Announcing: BahaiPrayers.net


More Books by Nabil-i-A'zam

Os Rompedores da Alvorada Vol II - The Dawn Breakers Vol II
Os Rompedores da Alvorada Vol I - The Dawn Breakers Vol I
Free Interfaith Software

Web - Windows - iPhone








Nabil-i-A'zam : Os Rompedores da Alvorada Vol I - The Dawn Breakers Vol I
OS ROMPEDORES DA ALVORADA
A NARRATIVA DE NABIL
VOLUME 1
OS ROMPEDORES DA ALVORADA

A NARRATIVA DE NABIL DOS PRIMEIROS DIAS DA REVELAÇÃO BAHÁ'Í

"Nós nos manteremos firmes, com a vida na mão, inteiramente resignados à Sua vontade, para que talvez, através da benevolência de Deus e de Sua graça, esta Letra revelada e manifesta possa oferecer a vida em holocausto no caminho do Ponto Primaz, o Mais Excelso Verbo."

BAHÁ'U'LLÁH

TRADUZIDO DO ORIGINAL PERSA PARA O INGLÊS POR SHOGHI EFFENDI

VOLUME 1
EDITORA BAHÁ'Í
Título original em inglês:
"The Dawn-Breakers"
Para
A Folha Mais Sagrada

A Última Sobrevivente de uma Idade Heróica e Gloriosa Dedico esta Obra em Sinal de um Grande Débito de Gratidão e Amor

INTRODUÇÃO

O Movimento Bahá'í está agora bem conhecido no mundo inteiro, e chegou o tempo em que a incomparável narrativa de Nábil acerca de seus primórdios há de interessar a muitos leitores. A história que ele narra com esmerada devoção é, em muitos aspectos, extraordinária. As passagens emocionantes e o esplendor do tema central conferem à crônica não só grande valor histórico, como também alto poder moral. Suas luzes têm o efeito intenso e fulgurante de um romper do sol à meia-noite. A história é de luta e martírio e muitas vezes permeada de cenas pungentes e trágicas. Corrupção, fanatismo e crueldade aliam-se contra a causa da reforma com a finalidade de destruí-la, e o presente livro encerra-se no momento em que o turbilhão de ódio parece haver cumprido seu propósito, tendo levado ao exílio ou à morte todo homem, mulher e criança da Pérsia que ousou professar simpatia para com o ensinamento do Báb.

Nabíl, ele próprio protagonista de algumas das cenas que narra, tomou sua pena solitária para relatar a verdade sobre homens e mulheres tão impiedosamente perseguidos e um movimento tão penosamente caluniado.

Ele escreve com fluência, e quando se sente fortemente emocionado seu estilo torna-se vigoroso e incisivo. Não apresenta sistematicamente as pretensões e o ensinamento de Bahá'u'lláh e de seu precursor. Seu propósito é apenas relatar os primórdios da Revelação Bahá'í e preservar a lembrança das façanhas de seus primeiros campeões. Ele relata uma série de incidentes, e invoca escrupulosamente a própria autoridade em quase todos os itens de informação. Sua obra, em conseqüência, se por um lado perde em termos de conteúdo filosófico e artístico, por outro ganha enquanto relato vigoroso e fidedigno daquilo que ele sabia ou pode descobrir por intermédio de testemunhas dignas de crédito acerca da história primitiva de causa.

As principais características da narrativa (a figura santa e heróica do Báb, um líder tão meigo e tão sereno, porém veemente, resoluto e dominante; a devoção de seus seguidores que enfrentavam com inabalável coragem e êxtase a opressão e, muitas vezes, a fúria de um clero invejoso, que, para seus próprios fins, inflamava as paixões de um povo sedento de sangue) estão na força de uma linguagem que todos podem entender. Não é fácil, entretanto, acompanhar a narrativa em detalhes, e apreciar quão estupenda a tarefa empreendida por Bahá'u'lláh e pelo Seu Precursor, sem algum conhecimento do que representavam a Igreja e o Estado na Pérsia, bem como seus costumes e a atitude mental do povo e de seus mestres. Nabíl presumiu existir esse conhecimento. Ele mesmo viajou pouco, não indo muito além das fronteiras dos impérios do Xá e do Sultão, e não lhe ocorreu instituir comparações entre sua própria civilização e o que ocorria no estrangeiro. Não estava se dirigindo ao leitor ocidental. Embora consciente do que o material que compilara era de uma importância mais que nacional ou islâmica e que, dentro em breve, haveria de se espalhar para leste e oeste até abranger o globo, ele, entretanto, era um oriental escrevendo num idioma oriental para aqueles que o conheciam, e o trabalho incomparável que executou tão fielmente foi em si uma grande e laboriosa tarefa.

Existe em inglês, porém, uma literatura acerca da Pérsia do século XIX que dará ao leitor ocidental ampla informação sobre o assunto. Em textos persas que já foram traduzidos ou nos livros escritos por viajantes europeus como Lord Curzon, Sir J. Malcom e muitos outros, pode-se encontrar um quadro real e vívido, se bem que pouco agradável, e das terríveis condições que o Báb teve de enfrentar quando inaugurou o Movimento em meados do Século XIX.

Todos os observadores concordam em representar a Pérsia como uma nação débil e atrasada, divida em si por práticas corruptas e feroz intolerância. Ineficiência e miséria - frutos da decadência moral - grassavam em todo lugar. Nas camadas mais altas até as mais baixas, parecia não haver capacidade para efetivar reformas nem sequer a vontade de instituí-las seriamente. A vaidade nacional pregava uma grandiosa auto-satisfação. Uma mortalha de imobilidade pairava sobre todas as coisas, e uma prevalecente paralisia mental tornava impossível qualquer desenvolvimento.

Para um estudioso da História, a degeneração de uma nação, outrora tão poderosa e tão ilustre, parece extremamente lastimável. 'Abdu'l-Bahá, que apesar das crueldades acumuladas sobre Bahá'u'lláh, sobre o Báb, e sobre Si mesmo, ainda amava Sua pátria, referiu-se à degradação dela como "a tragédia de um povo"; e na obra The mysterious forces of civilization ("As forças misteriosas das civilizações), na qual procurou comover os corações de Seus compatriotas para que empreendessem reformas radicais, Ele expressou um lamento pungente sobre a sorte atual de um povo que outrora estendera suas conquistas para leste e oeste e promovera a civilização da humanidade. "Nos tempos antigos", Ele escreve, "a Pérsia era verdadeiramente o coração do mundo e brilhava entre as nações como uma tocha acesa. Sua glória e prosperidade despontaram no horizonte da humanidade assim como o verdadeiro alvorecer, difundindo a luz do conhecimento e iluminando as nações do Oriente e do Ocidente. A fama de seus reis vitoriosos chegou aos ouvidos dos habitantes dos pólos da Terra. A supremacia de seus reis humilhou os monarcas da Grécia e Roma. Sua sabedoria em governar enchia de espanto os sábios, e os governantes de outros povos criavam suas leis espelhando-se no sistema político da Pérsia. Havendo os persas se distinguido entre as nações da Terra como um povo de conquistadores e sendo, com justiça, admirados pela sua civilização e pelos seus conhecimentos, seu país tornou-se glorioso centro de todas as ciências e artes; fonte de cultura e de virtude. Como é que esse admirável país agora, por causa de nossa negligência, vaidade e indiferença, e devido à falta de conhecimento e organização, à escassez de zelo e ambição por parte de seu povo, tem permitido que os raios de sua prosperidade sejam obscurecidos e quase extintos?."

Muitos outros escritores narraram amplamente essas condições infelizes às quais 'Abdu'l-Bahá se refere.

No tempo em que o Báb declarou Sua Missão, o governo do país era - nas palavras de Lord Curzon - um "Church-State" (Estado eclesiástico). Por venal, cruel e imoral que fosse, formalmente era religioso. No mais, não havia leis, estatutos ou diretrizes para guiar a administração dos assuntos públicos. Não havia Câmara de Lordes nem conselho privado, nenhum sínodo, nenhum parlamento. O Xá era déspota e seu governo, arbitrário, refletindo-se em todos os níveis oficiais, através de todos os seus ministros e governadores, desde o mais humilde funcionário até o mais remoto chefe tribal. Não existia tribunal civil para corrigir ou modificar o poder do monarca ou da autoridade que ele se dignasse delegar aos subordinados. Se havia alguma lei, era a sua vontade. Ele podia fazer o que lhe aprouvesse. Outorgava o poder de nomear ou destituir todos os ministros, funcionários, oficiais e juízes. Detinha poder de vida e morte inapelável sobre todos os membros de sua casa e de sua corte, quer civis ou militares. O direito de tirar a vida cabia a ele somente, como também todas as funções de governo - legislativa, executiva e judiciária. Sua prerrogativa real não era limitada por nenhuma restrição escrita.

Aos descendentes dos xás eram confiados os cargos de maior renda em todo o país, e, à medida que as gerações se passavam, eles vinham a ocupar inumeráveis posições de menor importância também, em toda parte, até que a Pérsia ficou infestada dessa raça de zangões reais que deviam sua posição a nada mais que seu sangue, dando motivo ao provérbio persa que diz: "camelos, pulgas e príncipes existem em toda parte."

Até mesmo quando um Xá deseja tomar uma decisão justa e sábia em qualquer caso que lhe fosse levado para julgar, encontrava dificuldade em fazê-lo, pois não podia confiar nas informações dadas a ele. Os fatos essenciais ou eram omitidos ou deturpados pela influência de testemunhas interessadas ou de ministros mercenários. O sistema de corrupção havia chegado a tal ponto na Pérsia que se tornara uma instituição reconhecida, descrita por Lord Curzon nos seguintes termos:

"Chegamos agora à característica cardeal e distintiva da administração iraniana. O governo - mais ainda a própria vida neste país, pode-se dizer - consiste na maior parte, num intercâmbio de presentes. Pode parecer a primeira vista que essa prática demonstre, sob seus aspectos sociais, os sentimentos generosos de um povo amável; nesse caso, porém, não há nenhum sentimento objetivo envolvido; por exemplo, ao congratular-se por haver recebido um presente, o receptor descobre que deve não só retribuí-lo por um de valor equivalente, como também remunerar generosamente o portador do presente (para quem, muito provavelmente, tal prêmio é o único meio reconhecido de subsistência) em proporção ao seu valor pecuniário. Sob seus aspectos políticos, essa prática de dar presentes, embora consagrada nas tradições arraigadas do Oriente, é sinônimo do sistema descrito em outras partes por termos menos agradáveis. Tal é o sistema segundo o qual o governo da Pérsia se orienta desde séculos e cuja continuação opõe uma barreira sólida a qualquer reforma verdadeira. A começar pelo Xá, quase não existe um oficial que não se disponha a aceitar presentes; raro é o cargo que não seja conferido em troca de presente; ou a renda que não tenha sido acumulada por meio de presentes. Cada indivíduo na hierarquia acima mencionada, praticamente sem exceção, apenas comprou seu cargo, mediante um presente em dinheiro ao Xá, a um ministro, ou a um governador superior por quem ele foi nomeado. Se há vários candidatos a um cargo, com toda probabilidade o que fizer a melhor oferta ganhará.

"...O madákhil é uma acariciada instituição nacional da Pérsia, cuja efetivação, numa miríade de formas diferentes, é o interesse e deleite supremo da existência dos persas, e cuja engenhosidade é igualada somente por sua multiplicidade. Essa palavra extraordinária, para a qual Mr. Watson diz não haver no inglês equivalente exato, pode ser traduzida de várias maneiras, como, commission, perquisite douceur, consideration, pickings and stealings, profit (comissão, propina, gratificação, remuneração, furtos e roubos, lucro), segundo o contexto imediato em que é empregada. Em termos gerais, significa aquele saldo de vantagem pessoal que se manifesta usualmente em forma de dinheiro e pode ser extraído de toda e qualquer transação. Uma negociação na qual duas partes são envolvidas como doador e receptor, como superior e subordinado, ou mesmo como agentes iguais num contrato, não pode ser efetivada na Pérsia sem que a parte representada como autor do favor ou serviço reclame e receba remuneração preestabelecida monetária por aquilo que fez ou deu. Pode-se dizer, naturalmente, que a natureza humana é em grande parte a mesma no mundo todo; que um sistema semelhante existe sob um nome diferente em nosso próprio país ou em outros, e que o crítico filosófico reconhecerá no persa tanto um homem quanto um irmão. Até certo ponto é verdade. Mas em nenhum país que já vi ou do qual já ouvi falar é o sistema tão ostensivo e generalizadamente corrupto como na Pérsia. Longe de se limitar à esfera de economia doméstica ou às transações comerciais, penetra todos os níveis da vida e inspira a maioria das ações. Pela sua operação, pode-se dizer que na Pérsia se apagou da categoria das virtudes sociais e generosidade ou serviço gratuito e se elevou como princípio orientador da conduta humana a cobiça... Assim é instituída uma progressão aritmética de saque, desde o soberano até o súdito, cada unidade na escala descendente remunerando-se da próxima unidade abaixo dela, sendo o infeliz camponês a vítima final. Não é de admirar que, sob essas circunstâncias, o cargo público é o caminho comum para a riqueza, e são freqüentes os casos de homens que, tendo começado do nada, passam a possuir residências magníficas, cercados por multidões de servidores e vivendo de modo principesco. 'Ganha o quanto puderes enquanto puderes' a regra que a maioria dos homens estabelece para si ao entrar para a vida pública. Nem o espírito popular ressente com esta norma de conduta; alguém que tenha tido a oportunidade e, não a aproveitou para encher os próprios bolsos é objeto de acerbas críticas por sua falta de bom senso. Ninguém dirige sequer um pensamento aos sofredores de que, em última análise arrancaram os recursos para esses sucessivos 'madákhils' e do suor de cuja fronte resignada foi extorquida a riqueza que é dissipada com luxuosas casas de campo, curiosidades européias e cortejos enormes."

Ler o supracitado é perceber algo da dificuldade da missão do Báb; ler o que se segue é compreender os perigos que Ele enfrentou e estar preparado para uma história de violência e horripilante crueldade.

"Antes de terminar o assunto da lei persa e sua administração, gostaria de acrescentar algumas palavras sobre penalidades e prisões. Nada é mais chocante para o leitor europeu - enquanto prossegue através das páginas sangrentas, manchadas de crimes da história persa do século passado e, em menor grau, felizmente, do atual - do que o registro de castigos selvagens e torturas abomináveis, atestando alternadamente a insensibilidade do bruto e a engenhosidade do demônio. O caráter persa foi sempre fértil em invenção e indiferente ao sofrimento; e no campo das execuções judiciais tem encontrado amplo terreno para o exercício de ambas as habilidades. Até um período muito recente, ainda no reinado atual, criminosos condenados têm sido crucificados, executados por canhões, enterrados vivos, empalados, ferrados como cavalos, ou amarrados os corpos inclinados de duas árvores, partindo-se ao meio quando estas voltam à sua posição original o que acabei de descrever convertidos em tochas humanas, ou esfolados vivos.

"... Sob um sistema duplo de governo, tal como - isto é, uma administração na qual cada membro é, sob diversos aspectos, o subornador e também o subornado e uma prática judicial sem lei ou tribunal -, compreender-se-á facilmente que confiança no governo não deve existir e que não há senso pessoal de dever ou orgulho, de honra, nenhuma confiança mútua ou cooperação (a não ser a serviço da perversidade), nenhuma vergonha no desmascaramento, nem crédito na virtude, e, acima de tudo, nenhum espírito nacional ou patriótico."

Desde o início deve o Báb ter pressentido qual seria a recepção dada aos Seus ensinamentos pelos patrícios, e qual o destino que O esperava nas mãos dos mullás. Mas Ele não permitia que suspeitas pessoais afetassem a enunciação franca de Suas pretensões ou a aberta apresentação de Sua Causa. As inovações que Ele proclamou, embora puramente religiosas, foram drásticas; o anúncio de Sua própria identidade foi impressionante e extraordinário. Ele se deu a conhecer como o Qá'ím, o Sumo Profeta ou Messias há tanto prometido, tão ansiosamente esperado pelo mundo maometano. Acrescentou a isso a declaração de ser Ele também a Porta (isto é, o Báb), por cujo intermédio um Manifestante maior que Ele mesmo haveria de entrar no reino humano.

Colocando-se assim em alinhamento com as tradições do Islã, e ao aparecer como o cumprimento da profecia, Ele entrou em conflito com aqueles que tinham idéias fixas e imutáveis (diferentes das Suas) sobre o significado daquelas profecias e tradições. As duas grandes seitas persas do Islã, a xiita e a sunita, davam importância vital ao antigo depósito de sua fé, mas não concordaram quanto a seu conteúdo ou significado. Os xiitas, de cujas doutrinas surgiu o Movimento Bahá'í, sustentaram que, após a ascensão do Sumo Profeta Maomé, Ele foi sucedido por uma linha de doze Imames. Cada um destes foi especialmente dotado por Deus de qualidades espirituais e tinha direito à obediência cordial dos fiéis. Cada um devia sua nomeação não à escolha popular, mas sim, à indicação de seu predecessor no cargo. O décimo segundo e último desses guias inspirados foi Muhammad, chamado pelos xiitas Imame Mihdí, Hujjátu'lláh (a Prova de Deus), Bagíyyatu'lláh (o Remanescente de Deus) e Qá'im-i-Ál-i-Muhammad (aquele que surgirá da família de Maomé). Ele assumiu as funções de Imame no ano de 260 da Hégira, mas repentinamente desapareceu de vista, comunicando-se com seus seguidores somente através de intermediários escolhidos como uma Porta. Quatro dessas Portas sucederam-se uma após outra, sendo cada uma nomeada pelo seu predecessor com a aprovação do Imame. Quando, porém, Abu'l-Hasan-'Alí, a quarta Porta, foi solicitado pelos fiéis, antes da sua morte, a nomear seu sucessor, ele se recusou a fazê-lo, dizendo que Deus tinha outro plano. Com sua morte, toda a comunicação entre o Imame e sua igreja, portanto, cessou. Se bem que, cercado por um grupo de seguidores ele ainda viva e espere em algum recinto misterioso, não reassumirá relações com seu povo antes de surgir com poder para estabelecer uma nova era no mundo inteiro.

Os sunitas, por outro lado, têm uma opinião menos exaltada do cargo daqueles que sucederam o Sumo Profeta. Consideram a vice-gerência menos um assunto espiritual do que prático. O Califa, aos seus olhos, é o defensor da Fé, de vendo sua nomeação à escolha e aprovação do povo.

Por importantes que sejam essas diferenças, ambas as seitas concordam na expectativa de uma Manifestação dupla. Os xiitas esperam o Qá'im, que deve vir na plenitude dos tempos, e também o regresso do Imame Husayn. Os sunitas esperam o aparecimento do Mihdí e também a volta de Jesus Cristo. Quando o Báb, no começo de Sua missão, continuando a tradição dos xiitas, proclamou Sua função sob título duplo de, primeiro, o Qá'im e, segundo, a Porta, ou Báb, alguns dos maometanos interpretaram mal esta última referência. Imaginaram que isso significasse ser Ele uma quinta Porta em sucessão a Abu'l-Hasan-'Alí. Seu verdadeiro significado, entretanto, como Ele mesmo anunciou claramente, era muito diferente. Ele era o Qá'im; mas o Qá'im, embora Sumo Profeta, estava ligado a um maior Manifestante sucedâneo, assim como o tinha estado João Batista a Cristo. Era o Precursor de Alguém ainda mais poderoso do que Ele próprio. Ele haveria de descrever; aquele poderoso haveria de crescer. Do mesmo modo que João Batista fora o Arauto ou Porta do Cristo, assim foi o Báb o Arauto ou Porta de Bahá'u'lláh.

Há muitas tradições autênticas que mostram que o Qá'im ao aparecer, traria consigo leis novas e assim aboliria o Islã. Mas não era isso que a hierarquia estabelecida entendia. Com confiança esperavam seus integrantes que o prometido advento não viria substituir a revelação por uma nova e mais rica, mas sim endossaria e fortaleceria o sistema do qual faziam parte. Aumentaria incalculavelmente seu prestígio pessoal, estenderia sua autoridade por todas as nações, obtendo para eles o prestígio relutante e abjeto da humanidade. Quando o Báb revelou Seu Bayán, proclamou um novo código de lei religiosa e instituiu por preceito e exemplo uma profunda reforma moral espiritual, os sacerdotes imediatamente pressentiram o perigo mortal. Viram em risco, seu monopólio, ameaçadas suas ambições, suas próprias vidas e conduta expostas à ignomínia. Levantaram-se contra Ele em beata indignação. Declararam perante o Xá e todo o povo que esse pretencioso era um inimigo da erudição sã, um subversor do Islã, traidor de Maomé e um perigo não só para a santa igreja, mas também para a ordem social e para o próprio Estado.

A causa da rejeição e perseguição do Báb foi em sua essência a mesma da rejeição e perseguição de Cristo. Não tivesse Jesus trazido um Novo Livro, se tivesse não apenas reiterado os princípios espirituais ensinados por Moisés, como também continuado os preceitos e regulamentos de Moisés, Ele, como simples reformador moral, teria talvez escapado à vingança dos escribas e fariseus. Sustentar, porém, que qualquer parte da lei mosaica, até ordenações materiais como aquelas que se referiam ao divórcio e à observância do sábado, pudesse ser modificada - e justamente por um pregador de Nazaré que nem se ordenou -, isso iria ameaçar os interesses dos próprios escribas e fariseus e, desde que eram os representantes de Moisés e de Deus, também seria blasfêmia contra o Altíssimo. Logo que foi compreendida a posição de Jesus, Sua perseguição começou. Por recusar a desistir, Ele foi morto.

Por razões semelhantes, o Báb desde o início encontrou oposição pelos interesses criados pela religião dominante, que o acusava de extirpador da fé. Entretanto, mesmo naquele país tenebroso e fanático, os mullás (equivalentes aos escribas na Palestina dezoito séculos antes) não acharam fácil apresentar um pretexto plausível para destruir Aquele que pensavam ser seu inimigo.

O único registro conhecido de que o Báb fora visto por um europeu pertence ao período de Sua perseguição, quando um médico inglês residente em Tabríz, dr. Cormick, foi chamado pelas autoridades persas para pronunciar-se sobre a condição mental do Báb. A carta do médico, dirigida a um colega numa missão americana na Pérsia, é citada em Materials for the Study of the Bábí Religion (Material para o Estudo da Religião Bábí) pelo professor E. G. Browne. "Pediu-me" escreve o médico "alguns detalhes sobre minha entrevista com o fundador da seita conhecida como Babí. Nada de importante ocorreu nessa entrevista, porque o Báb estava ciente de que eu havia sido mandado com outros dois médicos para verificar se ele era de mente são ou simplesmente um louco, para decidir a questão se ele devia ser morto ou não. Sabendo disso, ele reluta em responder a qualquer pergunta que lhe fosse feita. Em resposta, ele apenas nos contemplava com olhar suave, entoando, numa voz baixa, melodiosa, alguns hinos, suponho. Outros dois siyyids, amigos íntimos dele, e que depois também foram mortos, estavam inclusive presentes, além de alguns oficiais do governo. Só se dignou a me responder quando lhe disse que eu não era um muçulmano e gostaria de saber algo sobre sua religião porque eu talvez me inclinasse a adotá-la. Ele me olhou muito atentamente ao ouvir isso e respondeu que não tinha nenhuma dúvida de que todos os europeus se converteriam para a sua religião. Nosso relatório ao xá naquela ocasião foi feito de forma que lhe poupassem a vida. Ele foi morto algum tempo depois por ordem do Amír-Nizám, Mírzá Taqí Khán. Em conseqüência de nosso relatório, ele recebeu apenas algumas bastonadas, durante as quais um farrásh, intencionalmente ou não, lhe bateu no rosto com o bastão destinado aos pés, o que causou-lhe uma grande ferida e inchação no rosto. Quando lhe perguntaram se queria que um cirurgião persa lhe fosse trazido para tratá-lo, ele expressou o desejo de que eu fosse chamado, dessa forma, eu o tratei por alguns dias, mas nesses encontros nunca consegui que ele falasse comigo confidencialmente, porque sempre estavam presentes alguns oficiais do governo, em vista de ele ser prisioneiro. Era um homem de aspecto muito meigo e delicado, de estatura um tanto pequena e muito mais alvo do que a maioria dos persas, com voz suave, melodiosa, que muito me impressionou. Sendo um siyyid, usava o traje daquela seita, como também o faziam seus dois companheiros. De fato, toda a sua aparência, bem como seu porte, contribuiu muito para que conquistasse minha simpatia. Sobre sua doutrina nada ouvi de seus próprios lábios, embora se entendesse que sua religião se aproximava de certa forma do cristianismo. Alguns carpinteiros armênios, mandados a sua prisão para fazer reparos, viram-no lendo a Bíblia, o que ele não tentou esconder mas, ao contrário, até lhes falou disso. Com absoluta certeza, sua religião não encara o cristianismo com o fanatismo típico dos muçulmanos, nem há qualquer restrição às mulheres como a que existe atualmente."

Tal foi a impressão que o Báb causou nesse inglês culto. Até onde a influência de Seu caráter e ensinamento se tem espalhado desde então pelo Ocidente, não há nenhum outro registro de que Ele tenha sido visto e observado por olhos europeus.

Suas qualidades eram de uma nobreza e beleza tão raras, sua personalidade tão meiga e, não obstante, tão dinâmica, e ao Seu encanto natural aliava-se tanto tato e discernimento que, após sua declaração, logo Ele se tornaria uma figura de grande popularidade por toda Pérsia. Conquistava a simpatia de quase todos com quem tinha contato pessoal, muitas vezes convertendo Seus carcereiros para Sua Fé e transformando os malévolos em amigos cheios de admiração.

Silenciar tal homem sem provocar algum grau de ódio público não era coisa muito fácil, mesmo na Pérsia de meados do século passado. Com os seguidores do Báb, porém, era diferente.

Aqui os mullás nenhum motivo de protelação encontraram e pouca necessidade de intrigas. O fanatismo dos maometanos, desde o xá até o mais humilde, podia facilmente ser provocado contra qualquer desenvolvimento religioso. Os bábís podiam ser acusados de deslealdade ao xá, sendo às suas atividades atribuídos obscuros motivos políticos. Além disso, os seguidores do Báb já eram numerosos, muitos deles em boa situação financeira, havendo alguns ricos e poucos que não tivessem algumas possessões as quais vizinhos invejosos pudessem ser instigados a desejar. Apelando aos receios das autoridades e às baixas paixões nacionais do fanatismo e da avareza, os mullás deram início a uma campanha de ultraje e espoliação que mantinham com implacável ferocidade até julgarem haver atingido completamente seu objetivo.

Muitos dos incidentes desta narrativa triste são relatados por Nabíl em sua história, entre os quais os acontecimentos em Mázindarán, Nayríz e Zanján sobressaem em virtude do caráter dos episódios de heroísmo dos bábís, quando eram acossados. Nessas três ocasiões, alguns bábís, levados ao desespero, retiraram-se em conjunto de suas casas para um lugar predeterminado e, erigindo ao seu redor fortificações, desafiaram com armas a continuação das perseguições. Para qualquer testemunha imparcial, as alegações dos mullás de um motivo político eram evidentemente falsas. Os bábís mostravam-se sempre prontos - caso lhes fosse dada uma garantia de que não mais seriam molestados em função de suas crenças religiosas - para voltar pacificamente às suas ocupações civis. Nabíl enfatiza os cuidados no sentido de evitar agressões. Lutavam por suas vidas com habilidade e força resolutas, mas não atacavam. Mesmo em meio a um conflito feroz, não tiravam nenhuma vantagem nem davam um golpe desnecessário.

'Abdu'l-Bahá é citado em Traveller's Narrative (Narrativa de um Viajante), pp. 34-35, onde diz o seguinte sobre o aspecto moral de suas ações:

"O ministro (Mírzá Taqí Khán), com absoluta arbitrariedade, sem haver recebido quaisquer instruções ou pedido permissão, emitiu ordens por todos os lados para punir e castigar os bábís. Governadores e magistrados procuravam um pretexto para amontoar riquezas, e os oficiais, um meio para adquirir lucros; doutores célebres, do alto de seus púlpitos, incitavam os homens a uma investida geral; os poderes da lei religiosa e civil deram-se as mãos e esforçavam-se para extirpar e destruir esse povo. Naquele tempo esse povo não havia adquirido ainda o devido conhecimento dos princípios fundamentais e doutrinas ocultas dos ensinamentos do Báb, e não reconhecia seus deveres. Não só seus conceitos e idéias estavam de acordo com os valores da Pérsia antiga, como também sua postura de vida e conduta. A via de acesso ao Báb, além disso, estava vedada, e a chama da tribulação ardia visivelmente por todos os lados. Em virtude do decreto dos mais célebres doutores, o governo e, de fato, as massas, com poder irresistível, haviam institucionalizado a rapina e a pilhagem por todos os lados, ocupando-se em punir e torturar, matar e depredar, a fim de poder extinguir esse fogo e fazer desfalecer essas pobres almas. Em cidades onde havia apenas um número limitado, todos, com mãos amarradas, tornaram-se alimento para a espada, enquanto onde eram numerosos, levantavam-se em defesa própria, de acordo com suas crenças anteriores, uma vez que lhes era impossível perguntar qual era seu dever e lhes estavam fechadas todas as portas."

Bahá'u'lláh, ao proclamar Sua Missão alguns anos depois, não deixou lugar para a incerteza quanto à lei a ser aplicada numa situação como essa, quando afirmou: "Melhor ser morto do que matar."

Qualquer resistência oferecida pelos bábís aqui, ou em outra parte, provou ser ineficaz. Foram esmagados em grande número. O próprio Báb foi tirado de sua cela e executado. Dentre os principais discípulos que professaram sua fé nEle nenhuma só alma restava viva, salvo Bahá'u'lláh, que com Sua família e alguns devotos, foi expulso, destituído de tudo, para o exílio e a prisão numa terra estrangeira.

O fogo, entretanto, embora abafado, não se extinguira. Ardia nos corações dos exilados, que o levavam de país a país enquanto viajavam. Mesmo em sua terra natal, na Pérsia, havia-se propagado tão profundamente que não pode ser apagado pela violência física, flamejando ainda no coração do povo e necessitando de apenas um sopro do espírito para ser avivado até se tornar uma conflagração que a tudo consumiria.

A Segunda e Maior Manifestação de Deus foi proclamada de acordo com a profecia do Báb na data por Ele predita. Nove anos após o início da Revelação Bábí - isto é, em 1853 -, Bahá'u'lláh, em algumas de Suas odes, fez alusão a Sua identidade e Missão e, dez anos mais tarde, enquanto residia em Bagdá, declarou-se a Seus companheiros como o Prometido.

Agora o grande Movimento para o qual o Báb preparara o caminho começava a mostrar toda a sua abrangência e a magnificência de seu poder. Apesar de o próprio Bahá'u'lláh ter vivido e morrido como exilado e prisioneiro, sendo conhecido por poucos europeus, Suas epístolas que proclamavam o novo advento foram levadas aos grandes governantes de ambos os hemisférios, desde o xá da Pérsia até o papa e o presidente dos Estados Unidos. Após Sua morte, Seu filho, 'Abdu'l-Bahá, levou as boas novas pessoalmente para o Egito e para muitas regiões do mundo ocidental. 'Abdu'l-Bahá visitou a Inglaterra, a França, a Suíça, a Alemanha e os Estados Unidos, anunciando em toda a parte que mais uma vez os céus se abriram e novos desígnios vieram abençoar os filhos dos homens. Faleceu em novembro de 1921, e hoje o fogo que parecia extinto para sempre, arde novamente em todos os recantos da Pérsia, já se estabeleceu no continente americano e se propagou em todos os países do mundo. Em torno dos sagrados escritos de Bahá'u'lláh e da exposição autorizada de 'Abdu'l-Bahá, cresce uma literatura volumosa repleta de comentários e de testemunhos. Os princípios humanitários e espirituais enunciados há décadas atrás no tenebroso Oriente por Bahá'u'lláh, e por Ele coerentemente esquematizados, estão sendo adotados, um após outro, por um mundo que, embora desconhecendo sua origem, os considera características de uma civilização evolutiva. A percepção de que a humanidade rompeu com o passado e de que a velha orientação não a conduzirá através das emergências do presente encheu de dúvidas e apreensões todos os homens que pensam, salvo aqueles que aprenderam a encontrar na história de Bahá'u'lláh o significado de todos os prodígios e avanços de nossa era.

Quase três gerações se passaram desde o início do Movimento. Quaisquer de seus primeiros adeptos que escaparam da espada e da fogueira já morreram há muito tempo, segundo o curso da natureza. A porta da informação contemporânea acerca de seus dois grandes líderes e seus discípulos heróicos está fechada para sempre. A narrativa de Nabíl, cuidadosa coleção de fatos feita no interesse da verdade e completada durante a vida de Bahá'u'lláh, tem agora um valor incomparável. O autor tinha treze anos quando o Báb se declarou, tendo nascido na aldeia de Zarand na Pérsia, no dia 18 de Safar, 1247 A.H.. Durante a vida inteira esteve associado intimamente aos líderes da Causa. Embora naquele tempo fosse apenas um menino, estava se preparando para ir a Shaykh Tabarsí e se juntar ao grupo de Mullá Husayn quando a notícia do massacre pérfido dos bábís frustrou-lhe o objetivo. Diz ele em sua narrativa que em Teerã conhece Hájí Mírzá Siyyid 'Alí, irmão da mãe do Báb, que na ocasião acabava de voltar de uma visita ao Báb na fortaleza de Chihríq; durante muitos anos ele foi companheiro íntimo do secretário do Báb, Mírzá Ahmad.

Ele entrou na presença de Bahá'u'lláh em Kirmánsháh e Teerã antes da data do exílio para o Iraque e mais tarde esteve ocupado em Seu serviço em Bagdá e em Adrianópolis, bem como na cidade-prisão de 'Akká. Mais de uma vez foi ele mandado em missões à Pérsia para promover a Causa e animar os crentes dispersos e perseguidos e, quando Bahá'u'lláh faleceu, em 1892 A.D., ele estava residindo em 'Akká. A maneira de sua morte foi patética e lamentável, pois ele ficou tão terrivelmente afetado pela morte do Grande Bem-Amado que, acabrunhado pelo pesar, afogou-se no mar, sendo seu corpo encontrado na praia, próximo à cidade de 'Akká.

Sua crônica inicia-se em 1888, quando gozava da assistência pessoal de Mírzá Musa, irmão de Bahá'u'lláh, e foi terminada em aproximadamente um ano e meio; partes do manuscrito foram revisadas e aprovadas, algumas por Bahá'u'lláh e outras por 'Abdu'l-Bahá.

A obra completa leva a história do Movimento até a morte de Bahá'u'lláh em 1892.

A primeira metade desta narrativa, que termina com a expulsão de Bahá'u'lláh da Pérsia, é contida no presente volume. Sua importância é evidente. Será lida menos por causa das poucas passagens comoventes que contém ou mesmo por seus numerosos quadros de heroísmo e inabalável fé do que por aqueles acontecimentos perenemente significativos aos quais dá um registro ímpar.

O ESTADO DE DECADÊNCIA DA PÉRSIA EM MEADOS
DO SÉCULO XIX
Os soberanos Qájár

"Em teoria o rei pode fazer o que lhe apraz; sua palavra é lei. O ditado de que 'A lei dos medos e persas não se altera' foi meramente uma antiga perífrase para o absolutismo do soberano. Ele nomeia e pode demitir todos os ministros, oficiais, funcionários e juízes. Sobre sua própria família e todos de sua casa e sobre os funcionários civis ou militares a seu serviço, ele tem poder de vida e morte sem apelação a qualquer tribunal. A propriedade de um indivíduo que cair em desonra, ou for executado, reverte a ele. O direito de tirar a vida em qualquer caso cabe a ele tão somente, mas pode ser delegado a governadores ou deputados. Toda propriedade não concedida anteriormente pela coroa ou comprada - à qual não pode ser estabelecido título legal -, lhe pertence, ficando inteiramente à sua disposição. Todos os direitos ou privilégios - como a construção de obras públicas, a operação de minas, a instituição de telégrafos, estradas, ferrovias, bondes, etc, enfim todos os recursos do país - cabem a ele e dele devem ser comprados antes de poderem ser assumidos por outros. Em sua pessoa se fundem as tríplices funções de governo: legislativa, executiva e judiciária. Nenhuma obrigação lhe é imposta além da observância exterior das formas da religião nacional. Ele é o pivô sobre o qual gira toda a máquina governamental.

"Tal é em teoria e foi, até recentemente, na prática, o caráter da monarquia persa. E nenhuma, dessas altas pretensões sequer foi ainda cedida abertamente. A linguagem em que o xá se dirige aos súditos e estes se lhe dirigem lembra o tom orgulhoso em que um Artaxerxes ou Dario falava com seus milhões de tributários, podendo suas palavras ainda ser lidas no registro gravado em muro de rocha e em túmulo. Continua ele a ser o Xainxá ou Rei dos Reis; o Zillu'lláh, ou Sombra de Deus; o Qibliy-i-Álam, ou Centro do Universo, 'Exaltado como o planeta Saturno; Manancial da Ciência; Senda do Céu; Soberano Sublime, cujo estandarte é o Sol, cujo esplendor é o do Firmamento; Monarca de exercícios numerosos como as estrelas.' Ainda o súdito persa endossaria o preceito de Sa'dí, que 'O vício aprovado pelo rei torna-se virtude; se alguém procura conselho oposto, tinge as mãos em seu próprio sangue'. A marcha do tempo não lhe impôs concílio religioso ou secular, nem ulemá ou senado. Instituições eletivas e representativas não introduziram ainda suas feições irreverentes. Nada por escrito existe para refrear a prerrogativa real.

"... Tal é a divindade que cerca um trono na Pérsia que não só o xá nunca assiste a um jantar de Estado ou come à mesa com seus súditos, com a exceção única de um banquete para seus principais parentes masculinos no Naw-Rúz, mas a atitude para com ele e a linguagem empregada até pelos ministros de confiança são de aquiescência e adulação servis. 'Possa eu ser vosso sacrifício, asilo do universo' é o modo comum adotado até pelos súditos da mais alta categoria ao se dirigirem a ele. Em seu próprio ambiente, pessoa alguma há para lhe dizer a verdade ou lhe dar um conselho desapaixonado. Os ministros estrangeiros são, provavelmente, quase a única fonte de onde se podem saber os fatos como são, ou receber conselhos sinceros, ainda que esses conselhos sejam dados por interesse. Com as melhores intenções do mundo para o empreendimento de grandes planos e o progresso de seu país, pouco ou nenhum controle tem ele sobre a execução de um projeto, uma vez que haja passado por suas mãos e se tornado o joguete de oficiais corruptos e ambiciosos. A metade do dinheiro dado com seu consentimento nunca chega a seu destino, mas recheia cada bolso intermediário, cuja engenhosidade profissional pode habilmente trazê-lo de volta; metade dos projetos por ele autorizados não se realiza, pois o ministro ou funcionário incumbido confia nos caprichos de esquecimento do soberano para dissimular sua negligência do dever.

Há somente um século prevalecia o abominável sistema de cegar possíveis aspirantes ao trono, de mutilá-los com selvageria e condená-los à prisão perpétua, desencadeando a matança e a carnificina sistemática. A desgraça não era menos repentina do que a promoção, e a morte era muitas vezes concomitante à desgraça.

"... Fath-'Alí Sháh... e seus sucessores têm-se provado tão extraordinariamente prolíficos em progênie masculina que a continuidade da dinastia tem sido assegurada; e provavelmente não há no mundo uma família reinante que num período de cem anos tenha aumentado até atingir tão amplas dimensões como a casa real da Pérsia... Nem no número de suas esposas, nem na qualidade de sua prole, pode o xá, embora inegavelmente um homem de família, ser comparado com seu bisavô, Fath-'Alí Sháh. À alta opinião tida universalmente das capacidades domésticas daquele monarca, imagino eu, devem ser atribuídas as estimativas divergentes, encontradas em obras sobre a Pérsia, a respeito do número de suas concubinas e seus filhos. O coronel Drouville, em 1813, calculou em setecentos o número de suas esposas, com 64 filhos e 125 filhas. O coronel Stuart, que esteve na Pérsia no ano após a morte de Fath-'Alí, lhe atribuiu mil esposas e 105 filhos... A senhora Dieulafoy também menciona cinco mil descendentes, mas cinqüenta anos mais tarde (o que parece ter maior probabilidade)... A estimativa que se encontra no Násikhu'-t-Tavárikh, uma grande obra histórica persa moderna, dá o número das esposas de Fath-'Alí como superior a mil, e o da sua progênie como 260, dos quais 110 sobreviveram ao pai. Daí o conhecido provérbio persa: 'Camelos, pulgas e príncipes existem em toda parte'... Nenhuma família real jamais deu mais frisante exemplo da afirmação escritural: 'Em vez de teus pais, tu terás filhos, a quem poderás fazer príncipes em todas as terras'; pois quase nenhum cargo de governador ou outro lucrativo existia na Pérsia que não fosse ocupado por um desses enxames de principelhos; e até hoje a miríade de Sháh-zádihs, ou descendentes de um rei, é uma verdadeira maldição para o país, se bem que muitos dessa desditosa estirpe da realeza, que consomem grande parte da renda em concessões e pensões anuais, ocupem atualmente lugares muito inferiores como telegrafistas, secretários, etc. Fraser deu-nos um quadro vívido da miséria causada ao país há cinqüenta anos (1842) por essa 'raça de zangões reais' que se apoderavam de todos os cargos de governo não só em cada província, mas em cada bulúk ou distrito, cada cidade e município; cada qual mantinha uma corte e um harém enorme e devastavam o país assim como um enxame de gafanhotos... Fraser, passando pelo Ádhírbáyján em 1834 e observando os resultados calamitosos do sistema segundo o qual Fath-'Alí Sháh distribuía sua colossal progênie masculina em todos os cargos de governo no reino inteiro, comentou: "A mais óbvia conseqüência desse estado de coisas é uma animosidade completa e universal para com a raça Qájár, sendo isso um sentimento que predomina em cada coração e tema de cada língua.

"... Assim como, durante suas viagens européias, ele (Násiri'd-Dín Sháh) colecionava um vasto número de objetos que, para a mente oriental, pareciam ser maravilhosas curiosidades, mas que desde então tem sido amontoados em vários apartamentos do palácio, ou guardados e esquecidos. Também na esfera maior da política e administração pública ele está continuamente introduzindo e promovendo algum projeto ou invenção que, uma vez satisfeito seu capricho, é abandonado ou deixado de lado. Numa semana, é o gás; na outra, é a luz elétrica. Agora é uma escola para oficiais; depois, um hospital militar. Hoje, é um uniforme russo; ontem foi um navio de guerra alemão para o Golfo Pérsico. Um novo certificado militar é emitido neste ano; um novo código de leis é prometido para o próximo. Nada resulta de qualquer desses brilhantes projetos, e os depósitos do palácio não estão mais cheios de mecanismos quebrados e pequenos objetos descartados do que estão cheios os escaninhos dos departamentos governamentais de reformas abortivas e fiascos.

"... Num aposento superior do mesmo pavilhão, Mírzá Abu'l-Qásim, o Qá'im-Maqám ou grão-vizir de Muhammad Sháh (pai do monarca atual), foi estrangulado em 1835, por ordem de seu mestre real, que com isso seguiu um exemplo que lhe foi dado pelo seu predecessor, e seu, dando ele próprio um exemplo que foi seguido devidamente por seu filho. Deve ser raro encontrar na História três soberanos sucessivos que mandaram matar, por motivos de ciúmes unicamente, os três ministros que os elevaram ao trono, ou que estavam na ocasião de sua queda desempenhando o mais alto cargo do Estado. Tal é a distinção tríplice dos xás Fath-'Alí, Muhammad e Násiri'd-Dín."

O Governo

"Num país tão atrasado em progresso constitucional, tão destituído de formas, estatutos e cartas constitucionais, e tão firmemente estereotipado pelas tradições imemoriais do Oriente, o elemento pessoal, como era de esperar, tem grande ascendência; e o governo da Pérsia pouco mais é do que o exercício arbitrário da autoridade por uma série de unidades em escala descendente - do soberano ao chefe de uma pequena aldeia. O único freio que opera sobre as graduações oficiais inferiores é o medo de seus superiores, mas existem meios de mitigá-lo; o único freio para as graduações superiores é o medo do soberano, e este nem sempre é imune a semelhantes métodos de pacificação; e o medo que restringe o próprio soberano não é a opinião nacional, mas sim, a estrangeira, representada pelas críticas hostis da imprensa européia... O xá, de fato, pode ser considerado, neste momento, como talvez o melhor espécime existente de um déspota moderado, pois, dentro dos limites indicados, ele é praticamente irresponsável e onipotente. Tem domínio absoluto sobre a vida e a propriedade de cada um de seus súditos. Seus filhos não têm poder independente e, num piscar de olhos, podem ser reduzidos à impotência ou mendicância. Os ministros são elevados e degradados ao bel-prazer real. O soberano é o executivo único, sendo todos os oficiais seus deputados. Não existe tribunal civil para restringir ou modificar sua prerrogativa.

"... Sobre o caráter geral e as habilidades dos ministros da corte persa, sir J. Malcolm, em sua obra histórica, escreveu o seguinte nos primeiros anos do século: 'Os ministros e principais oficiais da corte são quase sempre homens de modos polidos, bem versados nos assuntos de seus respectivos departamentos, afáveis no trato, suaves e observadores argutos; mas essas qualidades agradáveis e úteis são, em geral, tudo o que possuem. Nem é possível encontrar virtude ou conhecimentos liberais em homens cujas vidas são desperdiçadas com a observância das formalidades; cujos meios de subsistência derivam das fontes mais corruptas; que se ocupam de intrigas que visam sempre aos mesmos objetivos: preservar-se a si próprios ou arruinar os outros, que não podem, sem perigo, falar outra linguagem senão a da lisonja e da impostura e que são, numa palavra, condenados pela sua condição a ser venais, astuciosos e falsos. Já houve, sem dúvida, muitos ministros da Pérsia que seriam injustamente classificados sob essa descrição geral; mas mesmo aqueles que mais se distinguiram pelas suas virtudes e seus talentos têm sido forçados, em algum grau, a acomodar seus princípios à sua posição social; e, a menos que a confiança do soberano os colocassem além do medo de rivais, a necessidade os tem obrigado a praticar a subserviência e a dissimulação em desacordo com a verdade e a integridade que tão-somente podem exigir o respeito que todos se dispõem a mostrar aos bons e grandes homens'. Estas observações indicam a perspicácia e a justiça que caracterizam seu eminente autor, e receamos que, em grande parte, se apliquem tanto à presente quanto à velha geração."

O povo

"... Chegamos agora àquilo que é a característica cardeal e distintiva da administração iraniana. A administração pública - e ainda mais a própria vida - nesse país consiste em sua maior parte, pode-se dizer, num intercâmbio de presentes. Pode parecer, à primeira vista, que essa prática demonstre, sob seus aspectos sociais, os sentimentos generosos de um povo amável; ocorre, porém, que não há nenhum sentimento afetivo envolvido; por exemplo, ao congratular-se por haver recebido um presente, você descobre que deve não só retribuí-lo por um de valor equivalente, como também remunerar generosamente o portador do presente (para que, muito provavelmente, tal prêmio é o único meio conhecido de subsistência) em proporção ao seu valor pecuniário. Sob seus aspectos políticos a prática de dar presentes, embora consagrada nas tradições arraigadas do Oriente, é sinônima do sistema descrito em outras partes de maneira muito pouco lisonjeira. Este é o sistema segundo o qual o governo da Pérsia se orienta desde séculos e cuja continuação opõe uma barreira sólida à qualquer reforma verdadeira. A começar pelo xá, quase não existe um oficial que não se disponha a aceitar presentes; raro é um cargo que não seja conferido em troca de presentes; ou uma renda que não tenha sido acumulada por meio de presentes. Cada indivíduo na hierarquia acima mencionada, praticamente sem exceção, apenas comprou seu cargo, mediante um presente em dinheiro ao xá, a um ministro, ou a um governador superior por quem ele foi nomeado. Se há vários candidatos para um cargo, com toda probabilidade aquele que fizer a melhor oferta ganhará.

"... O madákhil é uma acariciada instituição nacional na Pérsia, cuja efetivação ocorre numa miríade de formas diferentes, sendo sua engenhosidade igualada somente pela sua multiplicidade, e é o culminante interesse e deleite da existência de um persa. Essa palavra extraordinária, para a qual Mr. Watson diz não haver no inglês equivalente exato, pode ser traduzida de várias maneiras, como, commission, perquisite, douceur, consideration, pickings and stealing, profit (comissão, propina, gratificação, remuneração, furtos e roubos, lucro), segundo o contexto imediato em que é empregada. Em termos gerais, significaria aquele saldo de vantagem pessoal que se manifesta usualmente em forma de dinheiro e pode ser extraído de toda e qualquer transação. Uma negociação, na qual duas partes são envolvidas como doador e receptor, como superior e subordinado, ou mesmo como agentes iguais num contrato, não pode ser efetivada na Pérsia sem que a parte representada como autora do favor ou serviço reclame e receba definida remuneração monetária por aquilo que fez ou deu. Pode-se dizer, naturalmente, que a natureza humana não apresenta grandes variações de um povo para outro; da mesma forma, os sistemas se assemelham - em persa, um homem, um irmão, tem o mesmo sentido universal. Até certo ponto é verdade. Mas em nenhum país que já vi ou do qual ouvi falar é tão abertamente corrupto como na Pérsia. Longe de se limitar à esfera da economia doméstica ou às transações comerciais, penetra todos os níveis da vida e inspira a maioria das ações. Pela sua operação, pode-se dizer que na Pérsia se apagou da categoria das virtudes sociais a generosidade ou serviço gratuito e se elevou como princípio orientador da conduta humana a cobiça... Assim é instituída uma progressão aritmética de saque, desde o soberano até o súdito, cada unidade na escala descendente remunerando-se da próxima unidade abaixo dela, sendo o infeliz camponês a vítima final. Não é de admirar que, sob essas circunstâncias, o cargo público é o caminho comum para a riqueza e são freqüentes os casos de homens que, tendo começado do nada, passam a possuir residências magníficas, cercados por numerosos servidores e vivendo de um modo principesco. Ganhe o quanto puderes é a regra que a maioria dos homens estabelece para si ao entrar para a vida pública. Nem o espírito popular se ressente com esta norma de conduta; alguém que tenha tido a oportunidade e não a aproveitou para encher os próprios bolsos é objeto de severas críticas por sua falta de bom senso. Ninguém dirige um pensamento sequer àqueles que foram vítimas desse estado de exploração institucionalizado, verdadeira extorsão que permite que a riqueza seja dissipada com luxuosas casas de campo, curiosidade européias e cortejos enormes."

"... Uma das características da vida pública na Pérsia que mais rápido chamam a atenção do estrangeiro, e que indiretamente derivam das mesmas condições, é o número enorme de atendentes e sequazes que se enxameam ao redor de um ministro ou oficial de qualquer espécie. Quando se trata de funcionários de alto escalão, estes variam em número de cinqüenta a quinhentos. Diz Benjamim que em seu tempo o primeiro-ministro mantinha três mil. Ora, a teoria de etiqueta social e cerimonial que predomina na Pérsia, como em todo Oriente é, até certo ponto, responsável por esse estado de coisas, sendo a importância da pessoa, em grande parte, estimada pela ostentação que ela pode fazer e pelo número de servos que em certas ocasiões pode exibir. É, porém, na instituição do 'Madákhil' e dos lucros ilícitos e roubos que está a raiz do mal. Se o governador ou ministro fosse obrigado a pagar ordenados a essa verdadeira horda de servos, suas fileiras diminuiriam rapidamente. A grande maioria deles não é paga; eles se ligam ao seu mestre por causa das oportunidades para extorsão que tal ligação lhes oferece e prosperam e enriquecem com a pilhagem. Prontamente se percebe a que ponto esse enxame de sanguessugas esgota os recursos do país. São verdadeiros tipos de trabalhadores improdutivos, absorvendo, mas nunca criando a riqueza; e sua existência é quase uma calamidade nacional... É ponto cardeal da etiqueta persa que uma pessoa, ao fazer uma visita, seja acompanhada do maior número possível de membros de seu próprio estabelecimento, quer montada ou viajando a pé, sendo o número desse séqüito aceito como indício da categoria do mestre."

A Ordem Eclesiástica

"Maravilhosamente adaptado tanto ao clima quanto ao caráter e às ocupações daqueles países sobre os quais tem posto seu punho adamantino, o Islã segura seu devoto em completa submissão, desde o berço até o túmulo. Para ele, não é apenas religião, mas também governo, filosofia e ciência. O conceito maometano não é tanto o de uma igreja do Estado, mas principalmente, caso se permita a frase, o de um Estado eclesiástico. Os alicerces sobre os quais a própria sociedade se sustenta não são de fabricação civil, e sim, eclesiástica; e envolto nessa crença soberana, ainda que paralisante, o muçulmano vive contente por haver rendido toda a volição, julga ser seu mais alto dever adorar a Deus e se constranger ou, quando impossível, desprezar aqueles que não O adoram no espírito, morrendo com a esperança certa e segura de ganhar o paraíso.

"... Esses Siyyids, ou descendentes do Profeta, são um prejuízo intolerável para o país, derivando de sua alegada descendência e da prerrogativa do turbante verde o direito a uma independência e insolência de conduta das quais seus conterrâneos, não menos que os estrangeiros, têm de sofrer.

"... Os judeus persas, como uma comunidade, estão mergulhados em grande pobreza e ignorância... Por toda a parte dos países muçulmanos do Oriente, esse povo infeliz tem sofrido a perseguição que o costume lhe ensinou, bem como ao mundo, a considerar como sua sorte normal. Normalmente forçados a viver isolados num gueto ou bairro afastado das cidades, desde tempos imemoriais têm os judeus sofrido por não ter uma ocupação definida; por seus costumes e vestuário diferentes, o que os marcou como párias sociais, distintos de seus semelhantes... Em Isfáhán, onde vivem 3.700 judeus, segundo se diz, e onde desfrutam uma condição relativamente melhor do que em outras partes da Pérsia, não lhes é permitido usar o Kuláh ou cobertura persa para a cabeça, nem ter lojas no bazar, construir as paredes de suas casas tão altas como as de um vizinho muçulmano, ou andar montado ou num veículo nas ruas... Logo, entretanto, que ocorre alguma explosão de fanatismo na Pérsia ou em outra parte, é provável que os judeus sejam as primeiras vítimas. A mão de todo homem é então levantada contra eles, e ai do desventurado hebreu que seja o primeiro a encontrar uma multidão persa.

"... Talvez o aspecto mais extraordinário da vida em Mashhad, antes de eu deixar o assunto do santuário e dos peregrinos, seja a providência tomada para o conforto destes últimos durante sua permanência na cidade. Em reconhecimento às longas viagens que fizeram, às durezas que suportaram e às distâncias pelas quais estão separados da família e do lar, lhes é permitido, com a conivência da lei eclesiástica e de seus oficiais, contrair casamentos temporários durante sua permanência na cidade. Há uma grande população permanente de esposas idôneas para esse fim. Um mullá é encontrado, e com sua permissão um contrato é lavrado e selado formalmente por ambas as partes, um honorário é pago e a união é realizada legalmente. Após haver passado uma quinzena ou um mês, ou qualquer período especificado, o contrato termina; o esposo temporário volta aos seus próprios lares et penates em alguma região distante e a mulher, após um celibato obrigatório de catorze dias, reassume sua carreira de perseverar em matrimônio. Em outras palavras, um gigantesco sistema de prostituição, com a permissão da Igreja, floresce em Mashhad. Não há, provavelmente, cidade mais imoral na Ásia; e eu não gostaria de dizer quantos dos peregrinos que, atravessando, sem nenhuma queixa, mares e terras a fim de beijar a grade do santuário do Imame, não são também animados e consolados, em sua marcha pela perspectiva de umas férias agradáveis, com algo que poderia ser descrito no vernáculo inglês como 'a good spree' (uma boa farra)."

Conclusão

"Antes de terminar o assunto da lei persa e sua administração, eu queria acrescentar algumas palavras sobre penalidades e prisões. Nada é mais chocante para o leitor europeu quando prossegue a leitura das páginas sangrentas, manchadas de crime, da história persa do século passado - e, em menor grau felizmente, do atual -, do que o registro de castigos selvagens e torturas abomináveis, atestando alternadamente a insensibilidade do bruto e a engenhosidade do demônio. O caráter persa foi sempre fértil em invenção e indiferente ao sofrimento; e no campo das execuções judiciais tem encontrado amplo terreno para o exercício de ambas as habilidades. Até um período muito recente, ainda no reinado atual, criminosos condenados têm sido crucificados, executados por canhões, enterrados vivos, empalados, ferrados como cavalos, partidos ao meio ao serem amarrados às copas de duas árvores inclinadas quando voltam à sua posição original, convertidos em tochas humanas, ou esfolados enquanto vivos.

"... Sob um sistema duplo de governo assim como aquele do qual agora completei a descrição - isto é, uma administração na qual cada membro é, sob diversos aspectos, o subornador como também o subornado; e um procedimento judicial sem lei ou tribunal - compreender-se-á facilmente que confiança no governo não deve existir, e que não há senso pessoal de dever ou orgulho em se ter honra, nenhuma confiança mútua ou cooperação (a não ser no serviço do malfazer), nenhuma vergonha no escândalo, nem crédito na virtude, e, acima de tudo nenhum espírito nacional ou patriótico. Têm razão aqueles filósofos que afirmam que a reforma moral, na Pérsia deve preceder a material, e a interna à exterior. É inútil enxertar brotos novos numa haste cuja própria seiva está esgotada ou envenenada. Podemos dar à Pérsia estradas e ferrovias, poderemos pôr em operação suas minas e explorar seus recursos; podemos treinar seu Exército e vestir seus artesãos, mas não a teremos feito entrar no círculo das nações civilizadas antes de penetrarmos no âmago do povo e de havermos dado um jeito novo e radical ao caráter e às instituições nacionais. Apresentei este quadro da administração persa, o qual acredito ser verídico, a fim de que os leitores possam compreender o sistema que os reformadores, quer estrangeiros ou nativos, terão de enfrentar, e o muro férreo de resistência, erigido por todos os instintos mais egoístas da natureza humana, que se opõe às idéias progressistas. O próprio xá, por mais que deseje a inovação, está em algum grau engajado nesse sistema pernicioso, visto que ele lhe deve sua fortuna particular, enquanto aqueles que, nas mais altas vozes o condenam em segredo, não estão atrás dos outros ao curvar as cabeças publicamente no templo de Rimmon. Em cada categoria abaixo do soberano, falta completamente a iniciativa para efetivar uma rebelião contra a tirania do costume imemorial; e se um homem forte como o próprio rei não é capaz de empreendê-la, onde está aquele que há de pregar a cruzada?"

Extratos do Persia and the Persian Question (A Pérsia e a Questão Persa) por Lord Curzon.

TRIBUTO DE BAHÁ'U'LLÁH AO BÁB E AOS SEUS
PRINCIPAIS DISCÍPULOS
Extraído do Kitáb-I-Íqán

"Embora jovem e de tenra idade, e não obstante ser a Causa por Ele revelada contrária ao desejo de todos os povos da Terra, dos poderosos aos humildes, dos ricos aos pobres, dos enaltecidos aos aviltados, do rei aos súditos, levantou-se Ele, todavia, e proclamou-a firmemente. Disto todos têm sabido e ouvido falar. A ninguém temia; não tomava em conta as conseqüências. Poderia tal coisa se manifestar, salvo através do poder de uma Revelação Divina e da potência da invencível Vontade de Deus? Pela justiça de Deus! Fosse alguém nutrir no coração tão grande Revelação, só o pensar em declará-la confundir-lhe-ia! Se os corações de todos os homens se comprimissem dentro de seu coração, ainda ele hesitaria em se aventurar a tão grave empreendimento. Só poderia realizá-lo com a permissão de Deus, e tão somente se seu coração estivesse ligado à fonte da Graça Divina, e à sua alma fosse assegurado o infalível sustento do Todo-Poderoso. A que - nós perguntamos - atribuem eles tão grande intrepidez? Será que o acusam de loucura, assim como acusaram aos Profetas antigos? Ou alegam ter sido Seu motivo único a aquisição de prestígio e de riquezas terrenas?

Deus bondoso! Em Seu livro, que intitulou Qayyúmu'l-Asmá - o primeiro, maior e mais poderoso de todos os livros -, Ele profetizou o próprio martírio. Nele se encontra esta passagem: 'Ó Tu Remanescente de Deus! Sacrifiquei-me inteiramente por Ti; aceitei maldições por Tua causa; e nada almejei, senão o martírio no caminho do Teu amor. Testemunha suficiente para mim é Deus, o Excelso, o Protetor, o Ancião dos Dias!'

"... Poder-se-ia supor que o Revelador de palavras como estas andasse em outro caminho senão no de Deus, e almejasse qualquer coisa que não fosse a Sua aprovação? Nesse mesmo versículo jaz oculto um sopro de desprendimento, que, se fosse emitido em sua plenitude sobre o mundo, faria com que todos os seres renunciassem à vida e sacrificassem a alma.

"... E considera tu agora como esse Sadrih do Ridván de Deus, ainda na flor da juventude, se levantou para proclamar a Causa de Deus! Vê que constância esse Manifestante da Beleza Divina revelou. O mundo inteiro levantou-se para impedi-Lo, mas falhou completamente. Quanto mais severa a perseguição que infligiam a esse Sadrih abençoado, mais crescia Seu fervor e mais intensamente a chama de Seu amor ardia. Tudo isso é evidente e ninguém lhe contesta a verdade. Afinal, Ele entregou a alma e alçou vôo para os reinos do alto.

"... Mal havia esse Manifestante da Beleza Eterna Se revelado em Shíráz, no ano sessenta, e rompido o véu da ocultação, quando se tornaram manifestos em toda a Terra os sinais da supremacia, da grandeza, da soberania e do poder que emanavam dessa Essência das Essências, desse Mar dos Mares; a tal ponto que, de cada cidade, apareceram os sinais, as evidências, os indícios e testemunhos desse Luminar Divino. Quão numerosos foram os corações puros e benévolos que espelharam fielmente a luz desse Sol eterno! Quão múltiplas as emanações de conhecimento desse Oceano da sabedoria divina que envolveram todos os seres! Em cada cidade, todos os eclesiásticos e nobres levantaram-se com o fim de os impedir e reprimir, e muniram-se de malícias, inveja e tirania para aniquilá-los. Que grande número dessas almas santas, dessas essências da justiça, sendo acusadas de tirania, foram mortas! E quantas personificações da pureza, que nada demonstraram senão o conhecimento verdadeiro e atos imaculados, sofreram uma morte angustiosa! Não obstante tudo isso, cada um desses santos seres, até o último momento, suspirava o Nome de Deus e elevava-se para o reino da submissão e resignação. Tão grande foi a influência que Ele exerceu sobre esses seres, a tal ponto os transformando, que deixaram de nutrir qualquer desejo a não ser Sua Vontade e devotaram as almas à Sua Lembrança.

"Reflete: quem no mundo é capaz de manifestar tão transcendente poder, predominante influência? Todos esses corações sem mácula e essas almas santificadas responderam, com resignação absoluta, ao chamado de Seu decreto. Em vez de se queixarem, agradeceram a Deus e, em meio às trevas de sua angústia, nada revelaram senão aquiescência radiante à Sua Vontade. Bem se sabe como era implacável o ódio e amargas a malícia e a inimizade que todos os povos da Terra mostraram para com esses companheiros. A perseguição e a dor que infligiram sobre esses seres santos e espirituais foram vistas por eles como o meio de atingir a salvação, a prosperidade e o êxito eterno. Terá o mundo visto, desde os dias de Adão, tumulto igual ou comoção de tanta violência? Não obstante todo o tormento que sofreram e as múltiplas aflições que suportaram, tornaram-se alvo de opróbrio e execração universais. Parece-me que a paciência se revelou unicamente em virtude de sua fortaleza, e a própria fidelidade não foi gerada senão por suas façanhas.

"Pondera em teu coração esses momentosos acontecimentos, para que possas compreender a grandeza desta Revelação e perceber sua glória estupenda."

CARACTERÍSTICAS DISTINTIVAS DO ISLÃ XIITA

"O ponto cardeal em que os xiitas (bem como as outras seitas incluídas sob a denominação mais geral de imanitas) diferem dos sunitas é a doutrina do Imanato. Segundo a crença destes últimos, a vice-gerência do profeta (califado) é questão de ser resolvida por escolha e eleição por parte de seus seguidores, e o cabeça visível do mundo muçulmano preenche o elevado cargo que lhe cabe, menos por alguma especial graça divina do que por uma combinação de capacidade administrativa com ortodoxia. De acordo com a opinião imamita, por outro lado, a vice-gerência é questão totalmente espiritual; um cargo conferido por Deus somente - primeiro pelo Seu Profeta e depois por aqueles que lhe sucederam, nada tendo que ver com a escolha ou a aprovação popular. Numa palavra, o Califa dos sunitas é apenas o defensor exterior e visível da Fé; o Imame dos xiitas é o sucessor do Profeta por designação divina, é dotado de todas as perfeições e graças espirituais, deve ser obedecido por todos os fiéis, sendo absoluta e final sua decisão, sobre-humana sua sabedoria e autorizadas suas palavras. O termo geral de Imanato é aplicável a todos aqueles que têm esta opinião, sem referência ao modo como traçam a sucessão, e inclui, portanto, seitas tais como os Báqirís e Ismá'ílís, bem como os xiitas ou 'Igreja dos Doze' (Madhhab-i-Ithmá-'Asharíyyih), como são mais especificamente denominados, pelos quais tão somente estamos aqui interessados. Segundo afirmam estas, doze pessoas sucessivamente ocuparam o cargo de Imame. Estas doze são como segue:

1. 'Alí-ibn-i-Abí-Tálib, primo e primeiro discípulo do Profeta, assasssinado por Ibn-i-Muljam em Kúfih, 40 A.H. (661 A.D.).

2. Hasan, filho de 'Alí e Fátimih, nascido em 2 A.H., envenenado por odem de Mu'ávíyih I, 50 A.H. (670 A.D.).

3. Husayn, filho de 'Alí e Fátimih, nascido em 4 A.H., morto em Karbilá em Muharram 10, 61 A.H. (10 de outubro, 680 A.D.).

4. 'Alí, filho de Husayn e Sháhribánú (filha de Yazdigird, último rei sassânida, geralmente chamado Imame Zaynu'l-'Abidín, envenenado por Valíd.

5. Muhammad-Báqir, filho do acima mencionado Zaynu'l-'Ábidín e sua prima Umm-i-'Abdu'lláh, filha do Imame Hasan, envenenado por Ibrahim ibn-i-Valíd.

6. Ja'far-i-Sádiq, filho do Imame Muhammad-Báqir, envenenado por ordem de Mansúr, o Califa 'Abbáside.

7. Músá-Kázim, filho do Imame Ja'far-i-Sádiq, nascido em 129 A.H., envenenado por ordem de Hárúnu'r-Rashíd, 183 A.H.

8. 'Alí-ibn-i-Músa'r-Ridá, geralmente chamado Imame Rida, nascido em 153 A.H., envenenado próximo de Tús, em Khurásán, por ordem do Califa Ma'mún, 203 A.H. e sepultado em Mashhad, que deriva dele seu nome e santidade.

9. Muhammad-Taqí, filho do Imame Ridá, nascido em 195 A.H., envenenado pelo Califa Mu'tasim em Bagdá, 220 A.H.

10. 'Alí-Naqí, filho do Imame Muhammad-Taqí, nascido em 213 A.H., envenenado em Surra-man-Ra'á, 254 A.H.

11. Hasan-i-Askarí, filho do Imame 'Alí-Naqí, nascido em 232 A.H., envenenado 260 A.H.

12. Muhammad, filho do Imame Hasan-i-'Askarí e Nargis-Khátún, chamado pelos xiitas 'Imame-Mihdí', 'Hujjátu'lláh' (A Prova de Deus), 'Baqíyya-tu'lláh (o Remanescente de Deus), e 'Qá'im-i-Áli-i-Muhammad (Aquele que há de surgir da família de Maomé). Ele tinha não só o mesmo nome, mas também o mesmo Kunyih - Abu'l-Qásim - do profeta e, segundo os xiitas, a lei não permite que qualquer outro tenha esse nome e esse kunyih junto. Ele nasceu em Surra-man-Ra'á, 255 A.H., e sucedeu a seu pai no Imanato em 260 A.H.

"Os xiitas afirmam que ele não morreu, mas desapareceu numa passagem subterrânea em Surra-man-Ra'á, 329 A.H., que ainda vive, rodeado por um grupo escolhido de seus seguidores, numa daquelas cidades misteriosas, Jábulqá e Jábulsá e que, ao chegar à plenitude do tempo, quando a Terra estiver cheia de injustiça e os fiéis estiverem mergulhados no desespero, ele se levantará, prenunciado por Jesus Cristo, derrubará os infiéis, e restabelecerá a paz e a justiça universais e inaugurará um milênio de beatitude. Durante o período inteiro de seu imamato, isto é, desde 260 A.H. até o tempo presente, o Imame Mihdí em estado invisível e inacessível para a generalidade de seus seguidores, e é isso o que significa o termo 'Ocultação' (Ghaybat). Após haver assumido as funções de Imame e presidido o enterro de seu pai e predecessor, o Imame Hasan-i-'Askarí, ele desapareceu da vista de todos, salvo uns poucos escolhidos, os quais, um após outro, continuaram a servir de canais de comunicação entre ele e seus seguidores. Essas pessoas eram conhecidas como Portas (Abváb). A primeira delas foi Abú-'Umar-'thmán ibn-i-Sa'íd'Umarí; a segunda Abú-Ja'far Muhammad-ibn-i-'Uthman, filho deste último; a terceira, Husayn-i-ibn-i-Rúh Naw-Bakhtí; a quarta, Abu'l-Hasan 'Álí-ibn-i-Muhammad Símarí. Dessas Portas, a primeira foi nomeada pelo Imame Hasan-i-'Askarí, e as outras pela Porta interina, com a aprovação do Imame Míhdí. Esse período - abrangendo mais de 69 anos -, durante o qual o Imame estava ainda acessível por meio das Portas, é conhecido como a 'Ocultação Menor' (Ghaybat-i-Sughrá). Esse período foi sucedido pela 'Ocultação Maior' (Ghaybat-i-Kubrá). Quando Abu'l-Hasan 'Alí, a última das Portas, se aproximava de seu fim, os fiéis (que contemplavam com desespero a perspectiva de desligação completa do Imame) instaram com ele para que nomeasse um sucessor. Isso, entretanto, ele recusou, dizendo: 'Deus tem um desígnio que Ele executará.' Assim, com sua morte, toda comunicação entre o Imame e sua Igreja cessou, e teve início a 'Ocultação Maior', a qual haverá de continuar até a volta do Imame na plenitude do tempo."

(Excerto de 'A Traveller's Narrative', nota 1 p.p. 296-

GENEALOGIA DO PROFETA MAOMÉ
Quraysh
'Abd-i-Manáf
Háshim 'Abdu'sh-Shams
'Abdu'l-Muttalib Umayyih
'Abdu'lláh Abú-Tálib 'Abbás Umayyad Caliphs
MUHAMMAD 'Abbásíd Caliphs
Fátimih 'Alí
Hasan Husayn
Califas Umayyad 661-749 A.D.
Califas 'Abbásíd 749-1258 A.D.
Califas Fátimitas 1258-1517 A.D.
Califas Otomanos 1517-19 A.D.
Nascimento de Maomé, 20 de agosto de 570 A.D.
Declaração de sua Missão, 613-14 A.D.
Sua fuga para Medina, 622 A.D.
Abú-Bakri's-Siddíq-ibn-i-Abí-Quháfih, 632-34 A.D.
'Umar-ibn-i'l-Khattáb, 634-44 A.D.
'Uthmán-ibn-i-'Affán, 644-56 A.D.
'Alí-ibn-i-Abí-Tálib, 656-61 A.D.

TEORIA E ADMINISTRAÇÃO DA LEI NA PÉRSIA EM MEADOS DO SÉCULO XIX

"... A lei na Pérsia e, de fato, entre os povos muçulmanos em geral consiste em dois ramos: o religioso e a lei comum; a lei que se baseia nas Escrituras maometanas e aquela que se baseia no precedente; aquela que é administrada pelos tribunais eclesiásticos e aquela que é administrada pelos tribunais civis. Na Pérsia, a primeira é conhecida como 'Shar, e a segunda como 'Urf. Das duas se evoluiu uma jurisprudência que, embora em sentido algum fosse científica, é, no entanto, razoavelmente prática na aplicação e superficialmente acomodada às necessidades e circunstâncias daqueles para quem é dispensada. A base de autoridade no caso do 'Shar', ou Lei Eclesiástica, consiste nas palavras do Profeta do Alcorão; as opiniões dos Doze Santos Imames, cuja voz, no parecer dos maometanos xiitas, é de importância quase igual, bem como segundo comentários de uma escola de preeminentes juristas eclesiásticos. Estes últimos desempenharam praticamente o mesmo papel na ampliação do volume de jurisprudência nacional, que fizeram os famosos juris consulti no caso da Lei Comum de Roma ou os comentadores talmúdicos com o sistema hebraico. O corpo das leis assim estruturado tem sido superficialmente codificado e dividido em quatro subtítulos, tratando respectivamente de ritos e deveres religiosos, contratos e obrigações, assuntos pessoais e de regulamentos santuários e procedimento judicial. Essa lei é administrada por uma corte eclesiástica, consistindo em mullás, isto é, padres leigos, e mujtahids, ou seja, sábios doutores da lei, assistidos algumas vezes por qádís ou juízes e sob a presidência de um oficial, conhecido como o Shaykhu'l Islám, um dos quais, por via de regra, é nomeado, em toda cidade grande, pelo soberano. Nos tempos antigos, o principal dessa hierarquia eclesiástica era o Sadru's-Sudúr, ou Pontifex Maximus, dignitário este que era escolhido pelo rei e a quem ficavam subordinados todo o clero e todas as autoridades judiciárias do reino. Este cargo, porém, foi abolido por Nadir Sháh em sua campanha anticlerical e jamais foi renovado. Nos centros menores da população e nas aldeias, essa corte é substituída pelo mullá ou mullás locais, que, em troca de alguma consideração, estão sempre prontos com um texto do Alcorão. No caso das cortes superiores, a decisão é invariavelmente escrita, junto com a citação das Escrituras, ou dos comentadores, na qual se baseia. Casos de extrema importância são entregues aos mujtahids mais eminentes, dos quais há um número limitado e cuja posição se deve tão somente à sua erudição ou habilidades, com a ratificação popular, e cujas decisões raramente são impugnadas... Em obras sobre a teoria da lei na Pérsia, se lê comumente que casos criminais são decididos pelas cortes eclesiásticas e casos civis, pelas cortes seculares. Na prática, entretanto, não há essa clara distinção; as funções e as prerrogativas das cortes coordenadas variam em diferentes épocas e parecem depender demais de fatores acidentais ou de escolha do que propriamente de necessidade; e, hoje embora casos criminais difíceis possam ser submetidos à corte eclesiástica, é, no entanto, de questões civis que eles se incubem principalmente. Questões de heresia ou de sacrilégio são naturalmente submetidas a esta corte, a qual toma conhecimento também de adultério e divórcio; e a embriaguez como ofensa, não contra a lei comum (de fato, se fosse questão de precedente, a não-sobriedade poderia apresentar as mais altas credenciais na Pérsia), mas sim, contra o Alcorão, se inclui dentro do âmbito de sua adjudicação...

Do 'Shar', passo agora ao 'Urf, ou Lei Comum. Nominalmente, esta se baseia na tradição oral, no precedente no costume. Assim, varia em diferentes partes do país. Entretanto, não havendo escritos ou códigos reconhecidos, nota-se que varia ainda mais na prática, segundo o caráter ou o capricho do indivíduo que o administra... Os administradores do 'Urf são magistrados civis em toda parte do reino, não existindo corte secular ou banca de juízes segundo o modelo ocidental. Numa aldeia, o caso será submetido ao kad-khudá, ou chefe; numa cidade, ao dárúghih, ou magistrado da polícia. Ao seu julgamento são submetidas todas as pequenas ofensas que ocupam uma corte policial de cidade ou uma banca de magistrados de condado na Inglaterra. A pena no caso de roubos, ou assalto, ou ofensas semelhantes, é, de modo geral, a restituição, ou no mesmo gênero ou no valor monetário, ao passo que, se por falta de meios isso é impossível, o criminoso é espancado com violência. Todos os casos de crimes comuns são submetidos ao hakím, ou governador provincial ou ao governador-geral. A corte final de apelo em cada caso é o rei, de cuja jurisdição são apenas uma delegação, se bem que seja raro um suplicante longe da capital conseguir que sua queixa seja ouvida de tão longa distância. A Justiça, pouco considerada pelos oficiais de governo na Pérsia, não obedece a nenhuma lei, não segue sistema algum. O que pode garantir a eqüidade, unicamente, é a publicidade; mas vasto é o campo, especialmente nos níveis mais baixos, para pishkash e propina. Os dárúghis têm a reputação de ser tanto austeros quanto venais, e alguns dizem, até que não existe uma sentença de um oficial na Pérsia, mesmo das categorias mais altas, que não possa ser modificada mediante uma consideração pecuniária."

(Excertos do Persia and the Persian Question por Lord Curzon, vol. 1 p.p. 452-455)

EXPLICAÇÃO DA GENEALOGIA DO BÁB

1. Descendente do Imame Husayn, residente de Shíráz.

2. Esposa do Báb.
3. Intitulado "Afnán-i-Kabír."
4. Esposa de Mírzá Zaynu'l-'Ábidín.
5. Conhecido como "Saqqá-Khání."

6. Esposa de Hájí Mírzá Siyyid Hasan, filho de Mírzá 'Alí.

7. Morreu ao nascer.

8. Intitulado "Khál-i-Asghar", a quem foi dirigido o Kitáb-i-Íqán.

9. Intitulado "Khál-i-A'zam", um dos Sete Mártires de Teerã.

10. Intitulado "Vakílu'd-Dawlih", principal construtor do Mashriqu'l-Adhkár em Ishqábád.

11. Intitulado "Vazír", nativo de Núr em Mázindarán; seu nome 'Abbás.

12. Seu nome 'Abbás.
13. Seu nome 'Alí-Muhammad.
14. Seu nome Husayn-'Alí.

15. Esposa de Vakílu'd-Dawlih, Hájí Mírzá Muhammad Taqí.

16. Único filho de Hájí Mírzá Muhammad-'Alí.
17. Genro de 'Abdu'l-Bahá.

18. Descendente do Imame Husayn, comerciante e natural de Shíráz.

19. Genro de 'Abdu'l-Bahá.
20. Único filho de Mírzá Abu'l-Fath.
A DINASTIA QÁJÁR
Fath-'Alí Sháh, 1798-1834 A.D.
Muhammad Sháh, 1835-48 A.D.
Násiri'd-Dín Sháh, 1848-96 A.D.
Muzaffari'd-Din Sháh, 1896-1907 A.D.
Muhammad-'Alí Sháh, 1907-9 A.D.
Ahmad Sháh, 1909-25 A.D.
Mírzá Abu'l-Qásim-I-Qá'im-Maqám.
Hájí Mírzá Áqásí.
Mírzá Taqí Khán Amír-Nizám.
Mírzá Áqá Khán-i-Núrí.
PREFÁCIO

É minha intenção, pela ajuda e assistência de Deus, devotar as páginas introdutórias desta narrativa à exposição daquilo que tenho podido obter sobre aquelas duas grandes luzes gêmeas, Shaykh Ahmad-i-Ahsá'í e Siyyid Kázim-i-Rashtí, depois do que é minha esperança relatar, por ordem cronológica, os principais acontecimentos desde o ano de 601, ano que testemunhou a declaração da Fé pelo Báb, até o tempo atual, o anod e 1305 A.H.2

Em certos casos entrarei em algum detalhe; em outros, contentar-me-ei com um breve sumário dos acontecimentos. Registrarei uma descrição dos episódios que eu mesmo testemunhei, bem como aqueles que me foram contados por informantes fidedignos e reconhecidos, cujos nomes e posição especificarei em cada caso. Aqueles a quem estou principalmente agradecido são os seguintes: Mírzá Ahmad-i-Qazvíní, amanuense do Báb; Siyyid Ismá'íl-i-Dhabíh; Shaykh Hasan-i-Zunúzí; Shaykh Abú-Turáb-i-Qazvíní; e, por fim, embora não de importância menor, Mírzá Músá, Áqáy-i-Kalím, irmão de Bahá'u'lláh.

