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A Pérola Inestimável
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Rúhíyyih Rabbání : A Pérola Inestimável
A Pérola Inestimável
Shoghi Effendi, o neto mais velho de 'Abdu'l-Bahá
Rúhíyyih Rabbání
Editora Bahá'í
ítulo Original: The Priceless Pearl

Tradução: Leonora Stirling ArmstrongEsta primeira edição em português é dedicada em memória ao querido pioneiro bahá'í para o Brasil, que tanto amava Shoghi Effendi, Sr. Hossein Soltani Boshrooya.

1
Infância e Mocidade de Shoghi Effendi

Saudação e louvor, bênção e glória estejam sobre aquele ramo primaz do Divino e Sagrado Loto que brotou, das Santas Árvores Gêmeas, bendito, tenro, verdejante e florido; a pérola mais maravilhosa, única e incomparável, que cintila dos Encapelados Mares Gêmeos.

Rompendo as nuvens de um céu tempestuoso, estas palavras, feito um poderoso facho de luz solar, penetraram o negrume e o tumulto de anos perigosos e brilharam do alto sobre um pequeno menino, neto de um prisioneiro do sultão da Turquia, que vivia na cidade-prisão de 'Akká, na província turca da Síria. As palavras foram escritas por 'Abdu'l-Bahá na primeira parte de Sua Última Vontade e Testamento e se referiam a Seu neto mais velho, Shoghi Effendi.

Embora já tivesse sido designado o sucessor hereditário de seu avô, nem o menino, nem a sempre crescente hoste dos adeptos de Bahá'u'lláh em todo o mundo, haviam se tornado cientes deste fato. No Oriente, onde o princípio da descendência ancestral é bem compreendido e aceito como o procedimento normal, havia, sem dúvida, a esperança de que, assim como o próprio Bahá'u'lláh demonstrara a validade desse grande e misterioso princípio da primogenitura, 'Abdu'l-Bahá, Seu filho e sucessor, também fizesse o mesmo. Muitos anos antes de Seu falecimento, 'Abdu'l-Bahá, em resposta a alguns bahá'ís persas que Lhe perguntaram se haveria uma pessoa a quem todos se deveriam volver após Sua morte, escrevera:

"... Saibam, em verdade, que este é um segredo bem guardado. É como uma jóia oculta em sua concha. Que ele se revelará, é fato predestinado. Tempo virá em que sua luz aparecerá, suas evidências serão percebidas e seus segredos desvendados".

Este assunto é melhor esclarecido pelo diário do Dr. Yúnis Khán, que passou três meses com 'Abdu'l-Bahá, em 'Akká, durante o ano de 1897, e, em 1900, retornou para uma permanência de vários anos. De suas palavras inferimos que, talvez devido à difusão de notícias pelo Ocidente acerca do nascimento de um neto do Mestre, uma bahá'í americana Lhe havia escrito que, segundo a Bíblia, depois de 'Abdu'l-Bahá, "um pequenino os guiará" (Isaías, 11:6) e perguntado se isso significava um menino verdadeiro, já vivo, existente. Em 1987, Dr. Yúnis Khán não estava ciente de que tal pergunta fora feita a 'Abdu'l-Bahá e que a seguinte Epístola fora revelada em resposta:

Ó Serva de Deus!

Verdadeiramente, esse menino nasceu e está vivo, e dele haverão de aparecer coisas maravilhosas das quais saberás no futuro. Tu o verás dotado da mais perfeita aparência, de capacidade suprema e perfeição absoluta, de consumado poder e inexcedível grandeza. Sua face irradiará um esplendor que há de iluminar todos os horizontes do mundo; portanto, não te esqueças disso enquanto viveres, pois séculos e eras haverão de testemunhar seus sinais.

Sobre ti estejam saudações e louvor
'Abdu'l-Bahá 'Abbás

Talvez pareça estranho que uma Epístola de tamanha importância não tenha sido conhecida no Oriente, mas devemos nos lembrar de que, naquele tempo, praticamente não havia contato entre os bahá'ís do Ocidente e os do Oriente, e que as Epístolas circulavam entre os amigos americanos por cópias ou verbalmente. Assim, quando Yúnis Khán recebeu uma carta da América, num tempo em que as nuvens escuras do rompimento do Convênio cercavam o Mestre cada vez mais densamente, ignorava por completo aquilo que poderia ter motivado a pergunta que essa amiga agora lhe pedia fosse dirigida a 'Abdu'l-Bahá; de fato, ele afirma em seu diário que só muitos anos mais tarde soube da existência dessa Epístola. Yúnis Khán escreve: "'Abdu'l-Bahá estava caminhando em frente do khán [o prédio no qual muitos bahá'ís costumavam hospedar-se em 'Akká]; aproximei-me e disse-Lhe: 'alguém me escreveu da América dizendo que lá se ouvira dizer que o Mestre afirmara que aquele cujo aparecimento Lhe sucederia havia nascido recentemente e estava neste mundo. Em caso positivo, nossa pergunta já está respondida, mas, e em caso contrário?' Depois de esperar um momento, com um olhar cheio de significado e de exaltação secreta, Ele disse: 'Sim, é verdade.' Ao ouvir esta boa-nova, minh'alma regozijou-se; senti-me certo de que o rompimento do Convênio em nada resultaria e que a Causa de Deus viria a triunfar no mundo inteiro e este mundo se tornaria o espelho do mundo celestial. Compreender, porém, o que Ele queria dizer por "aparecimento", tal como nós bahá'ís concebemos seu significado, foi muito difícil para mim e continuou a ser um mistério em minha mente; buscando mais informação, perguntei-Lhe, então: 'Isso quer dizer uma revelação?' Se Ele tivesse respondido 'sim' ou 'não', isto teria criado mais complicações e provocado mais perguntas, mas felizmente Sua resposta foi concludente e de modo a silenciar qualquer inquiridor, e em palavras ainda mais claras, Ele disse: 'O triunfo da Causa de Deus está em suas mãos!'" Yúnis Khán prossegue então, dizendo que escreveu essa resposta à bahá'í na América, mas durante muitos anos não a partilhou com qualquer pessoa, recusando, até mesmo em sua própria mente, contemplar suas implicações ou perguntar-se a si próprio se essa criança estava em 'Akká ou em alguma outra parte. Ele explica que essa atitude de reserva de sua parte é devida às Palavras de Bahá'u'lláh no livro de Seu Convênio, em que diz que todos os olhos devem focalizar-se no Centro do Convênio ('Abdu'l-Bahá) e também por causa das defecções, maquinações e agravos que por duas gerações haviam perturbado a família do Manifestante de Deus.

Em outra parte do seu diário, Yúnis Khán descreve seu primeiro vislumbre do neto mais velho do Mestre: "Por muitos dias as pessoas hospedadas na Casa dos Peregrinos haviam suplicado ao Afnán [pai de Shoghi Effendi] que as deixasse ver Shoghi Effendi. Um dia, inesperadamente, essa criança de quatro meses foi trazida para o biruni [sala de recepção do Mestre]. Os crentes aproximaram-se dele com grande contentamento e eu também tive esse privilégio, mas dizia comigo: 'Olhe-a apenas como uma criança bahá'í.' Não pude, entretanto, controlar minha emoção porque uma força interior me obrigava a curvar-me diante dele e por um momento fiquei deslumbrado pela beleza dessa criança de tenra idade. Beijei os cabelos macios de sua cabeça e senti tamanho poder nele que não posso encontrar palavras para expressá-lo, mas apenas dizer que parecia com o bebê que vemos nos braços da Santa Virgem. Por vários dias, a face dessa criança permaneceu diante de mim; depois, pouco a pouco a esqueci. Em duas outras ocasiões senti a mesma coisa, uma vez quando ele tinha nove anos e outra, quando tinha onze."

Yúnis Khán lembra também que, após haver observado, na infância de Shoghi Effendi, evidências interiores e exteriores de sua grande espiritualidade e incomparável caráter, não mais pôde se conter e confidenciou a um velho e fidedigno bahá'í aquelas palavras memoráveis que ouvira de 'Abdu'l-Bahá a respeito de uma criança em cujas mãos estaria o triunfo da Causa de Deus.

Seja como for, o fato é que, até o falecimento do Mestre, em novembro de 1921, quando Sua Última Vontade e Testamento foi encontrada em Seu cofre, e então aberta e lida, ninguém no mundo bahá'í sabia que aquela "pérola incomparável" era Shoghi Effendi, e ninguém realmente compreendeu quão gloriosa e singular era essa pérola que 'Abdu'l-Bahá deixara atrás de Si até que, em novembro de 1957, ela foi convocada a retornar aos Mares donde nascera.

Shoghi Effendi nasceu no dia 27 de Ramadán do ano 1314 do calendário muçulmano. Isto foi domingo, 1.º de março de 1897 do calendário gregoriano. Essas datas foram encontradas em um dos cadernos usados por Shoghi Effendi em tempo de menino, escritas de seu próprio punho. Ele era o primeiro neto de 'Abdu'l-Bahá, nascido de Sua filha mais velha, Díyá'íyyih Khánum, e seu marido Mírzá Hádí Shírází, um dos Afnán e parente do Báb. Seu avô invariavelmente Se dirigia a ele como "Shoghi Effendi"; de fato, Ele deu instruções de que sempre fosse acrescentado o "Effendi", dizendo até mesmo ao próprio pai de Shoghi Effendi que assim deveria tratá-lo e não chamá-lo simplesmente de "Shoghi". A palavra "Effendi" significa "cavalheiro" ou "senhor", e é acrescentada como termo de respeito. Pela mesma razão, "Khánum", que significa "dama" ou "senhora", é acrescentada ao nome de uma mulher.

Na ocasião do nascimento de Shoghi Effendi, 'Abdu'l-Bahá e Sua família eram ainda prisioneiros do Sultão da Turquia, 'Abdu'l Hamid; sendo que somente após a revolução dos Jovens Turcos, em 1908, e a conseqüente libertação dos presos políticos, eles foram libertados de um exílio e cativeiro que, para Ele e Sua irmã, haviam durado mais de quarenta anos. Em 1897, estavam todos morando numa casa conhecida como a de 'Abdu'lláh Páshá, a pequena distância do grande quartel militar turco onde Bahá'u'lláh, 'Abdu'l-Bahá e o grupo de adeptos que Os acompanhava haviam sido encarcerados ao desembarcarem pela primeira vez em 'Akká, em 1868. Foi nesta casa que o primeiro grupo de pioneiros do mundo ocidental visitou o Mestre, no inverno de 1898-99, e muitos outros dos primeiros bahá'ís do Ocidente; viajando ao longo da praia num ônibus puxado por três cavalos, iam de Haifa a 'Akká, entravam dentro dos muros fortificados da cidade-prisão e recebiam as boas-vindas como Seus hóspedes por alguns dias naquela casa. Foi dessa casa que 'Abdu'l-Bahá saiu para residir, em liberdade, em Haifa, a doze milhas de distância, no outro lado da Baía de 'Akká. Entrando por uma passagem sobre a qual ficava o andar superior do prédio, encontrava-se um pequeno jardim murado onde cresciam flores, árvores frutíferas e algumas palmeiras altas, havendo num canto uma longa escada que conduzia ao andar superior e abria para um espaço interno descoberto, donde portas se abriam para vários aposentos e para um longo corredor que dava acesso a outros cômodos.

A fim de se obter apenas um vislumbre daquilo que deve ter passado no coração de 'Abdu'l-Bahá, quando com a idade de cinqüenta e três anos Lhe nasceu este primeiro neto, deve-se lembrar que Ele já havia perdido mais de um filho, sendo que o mais querido e mais perfeito deles, Husayn, um menino de grande beleza e dignidade, havia morrido com apenas poucos anos de idade. Das quatro filhas sobreviventes de 'Abdu'l-Bahá, três Lhe iriam dar treze netos, mas foi o mais velho destes que testificou a verdade das palavras "a criança é a essência secreta de seu pai", não devendo isto, neste caso, ser interpretado como herança de seu próprio pai, mas sim atribuído ao fato de haver ele sido originado pelos Profetas de Deus e herdado a nobreza de seu avô, 'Abdu'l-Bahá. A profundidade dos sentimentos de 'Abdu'l-Bahá, nessa época, reflete-se nas Suas próprias palavras, quando Ele claramente afirma que o nome Shoghi - literalmente "aquele que almeja" - foi conferido por Deus a esse neto:

... Ó Deus! Este é um ramo que brotou da árvore de Tua misericórdia. Faze-o crescer através de Tua graça e bondade, e, através das chuvas de Tua generosidade, torna-o um ramo verdejante, vigoroso, florido e frutífero. Alegra os olhos de seus pais, Tu que concedes a quem quer que queiras, e confere-lhe o nome de Shoghi a fim de que ele possa ansiar por Teu Reino e voar para os domínios invisíveis!

Pelos sinais evidenciados desde a primeira infância e pela sua natureza incomparável, Shoghi Effendi entrelaçava-se cada vez mais profundamente nas raízes do coração do Mestre. Somos realmente afortunados por possuirmos um relato de uma das primeiras bahá'ís ocidentais, Ella Goodall Cooper, sobre um encontro entre 'Abdu'l-Bahá e Shoghi Effendi que ela mesma presenciou, por ocasião de sua peregrinação, em março de 1899, na casa de 'Abdu'lláh Páshá:

Um dia... eu estava na companhia das senhoras da Família, no aposento da Folha Mais Sagrada, para o chá matinal; o amado Mestre estava sentado em Seu canto predileto do divã, donde, pela janela à Sua direita, Ele podia avistar as muralhas e as águas azuis do Mediterrâneo mais ao longe. Estava ocupado escrevendo Epístolas e o único som que interrompia o silêncio tranqüilo do ambiente era o borbulhar do samovar no qual uma das jovens criadas, sentada no chão, estava preparando o chá.

Logo o Mestre parou de escrever e olhando para Ziyyih Khánum com um sorriso, pediu-lhe que entoasse uma oração. Assim que ela terminou, uma pequena figura apareceu à porta em frente de 'Abdu'l-Bahá. Tirando os sapatos, ele entrou na sala, com os olhos focalizados na face do Mestre. 'Abdu'l-Bahá retribuiu seu olhar com tão carinhosa expressão de boas-vindas que parecia acenar à criancinha para que se aproximasse dEle. Shoghi, aquele lindo menino, com seu belo rosto, feito um camafeu, e seus olhos escuros tão cheios de sentimento e encanto, dirigiu-se lentamente em direção ao divã, como se o Mestre o puxasse por um fio invisível, até que ficou bem à Sua frente. Enquanto ele permanecia assim por um momento, 'Abdu'l-Bahá não lhe deu um abraço, mas manteve-Se completamente imóvel, apenas acenando com a cabeça duas ou três vezes, lenta e impressivamente, como se dissesse: "Estão vendo? Este laço que nos liga não é apenas o de um avô físico, mas algo muito mais profundo e mais significativo." Enquanto esperávamos, com respiração suspensa, para ver o que ele faria, o pequeno menino curvou-se e, levantando a bainha da túnica de 'Abdu'l-Bahá, tocou-a reverentemente com a testa, beijou-a e então cuidadosamente colocou-a de volta, enquanto nem por um momento tirou os olhos da face do adorado Mestre. Um momento depois, virou-se e correu para brincar, como qualquer criança normal... Naquele tempo, ele era o único neto de 'Abdu'l-Bahá... e, naturalmente, era de imenso interesse para os peregrinos.

Quão grande deve ter sido o esforço do Avô para reprimir Seu amor por essa criança a fim de evitar que a própria chama desse amor pusesse sua vida em perigo por causa do ódio e da inveja de Seus numerosos inimigos, que sempre procuravam um calcanhar de Aquiles para efetivar Sua queda. Muitas vezes, quando Shoghi Effendi falava do passado e de 'Abdu'l-Bahá, eu percebia não só como era ilimitado e ardente seu próprio amor pelo Mestre, mas também como ele tinha estado ciente do fato de que 'Abdu'l-Bahá refreava e velava o ardor de Seu amor por ele a fim de protegê-lo e salvaguardar a Causa de Deus de seus inimigos.

Shoghi Effendi era uma pequena criança, sensível, intensamente ativa e travessa. Não era muito forte nos primeiros anos e muitas vezes sua saúde era motivo de preocupação para sua mãe. Ao crescer, porém, adquiriu uma constituição de ferro que, conjugada à força fenomenal de sua natureza e sua força de vontade, capacitou-o, em anos posteriores, a vencer todos os obstáculos de seu caminho. As primeiras fotografias que temos dele mostram um pequenino rosto fino, olhos imensos e um queixo firme, belamente formado, o qual em sua infância fez o rosto parecer ligeiramente alongado, com formato de coração. Já nesses primeiros retratos vê-se uma tristeza, um anseio, uma persistente predileção para o sofrimento como uma sombra na parede - a sombra de uma criança exaltada à estatura de um homem. De estrutura óssea delicada mesmo na maturidade, mais baixo do que seu Avô havia sido, fisicamente Shoghi Effendi parecia mais com seu Bisavô, Bahá'u'lláh. Ele mesmo me disse que a irmã de 'Abdu'l-Bahá, a Folha Mais Sagrada, às vezes lhe tomava as mãos nas suas, dizendo: "Estas são semelhantes às mãos de meu Pai." Eram o que eu chamo mãos intelectuais, mais quadradas do que alongadas, fortes, nervosas, as veias sobressalentes, mãos muito expressivas em seus gestos, muito firmes em seus movimentos. Amelia Collins, que residiu em Haifa durante muitos anos, dizia sempre que, para ela, todo o sofrimento da vida do Guardião se refletia naquelas mãos. Seus olhos eram daquele tom enganador de avelã que às vezes levava as pessoas, que não tinham tantas oportunidades de olhar dentro deles quantas eu, a pensarem que eram castanhos ou azuis. A verdade é que eram de uma avelã clara que às vezes mudava para um cinza cálido e luminoso. Nunca vi face e olhos tão expressivos como os do Guardião; cada nuança de sentimento e pensamento era espelhada em seu semblante como luz e sombra se refletem na água. Quando estava contente e entusiástico a respeito de alguma coisa, ele tinha um hábito peculiar de abrir os olhos a ponto de deixar aparecer a borda superior da íris, o que sempre me fazia lembrar de dois belos sóis que surgiam do horizonte, tão luminosa e cintilante era sua expressão. Indignação, zanga e tristeza podiam ser refletidas neles com igual clareza e, infelizmente, ele tinha motivo para mostrar estes sentimentos também em sua vida, tão assediada de problemas e tristezas. Seus pés eram formosos como suas mãos, pequenos como estas, bem curvos e dando a mesma impressão de força.

Pode parecer desrespeitoso dizer que o Guardião era uma criança travessa, mas ele mesmo me disse que era o conhecido líder de todas as outras crianças. Fervilhando de animação, entusiasmo e bravura, risonho e espirituoso, o pequeno menino era o líder em muitas travessuras; por trás de qualquer proeza sempre seria encontrado Shoghi Effendi! Essa ilimitada energia era freqüentemente causa de preocupação, pois ele corria freneticamente para cima e para baixo pela longa escada com altos degraus que conduzia ao andar superior da casa, deixando horrorizados os peregrinos que esperavam o encontro com o Mestre no andar inferior. Sua exuberância era irrepreensível, evidenciando na criança a mesma força que iria fazer do homem tão incansável e intrépido comandante supremo das forças de Bahá'u'lláh, conduzindo-as a vitória após vitória e, de fato, à conquista espiritual do globo inteiro. Temos, como testemunha fidedigna dessa característica do Guardião, o próprio 'Abdu'l-Bahá, que escreveu num envelope usado uma frase curta para agradar a Seu pequeno neto: "Shoghi Effendi é um homem sábio - mas corre muito por aí!"

Não se deve inferir, entretanto, que Shoghi Effendi era um menino sem modos. Às crianças do Oriente - e muito mais ainda, às de 'Abdu'l-Bahá - cortesia e bons modos eram ensinados desde berço. A família de Bahá'u'lláh descendia de reis e a tradição da família, inteiramente distinta de Seus ensinamentos divinos que fizeram obrigatória a cortesia, garantia que gentileza e nobreza de conduta iriam distinguir Shoghi Effendi desde a primeira infância.

Naquele tempo, quando Shoghi Effendi era menino, costumava-se levantar ao amanhecer e passar a primeira hora do dia nos aposentos do Mestre, onde se entoavam orações e toda a família fazia com Ele a primeira refeição. As crianças sentavam-se no chão, com as pernas dobradas e os braços cruzados sobre o peito, em atitude de grande respeito; quando se pedia, elas entoavam para 'Abdu'l-Bahá,, sem gritaria ou conduta indigna. O desjejum consistia em chá, feito no borbulhante samovar russo de latão e servido em pequenos copos de cristal, muito quente e muito doce, pão de trigo puro e queijo de leite de cabra. Dr. Zia Baghdadi, íntimo da família, em suas reminiscências desse tempo, recorda que Shoghi Effendi era sempre o primeiro a se levantar, para chegar pontualmente - depois de haver recebido um bom castigo de nenhuma outra mão senão a de seu Avô!

Relata-nos também a história da primeira Epístola de 'Abdu'l-Bahá a Shoghi Effendi. Dr. Baghdadi conta que, quando Shoghi Effendi tinha apenas cinco anos, importunava o Mestre para que escrevesse algo para ele, ao que 'Abdu'l-Bahá escreveu, de próprio punho, esta carta comovente e reveladora:

Ele é Deus!

Ó Meu Shoghi, não tenho tempo para conversar, deixa-me em paz! Tu disseste: "Escreve". Já escrevi. Que mais poderia ser feito? Agora não é tempo para leres e escreveres, é tempo de pular por aí e entoar "Ó meu Deus!" Decora, pois, as orações da Abençoada Beleza e entoa-as para que eu possa ouvi-las, porque não há tempo para qualquer outra coisa.

Parece que, quando essa maravilhosa dádiva foi entregue ao menino, ele se pôs a decorar várias preces de Bahá'u'lláh e as entoava tão alto que toda a vizinhança podia ouvir sua voz; quando seus pais e outros membros da família do Mestre o repreendiam, segundo Dr. Baghdadi, Shoghi Effendi respondia: "O Mestre me escreveu dizendo que eu entoasse para que Ele pudesse ouvir! Estou fazendo o melhor que posso!" e continuava a entoar o mais alto que podia durante muitas horas todos os dias. Finalmente, seus pais imploraram ao Mestre que o fizesse parar, mas Ele lhes disse para deixarem Shoghi Effendi em paz. Esse foi um aspecto da entoação do pequeno menino. Dizem que havia outro: ele tinha decorado alguns trechos tocantes escritos por 'Abdu'l-Bahá após a ascensão de Bahá'u'lláh e, ao entoá-los, as lágrimas desciam sobre seu rostinho solene. De outra fonte sabemos que, quando um amigo ocidental, hospedado nesse tempo na casa do Mestre, pediu-Lhe que revelasse uma prece para crianças, Ele o fez, e o primeiro a decorá-la e entoá-la foi Shoghi Effendi, que também a entoava nas reuniões dos amigos.

A ama da infância de Shoghi Effendi relatava que, quando ele era ainda bebê, o Mestre costumava pedir a um dos muçulmanos que entoavam na mesquita que viesse pelo menos uma vez por semana e entoasse para as crianças, com sua voz melodiosa, os sublimes versículos do Alcorão. O próprio Mestre, assim como a mãe do Guardião e muitos outros da família tinham belas vozes. Tudo isso deve ter afetado profundamente Shoghi Effendi, que continuou a entoar até o fim da vida. Ele tinha uma voz indescritível, cheia, nem muito alta nem muito baixa, clara, com uma linda cadência no falar, fosse em inglês ou persa, e ainda mais linda quando entoava em árabe ou persa. Para mim, tinha sempre aquela característica de lamento própria do pombo que arrulha para si mesmo, sozinho nos ramos de uma árvore. Dilacerava meu coração - algo triste e lamentoso sob os tons confiantes e crescentes da entoação, e a coisa estranha era a diferença notável na qualidade de sua voz quando, após haver entoado no Sepulcro do Báb, ia ao do Mestre e lá recitava a oração de 'Abdu'l-Bahá: "Humilde e em lágrimas, levanto as mãos suplicantes..." Na voz do Guardião apareciam uma ternura e um anelo que não se ouviam em qualquer outra parte. Essa distinção era infalível, nunca mudou, estava sempre presente.

Em suas reminiscências daqueles primeiros anos, um dos bahá'ís escreveu que, certo dia, Shoghi Effendi entrou nos aposentos do Mestre, apanhou Sua pena e tentou escrever. 'Abdu'l-Bahá puxou-o para Seu lado, bateu-lhe de leve no ombro e disse: "Agora não é tempo de escrever, agora é tempo de brincar; escreverás muito no futuro." Entretanto, o desejo de aprender mostrado pela criança levou à formação de aulas para as crianças na casa do Mestre, com um velho crente persa como instrutor. Sei que durante certo período de sua infância, muito provavelmente enquanto ainda residia em 'Akká, Shoghi Effendi e outros netos eram instruídos por uma italiana que atuava como governanta ou professora; uma senhora idosa, de cabelos grisalhos, que veio fazer uma visita pouco depois de meu casamento.

Embora esses primeiros anos da vida de Shoghi Effendi tenham sido passados na cidade-prisão de 'Akká, cercada de fossos e muros, com seus dois portões guardados por sentinelas, isto não quer dizer que ele não tivesse oportunidade de se movimentar. Freqüentemente deve ter ido às casas de bahá'ís que moravam dentro da cidade, ao khán onde se hospedavam os peregrinos, ao Jardim do Ridván e a Bahjí. Muitas vezes era ele o encantador companheiro de seu Avô nessas excursões. Dizem que algumas vezes ele passava a noite em Bahjí, na casa agora usada como a casa dos peregrinos; 'Abdu'l-Bahá mesmo ia ao seu quarto para cobri-lo na cama, dizendo: "Eu preciso dele." Também era levado a Beirute, a única cidade grande em toda a área e freqüentemente visitada pelos membros da família de 'Abdu'l-Bahá. Numa dessas visitas, relata Dr. Baghdadi, quando Shoghi Effendi, então um menino de cinco ou seis anos, acompanhou seus pais, a Folha Mais Sagrada e outros membros da família, ele passou a maior parte de seu tempo no quarto do Dr. Baghdadi, vendo as figuras em seus livros de medicina e fazendo perguntas. Parece que Shoghi Effendi queria ver alguma coisa realmente dissecada; não se satisfazia com figuras apenas. Esse zelo pelo conhecimento (e sem dúvida, aqueles olhos grandes, tão insistentes e inteligentes) conquistou tão completamente o jovem estudante de medicina que providenciou uma vítima - um grande gato selvagem - e em seguida o dissecou na frente de Shoghi Effendi, de uma de suas tias e do servo que o havia caçado. Eles observaram atentamente, em silêncio. Ao terminar, Dr. Baghdadi estava se perguntando como uma criança tão pequena poderia ter compreendido de que se tratava, ficou espantado ao ouvir Shoghi Effendi recapitular, palavra por palavra, os pontos importantes daquilo que ele havia descrito durante sua dissecação. "Eu disse a mim mesmo," escreve então Dr. Baghdadi, "esta não é uma criança comum, em verdade, este é um querido e precioso anjo!" Como em 1916 uma das matérias estudadas por Shoghi Effendi era a zoologia, ele deve ter recordado sua primeira lição de anatomia ainda em tenra idade. Dr. Baghdadi prossegue relatando que, além dessa grande capacidade para aprender, Shoghi Effendi tinha um coração tão delicado e uma natureza tão doce que, se ele tivesse ofendido algum amiguinho - muito embora nunca fizesse isso a não ser que a criança lhe tivesse enganado ou criado intriga - ele não ia dormir antes de havê-lo abraçado e deixado contente; sempre insistia com os pequenos companheiros que ajustassem suas diferenças antes de se deitarem.

Algumas vezes Shoghi Effendi tinha sonhos vívidos e significativos, tanto agradáveis como desagradáveis. Conta-se que, em na sua infância, acordou, uma noite, chorando, e o Mestre disse à sua ama que Lhe trouxesse Shoghi Effendi para que Ele pudesse confortá-lo; o Mestre exclamou à Sua irmã, a Folha Mais Sagrada: "Veja, ele já têm sonhos!"

Há muito poucas impressões desse neto de 'Abdu'l-Bahá registradas por algum não-bahá'í. Uma delas, porém, merece ser citada detalhadamente. São as reminiscências de uma médica alemã, Dra. J. Fallscheer, que morava em Haifa e atendia às senhoras da família de 'Abdu'l-Bahá. Devemos nos lembrar de que sua narrativa, extremamente interessante, só foi registrada pelo menos onze anos depois do acontecimento que ela relata, no entanto é muito significativa:

Quando regressei à minha casa, no dia 6 de agosto de 1910, após uma visita profissional no Monte Carmelo, nossa velha criada Hadtschile disse-me: "Agora mesmo um criado de 'Abbás Effendi esteve aqui e disse que a doutora fosse, às 3 horas, aos aposentos das senhoras da família do Mestre porque uma das criadas está com um dedo muito infeccionado." Eu não gostava muito de começar minhas visitas tão cedo numa tarde de sábado. Mas como sabia que o Mestre nunca me chamaria fora de hora se não houvesse urgência, decidi ir na hora... Quando tudo estava terminado, dedo, mão e braço tratados e enfaixados, Behia Khánum mandou a pequena paciente deitar-se e me convidou a tomar lanche com ela e as outras senhoras da família. Enquanto tomávamos café e conversávamos no idioma turco, o qual me era mais fácil do que o árabe, um criado veio e disse: "'Abbás Effendi deseja que a doutora venha vê-Lo na selamlik (sala de recepção) antes de ir embora." ... O Mestre pediu-me que Lhe informasse sobre o estado do dedo da jovem e dissesse se havia passado o perigo da septicemia. Eu pude Lhe garantir que sim. Nesse momento, entrou na sala o genro (marido da filha mais velha de 'Abbás Effendi) evidentemente a fim de se despedir do Mestre. De início, não observei que atrás do senhor alto, de tanta dignidade, havia entrado seu filho mais velho, Shoghi Effendi, que cumprimentou o venerável Avô com o beijo oriental na mão. Eu já havia visto a criança momentaneamente em algumas outras ocasiões. Behia Khánum recentemente me informara que esse menino de talvez doze anos de idade era o mais velho descendente direto do sexo masculino da família do Profeta e destinado a ser o único sucessor e representante (vizir) do Mestre. Enquanto 'Abbás Effendi falava em persa sobre algum assunto com Abu Shoghi (pai de Shoghi Effendi) que estava de pé em Sua frente, o neto, depois de nos cumprimentar gentilmente e também beijar a mão de sua tia-avó, permaneceu perto da porta, numa atitude de profundo respeito. Nesse momento, alguns senhores persas entraram na sala e, durante um quarto de hora, houve cumprimentos e despedidas, idas e vindas. Behia Khánum e eu nos retiramos para o lado direito, perto da janela, continuando nossa conversa em voz baixa, em turco. Eu, entretanto, nem por um momento tirei os olhos do neto, ainda muito jovem, de 'Abbás Effendi. Ele estava usando roupas européias de verão, com calça curta porém meias compridas que subiam acima dos joelhos e uma jaqueta curta. De sua altura e estatura poder-se-ia supor que ele tivesse treze ou quatorze anos... No rosto ainda infantil, os melancólicos olhos escuros, já amadurecidos, impressionaram-me logo. O menino permaneceu imóvel no seu lugar e em atitude submissa. Depois que seu pai e o homem que o acompanhava se despediram do Mestre, seu pai lhe sussurrou algo enquanto saía e, com isso, o jovem, de uma maneira lenta e compassada, igual a um adulto, aproximou-se de seu bem-amado Avô, esperou até que Este lhe dirigisse a palavra, e respondeu distintamente em persa. 'Abdu'l-Bahá, então, sorridente, permitiu-lhe que se retirasse, mas não sem primeiro consentir o respeitoso beijo na mão. Impressionou-me a maneira como o menino andou sem virar as costas enquanto saía da sala, e como seus olhos escuros, sinceros, nem por um momento deixaram de fitar o olhar mágico, azul de seu Avô.

'Abbás Effendi levantou-Se e aproximou-Se de nós e imediatamente levantamo-nos, mas o Mestre nos instou a sentarmos novamente, enquanto Ele mesmo Se sentou informalmente num banco perto de nós, ou melhor, em nossa frente. Como de costume, esperamos em silêncio até que Ele Se dirigisse a nós, o que Ele logo fez: "Agora, minha filha," começou, "que acha de meu futuro Eliseu?" "Mestre, se posso falar francamente, devo dizer que em seu rosto de menino estão os olhos escuros de um sofredor, de alguém que irá sofrer muito!" Pensativo, o Mestre olhou para o espaço além de nós e só depois de muito tempo dirigiu Seu olhar novamente para nós, com estas palavras: "Meu neto não tem os olhos de um pioneiro, de um guerreiro ou um conquistador, mas nos seus olhos se vê uma lealdade profunda, perseverança e consciência. E sabe, minha filha, por que sobre ele cairá a pesada herança de ser meu Vizir (Ministro, ocupante de um alto posto)?" Sem esperar minha resposta, olhando mais para Sua querida irmã do que para mim, como se tivesse esquecido minha presença, Ele continuou: "Bahá'u'lláh, a Grande Perfeição - benditas sejam Suas palavras - no passado, no presente e para sempre - escolheu esta pessoa insignificante para ser Seu sucessor, não porque eu era o primogênito, mas porque Seus olhos interiores já haviam discernido em minha fronte o selo de Deus.

"Antes de Sua ascensão para a Luz eterna, o abençoado Manifestante lembrou-me de que eu também - sem levar em conta primogenitura ou idade - teria que observar, entre meus filhos e netos, aquele que Deus indicaria como Seu delegado. Meus filhos passaram para a eternidade em tenra idade, em minha linhagem, entre meus parentes, somente o pequeno Shoghi tem nas profundezas de seus olhos a sombra de uma grande vocação." Seguiu-se outra longa pausa, então o Mestre virou-Se novamente para mim e disse: "Presentemente o Império Britânico é o maior, ainda está se expandindo e sua língua é uma língua mundial. Meu futuro Vizir receberá a preparação para sua pesada tarefa na própria Inglaterra, depois de haver obtido aqui na Palestina um conhecimento fundamental dos idiomas orientais e da sabedoria do Oriente." Com isso me aventurei a intervir: "Será que a educação ocidental e a disciplina inglesa não irão mudar sua natureza, confinar sua mente versátil nos rígidos limites do intelectualismo, sufocar com dogmas e convenções sua irracionalidade e intuição orientais, de modo a não mais ser um servo do Todo-Poderoso mas, antes, um escravo da racionalidade do oportunismo ocidental e da vacuidade da vida cotidiana?" Houve uma longa pausa! Em seguida, 'Abbás Effendi 'Abdu'l-Bahá levantou-Se e, numa voz forte e solene, disse: "Não estou dando meu Eliseu para os britânicos educarem. Eu o dedico e entrego ao Todo-Poderoso. Os olhos de Deus vigiarão meu menino em Oxford também - In-shá'alláh!"

Sem Se despedir e sem mais uma palavra o Mestre saiu da sala.

Despedi-me de Behia Khánum e, enquanto saía, vi o Mestre em pé no jardim, onde, parecendo estar profundamente absorvido em seus pensamentos, olhava para uma figueira carregada de frutos.

Em novembro de 1921, estando em Lugano, eu soube do falecimento de 'Abbás Effendi 'Abdu'l-Bahá em Haifa e meus pensamentos e memórias voltaram para aquela hora, há tanto tempo passada, em agosto de 1910, e desejo todo o bem a Elias - Shoghi, e tudo o que há de bom - Inshá'lláh.

Como, muitos anos depois, 'Abdu'l-Bahá solicitou ao Seu amigo, Lorde Lamington, distinto fidalgo escocês e que Lhe tinha profundo respeito e admiração, para que utilizasse seus bons ofícios e conseguisse a admissão de Shoghi Effendi numa faculdade na Universidade de Oxford, não é impossível que Ele tenha mencionado tal plano à Dra. Fallscheer, mas, naturalmente, não temos evidência corroborativa para confirmar suas palavras.

