua família que se encontrava doente, precisando de cuidados médicos.

Ao receber a mensagem, Mullá Muhammad Ridá por intuição que a carta nada mais era do que uma armadilha para sua morte. Porém, decidiu aceitar e ir lá, acontecesse o que fosse. Estava nas mãos de Deus e Sua vontade sobressaía a tudo, mesmo o temor da morte. Assim, despediu-se de seus familiares e amigos, dizendo de seus últimos desejos e expressando conselhos finais. Pediu ao seu irmão mais jovem, Mullá Bábáí, para acompanhá-lo em sua viagem fatídica.

Ao montar sua mula, o animal mostrou-se indomável. Começou a se mexer para os lados e para trás, freneticamente, para derrubá-lo da montaria. Mulláh Muhammad Ridá gritou para o animal: "Ó mula! Por favor carregue-me um pouco mais, enquanto ainda tenho algum tempo de vida".

Desta forma, acompanhado pelo irmão e do emissário do prefeito, Mullá Muhammad Ridá chegou ao destino, onde foi levado à sala de recepção. Logo após sua chegada, um servo entrou na sala, trazendo-lhe uma xícara de chá que continha veneno, dizendo ser melhor que bebesse o chá e que o dono da casa em breve viria vê-lo. Mulláh Muhammad Ridá aceitou o chá e disse: "Vejam! A que festa maravilhosa eu fui convidado!" Então bebeu todo o conteúdo da xícara e pediu ao servo para remover os tapetes do chão. Este, hesitou um pouco, fingindo não saber do plano sinistro do envenenamento, mas quando pensou que o envenenamento certamente provocaria vômitos na vítima, para não sujar os tapetes retirou-os imediatamente.

A noite inteira Mulláh Muhammad Ridá sofreu a agonia de uma morte lenta pelo envenenamento, mas mostrou-se resignado e firme, até a manhã seguinte quando seu espírito alçou vôo para os reinos do além, atingindo, assim, o beneplácito de seu Senhor. Sua morte ocorreu no verão de 1868, à idade de 50 anos. Seu corpo foi levado à sua vila-natal e sepultado no cemitério bahá'í na encosta da montanha na qual havia buscado abrigo tantas vezes, no passado. As inúmeras Epístolas que Bahá'u'lláh revelou em sua homenagem imortalizarão sua memória e dão amplo testemunho dos monumentais serviços e do exaltado caráter de suas realizações espirituais.

Concluindo...

As histórias contadas, realmente chocantes e comovedoras, não foram aqui reproduzidas para apenas emocionar os queridos bahá'ís que as lerem.

Não foi, também, para despertar em cada leitor o desejo de alcançar o sacrifício supremo... dar sua vida no Caminho do Bem-Amado divino.

Cada época tem exigências especiais e oportunidades que, se perdidas, não voltam mais. Na Era Heróica da Fé, desde os primórdios da Revelação do Báb e também durante o período da vida de Bahá'u'lláh, o sacrifício exigido, da maioria, era mostrar tal firmeza na Fé e corajosamente difundir seus ensinamentos que empecilho algum pudesse conter o avanço ininterrupto e glorioso da nova Causa, a Causa de Deus para esta Era, a Revelação de Bahá'u'lláh. Se a vida lhes era exigida, tudo bem, que a levassem.

Os pioneiros do Novo Ciclo, os heróis do tempo do Báb e de Bahá'u'lláh que sacrificaram a vida pela nova Fé somam a mais de vinte mil. Já imaginaram contar a história de todos eles? O historiador estaria repetindo muitas vezes o que as três narrativas desta obra revelam. Muita dor, muita injustiça, fanatismo, crimes, perseguição implacável, torturas, martírios e mais martírios... Porém, sempre presente a firmeza, a fé, a coragem, ao lado da serenidade e da aquiescência radiante, dos bábís, primeiro, e dos bahá'ís, mais tarde. Todas almas sagradas, verdadeiros santos, amantes loucos, fiéis discípulos, seguidores perfeitos.

O sacrifício da vida tem ocorrido sempre, mesmo nos últimos anos. Após a revolução de Khomeini, e até bem recentemente na África do Sul. De vez em quando, como que para continuar o sangue dos mártires, que revi ficam a alma e o corpo da comunidade mundial, no oriente ou no ocidente, a oportunidade surge para novos martírios, para novos sacrifícios supremos.

Em nossos dias, porém, o sacrifício é de outra natureza, pois os tempos são outros e as oportunidades se modificaram. No entanto, a mesma ajuda divina permanece. Bahá'u'lláh está sempre presente, derramando Suas graças e Sua força divina sobre todos aqueles que O amam e procuram servi-Lo. Ele não falha e nunca deixará de ajudar Seus fiéis servidores.

O que se exige dos bahá'ís, atualmente e ainda por muitos anos, são sacrifícios pessoais que, na verdade, são bênçãos e graças, são atitudes e ações que apenas nos divinizam e nos aperfeiçoam, em todos os sentidos. No fundo, não são sacrifícios. São oportunidades de ouro que temos à nossa disposição para não só demonstrarmos nossa fé e nosso amor a Bahá'u'lláh, como também para nós mesmos sermos favorecidos.


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