Agradeço a Deus por me haver ajudado a escrever estas páginas preliminares e por tê-las abençoado e honrado com a aprovação de Bahá'u'lláh, que bondosamente se dignou a considerá-las e assinalou, por intermédio do Seu amanuense, Mírzá Áqá Ján - que as leu para Ele - Seu prazer e aceitação. Suplico que o Todo-Poderoso me possa sustentar e guiar para que eu não erre e falhe na tarefa que me pus a desempenhar.

Muhammad-i-Zarandí3
'Akká, Palestina
1305 A.H.
OS ROMPEDORES DA ALVORADA
CAPÍTULO I
A MISSÃO DE SHAYKH AHMAD-I-AHSÁ'Í

Num tempo em que a realidade esplendorosa da Fé de Maomé se obscurecera em razão da ignorância, do fanatismo e da perversidade das seitas discordantes em que se havia dividido, apareceu no horizonte do Oriente (1) aquela luminosa Estrela da Guia Divina, Shaykh Ahmad-i-Ahsá'í. (2) Ele observou como aqueles que professavam a Fé do Islã haviam demolido sua unidade e solapado sua força, pervertendo-lhe o desígnio e degradando-lhe o nome santo. Sua alma encheu-se de angústia diante da corrupção e da contenda que predominavam na seita xiita do Islã. Inspirado pela luz que dentro dele brilhava,(3) levantou-se com infalível visão, com firme propósito e desprendimento sublime, para externar seu protesto contra a traição da Fé por aquele povo ignóbil. Ardendo de zelo e com plena consciência da sublimidade de sua vocação, fez um apelo veemente não só ao Islã xiita, mas a todos os seguidores de Maomé no Oriente inteiro, para que acordassem de seu sono de negligência e preparassem o caminho para Aquele que iria se manifestar na plenitude do tempo, cuja luz tão somente poderia dissipar as névoas do preconceito e da ignorância que haviam envolvido essa Fé. Abandonando seu lar e seus familiares numa das ilhas de Bahrein, na parte sul do Golfo Pérsico, partiu, assim como lhe ordenara a Providência Todo-Poderosa, com o fim de desvendar os mistérios dos versículos das Escrituras islâmicas que pressagiavam o advento de um novo Manifestante. Bem consciente estava ele dos riscos e perigos que lhe assediavam o caminho; plenamente percebia a responsabilidade gravíssima de sua tarefa. Em sua alma ardia a convicção de que nenhuma reforma dentro da Fé Islâmica, por drástica que fosse, poderia efetivar a regeneração desse povo perverso. Sabia, e estava destinado pela Vontade de Deus a demonstrá-lo, que nada menos que uma Revelação nova e independente, assim como atestavam e prediziam as Sagradas Escrituras do Islã, poderia reviver as fortunas dessa decadente Fé e lhe restaurar a pureza. (4)

Destituído de todos os bens terrenos, desligado de tudo, salvo de Deus, levantou-se ele, nos primeiros dias do século XIII da Hégira, aos quarenta anos de idade, para dedicar o tempo que lhe restava em vida à tarefa que se sentia impelido a ombrear. Dirigiu-se primeiro a Najáf e Karbilá (5), onde, dentro de poucos anos, adquiriu familiaridade com os pensamentos e normas correntes entre os sábios do Islã. Isso fez com que viesse a ser reconhecido como um dos autorizados expositores dos sagrados escritos islâmicos, fosse declarado um mujtahid e logo adquirisse ascendência sobre os demais colegas que visitavam aquelas cidades santas ou nelas residiam. Estes vieram a considerá-lo como iniciado nos mistérios da Revelação Divina e qualificado para elucidar as palavras abstrusas de Maomé e dos imames da Fé. À medida que sua influência aumentava, tornando-se maior o âmbito de sua autoridade, ele se via assediado de todos os lados por um sempre crescente número de inquiridores devotados que pediam esclarecimento sobre certos aspectos intrincados da Fé, os quais foram por ele hábil e plenamente elucidados. Com seu conhecimento e sua audácia, aterrorizava os corações dos sufis e neoplatonistas e outras correntes similares de pensamento (6), os quais lhe invejavam a erudição e temiam sua intrepidez. Assim ele adquiriu maior consideração aos olhos daqueles sábios teólogos que julgavam essas seitas como as disseminadoras de obscuras e heréticas doutrinas. No entanto, não obstante a fama e estima que lhe devotavam, ele desdenhava todas as honras que seus admiradores tão profusamente lhe dispensavam. Ele se admirava da servil devoção destes à dignidade e à alta posição, recusando-se, resolutamente, a se associar àqueles que se dedicavam a esses esforços e desejos.

Uma vez que havia cumprido seu propósito naquelas cidades, ao inalar a fragrância que lhe emanava da Pérsia, ele sentiu em seu coração um anelo irreprimível de seguir para esse país. Ocultou dos amigos, entretanto, o verdadeiro motivo que o impelia a dirigir os passos a essa região. Por via do Golfo Pérsico apressou-se a alcançar a terra do desejo de seu coração, ostensivamente com o fim de visitar o santuário do Imame Ridá em Mashhad (7). Cheio de ansiedade para desabafar sua alma, buscava zelosamente aqueles a quem pudesse confiar o segredo que até então a ninguém revelara. Vindo a Shiráz, cidade que encerrava o Tesouro oculto de Deus, e da qual a voz do Arauto de um novo Manifestante era destinada a proclamar, dirigiu-se ao Masjid-i-Jum'ih, uma mesquita que, em estilo e formato, se assemelhava, de modo impressionante, ao santuário sagrado de Meca. E não raras vezes comentava enquanto contemplava esse edifício: "Verdadeiramente, essa casa de Deus manifesta sinais de tal natureza que só os dotados de compreensão podem perceber. Quem a concebeu e edificou foi, parece-me, inspirado por Deus. (8) Quão freqüente e apaixonadamente ele louvava essa cidade! Tão profusos foram seus elogios que seus ouvintes, conhecedores do quanto ela era medíocre, se mostravam atônitos com o tom de sua linguagem. "Não vos maravilheis", dizia àqueles tão admirados, "pois dentro em breve o segredo de minhas palavras se manifestará a vós. Dentre vós alguns haverão de viver até contemplarem a glória de um Dia que os Profetas da Antiguidade tinham ânsia de testemunhar."

Tão grande era sua autoridade aos olhos dos ulemás com quem encontrava e conversava que estes se professavam incapazes de compreender o significado das misteriosas alusões e atribuíam esta falha à deficiência de seu próprio entendimento.

Após haver lançado as sementes do conhecimento divino nos corações daqueles que lhe pareciam receptivos a seu chamado, Shaykh Ahmad partiu para Yazd, onde se demorou por algum tempo, ocupando-se sempre em disseminar as verdades que se sentia constrangido a revelar. A maioria de seus livros e epístolas foi escrita nessa cidade. (9) Tal a fama por ele adquirida (10) que o governante da Pérsia, Fath-Alí Sháh, se sentiu movido a dirigir-lhe de Teerã uma mensagem por escrito (11), na qual pedia que explicasse certas questões específicas relacionadas aos ensinamentos obscuros da Fé muçulmana, cujo significado os principais ulemás de seu reino não haviam podido revelar. A esta mensagem respondeu prontamente com uma epístola à qual deu o nome de Risáliy-i-Sultáníyyih. Tão satisfeito ficou o xá com o tom e o conteúdo desta epístola que lhe enviou de imediato uma segunda mensagem, fazendo-lhe desta vez um convite para visitar sua corte. Em resposta a esta segunda mensagem imperial, ele escreveu o seguinte: "Como eu sempre, desde minha partida de Najáf e Karbilá tencionara visitar o santuário do Imame Rida em Mashhad e lhe render minha homenagem, aventuro-me a esperar que Vossa Majestade Imperial me concederá a graça para cumprir o voto que tenho feito. Subseqüentemente, se Deus quiser, é minha esperança e meu propósito valer-me da honra que Vossa Majestade Imperial se dignou de me conferir."

Entre aqueles que foram despertados na cidade de Yazd pela mensagem daquele portador da luz de Deus estava Hájí'Abdu'l-Vahháb, homem de grande piedade e retidão, cheio de temor a Deus. Ele visitava Shaykh Ahmad todos os dias na companhia de um certo Mullá 'Abdu'l-Kháliq-i-Yazdí, célebre por sua autoridade e sua erudição. Em certas ocasiões, entretanto, Shaykh Ahmad, a fim de falar confidencialmente com 'Abdu'l-Vahháb, pedia ao sábio 'Abdu'l-Khalíq, causando-lhe por isso grande surpresa, que se retirasse de sua presença e o deixasse a sós com seu discípulo escolhido e favorito. Essa notável preferência mostrada a um homem tão modesto e iletrado como 'Abdu'l-Vahháb causou grande admiração a seu companheiro, demasiado consciente que era de sua própria superioridade e conhecimentos. Mais tarde, porém, após haver Shaykh Ahmad partido de Yazd, 'Abdu'l-Vahháb retirou-se da sociedade dos homens, vindo a ser considerado um sufi. Pelos ortodoxos daquela comunidade, entretanto, tais como o Ni'matu'lláhí e o Dhahabí, foi denunciado como intruso e suspeito de desejar-lhes usurpar a liderança. 'Abdu'l-Vahháb, para quem a doutrina sufi não tinha nenhuma atração especial, desdenhou suas falsas imputações e evitava sua companhia. A ninguém se associava, exceto a Hájí-Hasan-i-Náyiní, a quem escolhera como seu amigo íntimo e a quem confiou o segredo que lhe havia sido entregue pelo seu mestre. Após a morte de 'Abdu'l-Vahháb, esse amigo, seguindo-lhe o exemplo, continuou no caminho que ele lhe indicara e anunciou a toda alma receptiva as boas novas da iminente Revelação de Deus.

Mírzá Mahmúd-i-Qamsarí, a quem conheci em Káshán e que naquele tempo tinha mais de noventa anos de idade, um homem muito querido e reverenciado por todos aqueles que o conheciam, relatou-me a seguinte história: "Recordo quando na juventude, na época em que vivia em Káshán, ouvi falar de certo homem em Náyin que se havia levantado para anunciar a notícia de uma nova Revelação e em cuja presença se tomavam de encanto todos os que o ouviam, fossem doutos, oficiais de governo ou os iletrados entre o povo. Sua influência era tal que os que tinham contato com ele renunciavam ao mundo e desprezavam as riquezas terrenas. Curioso, querendo certificar-me da verdade, prossegui - sem que meus amigos suspeitassem - a Náyin, onde pude verificar as asserções que a seu respeito corriam. Seu semblante radiante demonstrava a luz que em sua alma se acendera. Num dia, após haver ele oferecido sua prece matinal, palavras como estas o ouvi pronunciar: 'Em paraíso, a Terra breve se converterá. Breve a Pérsia se fará o santuário em cujo redor os povos da Terra circularão.' Certa manhã, na hora da alvorada, encontrei-o prostrado enquanto repetia, absorto em sua devoção, as palavras 'Alláh-u-Akbar'. (12) Para grande surpresa minha, virou-se para mim, dizendo: 'O que tenho te anunciado revela-se agora. Nesta hora exata, a luz do Prometido irrompeu e está derramando sobre o mundo seu esplendor. Ó Mahmúd, em verdade digo, tu viverás para testemunhar aquele Dia dos dias'. As palavras que me dirigiu esse homem santo ressoavam sempre em meus ouvidos até o dia, quando, no ano sessenta, em que foi privilégio meu ouvir o Chamado que surgiu de Shíráz. Infelizmente, meu estado enfermo impedia que para aquela cidade eu me apressasse. Mais tarde, quando o Báb, o Arauto da nova Revelação, veio a Káshán e por três noites se hospedou na casa de Hájí Mírzá Jání, por não saber de Sua visita, perdi a honra de atingir a Sua presença. Algum tempo depois, ao conversar com os seguidores da Fé, fui informado de que o aniversário natalício era no primeiro dia do mês de Muharram, do ano de 1235 A.H. (13) Percebi que o dia citado por Hájí-Hasan-i-Náyní não correspondia com essa data, havendo entre eles uma diferença de dois anos. Este pensamento me deixou excessivamente perplexo. Muito depois, porém, conheci um certo Hájí Mírzá Kamálu'd-Dín-i-Naráqí, que me anunciou a Revelação de Bahá'u'lláh, em Bagdá, e compartilhou comigo alguns versículos do 'Qasídiy-i-Varqá'íyyih', bem como certas passagens das Palavras Ocultas em persa e em árabe. Comoveu-me até as profundezas de minh'alma ouvi-lo recitar essas palavras sagradas. Das seguintes, lembro-me vividamente ainda: "Ó Filho do Ser! Teu coração é Meu lar; santifica-o para Minha descida. Teu espírito é a sede da Minha Revelação; purifica-o, para que nele Eu possa Me manifestar. Ó Filho da Terra! Se tu Me quiseres ter, a nenhum outro busques, senão a Mim; e se desejas contemplar Minha beleza, fecha teus olhos ao mundo e a tudo o que nele se acha; pois Minha vontade e a vontade de outro que não seja Eu, tal como o fogo e a água, não podem habitar no mesmo coração." Perguntei-lhe a data do nascimento de Bahá'u'lláh. "A alvorada do segundo dia de Muharram", respondeu, "do anod e 1233 A.H." (14) Imediatamente recordei as palavras de Hájí-Hasan e lembrei-me do dia em que foram pronunciadas. Instintivamente me prostrei no chão exclamando: "Glorificado és Tu, ó meu Deus, por me haveres habilitado a alcançar este Dia prometido. Se agora eu for chamado a Ti, morrerei contente e tranqüilo." Naquele mesmo ano, 1274 A.H. (15) esse ser venerável e radiante entregou a Deus seu espírito.

Este relato, que ouvi dos lábios do próprio Mírzá Mahmúd-i-Qamsarí e que ainda permanece vivo na memória do povo, é, de certo, inquestionável evidência da perspicácia do falecido Shaykh Ahmad-i-Ahsá'í e dá testemunho eloqüente da influência que exercia sobre seus discípulos imediatos. A promessa que ele lhes fez cumpriu-se, afinal, e o mistério com que lhes inflamou a alma desdobrava-se em sua plena glória.

Durante os dias em que Shaykh Ahmad fazia os preparativos para sair de Yazd, Siyyid Kázim-i-Rashtí, (16) aquele outro luminar da guia Divina, partiu de sua província natal de Gilán com o fim de visitar Shaykh Ahmad antes de este iniciar sua peregrinação a Khurásán. No decorrer da primeira entrevista com ele, com estas palavras Shaykh Ahmad se expressou: "Boas vindas te dou, ó meu amigo! Há quanto tempo e com que ânsia tenho te esperado, para que viesses me livrar da arrogância desse povo perverso! Em face de seus atos vergonhosos e de seu caráter depravado, sinto-me oprimido. "Em verdade, nós propusemos aos céus, à terra e aos montes que recebessem a incumbência de Deus, mas recusaram o fardo, e com medo tiveram de recebê-lo. O homem tentou suportá-la; e ele, em verdade, provou ser injusto, ignorante".

Desde sua infância, já mostrara esse Siyyid Kázim sinais de notável poder intelectual e percepção espiritual. Era ímpar entre aqueles de seu próprio nível e idade. Aos onze anos havia ele decorado o Alcorão inteiro. Aos catorze, sabia de memória um número prodigioso de preces e reconhecidas tradições de Maomé. Com a idade de dezoito anos, fez um comentário sobre um versículo do Alcorão conhecido como o Ayatu'l-Kursí, o qual causara espanto e admiração entre os mais eruditos de seu tempo. Sua piedade, a meiguice de seu caráter e sua humildade eram tais que todos aqueles que o conheciam, fossem jovens ou idosos, se sentiam profundamente impressionados. No ano de 1231 A.H., (17) abandonando lar, parentes e amigos partiu de Gílán com apenas vinte e dois anos de idade, ansioso por atingir a presença daquele que com tanta nobreza se havia levantado para anunciar o próximo alvorecer de uma Revelação Divina. Poucas semanas, apenas, estivera ele na companhia de Shaykh Ahmad quando certo dia, este, nas seguintes palavras, dirigiu-se a ele: "Permanece em tua casa e não mais assistas a meus discursos. Doravante, a ti se volverão aqueles de meus discípulos que se sentirem perplexos; diretamente de ti buscarão qualquer assistência que possam necessitar. Através do conhecimento a ti conferido pelo Senhor teu Deus, haverás de lhes resolver os problemas e tranqüilizar os corações. Mediante o poder de tuas palavras, ajudarás a avivar a Fé, tão lamentavelmente obscurecida, de Maomé, teu ilustre ancestral". Estas palavras dirigidas a Siyyid Kázim provocaram o ressentimento e atearam a inveja dos discípulos preeminentes de Shaykh Ahmad, entre os quais figuravam Mullá Muhmmad-i-Mamaqání e Mullá'Abdu'l-Kháliq-i-Yazdí. A tal ponto se impunha a dignidade de Siyyid Kázim, entretanto, e se realçaram as evidências de seu conhecimento e sua sabedoria que esses discípulos, tomados de respeito, sentiram-se compelidos a se submeter.

Entregando assim aos cuidados de Siyyid Kázim os seus discípulos, Shaykh Ahmad partiu para Khurásán. Lá por algum tempo se deteve nas cercanias do sagrado santuário do Imame Rida em Mashhad. Nesse recinto prosseguiu com zelo inalterado o curso de seus labores. Resolvendo as intrincadas questões que agitavam a mente do inquiridor, continuou a preparar o caminho para o advento iminente do Manifestante. Nessa cidade, mais e mais se tornou consciente de que o Dia destinado a testemunhar o nascimento do Prometido não poderia estar muito distante. Sentiu que a hora prometida se aproximava rapidamente. Da direção de Núr, na província de Mázindarán, podia perceber os primeiros sinais que prenunciavam o alvorecer da prometida Revelação. Parecia-lhe estar próxima a Revelação prognosticada nos seguintes dizeres tradicionais: "Breve havereis de contemplar o semelhante de vosso Senhor, esplendoroso como a Lua em sua plena glória. E, no entanto, não havereis de vos unir em lhe reconhecer a verdade e abraçar a Fé. E um dos mais poderosos sinais que haverão de assinalar o advento da Hora prometida é este: 'Uma mulher dará à luz a Um que será seu Senhor'".

Shaykh Ahmad partiu, pois, em direção a Núr e, acompanhado por Siyyid Kázim e um grupo de seus discípulos distintos, prosseguiu para Teerã. O xá da Pérsia, ao ser informado de que Siyyid Ahmad se aproximava de sua capital, ordenou que os dignitários e oficiais de Teerã saíssem a seu encontro e lhe proferissem em seu nome uma cordial expressão de boas-vindas. O distinto visitante e seus companheiros foram recebidos regiamente pelo xá, que fez uma visita pessoal a Shaykh Ahmad e o declarou ser "a glória de sua nação e um adorno para seu povo". (18) Nesses dias, nasceu numa família antiga e nobre de Núr, (19) uma Criança cujo pai era Mírzá 'Abbás, mais conhecido como Mírzá Buzurg, um ministro favorecido da Coroa. Essa Criança era Bahá'u'lláh. (20) Na hora do amanhecer, no segundo dia de Muharram, no ano de 1233 A.H., (21) o mundo, inconsciente de seu significado, viu nascer Aquele que estava predestinado a lhe conferir tão incalculáveis bênçãos. Shaykh Ahmad, reconhecendo em toda sua plenitude o que significava esse auspicioso evento, ansiava por passar os dias restantes de sua vida dentro da corte desse recém-nascido Rei Divino. Mas isto não havia de ser. Sem ter aliviado a sede ou satisfeito seu desejo ardente, sentiu-se compelido a se submeter ao irrevogável decreto de Deus e, voltando a face da cidade de seu Bem-Amado, rumou para Kirmánsháh.

O governador de Kirmánsháh, o Príncipe Muhammad-'Alí Mírzá, filho mais velho do xá e o membro mais capaz de sua casa, já pedira a permissão de Sua Majestade Imperial para receber e servir pessoalmente a Shaykh Ahmad. (22) Tão favorecido era o príncipe aos olhos do xá que sua solicitação foi concedida de imediato. Completamente resignado a seu destino, Shaykh Ahmad despediu-se de Teerã. Antes de partir dessa cidade, sussurrou uma súplica para que esse Tesouro de Deus, ainda oculto, que acabava de nascer entre seus conterrâneos fosse preservado e estimado por todos, e para que viessem a reconhecer plenamente o grau de Sua santidade e glória e fossem capacitados a proclamar Sua excelência a todas as nações e povos.

Ao chegar em Kirmánsháh, Shaykh Ahmad decidiu escolher alguns dos mais receptivos dentre seus discípulos xiitas e, dedicando sua especial atenção a seu esclarecimento, capacitá-los a se tornarem os ativos defensores da Causa da prometida Revelação. Na série de livros e epístolas que se pôs a escrever, entre os quais figura sua bem conhecida obra Sharhu'z-Zíyárih, ele exaltou em linguagem clara e vívida as virtudes dos imames da Fé, dando especial relevo às alusões feitas por eles à vinda do Prometido. Por suas repetidas referências a Husayn, queria aludir, no entanto, a nenhum outro senão a Husayn que ainda seria revelado; e pelas alusões ao sempre-reiterado nome de 'Alí, não queria se referir ao 'Alí que fora morto e, sim, ao 'Alí recém-nascido. Aqueles que o interrogavam sobre os sinais que teriam de prenunciar o advento do Qá'im, asseverava enfaticamente a irrevogabilidade da prometida Revelação. No mesmo ano do nascimento do Báb, sofreu Shaykh Ahmad a perda de seu filho, cujo nome era Shaykh 'Alí. Aos discípulos que lamentavam sua perda, disse estas palavras de consolo: "Não sejais pesarosos, ó meus amigos, pois ofereci meu filho, meu próprio 'Alí, como sacrifício pelo 'Alí cujo advento nós todos esperamos. Para este fim o criei e preparei."

O Báb, cujo nome era 'Alí-Muhammad, nasceu em Shíráz, no primeiro dia de Muharram, no ano de 1235 A.H. Era descendente de uma casa célebre por sua nobreza, que traçava sua origem até o próprio Maomé. Seu pai, Siyyid Muhammad Ridá, e sua mãe eram descendentes do Profeta e pertenciam a famílias de reconhecido prestígio. A data de Seu nascimento confirmou a verdade das palavras atribuídas ao Imame 'Alí, Comandante dos fiéis: "Sou dois anos mais jovem do que meu Senhor". O mistério desta afirmação, porém, permaneceu velado salvo para aqueles que buscaram e reconheceram a verdade da nova Revelação. Foi Ele, o Báb, quem revelou, em Seu primeiro, mais importante e excelso livro, esta passagem referente a Bahá'u'lláh: "Ó Tu Remanescente de Deus! Sacrifiquei-me totalmente por Ti; consenti em ser amaldiçoado por Tua causa; e não tenho ansiado senão pelo martírio no caminho de Teu amor. Suficiente testemunha para Mim é Deus, o Excelso, o Protetor, o Ancião dos Dias!"

Durante a estada de Shaykh Ahmad em Kirmánsháh, ele recebia tantas evidências de ardentes devoção do príncipe Muhammad-'Alí-Mírzá que, em uma ocasião, sentiu-se impelido a se referir ao príncipe em termos como estes: "Considero Muhammad-'Alí como meu próprio filho, embora seja descendente de Fath'Alí". Um número considerável de inquiridores e discípulos aglomerava-se em sua casa, ávidos de assistirem seus discursos. A nenhum deles, entretanto, se sentiu inclinado a mostrar a atenção e a afetuosa estima que caracterizavam sua atitude para com Siyyid Kázim. Parecia havê-lo escolhido dentre a multidão que se amontoava ao seu redor e estar preparando-o para levar avante sua obra, com vigor inalterado, após sua morte. Um de seus discípulos interrogou Shaykh Ahmad, certo dia, a respeito da Palavra que se espera que o Prometido venha a pronunciar na plenitude do tempo, uma Palavra tão espantosa e estupenda que cada um dos trezentos e três dirigentes e nobres da Terra fugiria consternado, como se abatido pelo seu estupendo peso. E assim Shaykh Ahmad replicou: "Como podes tu presumir sustentar o peso da Palavra que os dirigentes da Terra se vêem incapazes de suportar? Não procures satisfazer um desejo impossível. Deixa de me fazer essa pergunta, e de Deus pede perdão". Esse inquiridor presunçoso ainda outra vez com ele instou que lhe revelasse a natureza daquela Palavra. Finalmente Shaykh Ahmad respondeu: "Fosses tu atingir aquele Dia, se te fosse dito que repudiasses a guardiania de 'Alí e lhe denunciasses a validade, que dirias?" "Deus proíba!", exclamou ele. "Nunca pode suceder tal coisa. Palavras como essas procederem dos lábios do Prometido me é inconcebível." Quão grave foi seu erro e quão lastimável seu estado! Foi pesada na balança a sua fé e se verificou ser ela falha, desde que ele deixara de reconhecer que Aquele que há de se tornar manifesto é dotado de tal poder soberano como nenhum homem se atreve a questionar. Seu é o direito de "ordenar o que for Sua vontade, de decretar o que lhe aprouver". Qualquer um que hesite, qualquer um que ponha em dúvida Sua autoridade, ainda que seja por um piscar de olhos, ou menos, priva-se de Sua graça e é contado entre os caídos. E, no entanto, poucos, se alguns dos que escutavam Shaykh Ahmad nessa cidade e o ouviram desdobrar os mistérios das alusões nas Sagradas Escrituras, puderam apreciar o significado de suas palavras ou apreender seu propósito. Somente Siyyid Kázim, seu tenente capaz e distinto, podia afirmar que havia entendido seu intuito.

Após a morte do príncipe Muhammad-'Alí-Mírzá, (23) Shaykh Ahmad, livre das urgentes solicitações do príncipe para que prolongasse sua estada em Kirmánsháh, transferiu sua residência para Karbilá. Embora na aparência rodeasse o santuário do Siyyidu'sh-Shuhadá, (24) o Imame Husayn, seu coração, enquanto ele executava aqueles ritos, concentrava-se naquele verdadeiro Husayn, objeto único de sua devoção. Uma grande multidão dos mais distintos ulemás e mujtahids reunia-se ao seu redor. Muitos começaram a invejar sua reputação e alguns procuraram minar-lhes a autoridade. Por mais que se esforçassem, não conseguiram abalar sua posição de indubitável preeminência entre os homens letrados daquela cidade. Finalmente, aquela luz brilhante foi chamada para irradiar seu esplendor sobre as cidades santas de Meca e Medina. Para estas cidades empreendeu viagem, nelas prosseguindo com irrestrita dedicação os seus labores, e aí entrou em seu repouso eterno à sombra do sepulcro do Profeta, para a compreensão de cuja Causa ele tão fielmente lidara.

Antes de partir de Karbilá, Shaykh Ahmad confiou a Siyyid Kázím, seu sucessor escolhido, o segredo de sua missão, (25) incumbindo-lhe de se esforçar para acender em cada coração receptivo o fogo que tão intensamente nele ardera. Por muito que Siyyid Kázím insistisse em acompanhá-lo até Najáf, Shaykh Ahmad recusou ceder a seu pedido. "Não tens tempo a perder", foram as últimas palavras que ele proferiu. "Cada hora fugaz deve ser aproveitada totalmente e com sabedoria. Deves envidar os máximos esforços, tentando dia e noite romper, pela graça de Deus e com a mão da sabedoria e amorosa bondade, aqueles véus de negligência que têm cegado os olhos dos homens. Pois em verdade digo, aproxima-se a Hora, a Hora que tenho implorado a Deus que me poupasse de testemunhar, pois o tremor de terra da Última Hora será horrendo. Deves orar a Deus que te livre das assombrosas provações desse Dia, pois de lhe resistir a força predominante nenhum de nós é capaz. A outros, de maior intrepidez e dotados de poder, cabe o destino de arcar com tão estupendo peso, homens cujos corações de todas as coisas terrenas estão santificados e cuja valia é reforçada pela potência de Seu poder."

Ditas estas palavras, Shaykh Ahmad dele se despediu, exortando-o a enfrentar com valentia as provações que por força o haveriam de afligir, e o entregou aos cuidados de Deus. Em Karbilá, Siyyid Kázím dedicou-se à obra iniciada pelo seu mestre, expondo seus ensinamentos, defendendo sua Causa e respondendo a quaisquer perguntas que causassem perplexidade nas mentes de seus discípulos. O vigor com que prosseguia essa tarefa inflamava a animosidade dos ignorantes e invejosos. "Há quarenta anos", vociferavam, "permitimos que os ensinamentos pretensiosos de Shaykh Ahmad sejam difundidos sem a mínima oposição de nossa parte. Já não podemos tolerar pretensões similares da parte de seu sucessor, que rejeita a crença na ressurreição do corpo, repudia a interpretação literal do 'Mi'ráj', (26) considera alegóricos os sinais do Dia vindouro e prega uma doutrina que é de caráter herético e contrária aos melhores preceitos do Islã ortodoxo." Quanto mais alto seus clamores e protestos, mais firme se tornou a determinação de Siyyid Kázím de prosseguir sua missão e cumprir o que lhe fora incumbido. A Shaykh Ahmad dirigiu uma epístola, na qual expôs minuciosamente as calúnias contra ele pronunciadas e lhe informou o caráter de sua oposição e a que ponto a levavam. Nela aventurou-se a inquirir por quanto tempo era destinado a se submeter ao inexorável fanatismo de um povo obstinado e sem instrução e suplicou que o esclarecesse quanto ao tempo em que o Prometido iria se manifestar. A isto Shaykh Ahmad respondeu: "Podes estar certo da graça de teu Deus. Não te entristeças por causa de suas ações. O mistério desta Causa deve, seguramente, tornar-se manifesto, e o segredo desta Mensagem por força haverá de se revelar. (27) Mais não posso dizer; tempo nenhum posso designar. Sua Causa tornar-se-á conhecida depois de Hín. (28) Não me perguntes coisas que, se te fossem reveladas, só poderiam te causar dor".

Quão grande, quão imensa é sua Causa que até para um personagem tão exaltado quanto Siyyid Kázím palavras como essas foram dirigidas. Esta resposta de Shaykh Ahmad trouxe consolo e ânimo ao coração de Siyyid Kázím e assim, com redobrada determinação, ele continuou a resistir à investida de um inimigo invejoso e pérfido.

Shaykh Ahmad faleceu pouco depois, (29) no ano de 1242 A.H., com a idade de oitenta e um anos, e foi sepultado no cemitério de Baqí, (30) nas imeditações do lugar de descanso de Maomé, na cidade santa de Medina.

CAPÍTULO II
A MISSÃO DE SIYYID KÁZIM-I-RASHTÍ

A notícia do passamento de seu bem-amado mestre trouxe indizível pesar ao coração de Siyyid Kázím. Inspirado pelo versículo do Alcorão, "Bem queriam eles com as bocas extinguir a luz de Deus; mas Deus só deseja aperfeiçoar Sua luz, ainda que seja abominada pelos infiéis", levantou-se com o inalterável propósito de consumar a tarefa a ele confiada por Shaykh Ahmad. Após o desaparecimento de tão distinto protetor, viu-se ele vítima da língua difamadora e da implacável inimizade do povo ao seu redor. Eles agrediram sua pessoa, desdenharam seus ensinamentos e aviltaram seu nome. Instigados por um líder xiita, poderoso e notório, Siyyid Ibrahim-i-Qazvíní, coligaram-se aos inimigos de Siyyid Kázím com a determinação de o destruir. Concebeu então Siyyid Kázím o plano de obter o apoio e a boa vontade de um dos dignitários eclesiásticos mais respeitados e eminentes da Pérsia, o célebre Hájí Siyyid Muhammad Báqír-i-Rashtí, que residia em Isfáhán e cuja autoridade se estendia muito além dos confins daquela cidade. Com essa amizade e simpatia, pensou Siyyid Kázím, lhe seria possível prosseguir no curso de suas atividades sem obstáculo e aumentar-se-ia consideravelmente a influência por ele exercida sobre seus discípulos. "Oxalá um dentre vós", ouviam-no dizer muitas vezes aos seguidores, "pudesse levantar e, com desprendimento completo, viajar a Isfáhán e lá entregar àquele sábio Siyyid esta mensagem minha: 'Por que de início mostrastes vós tão notável consideração e afeto para o falecido Shaykh Ahmad e agora, de súbito, vos desligastes do corpo de seus escolhidos discípulos? Por que é que nos abandonastes à mercê de nossos oponentes? Oxalá tal mensageiro, em Deus pondo sua confiança, possa levantar para explicar os quaisquer mistérios que na mente daquele sábio Siyyid tenham causado perplexidade e para lhe dissipar as dúvidas que tenham alienado sua simpatia. Oxalá pudesse dele obter uma declaração solene que atestasse a inquestionável autoridade de Shaykh Ahmad e admitisse serem verídicos e sãos os seus ensinamentos. Oxalá pudesse ele também, após haver obtido tal testemunho, visitar Mashhad e lá conseguir uma declaração semelhante de Mírzá'Askarí, o mais eminente líder eclesiástico naquela cidade santa, e, então, tendo completado sua missão, possa regressar em triunfo para este lugar". Repetidas vezes achava Siyyid Kázím oportunidade para reiterar seu apelo. A esse chamado, porém, ninguém se aventurou a responder, exceto um certo Mírzá Muhít-i-Kirmání, se expressou disposto a empreender essa missão. A ele Siyyid Kázím replicou: "Acautelai-vos de tocar na cauda do leão. Não menosprezeis a delicadeza e a dificuldade de tal missão". Volvendo a face, então para seu jovem discípulo, Mullá Husayn-i-Bushrú'í, o Bábu'l-Báb, (1) dirigiu-lhe estas palavras: "Levantai-vos e cumpri esta missão, pois eu vos declaro capaz de executar tal tarefa. O Todo-Poderoso com Sua graça vos assistirá, e de êxito haverá Ele de vos coroar os esforços".

Mullá Husayn com júbilo se pôs em pé, beijou a orla das vestes do instrutor e, jurando-lhe, lealdade de pronto partiu em sua jornada. Com inteiro desprendimento e nobre resolução, empreendeu a consecução do objetivo. Ao chegar em Isfáhán de imediato procurou a presença do sábio Siyyid. Humildemente vestido e coberto do pó da viagem, diante da presença dos discípulos ricamente trajados daquele líder distinto, pareceu uma figura sem importância ou valor. Sem ser observado, intrépido, avançou a um lugar frente ao assento que o célebre instrutor ocupava. Invocando em auxílio toda a coragem e confiança nele inspiradas pelas instruções de Siyyid Kázím, dirigiu-se a Hájí Siyyid Muhammad-Báqír nestas palavras: "Ouvi, ó Siyyid, as minhas palavras, pois a resposta ao meu apelo há de garantir a salvação da Fé do Profeta de Deus, e a recusa a considerar a minha mensagem causar-lhe-á prejuízo lastimável". Estas palavras audazes e corajosas, com franqueza e força pronunciadas, produziram no Siyyid surpreendente impressão. De súbito interrompeu ele seu discurso e, desconsiderando o auditório, escutou com concentrada atenção a mensagem trazida pelo estranho visitante. Seus discípulos, atônitos perante tão extraordinária conduta, repreenderam o abrupto intruso, denunciando-lhe as presunçosas pretensões. Com gentileza extrema, em firme e digna linguagem, Mullá Husayn sutilmente se referiu à descortesia e baixeza dos presentes, mostrando-se surpreso diante da arrogância e vanglória destes. Plenamente contentou-se o Siyyid com o porte e o argumento impressionantes da parte do visitante. Deplorou a indigna conduta de seus próprios discípulos, pedindo que a desculpasse. A fim de lhe compensar essa ingratidão, mostrou ao jovem toda gentileza concebível, assegurando-lhe seu apoio e com ele instando que transmitisse sua mensagem. Com isso lhe informou Mullá Husayn a natureza e o objetivo da missão da qual fora incumbido. O sábio Siyyid a isso replicou: "Como de início acreditávamos que Shaykh Ahmad, como também Siyyid Kázím, não eram motivados por outro desejo senão o de promover a causa do conhecimento e salvaguardar os sagrados interesses da Fé, nós nos sentíamos impelidos a prestar-lhes o mais sincero auxílio e lhes elogiar os ensinamentos. Em anos subseqüentes, porém, temos notado em seus escritos tantas afirmações contraditórias e alusões obscuras e misteriosas que achamos aconselhável guardar silêncio por algum tempo, abstendo-nos tanto de censura como de aplauso." Respondeu Mullá Husayn: "Não posso senão deplorar tal silêncio de vossa parte, pois firmemente creio que isso envolve a perda de uma esplêndida oportunidade para promover a causa da Verdade. Cumpre-vos expor especificamente tais passagens em seus escritos que vos parecem misteriosos ou inconsistentes com os preceitos da Fé, e eu, com o auxílio de Deus, me incumbirei de expor seu verdadeiro significado". O porte, a dignidade e a confiança que caracterizavam a conduta desse inesperado visitante, causaram profunda impressão em Hájí Siyyid Muhammad Báqir. Solicitou-lhe que não insistisse no assunto no momento, mas esperasse até o dia seguinte, quando, em conversa particular, lhe pudesse falar de suas próprias dúvidas e receios. Mullá Husayn, no entanto, julgando que a demora poderia prejudicar a causa tão querida de seu coração, insistiu em ter com ele uma conferência imediata acerca dos graves problemas que se sentia impelido a resolver e com capacidade para isto fazer. Comoveu-se o Siyyid até as lágrimas diante do entusiasmo juvenil, da sinceridade e confiança serena que o semblante de Mullá Husayn tão admiravelmente demonstrava. De imediato mandou-o buscar algumas das obras escritas por Shaykh Ahmad e Siyyid Kázím e pôs-se a interrogar Mullá Husayn a respeito daquelas passagens que lhe haviam provocado o desagrado e a surpresa. A cada referência o mensageiro replicou com característico vigor, com conhecimento magistral e modéstia decorosa.

Assim continuou ele a expor, na presença dos discípulos reunidos, os ensinamentos de Shaykh Ahmad e Siyyid Kázím, lhes vindicando a verdade e defendendo a causa, até a hora em que o muezim, chamando à oração os fiéis, de súbito interrompeu o curso de seu argumento. No dia seguinte, do mesmo modo, na presença de uma assembléia grande e representativa e, face a face com o Siyyid, reassumiu sua eloqüente defesa da elevada missão que a Shaykh Ahmad e a seu sucessor fora confiada pela Providência toda-poderosa. Um silêncio profundo caiu sobre seus ouvintes. Pasmaram-se diante da força de seu argumento e do tom e estilo de sua palestra. O Siyyid prometeu publicamente que ele mesmo, no dia seguinte, faria por escrito uma declaração que desse testemunho da eminente posição de Shaykh Ahmad, como também de Shaykh Kázím, e denunciasse qualquer um que se desviasse de seu caminho como alguém que da Fé do próprio Profeta se tivesse afastado. Outrossim daria ele testemunho de sua penetrante percepção, de sua compreensão correta e profunda dos mistérios que a Fé de Maomé entesourava. Cumprindo sua promessa, de próprio punho o Siyyid redigiu a prometida declaração. Longamente escreveu, prestando um tributo, no curso do testemunho, ao caráter e à erudição de Mullá Husayn. Em termos fervorosos se referiu a Siyyid Kázím, desculpando-se pela atitude anterior e expressando a esperança de que, nos dias vindouros, pela lastimável conduta passada para com ele, lhe fosse possível compensá-la. Aos seus discípulos, ele próprio leu o texto desse testemunho escrito, entregando-o em seguida a Mullá Husayn sem lacrá-lo, autorizando-o a compartilhar com qualquer um que quisesse o conteúdo, a fim de que todos assim conhecessem o grau de sua devoção a Siyyid Kázím.

Mal Mullá Husayn se retirara, o Siyyid incumbiu a um de seus atendentes de confiança de seguir as pegadas do visitante, para que descobrisse o lugar onde residia. O atendente seguiu-o até um prédio modesto, que servia de madrisih (2), onde o viu entrar num quarto que, além de um tapete muito gasto, nada de mobília possuía. Viu-o chegar, oferecer sua oração de agradecimento a Deus e se deitar naquele tapete, com seu 'abá (3), unicamente para se cobrir. Após haver relatado ao seu mestre tudo o que observara, o atendente foi incumbido de entregar a Mullá Husayn a quantia de cem túmáns (4) e de lhe expressar as sinceras desculpas de seu mestre por não haver podido oferecer a tão notável mensageiro a hospitalidade digna de sua posição. A essa oferta enviou Mullá Husayn a seguinte resposta: "Diga ao seu mestre que sua verdadeira dádiva a mim foi o espírito de eqüidade com que me recebeu e o espírito aberto que o levou, a despeito de seu elevado grau, a responder à mensagem trazida por mim, um estranho humilde. Devolva esse dinheiro ao seu mestre, pois eu, como mensageiro, recompensa alguma peço, nem remuneração. 'Nutrimos vossas almas por amor a Deus; de vós nenhuma recompensa nem agradecimento buscamos.' (5) Minha oração pelo seu mestre é que nenhum prestígio terreno jamais o possa impedir de reconhecer e atestar a Verdade". (6) Hájí Siyyid Muhammad-Báqir faleceu antes do ano sessenta A.H., ano que testemunhou o nascimento da Fé proclamada pelo Báb. Até seu último momento permaneceu ele um destemido defensor e fervoroso admirador de Siyyid Kázím.

Tendo cumprido a primeira parte de sua missão, Mullá Husayn envio ao seu mestre em Karbilá esse testemunho escrito por Hájí Siyyid Muhammad-Báqir, e para Mashhad dirigiu seus passos, determinado a entregar, da melhor maneira possível, a mensagem que estava incumbido de dar a Mírzá 'Askarí. Logo que a carta, junto com a declaração escrita pelo Siyyid, foi entregue a Siyyid Kázím, este se regozijou tanto que de pronto mandou a Mullá Husayn sua resposta, expressando sua grata apreciação pelo modo exemplar como ele desempenhara sua incumbência. Tão extasiado estava com a carta recebida que, interrompendo o curso de sua conferência, leu-a aos seus discípulos, bem como o testemunho nela incluso. Mais tarde compartilhou com eles a epístola que ele próprio escrevera a Mullá Husayn, em reconhecimento ao notável serviço que este prestara. Nela Siyyid Kázím tão ardente tributo rendia a suas altas realizações, a sua habilidade e ao seu caráter que alguns dos que a ouviram desconfiavam ser Mullá Husayn aquele Prometido a quem seu mestre incessantemente se referia, Aquele que ele tantas vezes declarava estar vivendo em seu próprio meio, mas ainda desconhecido de todos. Essa comunicação recomendou a Mullá Husayn o temor a Deus e o exortava a considerá-lo o mais potente instrumento com que resistir à investida do inimigo e a característica distintiva de todo verdadeiro seguidor da Fé. Estava expressa em termos de tão terna afeição que ninguém que a lesse poderia duvidar de que quem a escreveu estava se despedindo do seu bem-amado discípulo, não nutrindo nenhuma esperança de encontrá-lo jamais neste mundo.

Naqueles dias, Siyyid Kázím se tornava cada vez mais consciente da aproximação da Hora em que o Prometido haveria de se revelar. (7) Ele compreendia quanto eram densos os véus que impediam aqueles que o buscavam de apreender a glória do Manifestante oculto. Por isso envidou os máximos esforços para remover gradativamente, com cautela e sabedoria, quaisquer barreiras que pudessem obstruir o caminho do pleno reconhecimento daquele Tesouro oculto de Deus. Repetidas vezes instava ele a seus discípulos que se lembrassem do fato de que Aquele cujo advento esperavam não apareceria nem de Jábulqá nem de Jábulsá (8). Até sugeria a possibilidade de sua presença em seu próprio meio. "Vós O vedes com os próprios olhos", freqüentemente ele observava, "e no entanto não O reconheceis!" Aos discípulos que o interrogavam sobre os sinais do Manifestante, dizia: "Ele é de linhagem nobre. É descendente do Profeta de Deus, da família de Háshim. É jovem e possui conhecimento inato. Sua erudição deriva não dos ensinamentos de Shaykh Ahmad, mas sim, de Deus. Meu conhecimento é apenas uma gota em comparação com a imensidão de Seu conhecimento; minhas realizações, uma partícula de pó em face das maravilhas de sua graça e poder. Não, imensurável é a diferença. Ele é de altura média, abstém-se de fumar e é de extrema devoção e piedade" (9). Certos discípulos do Siyyid, a despeito dos testemunhos de seu mestre, acreditaram ser ele o Prometido, pois os sinais aludidos nele os reconheceram. Um destes foi um certo Mullá Mihdíy-i-Khu'í, que chegou até a tornar pública tal opinião. Com isso o Siyyid se desagradou tão seriamente que o teria expulso da companhia de seus escolhidos seguidores, não tivesse ele pedido perdão e expressado arrependimento pela sua ação.

O próprio Shaykh Hasan-i-Zunúzí informou-me que ele também tinha essas dúvidas e suplicava a Deus que fosse confirmado em sua crença se sua suposição tivesse andamento e que, se não, que fosse livrado dessa vã fantasia. "Estava tão perturbado", relatou-me ele um vez, "que por vários dias nem comer nem dormir eu podia. Meus dias foram passados no serviço de Siyyid Kázím, a quem estava extremamente afeiçoado. Um dia, na hora do alvorecer, fui de súbito acordado por Mullá Naw-Rúz, um de seus servos íntimos, que, muito excitado, mandou-me levantar e o seguir. Fomos à casa de Siyyid Kázím, a quem encontramos inteiramente vestido com o seu 'abá, e, pronto para sair de casa; pediu-me que o acompanhasse. 'Uma Pessoa altamente estimada e distinta chegou', disse ele. 'Creio, que nos incumbe visitá-Lo." Principiava a brilhar à luz matinal quando estava com ele caminhando pelas ruas de Karbilá. Logo chegamos a uma casa, em cuja porta estava um Jovem, como se estivesse na expectativa de nos receber. Ele usava um turbante verde, e Seu semblante revelava uma expressão de humildade e gentileza como jamais poderei descrever. Aproximou-se de nós tranqüilamente, estendeu Seus braços para Siyyid Kázím e afetuosamente o abraçou. Sua afabilidade e benevolência estavam em contraste marcante com o senso de reverência profunda que caracterizava a atitude de Siyyid Kázím para com Ele. Sem falar uma palavra e baixando a cabeça, recebeu as muitas expressões de afeto e estima com os quais o Jovem o saudava. Logo fomos por Ele conduzidos ao andar superior da casa, onde entramos numa sala adornada de flores e impregnada do mais delicioso perfume. Convidou-nos a sentar. Não sabíamos, porém, que assentos acupávamos, realmente, de tão subjugado o senso de deleite que de nós se apoderara. Vimos uma taça de prata que havia sido colocada no centro da sala e que nosso jovem Anfitrião, pouco depois de nos sentarmos, encheu-a até transbordar e a Siyyid Kázím ofereceu dizendo: "Uma poção de uma pura bebida dar-lhes-á o Seu Senhor (10)." Siyyid Kázím com ambas as mãos segurou a taça e a sorveu. Um sentimento de júbilo reverente lhe encheu o ser, sentimento esse que não podia conter. A mim, também, foi dada uma taça cheia dessa bebida, embora não me fosse dirigida nenhuma palavra. Tudo o que foi dito nesse memorável encontro foi o versículo do Alcorão acima mencionado. Pouco depois, levantou-se o Anfitrião de Seu assento e, acompanhando-nos até o limiar da casa, despediu-se. Estava eu mudo de admiração, sem saber como expressar a cordialidade de Sua acolhida, a dignidade de Seu porte, o encanto daquela face e a deliciosa fragrância daquela bebida. Como foi grande meu espanto ao ver meu instrutor, sem a mínima hesitação, sorver aquela bebida santa de uma taça de prata, cujo uso, segundo os preceitos do Islã, aos fiéis é vedado. Não sabia explicar o motivo que induziu o Siyyid a manifestar tão profunda reverência na presença daquele Jovem - uma reverência que nem a vista do santuário do Siyyidu'sh-Shuhadá lhe havia podido despertar. Três dias depois, vi aquele mesmo Jovem chegar e tomar Seu assento em meio à companhia dos discípulos reunidos de Siyyid Kázím. Estava sentado próximo ao limiar e com a mesma modéstia e dignidade de porte escutava o discurso do Siyyid. Assim que seus olhos notaram a presença daquele Jovem, o Siyyid interrompeu sua palestra e guardou silêncio. Com isso, um de seus discípulos solicitou-lhe que reassumisse o argumento que ficara inacabado. 'Que mais direi eu?', respondeu Siyyid Kázím, enquanto volvia a face em direção ao Báb. 'Eis que a verdade está mais manifesta do que o raio de luz que incide sobre aquele colo!' Logo observei que o raio ao qual o Siyyid se referiu incidira sobre o colo daquele mesmo Jovem a quem recentemente visitamos. 'Então', perguntou o inquiridor, 'porque não revelas Seu nome nem identificas Sua pessoa?' Replicou a isso o Siyyid, apontando com o dedo a própria garganta, o que implicava que, fosse ele divulgar Seu nome, ambos instantaneamente seriam mortos. Isso aumentou ainda mais a minha perplexidade. Já ouvira meu instrutor observar ser tão grande a perversidade dessa geração que, fosse ele com o dedo apontar o Prometido e dizer, Ele, em verdade, é o Bem-Amado, o desejo de vossos corações e do meu', ainda assim deixariam de O reconhecer e de Lhe dar crédito. Vi o Siyyid realmente apontar com o dedo para o raio de luz que incidira sobre aquele colo e, no entanto, o que isso significava nenhum dos presentes parecia compreender o seu significado. Eu, de minha parte, estava convencido de que o próprio Siyyid jamais poderia ser o Prometido, mas um mistério a todos nós inescrutável se ocultava naquele estranho e atraente jovem. Várias vezes me aventurava a me aproximar de Siyyid Kázím e dele solicitar uma elucidação desse mistério. Cada vez que eu me aproximava, sentia dominar-me um senso de temor que sua personalidade tão poderosamente inspirava. E não raras vezes eu o ouvia observar: "Ó Shaykh Hasan, regozijai-vos por ser vosso nome Hasan (louvável); Hasan vosso princípio e Hasan vosso fim. Tivestes o privilégio de alcançar o dia de Shaykh Ahmad, tendes estado intimamente associado a mim e, em dias vindouros, a vós caberá o inestimável prazer de testemunhar 'o que jamais olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem coração algum concebeu.'"

"Freqüentemente sentia-me impelido a procurar, eu só, a presença daquele Jovem Háshimita e tentar sondar-lhe o mistério. Observava-o várias vezes enquanto Ele permanecia em atitude de oração na porta do santuário do Imame Husayn. Tão absorto em Suas devoções estava que parecia se haver esquecido por completo de tudo a Sua volta. Lágrimas dos olhos lhe choviam e dos lábios fluíam palavras de glorificação e louvor, cujo poder e beleza eram tais que nem as mais nobres passagens de nossas Sagradas Escrituras poderiam esperar exceder. As palavras 'Ó Deus, meu Deus, meu Bem-Amado, Desejo de meu coração' com tal freqüência e ardor eram pronunciadas que os peregrinos visitantes que estavam próximos o bastante para ouvi-lo interrompiam instintivamente o curso de suas devoções, maravilhando-se com as manifestações de piedade e veneração de tão jovem semblante. De igual modo, comoviam-se em lágrimas, d'Ele aprendendo a lição da adoração verdadeira. Uma vez completadas Suas preces, o Jovem, sem atravessar o limiar do santuário, ou tentar dirigir àqueles ao Seu redor uma palavra sequer, em silêncio se retirava para sua casa. Eu sentia o impulso de me dirigir a Ele, mas, cada vez que me aventurava a me aproximar, detinha-me uma força que eu nem explicar ou resistir podia. As minhas indagações trouxeram a informação de que Ele era residente em Shiráz, mercador de profissão e não pertencia a nenhuma das ordens eclesiásticas. Informaram-me, ainda mais, que Ele, bem como os tios e outros parentes, contavam-se entre aqueles que amavam e admiravam o Shaykh Ahmad e Siyyid Kázím. Pouco depois, eu soube que Ele havia partido para Najáf, a caminho de Shiráz. Esse Jovem havia me inflamado o coração. Perseguia-me a memória daquela visão. Minha alma com a Sua estava unida, até o dia em que aos meus ouvidos chegou um chamado de um Jovem de Shíráz que proclamava ser o Báb. Pela minha mente, logo ficou claro pensamento de que tal pessoa nenhuma outra poderia ser senão aquele mesmo Jovem visto por mim em Karbilá, o Jovem que era o desejo de meu coração.

"Quando, mais tarde, eu de Karbilá a Shíráz viajei, soube que Ele partira em peregrinação a Meca e Medina. Encontrei-o na Sua volta e tentei, apesar dos muitos obstáculos no caminho, permanecer em estreita associação a Ele. Quando, posteriormente, foi encarcerado na fortaleza de Máh-Kú, na província de Ádhirbáyján, fui incumbido de transcrever os versículos que Ele ditava ao Seu amanuense. Toda noite, por um período de nove meses, durante o qual foi prisioneiro naquela fortaleza, revelava Ele, após haver oferecido Suas preces noturnas, um comentário sobre um juz' (11) do Alcorão. No fim de cada mês, era assim completado um comentário sobre esse livro sagrado inteiro. Durante o encarceramento em Máh-Kú, nove comentários sobre todo o Alcorão foram por Ele revelados. Os textos desses comentários foram entregues em Tabríz aos cuidados de um certo Siyyid Ibráhím-Khalíl, com a advertência de ocultá-los até que chegasse o tempo para sua publicação. Seu destino é incerto até agora.

"A respeito de um desses comentários perguntou-me, um dia, o Báb: 'Qual preferes, este comentário que acabo de revelar ou o Ahsanu'l-Qisas, Meu comentário anterior sobre a Sura de José? Qual dos dois é superior, segundo tua avaliação?' 'Para mim', respondi, 'o Ahsanu'l-Qisas parece ser dotado de maior poder e encanto.' Sorriu de minha observação e disse: 'Não conheces ainda o tom e o teor desse comentário mais recente. As verdades neste entesouradas haverão de capacitar o inquiridor, mais rápida e efetivamente, a atingir o objeto de sua busca.'

"Continuei intimamente associado a Ele até aquele grande encontro de Shaykh Tabarsí. Ao ser informado desse acontecimento, o Báb mandou todos os seus companheiros apressarem-se para aquele local e prestarem todo o auxílio possível a Quddús, Seu heróico e distinto discípulo. Dirigindo-se a mim certo dia, disse Ele: 'Se não fosse Meu encarceramento no Jabal-i-Shadíd, a fortaleza de Chihríq, ter-Me-ia incumbido de prestar Minha assistência pessoal ao Meu bem-amado Quddús. Participação naquela luta não te é ordenada. Deverias prosseguir a Karbilá e naquela cidade santa residir, desde que te seja destinado contemplar com os próprios olhos o belo semblante do prometido Husayn. Ao fitares aquela face radiante, lembra-te também de Mim. Transmite-Lhe a expressão de Minha devoção afetuosa'. Ainda, com ênfase, acrescentou estas palavras: 'Em verdade, digo, Eu confiei a ti uma grande missão. Acautela-te para que teu coração não esmoreça, para que não esqueças a glória da qual te investi'."

"Pouco depois viajei para Karbilá, residindo, segundo mandado, naquela cidade santa. Receando que a prolongada demora naquele centro de peregrinação provocasse suspeitas, decidi casar. Comecei a ganhar a vida como escriba. Quantas aflições caíram sobre mim das mãos dos shaykhís - aqueles que se professavam seguidores de Shaykh Ahmad e contudo deixaram de reconhecer o Báb! Tendo em mente os conselhos daquele bem-amado Jovem, submeti-me com paciência às indignidades sobre mim infligidas. Por dois anos naquela cidade residi. Entrementes, de Sua prisão terrena foi libertado aquele Jovem santo; através do martírio, livrou-se Ele das crueldades atrozes que nos derradeiros anos de Sua vida O assediaram.

Dezesseis meses lunares, menos de vinte e dois dias, haviam se passado desde o dia do martírio do Báb, quando, no dia de 'Arafih (12), no ano de 1267 A.H. (13), enquanto eu passeava pelo portal do pátio interior do santuário do Imame Husayn, meus olhos pousaram, pela primeira vez, em Bahá'u'lláh. Que haverei de relatar sobre o semblante que contemplei! A beleza daquela face, as delicadas feições que nenhuma pena ou pincel ousam descrever, Seu olhar penetrante, Sua expressão bondosa, a majestade de Seu porte, a doçura de Seu sorriso, o cabelo luxuriante, preto de azeviche, em minha alma deixaram uma indelével impressão. Nesse tempo era eu idoso, curvado pela velhice. Com quanto amor Ele se aproximou de mim! Tomou minha mão, num tom que demonstrava ao mesmo tempo poder e beleza, dirigiu a mim estas palavras: 'Neste mesmo dia é meu propósito tornar-te conhecido como um bábí em toda Karbilá'. Ainda segurando-me a mão, continuou a conversar comigo. Continuamos juntos por toda a extensão da rua do mercado e Ele finalmente disse: 'Louvado seja Deus por haveres permanecido em Karbilá e visto com teus próprios olhos a face do prometido Husayn'. Nesse mesmo instante recordei a promessa que me fizera o Báb. Suas palavras, que eu supunha se referissem a um futuro remoto, não as havia compartilhado com ninguém. Estas palavras de Bahá'u'lláh comoveram-me até as profundezas de meu ser. Sentia-me impelido a proclamar a um povo desatento, naquele mesmo momento, com toda minha alma e poder, o advento do prometido Husayn. Disse-me, porém, Ele, que contivesse meus sentimentos e ocultasse minhas emoções. 'Ainda não', sussurrou em meus ouvidos, 'a Hora designada aproxima-se. Ainda não soou. Tem confiança e sê paciente.' Desde aquele momento, desvaneceram-se todas as minhas tristezas. Minha alma inundava de júbilo. Naqueles dias eu estava tão pobre que durante a maior parte do tempo passava fome. Senti-me tão rico, entretanto, que todos os tesouros da Terra se dissolviam até se tornarem inexistentes quando comparados com aquilo que já possuía. 'Tal é a Graça de Deus; a quem Ele queira, a confere: Ele, verdadeiramente, é de bondade imensa.'"

Após esta digressão, volto agora a meu tema. Estava referindo-me à ânsia com que Siyyid Kázím se determinara a romper aqueles véus que se interpunham entre o povo de seu tempo e o reconhecimento da manifestação prometida . Nas páginas introdutórias de suas obras, intituladas Sharh-i-Qasídih e Sharh-i-Khutbih (14), ele alude em linguagem velada ao abençoado nome de Bahá'u'lláh. Num livreto, último escrito por ele, menciona explicitamente o nome do Báb com sua referência ao termo "Dhikru'lláh-i-A'zam". Neste escreve: "Ao dirigir-me a esse nobre 'Dhikr (15), esta poderosa voz de Deus, digo: 'Estou apreensivo pelo povo, para que não te faça mal. Estou apreensivo de meu próprio ser, para que eu também não te magoe. Tenho temor de ti, tremo ante tua autoridade, sinto pavor da era que vives. Fosse eu entesourar-te como o menino de meus olhos, até o Dia da Ressurreição, não te haveria dado provas suficientes de minha devoção a ti' (16)."

Quão profundos foram os sofrimentos de Siyyid Kázím nas mãos do povo da malícia! Quanto dano lhe infligiu aquela geração perversa! Durante anos sofreu em silêncio, suportando com heróica paciência todas as indignidades, todas as calúnias e denúncias que foram acumuladas sobre ele. Era seu destino, no entanto, testemunhar nos últimos anos de sua vida como a mão vingadora de Deus "destruiu com total aniquilamento" aqueles que se lhe opuseram, o caluniaram e contra ele conspiraram. Naquele tempo os discípulos de Siyyid Ibrahim, aquele notório inimigo de Siyyid Kázím, agregaram-se com o fim de incitar sedição e danos e pôr em perigo a vida de seu formidável adversário. Por todos os meios ao alcance deles tentaram envenenar as mentes de seus admiradores e amigos, minar-lhe a autoridade e desacreditar o seu nome. Não se levantou uma só voz em protesto contra a agitação que assiduamente estava sendo preparada por essa gente ímpia e traiçoeira, cada um dos quais se dizia o expoente da verdadeira sabedoria e repositórios dos mistérios da Fé de Deus. Ninguém tratou de os admoestar ou despertar. Adquiriram tal poder e incitaram tal luta que conseguiram expulsar de Karbilá, de maneira vergonhosa, o representante oficial do governo otomano e tomaram para seus próprios fins sórdidos qualquer renda que lhe cabia arrecadar. Sua atitude ameaçadora incentivou o governo central em Constantinopla a mandar um oficial militar à cena da agitação com plenas instruções para extinguir o fogo da rebeldia. Com as forças sob seu comando, esse oficial assediou a cidade e enviou a Siyyid Kázím uma comunicação em que lhe rogava que pacificasse os ânimos a população excitada. Apelou para ele, pedindo que aconselhasse moderação aos seus habitantes, que os induzisse a atenuar sua obstinação e a se submeter voluntariamente ao seu governo. Prometeu que fosse eles atender aos seus conselhos, incumbir-se-ia de lhes garantir a segurança e proteção, proclamaria uma anistia geral e se esforçaria por lhes promover o bem-estar. Advertia-lhes, porém, que, caso recusassem se submeter, suas vidas estariam em perigo, uma grande calamidade, certamente, lhes sobreviria.

Ao receber esta comunicação formal, Siyyid Kázím mandou chamar à sua presença os principais instigadores do movimento e, com a maior sabedoria e afeto, os exortou a deixar de causar agitação e a entregar suas armas. Falou com eloqüência tão persuasiva, com tanta sinceridade e desprendimento que seus corações se abrandaram e sua resistência se conteve. Comprometeram-se solenemente a abrir, na manhã seguinte, os portais da cidade e a se apresentar em companhia de Siyyid Kázím, ao oficial que comandava as forças sitiantes. Foi combinado que o Siyyid interviesse em seu favor e obtivesse para eles o que lhes assegurasse a tranqüilidade e o bem-estar. Mal haviam deixado a presença do Siyyid quando os ulemás, os principais instigadores da rebelião, levantaram-se unanimemente para frustrar esse plano. Bem consciente de que tal intervenção da parte do Siyyid, que já lhes havia excitado a inveja, serviria para lhes aumentar o prestígio e consolidar a autoridade, determinaram-se a persuadir os elementos tolos e inflamáveis da população a sair à noite e atacar as forças do inimigo. Asseguraram-lhes a vitória por causa de um sonho que um de seus membros tivera, no qual havia visto 'Abbás (17) e fora por ele incumbido de incitar seus seguidores a fazer guerra santa contra os sitiadores, prometendo-lhes êxito final. Iludidos por essa promessa vã, rejeitaram a advertência daquele conselheiro sábio e judicioso e se levantaram para executar os desígnios de seus líderes insensatos. Siyyid Kázím, que bem conhecia a má influência que incitou essa revolta, enviou um informe detalhado e fiel sobre a situação ao comandante turco, e este tornou a escrever a Siyyid Kázím, reiterando seu apelo para uma solução pacífica da questão. Declarou, ainda mais, que em dado momento ele forçaria os portões da cidadela e consideraria a casa do Siyyid como o único lugar de refúgio para um inimigo derrotado. Esta declaração, o Siyyid a fez circular por toda a cidade. Só serviu para incentivar a zombaria e o desprezo por parte da população. Ao ser informado da maneira como fora recebida esta declaração, o Siyyid observou: "Em verdade, o que lhes ameaça é para o amanhecer. Não está próximo o amanhecer." (18)

Ao romper da alvorada, à hora marcada, as forças do inimigo bombardearam as muralhas da cidadela e lhe demoliram as paredes, entraram na cidade e pilharam e massacraram um número considerável da população. Muitos fugiram consternados para o pátio do santuário do Imame Husayn. Outros buscaram refúgio no santuário de 'Abbás. Os que amavam e honravam Siyyid Kázím recorreram a sua casa. Tão grande foi a multidão que se apressava ao amparo de sua residência que se tornou necessário apossar-se de algumas casas adjacentes a fim de acomodar a multidão de refugiados que se apinhava às suas portas. Tão vasta e excitada estava a multidão que lhe enchia a casa que se verificou, uma vez apaziguado o tumulto, haverem morrido nada menos que vinte e duas pessoas.

Que consternação se apoderou dos residentes e visitantes na cidade santa! Com que severidade os vitoriosos trataram seu inimigo aterrorizado! Com que audácia desrespeitaram os sagrados direitos e prerrogativas de que a piedade de inúmeros peregrinos muçulmanos investira os lugares santos de Karbilá! Recusaram reconhecer tanto o santuário do Imame Husayn quanto o sagrado mausoléu de 'Abbás como refúgios invioláveis para os milhares que fugiram ante a ira vingadora de um povo estrangeiro. Os sagrados recintos de ambos os santuários regaram-se com o sangue das vítimas. Um lugar, e somente um, poderia afirmar seu direito de refúgio para os inocentes e fiéis dentre a população. Esse lugar era a residência de Siyyid Kázím. Sua casa, com as dependências, era considerada dotada de tal santidade como nem o mais sagrado santuário do Islã havia podido conservar. Essa extraordinária manifestação da ira vingadora de Deus foi uma lição prática para aqueles que se sentiam inclinados a menosprezar a posição desse homem santo. Esse acontecimento memorável (19) realizou-se no dia 8 de Dhi'l-Hijjih no ano de 1258 A.H. (20)

Admite-se como evidente que, em cada era e revelação aqueles cuja missão é proclamar a Verdade ou preparar o caminho para sua aceitação têm encontrado invariavelmente a oposição de alguns poderosos adversários que lhes desafiaram a autoridade e tentaram perverter seus ensinamentos. Quer por fraude ou fingimento, por calúnia ou opressão, estes têm conseguido por algum tempo enganar os mal informados e levar para o mau caminho os fracos. Desejosos de manter seu domínio sobre os pensamentos e consciências dos homens, eles têm podido, enquanto a Fé de Deus permanecesse oculta, gozar dos frutos de uma ascendência fugaz e precária. Mal se proclamava a Fé, entretanto, quando viam, com grande consternação, que os efeitos de suas más intrigas empalideciam ante a luz nascente do novo Dia de Deus. Ante os cadentes raios daquele Orbe nascente, todas as suas maquinações e más ações eram reduzidas ao nada e breve se tornavam algo esquecido.

Em torno de Siyyid Kázím haviam se congregado, também, várias pessoas vãs e ignóbeis que simulavam lhe ter devoção e afeto; que professavam ser fiéis e piedosos e se diziam os únicos repositórios dos mistérios entesourados nas palavras de Shaykh Ahmad e de seu sucessor. Ocupavam os lugares de honra na companhia dos discípulos reunidos de Siyyid Kázím. A estes dirigia ele seus discursos e mostrava notável consideração e cortesia. E, no entanto, muitas vezes em frases veladas e sutis, ele aludia a sua cegueira, sua vanglória e sua incapacidade completa para apreender os mistérios da expressão divina. Entre suas alusões está a seguinte: "Ninguém pode compreender minha linguagem, salvo quem é gerado por mim". Freqüentemente citava estas palavras: "Estou atônito diante da visão. Estou mudo de assombro e vejo o mundo privado do poder de ouvir. Estou impotente para divulgar o mistério e percebo que o povo é incapaz de lhe suportar o peso". Em outra ocasião comentou: "Muitos são aqueles que afirmam haver atingido união com o Bem-amado, e contudo aquele Bem-Amado recusa admitir sua pretensão. Pelas lágrimas que derrama por seu Amado, pode o verdadeiro amante se distinguir do falso". Muitas vezes ele dizia: "Aquele destinado a se manifestar depois de mim é de linhagem pura, de ilustre descendência, da semente de Fátimih. É de altura mediana e livre de qualquer defeito físico". (21)

Tenho ouvido Shaykh Abú-Turáb (22) contar o seguinte: "Eu, junto com alguns dos discípulos de Siyyid Kázím, considerava as alusões a essas deficiências que o Siyyid declarava ausentes no Prometido, como dirigidas, especificamente, a três indivíduos dentre nossos condiscípulos. Nós até os designávamos por apelações que indicavam seus defeitos físicos. Um deles era Hájí Mírzá Karím Khán (23) filho de Ibrahim Khán-i-Qájár-i-Kirmání, a quem faltava uma vista e que tinha barba rala. Outro era Mírzá Hasan-i-Gawhar, um homem de excepcional corpulência. O terceiro era Mírzá Muhít-i-Shá'ir-í-Kirmání, extraordinariamente magro e alto. Estávamos convencidos de que estes não eram senão aqueles a quem o Siyyid aludia constantemente como as pessoas vãs e infiéis que no fim revelariam o que realmente eram e deixariam aparecer sua ingratidão e insensatez. Quanto a Hájí Mírzá Karím Khán, que durante anos sentava-se aos pés de Siyyid Kázím e dele adquiriu toda a sua, assim chamada, erudição, ele, afinal, obteve permissão de seu mestre para se estabelecer em Kirmán e ali ocupar-se em promover os interesses do Islã e disseminar aquelas tradições que se agrupavam ao redor da sagrada memória dos Imames da Fé.

"Estive presente na biblioteca de Siyyid Kázím quando, certo dia, chegou uma ajudante de Hájí Mírzá Karím Khán, segurando na mão um livro, o qual ele ofereceu ao Siyyid em nome de seu mestre, pedindo-lhe que o examinasse e indicasse com próprio punho sua aprovação do conteúdo. O Siyyid leu trechos desse livro e então o devolveu ao ajudante com esta mensagem: 'Diga ao seu mestre que ele, melhor do que qualquer outro, pode estimar o valor de seu próprio livro'. O ajudante havia se retirado quando o Siyyid, com voz pesarosa, fez esta observação: 'Maldito seja ele! Há muitos anos está associado comigo e, agora que pretende partir, seu único objetivo, após tantos anos de estudo e convivência, é difundir por meio de seu livro essas doutrinas heréticas e atéias, as quais quer agora que eu endosse. Tem combinado com alguns hipócritas ambiciosos, mirando estabelecer-se em Kirmán, a fim de assumir, após minha partida deste mundo, as rédeas da indiscutida chefia. Quão lastimavelmente errou em seu juízo! Pois a brisa da Revelação Divina, soprando do Alvorecer da guia, seguramente lhe apagará a luz e destruirá a influência. A árvore de seu esforço outro fruto não dará afinal, senão o da amarga desilusão e do remorso atormentador. Em verdade digo, haverás de ver isso com os próprios olhos. Minha oração por ti é que sejas protegido da perniciosa influência que ele, o anti-Cristo da prometida Revelação, futuramente exercerá'. Mandou-me ocultar esta predição até o Dia da Ressurreição, o Dia em que a Mão da Onipotência terá revelado os segredos que agora jazem ocultos no peito dos homens. 'Nesse Dia', ele me exortou, 'levante-te com inabalável propósito e determinação para o triunfo da Fé de Deus. Proclama aos quatro ventos tudo o que tens ouvido e visto'". Esse mesmo Shaykh Abú-Turáb, que nos primeiros dias da Revelação anunciada pelo Báb pensou que era melhor e mais prudente não se identificar com Sua Causa, nutria no coração o mais fervoroso amor pelo Manifestante revelado, e em sua fé permaneceu tão firme e imóvel como a rocha. No fim, esse fogo abafado lançou chamas em sua alma e foi responsável por conduta tal de sua parte que causou seu encarceramento em Teerã, na mesma masmorra em que fora confinado Bahá'u'lláh. Continuou firme até o fim e coroou uma vida de amoroso sacrifício com a glória do martírio.

À medida que se aproximava o fim dos dias de Siyyid Kázím, sempre que se encontrava com seus discípulos, quer em conversação particular ou em discurso público, exortava-os dizendo: "Ó meus bem-amados companheiros! Acautelai-vos acautelai-vos, para que depois de mim as efêmeras vaidades do mundo não vos enganem. Cuidado para que não vos torneis arrogantes e esquecidos de Deus. Incumbe-vos renunciar todo conforto, todos os parentes e bens terrenos, em vossa busca Daquele que é o Desejo de vossos corações e do meu. Dispersai-vos por toda parte, desprendei-vos de todas as coisas terrenas e com humildade e orações suplicai a vosso Senhor que vos sustente e guie. Nunca cedais em vossa determinação de buscar e encontrar Aquele que se oculta atrás dos véus da glória. Perseverai até o tempo em que Ele, vosso verdadeiro Guia e Mestre, bondosamente vos ajudará, capacitando-vos a reconhecê-Lo. Sede firmes até o dia em que Ele vos escolherá como os companheiros e heróicos defensores do prometido Qá'im. Bem-aventurado cada um de vós que sorver o cálix do martírio em Seu caminho. Aqueles de vós que Deus, em Sua sabedoria, preservar e guardar para que testemunhem o ocaso daquela Estrela de Guia Divina, o Arauto do Sol da Revelação Divina, deverão ser pacientes, deverão permanecer confiantes e constantes. Esses dentre vós não devem vacilar nem se desalentar, pois logo depois do primeiro trombetear que há de castigar a Terra com extermínio e morte, ouvir-se-á ainda outro chamado, com o qual todas as coisas serão vivificadas e renovadas. Então se revelará o significado destes sagrados versículos: 'E houve um toque de trombeta, e todos os que estão no Céu e todos os que estão na Terra expiraram, salvo aqueles que Deus permitiu viver. Então soou outro toque e eis que, levantando-se, olharam ao redor. A Terra brilhava com a luz de seu Senhor e se estabeleceu o Livro e fez levantarem os Profetas e as testemunhas; e se julgou entre eles com eqüidade e a ninguém se fez injustiça'. (24) Em verdade digo, após o Qá'im, o Qayyúm (25) manifestar-se-á. Pois quando a estrela dAquele tiver se posto, o sol da beleza de Husayn haverá de surgir e iluminar o mundo inteiro. Então se desdobrarão em toda a sua glória o 'mistério'e o 'segredo' de que falou Shaykh Ahmad, quando disse: 'O mistério desta Causa há de se tornar manifesto, e o segredo desta Mensagem deve forçosamente ser divulgado'. Haver alcançado esse Dia dos dias é haver alcançado a glória culminante das gerações passadas, e uma só boa ação executada nessa era é igual à piedosa adoração de incontáveis séculos. Com que freqüência aquela alma venerável, Shaykh Ahmad, recitava esses versículos do Alcorão já citados! Quanta ênfase pôs ele em seu significado como prognósticos do advento daquelas duas Revelações gêmeas que hão de seguir uma a outra em rápida sucessão, cada uma das quais é destinada a inundar o mundo com toda a sua glória! Quantas vezes exclamava: 'Bem-aventurado aquele que reconhecer seus significado e contemplar seu esplendor!' Quão freqüentemente, dirigindo-se a mim, ele observava: 'Nenhum de nós há de viver até contemplar sua fulgurante glória. Mas muitos dos fiéis dentre vossos discípulos haverão de ver o Dia que nós, desafortunadamente, jamais poderemos esperar contemplar!' Ó meus bem-amados companheiros! Como é grande, muito grande, a Causa! Quão elevada a posição a qual vos chamo! Quão grande a missão para a qual vos tenho ensinado e preparado! Envidai os máximos esforços e fixai vosso olhar em Sua promessa. Suplico a Deus que por Sua graça vos ajude a sobreviver às tempestades de provações e tribulações que forçosamente haverão de vos assediar, que vos dê o poder de sair incólumes e triunfantes de seu meio e vos leve a vosso elevado destino".

Todo ano, no mês de Dhi-l-Qa'dih, o Siyyid ia de Karbilá a Kázimayn (26) a fim de visitar os santuários dos imames. Regressava a Karbilá em tempo de visitar, no dia de 'Arafih, o santuário do Imame Husayn. Naquele ano, último de sua vida, fiel a seu costume, partiu de Karbilá nos primeiros dias do mês de Dhi'l-Qa-dih, no ano de 1259 A.H. (27), acompanhado por um grupo de seus companheiros e amigos. No quarto dia desse mês chegou em Masjid-i-Baráthá, situado na estrada principal entre Bagdá e Kázimayn, em tempo de oferecer sua oração do meio-dia. Pediu ao muezim que convocasse os fiéis para se reunirem e orarem. Em pé na sombra de uma palmeira que ficava em frente ao masjid, ele fez parte da congregação e mal concluíra suas devoções quando, de repente, um árabe apareceu, aproximou-se do Siyyid e o abraçou. "Há três dias", disse ele, "cuidava eu de meu rebanho nesse pasto adjacente quando, subitamente, o sono me sobreveio. Em meu sonho vi Maomé, o Apóstolo de Deus, Que a mim se dirigiu com estas palavras: 'Dá ouvidos, ó pastor, a Minhas palavras e as entesoura dentro de teu coração. Pois estas palavras Minhas são a incumbência de Deus que entrego a teu cuidado. Se lhes fores fiéis, grande será tua recompensa. Se as desprezar, severa retribuição haverá de te sobrevir. Ouve-Me; é esta a incumbência que te confio: Permanece na vizinhança de Masjid-i-Baráthá. No terceiro dia depois deste sonho, um descendente de Minha casa, Siyyid Kázím de nome, com seus amigos e outros companheiros, chegará ao meio-dia sob sombra da palmeira nas proximidades do masjid. Ali oferecerá suas orações. Assim que teus olhos o fitarem, procura sua presença e lhe transmite Minhas carinhosas saudações. Dize-lhe, de Mim: Regozija-te, pois a hora de tua partida está próxima. Quando tiveres feito tuas visitas em Kázimayn e tiveres regressado a Karbilá, três dias após tua volta, no dia de Arafih (28), alçarás vôo a Mim. Pouco depois, se tornará manifesto Aquele que é a Verdade. Então o mundo será iluminado pela luz de Seu semblante'". Um sorriso iluminou o rosto de Siyyid Kázím ao ouvir completar-se a descrição do sonho, segundo foi relatado por esse pastor. Disse ele: "Da verdade do sonho que tiveste, não há dúvida". Seus companheiros ficaram profundamente pesarosos. Volvendo-se a eles, disse: "Não é vosso amor a mim devido ao Verdadeiro, cujo advento todos nós esperamos? Não desejareis que eu morra, para que o Prometido seja revelado?" Este episódio em sua totalidade tem sido a mim relatado por nada menos que dez pessoas, todas as quais estiveram presentes nessa ocasião e testificaram sua exatidão. E no entanto muitos dos que viram com os próprios olhos tão maravilhosos sinais rejeitaram a Verdade e repudiaram Sua Mensagem!"