Quando 'Abdu'l-Bahá Se mudou para a casa nova em Haifa (a qual estava sendo usada por membros de Sua família em fevereiro de 1907, se não antes), os aposentos eram ocupados por todos os membros de Sua família; subseqüentemente, as famílias de duas de Suas filhas se mudaram para suas próprias casas próximas à Sua, mas a casa estava sempre cheia de parentes, crianças, servos, peregrinos e hóspedes. Em anos posteriores, quando Shoghi Effendi voltava da escola, ele ocupava um quarto pequeno junto ao de 'Abdu'l-Bahá. Como até pouco antes do falecimento de 'Abdu'l-Bahá não havia eletricidade instalada, sendo esta ligada somente depois de Sua ascensão, a família usava candeeiros. Muitas vezes o Mestre via a luz de Shoghi Effendi ainda acesa até altas horas da noite e Se levantava, indo à sua porta, dizendo, "Basta! Basta! Vá dormir!" Mas essa seriedade de Shoghi Effendi O deleitava. O Guardião me disse uma vez que o Mestre veio à sala de visitas, onde ele estava trabalhando, e ficou em pé, olhando para o jardim, de costas para Shoghi Effendi; as vozes da família em conversa, com risadas, podiam ser ouvidas de uma outra sala. 'Abdu'l-Bahá virou-Se para Shoghi Effendi e disse: "Não quero que você seja igual a eles - fútil." Numa outra ocasião, disse-me Shoghi Effendi, lembrava-se do Mestre dizendo à Sua esposa: "Contemple seus olhos, são como água clara." Shoghi Effendi relembrava também do Mestre, que estivera evidentemente olhando por uma janela que dava para o portão principal, e observara Shoghi Effendi entrar apressadamente e subir a escada. Mandara chamá-lo e lhe dissera: "Não ande dessa maneira, ande com dignidade!" Isso foi quando Shoghi Effendi já estava crescido e servia ao Mestre em muitas capacidades. Naquele tempo, antes de partir para Inglaterra, ele usava túnicas compridas, uma faixa ou cinturão e um fez vermelho na cabeça. Fotografias muitas vezes mostram o fez posicionado bem para trás em sua cabeça, uma onda de seu cabelo macio, castanho escuro, quase preto, sua fronte larga e sem rugas, seu rosto cheio, e sempre o belo, firme queixo e os olhos grandes que davam a impressão de serem escuros. Ele tinha uma boca com a característica peculiar de fazer o lábio inferior aparecer quase como uma marca do superior, sendo ambos de um tom distintamente vermelho. Após a juventude, usava sempre um pequeno bigode, escuro, bem aparado.

Antes das viagens do Mestre para o Ocidente, Seu lar era muito mais oriental em seus costumes. Pouco a pouco, alguns hábitos ocidentais foram introduzidos após Seu regresso. Eu registrei o seguinte no meu diário: "Shoghi Effendi acaba de me dar uma descrição muito vívida da hora do almoço no tempo do Mestre. Diz que, por volta das onze horas da manhã, o Mestre costumava entrar no grande salão e perguntar a Am Quli 'Sáat chandeh?' [Que horas são?] A função de Am Quli era dizer as horas. As serventes punham uma toalha no chão da velha sala de chá e empurravam, do corredor onde era guardada, uma enorme mesa redonda com pés baixos; elas a colocavam em cima da toalha e, sobre ela, alguns pratos de metal [provavelmente esmaltados] do tipo antigo e algumas colheres - nunca o bastante para todos, meramente ao acaso - também espalhando pão sobre a mesa e, na cabeceira, alguns guardanapos... O Mestre entrava e, sentando-Se, chamava 'bíyá'íd benshíníd' [venham sentar-se] a quem quer que lá estivesse - Seus genros, Seu tio, Seu primo, etc., etc. ...e Ele comia, algumas vezes com colher, algumas vezes com a mão. Às vezes servia aos outros, arroz, etc., com Sua própria mão. Quando Ele estava no meio do almoço, Khánum [a Folha Mais Sagrada] costumava chegar da cozinha e trocar suas chinelas na entrada do corredor... e, com um prato de petiscos, ia sentar-se ao lado do Mestre; seu lugar sempre era guardado. Pouco a pouco, vinham entrando algumas das outras pessoas, senhoras visitantes, crianças, as filhas do Mestre, etc. [O Mestre e os senhores, tendo comido primeiro, saíam da sala.] Shoghi Effendi diz que então havia balbúrdia, as crianças chorando, gritando, todo mundo falando, confusão geral. Diz que o que os netinhos [inclusive ele] ficavam a esperar era um bocado da comida de Khánum, que ela dava a um ou outro, porque sempre era mais gostosa. Chamavam isso de 'o bocado de Khánum'; geralmente o Guardião é que o recebia por ser o favorito dela! Depois de as senhoras da família terem almoçado, as serventes todas se sentavam na mesma mesa e comiam... Após o regresso do Mestre do Ocidente, foram gradativamente introduzidos mais modos ocidentais de comer, louças, talheres, cadeiras, e assim por diante."

Mas voltemos a 'Akká e aos primeiros anos de Shoghi Effendi. Embora não haja dúvidas de que 'Abdu'l-Bahá fazia tudo para garantir a Shoghi Effendi a infância mais feliz e despreocupada possível, deve ter estado inteiramente fora de questão esconder de uma criança tão sensível e inteligente o fato de que grandes perigos ameaçaram seu bem-amado Avô naqueles anos imediatamente precedentes à queda do sultão da Turquia. As visitas das autoridades turcas, mandadas para investigar as venenosas acusações dos rompedores do Convênio contra 'Abdu'l-Bahá, suas constantes maquinações contra Sua própria vida, a ameaça de separação e um novo exílio à Líbia, devem ter criado uma atmosfera de ansiedade e grande tensão na família do Mestre e não pode ter deixado de afetar Shoghi Effendi. Havia sido um tempo de violento rompimento do Convênio; a comunidade de seguidores que acompanhara Bahá'u'lláh no exílio, com exceção de um punhado de almas fiéis, fora, em sua maior parte, contaminada pelo germe dessa moléstia mortífera, sendo que alguns ligaram-se abertamente ao rebelde Muhammad 'Alí, meio-irmão de 'Abdu'l-Bahá, alguns mostrando franca simpatia por ele. Foi durante esses anos que 'Abdu'l-Bahá disse a Shoghi Effendi para nunca tomar café na casa de qualquer dos bahá'ís. Temia que esse precioso neto pudesse ser envenenado! Foi o próprio Shoghi Effendi que me disse isso e, quando recordamos que nesse tempo ele era apenas um menino, compreendemos como eram grandes os perigos que cercavam todos eles naqueles dias.

Talvez por causa dessa situação, que constantemente piorava, 'Abdu'l-Bahá mandou Shoghi Effendi, com sua ama, para Haifa, onde já residiam alguns crentes; a data exata dessa ocorrência, eu desconheço, mas foi enquanto era ainda um menino pequeno. O francês foi seu primeiro idioma estrangeiro e, embora em anos subseqüentes ele não se dispusesse a falá-lo oficialmente, achando que havia perdido sua fluência por desuso, ele mantinha, pelo menos aos meus ouvidos, um perfeito domínio da língua, e invariavelmente fazia todas as suas somas, como relâmpago, em francês. Por volta de 1907, ele estava morando com essa mesma ama, Hájar Khátún, que sempre havia estado com ele desde sua infância, na casa recém-construída de 'Abdu'l-Bahá, que se tornou Sua última residência e, mais tarde, a casa do Guardião. Foi nessa casa que Shoghi Effendi teve um sonho muito significativo, o qual ele me contou e eu anotei. Disse que ele, aos nove ou dez anos de idade, quando morava com sua ama nessa casa e freqüentava uma escola em Haifa, sonhou que ele e uma outra criança, um colega árabe, estavam na sala em que 'Abdu'l-Bahá costumava receber as visitas, na casa em 'Akká, na qual o Mestre residia e onde Shoghi Effendi nascera. O Báb entrou na sala e em seguida apareceu um homem com um revólver e disparou contra o Báb; em seguida, disse a Shoghi Effendi: "Agora é sua vez" e começou a persegui-lo em volta da sala a fim de atirar nele. Nisso, Shoghi Effendi acordou. Ele contou esse sonho à sua ama, que lhe disse para contá-lo a Mírzá Asadu'lláh e pedir a ele que o contasse ao Mestre. Mírzá Asadu'lláh anotou a narração toda e a enviou-a ao Mestre, cuja resposta foi a seguinte Epístola revelada para Shoghi Effendi. O estranho, disse Shoghi Effendi, é que foi justamente nesse período que 'Abdu'l-Bahá estava em grande perigo e escreveu um de Seus Testamentos, no qual nomeou Shoghi Effendi como Guardião.

Ele é Deus!
Meu Shoghi,

Este é um sonho muito bom. Podes ter a certeza de que o fato de teres atingido a presença de Sua Santidade, o Excelso, que minh'alma Lhe seja um sacrifício, é prova de haveres recebido a graça de Deus e obtido Sua maior bondade e supremo favor. O mesmo se aplica ao resto do sonho. É minha esperança que possas manifestar a efusão da Beleza de Abhá e, dia após dia, crescer em fé e conhecimento. À noite, ora e suplica e, durante o dia, faze o que ter for exigido.

'Abdu'l-Bahá

Shoghi Effendi se afeiçoara especialmente a essa ama, que é mencionada numa carta escrita por 'Abdu'l-Bahá à Sua irmã, onde diz: "Beija a flor do jardim da doçura, Shoghi Effendi, e transmite saudações a Hájar Khátún". Em meu diário, registrei: "Shoghi Effendi estava me contando esta noite o quanto ele ficou triste quando sua ama, que o havia criado, morreu em Alexandria. Disse que sua mãe estava resolvida a despedi-la quando ela envelhecesse, o que lhe causou mágoa e ressentimento, embora tivesse apenas nove ou dez anos. Ao receber a notícia de seu falecimento, ele estava em Carm, o sítio de seu pai. Ele me disse que saiu no escuro e chorou por ela - ele tinha nesse tempo cerca de doze anos. Sua devoção à sua ama era quase proverbial na família".

Shoghi Effendi começou a freqüentar a melhor escola de Haifa, a Collége des Fréres, dirigida por jesuítas. Disse-me que se sentia infeliz nessa escola. De fato, percebi, do que me contou, que nunca se sentiu realmente contente em qualquer escola ou universidade. Apesar de sua natureza inerentemente alegre, sua sensibilidade e sua procedência - tão diferentes dos outros em todos os aspectos - não podiam deixar de colocá-lo aparte e dar origem a muitas mágoas; de fato, ele era uma daquelas pessoas em quem o coração aberto e inocente, a inteligência aguda e a natureza carinhosa parecem se unir para lhes trazerem mais choques e sofrimentos na vida do que ocorre à maioria dos homens. Em vista de seu descontentamento neste colégio, 'Abdu'l-Bahá decidiu mandá-lo a Beirute, onde ficou como interno em outra escola católica e se sentia igualmente infeliz. Sabendo disso em Haifa, a família mandou uma bahá'í de confiança para alugar uma casa para Shoghi Effendi em Beirute, cuidar dele e servi-lo. Dentro de pouco tempo, ela escreveu ao seu pai, dizendo que ele estava muito descontente no colégio, às vezes recusando-se a ir à aula por vários dias, e estava emagrecendo e ficando abatido. Seu pai mostrou essa carta a 'Abdu'l-Bahá, que então providenciou a entrada de Shoghi Effendi na Faculdade Protestante da Síria, que possuía tanto um colégio quanto uma universidade, posteriormente conhecida como a Faculdade Americana de Beirute, na qual o Guardião entrou ao terminar o que então equivalia à escola secundária. Shoghi Effendi passava suas férias em casa, em Haifa, permanecendo o máximo possível na presença do Avô, que ele idolatrava e a Quem servir era o objeto de sua vida. Durante todo o período de seus estudos, Shoghi Effendi visava preparar-se para servir ao Mestre, interpretando para Ele e traduzindo Suas cartas para o inglês.

Shoghi Effendi disse-me que foi durante esses primeiros anos de estudo em Haifa que ele pediu a 'Abdu'l-Bahá que lhe desse um nome próprio a fim de que não mais fosse confundido com os primos, pois todos eram chamados de Afnán. O Mestre deu-lhe então o sobrenome de Rabbani, o qual significa "divino", e que foi usado também pelos seus irmãos e irmãs. Naquele tempo, não havia sobrenomes, as pessoas eram chamadas pelos nomes de suas cidades, ou do filho mais velho ou de algum membro proeminente de sua família.

É muito difícil traçar o curso exato dos acontecimentos desses anos. Todos os olhos se concentravam no Avô e, por mais que se amasse e respeitasse o neto mais velho, quando o sol brilha o candeeiro é ignorado! Algumas narrativas de peregrinos, como a de Thornton Chase, o primeiro bahá'í americano, que visitou o Mestre em 1907, mencionam o encontro com "Shogi Afnán". Chase, de fato, publicou uma fotografia que mostrava Shoghi Effendi em roupas que devem ter sido costumeiras para ele naquele tempo, calça curta, meias escuras compridas, com um fez na cabeça, uma jaqueta e uma enorme gola de marinheiro cobrindo-lhe os ombros. Não há, porém, bastante material disponível, atualmente, para preencher todas as lacunas. Mesmo aqueles que acompanharam 'Abdu'l-Bahá em Suas viagens ao Ocidente e mantinham diários detalhados, não pensavam em anotar muito sobre as idas e vindas de uma criança com apenas treze anos de idade quando 'Abdu'l-Bahá partiu para Suas visitas históricas à Europa e à América.

Tão logo foi libertado de Seu longo encarceramento e estabelecido residência permanente em Haifa, 'Abdu'l-Bahá começou a pensar nesta viagem. Um relatório publicado na América no Bahá'í News, em 1910, diz: "Pedistes um relato sobre a partida de 'Abdu'l-Bahá para o Egito. 'Abdu'l-Bahá não informou a pessoa alguma que pretendia partir de Haifa... em dois dias, chamou à Sua presença M. N., Shoghi Effendi, K. e este servo." Um dos bahá'ís lembra que, um pouco antes do pôr-do-sol, naquela tarde de setembro em que o navio de 'Abdu'l-Bahá zarpou em direção a Port Said no Egito, Shoghi Effendi estava sentado na escada da casa da Mestre, sentindo-se abandonado e desconsolado, e disse: "O Mestre está agora a bordo do navio. Deixou-me para trás, mas certamente há uma sabedoria nisso!" ou algo assim. Não há dúvida de que, conhecendo bem o que se passava no coração de Seu neto, o amoroso Mestre não perdeu tempo em mandar buscar a criança a fim de suavizar o impacto desta primeira séria separação dEle; não se tem encontrado, porém, outras referências a esse acontecimento. Sabemos que o Mestre permaneceu cerca de um mês em Port Said, indo então a Alexandria, em vez de seguir para a Europa, como era Sua intenção inicial. Não sabemos quanto tempo Shoghi Effendi permaneceu com Ele naquela ocasião no Egito, mas como a escola abria no princípio de outubro, presume-se que ele retornou à Síria. O que nós realmente sabemos é que, em abril de 1911, Shoghi Effendi estava outra vez com o Mestre, em Ramleh, subúrbio de Alexandria, pois um visitante bahá'í da América, Louis Gregory, o primeiro negro Mão da Causa, menciona seu encontro, no dia 16 de abril, com "Shogi", um formoso menino, neto de 'Abdu'l-Bahá, e diz que ele mostrava grande afeição pelos peregrinos. Em agosto daquele ano, o Mestre partiu em Sua primeira visita à Europa, da qual regressou em dezembro do mesmo ano. Quanto tempo passou antes de Ele mandar novamente buscar Seu neto mais velho para ficar com Ele, não sabemos, mas sabemos que Ele agora tinha um plano - talvez em virtude de Suas próprias impressões da Europa, ou por causa da imensa saudade que tivera de Seu neto - o de levar Shoghi Effendi Consigo para a América.

O próprio Guardião me contou que o Mestre havia encomendado para ele túnicas compridas e dois turbantes, um verde e um branco como Seu próprio, para Shoghi Effendi vestir no Ocidente; quando foram entregues e Shoghi Effendi os experimentou para mostrar a 'Abdu'l-Bahá, disse-me que os olhos do Mestre brilharam de orgulho e prazer. O que esta viagem ao Ocidente, na presença de 'Abdu'l-Bahá, teria significado para Shoghi Effendi é incalculável, mas foi impedida pelas maquinações de uma pessoa que mais tarde se tornou um pérfido e vil rompedor do Convênio, Dr. Amin Fareed, sobrinho da esposa de 'Abdu'l-Bahá, um membro do grupo que O acompanhou à América e que Lhe causou tão constante aflição que, segundo Shoghi Effendi, quando o Mestre regressou, finalmente, à Sua casa em Haifa, no dia 5 de dezembro de 1913, Ele foi imediatamente ao aposento de Sua esposa, sentou-Se e disse, numa voz fraca, acompanhada por um gesto de moer com a mão: "Doutor Fareed me triturou!" Nunca houve dúvida alguma na mente de Shoghi Effendi de que foi por causa de Fareed que ele foi impedido de fazer aquela viagem histórica.

No dia 25 de março de 1912, 'Abdu'l-Bahá, Shoghi Effendi e vários secretários e criados embarcaram de Alexandria para a Europa no S. S. Cedric da White Star Line. Quando o navio atracou em Nápoles, os inspetores de saúde italianos declararam que os olhos de um dos secretários, de um dos criados e de Shoghi Effendi estavam infeccionados, e exigiram que voltassem para o Oriente Médio. Em seu diário, Mírzá Mahmúd registra esses fatos e diz que, apesar de todos os esforços envidados por 'Abdu'l-Bahá, por aqueles que O acompanhavam e por amigos americanos, a esses três foi negado o privilégio de desembarcar e que as autoridades declararam que, ainda que permitissem o desembarque, as autoridades de saúde da América os mandariam voltar. Durante um dia inteiro, 'Abdu'l-Bahá fez todo o possível para mudar essa decisão, mas à noite, após uma triste despedida, Ele foi forçado a embarcar para América. As palavras que naquela noite Ele dirigiu àqueles que O acompanhavam, mostram claramente Sua convicção de que só por um pretexto falso é que Shoghi Effendi foi obrigado a voltar: "Esses italianos pensaram que fossemos turcos e assim nos apresentaram. Impediram três de nós. Um foi o secretário e outro, o cozinheiro; isto não foi importante. Mas este menino, Shoghi Effendi, estava indefeso, por que foram tão severos com ele? Eles nos maltrataram dessa maneira, embora Eu sempre tenha dado apoio e auxílio à sua comunidade, quer em Alexandria, quer em Haifa..."

Shoghi Effendi disse-me que não havia nada com seus olhos (ele sempre teve olhos muito fortes), mas Dr. Fareed havia insistido com 'Abdu'l-Bahá que deveria mandá-lo voltar, apresentando toda espécie de argumento em apoio à afirmação do médico italiano. O Guardião atribuía tudo à intervenção do próprio Fareed na situação, tão típica de sua desmedida ambição e das incessantes intrigas dentro das famílias orientais. Bem podemos imaginar quanto isso afligiria o coração de um jovem de quinze anos prestes a empreender a primeira grande aventura de sua vida e, mais especialmente no caso de Shoghi Effendi, tão ligado a seu Avô, tão entusiasmado pela viagem num enorme navio, a grande viagem para o Ocidente num tempo em que viagens tão longas eram relativamente raras e cheias de aventura! Ele sempre se lembrava deste episódio com tristeza, mas num comovente espírito de submissão aos constantes golpes que recebia durante toda a sua vida. É fácil dizer que foi a Vontade de Deus - mas quem sabe quantas vezes o próximo passo, planejado por Deus, é desviado para outro caminho, menos perfeito, pelas maquinações perversas dos homens? Não há dúvidas de que o Mestre ficou profundamente entristecido por esse acontecimento, mas teve que guardar silêncio, a fim de evitar que o segredo do futuro de Shoghi Effendi fosse revelado prematuramente e coisas ainda piores lhe sucedessem por causa da malícia e inveja dos outros.

Temos uma carta escrita por Shoghi Effendi, cerca de seis meses depois, a um dos secretários de 'Abdu'l-Bahá na América dizendo-lhe que, embora tivesse uma assinatura da Star of the West (Estrela do Ocidente), não havia recebido alguns números da revista, e pedia o favor de que se certificasse de que ele obteria todos os números que contivessem relatos sobre as viagens do Mestre na América. Dá como seu endereço o da Faculdade Protestante da Síria em Beirute, Síria, na qual, ele escreve, brevemente entrará. Assina seu nome "Choki Rabbani". Parece que, nos primeiros anos, ele escrevia seu nome deste modo e, algumas vezes, também "Shawki" ou "Shogi". Finalmente se tornou "Shoghi", de modo a indicar mais claramente sua pronúncia correta no inglês. Num caderno dessa época, em Beirute, ele escreveu seu nome com sua completa transliteração, Shawqí Rabbání, mostrando que estava ciente dessa forma - mas nunca a usou para seu próprio nome.

Os pensamentos de 'Abdu'l-Bahá, apesar da árdua natureza de Suas preocupações diárias durante aqueles meses fatigantes na América e posteriormente na Europa, devem ter sido dirigidos freqüentemente ao Seu bem-amado neto. Encontramos menções a Shoghi Effendi em três das cartas que durante Suas viagens o Mestre escreveu à Sua irmã, a Folha Mais Sagrada, Bahíyyih Khánum, as quais mostram Sua preocupação por Shoghi Effendi e revelam Seu grande amor por ele: "Escreve-me imediatamente sobre a condição de Shoghi Effendi, dando-me informações completas, nada escondendo; esta é a melhor maneira." "Beija a luz dos olhos da assembléia das almas espirituais, Shoghi Effendi." "Beija a flor fresca do jardim da doçura, Shoghi Effendi." Tais referências indicam claramente Sua preocupação a respeito de uma criança que nem sempre estivera bem e que, bem sabia, sentia terrivelmente Sua falta e sofria. Temos ainda uma Epístola de 'Abdu'l-Bahá dirigida a Shoghi Effendi, expressando preocupação com sua saúde, mas em que período foi escrita, desconheço:

Ele é Deus!

Shoghi Effendi, sobre ele esteja a glória do Todo-Glorioso! Ó tu que és de tenra idade e de semblante radiante, eu soube que estiveste doente e obrigado a repousar; não te preocupes, de vez em quando o repouso é essencial, senão, tal como 'Abdu'l-Bahá, devido à excessiva labuta, haverás de te tornar fraco, sem forças, incapaz de trabalhar. Descansa, portanto, por alguns dias, não importa. Espero que estejas sob o cuidado e a proteção da Abençoada Beleza.

Finalmente, a longa viagem chegou ao fim e o Mestre, com sessenta e nove anos de idade e exausto após Seu hercúleo labor, regressou ao Egito no dia 16 de junho de 1913. Sua família apressou-se para lá a fim de estar em Sua presença e, entre eles, Shoghi Effendi, que se encontrou com Ele cerca de seis semanas após Sua chegada. Se nos surpreendermos com o fato de ele não ter chegado ali muito antes, deveremos lembrar que a escola só encerrava suas atividades depois da primeira semana de julho, quando, então, Shoghi Effendi provavelmente deve ter tomado um navio de Beirute a Haifa (sendo que a alternativa era viajar por terra com uma caravana, uma maneira mais econômica, porém, mais demorada e árdua de chegar lá), onde se encontrou com alguns membros de sua família e então embarcou de Haifa para o Egito, chegando, na companhia da Folha Mais Sagrada e outros, no dia 1 de agosto em Ramleh, onde 'Abdu'l-Bahá novamente havia alugado uma casa de campo. Shoghi Effendi muitas vezes dizia que "o Mestre era como um oceano", querendo dizer que Ele podia acolher tudo e não mostrar qualquer sinal de perturbação. Não há melhor exemplo desse imenso autodomínio do que o registrado num diário de que 'Abdu'l-Bahá, depois de saber da chegada das duas pessoas que Ele mais amava no mundo, ficou sentado por uma hora com alguns bahá'ís e amigos antes de voltar pra casa para saudá-los! No dia 2 de agosto, o diário relata: "Hoje o Bem-Amado não veio nos ver durante a manhã porque estava recepcionando a 'Folha Mais Sagrada' e as outras pessoas amigas que haviam chegado com ela." Quando imaginamos a alegria dessa reunião e lemos esta referência tão corriqueira a ela, compreendemos algo da dignidade e da reserva que sempre rodeavam a família de 'Abdu'l-Bahá. Temos, entretanto, algumas indicações sobre a vida de Shoghi Effendi nesse ambiente: o velho costume de orações na presença de 'Abdu'l-Bahá fora renovado, e Shoghi Effendi entoava também, com sua jovem voz encantadora e, algumas vezes, 'Abdu'l-Bahá o corrigia e instruía. Nada havia de estranho nisso; eu mesma, muitas vezes, ouvia membros mais velhos da família corrigirem a melodia ou a pronúncia de alguém que recitava versos ou poemas em voz alta; o Mestre, sem dúvida, deve ter feito isso com Shoghi Effendi muitas vezes no decorrer dos anos. Intensamente ativo e sempre à disposição, durante os meses em que passou com 'Abdu'l-Bahá, antes de voltar aos seus estudos em Beirute, Shoghi Effendi se fazia constantemente útil ao Mestre, escrevendo as cartas que Ele ditava para os crentes persas, enquanto ficava sentado no jardim de Sua casa de campo, onde costumava tomar Seu chá e receber os hóspedes, atendia-O, levava Seus recados ou ia com outros, a Seu mando, para receber visitantes ou esperá-los na estação de trem. Conta-se que certa vez 'Abdu'l-Bahá mandou Shoghi Effendi mostrar o famoso parque e jardim zoológico de Alexandria a alguns amigos, e então ele visitou Cairo - onde imaginamos que ele não perdeu tempo e visitou as pirâmides, pois tinha um espírito de aventura e um grande desejo de visitar lugares distantes, o que é atestado pelo vivo interesse que mostrava, conforme relatado em algumas revistas de turismo enviadas a ele da América.

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ESSE MENINO NASCEU

"Verdadeiramente, esse menino nasceu e está vivo, e dele haverão de aparecer coisas maravilhosas... no futuro."

'Abdu'l-Bahá
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LOCAL DE NASCIMENTO DO GUARDIÃO

Nesta casa, Shoghi Effendi nasceu em 1897, na cidade-prisão de 'Akká.

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SHOGHI EFFENDI E SUA IRMÃ

Fotografada na cidade-prisão de 'Akká, cerca de 1902.

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SHOGHI EFFENDI, TIRADA DURANTE SEUS PRIMEIROS ANOS ESCOLARES.

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"Ó Deus! Este é um ramo que brotou da árvore de Tua misericórdia. ...confere-lhe o nome de Shoghi a fim de que ele possa ansiar por Teu Reino..."

'Abdu'l-Bahá
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O JOVEM ESTUDANTE EM SEU SOSSEGO
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O TRABALHO DO CARTÓGRAFO

Um dos primeiros mapas de Shoghi Effendi, desenhado em 1914, mostrando o Império Romano.

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'ABDU'L-BAHÁ EM FRENTE À SUA CASA

O futuro Guardião está na primeira fileira, terceiro pela direita, cerca de 1914.

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Havia tremenda movimentação em torno de 'Abdu'l-Bahá: peregrinos chegando do Oriente e do Ocidente, entre os quais célebres bahá'ís antigos como Lua Getsinger e Mírzá Abu'l Fazl, destinados a descansar finalmente, muitos anos depois, no Egito, sob o mesmo sepulcro; bahá'ís partindo para a Índia a fim de difundirem a Mensagem de Bahá'u'lláh; delegações de jovens estudantes bahá'ís de Beirute e da Pérsia; entrevistas concedidas pelo Mestre a representantes de imprensa e a pessoas distintas e de prestígio. Um de Seus secretários, que estivera com Ele na América, escreveu, nesta época, quão infinitas eram a graça e a felicidade desses dias preciosos na presença do Mestre. E se isso se registrou tão vividamente em sua mente e em seu coração, qual deve ter sido o efeito em Shoghi Effendi, tão desapontado por lhe haver sido negada a graça de acompanhar 'Abdu'l-Bahá na viagem ao Ocidente, tão sedento de Sua presença e de Suas notícias durante quase quinze meses de separação? Aos dezesseis anos, o coração é capaz de uma espécie de alegria que raramente se repete mais tarde na vida; apesar dos anos de guerra que logo chegariam, creio que esse período, até o falecimento do Mestre em 1921, foi o mais feliz de toda a vida de Shoghi Effendi.

Lembro-me de duas histórias relacionadas aos dias que Shoghi Effendi passou no Egito com o Mestre, os quais ele mesmo me contou. Disse que, um dia, depois de compartilharem uma refeição particularmente rica, o Mestre recordou os dias de Bagdá, quando Seu Pai regressara de Seu exílio voluntário nas montanhas de Sulaymáníyyih e todos estavam bem pobres - dias, porém, em que, da pena de Bahá'u'lláh manava tão grande torrente de escritos sublimes, os quais, noite após noite os bahá'ís se reuniam para ouvir entoar até o alvorecer, em êxtase nesta maravilhosa Revelação - e o Mestre disse que o gosto do pão seco e das tâmaras daqueles dias havia sido mais doce do que qualquer outro alimento do mundo. A segunda história surpreendeu-me - e esclareceu-me - muito; eu o ouvi contá-lo mais de uma vez: Shoghi Effendi disse que, um dia, estava voltando com o Mestre, de Alexandria e Ramleh, numa carruagem alugada, juntamente com um Páshá que ia à casa do Mestre como Seu hóspede; ao chegarem e descerem, o Mestre perguntou ao cocheiro, um homem alto e corpulento, quanto lhe devia, e o homem pediu um preço exorbitante; 'Abdu'l-Bahá recusou-Se a pagar, o homem insistiu, tornando-se abusivo a tal ponto que agarrou o Mestre pela faixa em volta de Sua cintura, sacudindo-O violentamente e insistindo nesse preço. Shoghi Effendi disse que essa cena na frente do distinto visitante deixou-o terrivelmente embaraçado. Ele era pequeno demais para ajudar o Mestre e se sentia humilhado e horrorizado. Mas não 'Abdu'l-Bahá, que Se manteve perfeitamente calmo e Se recusou a ceder. Quando o homem finalmente deixou de segurá-Lo, o Mestre pagou exatamente o que devia, dizendo que por sua conduta ele havia perdido a boa gratificação que tencionava dar-lhe, e foi embora, seguido de Shoghi Effendi e o Páshá! Sem dúvida, tal incidente ficou gravado por toda a vida no caráter do Guardião, que nunca permitiu que pessoa alguma o intimidasse ou lhe cobrasse demais, não se importando se isso causasse, ou não, embaraço ou inconveniência para ele próprio ou para aqueles que trabalhavam para ele.

O caráter que vimos em Shoghi Effendi como Guardião ele já o possuía na sua juventude e adolescência. Numa carta escrita por ele de Beirute, em 8 de março de 1914, a um dos secretários do Mestre em Haifa que ele bem conhecia, censura-o por não lhe ter escrito: "Já passou muito tempo sem que eu recebesse qualquer notícia de Haifa ou sequer uma palavra sua. Realmente, eu nunca esperava isso. É minha esperança que a escassez de correspondência se transforme em abundância de cartas cheias de boas-novas da Terra Santa." O jovem de dezessete anos é firme e principesco. Prossegue, esperando que "Nosso Senhor e Mestre esteja em perfeita saúde" e pede que toda e qualquer palestra e alusão feita pelo Mestre, e informação que Seu correspondente possa ter, com respeito à questão de um Tribunal Supremo, lhe seja enviada até o dia 20 de março. O vivo interesse com que acompanhava os discursos e pensamentos do Mestre reflete-se nessa carta bem como naquela em que ele pedia todos os exemplares de Star of the West que se referiam à visita de 'Abdu'l-Bahá à América. Há, nessa mesma carta, uma indicação ainda mais esclarecedora sobre os interesses e a natureza de Shoghi Effendi: "Estou bem perto de terminar o mapa dos Estados Unidos da América. É um mapa muito pitoresco e bonito. Queira me enviar a lista das cidades dos Estados Unidos visitadas por nosso Senhor, em ordem, uma após a outra. Poderei então localizá-las no mapa." O grande delineador de mapas do mundo bahá'í já estava em atividade!

Desde 1917 vemos que em seus cadernos Shoghi Effendi anotava os dias em que gelo era entregue na casa em que morava, em Beirute - tão típico da natureza metódica de todo o seu trabalho. Até o fim de sua vida, ele costumava tomar nota da data do recebimento de seu jornal, The Times de Londres, o qual sem dúvida ele havia formado o hábito de assinar quando residia na Inglaterra - provavelmente o melhor jornal diário de língua inglesa no mundo inteiro e o único jornal ao qual Bahá'u'lláh Se referira, por nome, em uma de Suas Epístolas. Nesses cadernos encontramos também uma enumeração detalhada do calendário bahá'í, os princípios básicos da Fé, notas em francês sobre o período dos Profetas Hebreus, cálculos solares e lunares, medidas, pesos, cópias de Epístolas e dados mostrando que se havia assenhoreado do sistema Abjad de numerologia, bem como diversas outras coisas. As características essenciais do Guardião estavam todas aí no rapaz.

Shoghi Effendi estava sempre se correspondendo com amigos bahá'ís por meio de cartas pessoais. Sabemos de uma dessas, endereçada a "Syed Mustafa Roumie" em Burma, assim datada: "Caiffa, Síria, 28 de julho de 1914", na qual diz estar muito satisfeito com as "boas-novas do progresso rápido da Causa no Extremo Oriente", que ele compartilhou essa carta com o Mestre e "um santo terno sorriso apareceu em Sua face radiante e Seu coração transbordou de contentamento. Então soube que o Mestre está em boa saúde, pois registrei Suas palavras, as quais cito agora: 'Todas as vezes e todos os lugares em que ouço as boas-novas da Causa, minha saúde física melhora.' Digo-lhe, portanto, que o Mestre está Se sentindo muito bem e está feliz. Transmita esta feliz notícia aos bahá'ís da Índia. Espero realmente que isso os fará duplicar sua coragem, sua firmeza e seu zelo em difundir a Causa."

Shoghi Effendi desempenhou também um papel predominante nas atividades dos estudantes bahá'ís em Beirute, por onde passavam muitos peregrinos provenientes da Pérsia e do Extremo Oriente, a caminho de Haifa e em seu retorno de lá. Numa outra carta, com o cabeçalho "Colégio Protestante Sírio, Beirute, Síria, 3 de maio de 1914" ele diz: "Na volta às nossas atividades universitárias, nossas reuniões bahá'ís, sobre as quais lhe falei, estão reorganizadas e somente hoje estamos mandando cartas, com boas-novas da Terra Santa, para as Assembléias Bahá'ís de vários países."

Em fevereiro de 1915, Shoghi Effendi ganhou o primeiro prêmio num concurso entre estudantes de primeiro e segundo anos - não se sabe para quê - dado pela União dos Estudantes. Ele era um bom estudante, mas ele mesmo nunca afirmou ter sido considerado brilhante ou excepcional. Há uma diferença muito grande entre uma mente astuta, aberta, perspicaz e lógica e a qualidade de cérebro, na maioria das vezes incentivada por ambição e vaidade, que conquista aplausos de professores e colegas. Nunca existiu vaidade na natureza de Shoghi Effendi, nem ambição alguma. Ele era inflamado por um motivo supremo - servir a 'Abdu'l-Bahá e aliviar Seus ombros de uma parte da carga de trabalho e preocupações. Numa carta datada de 15 de janeiro de 1918, enviada a Ele de Beirute por Shoghi Effendi, ele expressa isso em suas próprias palavras: "Já voltei aos meus estudos, dirigindo e concentrando neles todos os meus esforços e fazendo o melhor possível para adquirir aquilo que possa beneficiar e me preparar para servir a Causa no futuro." Shoghi Effendi havia acabado de voltar a Beirute de Haifa, evidentemente depois dos feriados de Natal, e escreveu "cheguei bem e contente à universidade", após ter enfrentado frio e chuva na viagem. Em cada frase significativa dessa carta, Shoghi Effendi deixa transbordar "meu amor e anelo por Vós" e conclui, dizendo: "Eu Vos mandei pelo correio um pedaço de queijo, esperando que Vos seja aceitável". Assinou: "Vosso servo humilde e submisso, Shoghi". Quando lembramos que, durante a guerra, estima-se que dezenas de milhares de pessoas morreram de fome no Líbano, esse presente, um pedaço de queijo, assume outras proporções.