Esse estranho acontecimento foi muito comentado. Entristeceu o coração dos que em verdade amavam Siyyid Kázím. A estes, com infinita ternura e júbilo, dirigiu palavras de alento e consolo. Ele lhes acalmou o coração atribulado, fortificou a fé e avivou o zelo. Com dignidade e calma completou sua peregrinação e regressou a Karbilá. No mesmo dia de sua chegada, adoeceu, tendo de ficar acamado. Seus inimigos espalharam o boato de que ele fora envenenado pelo governador de Bagdá. Isso era pura calúnia e absolutamente falso, pois o governador mesmo tivera confiança incondicional em Siyyid Kázím, sempre o considerando um líder de talento notável, possuidor de um caráter irrepreensível (29). No dia de 'Arafih, no ano de 1259 A.H., com a experiente idade de sessenta anos, Siyyid Kázim, de acordo com a visão daquele humilde pastor, despediu-se deste mundo, deixando atrás de si um grupo de discípulos sinceros e devotados, que, purificados de todo desejo terreno, partiram em busca de seu prometido Bem-Amado. Seus restos sagrados foram enterrados dentro do recinto do santuário do Imame Husayn. (30) Seu falecimento provocou em Karbilá um tumulto similar àquela agitação que se apoderara do povo no ano anterior (31), na véspera do dia de 'Arafih, quando o inimigo vitorioso forçara os portões da cidadela e massacrara um número considerável de seus habitantes assediados. Um ano antes, nesse dia, sua casa fora o único refúgio de paz e segurança para os desolados e sem teto, enquanto agora havia se tornado uma casa de pesar onde aqueles para quem ele havia sido um amigo e um amparo choravam sua perda e lamentavam seu falecimento. (32)

CAPÍTULO III
A DECLARAÇÃO DA MISSÃO DO BÁB

A morte de Siyyid Kázím foi o sinal para que se renovasse a atividade de seus inimigos. Sedentos de poder e encorajados em face de seu desaparecimento e da conseqüente consternação de seus seguidores, reafirmaram suas pretensões e se prepararam para levar a cabo as ambições que nutriam. Por algum tempo, medo e ansiedade encheram os corações dos discípulos fiéis de Siyyid Kázím, mas com o regresso de Mullá Husayn-i-Bushrú'í da missão tão bem-sucedida da qual seu mestre o incumbira, suas tristezas se dissiparam. (1)

Foi no primeiro dia de Muharram, no ano de 1260 A.H. (2), que Mullá Husayn voltou a Karbilá. Animou e fortaleceu os discípulos desconsolados de seu bem-amado mestre, lembrou-os da promessa infalível que este lhes fizera e instou que mantivessem uma vigilância constante e esforço ininterrupto na busca do Bem-Amado ainda oculto. Hospedado nas vizinhanças próximas da casa em que o Siyyid havia residido, durante três dias, ele ocupou-se continuamente em receber visitas de um número considerável de pesarosos que se apressavam a expressar-lhe, como o representante principal dos discípulos do Siyyid, seu pesar e tristeza. Ele depois convocou um grupo de seus condiscípulos mais distintos e de maior confiança, dos quais inquiriu sobre os desejos expressos por seu falecido mestre e sobre suas últimas exortações. Disseram-lhe que, repetida e enfaticamente, Siyyid Kázím mandara que abandonassem seus lares, se dispersassem em todas as direções, purificassem seus corações de todo desejo vão e se dedicassem à busca dAquele a cujo advento se havia referido com tanta freqüência. "Ele nos disse," afirmaram, "que o Objeto de nossa busca estava agora revelado. Os véus que se interpõem entre vós e Ele são tais que somente vós os podeis remover com vossa fervorosa busca. Nada senão esforço em espírito de prece, pureza de motivos e unidade de propósitos tornará possível que os rompeis. Não tem Deus revelado em seu Livro: 'A quem fizer esforços por Nós, em Nossos caminhos o guiaremos?'" (3) "Por que, então", retrucou Mullá Husayn, "tendes preferido demorar em Karbilá? Por que não vos dispersastes, por que não vos tendes levantado para atender a seu fervoroso apelo?" "Reconhecemos nossa falta" foi sua resposta; "de vossa grandeza todos nós damos testemunho. Tal é nossa confiança em vós que, se vos declarardes o Prometido, nós todos nos submeteremos pronta e inquestionavelmente. Com isto hipotecamos nossa lealdade e obediência a qualquer coisa que ordenardes que façamos." "Deus o proíba!", exclamou Mullá Husayn. "Longe esteja de Sua Glória que eu, que sou apenas pó, seja comparado com Aquele que é o Senhor dos Senhores! Tivésseis vós estado a par do tom da linguagem de Siyyid Kázím, jamais haveríeis pronunciado semelhante palavras. Vossa primeira obrigação, como também é a minha, é levantar-vos e levar a cabo, tanto no espírito como na letra, a mensagem de nosso bem-amado mestre expressa na hora de sua morte." Imediatamente levantou-se de seu assento e foi diretamente a Mírzá Hasan-i-Gawhar, Mírzá Muhít e outras figuras bem conhecidas dentre os discípulos de Siyyid Kázím. A cada um e a todos entregou intrepidamente a mensagem de despedida de seu mestre, deu ênfase ao caráter premente de seu dever e os exortou a se levantar e o cumprir. A seu apelo deram respostas evasivas e indignas. "Nossos inimigos", observou um deles, "são muitos e poderosos. Devemos permanecer nesta cidade e guardar o assento deixado vago por nosso falecido mestre." Replicou outro: "Incumbe-me aqui ficar e cuidar dos filhos que o Siyyid deixou". De imediato reconheceu Mullá Husayn o quanto eram fúteis seus esforços. Percebendo o grau de sua insensatez, sua cegueira e sua ingratidão, não mais lhes falou. Retirou-se, abandonando-os às suas ocupações vãs.

Como o ano sessenta, que viu nascer a prometida Revelação, acabava de despontar no mundo, pareceria ser apropriado, a esta altura, fazer uma digressão de nosso tema e mencionar certas tradições de Maomé e dos Imames da Fé, que a esse ano especificamente se referem. Imame Já'far, filho de Maomé, ao ser interrogado a respeito do ano em que o Qá'im haveria de se manifestar, deu a seguinte resposta: "Em verdade, no ano sessenta haverá de ser revelada a Sua Causa, e seu Nome será proclamado em toda parte". Nas obras do sábio e muito famoso Muhy'd-Dín-i-'Arabí, se encontram muitas referências relativas tanto ao ano do advento, como ao nome do prometido Manifestante. Entre estas estão as seguintes: "Os ministros e defensores de Sua Fé serão do povo da Pérsia". "Em seu nome o nome do Guardião (Ali) precede ao do profeta (Maomé)." "O ano de Sua Revelação é idêntico à metade daquele número que é divisível por nove (2520)." Mírzá Muhammad-i-Akhbárí, em seus poemas que se referem ao ano da Manifestação, faz a seguinte profecia: "No ano de Ghars (o valor numérico de cujas letras é 1260) a Terra será iluminada por Sua luz, e em Gharasíh (1265) o mundo inundar-se-á de sua glória. Se viveres até o ano de Gharasíh (1270), haverás de testemunhar como as nações, os governantes, os povos e a Fé de Deus terão sido todos renovados. "Numa tradição atribuída ao Imame 'Alí, Comandante dos Fiéis, outrossim está escrito: 'Em Ghars está plantada a Árvore da guia Divina'."

Mullá Husayn, havendo cumprido a obrigação que sentia de exortar e despertar seus condiscípulos, partiu de Karbilá para Najáf. Com ele estavam Muhammad-Hasan, seu irmão, e Muhammad-Báqir, seu sobrinho, havendo ambos o acompanhado sempre desde sua visita à sua cidade natal de Bushrúyih, na província de Khurásán. Ao chegar no Masjid-i-Kúfih, Mullá Husayn decidiu passar quarenta dias nesse lugar, onde viveu uma vida de retiro e oração. Com seus jejuns e vigílias preparou-se para a sagrada aventura em que em breve iria embarcar. Na prática destes atos de adoração, só seu irmão o acompanhou, enquanto seu sobrinho, que atendia às suas necessidades diárias, observava os jejuns e, nas horas de lazer, tomava parte em suas devoções.

Esta calma, como a de um claustro de convento, que os rodeava foi interrompida, depois de alguns dias, pela inesperada chegada de Mullá 'Alíy-i-Bastámí, um dos principais discípulos de Siyyid Kázím. Ele, juntamente com outros doze companheiros, chegou ao Masjid-i-Kúfih, onde encontrou seu condiscípulo Mullá Husayn absorto em contemplação e prece. Mullá 'Ali possuía tão vasta erudição e tão profundamente inteirado estava dos ensinamentos de Shaykh Ahmad que muitos o consideravam como superior até a Mullá Husayn. Em várias ocasiões tentou inquirir de Mullá Husayn seu destino após o término do período de seu retiro. Cada vez que dele se aproximava, encontrava-o tão imerso em suas devoções que lhe parecia impossível aventurar-se a lhe fazer uma pergunta. Breve resolveu retirar-se da sociedade dos homens, como ele, por quarenta dias. Todos os seus companheiros seguiram seu exemplo, com exceção de três que atuavam como seus servidores pessoais.

Imediatamente depois de haver completado seus quarenta dias de retiro, Mullá Husayn, junto com seus dois companheiros, partiu para Najáf. Saiu de Karbilá à noite, visitou no caminho o santuário de Najáf e seguiu diretamente a Búshihr, no Golfo Pérsico. Lá iniciou sua sagrada busca do Bem-Amado, o desejo de seu coração. Lá, pela primeira vez, inalou a fragrância dAquele que, durante anos, havia levado a vida de um comerciante e humilde cidadão. Lá percebeu os doces eflúvios de santidade dos quais incontáveis invocações desse Bem-Amado tão ricamente impregnara a atmosfera dessa cidade.

Não podia ele, entretanto, demorar mais tempo em Búshihr. Como se fosse puxado por um ímã que parecia atraí-lo irresistivelmente para o norte, dirigiu-se a Shíráz. Ao chegar aos portões da cidade, deu instruções a seu irmão e a seu sobrinho para que seguissem diretamente ao Masjid-i-Ílkhání e ali aguardassem sua chegada. Expressou a esperança de que, pela vontade de Deus, ele pudesse ali estar em tempo de participar de sua oração vespertina.

Nesse mesmo dia, poucas horas antes do pôr-do-sol, enquanto caminhava fora do portão da cidade, seus olhos de súbito avistaram um Jovem de rosto radiante, que usava um turbante verde e que, dele se aproximando, o saudou com sorriso de amorosas boas-vindas. Abraçou Mullá Husayn com afeto e ternura, como se tivesse sido amigo íntimo por toda vida. Mullá Husayn pensou, de início, que poderia ser um discípulo de Siyyid Kázím que, ao ser informado de sua vinda, havia saído para lhe dar boas-vindas.

Mírzá Ahmad-i-Qazvíní, o mártir, que em várias ocasiões havia ouvido Mullá Husayn relatar aos primeiros crentes as circunstâncias de sua comovente e histórica entrevista com o Báb, contou-me o seguinte: "Tenho ouvido Mullá Husayn descrever repetida e claramente as circunstâncias dessa extraordinária entrevista: O jovem que veio a meu encontro fora do portão de Shíráz assombrou-me com suas expressões de afeto, amor e bondade. Convidou-me cordialmente a visitar Sua casa para ali me refrescar após as fadigas da jornada. Roguei que me desculpasse, explicando que meus dois companheiros já me haviam providenciado hospedagem nessa cidade e estavam, neste momento, esperando meu regresso. "Confia-os aos cuidados de Deus", foi sua resposta, "Ele seguramente os protegerá e vigiará." Dita estas palavras, pediu-me que O seguisse. Senti-me profundamente impressionado com a maneira meiga, ainda que persuasiva, com que me falou esse estranho Jovem. Enquanto eu O seguia, Seu andar, o encanto de Sua voz, a dignidade de Seu porte serviram para realçar minhas primeiras impressões desse inesperado encontro.

"Logo nos encontramos frente ao portão de uma casa de aspecto modesto. Ele bateu na porta, que logo foi aberta por um servente etíope. 'Entrai em paz e segurança' (4), foram Suas palavras enquanto cruzava o limiar e me fazia um sinal para que O seguisse. Seu convite, proferido com poder e majestade, tocou-me a alma. Parecia-me um bom augúrio serem dirigidas tais palavras a mim enquanto eu parava no limiar da primeira casa que iria entrar em Shiráz, cidade cuja própria atmosfera me havia produzido já uma impressão indescritível. Não seria possível, pensei comigo, que minha visita a esta casa permitisse aproximar-me mais do Objetivo de minha busca? Não apressaria o término de um período de intenso anelo, de procura tenaz, de crescente ansiedade que tal busca implica? Enquanto eu entrava na casa, acompanhando meu Anfitrião ao seu aposento, uma inexprimível sensação de alegria invadiu-me o íntimo. Imediatamente depois de sentarmos, Ele ordenou que fosse trazido um jarro de água e me convidou a lavar as mãos e os pés, para lhes tirar as máculas da viagem. Pedi-lhe permissão para me retirar de Sua presença e fazer minhas abluções num quarto contíguo. Recusou conceder minha petição e passou a despejar a água sobre minhas mãos. Deu-me de beber de uma poção refrescante, pedido o samovar (5), no qual Ele mesmo preparou o chá que me ofereceu.

"Constrangido por estes Seus gestos de extrema gentileza, levantei-me para partir. "A hora da oração vespertina aproxima-se", aventurei-me a observar. "Prometi a meus amigos reunir-me a eles, nesta hora, no Masjid-i-Ílkhání." Com profunda cortesia e calma, Ele replicou: "Certamente deveis ter condicionado a hora de vossa volta ao desejo e agrado de Deus. Parece que Seu decreto é outro. Não necessitais recear haver violado vossa promessa". Sua dignidade e confiança emudeceram-me. Renovei minhas abluções e me preparei para orar. Ele também ficou em pé ao meu lado e orou. Enquanto eu orava, aliviei minha alma, que estava demasiado oprimida pelo mistério dessa conversação e pela intensidade e ânsia de minha busca. Sussurrei esta prece: "De toda minha alma, ó meu Deus, esforcei-me por encontrar Teu Mensageiro prometido e até agora tenho fracassado. Testifico que Tua palavra não falha e que Tua promessa é certa".

Essa noite, essa memorável noite, era a véspera do quinto dia de Jamádíyu'l-Avval no ano de 1260 A.H. (6). Era aproximadamente uma hora após o pôr-do-sol quando meu jovem Anfitrião começou a conversar comigo. "Quem, depois de Siyyid Kázím", perguntou Ele, "considerais como seu sucessor e vosso mestre?" "Na hora de sua morte", repliquei, "nosso falecido mestre nos exortou insistentemente a abandonar nossos lares e nos espalhar por toda parte, em busca do prometido Bem-Amado. Conseqüentemente, rumei para a Pérsia, levantei-me para cumprir seu desejo e estou ainda comprometido em minha busca." "O seu mestre", inquiriu-me ainda, "vos deu algumas indicações detalhadas quanto às feições distintivas do Prometido?" "Sim", respondi, "Ele é de linhagem pura, de descendência ilustre e da semente de Fátimih. Quanto à Sua idade, tem mais de vinte anos e menos de trinta. É dotado de conhecimento inato, possui estatura mediante, abstém-se de fumar e está livre de qualquer deficiência física." Guardou silêncio por um momento e, então, com voz vibrante, declarou: "Vede, todos esses sinais estão manifestos em Mim!" Então analisou cada um dos sinais acima mencionados e demonstrou de modo concludente que todos eram aplicáveis à Sua pessoa. Senti-me profundamente admirado e observei de modo cortês: "Aquele Cujo advento esperamos é Homem de inexcedível santidade, e a Causa que Ele há de revelar, uma Causa de tremendo poder. Muitos e diversos são os requisitos que Aquele que pretende ser sua personificação visível deve cumprir. Quantas vezes Siyyid Kázím se referia à vastidão do conhecimento do Prometido! Quantas vezes dizia: 'Meu próprio conhecimento é apenas uma gota em comparação com aquele de que Ele foi dotado. Tudo que atingi nada mais é que uma partícula de pó em face da imensidão de Seu conhecimento. Não, imensurável é a diferença!" Mal haviam saído dos meus lábios estas palavras quando me senti acabrunhado de temor e remorso, a tal ponto que nem pude ocultá-lo nem explicá-lo. Repreendi-me amargamente e resolvi nesse momento mudar minha atitude e suavizar meu tom. Prometi a Deus que se meu Anfitrião se referisse outra vez ao tema, eu, com a maior humildade, responderia, dizendo: "Se vós estais disposto a demonstrar a validade de vossa pretensão, livrar-me-eis seguramente da ansiedade e suspense que em tal grau oprimem minha alma. Estarei em verdade grato a vós por essa libertação". Quando primeiramente iniciei minha busca, determinei-me a considerar os dois seguintes critérios pelos quais pudesse me certificar da verdade de qualquer um que pretendesse ser o prometido Qá'im. O primeiro foi um tratado que eu mesmo havia composto, que se referia aos ensinamentos abstrusos e ocultos exposto por Shaykh Ahmad e Siyyid Kázím. A qualquer um que me parecesse capaz de desvendar as misteriosas alusões feitas nesse tratado, eu submeteria então meu segundo pedido e pediria a ele que revelasse sem a mínima vacilação ou reflexão a um comentário sobre a Sura de José, num estilo e linguagem inteiramente diferentes dos padrões que prevaleciam na época. Em ocasião anterior havia eu pedido a Siyyid Kázím, particularmente, que escrevesse um comentário sobre essa mesma Sura, ao que ele recusou, dizendo: "Isto, em verdade, está além de meus poderes. Aquele Grande Ser que vem depois de mim haverá de revelá-lo para vós, sem ser solicitado. Esse comentário constituirá um dos mais importantes testemunhos de Sua verdade e uma das evidências mais claras da sua elevada posição". (7)

"Revolvia estas coisas em minha mente quando meu distinto Anfitrião novamente observou: "Notai atentamente. Não poderia a Pessoa mencionada por Siyyid Kázím ser nenhum outro senão eu?" Com isso me senti impelido a lhe apresentar uma cópia do tratado que levava comigo. "Quereis vós", pedi-lhe, "ler este meu livro e examinar suas páginas com olhos indulgentes? Suplico que não repareis em minhas fraquezas e falhas." Cortesmente satisfez Ele meu desejo. Abriu o livro, olhou rapidamente certos trechos, fechou-o e começou a falar. Dentro de alguns minutos havia Ele, com vigor e encanto característico, desvendado todos os seus mistérios e resolvido todos os seus problemas. Havendo em tão pouco tempo cumprido, para minha inteira satisfação, a tarefa que eu esperava que executasse, Ele então expôs certas verdades que não poderiam ser encontradas nem nos dizeres atribuídos aos imames da Fé nem nos escritos de Shaykh Ahmad e Siyyid Kázím. Estas verdades, que nunca antes eu havia ouvido, pareciam estar dotadas de brilho e poder refrescantes. "Não tivesses sido Meu hóspede", observou depois, "de fato teria sido grave tua posição. A graça de Deus que tudo abarca te salvou. A Deus compete provar Seus servos, e não a Seus servos julgá-Lo de acordo com suas normas deficientes. Fosse Eu falhar em dissipar tuas perplexidades, poderia se considerar impotente a Realidade que dentro de Mim resplandece, ou acusar de defeituoso Meu conhecimento? Não, pela justiça de Deus! Incumbe, neste dia, aos povos e nações, tanto do Oriente como do Ocidente, apressarem-se para alcançar este limiar e aqui se esforçarem por obter a graça vivificadora do Misericordioso. Quem vacilar sofrerá, em verdade, uma perda grave. Não atestam os povos da Terra ser o propósito fundamental de sua criação o conhecimento e a adoração de Deus? Cumpre-lhes levantarem-se com o mesmo fervor e espontaneidade com que tu te levantaste e buscar com determinação e constância seu prometido Bem-Amado." Logo prosseguiu dizendo: "Agora é chegado o tempo de revelar o comentário sobre a Sura de José". Tomou Sua pena e, com incrível rapidez, revelou toda a Sura de Mulk, o primeiro capítulo de Seu comentário sobre a Sura de José. O poderoso efeito da maneira como escrevia foi aumentado pela suave entoação de Sua voz, que acompanhava seu escrito. Nem por um momento interrompeu Ele o fluxo de versículos que manava de Sua pena. Nenhuma só vez se deteve antes de completar a Sura de Mulk. Permaneci sentado, extasiado pela magia de sua voz e pela força arrebatadora de Sua Revelação. Com relutância, afinal, levantei-me de meu assento e pedi que me permitisse partir. Sorrindo, Ele mandou-me sentar e disse: "Se saíres nesse estado, qualquer um que te veja dirá seguramente: 'Este pobre jovem perdeu o juízo". Nesse momento o relógio marcou duas horas e onze minutos depois do pôr-do-sol (8). Essa noite, véspera do quinto dia depois de Jamádíyu'l-Avval, no ano de 1260 A.H., correspondia à véspera do sexagésimo quinto dia depois de Naw-Rúz, que também era a véspera do sexto dia de Khurdád, do ano Nahang. "Esta noite", declarou Ele, "nesta mesma hora, será celebrada, em dias vindouros, como uma das maiores e mais significativas de todos os festivais. Rende agradecimentos a Deus por te haver ajudado, com sua graça, a atingir o desejo de teu coração, por haveres sorvido do vinho selado de Suas palavras. 'Bem-aventurados os que a isto atingem.'" (9)

Na terceira hora após o pôr-do-sol, meu Anfitrião mandou servir a ceia. O mesmo servente etíope apareceu de novo e pôs diante de nós os mais seletos pratos. Essa sagrada refeição refrescou tanto meu corpo quanto meu espírito. Na presença de meu Anfitrião, nesse momento, senti como se estivesse me alimentado com os frutos do Paraíso. Não podia senão maravilhar-me dos modos e das devotadas atenções desse servo etíope cuja própria vida parecia ter sido transformada pela influência regeneradora de Seu Mestre. Então pela primeira vez reconheci o que significavam as bem-conhecidas palavras tradicionais atribuídas a Maomé: "Preparei para os piedosos e os retos dentre Meus servos o que os olhos jamais viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano concebeu". Tivesse meu jovem Anfitrião somente esta prova de grandeza, teria sido suficiente - me recebeu com tal grau de hospitalidade e amorosa bondade, estando eu convencido de que nenhum outro ser humano poderia possivelmente revelar.

Continuei sentado, fascinado por Suas palavras, esquecido do tempo e daqueles que me esperavam. De súbito a chamada do muezim, convocando os fiéis à sua oração matinal, despertou-me do estado de êxtase em que pareceria haver caído. Todas as delícias, todas as glórias inefáveis que o Todo-Poderoso relatou em Seu Livro como as inestimáveis possessões do povo do Paraíso, estas eu parecia estar experimentando nessa noite. Parece-me que estava num lugar do qual em verdade se poderia verdadeiramente dizer: "Ali nenhuma faina nos alcançará, nenhuma fadiga nos haverá de tocar; não ouvirão ali nenhum discurso vão, nem falsidade alguma, mas, sim, apenas a exclamação: Paz! Paz!. "Sua exclamação ali será, 'Glória a Ti, ó Deus!' e sua saudação ali será: 'Paz! E o término de sua exclamação, 'Louvor a Deus, Senhor de todas as criaturas!'" (10)

O sono havia-me abandonado nessa noite. Cativara-me a música dessa voz que subia e baixava enquanto Ele entoava; ora crescendo com a revelação de versículos do Qayyúmu'l-Asmá (11), ora adquirindo harmonias sutis e etéreas, à medida que Ele pronunciava as orações que estava revelando (12). No fim de cada invocação, repetia este versículo: "Longe da glória de teu Senhor, o Todo-Glorioso, esteja o que Suas criaturas dEle afirmam! E paz esteja sobre Seus Mensageiros! E louvor a Deus, o Senhor de todos os seres!" (13)

Dirigiu-se a mim então nestas palavras: "Ó tu que és o primeiro a crer em Mim. Em verdade digo, sou o Báb, a Porta de Deus, e tu és o Bábu'l-Báb, a porta desta Porta. Dezoito almas devem, por sua própria e espontânea vontade no princípio, aceitar-me e reconhecer a verdade de Minha Revelação. Sem que ninguém lhes advirta ou convide, cada uma destas almas, independentemente, deve sair em Minha busca. Quando seu número estiver completo, um deles deve ser escolhido para acompanhar-Me em Minha peregrinação a Meca e Medina. Ali entregarei a Mensagem de Deus ao Sharíf de Meca. Regressarei então a Kúfih, onde, mais uma vez, no Masjid dessa cidade santa, manifestarei a Sua Causa. Incumbe-te não divulgar nem aos teus companheiros nem a qualquer outra alma o que tens visto e ouvido. Ocupa-te no Masjid-i-Ilkhání em oração e em ensino. Eu também ali contido tomarei parte na oração congregacional. Tem cuidado para que tua atitude para comigo não desvende o segredo de tua fé. Deves continuar nessa ocupação e manter essa atitude até nossa partida para Hijáz. Antes de partirmos, designaremos a missão especial de cada uma das dezoito almas e as mandaremos sair para cumprir sua tarefa. Nós as incumbiremos de ensinar a Palavra de Deus e vivificar as almas dos homens". Após me haver dito estas palavras, despediu-me de Sua presença. Acompanhando-me à porta da casa, entregou-me ao cuidado de Deus.

"Esta Revelação, que tão repentina e impetuosamente foi confiada a mim, veio como um corisco, que, por algum tempo, parecia haver entorpecido minhas faculdades (14). Cegou-me seu deslumbrante esplendor e sua força esmagadora. Excitação, júbilo, reverência e admiração agitavam as profundezas de minha alma. Predominante entre estas emoções era uma sensação de alegria e poder que parecia me haver transfigurado.

Quão débil e impotente, quão deprimido e temido me sentira antes! Então não podia escrever nem andar, tão trêmulas estavam minhas mãos e meus pés. Agora, porém, o conhecimento de Sua Revelação galvanizara meu ser. Senti que possuía tal coragem e tal poder que se o mundo, todos os seus povos e seus potentados fossem se levantar contra mim, eu só e destemido resistiria a sua investida. O universo parecia-me nada mais que um punhado de pó em minha mão. Eu parecia ser a Voz de Gabriel personificada, chamando toda a humanidade:'" "Despertai, pois vede!, despontou a Luz do amanhecer. Levantai-vos, pois Sua Causa se tornou manifesta. O portal de Sua Graça está completamente aberto; entrai aí, ó povos do mundo! Pois Aquele que é vosso Prometido já veio!"

"Em tal estado deixei Sua casa e fui ao encontro de meu irmão e meu sobrinho. Muitos dos seguidores de Shaykh Ahmad, que souberam de minha chegada, estavam reunidos no Masjid-i-Ilkhání à minha espera. Fiel às instruções do meu recém-encontrado Bem-Amado, logo me dispus a levar a cabo Seus desejos. A medida que começava a organizar minhas aulas e praticar minhas devoções, gradualmente vinha se reunindo ao meu redor uma vasta multidão de pessoas. Dignatários eclesiásticos e oficiais da cidade também vieram me visitar. Maravilharam-se com o espírito que meus discursos revelavam, sem perceber que a Fonte de onde fluía meu conhecimento outra não era senão Aquele cujo advento eles, ansiosamente, esperavam em sua maioria.

"Durante esses dias o Báb, em várias ocasiões, me chamou para ir visitá-Lo. À noite, enviava o mesmo servo etíope ao masjid, com sua mais afetuosa mensagem de boas-vindas. Cada vez que o visitava, passava a noite inteira em Sua presença. Desperto até o alvorecer, permanecia sentado a Seus pés, fascinado pelo encanto de Suas palavras e esquecido do mundo e de suas preocupações e fainas. Com que rapidez voavam essas horas preciosas! Ao amanhecer, retirava-me de Sua presença com relutância. Com quanta ansiedade naqueles dias, esperava que a hora do anoitecer se aproximasse! Com que sentimentos de tristeza e pesar contemplava o amanhecer do dia! Durante uma dessas visitas noturnas, meu Anfitrião se dirigiu a mim nas seguintes palavras: "Amanhã chegarão treze de teus companheiros. A cada um deles mostra a maior bondade e amor. Não os abandones, porque dedicaram suas vidas à busca de seu Bem-Amado. Suplica a Deus que Ele com Sua graça os ajude a andar seguramente nessa senda que é mais delgada que um cabelo e mais afiada que uma espada. Alguns dentre eles serão considerados, aos olhos de Deus, como Seus discípulos escolhidos e favorecidos. Quanto aos outros, seguirão o caminho intermediário. O destino dos demais permanecerá desconhecido até a hora em que tudo o que está oculto se fará manifesto". (15)

"Nessa mesma manhã, ao alvorecer, pouco depois de meu regresso da casa do Báb, Mullá Alíy-i-Bastámí, seguido pelo mesmo número de companheiros que me fora indicado, chegou no Masjid-i-Ílkhání. Logo comecei a providenciar os meios para seu conforto. Uma noite, poucos dias após sua chegada, Mullá 'Alí, como porta-voz de seus companheiros, externou sentimentos que não mais podia reprimir. "Bem sabes", disse, "como é grande nossa confiança em ti. Nós te dedicamos tamanha lealdade que se te declarassem o prometido Qá'ím, todos nos submeteríamos sem vacilação. Obedientes a tua chamada, temos abandonado nossos lares e partido em busca de nosso prometido Bem-Amado. Tu foste o primeiro a dar a todos nós esse nobre exemplo. Seguimos tuas pegadas. Estamos determinados a não relaxar nossos esforços antes de encontrarmos o Objeto de nossa busca. Nós te seguimos a este lugar dispostos a reconhecer a qualquer um que tu aceites, na esperança de buscar o abrigo de Sua proteção e de passar com êxito pelo tumulto e agitação que por força hão de assinalar a última Hora. Como é que agora te vemos ensinar ao povo e dirigir suas orações e devoções com a maior tranqüilidade? Aqueles sinais de agitação e expectativa parecem ter-se desvanecido de teu semblante. Diz-nos a razão, te imploramos, a fim de que também possamos ser livrados de nosso presente estado de incerteza e dúvida." "Teus companheiros", observei suavemente, "naturalmente podem atribuir minha paz e serenidade à ascendência que pareço haver adquirido nesta cidade. A verdade está longe disso. O mundo, eu te asseguro, com toda a sua pompa e suas seduções, jamais poderá alienar este Husayn de Bushrúyih de seu Bem-Amado. Sempre, desde o princípio desta sagrada missão em que embarquei, tenho jurado selar, com meu sangue vital, meu próprio destino. Por Sua causa tenho enfrentado com prazer a imersão num oceano de tribulação. Não anelo as coisas deste mundo. Só anseio pelo beneplácito de meu Bem-Amado. Até que derrame meu sangue por Seu Nome, o fogo que arde dentro de mim não se extinguirá. Apraza a Deus que vivas até presenciar esse dia. Não poderiam haver pensado teus companheiros que, em virtude da intensidade de seu anelo e da constância de seus esforços, Deus, em Sua infinita misericórdia, tenha se dignado a abrir bondosamente ante a face de Mullá Husayn a Porta de Sua graça e, desejando ocultar este fato de acordo com sua inescrutável sabedoria, o tenha mandado ocupar-se destas coisas? Estas palavras comoveram a alma de Mullá 'Alí. De imediato percebeu o que significavam. Com olhos lacrimosos me implorou que revelasse a identidade dAquele que transformara em paz minha agitação e convertera em certeza minha ansiedade. "Adjuro-te", instava ele, "que me confiras uma parte dessa sagrada poção que a Mão da misericórdia te deu de beber, pois seguramente me aliviará a sede e abrandará a dor de anelo em meu coração." "Não me solicites", repliquei, "a conceder-te este favor. Nele esteja tua confiança, pois decerto Ele te guiará os passos e acalmará o tumulto do coração."

Mullá 'Alí apressou-se em ir aos companheiros e lhes dar a conhecer a natureza de sua conversação com Mullá Husayn. Inflamados com o fogo que o relato dessa conversação acendera em seus corações, logo se dispersaram e, procurando a privacidade de suas celas, imploraram, mediante jejum e oração, que de pronto fosse removido o véu interposto entre eles e o reconhecimento de seu Bem-Amado. Enquanto guardavam vigília, oravam: "Ó Deus, nosso Deus! Só a Ti adoramos e a Ti pedimos ajuda. Guia-nos, Te suplicamos, ao Caminho reto, ó Senhor nosso Deus! Cumpre o que nos prometeste por Teus apóstolos e não nos humilhes no Dia da Ressurreição. Em verdade, não deixarás de cumprir Tua promessa."

Na terceira noite de seu retiro, enquanto, absorto em oração, Mullá 'Alíy-i-Bastámí teve uma visão. Apareceu ante seus olhos uma luz e, eis!, essa luz ia-se afastando de sua frente. Seduzido pelo seu esplendor, seguiu-a, até que o levou a seu Bem-Amado prometido. Nessa mesma hora, na vigília da meia-noite, levantou-se e, transbordando de júbilo e radiante de alegria, abriu a porta de seu aposento e apressou-se a ter com Mullá Husayn. Lançou-se nos braços de seu companheiro tão reverenciado. Mullá Husayn abraçou-o muito carinhosamente e disse: "Louvado seja Deus que nos guiou até aqui. Não teríamos sido guiados, não tivesse Deus nos guiado!"

Na mesma manhã, ao romper do dia, Mullá Husayn, seguido por Mullá 'Alí, apressou-se em ir à residência do Báb. Na entrada de Sua casa, encontraram o fiel servo etíope, que os reconheceu de imediato e os saudou nestas palavras: "Antes do despontar do dia, fui chamado à presença de meu Mestre e Ele me mandou abrir a porta da casa e permanecer esperando em seu limiar". "Dois hóspedes", disse-me, "hão de chegar cedo esta manhã. Dá-lhes em Meu Nome calorosas boas-vindas. Dize-lhes por Mim: 'Entrem em nome de Deus'."

O primeiro encontro de Mullá 'Alí com o Báb, que foi análogo ao encontro com Mullá Husayn, diferiu somente neste respeito, que enquanto no encontro anterior os testemunhos e provas da missão do Báb foram expostos e averiguados com olhos críticos, neste, todo argumento havia sido deixado de lado, não prevalecendo senão o espírito de intensa adoração e íntima e fervorosa amizade. Todo o aposento parecia haver sido vitalizado por esse poder celestial que emanava de Suas palavras inspiradas. Tudo nessa sala parecia estar vibrando com este testemunho: "Em verdade, rompeu a alvorada de um novo Dia. O Prometido está entronizado no coração dos homens. Em Sua mão segura a taça mística, o cálice da imortalidade. Bem-aventurados os que dela sorvem!"

Cada um dos doze companheiros de Mullá 'Alí por sua vez, espontaneamente, por seu próprio esforço, saiu em busca e encontrou seu Bem-Amado. Alguns adormecidos, outros acordados, enquanto alguns poucos em oração, e outros ainda em seus momentos de contemplação perceberam a luz desta Revelação Divina e foram levados a reconhecer o poder de sua glória. De igual maneira que Mullá 'Alí, estes e alguns mais, acompanhados por Mullá Husayn, atingiram a presença do Báb e foram declarados "Letras dos Viventes". Dezessete Letras foram gradativamente registradas na Epístola Preservada de Deus, sendo designados como os Apóstolos eleitos do Báb, os ministros de Sua Fé e os difusores de Sua Luz.

Uma noite, durante Sua conversação com Mullá Husayn, o Báb disse estas palavras: "Dezessete Letras até agora se registraram sob o estandarte da Fé de Deus. Resta mais uma para completar o número. Estas Letras dos Viventes haverão de se levantar para proclamar Minha Causa e estabelecer Minha Fé. Amanhã à noite chegará a Letra restante, completando o número de Meus discípulos escolhidos". No dia seguinte ao anoitecer, enquanto o Báb, seguido por Mullá Husayn, regressava à Sua casa, apareceu um jovem desgrenhado e empoeirado da jornada. Aproximou-se de Mullá Husayn, abraçou-o e lhe perguntou se havia atingido seu objetivo. Mullá Husayn de início tentou acalmar sua agitação e o aconselhou que descansasse por enquanto, prometendo que mais tarde o esclareceria. Esse jovem, no entanto, recusou aceitar seu conselho. Fixando seu olhar no Báb, disse a Mullá Husayn: "Por que escondê-Lo de mim? Posso reconhecê-Lo pelo Seu andar. Com confiança atesto que ninguém, senão Ele, quer no Oriente ou no Ocidente, pode pretender ser a Verdade. Nenhum outro pode manifestar o poder e a majestade que se irradiam de Sua santa pessoa". Mullá Husayn maravilhou-se de suas palavras. Pediu que o desculpasse, porém o induziu a restringir as emoções até o momento em que ele o pudesse fazer conhecer a verdade. Deixando-o, apressou-se a se aproximar do Báb, a quem informou de sua conversação com esse jovem. "Não te maravilhes", observou o Báb, "de sua estranha conduta. No mundo do espírito temos estado comungando, com esse jovem. Nós já o conhecemos. De fato, esperávamos sua vinda. Vai a ele e o chame imediatamente à Nossa presença." Ao ouvir estas palavras do Báb, Mullá Husayn recordou neste instante a seguinte tradição oral: "No último Dia, os Homens do Invisível, com as asas do espírito, haverão de atravessar a imensidade da Terra, atingir a presença do prometido Qá'ím e Dele buscar o segredo que lhes resolverá seus problemas e removerá Suas perplexidades".

Embora distantes em corpo, estas almas heróicas ocupam-se em comunhão diária com seu Bem-Amado, participam da graça de Suas palavras e compartilham o supremo privilégio de Sua companhia. De outro modo, como teriam Shaykh Ahmad e Siyyid Kázím podido saber do Báb? Como teriam podido perceber o que significava o segredo que nEle jazia oculto? Como poderia o próprio Báb, como poderia Quddús, Seu querido discípulo, haver escrito em tais termos, não tivesse o místico laço do espírito ligado suas almas? Não aludiu o Báb, nos primeiros dias de Sua missão, nas passagens iniciais do Qayyúmu'l-Asmá, Seu comentário sobre a Sura de José, à glória e significação da Revelação de Bahá'u'lláh? Não foi Seu propósito, ao se referir à ingratidão e malícia que caracterizavam o trato dado a José pelos seus irmãos, predizer o que estava Bahá'u'lláh destinado a sofrer nas mãos de Seu irmão e familiares? Não esteve Quddús, ainda que assediado dentro da fortaleza de Shaykh Tabarsí pelos batalhões e pelo fogo de um inimigo implacável, ocupado dia e noite em completar seu elogio de Bahá'u'lláh - esse comentário imortal sobre o Sád de Samad que já havia alcançado o volume de quinhentos mil versículos? Cada versículo do Qayyúmu'l-Asmá, cada palavra do supracitado comentário de Quddús, se forem examinados desapaixonadamente, dará testemunho eloqüente desta verdade.

A aceitação por Quddús da verdade da Revelação do Báb completou o número designado de Seus discípulos escolhidos. Quddús, cujo nome era Muhammad-'Alí, pela sua mãe, era descendente direto do Imame Hasan, neto do Profeta Maomé. (16) Nasceu em Bárfurúsh, na província de Mázindarán. Os que assistiam aos discursos de Siyyid Kázím têm dito que, nos últimos anos da vida deste, Quddús se registrou como um dos discípulos do Siyyid. Era o último a chegar e invariavelmente ocupava o assento mais humilde na assembléia. Era o primeiro a partir ao término de cada reunião. O silêncio que ele observava e a modéstia de seu comportamento o distinguiam do resto de seus companheiros. Com freqüência se ouvia Siyyid Kázím observar que alguns entre seus discípulos, embora ocupassem os lugares mais humildes e observassem o mais estrito silêncio, eram no entanto tão exaltados aos olhos de Deus que ele mesmo se sentia indigno de figurar entre seus servidores. Seus discípulos, se bem que notassem a humildade de Quddús e admitissem o caráter exemplar de sua conduta, não vieram a perceber o que queria dizer Siyyid Kázím. Quando Quddús chegou em Shíráz e abraçou a Fé declarada pelo Báb, ele tinha apenas vinte e dois anos de idade. Embora jovem em idade, mostrou essa coragem e fé indomável que nenhum dos discípulos de seu mestre podia ultrapassar. Exemplificou pela sua vida e pelo seu glorioso martírio a verdade desta tradição: "Quem me buscar, haverá de Me encontrar. Quem Me encontrar, será atraído a Mim. Quem for atraído a Mim, haverá de Me amar. A qualquer um que Me ama, Eu também amarei. Àquele que for amado por Mim, hei de matar. Para aquele que for morto por Mim, Eu mesmo serei seu resgate".

O Báb, cujo nome era Siyyid 'Alí-Muhammad (17), nasceu na cidade de Shíráz, no primeiro dia de Muharram, no ano de 1235 A.H. (18) Pertencia a uma família de renome por sua nobreza e, cuja origem remontava ao próprio Maomé. A data de Seu nascimento confirmou a verdade da profecia tradicionalmente atribuída ao Imame 'Alí: "Sou dois anos mais jovem que meu Senhor". Vinte e cinco anos, quatro meses e quatro dias haviam transcorrido desde o dia de Seu nascimento quando declarou Sua Missão. Na primeira infância, perdeu o pai, Siyyid Muhammad-Ridá (19), um homem conhecido em toda a província de Fárs por sua piedade e virtude e tido em alta estima e honra. Tanto Seu pai quanto Sua mãe eram descendentes do Profeta, sendo ambos amados e respeitados pelo povo. Foi criado por Seu tio materno, Hájí Mírzá Siyyid 'Alí, um mártir para a Fé, que O pôs, ainda criança, sob os cuidados de um tutor chamado Shaykh 'Ábid.(20) O Báb, embora tivesse pouca inclinação para o estudo, submeteu-se à vontade e às instruções de Seu tio.

Shaykh 'Ábid, conhecido pelos seus alunos como Shaykhuná, era um homem piedoso e erudito. Fora discípulo tanto de Shaykh Ahmad como de Siyyid Kázím. "Um dia", relatou, "pedi ao Báb que recitasse as palavras iniciais do Alcorão: 'Bismi'lláhi'r-Rahmáni'r-Rahím'. (21) Ele hesitou, pedindo que, a não ser que lhe fosse dito o que estas palavras significavam, não iria de modo algum tentar pronunciá-las. Fingi não conhecer seu significado. 'Sei o que estas palavras significam', observou meu aluno, 'com vossa permissão, explicá-las-ei.' Falou com tanto conhecimento e fluência que me senti assombrado. Expôs o significado de Alláh de Rahmán e Rahím em termos que eu jamais havia lido nem ouvido. A doçura de Sua expressão ainda se detém em minha memória. Senti-me impelido a levá-lo de volta a Seu tio, a entregar em suas mãos a incumbência que havia confiado a meus cuidados. Estava decidido a lhe dizer quanto me sentia indigno de educar um menino tão extraordinário. Encontrei Seu tio sozinho em seu trabalho. 'Vim trazê-Lo de volta a vós', disse-lhe, 'e entregá-Lo a vossa vigilante proteção. Não há de ser tratado como um menino qualquer, pois nEle já posso discernir as evidências daquele poder misterioso que a Revelação do Sáhibu'z-Zamán (22) tão somente pode revelar. Incumbe-vos rodeá-Lo de vosso mais carinhoso cuidado. Guardai-O em vossa casa, porque Ele em verdade não necessita de mestres como eu.' Hájí Mírzá Siyyid 'Alí severamente repreendeu o Báb. 'Tens esquecido minhas instruções?', perguntou. 'Já não lhe adverti que seguisses o exemplo de Teus condiscípulos, que guardasses silêncio e escutasses atentamente cada palavra dita pelo Teu mestre?' Havendo obtido Sua promessa de cumprir fielmente suas instruções, mandou o Báb voltar a Sua escola. A alma dessa criança, porém, não podia ser reprimida pelas austeras advertências de Seu tio. Nenhuma disciplina poderia reprimir o fluxo de Seu conhecimento intuitivo. Dia após dia continuava a manifestar sinais tão extraordinários de sabedoria que sou incapaz de relatar." Finalmente foi Seu tio induzido a tirá-Lo da escola de Shaykh 'Ábid e associá-Lo consigo em sua própria profissão. (23) Lá também manifestou sinais de um poder e uma grandeza que poucos podiam aproximar e ninguém rivalizar.

Alguns anos mais tarde (24) o Báb foi unido em matrimônio com a irmã de Mírzá Siyyid Hasan e Mírzá Abu'l-Qásim. (25) Ao filho que nasceu desta união deu o nome de Ahmad. (26) Morreu no ano de 1259 A.H. (27), o ano precedente à declaração da Fé pelo Báb. O Pai não lamentou sua perda. Consagrou sua morte com palavras como estas: "Ó Deus, meu Deus! Oxalá fossem dados mil Ismaéis a Mim, este Abraão Teu, para que Eu os pudesse ter oferecido, cada um e todos, como sacrifício de amor a Ti. Ó meu Bem-Amado, o Desejo de meu coração! O sacrifício deste Ahmad que Teu servo 'Alí-Muhammad ofereceu no altar de Teu amor jamais pode bastar para extinguir a chama de anelo em Seu coração. Enquanto Ele não imolar Seu próprio coração aos Teus pés, enquanto todo o Seu corpo não cair vítima da tirania mais cruel em Teu caminho e Seu peito não se tornar alvo de incontáveis dardos por Tua causa, não se aquietará o tumulto de Sua alma. Ó meu Deus, meu único Desejo! Permite que o sacrifício de Meu filho, Meu único filho, Te seja aceitável. Concede que seja um prelúdio para o sacrifício de Meu próprio Ser, de todo o Meu ser, na senda de Teu beneplácito. Imbui de Tua graça Meu sangue vital, que eu anseio por derramar em Teu caminho. Faze-o regar e nutrir a semente de Tua Fé. Dota-o de Tua potência celestial, para que esta recém-nascida semente de Deus possa breve germinar nos corações dos homens, que medre e floresça, crescendo até se tornar uma grande árvore, sob cuja sombra possam se reunir todos os povos e raças da Terra. Responde Tu a Minha prece, ó Deus, e cumpre Meu mais acariciado desejo. Tu és, em verdade, o Onipotente, o Todo-Generoso". (28)

Os dias que Báb dedicou às ocupações comerciais foram passados, em sua maior parte, em Búshihr. (29) O calor opressivo do verão não O impediu de devotar, cada sexta-feira, algumas horas à adoração contínua no alto de Sua casa. Embora exposto aos impiedosos raios do sol do meio-dia, volvendo o coração ao Seu Bem-Amado, continuava a comungar com Ele, inconsciente da intensidade do calor e esquecido do mundo em volta de Si. Desde a primeira alvorada até o nascer do sol, e do meio-dia ao fim da tarde, dedicava Seu tempo à meditação e piedosa adoração. Volvendo seu olhar para o norte, em direção a Teerã, todos os dias ao alvorecer, com o coração transbordante de amor e júbilo, saudava o sol nascente, que para Ele era sinal e símbolo daquele Sol de Verdade que breve despontaria sobre o mundo. Como o apaixonado que contempla a face da bem-amada, fitava Ele o orbe nascente com anelo e constância. Parecia estar-se dirigindo, em linguagem mística, àquele luminar brilhante e estar-lhe confiando Sua mensagem de anelo e amor pelo Seu Bem-Amado oculto. Com tão extático deleite saudava seus raios resplandecentes que os incautos e pouco esclarecidos ao seu redor pensavam Ele estar enamorado do próprio sol. (30)

Tenho ouvido Hájí Siyyid Javád-i-Karbilá'í (31) relatar o seguinte: "Enquanto viajava à Índia, passei por Búshihr. Como já conhecia Hájí Mírzá Siyyid'Alí, foi possível me encontrar com o Báb em várias ocasiões. Todas as vezes que O encontrei, eu O achei em tal estado de humildade e modéstia que não encontro palavras para descrevê-Lo. Seus olhos baixos, sua cortesia extrema e a expressão serena de Sua face causaram uma impressão indelével em minha alma. (32) Com freqüência ouvia aqueles que lhe estavam estreitamente associados testemunharem a pureza de Seu caráter, o encanto de Seus modos, Sua abnegação, o alto grau de Sua integridade e Sua completa devoção a Deus. (33) Certo homem confiou-lhe uma mercadoria, pedindo que desta dispusesse por um determinado preço. Quando o Báb lhe enviou o valor do objeto, o homem verificou que a soma que lhe fora oferecida excedia consideravelmente o limite fixado. Escreveu de imediato ao Báb, pedindo que lhe explicasse a razão. O Báb respondeu: "O que vos enviei é exatamente o que vos é devido. Não há um só centavo em excesso daquilo a que tendes direito. Houve um tempo em que o objeto que Me entregastes alcançou esse valor. Como deixei de vendê-lo por esse preço, considero que agora é Meu dever oferecer-vos essa quantia total". Por mais que o cliente do Báb rogasse permitir que lhe devolvesse a soma em excesso, O Báb persistiu em recusar.

"Com que assíduo cuidado Ele assistia àquelas reuniões nas quais eram elogiadas as virtudes do Siyyidu'sh-Shuhadá', o Imame Husayn! Com quanta atenção escutava a entoação dos elogios! Que ternura e devoção demonstrava nessas cenas de lamento e prece! Lágrimas choviam de Seus olhos enquanto Seus lábios trêmulos murmuravam palavras de oração e louvor. Quão comovedora era Sua dignidade, quão ternos os sentimentos que seu semblante inspirava!"

Quanto àqueles cujo privilégio supremo foi ser registrados pelo Báb no livro de Sua Revelação como Suas escolhidas Letras dos Viventes, seus nomes são os seguintes:

Mullá Husayn-i-Bushrú'í,
Muhammad-Hasan, seu irmão,
Muhammad-Báqir, seu sobrinho,
Mullá 'Alíy-i-Bastámí,

Mullá Khudá-Bakhsh-i-Qúchání, mais tarde chamado Mullá'Alí,

Mullá Hasan-i-Bajistání,
Siyyid Husayn-i-Yazdí,
Mírzá Muhammad Rawdih-Khán-i-Yazdí,
Sa'id-i-Hindí,
Mullá Mahmúd-i-Khu'í,
Mullá Jalíl-i-Urúmí,
Mullá Ahmad-i-Ibdál-i-Marághi'í,
Mullá Báqir-i-Tabrízí,
Mullá Yúsif-i-Ardibílí,

Mírzá Hádí, filho de Mullá 'Abdu'l-Vahháb-i-Qazviní,

Mírzá Muhammad-'Alíy-i-Qazviní (34),
Táhirih (35),
Quddús.

Todos estes, com exceção somente de Táhirih, atingiram a presença do Báb e foram por Ele pessoalmente investidos da distinção desse grau. Foi ela quem, sabendo que o esposo de sua irmã, Mírzá Muhammad-'Alí, tencionava partir de Qazvín, lhe confiou uma carta lacrada, pedindo que a entregasse Àquele Prometido a quem ela disse que seguramente ele haveria de encontrar no curso de sua viagem. "Diga-Lhe, de mim", acrescentou, "a refulgência de Tua face cintilou e os raios de Teu semblante remontaram ao alto. Então pronuncie as palavras "Não sou Eu teu Senhor?", e "Tu és, Tu és!" nós todos responderemos.'" (36)

Mírzá Muhammad-'Alí no fim encontrou e reconheceu o Báb e lhe transmitiu tanto a mensagem como a carta de Táhirih. O Báb de imediato a declarou uma das Letras dos Viventes. Seu pai, Hájí Mullá Sálih-i-Qazvíní e seu irmão, Mullá Taqí eram ambos mujtahids de grande renome (37), versados nas tradições da lei muçulmana e universalmente respeitados pelas pessoas de Teerã, Qazvin e outras das cidades principais da Pérsia. Ela era casada com Mullá Muhammad, filho de seu tio, Mullá Taqí, a quem os xiitas deram o nome de Shahíd-i-Thálith. (38) Embora sua família pertencesse aos Bálá-Sarí, somente Táhirih mostrava, desde o princípio, notável simpatia e devoção a Siyyid Kázím. Como evidência de sua admiração pessoal por ele, escreveu uma apologia em defesa e justificação dos ensinamentos de Shaykh Ahmad e lhe apresentou. A esta recebeu ela muito breve uma resposta redigida em termos os mais afetuosos, em cujas passagens iniciais o Siyyid lhe dirigiu estas palavras: "Ó tu que és o consolo de meus olhos (Yá Qurrat-i-'Ayní!) e o júbilo de meu coração!" Sempre, desde aquele tempo, ela tem sido conhecida como Qurratu'l-'Ayn. Depois da reunião histórica de Badasht, grande número dos que assistiram assombrou-se diante da intrepidez e linguagem franca dessa heroína a ponto de achar ser seu dever informar o Báb do caráter de seu comportamento assustador e sem precedentes. Tentaram macular a pureza de seu nome. Àquelas acusações o Báb replicou: "Que direi Eu daquela a quem a Língua de Poder e Glória deu o nome de Táhirih (a pura)?" Estas palavras bastaram para silenciar aqueles que haviam tentado lhe minar a posição. Desde então foi ela designada pelos crentes Táhirih. (39)

Convém dizermos agora algumas palavras em explicação do termo Bálá-Sarí. Shaykh Ahmad e Siyyid Kázím, bem como seus seguidores, quando visitavam o santuário do Imame Husayn em Karbilá, ocupavam invariavelmente, como sinal de reverência, o extremo inferior do sepulcro. Além deste jamais passaram, enquanto outros devotos, os Bálá-Sarí, recitavam suas orações na seção superior desse santuário. Os shaykhís, por acreditarem que "todo crente verdadeiro vive tanto neste mundo, quanto no vindouro", acharam que era indecoroso e impróprio ultrapassar os limites das seções inferiores do santuário do Imame Husayn, o qual aos seus olhos era a própria personificação do crente mais perfeito. (40)

Mullá Husayn, que esperava ser o companheiro escolhido do Báb durante Sua peregrinação a Meca e Medina, foi chamado para a presença de seu Mestre quando decidiu partir de Shíráz, e dele recebeu as seguintes instruções: "Os dias de nosso companheirismo aproxima-se do fim. Meu Convênio contigo está agora cumprido. Prepara-te para os máximos esforços e te levanta para difundir Minha Causa. Não te desalentes ao veres a degradação e perversidade desta geração, pois o Senhor do Convênio há seguramente de te assistir. Em verdade, Ele rodear-te-á com Sua amorosa proteção e te conduzirá de vitória em vitória. Assim mesmo como a nuvem que faz chover sobre a terra sua graça, atravessa o país de extremo a extremo e derrama sobre seu povo as bênçãos que o Todo-Poderoso, em Sua misericórdia, se dignou te conferir. Sê tolerante para com os ulemás e te resigna à vontade de Deus. Levanta o chamado: 'Despertai, despertai, pois, eis!, a Porta de Deus está aberta e a Luz matinal irradia seu fulgor sobre toda a humanidade! O Prometido torna-se manifesto; preparai-Lhe o caminho, ó povos da Terra! Não vos priveis de sua graça redentora, nem fecheis os olhos para sua fulgente glória'. Com aqueles que encontrardes receptivos ao teu chamado, reparte as epístolas que Nós te revelamos, para que talvez estas maravilhosas palavras os possam fazer se afastar do abismo da negligência e se elevar ao domínio da Presença Divina. Nesta peregrinação que em breve haveremos de embarcar, escolhemos Quddús como Nosso companheiro. Nós te deixamos para enfrentares a investida de um inimigo feroz e implacável. Tem tu certeza, porém, de que uma graça indizivelmente gloriosa te será conferida. Segue o curso de tua jornada para o norte e visita no caminho Isfáhán, Káshán, Qum e Teerã. Implora à Providência onipotente que por Sua bondade te permita atingir, nessa capital, a sede da soberania verdadeira e entrar na mansão do Bem-Amado. Nessa cidade jaz oculto um segredo. Ao se tornar manifesto, transformará a Terra num paraíso. É Minha esperança que possas participar de sua graça e reconhecer seu esplendor. De Teerã procede a Khurásán e ali proclama de novo o Chamado. Regressa dali a Najáf e Karbilá onde deves aguardar o chamado de teu Senhor. Tem tu certeza de que a alta missão para que foste criado há de ser, em sua totalidade, por ti cumprida. Até que tiveres consumado tua tarefa, se todos os dardos de um mundo descrente contra ti forem dirigidos, um cabelo sequer de tua cabeça não terão eles o poder de lesar. Todas as coisas estão presas em Suas mãos poderosas. Ele, em verdade, é o Onipotente, Aquele que a tudo domina".

Chamou o Báb então a Sua Presença Mullá 'Alíy-i-Bastámí e lhe dirigiu palavras de ânimo, afeto e bondade. Deu-lhe instruções para seguir diretamente para Najáf e Karbilá, referiu-se às severas provações e aflições que lhe sobreviriam e exortou-o a manter-se firme até o fim. "Tua fé", disse-lhe, "deve ser imóvel como a rocha, deve resistir a toda tempestade e sobreviver a toda calamidade. Não permitas que as denúncias dos néscios e as calúnias do clero te aflijam ou te desviem de teu propósito. Pois és chamado a participar do banquete celestial que te foi preparado no Reino imortal. Tu és o primeiro a partir da Casa de Deus e a sofrer por Sua Causa. Se fores morto em Seu caminho, lembra-te que grande será tua recompensa e bela a dádiva que te será conferida."

Assim que haviam sido pronunciadas estas palavras, Mullá 'Alí se levantou de seu assento e partiu em cumprimento de sua missão. A distância de mais ou menos um farsang de Shíráz, alcançou-o um jovem, enrubescido de emoção, que pediu com impaciência permissão para lhe falar. Seu nome era 'Abdu'l-Vahháb. "Imploro-vos", suplicou com lágrimas a Mullá 'Alí, "permiti que vos acompanhe em vossa jornada. Perplexidades oprimem meu coração; peço-vos que guieis meus passos no caminho da Verdade. Na noite passada, em meu sonho, ouvi o pregoeiro anunciar, na rua do mercado de Shíráz, o aparecimento do Imame 'Alí, Comandante dos Fiéis. Ordenou à multidão: 'Levantai-vos e o buscai. Vede, ele tira do fogo ardente cartas de liberdade e as está distribuindo ao povo. Apressai-vos a ele, pois quem quer que as receba de suas mãos estará salvo do sofrimento penal, e quem dele não as puder obter será privado das bênçãos do Paraíso'. Logo que ouvi a voz do pregoeiro, levantei-me e, abandonando minha loja, atravessei correndo a rua do mercado de Vakíl para um lugar de onde meus olhos vos avistaram em pé distribuindo aquelas mesmas cartas ao povo. A cada um que se aproximava para recebê-las de vossas mãos, vós lhe sussurravas no ouvido algumas palavras que no mesmo instante o faziam fugir em consternação e exclamar: 'Ai de mim, pois estou privado das bênçãos de 'Alí e dos seus! Oh, miserável sou, por ser contado entre os proscritos e caídos!' Acordei de meu sonho e, imerso num oceano de pensamento, encontrei-me novamente em minha loja. De súbito vos vi passar, acompanhado por um homem que usava turbante e que estava conversando convosco. Pulei de meu assento e, impelido por um poder que não conseguia reprimir, corri para vos alcançar. Para grande surpresa minha, eu vos encontrei no mesmo lugar que havia visto em meu sonho e ocupado em recitar tradições e versículos. Em pé, um pouco afastado, continuei a vos observar, sem ser visto por vós e vosso amigo. Ouvi o homem a quem vos dirigistes protestar impetuosamente: 'Mais fácil para mim é ser devorado pelas chamas do inferno do que admitir a verdade de vossas palavras, cujo peso nem montanhas são capazes de sustentar!' A seu desdenhoso repúdio replicastes: 'Fosse todo o universo rejeitar Sua verdade, jamais poderia embaciar a imaculada pureza de Seu manto de grandeza'. Afastando-se dele, dirigistes vossos passos ao portal de Kázirán. Continuei a vos seguir até alcançar este lugar."

Mullá 'Alí tentou tranqüilizar seu coração agitado e persuadí-lo a voltar à sua loja e continuar seu trabalho diário. "Tua associação comigo", argüia, "só me envolveria em dificuldades. Regressa a Shíráz e fique tranqüilo, pois estás contado entre o povo da salvação. Longe esteja da justiça de Deus negar o cálice de Sua graça a quem com tanto fervor e devoção O busca, ou privar uma alma tão sedenta do oceano encapelado de Sua Revelação." Em vão foram as palavras de Mullá 'Alí. Quanto mais ele insistia no regresso de 'Abdu'l-Vahháb, mais altos se tornavam seus lamentos e prantos. Finalmente Mullá 'Alí se sentiu constrangido a satisfazer seu desejo, resignando-se à vontade de Deus.

Hájí 'Abdu'l-Majíd, pai de 'Abdu'l-Vahháb, tem relatado muitas vezes, com os olhos cheios de lágrimas, esta história: "Quão profundamente me arrependo do ato que cometi. Que Deus me conceda remissão de meu pecado. Eu era um dos favorecidos na corte dos filhos do Farmán-Farmá, governador da província de Fárs. Tal era minha posição que ninguém se atrevia a se opor a mim ou me causar dano. Ninguém questionava minha autoridade ou se aventurava a interferir em minha liberdade. Logo ao saber que meu filho 'Abdu'l-Vahháb havia abandonado sua loja e saído da cidade, corri em direção ao portal de Kázirán para alcançá-lo. Armado de clava, com a qual tencionava lhe bater, indaguei o caminho que tomara. Disseram-me que um homem que usava turbante acabava de atravessar a rua e haviam visto meu filho segui-lo. Pareciam haver combinado partir da cidade juntos. Isto excitou minha ira e indignação. Como podia tolerar, pensei comigo, comportamento tão indigno da parte de meu filho, eu, que já ocupo tão privilegiada posição na corte dos filhos do Farmán-Farmá? Nada senão o mais severo castigo, pensava, poderia apagar o efeito da conduta vergonhosa de meu filho.

"Continuei a busca até alcançá-los. Possuído de uma fúria selvagem, infligi a Mullá 'Alí injúrias indizíveis. Aos golpes que caíam pesadamente sobre ele, respondeu, com extraordinária serenidade: 'Detém tua mão, ó 'Abdu'l-Majíd, pois os olhos de Deus te observam. Tomo-O como minha testemunha de que não sou, de modo algum, responsável pela conduta de teu filho. Não me importam as torturas que me infliges, pois estou preparado para as mais graves aflições no caminho que tenho escolhido. Tuas injúrias, ao lado daquilo que me é destinado a sobrevir no futuro, são como uma gota em comparação com o oceano. Em verdade digo, tu haverás de sobreviver a mim e virás a reconhecer minha inocência. Grande, então, será teu remorso e profunda tua tristeza'. Desdenhando suas palavras e não atendendo a seu apelo, continuei a nele bater até me sentir exausto. Em silêncio e com heroísmo suportou aquele castigo tão completamente imerecido. Finalmente, mandei meu filho seguir-me e deixei Mullá 'Alí só.

"No caminho de volta a Shíráz, meu filho relatou-me o sonho que tivera. Um sentimento de remorso profundo pouco a pouco se apoderou de mim. A inocência de Mullá 'Alí foi vindicada a meus olhos e a lembrança de minha crueldade continuou por muito tempo a me oprimir a alma. Sua amargura deteve-se em meu coração até o tempo em que me senti obrigado a transferir minha residência de Shíráz a Bagdá. De Bagdá mudei para Kázimayn, onde 'Abdu'l-Vahháb estabeleceu seus negócios. Um estranho mistério pairava sobre sua face jovial. Parecia estar escondendo de mim um segredo que, aparentemente, lhe havia transformado a vida. Quando no ano de 1267 A.H., (41) Bahá'u'lláh viajou ao Iraque e visitou Kázimayn, 'Abdu'l-Vahháb foi logo cativado pelo Seu encanto e lhe hipotecou Sua imorredoura devoção. Poucos anos depois, quando meu filho havia sofrido martírio em Teerã e Bahá'u'lláh fora exilado para Bagdá, Ele, com infinita misericórdia e mercê, despertou-me do sono da negligência e me ensinou, Ele Mesmo, a mensagem do Novo Dia, lavando com as águas do perdão divino as manchas desse ato cruel".

Este episódio assinala a primeira aflição que sucedeu a um discípulo do Báb após a declaração de Sua missão. Mullá 'Alí percebeu nessa experiência como era íngreme e espinhosa a senda que o levaria a atingir, por fim, aquilo que seu Mestre lhe prometera. Totalmente resignado à Sua Vontade e pronto a derramar seu sangue vital por Sua Causa, reiniciou sua viagem até que chegou em Najáf. Na presença de Shaykh Muhammad-Hasan, um dos mais célebres eclesiásticos do islã xiita, e ante uma distinguida companhia de seus discípulos, Mullá 'Alí anunciou destemidamente a manifestação do Báb, da Porta cujo advento ansiosamente esperavam. "Sua prova", declarou, "é Sua Palavra; Seu testemunho, nenhum outro, senão o testemunho com o qual o islã procura vindicar sua verdade. Da pena deste iletrado jovem Háshimita da Pérsia fluíram, no período de quarenta e oito horas, tão grande número de versículos, orações, homilias e tratados científicos que ingualariam em volume o Alcorão inteiro, o que Maomé, o Profeta de Deus, levou vinte e três anos para revelar!" Aquele líder orgulhoso e fanático, em vez de receber com agrado, numa era de trevas e preconceitos, estas evidências vivificadoras de uma recém-nascida Revelação, logo pronunciou Mullá 'Alí um herege e o expulsou da assembléia. Seus discípulos e seguidores, até mesmo os shaykhís, que já haviam testemunhado a piedade, sinceridade e erudição de Mullá 'Alí, endossaram sem hesitação o juízo contra ele. Os discípulos de Shaykh Muhammad-Hasan, unindo-se com seus adversários, amontoaram sobre ele incontáveis indignidades. Entregaram-no por fim, com as mãos acorrentadas, a um oficial do governo otomano acusando-o de ser um detrator do Islã, um caluniador do Profeta, um instigador de distúrbio, uma vergonha para a Fé e digno da pena de morte. Foi levado a Bagdá sob a escolta de oficiais do governo e encarcerado pelo governador dessa cidade.

Hájí Háshim, de sobrenome 'Attár, preminente comerciante, que era bem versado nas Escrituras do Islã, contou o seguinte: "Estive presente na casa do governo numa ocasião em que Mullá 'Alí foi chamado à presença de uma assembléia de notáveis e oficiais dessa cidade. Foi acusado publicamente de ser um infiel, um abrogador das leis do Islã e repudiador de seus rituais e normas estabelecidas. Depois de haverem sido enumeradas suas supostas ofensas e infrações, o mufti, o principal expoente da lei do Islã nessa cidade, virou-se para ele e disse: "Ó inimigo de Deus!' Como eu ocupava um lugar ao lado do mufti, sussurrei em seu ouvido: 'Não conheceis ainda esse infeliz estranho. Porque lhe falais nesses termos? Não compreendeis que tais palavras excitarão contra ele a ira da população? Convém que não considereis as infundadas incriminações que esses intrometidos pronunciaram contra ele, que o interrogueis pessoalmente e julgueis de acordo com as normas estabelecidas de justiça que a Fé do Islã inculca'. O mufti desagradou-se seriamente e, levantando-se de seu lugar, saiu da reunião. Novamente foi Mullá 'Alí encarcerado. Poucos dias depois, perguntei por ele, com a esperança de conseguir sua libertação. Informaram-me que na noite daquele mesmo dia ele havia sido deportado para Constantinopla. Indaguei mais, esforçando-me por averiguar o que afinal lhe havia sucedido. Não pude, entretanto, descobrir a verdade. Acreditavam alguns que ele na viagem a Constantinopla adoecera, vindo a falecer. Outros asseveraram haver ele sofrido martírio". (42) Qualquer que fosse seu fim, Mullá 'Alí por sua vida e por sua morte, ganhou a distinção imortal de haver sido o primeiro a sofrer na senda desta nova Fé de Deus, o primeiro a oferecer a vida em holocausto no Altar do Sacrifício.

Havendo expedido Mullá 'Alí em sua missão, O Báb chamou à Sua presença as restantes Letras dos Viventes e a cada um por sua vez deu um mandato especial e designou uma determinada tarefa. Dirigiu-lhes estas palavras de despedida: "Ó Meus bem-amados amigos! Sois os portadores do Nome de Deus neste Dia. Fostes escolhidos como os depositários de Seu mistério. Incumbe a cada um de vós manifestar os atributos de Deus e exemplificar por vossas ações e palavras os sinais de Sua retidão, Seu poder e Sua glória. Os próprios membros de vossos corpos devem testemunhar a sublimidade de vosso propósito, a integridade de vossa vida, a realidade de vossa fé e o caráter elevado de vossa devoção. Pois em verdade digo, este é o Dia de que Deus falou em Seu Livro: (43) 'Nesse Dia haveremos de pôr um selo sobre seus lábios; no entanto, suas mãos Nos falarão e seus pés darão testemunho daquilo que tiverem feito'. Ponderai as palavras de Jesus aos Seus discípulos quando os mandou sair a fim de propagar a Causa de Deus. Em palavras como estas Ele os exortou a se levantar e cumprir sua missão: 'Sois assim mesmo como o fogo que na escuridão da noite se acendeu no cume da montanha. Deixai vossa luz brilhar ante os olhos dos homens. Tal deve ser a pureza de vosso caráter e o grau de vossa renúncia que os povos da Terra possam, por vosso intermédio, reconhecer o Pai Celestial, que é a Fonte de pureza e graça e Dele mais se aproximar. Pois ninguém tem visto o Pai que está no céu. Vós que sois Seus filhos espirituais deveis por vossas ações exemplificar Suas virtudes e dar testemunho de Sua glória. Sois o sal da terra, mas se o sal tiver perdido seu sabor, com que se haverá de salgá-la? O grau de vosso desprendimento deve ser tal que em qualquer cidade que entreis para proclamar e ensinar a Causa de Deus, de modo algum deveis esperar alimento ou recompensa de seu povo. Não, ao partides dessa cidade, deveríeis sacudir o pó de vossos pés. Assim como nela entrastes, puros e sem mácula, também deveis partir. Pois em verdade digo, o Pai celestial está sempre convosco e vos vigia. Se Lhe fordes fiéis, Ele seguramente entregará em vossas mãos todos os tesouros da Terra e vos exaltará acima de todos os governantes e reis do mundo'. Ó Minhas Letras! Em verdade digo, imensamente elevado é este Dia acima dos dias dos Apóstolos de antanho. Não, imensurável é a diferença! Sois as testemunhas do Alvorecer do prometido Dia de Deus. Sois os que participam do cálice místico de Sua Revelação. Preparai-vos para fazerdes o máximo esforço e atendei às palavras de Deus assim como são reveladas em Seu Livro: (44) 'Eis, o Senhor teu Deus já veio e com Ele está a companhia de Seus anjos que estão dispostos à Sua vanguarda!' Purificai vossos corações dos desejos terrenos e deixai que as virtudes angelicais sejam vosso adorno. Esforçai-vos para que pelos vossos atos possais dar testemunho da verdade destas palavras de Deus, e acautelai-vos para que, por vos haverdes 'voltado para trás', Ele não 'vos troque por um outro povo' que 'vos não será similar' e que de vós haverá de tirar o Reino de Deus. Os dias em que se julgava suficiente a vã adoração chegaram ao fim. Veio o tempo em que nada senão o mais puro motivo, apoiado por ações de imaculada pureza, pode ascender ao trono do Altíssimo e lhe ser aceitável. 'A boa palavra ascende a Ele, e a ação reta fará com que seja exaltada diante Dele.' Sois os humildes, de quem Deus assim falou em Seu Livro: (45) 'E desejamos mostrar favor àqueles que foram rebaixados na Terra, e fazê-los dirigentes espirituais entre os homens e Nossos herdeiros.' Fostes chamados a esta posição; havereis de atingi-la somente se vos levantardes para desprezar todo desejo terreno e envidar vossos esforços para vos tornardes aqueles 'honrados servos Seus que não falam até que Ele tenha falado e fazem o que Ele ordena'. Sois as primeiras Letras que foram geradas do Ponto Primaz, (46) os primeiros Nascentes que manaram da Fonte desta Revelação. Suplicai ao Senhor vosso Deus que não permita que qualquer laço terreno, afeto mundano ou ocupação efêmera embacie a pureza ou torne amarga a doçura dessa graça que flui através de vós. Estou vos preparando para o advento de um Dia grandioso. Envidai os máximos esforços para que no mundo vindouro Eu, que estou vos instruindo agora, possa, ante a sede de misericórdia de Deus, regozijar-me por vossas ações e me glorificar de vossas vitórias. O segredo do Dia que há de vir está oculto agora. Não pode ser nem divulgado nem avaliado. A criança recém-nascida nesse Dia ultrapassa o mais sábio e venerável dos homens de agora, e os mais humildes e iletrados desse período excederão em compreensão os mais eruditos e consumados eclesiásticos desta era. Dispersai-vos por toda parte deste país e, com pés firmes e corações santificados, preparai o caminho para Sua vinda. Não olheis vossas fraquezas e debilidade; contemplai o poder invencível do Senhor, vosso Deus, o Onipotente. Não fez Ele, em tempos idos, que Abraão, apesar de Sua aparente fraqueza, triunfasse sobre as forças de Nimrod? Não capacitou Moisés, cujo bastão era Seu único companheiro a vencer o Faraó e suas hostes? Não estabeleceu Ele a ascendência de Jesus, pobre e rebaixado que era aos olhos dos homens, sobre as forças reunidas do povo judaico? Não sujeitou as tribos bárbaras e militantes da Arábia à santa e transformadora disciplina de Maomé, Seu Profeta? Levantai-vos em Seu Nome, Nele ponde vossa inteira confiança e tende certeza da vitória final." (47)

Com tais palavras o Báb vitalizou a fé de Seus discípulos e os lançou a sua missão. 'A cada um designou sua própria província natal como o campo de seu labor. A todos recomendou que não se referissem especificamente a Seu próprio nome e pessoa. (48) Ordenou-lhes que levantassem o chamado de que a Porta ao Prometido fora aberta, de que Sua prova é irrefutável e Seu testemunho, completo. Mandou declarar que quem Ele acreditasse, teria acreditado em todos os profetas de Deus, e quem O negasse teria negado todos os Seus santos e Seus eleitos. Com estas instruções Ele os despediu de Sua presença e, confiou aos cuidados de Deus. Dessas Letras dos Viventes a quem deste modo se dirigiu, permaneceram com Ele, em Shíráz, Mullá Husayn, o primeiro, e Quddús, o último. As restantes, catorze no total, partiram de Shíráz na hora do alvorecer, resolvida cada uma a levar a cabo em sua totalidade a tarefa da qual fora incumbida.

A Mullá Husayn, assim que se aproximava a hora de sua partida, dirigiu estas palavras: "Não te entristeças por não haveres sido escolhido para Me acompanhar em Minha peregrinação a Hijáz. Em vez disso, encaminharei teus passos àquela cidade que entesoura um Mistério de tão transcendente santidade que nem Hijáz nem Shíráz pode esperar rivalizar. É Minha esperança que sejas assistido por Deus na tarefa de remover os véus dos olhos dos refratários e purificar as mentes dos malévolos. Visita, em teu caminho, Isfáhán, Káshán, Teerã e Khurásán. Ruma dali ao Iraque e lá aguarda a chamada de teu Senhor, que te vigiará e guiará a qualquer coisa que seja Sua vontade e desejo. Quanto a Mim, acompanhado por Quddús e Meu servo etíope, prosseguirei em Minha peregrinação a Hijáz. Juntar-me-ei à companhia dos peregrinos de Fárs, que em breve embarcarão para esse lugar. Deverei visitar Meca e Medina, e lá cumprir a missão que Deus Me confiou. Se for a vontade de Deus, regressarei aqui através de Kúfih, onde espero me encontrar contigo. Se for decretado de outro modo, pedirei que te reúnas comigo em Shíráz. As hostes do Reino Invisível, deves ter certeza, haverão de sustentar e reforçar tuas tentativas. A essência do poder agora em ti habita, e a companhia de Seus anjos escolhidos circulam ao teu redor. Seus braços todo-poderosos circundar-te-ão e Seu Espírito infalível para sempre continuará a guiar teus passos. Quem te ama, a Deus ama; quem a ti se opuser, a Deus terá se oposto. De quem é teu amigo, Deus será amigo; e aquele que te rejeitar, Deus rejeitará".

CAPÍTULO IV
A VIAGEM DE MULLÁ HUSAYN A TEERÃ

Com estas nobres palavras ressoando em seus ouvidos, Mullá Husayn iniciou seu perigoso empreendimento. Onde quer que fosse e a qualquer classe de pessoas que se dirigisse, transmitia intrepidamente e sem reservas a Mensagem da qual seu bem-amado Mestre o incumbira. Ao chegar em Isfáhán, estabeleceu-se no madrisih de Ním-Ávard. Ao seu redor se reuniram aqueles que em sua visita anterior o haviam conhecido como o mensageiro favorecido de Siyyid Kázím ao eminente mujtahid, Hájí Siyyid Muhammad-Báqir. (1) Este, agora falecido, foi sucedido por seu filho, que acabava de voltar de Najáf e estava já estabelecido na cátedra de seu pai. Hájí Muhammad-Ibráhím-i-Kalbásí também adoecera gravemente e estava prestes a morrer. Os discípulos do falecido Hájí Siyyid Muhammad-Báqir, agora livres da influência restritiva de seu desaparecido mestre e alarmados pelas estranhas doutrinas que Mullá Husayn estava expondo, denunciaram-no veementemente a Hájí Siyyid Asadu'lláh, filho do falecido Hájí Siyyid Muhammad Báqir. "Mullá Husayn", queixavam-se, "conseguiu durante sua última visita, ganhar o apoio de vosso ilustre pai para a causa de Shaykh Ahmad. Nenhum dos desprestigiados discípulos do Siyyid atreveu-se a ele se opor. Agora vem como defensor de um oponente ainda mais formidável e está apoiando Sua Causa com veemência e vigor ainda maiores. Alega persistentemente que Aquele cuja Causa ele agora defende é Revelador de um Livro divinamente inspirado, o qual de um modo impressionante se assemelha ao Alcorão em seu tom e linguagem. Na face do povo desta cidade, ele arrojou estas palavras desafiadoras: 'Produzi um semelhante, se sois homens verazes'. Aproxima-se rapidamente o dia em que Isfáhán inteira terá abraçado Sua Causa! "Hájí Siyyid Asadu'lláh respondeu a suas queixas com evasivas." "Que hei de dizer?", viu-se ele afinal forçado a responder. "Não tendes admitido vós mesmos que Mullá Husayn com a eloqüência e a força de seu argumento silenciou um homem tão grande como meu ilustre pai? Como posso eu, pois, que sou tão inferior a ele, em mérito e conhecimentos, presumir desafiar o que ele já aprovou? Que cada homem examine desapaixonadamente estas pretensões. Se se sentir satisfeito, muito bem; se não, que guarde silêncio e não incorra no risco de desacreditar o bom nome de nossa Fé."

Verificando o fracasso de seus esforços em influenciar Hájí Siyyid Asadu'lláh, seus discípulos referiram a questão a Hájí Muhammad-Ibráhím-i-Kalbásí. "Ai de nós", protestaram clamorosamente, "pois o inimigo se levantou para destruir a santa Fé do Islã!" Em linguagem revoltante e exagerada, frisaram o caráter desafiador das idéias expostas por Mullá Husayn. "Guardai silêncio", replicou Hájí Muhammad-Ibráhím. "Mullá Husayn não é pessoa que possa ser enganada pela fraude de ninguém, nem pode cair vítima de perigosas heresias. Se o que afirmais é verdade, se Mullá Husayn de fato esposou uma nova Fé, inquestionavelmente é vossa primeira obrigação investigar de maneira desapaixonada, o caráter de seus ensinamentos e vos abster de o denunciar sem um escrutínio prévio e cuidados. É minha intenção, se Deus quiser e se me forem restituídas a saúde e as forças, investigar o assunto, eu mesmo, e me certificar da verdade."

Esta severa repreensão, pronunciada por Hájí Kalbásí, embaraçou muito os discípulos de Hájí Siyyid Asadu'lláh. Em face desse desapontamento, apelaram a Manúchihr Khán, o Mu'tamidu'd-Dawlih, o governador da cidade. Esse sábio e judicioso governante recusou intervir nesses assuntos, os quais, afirmou ele, caiam exclusivamente dentro da jurisdição dos ulemás. Advertiu-lhes que se abstivessem de maldades e deixassem de perturbar a paz e tranqüilidade do mensageiro. Suas palavras cortantes demoliram as esperanças dos intrigantes. Mullá Husayn foi assim livrado das maquinações dos inimigos e por algum tempo prosseguiu sem empecilhos o curso de seu trabalho.