Que os anos de guerra, durante a maior parte dos quais Shoghi Effendi estava estudando em Beirute para obter seu diploma de Bacharel em Artes, na Universidade Americana, lançaram sobre ele uma sombra profunda de ansiedade, apesar de sua natureza normalmente vivaz e alegre, evidencia-se numa passagem de uma de suas cartas, escrita em abril de 1919, na qual ele se refere aos "longos e tenebrosos anos de guerra, derramamento de sangue, fome e pestilência, quando a Terra Santa foi isolada das várias regiões do mundo e estava suportando o maior e mais severo grau de repressão, tirania e devastação..." Eram anos de perigo sempre crescente para seu bem-amado Avô, anos de fome terrível para grande parte da população, de privações para todos, inclusive sua própria família. À medida que a luta mundial se aproximava do fim, a ameaça de um bombardeiro a Haifa pelos Aliados crescia a tal ponto que 'Abdu'l-Bahá removeu Sua família para uma aldeia ao pé das colinas do outro lado da Baía de 'Akká, onde moraram por alguns meses e onde Ele também passou algum tempo. Mas a maior ameaça à vida do Mestre e à de Sua família veio no momento em que o Comandante-chefe turco, "o brutal, todo-poderoso e inescrupuloso Jamál Páshá, inimigo inveterado da Fé", como Shoghi Effendi o descreveu, tencionava crucificar o Mestre e Sua família inteira, segundo o Major Tudor Pole, oficial do exército vitorioso do General Allenby, que entrou em Haifa em agosto de 1918, e quem afirma que esse ato horrendo ia ser perpetrado dois dias antes de sua entrada mas fora frustrado pela rapidez do avanço britânico e pela conseqüente fuga precipitada das forças turcas. Supomos que nessa época Shoghi Effendi havia completado seus estudos em Beirute e estava com 'Abdu'l-Bahá, participando da agonizante incerteza daqueles dias. Parece-me estranho, enquanto escrevo isto, perceber que Shoghi Effendi tenha mencionado tão pouco os acontecimentos pessoais de sua vida; ele detestava histórias e não tinha tempo para reminiscências que se referiam à sua pessoa. Seu espírito e mente fatigados estavam, durante o período que tive o privilégio de estar com ele, inteiramente preocupados com o trabalho da Causa, a urgente tarefa a ser cumprida naquele momento, bem diante dele, esperando, pesando sobre ele cada dia.

Foi em 1918 que Shoghi Effendi recebeu seu diploma de Bacharel em Artes. Numa carta a um amigo da Inglaterra, com data de 19 de novembro daquele ano, ele escreveu: "Estou muito contente e privilegiado por poder me dedicar aos serviços de meu Bem-Amado, agora que completei meu curso em Artes e Ciências na Universidade Americana em Beirute. Estou tão ansioso e expectante por receber notícias de você e seus serviços na Causa, pois ao transmiti-las ao Bem-Amado, eu o deixarei contente, alegre e forte. Os últimos quatro anos têm sido de indizível calamidade, de opressão sem precedentes, de miséria indescritível, fome e aflições severas, de carnificina e luta sem paralelo, mas agora que o pombo da paz voltou para seu ninho e morada, surgiu uma oportunidade de ouro para a promulgação da Palavra de Deus. Agora ela será promovida e a Mensagem, difundida nesta região livre, sem a mínima restrição. Esta é, em verdade, a Era de Serviço." Nada poderia revelar mais do caráter do futuro Guardião do que essas linhas, nas quais sua devoção ao trabalho do Mestre, seu desejo ardente de fazê-Lo feliz e contente, sua breve descrição da posição atual de sua vida em relação a esse serviço, sua análise do significado do término da guerra para o futuro imediato do trabalho bahá'í, tudo isso é mostrado claramente. Seu nascente estilo retórico, ainda restrito por um domínio imperfeito da língua inglesa, porém já mostrando o esqueleto de sua futura grandeza, reflete-se em passagens como esta: "os amigos... estão todos... grandes e pequenos, velhos e moços, saudáveis e doentes, nativos e estrangeiros, contentes por causa dos recentes acontecimentos; são todos como uma só alma em diferentes corpos, unidos, em harmonia, servindo e visando servir à unidade do gênero humano".

Shoghi Effendi tinha, então, vinte e um anos. Sua relação pessoal com 'Abdu'l-Bahá é claramente mostrada em algumas dessas primeiras cartas, a maior parte escrita em 1919, nas quais ele se refere a "meu Avô, 'Abdu'l-Bahá" e ele próprio assina "Shoghi Rabbani (neto de 'Abdu'l-Bahá)". Devemos lembrar que, nos meses imediatamente após o término da guerra, quando estava sendo restabelecido o contato entre o Mestre e os bahá'ís em tantos países que haviam sido privados de se comunicar com Ele durante os longos anos das hostilidades, era sumamente desejável que tanto bahá'ís como não-bahá'ís soubessem quem era este "Shoghi Rabbani", que agora atuava como secretário e braço direito do Mestre. A revista Star of the West, em sua edição de 27 de setembro de 1919, publicou uma fotografia de corpo inteiro de Shoghi Effendi, intitulada "Shoghi Rabbani, Neto de 'Abdu'l-Bahá", e diz que é tradutor de Epístolas recentes e que suas Cartas Diárias começam neste número. Eu, pessoalmente, conhecendo por experiência própria o esmero com que o Guardião dirigia até mesmo as minúcias no Centro Mundial, creio que provavelmente o próprio Mestre o instruiu a deixar clara a sua relação de parentesco.

O trabalho de 'Abdu'l-Bahá aumentava dia a dia com as torrentes de cartas, relatórios e, afinal, peregrinos que chegavam a Haifa. Isso se reflete nas cartas pessoais de Shoghi Effendi a vários amigos bahá'ís: "... esta interrupção em minha correspondência contigo é devida unicamente à grande pressão de trabalho relativo à escrita de Epístolas que são ditadas e à tradução das mesmas... Passei a tarde inteira traduzindo para Ele apenas o conteúdo de uma parte das súplicas de Londres." E termina dizendo: "Anexo duas fotografias por amor bahá'í e afeto particular por ti..." "Minha cabeça está rodando, tão cheio de ocupações e acontecimentos foi o dia. Nada menos que uma vintena de solicitantes, desde um príncipe e um páshá até um simples soldado raso, pediram entrevistas com 'Abdu'l-Bahá." "O Bem-Amado, desde a manhã até a noite, mesmo até à meia-noite, está ocupado revelando Epístolas, emitindo Seus construtivos e dinâmicos pensamentos de amor e princípios para um mundo triste e desiludido." "Enquanto escrevo estas linhas, sinto-me, outra vez, impelido a me apresentar em Sua presença e registrar Suas palavras em resposta às súplicas recém-chegadas". Cada palavra reflete a ilimitada energia, devoção e entusiasmo desse jovem príncipe ao lado do velho rei, servindo e apoiando-O com toda a vitalidade de sua juventude e o incomparável ardor de sua natureza.

Shoghi Effendi freqüentemente acompanhava o Mestre ao sempre crescente número de funções oficiais às quais Ele era convidado. Isto inclui visitas ao Governador Militar Britânico de Haifa e entrevistas com o comandante supremo, Sir Edmund Allenby, o general que comandara as forças aliadas na Palestina e que mais tarde veio a ser Lorde Allenby e foi o principal responsável pela decisão do governo britânico de conceder a 'Abdu'l-Bahá o título de cavaleiro. Shoghi Effendi escreveu: "Esta foi a segunda vez que 'Abdu'l-Bahá visitou o general e, desta vez, a conversação se focalizou na Causa e seu progresso... Ele é uma figura muito gentil, modesta e impressionante, muito afetuoso, porém imponente em seus modos." Nesses círculos, o neto de 'Abdu'l-Bahá estava agora se tornando conhecido. Uma carta oficial do Governador Militar a 'Abdu'l-Bahá, diz: "Vossa Eminência: Hoje recebi de vosso neto a quantia de ______". Isso foi em resposta à visita de Shoghi Effendi com o fim de lhe entregar mais uma contribuição do Mestre ao "Haifa Relief Fund" (Fundo Assistencial de Haifa). Shoghi Effendi também passava muito tempo com os peregrinos, não só na presença de 'Abdu'l-Bahá, quando avidamente obtinha deles informações detalhadas a respeito do progresso das atividades bahá'ís nos vários países.

Embora o trabalho do Mestre tivesse aumentado a tal ponto que muitas pessoas constantemente se ocupavam em servir e assisti-Lo, nenhuma delas, certamente, era comparável a Shoghi Effendi. Lembro-me que o Guardião me contou como um dos mais antigos bahá'ís americanos enviara como presente para o Mestre um automóvel Cunningham (creio que deve ser ter sido no princípio do ano de 1920); o aviso de sua chegada ao cais do porto veio justamente no fim de semana e o Mestre instruiu Shoghi Effendi a tratar de despachá-lo na alfândega e mandar entregá-lo em casa. Shoghi Effendi disse-me que, embora no dia seguinte não houvesse nenhum alto oficial no porto, pois não era dia útil, ele conseguiu que o carro fosse entregue e, quando chegou, foi informar ao Mestre que o mesmo estava lá fora. Disse-me que o Mestre ficou muito admirado e extremamente satisfeito, e lhe perguntou como havia conseguido fazer isso. Shoghi Effendi disse-Lhe que havia levado os documentos às casas dos vários oficiais e lhes pedido que os assinassem e que dessem as ordens necessárias para que o carro de Sir 'Abdu'l-Bahá Abbás Lhe fosse entregue imediatamente. Essa foi a maneira típica com que Shoghi Effendi trabalhou durante sua vida inteira. Ele sempre queria tudo feito imediatamente, ou ainda mais cedo do que isso, e tudo o que dependesse de seu controle pessoal progredia justamente com essa rapidez.

Aonde quer que 'Abdu'l-Bahá fosse, sempre que possível, o bem-amado neto O acompanhava. Esse constante companheirismo, que durou cerca de dois anos, deve ter sido motivo de grande satisfação para ambos e exercido uma influência profunda e decisiva sobre Shoghi Effendi. Durante esses anos, enquanto a estrela da fama de 'Abdu'l-Bahá subia mais alto, tanto local como internacionalmente, Shoghi Effendi teve a oportunidade de observar como o Mestre tratava os altos oficiais e os numerosos homens de distinção que eram atraídos Àquele que muitos consideravam nada menos que um profeta oriental e a maior figura religiosa da Ásia, e também como o Mestre Se comportava diante das sempre presentes inveja e intriga de Seus inimigos e mal-intencionados. As lições aprendidas por Shoghi Effendi iriam refletir-se nos trinta e seis anos de seu próprio ministério na Fé de Bahá'u'lláh.

Numa carta a um amigo, com data de 18 de fevereiro de 1919, Shoghi Effendi escreve que está em Bahjí com o Mestre, começando assim: "Saudações com as mais gratas lembranças a você, meu amigo tão distante, deste sagrado lugar!" Prossegue descrevendo a tranqüilidade de Bahjí, depois da crescente atividade na cidade de Haifa, e diz: "O ar lá estava cheio de gases e vapores emitidos constantemente pelas máquinas a vapor e motores, enquanto a atmosfera daqui é a mais pura, a mais clara e a mais fragrante possível." Quando lembramos que já em 1923 fui a Bahjí na carruagem de 'Abdu'l-Bahá, e que em 1918, na Palestina pós-guerra, o tráfego de automóveis era praticamente inexistente, devemos supor que Shoghi Effendi gostava imensamente da natureza - o que de fato é verdade! Sua descrição do Mestre, visitando o Sepulcro Sagrado duas vezes no dia e passeando no bosque florido, reflete seu contentamento naqueles dias preciosos, junto ao seu Bem-Amado. Mas o fim dessa bem-aventurança para Shoghi Effendi aproximava-se rapidamente. Fora decidido agora que ele fosse à Inglaterra para entrar na Universidade de Oxford, sendo sua finalidade declarada o aperfeiçoamento de seu inglês para que pudesse melhor traduzir as Epístolas de 'Abdu'l-Bahá, bem como os outros escritos sagrados, para tal idioma.

A decisão de Shoghi Effendi de deixar 'Abdu'l-Bahá, após menos de dois anos passados constantemente em Seu serviço e num tempo em que a vasta correspondência pós-guerra do Mestre aumentava constantemente, foi baseada em vários fatores: se ele pretendia prosseguir com seus estudos, quanto mais cedo o fizesse, melhor; 'Abdu'l-Bahá tinha agora algumas outras pessoas atuando como Seus secretários; o primo mais velho de Shoghi Effendi havia terminado seus estudos em Beirute e estava agora em casa; a situação e os planos do próprio Mestre estavam propícios e, acima de tudo, Sua saúde havia melhorado bastante. Em 1918, Tudor Pole, que estava com o exército vitorioso de Allenby na Palestina, escreveu: "... o Mestre está vigoroso e com mais saúde do que quando esteve em Londres." Shoghi Effendi, em suas próprias cartas, escritas respectivamente em abril e agosto de 1919, confirma isto: "O Bem-Amado está com perfeita saúde, forte e vigoroso, feliz e jubiloso..." "O amado Mestre está deveras ótimo de saúde, fisicamente forte, sempre ativo, revelando centenas de Epístolas por semana, lendo inúmeras súplicas, recebendo muitos visitantes e peregrinos e muitas vezes acordando à meia-noite para meditar e orar." Nesse mesmo período, numa carta a amigos na Inglaterra e em Burma, Shoghi Effendi comunica a espantosa notícia de que 'Abdu'l-Bahá estava considerando seriamente outra longa jornada: "O que é significativo e atraente é a notificação do próprio Bem-Amado de que Ele está fazendo planos e pensando em atravessar o Oceano Índico. Até mesmo declarou que, se fosse a vontade de Deus, desejava empreender uma viagem à Índia e dali à Indochina, Japão e ilhas do Havaí, de lá atravessar o continente americano até vossa amada cidade de Londres, então à França, Alemanha e Egito. Oh! Como é fervorosa, profunda e sincera a nossa esperança de que seja empreendida tão grande viagem, a qual duraria, segundo Sua própria determinação, quatro ou cinco anos. Sejamos esperançosos e preparemo-nos para isso". "Recentemente, o Bem-Amado anunciou Sua intenção de viajar à Índia e esperamos que isto se realizará brevemente, e a Índia, através da unidade e energia dos amigos, adquirirá a capacidade de recebê-Lo."

Pouquíssimos de nós imaginamos, menos ainda quando temos vinte e três anos de idade, que os nossos entes queridos possam morrer, quanto menos quando estão com excelente saúde e planejando uma viagem como essa! Não é, pois, de se admirar que Shoghi Effendi tenha se despedido de 'Abdu'l-Bahá, na primavera de 1920, com a consciência tranqüila, acreditando plenamente que regressaria a Seu lado, melhor preparado para servi-Lo e, não tenho dúvida, confiante em seu próprio coração de que desta vez certamente acompanharia seu Avô nessa viagem tão maravilhosa, tendo o privilégio de servi-Lo dia e noite por muitos anos ainda. Na expectativa desses anos que pareciam estender-se diante de 'Abdu'l-Bahá, Shoghi Effendi não levou em conta Sua idade (o Mestre estava então com setenta e seis anos) nem considerou aquele fator que tantas vezes frustra nossos corações e nossas esperanças para sempre - a invisível intervenção da Providência em nossos planos e nossas vidas. O quanto foi terrível esse golpe para o jovem Guardião, quando este repentinamente lançou-se sobre ele, é refletido em suas próprias palavras angustiadas, numa carta escrita por ele, a um primo distante, em fevereiro de 1922, poucos meses após o falecimento de seu Avô: "Ah, que amargo remorso levarei comigo ao meu túmulo por ter estado longe dEle - em Seus últimos dias - nesta terra, não importa o que eu possa fazer por Ele no futuro, não importa a que ponto meus estudos na Inglaterra possam retribuir Seu maravilhoso amor por mim."

Uma informação adicional significativa a respeito de sua vida como Guardião, e de sua morte prematura aos sessenta anos de idade, é que, embora Shoghi Effendi fosse apenas um jovem em 1920, quando 'Abdu'l-Bahá o enviou para que continuasse seus estudos, na companhia de Lotfu'lláh Hakim, que estava retornando para Inglaterra depois de sua primeira peregrinação a Haifa, o Mestre insistiu que primeiro fosse a uma clínica de repouso para um bom descanso. Isto mostra quão esgotados devem ter estado os nervos de Shoghi Effendi depois de longos anos de guerra e de contínua tensão, do pesado trabalho do pós-guerra e da intensa atividade a serviço do Mestre, e como naquele tempo seu Avô era atencioso em relação à sua saúde. Shoghi Effendi descansou como lhe havia sido recomendado, numa clínica em Neuilly, subúrbio de Paris. Ele não estava doente, mas exausto; reuniu-se com os bahá'ís de lá, jogou um pouco de tênis, fez algumas excursões turísticas, familiarizando-se com uma cidade que é em si tão bela e possui um dos maiores museus do mundo, visitou alguns bahá'ís na cidade de Barbezieux e em julho, após uma estada de dois meses, seguiu para a Inglaterra.

Lá ele foi recebido pelos muitos devotados amigos de 'Abdu'l-Bahá com genuíno amor e afeto. Alguns deles ele já conhecia pessoalmente, tal como Dr. J. E. Esslemont, que recentemente estivera em Haifa e colaborou com ele e outros amigos na tradução de uma importante Epístola do Mestre; Major W. Tudor Pole, que havia conhecido 'Abdu'l-Bahá durante Sua permanência em Londres e estivera na Palestina com o Exército Inglês de Ocupação, prestando aos crentes toda assistência ao seu alcance; e Lorde Lamington.

Shoghi Effendi levava consigo cartas de seu Avô a alguns de Seus amigos ingleses, conforme atesta uma carta que ele escreveu, pouco após sua chegada, à esposa de 'Alí Kuli Khán na França:

28 de julho de 1920
Minha mui querida irmã bahá'í,

Tenho estado terrivelmente ocupado desde que pisei em solo britânico e, até agora, o progresso de meu trabalho tem sido admirável. Munido com as Epístolas do Mestre para Lady Blomfield, Lorde Lamington e Major Tudor Pole, tenho, por seu intermédio, entrado em estreito contato com eminentes catedráticos e orientalistas, tanto da Universidade de Oxford como de Londres. Tendo obtido apresentações e recomendações de Sir Denison Ross e do Professor Ker para o Sir Walter Raleigh - professor e conferencista sobre literatura inglesa em Oxford - e para o Professor Margoliouth - notável professor de árabe e orientalista, da mesma universidade - apressei-me a Oxford depois de haver passado uma semana muito ocupada em Londres. De fato, antes de partir para Oxford eu recebera uma carta de Margoliouth dizendo que faria tudo ao seu alcance para ser útil a um parente de 'Abdu'l-Bahá. Com este homem e com o diretor da Balliol College - uma faculdade onde se formaram grandes homens como Lorde Grey, Earl Curzon, Lorde Milner, Sr. Asquith, Swinburne e Sir Herbert Samuel - tive oportunidade de falar sobre a Causa e esclarecer alguns pontos que até então haviam estado confusos e incertos para esses eruditos tão ocupados.

Ore por mim, assim como lhe pedi na véspera de minha partida, para que neste grande centro intelectual eu possa atingir meu objetivo e realizar meu propósito. ...

De especial interesse é uma carta escrita por Lorde Lamington ao Mestre poucos dias depois:

8 de agosto de 1920
Meu caro Amigo,

Tive muita satisfação em receber sua carta trazida por Shoghi Rabbani e em saber por seu intermédio que o Senhor está com saúde. Ele mesmo parecia estar bem de saúde, e novamente fiquei impressionado pela sua inteligência e sua maneira franca e honesta.

Espero que ele possa receber a instrução que procura em Oxford. Ele veio à Câmara dos Lordes dois ou três dias, mas receio que nenhuma dessas ocasiões tenha sido de grande interesse...

A correspondência acima nos dá uma indicação do tempo em que Shoghi Effendi esteve em Londres; como era portador de uma carta de 'Abdu'l-Bahá a Lorde Lamington, podemos presumir que ele não perdeu tempo em apresentá-la a ele, e podemos também imaginar que a ansiedade do jovem por ver o funcionamento da Mãe dos Parlamentos não podia ser escondida do bondoso e experiente fidalgo, que teria conseguido a admissão de Shoghi Effendi a algumas das sessões da Câmara. O Guardião sempre tinha um vivo interesse em assuntos políticos, mantinha-se bem informado e apreciava presenciar as sessões da Câmara dos Lordes e Câmara dos Comuns. Lembro-me que, depois de nosso casamento, quando fomos juntos a Londres pela primeira vez, ele me levou à Câmara dos Comuns e ficamos sentados na galeria dos visitantes durante uma das sessões. Se isso foi uma grande experiência para mim - ainda tão deslumbrada e enlevada pela recente honra de ser permitida a ter tão íntima associação com o Sinal de Deus na terra - pode-se imaginar quanto isto extasiava e impressionava a Shoghi Effendi como um jovem. Ele ficou conhecendo Londres bem, durante esse período na Inglaterra, e visitou seus lugares famosos. Em mais de uma ocasião, quando fomos juntos a lugares como a Abadia de Westminster, a Catedral de St. Paul, a Torre de Londres, o Museu Britânico, a Galeria Nacional, o Museu de Vitória e Alberto, a Cidade, os Jardins de Kew, etc., compreendi quantas lembranças essa célebre cidade lhe havia deixado desde seus dias de estudante. Sem dúvida, ele via também outras partes da Inglaterra tanto quanto lhe era possível com a muito modesta mesada de estudante que recebia de 'Abdu'l-Bahá. Eu soube, das coisas que me contou, que ele fazia muita economia, tal como comprar um ferro elétrico com o qual passava as suas roupas!

Shoghi Effendi visitou o Dr. Esslemont mais de uma vez em sua clínica particular em Bournemouth. Uma fotografia mostra os dois, as cabeças juntas, em frente do prédio, e uma carta de Shoghi Effendi a um certo Dr. Hall, escrita depois do falecimento de Esslemont, expressa eloqüentemente o que essas visitas lhe significavam: "Hei de recordar sempre os dias felizes e tranqüilos que passei em Bournemouth na companhia de nosso falecido amigo John Esslemont, e não esquecerei as horas agradáveis que passamos juntos enquanto fazíamos nossas refeições na clínica." Enquanto nessa parte da Inglaterra, Shoghi Effendi havia visitado também a estação balneária de Torquay. Muitos anos depois, iríamos lá juntos, e o Guardião me mostrou as famosas dunas de Babbacombe e passeamos no parque que ele visitara havia tanto tempo - um parque com caminhos vermelho-escuros, que creio, eram os que o haviam impressionado pela beleza dos caminhos vermelhos e gramados verdejantes juntamente com os vasos ornamentais e que, anos depois, o inspiraram a copiá-los em seus próprios belos jardins em Bahjí e no Monte Carmelo.

A lembrança daqueles dias de estudante jamais esmoreceu, realmente, em Shoghi Effendi. Posso lembrar de uma vez que, nos últimos anos de vida, ele contou a um peregrino inglês o quanto ele havia apreciado as fatias grossas de pão integral com geléia de framboesa e creme de Devonshire.

Durante sua estada na Inglaterra, tinha sido particularmente íntimo de um velho e fiel crente persa que morava em Londres, Zia'u'lláh Asgarzadeh, como também do Dr. Esslemont, Lady Blomfield e outros, e de alguns dos bahá'ís de Manchester. Apesar de passar a maior parte de seu tempo em Oxford e se concentrar em seus estudos, ele estava intimamente ligado à Comunidade Bahá'í Britânica e participava de suas atividades. Numa carta datada de 5 de maio de 1921, escrita por um crente indiano que estava na Inglaterra, lemos que: "Na quarta-feira à noite fui assistir à reunião bahá'í costumeira no Lindsay Hall. O Sr. Shoghi Rabbani leu um trabalho que tratava dos problemas econômicos e sua solução. Seu trabalho foi expresso em bela linguagem e estava muito bom..." Tem-se a impressão de que a leitura de seus trabalhos não era confinada a reuniões bahá'ís, pois numa carta da Balliol College a um dos crentes, ele afirma: ", ele afirma: "Eu também lhe enviarei um trabalho sobre o Movimento que eu li há algum tempo em uma das associações de diretores em Oxford."

Oxford e Cambridge ainda são palavras prestigiosas; em 1920, reluziam num isolamento acadêmico até mesmo mais esplendoroso do que hoje em dia, quando universidades e educação universitária se tornaram mais comuns. Balliol, na qual Shoghi Effendi foi admitido, era da mais alta categoria, sendo uma das mais antigas faculdades de Oxford. A esse lugar também fui, anos depois, conduzida pelo Guardião, a fim de ver as ruas pelas quais ele passara, a Biblioteca de Bodleian, o rio plácido cercado de relva nas suas margens além dos portões de ferro batido, até a milenar Christ Church [Igreja de Cristo], com sua enorme cozinha e belíssima teia de arcos góticos, a Magdalen e suas belezas, e ao tranqüilo pátio dentro dos muros de Balliol que Shoghi Effendi atravessava para ir às suas aulas, ao refeitório em que comia, e para contemplar a entrada estreita que conduzia ao quarto no qual ele morava quando estudante. Tudo isso, obviamente, continha muitas memórias para ele, mas creio que poucas eram memórias realmente felizes.

Há muitos anos, um dos bahá'ís escreveu ao Guardião a respeito de uma conversa com A. D. Lindsay, que naquele tempo havia se tornado diretor de Balliol, e que no tempo de Shoghi Effendi havia sido seu orientador. Guardei uma cópia de suas palavras; deve-se lembrar que foram ditas numa breve conversação informal e não numa entrevista especial. "A idéia de Shoghi Effendi a respeito de educação era descobrir alguém cujas opiniões fossem válidas para ele e então questioná-lo. Ao obter suas respostas, Shoghi Effendi as escrevia todas num livrinho preto. Eu havia informado meu horário;* Shoghi Effendi procurou-me e perguntou: 'O que você faz entre sete e oito e meia?' 'Ora, eu janto!', exclamei. 'Oh!' disse Shoghi Effendi com óbvio desapontamento, 'mas é necessário esse tempo todo?' Eu não havia visto em Oxford avidez tão grande pelo conhecimento. Assim eu lhe dei mais um quarto de hora e me contentei com menos jantar. E assim foi - sofri por ele." Esse incidente decorre do fato de Shoghi Effendi querer que seu orientador lhe desse mais tempo do que já lhe havia sido determinado. Apesar destas observações, benévolas em seu intuito, não há evidências de que esse erudito tivesse a mais ligeira noção do fato de que sua única verdadeira distinção aos olhos da posteridade seria ter sido o orientador de Shoghi Effendi. Embora todos na faculdade, quanto mais esse orientador, soubessem por que Shoghi Effendi havia interrompido seus estudos e voltado para a Palestina, não se encontra nenhuma carta que expresse o menor sentimento pessoal por seu aluno.

*Aqui a autora brinca com as diferentes pronúncias: "schedule (como dizemos na Inglaterra, skedule como vocês dizem nos Estados Unidos)" (n.r.)

Houve, no entanto, um intercâmbio de cartas entre eles porque em 1927 Shoghi Effendi escreveu ao Dr. Lindsay C. B. E. dizendo que estava lhe enviando o Bahá'í Year Book [Anuário Bahá'í] "mostrando o caráter do trabalho em que me tenho ocupado continuamente desde que, repentina e lastimavelmente, fui obrigado a me retirar de Balliol." E prossegue dizendo: "A inestimável assistência que recebi sob sua orientação tem provado ser de grande benefício em minha árdua tarefa de grande responsabilidade e dou as boas-vindas a esta oportunidade de expressar minha grata apreciação por tudo o que fez para mim." Mais de dois anos depois, Lindsay, num apelo dirigido a todos os velhos membros, por fundos, para alguma coisa em benefício da Faculdade, lhe agradece o livro. Shoghi Effendi respondeu no dia seguinte, incluiu uma contribuição de 20 libras, e lhe agradeceu a carta que "serviu para me fazer lembrar os dias felizes e proveitosos que passei sob sua orientação em Balliol". Embora fosse tão alta a posição do Guardião, sua modéstia e seu senso de justiça, bem como sua cortesia, sempre o impeliram a dar crédito onde quer que achasse justo. Em 1923, numa carta ao Professor Dodge da Universidade Americana de Beirute, ele se referiu a "essa grande instituição educacional no Oriente Próximo, à qual me sinto tão profundamente obrigado..."

A atitude do Professor D. S. Margoliouth e de sua esposa foi muito diferente, pois em 1930, ao agradecer Shoghi Effendi por um livro que ele lhes mandara, ela escreve: "Gostamos de recordar o prazer que tivemos em recebê-lo nesta casa durante sua estada demasiadamente curta em Oxford". Sabemos que esta não foi a única casa que o recebeu, pois temos uma carta escrita por ele a uma certa Sra. Whyte, cinco anos depois de sua partida da Inglaterra, na qual diz: "Sempre me lembrarei, com as mais vivas e agradáveis recordações, sua valiosíssima ajuda a mim bem como sua generosa hospitalidade durante minha estada em Oxford... Seu sempre grato e afetuoso amigo, Shoghi".

No registro universitário de 1920 descobrimos que o Guardião havia designado a si mesmo, de seu próprio punho, como Shawqí Hádí Rabbání primeiro filho de Mírzá Hádí Shírází, 23 anos. Num caderno que ele tinha, encontramos a seguinte lista, cuidadosamente anotada por ele, que mostra as datas em que começou seus estudos em 1920:

14 de outubro de 1920 Ciências Políticas: Rev. Carlyle

15 de outubro de 1920 Problemas Sociais e Políticos: Sr. Smith (Diretor de Balliol)

13 de outubro de 1920 Questões Sociais e Industriais: Rev. Carlyle

12 de outubro de 1920 Economia Política: Sir T. H. Penson (Mestre em

Ciências Humanas)

16 de outubro de 1920 História da Economia Inglesa Sr. Penson

desde 1688:

11 de outubro de 1920 Lógica: Sr. Ross (Mestre em Ciências

Humanas)

12 de outubro de 1920 A Questão Ocidental: F. F. Urquhart (Mestre em

Ciências Humanas)

19 de outubro de 1920 Relação de Capital e Trabalho: Clay, New College

Ele tomava notas de algumas dessas aulas, pelo menos daquelas que freqüentava pela primeira vez. Sua própria idéia da razão por que estava em Oxford era perfeitamente clara; felizmente, temos uma expressão disto numa carta escrita pelo Guardião a um crente oriental em 18 de outubro de 1920: "Meu caro amigo espiritual... Louvado seja Deus, estou com boa saúde, cheio de esperança e me esforçando o máximo possível em preparar-me para aquelas coisas de que precisarei em meu futuro serviço à Causa. É minha esperança poder adquirir rapidamente o melhor que este país e esta sociedade podem oferecer e então regressar para meu lar e dar uma nova forma às verdades da Fé, servindo assim ao Sagrado Limiar." Sem dúvida, ele se referia à sua futura tradução dos ensinamentos para o inglês perfeito do qual lançou os alicerces durante sua estada na Inglaterra.

Em 22 de novembro de 1921, uma carta dirigida a um dos crentes ingleses mostra claramente os avanços de Shoghi Effendi em seu trabalho em Oxford; percebe-se uma nova mestria e auto-confiança. "... Ultimamente tenho estado imerso no meu trabalho, revisando muitas traduções, e enviei ao Sr. Hall a minha versão da Epístola à Rainha Vitória, que é repleta dos mais vitais e significativos conselhos de âmbito mundial, tão urgentemente necessários a este mundo triste e desiludido! Se ainda não o tiver examinado, certamente poderá obtê-lo de Sr. Hall, pois, em minha opinião, é um dos mais destacados e enfáticos pronunciamentos de Bahá'u'lláh sobre questões mundiais." Ele continua dizendo que está anexando excertos, "alguns novos e outros velhos", que ele fez "no decorrer de minhas leituras em Bodleian sobre o Movimento." Numa carta em persa, deste mesmo período, escrita a um amigo em Londres, ele se refere ao fato de que "nesta terra, estou me dedicando dia e noite ao meu aperfeiçoamento na arte de traduzir... Não descanso nem por um minuto. Agradeço a Deus por ao menos até certo ponto o resultado ser bom." Ele diz que suas preocupações e estudos, bem como os regulamentos da faculdade, são tais que ele está livre apenas aos domingos e que seu amigo pode vir vê-lo no domingo na Rua Broad, 45.

Desde seus dias em Beirute até praticamente o fim de sua vida, Shoghi Effendi tinha o hábito de escrever vocabulários e frases típicas inglesas em cadernos de notas. Centenas de palavras e sentenças foram registradas, o que indica claramente seus anos de cuidadoso estudo dedicados ao domínio da língua que ele amava e com a qual se deleitava. Para ele não havia nada como o inglês. Era grande leitor da Bíblia na versão King James, e dos historiadores Carlyle e Gibbon, de cujos estilos era grande admirador, especialmente o de Gibbon, cujo Decline and Fall of the Roman Empire [Declínio e Queda do Império Romano] Shoghi Effendi gostava tanto que jamais me recordo dele sem um volume dessa obra por perto em seu quarto e geralmente quando viajava. Havia um pequeno exemplar de um Everyman com uma parte dessa obra próximo à sua cama quando ele faleceu. Era sua bíblia de estimação da língua inglesa e, muitas vezes, ele lia trechos para mim, fazendo interrupções com exclamações como estas: "Oh, que estilo; que domínio do inglês; que sentenças sonoras; escute isto." Com sua bela voz e pronúncia - tendendo para o que chamamos de um "sotaque de Oxford", porém não tão exagerado - as palavras realmente brilhavam, e seu valor e sentido realçavam-se como jóias cintilantes. Lembro-me especialmente de uma de nossas horas tranqüilas (infelizmente tão raras), numa tarde de verão, quando estávamos sentados num banco defronte à lagoa no Parque de St. James, em Londres, e ele lia Gibbon em voz alta para mim. Shoghi Effendi deleitava-se nele e, em todos os seus escritos, vê-se claramente a influência de seu estilo, assim como o inglês bíblico transparece em suas traduções das orações de Bahá'u'lláh, As Palavras Ocultas e Epístolas.

Sei que Shoghi Effendi esteve em Oxford na mesma época que Anthony Eden; eles se conheciam, embora não fossem amigos; na verdade, nunca o ouvi mencionar alguém como tendo sido seu amigo; ele conservava suas relações com alguns de seus professores, mas parece ter se mantido à distância de outros, talvez por causa de uma timidez que não era facilmente perceptível na majestade do Guardião, mas era uma forte característica da natureza humana do homem. Ele pertencia a uma sociedade de debate e gostava de jogar tênis; mas detalhes de seus dias em Oxford são extraordinariamente escassos. Todo este episódio de sua vida foi tão obscurecido pelo falecimento do Mestre, tão intensamente devastador no efeito que produziu em sua vida, que o único registro que realmente temos dele está na influência que exerceu sobre seus escritos e seu caráter. Mesmo tão curta permanência numa universidade com a atmosfera e a qualidade de Oxford, moldou e aguçou sua mente já perspicaz e lógica, intensificou suas faculdades de crítica, reforçou seu forte senso de justiça e seus poderes de raciocínio, e acrescentou à nobreza oriental que caracterizava a família de Bahá'u'lláh aqueles toques de cultura que associamos ao tipo mais fino de cavalheiro inglês.

2

O Falecimento de 'Abdu'l-Bahá e Suas Conseqüências Imediatas

O endereço do Major Tudor Pole, em Londres, era usado muitas vezes como o ponto de distribuição de cabogramas e cartas para os bahá'ís. Shoghi Effendi mesmo, sempre que ia a Londres, costumava passar lá. No dia 29 de novembro de 1921, às 9:30 da manhã, o seguinte cabograma chegou àquele escritório:

Cyclometry Londdres

Sua Santidade 'Abdu'l-Bahá ascendeu Reino Abhá. Informar amigos.

A Folha Mais Sagrada

Nos registros feitos por Tudor Pole sobre esse trágico acontecimento e suas repercussões imediatas, lemos que ele de pronto avisou os amigos por telegrama, telefone e carta. Creio que deve ter telefonado a Shoghi Effendi, pedindo-lhe que viesse imediatamente a seu escritório, mas não lhe transmitindo assim por telefone uma notícia que bem sabia poderia lhe causar um choque demasiado grande. Seja como for, ao meio-dia, aproximadamente, Shoghi Effendi chegou a Londres, foi à rua St. James, 61 (adjacente à Piccadilly e não longe do Palácio de Buckingham) e foi levado ao escritório particular. Tudor Pole não estava na sala naquele momento, mas enquanto Shoghi Effendi ficava lá em pé, seus olhos foram surpreendidos pelo nome de 'Abdu'l-Bahá no cabograma aberto sobre a escrivaninha e ele o leu. Quando Tudor Pole entrou na sala um momento depois, encontrou Shoghi Effendi em estado de colapso, confuso e acabrunhado por essa notícia catastrófica. Ele foi levado à casa da Senhora Grand, uma das bahá'í de Londres, onde ficou acamado por alguns dias. Uma irmã de Shoghi Effendi, Rouhangeze, que estava estudando em Londres, junto com Lady Blomfield e outros fizeram todo possível para confortar o jovem tão angustiado.