O primeiro a abraçar a Causa do Báb nessa cidade foi um homem, um joeireiro de trigo, que sem reservas aceitou a Mensagem logo que o Chamado lhe alcançou os ouvidos. Com maravilhosa devoção serviu a Mullá Husayn e através de sua íntima associação a ele se tornou zeloso defensor da nova Revelação. Poucos anos depois, quando os comoventes detalhes sobre o assédio do forte de Shaykh Tabarsi lhe estavam sendo relatados, ele se sentiu irresistivelmente impelido a compartir a sorte daqueles heróicos companheiros do Báb que se haviam levantado em defesa de sua Fé. Levando na mão sua joeira, levantou-se de imediato e partiu em direção à cena daquele memorável encontro. "Por que partir com tanta pressa?", perguntaram-lhe os amigos quando o viram correr pelos bazares de Isfáhán. "Levantei-me", respondeu, "para me unir à gloriosa companhia dos defensores do forte de Shaykh Tabarsí! Com esta joeira que levo comigo, pretendo joeirar as pessoas em cada cidade pela qual eu passar. A qualquer uma que encontre disposta a esposar a Causa que tenho abraçado, pedirei que se una a mim e imediatamente se apresse em direção ao campo do martírio." Tal foi a devoção desse jovem que o Báb, no Bayán Persa, a ele se refere nestes termos: "Isfáhán, aquela notável cidade, distingue-se pelo fervor religioso de seus habitantes xiitas, pela erudição de seus eclesiásticos e pela viva expectativa da vida iminente do Sáhibu'z-Zamán, a qual compartilham os de alto grau e os de grau inferior. Em todos os setores dessa cidade têm sido estabelecidas instituições religiosas. Contudo, quando se tornara manifesto o mensageiro de Deus, os que se diziam os repositórios da erudição e os expositores dos mistérios da Fé de Deus rejeitaram Sua Mensagem. Entre todos os habitantes dessa sede de erudição, foi encontrada uma só pessoa, um joeireiro de trigo, que reconheceu a Verdade e foi revestida com o manto da virtude divina!" (2)

Entre os siyyids de Isfáhán, alguns poucos, tais como Mírzá Muhammad-'Alíy-i-Nahrí, cuja filha mais tarde se uniu em matrimônio com o Maior Ramo,(3) Mírzá Hádí, irmão de Mírzá Muhammad-'Alí, bem como Mírzá Muhammad-Ridáy-i-Pá-Qal'iyí, reconheceram a verdade da Causa. Mullá Sádiq-i-Khurásání, anteriormente conhecido como Muqaddas e cognominado por Bahá'u'lláh Ismu'lláhu'l-Asdaq, que, segundo as instruções de Siyyid Kázím, havia durante os últimos cinco anos residido em Isfáhán e se ocupado em preparar o caminho para o advento da nova Revelação, também estava entre os primeiros crentes que se identificaram com a Mensagem proclamada pelo Báb. (4) Logo que soube da chegada de Mullá Husayn em Isfáhán apressou-se a ir a seu encontro. A respeito da primeira entrevista, a qual ocorreu à noite na casa de Mírzá Muhammad-'Alíy-i-Nahrí, relata ele o seguinte: "Pedi a Mullá Husayn que revelasse o nome d'Aquele que pretendia ser o prometido Manifestante, ao que respondeu, "Indagar esse nome, assim como revelá-lo, é proibido". "Seria, então, possível", perguntei, "que eu, assim mesmo como as Letras dos Viventes, buscasse independentemente a graça do Misericordioso e, através da oração, descobrisse Sua identidade?" "A porta de Sua graça", respondeu, "nunca está fechada ante a face de quem O busca." Retirei-me imediatamente de sua presença e a seu anfitrião solicitei o uso de um aposento privado em sua casa, no qual eu só, sem ninguém que me molestasse, pudesse comungar com Deus. Em meio à minha contemplação, subitamente lembrei-me da face de um jovem que muitas vezes, enquanto estive em Karbilá, eu havia observado em pé, em atitude de prece, com seu rosto banhado de lágrimas, na entrada do santuário do Imame Husayn. Esse mesmo semblante apareceu de novo diante de meus olhos. Em minha visão eu parecia estar contemplando essa mesma face, as mesmas feições, que expressavam tal alegria como jamais poderia descrever. Ele sorriu enquanto em mim fixava o olhar. Aproximei-me dele, pronto a me jogar a Seus pés. Eu me curvava para o chão quando, eis!, essa figura radiante desvaneceu-se de minha vista. Apoderaram-se de mim júbilo e contentamento e saí correndo em busca de Mullá Husayn, que me recebeu com êxtase e me assegurou haver eu atingido, afinal, o objeto de meu desejo. Mandou-me, porém, reprimir meus sentimentos. "A ninguém deves declarar tua visão", ele me exortou, "não chegou ainda o tempo para isso. Colheste o fruto de tua paciente espera em Isfáhán. Deverias agora proceder a Kirmán e lá tornar conhecida a Hájí Mírzá Karím Khán esta Mensagem. Daí deves viajar a Shíráz e te esforçar por despertar o povo dessa cidade de sua negligência. Espero encontrar-te em Shíráz e contigo compartir as bênçãos de uma jubilosa reunião com nosso Bem-Amado." (5)

De Isfáhán, Mullá Husayn prosseguiu a Káshán. O primeiro nessa cidade a alistar-se na companhia dos fiéis foi um certo Hájí Mírzá Jání, cognominado Par-Pá, um comerciante de renome. (6) Entre os amigos de Mullá Husayn figurava um sacerdote muito conhecido, Siyyid 'Abdu'l-Báqi, residente de Káshán e membro da comunidade shaykhí. Embora intimamente associado a Mullá Husayn durante sua estada em Najáf e Karbilá, o Siyyid não se sentiu capaz de sacrificar posição e liderança pela Mensagem que seu amigo lhe trouxera.

Ao chegar em Qum, Mullá Husayn viu que seu povo não estava, em absoluto, preparado para atender a seu chamado. As sementes que entre eles semeava só vieram a germinar no tempo em que Bahá'u'lláh estava exilado em Bagdá. Nesses dias Hájí Mírzá Musa, nativo de Qum, abraçou a Fé e viajou a Bagdá, onde conheceu Bahá'u'lláh. Por fim, sorveu do cálice do martírio em Seu caminho.

De Qum, Mullá Husayn prosseguiu diretamente a Teerã. Durante sua permanência na capital, morou num dos quartos que pertenciam ao madrisih de Mírzá Sálih, mais bem conhecido como o madrisih de Páy-i-Minár. Hájí Mírzá Muhammad-i-Khurásání, o líder da comunidade shaykhí de Teerã, que ocupava o lugar de instrutor nessa instituição, foi visitado por Mullá Husayn, mas recusou seu convite para aceitar a Mensagem. "Havíamos alimentado a esperança", dizia a Mullá Husayn, "de que após a morte de Siyyid Kázim vos tivésseis esforçado por promover os melhores interesses da comunidade shaykhí, livrando-a da obscuridade em que se mergulhara. Parece, entretanto, que lhes tendes traído a causa. Demolistes nossas mais acariciadas expectativas. Se persistirdes em disseminar essas doutrinas subversivas, extinguireis finalmente os remanescentes dos shaykhís nesta cidade." Mullá Husayn assegurou-lhe que não era sua intenção prolongar sua estada em Teerã, que de modo algum visava rebaixar ou suprimir os ensinamentos inculcados por Shaykh Ahmad e Siyyid Kázím. (7)

Durante sua estada em Teerã, Mullá Husayn todas as manhãs, bem cedo, deixava seu quarto e voltava só uma hora após o pôr-do-sol. Ao regressar, entrava em seu quarto sozinho e em silêncio, fechando a porta atrás e permanecendo na solidão de seu quarto até o dia seguinte. (8) Mírzá Musa, Aqáy-i-Kalím, irmão de Bahá'u'lláh, contou-me o seguinte: "Tenho ouvido Mullá Muhammad-i-Mu'allim, um nativo de Núr, na província de Mázindarán, fervoroso admirador tanto de Shaykh Ahmad quanto de Siyyid Kázím, relatar o seguinte: 'Eu era naqueles dias reconhecido como um dos discípulos prediletos de Hájí Mírzá Muhammad e morava na mesma escola em que ele ensinava. Meu quarto era adjacente ao seu e vivíamos intimamente associados. No dia em que ele estava ocupado numa discussão com Mullá Husayn, pude ouvir a conversação do começo ao fim e me senti profundamente afetado pelo ardor, fluência e erudição desse estranho jovem. Admirei-me das respostas evasivas, da arrogância e da desprezível conduta de Hájí Mírzá Muhammad. Nesse dia me senti fortemente atraído pelo encanto desse jovem e me ofendi profundamente com o indigno comportamento de meu instrutor para com ele. Escondi meus sentimentos, porém, fingindo nada saber de suas discussões com Mullá Husayn. Apoderou-se de mim um veemente desejo de conhecê-lo e me aventurei, à meia-noite, visitá-lo. Ele não me esperava, mas bati a sua porta e o encontrei acordado, sentado junto de seu lampião. Recebeu-me com afeto e falou com extrema cortesia e ternura. Desabafei meu coração e, enquanto me dirigia a ele, lágrimas que não podia reprimir fluíram de meus olhos. "Posso ver agora", disse-me, "por que razão escolhi este lugar para morar. Teu instrutor rejeitou com desdém esta Mensagem e menosprezou seu Autor. Minha esperança é que o aluno, diferente de seu mestre, possa reconhecer sua verdade. Qual é o teu nome e qual a cidade de tua origem? "Meu nome", respondi, "é Mullá Muhammad e meu sobrenome Mu'allim. Sou de Núr, na província de Mázindarán." "Dize-me", inquiriu ainda Mullá Husayn, "há hoje entre a família do falecido Mírzá Buzurg-i-Nurí, de tanto renome em virtude de seu caráter, seu encanto e sua habilidade artística e intelectual, alguém que tenha provado ser capaz de manter as altas tradições dessa casa ilustre?" "Sim", respondi, "entre seus filhos que ainda vivem tem-se distinguido Um pelas mesmas características de Seu pai. Pela Sua vida virtuosa, Suas altas realizações, Sua benevolência e liberalidade, já se provou um nobre descendente de um pai nobre." "Qual é Sua ocupação?", perguntou-me. "Animar os desconsolados e alimentar os famintos", repliquei. "Sua posição e grau?" "Nenhuma" disse-lhe, "além de se mostrar o amigo do pobre e do estranho." "Qual é o Seu nome?" "Husayn Alí". "Em qual das escritas de Seu Pai Ele sobressai?" "Sua escrita predileta é shikastih-nasta'líq." "Como passa Ele Seu tempo?" "Ele vaga pelos bosques e se deleita com as belezas do campo." (9) "Que idade tem Ele?" "Vinte e oito". A ansiedade com que Mullá Husayn me interrogava e a sensação de deleite com que acolhia cada detalhe que lhe dava causaram-me grande surpresa. Virando-se para mim, com a face radiante de satisfação e júbilo, fez ainda outra pergunta: "Suponho que freqüentemente te encontras com Ele" "Muitas vezes O visito em Sua casa", respondi. "Poderias", perguntou-me, "entregar em Suas mãos um encargo meu?" "Certamente", foi minha resposta. Deu-me então um pergaminho enrolado num pano e me pediu que lho entregasse no dia seguinte na hora do alvorecer. "Caso Ele se digne a me responder", acrescentou, "terias a bondade de me transmitir Sua resposta?" Recebi dele o pergaminho e ao romper da alvorada me levantei para levar a cabo seu desejo.

"Ao me aproximar da casa de Bahá'u'lláh, reconheci Seu irmão, Mírzá Musá, em pé no portão, a quem comuniquei o objetivo de minha visita. Entrou em casa e logo reapareceu, trazendo uma mensagem de boas-vindas. Fui conduzido a Sua presença e entreguei o pergaminho a Mírzá Musa, que o apresentou a Bahá'u'lláh. Ele nos mandou sentar. Desdobrando o pergaminho, olhou rapidamente seu conteúdo e principiou a ler em voz alta certas passagens. Eu me sentia extasiado enquanto escutava o som de Sua voz e a doçura de sua melodia. Após haver uma página do pergaminho lida, virou-se para o irmão e assim falou: "Musá, que tens a dizer? Em verdade digo, quem crê no Alcorão e lhe reconhece a origem Divina, e no entanto hesita, ainda que seja por apenas um momento, em admitir que estas palavras comovedoras estejam dotadas do mesmo poder regenerador, errou seguramente em seu juízo e se desviou para longe do caminho da justiça". Nada mais disse. Ao me despedir de Sua presença, incumbiu-me de levar a Mullá Husayn, como um presente d'Ele, um pão de açúcar russo e um pacote de chá, (10) e lhe expressar Sua apreciação e amor.

"Levantei-me e com grande contentamento me apressei em voltar a Mullá Husayn e lhe entregar o presente e a mensagem de Bahá'u'lláh. Com que júbilo e exultação ele os recebeu de mim! Faltam-me palavras para descrever a intensidade de sua emoção. Em um instante se pôs em pé, curvando a cabeça ao receber de minha mão o presente e o beijando fervorosamente. Tomou-me então em seus braços, beijando-me os olhos e disse: "Meu muito querido amigo! Oro que assim como me tens regozijado o coração, Deus te conceda felicidade eterna e inunde teu coração de contentamento imperecível". Maravilhei-me com o procedimento de Mullá Husayn. Qual poderia ser, pensei comigo, a natureza do laço que une estas duas almas? Que poderia ter acendido tão fervoroso espírito fraternal em seus corações? Por que Mullá Husayn, a cujos olhos a pompa e a circunstância da realeza eram uma simples bagatela, havia mostrado tamanha alegria ao ver um presente tão insignificante das mãos de Bahá'u'lláh? Causou-me perplexidade este pensamento e não lhe pude desvendar o mistério.

Poucos dias depois, Mullá Husayn partiu para Khurásán. Ao se despedir, disse-me: "Não relates a ninguém o que ouviste e testemunhaste. Deixa isto ser um segredo oculto em teu peito. Não reveles Seu Nome, pois aqueles que lhe invejam a posição se levantarão para lhe causar dano. Em teus momentos de meditação, ora para que o Todo-Poderoso O proteja, de modo a enaltecer, por Seu intermédio, os espezinhados, a enriquecer os pobres e redimir os caídos. O segredo das coisas está oculto de nossos olhos. Nosso é o dever de levantar a chamada do Novo Dia e proclamar a todos esta Mensagem Divina. São muitas as almas que, nesta cidade, haverão de derramar seu sangue nesta senda. Esse sangue regará a Árvore de Deus, fazendo com que ele floresça e abrigue à sua sombra toda a humanidade".

CAPÍTULO V
A VIAGEM DE BAHÁ'U'LLÁH A MÁZINDARÁN

A primeira viagem que Bahá'u'lláh empreendeu com o fim de promover a Revelação anunciada pelo Báb foi à Sua casa ancestral em Núr, na província de Mázindarán. Partiu em direção a Tákur, patrimônio pessoal de Seu pai, onde havia uma vasta mansão de Sua propriedade, regiamente mobiliada e em excelente localização. Foi privilégio meu ouvir o próprio Bahá'u'lláh um dia relatar o seguinte: "O falecido Vizír, Meu pai, fruía a mais invejável posição entre seus conterrâneos. Sua enorme riqueza, sua nobre linhagem, suas aptidões artísticas, seu prestígio sem igual e sua elevada posição fizeram-no objeto da admiração de todos os que o conheciam. Por um período de mais de vinte anos, ninguém do largo círculo de sua família e parentes, o qual se estendia por Núr e Teerã, sofreu aflição, qualquer mal ou doença. Desfrutavam, durante longo e ininterrupto período, bênçãos ricas e diversas. De súbito, porém, esta prosperidade e glória cederam diante de uma série de calamidades que abalaram severamente as bases de seu bem-estar material. O primeiro prejuízo que sofreu foi ocasionado por uma grande inundação que nasceu nas montanhas de Mázíndarán, varreu com violência extrema a aldeia de Tákur e destruiu completamente a metade da mansão do Vizír, situada acima da fortaleza dessa aldeia. A melhor parte da casa, que fora notável pela solidez de seus alicerces, foi totalmente demolida pela fúria da torrente estrondante. Foram destruídos os preciosos objetos da mobília; sua esmerada ornamentação foi irreparavelmente arruinada. Breve se seguiu a perda de vários postos de Estado que o Vizír ocupava devido aos repetidos assaltos dirigidos contra ele por seus adversários invejosos. A despeito desta repentina mudança de sorte, o Vizír manteve sua dignidade e calma, na medida de seus limitados recursos, continuou seus atos de benevolência e caridade. Para com seus associados infiéis, não deixou de mostrar aquela mesma cortesia e bondade que haviam caracterizado suas relações com seus semelhantes. Com esplêndida fortaleza, até a última hora de sua vida, lutou com as adversidades que tão penosamente sobre ele pesavam".

Já havia Bahá'u'lláh, antes da declaração do Báb, visitado o distrito de Núr, numa época em que o célebre mujtahid Mírzá Muhammad-Taqíy-i-Núrí estava no auge de sua autoridade e influência. Tão eminente era sua posição que aqueles que se sentavam a seus pés se consideravam, cada qual, o autorizado expoente da fé e lei do Islã. O mujtahid, dirigindo a palavra a um grupo de mais de duzentos desses discípulos, discorria largamente sobre uma passagem obscura das exposições atribuídas aos imames, quando Bahá'u'lláh, seguido por alguns de seus companheiros, por aí passou e se deteve por um momento para escutar seu discurso. O mujtahid pediu a seus discípulos que elucidassem uma teoria abstrusa que se referia aos aspectos metafísicos dos ensinamentos islâmicos. Como todos confessaram sua incapacidade de explicá-la, Bahá'u'lláh sentiu-se impelido a dar, em linguagem breve mas convincente, uma exposição lúcida dessa teoria. O mujtahid aborreceu-se muito diante da incompetência de seus discípulos. "Há anos vos estou instruindo", exclamou iradamente, "e com paciência tenho me esforçado por instilar em vossas mentes as mais profundas verdades e os mais nobres princípios da Fé. No entanto, após todos esses anos de persistente estudo, deixais este jovem, que usa o Kuláh, (1) que jamais recebeu ensino douto e desconhece completamente vossa erudição acadêmica, demonstrar superioridade sobre vós!"

Mais tarde, quando Bahá'u'lláh havia partido, o mujtahid relatou a seus discípulos dois de seus sonhos recentes, cujas circunstâncias ele acreditava ser da maior significação. "Em meu primeiro sonho", disse ele, "estava eu em pé em meio a uma vasta assembléia de pessoas, e todas pareciam apontar uma certa casa na qual, diziam, morava o Sáhibu'z-Zamán. Com frenética alegria, apressei-me em meu sonho a atingir Sua presença. Quando alcancei a casa, para grande surpresa minha, me foi recusado acesso. 'O prometido Qá'im, informaram-me, 'está ocupado em conversação privada com outra Pessoa. Acesso a eles é estritamente proibido.' Dos guardas em pé ao lado da porta, inferi que essa Pessoa não era outra senão Bahá'u'lláh!"

"Em meu segundo sonho", continuava o mujtahid, "encontrei-me num lugar onde vi ao meu redor grande número de cofres, cada um dos quais, foi afirmado, pertencia a Bahá'u'lláh. Quando os abri, verifiquei que estavam cheios de livros. Cada palavra e letra anotadas nesses livros estava engastadas com as mais raras jóias. Seu fulgor deslumbrou-me. Tão fortemente seu brilho me dominou que subitamente despertei de meu sonho."

Quando, no ano 60, Bahá'u'lláh chegou em Núr, descobriu que o célebre mujtahid, que na ocasião de Sua visita anterior exercia tão imenso poder, havia falecido. O vasto número de seus devotos havia se reduzido e uns poucos discípulos desalentados que, sob a direção de seu sucessor, Mullá Muhammad, se esforçavam para sustentar as tradições de seu falecido líder. A entusiástica acolhida que se fez a Bahá'u'lláh quando veio estava em vívido contraste com as trevas que cercaram aqueles que restavam da comunidade outrora florescente. Grande número dos oficiais e dignitários naquela vizinhança veio visitá-Lo e, com todo sinal de afeto e respeito, lhe deu boas-vindas de modo digno. Estavam ansiosos, em vista da posição social que Ele ocupava, de receber dEle todas as notícias referentes à vida do xá, às atividades de seus ministros e aos assuntos de seu governo. A suas perguntas Bahá'u'lláh respondeu com indiferença extrema, parecendo mostrar muito pouco interesse ou preocupação. Com eloqüência persuasiva, defendeu a causa da nova Revelação e dirigiu sua atenção aos imensuráveis benefícios que estava destinada a conferir a seu país.(2) Os que O ouviam maravilharam-se do vivo interesse que um homem de Sua posição e idade mostrava por verdades que eram primariamente assuntos para os sacerdotes e teólogos do islã. Sentiam-se impotentes para desafiar a solidez de Seus argumentos ou menosprezar a Causa que Ele tão habilmente expunha. Admiraram o alto grau de Seu entusiasmo e a profundidade de Seus pensamentos e muito lhes impressionaram Seu desprendimento e abnegação.

Ninguém se atreveu a contradizer Seus pontos de vista, exceto Seu tio Ázíz, que se aventurou a se opor, desafiando Suas afirmações e lhe vilipendiando a verdade. Quando aqueles que o ouviram tentaram silenciar este oponente e lhe causar dano, Bahá'u'lláh interveio em seu favor e lhes aconselhou que o deixassem nas mãos de Deus. Alarmado, ele buscou o apoio do mujtahid de Núr, Mullá Muhammad, e solicitou que lhe prestasse ajuda imediata. "Ó vice-regente do Profeta de Deus!", disse. "Vede o que aconteceu à fé. Um jovem, um leigo, usando vestes de nobreza, veio a Núr, invadiu as cidadelas da ortodoxia e desmoronou a santa Fé do Islã. Levantai-vos e resisti a sua investida. Quem atinge a sua presença cai de imediato sob seu encanto e é subjugado pelo poder de suas palavras. Não sei se é feiticeiro, ou se mistura em seu chá alguma substância misteriosa que faz com que todo homem que o beba caia vítima de seu encanto." O mujtahid, não obstante sua própria falta de compreensão, pode compreender a insensatez de tais observações. Jocosamente perguntou: "Não tendes compartilhado seu chá e o ouvido discorrer a seus companheiros?" "Sim, tenho", respondeu, "mas graças a vossa amorosa proteção tenho me mantido imune ao efeito de seu misterioso poder." O mujtahid, vendo-se impotente diante da tarefa de instigar a população contra Bahá'u'lláh e de combater diretamente as idéias que tão poderoso adversário estava difundindo com tamanha intrepidez, contentou-se com uma declaração escrita na qual disse: "Ó Azíz, não temais, ninguém se atreverá a molestar-vos". Ao escrevê-la, o mujtahid por um erro gramatical, a tal ponto perverteu o propósito de sua declaração que os que a leram, entre os dignatários da aldeia de Tákur, se escandalizaram com seu significado e vilipendiaram tanto o portador como o autor dessa declaração.

Aqueles que atingiram a presença de Bahá'u'lláh e O ouviram expor a Mensagem proclamada pelo Báb ficaram tão impressionados com o fervor de Seu apelo que imediatamente se levantaram para disseminar essa Mensagem entre o povo de Núr e louvar as virtudes de seu distinguido Promotor. Os discípulos de Mullá Muhammad, entrementes, tentaram persuadir seu mestre a seguir para Tákur, a visitar Bahá'u'lláh em pessoa, verificar por Seu intermédio a natureza desta nova Revelação e esclarecer a seus seguidores a respeito do caráter e propósito desta Revelação. À sua veemente solicitação o mujtahid deu uma resposta evasiva. Seus discípulos, entretanto, recusaram admitir a validade das objeções que fez. Argüiram que a primeira obrigação que se impunha a um homem de sua posição, cuja função era preservar a integridade do Islã xiita, era investigar a natureza de todo movimento que tendia a afetar os interesses de sua Fé. Mullá Muhammad decidiu finalmente delegar dois de seus lugar-tenentes de maior destaque, ambos genros e fidedignos discípulos do falecido mujtahid, Mírzá Muhammad Taqí, para visitar Bahá'u'lláh e determinar o verdadeiro caráter da Mensagem por Ele trazida. Comprometeu-se a sancionar, sem reservas, quaisquer conclusões a que pudessem chegar e a reconhecer como final sua decisão em tal assunto.

Quando esses representantes de Mullá Muhammad chegaram em Tákur, sendo informados de que Bahá'u'lláh havia partido para Sua residência de inverno, decidiram ir a esse lugar. Ao chegarem, encontraram Bahá'u'lláh ocupado em revelar um comentário sobre a Sura com que começa o Alcorão, intitulada "Os Sete Versos de Repetição". Enquanto escutavam, sentados, Seu discurso, sentiram-se profundamente impressionados pela elevação do tema, pela eloqüência persuasiva que caracterizava sua apresentação, bem como pela maneira extraordinária em que o expunha. Mullá 'Abbás, não podendo se conter, levantou-se de seu lugar e, movido por um impulso a que não podia resistir, andou para trás e ficou imóvel ao lado da porta, em atitude de reverente submissão. O encanto do discurso que ouvia o fascinara. "Vês meu estado", disse ao companheiro, enquanto permancia em pé, tremendo de emoção e com os olhos cheios de lágrimas. "Sinto-me sem o poder de fazer uma pergunta a Bahá'u'lláh. As perguntas que tencionava apresentar de súbito se desvaneceram de minha memória. Estás livre, seja para prosseguir com tua investigação ou regressar sozinho ao nosso instrutor e lhe informar do estado no qual me encontro. Dize-lhe por mim que 'Abbás jamais poderá voltar a ele, que não mais poderá abandonar este limiar." Mírzá Abdu'l-Qásim igualmente, impelido a seguir o exemplo de seu companheiro, disse em resposta: "Deixei de reconhecer meu mestre. Neste momento mesmo, fiz a Deus um voto de dedicar os dias restantes de minha vida ao serviço de Bahá'u'lláh, meu verdadeiro e único Mestre".

A notícia da repentina conversão dos emissários escolhidos do mujtahid de Núr espalhou-se com espantosa rapidez por todo o distrito. Despertou o povo de sua letargia. Dignitários eclesiásticos, oficiais de Estado, comerciantes e camponeses, todos se apinharam à residência de Bahá'u'lláh. Dentre eles, um número considerável, espontaneamente, esposou Sua Causa. Em sua admiração por Ele, alguns dos mais distinguidos observaram: "Vemos como o povo de Núr se tem levantado e reunido em torno de vós. Testemunhamos por todos os lados evidências de sua exultação. Se também Mullá Muhammad se unisse a eles, o triunfo dessa Fé seria completamente assegurado". "Vim a Núr", respondeu Bahá'u'lláh, "somente com o propósito de proclamar a Causa de Deus. Não nutro outra intenção. Se me fosse dito que a uma distância de cem léguas alguém com ânsia buscava a Verdade e não podia vir Me ver, com satisfação e sem hesitar Me apressaria em ir a sua morada, e Eu Mesmo lhe saciaria a sede. Mullá Muhammad, dizem-Me, mora em Sa'ádat-Ábád, uma aldeia não muito distante daqui. É Meu propósito visitá-lo e lhe entregar a Mensagem de Deus."

Desejoso de cumprir Suas palavras, Bahá'u'lláh, acompanhado por alguns de Seus companheiros, prosseguiu de imediato em direção a essa aldeia. Mullá Muhammad recebeu-O muito cerimoniosamente. "Não vim a esse lugar", observou Bahá'u'lláh, "a fim de vos fazer uma visita oficial ou formal. É Meu desígnio esclarecer-vos a respeito de uma Mensagem nova e maravilhosa, divinamente inspirada e que cumpre a promessa que ao Islã se fez. Qualquer um que tenha inclinado o ouvido a esta Mensagem tem sentido seu poder irresistível, sendo transformado pela potência de sua graça. Dizei-Me o que torna perplexa vossa mente ou vos impede de reconhecer a Verdade." Mullá Muhammad com desapreço respondeu: "Nenhuma ação empreendo sem primeiro consultar o Alcorão. Invariavelmente, em tais ocasiões, tenho seguido a prática de invocar a ajuda de Deus e Suas bênçãos, abrindo ao acaso Seu Livro Sagrado e consultando o primeiro versículo daquela página que meus olhos avistam. Da natureza desse versículo posso julgar se é aconselhável e sábio o curso de ação que tenho em mira". Vendo que Bahá'u'lláh não estava inclinado a recusar seu pedido, o mujtahid mandou trazer um exemplar do Alcorão, abriu-o e de novo o fechou, recusando revelar aos presentes a natureza do versículo. Disse apenas: "Consultei o Livro de Deus e creio que não é aconselhável seguir adiante com este assunto". Alguns poucos concordaram com ele; os outros, na maioria, não deixaram de reconhecer o medo que essas palavras implicavam. Bahá'u'lláh, não se inclinando a lhe causar maior embaraço, levantou-se e, pedindo licença, despediu-se dele cordialmente.

Certo dia, durante um de Seus passeios eqüestres no campo, com Seus companheiros, Bahá'u'lláh viu sentado ao lado da estrada um jovem solitário. Tinha o cabelo desgrenhado e se vestia como dervixe. Junto de um riacho havia ele acendido uma chama, onde esta cozinhando e comendo seu alimento. Aproximando-se dele, Bahá'u'lláh muito carinhosamente inquiriu: "Dize-Me, dervixe, que é que estás fazendo?" "Estou ocupado em comer Deus", replicou bruscamente. "Estou cozinhando Deus e queimando-o. A simplicidade de seus modos, sem afetação, e a candura de sua resposta agradaram extremamente a Bahá'u'lláh. Sorriu ao ouvir suas palavras e começou a conversar com ele com grande ternura e inteira liberdade. Dentro de pouco tempo havia Bahá'u'lláh o transformado completamente. Esclarecido a respeito da verdadeira natureza de Deus e com a mente purificada da vã fantasia de seu próprio povo, reconheceu de imediato a Luz que esse Desconhecido amoroso tão inesperadamente lhe trouxera. Esse dervixe, cujo nome era Mustafá, a tal ponto se enamorou dos ensinamentos que lhe haviam sido incutidos na mente que, deixando atrás os utensílios de cozinha, se levantou imediatamente e seguiu Bahá'u'lláh. A pé, atrás de Seu cavalo, incendiado com a chama de Seu amor, entoou alegremente versos de uma canção de amor que compusera nesse momento e dedicara ao seu Bem-Amado. "Tu és o Sol de guia", dizia seu jubiloso estribilho. "Tu és a Luz da verdade. Remove Teu véu ante os homens, ó Revelador da Verdade." Se bem que em anos subseqüentes, esse poema tivesse uma extensa circulação entre seu povo e se soubesse que certo dervixe, cognominado Majdhúb, cujo nome era Mustafá Big-i-Sanandají, o havia composto, sem premeditação, em louvor de seu Bem-Amado, ninguém parecia perceber a quem realmente se referia, tampouco havia quem suspeitasse, numa época em que Bahá'u'lláh estava ainda velado dos olhos dos homens, que somente este dervixe havia reconhecido Sua posição e descoberto Sua glória.

A visita de Bahá'u'lláh a Núr havia produzido resultados de vasto alcance e dado um ímpeto extraordinário à difusão da Revelação recém-nascida. Com Sua eloqüência magnética, pela pureza de Sua vida, pela dignidade de Seu porte, pela incontestável lógica de Seu argumento e pelas numerosas evidências de Sua bondade, havia Bahá'u'lláh conquistado os corações do povo de Núr, comovido suas almas e as alistado sob o estandarte da Fé. Tal foi o efeito de Suas palavras e ações, enquanto ia em toda parte pregando a Causa e revelando sua glória aos Seus conterrâneos em Núr, que as próprias pedras e árvores desse distrito pareciam haver sido vivificadas pelas ondas de poder espiritual que emanavam de Sua pessoa. Todas as coisas pareciam estar dotadas de uma vida nova e mais abundante; todas as coisas pareciam estar proclamando em voz alta: "Eis, a Beleza de Deus tornou-se manifesta! Levantai-vos, pois Ele veio em toda a Sua glória". O povo de Núr, após haver Bahá'u'lláh partido de seu meio, continuou a propagar a Causa e a consolidar seus alicerces. Alguns deles suportaram as mais severas aflições por Sua causa; outros sorveram com alegria o cálice do martírio em Sua senda. Mázindarán, em geral, e Núr, em especial, foram assim distinguidos das outras províncias e distritos da Pérsia, por serem os primeiros a abraçar com fervor a Mensagem Divina. O distrito de Núr - que significa literalmente "luz" - encaixado dentro das montanhas de Mázindarán, foi o primeiro a captar os raios do Sol que nascera em Shíráz, o primeiro a proclamar ao resto da Pérsia, que ainda jazia envolto na sombra do vale da negligência, que o Sol da guia celestial se havia levantado, por fim, para aquecer e iluminar toda a Terra.

Quando Bahá'u'lláh era ainda criança, o Vizir, Seu pai, teve um sonho. Bahá'u'lláh apareceu diante dele, nadando num oceano vasto, ilimitado. Seu corpo reluzia sobre as águas com um brilho que iluminava o mar. Em volta de Sua cabeça, a qual se via nitidamente acima das águas, se irradiavam em todas as direções os anéis compridos de Seu cabelo preto de azeviche, flutuando em grande profusão sobre as ondas. No sonho, uma multidão de peixes aglomerava-se em torno dEle, segurando-se cada um à extremidade de um fio de cabelo. Fascinados pela fulgência de Sua face, seguiam-No na direção em que Ele nadasse. Embora fossem tão numerosos, e tão tenazmente se apegassem aos Seus cabelos, nem um só fio parecia ter sido tirado de Sua cabeça, nem o menor dano atingia Sua pessoa. Livre e sem estorvo, Ele se movia sobre as águas e todos O seguiam.

O Vizir, profundamente impressionado por esse sonho, chamou um adivinho que havia adquirido fama nessa região e lhe pediu que o interpretasse para ele. Esse homem, como que inspirado por uma premonição da futura glória de Bahá'u'lláh, declarou: "O oceano ilimitado que vistes em vosso sonho, ó Vizir, não é senão o mundo do ser. Sozinho e sem ajuda, vosso filho atingirá sobre este ascendência suprema. Aonde quer que lhe apraza, Ele caminhará sem encontrar obstáculo. Ninguém haverá de lhe resistir à marcha, ninguém lhe impedirá o progresso. A multidão de peixes significa o tumulto que provocará entre os povos e raças da Terra. Em torno dEle se reunirão e a Ele se apegarão. Sendo-lhe assegurada a infalível proteção do Todo-Poderoso, jamais esse tumulto há de causar dano a Sua pessoa, nem Sua solidão no mar da vida porá em perigo Sua segurança".

Esse adivinho foi levado mais tarde para ver Bahá'u'lláh. Observou com atenção Seu rosto e cuidadosamente examinou Suas feições. Encantado com Sua aparência, elogiou cada aspecto de Seu semblante. Cada expressão de Sua face revelava a seus olhos um sinal de Sua glória oculta. Tão grande foi sua admiração e tão profusos seus elogios a Bahá'u'lláh que o Vizír, desde aquele dia, se tornou ainda mais apaixonadamente devotado ao Filho. As palavras pronunciadas por esse adivinho serviram para fortalecer suas esperanças e sua confiança nEle. Da mesma forma como Jacó só desejava assegurar o bem-estar de seu bem-amado José e rodeá-Lo de sua amorosa proteção.

Hájí Mírzá Áqásí, o Grão-Vizir de Muhammad Xá, embora completamente alienado do pai de Bahá'u'lláh, mostrou a seu filho mais sinais de consideração e favor. Tão grande era a estima que o Hájí lhe professava, que Mírzá Áqá Khán-i-Núrí, o I'timádu'd-Dawlih, que mais tarde sucedeu a Hájí Mírzá Áqásí, sentia inveja. Ressentia-se da superioridade que se concedia a Bahá'u'lláh, ainda tão jovem. As sementes do ciúme, desde esse tempo, foram implantadas em seu coração. Embora ainda jovem, e enquanto seu pai está vivo, pensava ele, lhe é dada precedência perante o Grão-Vizír. Que me acontecerá, pergunto eu, quando esse jovem tiver sucedido ao pai?

Após o falecimento do Vizír, Hájí Mírzá Áqásí continuou a mostrar a maior consideração para Bahá'u'lláh. Visitava-O em Sua casa, dirigindo-se a Ele como se fosse seu próprio filho. A sinceridade de sua devoção, porém, foi logo posta em prova. Num dia, ao passar pela aldeia de Qúch-Hisár, que pertencia a Bahá'u'lláh, tanto se impressionou com o encanto e a beleza desse lugar e com a abundância de sua água que concebeu a idéia de se tornar seu dono. Bahá'u'lláh, a quem ele chamou para consentir a compra imediata dessa aldeia, observou: "Tivesse essa propriedade sido exclusivamente minha, de boa vontade haveria eu satisfeito vosso desejo. Esta vida transitória, com todas as suas possessões sórdidas, não merece, a meus olhos, nenhum apego, quanto menos esta pequena e insignificante propriedade. Como várias outras pessoas tanto ricas quanto pobres, algumas adultas e outras ainda menores - comigo compartilham a possessão dessa propriedade, pediria que a elas referísseis esta questão, procurando seu consentimento". Não satisfeito com esta resposta, Hájí Mírzá Áqásí tentou por meios fraudulentos alcançar seu propósito. Logo que Bahá'u'lláh foi informado de suas más intenções, Ele, com o consetimento de todos os interessados, imediatamente transferiu o título da propriedade ao nome da irmã de Muhammad Xá, que já repetidas vezes havia expressado seu desejo de se tornar sua proprietária. O Hájí, furioso ao saber dessa transação, deu ordens para que se tomasse posse da propriedade à força, alegando que já a havia comprado de seu dono original. Os representantes de Hájí Mírzá Áqásí foram severamente repreendidos pelos agentes da irmã do Xá e foram requisitados para informar seu mestre da determinação daquela senhora de manter seus direitos. O Hájí levou o caso a Muhammad Xá, queixando-se do tratamento injusto ao qual fora sujeitado. Naquela mesma noite havia a irmã do Xá lhe informado da natureza da transação. "Muitas vezes", ela disse a seu irmão, "Vossa Majestade Imperial amavelmente tem-me dado a entender seu desejo de que me desfizesse das jóias com as quais costumo adornar-me em sua presença e comprasse com o rendimento alguma propriedade. Finalmente consegui satisfazer seu desejo. Hájí Mírzá Áqásí, porém, está de todo determinado a tirá-la de mim à força." O xá tranqüilizou a irmã e ao Hájí ordenou que desistisse de sua pretensão. Este, em seu desespero, chamou Bahá'u'lláh à sua presença e por meio de todos os artifícios tentou desacreditar Seu nome. Às acusações contra Ele, Bahá'u'lláh replicou vigorosamente e conseguiu estabelecer Sua inocência. Em sua fúria fútil, o Grão-Vizír exclamou: "Qual o propósito de todas essas festas e banquetes nos quais pareceis vos deleitar? Eu, que sou primeiro-ministro do xáinxá da Pérsia, nunca recebo o número e a varidade de convidados que se amontoam ao redor de vossa mesa todas as noites. Por que toda essa extravagância e vaidade? Deveis seguramente estar tramando um complô contra mim". "Deus Misericordioso!", respondeu Bahá'u'lláh. "Deverá o homem que, da generosidade de seu coração, compartilha seu pão com seus semelhantes ser acusado de nutrir intenções criminosas?" Hájí Mírzá Áqásí viu-se totalmente confuso. Não se atreveu a responder. Embora apoiado pelo conjunto dos poderes eclesiásticos e civis da Pérsia, ele se viu, afinal, completamente derrotado em cada luta na qual se aventurou contra Bahá'u'lláh.

Em outras numerosas oportunidades, a ascendência de Bahá'u'lláh sobre Seus adversários foi igualmente vindicada e reconhecida. Esses triunfos pessoais conseguidos por Ele serviram para Lhe realçar a posição e difundir largamente Sua fama. Todas as classes de pessoas maravilharam-se de Seu êxito milagroso em sair incólume dos mais perigosos encontros. Nada menos que a proteção divina, pensavam, poderia haver mantido Sua segurança em tais ocasiões. Embora cercado pelos mais graves perigos, nenhuma só vez se submeteu Bahá'u'lláh ante a arrogância, a avareza e a perfídia daqueles a Seu redor. Em Sua constante associação, nesses dias, com os mais altos dignitários do reino, quer eclesiásticos ou oficiais de Estado, Ele nunca se contentou em simplesmente anuir às opiniões por eles expressas ou às pretensões que avançavam. Em suas reuniões, era Ele o intrépido campeão da causa da verdade, vindicando os direitos dos espezinhados, defendendo os fracos e protegendo os inocentes.

CAPÍTULO VI
A VIAGEM DE MULLÁ HUSAYN A KHURÁSÁN

O Báb, ao se despedir das Letras dos Viventes, deu instrução a cada uma e a todas, que anotassem em separado o nome de cada crente que abraçasse a Fé e se identificasse com seus ensinamentos. Pediu-lhes que enviassem a lista destes crentes em cartas seladas, endereçadas ao Seu tio materno, Hájí Mírzá Siyyid 'Alí, em Shíráz, que por sua vez as entregaria a Ele. "Classificarei estas listas", disse-lhes, "em dezoito grupos de dezenove nomes cada. Cada grupo constituirá um váhid. (1) Todos estes nomes, nestes dezoito grupos, junto com o primeiro váhid, o qual consiste em Meu próprio nome e nos nomes das dezoito Letras dos Viventes, constituirão o número de Kull-i-Shay'. (2) De todos esses crentes farei menção na Epístola de Deus, para que o Bem-Amado de nossos corações, no Dia em que Ele tiver ascendido ao trono da glória, possa conferir a cada um deles Suas inestimáveis bênçãos e declará-los os habitantes de Seu Paraíso."

A Mullá Husayn, mais especialmente, o Báb deu instruções explícitas sobre o envio a Ele de um relatório, por escrito, a respeito da natureza e do progresso de suas atividades em Isfáhán, em Teerã e em Khurásán. Solicitou-lhe que O informasse sobre aqueles que aceitavam a Fé e a ela aderiram, bem como sobre aqueles que rejeitavam e repudiavam sua verdade. "Antes de receber tua carta de Khurásán", disse-lhe, "não estarei pronto para partir desta cidade em Minha peregrinação a Hijáz."

Mullá Husayn, revivificado e fortalecido pela experiência de seu encontro com Bahá'u'lláh, partiu em sua viagem a Khurásán. Durante sua visita a essa província, mostrou em grau surpreendente os efeitos do poder regenerador das palavras de despedida pronunciadas pelo Báb que o haviam envolvido. (3) O primeiro a abraçar a Fé em Khurásán foi Mirzá Ahmad-i-Azghandí, o mais erudito, o mais sábio e o mais eminente dentre os ulemás dessa província. Em qualquer reunião que aparecesse, por grande que fosse o número de sacerdotes presentes e por mais representativo seu caráter, só ele era, invariavelmente, o principal orador. As elevadas qualidades de seu caráter, bem como sua piedade extrema, haviam enobrecido a reputação que já adquirira por sua erudição, sua habilidade e sua sabedoria. O próximo a abraçar a Fé entre os shaykís d Khurásán foi Mullá Ahmad-i-Mu'allim, que fora, enquanto em Karbilá, o instrutor dos filhos de Siyyid Kázím. Após ele, veio Mullá Shaykh 'Alí, a quem o Báb cognominou de 'Azím e depois Mullá Mírzá Muhammad-i-Fúrúghí, a quem somente Mírzá Ahmad excedia em conhecimentos. A não ser estas figuras de destaque entre os dirigentes eclesiásticos de Khurásán, ninguém exercia autoridade suficiente ou possuía o conhecimento necessário para desafiar os argumentos de Mullá Husayn.

Mírzá Muhammad Báqir-i-Qá'iní, que havia estabelecido residência em Mashhad nos anos restantes e sua vida, foi o próximo a abraçar a Mensagem. O amor pelo Báb inflamava sua alma com tão veemente fervor que ninguém podia resistir à sua força ou menosprezar sua influência. Sua intrepidez, sua desmedida energia, sua lealdade inabalável e a integridade de sua vida combinaram-se todas, para torná-lo o terror de seus inimigos e uma fonte de inspiração para seus amigos. Colocou sua casa à disposição de Mullá Husayn, arranjou entrevistas exclusivas entre ele e os ulemás de Mashhad e continuou a se esforçar ao máximo para remover todo obstáculo que pudesse impedir o progresso da Fé. Era incansável em seus esforços, irredutível em seu propósito e de energia inesgotável. Continuou a labutar infatigavelmente por sua bem-amada Causa até a última hora de sua vida, quando caiu como mártir no forte de Shaykh Tabarsí. Em seus últimos dias, após a morte trágica de Mullá Husayn, Quddús lhe havia pedido que assumisse o comando dos heróicos defensores desse forte. Desempenhara gloriosamente sua tarefa. Sua casa, situada em Bálá-Khíyábán, na cidade de Mashhad, ainda hoje é conhecida pelo nome de Bábíyyih. Quem nela entra jamais pode escapar da acusação de ser bábí. Que sua alma descanse em paz!

Mullá Husayn, após haver ganho para a Causa defensores tão capazes e devotados,decidiu dirigir ao Báb por escrito um relatório sobre suas atividades. Em sua mensagem referiu-se em detalhe à sua estada em Isfáhán e Káshán, relatou sua experiência com Bahá'u'lláh, referiu-se à partida dEste para Mázindarán, narrou os acontecimentos em Núr e informou-O do êxito que coroara seus próprios esforços em Khurásán. Mandou inclusa uma lista dos nomes daqueles que responderam à seu chamado e de cuja firmeza e sinceridade se sentia seguro. Enviou sua carta via Yazd, por intermédio dos sócios fidedignos do tio materno do Báb, os quais residiam, nesse tempo, em Tabas. Essa carta chegou às mãos do Báb na véspera do dia vinte e sete de Ramadán (4) à noite, que passou a ser profundamente reverenciada em todas as seitas do Islã e que, na opinião de muitos, rivaliza em santidade com a própria Laylat-tu'l-Qadr, a noite que nas palavras do Alcorão, "excede em excelência mil meses". (5) O único companheiro do Báb quando recebeu a carta nessa noite foi Quddús, com quem Ele compartilhou algumas passagens.

Tenho ouvido Mírzá Ahmad relatar o seguinte: O tio materno do Báb descreveu a mim, ele mesmo, as circunstâncias sob as quais o Báb recebeu a carta de Mullá Husayn: "Nessa noite vi tais evidências de júbilo e contentamento nas faces do Báb e de Quddús que nem as posso descrever. Muitas vezes, naqueles dias, ouvia o Báb repetir com exultação: 'Como é maravilhoso, extremamente maravilhoso, o que ocorreu entre os meses de Jamádí e Rajab!' Quando estava lendo a mensagem que Mullá Husayn Lhe enviara, volveu-se para Quddús e, mostrando-lhe certas passagens dessa carta, explicou a razão de Suas jubilosas expressões de surpresa. Eu, por minha parte, nenhum conhecimento tive da natureza dessa explicação".

Mírzá Ahmad, a quem o relato desse incidente causava uma impressão profunda, estava determinado a sondar seu mistério. "Até que me encontrei com Mullá Husayn em Shíráz", disse-me, "não pude satisfazer minha curiosidade. Quando lhe repeti a narração que me fizera o tio do Báb, ele sorriu e disse que muito bem se lembrava haver estado por acaso em Teerã entre os meses de Jamádí e Rajab. Não deu outra explicação, contentando-se com essa breve observação. Bastou, porém, para me convencer de que na cidade de Teerã jazia oculto um Mistério que, ao ser revelado ao mundo, traria júbilo indizível aos corações tanto do Báb quanto de Quddús."

As referências na carta de Mullá Husayn à resposta imediata de Bahá'u'lláh à Mensagem Divina, bem como as referências à vigorosa campanha que Ele audazmente iniciara em Núr e ao maravilhoso êxito que coroara Seus esforços, animaram e alegraram o Báb, reforçando-Lhe a confiança na vitória final de Sua Causa. Sentiu-se certo de que, se fosse agora, de repente, ser vitimado pela tirania de Seus inimigos e partir deste mundo, a Causa que revelara viveria; continuaria, sob a direção de Bahá'u'lláh e se desenvolver e florescer, até dar finalmente seus frutos mais escolhidos. A mão mestra de Bahá'u'lláh guiaria seu curso, e a influência penetrante de Seu amor haveria de estabelecê-la nos corações dos homens. Esta convicção fortificou Seu espírito e Lhe inundou de esperança. Desde aquele momento, Seus receios de riscos ou perigos iminente abandonaram-no completamente. Como a fênix, acolheu com júbilo o fogo da adversidade e se deleitava com o brilho e ardor de sua chama.

CAPÍTULO VII
A PEREGRINAÇÃO DO BÁB A MECA E A MEDINA

A carta de Mullá Husayn fez o Báb decidir a empreender Sua planejada peregrinação a Hijáz. Confiando Sua esposa aos cuidados de Sua mãe e ambas aos cuidados e proteção de Seu tio materno, uniu-se à companhia dos peregrinos de Fárs que estavam se preparando para ir de Shíráz a Meca e Medita (1). Quddús era Seu único companheiro e o servo etíope, Seu criado pessoal. Procedeu a Búshihr, sede do negócio de Seu tio, onde em dias passados, estreitamente associado com ele, vivera a vida de um humilde comerciante. Havendo lá completado os preparativos preliminares para Sua longa e árdua viagem, embarcou num barco a vela que após dois meses de navegação lenta, tempestuosa e insegura, O deixou nas praias daquela terra sagrada (2). Mares bravos e a ausência completa de conforto não puderam interferir com a regularidade de Suas devoções, nem perturbar a tranquilidade de Suas meditações e orações. Esquecido da tempestade que enfurecia ao Seu redor, nem impedido pela enfermidade que se havia apoderado de Seus companheiros de peregrinação, continuou a ocupar Seu tempo em ditar a Quddús tais orações e epístolas que se sentia inspirado a revelar.

Tenho ouvido Hájí Abu'l-Hasan-i-Shírází, que estava viajando no mesmo barco do Báb, descrever as circunstâncias dessa viagem memorável: "Durante todo o período de aproximadamente dois meses", afirmou ele, "desde o dia em que embarcamos em Bushihr até o dia em que desembarcamos em Jaddih, o porto de Híjáz, em qualquer ocasião, de dia ou à noite, em que por acaso encontrasse com o Báb ou Quddús, eu os via invariavelmente juntos, ambos absortos em seu trabalho. O Báb parecia estar ditando, enquanto Quddús estava zelosamente ocupado em anotar tudo o que fluía de Seus lábios. Até quando o pânico parecia se haver apoderado dos passageiros desse barco à mercê das ondas, eles eram vistos prosseguindo sua tarefa com confiança e serenidade imperturbadas. Nem a violência do tempo, nem o tumulto da gente ao seu redor podia alterar a tranqüilidade de seus semblantes ou desviá-los de seu propósito."

O Báb mesmo, no Bayán Persa (3), refere-se às durezas dessa viagem. "Por muitos dias", escreveu, "sofremos por causa da escassez de água. Tinha de me contentar com o suco do limão doce." Em conseqüência dessa experiência, suplicou ao Todo-Poderoso que concedesse os meios pelos quais as viagens marítimas muito breve fossem melhoradas, sendo reduzidas suas durezas e inteiramente eliminados seus perigos. Dentro de um curto espaço de tempo depois de ser oferecida essa oração, têm-se multiplicado em grande escala as evidências de uma notável melhora em todas as formas de transporte marítimo e o Golfo Pérsico, que naqueles dias quase não possuía um único barco a vapor, agora se jacta de uma frota de transatlânticos que em poucos dias e com a maior comodidade leva o povo de Fárs em sua peregrinação anual a Híjáz.

Os povos do Ocidente, entre os quais aparecem as primeiras evidências desta grande Revolução Industrial, estão ainda infelizmente, de todo despercebidos da Fonte donde se deriva essa poderosa corrente, essa grande força motriz, força essa que revolucionou todo aspecto de sua vida material. Sua própria história testemunha o fato de que no ano que viu alvorecer esta gloriosa Revelação, apareceram de súbito evidências de uma revolução industrial e econômica que o próprio povo declara ser sem precedentes na história da humanidade. Em sua preocupação com os detalhes do funcionamento e dos ajustes desta maquinaria recém concebida, eles têm gradualmente perdido de vista a Origem e o objeto deste poder tremendo que o Todo-Poderoso confiou a seu cuidado. Parecem haver abusado gravemente desse poder e compreendido mal sua função. Embora fosse seu desígnio conferir ao povo do Ocidente as bênçãos da paz e da felicidade, foi utilizado por eles para promover os interesses da destruição e da guerra.

Ao chegar em Jaddih, o Báb vestiu os trajes de peregrinação, montou um camelo e partiu em Sua viagem a Meca. Quddús, porém, não obstante o desejo de seu Mestre, expresso repetidas vezes, preferiu acompanhá-Lo a pé por todo o caminho de Jaddih àquela cidade santa. Segurando em sua mão o cabresto do camelo em que o Báb estava montado, andou jubiloso, em atitude de prece, ministrando às necessidades de seu mestre de todo indiferente às fadigas de sua marcha árdua. Toda noite, desde o entardecer até ao alvorecer, Quddús, sacrificando conforto e sono, continuava com incessante vigilância a velar ao lado de seu Bem-Amado, pronto a atender Suas necessidades e prover os meios de Sua proteção e segurança.

Um dia quando o Báb havia desmontado perto de uma nascente a fim de oferecer Suas orações matinais, um beduíno nômade apareceu de repente do horizonte, aproximou-se Dele e apanhando o alforje que jazia no chão ao Seu lado e que continha Seus escritos e papéis, desvaneceu-se no deserto desconhecido. Seu servo etíope saiu em seu encalço mas foi impedido pelo seu Mestre, que, enquanto orava, lhe fez sinal com a mão para que abandonasse seu intento. "Tivesse eu permitido", afetuosamente lhe assegurou o Báb, " mais tarde, com certeza o terias alcançado e punido. Mas isso não havia de ser. Os papéis e escritos que aquele alforje continha são destinados a atingir, por meio desse árabe, lugares aos quais nunca haveríamos de conseguir chegar. Não te entristeças pois, por causa de sua ação, pois isso foi decretado por Deus, o Ordenador, o Onipotente." Muitas vezes, posteriormente, procurava o Báb consolar Seus amigos em ocasiões similares com tais considerações. Mediante palavras como estas transformava a amargura do remorso e ressentimento em radiante aquiescência ao desígnio divino e em alegre submissão à vontade de Deus.

No dia de 'Arafát (4), o Báb, retirando-se para a reclusão silenciosa de Seu quarto, devotou todo o Seu tempo à meditação e adoração. No dia seguinte, o dia de Nahr, após haver oferecido a oração do dia festivo foi a Muná, onde, segundo o costume antigo, comprou dezenove cordeiros da raça mais seleta, dos quais sacrificou nove em Seu próprio nome, sete no nome de Quddús e três em nome de Seu servo etíope. Recusou participar da carne desse sacrifício consagrado, preferindo distribui-la livremente entre os pobres e necessitados da vizinhança.

Embora o mês de Dhi'l-Hijjih (5), o mês de peregrinação a Meca e Medina, coincidisse naquele ano com o primeiro mês da estação de inverno, no entanto, era tão intenso o calor nessa região, que os peregrinos os quais circulavam o sagrado santuário não puderam praticar este ritual em suas vestes usuais. Envoltos numa túnica leve e frouxa, tomaram parte na celebração do festival. O Báb, entretanto, em sinal de deferência, não consentiu em tirar nem Seu turbante nem o manto. Vestido como de costume, Ele, com a maior dignidade e calma, e com extrema simplicidade e reverência, circulou o Ka'bih e praticou todos os ritos de adoração prescritos.

No último dia de Sua peregrinação a Meca, o Báb encontrou com Mírzá Muhít-i-Kirmání. Estava em pé com a face volvida para a Pedra Negra, quando o Báb se aproximou dele e tomando sua mão, lhe dirigiu estas palavras: "Ó Muhít! Vós vos considerais uma das figuras de maior destaque da comunidade shaykhí e um distinguido expositor de seus ensinamentos. Em vosso coração até pretendeis ser um dos sucessores diretos e legítimos herdeiros daquelas grandes Luzes gêmeas, daquelas Estrelas que anunciaram o amanhecer da guia Divina. Vede, agora estamos ambos em pé dentro deste mais sagrado santuário. Dentro de seus santos recintos, Aquele cujo Espírito habita neste lugar pode fazer que a Verdade imediatamente seja conhecida e distinguida da falsidade e a retidão do erro. Verdadeiramente declaro, ninguém senão Eu, neste dia, quer seja no Oriente ou no Ocidente, pode pretender ser a Porta que conduz os homens ao conhecimento de Deus. Minha prova não é outra senão aquela mediante a qual se estabeleceu a verdade do Profeta Maomé. Perguntai-Me o que quiserdes; agora, neste mesmo momento, comprometo-Me a revelar tais versículos como podem demonstrar a verdade de Minha missão. Deveis escolher entre submeter-vos sem reservas à Minha Causa ou repudiá-la inteiramente. Outra alternativa não vos resta. Se decidirdes rejeitar Minha Mensagem, não soltarei vossa mão antes de dardes vossa palavra que declarará publicamente vosso repúdio da Verdade que proclamei. Assim se tornará conhecido Aquele que diz a Verdade e quem disser palavras falsas será condenado à miséria e vergonha eternas. Então a senda da Verdade será revelada e se tornará manifesta a todos os homens."

Este desafio decisivo tão inesperadamente lançado pelo Báb a Mírzá Muhít-i-Kirmání causou-lhe profunda aflição. Assombrou-se diante da franqueza deste desafio e sua força e majestade constrangedoras. Ele na presença desse Jovem não obstante sua idade, sua autoridade e seus conhecimentos, sentia-se como um pássaro indefeso nas garras de uma poderosa água. Confuso e cheio de temor, respondeu: "Meu Senhor, meu Mestre! Sempre desde o dia em que meus olhos Vos contemplaram em Karbilá, parece-me que tenho afinal encontrado e reconhecido Aquele que fora o objeto de minha busca. Renuncio a quem deixou de Vos reconhecer e desprezo aquele em cujo coração pode ainda restar a mais leve desconfiança a respeito de vossa pureza e santidade. Eu Vos peço que não considereis minha fraqueza e imploro que me respondais em minha perplexidade. Queira Deus possa eu, neste mesmo lugar dentro dos recintos deste sagrado santuário, jurar minha lealdade a Vós e me levantar para o triunfo de Vossa Causa. Se eu fosse insincero naquilo que declaro, se em meu coração eu desacreditasse o que meus lábios proclamam, eu me julgaria completamente indigno da graça do Profeta de Deus e consideraria minha ação uma prova de deslealdade manifesta a 'Alí, Seu sucessor eleito."

O Báb, que escutou atentamente suas palavras e que bem conhecia sua impotência e pobreza de alma, respondeu dizendo: "Em verdade digo, mesmo agora se conhece e se distingue a Verdade da falsidade. Ó santuário do Profeta de Deus e tu, ó Quddús, que em Mim acreditaste! A ambos, nesta hora, tomo por Minhas testemunhas. Presenciastes e ouvistes o que sucedeu entre Mim e ele. Chamo-vos para atestardes isto e Deus, verdadeiramente, está além e acima de vós, Minha Testemunha segura e final. Ele é Quem a tudo vê, o Onisciente, o Sábio. Ó Muhit! Exponde qualquer coisa que em vossa mente cause perplexidade e Eu, com a ajuda de Deus, soltarei minha língua e Me incumbirei de resolver vossos problemas, para que possais dar testemunho da excelência de Minhas palavras e compreender que ninguém, a não ser Eu, tem capacidade para manifestar Minha sabedoria."

Mírzá Muhít respondeu ao convite do Báb, submetendo-Lhe suas perguntas. Alegando a necessidade de sua partida imediata para Medina, expressou a esperança de receber, antes de partir dessa cidade, o texto da prometida resposta. "Satisfarei vosso pedido", assegurou-le o Báb. "Na viagem a Medina, com a ajuda de Deus, revelarei Minha resposta às nossas perguntas. Se não vos encontrar nesta cidade Minha resposta seguramente vos alcançará logo após vossa chegada em Karbilá. Qualquer coisa que a justiça e a eqüidade possam ditar, o mesmo espero que cumprais. 'Se fizerdes o bem, em benefício próprio fareis o bem; e se o mal fizerdes, contra vós próprios o fareis.' 'Deus, em verdade é independente de todas as Suas criaturas (6).'"

Mírzá Muhít, antes de sua partida, expressou novamente sua firme resolução de cumprir sua promessa solene. "Nunca sairei de Medina", assegurou ao Báb, "aconteça o que acontecer, antes de cumprir meu convênio convosco." Assim como a partícula levada pelo furacão, ele não podendo enfrentar a sobrepujante majestade da Revelação proclamada pelo Báb, fugiu aterrorizado diante de Sua face. Demorou-se um pouco em Medina e infiel a sua promessa e não levando em conta as admoestações de sua consciência, partiu para Karbilá.

O Báb, fiel a Sua promessa, revelou durante a viagem de Meca a Medina, Sua resposta escrita às perguntas que haviam tornado perplexa a mente de Mírzá Muhít, entitulando-a Sahífiy-i-Bayni'l-Haramayn (7). Mírzá Muhít, que a recebeu nos primeiros dias de sua estada em Karbilá, não se sentiu comovido pelo seu tom e recusou reconhecer os preceitos que inculcava. Sua atitude para com a Fé era de oposição dissimulada e persistente. Em certas ocasiões, professava ser seguidor e defensor daquele notório adversário do Báb, Hájí Mírzá Karím Khán e algumas vezes vindicava para si o grau de líder independente. Quando se aproximava o fim de seus dias e ele estava residindo no Iraque, fingiu submissão a Bahá'u'lláh e expressou, por intermédio de um dos príncipes persas que moravam em Bagdá, o desejo de conhecê-Lo. Pediu que a entrevista que propunha fosse considerada estritamente confidencial. "Diga-Lhe", foi a resposta de Bahá'u'lláh, "que nos dias de Meu retiro nas montanhas de Sulaymáníyyih, em certa ode que compus, apresentei os requisitos essenciais para cada caminhante que trilha a senda da busca em seu desejo de alcançar a Verdade. Compartilhe com ele este verso daquela ode: 'Se for teu objetivo Amar a tua vida não te aproximes da Nossa Corte; mas se o sacrifício foi o desejo do teu coração, venha e deixe que os outros venham contigo. Pois tal é o caminho da Fé, se em teu coração buscares reunião com Bahá; se recusares trilhar este caminho por que Nos importunar? Ide!"' Se ele assim desejar, abertamente e sem reservas se apressará a se encontrar comigo se não, recuso recebê-lo." A resposta inequívoca de Bahá'u'lláh embaraçou Mírzá Muhít. Não podendo resistir e não querendo se conformar, partiu para sua casa em Karbilá no mesmo dia em que recebeu essa mensagem. Assim que chegou, adoeceu e três dias depois faleceu.

Mal havia o Báb cumprido com a última das observâncias relacionadas a Sua peregrinação a Meca, quando dirigiu uma epístola ao Xerife dessa cidade santa, expondo em termos claros e inequívocos, as feições distintivas de Sua missão e o chamando a se levantar e abraçar Sua Causa. Esta epístola, junto com seleções de Seus outros escritos, Ele entregou a Quddús com instruções para sua apresentação ao Xerife. Este, porém, demasiado absorto em seus próprios interesses materiais para inclinar o ouvido às palavras que o Báb lhe dirigira, deixou de responder ao chamado da Mensagem Divina. Tem-se ouvido Hájí Níyáz-i-Baghdádí relatar o seguinte: 'No ano de 1267 A.H. (8), empreendi uma peregrinação a essa cidade santa, onde tive o privilégio de conhecer o Xerife. Em sua conversação comigo disse: "Recordo que no ano 60, durante a estação de peregrinação, um jovem veio me visitar. Apresentou-me um livro selado que prontamente aceitei mas que estava demasiadamente ocupado naquele tempo para ler. Alguns dias depois, encontrei novamente com aquele mesmo jovem, que me perguntou se eu tinha alguma resposta a dar a sua oferta. A pressão de trabalho mais uma vez me havia impedido de consdierar o conteúdo desse livro. Não lhe pude, pois, dar uma resposta satisfatória. Uma vez terminada a estação de peregrinação, um dia, enquanto arrumava minhas cartas, meus olhos avistaram por acaso esse livro. Abri-o e encontrei em suas páginas introdutórias uma homilia comovente e belamente escrita, seguida por versos cujo tom e linguagem eram extraordinariamente parecidos com os do Alcorão. Tudo o que pude deduzir da leitura do livro foi que entre o povo da Pérsia um homem da progênie de Fátimih e descendente da família de Háshim, levantara um novo chamado, anunciando a todos o aparecimento do prometido Qá'im. Não me foi esclarecido, todavia, o nome do autor desse livro, nem fui informado das circunstâncias que acompanhavam esse chamado.' 'Uma grande comoção, realmente,' observei, 'tem se apoderado dessa terra durante estes últimos anos. Um Jovem, descendente do Profeta e comerciante de profissão, afirmou ser Sua voz a Voz da inspiração Divina. Declarou publicamente que, dentro do espaço de poucos dias, poderiam manar de Sua língua versículos cujo número e excelência ultrapassariam em volume e beleza o próprio Alcorão - obra cuja revelação por Maomé levou nada menos de vinte e três anos. Uma multidão dentre os habitantes da Pérsia, tanto de alto como de baixo grau, civis eclesiásticos, se reuniram ao redor de Seu estandarte e espontaneamente se sacrificaram em Sua senda. Esse Jovem no ano passado, nos últimos dias do mês de Sha'bán (9), sofreu martírio em Tabriz, na província de Adhirbáyján. Os que O perseguiram tentaram por este meio extinguir a luz que Ele acendeu naquela terra. Desde Seu martírio, porém, Sua influência tem penetrado em todas as classes do povo.' O Xerife, que escutava com atenção, expressou sua indignação com o comportamento daqueles que haviam perseguido o Báb. 'Que a maldição de Deus esteja sobre essa gente má,' exclamou, 'gente que em tempos passados tratou de igual maneira nossos santos e ilustres ancestrais! Com estas palavras, o Xerife terminou sua conversação comigo."

De Meca o Báb prosseguiu a Medina. Foi o primeiro dia do mês de Muharram, no ano de 1261 A.H. (10), quando estava a caminho para essa cidade santa. Enquanto dela se aproximava, lembrou-se dos acontecimentos comovedores que haviam imortalizado o nome Daquele que vivera e morrera dentro de seus muros. Aquelas cenas que davam eloqüente testemunho do poder criador daquele Gênio imortal pareceiam ser reapresentados novamente, com igual esplendor, diante de Seus olhos. Orou ao se aproximar desse sagrado sepulcro que encerrava os restos mortais do Profeta de Deus. Lembrava-se também, enquanto pisava essa terra sagrada, aquele brilhante Arauto de Sua própria Dispensação. Sabia que no cemitério de Baqí', num lugar não muito distante do santuário de Maomé, repousavam os restos mortais de Shaykh Ahmad-i-Ahsá'í, o anunciador de Sua própria Revelação que, após uma vida de oneroso serviço decidira passar o ocaso de seus dias dentro dos recintos daquele sagrado santuário. Apareceu-Lhe também a visão daqueles homens santos pioneiros e mártires da Fé, que haviam caído gloriosamente no campo de batalha e que com seu sangue vital, selaram o triunfo da Causa de Deus. Seu sagrado pó parecia como se reanimado com o suave pisar de Seus pés. Seus espíritos pareciam haver se despertado com o alento revivificador de Sua presença. Olhavam para Ele como se tivessem levantado a Sua chegada, se estivessem apressando em Sua direção e Lhe dando boas vindas. Pareciam estar Lhe dirigindo este fervoroso apelo. "Não te retires para Tua terra natal, nós Te imploramos, ó Tu bem-amado de nossos corações! Permanece tu conosco, pois aqui, longe do tumulto de Teus inimigos que estão à espreita de Ti, estarás são e salvo. Estamos temerosos por Ti. Tememos as intrigas e maquinações de Teus inimigos. Trememos ao pensarmos que seus atos podem trazer maldição eterna as suas almas." "Não temais", respondeu o Espírito indomável do Báb: "Vim a este mundo dar testemunho à glória do sacrifício. Vós percebeis a intensidade de Meu anelo; compreendeis o grau de Minha renúncia. Não, suplicai ao Senhor, vosso Deus, que apresse a hora de Meu martírio e aceite Meu sacrifício. Regozijai-vos, pois tanto Eu como Quddús seremos mortos no altar de nossa devoção ao Rei da Glória. O sangue que estamos destinados a derramar em Seu caminho regará e avivará o jardim de nossa felicidade imortal. As gotas deste sangue consagrado serão as sementes das quais surgirá a poderosa Árvore de Deus, a Árvore que recolherá a sua sombra, que a tudo abarca, os povos e raças da Terra. Não vos entristeçais, portanto, se Eu partir desta terra, pois me apresso a cumprir Meu destino."

CAPÍTULO VIII
A ESTADA DO BÁB EM SHÍRÁZ APÓS A PEREGRINAÇÃO

A visita do Báb a Medina marcou a etapa final de Sua peregrinação a Hijáz. Daí Ele regressou a Jaddih e por via marítima alcançou Sua terra natal, chegando em Búshihr nove meses lunares depois de haver embarcado desse porto para sua peregrinação. No mesmo khán (1) que havia ocupado anteriormente, recebeu Seus amigos e parentes que tinham vindo recebê-Lo e Lhe dar boas vindas. Enquanto ainda em Búshihr, chamou Quddús a Sua presença e com a maior ternura o mandou partir para Shiráz. "Os dias de tua associação Comigo," disse-lhe, "aproximam-se de seu fim. Soou a hora da separação, uma separação que não será seguida por nenhuma reunião, salvo no Reino de Deus, na presença do Rei da Glória. Neste mundo de pó não te foram destinados mais de nove meses passageiros de associação Comigo. Nas prais do Grande Além, entretanto, no domínio da imortalidade, o júbilo da eterna reunião nos espera. A mão do destino breve te submergirá num oceano de tribulações por Sua causa. Eu, também, te seguirei; Eu, também estarei imerso em suas profundezas. Regozija-te com júbilo extremo, pois foste escolhido como o porta-estandarte da hoste da aflição e estás na vanguarda do nobre exército que há de sofrer martírio em Seu Nome. Nas ruas de Shíráz, indignidades serão amontoadas sobre ti e as mais severas feridas afligirão teu corpo. Haverás de sobreviver a conduta ignominiosa de teus inimigos e atingir a presença de Daquele que é o objeto único de nossa adoração e amor. Em Sua presença te esquecerás de todo o dano e toda a desgraça que haverá de te sobrevir. As hostes do Invisível apressar-se-ão a te ajudar e proclamarão ao mundo inteiro teu heroísmo e glória. Tua será a felicidade inefável de sorver o cálice do martírio por Sua causa. Eu, também, trilharei a senda do sacrifício e Me reunirei contigo no reino da eternidade." O Báb entregou em suas mãos então, uma carta que havia escrito a Hájí Mírzá Siyyid 'Alí, Seu tio materno, na qual o informou de Seu regresso a Búshihr são e salvo. Também lhe confiou uma cópia do Khasá'il-i-Sab'ih (2), um tratado em que expusera os requisitos essenciais para aqueles que haviam atingido o conhecimento da nova Revelação e reconhecido sua pretensão. Ao se despedir de Quddús pela última vez, pediu que transmitisse Suas saudações a casa um de Seus bem-amados em Shíráz.

Quddús, sentindo uma inabalável determinação de cumprir os desejos expressados por seu Mestre, partiu de Búshihr. Ao chegar em Shíráz, foi recebido afetuosamente por Hájí Mírzá Siyyid 'Alí, que o hospedou em sua própria casa e inquiriu ansiosamente sobre a saúde e as atividades de seu bem-amado Parente. Achando-o receptivo ao chamado da nova Mensagem, Quddús o informou da natureza da Revelação com a qual esse Jovem já lhe havia inflamado a alma. O tio materno do Báb, como resultado dos esforços envidados por Quddús, foi o primeiro, após as Letras dos Viventes, a abraçar a Causa em Shíráz. Como não se havia divulgado ainda o pleno significado da Fé recém-nascida, ele desconhecia o verdadeiro âmbito de suas implicações e sua glória. Sua conversação com Quddús, porém, removeu de seus olhos o véu. Tão firme se tornou sua fé e tão profundo veio a ser seu amor pelo Báb, que consagrou toda a sua vida a Seu serviço. Com incessante vigilância se levantou para defender Sua Causa e proteger Sua pessoa. Em seus esforços constantes, tinha em pouca conta a fadiga e desdenhava a morte. Embora reconhecido como figura de destaque entre os comerciantes dessa cidade, nunca permitiu que considerações materiais interferissem com sua responsabilidade espiritual de salvaguardar a pessoa de seu bem-amado Parente e Lhe promover a Causa. Perseverou em sua tarefa até a hora em que, unindo-se com a companhia dos Sete Mártires de Teerã, em circunstâncias de excepcional heroísmo, por Ele ofereceu sua vida.

A próxima pessoa com quem se encontrou Quddús em Shíráz foi Ismu'lláhu'l-Asdaq, Mullá Sádiq-i-Khurásání, a quem confiou a cópia do Khasá'il-i-Sab'ih, frisando a necessidade de executar imediatamente todas as suas provisões. Entre seus preceitos estava o enfático mandado do Báb a cada crente leal, de acrescentar à fórmula tradicional do adhán (3) as seguintes palavras: "Dou testemunho de que Aquele cujo nome é 'Alí-Qabl-i-Muhammad (4) é o servo do Baqíyyatu'lláh (5)." Mullá Sádiq, que naqueles dias havia exaltado do púlpito a grandes congregações, as virtudes dos imames da Fé, sentiu-se tão extasiado com o tema e a linguagem desse tratado que sem hesitar resolver levar a cabo todos os preceitos que ordenava. Compelido pela força impulsora inerente nessa Epístola, certo dia, enquanto dirigia sua congregação em prece no Masjid-i-Naw, proclamou de súbito, ao pronunciar o adhán, as palavras adicionais prescritas pelo Báb. A multidão que o ouviou assombrou-se diante dessa proclamação. Alarme e consternação apoderaram-se da congregação inteira. Os sacerdotes distintos, que ocupavam os primeiros assentos e que eram muito reverenciados por sua piedosa ortodoxia, clamaram e protestaram em altas vozes: "Ai de nós, guardiães e protetores da Fé de Deus! Vede, este homem içou o estandarte da heresia. Abaixo este infame traidor! Pronunciou blasfêmia. Prendei-o, pois ele é uma desonra para nossa Fé." "Quem," exclamaram iradamente, "se atreveu a autorizar tão grave desvio dos preceitos estabelecidos do islã? Quem presumiu arrogar para si essa suprema prerrogativa?"

O povo ecoou os protestos desses sacerdotes e se levantou para lhes reforçar o clamor. A cidade toda agitara-se e a ordem pública, em conseqüência, estava seriamente ameaçada. O governador da província de Fárs, Husayn Khán-i-Íravání, de sobrenome Ájúdán-Báshí, geralmente designado naquele tempo como Sáhib-Ikhtíyár (6), achou necessário intervir e indagar a causa dessa repentina comoção. Informaram-lhe que um discípulo de um jovem chamado Siyyid-i-Báb, que acabava de voltar de Sua peregrinação a Meca e Medina e estava agora residindo em Búshihr, chegara em Shíráz e estava propagando os ensinamentos de seu Mestre. "Este discípulo", disseram mais tarde a Husayn Khán, "mantém que seu mestre é autor de uma nova revelação e revelador de um livro que, assevera ele, é divinamente inspirado. Mullá Sádiq-i-Khurásání já abraçou essa fé e destemidamente convoca a multidão para aceitar essa mensagem. Declara ser seu reconhecimento a primeira obrigação de cada leal e piedoso seguidor do islã xiita."

Husayn Khán mandou prender tanto Quddús como Mullá Sadíq. As autoridades policiais, às quais foram entregues, receberam instruções para levá-los algemados à presença do governador. A polícia entregou também às mãos de Husayn Khán a cópia do Qayyúmu'l-Asmá, que haviam tirado de Mullá Sádiq enquanto lia suas passagens em voz alta a uma congregação excitada. Quddús, por causa de sua aparência jovem e vestimenta informal foi de início ignorado por Husayn Khán, preferindo dirigir suas observações ao seu companheiro idoso e de maior dignidade. "Diga-me", perguntou irosamente o governador, volvendo-se para Mullá Sádiq, "se conhece a passagem introdutória do Qayyúmu'l-Asmá, onde o Siyyid-i-Báb se dirige aos governantes e reis da Terra nestes termos: "Despi-vos da vestimenta da soberania, pois Aquele que é em verdade o Rei se manifestou! O Reino é de Deus, o Excelso. Assim decretou a Pena do Altíssimo!" "Se isto é verdade, deve aplicar-se necessariamente ao meu soberano, Muhammad Xá, da dinastia Qájár (7), a quem eu represento como magistrado chefe desta província. Deverá Muhammad Xá, segundo esse mandado, depor a coroa e abandonar sua soberania? Deverei eu, também, abdicar meu poder e renunciar minha posição?" Mullá Sádiq, sem hesitar, replicou: "Uma vez que a verdade da Revelação anunciada pelo Autor destas palavras tenha sido definitivamente estabelecida, do mesmo modo será vindicada a verdade de qualquer coisa que Seus lábios tenham pronunciado. Se estas palavras são a Palavra de Deus, a abdicação de Muhammad Xá e dos que lhe são semelhantes, pouco pode importar. Isso não poderá, em absoluto, desviar o propósito Divino, nem alterar a soberania do Rei Todo-poderoso e eterno (8)."

Esse governante cruel e ímpio desagradou-se seriamente com tal resposta. Com vitupérios e maldições, mandou que os assistentes o despissem das vestimentas e o açoitassem com mil chicotadas. Deu ordens então para queimar a barba tanto de Quddús como de Mullá Sádiq, lhes perfurar as narinas e pela incisão passar uma corda, pela qual, como cabresto, fossem conduzidos pelas ruas da cidade (9). "Será uma lição objetiva para o povo de Shíráz," declarou Husayn Khán, "que saberá qual é o castigo pela heresia." Mullá Sádiq, calmo e com presença de espírito, com os olhos voltados para o céu, recitou esta oração. "Ó Senhor, nosso Deus! Em verdade ouvimos a voz de Alguém que chamou. Ele nos chamou para a Fé - 'Acreditai no Senhor, vosso Deus!' - e nós acreditamos. Ó Deus, nosso Deus! Perdoa-nos pois nossos pecados e oculta nossas más ações e faze que morramos com os justos (10)." Com magnífica fortaleza resignaram-se ambos a seu destino. Aqueles incumbidos de infligir esse castigo selvagem desempanharam sua tarefa com alacridade e vigor. Ninguém interveio em prol destas vítimas; ninguém se inclinou a defender sua causa. Pouco depois disso foram ambos expulsos de Shíráz. Antes de sua expulsão foram prevenidos de que, se alguma vez tentassem regressar a essa cidade, ambos seriam crucificados. Por seus sofrimentos ganharam a distinção imortal de haverem sido os primeiros perseguidos em solo persa por causa de sua Fé. Mullá 'Alíy-i-Bastámí, embora o primeiro a cair vítima do ódio implacável do inimigo, sofreu sua perseguição no Iraque que jaz além dos confins da Pérsia. Tampouco podiam seus sofrimentos, por intensos que fossem, ser comparados com a horripilante e bárbara crueldade que caracterizavam a tortura infligida a Quddús e Mullá Sádiq.

Uma testemunha ocultar desse episódio revoltante, um residente de Shíráz que não era crente, contou-me o seguinte: "Estive presente quando Mullá Sádiq estava sendo açoitado. Vi seus perseguidores, cada um por sua vez, aplicar o chicote aos seus ombros sangrentos e continuar os golpes até ficarem exaustos. Ninguém acreditava que Mullá Sádiq, de idade tão avançada e corpo tão frágil, tinha possibilidade de sobreviver cinqüenta desses golpes selvagens. Nós nos maravilhamos diante de sua fortaleza, vendo que, embora o número de chicotadas recebidas já excedesse a novecentas, sua face retinha ainda sua original serenidade e calma. Sorria, enquanto mantinha a mão diante da boca. Parecia completamente indiferente aos golpes que choviam sobre ele. Quando estava sendo expulso da cidade, consegui aproximar-me dele e lhe perguntei por que mantinha a mão diante da boca. Expressei surpresa pelo sorriso em seu semblante. Ele respondeu enfaticamente: "Os primeiros sete golpes foram extremamente dolorosos; aos demais, parecia me haver tornado indiferente. Perguntava a mim mesmo se os golpes sucedentes estavam sendo aplicados realmente ao meu próprio corpo. Um sentimento de jubilosa exaltação ma havia invadido a alma. Estava tentando reprimir meus sentimentos e controlar meu riso. Posso agora compreender como o onipotente Salvador pode, num piscar de olhos, converter dor em alívio e tristeza em alegria. Imensamente exaltado é Seu poder acima e além da vã fantasia de Suas criaturas mortais." Mullá Sádiq, com quem me encontrei anos depois, confirmou cada detalhe desse comovente episódio.

A ira de Husayn Khán não se saciou com este castigo atroz e completamente imerecido. A sua desumana e caprichosa crueldade, deu ainda mais expansão no assalto agora dirigido contra a pessoa do Báb (11). Enviou a Búshihr uma escola montada composta de sua própria guarda de confiança, com instruções enfáticas de prender o Báb e levá-Lo acorrentado a Shíráz. O chefe dessa escolta, membro da comunidade Nusayrí, melhor conhecida como a seita de 'Aliyu'lláhí, relatou o seguinte: "Tendo completado a terceira etapa de nossa viagem a Búshihr, encontramos no meio da selva, um jovem que usava um cinturão verde e um turbante pequeno segundo o modo dos siyyids que são comerciantes de profissão. Estava montado, sendo seguido por um servo etíope que tinha a cargo seus pertences. Quando dele nos aproximamos, saudou-nos e inquiriu nosso destino. Pensei que seria melhor lhe ocultar a verdade e respondi que o governador de Fárs havia ordenado fazer certa investigação. Sorridente, observou: 'O governador mandou que Me prendêsseis. Aqui estou; fazei comigo o que quiserdes. Vindo ao vosso encontro, tenho encurtado a duração de vossa marcha e vos tornado mais fácil Me encontrar.' Fiquei atônito diante dessas palavras, maravilhando-me de sua candura e franqueza. Não pude explicar, porém, sua prontidão para se submeter, de sua própria vontade, à severa disciplina dos oficiais de governo e assim arriscar sua própria vida e segurança. Tentei ignorá-lo e me preparava para partir, quando se aproximou de mim e disse: 'Juro pela retidão Daquele que criou o homem, o distinguiu das demais de Suas criaturas e fez seu coração o assento de Sua soberania e Seu conhecimento, que em toda a Minha vida nenhuma palavra pronunciei salvo a verdade e nenhum desejo tive, a não ser o bem-estar e progresso de Meus semelhantes. Tenho desdenhado Minha própria comodidade e evitado ser causa de dor ou tristeza para qualquer pessoa. Sei que Me estais buscando. Prefiro entregar-Me em vossas mãos antes de vos submeter, a vós e aos vossos companheiros, a um desnecessário aborrecimento por Minha causa.' Estas palavras comoveram-me profundamente. Desmontei de meu cavalo instintivamente e beijando seus estribos a ele me dirigi nestas palavras: 'Ó luz dos olhos do Profeta de Deus! Adjuro-vos, por Aquele que vos criou e vos dotou de tão grande nobreza e poder, que atendais meu pedido e respondais à minha súplica. Imploro-vos que escapeis deste lugar e fujais da face de Husayn Khán, o governador impiedoso e vil desta província. Tenho pavor de suas maquinações contra vós; rebelo-me diante da idéia de ser feito o instrumento de seus maliciosos desígnios contra tão inocente e nobre descendente do Profeta de Deus. Meus companheiros são todos homens honrados. Sua palavra é sua fiança. Comprometer-se-ão a não trair vossa fuga. Solicito-vos, ide à cidade de Mashhad em Khurásán e evitai cair vítima à brutalidade desse lobo implacável.' A minha fervorosa súplica, deu ele esta resposta: 'Que o Senhor vosso Deus vos recompense por vossa magnanimidade e nobre intenção. Ninguém conhece o mistério da Minha Causa; ninguém lhe pode sondar os segredos. Jamais volverei Minha face do decreto de Deus. Ele só é Minha Fortaleza segura, Meu Apoio e Meu Refúgio. Até que se aproxime minha última hora, ninguém se atraverá a Me agredir, ninguém poderá frustrar o plano do Todo-Poderoso. Quando tiver chegado Minha hora, que grande júbilo será Meu ao sorver o cálice do martírio em Seu Nome. Aqui estou; entregai-Me nas mãos de vosso mestre. Não tenhais receio, pois ninguém vos culpará.' Inclinei minha cabeça em consentimento e cumpri com seu desejo."

O Báb continuou imediatamente sua viagem a Shíráz. Livre e sem correntes, andou em frente de Sua escolta, a qual O seguia em atitude de respeitosa devoção. Pela mágica de Suas palavras, havia Ele desarmado a hostilidade de Seus guardas e transmudado sua orgulhosa arrogância em humildade e amor. Ao chegarem na cidade, seguiram diretamente à sede do governo. Qualquer um que observasse a cavalgada, enquanto marchava pelas ruas, não podia deixar de se maravilhar ante esse espetáculo inusitado. Logo que Husayn Khán foi informado da chegada do Báb, chamou-O a sua presença. Recebeu-O com a maior insolência e mandou que ocupasse um assento à face dele no centro da sala. Repreendeu-O publicamente e em linguagem insultante denunciou Sua conduta. "Compreendes", protestou irosamente, "que grande transtorno tens acendido? Estais consciente da desgraça que viestes a ser para a santa Fé do Islã e para a pessoa augusta de nosso soberano? Não és o homem que pretende ser autor de uma nova revelação que anula os sagrados preceitos do Alcorão?" O Báb respondeu calmamente: "'Se algum malvado vos trouxer notícias, esclarecerei o assunto prontamente, para que por ignorância não prejudiqueis aos outros e logo sejais constrangido a se arrepender daquilo que fizestes (12)."' Estas palavras inflamaram a ira de Husayn Khán. "O quê!" exclamou. "Atreves tu a nos atribuir maldade, ignorância e insensatez?" Virando-se para seu assistente, ordenou que batesse no rosto do Báb. Tão violento foi o golpe, que o turbante do Báb caiu ao chão. Shaykh Abu-Turáb, o Imame-Jum'ih de Shíráz, que estava presente nessa reunião e que desaprovou fortemente a conduta de Husayn Khán, mandou colocar de novo o turbante na cabeça do Báb e O convidou a se sentar ao seu lado. Volvendo-se ao governador, o Imame-Jum'ih lhe explicou as circunstâncias relacionadas à revelação do versículo do Alcorão que o Báb citara, tentando assim lhe acalmar a fúria. "Esse versículo que esse jovem citou", disse-lhe, "impressionou-me profundamente. Sinto que o caminho prudente é inquirir essa questão com grande cuidade e julgá-lo de acordo com os preceitos do Livro sagrado." Husayn Khán consentiu prontamente e então Shaykh Abú-Turáb interrogou o Báb a respeito da natureza e do caráter de Sua Revelação. O Báb negou a pretensão de ser o representante do prometido Qá'im ou o intermediário entre Ele e os fiéis. "Estamos completamente satisfeitos", respondeu o Imame Jum'ih; "pediremos que vos apresenteis na sexta-feira no Masjid-i-Vakíl e publicamente proclames vossa negação." Quando Shaykh Abú-Turáb se levantou para sair na esperança de terminar a questão, Husayn Khán interveio, dizendo: "Exigiremos uma pessoa de reconhecido prestígio que pague fiança e dê garantia por ele e que empenhe sua palavra por escrito de que, se alguma vez no futuro esse jovem tentar por palavra ou ato prejudicar os interesses da Fé do Islã ou do governo deste país, imediatamente o entegará em nossas mãos e se considerará sob todas as circunstâncias responsável por sua conduta." Hájí Mírzá Siyyid 'Alí, tio materno do Báb, que estava presente nessa reunião, consentiu atuar como fiador de seu Sobrinho. Com seu próprio punho escreveu o compromisso, afixou-lhe seu selo, confirmando-o pela assinatura de algumas testemunhas e o entregou ao governador. Com isso Husayn Khán deu ordem de que o Báb fosse entregue aos cuidados de Seu tio, com a condição de que, em qualquer momento em que o governador o julgasse conveniente, Hájí Mírzá Siyyid 'Alí entregaria o Báb imediatamente em suas mãos.

Hájí Mírzá Siyyid 'Alí, com o coração cheio de gratidão a Deus, conduziu o Báb a Sua casa e O entregou ao carinhoso cuidado de Sua reverenciada mãe. Regozijou-se com esta reunião de família e se sentiu profundamente aliviado pela libertação de seu estimado e precioso Parente das mãos daquele malicioso tirano. Na quietude de Seu próprio lar, o Báb levou por algum tempo uma vida de retiro sem perturbações. Ninguém, a não ser Sua esposa, Sua mãe e seus tios, tiveram qualquer contato com Ele. Entrementes os instigadores de distúrbios estavam diligentemente insistindo com Shaykh Abú-Turáb que chamasse o Báb ao Masjid-i-Vakíl, pois queriam exigir que cumprisse Sua promessa. Shaykh Abú-Turáb era conhecido como homem de caráter bondoso e de um temperamento e natureza que se assemelhavam, de um modo impressionante, ao caráter do falecido Mírzá Abu'l-Qásím, o Imame-Jum'ih de Teerã. Sentia-se muito pouco disposto a tratar com ultraje pessoas de reconhecida posição, especialmente se estas fossem residentes de Shíráz. Sentia instintivamente que era este seu dever, o qual observava de um modo consciencioso, sendo em conseqüência estimado universalmente pelo povo dessa cidade. Procurou, pois, mediante respostas evasivas e repetidos adiamentos, aquietar a indignação da multidão. Viu, porém, que os instigadores de distúrbios e sedição estavam envidando todos os esforços para inflamar mais ainda os ressentimentos gerais que das massas se haviam apoderado. Sentiu-se obrigado, afinal, a dirigir a Hájí Mírzá Siyyid 'Alí uma mensagem confidencial, pedindo-lhe que trouxesse o Báb com ele na sexta-feira ao Masjid-i-Vakíl, a fim de que cumprisse a promessa que fizera. "É minha esperança", acrescentou, "que com a ajuda de Deus, as afirmações de vosso sobrinho possam aliviar a situação tensa, resultando disto vossa tranqüilidade, bem como a nossa própria."

O Báb, acompanhado por Hájí Mírzá Siyyid 'Alí, chegou no Masjid numa ocasião em que o Imame-Jum'ih acabava de ascender ao púlpito e se preparava para proferir seu sermão. Assim que seus olhos avistaram o Báb, deu-lhe publicamente boas vindas, pediu-Lhe que subisse ao púlpito e solicitou que se dirigisse à congregação. O Báb, respondendo a seu convite, aproximou-se dele e em pé no primeiro degrau da escada, preparou-se para dirigir a palavra ao público. "Suba mais", interviu o Imame-Jum'ih. De acordo com seu desejo, o Báb subiu mais dois degraus. Nesta posição, Sua cabeça escondia o peito de Shaykh Abú-Turáb, que ocupava a parte superior do púlpito. Começou com um discurso preliminar como prefácio para Sua declaração pública. Mal pronunciara as palavras introdutórias de "Louvado seja Deus, que em verdade criou os céus e a Terra," quando um certo Siyyid conhecido como Siyyid-i-Shish-Parí, cuja função era levar a clava diante do Imame-Jum'ih, gritou com toda insolência: "Basta esse palavrório fútil! Declara agora, imediatamente, a coisa que pretendes dizer." O Imame-Jum'ih mostrou-se extremamente ressentido ante a grosseria das palavras do siyyid. Repreendeu-o, dizendo: "Guarda silêncio e tem vergonha de tua impertinência." Volvendo-se, então, ao Báb, pediu-Lhe que fosse breve, pois isto, disse, acalmaria a excitação do povo. O Báb, enquanto se virara para a congregação, declarou: "Caia a condenação de Deus sobre aquele que me considera o representante do Imame ou sua porta. Que caia a condenação de Deus também sobre qualquer um que me acuse de haver negado a unidade de Deus, de haver repudiado o grau profético de Maomé, o Selo dos Profetas, de haver rejeitado a verdade de qualquer um dos mensageiros de antanho ou recusado reconhecer a guardiania de 'Alí, Comandante dos Fiéis, ou de qualquer dos Imames que o tem sucedido." Subiu então ao cume da escada, abraçou o Imame-Jum'ih e descendo ao piso térreo do Masjid, se juntou com a congregação para a observância da oração de sexta-feira. O Imame-Jum'ih interveio, pedindo-Lhe que se retirasse. "Vossa família", disse-Lhe, aguarda ansiosamente vosso regresso. Todos são apreensivos de que algum dano vos suceda. Voltai a vossa casa e lá oferecei vossa prece; de mérito maior será este ato aos olhos de Deus." Também, à petição do Imame-Jum'ih, Hájí Mírzá Siyyid 'Alí acompanhou seu sobrinho até sua casa. Esta medida de precaução que Shaykh Abú-Turáb achou prudente observar foi motivada pelo medo de que, uma vez dispersa a congregação, alguns dos malévolos entre a multidão pudessem ainda tentar injuriar a pessoa do Báb ou Lhe pro em perigo a vida. Não fossem a sagacidade, a simpatia e a cuidadosa atenção demonstradas pelo Imame Jum'ih, de um modo tão impressionante em várias ocasiões similares, o povo enfurecido, sem dúvida, teria sido levado a satisfazer seu desejo selvagem, cometendo os mais abomináveis excessos. Parecia ele ter sido o instrumento da Mão invisível incumbida de proteger tanto a pessoa como a Missão daquele Jovem (13).

O Báb conseguiu regressar a Sua casa e durante algum tempo no retiro do lar e em estreita associação com Sua família e parentes, pode levar uma vida de relativa tranqüilidade. Naqueles dias celebrou o advento do primeiro Naw-Rúz desde que declarara Sua Missão. Esse festival caiu, naquele ano, no décimo dia do mês de Rabí'u'l-Avval, 1261 A.H. (14)

Alguns entre aqueles que estiveram presentes nessa memorável ocasião no Masjid-i-Vakíl e haviam escutado as afirmações do Báb, foram profundamente impressionados pela maneira magistral com que esse Jovem, com Seus próprios esforços, sem ajuda, conseguira silenciar Seus formidáveis adversários. Pouco depois desse acontecimento, veio cada um deles a apreender a realidade de Sua Missão e lhe reconhecer a glória. Entre eles estava Shaykh 'Alí Mírzá, sobrinho deste mesmo Imame-Jum'ih, jovem que acabava de atingir a idade da maturidade. A semente plantada em seu coração cresceu e se desenvolveu até que no ano de 1267 A.H. (15), teve o privilégio de conhecer Bahá'u'lláh no Iraque. Essa visita o fez transbordar de entusiasmo e júbilo. Voltando muito fortalecido a sua terra natal, reiniciou com redobrada energia seu trabalho pela Causa. Desde esse ano até o tempo presente tem ele perseverado em sua tarefa e atingido distinção pela retidão de seu caráter e pela devoção de todo coração a seu governo e seu país. Recentemente chegou na Terra Santa uma carta dirigida por ele a Bahá'u'lláh, na qual expressa sua intensa satisfação pelo progresso da Causa na Pérsia. "Estou mudo de assombro", escreve ele, "ao contemplar as evidências do inconquistável poder de Deus manifestado entre o povo de meu país. Em uma terra que há anos persegue a Fé com tanta selvageria, um homem que há quarenta anos é conhecido em toda a Pérsia como Bábí foi designado árbitro único num caso que envolve, por um lado, o Zillu's-Sultán, o filho tirânico do Xá e inimigo jurado da Causa, e por outro, Mírzá Fath 'Alí Khán, o Sáhib-i-Díván. Foi publicamente anunciado que qualquer que fosse o veredito deste bábí deveria ser aceito sem reservas por ambas as partes e imposto sem hesitação."

Um certo Muhammad-Karím, que se encontrava entre a congregação naquela sexta-feira, foi semelhantemente atraído pelo extraordinário comportamento do Báb naquela ocasião. O que viu e ouviu naquele dia levou a sua conversão imediata. A perseguição obrigou-o a sair da Pérsia para o Iraque, onde na presença de Bahá'u'lláh, continou a aprofundar sua compreensão e sua fé. Mais tarde, foi mandado por Ele a retornar para Shíráz e se esforçar o mais possível para propagar a Causa. Ali permaneceu e labutou até o fim de sua vida.

Ainda outro foi Mírzá Áqáy-i-Rikáb-Sáz. Sentiu tão grande amor pelo Báb naquele dia que nenhuma perseguição, por mais severa e prolongada que fosse, pode abalar suas convicções ou obscurecer o esplendor de seu amor. Ele, também, atingiu a presença de Bahá'u'lláh no Iraque. Em resposta às perguntas que fez atinentes à interpretação das Letras Inconexas do Alcorão e ao significado do versículo de Núr, foi favorecido com uma Espítola escrita expressamente, revelada pela pena de Bahá'u'lláh. Em Seu caminho sofreu, por mim, o martírio.

Entre eles estava também Mírzá Rahím-i-Khabbáz, que se distinguiu pela sua intrepidez e fogoso ardor. Até a hora de sua morte, não diminuiu seus esforços.

Hájí Abu'l-Hasan-i-Bazzáz que, como companheiro de viagem do Báb durante Sua peregrinação a Hijáz, havia apenas vagamente reconhecido a sobrepujante majestade de Sua Missão foi, naquela sexta-feira memorável, profundamente comovido e de todo transformado. Tão grande amor sentiu pelo Báb que lágrimas de uma devoção sobrepujante fluíam continuamente de seus olhos. Todos que o conheciam admiravam sua retidão de conduta e lhe elogiavam a benevolência e a candura. Ele, bem como seus dois filhos, provou pelas suas ações a tenacidade de sua fé e conquistou a estima de seus correligionários.

Outro ainda daqueles que sentiram a fascinação do Báb naquele dia, foi o falecido Hájí Muhammad-Bisát, homem bem versado nos ensinamentos metafísicos do islã e grande admirador tanto de Shaykh Ahmad como de Siyyid Kázim. Era de um gênio bondoso e tinha o dom de um agudo senso de humor. Havia conquistado a amizade do Imame-Jum'ih, estava intimamente associado com ele e assitia fielmente à oração congregacional da sexta-feira.

O Naw-Rúz daquele ano, que anunciava o advento de uma nova primavera, era também simbólico daquele renascimento espiritual cujas primeiras vibrações já podiam ser discernidas dentre os mais eminentes e eruditos do povo desse país emergiu da desolação invernal da negligência e foi vivificado pelo alento ressuscitador da recém-nascida Revelação. As sementes que a Mão da Onipotência havia plantado em seus corações germinaram até darem flores da mais pura e encantadora fragrância (16). À medida que a brisa de Sua amorosa bondade e terna misericórdia soprava sobre estas flores, o poder penetrante de seu perfume difundiu-se em todas as direções sobre a face dessa terra. Penetrou até mesmo além dos confins da Pérsia. Chegou a Karbilá e reanimou as almas daqueles que esperavam ansiosos a volta do Báb a sua cidade. Pouco depois do Naw-Rúz, chegou via Basrih uma epístola na qual o Báb, embora tencionasse regressar de Hijáz à Pérsia via Karbilá, lhes informava da modificação em Seu plano e da conseqüente impossibilidade de cumprir Sua promessa. Disse-lhes que seguissem a Isfáhán e lá permanecessem até receberem mais instruções. "Se Nos parecer aconselhável", acrescentou, "pediremos que sigam a Shíráz; se não, demorai-vos em Isfáhán até o momento em que Deus vos dê a conhecer Sua vontade e guia."

A chegada desta informação inesperada criou considerável comoção entre aqueles que haviam ansiosamente esperado a vinda do Báb a Karbilá. Isso agitou suas mentes e pôs a prova sua lealdade. "E Sua promessa a nós?" sussurraram alguns dos descontentes entre eles. "Considera Ele a violação de Sua promessa como a interposição da vontade de Deus?" Os outros, diferentes desses irresolutos, tornaram-se mais firmes em sua fé e com determinação aumentada aderiram à Causa. Fiéis a seu Mestre, responderam jubilosamente a Seu convite, não levando em conta as críticas e os protestos daqueles que haviam vacilado em sua fé. Partiram para Isfáhán, determinados a cumprir qualquer que fosse a vontade e o desejo de seu Bem-Amado. Juntaram-se a eles alguns de seus companheiros que ocultaram seus sentimentos, embora sua fé estivesse gravemente abalada. Mírzá Muhammad-'Aliy-i-Nahrí, cuja filha foi subseqüentemente unida em matrimônio com o Maior Ramo, e Mírzá Hádí, irmão de Mírzá Muhammad-'Ali, ambos residentes de Isfáhán, encontravam-se entre aqueles companheiros cuja visão da glória e sublimidade da Fé não pode ser obscurecida pelas dúvidas expressas pelos malévolos sussurradores. Também se encontrava entre eles um certo Muhammad-i-Haná-Sáb, outro residente de Isfáhán, atualmente servindo na casa de Bahá'u'lláh. Alguns destes firmes companheiros do Báb participaram na grande luta de Shaykh Tabarsí e, milagrosamente, escaparam ao trágico destino de seus irmãos caídos.

No caminho a Isfáhán encontraram, na cidade de Kangávár, Mullá Husayn com seu irmão e sobrinho, que foram seus companheiros em sua visita anterior a Shíráz e que iam a Karbilá. Ficaram muito contentes por causa deste inesperado encontro e a Mullá Husayn pediram que prolongasse sua estada em Kangávár, ao que ele prontamente cedeu. Mullá Husayn, que, enquanto nessa cidade, dirigia os companheiros do Báb na oração congregacional de sexta-feira, era tido em tão grande estima e reverência pelos seus co-discípulos, que alguns daqueles presentes que mais tarde em Shíráz, revelaram sua deslealdade à Fé, estavam incitados com inveja. Entre eles estavam Mullá Javád-i-Baraghání e Mullá 'Abdu'l-'Alíy-i-Harátí, ambos dos quais fingiram submissão à Revelação do Báb na esperança de satisfazer sua ambição de serem dirigentes. Ambos se esforçaram secretamente para minar a posição invejável alcançado por Mullá Husayn. Com suas sugestões e insinuações se esforçaram persistentemente para lhe desafiar a autoridade e desonrar seu nome.

Tenho ouvido Mírzá Ahmad-i-Kátib mais conhecido naqueles dias como Mullá 'Abdu'l-Karím, que fora o companheiro de viagem de Mullá Javád de Qazvín relatar o seguinte: "Mullá Javád em sua conversação comigo se referia muitas vezes a Mullá Husayn. Suas repetidas observações depreciadoras, expressas em linguagem astuciosa, impeliram-me a cessar minha associação com ele. Cada vez que eu determinava cortar minhas relações com Mullá Javád, era impedido por Mullá Husayn que, descobrindo minha intenção, me aconselhava a que exercesse para com ele tolerância. A associação de Mullá Husayn com os companheiros leais do Báb muito lhes aumentou o zelo e entusiasmo. Foram beneficiados pelo seu exemplo e sentiram admiração profunda pelas brilhantes qualidades de sua mente e coração que distinguiam esse tão eminente co-discípulo."

Mullá Husayn decidiu unir-se a companhia de seus amigos e com eles seguir a Isfáhán. Viajando só, à distância de aproximadamente um farsang (17) na frente dos companheiros, logo que parava ao anoitecer a fim de oferecer suas orações, era alcançado por eles e em sua companhia completava suas devoções. Era o primeiro a reiniciar a viagem, sendo outra vez alcançado por aquele devotado grupo na hora do alvorecer, quando novamente interrompia sua marcha para oferecer sua oração. Só ao ser instado pelos amigos, consentia observar a forma congregacional de adoração. Em tais ocasiões seguia, algumas vezes, a direção de um de seus companheiros. Tal era a devoção que ele acendera nesses corações, que alguns de seus companheiros de viagem desmontavam de seus corcéis e oferecendo-os àqueles que viajavam a pé, eles mesmos o seguiam, totalmente indiferentes às durezas e fadigas da marcha.

Quando das cercanias de Isfáhán se aproximavam, Mullá Husayn, receando que a repentina entrada de tão grande grupo de pessoas excitasse a curiosidade e suspeita dos habitantes, aconselhou que os que com ele viajavam se dispersassem e entrassem pelos portões em grupos pequenos que não chamassem atenção. Poucos dias após sua chegada, veio-lhes a notícia de que em Shíráz reinava um estado de violenta agitação, que toda espécie de contato com o Báb fora proibida e que sua planejada visita a essa cidade incorreria no mais grave perigo. Mullá Husayn, não amedrontado por essa repentina informação, decidiu seguir a Shíráz. Permitiu que apenas poucos de seus companheiros de confiança soubessem de sua intenção. Pondo de lado seus mantos e turbantes e usando o jabbih (18) e kuláh do povo de Khurásán, disfarçou-se como cavaleiro de Hizárih e Qúchán e acompanhado por seu irmão e seu sobrinho, partiu numa hora inesperada, para a cidade de seu Bem-Amado. Ao se aproximar do portão, instruiu seu irmão que na calada da noite procedesse à casa do tio materno do Báb e lhe pedisse informar ao Báb de sua chegada. No dia seguinte Mullá Husayn recebeu a grata notícia de que Hájí Mírzá Siyyid 'Alí o esperaria uma hora após o por do sol fora do portão da cidade. Mullá Husayn na hora marcada encontrou-se com ele e foi conduzido a sua casa. Em várias ocasiões, à noite, o Báb honrava com Sua presença essa casa e continuava em íntima associação com Mullá Husayn até o despontar do dia. Pouco depois, deu permissão aos Seus companheiros que se haviam reunido em Isfáhán, para partirem gradualmente para Shíráz e lá esperarem até que Seu encontro com eles fosse viável. Advertiu-lhes que exercessem a máxima vigilância e os instruiu de entrarem poucos de cada vez pelos portões da cidade imediatamente após sua chegada, se dispersassem para os alojamentos reservados para viajantes e aceitassem qualquer emprego que pudessem achar.

O primeiro grupo a alcançar a cidade e encontrar com o Báb, poucos dias após a chegada de Mullá Husayn, compunha-se de Mírzá Muhammad-'Alíy-i-Nahrí, Mírzá Hádí, seu irmão; Mullá 'Abdu'l-Karím-i-Qazvíní Mullá Javád-i-Baraghání Mullá 'Abdu'l-'Alíyi-i-Harátí e Mírzá Ibrahím-i-Shírází. Durante sua associação com Ele, os três últimos do grupo traíram gradualmente sua cegueira de coração e demonstraram a vileza de seu caráter. As múltiplas evidências do crescente favor mostrado pelo Báb para com Mullá Husayn provocaram essa ira e avivaram as brasas candentes do ciúme. Em sua impotente fúria, recorreram às armas abjetas da fraude e da calúnia. Não podendo de início manifestar abertamente sua hostilidade a Mullá Husayn, por todos os meios artificiosos tentaram enganar as mentes e esfriar o afeto de seus devotados admiradores. Sua conduta indigna alienou a simpatia dos crentes e precipitou sua separação da companhia dos fiéis expulsos do seio da Fé; por suas próprias ações coligarejeição total de suas pretensões e princípios. Tão grande foi o alvoroço que incitaram entre o povo dessa cidade que foram finalmente expulsos pelas autoridades civis, que igualmente detestavam e temiam suas maquinações. O Báb em uma Epístola na qual se estende sobre suas intrigas e maldades, comparou-os ao bezerro dos Sámirí, o bezerro que nem voz nem alma tinha, que era tanto a obra vil e o objeto da adoração de um povo refratário. "Que Tua condenação, ó Deus!" escreveu Ele referindo-se a Mullá Javád e Mullá 'Abdu'l-'Alí, "caia sobre o Jibt e o Tághút (19), os ídolos gêmeos deste povo perverso." Todos os três seguiram subseqüentemente a Kirmán e se uniram com Hájí Mírzá Muhammad Karím Khán, cujos desígnios eles apoiaram e a veemência de cujas denúncias trataram de reforçar.

Uma noite, após sua expulsão de Shíráz, o Báb, que estava visitando a casa de Hájí Mírzá Siyyid 'Alí, para onde havia chamado Mírzá Muhammad-'Alíy-i-Nahrí, Mírzá Hádí e Mullá 'Abdu'l-Karím-i-Qazvíní para encontrarem com Ele, volveu-se de súbito para este último e disse: "'Abdu'l-Karím, estás buscando o Manifestante?" Estas palavras, pronunciadas com calma e ternura extrema, tiveram sobre ele um efeito espantoso. Empalideceu diante desta repentina interrogação e se desfez em lágrimas. Prostrou-se aos pés do Báb em estado de agitação profunda. O Báb tomou-o afetuosamente em Seus braços, beijou-lhe a fronte e o convidou a sentar-se a Seu lado. Em um tom de terno carinho, pode lhe tranqüilizar o tumulto do coração.

Assim que chegaram em sua casa, Mírzá Muhammad-'Alí e seu irmão inquiriram a Mullá 'Abdu'l-Karím a razão da violenta perturbação que dele subitamente se apoderara. "Escutai-me", respondeu, "e vos relatarei a história de uma estranha experiência, uma história que com ninguém até agora partilhei. Ao atingir a idade da maturidade enquanto vivia em Qazvín, senti um desejo profundo de desvendar o mistério de Deus e apreender a natureza de Seus santos e profetas. Compreendi que nada, a não ser a aquisição de conhecimentos, me permitiria alcançar meu objetivo. Conseguindo obter o consentimento de meu pai e meus tios para abandonar meu negócio, mergulhei de imediato em estudo e pesquisa. Ocupei um quarto num dos madrisihs de Qazvín e concentrei os esforços na aquisição de todos os ramos disponíveis do conhecimento humano. Freqüentemente discutia com os condiscípulos o conhecimento que adquiria, procurando por este meio enriquecer minha experiência. À noite, eu me recolhia à minha morada e no retiro de minha biblioteca, dedicava muitas horas ao estudo ininterrupto. Tão imerso estava em minhas fainas que me tornei indiferente tanto para sono como para fome. Dentro de dois anos resolvera dominar todas as complexidades da jurisprudência e teologia muçulmanas. Assistia fielmente às conferências de Mullá 'Abdu'l-Karím-i-Iravání quem, naquele tempo, era considerado o sacerdote de maior destque em Qazvín. Grande admiração senti por seus vastos conhecimentos, sua piedade e virtude. Todas as noites durante o período em que era seu discípulo, dedicava meu tempo a escrever um tratado que lhe submeti e que ele, com cuidado e interesse, revisou. Parecia estar muito satisfeito com meu progresso e com freqüência elogiava minhas altas realizações. Um dia, na presença de seus discípulos reunidos, declarou. O erudito e sagaz Mullá 'Abdu'l-Karím já se qualificou para expor com autoridade as sagradas Escrituras do Islã. Não mais necessita ele assistir minhas classes, nem as de meus colegas. Celebrarei - Deus querendo - sua elevaçãoao grau de mujtahid na manhã da sexta-feira vindoura e lhe entregarei seu certificado após a oração congregacional.

Mal havia Mullá 'Abdu'l-Karím-i-Iravání dito esta palavra e partido, quando seus discípulos se aproximaram de mim e me felicitaram calorosamente por minhas realizações. Sentindo-me muito feliz, regressei à minha casa. Ao chegar, descobri que tanto meu pai como meu tio mais velho, Hájí Husayn-'Alí, que eram ambos tidos em grande estima em todo Qazvín, estavam preparando uma festa em minha honra, com a qual era sua intenção celebrar o término de meus estudos. Pedi-lhes que adiassem o convite feito às notabilidades de Qazvín até novo aviso de minha parte. Prontamente consentiram, acreditando que eu em vista de minha ânsia por esse festival, não o haveria de adiar excessivamente. Nessa noite me recolhi à minha biblioteca e na reclusão de meu quarto, ponderei em meu coração os seguintes pensamentos: Não havias imaginado enternecidamente - disse comigo mesmo - que só os santificados de espírito pudessem esperar jamais atingir o grau de autorizado expositor das sagradas Escrituras do Islã? Não era sua crença que qualquer um atingisse esse grau estaria imune ao erro? Não estás já incluído no número dos que gozam desse grau? Não foste reconhecido como tal e assim declarado pelo mais distinguido sacerdote de Qazvín? Sê justo. Consideras tu em teu próprio coração que tenhas atingido aquele estado de pureza e sublime desprendimento que, em dias passados, julgavas ser os requisitos para quem aspirasse a alcançar tão exaltada posição? Pensas tu que estás livre de toda mácula de desejo egoísta? Enquanto sentava refletindo, vinha se apoderando de mim, pouco a pouco, uma compreensão de próprio desmerecimento. Reconheci que era ainda vítima de preocupações e perplexidades, de tentações e dúvidas. Sentia-me oprimido por tais pensamentos como estes: de que modo deveria eu conduzir minhas classes, como dirigir minha congregação na oração, como fazer cumprir as leis e preceitos da Fé. Sentia contínua ansiedade sobre o desempenho de meus deveres, não sabendo como assegurar a superioridade de minhas realizações sobre as de meus predecessores. Sobreveio-me tão forte sentimento de humilhação que me senti impelido a procurar perdão de Deus. Teu objetivo em adquirir todos esses conhecimentos, pensava comigo, foi desvendar o mistério de Deus e atingir o estado da certeza. Sê justo. Tens certeza de tua própria interpretação do Alcorão? Estás certo de que as leis que promulga refletem a vontade de Deus? Revelou-se de repente em minha consciência meu erro. Percebi pela primeira vez como a ferrugem da erudição me havia corroído a alma e obscurecido a visão. Lamentei meu passado e deplorei a futilidade de meus esforços. Sabia que as pessoas de minha própria posição estavam sujeitas às mesmas aflições. Logo que haviam adquirido essa chamada erudição, se diziam os expositores da lei do islã e a si próprios arrogavam o exclusivo privilégio de se pronunciar sobre sua doutrina.

"Permaneci absorto em meus pensamentos até o alvorecer, nem me alimentando nem dormindo durante aquela noite. Às vezes comungava com Deus: "Tu me vês, ó meu Senhor e percebes o apuro em que estou. Sabes que outro desejo não alimento senão Tua santa vontade e Teu Beneplácito. Confundo-me completamente ao pensar na multidão de seitas em que se tem dividido Tua santa Fé. Torno-me profundamente perplexo quando contemplos os cismas que desgarraram as religiões do passado. Queres Tu me guiar em minhas perplexidades e me aliviar de minhas dúvidas? Onde havereis de me volver para consolo e guia? Chorei tão amargamente nessa noite que parecia haver perdido a consciência? Afigurou-se de súbito a visão de uma grande reunião de pessoas, a expressão de cujas faces radiantes profundamente me impressionou. Uma figura nobre, usando as vestes de um siyyid, ocupava um assento no púlpito frente à congregação. Estava expondo o significado deste sagrado versículo do Alcorão: "Quem fizer esforços por Nós, em Nossos caminhos Nós o guiaremos." Fascinava-me Sua face. Levantei-me, ia me aproximando dele e estava prestes a lançar-me a seus pés quando, repentinamente, aquela visão se desvaneceu. Meu coração inundou-se de luz. Indescritível era meu júbilo.

"Imediatamente decidi consultar Hájí Alláh-Vardí, pai de Muhammad-Javád-i-Farhádí, homem conhecido em todo Qazvín pela sua profunda intuição espiritual. Quando lhe relatei minha visão, sorri e com precisão extraordinária me descreveu as feições distintivas do siyyid que me havia aparecido. 'Essa nobre figura', acrescentou, 'outro não foi, senão Hájí Siyyid Kázím-Rashti, que se encontra agora em Karbilá e se vê todos os dias expondo aos discípulos os sagrados ensinamentos do islã. Os que lhe ouvem o discurso sentem-se refrescados e edificados por aquilo que diz. Jamais poderei descrever a impressão que suas palavras exercem sobre seus ouvintes.' Alegremente me levantei e expressando-lhe meus sentimentos de profunda apreciação, retirei-me para minha casa e iniciei de imediato minha viagem a Karbilá. Meus antigos condiscípulos vieram e me instaram que visitasse pessoalmente o sábio Mullá 'Abdu'l-Karím, que expressara o desejo de me encontrar, ou que eu lhe permitisse vir à minha casa. 'Sinto o impulso', respondi, 'de visitar o santuário do Imame Husayn em Karbilá. Fiz votos de iniciar imediatamente essa peregrinação. Não posso adiar minha partida. Se for possível, visitá-lo-ei por alguns momentos quando de saída da cidade. Se eu não puder, quereria lhe pedir que me descupalsse e orasse por mim, para que eu seja guiado no caminho reto.'

"Confidencialmente informei meus parentes da natureza de minha visão e de sua interpretação. Avisei-lhes de minha projetada visita a Karbilá. Minhas palavrs a eles nesse mesmo dia instilaram em seus corações amor a Siyyid Kázím. Sentiram-se muito atraídos a Hájí Alláh-Vardí, associaram-se livremente com ele e se tornaram seus fervorosos admiradores."

"Meu irmão, 'Abdu'l-Hamid (que mais tarde sorveu a taça do martírio em Teerã), acompanhou-me em minha viagem a Karbilá. Ali encontrei com Siyyid Kázím e me maravilhei ao ouvi-lo dissertar aos discípulos reunidos sob exatamente as mesmas circunstâncias em que me aparecera em minha visão. Atônito fiquei quando descobri ao chegar, que ele estava expondo o significado do mesmo versículo que ele, quando apareceu a mim estava explicando aos discípulos. Ao me sentar e ouvi-lo, senti-me profundamente impressionado pela força de seu argumento e pela profundidade de seus pensamentos. Ele me recebeu amavelmente e me mostrou a maior bondade. Tanto meu irmão como eu sentíamos uma alegria interior que jamais havíamos experimentado. Na hora do alvorecer, nós nos apressávamos a sua casa e o acompanhávamos em sua visita ao santuário do Imame Husayn.

"Passei o inverno inteiro em estreita associação com ele. Durante todo aquele período, assistia fielmente as suas classes. Cada vez que escutava uma palestra sua, eu o ouvia descrever um aspecto especial da manifestação do prometido Qá'ím. Constituía este o tema único de seus discursos. Qualquer o versículo ou a tradição que por acaso estivesse expondo, concluía seu comentário invariavelmente com uma referência especial ao advento da prometida Revelação. 'O Prometido', declarava ele aberta e repetidamente, 'vive no meio desse povo. A hora designada para Seu aparecimento aproxima-se rapidamente. Preparai-Lhe o caminho e vos purificai para que possais reconhecer Sua beleza. Antes de minha partida deste mundo não se revelará o Sol de Seu semblante. Depois de eu partir devereis levantar-vos em Sua busca. Não devereis descansar, nem por um momento sequer, até que O encontreis.'

"Após a celebração do Naw-Rúz, Siyyid Kázím ordenou que eu partisse de Karbilá. "Fique seguro, ó 'Abdu'l-Karím", foram suas palavras a mim enquanto se despedia, "és dos que, no Dia de Sua Revelação, se levantarão para o triunfo de Sua Causa. Espero que te lembres de mim nesse Dia abençoado.' Eu lhe roguei que me permitisse permanecer em Karbilá, argüindo que meu regresso a Qazvín incitaria a inimizade dos mullás daquela cidade. 'Que ponhas toda a tua confiança em Deus', foi sua resposta. 'Ignore totalmente suas maquinações. Ocupa-te no comércio e podes ter certeza de que seus protestos jamais poderão causar dano.' Segui esse conselho e com meu irmão parti para Qazvín. Imediatamente após minha chegada, incumbi-me de cumprir os conselhos de Siyyid Kázím. Com as instruções que ele me havia dado, pude silenciar todos aqueles que maliciosamente me fizeram oposição. Dedicava meus dias às transações comercias; à noite me retirava à minha casa e na quietude de meu aposento consagrava meu tempo à meditação e prece. Com olhos lacrimosos, comungava com Deus e Lhe suplicava, dizendo: "Tu, pela boca de Teu servo inspirado, prometeste que eu atingiria Teu Dia e contemplaria Tua Revelação. Por seu intermédio me tens assegurado que estarei entre aqueles que se levantarão para o triunfo de Tua Causa. Por quanto tempo me negarás o cumprimento de Tua promessa? Quando haverá de me ser descerrada a porta de Tua graça, pela mão de Tua misericórdia, e me conceder Tua benção eterna?" Toda noite repetia esta oração, continuando minhas súplicas até o amanhecer.

Numa noite, na véspera do dia de 'Arafih, no ano de 1255 A.H. (20), estava tão absorto em oração que eu parecia haver caído em transe. Apareceu diante de mim um pássaro, branco como a neve, que pairou sobre minha cabeça e pousou num renovo de uma árvore a meu lado. Em acentos de indescritível doçura, esta ave proferiu estas palavras: 'estás buscando o Manifestante, ó 'Abdu'l-Karím? Eis, o ano 60.' Imediatamente após, a ave voou e se desvaneceu. O mistério dessas palavras agitou-me profundamente. A memória de beleza dessa visão perdurou em minha mente por muito tempo. Parecia-me que havia saboreado todos os deleites do Paraíso. Meu júbilo era irreprimível.

"A mensagem mística dessa ave penetrara minha alma e estava continuamente em meus lábios. Sem cessar, a revolvia na mente. Com ninguém a compartilhei, receiando que sua doçura me abandonasse. Poucos anos depois, o Chamado de Shíráz chegou a meus ouvidos. No dia em que o ouvi, apressei-me a ir àquela cidade. No caminho, em Teerã, encontrei com Mullá Muhammad-i-Mu'allim, quem me deu a conhecer a natureza desse Chamado e me informou que aqueles que a haviam reconhecido estavam reunidos em Karbilá, esperando o regresso de seu Líder de Híjáz. De imediato parti para essa cidade. De Hamadán para meu profundo pesar, Mullá Javád-i-Baraghání me acompanhou a Karbilá, onde foi meu privilégio conhecer a vós bem como aos demais crentes. Continuei a entesourar dentro de meu coração a estranha mensagem que me fora transmitida por aquela ave. Quando subseqüentemente atingi a presença do Báb e de Seus lábios ouvi as mesmas palavras, pronunciadas no mesmo tom e linguagem nos quais as ouvira, compreendi seu significado. A tal ponto me arrebataram seu poder e sua glória que cai instintivamente a Seus pés e Lhe magnifiquei o Nome."

Nos primeiros dias do ano de 1265 A.H. (21), com a idade de dezoito anos, parti de minha aldeia natal de Zarand para Qum, onde conheci por acaso, Siyyid Ismá'il-i-Zavári'í, de sobrenome Dhabíh, quem mais tarde, enquanto em Bagdá, ofereceu sua vida em holocausto no caminho de Bahá'u'lláh. Por seu intermédio, vim a reconhecer a nova Revelação. Estava ele se preparando para partir nessa ocasião para Mázindarán, havendo resolvido unir-se com os heróicos defensores do forte de Shaykh Tabarsí. Tencionara levar-me com ele, como também a Mírzá Fathu'lláh-i-Hakkák, jovem de minha idade, que residia em Qum. Como circunstâncias interfiriram com seu plano, ele prometeu, antes de sua partida, que comunicaria conosco de Teerã e nos pediria que nos reuníssemos a ele. Durante sua conversa com Mírzá Fathú-lláh e comigo, relatou-nos a maravilhosa experiência de Mullá 'Abdu'l-Karím. Apoderou-se de mim um ardente desejo de conhecê-lo. Quando subseqüentemente cheguei em Teerã encontrei com Siyyid Ismá'íl no Madrisih-i-Dáru'sh-Shafáy-i-Masjid-i-Sháh, fui por ele apresentado a esse mesmo Mullá 'Abdu'l-Karím, que morava então no mesmo madrisih. Naqueles dias fomos informados de que a luta em Shaykh Tabarsí havia terminado e que aqueles companheiros do Báb reunidos em Teerã que tencionavam unir-se a seus irmãos, haviam regressado cada um a sua própria província, impossibilitados de alcançar sua meta. Mullá 'Abdu'l-Karím permaneceu na capital, onde dedicou seu tempo à transcrição do Bayán Persa. Nossa estreita associação nesse tempo serviu para aprofundar meu amor e admiração por ele. Sinto ainda, após o transcurso de trinta e oito anos desde nossa primeira entrevista em Teerã, o calor de sua amizade e a veemência de sua fé. Meus sentimentos de afetuosa consideração por ele tem me levado a referir-me extensamente as circunstâncias dos primeiros anos de sua vida, culminando naquilo que se pode ver como o ponto crítico de toda a sua carreira. Oxalá sirva, por sua vez, para despertar o leitor, a fim de que perceba a glória desta momentosa Revelação

CAPÍTULO VIII
A ESTADA DO BÁB EM SHÍRÁZ APÓS
A PEREGRINAÇÃO
(continuação)

Pouco depois da chegada de Mullá Husayn em Shíráz, a voz do povo levantou-se novamente em protesto contra ele. O receio e a indignação da multidão foram excitados pelo conhecimento de sua contínua e estreita associação com o Báb. 'Ele veio outra vez a nossa cidade', vociferaram, 'outra vez ele levantou o estandarte da revolta e, juntamente com seu chefe, está pensando em fazer um ataque ainda mais feroz contra nossas instituições seculares.' Tão grave e ameaçadora se tornou a situação que o Báb deu instruções a Mullá Husayn que regressasse via Yazd para sua província natal de Khurásán. De modo igual despediu o resto de Seus companheiros que se haviam reunido em Shíráz, mandando-os voltarem a Isfáhán. Deixou permanecer com Ele Mullá 'Abdu'l-Karím, a quem designou a tarefa de transcrever Seus escritos.

Essas medidas cautelosas que o Báb considerou prudente tomar, aliviaram-No do perigo imediato de violência por parte do povo ímpeto à propagação de Sua Fé além dos limites dessa cidade. Seus discípulos que se haviam espalhado por toda parte do país, proclamaram intrepidamente à multidão de seus patrícios o poder regenerador da recém-nascida Revelação. A fama do Báb havia sido difundida largamente, alcançando os ouvidos daqueles que ocupavam os mais altos postos de autoridade, tanto na capital como em toda parte das províncias (1). Uma onda de apaixonada busca dominava as mentes e os corações tanto dos líderes como das massas do povo. Espanto e admiração haviam se apoderado daqueles que ouviram dos lábios dos mensageiros próximos do Báb a relação dos sinais e testemunhos que haviam anunciado o nascimento de Sua Manifestação. Os dignitários de Estado e da Igreja, ou assistiram pessoalmente ou delegaram seus mais capazes representantes para instigarem a verdade e o caráter deste extraordinário Movimento.

O próprio Muhammad Sháh (2) sentiu-se impelido a se certificar da veracidade dessas informações e investigar sua natureza. Delegou Siyyid Yahyáy-i-Dárábí (3), o mais sábio, o mais eloqüente e o de maior prestígio dentre seus súditos, para entrevistar o Báb e lhe informar dos resultados de suas investigações. O Xá tinha confiança implícita em sua imparcialidade, em sua competência e em sua profunda intuição espiritual. Ele ocupava um lugar de tal preeminência entre as principais figuras da Pérsia, que em qualquer reunião que ele estivesse presente, não importando quão grande era o número dos diferentes eclesiásticos presentes, ele era invariavelmente o orador principal. Ninguém se atrevia a exteriorizar suas opiniões em sua presença. Todos guardavam um silêncio reverente diante dele; todos davam testemunho de sua sagacidade, de seus conhecimentos, jamais excedidos, e de sua sabedoria madura.

Naquele tempo Siyyid Yahyá residia em Teerã, na casa de Mírzá de Lutf-'Alí, o Mestre de Cerimônia do Xá, como o honrado hóspede de Sua Majestade Imperial. O Xá deu a entender, confidencialmente, por intermédio de Mírzá Lutf-'Alí, seu desejo e vontade que Siyyid Yahyá seguisse a Shíráz e investigasse a questão pessoalmente. "Diga-lhe de nossa parte", ordenou o soberano, "que, como temos a máxima confiança em sua integridade, admiramos suas normas morais e intelectuais e o consideramos o mais apto dentre os teólogos de nosso reino, esperamos que ele siga a Shíráz, indague a fundo o episódio do Siyyid-i-Báb e nos informe dos resultados de suas investigações. Assim saberemos quais as medidas que nos incumbe tomar."

Siyyid Yahyá havia, ele mesmo, desejado obter de primeira mão conhecimento a respeito das pretensões do Báb, mas por causa de circunstâncias adversas não pudera empreender a viagem a Fárs. A mensagem de Muhammad-Sháh decidiu-o a levar a cabo sua intenção desde tanto tempo nutrida. Assegurando ao seu soberano sua prontidão para cumprir com seu desejo, partiu imediatamente para Shíráz.

No caminho, imaginou as várias perguntas que pensava em submeter ao Báb. Das respostas dadas por este a essas perguntas dependeriam, segundo seu parecer, a verdade e validez de Sua missão. Ao chegar em Shíráz, encontrou Mullá Shaykh 'Alí, cognominado 'Azím, com quem ele havia sido intimamente associado enquanto esteve em Khurásán. Perguntou-lhe se estava satisfeito com sua entrevista com o Báb. "Deverias ter um encontro com Ele", respondeu 'Azím, "e procurar independentemente conhecer Sua Missão. Como amigo eu te aconselharia que exercesses a maior consideração em tuas conversações com Ele, para que tu também, afinal, não sejas obrigado a deplorar qualquer ato descortês para com Ele."

Siyyid Yahyá encontrou com o Báb na casa de Hájí Mírzá Siyyid 'Alí e mostrou em sua atitude para com Ele a cortesia que 'Azím lhe aconselhera observar. Durante aproximadamente duas horas dirigiu a atenção do Báb aos temas mais abtrusos e confusos nos ensinamentos metafísicos do Islã, às passagens mais obscuras do Alcorão e às misteriosas tradições e profecias dos imames da Fé. O Báb primeiro escutou suas referências eruditas à lei e às profecias do Islã, registrando todas as suas perguntas, e então começou a dar a cada, uma resposta breve mas persuasiva. A conclusão e a lucidez de Suas respostas causaram assombro e admiração da parte de Siyyid Yahyá. Sentiu-se acabrunhado por um senso de humilhação diante de sua própria presunção e orgulho. Seu senso de superioridade desvaneceu-se completamente. Ao se levantar para partir, dirigiu-se ao Báb nestas palavras: "Queira Deus, durante minha próxima audiência Convosco, submeterei o resto de minhas perguntas e com estas concluirei minha investigação." Logo que se retirou, reuniu-se com 'Azím, a quem relatou o que acontecera em sua entrevista. "Em Sua presença", disse-lhe, "estendi-me indevidamente sobre meus próprios conhecimentos. Ele em poucas palavras pode responder minhas perguntas e resolver as minhas perplexidades. Senti-me tão rebaixado diante Dele que apressadamente Lhe solicitei permissão para me retirar." 'Azím lembrou-o de seu conselho e lhe rogou que da próxima vez não o esquecesse.

Durante sua segunda entrevista, Siyyid Yahyá, atônito descobriu que todas as perguntas que tencionara submeter ao Báb se haviam desvanecido de sua memória. Contentou-se com assuntos que pareciam irrelevantes ao objeto de sua investigação. Logo verificou, para maior surpresa ainda, que o Báb estava respondendo, com a mesma lucidez e concisão que haviam caracterizado Suas respostas anteriores, aquelas mesmas perguntas que ele momentaneamente esquecera. "Eu parecia haver adormecido profundamente", comentou ele mais tarde "Suas palavras, Suas respostas às perguntas que eu havia esquecido Lhe submeter, despertaram-me. Uma voz ainda continuava a sussurrar em meu ouvido. 'Não seria isso, afinal, uma coincidência acidental?' Estava agitado demais para concentrar meus pensamentos. Outra vez, pedi permissão para me retirar. 'Azím, com quem me encontrei em seguida, recebeu-me com fria indiferença e austeramente observou: 'Oxalá tivessem sido inteiramente abolidas as escolas e nenhum de nós tivesse entrado em alguma! Pela estreiteza de nossas mentes e nossa vaidade, estamos impedindo que nos alcance a graça redentora de Deus e causando dor Àquele que é sua Fonte. Não pedirás a Deus, desta vez, para conceder que sejas capacitado a atingir Sua presença com a devida humildade e desprendimento, a fim de que quiçá, por Sua graça, Ele te alivie da opressão da incerteza e dúvida?"

"Resolvi que, em minha terceira entrevista com o Báb, eu no mais íntimo de meu coração Lhe pediria que me revelasse um comentário sobre o Sura de Kawthar (4). Estava determinado a não sussurrar esse pedido em Sua presença. Pois se Ele, sem que lhe pedisse, revelar esse comentário de um modo, que de imediato o distinguisse, aos meus olhos, dos tipos prevalecentes comuns entre os comentadores do Alcorão, eu então estaria convencido do caráter Divino de Sua missão e prontamente abraçaria Sua Causa. Se não, recusaria reconhecê-Lo. Logo que fui introduzido em Sua presença, um sentimento de pavor, para o qual não achava explicação, de súbito se apoderou de mim. Meus membros tremiam enquanto eu contemplava Seu rosto. Eu que em repetidas ocasiões havia sido admitido à presença do Xá, sem haver jamais percebido em mim o menor traço de timidez, estava agora tão pasmado e abalado que nem conseguia me manter em pé. O Báb ao observar minha condição, levantou-se de Seu assento, aproximou-se de mim e tomando minha mão, me fez sentar a Seu lado. 'Busca de Mim', disse Ele, 'qualquer coisa que o teu coração deseje. Prontamente revelarei.' Mudo de assombro estava eu. Como um bebê que não pode compreender nem falar, senti-me impotente para responder. Ele sorria enquanto fixava Seu olhar em mim e disse: 'Fosse Eu te revelar o comentário sobre o Sura de Kawthar, admitirias que Minhas palavras nascem do Espírito de Deus? Reconhecerias que minhas afirmações não podem de modo algum ser atribuídas à necromancia ou magia?' As lágrimas vertiam de meus olhos quando O ouvi dizer estas palavras. Tudo o que pude articular foi este versículo do Alcorão: 'Ó nosso Senhor, a nós próprios temos tratado injustamente se Tu não nos perdoares e de nós tiveres piedade, seremos seguramente dos que perecem.'

"Era ainda nas primeiras horas da tarde quando o Báb pediu a Hájí Mírzá Siyyid 'Alí que Lhe trouxesse Sua caixa de penas e algum papel. Começou então a revelar Seu comentário sobre o Sura de Kawthar. Como poderei descrever esta cena de inexpressível majestade? Versículos fluíam de Sua pena com uma rapidez verdadeiramente assombrosa. A incrível velocidade com que escrevia (5), a suave e doce entoação de Sua voz e a estupenda força e Seu estilo, tornaram-me pasmado e confuso. Ele continuou desta maneira até que se aproximava a hora do por do sol. Não fez pausa antes de haver completado o comentário inteiro sobre a Sura. Colocou a pena então na mesa e pediu chá. Pouco depois, principiou a lê-lo em voz alta em minha presença. Meu coração vibrava loucamente enquanto eu ouvia emanarem, em Seus acentos de indizível doçura, os tesouros que esse comentário sublime encerrava (6). A tal ponto sua beleza me encantou que três vezes estava eu prestes a desmaiar. Tratou Ele então de reavivar as forças esmorecidas, respingando em meu rosto algumas gotas de água de rosas. Isto reestabeleceu meu vigor, tornando possível que eu seguisse Sua leitura até o fim.

"Uma vez terminada Sua recitação, o Báb levantou-se para sair, entregando-me, ao partir, aos cuidados de Seu tio materno. "Ele deverá ser vosso hóspede,' disse-lhe, 'até quando ele em colaboração com Mullá 'Abdu'l-Karím, tiver acabado a transcrição deste comentário recém-revelado e tiver verificado a exatidão da cópia transcrita.' Mullá 'Abdu'l-Karím e eu dedicamos três dias e três noites a esta tarefa. Líamos em voz alta, cada um por sua vez, um trecho do comentário até que havia sido transcrito em sua totalidade. Conferimos todas as tradições no texto e verificamos serem inteiramente acuradas. Tal era o estado de certeza por mim atingido que, se todos os poderes da terra fossem aliar-se contra mim, seriam impotentes para fazer vacilar minha confiança na grandeza de Sua Causa (7).

"Como desde minha chegada em Shíráz eu estava morando na casa de Husayn Khán, o governador de Fárs, achei que minha prolongada ausência de sua casa poderia excitar suas suspeitas e lhe inflamar a ira. Resolvi, pois despedir-me de Hájí Mírzá Siyyid 'Alí e Mullá 'Abdu'l-Karím e regressar à residência do governador. Ao chegar, soube que Husayn Khán, que entrementes me havia estado procurando, ansioso estava em saber se eu caíra vítima da influência mágica do Báb. 'Ninguém, senão Deus', repliquei, 'único capaz de transformar os corações dos homens, pode cativar o coração de Siyyid Yahyá. Quem lhe pode enredar o coração é Deus, e Sua palavra, inquestionavelmente, é a voz da Verdade.' Minha resposta silenciou o governador. Em sua conversação com outros - eu soube subseqüentemente - ele expressara a opinião de que eu também havia caído desesperadamente vítima do encanto daquele Jovem. Até escrevera ele a Muhammad Sháh, queixando-se que eu durante a estada em Shíráz, havia recusado toda espécie de contato com os ulemás da cidade. 'Embora nominalmente meu hóspede', escreveu ao seu soberano, 'ele freqüentemente se ausenta de minha casa por vários dias e noites consecutivas. Já deixei de ter qualquer dúvida de que ele se tornou bábí, de se ter escravizado, de alma e coração, à vontade do Siyyid-i-Báb.'

"O próprio Muhammad Sháh, numa das funções de estado em sua capital, dirigiu a Hájí Mírzá Aqásí, dizem, estas palavras: 'Informaram-nos recentemente (8) que Siyyid Yahyá-i-Dárábí se tornou bábí. Se isto é verdade, nos incumbe deixar de menosprezar a causa desse siyyid.' Husayn Khán, por sua parte, recebeu a seguinte ordem imperial: 'Está estritamente proibido a todos os nossos súditos pronunciar quaisquer palavras que tendam a detrair a elevada posição de Siyyid Yahyáy-i-Dárábí. Ele é de nobre linhagem, um homem de grande erudição, de perfeita e consumada virtude. Sob nenhuma circunstância inclinará seu ouvido a uma causa, a não ser que a creia conducente à promoção dos melhores interesses de nosso reino e ao bem-estar da Fé do Islã.'"

"Ao receber este mandato imperial, Husayn Khán, não podendo me fazer resistência aberta, esforçou-se secretamente por minar minha autoridade. Sua face revelava inimizade e ódio implacáveis. Em vista, entretanto, dos insignes favores que me foram conferidos pelo Xá, não pode causar dano à minha pessoa nem me desacreditar o nome.

"Subseqüentemente ordenou o Báb que eu viajasse a Burújird, a fim de que lá tornasse conhecida ao meu pai (9) a nova Mensagem. Aconselhou-me que mostrasse para com ele a maior tolerância e consideração. De minhas conversações confidenciais com ele, percebi que não estava disposto a repudiar a verdade da Mensagem que lhe havia trazido. Preferiu, porém, ser deixado só e lhe permitisse seguir seu próprio caminho."

Outro dignitário do reino que investigou desapaixonadamente a Mensagem do Báb e, afinal, a abraçou, foi Mullá Muhammad-'Alí (10), nativo de Zanján, a quem o Báb conferiu o nome de Hujját-i-Zanjání. Era homem de mente independente, conhecido por sua extrema originalidade e por estar livre de todas as formas de restrição tradicional. Ele denunciava a inteira hierarquia dos dirigentes eclesiásticos de seu país, desde o Abváb-i-Arba'ih (11) até o mais humilde mullá dentre seus contemporâneos. Ele lhes depreciava o caráter, deplorava a degeneração e se estendia sobre os vícios. Até mesmo, antes de sua conversão exibia uma atitude indiferente, de desprezo, para com Shaykh Ahmad-i- Ahsá'í e Siyyid Kázim-i-Rashtí (12). Tão horrorizado estava ele diante das más ações que haviam manchado a história do islã xiita que qualquer um que pertencesse a essa seita, por mais elevados que fossem seus méritos pessoais, era por ele considerado indigno de sua consideração. Não raras vezes surgiam entre ele e os sacerdotes de Zanján casos de controvérsia feroz que - não fosse a intervenção pessoal do Xá, teriam levado a graves desordens e derramamento de sangue. Foi chamado, finalmente, à capital e na presença de seus adversários, representantes dos dirigentes eclesiásticos de Teerã e outras cidades, instado a vindicar suas afirmações. Completamente só, sem nenhum apoio, estabelecia ele sua superioridade sobre os oponentes e lhes silenciava o clamor. Ainda que nos seus corações discordassem de suas opiniões e condenassem sua conduta, se viram obrigados a reconhecer exteriormente sua autoridade e confirmar seu ponto de vista.

Logo que o Chamado de Shíráz chegou a seus ouvidos, Hujját delegou um de seus discípulos, Mullá Iskandar, em quem tinha a mais completa confiança, a indagar o assunto todo e o informar do resultado de suas investigações. Totalmente indiferente para com o louvor e a censura de seus patrícios, a respeito de cuja integridade tinha suspeita e cujo juízo desdenhava, enviou seu delegado a Shíráz com instruções explícitas para efetivar uma investigação minuciosa e independente. Mullá Iskandar atingiu a presença do Báb e sentiu de imediato o poder regenerador de Sua influência. Demorou quarenta dias em Shíráz e durante esse tempo absorveu os princípios da Fé e adquiriu, de acordo com sua capacidade, um conhecimento da medida de sua glória.

Com a aprovação do Báb, regressou ele a Zanján, chegando em uma ocasião em que todos os principais ulemás da cidade se haviam reunido na presença de Hujját. Assim que ele apareceu, Hujját perguntou se acreditava na nova Revelação ou a rejeitava. Mullá Iskandar submeteu-lhe os escritos do Báb que consigo trouxera e asseverou que qualquer que fosse o veredito de seu mestre, com este se julgaria obrigado a conformar. "O que!" exclamou irosamente Hujját. "Não fosse a presença desta distinta assistência, eu te haveria de castigar severamente. Como te atreves a considerar questões de crença como dependentes da aprovação ou da rejeição de outrem?" Recebendo da mão de seu mensageiro a cópia do Qayyúmu'l-Asmá, ele, logo que havia perscrutado uma página desse livro, prostrou-se no chão, exclamando: "Dou testemunho de que estas palavras que tenho lido procedem da mesma Fonte das do Alcorão. Quem tiver reconhecido a verdade daquele Livro sagrado deve forçosamente atestar a origem Divina destas palavras, deve necessariamente submeter-se aos preceitos que seu Autor infunde. Tomo a vós, membros desta assembléia, como minhas testemunhas: juro tal lealdade ao Autor dessa Revelação que, se Ele alguma vez pronunciasse ser a noite o dia, e declarasse o sol uma sombra, eu sem reservas me submeteria a Seu juízo e consideraria Seu veredito a voz da Verdade. A quem O negar julgarei o repudiador do próprio Deus." Com estas palavras terminou ele o curso dessa reunião (13).

Temos nos referido, nas páginas precedentes, à expulsão de Quddús e de Mullá Sádiq de Shíráz, e temos tentado descrever, ainda que inadequadamente, o castigo que lhes infligiu o tirânico e voraz Husayn Khán. Mister é agora dizermos uma palavra sobre suas atividades após sua expulsão daquela cidade. Por alguns dias continuaram a viajar juntos, depois do qual se separaram, Quddús partindo para Kirmán, a fim de entrevistar Hájí Mírzá Karím Khán, e Mullá Sádiq dirigindo seus passos a Yazd, com o objetivo de prosseguir, entre os ulemás dessa província, a tarefa que tão cruelmente o haviam forçado a abandonar em Fárs. Ao chegar, Quddús foi recebido na casa de Hájí Siyyid Javád-i-Kirmání, a quem havia conhecido em Karbilá e cuja erudição, habilidade e competência eram universalmente reconhecidas pelo povo de Kirmán. Em todas as reuniões realizadas em sua casa, ele designava a seu jovem convidado, invariavelmente, o lugar de honra e o tratava com extrema deferência e cortesia. Tão conspícua preferência mostrada para uma pessoa tão jovem e aparentemente medíocre acendeu a inveja dos discípulos de Hájí Mírzá Karím Khán, e estes, descrevendo em linguagem vívida e exagerada as honras que se amontoavam sobre Quddús, tentaram excitar a hostilidade latente de seu chefe. "Observa", sussurravam em seus ouvidos, "aquele que é o mais amado, de maior confiança e o mais íntimo companheiro do Siyyid-i-Báb, é agora o hóspede de honra daquele que é reconhecidamente o mais poderoso habitante de Kirmán. Se lhe for permitido viver em estreita associação com Hájí Siyyid Javád, ele sem dúvida lhe instilará na alma seu veneno e o modelará como o instrumento por meio do qual conseguirá minar vossa autoridade e extinguir vossa fama." Alarmado por estes maus murmúrios, o covarde Hájí Mírzá Karím Khán apelou ao governador e lhe induziu a visitar pessoalmente Hájí Siyyid Javád e exigir que terminasse essa perigosa associação. As representações do governador inflamaram a ira do impetuoso Hájí Siyyid Javád. "Quantas vezes", protestou ele com veemência "vos tenho admoestado que ignorásseis os murmúrios desse malévolo conspirador! Minha tolerância o tornou audaz. Que tenha cuidado para que não exceda seus limites. Será que ele deseja usurpar a minha posição? Não é ele quem recebe em sua casa milhares de pessoas abjetas e ignóbeis e os domine com sua lisonja servil. Não tem ele, repetidas vezes, se esforçado por exaltar os ímpios e silenciar os inocentes. Não tem, ano após ano, reforçando a mão do malfazejo, procurando aliar-se com ele e gratificar seus desejos carnais? Não persiste, até hoje, em pronunciar suas blasfêmias contra tudo o que há de puro e santo no Islã? Meu silêncio parece lhe haver aumentado a temeridade e a insolência. A si próprio concede ele liberdade para cometer as mais nefárias ações e a mim nega permissão para receber e honrar em minha própria casa um homem de tanta integridade, de tão grande erudição e nobreza. No caso em que se recuse a desistir de sua prática, seja ele advertido de que os piores elementos da cidade, por mim instigados, o expulsarão de Kirmán." Desconcertado por tão veementes denúncias, o governador pediu desculpas pela sua ação. Antes de se retirar, assegurou a Hájí Siyyid Javád que não precisaria ter receio, que ele mesmo tentaria alertar Hájí Mírzá Karím Khán quanto à insensatez de seu comportamento e o induziria a se arrepender.

A mensagem do siyyid aguilhoou a Hájí Mírzá Karím Khán. Convulsionando por um senso de profundo ressentimento que ele não pode nem suprimir nem gratificar, desistiu de toda esperança de adquirir a incontestada liderança do povo de Kirmán. Aquele desafio aberto fez soar o dobre fúnebre de suas ambições tão acariciadas.

Na privacidade de seu lar, Hájí Siyyid Javád ouviu Quddús contar todos os detalhes de suas atividades desde o dia de sua partida de Karbilá até sua chegada em Kirmán. As circunstâncias de su conversão e sua subseqüente peregrinação com o Báb excitaram a imaginação e acenderam a chama da fé no coração de seu anfitrião, o qual preferiu, entretanto, ocultar sua crença na esperança de poder proteger mais efetivamente os interesses da recém-estabelecida comunidade. "Vossa nobre resolução", assegurou-lhe afetuosamente Quddús, "será considerada em si um serviço notável prestada à Causa de Deus. O Todo-Poderoso reforçará vossos esforços e estabelecerá para todo o sempre vossa ascendência sobre os oponentes."

Esse incidente me foi relatado por um certo Mírzá 'Abdu'lláh-i-Ghawghá, quem, enquanto em Kirmán, o ouvira dos lábios do próprio Hájí Siyyid Javád. A sinceridade das intenções expressas pelo siyyid foi plenamente vindicada pela esplêndida maneira como, em conseqüência de seus esforços, conseguiu resistir às usurpações do insidioso Hájí Mírzá Karím Khán, o qual, se não lhe houvesse sido feito esse desafio, teria causado dano incalculável à Fé.

De Kirmán, Quddús decidiu partir para Yazd e daí proceder a Ardikán, Náyin, Ardistán, Isfáhán, Káshán, Qum e Teerã. Em cada uma dessas cidades, apesar dos obstáculos que lhe bloqueavam o caminho, ele conseguia instilar na compreensão de seus ouvintes os princípios que tão corajosamente se levantara para defender. Ouvi Aqáy-i-Kalím, irmão de Bahá'u'lláh, descrever nas seguintes palavras seu encontro com Quddús em Teerã: "O encanto de sua pessoa, sua afabilidade extrema, combinada com uma dignidade de porte, faziam apelo até ao observador mais casual. Qualquer um que estivesse intimamente associado com esse jovem se sentia dominado por uma admiração insaciável pelo seu encanto. Um dia nós o observamos enquanto fazia suas abluções e fomos impressionados pela maneira graciosa que o distinguia dos demais devotos na execução de um ritual tão comum. Ele parecia, aos nossos olhos, ser a própria encarnação da pureza e graça."

Em Teerã, Quddús foi admitido à presença de Bahá'u'lláh, depois do que seguiu a Mázíndarán, onde em sua cidade natal de Bárfurúsh, na casa de seu pai, residiu cerca de dois anos, sendo rodeado durante esse tempo pela carinhosa devoção de sua família e parentes. Seu pai, após a morte da primeira esposa, havia casado com uma senhora que tratava Quddús com uma bondade e solicitude que nenhuma mãe poderia ter esperado exceder. Ela muito desejava presenciar seu casamento e muitas vezes era ouvida dizer que receava ter que levar consigo ao túmulo a suprema felicidade de seu coração." "O dia de meu casamento", observou Quddús, "ainda não chegou. Aquele dia será indizivelmente glorioso. Não dentro dos confins desta casa, mas sim, ao ar livre, sob a abóboda celeste, em meio ao Sabzih-Maydán, ante o olhar da multidão, lá haverei de celebrar minhas núpcias e testemunhar a consumação de minhas esperanças." Três anos depois, quando aquela senhora soube das circunstâncias que atenderam o martírio de Quddús no Sabzih-Maydán, ela se lembrou de suas palavras proféticas e compreendeu o que significavam (14). Quddús permaneceu em Bárfurúsh até a ocasião em que se uniu a Mullá Husayn, quando de volta de sua visita ao Báb na fortaleza de Mahkú. De Bárfurúsh partiram para Khurásán, viagem esta que foi tornada memorável por façanhas tão heróicas que nenhum de seus patrícios poderia jamais esperar rivalizá-las.

Quanto a Mullá Sádiq, logo que chegou em Yazd, inquiriu a um amigo de confiança, nativo de Khurásán, sobre os mais recentes acontecimentos em relação ao progresso da Causa naquela província. Estava especialmente ansioso de ter informações a respeito das atividades de Mírzá Ahmad-i-Azghandí e expressou sua surpresa pela aparente inatividade de alguém que, num tempo quando o mistério da Fé não fora ainda divulgado, mostrara tão notável zelo em preparar o povo para aceitar o Manifestante Cuja vinda aguardavam.

"Mírzá Ahmad", disseram-lhe, "isolou-se por um período considerável em sua própria casa e aí concentrou as energias em preparar uma compilação erudita e volumosa das tradições e profecias islâmicas relativas ao tempo e ao caráter da prometida Dispensação. Colecionou mais de doze mil tradições do mais explícito caráter, cuja autenticidade era universalmente reconhecida; e resolveu tomar quaisquer medidas que fossem necessárias para copiar e disseminar esse livro. Ele esperava que, animando seus co-discípulos a citarem publicamente de seu conteúdo, em todas as congregações e reuniões, pudesse remover tais obstáculos que talvez impedissem o progresso da Causa que ele acariciava no coração."

"Quando chegou em Yazd, fez-lhe calorosa acolhida seu tio materno, Siyyid Husayn-i-Azghandí, o mais eminente mujtahid daquela cidade, que alguns dias antes da chegada de seu sobrinho mandou a ele um pedido por escrito para se apressar a Yazd e livrá-lo das maquinações de Hájí Mírzá Karím Khán, considerado por ele um perigoso inimigo do Islã, embora não declarado. O mujtahid solicitou a Mírzá Ahmad que combatesse por todos os meios em seu poder a influência perniciosa de Hájí Mírzá Karím Khán, desejando que estabelecesse residência permanente nessa cidade, para que, através de incessantes exortações e apelos, conseguisse esclarecer as mentes do povo a respeito dos verdadeiros objetivos e intenções daquele inimigo maligno."

"Mírzá Ahmad, ocultando de seu tio sua intenção original de partir para Shíráz, decidiu prolongar sua estada em Yazd. Mostrou-lhe o livro que compilara e repartiu seu conteúdo com os ulemás que se aglomeravam de toda parte da cidade a fim de o verem. Todos foram profundamente impressionados pela habilidade, pela erudição e pelo zelo que o compilador dessa célebre obra havia demonstrado."

"Entre aqueles que vieram visitar Mírzá Ahmad havia um certo Mírzá Taqí, um homem que era malévolo, ambicioso e arrogante, que recentemente regressara de Najáf, onde havia completado seus estudos e sido elevado ao grau de mujtahid. No decorrer de sua conversação com Mírzá Ahmad, expressou seu desejo de perscrutar aquele livro e de lhe ser permitido retê-lo por poucos dias, a fim de que pudesse adquirir uma compreensão mais completa de seu conteúdo. Siyyid Husayn e o sobrinho concordaram ambos em lhe satisfazer o desejo. Mírzá Taqí, que deveria ter devolvido o livro, não cumpriu sua promessa. Mírzá Ahmad, que há havia suspeitado a insinceridade das intenções de Mírzá Taqí, instou a seu tio que lhe lembrasse da promessa que fizera. 'Diga a seu mestre', foi a resposta insolente ao mensageiro que foi mandado para reclamar o livro, 'que depois de me convencer do caráter pernicioso daquela compilação, decidi destruí-la. Ontem à noite joguei-a na lagoa, assim obliterando suas páginas.'

"Movido por profunda e determinada indignação diante de tamanha falsidade e impertinência, Siyyid Husayn resolveu vingar-se dele. Mírzá Ahmad, porém, com seus sábios conselhos, conseguiu apaziguar a ira de seu tio enfurecido e dissuadi-lo de levar a cabo as medidas que propunha tomar. 'Esse castigo', insistia, 'que vós contemplais, causará agitação do povo e provocará danos e sedição. Haverá de interferir gravemente com os esforços que desejais que eu faça a fim de extinguir a influência de Hájí Mírzá Karím Khán. Ele sem dúvida aproveitará a ocasião para vos denunciar como bábí e a mim acusará de ter sido a causa de vossa conversão. Por esse meio minará vossa autoridade e ganhará a estima e a gratidão do povo. Deixai-o nas mãos de Deus.

Mullá Sádiq ficou muito satisfeito ao saber pela relação desse incidente que Mírzá Ahmad estava realmente residindo em Yazd e que nenhum obstáculo o impedia de encontrar com ele. Foi imediatamente ao masjid onde Siyyid Husayn estava dirigindo a oração congregacional e Mírzá Ahmad pregava o sermão. Sentando-se na primeira fileira entre os devotos, participou em sua oração, depois do qual foi diretamente a Siyyid Husayn e publicamente o abraçou. Logo em seguida, sem ser convidado, ascendeu ao púlpito e se pos a dirigir aos fiéis. Siyyid Husayn, embora de início assustado, preferiu não fazer objeção, tendo curiosidade para descobrir o motivo e certificar o grau de erudição desse súbito intruso. Fez sinal ao sobrinho para se deter de lhe fazer oposição.

Mullá Sádiq prefaciou seu discurso com uma das mais conhecidas e mais belas das homilias do Báb, depois do qual se dirigiu à congregação nestes termos: "Rendei graças a Deus, ó povo, de compreensão pois eis, o Portal do Conhecimento Divino, que julgastes haver sido fechado, está agora aberto de par em par. O Rio da vida eterna jorrou da cidade de Shíráz e está conferindo bênçãos indizíveis ao povo desta terra. Qualquer um que tenha participado de apenas uma gota desse Oceano de graça celestial, por mais humilde e iletrado que seja, tem descoberto em si o poder de desvendar os mais profundos mistérios e se sentido capaz de expor os temas mais abstrusos da sabedoria antiga. E qualquer um, embora seja o mais erudito expositor da Fé do Islã, que tenha preferido depender de sua própria competência e seu próprio poder, mostrando desdém pela Mensagem de Deus, já se condenou a irreparável perda e degração."

Uma onda de indignação e consternação varreu a inteira congregação enquanto essas palavras de Mullá Sádiq ressoavam esse momentoso anúncio. O masjid ecoava com gritos de "Blasfêmia!" por uma congregação enfurecida e horrorizada contra quem fizera o discurso. "Desça do púlpito" exclamou Siyyid Husayn em meio ao clamor e tumulto do povo, enquanto fazia sinal a Mullá Sádiq para guardar silêncio e se retirar. Mal havia ele descido quando a inteira companhia dos devotos reunidos se lançaram sobre ele e o acabrunharam de pancadas. Siyyid Husayn interveio imediatamentte, dispersou a multidão vigorosamente e tomando a mão de Mullá Sádiq, puxou-o com força até seu lado. "Retirai vossas mãos," foi seu apelo à multidão; "deixai-o em minha custódia. Leva-lo-ei à minha casa e cuidadosamente investigarei o assunto. Um ataque repentino de loucura o pode ter feito pronunciar essas palavras. Eu mesmo o examinarei. Se verificar haverem sido premeditadas suas afirmações, sendo que ele próprio firmemente acredita nas coisas que declarou, eu, com minhas próprias mãos lhe infligirei o castigo que a lei do Islã impõe."

Em virtude dessa solene asseveração, Mullá Sádiq foi salvo dos ataques selvagens de seus assaltantes. Despojado de sua 'abá (15) e turbante, privado de suas sandálias e seu bordão, machucado e abalado pelas injúrias recebidas, foi entregue aos cuidados dos assistentes de Siyyid Husayn, que forçando sua passagem entre a multidão, conseguiram afinal conduzi-lo à casa de seu mestre.

Mullá Yúsuf-i-Ardibílí, outrossim, foi sujeitado naqueles dias a uma perseguição ainda mais feroz e mais determinada que a investida selvagem que o povo de Yazd havia dirigido contra Mullá Sádiq. Não fosse a intervenção de Mírzá Ahmad, ajudado pelo seu tio, ele teria caído vítima da ira de um inimigo feroz.

Quando Mullá Sádiq e Mullá Yúsuf-i-Ardibílí chegaram em Kirmán, tiveram novamente de se submeter a indignidades semelhantes e sofrer aflições similares nas mãos de Hájí Mírzá Karím Khán e seus cúmplices (16). Os persistentes esforços de Hájí Siyyid Javád os libertaram finalmente das mãos de seus perseguidores, tornando-lhes possível seguir a Khurásán.

Embora caçados e atormentados pelos seus inimigos, os discípulos próximos do Báb, juntamente com seus companheiros em várias partes da Pérsia, apesar de tais atos criminosos, não foram impedidos de executar sua tarefa. Inalteráveis em seu propósito e inabaláveis em suas convicções, continuaram a batalhar contra as forças negras que os atacavam a cada passo de sua senda. Com sua irrestrita devoção e incomparável fortaleza, puderam demonstrar a muitos de seus patrícios a influência enobrecedora da Fé em cuja defesa se haviam levantado.

Enquanto Vahíd (17) estava ainda em Shíráz, Hájí Siyyid Javád-i-Karbilá'í (18) chegou e foi apresentado ao Báb por Hájí Mírzá Siyyid 'Alí. Numa Epístola que o Báb dirigiu a Vahíd e a Hájí Siyyid Javád, Ele elogiou a firmeza de sua fé e enalteceu o caráter inalterável de sua devoção. Este último havia conhecido e estado com o Báb antes da declaração de Sua Missão, e fora um fervoroso admirador daquelas características extraordinárias que sempre O haviam distinguido desde Sua infância. Em época posterior foi ao encontro de Bahá'u'lláh em Bagdá e Dele recebeu especial favor. Quando, poucos anos depois, Bahá'u'lláh foi exilado a Adrianópolis, ele, sendo já de uma idade bem avançada, regressou à Pérsia, demorou-se por algum tempo na província do Iraque e daí seguiu a Khurásán. Por causa de sua índole benévola, sua tolerância extrema e simplicidade sem afetação, lhe foi dado o nome de Siyyid-Núr (19).

Hájí Siyyid Javád, quando um dia atravessava uma rua em Teerã, viu de repente o Xá, que vinha passando montado de cavalo. Sem ser perturbado pela presença de seu soberano, aproximou-se dele, saudando-lhe. Sua venerável figura e sua dignidade de porte agradaram imensamente ao Xá. Respondendo a sua saudação, convidou-o a vir lhe visitar. Tal foi a recepção concedida a ele que os cortesãos do Xá se encheram de inveja. "Sua Majestade Imperial não recorda?" protestaram, "que esse Hájí Siyyid Javád não é outro, senão o homem que, mesmo antes da declaração do Siyyid-i-Báb, se proclamara um bábí e hipotecara a sua pessoa lealdade imorredora." O Xá, percebendo a malícia que motivavam sua acusação, desagradou-se extremamente e lhes repreendeu por sua temeridade e vileza. "Que estranho!" dizem haver ele exclamando, "qualquer um que se distinga pela integridade de sua conduta e pela cortesia de suas maneiras, meu povo logo o denuncia como bábí e o considera merecedor de minha condenação!"

Hájí Siyyid Javád passou os últimos dias de sua vida em Kirmán e permaneceu até sua última hora um fiel defensor da Fé. Jamais vacilou em suas convicções nem diminuiu seus generosos esforços para a difusão da Causa.

Shaykh Sultán-i-Karbilá'í, cujos ancestrais eram entre os mais eminentes ulemás de Karbilá, e que havia sido ele próprio um firme defensor e íntimo companheiro de Siyyid Kázim, que também se incluía no número dos que naqueles dias haviam conhecido o Báb em Shíráz. Ele foi quem, mais tarde, seguiu a Sulaymáníyyih em busca de Bahá'u'lláh e cuja filha foi, subseqüentemente, dada em casamento a Aqáy-i-Kalím. Ao chegar em Shíráz, foi acompanhado por Shaykh Hasan-i-Zunúzí, a quem nos referimos nas primeiras páginas desta narrativa. A ele deu o Báb a tarefa de transcrever, em colaboração com Mullá 'Abdu'l-Karím, as Epístolas que recentemente revelara. Shaykh Sultán, que na ocasião de sua chegada, estivera demasiado doente para ir ao encontro do Báb, uma noite, enquanto ainda confinado à cama, recebeu uma mensagem de seu Bem-Amado informando-lhe que, cerca de duas horas após o por do sol, Ele Próprio o visitaria. Aquela noite, o servo etíope, no papel de porta-lanterna para seu Mestre, teve instruções para andar na frente, a uma distância que tirasse Dele a atenção do povo, e para extinguir a lanterna logo que alcançasse seu destino.