Dr. Esslemont atendeu imediatamente à sua necessidade; ao saber da notícia, seu primeiro pensamento evidentemente foi dirigido a Shoghi Effendi. Numa carta escrita no dia 29 de novembro, ele diz:

The Home Sanatorium
Bournemouth
Caríssimo Shoghi,

Foi realmente como "um raio caindo do céu" quando recebi o telegrama de Tudor Pole esta manhã: "Passamento sereno Mestre Haifa ontem manhã"... Isso lhe deve ser muito penoso, tão longe de sua família e mesmo de todos os amigos bahá'ís. Que fará agora? Suponho que regressará a Haifa o mais breve possível. Entrementes, seria muito bem-vindo caso queira passar uns dias aqui... Apenas mande-me um telegrama... e lhe aprontarei um quarto... se de qualquer modo eu lhe puder ser útil, terei grande satisfação. Bem posso imaginar o quanto se sente angustiado e quão ardentemente deve desejar estar em sua casa, e que terrível lacuna deve sentir em sua vida... Cristo estava mais perto de Seus bem-amados após Sua ascensão do que antes, e é minha prece que assim seja com o Bem-Amado em relação a nós. Devemos fazer a nossa parte em assumir a responsabilidade da Causa, e Seu Espírito e Seu poder estarão conosco e dentro de nós.

Depois de poucos dias na casa da Senhora Grand, Shoghi Effendi reanimou-se suficientemente para resolver seus assuntos e retornar à Terra Santa. Tudor Pole, numa carta aos bahá'ís americanos, com data de 2 de dezembro, escreveu: "Shoughi Rabbani e sua irmã estarão de volta a Haifa, próximo ao fim do presente mês, sendo acompanhados por Lady Blomfield..." Presumimos que Shoghi Effendi estava em Oxford, em 3 de dezembro, pois o Professor Margoliouth lhe expressou suas condolências nessa data e convidou-o para "uma visita". Sabemos também, de uma carta escrita por ele a um estudante bahá'í em Londres, sem data, infelizmente, que aceitou o convite do Dr. Esslemont, pois ele escreve:

A terrível notícia por alguns dias oprimiu meu corpo, minha mente e minha alma a tal ponto que fiquei acamado por uns dois dias quase sem sentidos, fora de mim e profundamente agitado. Gradualmente Seu poder revivificou-me e insuflou em mim uma confiança que, espero, possa me guiar doravante e me inspirar em meu humilde trabalho de serviço. O dia haveria de chegar, mas quão subitamente, completamente inesperado. O fato, porém, de Sua Causa ter criado tão numerosas e belas almas em toda parte do mundo é uma garantia infalível de que viverá e prosperará e, dentro em breve, cingirá o mundo! Estou partindo imediatamente para Haifa para receber as instruções que Ele me deixou e agora tomei a decisão suprema de dedicar minha vida a Seu serviço e, com Sua ajuda, executar Suas instruções durante todos os dias de minha vida.

Os amigos insistiram que eu passasse um ou dois dias em repouso neste lugar com Dr. Esslemont, depois do choque que sofri, e amanhã voltarei a Londres e de lá partirei para a Terra Santa.

A agitação agora causada no mundo bahá'í é um ímpeto a esta Causa e despertará toda alma fiel, fazendo-a assumir as responsabilidades que o Mestre agora imputou a cada um de nós.

A Terra Santa permanecerá o centro focal do mundo bahá'í; uma nova era agora lhe sobrevirá. O Mestre, com Sua grande visão, consolidou Seu trabalho, e Seu espírito me assegura que em breve seus resultados haverão de se manifestar.

Estou partindo com Lady Blomfield para Haifa e, se houver alguma demora em Londres por causa das passagens, irei visitá-lo e lhe contar quão maravilhosamente o Mestre delineou Seu trabalho para a posteridade e que extraordinárias afirmações Ele fez a respeito do futuro da Causa...

Com preces e fé em Sua Causa lhe desejo todo o bem em Seu serviço,

Shoghi

Esta carta é no mínimo espantosa por ter sido escrita antes de serem conhecidas ou divulgadas as cláusulas do Testamento do Mestre, embora pareça claro que Shoghi Effendi havia sido informado do fato de que um envelope endereçado a ele pelo Mestre aguardava sua chegada a Haifa. Na verdade, é como se o espírito do Mestre, enquanto seguia seu caminho em seu vôo eterno, tivesse passado pela Inglaterra, deixando Seu manto cair sobre o herdeiro de Sua casa! Uma das filhas de 'Abdu'l-Bahá escreveu, em 22 de dezembro de 1921: "Ele escreveu Suas últimas instruções encerradas num envelope endereçado a Shoghi Effendi - portanto, não podemos abri-lo antes de sua chegada, o que ocorrerá, esperamos, pelo fim deste mês, pois ele já está em viagem para cá."

O alto posto do qual ele brevemente tomaria conhecimento, os longos anos de preparação por seu amado avô, tudo parece ter infundido forças espirituais em Shoghi Effendi, nessa hora mais trágica de sua vida. Ele encontrou tempo, em meio à sua agonia, para confortar os outros, assim como atesta esta carta comovente escrita a ele no dia 5 de dezembro por E. T. Hall, um dos antigos bahá'ís de Manchester:

Sua carta amorosa, terna e nobre, cheia de estímulo e fortaleza, veio quando estávamos muito tristes, porém resolutos, extremamente chocados mas inteiramente compreensivos; e transformou a corrente de nossos sentimentos num fluxo de paz e de paciência na Vontade de Deus. ... Sua nobre carta enalteceu os espíritos de todos nós, renovando nossas forças e determinação; pois se pôde reanimar-se e levantar-se acima de tão penoso choque e tristeza, e ainda nos confortado, nós, também, não devemos fazer menos; devemos, sim, levantar-nos e servir à Causa que é nossa Mãe... Sei que há mil coisas a fazer antes de sua partida para a Terra Santa. Mas nós todos o amamos afetuosamente e estamos todos unidos e mais fortes do que nunca. Leve nosso amor, nossas condolências e todos os nossos corações àquele Lugar Sagrado, pois estamos sempre unidos a ti.

Por causa de dificuldades com seu passaporte, Shoghi Effendi telegrafou a Haifa dizendo que não poderia chegar antes do fim do mês. Embarcou na Inglaterra no dia 16 de dezembro, acompanhado por Lady Blomfield e Rouhangeze, e chegou a Haifa, por trem, no dia 29 de dezembro, às cinco e vinte da tarde, vindo do Egito, onde o navio proveniente da Inglaterra havia atracado. Muitos amigos foram à estação para recepcioná-lo; dizem que ele ficou tão emocionado ao chegar que foi preciso ajudá-lo a subir a escada. Esperando-o em casa, estava a única pessoa que poderia amenizar, até certo ponto, seu sofrimento - a bem-amada tia-avó, irmã de 'Abdu'l-Bahá. Ela - sempre tão frágil, quieta e modesta - já tinha provado a si própria, nessas últimas semanas, ser uma rocha firme à qual os crentes haviam se segurado em meio à tempestade que tão subitamente desabara sobre eles. O calibre de sua alma, sua fineza, sua posição, capacitaram-na para o papel que desempenhou na Causa e na vida de Shoghi Effendi durante esse período extremamente difícil e perigoso.

Quando 'Abdu'l-Bahá faleceu, tão tranqüila e inesperadamente, sem estar gravemente doente, os membros de Sua família, tão abalados, procuravam ver em Seus papéis se por acaso havia instruções sobre o lugar de Sua sepultura. Nada encontrando, sepultaram-no na sala central das três adjacentes no interior do Santuário do Báb. Descobriram Seu Testamento - o qual consiste em três Testamentos escritos em diferentes ocasiões e formando um só documento - endereçado a Shoghi Effendi. Agora se tornou o doloroso dever de Shoghi Effendi conhecer o seu conteúdo; poucos dias após sua chegada, foi lido para ele. A fim de podermos compreender, mesmo que pouco, o efeito que isso exerceu sobre ele, devemos nos lembrar de que ele mesmo afirmou, em mais de uma ocasião, não só a mim mas também a outros que estavam presentes à mesa da Casa dos Peregrinos Ocidentais, que não tivera conhecimento prévio algum da existência da Instituição da Guardiania, e muito menos de sua própria nomeação como Guardião; e que o máximo que ele esperava, em vista dele ser o neto mais velho, era que talvez 'Abdu'l-Bahá tivesse deixado instruções sobre como a Casa Universal de Justiça deveria ser eleita, designando-o como responsável pela sua execução e convocador da reunião que a elegeria.

Naquela casa, agora tão vazia, tão terrivelmente vazia, onde cada passo lhe trazia à lembrança a presença do Mestre que agora havia ido embora para sempre, ele de fato mergulhou nas águas do mais negro pesar e desespero. "Passo por momentos sombrios", escreve ele à Senhora Whyte, "de tristeza intensa, de agitação, pois a qualquer parte que eu vá, lembro-me de meu bem-amado Avô e, qualquer coisa que faça, sinto a terrível responsabilidade que Ele tão subitamente pôs sobre meus ombros fracos." Nesta carta, escrita em 6 de fevereiro de 1922, pouco mais de um mês após seu regresso, ele desabafa à sua amiga: "Quão intensamente sinto a urgente necessidade de uma regeneração completa a ser efetuada dentro de mim, de uma poderosa efusão de forças, de confiança, do Espírito Divino em minh'alma ansiosa, antes de me levantar para tomar o lugar que me é destinado, à frente de um Movimento que advoga princípios tão gloriosos. Sei que Ele não me deixará só, confio nEle para me guiar, e creio em Sua sabedoria, mas o que suplico é a inabalável convicção e certeza de que Ele não me abandonará. A tarefa é tão imensamente grande, a compreensão da insuficiência de meus esforços e de mim é tão profunda que não posso apenas recuar e esmorecer ao defrontar-me com meu trabalho..." Essa nobre mulher, evidentemente, havia escrito a Shoghi Effendi cartas tão inspiradoras que ele a informou de que "chegava às lágrimas" enquanto as lia, e prossegue exclamando: "Oh, quão intensamente eu, em minha mocidade e fragilidade, necessito, de vez em quando, de um apelo vigoroso, um forte lembrete, uma palavra de alegria e conforto!" Ele termina sua carta com uma frase muito significativa, dizendo-lhe que muitas vezes tem falado com as senhoras da família sobre seu sábio conselho "não faça do Movimento uma seita", e assina a carta com "Muito afetuosamente".

Naquele mesmo mês, em outra carta, ele escreve: "... a dor, ou mais, a angústia da perda dEle é esmagadora..." Entretanto, em meio a esse tormento, o jovem de vinte e quatro anos descobriu que não somente fora designado "o ramo bendito e sacro que cresceu das Santas Árvores Gêmeas", cuja sombra "abriga toda a humanidade", mas que era "o Sinal de Deus, o ramo escolhido, o Guardião da Causa de Deus, aquele a quem todos os Aghsán,* os Afnán,† as Mãos da Causa de Deus e Seus amados devem se volver". Só podemos ter a esperança de que a revelação do fato de ter sido designado para este papel quando ainda era uma criança lhe trazia algum conforto. O Testamento de 'Abdu'l-Bahá consiste em três partes; anos depois, Shoghi Effendi escreveria que "sua primeira parte" fora "composta durante um dos períodos mais tenebrosos de Seu encarceramento na fortaleza-prisão de 'Akká".Foi nessa primeira parte que a estupenda posição do Guardião lhe havia sido conferida, mas cuidadosamente guardada em segredo por seu Avô, que em Seu Testamento escrevera, de próprio punho, que "este documento foi por longo tempo guardado sob a terra... permanecendo intocado, estando a Terra Santa lamentavelmente agitada."

*Descendentes do sexo masculino de Bahá'u'lláh.
†Parentes do Báb.

Shoghi Effendi descobriu também que ele era "o expositor das palavras de Deus", e que se alguém se lhe opusesse, discutisse ou disputasse com ele, ou que nele desacreditasse, fazia isso a Deus; que qualquer um que se apartasse, separasse ou desviasse dele, fazia isso a Deus, e que o Mestre havia evocado a ira, a veemente indignação e vingança de Deus sobre tal pessoa! Ele soube também que era o chefe irremovível, vitalício, da Casa Universal de Justiça, e que ele e aquele Corpo seriam guiados infalivelmente pelo Báb e por Bahá'u'lláh, e que tudo o que decidissem seria de Deus; qualquer pessoa que desobedecesse a ele ou a eles, qualquer pessoa que se rebelasse contra ele ou eles, estaria desobedecendo e rebelando-se contra Deus. Ele soube que haveria de escolher, durante sua vida, seu filho mais velho ou, faltando nele a manifestação das qualidades necessárias para demonstrar que "o filho é a essência secreta de seu pai", outro filho deveria sucedê-lo. Soube que o Mestre lhe havia lembrado com ternura: "Ó vós, fiéis amados de 'Abdu'l-Bahá! Incumbe-vos dedicar a Shoghi Effendi o máximo cuidado... para que nenhum pó de desânimo lhe macule a natureza radiante, para que dia a dia ele possa se desenvolver em felicidade, em alegria e espiritualidade, e ele possa crescer até tornar-se como uma árvore frutífera." É relativamente fácil aceitar o fato de que alguém vai carregar o mundo sobre seus ombros - mas é muito difícil aceitar o fato de que é você que vai fazer isso. Os crentes aceitaram Shoghi Effendi, mas sua crucificação consistia em se esforçar por aceitar a si próprio.

Não há dúvida de que, antes da chegada de Shoghi Effendi a Haifa, a Folha Mais Sagrada, e provavelmente alguns membros selecionados da família do Mestre, sabiam pelo menos a parte principal do que o Testamento continha, porque fora examinado para ver se Ele havia incluído alguma cláusula referente ao Seu próprio sepultamento. Isso é substanciado por cabogramas enviados pela Folha Mais Sagrada aos crentes persas e americanos, em 21 de dezembro de 1921. Aquele enviado à América rezava como segue: "Reunião comemorativa mundo inteiro sete janeiro. Programar orações pela unidade e constância. Mestre deixou instruções completas em Seu Testamento. Tradução será enviada. Informar amigos." As cláusulas do Testamento, entretanto, não se tornaram conhecidas antes deste ser lido primeiro para Shoghi Effendi e, de fato, antes de ser lido oficialmente em 3 de janeiro de 1922.

Que Shoghi Effendi e toda a família do Mestre passaram por um período de sofrimento insuportável durante esses dias e, de fato, durante os anos seguintes, não tenho dúvidas. Muitas vezes, quando ele estava extremamente aflito, em anos posteriores, eu o via ir deitar-se, recusando-se a comer ou beber, recusando-se a falar, enrolado sob seus cobertores, incapaz de fazer qualquer coisa senão agonizar, como alguém abatido ao chão por uma chuva pesada; essa condição durava às vezes alguns dias, até que as forças se equilibrassem dentro dele e o pusessem em pé novamente. Ele se perdia num mundo que era todo seu, onde ninguém podia ir. Uma vez me disse: "Sei que é um caminho de sofrimento; tenho que trilhar este caminho até o fim; tudo tem que ser feito com sofrimento."

O senso de abandono, de indignidade, de ardente saudade de seu Avô que acometeram Shoghi Effendi tão fortemente durante os primeiros anos de sua Guardiania, se nos afiguram ainda mais pungentes quando nos lembramos de um fato que sua mãe relatou a mim, na companhia de algumas senhoras persas, e que também é mencionado num carta escrita, poucos dias depois, por um dos bahá'ís americanos que esteve presente na ocasião do falecimento do Mestre. Parece que 'Abdu'l-Bahá, poucas semanas antes de morrer, havia entrado de repente na sala onde estava o pai de Shoghi Effendi e dito: "Telegrafe a Shoghi Effendi que regresse imediatamente". Sua mãe disse-nos que, ao saber disso, consultou a mãe dela e decidiram que, se telegrafassem, correriam o risco de chocar Shoghi Effendi desnecessariamente, e por isso preferiram escrever-lhe as instruções do Mestre; a carta chegou após a Sua ascensão. Ela disse que como o Mestre havia estado perfeitamente bem de saúde, nunca imaginavam Ele iria falecer. Sem dúvida, o motivo era bom, mas tal interferência da família, naquilo que eles consideravam assunto particular, era característica de pessoas de visão demasiadamente curta para perceberem que 'Abdu'l-Bahá sempre tinha razão e deveria ser obedecido. Não há dúvida de que esse elemento tragicamente humano causou prejuízo incalculável no tempo de Bahá'u'lláh, de 'Abdu'l-Bahá e de Shoghi Effendi. De qualquer modo, impediu efetivamente que Shoghi Effendi visse seu Avô outra vez, e ele achava, segundo me dizia muitas vezes, que se O tivesse visto, o Mestre lhe poderia ter dito algumas palavras especiais de conselho ou de instruções, sem falar no infinito conforto que lhe teria proporcionado apenas ver, mais uma vez neste mundo, a Sua face.

Após sua chegada a Haifa, Shoghi Effendi ocupou seu antigo quarto, junto àquele de 'Abdu'l-Bahá; entretanto, alguns dias depois, mudou-se para um aposento na casa de uma de suas tias, ao lado, e, quando estava em Haifa, continuou a ficar lá, até que, no verão de 1923, a Folha Mais Sagrada mandou construir para ele dois quartos e um pequeno banheiro no telhado da casa do Mestre. Havia, sem dúvida, muitas razões por sua decisão de morar provisoriamente em outra casa: as recordações agonizantes que o velho quarto lhe trazia, as multidões constantemente entrando e saindo da casa do Mestre e - mais um fator, típico de Shoghi Effendi, o qual era seu profundo senso de justiça - por haver sua própria família recebido tão grande honra, tendo um de seus filhos sido elevado a tão alta posição, ele achou que deveria agora conferir honra e mostrar toda bondade a seus tios e primos, a fim de restabelecer, em algum grau, o equilíbrio.

Em meio à sua volta pra casa, Shoghi Effendi não teve oportunidade alguma de se restabelecer dos golpes recebidos desde quando, no escritório de Tudor Pole, lera o telegrama fatídico informando-lhe o passamento do Mestre. A despeito de sua condição, o alto grau que agora lhe foi conferido pela Vontade e Testamento do Mestre o encarregara de uma responsabilidade que, de modo algum, até o último momento de sua vida, podia ser compartilhada com qualquer indivíduo ou entidade - uma responsabilidade igual àquela do Mestre quando, no tempo da ascensão de Bahá'u'lláh, Seu Testamento tornou perfeitamente claro ser 'Abdu'l-Bahá Seu sucessor. Decisões tiveram que ser tomadas. A primeira delas foi o modo pelo qual o Testamento deveria ser tornado público.

De diversas fontes sabemos que, na manhã de 3 de janeiro de 1922, Shoghi Effendi visitou o Santuário do Báb e o Túmulo de seu Avô; mais tarde, no mesmo dia, na casa de sua tia, porém não na presença do Guardião, a Vontade e Testamento do Mestre foi lida em voz alta para nove homens, sendo a maioria deles membros da família de 'Abdu'l-Bahá, e os sinetes, as assinaturas e o documento, todo escrito de Seu próprio punho, lhes foram mostrados. O Guardião deu instruções para que uma cópia fiel fosse feita então por um daqueles presentes - um crente da Pérsia. Numa carta escrita pelo próprio Shoghi Effendi a um bahá'í antigo, poucas semanas mais tarde, ele diz: "O Testamento de 'Abdu'l-Bahá foi lido no dia 7 de janeiro de 1922, em Sua casa, na presença de bahá'ís da Pérsia, Índia, Egito, Inglaterra, Itália, Alemanha, Estados Unidos e Japão..." Nessa reunião também o Guardião não esteve presente, sem dúvida por motivos de saúde, bem como por delicadeza da sua parte. De conformidade com o costume local de ter uma reunião memorial no quadragésimo dia após a morte de uma pessoa, alguns bahá'ís e muitas pessoas notáveis, inclusive o Governador de Haifa, reuniram-se no salão da casa do Mestre, onde foi servido um almoço, seguido por um grande encontro no mesmo salão, onde se fizeram discursos em honra do falecido Mestre e anunciadas as cláusulas de Seu Testamento. Os convidados estavam muito ansiosos por ouvir algumas palavras de Shoghi Effendi e assim um dos amigos lhe levou seu recado; Shoghi Effendi, que estava com a Folha Mais Sagrada nos aposentos dela, disse que se sentia demasiado aflito e abatido para aquiescer a seu pedido e, em vez disso, escreveu apressadamente algumas palavras para serem lidas em seu nome, nas quais expressou sua própria gratidão profunda e a da família de 'Abdu'l-Bahá pela presença do Governador e dos oradores que, pelas suas palavras sinceras, "reavivaram Sua sagrada memória em nossos corações... Aventuro-me a expressar a esperança de que nós, Seus parentes e Sua família, por meio das nossas ações e palavras, possamos provar sermos dignos do glorioso exemplo que Ele pôs diante de nós e assim ganhar vossa estima e vosso afeto. Que Seu espírito eterno esteja conosco e nos una para sempre!" Ele começa com estas palavras: "O choque foi demasiado súbito e penoso, em vista de minha pouca idade, para me permitir estar presente nessa reunião dos amados do bem-amado 'Abdu'l-Bahá".

Foi apropriado que a Folha Mais Sagrada, e não o próprio Shoghi Effendi, anunciasse ao mundo bahá'í as cláusulas do Testamento do Mestre. Em 7 de janeiro, ela enviou dois cabogramas à Pérsia: "Reuniões memoriais têm sido realizadas no mundo inteiro. O Senhor de todos os mundos, em Sua Vontade e Testamento, revelou Suas instruções. Cópia será enviada. Informar crentes." e "Vontade e Testamento promoveu Shoghi Effendi Centro da Causa". É significativo lembrar que 'Abdu'l-Bahá - sem dúvida antecipando os acontecimentos que Ele previu - em resposta a uma pergunta da Assembléia de Teerã, escreveu: "Perguntastes em nome de quem as propriedades e construções doadas devem ser registradas junto ao governo e feitos os procedimentos legais: devem ser registradas no nome de Mírzá Shoghi Rabbani, filho de Mírzá Hádí Shírází e que se encontra em Londres." Embora fossem grandes a tristeza e o choque resultantes da ascensão do Mestre na Pérsia, não parece que a notícia da designação de Shoghi Effendi tenha causado surpresa entre os amigos mais informados daquele país, especialmente depois de terem recebido instruções tão esclarecedoras de 'Abdu'l-Bahá. Aos Estados Unidos, a Folha Mais Sagrada enviou um cabograma em 16 de janeiro: "No Testamento Shoghi Effendi designado Guardião da Causa e Chefe da Casa de Justiça. Informar amigos americanos." Apesar do fato de que, desde o próprio início, Shoghi Effendi mostrava grande tato e a mão de mestre ao tratar dos problemas que continuamente enfrentava, ele se apoiava muito na Folha Mais Sagrada, cujo caráter, posição e amor por ele a tornavam a um tempo seu sustentáculo e seu refúgio.

Imediatamente após esses acontecimentos, Shoghi Effendi escolheu oito passagens do Testamento e as circulou entre os bahá'ís; apenas uma delas continha uma referência a ele mesmo, muito breve, como segue: "Ó vós, fiéis amados de 'Abdu'l-Bahá! Incumbe-vos cuidar muito bem de Shoghi Effendi... Pois, depois de 'Abdu'l-Bahá, ele é o guardião da Causa de Deus. Os Afnán, as Mãos (pilares) da Causa e os bem-amados do Senhor devem obedecê-lo e se volver a ele." Dentre todas as passagens tremendas e estrondosas contidas no Testamento e referentes a ele, Shoghi Effendi escolheu a menos espantosa e provocativa para ser a primeira a circular entre os bahá'ís. Ele era orientado e orientador desde o início.

Esses primeiros anos de sua Guardiania devem ser vistos como um processo contínuo de ser derrotado e de se por em pé novamente, muitas vezes cambaleando por causa dos terríveis golpes que recebera, mas destemido até o âmago. Foi seu amor por 'Abdu'l-Bahá que sempre o sustentava: "ainda creio", exclama ele, "e creio firmemente em Seu poder, Sua orientação, Sua presença sempiterna..." Numa carta escrita em fevereiro de 1922 a Nayir Afnán, um sobrinho de 'Abdu'l-Bahá, a agonia de sua alma é claramente refletida: "Sua... carta me veio quando estive cercado de tristezas, preocupações e aflições... a dor, mais ainda, a angústia de Sua perda é tão esmagadora, o peso da responsabilidade que Ele pôs em meus fracos e jovens ombros é tão esmagador..." Prossegue dizendo: "Mando incluso para você a cópia do Testamento do amado Mestre; lendo-o, verá o que Ele sofreu nas mãos de Seus parentes... verá também que grande responsabilidade Ele pôs sobre mim, e que nada menos que o poder criativo de Sua palavra pode me ajudar a encará-la." Esta carta não só revela seus sentimentos mas - em vista do fato de que aquele a quem a escreveu pertencia àqueles que haviam sido inimigos do Mestre nos dias após a ascensão de Bahá'u'lláh e eram daquela espécie de parente tão fortemente denunciada por Ele em Seu Testamento - mostra com que coragem Shoghi Effendi ergue o espelho do passado e, ao mesmo tempo, faz um apelo por seu apoio e lealdade na nova situação.

As primeiras cartas demonstram a fortaleza, a sabedoria e a dignidade características de Shoghi Effendi. A um dos professores da Universidade Americana de Beirute, em 19 de março de 1922, ele escreveu, clara e inequivocamente expondo sua própria posição: "Respondemos à sua pergunta se eu fui designado oficialmente para representar a Comunidade Bahá'í: 'Abdu'l-Bahá, em Seu Testamento, nomeou-me como cabeça do conselho universal a ser eleito devidamente pelos conselhos nacionais que representam os seguidores de Bahá'u'lláh nos vários países..."

Não se deve pensar, entretanto, que o ato de promulgar o Testamento do Mestre tivesse resolvido todos os problemas e inaugurado uma nova era na Causa com a maior facilidade. Longe disso. Antes da chegada de Shoghi Effendi a Haifa, a Folha Mais Sagrada fora obrigada a telegrafar aos bahá'ís americanos, em 14 de dezembro: "Agora é período de grandes provações. Os amigos devem permanecer firmes e unidos na defesa da Causa. Nakezeen [rompedores do Convênio] iniciando atividades através de imprensa outros meios toda parte mundo. Selecionem comitê de pessoas sábias calmas para tratar propaganda imprensa na América." Por graves que fossem os acontecimentos indicados neste cabograma, não podem ser considerados como separados da séria situação que existia na América quando 'Abdu'l-Bahá faleceu. Desde muito tempo, estivera Ele profundamente preocupado com o rompimento do Convênio naquele país, havendo até mesmo predito, numa carta escrita alguns anos antes, que uma tempestade surgiria após Seu falecimento, e orando pela proteção dos crentes. Em 8 de novembro de 1921, telegrafou a Roy Wilhelm, Seu fidedigno correspondente: "Como está situação e saúde amigos?", ao que Sr. Wilhelm, no dia seguinte, foi obrigado a responder: "Chicago, Washington, Filadélfia agitando rompimento concentrando Fernald, Dyer, Watson. Nova Iorque e Boston recusaram participar, apoiando solidamente política construtiva." Uma resposta imediata foi telegrafada por 'Abdu'l-Bahá em 12 de novembro, na mais forte linguagem, e indicando claramente Sua aflição: "Quem se senta com leprosos pega lepra. Quem está com Cristo afasta-se de fariseus e abomina Judas Iscariotes. Certamente afastar-se de violadores. Informar Goodall, True e Parsons telegraficamente." Naquele mesmo dia o Mestre, num segundo cabograma a Roy Wilhelm, disse: "Imploro saúde à divina bondade." Foram estas as últimas mensagens que a América recebeu dEle.

A morte repentina de 'Abdu'l-Bahá em nada remediou essa situação. Foi a percepção de sua gravidade, indubitavelmente, que inspirou o cabograma enviado pela Folha Mais Sagrada informando os amigos americanos de que o Mestre deixara instruções completas em Seu Testamento. A perpétua agitação de Muhammad 'Alí, desde a ascensão de Bahá'u'lláh, não havia diminuído e seus sequazes nos Estados Unidos estavam vigilantes e ativos. Naquele tempo, a revista Reality era um órgão bahá'í e, em suas colunas, publicava notícias dos rompedores do Convênio e de suas atividades; isso afligia muito os bahá'ís mais entendidos e experientes, especialmente aqueles que haviam tido o privilégio de conhecer 'Abdu'l-Bahá pessoalmente, enquanto os novos, inexperientes e "liberais" ficavam despreocupados e inconscientes de seu perigo. Foi por causa dessa atitude doentia e equívoca que 'Abdu'l-Bahá, menos de dois meses antes de Seu falecimento, escrevera uma Epístola, publicada em Star of the West [Estrela do Ocidente], na qual procurava esclarecer aos amigos que corriam riscos graves em tais assuntos ao não lhes darem a devida importância, e que Bahá'u'lláh havia advertido aos Seus seguidores que seria difundido um fétido odor, o qual deveriam evitar, e que esse fétido odor não se referia senão aos rompedores. Tal foi a situação herdada por Shoghi Effendi.

Um dos bahá'ís americanos mais antigos e firmes escreveu a Shoghi Effendi em 18 de janeiro de 1922, menos de duas semanas depois de serem anunciadas publicamente as cláusulas do Testamento de 'Abdu'l-Bahá: "Como sabeis, estamos tendo grandes aborrecimentos e tristezas com os violadores na Causa na América. Esse veneno penetrou profundamente entre os amigos..." Em muitos relatórios e com grande detalhe, acusações e fatos choviam a cântaros sobre o recém-nomeado Guardião. Havia, naturalmente, outro aspecto. Com pureza de coração e confiança tocantes, os bahá'ís do Oriente e do Ocidente colaboravam com seu jovem líder e derramavam declarações de seu amor e sua lealdade: "Ardentemente desejamos auxiliar, de todos os modos, o Guardião, e nossos corações correspondem à carga que pesa sobre seus jovens ombros..." "Recebemos aqui em Washington a notícia de que nosso Bem-Amado Mestre entregou às suas mãos a incumbência de guiar e proteger a Santa Causa e o nomeou chefe da Casa de Justiça. Escrevo-lhe estas poucas linhas respondendo de todo coração às sagradas instruções de nosso Bem-Amado Senhor e assegurando todo apoio e fidelidade de que sou capaz..." "Bem-amado de nosso Bem-Amado", assim se dirigiram a ele dois pilares da Fé na América, "como nossos corações cantaram de alegria com a notícia de que o Mestre não nos deixou desconsolados, mas fez de ti, Seu bem-amado, o centro da unidade de Sua Causa, a fim de que os corações de todos os amigos possam encontrar paz e certeza." "Nossas vidas estavam em completa escuridão até que o abençoado cabograma da Folha Mais Sagrada nos trouxe o primeiro raio de luz, o qual foi sua nomeação, pelo Senhor Misericordioso, como nosso Guardião e nosso Chefe, bem como o Guardião da Causa de Deus e Chefe da Casa Universal de Justiça." "Qualquer coisa que o Guardião da Causa deseje ou aconselhe que estes servos façam, isso é igualmente nosso desejo e nossa intenção". Numa carta à Folha Mais Sagrada, um dos crentes antigos, que recentemente regressara de Haifa, escreve em 4 de agosto de 1922: "Os amigos estão muito devotados a Shoghi Effendi e nada desejam senão seguir as injunções de nosso Senhor, isto é, que todos nós apoiemos o Guardião desta Santa Causa..." Um outro crente antigo escreveu a Shoghi Effendi nessa mesma época, assegurando-lhe, contudo, que "ainda temos muitas dificuldades e algumas feridas, mas percebo o poder curador e creio que, em geral, a Causa nunca teve mais saúde ou maior aprofundamento na América do que no momento atual..." Mensagens como essas eram, sem dúvida, um grande consolo mas, em comparação ao número de crentes do Ocidente e à angustia do Guardião, parece que eram lastimavelmente poucas. É uma triste realidade que muitos dos que mais firmemente se reuniam em seu apoio, vieram mais tarde a abandonar a Causa e até virar-se contra ela. O tornado desarraiga as grandes árvores mas deixa intacta a humilde grama.

Os bahá'ís em toda parte foram inquestionavelmente levados numa grande onda de amor e lealdade ao saberem das cláusulas do Testamento do Mestre. Seu efeito nos rompedores do Convênio, entretanto, foi o de incitá-los à mais violenta ação. Como uma hidra, cada cabeça zumbindo mais venenosamente do que a outra, eles se ergueram e golpearam o jovem sucessor do Mestre. O meio-irmão de 'Abdu'l-Bahá, Muhammad 'Alí, seu irmão, seus filhos e sequazes; os perenes inimigos da Fé na Pérsia; os desafetos, os indiferentes, os ambiciosos - onde quer que estivessem e quem quer que fossem - começaram a criar distúrbios. Em 16 de janeiro, duas bahá'ís americanas veteranas, servindo em Teerã, escreveram à família do Mestre contando o que estava acontecendo por lá; o fato, não o menos significativo revelado em suas cartas, é que 'Abdu'l-Bahá enviara à Pérsia uma carta na qual estava inclusa, para a edificação dos amigos, uma carta de Shoghi Effendi a Ele, dando notícias da Causa na Inglaterra. Essa carta chegou após Seu falecimento, mas mostra o quanto o Mestre Se orgulha de Seu neto e, tomada em conjunto com a notícia de Sua ascensão e da nomeação, que logo chegaria, do Guardião, parece ser mais do que mera coincidência. Essas cartas prosseguem, dizendo: "... surge um alarido contra a Causa... mas as ovelhas não estão dispersas ou esquecidas, mas firmes e constantes, esforçando-se em apoiar o corajoso jovem líder com quem o Bem-Amado nos abençoou. Shoghi Effendi foi sempre um nome familiar entre nós e a nação bahá'í inteira lhe saúda e oferece boas-vindas hoje. 'Bem-aventurado quem vem em nome do Senhor'..." "Eu queria que ouvisse as expressões de gratidão dos crentes: 'Agora estamos confortados. Agora estamos contentes. A Causa rejuvenesceu-se.'"

Em 16 de janeiro, o Guardião escreveu sua primeira carta aos bahá'ís persas, animando-os a permanecerem firmes e protegerem a Fé e, em termos comoventes, compartilhou com eles seu pesar pelo falecimento do bem-amado Mestre. Em 22 de janeiro, Shoghi Effendi telegrafou aos bahá'ís americanos: "Sagradas Folhas confortadas pela inabalável lealdade e nobre resolução dos americanos. Tempo de firmeza. Aceitem minha amorosa cooperação." No dia anterior, ele lhes havia escrito sua primeira carta, que começava assim: "A esta hora da manhã, quando a luz matinal está despontando sobre a Terra Santa, enquanto a treva da perda de nosso querido Mestre ainda paira densamente sobre os corações, sinto que minh'alma se volve com amor saudoso e cheia de esperança, para essa grande companhia de Seus amados através dos mares..." Ele já pusera a mão no leme e vira claramente diante dele os canais por onde deveria navegar: "o caminho largo e reto do ensino", como ele diz, unidade, abnegação, desprendimento, prudência, cautela, sincero esforço por executar os desejos do Mestre, consciência de Sua presença, afastar-se dos inimigos da Causa - tudo isso deve ser a meta e o estímulo dos crentes. Quatro dias depois, ele escreve sua primeira carta aos bahá'ís japoneses: "Por desalentado e triste que eu esteja nestes dias tenebrosos, sempre que me lembro das esperanças que nosso falecido Mestre, tão confiantemente, depositava nos amigos nessa terra do Extremo Oriente, a esperança se reaviva dentro de mim e afugenta as trevas de Sua perda. Na qualidade de Seu assistente e secretário por cerca de dois anos após o termino da Grande Guerra, recordo tão vividamente a alegria irradiante que transfigurava Seu rosto sempre que eu abria diante dEle vossas súplicas..."

Durante esses dias, Shoghi Effendi estava ocupado também na tradução do Testamento de seu avô para o inglês. Emogene Hoagg, que residia em Haifa desde algum tempo antes do falecimento de 'Abdu'l-Bahá, escreveu, em 24 de janeiro: "Dentro em breve, o Testamento do querido Mestre estará pronto para a América e outras partes. Shoghi Effendi está traduzindo-o agora".