Já ouvi o próprio Shaykh Sultán descrever aquela visita noturna: "O Báb, que me havia mandado apagar a lanterna em meu aposento antes de Sua chegada, veio diretamente ao lado de minha cama. Em meio à escuridão que nos envolvia, eu segurava firmemente a orla de Suas vestes e Lhe implorava: 'Satisfaze Tu meu desejo, ó Bem-Amado de meu coração, e permite que eu por Ti me sacrifique, pois ninguém, senão Tu, me pode conferir esse favor.' 'Ó Shaykh!' respondeu o Báb, 'também Eu desejo ardentemente imolar-Me sobre o altar do sacrifício. Convém a nós, ambos, apegar-nos às vestes do Mais-Amado e Dele buscar o júbilo e a glória do martírio em Sua senda. Assegurai-vos de que por vós suplicarei ao Todo-Poderoso para que vos capacite a atingir a Sua Presença. Lembrai-vos de Mim naquele Dia, um Dia tal como o mundo jamais viu.' Ao aproximar-se a hora da partida, Ele pos em minha mão uma dádiva que me pediu que despendesse para mim mesmo. Tentei recusar, mas Ele me solicitou que a aceitasse. Finalmente me conformei com Seu desejo; com isso Ele se levantou e partiu.

"A referência que o Báb naquela noite fez ao Seu 'Mais-Amado excitou em mim admiração e curiosidade. Nos anos subseqüentes, eu muitas vezes acreditava que a pessoa a quem o Báb se referira não era outra que Táhirih. Imaginva até que Siyyid-i-Uluvv fosse aquela pessoa. Grande era minha perplexidade e não sabia como desvendar esse mistério. Quando fui até Karbilá e atingi a presença de Bahá'u'lláh, convenci-me firmemente de que só Ele poderia reclamar do Báb tal afeição, que Ele, e somente Ele, poderia merecer tamanha adoração."

O segundo Naw-Rúz após haver o Báb declarado Sua Missão, caindo no dia 21 do mês de Rabí'u'l-Avval, no ano de 1262 A.H. (20), encontrou o Báb em circunstâncias de comparativa tranqüilidade e conforto, ainda em Shíráz, gozando das bênçãos de ininterrupta associação com Sua família e parentes. Quietamente e sem cerimônia celebrou o festival de Naw-Rúz em Seu próprio lar e de acordo com Seu costume invariável, conferiu generosamente, tanto a Sua mãe como a Sua esposa, as provas de Sua afeição e Seu favor. Com a sabedoria de Seus conselhos e a ternura de Seu amor alegrou seus corações e dissipou suas apreensões. Ele lhes legou todas as Suas possessões e a seus nomes transferiu o título de Sua propriedade. Num documento escrito e assinado por Ele mesmo, deu instruções para que Sua casa com mobília, assim como o restante de seus bens, fosse considerada a propriedade exclusiva de Sua mãe e Sua esposa; e que ao falecer a primeira, sua parte da propriedade revertesse a Sua esposa.

A mãe do Báb não atingiu, de início, à percepção do significado da Missão proclamada pelo seu Filho. Ficou, por algum tempo, inconsciente da magnitude das forças latentes em Sua Revelação. À medida que se aproximava do fim de sua vida, porém, veio a perceber a qualidade inestimável do Tesouro que ela havia concebido e dado ao mundo. Foi Bahá'u'lláh quem afinal a tornou capaz de descobrir o valor daquele Tesouro oculto que durante tantos anos jazia escondido de seus olhos. Ela estava morando no Iraque, onde esperava passar os dias restantes de sua vida, quando Bahá'u'lláh deu instruções a dois de Seus devotados seguidores, Hájí Siyyid Javád-i-Karbilá'í e a esposa de Hájí 'Abdu'l-Masjíd-i-Shírází, sendo que ambos já lhe conheciam intimamente para que lhe ensinassem os princípios da Fé. Ela admitiu a verdade da Causa e permaneceu, até os anos finais do século treze A.H. (21), quando ela partiu desta vida, plenamente consciente das generosas dádivas que o Onipotente se dignara lhe conferir.

A esposa do Báb, diferente de Sua mãe, percebeu desde o primeiro alvorecer de Sua Revelação a glória e o inigualável grau de Sua Missão e sentiu, desde o princípio, a intensidade de sua força. Nenhuma entre as mulheres de sua geração, com a exceção única de Táhirih, lhe excedeu no caráter espontâneo de sua devoção, nem ultrapassava o fervor de sua fé. A ela confiou o Báb o segredo de Seus futuros sofrimentos; a seus olhos desdobrou o significado dos acontecimentos que seriam testemunhados em Seu Dia. Disse-lhe que não divulgasse esse segredo a sua mãe e lhe aconselhou que fosse paciente e resignada à Vontade de Deus. Confiou-lhe uma oração especial, revelada e escrita por Ele Mesmo, assegurando-lhe que a leitura desta oração lhe removeria as dificuldades e aliviaria o peso das tribulações. "Na hora de tua perplexidade", Ele lhe ensinou, "recita esta oração antes de dormir. Eu Mesmo te aparecerei e banirei tua ansiedade." Fiel a Seu conselho, cada vez que a Ele em prece se volvia, a luz de Sua guia infalível lhe iluminava sua senda e resolvia os problemas (22).

Após haver o Báb tratado dos assuntos de Seu lar e providenciado a futura manutenção tanto de Sua mãe como de Sua esposa, Ele transferiu Sua residência de Sua própria casa para a de Hájí Mírzá Siyyid 'Alí. Aí aguardou a aproximação da hora de Seus sofrimentos. Ele sabia que as aflições que Lhe esperavam não mais poderiam ser detidas, que breve um vórtice de adversidade o atingiria e levaria celeremente ao campo do martírio, o objetivo culminante de Sua vida. Mandou àqueles de Seus discípulos que se haviam estabelecido em Shíráz, entre os quais se encontravam Mullá 'Abdu'l-Karím e Shaykh Hasan-i-Zunúzí, que procedessem a Isfáhán e lá aguardassem Suas futuras instruções. Deu instruções também a Siyyid Husayn-i-Yazdí, uma das Letras dos Viventes, que chegara em Shíráz, para que prosseguisse a Isfáhán e procurasse a companhia de seus co-discípulos naquela cidade.

Nesse meio tempo Husayn Khán, governador de Fárs, estava fazendo todo esforço possível para envolver o Báb em novos embaraços e degradá-Lo ainda mais aos olhos do público. O fogo latente de sua hostilidade foi soprado até flamejar quando ele soube que ao Báb era permitido prosseguir sem obstáculo o curso de Suas atividades, que Ele podia ainda associar-se a certos de Seus companheiros e que continuava a gozar de benefícios de irrestrita convivência com Sua família e parentes (23). Com a ajuda de seus agentes secretos, conseguiu obter informações acuradas a respeito do caráter e da influência do Movimento que o Báb iniciara. Ele havia observado secretamente Suas atividades, se certificado do grau de entusiasmo que despertara, escrutando os motivos, a conduta e o número dos que haviam abraçado Sua Causa.

Veio a Husayn Khán, uma noite, o chefe de seus emissários, trazendo-lhe a notícia de que o número dos que se aglomeravam ao redor do Báb havia assumido tais proporções que necessitava ação imediata da parte daqueles que tinham a função de guardar a segurança da cidade. "A multidão fervente que se reúne toda noite para visitar o Báb," ele observou "excede em número a multidão de povo que se amontoa diante dos portões da sede de vosso governo. Entre eles se vêem homens célebres tanto pela sua alta categoria como pela sua extensa erudição (24). Tal é o tato e tão excessiva é a generosidade que seu tio materno demonstra em sua atitude para com os oficiais de vosso governo que nenhum dentre vossos subordinados se inclina a informar-vos da realidade da situação. Se vós me permitísseis, eu, ajudado por alguns de vossos auxiliares, surpreenderia o Báb à hora de meia noite e entregaria, algemados, em vossas mãos certos de seus associados que vos esclareceriam a respeito de suas atividades e confirmariam a verdade de minhas asseverações." Husayn Khán recusou-se a aceder ao seu desejo. "Eu melhor que vós", foi sua resposta, "poderei determinar o que os interesses do Estado requerem. Observai-me de uma distância; saberei como tratá-lo."

Naquele mesmo momento, o Governador chamou Abdu'l-Hamid Khán, o chefe de polícia da cidade. "Segui imediatamente," ordenou ele, "à casa de Hájí Mírzá Siyyid 'Alí. Quietamente, sem serdes observado, escalai o muro e subi ao telhado, e daí entrai subitamente em sua casa. Prendei imediatamente o Siyyid-i-Báb e conduzi-o a este lugar juntamente com quaisquer visitantes que estejam presentes com eles no momento. Confiscai quaisquer livros e documentos que possais encontrar naquela casa. Quanto a Hájí Mírzá Siyyid 'Alí, é minha intenção lhe impor, no dia seguinte, a pena por ter faltado no cumprimento de sua promessa. Juro pelo dilema imperial de Muhammad Sháh, que esta mesma noite mandarei executar o Siyyid-i-Báb juntamente com seus miseráveis companheiros. Sua morte ignominiosa extinguirá a chama que acenderam e despertará cada um que pretende ser seguidor daquela crença, para perceber o perigo que espera a todo e qualquer um que tente perturbar a paz deste reino. Com este ato terei extirpado uma heresia cuja continuação constituiria a mais grave ameaça aos interesses do Estado."

'Abdu'l-Hamíd Khán retirou-se para executar sua tarefa. Na companhia de seus auxiliares arrombou a casa de Hájí Mírzá Siyyid 'Alí (25) e encontrou o Báb na companhia de Seu tio materno e um certo Siyyid Kázim-i-Zanjání, que mais tarde foi martirizado em Mázindarán, e cujo irmão Siyyid Murtadá foi um dos Sete Mártires de Teerã. Prendeu-os imediatamente, juntou quaisquer documentos que pudesse encontrar, mandou Hájí Mírzá Siyyid 'Alí permanecer em sua casa e conduziu os outros à sede do governo. Ouviu-se o Báb destemido e calmo, repetir este versículo do Alcorão: "Aquilo com que estão ameaçados é para o amanhecer. E não está próximo o amanhecer?"

Mal havia o chefe da polícia alcançado o mercado, quando descobriu, com espanto, que o povo da cidade fugia por todos os lados em consternação, como se atingido por uma calamidade pavorosa. Encheu-se de horror ao presenciar a longa procissão de ataúdes que vinha sendo transportada pelas ruas, cada um seguido de uma comitiva de homens e mulheres que emitiam altos gemidos de agonia e dor. Esse tumulto repentino, os lamentos, os semblantes assustados, as imprecações da multidão, fizeram-no ficar angustiado e confuso. Indagou sobre a razão. "Esta mesma noite", disseram-lhe, irrompeu uma praga (26) de virulência excepcional. Bateu-nos seu poder devastador. Já, desde a hora de meia noite, extinguiu a vida de mais de cem pessoas. Alarme e desespero reinam em cada lar. A população está abandonando suas casas e, em sua aflição invoca a ajuda do Todo-Poderoso (27)."

'Abdu'l-Hamíd Khán, aterrorizado por essa horrenda notícia, correu à casa de Husayn Khán. Um homem velho que vigiava sua casa, servindo de porteiro, informou-lhe que a casa de seu patrão estava abandonada, que a assolação da peste engolfara seu lar, afligindo os membros da família. "Duas de suas servas etíopes", disseram-lhe, "e um criado já caíram vítimas dessa praga, e membros de sua própria família estão gravemente doentes. Em seu desespero, meu patrão abandonou a casa e deixando os mortos sem sepultura, fugiu com o resto da família para Bágh-i-Takht (28)."

'Abdu'l-Hamíd Khán decidiu conduzir o Báb a sua própria casa e mantê-Lo sob sua custódia enquanto aguardava instruções do governador. Ao aproximar-se de casa, ficou chocado pelo som de choros e gemidos dos membros de sua família. Seu filho havia sido atacado pela peste e periclitava na beira da morte. Em seu desespero, lançou-se aos pés do Báb e com lágrimas lhe implorou que salvasse a vida de seu filho. Suplicou-lhe que perdoasse as passadas ofensas e más ações. "Eu vos adjuro", solicitava ao Báb, enquanto se segurava à orla de Suas vestes, "por Aquele que vos elevou a essa excelsa posição, que intercedais por mim e ofereçais uma oração pela recuperação de meu filho. Não permitais que ele, na flor da juventude, me seja tirado. Não o castigueis pelos atos dos quais seu pai seja o culpado. Arrependo-me daquilo que fiz e neste momento me retiro de meu posto. Hipoteco-vos solenemente minha palavra de que nunca mais aceitarei tal posição, ainda que pereça de fome."

O Báb, que estava prestes a fazer Suas abluções e se preparava a oferecer a oração do alvorecer, disse-lhe que levasse ao filho um pouco de água com a qual estava lavando o rosto e lhe pedisse que a bebesse. Isto, disse Ele, lhe salvaria a vida.

Mal havia 'Abdu'l-Hamíd visto os sinais da recuperação de seu filho, quando escreveu ao governador uma carta na qual lhe expôs a inteira situação e lhe instou que cessasse de atacar o Báb. "Tende piedade de vós mesmo", lhe escrevia, "bem como daqueles que a Providência entregou a vosso cuidado. Se a fúria dessa praga prosseguir seu curso fatal, receio que ninguém nesta cidade terá sobrevivido até o fim deste dia ao horror de seu ataque." Husayn Khán respondeu que o Báb deveria ser posto em liberdade imediatamente, sendo-lhe dado o direito de ir onde quisesse (29).

Logo que a notícia desses acontecimentos chegou em Teerã e veio à atenção do Xá, foi emitido e enviado a Shíráz um edito imperial que demitia Husayn Khán de seu posto. Desde o dia de sua demissão, aquele tirano desbriado caiu vítima de incontáveis infortúnios, não podendo, afinal, ganhar sequer o pão de cada dia. Ninguém parecia ter disposição ou capacidade para salvá-lo de sua má situação. Quando, mais tarde, Bahá'u'lláh fora banido a Bagdá, Husayn Khán enviou-Lhe uma carta na qual expressava arrependimento e prometia expiar seus passados delitos se lhe fosse restituída sua posição antiga, Bahá'u'lláh recusou-se a responder, mergulhado em miséria e ignomínia, enlanguescia até morrer.

O Báb, que estava hospedado na casa de 'Abdu'l-Hamíd Khán, mandou Siyyid Kázím a Hájí Mírzá Siyyid 'Alí para lhe pedir que viesse vê-Lo. Informou Seu tio de Sua intenção de partir de Shíráz, entregou a seu cuidado tanto Sua mãe como Sua esposa, incumbindo-lhe de transmitir a cada uma delas a expressão de Seu afeto e assegurar-lhes a infalível ajuda de Deus. "Onde quer que estejam", disse a Seu tio, "o amor e a proteção de Deus que tudo abrangem, haverão de cercá-las. Eu vos encontrarei novamente nas montanhas de Ádhirbáyján, donde vos mandarei para ganhar a coroa do martírio. Eu mesmo vos seguirei, juntamente com um de Meus discípulos leais, e nos reuniremos no reino da eternidade."

CAPÍTULO X
A ESTADA DO BÁB EM ISFÁHÁN

O verão do ano de 1262 A.H. (1) aproximava-se de seu término quando o Báb se despediu pela última vez de Sua cidade natal de Shíráz e seguiu a Isfáhán. Siyyid Kázím-i-Zanjání acompanhou-O nessa jornada. Ao aproximar-se das imeditações da cidade, escreveu uma carta ao governador da província, Manúchihr Khán, o Mu'tamidu'd-Dawlih (2), na qual pediu que indicasse seu desejo quanto ao lugar onde Ele pudesse residir. A carta, a qual Ele entregou a Siyyid Kázím, expressava tal cortesia e mostrava tão bela caligrafia que o Mu'tamid se sentiu impelido a dar instruções ao Sultánu'l-'Ulamá, o Imame Jum'ih de Isfáhán (3), a proeminente autoridade eclesiástica daquela província, no intuito de receber o Báb em sua própria casa, fazendo-Lhe boa e generosa acolhida. Além de sua comunicação, o governador enviou ao Imame Jum'ih a carta que ele recebera do Báb. O Sultánu'l-Ulamá, em conseqüência disso, mandou seu próprio irmão, cuja crueldade selvagem em anos posteriores lhe ganhou de Bahá'u'lláh o nome de Raqshá (4), seguir com alguns de seus companheiros prediletos para receber e acompanhar o Visitante que esperavam, até o portão da cidade. Assim que o Báb se aproximava, o Imame Jum'ih saiu para pessoalmente Lhe dar boas vindas e O conduziu cerimoniosamente à sua casa.

Tais foram as honras concedidas ao Báb naqueles dias que, numa certa sexta-feira, quando Ele estava regressando do banho público à casa, se viu uma multidão de pessoas que clamavam ansiosamente pela água que Ele havia usado para Suas abluções. Seus fervorosos admiradores acreditavam firmemente em sua virtude e seu poder infalível de lhes curar as doenças e enfermidades. O próprio Imame Jum'ih, desde a primeira noite, havia a tal ponto ficado encantado com Aquele que era objeto de tão grande devoção, que assumindo as funções de um servente, se incumbiu de atender às necessidades e aos desejos de seu bem-amado Hóspede. Tirando o jarro da mão do mordomo e não levando em conta, absolutamente, a dignidade usual de seu grau, se pos a despejar a água sobre as mãos do Báb.

Uma noite, após a ceia, o Imame Jum'ih, cuja curiosidade havia sido despertada pelas características extraordinárias que seu jovem Hóspede revelara, aventurou-se a pedir-Lhe que revelasse um comentário sobre a Sura de Va'l-'Asr (5). A seu pedido Ele prontamente acedeu. Pedindo pena e papel, o Báb, com surpreendente rapidez e sem a mínima premeditação, começou a revelar, na presença de Seu anfitrião, uma interpretação iluminadora da Sura mencionada. Meia noite aproximava-se enquanto o Báb se achava ocupado na exposição das múltiplas implicações envolvidas na primeira letra dessa Sura. Essa letra, a letra váv, à qual Shaykh Ahmad-i-Ahsá'í já dera tanta ênfase em seus escritos, simbolizava para o Báb o advento de um novo ciclo de Revelação Divina e foi subseqüentemente mencionada por Bahá'u'lláh no Kitáb-i-Aqdas, em tais passagens como "o mistério da Grande Reversão" e "o Sinal do Soberano". O Báb logo depois, na presença de Seu anfitrião e seus companheiros, começou a entoar a homília que Ele usara como prefácio de Seu comentário sobre a Sura. Aquelas palavras de poder confundiram Seus ouvintes, enchendo-lhes de admiração. Pareciam como que enfeitiçados da mágica de Sua voz. Instintivamente se puseram em pé e acompanhados pelo Imame Jum'ih, beijaram reverentemente a orla de Suas vestes. De Mullá Muhammad-Taqíy-i-Harátí, eminente mujtahid, irromperam súbitas expressões de elogios e exultação. "Inigualável e único", exclamou, "assim como o são as palavras que emanaram dessa pena, o poder de revelar dentro de tão pouco tempo e numa escrita tão legível, tão grande número de versículos que igual a quarta, ou melhor, à terça parte do Alcorão, é em si uma façanha que nenhum homem mortal, sem a intervenção de Deus, poderia esperar realizar. Nem a partição da lua, nem a vivificação dos seixos do mar, pode ser comparada com tão poderoso ato."

À medida que a fama do Báb pouco a pouco se difundia pela cidade inteira de Isfáhán, uma incessante corrente de visitantes fluía de toda parte em direção à casa do Imame Jum'ih. Uns poucos a fim de satisfazerem a curiosidade, outros para obterem uma compreensão mais profunda das verdades fundamentais de Sua Fé, e ainda outros em busca do remédio para seus males e sofrimentos. O próprio Mu'tamid veio um dia visitar o Báb e, enquanto sentado no meio da assembléia dos mais brilhantes e esmerados sacerdotes de Isfáhán, Lhe pediu que expusesse a natureza do Nubuvvat-i-Khássih (6) e demonstrasse sua validez. Ele havia anteriormente, nessa mesma assembléia, solicitado aos presentes que aduzissem tais provas e evidências em apoio desse artigo fundamental de sua Fé que constituísse um testemunho incontestável para aqueles inclinados a lhe refutar a verdade. Ninguém, entretanto, parecera capaz de responder a esse convite. "Qual preferis", perguntou o Báb, "uma resposta verbal à vossa pergunta, ou uma por escrito?" "Uma resposta escrita", disse ele, "não agradaria àqueles presentes nesta reunião, como também edificaria e instruiria tanto à geração atual como às futuras."

O Báb instantaneamente tomou Sua pena e se pos a escrever. Em menos de duas horas havia Ele enchido cerca de cinqüenta páginas com uma pesquisa extremamente revigoradora e circunstancial sobre a origem, o caráter e a influência predominante do Islã. A originalidade de Sua dissertação, o vigor e a vivacidade de seu estilo, a precisão de seus mais minuciosos detalhes fizeram que Seu tratamento desse tema nobre se revestisse de uma excelência que nenhum dos presentes nessa ocasião pudesse ter deixado de perceber. Com penetração magistral, Ele ligou a idéia central nas passagens concludentes dessa exposição ao advento do prometido Qá'im e a "Volta" esperada do Imame Husayn (7). Argumentava com tal força e coragem que aqueles que O ouviram recitar esses versículos espantaram-se com a magnitude de Sua Revelação. Ninguém se atreveu a insinuar a mais ligeira objeção - muito menos a desafiar abertamente Suas afirmações. O Mu'tamid não pode deixar de exteriorizar seu entusiasmo e júbilo. "Que me ouçais!" exclamou. "Membros dessa reverenda assembléia, eu vos tomo como minhas testemunhas. Nunca até este dia estive eu de coração firmemente convencido da verdade do Islã. Doravante poderei, graças a esta exposição redigida por esse Jovem, me declarar crente firme na Fé proclamada pelo Apóstolo de Deus. Solenemente testifico que creio na realidade do poder sobrehumano do qual é dotado esse Jovem, poder esse que a erudição, por maior que seja, jamais poderá conferir". Com estas palavras encerrou a reunião.

A crescente popularidade do Báb incitou o ressentimento das autoridades eclesiásticas de Isfáhán, que viam com preocupação e inveja a ascendência que um Jovem não instruído estava adquirindo lentamente sobre os pensamentos e as consciências de seus seguidores. Acreditaram firmemente que, se não se levantassem para deter o fluxo de entusiasmo popular, os próprios fundamentos de sua existência seriam minados. Alguns dos mais sagazes entre eles achavam prudente absterem de atos de hostilidade direta à pessoa ou aos ensinamentos do Báb, pois tal ação, pensavam, só serviria para Lhe realçar o prestígio e consolidar a posição. Os malévolos, porém, estavam muito ocupados em disseminar as mais extravagantes informações a respeito do caráter e das pretensões do Báb. Essas informações cedo chegaram em Teerã e foram levadas à atenção de Hájí Mírzá Áqásí, Grão-Vizír de Muhammad Sháh. Esse ministro arrogante e despótico viu com apreensão a possibilidade de seu soberano se sentir inclinado, algum dia, a mostrar favor ao Báb, uma inclinação que, ele tinha certeza, precipitaria sua própria queda. O Hájí, além disso receava que o Mu'tamid, em quem o Xá tinha confiança, conseguisse arranjar uma entrevista entre o soberano e o Báb. Ele estava bem ciente de que, no caso de se realizar tal entrevista, Muhammad Sháh tão impressionável e de coração terno, seria completamente conquistado pela novidade e pelo encanto dessa crença. Incitado por tais reflexões, dirigiu ao Imame Jum'ih uma comunicação em palavras fortes, na qual o repreendia por seu grave descuido da obrigação que lhe fora imposta, a de salvaguardar os interesses do Islã. "Nós esperávamos," escrevia-lhe Hájí Mírzá Áqásí, "que resistísseis com todo o vosso poder qualquer causa que estivesse em conflito com os melhores interesses do governo e do povo desta terra. Parece que vós, em vez disso tendes favorecido, ainda mais, glorificado, o autor desse movimento obscuro e desprezível." Escreveu, outrossim, várias cartas encorajando os ulemás de Isfáhán, a quem ele anteriormente desprezara mas a quem, agora, prodigalizava seus especiais favores. O Imame Jum'ih, embora recusasse alterar sua atitude respeitosa para com seu Hóspede, foi induzido pelo tom da mensagem a mandar seus associados planejarem meios que tendessem a diminuir o sempre-crescente número de visitantes que todo dia se aglomeravam para entrar na presença do Báb. Muhammad-Mihdí, de sobrenome Safíhu'l-Ulamá, filho do falecido Hájí Kalbásí, em seu desejo de satisfazer o desejo e ganhar a estima de Hájí Mírzá Áqásí, começou a caluniar o Báb do púlpito na mais indecorosa linguagem.

Assim que o Mu'tamid foi informado desses acontecimentos, mandou uma mensagem ao Imame Jum'ih na qual lhe lembrava a visita que ele como governador fizera ao Báb e o convidava bem como ao seu Hóspede para sua casa. O Mu'tamid convidou Hájí Siyyid Asadu'lláh, filho do falecido Hájí Siyyid Muhammad Báqir-i-Rashtí, Hájí Muhammad-Já'far-i-Ábádiyí, Muhammad-Mihdí, Mírzá Hasan-i-Núrí e alguns outros para estarem presentes nessa reunião. Hájí Siyyid Asadu'lláh recusou o convite e tentou dissuadir aqueles convidados de participarem daquela reunião. "Dei minhas escusas", informou-lhes, "e queria com absoluta certeza exortar-vos a fazer o mesmo. Acho muito imprudente que encontreis o Siyyid-i-Báb face a face. Ele, sem dúvida, reafirmará sua pretensão e, a fim de sustentar seu argumento, aduzirá qualquer prova que possais desejar que ele apresente e, sem a mínima hesitação, revelará, como testemunho da verdade da qual é portador, versículos tão numerosos que igualariam a metade do Alcorão. No fim ele vos desafiará nestas palavras: "Apresentais semelhantemente, se sois homens de verdade." De modo algum poderemos nós ter êxito em lhe resistir. Se nos desdenharmos de lhe responder, nossa incapacidade terá sido exposta. Se nós, por outro lado, nos submetermos a sua pretensão, não somente estaremos comprometendo nossa própria reputação, cedendo nossas próprias prerrogativas e nossos direitos, mas também nos veremos em obrigação de admitir quaisquer outras pretensões que ele se possa sentir inclinado a fazer no futuro."

Hájí Muhammad-Já'far atendeu a esse conselho e recusou aceitar o convite do governador. Muhammad Mihdí, Mírzá Hasan-i-Núrí e alguns outros que desdenharam tal conselho apresentaram-se na hora marcada na casa do Mu'tamid. A convite do anfitrião, Mírzá Hasan, notável platonista, pediu ao Báb que elucidasse certas doutrinas filosóficas abstrusas relacionadas com o Arshíyyih de Mullá Sadrá (8), cujo sentido apenas poucos haviam conseguido desvendar (9). Em linguagem simples, informal, o Báb respondeu a cada uma de suas perguntas. Mírzá Hasan, embora não pudesse apreender o significado das respostas que recebera, compreendeu como era inferior a erudição dos assim chamados expoentes das escolas platônicas e aristotélicas de pensamento em comparação com o conhecimento mostrado por esse Jovem. Muhammad Mihdí, por sua vez, aventurou-se a perguntar ao Báb a respeito de certos aspectos da lei islâmica. Mal satisfeito com a explicação que recebeu, ele começou a discutir futilmente com o Báb. Breve foi ele silenciado por Mu'tamid, que, cortando a conversação bruscamente, se virou para um criado e, mandando-lhe acender a lanterna, deu ordem para que Muhammad Mihdí fosse conduzido imediatamente a sua casa. O Mu'tamid logo em seguida confiou ao Imame Jum'ih suas apreensões. "Receio as maquinações dos inimigos do Siyyid-i-Báb," disse-lhe. "O Xá já o chamou a Teerã. Recebi ordens para providenciar Su partida. Acho mais aconselhável Ele ficar em minha casa até a hora em que possa sair desta cidade." O Imame Jum'ih acedeu a seu pedido e voltou sozinho para casa.

O Báb havia permanecido quarenta dias na residência do Imame Jum'ih. Enquanto lá ainda estava, um certo Mullá Muhammad-i-Taqíy-i-Harátí, que teve o privilégio de estar com o Báb todos os dias, incumbiu-se, com Seu consentimento, de traduzir uma de Suas obras, intitulada Risáliy-i-Furú-i-Adlíyyih, do original árabe para o persa. O serviço que com isso prestou aos crentes persas foi manchado, porém, pela sua conduta subseqüente. Medo subitamente apoderou-se dele, induzindo-o afinal a cortar relações com seus companheiros de crença.

Antes de haver o Báb transferido Sua residência para a casa do Mu'tamid, Mírzá Ibráhím, pai do Sultánu'sh-Shuhadá' e irmão mais velho de Mírzá Muhammad-Alíy-i-Nahrí, a quem já nos referimos, convidou o Báb para sua casa uma noite. Mírzá Ibráhím era amigo do Imame Jum'ih, estava intimamente associado com ele e controlava a administração de todos os seus assuntos. O banquete que se preparou para o Báb naquela noite foi um de inexcedível magnificência. Comumente se observava que nem os oficiais nem as notabilidades da cidade haviam oferecido um banquete de tal magnitude e esplendor. O Sultánu'sh-Shuhadá' e seu irmão, o Mahbúbu'-sh-Shuhadá, que eram meninos de nove e onze anos respectivamente, serviram naquele banquete e receberam especial atenção do Báb. Aquela noite, durante o jantar, Mírzá Ibráhím virou-se para seu convidado e disse: "Meu irmão, Mírzá Muhammad-'Alí, não tem nenhum filho. Peço-vos que intercedais por ele e lhe concedais o desejo de seu coração." O Báb tomou uma parte do alimento que Lhe fora servido e colocou-a com as próprias mãos numa travessa, a qual passou a Seu anfitrião, pedindo-lhe que a levasse a Mírzá Muhammad-'Alí e sua esposa. "Que ambos se sirvam disto," disse Ele; "seu desejo será cumprido." Em virtude desse alimento que o Báb se dignara de lhe conceder, a esposa de Mírzá Muhammad-'Alí concebeu e, no devido tempo nasceu uma menina, que subseqüentemente se uniu em matrimônio com o Maior Ramo (10). Essa união veio a ser considerada a consumação das esperanças nutridas pelos seus pais.

As altas honras conferidas ao Báb serviram para inflamar ainda mais a hostilidade dos ulemás de Isfáhán. Consternados, viram por todos os lados evidências de Sua influência predominante que invadia a cidadela da ortodoxia e lhe subvertia os fundamentos. Convocaram uma reunião, na qual redigiram um documento, assinado e selado por todos os eclesiásticos da cidade, pelo qual condenavam o Báb à morte (11). Todos concordaram nessa condenação exceto Hájí Siyyid Asadu'lláh e Hájí Muhammad-i-Já'far-i-Abdiyí, ambos dos quais recusaram associar-se ao conteúdo de um documento tão flagrantemente abusivo. O Imame Jum'ih, embora declinasse endossar a sentença de morte do Báb, foi induzido, por causa de sua extrema covardia e ambição, a acrescentar àquele documento, escrito de próprio punho, o seguinte testemunho. "Testifico que, durante minha associação com esse jovem, não pude descobrir qualquer ato que de modo algum denunciasse seu repúdio às doutrinas do Islã. Ao contrário, eu o tenho conhecido como piedoso e leal observador de seus preceitos. A extravagância de suas pretensões, entretanto, e seu desdenhoso desprezo das coisas do mundo, inclinam-me a crer que ele está destituído de sua razão e juízo."

Assim que o Mu'tamid foi informado da condenação pronunciada pelos ulemás de Isfáhán, ele determinou, mediante um plano concebido por ele mesmo, nulificar os efeitos daquele veredicto cruel. Deu instruções imediatas para que, perto da hora do por do sol, o Báb, escoltado por quinhentos cavaleiros da própria guarda montada pessoal do governador, saísse pelo portão da cidade e seguisse em direção a Teerã. Ordens imperativas haviam sido dadas para que, ao se completar cada farsang (12), cem dessa escolta montada voltassem diretamente a Isfáhán. Ao comandante do último contingente, um homem em que ele tinha implícita confiança, o Mu'tamid intimou confidencialmente seu desejo de que, a cada maydan (13), vinte dos cem restantes fossem por ele ordenados a regressar à cidade. Dos vinte que restavam da cavalaria, o Mu'tamid ordenou que dez fossem despachados a Ardistán para a cobrança das taxas impostas pelo governo, enquanto os outros, dos quais todos eram seus homens experimentados, os mais dignos de confiança trouxeram o Báb de volta, disfarçado, por um caminho pouco freqüentado, até Isfáhán. (14) Foi-lhes recomendado, além disso, que de tal modo regulassem sua marcha que antes do alvorecer do dia seguinte o Báb tivesse chegado em Isfáhán e sido entregue à custodia dele. Esse plano foi imediatamente empreendido e devidamente executado. Numa hora insuspeita, o Báb reentrou na cidade, foi conduzido diretamente à residência particular do Mu'tamid, conhecida pelo nome de 'Imárat-i-Khurshíd (15), e levado aos seus aposentos particulares por uma entrada lateral reservada para o próprio Mu'tamid. O governador pessoalmente atendia ao Báb, servindo-Lhe as refeições e fornecendo qualquer coisa que fosse necessária para Seu conforto e Sua segurança (16).

Entrementes, as mais absurdas conjeturas circulavam pela cidade a respeito da viagem do Báb a Teerã, dos sofrimentos que tivera de suportar no caminho para a capital, do veredicto que havia sido pronunciado contra Ele e da pena que Ele sofrera. Esses boatos afligiram penosamente os crentes que residiam em Isfáhán. O Mu'tamid, bem ciente de sua tirsteza e ansiedade, intercedeu ao Báb por eles pedindo permissão para levá-los a Sua presença. O Báb dirigiu algumas palavras escritas pelo próprio punho a Mullá 'Abdu'l-Karím-i-Qazvíní, que se havia alojado no madrisih de Ním-Ávard, e disse ao Mu'tamid que lhe enviasse essa mensagem por alguém de confiança. Uma hora mais tarde, 'Abdu'l-Karím foi levado à presença do Báb. De sua chegada ninguém exceto o Mu'tamid foi informado. Ele recebeu de seu Mestre alguns de Seus escritos, com instruções para transcrevê-los, em colaboração com Siyyid Husayn-i-Yazdí e Shaykh Hasan-i-Zunúsí. A estes ele regressou logo, levando as boas novas do bem-estar e segurança do Báb. De todos os crentes que residiam em Isfáhán, a estes três somente foi permitido vê-Lo.

Um dia, enquanto sentado com o Báb em seu jardim particular dentro do pátio de sua casa, o Mu'tamid, querendo confiar algo a seu Hóspede, a Ele se dirigiu com estas palavras: "O todo-poderoso Doador dotou-me de grandes riquezas (17). Não sei como melhor usá-las. Agora que tenho sido levado, pela ajuda de Deus, a reconhecer essa Revelação, é meu ardente desejo consagrar todas as minhas possessões à promoção de seus interesses e à difusão de sua fama. É minha intenção prosseguir, com Vossa permissão, a Teerã, e fazer todo o possível para que Muhammad Sháh, cuja confiança em mim é firme e inabalável, venha a aceitar essa Causa. Estou certo de que ele a abraçará entusiasticamente e se levantará para promovê-la por toda parte. Tentarei também induzir o Xá a exonerar o corrompido Hájí Mírzá Áqásí, a insensatez de cuja administração tem levado esta terra para bem perto da beira da ruína. Em seguida, farei um esforço a fim de obter para Vós a mão de uma das irmãs do Xá, e empreenderei eu mesmo os preparativos para Vossas núpcias. Finalmente, espero poder inclinar os corações dos governantes e reis da Terra a esta mais maravilhosa Causa e extirpar o último vestígio daquela corrupta hierarquia eclesiástica que se tornou uma mancha no belo nome do Islã.' "Que Deus vos recompense por vossas intenções," respondeu o Báb. "Tão elevado propósito é para Mim ainda mais precioso do que o próprio ato. Vossos dias e os Meus são contados, porém. São demasiado breves para permitir que Eu presencie e vós atinjais a realização de vossas esperanças. Não pelos meios que vós carinhosamente imaginais será que uma Providência onipotente consiga o triunfo de Sua Fé. Por intermédio dos pobres e humildes desta terra, pelo sangue que eles terão derramado em Seu caminho, será que o Soberano todo-poderoso haverá de assegurar a preservação de Sua Causa e lhe consolidar os alicerces. Esse mesmo Deus, no mundo vindouro, colocará sobre vossa cabeça a coroa de glória imortal e derramará sobre vós Suas bênçãos inestimáveis. Do curso de vossa vida terrena restam apenas três meses e nove dias, depois do que vós, com fé e certeza, vos apressareis à vossa morada eterna." Com estas palavras o Mu'tamid muito se regozijou. Resignado à Vontade de Deus, preparou-se para a partida que as palavras do Báb haviam tão claramente prognosticado. Escreveu seu testamento, tratou de seus interesses particulares e legou ao Báb tudo o que ele possuía. Imediatamente após sua morte, entretanto, seu sobrinho, o voraz Gurgín Khán, descobriu e destruiu seu testamento, apoderou-se de seus bens e desdenhosamente deixou de levar em conta seus desejos.

À medida que os dias de sua vida terrena se aproximavam do fim, o Mu'tamid procurava mais e mais a presença do Báb e em suas horas de íntima associação com Ele obteve uma compreensão mais profunda do espírito que animava Sua Fé. "À medida que a hora de minha partida se aproxima," disse ele um dia ao Báb, sinto uma alegria indefinível penetrar minha alma. Mas estou apreensivo por Vós, tremo ao pensar em ser obrigado a Vos deixar à mercê de tão impiedoso sucessor como Gurgín Khán. Ele, sem dúvida, descobrirá Vossa presença nesta casa e lastimavelmente, eu receio, Vos maltrará." "Não tenhais receio", protestou o Báb, "já Me entreguei às mãos de Deus. Nele está Minha confiança. Tal é o poder que Ele a Mim concedeu que, se for Meu desejo, poderei converter esta próprias pedras em jóias de inestimável valor, e poderei instilar no coração do mais malévolo criminoso os mais elevados conceitos de retidão e dever. Por Minha própria vontade escolhi perseguição pelos Meus inimigos, a fim de que Deus efetivasse a coisa destinada a ser feita (18)." Assim que essas preciosas horas voavam, o coração do Mu'tamid se enchia de um senso de devoção sobrepujante, de maior consciência da proximidade de Deus. A seus olhos a pompa e o fausto do mundo dissolviam em insignificância quando face à face com as realidades eternas entesouradas na Revelação do Báb. A visão que ele tinha de suas glórias, suas infinitas potencialidades, suas bênçãos incalculáveis, tornava-se mais vívida enquanto aumentava sua compreensão da vaidade da ambição terrena e das limitações do esforço humano. Continuou a ponderar esses pensamentos em seu coração até a hora em que um leve ataque de febre, que durou apenas uma noite, pos termo subitamente a sua vida. Sereno e confiante alçou seu vôo ao Grande Além (19).

Quando a vida de Mu'tamid se aproximava de seu fim, o Báb chamou a Sua presença Siyyid Husayn-i-Yazdí e Mullá 'Abdu'l-Karím, participou-lhes a natureza de sua predição a seu anfitrião e mandou que dissessem aos crentes reunidos na cidade que se espalhassem por toda parte de Káshán, Qum e Teerã e aguardassem qualquer coisa que a Providência, em Sua sabedoria, se dignasse decretar.

Poucos dias após a morte do Mu'tamid, uma certa pessoa ciente do desígnio que ele concebera e executara para a proteção do Báb, informou a seu sucessor, Gurgín Khán (20), da real residência do Báb, no 'Imárat-i-Khurshíd, e lhe descreveu as honras que seu predecessor prodigalizara a seu Hóspede na solidão de seu próprio lar. Ao receber esta inesperada informação, Gurgín Khán enviou seu mensageiro a Teerã, instruindo-lhe que entregasse pessoalmente a Muhammad Sháh a seguinte mensagem: "Há quatro meses se acreditava geralmente em Isfáhán que, de conformidade com a chamada imperial de vossa Majestade, o Mu'tamidu'd-Dawlih, meu predecessor mandara o Siyyid-i-Báb à sede do governo de vossa Majestade. Descobriu-se agora que esse mesmo siyyid está atualmente ocupando o 'Imárat-i-Khurshíd, a residência particular do Mu'tamidu'd-Dawlih. Certificou-se de que meu predecessor ofereceu, ele mesmo, a hospitalidade de Seu lar ao Siyyid-i-Báb e cuidadosamente guardou esse segredo tanto do povo como dos oficiais dessa cidade. Qualquer que seja o decreto que vossa Majestade queira emitir, incumbo-me de executá-la sem a mínima hesitação."

O Xá, que estava firmemente convencido da lealdade do Mu'tamid, compreendeu, ao receber essa mensagem, que fora a intenção sincera do falecido governador aguardar uma ocasião favorável quando pudesse arranjar um encontro entre ele e o Báb, e que sua morte repentina havia interferido na execução desse plano. Emitiu um mandato imperial chamando o Báb à capital. Em sua mensagem por escrito a Gurgín Khán, o Xá ordenou-lhe que mandasse o Báb, disfarçado, a Teerã em companhia de uma escolta montada (21) chefiada por Muhammad Big-i-Chápárchí (22), da seita dos 'Alíyu'lláhí; que mostrasse a máxima consideração para com Ele durante Sua viagem e mantivesse estritamente em segredo Sua partida (23).

Gurgín Khán foi imediatamente ao Báb e entregou em Suas mãos o mandato escrito do soberano. Chamou em seguida Muhammad Big, transmitiu-lhe as ordens de Muhammad Sháh mandou-lhe iniciar imediatamente os preparativos para a viagem. "Acautelai-vos," advertiu-lhe ele, "para que ninguém descubra sua identidade nem suspeite a natureza de vossa missão. A ninguém senão vós, nem mesmo aos membros de sua escolta, deve ser permitido reconhecê-Lo. Se alguém vos perguntar a seu respeito, dizei que é um comerciante que fomos incumbidos de conduzir à capital e cuja identidade ignoramos completamente." Pouco depois de meia noite, o Báb partiu da cidade de acordo com essas instruções e seguiu em direção a Teerã.

CAPÍTULO XI
A ESTADA DO BÁB EM KÁSHÁN

Na véspera da chegada do Báb em Káshán, Hájí Mírzá Jání, de sobrenome Parpá, residente de renome naquela cidade, sonhou que estava em pé, no fim da tarde, no portão de 'Attár, um dos portões da cidade, quando seus olhos subitamente avistaram o Báb, montado, usando em vez de Seu turbante usual, o kuláh (1) que os comerciantes da Pérsia costumavam usar. Em Sua frente, bem como atrás Dele, marchava um grupo de soldados de cavalaria a cuja custódia Ele parecia haver sido entregue. Assim que se aproximavam do portão, o Báb lhe saudou, dizendo: "Hájí Mírzá Jání, Nós havemos de ser vosso Hóspede por três noites. Preparai-vos para Nos receber."

Quando acordou, a vivacidade de seu sonho convenceu-o da realidade de sua visão. Esta inesperada aparição constituiu em seus olhos uma advertência providencial que ele se sentia na obrigação de atender e observar. Pos-se, de acordo com isso, a preparar sua casa para a recepção do Visitante, providenciando qualquer coisa que lhe parecesse necessária para Seu conforto. Após haver completado os arranjos preliminares para o banquete que decidira oferecer ao Báb nessa noite, Hájí Mírzá Jání seguiu ao portão de 'Attár e lá aguardou os sinais da esperada chegada do Báb. Na hora marcada, enquanto escrutava o horizonte, discerniu na distância o que lhe parecia ser uma companhia de soldados de cavaleria que se aproximava do portão da cidade. Assim que se apressava a seu encontro, seus olhos reconheceram o Báb cercado de Sua escolta e vestido nas mesmas roupas e com a mesma expressão que ele havia visto em seu sonho na noite anterior. Hájí Mírzá Jání jubilosamente se aproximou Dele e se curvou para Lhe beijar os estribos. O Báb impediu-lhe, dizendo: "Nós havemos de ser vosso Hóspede por três noites. Amanhã é o dia de Naw-Rúz; comemorá-lo-emos juntos em vossa casa." Muhammad Big, que viajara montado junto do Báb, supunha que Ele fosse um conhecido íntimo de Hájí Mírzá Jání. Virando-se a ele, disse: "Estou pronto a aquiescer em qualquer coisa que seja o desejo do Siyyid-i-Báb. Eu queria vos pedir, entretanto, que obtenhais a aprovação de meu colega que comigo compartinha a incumbência de conduzir o Siyyid-i-Báb a Teerã." Hájí Mírzá Jání submeteu seu pedido, o qual foi terminantemente recusado. "Declino vossa sugestão", disse-lhe. "Tive as mais enfáticas instruções para não permitir que esse Jovem entrasse em qualquer cidade antes de sua chegada na capital. Recebi ordens especiais para que se passássemos a noite fora do portão da cidade, interrompesse a marcha na hora do por do sol e a continuasse no dia seguinte na hora do alvorecer. Não me posso desviar das ordens que me foram dadas." Isto motivou uma alteração acrimoniosa, a qual terminal afinal a favor de Muhammad Big, que conseguiu induzir seu oponente a entregar o Báb à custódia de Hájí Mírzá Jání com a condição explícita de que na terceria manhã ele devolvesse seu Hóspede são e salvo às suas mãos. Hájí Mírzá Jání, que tivera a intenção de convidar a sua casa a escolta inteira do Báb, foi por Ele aconselhado que abandonasse esse propósito. "Ninguém, senão vós," insistia Ele, "deveria Me acompanhar à vossa casa." Hájí Mírzá Jání pediu permissão para custear as despesas dos soldados de cavalaria durante os três dias em Káshán. "É desnecessário," observou o Báb, "se não fosse Minha vontade, nada em absoluto os haveria induzido a Me entregar em vossas mãos. Todas as coisas jazem aprisionadas nas mãos de Seu poder. Nada Lhe é impossível. Ele remove toda dificuldade e supera todo obstáculo." Os soldados de cavalaria alojaram-se em um caravançarai nas imediações do portão da cidade. Muhammad Big, seguindo as instruções do Báb, acompanhou-O até que se aproximaram da casa de Hájí Mírzá Jání. Tendo averiguado a localização da casa, regressou, juntando-se a seus companheiros.

A noite em que o Báb chegou em Káshán coincidiu com a véspera do terceiro Naw-Rúz após a declaração de Sua Missão, ou seja o segundo dia do mês de Rabí'u'th-Thání, no ano de 1263 A.H. (2) Nessa mesma noite, Siyyid Husayn-i-Yazdí, que anteriormente, de acordo com as instruções do Báb, havia vindo a Káshán, foi convidado à casa de Hájí Mírzá Jání e admitido à presença de seu Mestre. O Báb estava ditando a ele uma Epístola em honra de Seu anfitrião, quando chegou um amigo deste, um certo Siyyid 'Abdu'l-Báqí, célebre em Káshán por sua erudição. O Báb convidou-o a entrar, permitiu que ouvisse os versículos que Ele estava revelando, mas se recusou a desvendar-lhe Sua identidade. Nas passagens concludentes da Epístola que estava dirigindo a Hájí Mírzá Jání, orou por ele, suplicando ao Todo-Poderoso que lhe iluminasse o coração com a luz do conhecimento Divino e desse a sua língua o poder de servir e proclamar a Sua Causa. Embora sem instrução, iletrado, Hájí Mírzá Jání pode, em virtude desta oração, impressionar com seu discurso até o mais hábil sacerdote de Káshán. Veio a ser dotado de tal poder que ele conseguia silenciar qualquer pretencioso vão que ousasse desafiar os preceitos de sua Fé. Nem mesmo o arrogante e imperioso Mullá Já'far-i-Naráqí podia, não obstante sua consumada eloqüência, resistir a força de seu argumento e se via forçado a admitir exteriormente os méritos da Causa de seu adversário, se bem que no coração se recusasse a crer em sua verdade.

Siyyid 'Abdu'l-Báqí sentou-se e escutou o Báb. Ouviu Sua voz, observou Seus movimentos, olhou para a expressão em Seu rosto, notou as palavras que manavam sem cessar de Seus lábios e, no entanto, deixou de ser comovido pela sua majestade e pelo seu poder. Envolto nos véus de sua própria vã fantasia e sua erudição, não tinha capacidade para apreciar o que significava as palavras do Báb. Nem mesmo teve a preocupação de indagar o nome ou o caráter do Visitante em cuja presença fora introduzido. Indiferente para as coisas que havia ouvido e visto, retirou-se daquela presença, inconsciente da inigualável oportunidade que ele, com sua apatia, perdera irreparavelmente . Poucos dias depois, ao ser informado do nome do Jovem a quem tratara de um modo tão desatencioso, com tanta indiferença, ele ficou angustiado e cheio de remorso. Era tarde, porém, para procurar Sua presença e expiar tal conduta, pois o Báb havia já partido de Káshán. Em sua tristeza, ele renunciou a sociedade de seus semelhantes e até o fim de seus dias levou uma vida de reclusão sem alívio.

Entre aqueles que tiveram o privilégio de encontrar com o Báb na casa de Hájí Mírzá Jání havia um homem, de nome Mihdí, que estava destinado a sofrer martírio mais tarde, no ano de 1268 A.H. (3), em Teerã. A ele e alguns outros, durante aqueles três dias, Hájí Mírzá Jání concedeu afetuosa acolhida, ganhando com sua generosa hospitalidade os elogios e a aprovação de seu Mestre. Mesmo aos membros da escolta do Báb, mostrou ele a mesma bondade e, com sua liberalidade e suas maneiras encantadoras, ganhou sua perene gratidão. Na manhã do segundo dia depois do Naw-Rúz, ele, lembrado de sua promessa, entregou o Prisioneiro em suas mãos e, com o coração transbordando de tristeza, Lhe fez sua comovente despedida final.

CAPÍTULO XII
A VIAGEM DO BÁB DE KÁSHÁN A TABRÍZ

Atendido pela Sua escolta, o Báb seguiu em direção a Qum (1). Seu encanto sedutor, combinado com uma dignidade irresistível e uma benevolência infalível, havia já desarmado completamente Seus guardas e os transformado. Eles pareciam haver se submetido a Sua vontade e a Seu prazer. Em sua ansiedade de serví-Lo e agradá-Lo, disseram um dia. "É-nos estritamente proibido pelo governo permitir que entreis na cidade de Qum, e recebemos ordens de seguir, por um caminho não usado, diretamente a Teerã. Foi-nos recomendado especialmente que evitássemos o Haram-i-Ma'súmih (2), aquele santuário inviolável sob cujo amparo os mais notórios criminosos são imunes de aprisionamento. Estamos prontos, no entanto, por consideração a Vós, a desatender quaisquer instruções que tenhamos recebido. Se for Vossa vontade, nós sem hesitação Vos conduziremos pelas ruas de Qum, dando-Vos a oportunidade de visitar seu santuário." "O coração do verdadeiro crente é o trono de Deus", comentou o Báb. "Aquele que é a arca da salvação e a inexpugnável cidadela do Todo-Poderoso está agora viajando convosco através desta solidão. Prefiro o caminho do campo em vez de entrar nessa cidade ímpia. Aquela imaculada cujos restos mortais estão enterrados dentro desse santuário, seu irmão e seus ilustres ancestrais deploram, sem dúvida, a má condição desse povo perverso. Com os lábios prestam homenagem a ela; pelos atos amontoam desonra sobre seu nome. Exteriormente servem e reverenciam seu santuário; interiormente lhe deslustram a dignidade."

Sentimentos tão elevados haviam instilado tamanha confiança nos corações daqueles que acompanharam o Báb que, tivesse Ele a qualquer momento desejado virar-se de repente e deixá-los, nenhum dentre Seus guardas teria sentido a mínima agitação, nem haveria tentado perseguí-Lo. Prosseguindo por um caminho que beirava a extremidade norte da cidade de Qum, pararam na aldeia de Qumrúd, que era propriedade de um parente de Muhammad Big e cujos habitantes todos pertenciam à seita dos 'Alíyu'lláhí. A convite do chefe da aldeia, o Báb demorou-se uma noite nesse lugar e ficou comovido pela calorosa e espontânea recepção que aquela gente simples Lhe dera. Antes de prosseguir a Sua viagem, invocou as bênçãos do Todo-Poderoso por ele e alegrou seus corações, assegurando-lhes Sua apreciação e Seu amor.

Após uma marcha de dois dias daquela aldeia, chegaram, na tarde do oitavo dia depois de Naw-Rúz, na fortaleza de Kinár-Gird (3), situada a seis farsangs para o sul de Teerã. Segundo seu plano, alcançariam a capital no dia seguinte e haviam decidido passar a noite na vizinhança dessa fortaleza, quando chegou inesperadamente um mensageiro trazendo uma ordem escrita de Hájí Mírzá Aqásí a Muhammad Big. Essa mensagem mandava seguir imediatamente com o Báb à aldeia de Kulayn (4), onde Shaykh-i-Kulaní Muhammad-ibn-i-Ya'qub, autor do Usúl-i-Káfi, que nascera nesse lugar, fora sepultado com seu pai, e cujos santuários são muito honrados pelo povo daquela vizinhança (5). Recebeu Muhammad Big ordens para, em vista de serem impróprias as casas da aldeia, erigir uma tenda especial para o Báb e manter a escolta na vizinhança até receber mais instruções. Na manhã do nono dia após Naw-Rúz, do décimo primeiro dia do mês de Rabí'u'th-Thání, no ano de 1263 A.H. (6), nas imediações dessa aldeia, que pertencia a Hájí Mírzá Aqásí, uma tenda que havia servido para seu próprio uso sempre que ele visitasse esse lugar, foi erigida para o Báb, no declive de uma colina de aprazível situação, entre extensos pomares e prados sorridentes. A tranqüilidade desse lugar, a vegetação luxuriante e o ininterrupto murmúrio de seus riachos agradaram muito ao Báb. Juntaram-se a Ele, dois dias mais tarde Siyyid Husayn-i-Yazdí, Siyyid Hasan, seu irmão; Mullá 'Abdu'l-Karím e Shaykh Hasan-i-Zunúsí, todos os quais foram convidados a alojar-se nas cercanias imediatas de Sua tenda. No décimo quarto dia do mês de Rabí'u'th-Thání (7), no décimo segundo dia depois de Naw-Rúz, Mullá Mihdíy-i-Khu'í e Mullá Muhammad-Míhdíy-i-Kandí chegaram de Teerã. Este último que havia estado estreitamente associado a Bahá'u'lláh em Teerã, fora por Ele incumbido de apresentar ao Báb uma carta selada, juntamente com alguns presentes, as quais, logo que foram entregues em Suas mãos, Lhe provocaram na alma sentimento de insólito deleite. Seu rosto estava radiante de júbilo enquanto Ele prodigalizava ao portador sinais de Sua gratidão e Seu favor.

Essa mensagem, recebida numa hora de incerteza e ansiedade, proporciona consolo e fortaleza ao Báb. Dissipou a melancolia que se apoderara de Seu coração e Lhe imbuiu a alma da certeza da vitória. A tristeza que desde muito pairava sobre Sua face e que os perigos de Seu cativeiro haviam servido para agravar, diminuía visivelmente. Não mais vertia aquelas lágrimas de angústia que haviam jorrado de Seus olhos com tanta profusão desde os dias em que fora preso e partira de Shíráz. A exclamação de "Bem-Amado, Meu Bem-Amado", que em Seu amargo pesar e Sua solidão Ele costumava pronunciar, cedeu a expressões de agradecimento e louvor, de esperança e triunfo. A exultação que reluzia em Sua face jamais O abandonou até o dia quando a notícia do grande desastre que sobreveio aos heróis de Shaykh Tabarsí enublou novamente o resplendor de Seu semblante e Lhe ofuscou o júbilo do coração.

Tenho ouvido Mullá 'Abdu'l-Karím contar o seguinte incidente: "Meus companheiros e eu estávamos profundamente adormecidos quando subitamente o estrépito da cavalaria nos acordou. Breve fomos informados de que a tenda do Báb estava vazia e que aqueles que haviam saído em Sua busca não conseguiram encontrá-Lo. Ouvimos Muhammad Big protesar aos guardas. "Por que vos agitais?" argüia ele. "Sua magnanimidade e nobreza de alma não estão suficientemente estabelecidas em vossos olhos para vos convencer de que jamais Ele, por causa de Sua própria segurança, consentirá que outros sejam envolvidos em embaraço? Ele, sem dúvida, se deve ter retirado no silêncio desta noite de luar, para algum recanto onde possa em sossego buscar comunhão com Deus. Inquestionavelmente regressará a Sua tenda. Nunca Ele nos abandonará." Em sua ansiedade de tranqüilizar seus colegas, Muhammad Big partiu a pé pela estrada que conduz a Teerã. Eu também, com meus companheiros, o segui. Pouco depois, os outros guardas, todos montados, foram vistos marchando atrás de nós. Havíamos galgado cerca de um maydán (8) quando, na pálida luz do crepúsculo da manhã, discernimos ao longe a figura solitária do Báb. Aproximava-se de nós da direção de Teerã. "Acreditastes que Eu havia escapado?" foram Suas palavras a Muhammad Big, enquanto se aproximava. "Longe de mim," foi a resposta instantânea, enquanto se jogava aos pés do Báb, 'nutrir tais pensamentos.' Muhammad Big estava deslumbrado demais, diante da majestade serena que aquela face radiante revelava nessa manhã, para aventurar mais um comentário qualquer. Uma expressão de confiança se fixara em Seu semblante, Suas palavras estavam imbuídas de tão transcendente poder, que um sentimento de reverência profunda envolvia nossas próprias almas. Ninguém se atreveu a interrogá-Lo sobre a causa de tão extraordinária mudança em Seu modo de falar e em Seu comportamento. Nem queria Ele mesmo apaziguar nossa curiosidade e nosso espanto."

Por uma quinzena (9) demorou-se o Báb nesse lugar. A tranqüilidade que Ele fruía nesse ambiente encantador foi bruscamente perturbada com a vinda de uma carta dirigid ao Báb pelo próprio Muhammad Sháh (10), com o seguinte teor: (11) "Por mais que desejemos encontrar convosco, não nos é possível, em vista de nossa partida imediata de nossa capital, vos receber dignamente em Teerã. Temos indicado nosso desejo de que sejais conduzido a Máh-Kú e emitimos às necessárias instruções a 'Alí Khán, guarda da fortaleza, para que vos trate com respeito e consideração. É nossa esperança e nosso plano chamar-vos aqui ao regressarmos à sede de Nosso governo, quando pronunciaremos definitivamente nosso juízo. Esperamos não vos havermos causado nenhum desapontamento e que não hesiteis em nos informar em qualquer tempo caso vos sobrevenham alguns agravos. Eu de bom grado esperaria que vós continuásseis a orar pelo nosso bem-estar e pela prosperidade de nosso reino." (Datada Rabí'u'th-Thání, 1263 A.H.) (12)

Hájí Mírzá Aqásí (13) foi, sem dúvida, responsável por haver induzido Muhammad Sháh a dirigir tal comunicação ao Báb. Foi ativado unicamente por um senso de medo (14) de que a entrevista que se ponderava lhe roubasse a posição de inquestionável preeminência nos assuntos do Estado e levasse finalmente a sua queda de poder. Ele não nutria sentimentos de malícia ou ressentimento para com o Báb. Conseguiu (15) afinal persuadir seu soberano e transferir para um recanto remoto e isolado de seu reino esse oponente de quem ele tanto medo tinha, podendo assim aliviar a mente de um pensamento que continuamente o obsedava (16). Que engano estupendo, que erro lastimável! Bem pouco compreendia ele naquele momento que pelas suas intrigas incessantes estava negando a seu rei e a sua pátria os incomparáveis benefícios de uma Revelação Divina a qual, tão somente possuía o poder de livrar a terra do assombroso estado de degradação em que caíra. Pelo seu ato, esse ministro de visão tão curta não somente negou a Muhammad Sháh instrumento supremo com o qual ele teria podido reabilitar um império em rápido declínio, mas também o privou daquele Meio espiritual que o haveria capacitado a estabelecer sua incontestável ascendência sobre os povos e as nações da terra. Por sua inépcia, sua extravagância e seus conselhos pérfidos, minou os fundamentos do Estado, diminuindo-lhe o prestígio, solapando a lealdade de seus súditos e os mergulhando num abismo de miséria (17). Incapaz de ser admoestado pelo exemplo de seus predecessores, com desdém ele desatendia as demandas e os interesses do povo, prosseguia com persistente zelo seus desígnios para seu engrandecimento pessoal e, pela sua dissipação e extravagância, envolveu seu país em guerras arruinosas com os vizinhos. Sa'd-i-Ma'ádh, que nem era de sangue real nem investido de autoridade, atingiu, em virtude de sua retidão de conduta e sua profusa devoção à Causa de Maomé, tão exaltada posição que até o tempo presente os chefes e governantes do Islã continuam a reverenciar sua memória e lhe elogiar os méritos; enquanto que Buzurg-Mihr, o mais capaz, o mais sábio e o mais experiente administrador entre os vizires de Núshíraván-i-Ádil, a despeito de sua posição predominante, foi afinal publicamente desonrado, jogado numa cova, e veio a ser objeto do desprezo e do escárneo do povo. Ele lastimava sua situação infeliz e tão amargamente chorava que perdeu a vista. Nem o exemplo do primeiro nem o mau destino deste último, parece haver despertado aquele ministro presunçoso, para que percebesse os perigos de sua própria posição. Persistiu em seus pensamentos até que ele também foi privado de sua alta posição, perdeu suas riquezas (18) e se mergulhou em desonra e ignomínia. As numerosas propriedades das quais ele à força se apoderara, tirando-as dos humildes e leais súditos do Xá, os móveis suntuosos com que as embelezou, os gastos enormes com labor e tesouros que mandou fazer para benfeitorias - tudo isto foi irreparavelmente perdido dois anos depois de haver ele emitido seu decreto que condenava o Báb a um cruel encarceramento nas inóspitas montanhas de Ádhirbayján. Todas as suas possessões foram confiscadas pelo Estado. Ele mesmo foi desonrado pelo seu soberano, sendo expulso ignominiosamente de Teerã e caiu vítima de doença e pobreza. Destituído de esperança e mergulhado em miséria, languesceu em Karbilá até a hora de sua morte (19).

Assim foi ordenado que o Báb seguisse a Tabríz (20). A mesma escolta, sob o mando de Muhammad Big, atendeu-Lhe em sua jornada à província noroeste de Ádhirbayján. Foi-Lhe permitido escolher um companheiro e um assistente dentre Seus seguidores para estarem com Ele durante Sua estada naquela província. Ele escolheu Siyyid Husayn-i-Yazdí e Siyyid Hasan, seu irmão. Recusou despender consigo próprio os fundos fornecidos pelo governo para as despesas dessa viagem. Todos os estipêndios concedidos pelo Estado, Ele doou-os aos pobres e necessitados, empregando para suas próprias despesas particulares o dinheiro que Ele, como comerciante, ganhara em Búshihr e Shíráz. Por haver sido ordenado que evitassem entrar nas cidades no curso da viagem a Tabríz, alguns dos crentes de Qazvín, informados da aproximação de seu bem-amado Mestre, partiram para a aldeia de Síyáh-Dihán (21), onde puderam encontrar com Ele.

Um deles foi Mullá Iskandar, que fora delegado por Hujját a visitar o Báb em Shíráz e investigar Sua Causa. O Báb incumbiu-o de entregar a seguinte mensagem a Sulaymán Khán-i-Afshár, que era grande admirador do falecido Siyyid Kázím: "Aquele cujas virtudes o falecido siyyid elogiava incessantemente e à aproximação de cuja Revelação ele sempre se referia, está agora revelado. Eu sou aquele Prometido. Levantai-vos e Me livrai da mão do opressor." Quando o Báb entregou essa mensagem a Mullá Iskandar, Sulaymán Khán estava em Zanján e preparando-se para ir a Teerã. Dentro de um período de três dias, essa mensagem o alcançou. Deixou, entretanto, de responder a esse apelo.

Dois dias mais tarde, um amigo de Mullá Iskandar deu informação sobre o apelo do Báb a Hujját, quem à intigação dos ulemás de Zanján, havia sido encarcerado na capital. Imediatamente deu Hujját intruções aos crentes deu sua cidade natal para que empreendessem quaisquer preparativos que fossem requisitados e juntassem forças necessárias para conseguirem a libertação de seu Mestre. Exortou-os a agirem com cautela e tentarem, num momento apropriado, apanhar e levá-Lo a qualquer lugar que Ele desejasse. A estes se juntaram, dentro em breve, vários crentes de Qazvín e Teerã, que se puseram a execultar o plano, segundo as direções de Hujját. Aproximaram-se dos guardas à hora de meia noite e, encontrando-os profundamente adormecidos dirigiam-se ao Báb e O improraram a fugir. "As montanhas de Ádhirbayján também têm suas demandas," foi Sua resposta confiante, enquanto afetuosamente os aconselhava que abandonassem seu projeto e voltassem as suas casas (22).

Aproximando-se do portão de Tabríz, Muhammad Big, sentindo que chegara a hora de sua separação de seu prisioneiro, pediu para entrar em Sua presença e, com olhos lacrimosos, Lhe rogou que desculpasse suas faltas e transgressões. "A viagem de Isfáhán foi longa e árdua. Falhei em cumprir meu dever e Vos servir como eu deveria. Imploroso Vosso perdão e Vos suplico que me concedais Vossa bênção." "Sede tranqüilo, "respondeu o Báb, "Eu vos considero membro de Meu rebanho. Aqueles que abraçarem Minha Causa haverão de vos abençoar e glorificar eternamente, elogiando vossa conduta e exaltando vosso nome (23)." Os outros guardas seguiram o exemplo de seu chefe, imploraram as bênçãos de seu Prisioneiro, Lhe beijaram os pés e com lágrimas nos olhos Lhe deram a última despedida. A cada um o Báb espressou Sua apreciação de sua devotada atenção e lhe assegurou Suas orações por ele. De mau grado O entregaram às mãos do governador de Tabríz, herdeiro ao trono de Muhammad Sháh. Àqueles com quem subseqüentemente tiveram contato, esses devotados assistentes do Báb e testemunhas oculares de Sua sabedoria e poder sobrehumanos, contavam, com reverência e admiração, a história daquelas maravilhas que haviam visto e ouvido, e por esse meio ajudavam a difundir, de seu próprio modo, o conhecimento da nova Revelação.

A notícia da iminente chegada do Báb em Tabríz despertou os crentes dessa cidade. Todos saíram para Seu encontro, ansiosos de dar suas boas vindas a um Mestre tão bem-amado. Os oficiais do governo em cuja custódia o Báb seria entregue recusaram permitir que se aproximassem e recebessem Suas bênçãos. Um jovem, entretanto, não podendo se conter, precipitou-se, descalço, pelo portão da cidade e, em sua impaciência de contemplar a face de seu Bem-Amado, correu uma distância de meio farsang (24) em Sua direção. Assim que se aproximava dos soldados de cavalaria que marchavam na frente do Báb, ele jubilosamente lhe deu boas vindas e, pegando na bainha da roupa de um dentre eles, beijou devotamente seus estribos. "Vós sois os companheiros de meu Bem-Amado," exclamou ele lacrimosamente. "Eu vos estimo como à menina dos meus olhos." Espantaram-lhes tão extaordinária conduta e a intensidade de sua emoção. De imediato, acenderam a seu pedido de atingir a presença do Mestre. Assim que seus olhos O avistaram, irronpia de seus lábios uma exclamação exultante. Prostrou-se e pranteou profusamente. O Báb apeou de Seu corcel, abraçou-o, enxugou-lhe as lágrimas e consolou seu coração agitado. Dentre todos os crentes de Tabríz, esse jovem tão somente, teve a oportunidade de prestar ao Báb sua homenagem; só a ele foi concedida a benção de sentir o toque de Sua mão. Todos os outros tiveram, por força, de se contentar em ver ao longe seu Bem-Amado e com esse vislumbre procuravam satisfazer seu anelo.

Ao chegar em Tabríz, o Báb foi conduzido a uma das principais casas da cidade, reservada para confiná-Lo (25). Um destacamento do regime Násiri guardava a entrada de Sua casa. Com exceção de Siyyid Husayn e seu irmão, nem ao público, nem aos Seus adeptos, era permitido ir ter com Ele. Esse mesmo regimento que fora recrutado dentre os habitantes de Khamsih e ao qual haviam sido conferidas honras especiais, foi escolhido subseqüentemente para dar a descarga que Lhe causou a morte. As circunstâncias de Sua chegada haviam emocionado profundamente o povo da cidade, (26). Alguns foram impelidos por curiosidade, outros desejavam sinceramente certificar-se da veracidade das notícias desvairadas que circulavam a Seu respeito, e ainda outros eram movidos pela sua fé e devoção a atingir Sua presença e Lhe assegurar sua lealdade. Enquanto Ele andava pelas ruas, as aclamações da multidão ressoavam por todos os lados. A grande maioria do povo que Lhe avistava o rosto O saudava com a exclamação de "Alláh-u-Akbar (27)," outros em altas vozes O glorificavam e aplaudiam, alguns poucos invocavam sobre Ele as bênçãos do Todo-Poderoso, enquanto outros eram vistos beijando com reverência o pó de Suas pegadas. Tal fora o clamor causado pela Sua chegada, que um pregoeiro foi ordenado a advertir a população do perigo que aguardava a qualquer um que se aventurasse a procurar Sua presença. "Se alguém fizer uma tentativa de se aproximar do Siyyid-i-Báb ," assim foi o brado - "ou procurar ir ter com ele, no mesmo instante serão confiscados todos os seus bens e ele próprio se verá condenado à prisão perpétua."

No dia após a chegada do Báb, Hájí Muhammad-Taqíy-i-Mílání, comerciante de nome na cidade, aventurou-se, na companhia de Hájí 'Alí-'Askar, a ter uma entrevista com o Báb. Pessoas amigas ou que desejavam seu bem advertiam-lhes que, com tal tentativa, estariam não só correndo o risco de perderem suas possessões, como também estariam pondo em perigo suas vidas. Recusaram-se, porém, a atender a tais conselhos. Ao aproximarem-se da porta da casa onde o Báb estava confinado, foram de imediato presos. Siyyid Hasan, que naquele momento estava saindo da presença do Báb, interveio instantaneamente. "Sou mandado pelo Siyyid-i-Báb", protestou ele com veemência para vos transmitir esta mensagem. 'Permiti que essas visitantes entrem, desde que Eu próprio os tenha convidado a virem ter comigo.' "Já ouvi Hájí 'Alí-'Askar testificar o seguinte: Essa mensagem logo silenciou os opositores. Fomos conduzidos diretamente à Sua presença. Ele nos saudou com estas palavras: 'Aqueles desprezíveis que vigiam no portão de Minha casa foram por Mim destinados a ser uma proteção contra o ímpeto da multidão que se amontoa em redor da casa. Não têm eles o poder de impedir que aqueles que Eu desejo receber atinjam Minha presença.' Por cerca de duas horas, com Ele nos demoramos. Ao despedir-se de nós, Ele me entregou duas pedras de cornalina para anéis, dando-me instruções para mandar gravar nelas os dois versículos que Ele me dera anteriormente, e para mandar montá-las e Lhe trazer assim que ficassem prontas. Ele nos assegurou que em qualquer ocasião em que desejássemos encontrar com Ele, ninguém nos impediria de entrar em Sua presença. Aventurei-me a ir várias vezes a Ele a fim de me certificar de alguns detalhes relativos à incumbência que me dera. Nem uma só vez encontrei a mínima oposição por parte daqueles que guardavam a entrada de Sua casa. Nenhuma palavra ofensiva pronunciaram eles contra mim, nem pareciam esperar a menor remuneração por sua indulgência."

"Recordo como, durante minha associação com Mullá Husayn, me impressionaram as numerosas evidências de sua perspicácia e extraordinário poder. Tive o privilégio de acompanhá-lo em sua viagem de Shíráz a Mashhad, e com ele visitei as cidades de Yazd, Tabas, Bushrúhih e Turbat. Naqueles dias deplorava eu meu triste insucesso em encontrar com o Báb em Shíráz. 'Não te entristeças', assegurava-me com confiança Mullá Husayn, 'o Todo-Poderoso, sem dúvida alguma, te poderá em Tabríz compensar da perda que sofreste em Shíráz. Não apenas uma vez, mas sim, sete vezes poderá Ele te fazer participar da felicidade de Sua presença, para retribuir uma só visita que perdeste. Maravilhei-me da confiança com que pronunciou estas palavras. Até minha visita ao Báb em Tabríz, quando, a despeito de circunstâncias adversas fui em várias ocasiões admitido à Sua presença, é que me lembrei destas palavras de Mullá Husayn e admirei sua extraordinária previsão. Como foi O ouvi dizer estas palavras: 'Louvado seja Deus por haver permitido que completasse o número de tuas visitas e que te proporcionou Sua amorosa proteção."'

CAPÍTULO XIII
O ENCARCERAMENTO DO BÁB NA FORTALEZA
MÁH-KÚ

Tem-se ouvido Siyyid Husayn-i-Yazdí relatar o seguinte: "Durante os dez primeiros dias do encarceramento do Báb em Tabríz, ninguém sabia o que Lhe haveria de suceder a seguir. As mais desvairadas conjeturas corriam pela cidade. Um dia aventurei-me a Lhe perguntar se Ele iria permanecer onde estava ou se seria transferido para ainda outro lugar. 'Esqueceste', foi Sua resposta imediata, 'a pergunta que me fizeste em Isfáhán? Por um período de nada menos de nove meses permaneceremos confinados no Jabal-i-Básit (1), donde seremos transferidos para o Jabal-i-Shadíd (2). Ambos estes lugares ficam entre as montanhas de Khuy e situados dos dois lados da cidade que tem esse nome.' Cinco dias depois de haver o Báb pronunciado essa predição, foram emitidas ordens para transferi-Lo e a mim para a fortaleza de Máh-Kú e entregar-nos à custódia de 'Alí Khán-i-Máh-kú'í."

A fortaleza, um edifício de pedra, sólido, com quatro torres, ocupa o cume de uma montanha cujo pé jaz a cidade de Máh-Kú. O único caminho que conduz a fortaleza passa por dentro da cidade, terminando frente a um portão adjacente à sede do governo e que é mantido invariavelmente fechado. Esse portão é distinto daquele da própria fortaleza. Situada nos confins tanto do Império Otomano como do Russo, essa fortaleza tem sido usada, por causa de sua posição tão favorável para avistar os arredores e devido as suas vantagens estratégicas, como centro para fazer reconhecimento. O oficial que comandava essa estação observava, em tempo de guerra, os movimentos do inimigo, avistava as regiões circunvizinhas e relatava a seu governo tais casos de emergência que visem a sua atenção. Do lado no oeste a linha divisória para a fortaleza é o rio Araxes, que marca a fronteira entre o território do Xá e o Império Russo. Para o sul se estende o território do Sultão da Turquia; sendo a cidade fronteira de Bayazid a uma distância de apenas quatro farsangs (3) da montanha de Máh-Kú. O oficial da fronteira que tomava conta da fortaleza era um homem chamado 'Alí Khán. Os habitantes da cidade são todos curdos e pertencem à seita sunita do Islã (4). Os xiitas, que constituem a vasta maioria dos habitantes da Pérsia, têm sido sempre seus declarados e implacáveis inimigos. Esses curdos detestam especialmente os siyyids da seita xiita, a quem consideram os chefes espirituais e os principais agitadores entre seus oponentes. Sendo curda a mãe de 'Alí Khán, o filho era muito estimado e implicitamente obedecido pelo povo de Máh-Kú. Eles o consideravam membro de sua própria comunidade e nele tinham confiança absoluta.

Hájí Mírzá Áqásí maquinara deliberadamente relegar o Báb a esse canto do território do Xá tão remoto, tão inóspito e em tão perigosa situação, com o fim único de deter o curso de Sua sempre-crescente influência e de cortar todo laço que O ligava ao corpo de Seus discípulos em toda parte do país. Confiante de que poucas pessoas - se acaso alguma, se aventurasse a penetrar em tão inculta e turbulenta região, ocupada por um povo tão rebelde, ele imaginava totalmente que esse ato de à força islar seu Cativo dos interesses e atividades de Seus seguidores tendesse a sufocar, pouco a pouco, o Movimento desde mesmo seu nascimento e conduzisse a sua extinção final (5). Breve, entretanto, teve ele de perceber que errara gravemente a respeito da natureza da Revelação do Báb e subestimara a força de sua influência. Os espíritos turbulentos desse povo refratário foram dentro de pouco tempo suavizados pelas maneiras meigas do Báb, e seus corações foram abrandados através da influência enobrecedora de Seu amor. Humildade veio a lhes substituir o orgulho diante de Sua inusitada modéstia, e sua arrogância irracional se derretia em face da sabedoria de Suas palavras. Tal era o fervor que o Báb incendiara naqueles corações, que Seu primeiro ato, cada manhã, era procurar um lugar donde Lhe pudessem vislumbrar o semblante e onde pudessem com Ele comungar e suplicar Suas bênçãos para a faina diária. Em casos de dissenção, apressavam-se instintivamente àquele lugar e, fitando Sua prisão, Lhe invocavam o nome e adjuravam um ao outro a declarar a verdade. 'Alí Khán tentou várias vezes induzi-los a desistir dessa prática, mas se via impotente para lhes restringir o entusiasmo. Ele desempenhava suas funções com a máxima severidade, recusando-se a permtir que qualquer um dos declarados discípulos do Báb se demorasse, nem sequer por uma noite, na cidade de Máh-Kú (6).

"Durante as duas primeiras semanas", relatou ainda Siyyid Husayn, "a ninguém foi permitido visitar o Báb. Meu irmão e eu, somente éramos admitidos a Sua presença. Siyyid Hasan, acompanhado de um dos guardas, descia cada dia à cidade e comprava nossas necessidades diárias. Shaykh Hasan-i-Zunúsí, que chegara em Máh-Kú, passou as noites num masjid fora do portão da cidade. Agia como intermediário entre aqueles dos seguidores do Báb que ocasionalmente visitam Máh-Kú e Siyyid Hasan, meu irmão, que por sua vez submetia ao Mestre as petições dos crentes e informava Shaykh Hasan de Sua resposta.

"Um dia o Báb incumbiu meu irmão de informar Shaykh Hasan que Ele Próprio pediria ao 'Alí Khán que alterasse sua atitude para com os crentes que visitam Máh-Kú e que abandonasse sua severidade. 'Diga-lhe', acrescentou, 'que amanhã darei Eu instruções ao guarda para conduzi-lo a este lugar.' Muito me admirei desta mensagem. Como, pensei comigo, seria o tirânico e autoritário 'Alí Khán induzido a relaxar a severidade de sua disciplina? No dia seguinte, muito cedo, estando ainda fechado o portão da fortaleza, nos admiramos ao ouvir um súbito bater na porta, bem sabendo que haviam sido dadas ordens de que não fosse admitida pessoa alguma antes da hora do nascer do sol. Reconhecemos a voz de 'Alí Khán, que parecia estar repreendendo os guardas, um dos quais veio, após pouco tempo, informar-me de que o diretor da fortaleza insistia em que lhe fosse permitido entrar na presença do Báb. Ao transmitir esse recado, recebi ordens de conduzi-lo imediatamente a Sua Presença. Assim que eu estava saindo da porta de Sua antecâmara, encontrei 'Alí Khán em pé no limiar em atitude de submissão completa, percebendo-se em seu rosto uma expressão de inusitada humildade e admiração. Seu orgulho e soberba pareciam haver se desvanecido completamente. Humildemente e com extrema cortesia retribuiu minha saudação e me solicitou que lhe permitisse entrar na presença do Báb. Conduzi-o ao aposento ocupado por meu Mestre. Tremiam-lhe os membros enquanto ele me seguia. Uma agitação interior que ele não podia esconder lhe pairava no rosto. O Báb levantou-se de Seu assento e lhe deu boas vindas. Curvando-se com reverência, 'Alí Khán aproximou-se e se prostrou a Seus pés. 'Livrai-me', suplicava ele, 'de minha perplexidade. Ajuro-Vos, pelo Profeta de Deus, Vosso ilustre Antepassado, a que me dissipeis as dúvidas, pois seu peso quase que me tem esmagado o coração. Eu ia cavalgando pela selva e me aproximava do portão da cidade, quando, na hora do alvorecer, meus olhos subitamente Vos avistaram, enquanto em pé, do lado do rio oferecíes Vossa oração. Com braços estendidos e olhos erguidos ao alto, invocavas o Nome de Deus. Imóvel me mantive e Vos observara. Esperava que terminásseis Vossas devoções, para que me pudesse aproximar e Vos repreender por Vos haverdes aventurado a sair da fortaleza sem a minha permissão. Em Vossa comunhão com Deus parecíeis tão absorto em adoração que estavas completamente esquecido de Vós Próprio. Queitamente me aproximava de Vós; em Vosso estado de enlevo, permanecíeis inteiramente inconsciente de minha presença. De súbito se apoderou de mim grande medo e recuei da idéia de Vos despertar de Vosso êxtase. Decidi deixar-vos, seguir ao encontro dos guardas e repreendê-los por sua conduta negligente. Breve descobri por espanto meu, que tanto o portão exterior como o interior, estavam fechados. Foram abertos a meu pedido, fui conduzido à Vossa Presença e agora Vos encontro para surpresa minha, sentado a minha frente. Estou completamente confundido. Não sei se perdi a razão.' O Báb respondeu dizendo: 'O que testemunhaste é verdadeiro e inegável. Menosprezaste esta Revelação e desdenhosamente desprezastes seu Autor. Deus, o Todo-Misericordioso, não desejando vos afligir com Sua punição, se dignou revelar aos vossos olhos a Verdade. Pela Sua interposição Divina, Ele vos instilou no coração o amor a Seu Escolhido e voz fez reconhecer o poder invencível de Sua Fé."

Esta experiência maravilhosa mudou completamente o coração de 'Alí Khán. Aquelas palavras lhe haviam acalmado a agitação e dominado a animosidade feroz. Por todos os meios dentro de seu poder, determinou ele a expiar seu comportamento passado. "Um pobre, um shaykh", apressou-se a informar ao Báb, "anseia atingir a Vossa Presença. Ele mora num masjid fora do portão de Máh-Kú. Eu Vos suplico que a mim mesmo seja permitido trazê-lo a esse lugar para que ele Vos possa ver. Por este ato espero que minhas más ações sejam perdoadas, que eu seja assistido a apagar as manchas de minha conduta cruel para com Vossos amigos." Atendeu-se seu pedido e de imediato foi ele a Shaykh Hasan-i-Zunúsí e o conduziu à presença de seu Mestre.

'Alí Khán tentou, dentro dos limites que lhe haviam sido impostos, tomar qualquer providência que tendesse a aliviar o rigor do cativeiro do Báb. À noite o portão da fortaleza ainda permanecia fechado; durante o dia, porém, se permitia àqueles a quem o Báb desejava ver, entrarem em Sua Presença, com Ele conversarem e Dele receberem instruções.

Enquanto jazia confinado dentro dos muros da fortaleza o Báb dedicava seu tempo à composição do Bayán Persa - de todas as Suas obras a mais poderosa, a mais iluminadora e compreensiva (7). Nele estabeleceu as leis e os preceitos de Sua Dispensação, anunciou clara e enfaticamente o advento de uma Revelação subseqüente e com persistência exortou os seguidores a buscarem até que encontrassem "Aquele que Deus tornaria manifesto (8), advertindo-lhes que não deixassem os mistérios e as alusões do Bayán lhes impedirem o reconhecimento de Sua Causa (9).

Tenho ouvido Shaykh Hasan-i-Zunúsí dar o seguinte testemunho. "A voz do Báb, enquanto Ele ditava os ensinamentos e princípios de Sua Fé, podia ser claramente ouvida por aqueles que moravam ao pé da montanha. A melodia de Sua entoação o fluxo rítmico dos versículos que manavam de Seus lábios, captava nossos ouvidos e nos penetrava na própria alma. Montanha e vale ressoavam a majestade de Sua voz. Nossos corações vibravam até as profundezas com o apelo de Suas palavras (10)."

A gradativa amenização da disciplina severa imposta sobre o Báb animou um número crescente de Seus discípulos das várias províncias da Pérsia a visitá-Lo na fortaleza de Máh-Kú. Um incessante fluxo de peregrinos fervorosos e devotados se dirigia aos seus portões, graças à gentileza e clemência de 'Alí Khán (11). Após uma estada de três dias, foram invariavelmente despachados pelo Báb, com instruções para regressarem a seus respectivos campos de serviço e continuarem seus labores na consolidação de Sua Fé. Jamais o próprio 'Alí Khán deixou de prestar ao Báb no dia de sexta-feira sua homenagem e a Ele assegurar sua inalterável lealdade e devoção. Presenteava-O freqüentemente com frutos, os mais raros e escolhidos a serem encontrados na vizinhança de Máh-Kú e sempre Lhe oferecia iguarias que pensava seriam de Seu gosto, agradáveis a Seu paladar.

Assim passou o Báb o verão e o outono dentro dos muros daquela fortaleza. Seguiu-se um inverno de tão excepcional severidade que até os implementos de cobre eram afetados pela intensidade do frio. O princípio daquela estação coincidiu com o mês de Muharram do ano de 1264 A.H. (12). A água que o Báb usava para Suas abluções era de tal gélida frieza que suas gotas reluziam enquanto se congelavam em Seu rosto. Invariavelmente Ele, após terminar cada oração, chamava à Sua Presença Siyyid Husayn e pedia que Lhe lesse em voz alta uma passagem de Muhriqu'l-Qulúb, obra essa composta pelo falecido Hájí Mullá Mihdí, bisavô de Hájí Mírzá Kammál'u'd-Dín-i-Naráqí, na qual o autor elogia as virtudes, lamenta a morte e narra as circunstâncias do martírio do Imame Husayn. A narração desses sofrimentos provocava emoção intensa no coração do Báb. As lágrimas continuavam a fluir enquanto Ele escutava ao relato das indizíveis indignidades sobre ele amontoadas e da dor agonizante que teve de suportar das mãos de um inimigo pérfido. À medida que diante Dele se desenrolavam as circunstâncias dessa vida trágica, o Báb continuamente se lembrava daquela tragédia ainda maior, destinada a assinalar o advento do prometido Husayn. Para Ele eram essas atrocidades passadas apenas um símbolo que prognosticava as amargas aflições que seu próprio bem-amado Husayn teria que sofrer nas mãos de seus compatriotas. Chorou enquanto Ele imaginava na mente as calamidades que Aquele que se haveria de tornar manifesto estava predestinado a sofrer - calamidades tais como o Imame Husayn, nem mesmo em meio às suas agonias, teve que suportar (13).

Em um de Seus escritos, revelado no ano de 1260 A.H., o Báb declara o seguinte: "O espírito de oração que anima Minha alma é a conseqüência direta de um sonho que tive no ano anterior a Eu declarar Minha Missão. Vi nessa visão a cabeça do Imame Husayn, o Siyyidu'-sh-Shuhadá, pendurada em uma árvore. Gotas de sangue pingavam profusamente de Sua garganta lacerada. Com sentimentos de inexcedível deleite, aproximei-me daquela árvore e, estendendo as mãos, colhi algumas gotas daquele sangue sagrado e as sorvi devotadamente. Ao despertar, senti que o Espírito de Deus havia permeado minha alma e dela se apoderado. Extasiava-se Meu coração com o júbilo de Sua Divina Presença e diante de Meus olhos os mistérios de Sua Revelação se desdobravam em toda a sua glória."

Mal havia Muhammad Sháh condenado o Báb a cativeiro nas remotas fortalezas nas montanhas de Ádhirbayján, quando lhe atingiram súbitos reveses da fortuna, tais como nunca antes conhecera e cujo impacto afetou os próprios fundamentos de seu Estado. Assombroso desastre surpreendeu suas forças incumbidas de manter ordem interna em toda parte das províncias (14). Içou-se o estandarte da rebelião em Khurásán e tamanha foi a consternação provocada por esse levante que a projetada campanha do Xá a Hirát foi imediatamente abandonada. A temeridade e o esbanjamento de Hájí Mírzá Áqásí haviam soprado até se inflamarem as brasas do descontentamento, exasperando as massas e as encorajando a incitar sedição e desordens. Os elementos mais turbulentos de Khurásán, habitantes das regiões de Qúchán, Bujnúrd e Shíraván, coligaram-se com o Sálár, filho do Ásifu'd-Dawlih, o tio materno mais velho do Xá e governador da província e repudiaram a autoridade do governo central. Quaisquer forças que fossem expedidas da capital eram derrotadas pelos principais instigadores da rebelião. Já'far-Qulí Khán-i-Námdár e Amír Arslán Khán, filho de Sálár, que conduziam as operações contra as forças do Xá, mostraram crueldade extrema e após haverem reprimido os ataques do inimigo, trucidaram impiedosamente os seus cativos.

Mullá Husayn, nesse tempo, residia em Mashhad (15), a despeito do tumulto provocado por aquela revolta, se esforçava por difundir o conhecimento da nova Revelação. Ao descobrir que o Sálár, em seu desejo de estender o âmbito da rebelião, determinara aproximar-se dele para obter seu apoio, decidiu prontamente partir da cidade a fim de evitar implicar-se nos concluios daquele orgulhoso e rebelde chefe. Na calada da noite, atendido só por Qambar-'Alí, procedeu a pé em direção a Teerã, resolvido a seguir de lá a Ádhirbayján, onde esperava encontrar o Báb. Seus amigos, ao saberem da maneira de sua partida, providenciaram de imediato o que lhe pudesse proporcionar algum conforto em sua longa e árdua jornada e se apressaram a alcançá-lo. Mulla Husayn não aceitou sua assistência. "Fiz votos," disse-lhes, "de andar a pé a inteira distância que me separa de meu Bem-Amado. Não vacilarei em minha resolução antes de haver alcançado meu destino." Até tentou induzir Qambar-'Alí a regressar a Mashhad, mas foi finalmente obrigado a ceder a sua solicitação e lhe ser permitido servi-lo durante toda sua peregrinação a Ádhirbayján.

Em seu caminho a Teerã, Mullá Husayn era entusiasticamente saudado pelos crentes nas várias cidades pelas quais ele passava. Dirigiam-lhe o mesmo pedido e dele recebiam a mesma resposta. Tenho ouvido dos lábios de Aqáy-i-Kalím o seguinte testemunho: "Quando Mullá Husayn chegou em Teerã, eu, na companhia de grande número de crentes, fui visitá-lo. Ele nos parecia ser a verdadeira personificação da constância, da piedade e virtude. Inspirou-nos com sua retidão de conduta e sua apaixonada lealdade. Tais foram a força de seu caráter e o ardor de sua fé que nos sentimos convencidos de que ele só, sem apoio, teria capacidade para conseguir o triunfo da Fé de Deus." Secretamente foi conduzido à presença de Bahá'u'lláh e pouco depois de sua entrevista, procedeu a Ádhirbayján.

Na noite antes de sua chegada em Máh-Kú, que era a véspera do quarto Naw-Rúz após a declaração da Missão do Báb, e que caiu naquele ano, no ano de 1264 A.H. (16), no décimo primeiro dia do mês de Rabí'u'th-Thání, teve 'Alí Khán um sonho. "Em meu sonho", relata ele, "assustou-me a repentina notícia de que Muhammad, o Profeta de Deus, breve chegaria em Máh-Kú, que deveria seguir diretamente à fortaleza a fim de visitar o Báb e Lhe oferecer suas felicitações pelo advento do festival de Naw-Rúz. Em meu sonho, corri ao Seu encontro, ansioso de estender a tão santo Visitante a minha humilde expressão de boas vindas. Num estado de indescritível alegria, apressei-me a pé em direção ao rio e, ao alcançar a ponte, que estava situada a uma distância de um maydan (17) da cidade de Máh-Kú, vi dois homens que vinham se aproximando de mim. Um deles, pensei, deveria ser o próprio Profeta, enquanto o outro que andava atrás Dele eu supunha ser um de Seus distintos companheiros. Apressei-me a me prostar a Seus pés e me curvava para beijar a bainha de Suas vestes, quando, de súbito, acordei. Grande júbilo inundara minh'alma. Sentia-me como se o próprio Paraíso, com todos os seus deleites, se tivesse amontoado em meu coração. Convencido da realidade de minha visão, fiz minhas abluções, ofereci minha oração, vesti-me em minhas mais ricas roupas e me ungi com perfume. Procedi ao lugar onde, na noite anterior, em meu sonho, eu havia contemplado o semblante do Profeta. Eu dera instruções a meus subordinados para selarem três de meus melhores e mais célebres corcéis e os conduzirem de imediato à ponte. O sol acabava de nascer quando, sem ser escoltado, inteiramente só, sai a pé da cidade de Máh-Kú em direção ao rio. Assim que me aproximava da ponte, discerni, palpitando de espanto, os dois homens que eu havia visto em meu sonho, andando um atrás do outro e vindo em minha direção. Instintivamente caí aos pés daquele que eu acreditava ser o Profeta e devotadamente os beijei. Solicitei-Lhe e a Seu companheiro que montassem os cavalos que eu preparara para sua entrada em Máh-Kú. 'Não', foi Sua resposta, 'fiz votos de realizar toda a viagem a pé. Andarei até o cume desta montanha e lá visitarei vosso Prisioneiro.'"

Essa estranha experiência de 'Alí Khán efetivou uma aprofundização de reverência em sua atitude para com o Báb. Sua fé na potência de sua Revelação tornou-se ainda maior e muito se aumentou sua devoção a Ele. Em atitude de humilde submissão, seguiu a Mullá Husayn até alcançarem o portão da fortaleza. Logo que os olhos de Mullá Husayn atingiram o semblante de seu Mestre, que se via em pé no limiar do portão, ele instantaneamente parou e, curvando-se diante d'Ele, permaneceu imóvel a Seu lado. O Báb estendeu os braços e afetuosamente o abraçou. Tomando-o pela mão, conduziu-o a Seu aposento. Convocou então os amigos a Sua presença e em sua companhia celebrou a Festa de Naw-Rúz. Pratos de doces e dos frutos mais escolhidos haviam sido espalhados diante Dele. Distribuiu-os entre os amigos reunidos e, enquanto oferecia a Mullá Husayn alguns dos marmelos e maçãs, disse: "Estes frutos deliciosos vieram para nós de Milan, o Ard-i-Jannat (18), e foram colhidos especialmente e consagrados a esta Festa pelo Ismu'lláhu'l-Fatíq, Muhammad-Taqí."

Até então a nenhum dos discípulos do Báb, salvo a Siyyid Husayn-i-Yazdí e seu irmão, fora permitido passar a noite dentro da fortaleza. Naquele dia 'Alí Khán foi ao Báb e disse: "Se for vosso desejo reter Mullá Husayn convosco esta noite, estou pronto a conformar-me com Vosso desejo, pois não tenho vontade própria. Por qualquer tempo que queiras que permaneça em Vossa companhia, prometo cumprir Vossa ordem." Os discípulos do Báb continuaram a chegar em Máh-Kú em números sempre crescentes e eram imediatamente e sem a mínima restrição admitidos a Sua Presença.

Um dia, o Báb, na companhia de Mullá Husayn, olhava do telhado da fortaleza sobre a paisagem da região circunvizinha, fitou o oeste e, enquanto via o Araxes seguindo seu curso sinuoso lá longe abaixo, virou-se a Mullá Husayn e disse: "Eis o rio e lisa margem, sobre a qual assim escreveu o poeta Háfiz. 'Ó zéfiro, se tu passares perto da margem do Araxes, implanta um beijo na terra desse vale e torna fragrante teu alento. Salve, mil vezes salve, Ó tu, morada de Salmá! Quão é querida a voz de teus cameleiros e suave o tinido de teus sinos! (19) Os dias de vossa estada neste país aproxima-se de seu fim. Não fosse a brevidade de vossa estadia e nós vos teríamos mostrado a 'morada de Salmá', assim como revelamos aos vossos olhos as 'margens do Araxes.'" Pela "morada de Salmá" o Báb queria dizer a cidade de Salmás, situada na vizinhança de Chihríq e designada Salmás pelos turcos. Continuando Suas observações, o Báb disse: "É a influência imediata do Espírito Santo que faz palavras como estas manarem da língua de poetas e freqüentemente eles próprios não podem apreender o que significam. Também divinamente inspirado é o seguinte Versículo: "Em Shíráz será lançada em tumulto; um Jovem de doce língua aparecerá. Receio que o alento de sua boca agite e perturbe Bagdá." O mistério encerrado neste versículo está agora oculto; será revelado no ano após Hín (20)." O Báb citou subseqüentemente esta bem conhecida tradição: "Tesouros jazem ocultos sob do trono de Deus; a chave a esses tesouros está na língua de poetas." Relatou Ele então a Mullá Husayn aqueles acontecimentos um após outro, que haveriam forçosamente de suceder no futuro, e lhe disse que não os mencionasse a ninguém (21). "Poucos dias após vossa partida deste lugar", informou-lhe o Báb, "eles Nos transferirão a uma outra montanha. Antes de chegardes em vosso destino, a notícia de Nossa partida de Máh-Kú vos terá alcançado."

O que o Báb predissera foi prontamente cumprido. Aqueles incumbidos de vigiar secretamente seus movimentos e a conduta de 'Alí Khán submeteram a Hájí Mírzá Aqásí um relatório detalhado no qual se estenderam sobre sua devoção extrema ao seu Prisioneiro e descreveram tais incidentes como tendessem a confirmar suas alegações. "Dia e noite", descreviam-lhe, "o diretor da fortaleza de Máh-Kú pode ser visto associar-se ao seu cativo em condições de irrestrita liberdade e amizade. 'Alí Khán, que obstinadamente se recusou permitir que sua filha casasse com o herdeiro ao trono da Pérsia, alegando que esse ato a tal ponto enfureceria os parentes sunitas de sua mãe que eles, sem hesitação, o matariam e a sua filha também, agora com o mais intenso fervor deseja que essa mesma filha seja esposada com o Báb. Ele já recusou, mas 'Alí Khán ainda persiste em sua solicitação. Não fosse a recusa do prisioneiro, e as núpcias da moça já se teriam celebrado." 'Alí Khán havia realmente pedido isto e até solicitado a Mullá Husayn que intercedesse por ele com o Báb. Não se conseguira, no entanto, Seu consentimento.

Esses relatórios malévolos exerceram uma influência imediata sobre Hájí Mírzá Aqásí. Medo e ressentimento mais uma vez impeliram aquele caprichoso ministro a emitir uma ordem peremptória para a transferência do Báb à fortaleza de Chihríq.

Vinte dias após Naw-Rúz o Báb se despediu do povo de Máh-Kú, que, durante seus nove meses de cativeiro havia reconhecido em grau notável o poder de Sua personalidade e a grandeza de Seu caráter. Mullá Husayn, que partira de Máh-Kú a mando do Báb, estava ainda em Tabríz quando lhe veio a notícia da transferência já predita de seu Mestre para Chihríq. Na ocasião de Sua última despedida a Mullá Husayn, dirigiu-lhe estas palavras: "Andaste a pé todo o caminho de tua província nativa a este lugar. A pé também deves regressar até alcançar teu destino; pois teus dias de cavalaria estão ainda por virem. És destinado a exibir tal coragem, tal destreza e heroísmo que eclipsarão os mais poderosos atos dos heróis de antanho. Tuas façanhas destemidas ganharão os elogios e a admiração dos habitantes do Reino eterno. Deves visitar no caminho os crentes de Khuy, de Urúmíyyih, de Marághih, de Milan, de Tabríz, de Zanjá, de Qazvín e de Teerã. A cada um transmitirás a expressão de Meu amor e terno afeto. Tentarás inflamar seus corações de novo com o fogo do amor da Beleza de Deus e te esforçarás para lhes fortificar a fé em Sua Revelação. De Teerã deves proceder a Mázindarán, onde o tesouro oculto de Deus a ti será tornado manifesto. Serão exigidos de ti feitos tão grandes que haverão de eclipsar as mais poderosas realizações do passado. A natureza de tua tarefa será, naquele lugar, a ti revelada, e serás fortalecido e guiado de modo a te tornar apto para prestar teu serviço a Sua Causa.

Na manhã do nono dia após Naw-Rúz, Mullá Husayn partiu, segundo instruções de seu Mestre, em sua jornada a Mázindarán. A Qambar-'Alí dirigiu o Báb estas palavras de despedida: "O Qambar-'Alí de uma era passada gloriar-se-ia por haver o portador de seu nome vivido até testemunhar um Dia que até Ele (22) que era o Senhor de seu senhor suspirava em vão; do qual Ele com anelo intenso falou: 'Oxalá Meus olhos pudessem contemplar as faces de Meus irmãos que tiveram o privilégio de atingir a Seu Dia!'"

1 1260 A.H. (1844 A.D.)
2 1887-8 A.D.
3 Seu título completo é Nabíl-i-A'zam.
NOTAS DE RODAP
OS ROMPEDORES DA ALVORADA - Rodapé
CAPÍTULO I

(1) Sua genealogia, de acordo com seu filho Shaykh 'Abdu'lláh, é a seguinte: (nome não digitado, pois trava micro). (A. L. M. Nicolas: "Essai sur le Shaykisme" I, p. I)

(2) Nascido no mês de Rajab 1166 D.H. 24 de abril a 24 de maio de 1753, na cidade de Ahsá, no distrito de Ahsá, no nordeste da península Árabe. (A. L. M. Nicolas': Essai sur le Shaykhisme I, p. I). Nasceu xiita, embora seus antepassados fossem sunitas (idem p. 2). De acordo com E.G. Browne (A Traveller's Narrative, nota E, p. 235), Shaykh Ahmad nasceu no ano de 1157 D.H., e faleceu em 1242.

(3) Siyyid Kázím, em seu livro, intitulado Dal´lú'l-Mutahayyirín, escreve o seguinte: "Nosso mestre viu certa noite o Imame Hasan; A salvação esteja com ele! Sua Santidade lhe pôs na boca sua língua abençoada. Da saliva adorável desta Santidade retirou ele as ciências e a ajuda de Deus. O gosto era açucarado, mais doce que o mel, mais perfumado que o almíscar; ademais, estava bem aquecida. Quando voltou a si e despertou de seu sono irradiava em seu íntimo as luzes da contemplação de Deus, transbordando da inundação de suas bênçãos e, se desapegou totalmente de tudo, salvo de Deus. Sua crença e sua fé em Deus aumentaram ao mesmo tempo que sua submissão à Vontade do Altíssimo. Por causa de um amor excessivo, de um desejo impetuoso que nascia de seu coração, esqueceu de comer e de vestir-se, exceto o indispensável para não morrer". (A. L. M. Nicolas Essai sur le Shaykhisme I, p. 6).

(4) Ele Shaykh Ahmad, sabia muito bem que havia sido eleito por Deus para preparar os corações dos homens para receber a completa verdade que logo se iria revelar e que por seu intermédio se abriria novamente o caminho para o oculto décimo segundo Imame Mihdí. Entretanto, isto não lhe foi exposto em termos claros e inequívocos, para que os "não-renegados" não se voltassem contra ele e não o matassem. (Dr. T. K. Cheyne The Reconciliation of Races and Religions, p. 15).

(5) "Karbilá encontra-se a mais ou menos 55 milhas a sudoeste de Bagdá nas margens do Eufrates... O túmulo de Husayn no centro da cidade e o de seu irmão Abbás no setor S.E. são os edifícios principais." (C. R. Markham: A General Sketch of the History of Persia p. 486). Os xiitas têm veneração por Najáf porque ali se encontra o túmulo do Imame Alí.

(6) "As características principais do ponto de vista de Shaykh Ahmad parecem ser as seguintes. Ele declarou que todo o conhecimento e toda a ciência se encontram no Alcorão e que, portanto, para compreender os significados internos deste em sua totalidade, deve-se adquirir conhecimento daqueles. Para desenvolver essa doutrina aplicava métodos cabalísticos de interpretação do texto sagrado e se esforçava para familiarizar-se com as diversas ciências conhecidas no mundo muçulmano. Tinha uma exagerada veneração pelos imames, especialmente o Imame Já'far-i-Sádiq, o sexto na sucessão, cujas palavras citava sempre... Sobre a vida futura e a ressurreição do corpo também tinha opiniões que, em geral, eram consideradas heterodoxas, como se foi mencionado. Declarou que o corpo do homem era composto de diferentes porções derivadas de cada um dos quatro elementos e dos nove céus e que o corpo que ia ser elevado à ressurreição continha somente estes últimos componentes, enquanto os primeiros regressavam às suas fontes originais no momento da morte. A este corpo sutil, que era o único que se livrava da destruição, chamou-o de Jism-i-Húriqlíyá, a última das quais se supõe é uma palavra grega. Afirmou que existia em potencial em nossos corpos atuais "como o vidro em uma pedra". Em forma similar, afirmou que no caso da Ascensão do Profeta ao Céu, foi este, e não seu corpo material que iniciou a viagem. Por causa destas opiniões, era considerado heterodoxo pela maioria dos 'ulemás e foi acusado de seguir as doutrinas de Mullá Sadrá, o maior filósofo persa dos tempos modernos". Journal of the Royal Asiatic Society, 1889, art. 12 p.p. 890-91.)

(7) No século IX os restos do Imame Rida, filho do Imame Músá, o oitavo dos doze Imames, foram sepultados em Mashhad.

(8) "Na terra da Fá (Fars) há uma mesquita, no meio da qual se ergue uma construção parecida com a Ka'bih (Masjid-i-Jum'ih). Foi edificada apenas como sinal indicativo da manifestação da ordem de Deus através do levantamento da casa nesta terra. (Alusão à nova Meca, i.e., a casa do Báb em Shíráz.) Feliz aquele que adore a Deus naquela terra: em verdade, nós também temos adorado a Deus e ali temos orado para aquele que levantou esta construção." (Le Bayán Persan, vol. 2, p. 151.)

(9) A. L. M. Nicolas', no capítulo 5 de seu livro, Essai sur le Shaykhisme de uma lista de mais ou menos noventa e seis volumes que representam a totalidade da produção literária deste prolífico escritor. Entre eles os mais importantes são os seguintes:

a) Comentário sobre o Zíyáratu'l Jámi'atu'l-Kabírih de Shaykh Hádi.

b) Comentário sobre o versículo "Qu'l Huválláh-u-Ahad".

c) Risáliy-i-Kháqáníyyih, em contestação à pergunta de Fath-Alí Shah sobre a superioridade do Qá'ím sobre seus antepassados.

d) Os sonhos.

e) Contestação a Shaykh Músáy-i-Bahrayni sobre a posição e pretensão do Sáhibu'z-Zamán.

f) Contestação dos Súfís.

g) Contestação a Mullá Mihdíy-i-Astirábádí sobre o conhecimento da alma.

h) Sobre as satisfações e penas da vida futura.

i) Contestação a Mullá 'Alí-Akbar sobre o menor caminho para alcançar Deus.

j) Sobre a Ressurreição.

(10) "A notícia de sua chegada causou grande agitação e alguns ulemás, entre os mais célebres, o receberam com distinção, rodearam-no de atenções e os habitantes da cidade os imitaram. Todos os ulemás vieram vê-lo. Todos reconheciam que era ele o mais sábio entre os sábios." (A. L. M. Nicolas 'Essai sur le Shaykhisme' p. 18).

(11) A. L. M. Nicolas em seu livro Essai sur le Shaykhisme (p.p. 19-20) refere-se a uma segunda carta dirigida pelo xá a Shaykh Ahmad: "O xá, prevenido, lhe escreveu novamente dizendo que obviamente era dever seu, do rei, incumbir-se de ir até Yazd para visitar a ilustre e santa personagem cujos pés eram uma bênção para a província sobre a qual consentia pô-los, porém, por razões políticas de grande importância, não podia, nesse momento, deixar a capital. Além disso, em caso de mover-se, estaria obrigado a levar consigo um destacamento de dez mil homens. Como a cidade de Yazd era pequena, e seus campos muito pobres para receber tal excesso de população, a chegada de tropas tão numerosas provocaria, sem dúvida, uma falta de alimentos. "Você não desejaria semelhante desgraça, estou seguro e creio que, ainda que eu seja muito insignificante ante a sua pessoa, você aceitará o convite para me visitar."

(12) "Deus é Todo Poderoso".
(13) 20 de outubro de 1819 A.D.
(14) 12 de novembro de 1817 A.D.
(15) 1857-8 A.D.

(16) "Sua família (de Siyyid Kázím) era comerciantes de prestígio. Seu pai se chamava, Áqá Siyyid Qásim. Quando tinha doze anos de idade, vivia em Ardibíl, perto do túmulo de Shaykh Safi'u'd-Dín Isháq, descendente do sétimo Imame Musá Kázím e antepassado dos reis Safaví. Certa noite, durante um sonho, recebeu a mensagem de um dos ilustres antepassados do santo sepultado de que deveria ficar sob a orientação espiritual de Shaykh Ahmad-i Ahsá'i, o qual residia em Yazd. Em obediência dirigiu-se àquela cidade e tornou-se um dos discípulos de Shaykh Ahmad, em cuja doutrina alcançou tal distinção que com a morte do Shaykh foi reconhecido por unanimidade como o chefe da escola Shaykhí. A Traveller's Narrative (Nota E, p. 238.)

(17) 1815-16 A.D.

(18) "O xá sentia aumentar dia após dia sua benevolência e respeito por Shaykh. Acreditava ser sua obrigação obedecer-lhe e achava uma blasfêmia quem lhe fizesse oposição. Além disso, nessa época ocorreram sucessivos tremores de terra em Rayy e muitas casas foram destruídas. O xá teve um sonho no qual lhe foi dito que se Shaykh Ahmad não estivesse ali, toda a cidade teria sido destruída e todos os habitantes mortos. Despertou aterrorizado e sua fé no Shaykh aumentou mais ainda." (A. L. M. Nicolas 'Essai sur le Shaykhkisme I, p. 21.)

(19) Mirzá Abu'l-Fadl afirma em seus escritos que a genealogia de Bahá'u'lláh segue até os antigos Profetas da Pérsia assim como seus reis que governaram o país antes da invasão dos Árabes.

(20) Seu nome era Mirzá Husayn-'Alí.
(21) 12 de novembro de 1817 A.D.

(22) "Kirmánsháh o esperava com muita impaciência. O príncipe governador Muhammad-'Alí Mírzá enviou todo o povo da cidade ao seu encontro e haviam erigido tendas para recebê-lo em Cháh-Qílán. O príncipe veio ao seu encontro em Táj-Abád, que estava a quatro farsakhs da cidade." (A. L. M. Nicolas Essai sur le Shaykhisme I, p. 30.)

(23) 1237 A.H.
(24) O Príncipe dos Mártires.

(25) A. L. M. Nicolas no prefácio de Essai sur le Shaykhisme V. I., cita as seguintes palavras que haviam sido ditas por Shaykh Ahmad referindo-se a Siyyid Kázím: "Não existe outro a não ser Siyyid Kázím-i-Rashtí que compreenda o objetivo que persigo, e ninguém, senão ele, o compreende... Procurai a ciência, depois de mim, ao lado de Siyyid Kázím-i-Rashtí, que a adquiriu diretamente de mim e a obteve dos imames, os quais aprenderam do Profeta, a quem Deus a havia dado... Ele é o único que me compreende!"

(26) "A Ascensão de Maomé ao Céu."

(27) O Báb se refere a esta passagem e a confirma no Dalá'il-i-Sab'ih: "São conhecidas as palavras do venerável Shaykh Ahmad-i Ahsá'í. Há nelas inumeráveis indicações referentes à Manifestação. Por exemplo, ele escreveu de seu próprio punho à Siyyid Kázím-i-Rashtí: "Do mesmo modo que para a construção de uma casa se necessita de um terreno, assim deve-se apresentar o momento para esta Manifestação. Aqui, porém, não se pode responder fixando o momento exato. Logo será conhecido de forma inequívoca". O que tu mesmo, tantas vezes, tens ouvido Siyyid Kázím dizer - não é isso uma explicação. Não repetia ele a cada instante: "Não desejam vocês que eu me vá e que Deus apareça?" (Lè livre des Sept Preuves, traduzido por A. L. M. Nicolas, p. 58). "Há também o episódio relativo a Shaykh Ahmad-í-Ahsá'í no caminho de Meca. Foi provado que esta história é autêntica e assim tem alguma coisa de verdadeiro nela. Discípulos do Shaykh relataram as conversas que tinham ouvido e entre eles se encontravam personagens como Mullá 'Abdu'l-Kháliq e Murtadá-Qulí. Mullá 'Abdu'l-Kháliq relatou que o Shaykh lhes disse certo dia: "Rezai para não estar no começo da Manifestação e do Retorno, porque haverá muitas guerras civis". E acrescentou: "Se algum de vocês viver todavia nesse tempo, verá coisas estranhas entre os anos 60 e 67. E que coisa estranha pode ser mais estranha que o próprio Ser da Manifestação. Tu lá estarás e verás uma coisa extraordinária: É que Deus para fazer vitoriosa esta Manifestação suscitará um Ser, o qual falará de si mesmo, sem ter aprendido jamais nada dos demais". (Id. p.p. 59-60.)

(28) De acordo com a observação de Abjad, o valor numérico da palavra Hín é 68. Foi no ano de 1268 A.H. que Bahá'u'lláh, enquanto se encontrava preso na "fossa negra" de Teerã, recebeu as primeiras manifestações da Sua Missão Divina.

(29) Faleceu em um lugar chamado Haddih, nas vizinhanças de Medina. (A. L. M. Nicolas Essai sur le Shaykhisme I, p. 60.)

(30) Seu corpo foi levado para Medina, onde foi sepultado no cemitério Baqí' atrás do muro da cúpula do Profeta, no lado sul, debaixo da goteira de Mihráb. Diz-se que ali está também o túmulo de Fátimih em frente ao Baytú'l-Hasan". (A. L. M. Nicolas Essai sur le Shaykhisme I, p.p. 60-61.) "A morte de Shaykh Ahmad pôs fim a luta durante alguns dias e as paixões pareciam aquietar-se. Por outro lado, foi nessa época que o Islã sofreu um golpe terrível, sendo quebrado seu poder. O imperador da Rússia venceu as nações muçulmanas e a maioria das províncias habitadas por pessoas dessa religião caíram nas mãos do exército moscovita". (A. L. M. Nicolas Essai sur le Shaykhisme, II, p. 51). "Por outro lado, se pensava que, com a morte de Shaykh Ahmad, sua doutrina desapareceria com ele, para sempre, e a paz durou por um período de quase dois anos. Porém, os muçulmanos voltaram logo aos seus primeiros sentimentos quando viram que a luz da doutrina do falecido mestre resplandecia sobre o mundo graças a Siyyid Kázím-i-Rashtí, o melhor e mais fiel discípulo de Shaykh Ahmad e seu sucessor". (Id, p. 5-6.)

CAPÍTULO II

(1) Ele foi o primeiro a crer no Báb, que lhe deu esse título.

(2) "Os madrisihs ou colégios persas encontram-se totalmente nas mãos do clero e existem vários deles em todas grandes cidades. Geralmente são formados de um grande pátio rodeado por prédios que possuem quartos para os estudantes e professores, com uma porta independente; freqüentemente tem um jardim com um chafariz no centro do pátio... Muitos dos madrisihs foram fundados e subvencionados por reis ou por pessoas filantrópicas." (C. R. Markham A General Sketch of the History of Persia, p. 365)

(3) Uma vestimenta solta, que se parece com uma capa, feita geralmente de pele de camelo.

(4) Equivalente a mais ou menos cem dólares, soma considerável naqueles tempos.

(5) Alcorão, 76:9.

(6) O Báb no Dalá'il-i-Sabeih, refere-se a Mullá Husayn nestes termos: "Tu sabes que foi ele o primeiro a confessar esta Fé; Tu sabes que a maior parte dos doutores Shaykhí, Siyyidíyyih e de outras seitas admiravam sua ciência e seu talento. Quando entrou em Isfáhán, os moleques da cidade gritaram ao vê-lo passar: "Vejam! Um estudante esfarrapado acaba de chegar!" No entanto, este homem mediante suas provas e argumentos convenceu a um siyyid de sabedoria reconhecida como Muhammad-Báqir!, na verdade esta é uma das provas desta Manifestação, pois, após a morte do Siyyid, esta personagem foi ver a maioria dos doutores do Islã e não encontrou a verdade, mas o Mestre da Verdade; assim, alcançou o destino que lhe havia sido predestinado. Na verdade, as criaturas do começo e do fim desta Manifestação o invejam e o invejarão até o dia do Juízo! Quem, pois, pode acusar a este mestre da inteligência de ser débil mental ou imprudente?" (Le livre des Sept Preuves, traduzido por A. L. M. Nicolas, p. 54.)

(7) Em relação a isto, o Báb revelou o seguinte no Dalá'il-i-Sábeih: O que ele dizia desde a sua última viagem, que tu mesmo tens ouvido, não se conta já? E a história de Mírzá Muhammad-i-Akhbárí que foi relatada por 'Abdul Husayn-i-Shushtarí? Mirzá Muhammad-i-Akhbárí perguntou certa vez, quando estava em Kázimayn, ao venerável Siyyid quando se manifestaria o Imame? O Siyyid percorreu a platéia com o olhar e lhe disse: "E quanto a ti, tu o verás!' Mullá Muhammad-Taquíy-Haraví relatava também esta história em Isfáhán! (Le livre des Sept Preuves, traduzido por A. L. M. Nicolas, p. 58.)

(8) Veja nota no começo do livro: Características Distintivas do Islã Xiita.

(9) Parece haver provas concludentes de que Siyyid Kázím se referia amiúde, no fim da sua vida, à Divina Manifestação, que ele acreditava estar muito próxima. Dizia: "Eu a vejo como o sol ao nascer". (Dr. T. K. Cheyne The Reconciliation of Races and Religions, p. 19.)

(10) Alcorão, 76:21.
(11) Um juiz é a trigésima parte do Alcorão.
(12) É o nono dia do mês de Dhí'l-Hijjih.
(13) 5 de outubro de 1851 A.D.

(14) O capítulo 2 da obra de A. L. M. Nicolas, Essai sur le Shaykhisme, II, está dedicado por completo a uma detalhada enumeração das 135 obras escritas por Siyyid Kázim. Entre elas se destacam por seu interesse as seguintes:

a) Sharh-i-Khubiy-i-Tutunjíyyih.
b) Sharh-i-Qasídih.
c) Tafsírih Áyatú'l-Kursi.
d) Dar Asrár-i-Shihádat-i-Imám Husayn.
e) Cosmografia.
f) Dalílu'l-Mutahayyirín.

Diz-se que suas obras excedem à trezentos volumes (A Traveller's Narrative. E. p.238)

(15) "Dhikr" significa "menção", "lembrança".

(16) A. L. M. Nicolas cita, no capítulo 3 de seu Essai sur le Shaikhisme, II, p. 43, o seguinte extrato do Sharh-i-Qasídih de Siyyid Kázim: "Tenho dito que em cada período de cem anos há alguns escolhidos para difundir e semear os preceitos que explicam o que é lícito ou ilícito, que falam as coisas que estavam ocultas nos cem anos precedentes. Em outras palavras: A cada cem anos aparece uma pessoa sábia e perfeita que tornará verdejante e florida a árvore da lei religiosa, que regenerará seu tronco a tal ponto que finalmente o livro da Criação chegará a seu fim, num período de mil e duzentos anos. Neste momento aparecerá certo número de homens perfeitos que manifestarão certas coisas muito íntimas que se encontravam ocultas. Então, quando terminarem os mil e duzentos anos, já terminado o primeiro ciclo que dependia da aparição do Sol do Profeta, e da Lua do Viláyat chegam ao seu fim as influências deste ciclo e começa um segundo ciclo, para a explicação dos preceitos íntimos e dos segredos ocultos". Ele próprio acrescenta as seguintes palavras: "Dito de outra maneira, e a fim de tornar ainda mais clara esta linguagem surpreendente, que, na verdade, não necessita explicação, Siyyid Kázim nos diz que o primeiro ciclo que dura mil e duzentos anos é somente para educar os corpos e os espíritos que dependem desses corpos. É como uma criança no ventre materno. O segundo ciclo é para a educação dos espíritos puros, das almas que não têm nenhuma relação com o mundo material. É como se Deus quisesse elevar os espíritos mediante o dever neste mundo. Portanto, quando o primeiro ciclo chega ao fim, quando brilhou o nome de Maomé, começa o ciclo da educação das intimidades. Neste ciclo as formas exteriores obedecem às interiores, enquanto no período precedente as formas internas eram submissas às externas. Logo, neste segundo ciclo o nome celestial do Profeta, que é Ahmad, é o Brilho, o Mestre: "Porém este nome deve forçosamente encontrar-se na melhor das terras, no mais puro dos ares". Nicolas acrescenta ainda: "O nome Ahmad poderia fazer crer que aqui se referisse a Shaykh Ahmad. Porém, apesar disso, não se pode falar que Ahsá é a melhor das terras. Sabe-se, por outro lado, que todos os poetas persas cantam em prosa e verso as maravilhas de Shíráz e seu clima ideal".

(17) Irmão do Imame Husayn.
(18) Alcorão, 11:81

(19) A. L. M. Nicolas em seu Essai sur le Shaikhisme, II, pp. 29-30, descreve o acontecimento: "Foi no ano de 1258 (1842) que isso sucedeu, no dia da festa do Qadr. Os Exércitos de Bagdá, sob o comando de Najíb Páshá, se apoderaram de Karbilá, cujos habitantes massacraram, saqueando as ricas mesquitas. Cerca de nove mil pessoas foram mortas e a maioria delas era persa. Muhammad Sháh estava muito doente quando isso aconteceu e, assim, os altos funcionários do governo lhe ocultaram o fato.

"Quando o xá, posteriormente, tomou conhecimento, possuído de grande cólera, jurou uma vingança terrível. Porém, os representantes da Rússia e da Inglaterra intervieram para acalmar os ânimos. Finalmente, Mirzá Ja'far Khán Mushíru'd-Dawlih, voltando de sua embaixada em Constantinopla, foi enviado para Erzeroum afim de encontrar-se com os representantes ingleses, russos e otomanos.

"Quando chegou a Tabríz, o plenipotenciário persa ficou deonte. Hájí Mirzá Áqásí nomeou então como representante Mirzá Taqí Khán-Faráhaní Vázir Nizám: este se dirigiu à Erzeroum com duzentos oficiais.

"O representante turco era Anvar Effendi, que se mostrou muito cortês e conciliatório; porém, um dos homens de Amír Nizám cometeu um ato que significava um atentado à religião sunita; a população se lançou contra o acampamento do embaixador, dois ou três persas foram mortos, tudo foi saqueado e Amír Nizám teve a sua vida salva graças à intervenção de Badrí Pashá.

"O governo turco apresentou desculpas e pagou quinze mil túmáns por danos e prejuízos.

"No seu livro Hidáyatu't-Tálibín, Karím Khán escreve que durante o saque a Karbilá as tropas vitoriosas respeitaram as casas dos Shaykhís. Todos os que buscaram refúgio ali se salvaram, acumulando-se nessas Kázim foi morto, enquanto os refugiados nos túmulos sagrados foram massacrados sem piedade. Diz-se que o Páshá entrou a cavalo no recinto sagrado."

(20) 10 de janeiro de 1843 A.D.

(21) A. L. M. Nicolas em seu Essai sur le Shaikhisme, II, pp. 60-61, cita o seguinte parágrafo dos escritos de Siyyid Kázím: "Tu já compreendeste, penso, que a Lei religiosa e os preceitos da moral são o alimento do Espírito. É portanto obrigatório que estas leis religiosas sejam diversas: é necessário que algumas vezes as ordens do passado sejam anuladas, é necessário que estejam formadas de coisas duvidosas e coisas certas, de generalidade e de pontos de vista particulares, de verdades absolutas e de verdades finitas, de verdades aparentes e íntimas, para que a criança chegue até a adolescência e seja perfeita em seu poder e sua capacidade.

"É nesse momento que deve aparecer o Qá'im e, depois da sua manifestação, deve-se cumprir o tempo da sua vida e deve ser morto; e quando for morto o mundo terá atingido os dezoito anos de idade".

(22) Segundo Samandár (p. 32), Shaykh Abú-Turáb era de Ishtihárd e figurava entre os principais discípulos de Siyyid Kázim. Casou com a irmã de Mullá Husayn. Morreu no cárcere de Teerã.

(23) "O Báb escreveu a Hájí Muhammad Karím Khán conclamando-o a reconhecer sua autoridade. Este não só recusou fazê-lo como também escreveu um tratado contra o Báb e suas doutrinas." Pelo menos um dos tratados similares foi escrito por Hájí Muhammad Karím Khán. Um deles foi redigido em data posterior a esta, possivelmente depois da morte do Báb, pedido especialmente por Násiri'd-Din Sháh. Destes dois tratados, um foi impresso e tinha o título de "A Aniquilação da Falsidade". (Izháqu'l-Bátil) (nota no. I, p. 910 - Journal of the Royal Asiatic Society, 1889, art. 12.)

(24) Alcorão, 39:68.

(25) Referências ao Báb e a Bahá'u'lláh, respectivamente.

(26) Os túmulos dos Kázím, o sétimo Imame, Músá Kázím, e o nono Imame, Muhammad Taqí, encontram-se a mais ou menos três milhas ao norte de Bagdá. Ao redor deles cresceu uma grande cidade, habitada principalmente por persas, que a chamaram de "Kázimayn".

(27) 23 de novembro - 23 de dezembro de 1843 A. D.

(28) 31 de dezembro de 1843 A. D.

(29) "Karím Khán, que com referência à tomada de Karbilá, insiste sobre o respeito que os assaltantes mostraram aos Shaykhís e a Siyyid Kázím-i-Rashtí não hesita em declarar que é muito provável que Siyyid Kázím tenha sido envenenado em Bagdá pelo infame Najib Pashá, o qual teria lhe dado para beber uma poção cuja absorção lhe provocou uma intensa sede e logo depois ele faleceu." É assim que os persas escrevem a história! (A. L. M. Nicolas, Essai sur le Shaikhisme, II, pp. 30-31.)

(30) "Foi sepultado atrás da janela do corredor do túmulo do Senhor dos Confessores. Este túmulo foi escavado muito profundo, com inclinação na sua base, para o interior do recinto proibido." (Idem, p. 31.)

(31) "Durante a vida de Siyyid Kázím, a doutrina dos Shaykhís se difundiu por toda a Pérsia. Só na província do Iraque havia mais de cem mil muríds. (Journal Asiatique, 1886, tomo 7, p. 463).

(32) "Aqui termina a história do estabelecimento do shaykhismo, ou, pelo menos da sua unidade. Após a morte de Siyyid Kázim-i-Rasthí, o shaykhismo foi dividido em dois ramos: um ramo, sob o nome de Rabismo, desabrochou como parecia prometer a força do movimento criado por Shaykh Ahmad, cumprindo as expectativas dos dois mestres, caso se possa acreditar em suas predições; o outro, sob a direção de Karím Khán Qajár-i-Kirmání continuou suas lutas contra o elemento xiita, porém procurou sempre segurança afetando a aparência exterior de um perfeito Ithná-Asharismo. Se para Karím Khán, o Báb e seus seguidores são ímpios infames, para os babís, Karím Khán é o anti-Cristo ou Dajjál predito por Maomé". (A. L. M. Nicolas, Essai sur le Shaikhisme, II, pp. 31.)

CAPÍTULO III

(1) "Mullá Husayn-i-Bushrú'í era um homem cuja grande erudição e força de caráter eram reconhecidas até pelos adversários. Dedicou-se aos estudos desde sua infância e fez tamanho progresso em Teologia e Jurisprudência que era tido em grane consideração." (Conde de Gobineau, Les Religions et les Philosophies dans l'Asie Centrale, p. 128).

(2) 22 de janeiro de 1844 A.D.
(3) Alcorão, 29:69.
(4) Alcorão, 15:46.
(5) Recipiente para chá.

(6) Corresponde ao entardecer do dia 22 de maio de 1844 A.D. O dia 23 de maio caiu numa quinta-feira.

(7) Diz-se que Mullá Husayn relatava o seguinte: "Certo dia, quando estava só com Siyyid (Kázím) em sua biblioteca, lhe perguntei por que se dava o título "A Melhor das Histórias" ao Súriy-i-Yúsuf no Alcorão, respondendo ele que não era esse o momento apropriado para explicar a razão. Este incidente permaneceu oculto em minha mente e tampouco o mencionei à alguém." (El Tárikh-i-Jadíd, p. 39.)

(8) A data da Manifestação se fixa na seguinte passagem no Bayán Persa (Váhid 2, Báb, 7): "Seu começo foi quando duas horas e onze minutos haviam se passado do entardecer do quinto dia de Jamádíyu'l-Úlá, 1260 (A.H.), que é o ano 1270 da missão de Maomé". (Extraído de uma cópia manuscrita do Bayán feita pela pena de Siyyid Husayn, escritor e amigo do Báb.)

(9) A. L. M. Nicolas cita o seguinte do Kitábu'l-Haramayn: "Na verdade, o primeiro dia que o Espírito descendeu no coração deste escravo foi no dia 15 do mês de Rabí'u'l-Avval". (A. L. M. Nicolas, Siyyid 'Alí-Muhammad dit le Báb, p. 206.)

(10) Citações do Alcorão.
(11) O comentário do Báb sobre a Sura de José.

(12) "No primeiro desses livros ele era especialmente piedoso e místico; no segundo, a polêmica e a dialética, tinham uma parte importante e os ouvintes notavam com assombro que ele descobria, no capítulo do Livro de Deus que ele havia selecionado, significados novos que ninguém havia conhecido até então e que deles ele extraía doutrinas e ensinamentos completamente inesperados. O que não cansavam de admirar era a elegância e a beleza do estilo árabe utilizado em suas composições, as quais tinham em breve exaltados admiradores que não receavam preferi-las às mais belas passagens do Alcorão." (Conde de Gobineau Les Religions et les Philosophies dans l'Asie Centrale, p. 120).

(13) Alcorão, 37:180.

(14) "É relatado no Biháru'l-Anvár o 'Aválim e o Yanbú de Sádiq, filho de Maomé, que disse as seguintes palavras: "O conhecimento são vinte e sete letras. Tudo o que os Profetas revelaram são duas letras. Ninguém, até agora, conheceu algo mais do que estas duas letras. Porém quando se levantar o Qá'ím, Ele fará que se manifestem as vinte e cinco restantes." Considera: "Ele declarou que o conhecimento consiste em vinte e sete letras e que todos os Profetas, desde Adão até o Selo, só revelaram duas destas letras. Diz também que o Qá'ím revelará as vinte e cinco letras restantes. Veja quão grande e exaltado é o Seu advento de acordo com estas palavras. Seu aparecimento ultrapassa o de todos os Profetas e Sua Revelação transcende a compreensão e o entendimento de todos os seus eleitos". (Kitáb-i-Íqán, p. 148.)

(15) "Considere o início da manifestação do Bayán: Durante quarenta dias ninguém senão uma letra acreditou no Báb. Foi pouco a pouco que as letras de Bismi'lláhu'l-Amnátu'u'-Aqdas se revestiram com o manto da Fé até que foi completada a Unidade Primitiva. Veja como depois se multiplicou até o dia de hoje." (O Bayán Persan, vol. 4, p. 119.)

(16) O pai de Quddús, de acordo com o Kashfú'l-Ghitá, faleceu vários anos ante da Manifestação do Báb. Quando morreu seu pai, Quddús era jovem e estudava no colégio de Mirzá Ja'far em Mashhad (p. 227, nota I.)

(17) É conhecido também pelos seguintes nomes:
Siyyd-i-Dhikr Niqtiy-i-Ulá Rabbi-i-A'lá
'Abdu'dh-Dhikr Tal'at-i-A'lá Nuqtiy-i-Bayán
Bábu'lláh Hadrat-i-A'lá Siyyid-i-Báb
(18) 20 de outubro de 1819 A. D.

(19) Segundo Mírzá Abú'l-Fadl (manuscrito sobre a história da Causa, p. 3), o Báb era ainda de colo quando faleceu seu pai.

(20) Segundo Mírzá Abú'l-Fadl (Manuscrito, p. 41), o Báb tinha seis ou sete anos quando entrou para a escola de Shaykh Ábíd. O colégio chamava-se Qahviyih-Awlíyá. O Báb permaneceu cinco anos nessa escola onde aprendeu os rudimentos do persa. No primeiro dia do mês de Rabí'u'l-Avval, no ano 1257 A.H., Ele foi à Najáf e Karbilá e sete meses mais tarde regressou à Sua província natal de Fárs.

(21) "Em nome de Deus, O Compassivo, O Misericordioso."

(22) "O Senhor da Época", um dos títulos do Qá'ím prometido.

(23) Segundo o relato de Hájí Mu'inu-Saltanih (p. 37) o Báb assumiu a direção independente de Seus negócios. "Órfão desde pequeno, ficou aos cuidados do Seu tio materno Áqá Siyyid 'Alí e, sob orientação deste, cuidou dos negócios de Seu pai, ou seja, comércio (A. L. M. Nicolas Siyyid Ali Muhammad dit le Báb, p. 189.)

(24) Segundo Hájí Mu'ínu's-Saltanih (p. 37), o Báb se casou aos vinte e dois anos de idade.

(25) O Báb se refere a ela em Seu comentário sobre a Sura de José (Sura de Qárábat). Aqui na tradução feita por A. L. M. Nicolas diz o texto: "Em verdade, fiquei noivo de Sara, a bem-amada, sobre o trono de Deus. Pois a bem-amada vem do Bem-Amado (o Bem-Amado é Maomé. Isso quer dizer que Sara era Siyyid). Em verdade, os anjos do Céu e os habitantes do Paraíso foram testemunhas de nosso noivado. Saiba que a benevolência do Dhikr Sublime é grande! Oh, Bem-Amada! Pois é uma benevolência que vem Deus, o Amado! Tu não és como nenhuma outra mulher, se obedeces a Deus na pessoa do Dhikr Sublime! Conhece tu a imensa verdade do Verbo Sublime e seja glorificada de estar sentada com o amigo que é o Amado de Deus, o Altíssimo. Certamente a glória te vem de Deus, o Sábio. Sê paciente nas ordens que procedem de Deus a respeito do Báb e sua família. E, em verdade, teu filho Ahmad tem um asilo no Paraíso bendito, perto da grande Fátimih". (Prefácio da obra de A. L. M. Nicolas Le Bayán Persan, vol. 2 pp. 10-11.) "A viúva do Báb viveu até o ano de 1300 A. H. (1882-83.)" (Journal of the Royal Asiatic Society, 1889, artigo 12, p. 993.) Ambos eram filhos de Mírzá Ali, que era o tio paterno da mãe do Báb. Mirzá Mus in e Mirzá Hádí eram, respectivamente, o filho e neto de Mirzá Siyyid Hasan e Mirzá Abu'l-Qásim, que chegaram a ser genros de 'Abdu'l-Bahá.

(26) O Báb se refere a Seu filho em Seu comentário na Sura de José. O que se segue é a tradução feita por A. L. M. Nicolas: "Em verdade teu filho Ahmad tem um asilo no Paraíso Bendito, perto da grande Fátimih". (Sura de Qárábat). "Glorificado seja Deus que em verdade, deu ao "Deleite dos Olhos", em sua juventude, uma criança chamada Ahmad. Em verdade, elevamos este menino até Deus". (Sura de 'Abd). (Prefácio da obra de A. L. M. Nicolas Le Bayán Persan vol. 2, p. V.)

(27) 1843 A. D.

(28) Deixo Shiráz e foi para Búshihr com dezessete anos, ali permanecendo por cinco anos, ocupado com seus negócios particulares. Durante esse tempo ganhou a estima de todos os comerciantes com quem teve contato devido a Sua integridade e piedade. Prestava muita atenção a suas obrigações religiosas e doava grandes somas de dinheiro com fins de caridade. Em certa ocasião deu cerca de setenta túmans (mais ou menos 22 libras) a um velho pobre. (Apêndice 2 da história escrita por Hájí Mirzá Jání: Táríkh-i-Jadíd, p.p. 343-40.)

(29) "Ele já era meditativo e bastante silencioso; apesar disso, sua figura formosa, o brilho intenso de seu olhar e sua atitude de modéstia e meditação atraíram desde então a atenção de seus concidadãos. Extremamente jovem, as questões religiosas o atraíam de forma irresistível, já que foi na idade de dezenove anos que escreveu sua primeira obra Risály-i-Fiqhíyyih, na qual revela a verdadeira piedade e uma efusão islâmica que pareciam lhe prognosticar um futuro brilhante dentro dos vínculos da ortodoxia xiita. É provável que esta obra tenha sido escrita em Búshihr, uma vez que foi mais ou menos entre dezoito e dezenove anos que ele foi enviado por seu tio a esta cidade para resolver assuntos de negócio. (A. L. M. Nicolas Siyyid Alí Muhammad dit le Báb p.p. 189-90.)

(30) Na sociedade, se encontrava muito a gosto entre os eruditos ou escutava os relatos dos viajantes que chegavam a esta cidade mercantil; sendo, por isso, geralmente considerado um dos seguidores de Taríquát, os quais eram muito respeitadas pelo povo. Journal Asiatique, 1866, tomo 7, p. 335.)

(31) O Kasfu'l-Ghita dá os seguintes detalhes sobre essa pessoa extraordinária: "Hájí Siyyid Javád mesmo me informou que morava em Karbilá, que seus primos eram bem conhecidos entre os ulemás e doutores religiosos, reconhecidos nesta cidade, e pertenciam à seita Ithná-Ashrí do Islã xiita. Em sua juventude conheceu o Shaykh Ahmad-i-Ahsá'í, porém nunca foi considerado como seu discípulo. No entanto, foi defensor de Siyyid Kázím e figurava entre seus principais seguidores. Conheceu o Báb em Shiráz muito antes da data da Sua manifestação, quando tinha oito ou nove anos, na casa de seu tio materno. Posteriormente, o encontrou em Búshihr e permaneceu durante seis meses no mesmo caravançarái que residiam o Báb e seu tio. Mullá Aliy-i-Bastámí, uma das Letras da Vida, lhe ensinou a Mensagem do Báb enquanto estava em Karbilá, cidade onde chegou proveniente de Shiráz com o objetivo de informar-se melhor sobre a natureza da sua revelação" (p.p. 55-7).

(32) "O Báb tinha um rosto suave e bondoso, seus modos eram dignos e serenos, sua eloqüência impressionante e escrevia bem e rapidamente." (Lady Sheil: Glimpses of Life and Manners in Persia p. 178).

(33) "Absorto em si mesmo, sempre ocupado com práticas piedosas, ele era de extrema simplicidade de modos e de atraente doçura, dons que sua extrema juventude e o maravilhoso encanto de sua figura realçavam, atraindo ao seu redor certo número de pessoas cultas. Começou-se, então, a falar de sua ciência e da penetrante eloqüência de seus discursos. Sempre que começava a falar, asseguram-nos aqueles que o conheciam, comovia a todos até o fundo do coração. Além disso, se expressava com profunda veneração ao falar do Profeta, dos Imames e de seus santos companheiros, com o que encantava os severos ortodoxos, ao mesmo tempo que, em reuniões mais íntimas, os espíritos ardentes e inquietos se alegravam ao verificar que nele não havia rigidez ao professar opiniões consagradas, o que lhes pareceria um fardo. Ao contrário, sua conversação lhes abria todos os horizontes infinitos, variados, coloridos, misteriosos, sombrios e semeados aqui e acolá por uma luz resplandecente que transportava de júbilo a imaginação daquele povo." (Conde de Gobineau, Les Religions et les Philosophies dans l'Asie Centrale, p. 118.)

(34) Segundo Samandár, que foi um dos primeiros crentes em Qazvín (manuscrito, p. 15), a irmã de Táhirih, Mardíyyih, era a esposa de Mirzá Muhammad-Alí, que era uma das Letras da Vida e foi martirizado em Shaykh Tabarsí. Parece que Mardíyyih reconheceu e abraçou a Mensagem do Báb (p. 5). Mirzá Muhammad-Alí era filho de Hájí Mullá Abdu'l-Vahháb, ao qual o Báb escreveu uma carta enquanto estava nas vizinhanças de Qazvín.

(35) Segundo Memorials of the Faithful (pp. 291-8), Táhirih tinha dois filhos e uma filha, nenhum dos quais aceitou a verdade da Causa. Seus conhecimentos e distinções eram tais que seu pai, Hájí Mullá Sálih, expressava freqüentemente seu pesar nos seguintes termos: "Oxalá ela tivesse nascido homem porque honraria meu lugar e teria sido meu sucessor!" Ela conheceu os escritos de Shaykh Ahmad enquanto estava na casa de seu primo, Mullá Javád, quando tomou emprestado alguns livros de sua biblioteca e os levou para casa. Seu pai fez violentas críticas ao seu modo de agir e nas acaloradas discussões com ela denunciou e criticou os ensinamentos de Shaykh Ahmad. Táhirih recusou prestar atenção aos conselhos de seu pai e manteve correspondência secreta com Siyyid Kázím, que lhe conferiu o título "Qurratu'l-Ayn". O título Táhirih se associou pela primeira vez com seu nome enquanto estava em Badasht e foi aprovado posteriormente pelo Báb. De Qazvín ela foi a Karbilá com a esperança de conhecer Siyyid Kázím, porém, chegou tarde demais já que ele havia falecido dez dias antes. Juntou-se, então, aos seguidores dele e passou seu tempo em oração e meditação aguardando ansiosamente Àquele cujo advento Siyyid Kázím havia predito. Enquanto estava naquela cidade ela teve um sonho. Um jovem, um Siyyid, que vestia uma capa negra e um turbante verde, apareceu no céu e com as mãos elevadas recitava certos versículos, um dos quais ela anotou em seu livro. Despertou muito impressionada com o sonho que havia tido. Quando, posteriormente, chegou às suas mãos uma cópia do 'Ahsanu'l-Qisas' o comentário do Báb sobre a Sura de José, para grande alegria sua, verificou que era o mesmo versículo que havia ouvido em seu sonho. Essa descoberta lhe assegurou a verdade da Mensagem que o Báb proclamava. Ela se preocupou pessoalmente em traduzir o Ahsanu'l-Qisas para o persa, e fez o maior esforço possível para sua difusão e interpretação. Durante três meses sua casa ficou vigiada pelos guardas que o governador designou para impedir que ela se associasse ao povo. De Karbilá ela foi a Bagdá e viveu por algum tempo na casa de Shaykh Muhammad-i-Shibl, de onde mudou sua residência para outro lugar e finalmente foi levada à casa de Mutfí, onde permaneceu por mais ou menos três meses.

(36) Segundo o Kashfu'l-Ghitá (p. 93), Táhirih soube da Mensagem do Báb por Mullá Alíy-i-Bastamí, quando ele visitou Karbilá no ano de 1260 A.H., depois de seu regresso de Shíráz.

(37) Uma das famílias mais destacadas de Qazvín, tanto pelos altos postos que seus membros ocupavam dentro da hierarquia eclesiástica como pela reputação de conhecimento, era, sem dúvida, a família de Hájí Mullá Sálih-i-Baraqáni. Ele tinha um irmão chamado Mullá Muhammad-Taqíy-i-Baraqáni que recebeu, depois da sua morte, o título de "Shahíd-i-Thálith", ou seja, terceiro mártir. Voltaremos algum tempo atrás na história deles para melhor compreender o papel que tiveram nas dissensões religiosas na Pérsia, assim como a catástrofe que adviria fatalmente pelo caráter altivo e orgulhoso do irmão de Mullá Sálih. Quando o grande Mujtahid Ágá Siyyid Muhammad chegou a Qazvín, alguém lhe pergunto se Hájí Mullá Sálih-i-Baraqáni era um Mujtahid. "Claro", respondeu o Siyyid, já que Sálih havia sido um de seus antigos alunos, o qual mais tarde havia seguido as lições de Áqá Siyyid Alí. "Muito bem", respondeu seu interlocutor, "porém seu irmão Muhammad-Taqí também é digno desse título sagrado?" Áqá Siyyid Muhammad respondeu falando das qualidades e conhecimentos de Taqí, mas evitando dar uma resposta precisa à pergunta que havia sido feita. Isso, entretanto, não impediu que seu interlocutor difundisse na cidade a notícia de que Siyyid Muhammad em pessoa reconhecia o domínio de Taqí, que havia sido declarado um Mujtahid em sua presença. Siyyid Muhammad foi viver na casa de um de seus colegas, Hájí Mullá Abdu'l-Vahháb: este, sabendo da notícia que corria na cidade, chamou à sua casa o interlocutor de Siyyid e o repreendeu rudemente na presença de testemunhas. Naturalmente, o clamor desta intervenção, aumentado de boca em boca, chegou aos ouvidos de Taqí, que, furioso, se limitava a dizer, cada vez que ouvi ao nome de Mullá Abdu'l-Vahháb: "Só o respeito porque é filho de meu querido mestre". Siyyid Muhammad, ao saber destes incidentes e rumores e, compreendendo que havia consternado a alma de Taqí, o convidou um dia a almoçar, o tratou com muita distinção, expediu seu certificado de Mujtahid e, no mesmo dia, o acompanhou até a mesquita e, depois da oração, ocupou o púlpito, donde fez um elogio à Taqí, e, em plena assembléia, o confirmou em sua nova dignidade. Pouco depois passou por Qazvín Shaykh Ahmad-i-Ahsá'í. Ele, disse o piedoso autor do Qisasú'l-Ulamá, foi declarado ímpio porque quis aproximar a filosofia da lei religiosa, "e todo mundo sabe que na maioria dos casos é impossível misturar a inteligência com a lei religiosa". Seja como for, Shaykh Ahmad se destacou muito entre seus contemporâneos e muitos homens foram partidários da sua opinião. Tinha seguidores em todas as cidades persas e o xá Fath-Alí o tratava com muita consideração, apesar de Ákhúnd Mullá Ali ter dito dele, segundo parece: "É um ignorante com o coração puro". Ao passar por Qazvín, foi viver na casa de Mullá Abdu'l-Vahháb, o inimigo da família Baraqání. Ele ia orar na mesquita paroquial e todos os ulemás de Qazvín vinham orar sob sua direção. Naturalmente, ele retribuiu a essas santas pessoas todas as visitas e todas as atenções que havia recebido delas: estava muito bem com todas elas e logo não era mistério para ninguém que seu hóspede era um de seus discípulos. Certo dia ele foi a casa de Hájí Mullá Taqíy-i-Baraqání, que o recebeu aparentemente com o mais profundo respeito, porém aproveitou da sua presença para fazer algumas perguntas insidiosas. "No que se refere à ressurreição dos mortos no dia do juízo", perguntou: "Você tem a mesma opinião de Mullá Sadrá?". "Não", disse Shaykh Ahmad. Então Taqí, dirigindo-se ao seu irmão menor Hájí Mullá Alí: "Vá a minha biblioteca", disse-lhe, "e traga-me o Shaváhid-i-Rububiyyih de Mullá Sadrá". Como Hájí Mullá demorava a voltar, disse: "Não discuto com você sobre esse assunto; porém, sinto curiosidade em saber sua opinião sobre esse tema". O Shaykh respondeu: "Não há nada mais fácil, Minha opinião é de que a ressurreição não ocorrerá com nosso corpo material, mas sim com sua essência: eu chamo essência, por exemplo, o vidro que se encontra em potencial na pedra". "Perdoa-me", respondeu maliciosamente Taqí, "pelo que você diz, essência é algo diferente do corpo material e você sabe que é um dogma, em nossa santa religião, a crença na ressurreição deste corpo material em si." Naturalmente o Shaykh ficou embaraçado e foi em vão que um de seus alunos, natural do Turquestão, quisesse desviar a conversa iniciando uma discussão que ameaçava se prolongar; o golpe já havia sido dado e Shaykh Ahmad retirou-se convencido de que havia se comprometido. Não tardou a perceber que sua conversa havia sido cuidadosamente espalhada por Taqí, já que no mesmo dia foi orar na mesquita e foi acompanhado somente por Abdu'l-Vahháb. A situação ameaçava piorar e Abdu'l-Vahháb acreditou ter encontrado um meio de sanar todas as dificuldades ao suplicar ao seu mestre que escrevesse e publicasse um tratado que confirmasse a ressurreição do corpo material. Ele não tinha contado com o ódio de Taqí. Assim, Shaykh Ahmad escreveu esse tratado que se encontra no volume intitulado "Ajv'batu'l-Masá'il"; porém ninguém tomou conhecimento dele e o clamor da sua impiedade crescia dia após dia. Chegou a tal ponto que o governador da cidade, o príncipe Alí-Naqí Mirzá Ruknú'd-Dawlih, considerando a importância das pessoas implicadas na luta e temendo que o acusassem de haver permitido germinar a discórdia, resolveu tentar uma reconciliação. Certa noite convidou para um grande jantar todos os ulemás ilustres da cidade. Shaykh Ahmad tinha o primeiro lugar e, perto dele, separado apenas por uma pessoa, estava sentado Taqí. Foram trazidas bandejas preparadas para três pessoas, de modo que os dois inimigos se encontrassem na obrigação de comer juntos. Porém Taqí, irredutível, virou-se para a bandeja dos vizinhos da direita, e, para o escândalo do príncipe, colocou a mão esquerda tampando a face esquerda, de forma que o seu olhar não se cruzasse, mesmo que involuntariamente, com o de Shaykh Ahmad. Depois da refeição, que foi bastante triste, o príncipe, persistindo em sua idéia de reconciliar os dois adversários, fez um grande elogio à Shaykh Ahmad, dizendo que ele era o maior entre os doutores árabes e persas, e que Tarqí deveria mostrar-lhe o maior respeito e que não ficava bem a ele dar ouvidos a falatórios de pessoas que apenas queriam provocar discórdia entre duas inteligências privilegiadas. Foi violentamente interrompido por Taqí, que declarou em tom depreciativo: "Não pode haver paz alguma entre a impiedade e a fé: o Shaykh afirma, no que se refere à ressurreição, uma doutrina contrária a lei islâmica. Ora, qualquer um que compartilhar desta doutrina é um ímpio. Que pode haver de comum entre um rebelde e eu?". Por mais que o príncipe insistisse, rogasse, Taqí não quis ceder, e a reunião terminou. (A. L. M. Nicolas Siyyid Alí-Muhammad dit le Báb, p.p. 263-7.)

(38) Terceiro Mártir.

(39) 'Mullá Salí tinha, entre seus filhos, uma filha, Zarrín-Taj (coroa de ouro), que atraia para si a atenção de todos desde a sua mais tenra idade. Ao invés de dedicar-se, como suas amigas, a jogos e entretenimentos, passava horas inteiras escutando as conversações dogmáticas de seus pais. Sua aguçada inteligência assimilou rapidamente as falhas na ciência islâmica sem se confundir, e logo se sentia capaz de discutir os pontos mais obscuros e confusos. As tradições (hadís) não tinham segredos para ela. Sua reputação difundiu-se por toda a cidade, e todos a consideravam, com justiça, um prodígio. Prodígio não só de conhecimentos como também de beleza, já que ao crescer a criança se tinha transformado numa jovem cujo rosto resplandecia uma beleza tão radiante que lhe haviam dado o apelido de Qurratu'l-Ayn - que o conde de Gobineau traduz como "o consolo para os olhos". Seu irmão, Abdu'l-Vahháb-i-Qazviní, que havia herdado a erudição e a reputação de seu pai, relatava o seguinte, embora fosse muçulmano, pelo menos aparentemente: "Todos nós, seus irmãos, seus primos, não ousávamos falar em sua presença porque sua erudição nos intimidava demais, e, caso nos aventurássemos a expressar uma hipótese sobre um ponto controverso da doutrina, ela nos demonstrava de forma tão clara, tão precisa e tão determinada que estávamos num caminho errado que nós nos retirávamos completamente confusos". Ela assistia aos cursos de seu pai e de seu tio na mesma sala que duzentos ou trezentos estudantes, porém escondida atrás de uma cortina e em mais de uma ocasião refutava as explicações dadas por esses dois anciões sobre este ou aquele tema. Alcançou imensa reputação na Pérsia erudita, e os mais altivos ulemás consentiram em adotar algumas de suas hipóteses ou opiniões. O feito é tanto mais notável porque a religião muçulmana xiita relegou a mulher quase ao nível do animal: a mulher não tem alma e só existe para a reprodução. Ela se casou, ainda muito jovem, com o filho de seu tio. Muhammad-i-Qazviní, que era Imame Jum'ih da cidade e foi mais tarde a Karbilá, onde assistiu às classes de Siyyid Kázím-i-Rashtí. Ela compartilhou apaixonadamente das idéias de seu mestre, idéias que ela conhecia, já que Qazvín havia chegado a ser um centro das doutrinas Shaykhís. Ela era, como veremos mais tarde, de temperamento ardente e possuía uma inteligência precisa e lúcida, um sangue-frio maravilhoso e uma coragem indomável. Todas estas qualidades fizeram-na interessar-se pelo Báb, de quem ouviu falar após seu regresso à Qazvín. O que ela aprendeu interessou-a tão vivamente que entrou em correspondência com o Reformador e, em breve convencida por ele, anunciou urbi et orbi a sua conversão. O escândalo foi enorme e o clero ficou consternado. Foi em vão que seu pai, seu marido e seus irmãos tentaram dissuadi-la dessa perigosa loucura; ela permaneceu inflexível e proclamou francamente a sua fé". (A. L. M. Nicolas Siyyid 'Alí-Muhammad dit le Báb, p.p. 273-4).

(40) "Este nome lhes foi dado", diz Hájí Karím Khán em seu Hidáyatu't-Tálibin, "desde que o finado Shaykh Ahmad - quando esteve em Karbilá, durante suas peregrinações aos sepulcros sagrados, e como sinal de respeito aos Imames - fazia suas orações permanecendo atrás do Imame, ou seja, aos seus pés. De fato, para ele não havia diferença entre o respeito que se devia ter a um imame morto ou vivo. Os persas ao contrário, entram na tumba e colocam-se por cima da cabeça do Imame e viram as costas quando oram, já que os santos mortos são sepultados com a cabeça virada para o Quiblih. Isto é uma vergonha e uma mentira! Os apóstolos de Jesus, pretendendo haver vindo em auxílio a Deus, foram chamados "Nasásá", nome que se deu a todos aqueles que seguiram suas pegadas. Assim, o nome Bálá-Sarí se refere a todos aqueles que oram colocando-se por cima da cabeça do Imame." (A. L. M. Nicolas Essai sur le Shaykhisme, I, prefácio, p.p. 5-6.)

(41) 1850-51 A.D.

(42) Segundo Muhammad-Mustafá (p. 106), Mullá 'Alí ficou seis meses encarcerado em Bagdá por ordem de Najíb Páshá, o governador da cidade. Dali foi mandado para Constantinopla, de acordo com as instruções recebidas do governo otomano. Passou por Mosul, onde pode despertar o interesse pela nova Revelação. No entanto, seus amigos não puderam descobrir se chegou finalmente a seu destino.

(43) O Alcorão.
(44) O Alcorão.
(45) O Alcorão.
(46) Um dos títulos do Báb.

(47) O Báb fez referência às Letras da Vida no Le Bayán Persan (Vahid I, Báb 2), nos seguintes termos: "Todas elas formam o nome do vivente, porque são os nomes mais próximos a Deus; todas as outras são guiadas por sua ação indicadora, porque Deus começou com eles a criação do Bayán, e é para eles que Deus fará regressar esta criação do Bayán. São luzes que eternamente se têm prosternado no passado e que se prosternarão eternamente no futuro ante o trono celestial." (Le Bayán Persan, vol. I, p.p. 24-5.)

(48) A. L. M. Nicolas, em sua introdução ao volume I do Le Bayán Persan (p.p. 3-5), escreve o seguinte: "Todos estão de acordo que lhe era completamente impossível proclamar em alta voz sua doutrina e difundi-la entre os homens. Ele teve de agir como um médico de crianças, que cobre o sabor de um remédio amargo com um revestimento açucarado para agradar a seus pequenos pacientes. E o povo no meio do qual Ele havia surgido era e é infelizmente ainda mais fanático que os judeus na época de Jesus, e não existia ali, como naquela época, a majestade da paz romana para evitar os furiosos excessos da loucura religiosa de um povo superexcitado. Portanto, se Cristo, apesar da tranqüilidade relativa do ambiente no qual pregava, achou por bem empregar parábolas, Siyyid 'Alí Muhammad, a fortiori, teve que disfarçar seus pensamentos com numerosos rodeios e não verter, senão gota à gota, o filtro de suas verdades divinas. Ele educa seu filho, a humanidade; o guia, tratando de não assustá-lo, conduz seus primeiros passos por um caminho que o levará gradualmente, porém com segurança, até que ele possa avançar sozinho, à meta que lhe foi predestinada desde toda a eternidade".

CAPÍTULO IV

(1) "As pessoas formavam grandes aglomerações para escutar o pregador. Ele ocupava, um atrás dos outros, todos os púlpitos de Isfáhán, onde fazia livremente o que havia sido proibido em Shiráz. Ele não temia dizer publicamente e anunciar que Mírzá 'Alí Muhammad era o décimo segundo imame, o Imame Mihdí; mostrava e lia os livros de seu Mestre, fazendo notar sua eloqüência e profundidade; ressaltando a extrema juventude do vidente, relatando seus milagres." (Conde de Gobineau Les Religions et les Philosophies dans l'Asie Centrale, p. 130).

(2) Vede a terra de Sád (Isfáhán) que é, neste mundo visível a maior das terras. Em cada rincão de suas escolas encontram-se escravos numerosos disfarçados com o nome de sábios e lutadores. No instante em que teve lugar a eleição dos seres humanos, um peneirador de trigo, se revestiu com o manto da primazia (sobre os demais). É aqui que se manifesta o segredo da palavra dos Imames sobre o tema da manifestação: "As mais baixas das criaturas se tornarão as mais elevadas, e as mais elevadas chegarão a ser as mais vis (Le Bayán Persan, vol. 4, p. 113.)

(3) Referência ao matrimônio de 'Abdu'l-Bahá com Munírih Khanúm.

(4) Gobineau menciona (p. 129) sobre Mullá Mamad Taqíy-i-Hahátí, como um consultor público jurídico muito conhecido, sendo um dos primeiros a ser convertido à Fé.

(5) A estada de Bushrú'í em Isfáhán foi um triunfo para o Báb. As conversões por ele realizadas foram numerosas e brilhantes, porém atraíram (assim são as coisas neste mundo) o ódio feroz do clero oficial, ante o qual teve de inclinar-se e abandonar a cidade. Com efeito, a conversão de Mullá Muhammad Taqíy-i-Harátí, jurisconsulto de primeira ordem, levou ao ápice a fúria do clero, ainda mais que este último, cheio de zelo, todos os dias, subia ao púlpito (mambar), de onde falava aos homens abertamente da grandeza do Báb, a quem atribuía o grau de Na'ib-i-Kháss do décimo segundo Imame." (A. L. M. Nicolas: Siyyid 'Alí Muhammad dit le Báb, p. 225.)

(6) De acordo com o "Kashfu'l-Ghitá" (p.p. 42-5), Hájí Mirzá Jání-i-Buzurg para distingui-lo de seu homônimo, que era também comerciante em Káshán, conhecido pelo nome de Hájí Mirzá Jáníy-i-Turk, o Kúchiq. O primeiro tinha três irmãos: o maior chamava-se Hájí Muhammad-Ismá'il-i-Dnabíh, o segundo Hájí Mírzá Ahmad, e o terceiro Hájí 'Alí-Akbar.

(7) "Permaneceu alguns dias nesta capital, porém não apareceu em público, limitando-se a ter, com às pessoas que o visitavam, entrevistas que poderiam ser consideradas confidenciais. Não parou de receber, no entanto, muitas pessoas e de conquistar para seus pontos de vista numerosos curiosos. Todos queriam vê-lo. O rei Muhammad Sháh e seu ministro, Hájí Mirzá Aqásí, como verdadeiros persas que eram, não deixaram de mandar chamá-lo à sua presença. Ele lhes expôs sua doutrina e lhes deu os livros do mestre." (Conde de Gobineau Les Religions et les Philosophies dans l'Asie Centrale, p. 131.)

(8) Segundo Samandár (manuscrito p. 2) Mullá Husayn, em sua viagem de Shiráz a Teerã no ano de 1260 A.H. era portador de uma carta do Báb para Muhammad Sháh.