Enquanto estava assim ocupado, recuperando suas forças e começando a escrever cartas como essas aos bahá'ís dos diferentes países, Shoghi Effendi recebeu a seguinte carta do Alto Comissário para a Palestina, Sir Herbert Samuel, com a data de 24 de janeiro de 1922:

Caro Sr. Rabbani,

Tenho que acusar o recebimento de vossa carta de 16 de janeiro e de vos agradecer a gentileza nela expressa.

Seria deplorável se a sempre lamentada morte de Sir 'Abdu'l-Bahá fosse interferir na conclusão de vossa carreira em Oxford, e espero que isso não venha a acontecer.

Interessa-me muito saber das medidas tomadas para assegurar a estável organização do Movimento Bahá'í.

Se estiverdes em Jerusalém em qualquer ocasião, será um prazer, para mim, receber-vos aqui.

Sinceramente
Herbert Samuel

Embora fosse amigável seu tom, essa carta demandava, em nome do governo de Sua Majestade, informação a respeito dos acontecimentos. E isto não é nada surpreendente em vista das atividades de Muhammad 'Alí. Pouco depois da ascensão de 'Abdu'l-Bahá, esse meio-irmão, enfadado e pérfido, apresentara uma demanda baseada na lei islâmica (aquele que ainda pretendia ter o direito de ser o sucessor de Bahá'u'lláh!), sobre uma parte dos bens de 'Abdu'l-Bahá, que agora reclamava como Seu irmão. Ele mandara chamar seu filho, que residia na América e lá promovia as pretensões do pai, para juntar-se a ele nesse novo e direto ataque contra o Mestre e Sua família. Não se contentando com tal exibição de sua verdadeira natureza, ele pediu às autoridades civis que lhe entregassem a custódia do Santuário de Bahá'u'lláh com base no fato de ser o legítimo sucessor de 'Abdu'l-Bahá. As autoridades britânicas recusaram, alegando ser uma questão religiosa; ele, então, apelou ao chefe da religião muçulmana, pedindo ao Muftí de 'Akká que se incumbisse formalmente da custódia do Santuário; esse dignitário, porém, disse que não via como poderia fazer isso por não estarem os ensinamentos bahá'ís em conformidade com a lei Sharí'at.* Havendo falhado por todos os outros meios, mandou seu irmão mais moço, Badí'u'lláh, com alguns de seus partidários, visitar o Santuário de Bahá'u'lláh, onde numa terça-feira, dia 30 de janeiro, tiraram à força, do zelador, as chaves do Sagrado Santuário, afirmando assim o direito de Muhammad 'Alí de ser o legítimo custódio do lugar de descanso de seu Pai. Esse ato inescrupuloso criou tal comoção na Comunidade Bahá'í que o governador de 'Akká mandou entregar as chaves às autoridades, postou guardas junto ao Santuário, mas nada mais fez, recusando-se a devolver as chaves a qualquer uma das duas partes.

*Lei canônica muçulmana. (n.r.)

Não requer muita imaginação para entender que este fora outro choque terrível para Shoghi Effendi, ao receber certo dia, após o anoitecer, essa notícia por intermédio de um mensageiro ofegante e excitado, todos os bahá'ís agitados e indizivelmente aflitos porque os Sagrados Restos Mortais, pela primeira vez em várias décadas, haviam caído nas mãos do inveterado inimigo do Centro de Seu Convênio. Um dos crentes americanos, que visitou o Santuário com o próprio Shoghi Effendi durante março de 1922, descreve essa situação em seu diário: "Em cada uma das minhas três mais recentes visitas a Bahjí, pudemos penetrar apenas até a corte do Túmulo, estando fechado o Santuário interior... E, por enquanto, ninguém pode prever o resultado da questão. Shoghi Effendi está muito aflito por causa disso." Apesar de seus sentimentos pessoais, Shoghi Effendi seguiu fielmente o exemplo do Mestre em outros tempos de ataque e tempestade, dando instruções calmamente a respeito da colocação de luzes dentro e fora do Santuário, pois estava em processo de ser iluminado.

Esse mesmo informante relatou também que, durante sua estada em Haifa, telegramas foram passados pelo Guardião ao Rei Feisal, do Iraque, apelando contra a ação do seu governo em se apoderar da abençoada Casa de Bahá'u'lláh (sítio prescrito para peregrinação dos bahá'ís de todas as terras), sendo providenciadas também por ele mensagens semelhantes a serem enviadas por outras comunidades bahá'ís. Esse foi outro terrível golpe para Shoghi Effendi; dentro de poucos meses ele recebera quatro, sendo que cada uma delas tinha o propósito de sujeitar todo o seu ser a uma tensão insuportável.

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O SUCESSOR DO MESTRE

Provavelmente tirada no período quando 'Abdu'l-Bahá começou Suas grandes jornadas ao Mundo Ocidental.

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ANOS DE ESTUDO EM BEIRUTE

Shoghi Effendi está em pé, na segunda fila (terceiro pela esquerda), com sua classe no Colégio Sírio-Protestante, cerca de 1914.

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SHOGHI EFFENDI EM ROUPAS ORIENTAIS

Antes de ir estudar na Inglaterra, o Guardião se vestia desta maneira.

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SHOGHI EFFENDI NOS PRIMÓRDIOS DE SEUS 20 ANOS
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O SECRETÁRIO DO MESTRE

Shoghi Effendi e sua pequena máquina de escrever, no terraço do quarto que ele ocupava perto de 'Abdu'l-Bahá, provavelmente trabalhando nas traduções das Epístolas de seu Avô, cerca de 1919.

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O SAMOVAR

Shoghi Effendi (segundo pela esquerda) na laje do telhado do celeiro da casa de 'Abdu'l-Bahá, em Haifa.

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SHOGHI EFFENDI COM HARRY RANDALL
Tirada no Jardim de Ridván, perto de 'Akká, 1919.
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SHOGHI EFFENDI ANTES DE SE TORNAR GUARDIÃO
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O NETO MAIS VELHO DE 'ABDU'L-BAHÁ, SHOGHI EFFENDI

"Contemple seus olhos, são como água clara", disse 'Abdu'l-Bahá.

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ALGUNS EMINENTES BAHÁ'ÍS COM 'ABDU'L-BAHÁ

Shoghi Effendi, Seu sucessor (segundo pela esquerda), Agnes Parsons (atrás de 'Abdu'l-Bahá), J. E. Esslemont e Lotfullah Hakim (última fila, da direita para esquerda). Tirada antes de Shoghi Effendi ir para a Inglaterra, em março de 1920.

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A situação em que Shoghi Effendi agora se encontrava era realmente esmagadora. Embora a maioria dos bahá'ís fosse leal, a Causa estava sendo atacada de todos os lados por inimigos que se tornavam audazes e se regozijavam com a morte de 'Abdu'l-Bahá. Um dos bahá'ís antigos, secretário do governador de Haifa naquele tempo, informa-nos que as autoridades locais se referiam comumente ao Guardião como "o Menino". Além de ser extremamente jovem, o imberbe estudante de Oxford, embora se comportando com muita dignidade, recusou a mínima pretensão de ser semelhante ao Patriarca com barba, tão conhecido de todos como uma das figuras mais distintas de Haifa - muito amado ou muito odiado, conforme o caso - mas sempre respeitado como a Figura mais notável. Shoghi Effendi recusou usar o turbante e as vestes compridas orientais sempre usadas pelo Mestre; recusou-se a freqüentar a mesquita às sextas-feiras, uma prática costumeira de 'Abdu'l-Bahá; recusou-se a passar horas visitando sacerdotes muçulmanos, que gostavam de passar o dia todo com o Mestre e que, sem dúvida, estavam agora ansiosos por avaliar o rapaz que Ele deixara em Seu lugar como Chefe da Fé. Ao ser advertido pelos membros da família de 'Abdu'l-Bahá por não seguir os caminhos do Mestre, o Guardião replicava que tinha que se dedicar inteiramente ao trabalho da Causa. Tudo isso deve ter aumentado seu sofrimento e causado grande inquietação dentro da família e da comunidade local. Alguns deles suspeitavam secretamente que Shoghi Effendi não sabia realmente o que deveria fazer, achando que ele precisava de cabeças mais velhas e sábias ao seu redor e que, quanto mais cedo se formasse a Casa Universal de Justiça, melhor seria para a Causa e para todos os envolvidos.

Indubitavelmente, em sua profunda aflição, alternadamente reverenciado, adorado, aconselhado, interrogado, advertido e desafiado, Shoghi Effendi sentia a necessidade de apoio e consulta. Durante março de 1922, ele reuniu em Haifa um grupo de bahá'ís bem conhecidos e representativos: Lady Blomfield, que havia retornado com ele da Inglaterra, Emogene Hoagg, que vivia em Haifa; a esses juntaram-se a Srta. Rosenberg, da Inglaterra, Roy Wilhelm, Mountfort Mills e Mason Remey, da América, Laura e Hippolyte Dreyfus-Barney, da França, Cônsul e Alice Schwarz da Alemanha e o major Tudor Pole. Dois muito conhecidos instrutores bahá'ís da Pérsia, Avarih e Fazel, também haviam sido chamados a Haifa, mas, por causa de algumas complicações, demoraram muito para chegar; mais tarde, o Guardião mandou-os, em longas missões de ensino, à Europa e América do Norte, respectivamente. Siyyid Mustafa Roumie, de Burma, e Corinne True, com sua filha Katherine, dos Estados Unidos, vieram depois. Outros peregrinos vieram e partiram naqueles primeiros meses. Mas o fato significativo é que não só muitos dos mais velhos bahá'ís acreditavam que o próximo passo a ser dado fosse a formação da Casa Universal de Justiça, mas que o governador de Haifa, numa conversação com um dos bahá'ís que Shoghi Effendi havia mandado vir, abordou esse assunto, ele mesmo, dizendo que, em sua opinião, quando fosse estabelecida a Casa de Justiça e os Lugares Sagrados Bahá'ís fossem registrados em nome da mesma, a questão toda deixaria de ser uma disputa familiar e seria colocada na firme base legal de uma organização religiosa permanente. Essa opinião, não só de um oficial britânico, mas também de alguns crentes e membros da família de 'Abdu'l-Bahá, reflete com perfeita clareza a atitude de alguns deles para com o Guardião. Sua mocidade, sua própria condição no início de seu ministério, os levaram a acreditar que ele precisava dos outros membros da Entidade da qual ele era Chefe permanente, a fim de que lhe ajudassem e aconselhassem, e também conseguissem uma base legal mais firme sobre a qual combater as pretensões dos inimigos na Palestina e no Iraque, baseadas na lei muçulmana Sharí'at, aos Lugares Sagrados Bahá'ís nesses países.

A reação de Shoghi Effendi em relação à tendência dessas opiniões e às consultas que mantinha com os bahá'ís que chamara a Haifa, demonstra que no início de sua Guardiania, por mais esmagado que ele muitas vezes se sentisse pessoalmente, sua mente era sempre a de um general brilhante que vê todas as batalhas numa perspectiva completa, nunca se deixando cegar por detalhes ou por emergências. O diário supracitado registra: "Nos primeiros dias de minha visita, durante grande parte do tempo Shoghi Effendi estava ocupado em consultas com Mountfort Mills, Roy Wilhelm, os Dreyfus-Barney, Lady Blomfield e o major Tudor Pole, e mais tarde quando chegaram os Schwarz, a respeito da fundação da Casa Universal de Justiça. De um modo geral, eu soube dos assuntos que tratavam. Parece que, antes de se poder estabelecer a Casa Universal, as Casas Locais e Nacionais devem estar funcionando naqueles países onde existem bahá'ís. Entendo que Shoghi Effendi havia chamado certos amigos da Pérsia e da Índia para essa conferência, mas não chegaram a tempo para se reunirem com aqueles amigos ocidentais que mencionei."

O resultado dessas discussões parece ter sido que o Guardião instruiu os Schwarz a regressar à Alemanha e trabalhar para a formação de corpos locais e de um corpo nacional; Roy Wilhelm e Mountfort Mills levariam à América, na ocasião de sua próxima Convenção, a recomendação de que o Conselho Executivo - o corpo nacional dos bahá'ís norte-americanos - assumisse função legislativa, dirigindo todas as atividades nacionais em vez de simplesmente implementar as recomendações e decisões tomadas na Convenção Anual pelos delegados em consulta. Sem dúvida, os bahá'ís britânicos presentes transmitiriam à sua própria comunidade o mesmo conceito geral. O que isso realmente significa é que, pouco mais de dois meses após assumir a Guardiania, Shoghi Effendi principiou a lançar seus alicerces para erigir a Ordem Administrativa da Fé segundo exposto no Testamento de 'Abdu'l-Bahá.

A pressão de tudo isso, porém, foi maior do que ele podia suportar. Ele nomeou um grupo de nove pessoas para funcionar experimentalmente como uma Assembléia e vemos que, em 7 de abril de 1922, esse corpo registra em seus relatórios que uma carta foi recebida da Folha Mais Sagrada, dizendo que "o Guardião da Causa de Deus, o Ramo escolhido, o Dirigente do povo de Bahá, Shoghi Effendi, sob o peso de desgostos e infindável tristeza, foi forçado a sair daqui por algum tempo a fim de repousar e se recuperar, depois do que regressará à Terra Santa para prestar seus serviços e desempenhar suas responsabilidades." Ela prossegue dizendo que, de acordo com a carta de Shoghi Effendi, a qual manda anexa, ele a designou para administrar, em consulta com a família de 'Abdu'l-Bahá e uma Assembléia escolhida, todos os assuntos bahá'ís durante sua ausência. Shoghi Effendi já havia partido de Haifa para a Europa, em 5 de abril, acompanhado por seu primo mais velho. Essa decisão e a carta do Guardião foram transmitidas pela Folha Mais Sagrada aos editores da revista Star of the West [Estrela do Ocidente] e publicadas em versões traduzidas com fac-símiles de sua própria carta e da de Shoghi Effendi no original persa. Certamente um comunicado no mesmo teor foi enviado a outros importantes Centros Bahá'ís. Em sua carta à revista Star of the West, a Folha Mais Sagrada explica que ela organizou uma Assembléia daqueles nomeados por Shoghi Effendi. A carta do Guardião é descrita a seguir:

Ele é Deus!

Este servo, após aquele penoso acontecimento e grande calamidade - a ascensão de Sua Santidade 'Abdu'l-Bahá ao Reino de Abhá - tem estado tão abatido com tristezas e dor, e tão enredado nas dificuldades (criadas) pelos inimigos da Causa de Deus, que considero minha presença aqui, nesta época e em tal atmosfera, desfavorável ao desempenho de meus importantes e sagrados deveres.

Por esta razão, não podendo agir de outro modo, por enquanto deixei os assuntos da Causa, tanto aqui como no exterior, sob a supervisão da Sagrada Família e a direção da Folha Mais Sagrada - que minh'alma lhe seja oferecida em holocausto - até que, pela Graça de Deus, tendo recuperado minha saúde, força, auto-confiança e energia espiritual e, de acordo com meu objetivo e desejo, tomado em minhas mãos inteira e regularmente o trabalho do serviço, eu atinja minhas mais altas esperanças e aspirações espirituais.

O servo de Seu Limiar,
Shoghi

Em 8 de abril, a Folha Mais Sagrada escreveu uma carta circular aos amigos. Ela primeiro acusa recebimento das cartas expressando lealdade e diz que Shoghi Effendi está contando com sua cooperação em difundir a Mensagem; o mundo bahá'í, doravante, deve estar unido através das Assembléias Espirituais e as questões locais devem ser submetidas a elas. Prossegue, então dizendo: "Desde a ascensão de nosso Bem-Amado 'Abdu'l-Bahá, Shoghi Effendi está tão profundamente comovido... que procurou o sossego necessário para poder meditar sobre a vasta tarefa à sua frente, e é a fim de realizar isso que deixou, provisoriamente, estas regiões. Ele me nomeou como sua representante durante sua ausência, e a família de 'Abdu'l-Bahá está certa de que, enquanto ele estiver ocupado nesse grande esforço, vós todos vos empenhareis na promoção triunfal da Causa de Bahá'u'lláh..." A carta datilografada em inglês é assinada em persa "Bahá'íyyih" e lacrada com seu selo.

Tudo parecia muito calmo no papel, mas, por trás disso, havia uma tempestade furiosa no coração e na mente de Shoghi Effendi. "Ele partiu", escreveu a Folha Mais Sagrada, "numa viagem a vários países." Acompanhado pelo primo, foi à Alemanha para consultar médicos. Ele me disse - lembro-me - que notaram a falta quase completa de reflexos, o que consideraram muito sério. Na solidão, entretanto, ele encontrou para si cura parcial, assim como tantos outros haviam encontrado antes dele. Alguns anos depois, em 1926, a Hippolyte Dreyfus, que o conhecera desde a infância e com quem evidentemente sentia que podia abrir o coração como amigo íntimo, ele escreveu que sua carta chegara quando "eu estava viajando para Bernese Oberland, que se tornou meu segundo lar. Na fortaleza e no refúgio de suas montanhas sedutoras, tentarei me esquecer dos vexames atrozes que há tanto tempo me afligem... Deploro profundamente o fato de que, em meu presente estado de saúde, eu me sinto com a mínima inclinação, e até incapaz, de qualquer consideração séria destes problemas vitais com os quais me defronto e os quais já lhe são conhecidos. A atmosfera em Haifa é intolerável e uma mudança radical é impraticável. A transferência de meu trabalho para qualquer outro centro está fora de cogitação, indesejável e, na opinião de muitos, realmente escandalosa... Não posso expressar-me mais adequadamente do que já fiz, pois minha memória tem sofrido muito."

Nos primeiros anos depois do falecimento de 'Abdu'l-Bahá, embora Shoghi Effendi muitas vezes viajasse pela Europa com o insaciável interesse não só de um jovem, mas também de um homem perseguido pelo seu trabalho e responsabilidade sempre-presentes e gigantescos, ele voltava repetidas vezes àquelas montanhas altas e agrestes e à sua sublime solidão.

Cópias de correspondências com um suíço alemão em cuja casa Shoghi Effendi se hospedou durante muitos verões, revelam muito de sua natureza, de seu amor por aqueles que ele chamava "boa e simples gente" e dos ternos sentimentos que tantas vezes caracterizavam suas amizades:

22 de dezembro de 1923
Caro Sr. Hauser,

Recebi seu gentil cartão, e a simples vista do Jungfrau, com o admirável retrato da cidade de Interlaken, despertou em mim a inesquecível memória de sua amabilidade, gentileza e hospitalidade durante minha deleitável estada com o senhor. Tudo isso, jamais esquecerei e esta memória sempre me será preciosa, invocando sentimentos de ternura e gratidão.

Estou lhe enviando alguns selos, os quais espero que aprecie.

De todo o coração, desejo-lhe, caro Sr. Hauser, um feliz Ano Novo e uma vida longa, próspera e feliz.

Esperando vê-lo novamente, e nunca o esquecendo,
Seu muito devotado
Shoghi

No ano seguinte, em 26 de setembro, ele novamente lhe escreve:

Meu caro Sr. Hauser,

Já cheguei e a primeira carta que quero escrever depois de meu regresso para casa é ao meu inesquecível e caro Hauser, sob cujo teto saboreei os prazeres da Suíça pitoresca e os encantos de uma hospitalidade que jamais será apagada de minha memória.

Recordando minhas experiências e minhas aventuras exaustivas seguidas pelo repouso que me foi oferecido pelo confortável e modesto Chalé Hoheweg, de cujo encanto jamais me esquecerei, sinto muitas vezes em mim um forte desejo de vê-lo um dia no seio de minha família, em nosso lar, e de lhe mostrar as evidências de minha gratidão e amizade! E se isto for impossível, espero que sempre se lembre de minha gratidão e afeto.

Acabo de receber pelo correio alguns novos selos persas com o retrato do novo Xá, que espero possam lhe interessar.

De todo coração lhe desejo uma vida longa, jubilosa e próspera, e espero um dia vê-lo novamente em Interlaken, no coração daquele país bem-amado.

Seu amigo fiel

Em 18 de dezembro, agradece a esse amigo seus cartões postais, enviando-lhe "uma modesta lembrança da cidade de Haifa, tão diferente e tão inferior aos belos sítios de sua Suíça pitoresca", e deseja a seu "caro e inesquecível amigo" um próspero Ano Novo.

Esse homem foi um velho guia suíço em cuja casa, na rua principal, Shoghi Effendi havia alugado um pequenino quarto, o sótão debaixo do telhado, pelo qual ele pagava cerca de um franco por noite. O teto era tão baixo que, quando seu tio, um homem alto, foi visitá-lo, não podia ficar de pé, ereto. Havia uma pequena cama, uma bacia e um jarro de água fria para se lavar. Interlaken é situada no coração do Bernese Oberland e é ponto de partida para inumeráveis excursões nos montes e vales circunvizinhos. Freqüentemente, muito antes do nascer do sol, Shoghi Effendi saía, usando calções até os joelhos, uma jaqueta de Norfolk,* perneiras de lã preta, robustas botas de montanhas, uma pequena e barata mochila de lona nas costas, e levando uma bengala. Ele tomava um trem até o pé de alguma montanha ou desfiladeiro, onde iniciava sua excursão, muitas vezes caminhando a pé por dez a dezesseis horas, geralmente sozinho, mas às vezes acompanhado de qualquer parente jovem que estivesse com ele. Estes parentes, porém, raramente podiam agüentar a celeridade de seu andar, e, depois de poucos dias, começavam a escusar-se. Daí ele escalava também algumas das mais altas montanhas, amarrado com corda a um guia. Essas excursões continuaram praticamente até o tempo de seu casamento. Lembro-me da primeira vez que fomos a Interlaken, no verão de 1937, e Shoghi Effendi me levou à casa de Hauser, querendo apresentar sua esposa àquele senhor idoso que ele tanto estimava e que com tanto interesse ouvia sua entusiástica narração do passeio do dia, maravilhando-se diante da infatigável energia e determinação daquele jovem, mas soubemos que ele havia morrido. O Guardião foi ao pequeno e tranqüilo cemitério para visitar a sepultura, levando-me com ele. Shoghi Effendi contava-me muitas vezes essas experiências nas montanhas durante sua juventude, mostrando-me esse ou aquele pico ao qual ele havia subido, esse ou aquele desfiladeiro que atravessara a pé. Sua excursão mais longa, disse-me, foi uma de quarenta e dois quilômetros através de dois desfiladeiros. Freqüentemente apanhava chuva e continuava a andar até que as roupas secassem nele. Tinha um amor profundo pela beleza das paisagens, e creio que essas ininterruptas e exaustivas marchas, hora após hora, sanaram parcialmente as feridas tão profundas deixadas em seu coração pelo falecimento do Mestre.

*Condado da Inglaterra. (n.r.)

Shoghi Effendi contava-me que praticamente nunca se alimentava antes de voltar, à noite, e então ia a um pequeno hotel (às vezes me levava ao mesmo restaurante simples), onde pedia pommes sautées, ovos fritos e salada, por serem baratos e substanciais, ia para casa, para seu pequeno quarto debaixo do telhado, caía na cama exausto e dormia, acordando para beber uma garrafa de água fria da montanha, e dormindo outra vez até que, impelido pelo seu terrível desassossego de alma, levantava e partia novamente antes do alvorecer. Havia algo de estranho e tocante no fato de que ele, naquele último verão de sua vida, voltou a todos os lugares que mais amava a fim de vê-los mais uma vez, como se uma daquelas longas sombras das montanhas estivesse se estendendo para alcançá-lo. Aqueles primeiros anos foram os anos em que ele não somente estava mais angustiado, mas também mais austero consigo próprio. Tinha uma disciplina rígida que aplicava a si mesmo e também àqueles que o acompanhavam. Uma quantia, menos que modesta, era reservada para o verão e, não importa se ele estivesse sozinho com um de seus parentes servindo de companheiro e secretário, ou, como acontecia algumas vezes, com outros membros da família, tal quantia tinha que ser suficiente, sem ser aumentada; havendo maior número de pessoas, era necessário economizar mais. Nunca viajava senão de terceira classe, mesmo quando ele era de meia-idade. Lembro-me de muito poucas ocasiões em que íamos a qualquer parte viajando de trem de primeira ou segunda classe, e isso ocorria somente se a terceira estivesse demasiadamente suja ou cheia. Quando viajava à noite, dormia nos duros bancos de madeira, com a cabeça na mochila, mais do que seus companheiros podiam suportar. Ele tinha duas normas, uma para si como Chefe da Fé, identificando perante o público a honra da Causa com sua própria honra; e uma como indivíduo, incógnito, não requerendo assim outra aparência pessoal senão a de um homem naturalmente modesto e consciencioso que não consentia em gastar com luxo os fundos que seu alto posto colocava à sua disposição. Ele não era responsável perante ninguém no mundo; nenhum bahá'í na terra poderia questionar qualquer coisa que ele quisesse fazer, mas ele questionava a si próprio e era um mestre que exigia tarefas árduas.

Com a passagem dos anos, quando a pesada carga que vinha suportando o esgotava mais e mais, eu me atrevia a insistir, tanto quanto possível, que ele fosse um pouco menos austero consigo próprio, um pouco menos exigente, a ponto de aceitar pelo menos os confortos modestos de um hotel decente, a algumas vezes cuidar de sua saúde, ter um quarto com banho e, visto que comia apenas uma vez por dia, ter alimentos mais nutritivos e de melhor qualidade. Essa ligeira modificação, ele aceitou somente porque Milly Collins, devido ao seu grande amor por ele, formou o hábito de lhe oferecer uma certa quantia antes de ele iniciar seu período de "descanso" e implorar que a usasse para si próprio em qualquer coisa que desejasse. Somente através de apelos veementes de minha parte, de que ele deveria aceitar o que Milly lhe dava com tão terno amor e solicitude, é que ele consentia em usar uma pequena parte para si próprio; o restante, ele utilizava em compras para os Jardins, os Lugares Sagrados e os Arquivos; isso, porém, lhe dava verdadeiro prazer, de modo que a intenção de Milly era realizada, de uma maneira ou outra.

Durante um ou dois verões, no início do seu ministério, Shoghi Effendi me contou que havia comprado uma bicicleta e andava com ela por muitos desfiladeiros. Muitas vezes eu ficava admirada porque ele, com sua verve, audácia e falta de senso mecânico, chegava em casa são e salvo, o que invariavelmente acontecia! Pouco entendia de máquinas, sendo típico intelectual, embora pudesse fazer com as mãos, quando assim desejasse, coisas muito delicadas.

Apesar de sua retirada - pois foi efetivamente o que sua primeira ausência da Terra Santa significou - as forças que Shoghi Effendi pusera em movimento estavam frutificando. Um dos peregrinos, ao regressar, informou à Convenção dos Bahá'ís Americanos, realizada em abril de 1922, que: "nossa visita foi a pedido de Shoghi Effendi. Em Haifa, encontramos bahá'ís da Pérsia, da Índia, de Burma, do Egito, da Itália, da Inglaterra e da França... Ao chegar, a impressão que fortemente se apoderou de mim foi de que Deus está em Seu Céu e tudo está bem com o mundo... Encontramos Shoghi Effendi, vestido inteiramente de preto, uma figura comovente. Pensem naquilo que ele representa hoje! Todos os problemas complexos de grandes estadistas do mundo são como brinquedos de criança em comparação com os grandes problemas desse jovem, em cuja frente estão os problemas do mundo inteiro... Ninguém pode formar qualquer conceito de suas dificuldades, as quais são acabrunhadoras... O Mestre não Se foi. Seu Espírito está presente com maior intensidade e poder... No centro dessa irradiação, está esse jovem, Shoghi Effendi. O Espírito emana dele. Ele de fato é jovem de rosto, em seu aspecto e modos; ainda assim, seu coração é hoje o centro do mundo. O caráter e espírito divinos cintilam nele. Ele, tão somente, poderá... salvar o mundo e fundar a verdadeira civilização. Tão humilde, meigo e abnegado é ele, que é comovente vê-lo. Suas cartas são maravilhosas. É grande a sabedoria de Deus em nos conceder o semblante desse grande ponto central de guia diante de problemas difíceis. Esses problemas, muito semelhantes aos nossos, lhe vêm de todas as partes do mundo. São encarados e solucionados por ele da maneira mais informal... Os grandes princípios estabelecidos por Bahá'u'lláh e 'Abdu'l-Bahá têm seu alicerce agora no mundo exterior do Reino de Deus na terra. Esse alicerce está sendo lançado, segura e certamente, por Shoghi Effendi em Haifa hoje." Outro daqueles convocados a Haifa para consulta disse: "Quando se chega a Haifa e se conhece Shoghi Effendi, vê-se o funcionamento de sua mente e de seu coração, seu maravilhoso espírito e compreensão das coisas, é verdadeiramente incrível." Contaram que em Haifa ficaram sabendo que Shoghi Effendi havia se deitado às três horas da manhã e levantado às seis, e que, uma vez, trabalhou quarenta e oito horas sem alimento ou bebida. Aos amigos reunidos na Convenção, Shoghi Effendi enviara um buquê de violetas, por intermédio de um dos peregrinos que estava regressando, e seu amor a todos os bahá'ís. O relatório da Convenção afirmou: "Já se tornou evidente a todos que chegou o tempo da organização do Reino Divino na terra..." Foi em conseqüência das instruções dadas aos bahá'ís americanos que visitaram Haifa nos primeiros meses de 1922 que essa Convenção elegeu uma Assembléia Espiritual Nacional, substituindo a antiga Comissão Executiva da Unidade do Templo Bahá'í e estabelecendo o trabalho da Fé na América do Norte numa base inteiramente nova.

No outono de 1922, a Folha Mais Sagrada, profundamente aflita pela longa ausência de Shoghi Effendi, mandou membros de sua família para encontrá-lo e lhe suplicar que voltasse à Terra Santa. Na rua de uma pequena aldeia nas montanhas, quando, ao anoitecer, vinha chegando de uma daquelas excursões que duravam o dia todo, Shoghi Effendi, com grande surpresa, encontrou sua mãe à sua procura. Ela fizera todo esse trajeto desde a Palestina para esse fim, acompanhada de outro membro da família do Mestre. Com lágrimas nos olhos, informou-o da angústia de Bahíyyih Khánum, da família e dos amigos, e o persuadiu a voltar e assumir seu justo lugar.

Uma nota do noticioso bahá'í americano, o Star of the West, dizia: "Shoghi Effendi... regressou a Haifa sexta-feira à tarde, em 15 de dezembro, radiante de saúde e contentamento, e retomou "as rédeas do posto" de Guardião da Causa Bahá'í de que fora incumbido pelo Testamento de 'Abdu'l-Bahá". Suas próprias cartas e cabogramas refletem a mudança de sua condição. Dois dias após seu regresso, Shoghi Effendi escreveu aos bahá'ís da Alemanha: "Ter estado incapaz de manter íntimo e constante contato convosco, devido a tristes circunstâncias sobre as quais não tive controle... é, para mim, causa de triste surpresa e profundo e amargo pesar...", mas ele prossegue, dizendo que agora "regressei à Terra Santa com renovado vigor e espírito ressuscitado". No mesmo dia, escreveu aos bahá'ís franceses: "Já restabelecido e tranqüilizado, reassumo meus árduos deveres" e também aos bahá'ís japoneses: "Tendo colocado um fim às minhas longas horas de retiro e meditação", ele diz nunca ter duvidado "que minha súbita retirada do campo de serviço ativo... jamais esmoreceria vossas ternas esperanças". Também deixou bem claro que, para ele, esse "súbito desaparecimento" fora necessário: "Por prolongado que fosse esse período", escreveu ele à América em 16 de dezembro de 1922, "no entanto, tenho sentido firmemente, desde que este Novo Dia alvoreceu sobre mim, que tal retiro, de que eu precisava, apesar dos transtornos temporários que esse pudesse acarretar, ultrapassaria largamente, em seus resultados, qualquer serviço imediato que eu humildemente pudesse ter prestado ao Limiar de Bahá'u'lláh." Em sua solidão, Shoghi Effendi comemorara o primeiro aniversário do falecimento do Mestre; ter que enfrentar essa ocasião em Haifa, no túmulo de 'Abdu'l-Bahá, teria sido, provavelmente, mais do que ele poderia ter suportado no primeiro ano de sua Guardiania.

"Com sentimentos de jubilosa confiança", como ele expressou, Shoghi Effendi agora se lançou ao trabalho. Algo de sua natureza original - que havia levado um dos bahá'ís a escrever-lhe, enquanto era estudante em Beirute: "Sua face risonha está sempre diante de mim" - havia voltado. Isso é claramente refletido na série de cabogramas que ele despachou, em 16 de dezembro de 1922, um dia após sua chegada, praticamente a todo o mundo bahá'í, as cópias exatas das quais, tiradas de seu próprio arquivo, cito:

Pérsia

"Que o Senhor dos Exércitos possa, com meu regresso ao campo do serviço, conceder uma nova bênção a Seus valorosos guerreiros dessa favorecida terra é, em verdade, minha fervorosa prece."

América

"O avanço da Causa para diante jamais foi nem poderá ser detida. Peço ao Todo-Poderoso que meus esforços, agora refrescados e renovados, possam, com vosso infalível apoio, levá-la à gloriosa vitória."

Grã-Bretanha

"Consolado e fortalecido, uno agora os meus humildes esforços com vosso incansável empenho pela Causa de Bahá'u'lláh."

Alemanha

"Unido convosco desde longe em meus pensamentos e minhas meditações, acrescento agora, alegre e esperançosamente, mais este laço de participação ativa num serviço vitalício ao Limiar de Bahá'u'lláh."

Índia

"Que a nossa reunião na gloriosa arena do serviço venha a ser, no campo espiritual dessa terra, o arauto de sobrepujantes vitórias."

Japão

"Revivificado e tranqüilo, agora vos estendo através dos longínquos mares minha mão de cooperação fraternal na Causa de Bahá."

Mesopotâmia

"Com zelo não diminuído e com forças renovadas, aguardo agora na Terra Santa vossas jubilosas notícias."

Turquia

"De regresso a estas sagradas cercanias, estendo-vos minha mão de camaradagem e serviço na Causa de Bahá'u'lláh."

França

"Aguardando na Terra Santa vossas alegres notícias."

Em 18 de dezembro, telegrafou:
Suíça

"Peço transmitir meus amigos suíços certeza minha infalível cooperação ocasião meu feliz regresso à Terra Santa."

E em 19 de dezembro, enviou os dois seguintes cabogramas:

Itália

"Transmitam amigos italianos meus melhores votos ocasião meu regresso Terra Santa."

a Dunn

"Aguardando afetuosamente boas-novas dos amigos australianos na Terra Santa."

Shoghi Effendi mandou telegramas também a alguns de seus parentes mostrando claramente sua determinação, seu fervor e um toque de exuberância juvenil que nos comove o coração de simpatia por ele. Em 18 de dezembro, telegrafou a uma de suas tias, que estava visitando o Egito: "Segurando firme e definitivamente rédeas do posto. Sentindo profundamente sua falta. Certifica-me sua saúde." Ao seu primo, telegrafou no mesmo dia: "Reentrei campo de serviço. Confiando sua infalível cooperação" e a um outro primo distante, no dia seguinte: "... Confiando seguramente sua cooperação fraternal."

Sendo por natureza muito metódico, nesses primeiros anos Shoghi Effendi mantinha arquivos praticamente completos e cópias de cartas remetidas; mais tarde, a pressão do trabalho e problemas impediram-no de fazer isso, com exceção de seus arquivos de cabogramas dos quais até o fim da vida ele guardava cópias, arquivadas por número e ano. Ele fez uma lista de 67 centros aos quais escreveu, orientais e ocidentais, durante os meses que passou na Terra Santa em 1922. Desde 16 de dezembro até 23 de fevereiro de 1923, ele registra 132 lugares aos quais escreveu, a alguns mais de uma vez. Numa carta com data de 16 de dezembro de 1922, ele escreveu: "... Agora aguardarei ansiosamente as alegres notícias do progresso da Causa e da extensão de suas atividades, e não pouparei esforço algum para compartilhar com os fiéis, aqui e em outras terras, as boas-novas, tão bem vindas, da marcha progressiva da Causa." A correspondência desse período abrange 21 países e 67 cidades, mas parece que não escreveu a mais de uns vinte indivíduos, muitos dos quais não eram bahá'ís. Os países com os quais ele mantinha correspondência no princípio de seu ministério eram: Pérsia, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Itália, Suécia, Suíça, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Ilhas do Pacífico, Japão, Índia, Burma, Cáucaso, Turquistão, Turquia, Síria, Mesopotâmia, Palestina e Egito.

Com o entusiasmo e a consciência tão típicos de sua natureza, Shoghi Effendi sentou-se, no dia seguinte à sua chegada naquele dezembro de 1922, e escreveu aos amigos da Grã-Bretanha:

Meus caríssimos irmãos e irmãs na Fé de Deus!

Permitam-me, no início desta minha primeira carta a vocês, transmitir aos seus corações, em palavras que, embora inadequadas, asseguro-lhes, são profundamente sentidas e sinceras, uma medida de minha impaciência ardente durante meus dias de retiro, para voltar celeremente e, de mãos dadas, participar convosco no grande trabalho de consolidação que espera todo fervoroso crente na Causa de Bahá'u'lláh. Agora que felizmente me sinto restaurado a uma condição em que posso tomar em minhas mãos, com continuidade e vigor, os fios de meus múltiplos deveres, a amargura do desapontamento repetidamente sentido no decorrer destes últimos meses fatigantes, por não me achar preparado, foi absorvida pela doçura da presente hora, quando percebo que, espiritual e fisicamente, estou em melhores condições para ombrear as responsabilidades da Causa... Desnecessário é dizer-lhes o quanto me senti grato e satisfeito em saber da formação de um Conselho Nacional, cujo principal objetivo é guiar, coordenar e harmonizar as várias atividades dos amigos...

Ele conclui esta carta assegurando-lhes que, com "afeto constante e vigor renovado" espera ansiosamente suas notícias, subscrevendo-se com muita simplicidade: "Seu irmão, Shoghi". Numa carta posterior, com data do dia 23 do mesmo mês, ele lhes diz: "Durante estes últimos poucos dias tenho esperado ansiosamente as primeiras mensagens escritas pelos meus amigos ocidentais enviadas a mim desde que souberam de meu regresso à Terra Santa." Ele diz que a primeira carta a chegar do Ocidente foi de um bahá'í inglês, e prossegue: "Agora que reiniciei plenamente a minha tarefa, espero, muito sinceramente, que possa oferecer meu humilde quinhão de assistência e conselhos no trabalho de suma importância que ora se apresenta diante de vós." Numa carta pessoal a um parente, escrita em 20 de dezembro, ele expressa seus sentimentos mais íntimos: "É verdade que minha tarefa é imensa, minhas responsabilidades graves e múltiplas, mas a confiança que as palavras do Mestre onisciente me dão em meu trabalho é meu escudo e meu apoio no ofício que ora se desdobra diante de meus olhos."

Em sua primeira carta à recém-eleita Assembléia Nacional dos Estados Unidos, ele escreve, em 23 de dezembro: "Não ter podido, por causa de circunstâncias imprevistas e inevitáveis, corresponder-me convosco desde que entrastes em vossos múltiplos e árduos deveres, é para mim motivo de profundo pesar e triste surpresa." Estas são as palavras de um homem saindo das profundezas de um pesadelo e mostram como foi profundo o abismo de aflição no qual ele havia caído no ano anterior. "Estou, entretanto", continua ele, "confiante e sustentado pela convicção, nunca obscurecida em minha mente, de que qualquer coisa que venha a suceder na Causa de Deus, por mais inquietante que seja em seus efeitos imediatos, está repleta da Sabedoria infinita e tende, afinal, a promover seus interesses no mundo".

Nessas primeiras cartas, ele convida as Assembléias a lhe escreverem e pede que lhe informem de suas "necessidades e desejos, seus planos e suas atividades", a fim de poder "através de minhas orações e assistência fraternal, contribuir, embora inadequadamente, ao êxito de sua gloriosa missão neste mundo". Está profundamente grato à maneira pela qual "minhas humildes sugestões" foram executadas, e assegura aos amigos sua "infalível assistência fraterna".

Uma vez que os bahá'ís, através dos cabogramas do Guardião, souberam que ele havia regressado a Haifa, um dilúvio de correspondência precipitou-se sobre ele de todas as partes do mundo. Embora isso lhe fortalecesse a confiança, colocou Shoghi Effendi num sério dilema que ele expõe claramente numa carta a um primo distante, escrita durante os primeiros anos de seu ministério: "Um de meus mais prementes problemas é o da correspondência individual. Imitar o Mestre seria presunção da minha parte e, em vista da rápida expansão do Movimento, impraticável. Corresponder-me pessoalmente com alguns e não escrever a outros - como certamente compreende - levará gradualmente a atrito, desânimo e até animosidade, pois, como bem sabe, há um número considerável de amigos que espera muito e faz pouco. Abolir completamente a correspondência individual e depender de mensagens indiretas escritas por meus auxiliares e associados, enquanto eu dedico meu tempo à correspondência direta com as Assembléias em toda parte do mundo, apresentaria também um problema difícil. Eu realmente apreciaria sua opinião sobre este problema espinhoso. Esta última solução tem a óbvia objeção de prejudicar todas as relações pessoais com os amigos individuais". Em janeiro de 1923, o Guardião escreveu aos bahá'ís alemães que, em vista da "admiravelmente rápida expansão do Movimento em toda parte do mundo", ele não podia manter correspondência individual com todos os bahá'ís do Oriente e Ocidente porque "demandaria tanto tempo e energia da minha parte que me impediria de prestar atenção adequada aos meus outros deveres, tão urgentes e vitais nestes dias. Contra minha vontade, portanto, terei que me contentar com correspondências diretas com cada grupo bahá'í em cada localidade, seja cidade ou aldeia... e coordenando suas... atividades através da Assembléia Nacional..." Em novembro de 1923, o problema ainda lhe preocupa. Ele escreve à Assembléia Nacional Britânica, que está dando "sua cuidadosa e integral atenção" ao assunto, assegurando-lhe que: "Nenhuma mensagem escrita, por menos importante que seja, jamais será primeiro aberta e lida por qualquer um senão eu mesmo"; em 1926, escreve: "Estou perplexo e preocupado, pois dificilmente acho algum tempo para correspondência direta."

Por muitos anos - de fato, por trinta e seis - essa questão de como achar tempo para dar conta de sua correspondência preocupava o Guardião. Finalmente ele decidiu não deixar de responder às cartas individualmente, especialmente no Ocidente e em países onde havia novos bahá'ís, porque descobrira, através de experiência dolorosa, que as Assembléias não eram sempre bastante sábias para tratar seres humanos de modo a lhes curar as feridas e os manter ativos na Fé. Essa correspondência com indivíduos nem sempre era bem vista por um corpo nacional que, ao ficar sabendo que um indivíduo havia sido informado de um fato importante, considerava que ele mesmo deveria ser o filtro oficial de tal informação. Numa carta escrita em nome do Guardião pelo seu secretário, em 1941, a uma Assembléia Nacional, encontramos sua própria explicação de seu modo de proceder em tais ocasiões: "Shoghi Effendi tem afirmado, repetidas vezes, aos bahá'ís de toda parte do mundo, que eles têm inteira liberdade para lhe escrever sobre qualquer assunto que queiram; naturalmente, ele tem igual liberdade para responder de qualquer maneira que lhe apraz. Atualmente, quando as instituições da Causa estão apenas começando a funcionar, em sua opinião é essencial manter essa extensa correspondência, embora acrescente muito aos seus numerosos encargos. Algumas vezes acontece que a primeira informação recebida por ele a respeito de alguma medida importante que, de um modo ou outro, afeta os interesses da Fé, provém da carta de um indivíduo em vez de uma Assembléia; naturalmente seria preferível que a informação viesse de um corpo administrativo, mas, qualquer que seja a fonte, o Guardião preocupa-se unicamente com o bem-estar da Fé e, quando julga prejudicial certa medida, expõe suas opiniões em sua resposta. Ele tem inteira liberdade para fazer isso."

"Estou agora", escreveu Shoghi Effendi a Tudor Pole, em 1923, "completamente restabelecido de saúde e intensamente ocupado com meu trabalho atual". Correspondência, entretanto, era longe de ser sua única atividade; estava também "ocupado em atender aos vários peregrinos que, nestes dias, visitam este sagrado Lugar." Era seu costume, naqueles primeiros dias de seu ministério, ter reuniões regulares na casa de 'Abdu'l-Bahá. Em dezembro de 1922, cinco dias após seu regresso, ele escreve: "Participei completamente vossas notícias àqueles amorosos peregrinos e amigos residentes na Terra Santa, com os quais realizo reuniões regulares onde era a sala de audiência do Mestre." Além de atender ao bem-estar de seus hóspedes, fazendo uma refeição com os peregrinos ocidentais na sua Casa de Peregrinos em frente à casa de 'Abdu'l-Bahá e visitando os Túmulos do Báb e do Mestre com amigos orientais, muitas vezes tomando uma xícara de chá com eles na adjacente Casa dos Peregrinos Orientais, Shoghi Effendi já dedicava considerável tempo e atenção ao melhoramento e ampliação do Centro Mundial da Fé. Em 9 de abril de 1922, iniciou-se a obra da nova Casa de Peregrinos Ocidentais, para a qual projetos haviam sido feitos durante a vida de 'Abdu'l-Bahá, mas que agora Shoghi Effendi implementava vigorosamente. No primeiro dia de Ridván, embora o próprio Shoghi Effendi tivesse saído de Haifa, os Santuários de Bahá'u'lláh e do Báb receberam iluminação elétrica pela primeira vez, de acordo com medidas tomadas antes da ascensão do Mestre, mas, outra vez, sob a supervisão do próprio Shoghi Effendi. Já em março de 1922, durante a visita do Sr. Remey, Shoghi Effendi havia tratado com ele, em detalhes, várias possibilidades para a construção final de um túmulo para 'Abdu'l-Bahá, o local do futuro Templo Bahá'í no Monte Carmelo e um plano geral de paisagismo para essas propriedades bahá'ís.

Estas podem ser descritas como as fases mais agradáveis de seu trabalho no desempenho das obrigações que lhe impunha seu alto posto, embora lhe exigissem grande dispêndio de tempo e energia. Mas o que realmente lhe afligia além do que poderia suportar eram as atividades dos rompedores do Convênio. No dia seguinte ao seu regresso a Haifa, ele escrevera: "Eis que... as terríveis predições de 'Abdu'l-Bahá relativas aos rompedores do Convênio já foram cumpridas de um modo impressionante!" A situação tornava-se cada vez mais grave; em fevereiro de 1923, ele achou necessário telegrafar à América: "Registrem toda correspondência. Informem amigos", mostrando claramente uma preocupação com a entrega de suas cartas. Em janeiro, escreveu a Hussein Afnán: "Presumo que tenha percebido, através de experiências passadas, que eu insisto em absoluta sinceridade, escrupulosa justiça em tudo o que se refere à Causa, e numa atitude intransigente a respeito dos inimigos do Movimento, os Nakezeens, cujos esforços vis e incessantes somente Deus há de frustrar." A pessoa a quem isso foi escrito, um neto de Bahá'u'lláh e sobrinho de 'Abdu'l-Bahá, tornou-se ele mesmo um notório rompedor do Convênio não muito tempo depois; foram seus três irmãos que se casaram com três netas do Mestre - duas delas irmãs do próprio Guardião - tecendo assim, na família, tão inextricável enredo de ressentimento, deslealdade e ódio que finalmente toda a família de 'Abdu'l-Bahá ficou envolvida e Shoghi Effendi perdeu todos os seus parentes. Vemos aqui, reluzindo através da mente inocente do jovem Guardião, a força de estadista, o grande sobrepujante Protetor da Fé e Defensor dos Fiéis, aquele que 'Abdu'l-Bahá deixara para Seus seguidores como Seu maior presente, Sua mais preciosa posse. Pelo fim dessa mesma carta, Shoghi Effendi assegura-lhe: "Com coração puro, antevejo ansiosamente aqueles sinais que revelam inequivocamente seu desejo e sua resolução de apoiar o Testamento do Mestre e evitar, de todas as maneiras, os rompedores do Convênio." Nas próprias palavras de Shoghi Effendi, foi "entre o calor e a poeira que os ataques lançados por um inimigo infatigável precipitaram" que ele teve que prosseguir com sua tarefa.

A posição da Fé exigia que fossem cultivadas cuidadosas relações com as autoridades britânicas. 'Abdu'l-Bahá fora bem conhecido e altamente estimado, embora seja pouco provável que alguém na Palestina tivesse a mais ligeira noção das vastas implicações do "Movimento" - como era muitas vezes chamado nos primeiros tempos - do qual O aceitaram como Dirigente. Em 19 de dezembro de 1922, Shoghi Effendi telegrafara ao Alto Comissário da Palestina em Jerusalém: "Queira aceitar meus melhores votos e cordiais cumprimentos na ocasião em que regresso à Terra Santa e reassumo meus deveres oficiais." Como deve ter havido um grande rumor, sem dúvida ardorosamente instigado pelos rompedores do Convênio, acerca de sua ausência de oito meses, este foi um ato cuidadosamente calculado por Shoghi Effendi, bem como um gesto de cortesia.

O que mais preocupava Shoghi Effendi, porém, era o Santuário de Bahá'u'lláh em Bahjí. As chaves do interior do Túmulo estavam ainda nas mãos das autoridades; o direito de acesso às outras partes do Santuário era concedido aos bahá'ís e aos rompedores do Convênio igualmente; o vigia bahá'í guardava-o como antes e qualquer decisão parecia estar suspensa. Shoghi Effendi nunca descansou até que, através de representações às autoridades, apoiadas por insistente pressão dos bahá'ís do mundo inteiro, ele conseguiu tomar novamente em suas próprias mãos a guarda do Santo Túmulo. Em 7 de fevereiro de 1923, escreveu a Tudor Pole: "Tive uma longa conversa com o Coronel Symes, explicando-lhe plenamente a situação exata, a voz inequívoca e preponderante de toda a Comunidade Bahá'í e sua inabalável determinação de apoiar a Vontade e Testamento de 'Abdu'l-Bahá. Recentemente ele mandou um recado a Muhammad 'Alí, requisitando dele a quantia de £108, pelas despesas de policiamento, sustentando que, por ser ele o agressor, era responsável por tal despesa. Até agora ele não atendeu a esse pedido e eu aguardo futuros avanços com profunda ansiedade."

No dia seguinte, Shoghi Effendi recebeu este telegrama de seu primo, que estava em Jerusalém:

Sua Eminência Shoghi Effendi Rabbani, Haifa.

Carta recebida medidas imediatas tomadas decisão final por Alto Comissário está a nosso favor a chave é vossa.

A supracitada foi uma carta escrita pelo Governador de 'Akká, Sir Gilbert Clayton, ao Alto Comissário. Shoghi Effendi, em outra carta a Tudor Pole, informou-lhe que tinha relações muito cordiais com o Governador de Haifa, Coronel G. Stewart Symes, e havia estado com Sir Gilbert; foi devido a esse contato, sem dúvida, que as autoridades decidiram a favor do Guardião e a chave foi devolvida oficialmente ao vigia bahá'í do Santuário, de quem fora arrancada à força havia mais de um ano.

Embora a segurança do Qiblih do mundo bahá'í estivesse agora garantida de uma vez por todas, a casa ocupada por Bahá'u'lláh em Bagdá estava ainda nas mãos dos inimigos xiitas da Fé e continua assim até hoje; a batalha para restituí-la à custódia bahá'í haveria de preocupar e aborrecer Shoghi Effendi por muitos anos.

Todas as vezes que se entra em detalhes sobre qualquer período especial na vida do Guardião, sentimo-nos inclinados a dizer: "Este foi o pior período", tão carregado de tensões, problemas e insuportáveis pressões foi seu ministério inteiro. Mas há um padrão, há temas, altos e baixos eram atingidos. O padrão de 1922, 1923 e 1924 revela-se, no que diz respeito à sua vida pessoal, como um tentativa heróica de se dedicar inteiramente a esse leviatã - a Causa de Deus - que ele estava incumbido de proteger. Repetidas vezes era derrotado. Lacerado pela agonia da dúvida quanto ao seu próprio merecimento de ser o sucessor de 'Abdu'l-Bahá, lutava consigo mesmo, assim como tantos Profetas e Eleitos antes dele; nas profundezas de sua alma, argumentava com seu destino, protestava contra seu fado, apelava a seu Deus por alívio - mas de nada lhe valeu. Ele estava firmemente preso ao enredo do poderoso Testamento do Mestre. Ele insinua isso muitas vezes em suas cartas: "a tempestade e tensão que têm agitado minha vida desde o falecimento de 'Abdu'l-Bahá"; "Eu, de minha parte, quando recordo... as infelizes circunstâncias de má saúde e esgotamento físico que acompanharam os anos iniciais de minha carreira de serviço à Causa, dificilmente me sinto satisfeito e estaria realmente deprimido se não fosse sustentado pela memória e inspirado pelo exemplo dos diligentes e incessantes esforços manifestados por meus companheiros de trabalho no mundo inteiro durante estes dois anos penosos no serviço da Causa." Numa outra carta ele escreveu: "... recordando aqueles dias sombrios de meu retiro, amargurado por sentimentos de ansiedade e tristeza... bem posso imaginar o grau de intranqüilidade, ainda mais, de aflição, que deve ter agitado a mente e a alma de todo devotado e leal servo do Bem-Amado durante aqueles longos meses de ansiedade e penoso silêncio..."

Que sua própria condição, e o que ele considerava sua inabilidade em atingir a altura da situação na qual o falecimento do Mestre o colocara, durante vários anos o afligia mais do que qualquer outra coisa é evidenciado em excertos de suas cartas. Ainda em setembro de 1924, ele escreveu: "Deploro o efeito perturbador de meus forçados e repetidos afastamentos do campo de serviço... minha ausência prolongada, minha completa inação, entretanto, não deveriam ser atribuídas somente a certas manifestações externas de discórdia, insatisfação e deslealdade, embora tenham tido um efeito tão paralisante sobre o prosseguimento de meu trabalho, mas também à minha própria falta de merecimento e às minhas imperfeições e fraquezas." Sua tarefa mais árdua, desde o princípio, foi aceitar a si próprio.

No início do verão de 1923, Shoghi Effendi novamente saiu de Haifa em busca de algum restabelecimento e alívio na solidão das altas montanhas da Suíça. Mas, diferentemente de anos posteriores, durante os quais ele mantinha contato constante com o trabalho da Causa através de cabogramas e cartas, esta foi, mais uma vez, uma interrupção completa, uma fuga para o deserto, um exame de consciência, uma comunhão consigo mesmo e seu destino a fim de encontrar as forças para regressar e assumir as obrigações de seu alto posto. Regressou em novembro de 1923 e a carta que escreveu aos bahá'ís americanos no dia 14 do mesmo mês na qual diz ter voltado de uma ausência forçada, contém uma frase que dá uma indicação daquilo que deve ter passado pela sua mente durante aquele período. Ele diz: "As extraordinárias revelações do Testamento do Bem-Amado, tão estupendo em todos os seus aspectos, tão enfático em suas injunções, têm desafiado e confundido as mentes mais aguçadas..." Pode alguém duvidar de que confundiram a sua mente também? Com a grande humildade de sua natureza, por um lado, e a grande fé e confiança no Mestre por outro, que tão fortemente caracterizavam Shoghi Effendi, ele, em verdade, deve ter devotado muita reflexão às implicações daquele Testamento e ao seu próprio procedimento agora que estava regressando "após um longo e ininterrupto silêncio" para assumir mais uma vez "meu trabalho no serviço da Causa de Bahá'u'lláh".

Esta vez ele fez questão de chegar antes da comemoração do segundo aniversário da ascensão do Mestre. Que isso lhe comoveu profundamente é demonstrado nos cabogramas que mandou a vários países naquela ocasião, que faziam referências às "pungentes memórias", o "pesar e angústia" que esse aniversário evocou. À Pérsia, telegrafou: "Que esta mais tenebrosa hora de angústia desta noite possa prenunciar o alvorecer de um novo dia para a bem-amada Pérsia." Por muitos anos, em numerosas mensagens, ele enfatiza este aniversário e as coisas a ele associadas; isto sempre evocava profundas e trágicas memórias para ele. Lembro-me que muitas vezes, depois do trigésimo quinto aniversário do falecimento de 'Abdu'l-Bahá, Shoghi Effendi dizia: "Já percebeu que estou carregando este peso há trinta e seis anos? Estou cansado, estou cansado!"

Com o término de 1923, quase se poderia dizer que o alado Guardião emergia da crisálida da juventude, um novo ser; as asas podem não ter atingido ainda sua plena envergadura, mas, com o passar dos anos, seu movimento aumenta constantemente em âmbito e em confiança até que, no fim, verdadeiramente, abrigam à sua sombra toda a humanidade. Em seus primeiros escritos vê-se desdobrar esse domínio, em estilo, em pensamento, em poder. Vamos selecionar certos fatos e citações, ao acaso, e vejamos com que clareza substanciam essa evolução que se operava. Desde o princípio, ele se dirigia aos bahá'ís com aquele inimitável toque de confiança que conquistava todos os corações, e pedia-lhes que orassem por ele a fim de que pudesse, em colaboração com eles, conseguir o "celebrado triunfo da Causa de Deus" em todas as terras. Suas perguntas são desafiadoras, seus pensamentos, incisivos: "Seremos levados pelo dilúvio de idéias vazias e contraditórias, ou firmar-nos-emos, indômitos e irrepreensíveis, na rocha sempiterna das Instruções Divinas?" "... acreditaremos que qualquer coisa que nos sobrevenha é divinamente ordenada e de modo algum o resultado de nossa pusilanimidade e negligência?" Já em 1923, ele vê o mundo e a Causa como duas coisas distintas que não devem ser misturadas em nossas mentes numa massa sentimental e fortuita. A Vontade de Deus, afirma ele, está "em desacordo com as opiniões nubladas, as doutrinas impotentes, as teorias toscas, as vãs imaginações, os conceitos que estão na moda numa era transitória e turbulenta".

Muitas e muitas vezes, nas cartas daqueles primeiros anos, Shoghi Effendi menciona a necessidade de "levantar-vos e oferecer vosso quinhão de serviço a este mundo desatento e sofredor". Numa carta a um dos amigos ele faz uma distinção que muito revela: "Chegou o tempo em que os amigos... devem pensar não em como deveriam servir à Causa, mas, sim, como a Causa deveria ser servida." Bem poderíamos continuar até hoje a ponderar essas palavras. Quais são suas necessidades, qual a sua direção, quais as suas metas?

O interesse de Shoghi Effendi no Pacífico e sua percepção acerca do futuro desenvolvimento da Causa naquela área estão evidentes nos primeiros anos de sua Guardiania. Ele escreveu às Ilhas do Pacífico, em termos deliciosamente românticos, em janeiro de 1923, que "seus próprios nomes evocam dentro de nós tão alto senso de esperança e admiração que a passagem do tempo e as vicissitudes da vida jamais poderão enfraquecer ou apagar" e dirigiu uma carta, em janeiro de 1924: "Aos bem-amados de 'Abdu'l-Bahá em toda parte da Austrália, Nova Zelândia, Tasmânia e as ilhas adjacentes do Pacífico. Amigos e arautos do Reino de Bahá'u'lláh! Uma brisa fresca repleta do perfume de vosso amor e devoção à nossa bem-amada Causa soprou novamente de vossas longínquas costas sulinas até a Terra Santa e fez com que todos nós nos lembrássemos desse inextinguível espírito de serviço e abnegação que o falecimento de nosso Bem-Amado ateou, nestes dias, em quase todos os recantos do globo."

As palavras escritas por ele a uma das Assembléias americanas em dezembro de 1923 quase parecem um monólogo: "A inescrutável sabedoria de Deus decretou que nós, que somos os escolhidos portadores da maior Mensagem do mundo à humanidade sofredora, labutássemos e promovêssemos nosso trabalho sob as mais penosas condições de vida, em ambientes desfavoráveis, em face a provações sem precedentes e, sem meios, influência ou apoio, conseguíssemos, constante e seguramente, a conquista e a regeneração dos corações humanos." Muitas dessas primeiras cartas às várias Assembléias Espirituais têm esta característica, não de reflexão mas, sim, a de expressar suas próprias e mais íntimas considerações. Nesse mesmo mês, ele escreveu: "... É verdade que o progresso de nosso trabalho, quando comparado ao surgir e desenvolvimento sensacionais de uma causa terrena, tem sido doloroso e lento; no entanto, cremos firmemente e jamais haveremos de duvidar de que a grande Revolução espiritual que o Todo-Poderoso, por nosso intermédio, está promovendo nos corações dos homens, é destinada a conseguir, firme e seguramente, a regeneração completa de toda a humanidade." "Por grande que seja nossa tribulação e inesperados os infortúnios da vida, que tenhamos sempre em mente a vida que Ele [o Mestre] levou antes de nós e, inspirados e gratos, sustentemos nossa incumbência com constância e fortaleza, para que, no mundo vindouro, na presença divina de nosso amoroso Confortador, possamos receber Seu verdadeiro consolo e a recompensa de nossa faina." "Não importa o que nos aconteça e, por mais tenebrosa que nos pareça a perspectiva do futuro, se nós apenas desempenharmos o nosso papel, poderemos ficar confiantes de que a Mão do Invisível está trabalhando, formando e moldando os acontecimentos e as circunstâncias do mundo e pavimentando o caminho para a realização final de nossos objetivos e esperanças para a humanidade." "É nosso dever primário criar, por meio de nossas palavras e ações, nossa conduta e nosso exemplo, a atmosfera na qual as sementes das palavras de Bahá'u'lláh e 'Abdu'l-Bahá, lançadas com tanta profusão durante quase oitenta anos, germinem e produzam aqueles frutos que possam, tão somente garantir paz e prosperidade a este mundo agitado." "... levantemo-nos a fim de ensinar a Sua Causa com integridade, convicção, compreensão e vigor... façamos disso a paixão dominante de nossa vida. Espalhemo-nos até os mais remotos recantos da terra, sacrifiquemos os nossos interesses pessoais, confortos, gostos e prazeres, associemo-nos às várias raças e nações do mundo, familiarizando-nos com seus modos, tradições, pensamentos e costumes." O tom de algumas dessas cartas parece com o de suas grandes mensagens durante o prosseguimento do Plano Divino, mas foram escritas no inverno de 1923-1924. Ele designara para si mesmo a tarefa de fazer a Fé emergir à "plena luz do dia do reconhecimento universal" - expressão usada por ele naquele mesmo ano.

Imerso nos Ensinamentos desde a infância, privilegiado por ouvir, ler e escrever tantas palavras do Mestre durante a juventude, Shoghi Effendi guiou firmemente os amigos no Oriente e no Ocidente ao longo de seu curso destinado. Já em março de 1922, numa de suas primeiras cartas aos bahá'ís americanos, ele declarara: "aos amigos de Deus, no mundo inteiro, é estritamente proibido tomar parte em assuntos políticos". Ele usa o termo "pioneiro" em suas primeiras cartas e, em 1925, mantém uma lista de centros bahá'ís em todo o mundo!

Apesar daquilo que ele descreveu como a "senda espinhosa de minhas árduas tarefas", apesar da "opressiva carga de responsabilidade e cuidado que são meu destino e meu privilégio ombrear", ele era claro na expressão e brilhante na compreensão das necessidades da Causa e das tarefas com as quais os bahá'ís se defrontavam. Com a mesma clareza, definia a relação que queria que os bahá'ís tivessem com ele e a maneira como deveriam considerá-lo. Em 6 de fevereiro de 1922, ele escreveu a um dos bahá'ís persas: "Desejo ser conhecido e, por mais que eu avance no futuro, entender-me a mim próprio como um, e apenas um, dos muitos lavradores em Suas vinhas... não importa o que aconteça, confio em Seu [de 'Abdu'l-Bahá] maravilhoso amor por mim. Que de modo algum eu, por meus atos, pensamentos ou palavras, impeça o eflúvio de Seu Espírito sustentador do qual necessito penosamente ao enfrentar as responsabilidades que Ele pôs sobre meus ombros de jovem..." e em 5 de março acrescentou o seguinte pós-escrito a uma carta aos amigos norte-americanos: "Permitam-me expressar também meu sincero desejo de que os amigos de Deus em todas a terras não me considerem senão um verdadeiro irmão, unido a eles em nossa servitude em comum ao Sagrado Limiar do Mestre e se refiram a mim em suas cartas e expressões verbais sempre como Shoghi Effendi, pois não desejo ser conhecido por outro nome senão aquele que nosso Bem-Amado Mestre costumava pronunciar, um nome que de todas as designações é a que mais contribui para meu crescimento e progresso espirituais. Em 1924, ele telegrafou à Índia clara e sucintamente: "Meu aniversário não deve ser comemorado." Em 1930, seu secretário escreveu em seu nome: "Com referência à posição de Shoghi Effendi: ele certamente não possui senão aquela que o Mestre lhe confere em Seu Testamento, e este, além disso, expõe qual é a posição de Shoghi Effendi. Se alguém interpretar erroneamente uma parte do Testamento, interpretará erroneamente todo o Testamento." Quando Shoghi Effendi escreveu a carta circular conhecida como A Dispensação de Bahá'u'lláh, tornou claro, de uma vez por todas, sua própria posição, desassociando-se categoricamente das prerrogativas e da posição que Bahá'u'lláh conferira a 'Abdu'l-Bahá: "À luz dessa verdade, orar ao Guardião da Fé, dirigir-se a ele como senhor e mestre, nomeá-lo como sua santidade, procurar sua bênção, comemorar seu aniversário ou qualquer acontecimento associado à sua vida, seria equivalente a um desvio daquelas verdades estabelecidas que estão entesouradas dentro de nossa bem-amada Fé." Em 1945, seu secretário escreveu em seu nome: "... ele nunca chegou ao ponto de proibir que os amigos possuíssem retratos dele; ele apenas referiria que dessem toda importância ao bem-amado Mestre."

3
Os Primeiros Anos da Guardiania

Chegou o tempo de perguntarmos a nós mesmos: que tipo de homem foi este que escreveu tais coisas acerca de si próprio, qual a impressão criada por ele, como ele parecia aos outros?

Do diário de um dos bahá'ís americanos chamados a Haifa por Shoghi Effendi em março de 1922, temos a seguinte descrição: "... Shoghi Effendi apareceu e me saudou muito gentil e afetuosamente. Fazia oito anos que não o via e naturalmente fiquei surpreso pelo desenvolvimento e transformação que nele haviam ocorrido, pois em vez do menino que eu conhecera, havia agora um homem muito jovem quanto à idade mas prematuro em sua dignidade e profundeza de espírito e pensamento..." Shoghi Effendi deu-lhe uma cópia datilografada do Testamento do Mestre, para ler, e ele registrou sua reação às suas cláusulas do seguinte modo: "Nunca li uma coisa que me desse a alegria e a inspiração que esse Sagrado documento produziu em meu coração. Ele... me deu uma direção segura para seguir e um centro contínuo ao redor do qual todos nós haveremos de circular enquanto estivermos nesta terra... um Rei dos Reis governando o mundo, protegendo igualmente reis, aristocracias e povos." Ele prossegue descrevendo suas impressões de Shoghi Effendi: "Enquanto eu ficava sentado à mesa olhando para Shoghi Effendi, impressionou-me sua semelhança com o Mestre. Na forma e no equilíbrio de sua cabeça, em seus ombros, seu andar e seu porte em geral. Então senti a terrível carga e responsabilidade que haviam sido colocados sobre aquele jovem. Do ponto de vista humano, parecia acabrunhador que ele, cuja vida estava apenas começando, tivesse essa grande carga de responsabilidade, peso esse que o consumiria tanto e o faria deixar-se de lado a ponto de eliminar de sua vida a liberdade e a alegria do lado humano da vida, que embora não seja eterna, tem para cada um de nós, seres humanos, um certo apelo."

Em 1929, um peregrino bahá'í da Índia escreveu a respeito de Shoghi Effendi: "Devemos compreender Shoghi Effendi a fim de podermos ajudá-lo no desempenho da estupenda tarefa que ele nos confiou. Ele é tão calmo e, contudo, tão vibrante; tão estável e, ainda assim, tão dinâmico." Isto é apenas um vislumbre de uma brilhante caracterização de um dos aspecto do Guardião. A impressão que ele criou no primeiro bahá'í americano a ser chamado a Haifa após a Segunda Guerra Mundial, em 1947, revela outros aspectos de sua natureza: "Minha primeira impressão foi de seu cordial e amoroso sorriso e aperto de mão, fazendo com que eu, instantaneamente, me sentisse à vontade... No decorrer dessas entrevistas, eu haveria de me tornar cada vez mais consciente de suas muitas grandes qualidades - sua nobreza, dignidade, fervor e entusiasmo - sua habilidade em passar por uma gama de assuntos, desde o humor cintilante até a profunda indignação, mas sempre, sempre, pondo a Fé Bahá'í na frente de tudo mais... Dessa maneira prática, lógica, Shoghi Effendi fez com que me sentisse tanto um hóspede bem-vindo como um auxiliador necessário; ele esboçou alguns de meus deveres, que começaram logo no dia seguinte! Seu conselho, dado nessa visita inicial, iria dominar todos os meus esforços em seu auxílio; ele me disse que queria que eu seguisse suas instruções explicitamente e, se eu não fosse bem sucedida ou encontrasse dificuldades, que lhe avisasse precisamente e ele me daria um novo plano de ação... Para os bahá'ís que trabalhavam no Centro Internacional, durante esse período, pelo menos, não havia nenhum dia especial de descanso. Foi assim que se aprendeu que todo momento pertencia à Fé..." Ela descreve então aquelas noites quando Shoghi Effendi compartilhava conosco, na mesa de jantar, planos especiais, cabogramas e mensagens que ele estava enviando e, de vez em quando, preciosos documentos em suas mãos: "... Cintilante de entusiasmo e novos planos, ele tirava dos bolsos mensagens e cartas, muitas vezes afastando seu prato de jantar sem tê-lo tocado, pedindo papel e lápis e emocionando-nos todos com suas novas idéias e esperanças para os bahá'ís realizarem... O amado Guardião não gostava de ser fotografado e assim nenhum retrato existente reflete sua verdadeira "imagem". Em primeiro lugar, as emoções fluíam tão rapidamente sobre sua fisionomia que seria necessário uma série de fotografias para captar suas múltiplas feições. Era deleitável ver e ouvi-lo rir... ele parecia cintilar como uma estrela quando algum plano era levado a uma conclusão satisfatória. Seu senso de humor era um encanto! Ele era como uma alta montanha, forte, sempre lá, mas nunca conquistada, cheia de inesperadas alturas e profundezas... ele era extremamente meticuloso e ensinou a nós todos um novo senso de perfeição e atenção a detalhes... acompanhava de perto o desembolso de todos os fundos... interessava-se entusiasticamente na estatística bahá'í... Nunca pudemos apreciar sua capacidade de abranger tudo o que se relacionava com as atividades desde as mais elementares até as do Centro Mundial..."

Seu marido, que igualmente tivera o privilégio de servir no Centro Mundial, expressou numa carta a um dos bahá'ís americanos, escrita em 1948, suas próprias impressões a respeito do Guardião como homem: "Do pouco que vi, eu diria que não há muitas pessoas do leste americano que possam assumir a posição que Shoghi Effendi ocupa. Só se pode ficar maravilhado pela amplitude de sua mente e sua força. Ainda assim, embora ele seja fogo e aço, ele é a pessoa mais louvável, compreensiva, compassiva e cautelosa que eu já conheci. Ele é incomparável. Não existe ninguém como ele. Como desejaria que outros bahá'ís pudessem conhecê-lo como Gladys e eu tivemos esse privilégio. Ao escrever, como tenho feito, não me refiro à sua posição como Guardião; isto está muito além da minha capacidade. Como todos os bahá'ís deveriam trabalhar para esta grande figura! Sua responsabilidade é grande."