(9) "Em certa ocasião", escreve o dr. J. E. Esslemont, "'Abdu'l-Bahá, o filho mais velho de Bahá'u'lláh, descreveu os seguintes detalhes da juventude de seu pai: "Desde menino foi muito bondoso e generoso. Amava a vida e o ar livre e passava a maior parte do seu tempo no jardim e no campo. Tinha um extraordinário poder de atração que todos sentiam. A gente sempre ficava ao redor dele. Os ministros e as pessoas da corte costumavam rodeá-lo e também as crianças sentiam devoção por ele. Quando tinha apenas treze ou catorze anos ficou famoso pela sua erudição... Quando Bahá'u'lláh tinha vinte e dois anos de idade, seu pai faleceu e o governo quis que ele o sucedesse no ministério, como era costume na Pérsia. Porém, Bahá'u'lláh não aceitou o cargo. Então, disse o primeiro-ministro: "Deixem-no! Um cargo como esse é indigno dele. Ele tem em vista alguma meta mais elevada. Não o compreendo, porém estou convencido de que está destinado para alguma carreira sublime. Seus pensamentos não são como os nossos. Deixem-no só!" Bahá'u'lláh and the New Era", p.p. 29-30).

(10) O chá e a variedade de açúcar mencionados eram muito escassos na Pérsia naquela época, ambas eram usados como presentes pelas classes mais elevadas da população.

CAPÍTULO V

(1) O kuláh chapéu feito de pele de carneiro, servia para distinguir os sacerdotes dos leigos, e sempre era usado pelos oficiais do Estado.

(2) "Sua oratória (de Bahá'u'lláh) era como uma "corrente impetuosa" e a clareza de seus argumentos fazia com que os sacerdotes mais eruditos se sentassem para escutá-lo." (Dr. T. K. Cheyne The Reconciliation of Races and Religions, p. 120).

CAPÍTULO VI

(1) O valor numérico da palavra váhid, que significa "unidade", é 19.

(2) O valor numérico da palavra Kull-i-Shay, que significa "todas as coisas", é 361, ou seja 19 x 19.

(3) O peregrina aproveitava, segundo seu costume, sua permanência, prolongando-a, se fosse necessário, em todas as aldeias e cidades, em seu caminho para fazer conferências, argumentar contra os mullás, difundir os livros do Báb e pregar suas doutrinas. Chamavam-no de todas as partes e esperavam-no com impaciência, procuravam-no por curiosidade, escutavam-no avidamente e acreditavam em suas palavras sem muita dificuldade. Foi principalmente em Níshápúr que teve duas importantes conversões, nas pessoas de Mullá Abdu'l-Kháliq, de Yazd e Mullá 'Alí, o Jovem. O primeiro desses doutores havia sido aluno de Shaykh Ahmad-i-Ahsá'í. Era uma pessoa célebre por sua eloqüência e sabedoria e por seu prestígio entre o povo. O outro, Shaykhí como o primeiro, de estritos princípios éticos e muito estimado, ocupava o alto cargo de mujtahid principal da cidade. Os dois se converteram em bábís ardentes e fizeram retumbar os púlpitos das mesquitas com suas pregações violentas contra o Islã. Durante algumas semanas parecia que a antiga religião havia sido completamente vencida. O clero, desmoralizado pela deserção de seu chefe, assustados por discursos públicos que o lisonjeava tão pouco, ou não ousava mostrar-se ou havia fugido. Quando Mullá Husayn-i-Bushrú'í chegou a Mashhad encontrou, de um lado a população agitava e dividida a seu respeito e, de outro, o clero, de sobreaviso, muito inquieto, exasperado e determinado a opor uma vigorosa resistência aos ataques dos quais iria ser alvo." (Conde de Gobineau Les Religions et les Philosophies dans l'Asie Centrale, p.p. 139-40).

(4) Corresponde à noite precedente a 10 de outubro de 1844 A.D.

(5) O Laylat-tu'l-Qadr, que significa literalmente "Noite do Poder", é uma das últimas dez noites do Ramadán e, de acordo com a crença popular, a sétima dessas noites contando para trás.

CAPÍTULO VII

(1) Segundo a narração de Hájí Mu'ínú's-Saltanih (p. 72) o Báb empreendeu Sua peregrinação a Meca e Medina no mês de Shavvál 1260 A.H. (Outubro de 1844 A.D.).

(2) "De sua viagem, ele guardou péssima impressão. 'Sabe' que as rotas marítimas são, penosas, e não as desejamos para nossos fiéis; viajai por terra escreveu Ele no Kitáb-i-Baynu'l-Haramayn, dirigindo-se a seu tio, como veremos adiante. Ele tratará novamente deste assunto no Bayán. Que ninguém pense que se trata de uma infantilidade: O sentimento que guia o Báb nesse horror do mar é o mais nobre e elevado. Assombrado pelo egoísmo dos peregrinos, egoísmo exasperado pelo tormento e os perigos de uma viagem por mar; assombrado igualmente pela imundície em que se viam obrigados a viver os viajantes a bordo, ele deseja evitar que os homens tenham a oportunidade de por em prática seus baixos instintos e de se maltratarem mutuamente. Sabe-se que o Apóstolo recomenda a polidez e a mais refinada cortesia nas relações sociais: "Não entristeçais a quem quer que seja, por qualquer motivo que seja". Durante esta viagem ele pode constatar a mesquinhez do homem e sua brutalidade quando se encontra diante de situações difíceis: "O que de mais triste vi na minha peregrinação à Meca foram as constantes disputas dos peregrinos entre si, disputas essas que tiravam todos os benefícios morais de sua peregrinação." (Bayán 4:16). Então, ele chegou a Mascate onde descansou alguns dias, durante os quais procurou converter o povo do país, sem no entanto, obter êxito. Ele se dirigiu a um deles, possivelmente um religioso que ocupava uma elevada posição, cuja conversão poderia ter levado à conversão de seus concidadãos - pelo menos, assim suponho, pois ele não nos dá nenhum detalhe sobre esse assunto - é evidente que não procurou converter ao primeiro que viesse a encontrar, e se o tivesse conseguido, este, provavelmente, não teria tido nenhuma influência sobre os demais habitantes da cidade. Que ele tentou uma conversão e não teve êxito é indiscutível, já que ele mesmo o afirma: "A Menção de Deus desceu, em verdade, sobre a terra de Mascate, e fez chegar a ordem de Deus a um de seus habitantes: talvez compreendesse nossos versículos e chegasse a ser daqueles que são guiados. Dize: este homem obedeceu a suas paixões depois de haver lido nossos versículos; Em verdade, este homem, de acordo com a ordem do Livro, é um dos transgressores. Dize: não vimos em Mascate gente do Livro que estivesse disposta a ajudá-lo, porque são dos ignorantes perdidos. E assim foi com todos aqueles que se encontravam no barco com exceção de um só que acreditou em nossos versículos e se tornou um daqueles que temem a Deus." (A. L. M. Nicolas: "Siyyid Alí Muhammad dit le Báb". Pp. 207-81).

(3) "É assim como eu mesmo vi na viagem à Meca, uma pessoa que acostumada a dar grandes somas de dinheiro vacilava em ter que dar um copo d'água a seu companheiro de viagem. Isto sucedia no barco, onde a água era escassa de modo que eu mesmo tive que me contentar com suco de limões doces, pois na viagem de Búshihr à Mascate que dura doze dias, não há condições de se fazer o reabastecimento de água." (Le Bayán Persan vol. 2, p. 154). "Não se pode imaginar sobre o mar nada que não seja uma tortura, não se pode ter todas as coisas necessárias como numa viagem por terra... As pessoas no mar se vêem forçadas (a viver) ali porém, por suas ações, elas aproximam-se mais de Deus e Deus recompensa as boas ações feitas tanto na terra quanto no mar, porém Ele duplica as recompensas das boas ações feitas no mar já que seu trabalho é mais doloroso". (id. p. 155-6). Eu vi, na rota à Meca, ações tão infames que aos olhos de Deus a boa ação que faziam (a de fazer peregrinação), fora em vão! Eram disputas entre peregrinos. Qualquer que seja o estado das coisas, disputas desta natureza são proibidas... Na verdade, a mansão de Deus não necessita de pessoas desta espécie. (Id. p. 155).

(4) O dia antes do festival.
(5) Dezembro de 1844 A. D.
(6) Versos do Alcorão.
(7) "A Epístola Entre os Dois Santuários".
(8) 1850-51 A.D.
(9) Julho de 1850 A. D.
(10) Sexta-feira, 10 de janeiro de 1845 A. D.
CAPÍTULO VIII

(1) Similar a um caravansarai (ver glossário - volume II).

(2) Literalmente significa "As Sete Qualificações".

(3) Ver glossário (volume II).
(4) Referente ao nome do Báb.

(5) Referente a Bahá'u'lláh. Ver glossário (volume II).

(6) Segundo o "Tárikh-Jadíd" (p. 204) também se chama "Nizámu'd-Dawlih".

(7) Uma das tribos de Túrán, uma família turca chamada Qájár, que pareceu pela primeira vez na Pérsia com o exército invasor de Changíz Khán. (C. R. Markham "A General Sketch of the History of Pérsia", p. 339).

(8) Segundo A. L. M. Nicolas em "Siyyid Alí Muhammad dit le Báb" (Nota no. 175, p. 225), esta reunião foi realizada em 6 de agosto de 1845 A. D.

(9) Segundo "A Traveller's Narrative" (p. 5), um tal Mullá Alí-Akbar-i-Ardistání sofreu junto com eles uma perseguição similar.

(10) Alcorão 3:193.

(11) Esta cidade havia sido cenário de apaixonadas discussões que transtornaram profundamente a paz geral. Os curiosos, os peregrinos, os aficcionados ao escândalo se encontravam ali para comentar as novidades, aprovando ou culpando, exaltando o jovem Siyyid ou ao contrário, cobrindo-o de maldições e injúrias: Todo mundo se excitava, se irritava, se transformava. Os Mullás observavam preocupados o aumento do número de seguidores da nova doutrina: sua clientela, e portanto suas entradas, diminuíam outro tanto. Deveriam colocar-se de prontidão, já que uma tolerância mais prolongada poderia esvaziar as mesquitas, pois, uma vez que se o Islã não se defendia, seus fiéis poderiam achar que reconheciam a derrota. Por outro lado, Husayn Khán Nizámu'd-Dawlih, governador de Shíráz, acreditava que se deixasse as coisas como estavam, o escândalo seria tanto que ficaria impossível reprimi-lo. Era arriscar cair em desgraça. Além disso, o Báb não se contentava em pregar: chamava para si os homens de boa vontade. "E aquele que conhece a palavra de Deus e não vem em seu socorro no momento da violência, é exatamente igual àquele que se afastou do testemunho de sua Santidade Husayn, filho de Alí, em Karbilá. Eles são os infiéis". (Kitáb-i-Baynu'l-Haramayn). Deste modo, pelos interesses civis, de comum acordo com os interesses do clero. Nizámu'd-Dawlih e Shaykh Abú-Turáb, o Imame Jum'ih, concordaram que era necessário infligir ao inovador uma vergonha que o desacreditasse aos olhos do povo. Podia ser que desse modo as coisas se acalmassem". (A. L. M. Nicolas, "Siyyid Alí Muhammad dit le Báb", p. 229-30).

(12) Alcorão 49:6.

(13) "Depois desta sessão pública provocada pela estupidez dos Mullás e que lhes atraiu numerosos partidários, profundos transtornos ocorreram em toda a Pérsia. O debate assumiu proporções graves de tal monta, que Muhammad Sháh enviou à Shíráz um homem em quem tinha absoluta confiança, para lhe enviar um relatório de tudo que vira e compreendera. Este homem era Siyyid Yahyáy-i-Dárábí". (A. L. M. Nicolas "Siyyid Alí Muhammad dit le Báb", p. 232-33).

(14) Março de 1845 A. D.
(15) 1850-51 A. D.

(16) "Seja como for a impressão causada em Shíráz foi tremenda e todas as pessoas ilustres e religiosas se apinhavam ao redor de Alí Muhammad. Quando aparecia na mesquita era rodeado por todos. Quando subia no palanque todos faziam silêncio para escutá-lo. Seus discursos públicos nunca eram um ataque profundo ao Islã e respeitavam a maioria das ramificações: no entanto eram discursos ousados e o clero não era lisonjeado; neles seus vícios eram cruelmente castigados. O destino triste e doloroso da humanidade era geralmente o tema e, vez por outra, havia algumas alusões sobre obscuridade irritava a apaixonada curiosidade de uns, enquanto que enchia de orgulho outros já total ou parcialmente iniciados, o que dava às suas pregações um sabor e mordacidade tais, que o público crescia mais a cada dia e fazia com que em toda a Pérsia se começasse a falar de Alí-Muhammad. Os Mullás de Shíráz não esperaram que se produzisse todo esse alvoroço para se unirem contra seu jovem difamador. Desde suas primeiras aparições em público mandavam os mais hábeis Mullás com o fim de argumentar contra ele e confundi-lo. Estes debates públicos que levavam à efeito já chegavam às mesquitas, aos colégios, na presença do governador, de chefes militares, do clero, do povo, enfim, de todo mundo ao invés de beneficiar os sacerdotes, não deixou de contribuir a difundir e exaltar as suas expensas o renome de Alí Muhammad. É indubitável que vencia seus contraditores; os condenou com o Alcorão na mão, o que não era muito difícil. Era para ele um jogo mostrar para a multidão, que os conheciam bem, até que ponto suas condutas, seus preceitos e ainda seus dogmas estavam em contradição flagrante com o Livro, de modo que eles não podiam rebater. Com ousadia e exaltação extraordinárias, denunciava, sem contemplação alguma, sem nenhuma preocupação com as convenções ordinárias, os vícios de seus antagonistas e, depois de lhes provar sua infidelidade com a doutrina que pregavam, desacreditava-os em suas vidas e os julgava na cara ou coroa com indignação ou o desprezo dos assistentes. O palco de Shíráz, estes começos de suas pregações causavam tão profunda emoção que os muçulmanos ortodoxos que as assistiram guardavam uma recordação indelével e não falavam dela senão com uma espécie de terror. Todos estavam de acordo que a eloqüência de Alí Muhammad era de natureza incomparável. Mal o jovem teólogo aparecia em público logo era cercado por um grupo numeroso de partidários. Sua casa vivia cheia. Não ensinava só nas mesquitas e colégios, ensinava também em sua casa, principalmente às tardes, retirado num quarto, para a nata de seus admiradores, que ele descobria ante seus olhos uma doutrina que todavia não estava totalmente resoluta para ele mesmo. Parecia que, no início, foi especialmente a parte polêmica que o preocupava mais que a dogmática e não havia nada mais natural. Em suas conferências secretas, suas ousadias, muito mais numerosas que em público, se faziam maiores a cada dia e tendiam em forma tão evidente a um transtorno completo do Islã que serviam muito bem como introdução a uma nova profissão de fé. A pequena congregação era ardente, ousada, arrebatada, fanatizada no verdadeiro sentido e no sentido elevado da palavra, que cada um de seus membros não considerava a si mesmo para nada e estava desejoso de sacrificar sangue e dinheiro pela causa da verdade." (Conde de Gobineau: "Les Religions et les Philosophies dans l'Asie Centrale", pp. 120-122). "O Báb começava agora a reunir um grupo de devotos aderentes. Parecia que se destacava por seus costumes sensíveis e atraente suavidade assim como seu porte de extraordinário encanto. As pessoas se sentiam impressionadas por seus conhecimentos e a penetrante eloqüência de suas palavras. Seus escritos ainda que parecessem de pouco brilho à Gobineau, no entanto eram muito admirados pelos persas devido a beleza e elegância de seu estilo e produziram sensação em Shíráz. Quando entrava numa mesquita se via rodeado e quando subia no púlpito se fazia silêncio." (Sir Francis Younghusband: "The Gleam", p. 194). "A moralidade prezada por um jovem na idade em que as paixões superavam tinha um efeito extraordinário sobre uma assistência composta por gente religiosa até o fanatismo, especialmente quando as palavras do pregador estavam em perfeita harmonia com suas ações. Ninguém duvidava da continência nem da rigidez de Karbiláí Siyyid Alí-Muhammad: falava pouco, estava constantemente pensativo e na maior parte do tempo se afastava dos homens, o que aumentava ainda mais a curiosidade; se o buscava em toda parte". (Journal Asiatique 1866, tomo 7, p. 341). "Pela moralidade de sua vida o jovem Siyyid servia de exemplo aos que o rodeavam. Também o escutavam com agrado porque em discursos ambíguos e entrecortados, falava contra os abusos que reinavam em todas as classes sociais. Repetiam suas palavras ampliando-as; falava-se dele como verdadeiro mestre e se entregavam a ele sem reserva alguma". (Idem).

(17) Ver glossário (volume II).
(18) Ver glossário (volume II).
(19) Alcorão 4:50.

(20) A noite antes de 13 de fevereiro de 1840 A. D.

(21) 1848 A. D.
CAPÍTULO IX

(1) "O Babismo tinha numerosos adeptos em todas as classes sociais e muitos deles eram de grande importância; homens da sociedade, membros do clero, militares e comerciantes haviam abraçado esta doutrina". (Journal Asiatique, 1866, tomo 8, p. 251).

(2) Ver "Genealogia da Dinastia Qájár" no princípio deste livro.

(3) Sobre ele, 'Abdu'l-Bahá escreveu o seguinte: "Este homem extraordinário, esta alma preciosa, havia memorizado nada menos de trinta mil traduções e era tido na mais alta estima e admirado por todas as classes. Alcançou renome universal na Pérsia e sua autoridade e erudição eram ampla e plenamente reconhecidos". (De um manuscrito que se referia aos martírios na Pérsia).

Este homem nasceu, como indica seu nome, em Daráb, perto de Shiráz. Seu pai, Siyyid Já'far, chamado Kashfí, era um dos ulemás mais destacados e célebres da época. Suas elevadas condições morais, seu caráter e seus costumes puros haviam atraídos estimação e consideração universais: sua ciência lhe conferiu o glorioso apelido de Kashfí que significa aquele que descobre e, neste caso, o que descobre e explica os segredos divinos. Educado por ele, seu filho não tardou a igualá-lo em todos os aspectos: compartilhava amplamente o fator que gozava de seu pai e se dirigiu à Teerã precedido por seu renome e popularidade. Nessa cidade foi hóspede do príncipe Tahmásp Mirzá Mu'ayyadu'd-Dawlih, neto de Fath-Alí-Sháh, por seu pai Muhammad'-Alí Mirzá. O próprio governo rendeu homenagens à sua ciência e em mais de uma ocasião consultou-o em circunstâncias difíceis. Foi cogitado por Muhammad Sháh e Hájí Mirzá Aqasí quando quiseram encontrar um emissário honrado cuja fidelidade não fosse duvidosa". (A. L. M. Nicolas "Siyyid Alí Mamad dit le Báb", p. 233).

"Enquanto se desenvolviam estes acontecimentos no norte da Pérsia, as províncias do centro e do sul ficaram profundamente agitadas pela inflamada pregação dos missionários da nova doutrina. O povo, superficial, crédulo, ignorante e supersticioso em excesso, ficou estupefato e assombrado pelos contínuos milagres que ouvia relatar à cada instante; os mullás ansiosos, ao perceberem que seu excitado rebanho se lhes escapava, redobraram as calúnias e imputações difamatórias; as mentiras mais grosseiras, as invenções mais sanguinárias foram difundidas por eles entre a população vacilante que se achava dividida entre o horror e a admiração... Siyyid Já'far mantinha-se afastado tanto das doutrinas Shaykhís quanto as de Mullá Sadrá. Apesar disto, seu grande zelo e sua ardente imaginação o fizeram sair, até o final da sua vida, dos moldes estreitos da ortodoxia Xiita. Comentava os hadís de forma diferente de seus colegas e inclusive pretendia se aprofundar, segundo se comentava, nos setenta significados diferentes e íntimos do Alcorão. Seu filho, era nessa época um homem de 35 anos mais ou menos, e, tendo terminado seus estudos, radicou-se em Teerã, onde se uniu as grandes pessoas e homens distintos da corte. Foi sobre ele que caiu a eleição de Sua Majestade. Foi encarregado de ir à Shiráz, por-se em contato com o Báb e de informar, com a maior exatidão que fosse possível à autoridade central, sobre as conseqüências políticas que poderia advir de uma reforma que parecia transformar a face do país". (A. L. M. Nicolas "Siyyid Alí Mamad dit le Báb", p. 387-8).

(4) Alcorão, 108.

(5) Segundo o "Kashfu'l-Ghitá" (p. 81), o Báb revelou não menos de dois mil versículos naquela ocasião. A assombrosa rapidez desta revelação não foi menos extraordinária aos olhos de Siyyid Yahyá que a incomparável beleza e profundo significado dos versículos contidos nesses comentários. "No espaço de cinco horas, dois mil versículos (bayts) se manifestaram Dele, com a rapidez suficiente para que uma pessoa pudesse anotá-las. Disto se pode calcular quantas de suas obras foram difundidas entre os homens desde o começo de sua manifestação até o dia de hoje". ("Le Bayán Persan" vol. I p. 43). "Deus lhe deu um poder e eloqüência tais, que se um anotador veloz escrevesse com a máxima rapidez, em dois dias e duas noites sem interrupção, ele manifestaria dessas minhas de palavras o equivalente a um Alcorão". (Idem, vol. 2, p. 132). "E se alguém fizesse uma reflexão sobre a aparição desta árvore (o Báb), sem dúvida alguma admitiria quão exaltada é a religião de Deus. Porque em alguém em cuja vida havia transcorrido vinte e quatro anos, quem carecia daquelas ciências em que todos eram eruditos, quem agora recitava versículos desta forma sem vacilar nem pensar, quem no espaço de cinco horas escreve mil versículos de súplica sem uma só pausa, quem produz comentários e tratados eruditos de um grau de sabedoria tão elevada e com tal compreensão da Unidade Divina que os doutores e filósofos confessam sua incapacidade de compreender tais parágrafos, não cabe dúvida alguma que tudo isto provém de Deus". (Bayán. Váhid 2 Báb I). ("A Traveller's Narrative" nota C, p. 219).

(6) O feito de ter escrito um novo comentário sobre uma sura cujo sentido era tão obscuro deve ter surpreendido enormemente a Siyyid Yahyá; porém o que o surpreendeu ainda mais foi encontrar, nesse comentário, a explicação que ele mesmo havia feito durante suas meditações sobre estes três versos. Desta forma, voltou a encontrar com o Reformador uma interpretação que ele havia acreditado ser o único a imaginar e que não havia comunicado à ninguém". (A. L. M. Nicolas "Siyyid Alí-Muhammad dit le Báb", p. 234).

(7) "Foi uma circunstancia estranha", escreve Lady Sheil, "que entre aqueles que adotaram a doutrina do Báb houvesse uma quantidade considerável de mullás e alguns Mujtahids, os quais ocupam um elevado cargo como expositores da lei na igreja Muçulmana. Muitos desses homens selaram sua fé com seu sangue". ("Glimpses of Life and Manners in Pérsia" pp. 178-9).

(8) Segundo "A Traveller's Narrative" (p. 8) Siyyid Yahyáy "escreveu sem temor nem preocupação, um relato detalhado de suas observações à Mírzá Lutf-'Alí, o chambelán, para que este pudesse submetê-lo ao rei agora extinto, enquanto ele mesmo viajava à todas as partes da Pérsia e em todas as cidades e estações atraiu as atenções de todas as pessoas do alto dos palanques de tal forma, que outros doutores eruditos concluíram que devia estar louco, considerando-o como um caso evidente de bruxaria".

(9) Seu nome era Siyyid Já'far, conhecido como Kashfí, "o que revela", por causa de sua habilidade em interpretar o Alcorão e das visões que afirmava ter.

(10) Intitulado Hujjátu'l-Islã.

(11) Significa literalmente "As Quatro Portas", cada uma das quais pretendia ser um intermediário entre o Imame ausente e seus seguidores.

(12) Ele era um Akhbárí. Para uma descrição dos Akhbárís leia-se a obra de Gobineau: "Les Religions et Les Philosophies dans l'Asie Centrale", p. 23.

(13) "Eu o conheci (Mullá Muhammad 'Alí), disse Mírzá Jáni, em Teerã, na casa de Mahmúd Khán, o Kalantar, onde havia sido confinada a causa de sua devoção à Sua Santidade. Ele disse: "Eu era um Mullá, tão orgulhoso e hábil, que não me rebaixava ante ninguém, nem mesmo ante o extinto Hájí Siyyid Báqir de Rasht, o qual era considerado como "A Prova do Islã" e era o mais erudito dos doutores. Como minhas doutrinas eram segundo a escola Akhbárí, eu discordava em algumas questões com a massa do clero. As pessoas queixavam-se de mim e Muhammad Sháh me chamou à Teerã. Vim e ele leu meus livros e informou-se de seu conteúdo. Pedi-lhe que também chamasse o Siyyid (Siyyid Báqir de Rasht) para que pudéssemos discutir. A princípio sua intenção foi fazê-lo, porém mais tarde, ao considerar a agitação que poderia sobrevir, suspendeu a discussão proposta. Em resumo, apesar de toda esta autosuficiência, quando eu soube da notícia da Manifestação de Sua Santidade e pude ler uma pequena página dos versículos deste "Ponto de Furqán", me transformei como quem houvesse perdido o juízo e involuntariamente, ainda que com certeza de completa opção, confessei a verdade de Sua declaração e cheguei a ser Seu servo devoto; porque Nele vi o mais nobre dos milagres dos Profetas e se O houvesse rechaçado teria rechaçado também a verdade da religião do Islã". ("A História de Hájí Mírzá Jání, apêndice 2 de "Tárikh-i-Jadíd" pág. 349-50).

(14) Uma afirmação similar aparece no "Kashfu'l-Ghitá" (p. 227). Esta afirmação, declara o autor, lhe foi feita por vários residentes da província de Mázíndarán.

(15) Ver glossário (volume II).

(16) Uma luta inflamada ocorreu entre Muqaddas e Karím Khán, o qual assumiu o cargo de chefe da seita Shaykhí depois da morte de Kázim. A discussão tomou lugar na frente de várias pessoas e Karím desafiou seu contendor que provasse a verdade da missão do Báb. "Se tiver êxito", ele disse, "eu me converterei e meus alunos comigo; porém se fracassa, farei com que nos bazares se proclame: "Olhem aquele que pisoteia a Sagrada Lei do Islã!". "Eu não sei quem és, Karím", replicou Muqaddas. "Não se lembra de seu mestre Siyyid Kázim e o que ele lhe disse. "Não queres acaso que eu morra para que, depois de mim, apareça a verdade absoluta? Veja como hoje, levado por tuas paixões pela riqueza e a glória, mentes para ti mesmo!".

"Começada desta forma a discussão, não havia outra alternativa a que não fosse a de ser breve. De imediato os alunos de Karím desembainharam seus punhais e se arrojaram sobre aquele que estava insultando seu chefe. Afortunadamente o Governador da cidade se interpôs; reteve no palácio Muqaddas e seus seguidores até que os ânimos se acalmassem, e os fez sair da cidade à noite, escoltado por dez homens armados até que tivessem percorrido várias milhas". (A. L. M. Nicolas "Siyyid 'Alí-Muhammad dit le Báb", p. 228-229).

(17) Título dado pelo Báb à Siyyid Yahyáy-i-Dárábí.

(18) As circunstâncias extraordinárias conectadas com a conversão de Hájí Siyyid Javád-i-Karbilá'í é relatada com detalhes no "Kashfu'l-Ghitá" (p. 70-77) e é feita referência a uma carta significativa que foi revelada para ele por Bahá'u'lláh (p. 63), na qual se faz grande ênfase sobre a importância do Kitáb-i-Aqdas e ressalta a necessidade de usar muito cuidado e moderação na aplicação e execução de seus preceitos. O texto desta carta encontra-se nas páginas 70 e 74 deste mesmo livro. A seguinte passagem do "Dalá'il-i-Sab'ih" refere-se a conversão de Hájí Siyyid Javád: 'Aqá Siyyid Javád-i-Karbilá'í disse que antes da manifestação, um índio haveria de escrever o nome daquele que seria manifesto". (Les Livre des Sept Preuves", traduzido por A. L. M. Nicolas, p. 59).

(19) Significa literalmente "Siyyid radiante".
(20) 1846 A. D.

(21) O século treze A. H. terminou em outubro de 1882 A. D.

(22) A viúva do Báb viveu até o ano de 1300 A. H. e teve seis filhos. Ela era a irmã do avô materno de meu amigo. Os detalhes mencionados acima foram obtidos de uma anciã da mesma família, por isso são dignos de confiança. (Journal of the Royal Asiatic Society. 1889 p. 993).

(23) Entre tanto tumulto, as acaloradas discussões e o escândalo seguiam em Shiráz a tal ponto que, irritado por toda esta confusão e temeroso de suas conseqüências, Hájí Mírzá Aqásí ordenou a Husayn Khán Nizamu'd-Dawlih que se desfizessse do Reformador e que o fizesse de imediato e em segredo". (A. L. M. Nicolas "Siyyid 'Alí-Muhammad dit le Báb", p. 235).

(24) "Sumamente irritados, descontentes e preocupados, os Mullás de Fárs, incapazes de prever até que ponto poderia aumentar a indignação popular contra eles, não eram os únicos a sentir-se perplexos. As autoridades da cidade e da província compreendiam muito bem que o povo se achava sob seu cuidado porém que nem sempre estava sob seu controle, percebiam agora que estavam completamente independentes deles. Os homens de Shiráz, superficiais, astutos, ruidosos, brigões rebeldes, extremamente insolentes, completamente indiferentes até a dinastia Qájár, nunca eram fáceis de governar e seus administradores passavam dias fastidiosos. Qual seria então a posição destes administradores se o verdadeiro chefe da cidade do país, o árbitro de seus pensamentos, seu ídolo, fosse um jovem, sem nenhum desejo de vantagem pessoal, fizesse um pedestal de sua independência e se aproveitasse dele para atacar descarada e publicamente todos os dias todo aquele que, até agora havia sido considerado como forte e respeitado em toda a cidade?

"Na verdade, a corte, o governo e sua política não haviam sido todavia objeto de nenhuma das violentas denúncias do Inovador porém, em vista do fato de serem tão rígidas em seus costumes, tão inflexível contra a falta de honradez intelectual e as práticas de exploração do clero, sem dúvida ele não aprovaria a fraude tão florescente entre os funcionários públicos e acreditava-se que no dia que caíssem sob sua fiscalização, ele não deixaria de ver e condenar violentamente os abusos que já não poderiam ser mais ocultados. Conde de Gobineau: "Les Religions et les Philosophies dans l'Asie Centrale", p. 122-123).

(25) 23 de setembro de 1845 A. D. Ver "Tarikh-i-Jádíd", p. 204.

(26) Epidemia de cólera.

(27) O Báb se refere a este incidente no "Dalá'il-i-Sáb'ih nos seguintes termos: Lembrem-se dos primeiros dias da Manifestação quanta gente morreu de cólera! Aquela foi uma das coisas assombrosas da Manifestação, no entanto, ninguém a compreendeu. Durante quatro anos o flagelo assolou os muçulmanos Xiitas sem que ninguém captasse seu verdadeiro significado." ("Le Livre des Sept Preuves" traduzido por A. L. M. Nicolas, p. 61-62).

(28) Um jardim fora de Shíráz.

(29) Segundo "A Traveller's Narrative" p. 11, "Husayn Khán deixou o Báb em liberdade com a condição de sair da cidade".

CAPÍTULO X
(1) 1846 A. D.

(2) Manúchihr Khán era um homem enérgico e valente. Em 1841 acalmou totalmente as tribos Bakhtíyarí que haviam se rebelado. Sua administração vigorosa e severa assegurou ao povo de Isfáhán um pouco de justiça. (C. R. Markham "A General Sketch of the History of Pérsia", pág. 487).

(3) Segundo Mírzá Abdu'l-Fadl (manuscrito, p. 66), o nome do Imame-Jum'ih de Isfáhán era Mír Siyyid Muhammad e seu título era "Sultánu'l-Ulamá". O cargo de Sadru's-Sudúr, o sumo sacerdote do tempo de Safaví, foi abolido por Nadir Sháh, e o Imame-Jum'ih de Isfáhán passou a ser então o dignatário eclesiástico principal da Pérsia". (C. R. Markhan "A General Sketch of the History of Pérsia", p. 365).

(4) Quer dizer mulher serpente.
(5) Alcorão 103.
(6) A "Missão Específica" de Maomé.

(7) Referência a Sua própria missão e a revelação subseqüente de Bahá'u'lláh.

(8) Veja nota K, "A Traveller's Narrative", de Gobineau, pp. 65-73.

(9) "Como Muhammad guardava silêncio, Mirzá Muhammad-Hasan, que seguia a doutrina filosófica de Mullá Sadrá, interrogou o Báb com o objetivo de induzi-lo a explicar três milagres que bastaria relatar para ilustrar o leitor. O primeiro era o Tiyyu'l-Ard, ou seja o transporte imediato de um ser humano de uma parte do mundo à outro ponto muito distante. Os Xiitas estão convencidos que o terceiro Imame, Javád, utilizou esta forma muito fácil e econômica de viajar. Por exemplo, se transportou de Medina, na Arábia até Tús em Khurásán, num piscar de olhos.

"O segundo milagre era a presença simultânea da mesma pessoa em muitos lugares diferentes. 'Alí foi, ao mesmo tempo, hóspede de sessenta pessoas diferentes".

"O terceiro milagre foi um problema de cosmografia que apresentou aos astrônomos da época que provavelmente riram dele. Falava-se que durante o reinado de um tirano, o céu giraria rapidamente enquanto que durante o de um Imame giraria lentamente. Em primeiro lugar, como poderia o céu ter dois movimentos? Segundo, o que haveria de ocorrer durante o reinado dos "Umayyad e dos Abbasid? Estas foram as loucuras cujas soluções propunham ao Báb.

"Não me estenderei mais sobre elas, porém creio que a esta altura devo deixar bem claro a mentalidade dos Muçulmanos eruditos da Pérsia. Se considerarmos que, por quase mil anos, a ciência do Irã pesquisou sobre tais estupidez e que os homens se esgotaram em investigações contínuas sobre tais questões, é fácil compreender o vazio e a arrogância de todas essas mentes.

"Seja como for, a reunião foi interrompida pela chamada do almoço do qual todos se serviram e depois regressaram à suas respectivas casas". (A. L. M. Nicolas "Siyyid 'Alí-Muhammad dit le Báb", pp. 239-240).

(10) Referência ao matrimônio de Munírih Khánum com 'Abdu'l-Bahá.

(11) Segundo Mírzá Abu'l-Fadl, aproximadamente setenta dos eminentes ulemás e outras pessoas importantes assinaram um documento que condenava o Báb como herege e o condenava a morte.

(12) Veja glossário (volume II).
(13) Veja glossário (volume II).

(14) Segundo "A Traveller's Narrative" (p. 13), o Mu'tamid deu ordens secretas para que quando o Báb chegasse a Múchih-Khár (a segunda etapa ao sair de Isfáhán por um caminho pelo norte, a uma distância de aproximadamente 35 milhas). Ele deveria voltar à Isfáhán.

(15) "Assim como este quarto (em que me encontro) que não tem portas nem limites definidos é hoje a morada mais elevada do Paraíso, porque a Árvore da Verdade habita nele. Parece como se todos os átomos do quarto, cantassem juntos com uma só voz: "Na verdade, Eu sou Deus! Não há outro Deus fora de mim, o Senhor de todas as coisas". E cantam por cima de todos os quartos do mundo, inclusive sobre aqueles adornados com espelhos e ornamentos de ouro. No entanto, se a Árvore da Verdade reside em um desses quartos adornados, então os átomos de seus espelhos cantam essa canção, como fizeram e fazem os átomos do Palácio Sadrí, porque nos dias de Sád (Isfáhán) é habitado ali". ("Le Bayan Persan", vol. I, pg. 128).

(16) Segundo "A Traveller's Narrative" (p. 13), o Báb permaneceu durante quatro meses naquela casa.

(17) Em 4 de março de 1847 o Sr. Bonnière escreveu ao Ministro de Relações Exteriores da França: "Mu'tamidu'd-Dawlih, o governador de Isfáhán, acaba de falecer deixando uma fortuna calculada em quarenta milhões de francos". (A. L. M. Nicolas: "Siyyid'Alí-Muhammad dit le Báb", p. 242, nota 192).

(18) Alcorão, 8:42.

(19) Ele faleceu, segundo E. G. Browne ("A Traveller's Narrative, nota L, p. 277), no mês de Rabí'u'l-Avval no ano 1653 A. H. (Fevereiro-março, 1847, A. D.).

(20) Segundo "A Traveller's Narrative", p. 13, ele era sobrinho de Mu'tamid.

(21) Segundo "A Traveller's Narrative", p. 14, os membros da escolta pertenciam a cavalaria Nusayrí. Veja nota 1, p. 14.

(22) Chápárchi significa mensageiro.

(23) "O Xá, antojado e caprichoso, tendo esquecido que fazia pouco tempo que havia ordenado a morte do Reformador, sentiu nascer em si o desejo de ver, por fim ao homem que dava tanto o que falar; por isso, deu à Gurgín Khán a ordem para mandar o Báb à sua presença em Teerã". (A. L. M. Nicolas "Siyyid 'Alí-Muhammad dit le Báb", p. 242).

CAPÍTULO XI
(1) Veja glossário (volume II).
(2) 1847 A. D.
(3) 1851-2 A. D.
CAPÍTULO XII

(1) Sítio do segundo dos santuários mais sagrados da Pérsia, e o lugar onde estão sepultados muitos de seus reis, entre os quais Fath-'Alí e Muhammad Sháh.

(2) "Em Qum encontram-se os restos mortais da irmã do Imame Rida, Fátimiy-Má'súmih, isto é, a Imaculada que, de acordo com os relatos viveu e faleceu aqui depois de haver fugido de Bagdá em conseqüência das perseguições dos Califas; segundo outro relato, adoeceu e faleceu em Qum quando viajava para ver seu irmão em Tus. Ele por sua vez, retribuiu a atenção, segundo crêem os Shí'ah piedosos, fazendo-lhe uma visita todas as sextas-feiras do seu santuário em Mashhad". (Lord Curzon: "Pérsia e o problema Persa", vol. 2, p. 8).

(3) Uma parada no caminho antigo à Isfáhán a uma distância de mais ou menos 28 milhas de Teerã. ("A Traveller's Narrative", p. 14, nota 2).

(4) Veja "A Traveller's Narrative", p. 14, nota 3.

(5) "Como a ordem do primeiro ministro Hájí Mirzá Áqásí chegou ao conhecimento geral, ficou impossível levá-la a cabo. De Isfáhán à Teerã todo mundo falava da iniqüidade do clero e do governo com o Báb; em todos os lugares as pessoas murmuravam e protestavam contra tal injustiça". (Journal Asiatique, 1886, tomo 7, p. 355).

(6) 29 de março de 1847 A. D.
(7) 1 de abril de 1847 A. D.
(8) Veja glossário (volume II).

(9) Segundo "A Traveller's Narrative" (p. 14), o Báb permaneceu na aldeia de Kulayn durante vinte dias.

(10) "Muhammad Sháh", escreve Gobineau, "era um príncipe de temperamento estranho, um tipo que se vê normalmente na Ásia, porém que rara vezes é descoberto ou compreendido pelos europeus. Governou em um período que as discórdias estendiam do seu harém à todo o país. Nem nos dias de Fath-'Alí Sháh se chegou ao extremo de governar levado por caprichos e fantasias. Em seu caso não era indiferença afetada, senão fadiga e aborrecimento. Sua saúde sempre havia sido ruim, como sofria de gota em grau muito avançado quase nunca estava sem dor. Seu caráter, débil por natureza; encontrava-se melancólico e como necessitava amor e não podia encontrá-lo em sua família, nem com suas mulheres, nem com seus filhos, depositou todo seu afeto num ancião Mullá, seu tutor. Fez dele seu único amigo, seu confidente e logo seu onipotente primeiro ministro, inclusive seu deus. Criado por este ídolo com sentimentos muito irreverentes para o Islã, mostrava igual indiferença para os dogmas do Profeta como este fazia de si mesmo. Pouco lhe importava os Imames e se tinha alguma consideração à ´Alí, era porque a mente persa tinha a tendência à identificar esta pessoa venerável com o próprio país.

Em resumo, Muhammad Sháh não era melhor muçulmano que Cristão ou Judeu. Ele acreditava que a Essência Divina se encarnava a Si mesma nos Sábios com todo Seu poder e como considerava que Hájí Mirzá Áqásí era um Sábio "por excelência" não tinha dúvidas que era Deus e com toda piedade lhe pedia para fazer milagres. Freqüentemente dizia à seus oficiais com toda seriedade e convicção: "O Hájí me prometeu um milagre para esta noite; vocês verão!". Enquanto o caráter do Hájí não sofria nenhum comprometimento, Muhammad Sháh se mostrava completamente indiferente sobre o êxito ou o fracasso desta ou daquela doutrina religiosa; ficava satisfeito ao ver o conflito de opiniões que para ele era uma prova da cegueira universal". (Conde de Gobineau "Les Religions et les Philosophies dans l'Asie Centrale", p. 131-132).

(11) Segundo "A Traveller's Narrative" (p. 14), o Báb "enviou uma carta à Presença Real solicitando uma audiência para expor a verdade de Sua situação, esperando que com isso melhorasse suas relações". Sobre esta carta Gobineau escreve o seguinte: "Alí-Muhammad escreveu pessoalmente à Corte e sua carta e as acusações de seus adversários chegaram todas ao mesmo tempo. Sem assumir atitude agressiva junto ao rei, mas bem ao contrário, confiando em sua autoridade e justiça, fê-lo notar que o caráter depravado do clero na Pérsia já era bem conhecido a muitos anos; que não somente era esta a causa da corrupção moral com repercussão no bem estar do país, mas a própria religião, envenenada por tantos pecados, estava em grande perigo à ponto de desaparecer deixando as pessoas numa obscuridade total.

"E quanto a si mesmo, chamado por Deus, em virtude de uma missão especial para evitar semelhante mal, já havia informado as pessoas de Fárs que a verdadeira doutrina havia feito progressos rápidos e evidentes; que todos os seus adversários haviam sido confundidos e que agora encontravam-se impotentes e eram universalmente desprestigiados; isto era só o começo. O Báb confiando na magnanimidade do rei, solicitava autorização para vir a capital com seus discípulos principais para celebrar ali conferências com todos os Mullás do Império, na presença do Soberano, os nobres e o povo, convencido que os cobriria de vergonha, provaria sua falta de fidelidade e os reduziria ao silêncio como havia feito com os Mullás grandes e pequenos que haviam pretendido levantar-se contra ele. Aceitava de antemão o juízo do rei e, no caso de fracassar, estava disposto a sacrificar sua cabeça e a de cada um de seus seguidores". (Conde de Gobineau "Les Religions et les Philosophies dans l'Asie Centrale", p. 124).

(12) 19 de março - 17 de abril de 1847 A. D.

(13) Segundo Hidáyat no Majma'u'lFusahá, o nome de Hájí Mirzá Áqásí era 'Abbás-'Alí. Era filho de Mirzá Muslim, um teólogo muito conhecido em Iraván. Seu filho, 'Abbás-'Alí, era aluno de Fakhru'd-Din 'Abdu's-Samad-i-Hamadání, enquanto estava em Karbilá. De Karbilá foi à Hamadán, visitou Ádhirbáyján e dali empreendeu peregrinação à Meca. Regressou em condições de extrema pobreza à Ádhirbáyján porém melhorou gradualmente sua posição e foi tutor dos filhos de Mirzá Músá Khán, o irmão do extinto Mirzá Abu'l-Qasín, o Qa'im-Maqám. Muhammad Mirzá, que havia anunciado sua eventual ascensão ao trono da Pérsia, lhe tinha grande devoção. Eventualmente foi designado primeiro ministro e, depois da morte do monarca retirou-se para Karbilá, quando faleceu em Ramadán 1265 A. H. (Notas de Mirzá Abu'l-Fadl). Segundo a narração de Hájí Mu'ínu's-Saltanih (p. 120), Hájí Mirzá Áqásí nasceu em Máh-Kú, onde estava vivendo com seus pais após sua partida de Iraván, no Cáucaso. "Hájí Mirzá Áqásí, nativo de Iraván, passou a ter uma influência ilimitada sobre seu amo debilitado mentalmente, de que foi seu tutor, e professava a doutrina Súfí. Um velho de nariz comprido, cujo rosto delatava seu caráter estranho e autosuficiente". (C. R. Markham: "A General Sketch of the History of Pérsia", p. 437). "Quando a Hájí, era um tipo de deus muito especial. Não estava absolutamente seguro de crer de si mesmo naquilo que Muhammad Sháh estava persuadido. Em todo caso professava os mesmos princípios gerais que o rei e, os havia incutido de boa fé. No entanto podia atuar como palhaço; fazer brincadeiras era sua política, a regra de sua conduta e de sua vida. Não levava nada à sério, nem a si mesmo. "Eu não sou primeiro ministro" dizia freqüentemente, especialmente para aqueles que maltratava: "Sou um ancião Mullá de origem humilde e sem méritos e se me encontro neste alto cargo, é por vontade do Rei". Nunca referia a seus filhos chamá-los "filhos de uma cadela". Nestes termos que perguntava por eles ou lhes mandava ordens por intermédio dos oficiais quando estavam ausentes. Sua maior alegria era passar revista as tropas da cavalaria que reunia nos seus uniformes mais vistosos, para todos Khán nômades da Pérsia verem. Uma vez reunidas estas tribos guerreiras no vale, o Hájí aparecia, vestido como um mendigo, com um gorro rasgado e torcido, com um sabre pendurado desajeitadamente em sua cintura e montado num pequeno jumento. Então ordenava que ficassem ao seu redor, os chamava de imbecis, provava o quanto eram inúteis e os fazia voltar para casa dando-lhes presentes; porque seu sarcasmo sempre era acompanhado de certo grau de generosidade". (Conde de Gobineau: "Les Religions et les Philosophies dans l'Asie Centrale", pp. 132-133).

(14) "Um episódio mostra o verdadeiro motivo das insinuações do primeiro ministro ao Sháh sobre o Báb. O príncipe Farhád Mirzá, jovem ainda, era um aluno de Hájí Mirzá Áqásí. Ele relatou o seguinte: "Quando Sua Majestade, após consultar com o primeiro ministro, escreveu ao Báb dizendo-lhe que se dirigira à Máh-Kú, fomos com Hájí Mirzá Áqásí passar alguns dias em Yaft-Abád, perto de Teerã, no jardim por ele construído. Tive vontade de perguntar ao meu mestre sobre os recentes acontecimentos, porém temi fazê-lo em público. Certo dia, enquanto caminhava com ele pelo jardim e estava de bom humor me atrevi a perguntar-lhe: "Hájí, porque você enviou o Báb à Máh-Kú?". Ele respondeu: "És demasiadamente jovem para compreender certas coisas, porém deves saber que, se ele tivesse vindo para Teerã, você e eu não estaríamos caminhando despreocupadamente neste momento, sob esta sombra fresca". (A. L. M. Nicolas "Siyyid 'Alí-Muhammad dit le Báb", pp. 243-244).

Segundo a narração de Hájí Mu'ínu's-Saltanih (p. 129), o motivo principal que impeliu a Hájí Mirzá Áqásí a atender rapidamente as ordens de Muhammad Sháh para que desterrasse o Báb à Ádhirbáyján foi o temor do cumprimento da promessa que o Báb havia dado ao soberano que o curaria de sua enfermidade se ele permitisse que fosse recebido em Teerã. Certo de que se o Báb levasse à efeito tal cura, o Sháh cairia sob a influência de seu Prisioneiro e deixaria de conferir à seu primeiro ministro as honras e benefícios que eram exclusivamente seu privilégio.

(15) Segundo Mirzá Abu'l-Fadl, Hájí Mirzá Áqásí quis, ao referir-se a rebelião de Muhammad Kasan Khán, o Salar, em Khurásán e a revolta de Áqá Khán-i-Ismá'ílí, em Kirmán induzir o soberano a abandonar o projeto de levar o Báb à capital, ao invés disso, enviá-lo à distante província de Ádhirbáyján.

(16) "Entretanto, nesta ocasião suas esperanças não se concretizaram. Temendo que a presença do Báb em Teerã produzisse novos distúrbios (havia muitos devido a seus caprichos e má administração), trocou seus planos e a escolta que havia recebido ordens de levar o Báb de Isfáhán à Teerã, recebeu, quando estava à cerca de trinta quilômetros da cidade, uma contraordem de levar o prisioneiro diretamente à Máh-Kú. Esta cidade, pensou o primeiro ministro, nada ofereceria ao impostor porque seus habitantes, em sinal de gratidão pelos favores e proteção que ele lhes havia dado tomariam as providências necessárias para eliminar qualquer distúrbio que pudesse ocorrer". (Journal Asiatique, 1866, tomo 7, p. 356).

(17) "A situação que se encontrava a Pérsia não era, no entanto, satisfatória, porque Hají Mirzá Áqásí, que havia sido seu virtual governante durante treze anos "era totalmente ignorante na arte de governar, na ciência militar e demasiado vaidoso para receber conselhos e demasiado zeloso para admitir um assessor; usava uma linguagem brutal, sua atitude era insolente e seus costumes revelavam indolência; levou as finanças à beira da falência e o país a um passo da revolução. O pagamento do exército encontrava-se normalmente de três a cinco anos atrasado. A cavalaria das tribos se encontrava quase aniquilada". Tal era - para citar a palavra abalizada de Rawlinson - a condição da Pérsia, em meados do século dezenove". (P. M. Sykes "A History of Pérsia", vol 2, p. 439-40).

(18) "Hájí Mirzá Áqásí, o velho e meio louco primeiro ministro, tinha a totalidade da administração em suas mãos e logrou obter controle total sobre o Sháh. O desgoverno do país foi de mal a pior, enquanto as pessoas passavam fome e mal-diziam a dinastia Qájár... As condições das províncias eram deploráveis e todos os homens que mostravam sinais de talento ou de patriotismo eram enviados ao exílio pelo velho Hájí que recolhia diligentemente riquezas para si próprio em Teerã as expensas do desafortunado país. Os postos dos governadores nas províncias se vendiam aos mais altos licitadores e estes exerciam uma opressão espantosa sobre o povo". (C. R. Markham "A General Sketch of the History of Pérsia", p. 486-7).

(19) Gobineau escreve, referindo-se a sua queda: "Hájí Mirzá Áqásí, privado do poder que havia ridicularizado constantemente, partiu para Karbilá e passou o resto de seus dias fazendo chacota aos Mullás e zombando inclusive dos mártires sagrados". (Les Religions et les Philosophies dans l'Asie Centrale", p. 160).

"Este homem astuto havia logrado tal poder sobre o Sháh que se podia dizer, sem faltar a verdade, que o ministro era o verdadeiro soberano; portanto não podia sobreviver a perda da sua boa estrela. Depois da morte de Muhammad Sháh desapareceu e foi à Karbilá onde, sob a proteção do santo Imame, inclusive um criminoso de estado podia encontrar asilo inviolável. Logo se viu surpreendido por uma corroída aflição que, mais que seu remorso, cortou-lhe a vida". (Journal Asiatique, 1866, tomo 7, pp. 367-368).

(20) Segundo "A Traveller's Narrative" (p. 16) o Báb escreveu uma carta durante a viagem, dirigida ao Primeiro Ministro, em que dizia: "Você me chamou a Isfáhán para que me debatesse com os doutores e assim alcançar uma decisão definitiva. Que sucedeu agora para que esta excelente intenção seja trocada por Máh-Kú e Tabríz?".

(21) Segundo Samandar (manuscrito p. 4-5), o Báb permaneceu na aldeia de Síyáh-Dihán, nas vizinhanças de Qazvín, em seu caminho à Ádhirbáyján. Durante essa viagem, Ele revelou epístolas dirigidas aos principais ulemás de Qazvín, entre eles os seguintes: Hájí Mullá 'Abdu'l-Vahháb, Hájí Mullá Sálih, Hájí Mullá Taqí e Hájí Siyyid Taqí. Estas epístolas foram levadas à seus destinatários por intermédio de Hájí Mullá Ahmad-i-Abdál. Vários crentes, entre os quais se encontravam os dois filhos de Hájí Mullá 'Abdu'l-Vahháb, puderam se encontrar com o Báb durante a noite que Ele passou na aldeia. Desta aldeia que se diz que o Báb dirigiu Sua epístola à Hájí Mirzá Áqásí.

(22) No "Táríkh-i-Jadíd", diz-se que Muhammad Big relatou o seguinte incidente à Hájí Mirzá Jání: "Quando montamos em nossos cavalos cavalgamos até que chegamos num caravansarai feito de ladrilhos que se encontrava a dois farsakh da cidade. Dali prosseguimos a Mílán onde muitos dos habitantes vieram a visitar a Sua Santidade e se mostraram assombrados ante a majestade e dignidade desse Senhor da humanidade. Pela manhã, no instante em que partíamos de Mílán uma anciã trouxe um menino com a cabeça toda coberta de crostas de cor branca até o pescoço, e implorou à Sua Santidade que o curasse. Os guardas tentaram impedi-lo, porém Sua Santidade os deteve e chamou o menino. Então colocou um lenço sobre sua cabeça e repetiu certas palavras; e quando terminou o menino tinha-se curado. Neste lugar cerca de duzentas pessoas acreditaram e tiveram uma conversão verdadeira e sincera". (p. 220-21).

(23) Mirzá Abdu'l-Fadl assevera em seus escritos que ele mesmo quando esteve em Teerã, conheceu o filho de Muhammad Big, que se chamava 'Alí-Akbar-Big e o ouviu relatar as extraordinárias experiências, que seu pai tinha tido durante a viagem à Tabríz em companhia do Báb. 'Alí-Akbar-Big era fervoroso crente da Causa de Bahá'u'lláh e era conhecido como tal pelos bahá'ís da Pérsia.

(24) Veja glossário (volume II).

(25) Segundo "A Traveller's Narrative" (p. 16) O Báb permaneceu quarenta dias em Tabríz. Segundo o manuscrito de Hájí Mú-ínu's-Saltanih (p. 138), o Báb passou a primeira noite, ao chegar a Tabriz, na casa de Muhammad Big. Dali foi transferido para um cômodo na Cidadela (a Arca) que estava ao lado de Masjid-í-'Alí Sháh.

(26) O êxito deste homem enérgico, Mullá Yúsuf-i-Ardibílí, foi tão grande e rápido que mesmo na porta de Tauris (Tabríz), os habitantes desta populosa aldeia o tomaram como seu chefe e adotaram o nome de Bábís. Além disso mesmo dentro do povo os Bábís eram bastante numerosos apesar do governo tomar medidas para condenar o Báb e castigá-Lo, justificando-se a si mesmo aos olhos do povo". (Journal Asiatique, 1866, tomo 7, p. 357-358).

(27) "Deus é o mais Elevado".
CAPÍTULO XIII

(1) Literalmente "A Montanha Aberta", é uma alusão a Máh-Kú. O valor numérico de "Jabal-i-Básit" equivale ao de "Máh-Kú".

(2) Literalmente "A Montanha de Aflição", é 'uma alusão a Chihríq O valor numérico de "Jabal-i-Shadíd" equivale ao de "Chihríq".

(3) Veja glossário (volume II).

(4) "Ele habita em uma montanha cujos habitantes não podem pronunciar a palavra "Jannat" (Paraíso), que é um vocábulo árabe: como então, poderiam entender seu significado? O que pode suceder quanto as verdades essenciais". ("Le Bayán Persan", vol. 4, p. 14).

(5) "Pátria do Primeiro Ministro nas fronteiras de Ádhirbáyján, este povo saiu da obscuridade sob a administração deste ministro e muitos dos cidadãos de Máh-Kú foram colocados em cargos mais elevados no governo devido a sua atitude de servilismo ante Hájí Mirzá Aqásí". (Journal Asiatique, 1866, tomo 7, p. 356, nota I).

(6) É o próprio Báb quem nos relata em que forma passou os dias na prisão em que se manteve prisioneiro. Suas lamentações, que são tão freqüentes no Bayán, se deviam, creio, a disciplina que, de tempo em tempo, tornava-se mais severa devido a ordem emitidas de Teerã. Todos os historiadores, tanto Bábís como Muçulmanos, nos dizem que apesar das estritas ordens de manter o Báb incomunicável com o mundo exterior, um número muito grande de discípulos e estranhos eram recebidos por Ele em sua prisão. (O autor de Mutanabbiyyín escreve: "Os Bábís de todas as partes do mundo iam à Ádhirbáyján em peregrinação ante seu chefe").

"Oh! Quão grande é vossa cegueira, oh minhas criaturas! Aquilo que fazeis, o levais a cabo crendo agradar-me! E apesar desses versículos que provam meu ser, estes versos que fluem por meu poder, cujo tesouro é o mesmo ser deste personagem (o Báb), apesar destes versos que brotam de seus lábios pela minha autorização, vejam como, sem direito algum o haveis colocado no alto de uma montanha cujos habitantes não são sequer dignos de menção. Próximo dele, o que é próximo de mim, não há nada exceto uma das Letras da Vida de meu livro. Entre suas duas mãos, que são minhas duas mãos, não há sequer um servo que preencha a luz da noite. E eis aqui, os homens que se encontram sobre a terra não foram criados senão por sua existência, e mediante sua boa vontade que tem vindo toda a sua alegria e eles não o dão sequer uma luz!" (Unité 2, porte I).

"O fruto da religião do Islã é crer na Manifestação (do Báb) e ele foi encarcerado em Máh-Kú". (Unité 2, porte 7).

"Tudo o que pertence ao Homem do Paraíso está no Paraíso. Este quarto (que me encontro) que não tem sequer uma porta é hoje o maior dos Jardins do Paraíso, porque a Árvore da Verdade está plantada aqui. Todos os átomos que o compõem proclamam: "Em verdade, não há outro Deus, senão Deus, e não há outro Deus maior que Ele, o Senhor do Universo!". (Unité 2, porte 16).

"O fruto desta porta é que os homens, vendo que é permitido fazer tudo isto para o Bayán (ou seja, gastar dinheiro em tanta quantidade) que é só o precurso Daquele à Quem Deus se Tornará Manifesto, se dêem conta do que deve ser feito por Aquele a Quem Deus Manifestará quando aparecer, para que não Lhe suceda o que sucede a mim neste dia. Em outras palavras, existem através do mundo muitos Alcorão que valem milhões de Tumáns enquanto que Aquele que tem derramado versículos (o Báb) está encarcerado numa montanha, numa cela feita de ladrinhos secados ao sol. E no entanto, aquela cela é a mesma Arca (o 9o céu, a morada da Divindade). Que seja isto um exemplo para os seguidores do Bayán para que não atuem contra Ele como os seguidores do Alcorão tem atuado contra mim". (Unité 3, porte 14). (A. L. M. Nicolas: Siyyid Alí-Muhammad dit le Báb", pp. 365-367).

"Todos crêem Nele e no entanto O encarceraram numa montanha! Todos obtêm a felicidade com Ele e O abandonaram! Não existe fogo mais ardente para aqueles que têm trabalhado do que suas próprias ações; da mesma maneira, não existe para os crentes um Paraíso mais elevado que o de sua própria fé!". (Le Bayán Persan", vol. I, pp. 126-127).

(7) "Um grande número de pessoas vinham de todas as partes para visitar o Báb e os escritos que emanavam de Sua inspirada pena durante esse período eram tão numerosos que o total somava mais de cem mil versículos". (O Taríkh-i-Jadid", p. 238). "Vejam como aproximadamente cem mil versos similares a aqueles versos foram dispersados entre os homens, sem mencionar as orações e questões de ciência e filosofia". ("Le Bayán Persan", vol. I, p. 43). "Considerai também o Ponto do Bayán. Aqueles que estão familiarizados com ele sabem como era grande a sua importância antes da Manifestação; porém depois dela e mesmo quando foram revelados mais de quinhentos mil bayts (versículos) sobre diversos temas, foram pronunciadas tais palavras contra Ele que a pena recusa repetir". ("Le Bayán Persan", vol. 13, p. 113). "Os versículos que têm chovido desta Nuvem de Misericórdia Divina (o Báb) têm sido tão numerosos que ninguém pode ainda calcular o seu número. Vários volumes existem agora. Quantos permanecem mas além de nosso alcance! Quantos têm sido objeto de pilhagem, caem nas mãos dos inimigos e cujo destino é desconhecido!" (O Kitáb-i-Iqán", pp. 182-3).

(8) Alusão a Bahá'u'lláh. "A Mullá Báqír, uma das Letras da Vida - que a glória e favor de Deus descansem sobre ele - Ele (o Báb) lhe dirigiu as seguintes palavras: "Felizmente, no oitavo ano, o Dia de Sua Manifestação, tu podes lograr Sua presença". ("A Epístola ao Filho do Lobo", p. 129).

(9) "É seguindo esta mesma linha de pensamento que quando estava encarcerado em Máh-Kú dirigiu uma carta muito grande ao Sháh (Muhammad-Sháh) que vamos analisar aqui. O documento começa como quase todos os documentos literários do Báb, com exaltados louvores à Unidade Divina. O Báb segue falando, como era próprio, a Maomé e a dois Imames, os quais, como veremos no segundo volume desta obra, são as pedras angulares do edifício do Bayán. "Afirmou", exclama, "que tudo o que se encontra neste mundo de possibilidades que não seja eles é, em comparação, como o nada absoluto: e se não puder expressar tudo, todos eles não serão como a sombra de uma sombra. Peço à Deus que me perdoe por haver-lhes atribuído tais limites. Na verdade, o mais alto grau de louvor que uma pessoa pode conferir à eles é confessar, à sua presença, que é impossível louvá-los... "É esta a razão porque Deus me criou de uma argila que ninguém mais foi criado. E Deus me deu o que os eruditos, com toda a sua ciência, não podem compreender, ou que ninguém, pode saber a não ser que está totalmente confiado ante um sinal dentre meus sinais. Saibam que na verdade eu sou uma coluna da primeira palavra; qualquer um que tomar conhecimento desta primeira palavra, terá conhecido completamente a Deus e terá penetrado no bem universal. Qualquer um que recusar conhecê-la terá permanecido ignorante de Deus e terá penetrado no mal universal. Ponho Deus por testemunha, ó Mestre de ambos os mundos, que aquele que vive aqui embaixo todo o tempo que a natureza permite e segue durante toda a sua vida como servo de Deus em todas as obras de bem, que abrange a crença à Deus, se aninha em seu coração inimizade à mim, ainda que seja tão pouca que só Deus de conta dela, então todas as suas boas obras e toda a sua piedade serão inúteis e Deus preparará para ele um castigo; e ele estará entre os que estarão destinados a morrer. Deus determinou todo o bem que Ele mesmo reconhece como bem, na obediência à Mim e todo o mal que Ele conhece no ato de desobediência a meus mandamentos. Na verdade, hoje contemplo desde o alimento que ostento tudo o que acabo de fazer: vejo os filhos de meu amor, os obedientes, nos mais elevados céus, enquanto que meus inimigos foram lançados às profundezas do fogo eterno! Juro por minha vida, que se não houvesse sido obrigado a aceitar o alimento de Hujját de Deus, não os teria feito esta advertência!". "É evidente que o Báb reafirma suas declarações feitas no Kitáb-i-baynu'i-Haramayin sem acrescentar nem subtrair nada.

"Eu sou", disse ele, "o ponto do qual tudo o que existe é encontrado na existência. Eu sou aquele Semblante de Deus que nunca morre! Eu sou aquela luz que nunca se extingue! Aquele que me conhece o acompanha todo o bem, que me rechaça é perseguido pelo mal. Na verdade, quando Moisés pediu à Deus que lhe permitisse contemplá-Lo. Deus irradiou sobre a montanha a luz de um dos companheiros de Alí. É como o explica o hadíth, "esta luz, o afirmo por Deus, era minha luz". Não vês que o valor numérico das letras que constituem meu nome é igual ao valor daquelas que compõem a palavra Rabb (Senhor)? Não disse, por acaso Deus no Alcorão. "E quando vosso Rabb irradia sobre a montanha?".

"O Báb continua com um estudo das profecias contidas no Alcorão e em alguns dos Hadíths que se relacionam com a manifestação do Míhdí. Relata o célebre Hadíth de Mufaddal que é um dos argumentos mais fortes em favor da verdade de sua missão. No Alcorão, capítulo 32, versículo 4: "Desde o céu à terra Ele governa todas as coisas; no fim subirão até Ele num dia, que para vossas medidas, equivale a mil anos". (Nota: Tradução de J. M. Rodwell). "O último Imame desapareceu no ano de 1260 da Hégira; e é nesse momento que a manifestação profética terá se cumprido e que a "porta da ciência está fechada". Porém Mufaddal perguntou ao Imames Sádiq quanto aos sinais da vinda do Míhdi e o Imame respondeu: "Ele surgirá no ano 60 e seu nome será glorificado". Isto significa que o ano 1260 é precisamente o ano da manifestação do Báb. Sobre este tema Siyyid 'Alí-Muhammad disse: "Declaro perante Deus que nunca recebi instrução e minha educação tem sido a de um comerciante. No ano sessenta senti que meu coração estava repleto de poderosos versículos, com verdadeiro conhecimento e com o testemunho de Deus, proclamei minha missão neste mesmo ano... Esse mesmo ano os enviei um mensageiro (Mullá Husayn-i-Bushru'i) o qual era portador de um Livro, para que o governo pudesse cumprir com seu dever perante o Hujját. Porém como a vontade de Deus foi que explodisse a guerra civil, que ensurdeceria os ouvidos dos homens, cegaria os olhos e torturaria seus corações endurecidos, o mensageiro não obteve permissão para chegar à vós. Aqueles que se consideravam patriotas intervieram e ainda hoje em dia, depois do transcurso de quatro anos, ninguém lhe disse a verdade sobre estes acontecimentos. E agora que a minha hora se aproxima e meu trabalho não é humano porém divino, lhes escreverei brevemente. Se soubésseis como me tem tratado vossos oficiais e delegados durante estes quatro anos! Se soubessem, o temor à Deus os extinguiria a não ser que decidissem obedecer de imediato a Hujját e redimir o dano feito". "Eu estava em Shiráz e sofri tais tiranias desse malvado governador que se tomasse conhecimento da mais insignificante, vosso sentido de justiça exigira vingança, porque sua crueldade tem atraído o castigo do céu e incluído dia do juízo sobre todo este império. Este homem, muito orgulhoso e sem ébrio, nunca deu uma ordem inteligente. Vi-me forçado a sair de Shiráz e estava no caminho para visitá-los em Teerã, porém o Mu'tamidu'd-Dawlih compreendeu minha missão e fez o que o respeito pelos eleitos de Deus exige. Os ignorantes da cidade iniciaram uma revolta e eu me ocultei no palácio de Sadr até o falecimento do Mu'tamidu'd-Dawlih. Que Deus o recompense! Não há dúvida alguma que sua salvação do fogo eterno se deve ao que fez por mim. Então Gurgín me obrigou a viajar durante sete noites com outros cinco homens, exposto a todos os incômodos e brutalidades e privado de todo o necessário. Finalmente o Sultão ordenou que me levassem à Máh-Kú sem sequer me fornecer um cavalo que pudesse montar. Finalmente cheguei a esta aldeia cujos habitantes são ignorantes e rudes. Declaro perante Deus que se imaginásseis o lugar que habito serias o primeiro a ter lástima de mim. É um fortim no cume de uma montanha, e é a vossa vontade que devo semelhante morada! Meus companheiros são dois homens e quatro vilões. Imagine como transcorrem meus dias. Dou graças à Deus como deve agradecer-lhe e juro perante Deus que aquele que me encarcerou desta forma está satisfeito consigo mesmo! E se ele soubesse a quem tem tratado desta forma, não sentiria nunca mais a felicidade!" "E agora os revelo um segredo! Este homem, ao encarcerar-me, encarcerou todos os profetas, todos os santos e aquele que está cheio de sabedoria Divina. Não há nenhum pecado que não me tenha trazido aflição. Quando soube de vossa ordem (de levar-me à Máh-Kú) escrevi à Sadr-i-A'zam: "Dê-me a morte e envia minha cabeça aonde queiras, porque viver sem pecado entre pecadores não me agrada". Ele não respondeu e estou convencido que não compreendeu o assunto, porque entristecer sem razão os corações dos crentes é pior que destruir a mesma casa de Deus; porém juro por Deus eu sou neste dia a verdadeira casa de Deus. Recompensas vêem para aqueles que se mostram bons comigo; é como se fora bom com Deus, com Seus anjos e com Seus santos. Porém quem sabe Deus e Seus anjos estão demasiados exaltados sobre nós como para o bem e o mal dos homens possa alcançar seu umbral, porém o que sucede a Deus sucede a mim. Juro perante Deus, aquele que me aprisionou é ele mesmo um prisioneiro e nada me sucede senão o que Deus ordenar, ai daquele cuja mão produz iniqüidade! Bendito aquele que reparte o bem! "Finalmente, para resumir esta carta que já é demasiadamente longa: A outra questão é um assunto deste mundo que vivemos. O extinto Mu'tamid despediu todos os seus convidados uma noite, para ir deitar-se, inclusive a Hájí Mullá Ahmad e então me disse: "Sei perfeitamente bem que tudo que consegui foi obtido pela força e que tudo o que possuo pertence ao Sáhibu'z-Zamán. Portanto eu o dou tudo porque sois o Mestre da Verdade e o peço que aceiteis o privilégio da propriedade". Em seguida tirou o anel do dedo e me deu. Entreguei-lhe de volta e persuadi-lo a não dispor de seus bens. Deus é testemunha da veracidade deste depoimento. Não desejo um dinar de sua riqueza; você é que tem que usá-la como lhe aprouver; porém como em qualquer disputa Deus requer o testemunho das testemunhas, dentre todos os eruditos acham Siyyid Yahyá e a Akhund Mullá 'Abdu'l-Kháliq. Eles o mostrarão e explicarão meus versículos e a verdade de meu testemunho se fará evidente. Destas duas pessoas uma me conheceu antes da manifestação e o outro depois; os elegi porque ambos me conhecem bem". "A carta termina com algumas provas cabalísticas e alguns Hadíths. É evidente então que o Báb não se sentia feliz em sua prisão. É evidente que permaneceu ali durante longo tempo já que o documento que estamos citando data de 1264 e a execução do mártir teve lugar somente sete de Shá'bán no ano de 1266 (8 de julho de 1850)". (A. L. M. Nicolas "Siyyid 'Alí-Muhammad dit le Báb", pp. 367-373).

(10) Esta é a oração que o Báb mesmo cita em "Dalá'il-Sab'ih" como sua súplica durante os meses de seu cativeiro na fortaleza de Máh-Kú: "Oh meu Deus! Concede à ele, a seus descendentes, a sua família, a seus amigos, e a seus súditos, a seus pacientes e a todos os habitantes da terra, a luz que fará clara sua visão e facilitará sua tarefa; concede que possam compartilhar de suas ações tanto neste mundo quanto no vindouro! Em verdade, nada é impossível para Ti. Oh meu Deus! concede-lhe o poder para produzir um renascimento de Tua religião e faz viver por teu intermédio aquilo que Tu modificaste em Teu livro. Manifesta mediante ele Teus novos mandamentos para que por seu intermédio Tua religião possa florescer uma vez mais! Põe em suas mãos um livro novo, puro e santo, que este Livro possa estar livre de dúvidas e incertezas e para que nada possa alterá-lo ou destruí-lo. Oh meu Deus! Dissipa mediante Teu resplendor toda a obscuridade e mediante Seu poder evidente elimina todas as antigas leis. Arruína, mediante Sua preeminência, aqueles que não tem seguido os caminhos de Deus. Destrói a todos os tiranos por seu intermédio e põe fim a toda discórdia mediante Sua espada; aniquila, mediante Sua justiça, a toda forma de opressão; Faça com que os governantes sejam obedientes a Seus mandamentos; subordina todos os impérios do mundo a Seu império! Oh meu Deus! Humilha a todos os que desejam humilhar-se; Destrua todos os seus inimigos. Repudia a todo aquele que O renegue e confunda a quem quer que desaprecie a verdade, resista a Suas ordens, trata de escurecer Sua luz e manchar Seu nome!

Depois o Báb acrescenta estas palavras:

"Repita estas bênçãos com freqüência e se te faltar tempo para recitar a todas pelo menos não deixe de dizer a última. Mantenha-te desperto no dia da chegada Daquele a Quem Manifestará porque esta oração veio do céu para Ele, ainda que não lhe traga esperança de alcança-lo não lhe trará nenhuma pena; Tenho ensinado a todos os que crêem em minha religião que jamais se regozijem pelas adversidades de ninguém. É possível portanto que quando amanheça este Sol da Verdade nenhum sofrimento te alcançará. ("Lê Livre des Sept Preuves", tradução por A. L. M. Nicolas, pp. 64-5).

(11) O autor de Mutanabiyyín escreve: "Os Bábís de todas as partes do país se dirigiram à Ádhirbayján, em peregrinação até seu chefe". (O Príncipe 'Alí-Qulí Mirzá l'tidádus-Saltanih é o autor). (A. L. M. Nicolas "Siyyid 'Alí-Muhammad dit le Báb", pp. 365, nota 227).

(12) 9 de dezembro de 1847 - 8 de janeiro de 1848 A D.

(13) Durante sua estadia em Máh-Kú o Báb revelou um grande número de obras, entre as mais importantes se pode mencionar especialmente o Bayán Persa e as Sete Provas (Dalá'il-i-Sab'ih) que con-número de obras, entre as mais importantes se pode mencionar espe-período. Em verdade, se podemos dar crédito a uma afirmação que aparece no Taríkh-i-Jaddíd sob a autoridade de Mirzá 'Abdu'l-Vahháb, as diversas escrituras do Báb que circulavam em Tabríz somavam por si mesmas não menos de um milhão de versículos!" ("A Traveller's Narrative", nota L, p. 200). Sobre o Dalá'il-i-Sab'ih Nicolas escreve o seguinte: "O Livro das Sete Provas é a obra polêmica mais importante que tem emanado da pena de Siyyid 'Alí-Muhammad, chamado o Báb". (Prefácio p.I). É evidente que seu correspondente lhe pediu provas da sua missão e sua resposta admirável por sua precisão e clareza. Se fundamenta em dois versos do Alcorão: No primeiro, ninguém pode revelar verso algum quando lhe ajudam todos os homens e todos os demônios; no segundo, ninguém pode entender o significado dos versos do Alcorão exceto Deus e homens de erudição sólida". (Prefácio, p. 5). "É evidente que os argumentos do Báb são novos e originais e se pode ver, graças a essa breve referência de quão profundo interesse deve ser sua obra literária. A extensão desse trabalho não me permite expor, nem que suscintamente, os dogmas principais de uma doutrina audaz cuja forma é por sua vez brilhante e atraente. Espero fazê-lo no futuro porém desejo fazer outro comentário sobre o "Livro das Sete Provas": Até o final de seu livro o Báb fala dos milagres que tem acompanhado Sua manifestação. É possível que isto assombre aos leitores já que temos visto que o novo Apóstolo prega com toda a clareza e verdade dos milagres físicos que a imaginação Muçulmana atribui à Maomé. Ele afirma que tanto para ele como o Profeta da Arábia a única prova de sua missão é a torrente de versículos. Não oferece nenhuma outra prova, não porque Lhe é impossível produzir milagres (já que Deus é todo poderoso), senão simplesmente porque os milagres físicos são de natureza inferior em comparação com os milagres espirituais". (Prefácio, p. 12-13) ("Le Livre des Sept Preuves", traduzido por A. L. M. Nicolas).

(14) "Esta província havia sido durante vários anos o cenário de sérios distúrbios. Ao final de 1844 ou ao início de 1845 o governador de Bujnúrd rebelou-se contra a autoridade do Sháh e se aliou com os turcomanos contra a Pérsia. O Príncipe Ásifu'd-Dawlih, governador de Khurásán, solicitou ajuda da capital. O general Khán Bábá Khán, comandante chefe do exército persa, recebeu ordens de enviar dez mil homens contra os rebeldes, porém a escassez de fundos públicos impediu a expedição. Portanto o Sháh projetou encabeçar pessoalmente uma campanha na primavera. Os preparativos começaram de imediato. Logo estavam prontos dez batalhões de mil homens cada um e só esperavam a chegada do Príncipe Hanzih Mirzá, que havia sido nomeado comandante chefe de expedição. O governador de Khurásán, Ásifu'd-Dawlih, irmão da mãe do Rei, ao sentir que sua segurança estava ameaçada pelas suspeitas das autoridades em Teerã, se apresentou repentinamente ante a Corte para protestar humildemente aos pés do rei e para lhe assegurar sua completa devoção, pedindo que seus difamadores fossem castigados. Aconteceu que o seu principal adversário era Hájí Mirzá Áqásí, o onipotente primeiro ministro. Sobreveio uma luta prolongada que terminou com a derrota do governador que recebeu uma ordem de fazer uma peregrinação à Meca com a mãe do Rei. O filho de Ásifu'd-Dawlih, Sálár, guardião da mesquita de Mashhad, homem rico por direito próprio, confiado a causa de sua aliança com o chefe curdo, Já'far-Qulí Khán, Ilkhání da tribo de Qájár, assumiu uma atitude hostil. Por causa disto foram enviados três mil homens e doze peças de artilharia como represália e o governo de Khurásán foi entregue em mãos de Hamzih Mirzá. A notícia de que Já'far-Qulí havia atacado a expedição real encabeçando um grande destacamento de cavalaria, curda e turcomana, trouxe como conseqüência o envio de cinco regimentos adicionais e dezoito peças de artilharia de campanha. Em 28 de outubro de 1847, esta rebelião foi totalmente esmagada com a vitória de Sháh-Húd (15 de setembro) e a derrota e a fuga de Já'far-Qulí e de Sálár". (A. L. M. Nicolas "Siyyid Alí-Muhammad dit le Báb", p. 257-258).

(15) "Mashhad é o maior lugar de peregrinação da Pérsia já que, como todos sabem, Karbilá encontra-se em território otomano. É em Mashhad que se encontra o sagrado santuário do Imame Rida. Não me estenderei sobre as centenas de milagres que sucederam e ainda sucedem neste santuário, basta saber que todos os anos milhares de peregrinos visitam essa tumba e somente voltam as suas cidades depois que sagazes exploradores desse negócio lucrativo sugam o seu último centavo. A torrente de ouro flui interminavelmente para benefício de funcionários ambiciosos, porém estes funcionários necessitam da cooperação de muitos sócios para pescar em suas redes os numerosos incautos. Esta é, sem dúvida alguma, a indústria mais bem organizada da Pérsia. Se a metade da cidade obtém seu meio de subsistência da mesquita, a outra metade está igualmente interessada no grande número de peregrinos. Os comerciantes, os hoteleiros e os donos dos restaurantes, inclusive as mulheres jovens que encontram entre os visitantes uma provisão abundante de "maridos por um dia"! Toda essa gente era aliada natural contra um missionário cujos ensinamentos ameaçavam o seu meio de subsistência. Denunciar esses abusos em alguma outra cidade era coisa tolerável porém não era conveniente denunciá-los porque todas as pessoas de todas as classes beneficiavam-se deles. O Imame Mihdí tinha, sem dúvida, o direito de vir porém era certamente um estorvo público. Poderia ser um motivo excitante o de empreender a conquista do mundo com Ele, porém havia cansaço, risco e perigo nesse empreendimento enquanto que agora gozavam de perfeita paz nesta formosa cidade onde se podia ganhar a vida com comodidade e sem "risco". (Idem, p. 258-259).

(16) 1848 A. D.
(17) Veja glossário (volume II).
(18) Literalmente "Terra do Paraíso".

(19) Segundo a narrativa de Hájí Mu'inu's-Saltanih (p. 67-68), Mirzá Hablb-i-Shírází, mais conhecido como Qá'iní, um dos poetas mais eminentes da Pérsia, foi o primeiro a louvar o Báb e exaltar Sua elevada posição. Um manuscrito dos poemas de Qa'-iní que inclui estes versos, foi mostrado ao autor da narrativa. As seguintes palavras, disse ele, estavam escritas como cabeçalho da apologia: "Em louvor à manifestação de Siyyid-i-Báb".

(20) Veja nota 28, cap. I.

(21) No "Dalá'il-i-Sáb'ih", o Báb revela o seguinte: "O hadith Ádhirbayján referindo-se a este ponto, disse: "As coisas que hão de acontecer em Ádhirbayján são necessárias para nós; nada impedirá que se sucedam. Permaneçam, portanto, em vossos lugares, porém se aparecer um agitador, correi então até ele". E o hadith prossegue dizendo: "Ai dos árabes, porque a guerra civil se aproxima!" Se ao falar estas últimas palavras o Prometido houvesse tido a intenção de se referir a sua própria missão, sua afirmação haveria sido vã e inútil". (Le Livre des Sept Preuves", traduzido por A. L. M. Nicolas, p. 47).

(22) Referência ao Profeta Maomé.

Table of Contents: Albanian :Arabic :Belarusian :Bulgarian :Chinese_Simplified :Chinese_Traditional :Danish :Dutch :English :French :German :Hungarian :Italian :Japanese :Korean :Latvian :Norwegian :Persian :Polish :Portuguese :Romanian :Russian :Spanish :Swedish :Turkish :Ukrainian :