Em 1956, uma peregrina registrou, com exatidão e agudeza, suas impressões a respeito do Guardião: "Sua face é bela, de uma expressão tão pura e tão impessoal, mas ao mesmo tempo terna e majestosa... Vi seus grandes olhos de um azul acinzentado... Seu nariz é uma combinação daquilo que era nos seus retratos de menino pequeno - ele ainda se parece muito assim! - e o tipo de nariz aguçado do Mestre. Sua idade não parece ser mais de quarenta e oito, em vez de sessenta. Tem um pequeno bigode grisalho, bem aparado. Sua boca é firme e simples, seus dentes, alvos e bonitos. Seu sorriso é uma preciosa graça... Ele é completamente simples e direto. Ele mesmo não exige toda essa deferência, mas apenas estar em sua presença nos faz sentir absolutamente "fracos e humildes". O Guardião é infalivelmente cortês e não perde a paciência com as perguntas dos imaturos. No entanto, ele não é reticente em dizer quais questões são importantes e quais não o são, e quais serão respondidas mais tarde pela Casa Internacional de Justiça..." Ela disse que Shoghi Effendi presidia na mesa "com tanta simplicidade e no entanto com porte de rei - tão simples como só um grande rei pode ser! ... Ele me parecia uma grande e poderosa locomotiva, puxando uma longa, muito longa linha de vagões atrás de si, carregados - não exatamente com peso morto - mas às vezes consideravelmente morto! Esse peso são aqueles bahá'ís que a todo momento têm que ser empurrados ou puxados, adulados ou elogiados, a fim de entrarem em ação. O bem-amado Guardião vê muito antecipadamente as necessidades, a falta de tempo, os obstáculos e os problemas. Nós todos, realmente, estamos sendo puxados por ele atrás de sua poderosa e guiadora luz. Também como uma locomotiva, ele pode ir para frente, rapidamente, ou pode reduzir a velocidade, mas NÃO PODE se desviar de seu curso; ele DEVE seguir o rumo que é sua divina orientação. Ele nos dá a impressão de ser um instrumento perfeito - muito impessoal, mas hipersensível a todo pensamento ou ambiente. Não pode ser dissuadido de sua idéia. Não é influenciado, no mínimo grau, por amizade, preferência, dinheiro, sentimentos ofensivos ou não. Está absolutamente acima de tudo isso... O Guardião deixou bem claro, também, que agora não é tempo de tratar da parte esotérica dos ensinamentos - ao contrário, devemos ser ATIVOS e positivos, e completar a Cruzada de Dez Anos... Ele discorre e faz comentários e, então, chega ao fim e, de repente, dobra cuidadosamente o guardanapo e se levanta da cadeira... impossível descrever ou dar a mínima idéia da luminosidade e beleza do Guardião. Se ele sorri para nós - ou nos dirige aquele olhar rápido, penetrante - é uma sensação que nos enleva e comove a alma... seu discurso é sempre sobre a Causa e insiste no tema de realizar a Cruzada de Dez Anos. Ele se mostra jubiloso quando as notícias são boas e profundamente deprimido quando são más... Embora goste de expressões de apreciação a respeito da beleza dos Jardins e Santuários e seu planejamento, o Guardião parecia evitar elogios pessoais ou agradecimentos por qualquer coisa... fazíamos esforços ardentes para fixar seu amado semblante em nossas memórias para todo o sempre, sem perdermos uma só nuança de sua expressão, sempre impessoal, repentina, variada e surpreendente... Infelizmente, a "natureza radiante" de Shoghi Effendi com demasiada freqüência era nublada e entristecida pela insensatez dos amigos, ou pela sua flagrante desobediência ou pela desatenção às suas instruções. Apreensivamente perguntamos a nós mesmos quem não o teria desapontado de um modo ou outro!"

Citei essas passagens porque a mim parecem uma descrição tão pictórica do Guardião, tal qual eu também o via. Como eu não me lembro de 'Abdu'l-Bahá, não posso afirmar a semelhança entre eles, mas muitos dos bahá'ís mais velhos diziam que era claramente visível nele. Agora citarei de meus diários várias impressões que tive do Guardião da Causa de Deus.

"Temperamentalmente, Shoghi Effendi é um realizador, construtor, organizador, e detesta abstrações!... Ninguém que o tenha observado pode, nem por um momento, duvidar de que ele esteja perfeitamente equipado para esta fase da Causa e creio que ele foi criado para fazer exatamente o que está fazendo. É a pessoa mais extraordinariamente unidirecional que já vi. Toda a sua natureza, seus gostos e desagrados, são intensos. Ele parece algo que viaja a alta velocidade em uma só direção, o que lhe dá força motriz quase infinita. Sua persistência é irresistível; não há dissipação de suas forças. Ele quer somente uma coisa e a quer apaixonadamente, de imediato, completa e perfeitamente. O Templo construído - ou um lance de escada aqui no jardim. Ele se lança sobre isso como um furacão e nunca cede enquanto não for feito. Impele-se à frente. É extraordinário. Ele gosta de gramados verdejantes, caminhos avermelhados e brancos, gerânios vermelhos, ciprestes e naturalmente algumas outras coisas - mas quero dizer que ele não quer qualquer árvore ou flor. Não, só aquelas poucas e em seus lugares exatos. O mesmo acontece com alimentos, com cores, com roupas - apenas poucas coisas - gosta delas apaixonadamente, não querendo outra coisa, nunca se aborrecendo com elas! É essa insistência quase obstinada em um ou dois motivos que o capacitou a construir em vinte anos tal fundação na Causa. Um homem de temperamento e gostos mais católicos jamais o teria feito!"

"O Guardião é mais sensível que um sismógrafo; algo dentro dele, muito mais profundo do que inteligência ou qualquer informação exterior que possa ter, registra o estado do indivíduo, registra coisas que talvez nem o próprio indivíduo perceba ainda. Creio que deveríamos usá-lo como um indicador e, se ele desaprovar alguma atitude nossa, deveríamos nos examinar até descobrimos o que é." Bem poderíamos perguntar a nós mesmos se isso não deveria ser sempre nosso guia e se, ao lermos cuidadosamente seus escritos, não poderíamos neles encontrar as indicações de nossas faltas individuais, nacionais e raciais, e sermos advertidos e guiados de acordo com elas. Shoghi Effendi, escrevi, "dá o tom como o verdadeiro diapasão dos ensinamentos..." "Ele é o Guardião e a natureza de sua relação com Deus é naturalmente um mistério. Ele pode compreender qualquer mistério, ele pode interpretar as passagens mais místicas da Fé, ele pode escrever coisas que são de uma natureza profundamente mística - ele é motivado a fazê-lo."

"Bahá'u'lláh foi o Profeta. Ele fez tudo e disse tudo o que era necessário para o mundo atual. O Mestre foi a personificação de Seus poderes e ensinamentos. Ele acrescentou um ingrediente ao mundo de serviço no verdadeiro sentido, de bondade, e uma vida religiosa em sua forma mais elevada, a qual é imperecível. Então, algo mais era necessário; é aqui que... muitas pessoas, inclusive membros da família do Mestre e alguns dos bahá'ís, falharam em sua perspectiva das coisas. Eles queriam um segundo 'Abdu'l-Bahá - uma sucessão de patriarcas em forma de Guardiões. Mas Deus parece ter tido outra idéia. A mais forte impressão que sempre tive de Shoghi Effendi é a de um objeto viajando em uma única direção com força e velocidade incríveis. Se Bahá'u'lláh brilhou como o sol e o Mestre continuou a irradiar suavemente Sua luz, semelhante à lua, Shoghi Effendi é fenômeno inteiramente diferente, tão diferente quanto um objeto que se arremessa em direção à sua meta o é de algo estacionário e radiante. Ou poderíamos compará-lo a uma substância química. Bahá'u'lláh trouxe tudo o que nos era necessário, o Mestre combinou tudo e preparou-o; Deus então acrescenta um só elemento, uma espécie de precipitante universal necessário para fazer o todo clarificar-se e prosseguir no cumprimento de sua natureza - eis o Guardião... ele é feito exatamente para satisfazer as necessidades da Causa - e por conseguinte do próprio planeta - no tempo atual."

Embora Shoghi Effendi, em sua essência, tenha que ser para sempre um mistério para todos os seres neste mundo - até o dia em que um novo Manifestante, sendo superior, possa querer interpretá-lo para nós, que somos tão inferiores - sabemos muito a seu respeito e temos o direito de preservar a memória ternamente, ainda que de um modo inadequado.

Naqueles primeiros anos de seu ministério, a despeito de sua tristeza e angústia, o lado exuberante, próprio de menino, daquele que era ainda, afinal, um homem muito novo, não podia ser inteiramente escondido. Ele era sempre fervoroso por natureza - característica que nunca perdeu até o fim da vida - mas naquele tempo isso transbordava nitidamente em suas cartas e telegramas, bem como nos contatos pessoais.

Seu único passatempo pessoal era fotografia; ele tirava fotografias soberbamente artísticas das paisagens da Suíça e outros lugares durante aqueles primeiros anos, e encontramos uma cópia de uma carta a um fotógrafo numa pequena cidade suíça escrita em 1924, dizendo-lhe (em francês): "Estou esperando com impaciência as fotografias que lhe mandei... Espero que as tenha recebido. São preciosas para mim. Queira me tranqüilizar logo, por cartão postal, sobre este ponto. Espero que todas tenham saído bem... Agradecendo-lhe antecipadamente, subscrevem-nos, cordialmente." Até a cópia, embora seja na letra de outra pessoa, é assinada com um "Shoghi" ornado!

Seu desejo de ver as coisas feitas com eficiência e rapidez manifesta-se igualmente no campo da horticultura. Ele estava determinado a ter gramados em frente ao Santuário do Báb, bem como em outras partes da propriedade bahá'í. Em maio de 1923, telegrafou a um velho amigo bahá'í em Paris: "Como está o nosso projeto do gramado?", e, não recebendo resposta, telegrafou outra vez dez dias depois: "Carta ainda sem resposta. O que há com sementes grama?" Finalmente chegaram mas o resultado parece não ter sido satisfatório, pois quando Shoghi Effendi regressou a Haifa, no outono, inaugurou uma verdadeira campanha nesse sentido, ao que parece, e a despeito das obstinadas asseverações do velho jardineiro de 'Abdu'l-Bahá de que gramados não cresceriam na Palestina! Em 29 de setembro, Shoghi Effendi informou um primo no Egito: "Nossas sementes grama não parecem satisfatórias. Queira mandar-me trinta quilos sementes melhor qualidade que pode obter Egito e adaptadas particularmente nosso clima." Uma semana depois, ele parece ter recebido uma resposta que não entendia e telegrafou: "Surpreso. Favor explicar por carta." A explicação parece ter sido tão insatisfatória quanto a anterior e Shoghi Effendi desistiu de depender de parentes e amigos e, em 18 de dezembro, ele mesmo escreveu diretamente a quatro firmas diferentes que tinham viveiros ou vendiam sementes - uma na França e três na Inglaterra - encomendando sementes de grama e flores, bulbos e mudas. Ele escreve que está "aguardando ansiosamente" a resposta! Durante aquele verão, ou o anterior, já deve ter conseguido que alguns arbustos chegassem em Haifa, pois telegrafou aos Dreyfus-Barneys em Paris, em dezembro: "Carmelo espera ambos com rosas de Orleans."

Infere-se que Shoghi Effendi estabeleceu relações amigáveis com alguns de seus fornecedores, pois numa carta, escrita em francês, em janeiro de 1925, ele disse: "Estou mandando-lhe inclusa a quantia de ___ pedindo que tenha a bondade de me mandar imediatamente sementes de azevém para gramado. Estou muito satisfeito com os resultados do gramado que me mandou anteriormente e espero receber as sementes o mais breve possível. Agradecendo-lhe antecipadamente a remessa destas, apresento-lhe, prezado senhor, os mais afetuosos cumprimentos. Shoghi Rabbani". Deu-me a entender que esses foram os primeiros gramados plantados em grande escala na Palestina. Shoghi Effendi escreveu a uma firma inglesa de horticultores próxima a Norwich: "... Sou amante de flores e jardins. Mando incluso mais uma libra por alguma planta ornamental que acharem apropriada aos meus fins."

Duvido se alguma vez Shoghi Effendi plantou qualquer coisa durante sua vida inteira ou já teve o desejo de assim fazer. Estava interessado não em jardinagem mas sim em jardins, e nunca perdeu uma oportunidade para visitar um jardim belo ou famoso; não posso dizer quantos jardins visitamos juntos em vinte anos. Parecia que, onde quer que houvesse um, lá íamos e, muitas vezes, voltávamos ano após ano ao mesmo jardim, como se fosse um velho amigo. Nos primeiros dez anos, aproximadamente, de seu ministério, Shoghi Effendi fez todo o possível para garantir que os efeitos produzidos por aquelas plantas que ele mais admirava em outros países fossem reproduzidos em seus próprios jardins na Terra Santa; num ano, milhares de bulbos foram encomendados da Holanda, em outro, centenas de roseiras da França; mesmo das Antípodas, ele mandou buscar samambaias arborescentes. Mas a inabilidade de seus jardineiros (combinada, em alguns casos, com uma inadaptabilidade natural da planta, como no caso das samambaias arborescentes, narcisos silvestres, jacintos, açafrões, rododentros e outras) fez fracassarem todos os seus esforços e, finalmente, ele desistiu de importar qualquer coisa a não ser sementes de grama.

No tempo de 'Abdu'l-Bahá, quando a água era o grande problema, Ele havia criado, tanto em Bahjí como no Monte Carmelo, pequenos jardins junto aos Sagrados Túmulos, consistindo, mormente, de árvores cítricas e flores. Shoghi Effendi modificou, ampliou e deu forma a esses jardins. Lembro-me que, em 1923, quando vim com minha mãe em primeira peregrinação, ela observou o arranjo já formal da pequena área de jardim adjacente ao Santuário do Báb e disse que era símbolo da Ordem Administrativa que o Guardião estava erigindo no mundo todo. Tenho certeza de que tal idéia não havia ocorrido a Shoghi Effendi, mas padrão e ordem eram coisas inatas nele; não havia nenhum outro modo de ele poder trabalhar.

Professor Alaine Locke da Universidade de Howard, em Washington, um dos primeiros peregrinos bahá'ís a visitar Haifa durante os primeiros anos da Guardiania de Shoghi Effendi, descreve suas impressões enquanto caminhava com Shoghi Effendi pelos jardins do Santuário do Báb: "Shoghi Effendi é o mestre do detalhe, bem como do critério, da previsão executiva, bem como da visão projetiva. Mas jamais vi detalhes tão livres de sua trivialidade natural como quando falava com ele dos planos para o arranjo e embelezamento dos terraços e jardins. Eram importantes porque todos visavam dramatizar a emoção do lugar e enlevar a alma mesmo através dos sentidos."

Shoghi Effendi continuamente ampliava esses jardins e sua fama crescia constantemente. Pelo final de sua vida, algo como 90.000 pessoas visitavam anualmente os jardins e o Santuário do Báb. O que um visitante lhe escreveu, em 1935, expressava, nos termos mais simples, a impressão que essa visita cria em muitas pessoas; ela havia sido "profundamente impressionada pela beleza discreta dos Santuários e pela alegria dos jardins".

Era costume de Shoghi Effendi a cada ano ampliar a área cultivada em volta dos Santuários do Báb e de 'Abdu'l-Bahá. Sem dúvida, o primeiro impulso nessa direção derivou de seu desejo sempre presente de seguir, em todo setor, a vontade de seu falecido Mestre. Ele sabia que 'Abdu'l-Bahá planejara uma série de terraços desde a antiga colônia alemã até o Sepulcro do Báb; de fato, o Mestre havia começado a desenvolver o primeiro terraço. Através dos anos, Shoghi Effendi dedicou-se à consumação deste plano e, enquanto o estudava, sem dúvida desenvolvia um conceito de seus jardins em volta do Santuário - pois de fato são jardins e não um só jardim. A fim de compreender e apreciar o efeito extraordinariamente belo que Shoghi Effendi criou no Monte Carmelo e em Bahjí, deve-se conhecer seu método.

Quase todos os dias em que Shoghi Effendi se encontrava em Haifa, subia à área do Santuário, muitas vezes visitando o Santuário do Báb e o do Mestre alternadamente, mas nos dias de Festa sempre o fazia sucessivamente. Enquanto ele olhava o que estava à sua frente, sua mente criativa sugeria desenvolvimentos e melhoramentos. Ele sabia que 'Abdu'l-Bahá planejara o Santuário com nove salas e assim empreendeu a construção das três últimas no lado sul do Túmulo. Mandou abrir as duas paredes dos lados leste e oeste da parte interior do Santuário do Báb, onde havia anteriormente duas portas comuns de madeira, a fim de formar largos arcos, assim criando uma vista através do Sacratíssimo Túmulo e embelezando muito o interior. No decorrer dos anos, ele mudou os ornamentos do Santuário, acrescentando outros sem nunca perder uma certa sensação de simplicidade e informalidade que muito contribui para realçar o encanto desse Sagrado Lugar. Enquanto fazia esses melhoramentos - os quais chegaram ao ponto culminante com a construção da grande superestrutura do Santuário - Shoghi Effendi estudava o árido declive da montanha circundante e começou a desenvolver, trecho por trecho, ano após ano, seções separadas. Com exceção dos terraços, devemos nos lembrar de que ele nunca teve um plano geral. É isto que dá aos jardins no Monte Carmelo seu caráter peculiar. À medida que Shoghi Effendi andava para lá, vinha-lhe uma idéia de um trecho de jardins que se adaptava à topografia do terreno. Sem nenhuma complicação, nenhuma orientação ou auxílio, a não ser dos fazendeiros inexperientes que serviam como jardineiros, ele fazia seu plano para certo trecho. Quando necessário, mandava medir o lugar e marcar curvas e linhas longas, mas muitas vezes prescindia disso, fazendo tudo ele mesmo.

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FOTO
'ABDU'L-BAHÁ E SHOGHI EFFENDI

O Centro do Convênio e o futuro Guardião; tirada em Haifa, em frente da casa do Mestre, durante os últimos anos em que eles estavam juntos.

FOTO
SHOGHI EFFENDI EM ALEXANDRIA, EGITO

Foto tirada em 21 de março de 1920, pouco antes dele embarcar para a Europa; Shoghi Effendi está sentado (terceiro pela direita); atrás dele está Lotfullah Hakim.

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Da entusiástica descrição que Shoghi Effendi me fazia, ao chegar em casa, a respeito do que havia observado e planejado fazer, inferi que seu método era olhar para o terreno que planejava desenvolver, enquanto andava pela propriedade; um padrão sugeria-se à sua mente e ele estudava isso, não só no próprio lugar, pela observação de sua área, mas por desenhos feitos por ele mesmo. Embora em todos os campos de seu trabalho muitas idéias ocorressem a Shoghi Effendi num relâmpago e algumas vezes num relance ele pudesse ter visto o desenho completo que tencionava usar para um jardim, ele elaborava as dimensões e os detalhes cuidadosamente em seus desenhos, que não eram feitos em escala - uma vez que isso poderia exigir muito mais tempo - mas nos quais todas as dimensões eram calculadas e indicadas. Por exemplo, seu caminho principal ia ter, digamos, 25 metros de comprimento e 2 de largura; ao lado disso, ele deixava uma beirada de 25 centímetros, uma faixa de 1,20 metros de largura para ciprestes, os quais seriam plantados a intervalos de 1,50 metros, etc. Quando tinha tudo planejado, ele ia lá e dava instruções aos jardineiros sobre a maneira de executá-lo. Amarrando um cordão a estacas obtinha linhas compridas, com um cordão e uma estaca fazia compasso para traçar círculos, usando o palmo (o espaço entre o polegar e o dedo mínimo, quando totalmente separados esticados) como medida de distância entre árvores, mandava despejar solo de cor clara para indicar uma linha e, com outros métodos assim simples, muitas vezes numa só tarde, concluía uma seção inteira de jardim com todos os detalhes. Usualmente, sabendo exatamente o que pretendia fazer, Shoghi Effendi chamava outros jardineiros para seguirem aqueles que estavam formando o desenho, de modo que, acompanhando a marcação na terra, faziam as covas para os ciprestes, plantavam árvores, arranjavam canteiros e beiradas, tudo enquanto Shoghi Effendi ia em sua frente com seu processo de medição! Existe entre os árabes um provérbio que diz que, se alguém usa o anel do Rei Salomão, tudo será transformado num piscar de olhos quando ele o virar. Alguns dos trabalhadores árabes costumavam dizer que Shoghi Effendi havia encontrado o anel do Rei Salomão!

É difícil compreender por que a maioria das pessoas faz as coisas tão lentamente, enquanto Shoghi Effendi as fazia com tanta rapidez. Apenas papagaiar piamente que ele era "guiado por Deus" não me parece uma explicação suficiente. Creio que grandes homens vêem as coisas em grandes dimensões; pessoas comuns tropeçam nos pequenos detalhes. Shoghi Effendi, sendo verdadeiramente grande, sabendo exatamente o que queria fazer, não via razão para permitir que uma porção de detalhes insignificantes - como o costume de dar instruções aos subordinados e deixá-los levar o tempo que quisessem para executá-las - o impedissem de consumar a coisa toda, debaixo de seus próprios olhos, em uma só operação. Ele organizava tudo perfeitamente e a coisa era efetuada imediatamente e com perfeição; qualquer coisa que ele mesmo pudesse fazer era feita sempre deste modo. As demoras e frustrações geralmente ocorriam quando ele tinha que entregar seu trabalho a outros.

Shoghi Effendi tinha um impecável senso de proporção. Ele sempre dizia que não podia visualizar; em outras palavras, a capacidade de artista de fechar os olhos e ver tudo diante de si como seria depois de terminado não era um de seus dons. Quando, porém, ele via um desenho ou ele mesmo elaborava as dimensões e estudava seu terreno, suas proporções eram absolutamente perfeitas. É a combinação desse senso de proporção e uma originalidade não obstruída pela tradição, ou por demasiada informação, que faziam de seus jardins algo tão fora do comum, tão fascinantes e belos. Se lhe faltava o poder de visualizar uma coisa terminada (como ele mesmo afirmava), possuía em alto grau a outra faculdade criativa do verdadeiro artista, a capacidade de deixar uma coisa tomar forma em suas mãos, de receber uma inspiração no meio de um plano e seguir o curso ascendente dessa inspiração em vez de se deixar prender à idéia preconcebida.

Em parte alguma isso era mais evidente do que naquilo que ele desenvolveu no terreno em volta do Santuário de Bahá'u'lláh em Bahjí. Segundo seu plano original, o Sagrado Túmulo e a Mansão adjacente formariam o eixo de uma grande roda. Depois de terem sido completadas as transações finais com o Estado de Israel e mais de 145.000 metros quadrados de terra serem adquiridos em volta do Sagrado Túmulo em 1952, ele começou a nivelar a parte da mata que constituía cerca de um quarto de um enorme círculo defronte ao Santuário. Um trator foi alugado e, por muitos dias, Shoghi Effendi permaneceu em Bahjí a fim de dirigir pessoalmente o trabalho.

Dentro do perímetro das operações havia uma pequena casa, de um quarto, em ruínas, e Shoghi Effendi, ansioso por obter alguma perspectiva no terreno, subiu sobre essa casa. Dessa altura, notou tanta diferença que mandou reformar as paredes e o telhado, e construir por fora uma escada de madeira conduzindo ao telhado; mobiliou então seu interior e usou-a como escritório e um local para tratar de sua correspondência. Observando e dirigindo o trabalho desse novo e avantajado ponto, obteve uma perspectiva inteiramente nova da propriedade do Santuário, a qual é situada no centro de uma planície. Isso lhe deu uma nova idéia. Como uma grande quantidade de terra estava sendo removida durante a terraplenagem, ele mandou que essa terra fosse levada para o lado leste, onde formou um alto barranco, permitindo que, uma pessoa sobre este, visse toda aquela área estendida à sua frente como um tapete de belo desenho. O Guardião ficou tão satisfeito com o sucesso desse plano que construiu não apenas um mas dois terraços recuados, chegando à altura de uma pequena colina.

Era uma atitude inteiramente típica do Guardião para com a Causa de Deus, da qual fora feito o Protetor, que quando essa nova área estivesse finalmente completada, os gramados e canteiros de flores estivessem plantados e os postes de iluminação erigidos ao longo dos belos caminhos avermelhados - ele imediatamente mudasse seu local de encontro para o perímetro dessa nova área, fazendo as visitas sentarem junto ao caminho semicircular defronte ao Santuário, a uma distância de quase 100 metros do local em que anteriormente costumava sentar-se. Eu não sabia que essa disposição havia sido planejada e, à noite, quando regressei a Haifa, depois da reunião, perguntei a Shoghi Effendi sobre isso. Ele disse que "por respeito ao Santuário" havia recuado mais o local da reunião. Desde então, todas as reuniões em Bahjí, inclusive a comemorativa da Ascensão de Bahá'u'lláh que é depois da meia-noite, têm sido realizadas nessa nova posição.

Após seu falecimento, em cumprimento à sua própria intenção expressa, um terceiro terraço foi levantado sobre os outros dois, dando o toque final à sua magnífica disposição dos jardins do Santuário. Esse novo conceito implicava no abandono completo de seu desenho original dos jardins, em forma de roda, pois o sistema de caminhos convergentes para um centro comum já se tornara inviável. Muitas vezes Shoghi Effendi modificava seu plano por haver visto no local algo que lhe parecia mais belo e digno.

Shoghi Effendi - tal como o Mestre - era grande amante da luz. Detestava um interior sombrio. Essa paixão por luz brilhante era tão acentuada que eu costumava protestar quando ele trabalhava com uma forte lâmpada de mesa praticamente brilhando em seus olhos, pois eu receava que a luz fosse demasiado forte. Seu próprio quarto era sempre fartamente iluminado; os Santuários estavam todos cheios de luzes grandes e pequenas, e um dos seus primeiros atos como Guardião foi mandar colocar uma luz brilhante sobre a porta do Santuário do Báb que fica defronte aos terraços e à avenida reta que vai do pé da montanha até o mar. Posso me lembrar como, em 1923, o povo da cidade ridicularizava isso, perguntando para que servia. Foi isso, sem dúvida, que provocou um cristão fanático, chamado Named Dumit, fazendo-o erigir, alguns anos mais tarde, no telhado de seu prédio, não muito distante do Túmulo do Báb, uma grande e brilhante cruz que, longe de irritar Shoghi Effendi, ele descreveu como uma flor na lapela do Santuário!

Pouco a pouco os jardins, tanto em Haifa como em Bahjí, foram todos iluminados com belos postes de iluminação, feitos de ferro batido e com quatro braços, sendo erigidos noventa e nove deles só em Bahjí. Quando chegou a noite em que foram acesos pela primeira vez, na ocasião da Festa de Ridván em 1953, e nós nos aproximamos de Bahjí de carro, o céu brilhava como se nos aproximássemos de uma pequena cidade! O Guardião disse aos peregrinos persas que sempre houve luz, mas agora era "luz sobre luz". (No original* há um belo jogo de palavras referindo-se a Bahá'u'lláh como sendo luz.) Além disso, à noite, o Santuário em Haifa era iluminado por holofotes, como também os lugares de descanso da Folha Mais Sagrada, da mãe e do irmão de 'Abdu'l-Bahá, e foram encomendados refletores possantes para iluminar o Prédio dos Arquivos Internacionais.

*Em persa. (n.r.)

Em tudo o que fazia, o Guardião era meticulosamente exato, nada deixando ao acaso e muito pouco ao juízo de seus colaboradores. Apenas um dos inúmeros exemplos disso era o cuidado com que ele sempre determinava o dia exato em que uma comemoração bahá'í deveria ocorrer em Haifa. Como há uma diferença nas datas lunares - as quais, em alguns casos, dependem da hora do nascer da nova lua - Shoghi Effendi era muito cuidadoso na verificação disso, bem como da hora exata do equinócio vernal, pois, se ocorre antes de certa hora, significa que o Ano Novo Bahá'í é no dia 20 de março e não no dia 21. Encontramos telegramas como este, enviado em 1923 a seu primo em Beirute: "Averiguar e telegrafar hora exata equinócio vernal." Ele, sem dúvida, achava que podia obter informação mais científica da Universidade Americana do que de qualquer fonte local. Em 1932, telegrafou ao seu irmão, que na época estudava na mesma universidade: "Verifique população aproximada Império Romano durante dois primeiros séculos após Cristo..." Ele não somente era acurado e exato, mas também percebia, com a perspicácia de um escritor realmente grande, que fatos citados no lugar certo podem ter o efeito produzido por pedras preciosas numa peça de joalheria - dão realce à criação inteira. Tomemos, por exemplo, o uso da informação prosaica de que o Estreito de McMurdo fica a 77º de latitude ao sul, no Mar de Ross; porém, quando Shoghi Effendi informou aos bahá'ís de que livros bahá'ís haviam sido enviados à Expedição Antártica Americana, cuja base se localizava no Estreito de McMurdo, acrescentando sua latitude exata, tudo, de repente, se tornou vivo, romântico e emocionante!

Em 1924, Shoghi Effendi fez um resoluto esforço para solucionar um dos problemas com os quais se defrontava. Aos malévolos, ele já havia tornado claro que não era fraco nem carente de juízo ou orientação, apesar do estado em que fora mergulhado após o falecimento do Mestre. Numa de suas cartas, havia escrito: "É difícil romper com alguns costumes e tradições do passado e familiarizar o vasto número de bahá'ís, tão diversos em seus pontos de vista e conceitos, com as necessárias modificações e exigências desta nova fase na história da Causa." Não obstante, ele estava fazendo isso e com grande êxito. O que ele necessitava urgentemente em Haifa era um número maior de ajudantes. Seu próprio pai sabia muito pouco inglês; dos três tios, dois eram negociantes em Haifa e o terceiro morava no Egito. O mais velho de seus primos, bem como seu próprio irmão, estavam trabalhando ou estudando. Embora recebesse ajuda de vários membros da família de 'Abdu'l-Bahá, o trabalho da Causa expandia-se constantemente e Shoghi Effendi já havia começado a traduzir muitas das escrituras para o inglês e enviá-las ao Ocidente. Além disso, sua correspondência estava crescendo em volume e se tornando um verdadeiro problema. Em janeiro de 1923, ele escreveu aos bahá'ís de Londres: "A presença de um assistente competente em meu trabalho de tradução presentemente em Haifa seria muito bem-vinda e altamente desejável, e eu submeto esta questão aos membros do Conselho para considerarem a viabilidade de mandar, por algum tempo, um dos amigos ingleses que pudesse colaborar comigo nesta tarefa de suma importância."

Quem parece ter respondido a esse apelo não foi outro senão o Dr. Esslemont, tão amado de Shoghi Effendi. Ele residiu em Haifa, trabalhando com Shoghi Effendi e servindo-o, até sua morte prematura em 22 de dezembro de 1925. Não estava bem de saúde havia algum tempo, e já, após o falecimento do Mestre, encontramos seu telegrama a Shoghi Effendi: "Convalescendo satisfatoriamente testamento recebido afetuosamente seu." Os laços de amizade entre os dois eram muito estreitos e, quando Esslemont morreu, tão inesperadamente, Shoghi Effendi telegrafou aos seus parentes: "Abatido de tristeza pelo falecimento muito amado Esslemont. Todos dedicados esforços improfícuos. Asseguro-vos sinceras condolências minhas e bahá'ís mundo inteiro. Carta segue." Quatro dias depois, escreveu-lhes: "Sem exagero, digo que não encontro palavras para expressar adequadamente meu sentimento de perda pessoal com o falecimento de meu querido colaborador e amigo John Esslemont." Esslemont não somente foi uma figura internacional muito distinta no mundo bahá'í, autor de um livro que Shoghi Effendi disse "inspiraria gerações ainda por nascer" (Bahá'u'lláh e a Nova Era, já traduzido para cerca de 100 idiomas), mas também fora para ele pessoalmente "o amigo mais afetuoso, um conselheiro de confiança, um incansável colaborador, um amoroso companheiro", cuja associação íntima com ele, "repositório de suas mais caras esperanças", estava agora subitamente terminada. O Guardião chorou por esse amigo dos dias de estudante, mas, como de costume, sua posição obrigou-o a não interromper suas funções como Guardião, a despeito de seu pesar pessoal. Ele telegrafou imediatamente à Inglaterra, à América, à Alemanha, à Pérsia e à Índia pedindo que enviassem seus pêsames por cabogramas aos parentes de Esslemont, dos quais nenhum era bahá'í, e realizassem reuniões comemorativas especiais. Também o elevou, postumamente, ao grau de Mão da Causa.

Essa vinda do Dr. Esslemont a Haifa, longe de resolver os problemas de Shoghi Effendi, servira apenas para acrescentar novo pesar a um coração já angustiado. Em janeiro de 1926, Shoghi Effendi se queixa da "carga opressiva de responsabilidade e cuidados que são minha sorte e meu privilégio ombrear" e fala então de "minha incessante fadiga, minhas aflições e perplexidades" e o "caminho espinhoso" de "meus árduos deveres". Quatro meses mais tarde, escreveu a Horace Holley: "Muitas vezes tenho sentido ser extremamente desejável ter um colaborador como o senhor trabalhando ao meu lado aqui em Haifa. Sinto profundamente a perda do Dr. Esslemont e tenho a esperança de que as condições aqui e no exterior me capacitem a estabelecer o trabalho em Haifa numa base mais sistemática. Estou aguardando uma ocasião mais favorável." Isso foi escrito em maio. Em setembro ele escreve novamente a Horace, elogiando seus serviços e reiterando: "Como eu sinto a necessidade de um trabalhador tão competente, tão meticuloso, tão metódico e tão atento quanto você ao meu lado em Haifa,. Você não pode e não deve deixar seu posto por enquanto. Haifa terá que cuidar de si por algum tempo."

Foi durante o intervalo entre essas duas cartas, quando Shoghi Effendi esteve na Suíça, que escreveu a Hippolyte Dreyfus-Barney em 30 de junho de 1926: "Necessito um secretário capaz, digno de confiança, trabalhador, metódico e experiente que combine o dom da expressão literária com reconhecido destaque no mundo bahá'í. Dr. Esslemont era o mais apropriado companheiro, desimpedido, cuidadoso, dedicado, humilde e capaz. Lamento sua perda... Um secretário capaz, cuidadoso, inteiramente dedicado ao seu trabalho, e dois conselheiros principais que representassem o Movimento em ocasiões específicas, com dignidade e devoção, juntamente com dois companheiros orientais, sagazes e peritos - isso, creio, me tornaria senhor da situação e liberaria as forças que hão de levar a Causa à sua destinada liberdade e triunfo... Não posso me expressar mais adequadamente porque minha memória muito sofreu."

Embora essas cartas fossem escritas a indivíduos, ele não ocultava suas necessidades; em outubro de 1926, ele escreveu à América que a "crescente importância e complexidade do trabalho que, necessariamente, há de ser dirigido da Terra Santa, tem contribuído para fortalecer minha convicção da absoluta necessidade de se formar em Haifa alguma espécie de secretariado bahá'í internacional, o qual, na sua capacidade tanto consultiva como executiva, terá que me ajudar nas minhas vastas e árduas tarefas". Diz, mais, que tem "considerado ansiosamente esse importante assunto" e pedido três representantes da América, Europa e Pérsia para se dirigirem à Terra Santa a fim de consultarem com ele sobre as medidas necessárias para satisfazer as exigências da época atual; declara que isso não só o ajudaria e fortaleceria os laços que ligam o Centro Internacional ao mundo em geral, mas também proveria os passos preliminares para o estabelecimento da "Primeira Casa Internacional de Justiça". Já em maio ele havia escrito a um daqueles que tinha em mente: "Eu gostaria de saber se lhe seria possível juntar-se a mim no próximo outono com H___ em meu trabalho aqui em Haifa. Há problemas extremamente complexos e delicados diante de mim e sinto a necessidade de colaboradores competentes, destemidos e dignos de confiança... preciso parar, pois dificilmente consigo organizar meus pensamentos."

A colaboração contemplada por Shoghi Effendi nessa carta nunca se realizou, apesar de todos os seu esforços; má saúde, acontecimentos na Causa, complicações na família ou nos negócios envolvendo aqueles que ele tinha em mente - tudo contribuiu para deixá-lo tão destituído de assistentes competentes como havia estado sempre, desde 1922, quando iniciara em seu posto como Guardião. A um daqueles que escolhera, escreveu em fevereiro de 1927: "... espero que possa vir colaborar comigo em minhas árduas tarefas logo que lhe seja possível e conveniente." Em setembro, novamente escreve a esse amigo que ficou preso em casa por motivo de doença: "Estou aguardando com preocupação o trabalho neste inverno, pois percebo a magnitude do trabalho e vejo como estou completamente sem auxílio à face de minha estupenda tarefa. Como já fiz ver, conferências não bastam, eu necessito de estreita e contínua colaboração de modo a iniciar e executar as medidas indispensáveis à difusão e consolidação da Causa. Entrementes terei que prosseguir em minha presente linha de trabalho, a qual considero de importância secundária e fácil de ser empreendida por um secretariado..." E novamente, em outubro, escreve a esse mesmo bahá'í: "Estou sozinho no presente momento e estou fazendo o melhor que posso." E em janeiro de 1928: "Todas as outras atividades estão paralisadas e aguardo a atenção e o auxílio de ajudantes competentes, dedicados e experientes."

Esse quadro que temos do Guardião nos entristece o coração. Ele não mais é muito jovem nem tão completamente acabrunhado de pesar como nos primeiros anos de seu ministério; ele vê as necessidades da Causa e as possibilidades caso tivesse mais ajuda, e assim, mais tempo livre para se dedicar aos assuntos essenciais - mas é inútil, a espécie de assistentes de que ele precisa, simplesmente não pode ou não quer renunciar tudo para residir em Haifa. Numa carta que um peregrino da Índia escreveu, a situação foi descrita com clareza cristalina e, sem dúvida, quem a tornou tão clara foi o próprio Shoghi Effendi, pois ele tinha o hábito de falar com muita franqueza com os bahá'ís que visitavam a Terra Santa. Esse bahá'í escreveu em 15 de junho de 1929: "Shoghi Effendi deseja ter um secretariado internacional em Haifa antes de podermos ter qualquer outra organização internacional, mas essa idéia não se realizou em vista do número insuficiente de bahá'ís capazes e dignos de confiança..."

Esse assunto ficou suspenso até a formação, em 1951, do Conselho Bahá'í Internacional. Shoghi Effendi teve que enfrentar o duro fato de que, para todos os fins, ele estava só e, mais e mais, veio a depender de si próprio. Ele se aplicou à tarefa inteira e realizou-a, usando como secretários vários membros da família do Mestre, enfrentando um sempre crescente espírito de insatisfação da parte deles, resignando-se à infindável fadiga das tarefas pequenas, bem como das grandes, aceitando sua sorte com resignação, muitas vezes com desespero, sempre com lealdade e fortaleza. Pode-se dizer dele, verdadeiramente, que, sem ajuda alguma, ele efetivou, no mundo todo, o estabelecimento da Fé de seus Antecessores Divinos e provou que pertencia àquela mesma casta soberana.

Foi durante esses anos, quando Shoghi Effendi tanto se esforçava por reunir ao seu redor um grupo de competentes colaboradores, que lhe estourou uma crise de dimensões sem precedentes. O mar da Causa de Deus, açoitado pelos ventos do destino e da sorte que sopram sobre ele do mundo de fora, fora agora agitado numa tempestade que fez as ondas baterem impiedosamente sobre a mente de Shoghi Effendi, afetando-lhe os nervos, as forças e os recursos. A Casa abençoada, ocupada por Bahá'u'lláh em Bagdá e por Ele designada, segundo as palavras de Shoghi Effendi, um "sagrado, santificado e acariciado objeto de veneração e de peregrinação dos bahá'ís" já, no tempo de 'Abdu'l-Bahá, caíra no poder dos xiitas após uma série de manobras abomináveis, mas havia sido devolvida pelas autoridades britânicas aos seus legítimos guardiões. Quando os inveterados inimigos da Fé receberam a notícia do falecimento de 'Abdu'l-Bahá, ainda outra vez renovaram seu ataque, reivindicando direito à Casa. Em 1922, o governo havia tomado posse das chaves da Casa, apesar de o Rei Feisal haver assegurado que respeitaria os direitos dos bahá'ís a um prédio que sempre fora ocupado pelos seus representantes desde a partida de Bahá'u'lláh de Bagdá; agora, por motivos políticos, Sua Majestade faltou com sua palavra e, em 1923, muito injustamente, as chaves foram novamente entregues aos xiitas. Desde pouco depois do falecimento de 'Abdu'l-Bahá até novembro de 1925, os bahá'ís haviam lutado continuamente para proteger a Casa Mais Sagrada. Os xiitas haviam levado o caso primeiramente à sua própria corte religiosa, da qual foi logo transferido à corte de Paz e então referido à Corte de Primeira Instância local, cuja decisão foi a favor dos direitos dos bahá'ís. Esta decisão foi então levada à Corte de Apelação, a Corte Suprema do Iraque, a qual deu seu veredicto a favor dos xiitas.

Ao ser informado dessa flagrante falta de justiça, o Guardião imediatamente convocou o mundo bahá'í para ação: enviou dezenove cabogramas a vários indivíduos e instituições nacionais, abrangendo os bahá'ís da Pérsia, Cáucaso, Turquistão, Iraque, Japão, Burma, China, Turquia, Moscou, Índia, Austrália, Nova Zelândia, Canadá, Estados Unidos, Alemanha, Áustria, França, Grã Bretanha e as Ilhas do Pacífico. Suas instruções foram que os bahá'ís mandassem cabogramas e cartas protestando ao Alto Comissário Britânico no Iraque contra essa decisão. A Pérsia e a América do Norte - onde as comunidades bahá'ís eram numericamente fortes - foram informadas de que, além do protesto direto expressado por cada Assembléia Local, a Assembléia Nacional deveria não somente contatar o Alto Comissário, mas também protestar diretamente tanto ao Rei Feisal do Iraque, bem como às autoridades britânicas em Londres. A Assembléia da Índia e de Burma tinham, do mesmo modo, que protestar ao próprio Rei, porém não a Londres. Em lugares onde os bahá'ís eram poucos em número, como a França e a China, Shoghi Effendi aconselhou que o protesto fosse assinado por indivíduos. Todas essas instruções demonstram de modo marcante o estrategista que era Shoghi Effendi. Em seus cabogramas ao mundo bahá'í, ele declarou que a situação era "perigosa" e as "conseqüências de maior gravidade"; todos deviam pedir "pronta ação a fim de salvaguardar os direitos espirituais dos bahá'ís a esse muito estimado Lugar", "essa morada sacra", a "Sagrada Casa de Bahá'u'lláh". Ele pôs as frases apropriadas nas bocas daqueles que ele aconselhou, dizendo aos amigos orientais que, "fervorosa e cortesmente", "em linguagem firme e ponderada", fizessem um apelo ardoroso "por consideração de seus direitos espirituais à sua posse" e ao "senso britânico de justiça", enquanto os bahá'ís ocidentais foram informados de que "pronta e efetiva ação urgentemente necessária... protestando vigorosamente contra a flagrante injustiça da Corte, apelando por reparação ao senso britânico de eqüidade, afirmando os direitos espirituais dos bahá'ís... declarando sua inabalável resolução de fazer o máximo para reivindicar seus legítimos e sagrados direitos". Com sua costumeira meticulosidade, Shoghi Effendi aconselhou à América que as mensagens enviadas pelas Assembléias "não devem ser idênticas em seus textos".

O intercâmbio de quase cem cabogramas, durante um período de seis meses, além de uma correspondência contínua com vários agentes trabalhando para salvaguardar a Sacratíssima Casa, dá testemunho do volume e substância da preocupação de Shoghi Effendi com esse problema. Um de seus primeiros atos, ao receber a notícia da decisão do Supremo Tribunal, foi telegrafar ao Alto Comissário em Bagdá que: "Os bahá'ís no mundo inteiro recebem com surpresa e consternação o inesperado veredicto da Corte referente à posse da Sagrada Casa de Bahá'u'lláh. Em vista de sua contínua ocupação dessa propriedade desde muito tempo, eles recusam acreditar que Vossa Excelência jamais apoiará tão manifesta injustiça. Comprometem-se solenemente a proteger resolutamente seus direitos. Apelam ao alto senso de honra e justiça que - eles crêem firmemente - anima vossa Administração. Em nome da família de Sir 'Abdu'l-Bahá 'Abbás e da inteira Comunidade Bahá'í, Shoghi Rabbani." No mesmo dia, telegrafou ao desconsolado zelador da Casa de Bahá'u'lláh: "Não fique consternado. Coloque nas mãos de Deus. Fique tranqüilo."

Durante os meses subseqüentes, muitos cabogramas de Shoghi Effendi incluíam tais frases como "a questão da Casa deve ser vigorosamente perseguida". Ele telegrafou a vários não-bahá'ís de destaque e constantemente coordenou os esforços de seus tenentes em diversas partes do mundo. Quando mais de um mês havia passado, Shoghi Effendi telegrafou a várias Assembléias Nacionais, dizendo-lhes que indagassem do Alto Comissário, em "termos corteses", "os resultados da investigação" que as autoridades britânicas haviam prometido empreender. Era uma batalha destinada a ser perdida, pois os elementos políticos e religiosos do Iraque uniram-se e recusaram ceder à pressão usada contra eles, inclusive a do governo britânico.

Shoghi Effendi, entretanto, não aceitava derrota tão facilmente e não descansou enquanto o caso da Sagrada Casa não foi levado à Comissão Permanente de Mandatos da Liga das Nações, em novembro de 1928. O Poder Mandatário havia sustentado o direito dos bahá'ís à posse da Casa, e a Comissão de Mandatos recomendou ao Conselho da Liga das Nações que pedisse ao governo britânico para fazer representações ao governo do Iraque com o intuito de reparar a injustiça aos bahá'ís nesse caso. Os bahá'ís continuaram a exercer pressão desde 1928 até 1933, mas sem resultado, pois a falta de instrumentos para reforçar a decisão e o grande poder exercido pelos xiitas no Iraque impediam o governo de considerar a questão todas as vezes que lhe era solicitada alguma decisão.

Um breve resumo de acontecimentos como este nada transmite das incertezas do dia-a-dia, que os ocupa, da instabilidade entre esperança e desespero, as boas e más notícias que se alternam e desgastam o coração e as forças. O primeiro impacto da decisão do Supremo Tribunal mal havia sido recebido quando, subitamente, Dr. Esslemont morreu. Vinda nesse tempo de crise, a perda de seu amigo foi um golpe duplamente penoso para o Guardião.

Apenas uma semana antes desse acontecimento, Shoghi Effendi enviara mensagens ao mundo bahá'í que refletiam outro ponto agudo de ansiedade que ocupava sua mente nesse tempo. Havia rumores de que os restos mortais de certo eminente líder do sionismo seriam possivelmente trazidos à Terra Santa para serem sepultados de um modo digno no Monte Carmelo. Em vista disso, Shoghi Effendi apelou aos bahá'ís para que contribuíssem com fundos para a compra imediata da área vizinha ao Túmulo do Báb, especialmente a parte de cima, a fim de salvaguardar este Lugar Sagrado. Tão completa foi a resposta dos bahá'ís que, pouco mais de um mês depois, ele lhes pôde informar que seu generoso e esplêndido apoio atingira seu objetivo. Mas, isso também, pelo menos temporariamente, havia aumentado muito o aflitivo peso de suas preocupações.

Tão pesada era essa carga que, em fevereiro de 1926, ele escreveu a um dos bahá'ís: "Estou submerso num mar de atividades, ansiedades e preocupações. Minha mente está extremamente fatigada e sinto que estou me tornando ineficiente e vagaroso por causa dessa fadiga mental." Essa condição agravou-se a tal ponto que ele se viu forçado a retirar-se para um breve descanso. "O peso acabrunhador das opressivas preocupações e responsabilidades", escreveu ele, perto do fim de março, "exigindo que eu partisse num tempo em que... eu estava muito ansioso por receber meus amigos e colaboradores de várias partes do mundo". Ele deve ter estado doente, em verdade, para assim se afastar de Haifa e de seus hóspedes, mas qualquer que fosse sua condição em fevereiro e março, era amena se comparada àquela em que foi mergulhado por causa de um telegrama vindo da Pérsia, da cidade de Shíráz, em 11 de abril, dizendo simplesmente: "Doze amigos em Jahrom martirizados agitação pode atingir outras partes", ao qual ele respondeu no mesmo dia: "Horrorizado repentina calamidade. Suspendam atividades. Apelem autoridades centrais. Transmitam parentes mais terna condolência." Também naquele mesmo dia, telegrafou a Teerã uma mensagem tão significativa do espírito da Fé que não se pode deixar de notar seu acompanhamento aos acontecimentos em Jahrum: "Fervorosamente peço todos crentes Pérsia Turquistão Cáucaso participarem ativamente na renovação eleições Assembléias Espirituais. Nenhum verdadeiro bahá'í pode se manter alheio. Resultados devem ser comunicados prontamente Terra Santa através Assembléias centrais comuniquem imediatamente com todo centro. Procedam cautelosamente. Implorando ajuda divina." No dia seguinte, havendo recebido de Shíráz um telegrama mais detalhado informando que o principal instigador da agitação fora preso, e dando certas sugestões, Shoghi Effendi telegrafou a Teerã: "Angustiado martírios Jahrom. Transmitam Sua Majestade em nome de todos os bahá'ís e no meu nossa profunda apreciação sua pronta intervenção e nosso fervoroso apelo para infligir castigo imediato aos perpetradores de tão atroz crime. Instem todas Assembléias persas a enviarem mensagem semelhante." Uma ligeira mas significativa indicação de seu estado mental é que, nos primeiros cabogramas, ele soletra "Jahrom" foneticamente, porém mais tarde muda para "Jahrum" transliterado.

O que tudo isso significava para Shoghi Effendi é expresso por ele numa carta a um de seus colaboradores, escrita em 24 de abril. Após acusar recebimento de suas numerosas cartas, explica que sua demora em responder foi devida à "minha infeliz doença, chegando à beira de um colapso, combinou com o recebimento das mais angustiantes notícias da Pérsia informando-nos do martírio de doze de nossos amigos na cidade de Jahrum, ao sul da Shíráz. Telegrafei pedindo todas as minúcias, as quais transmitirei aos diversos centros bahá'ís assim que receber informações detalhadas. Considerações políticas e rivalidades pessoais parecem ter desempenhado papel não desprezível... Transmiti uma mensagem ao Xá por intermédio da Assembléia Espiritual Nacional da Pérsia... Também já pedi às Assembléias estrangeiras que, em linguagem não ofensiva, dessem plena publicidade a essas notícias em seus respectivos jornais, mas que acho que seria prematuro eles entrarem em contato direto com o Xá... É triste e irritante pensar que os bahá'ís, oprimidos como são, por tantas circunstâncias aflitivas e humilhantes, parecem estar, no momento, completamente impotentes e desamparados em seus esforços para obterem, das reconhecidas autoridades, a assistência necessária. Deve haver, certamente, alguma sabedoria que se oculta sob essa aparente inutilidade de seus zelosos esforços." Num cabograma a essa mesma pessoa, enviado duas semanas mais tarde, Shoghi Effendi diz que está "profundamente aflito".

Em 21 de maio, escrevendo outra vez a esse mesmo bahá'í, ele abre o coração e diz: "Eu estou cansado demais para fazer qualquer trabalho efetivo no momento. Tenho me tornado vagaroso, impaciente, ineficiente... Estou tentando sair caso nenhuma crise repentina ocorra novamente. Tive tantas nos últimos poucos meses..." Mesmo nesse estado, entretanto, Shoghi Effendi fez o que achou que podia ser feito: "Creio que com paciência, tato, coragem e recursos podemos utilizar esse desenvolvimento para promover os interesses da Causa e estender sua influência." Ele recrutara as forças do mundo bahá'í em defesa da oprimida comunidade persa, havia assegurado que larga publicidade fosse dada na imprensa estrangeira acerca desses martírios e constantemente instruído as várias Assembléias Nacionais sobre a ação que deveriam tomar a esse respeito como também no caso da Sacratíssima Casa.

Tal é a história de um período da vida do Guardião; quantos golpes choveram sobre ele em pouco mais de seis meses, num tempo em que ele ainda lutava para equilibrar devidamente o peso colocado sobre seus ombros após o falecimento do Mestre, de modo que pudesse suportá-lo!

4
Martha Root e a Rainha Maria da Romênia

Shoghi Effendi costumava dizer que, de seus sofrimentos, algo sempre parecia nascer. Ele passava por essas provas de fogo - pois, de fato, ele parecia realmente arder de sofrimento - e então alguma chuva do céu, na forma de boas-novas, caía sobre ele e ajudava-o a ressuscitar. Receio que o mistério do sacrifício ainda permaneça misterioso para mim, mas certamente os Seres Santos deste mundo pagam caro pelas suas vitórias.

Foi nessa época, quando a aflição estava realmente engolfando o Guardião, que, em 4 de maio, o Toronto Daily Star publicou uma declaração altamente apreciativa sobre a Fé Bahá'í, feita pela Rainha Maria da Romênia, seguida por outras no curso de sua visita aos Estados Unidos e Canadá, e que foi publicada em cerca de duzentos jornais, constituindo uma das mais difundidas e espetaculares publicidades já feitas sobre a Fé. Numa carta confidencial escrita em 29 de maio, o Guardião se refere a isso como "esse mais espantoso e altamente significativo acontecimento no progresso da Causa".

O reconhecimento da posição de Bahá'u'lláh pela Rainha romena - a primeira cabeça coroada a abraçar a Fé - é em si um capítulo da vida de Shoghi Effendi e está inextricavelmente ligado aos serviços de Martha Root, aquela "serva brilhante da Fé de Bahá'u'lláh", como Shoghi Effendi a denominou, e o papel desempenhado por ela em sua vida - em verdade, nenhum relato de sua vida poderia jamais ser completo sem menção da relação entre ele e aquela alma nobre. Srta. Martha Root, jornalista por profissão, era de uma família americana muito distinta. Ela conheceu o Mestre durante Sua visita aos Estados Unidos e, inflamada por Suas Epístolas do Plano Divino, levantou-se, em 1919, para dar início às suas históricas viagens no serviço à Causa, não só empreendendo as viagens de maior duração e mais distantes do que qualquer outro bahá'í, desde que a Fé nasceu, mas, muitas vezes, como disse o Guardião, "em circunstâncias de perigo extremo". No tempo da ascensão de 'Abdu'l-Bahá, ela já tinha quarenta e nove anos de idade, era mulher de aparência muito simples, para não dizer modesta, mas com olhos azuis claros, excepcionalmente belos, e uma fé incomparável, que a convencia de que Bahá'u'lláh podia fazer qualquer coisa, e faria tudo se, como ela costumava dizer, nós ficássemos de lado e O deixássemos fazer. Foram suas grandes viagens de ensino - quatro das quais a levaram a dar a volta inteira ao mundo - além de suas qualidades verdadeiramente destacadas, que a tornaram tão estimada por Shoghi Effendi, levando-o a chamá-la de "arquétipo dos instrutores bahá'ís itinerantes". Os serviços de nenhum outro bahá'í jamais lhe causaram tão grande satisfação como as suas incomparáveis vitórias. A seu respeito, Shoghi Effendi escreveu, em outubro de 1926: "Em seu caso, verdadeiramente testemunhamos, de uma maneira inequívoca, o que o poder de uma fé intrépida, aliado à sublimidade de caráter, pode conseguir, quais as forças que pode liberar, e a que alturas pode conduzir."

Desde o início do ministério de Shoghi Effendi, ela não só lhe volvia seu grande coração amoroso mas constantemente procurava seus conselhos para seus planos. Não seria exagero dizer que eram parceiros, em todos os seus empreendimentos, caracterizados por confiança e amor mútuos demasiado raros na vida atormentada do Guardião. Mantinham um contato constante, um fluxo de cartas e cabogramas informando-o de seus planos, suas necessidades, suas vitórias, seus pedidos por orientação e as respostas infalíveis do Guardião, encorajando e aconselhando. Em suas cartas dirigidas a ela, aquela que, em 1923, foi por ele designada como a "indomável e zelosa discípula de 'Abdu'l-Bahá", encontramos muitas e muitas frases como estas, expressando seus calorosos sentimentos, que havia lido suas cartas com "orgulho e gratidão", que elas "têm, como de costume, alegrado meu coração", que "é sempre um deleite receber suas notícias, bem-amada Martha". Escreveu-lhe, em julho de 1926, quando ela estava fazendo tantos contatos com a realeza da Europa: "... escreva-me freqüente e minuciosamente, pois tenho ardente desejo de saber de suas atividades e cada detalhe de suas realizações. Assegurando-lhe meu infinito amor...", e em agosto ele diz: "Estou ávido de todo detalhe minucioso de seu avanço triunfal no campo de serviço... Anexo cópia de minha carta à Rainha. A ninguém participe seu conteúdo." Ele mesmo, porém, apressara-se a compartilhá-lo com ela que havia ensinado aquela Rainha. Em setembro, ele escreveu: "Tenho a satisfação de lhe participar o conteúdo da resposta da Rainha da Romênia à minha carta. Considero-a uma carta extraordinária, além das nossas mais altas expectativas. A transformação que se efetuou nela, sua maneira franca, seu testemunho penetrante e atitude corajosa, são, em verdade, provas eloqüentes e convincentes do Espírito Invencível da Fé viva de Deus e dos magníficos serviços que você está prestando à Sua Causa."

Esse laço de confiança entre Shoghi Effendi e Martha é claramente ilustrado por esta troca de cabogramas em outubro de 1926: "Amor você aprova que eu continue plano original começando Portugal fins novembro queira telegrafar", ela lhe telegrafou. Nada poderia ser mais terno, ou revelar mais claramente a natureza de Martha, do que esse termo intenso de afeto "amor" no início, que muitas vezes aparecia tão natural e espontaneamente ao dirigir-se ao Guardião que ela adorava. Ele respondeu: "Faça como a guia divina a inspirar. O mais terno amor." Pouco depois, ele lhe manda 50 libras "como minha modesta contribuição ao trabalho esplêndido que está fazendo em prol de nossa bem-amada Causa". Esse não foi um ato isolado; de tempos em tempos ele lhe enviava uma quantia para "seu trabalho exemplar na Vinha Divina", para servir de ajuda às "suas extensivas viagens, suas crescentes despesas e seu trabalho estupendo", e uma vez, pelo menos, quando lhe chegou a notícia de que ela estava doente. Ele também lhe mandava dinheiro para ajudar na tradução e publicação de várias edições estrangeiras do livro do Dr. Esslemont - ao qual Shoghi Effendi se referiu como o manual da Fé - trabalho em que ela estava ativamente ocupada e que ele constantemente a instava a promover, e ocasionalmente para algum outro fim. De modo algum eram os presentes de um lado só. Shoghi Effendi escreveu: "Recebi o anel de ouro que me enviou... e, depois de usá-lo eu mesmo, eu o ofereci à Folha Mais Sagrada... Você não pode fazer idéia de quanta assistência moral, quanto conforto e inspiração está concedendo aos nossos irmãos perseguidos na Pérsia. Grande, em verdade, será sua recompensa no mundo vindouro! Mais força aos seus braços!" No pós-escrito dessa carta de fevereiro de 1929, ele acrescenta: "Recebi o lindo lenço que me mandou e estou fazendo uso dele como estimada lembrança de sua querida pessoa." Tão típico de Shoghi Effendi pensar, de repente, que Martha talvez tivesse se sentido magoada por ele haver dado o anel a outra pessoa, e assim apressou-se em lhe falar acerca do lenço! Parecem ter trocado muitas coisas entre si; ele costumava lhe mandar livros para distribuição e, numa carta, em 1931, escreve-lhe que está enviando dois pacotes de papéis de carta impressos com o Nome Supremo "para sua correspondência com pessoas eminentes". Numa ocasião, ela lhe remeteu $19,00 para pagar o custo de cabogramas que ele lhe mandou em resposta a perguntas que ela lhe fizera.

Um dos cabogramas de Martha a Shoghi Effendi diz: "Mais terno amor, ansiando por notícias suas"; uma das cartas de Shoghi Effendi a ela diz: "... Gerações ainda por nascer exultarão com a memória de alguém que tão energicamente, tão rápida e belamente pavimentou o caminho para o reconhecimento universal da Fé de Bahá'u'lláh." Ele a denomina o "inigualável arauto da Causa". É indescritível o que os serviços e as cartas de Martha significavam para Shoghi Effendi durante os dez primeiros anos de seu ministério, numa época em que ele mesmo lhe escreveu dizendo que a resposta dos bahá'ís às necessidades do campo de ensino era "tão inadequada e escassa!" "Suas cartas..." ele lhe escreveu em 10 de julho de 1926, "deram-me força, alegria e encorajamento num tempo em que me sentia deprimido, fatigado e desanimado". Em 1927, em junho, ele lhe assegura que corresponder-se com ela não lhe é cansativo, "... pelo contrário, refresca minh'alma fatigada e reaviva em mim o espírito de esperança e confiança que as preocupações opressivas e as múltiplas ansiedades tendem, às vezes, a obscurecer". Em dezembro daquele mesmo ano, quando uma cópia da carta que ela recebera da Princesa Ileana foi mandada a Haifa, Shoghi Effendi assegura a Martha que "levou a Folha Mais Sagrada a lágrimas de alegria... Estou certo de que você não percebe o que está fazendo para a Causa de Deus!" Em outra carta, escrita em setembro de 1928, que começa: "Muito querida e preciosa Martha", Shoghi Effendi, depois de mencionar sua tristeza sobre a situação da Fé na Rússia, prossegue, dizendo: "Asseguro-lhe que, não fossem suas cartas, eu me sentiria completamente exausto e abatido... Devo parar, pois não me sinto com forças para escrever mais e meus nervos estão abatidos e fatigados. Seu irmão triste porém grato." Em novembro, ele acusa recebimento de cinco cartas dela - o que nos dá alguma idéia da freqüência com que ela lhe escrevia - e diz: "É tão reconfortante e animador em meu trabalho receber suas belas cartas que constantemente me fazem lembrar o invencível poder de Bahá'u'lláh que resplandece através de você em todos os seus vastos e sagrados esforços..." e lhe envia nove pedras para anéis "para dar àqueles que achar que deveriam possuí-las" e 30 libras "tão inadequadas e sem valor em comparação com teus estupendos esforços..."

Ela se dirigia a ele em todas as ocasiões, pedindo-lhe, sem hesitação, qualquer coisa que achasse que seria do interesse da Fé. O Guardião estava bem consciente tanto da pureza de seus motivos como de seu bom juízo e, quase invariavelmente, atendia a esses pedidos, os quais variavam desde cartas de encorajamento a indivíduos até mensagens por cabogramas a figuras de grande destaque. "Estou anexando, de acordo com tua solicitação, as cartas que me pediste para escrever", ele lhe informa. E ele, por sua vez, fazia muitos pedidos a ela, usando-a como instrumento sempre disponível para promover os interesses da Fé e defendê-la contra seus inimigos, animando-a a participar e algumas vezes realmente mandando-a como seu próprio representante a vários congressos e conferências internacionais cujos interesses e objetivos eram semelhantes aos dos bahá'ís. Um exemplo disso é sua carta de 12 de junho de 1929, dirigida "À Terceira Conferência Bienal da Federação Mundial de Associações Educacionais" realizada em Genebra: "Meus caros colaboradores em prol da humanidade: estou enviando Srta. Martha L. Root, jornalista americana e conferencista e instrutora bahá'í internacional, como representante internacional bahá'í ao seu congresso em julho. Ela lhes apresentará minha carta de saudação ao seu grande congresso. Com todos os meus melhores votos ao seu nobre empreendimento, subscrevo-me, seu irmão e colaborador, Shoghi." Muitos destes eram congressos de Esperanto, sendo Martha Root excelente conferencista nesse idioma. Cabogramas como este, enviado em abril de 1938, não eram raros: "Martha Root, Bombaim, transmita All Faiths League [Liga de Todas as Fés] expressão meus melhores votos sucesso deliberações. Possa a guia divina capacitar representantes reunidos atingir seu alto objetivo e ampliar âmbito suas meritórias atividades."

Em março de 1936, Martha telegrafou ao Guardião que a irmã da Rainha Maria havia falecido. No dia seguinte, o Guardião telegrafou: "Assegure bem-amada Rainha mais profundos pêsames..." Ambos estavam sempre vivamente conscientes do modo apropriado, bondoso e sábio de fazer as coisas. Martha era uma mulher espontânea, natural, cordial e encantadora. Foi, sem dúvida, essa autenticidade, essa simplicidade e nobreza de caráter que a fizeram tão amada tanto pelo rei designado por Bahá'u'lláh, o Guardião, como também pela primeira rainha a aceitar a Fé. Em um de seus cabogramas a Shoghi Effendi, em 1934, ela diz: "Nossa Maria envia-vos amor agradecimentos maravilhosas entrevistas."

Certa ocasião, ela telegrafou ao Guardião: "... talvez ache aconselhável enviar-me imediatamente saudações Presidente Hoover", ao qual Shoghi Effendi respondeu por cabograma, no dia seguinte: "Gentilmente transmitir Presidente Hoover em nome seguidores Bahá'u'lláh mundo inteiro expressão suas fervorosas orações por êxito seus pródigos esforços em promover causa da fraternidade e paz internacionais - uma causa pela qual eles trabalham constantemente há bem perto de um século." Exatamente um ano antes, durante uma visita ao Japão, em novembro de 1930, encontramos uma troca semelhante de cabogramas; Martha disse: "Amor excelente seu telegrama saudações Imperador." Ao que Shoghi Effendi respondeu no mesmo dia: "Gentilmente transmitir Sua Majestade Imperial Imperador Japão em meu nome e dos bahá'ís mundo inteiro expressão de nosso mais profundo amor e assegurar nossas sincera orações por seu bem-estar e prosperidade seu reino antigo." Amor gera amor. O grande amor de Martha por Shoghi Effendi despertava seu amor e suas respostas, assim como um diamante, com sua capacidade para refletir a luz, captura seus raios e os refrata brilhantemente.

Em março de 1927, Shoghi Effendi escreveu a Martha: "... Asseguro-lhe, muito querida Martha, onde quer que esteja, na Escandinávia, na Europa Central, na Rússia, Turquia ou Pérsia - minhas fervorosas e constantes orações a acompanharão e espero que seja protegida, fortalecida e guiada para cumprir sua missão ímpar e sem precedentes, como defensora exemplar da Fé Bahá'í."

Embora nunca fosse possível Martha ir à Rússia, ela foi, entretanto, à Pérsia, para a visita que o Guardião tanto desejava que ela fizesse. Em 22 de janeiro de 1930, Shoghi Effendi lhe telegrafou: "Que o Bem-Amado a assista por todo progresso triunfal Pérsia." No princípio de abril, quando ela havia chegado à Índia, Shoghi Effendi lhe escreveu, acusando recebimento de nada menos de doze cartas: "Mereceste plenamente toda a honra, o amor e a hospitalidade que os amigos persas te mostraram tão notavelmente. Tenho estado tão ocupado desde minha longa e severa doença que achei impossível responder logo as tuas cartas. Tens estado sempre, entretanto, em meus pensamentos, especialmente durante aquelas horas em que visito os Sagrados Santuários e ponho a cabeça no santo limiar." Passaram-se os anos e Martha Root continuou, com cabelos brancos, frágil e indomável, suas incessantes viagens, até que foi atingida, segundo as palavras de Shoghi Effendi, por "uma moléstia dolorosa e fatal", e faleceu em Honolulu, em 28 de setembro de 1939. Estivera com dores terríveis durante as últimas semanas de uma viagem pelas Antípodas e, de regresso para a América a fim de ajudar no prosseguimento do primeiro Plano de Sete Anos, ela literalmente caiu em seu caminho, entregando uma vida que, o Guardião disse, bem poderia ser considerada como o mais belo fruto até então produzido pela Era Formativa da Dispensação de Bahá'u'lláh.

Lembro-me muito bem do dia em que o cabograma trazendo a notícia de seu falecimento foi entregue a Shoghi Effendi. Ele mesmo estava muito doente, com febre alta (104º Fahrenheit)* e nunca deveria ter recebido tal notícia naquela condição! Mas não havia como escondê-la dele. Ele era o Guardião e era Martha Root que havia falecido. Contra os fortes protestos meus, de sua mãe e seu irmão, ele se esforçou a ficar sentado em sua cama, pálido, terrivelmente fraco e muito abalado por essa notícia repentina, e ditou uma cabograma à América anunciando sua morte. O que mais poderia fazer, perguntou - todo o mundo bahá'í estava esperando ouvir o que ele tinha para dizer. Naquela longa mensagem, dentre outras coisas, ele disse: "Os inúmeros admiradores de Martha em todo o mundo bahá'í lamentam comigo extinção terrena sua vida heróica... A posteridade há de estabelecê-la como a Mão proeminente... primeiro Século Bahá'í... primeiro, mais belo fruto da Era Formativa Fé..." Disse que se sentia impelido a dividir as despesas da construção de seu túmulo com a Assembléia Espiritual Nacional americana, o túmulo daquela cujos "atos derramam imperecível lustre Comunidade Bahá'í americana." Foi o último dinheiro gasto naquela incomparável associação que havia durado dezoito anos. Ao amigo em cuja casa ela falecera, ele telegrafou: "... regozijem-se sua assunção lugar Assembléia Suprema..."

*40º C.(n.r.)

Na realidade, porém, muito antes, Shoghi Effendi já havia prestado seu mais belo tributo à "incomparável" Martha Root, a "principal embaixatriz da Fé de Bahá'u'lláh", como ele a denominara, numa carta circular aos bahá'ís do Ocidente, escrita em 1929: "E, em conclusão, desejo em poucas palavras prestar uma homenagem, embora inadequada, aos magníficos serviços prestados pela exemplar e incansável instrutora da Causa, nossa bem-amada irmã, Srta. Martha Root. Suas viagens internacionais em prol da Fé Bahá'í, tão amplas em seu âmbito, tão longas em sua duração, tão inspiradoras em seus resultados, haverão de adornar e enriquecer os anais da Fé imortal de Deus. Suas primeiras viagens ao extremo sul do continente americano, à Índia e à África do Sul, aos confins orientais da Ásia, às ilhas dos mares do sul e aos países escandinavos do norte; mais recentemente, seu contato com os governantes e cabeças coroadas da Europa e a impressão que seu espírito indomável criou nos círculos da nobreza nos países balcânicos; sua estreita afiliação com organizações internacionais, sociedades de paz, movimentos humanitários e círculos esperantistas, e suas mais recentes vitórias nos círculos universitários da Alemanha - tudo isso constitui uma evidência irrefutável daquilo que o poder de Bahá'u'lláh pode realizar. Esses trabalhos históricos realizados por uma só pessoa e em circunstâncias de limitação financeira e problemas de saúde foram caracterizados constantemente por um espírito de fidelidade, abnegação, esmero e vigor que ninguém excedeu." Ela fora a "mais estreita aproximação do exemplo dado pelo próprio 'Abdu'l-Bahá aos Seus discípulos durante Suas viagens por todo o Ocidente".

Martha Root estava firmemente convencida de que possuía a mais preciosa jóia que o mundo já vira - a Mensagem de Bahá'u'lláh. Acreditava que, ao mostrar essa jóia e oferecê-la a qualquer pessoa, fosse rei ou camponês, estava lhe concedendo o maior favor que jamais poderia receber. Foi essa admirável convicção que tornou possível a uma mulher sem riquezas ou prestígio social, simples, vestida sem esmero, nem muito letrada nem dotada de notáveis dons intelectuais, conhecer mais reis, rainhas, príncipes e princesas, presidentes e homens de distinção, fama e proeminência, e falar-lhes a respeito da Fé Bahá'í, do que qualquer outro bahá'í já fez, na história desta Causa. Como este relato é a respeito do Guardião da Fé e de sua vida, e de nenhum outro, é impossível entrarmos nos detalhes - os quais são amplamente fornecidos em outras obras da literatura bahá'í - das numerosas entrevistas de Martha Root e das reações dessas pessoas proeminente às quais ela levou a Mensagem. Nosso interesse primário deve ser na relação da Rainha Maria com Shoghi Effendi.

Martha Root relatou a Shoghi Effendi o primeiro de seus oito encontros com a Rainha Maria da Romênia, o qual se realizou em 30 de janeiro de 1926, no Palácio de Controceni em Bucareste, a pedido da própria Rainha, depois de ela haver recebido o livro do Dr. Esslemont, Bahá'u'lláh e a Nova Era, que Martha lhe enviara. A Rainha, evidentemente, havia sido atraída aos Ensinamentos e, quando circulou o boato de que ela talvez visitasse a América do Norte, Shoghi Effendi escreveu à Assembléia Espiritual Nacional da América as seguintes instruções, por intermédio de seu secretário, em 21 de agosto de 1926: "Lemos no The Times que a Rainha Maria da Romênia irá à América. Ela parece ter adquirido um grande interesse na Causa. Devemos, pois, ser cautelosos, para não cometermos nenhum ato que possa prejudicá-la ou lhe fazer retroceder. Shoghi Effendi deseja que, caso ela faça essa viagem, os amigos se comportem com grande discrição e sabedoria, e que nenhuma iniciativa seja tomada por parte dos amigos a não ser depois de consultarem a Assembléia Nacional."

Foi durante essa visita que Sua Majestade, profundamente comovida pelos ensinamentos da Fé que estudara, testificou, "em linguagem de rara beleza", segundo as palavras de Shoghi Effendi, "o poder e a sublimidade da Mensagem de Bahá'u'lláh, em cartas abertas que circularam amplamente em jornais dos Estados Unidos e do Canadá. Como resultado da primeira destas cartas, Shoghi Effendi foi "movido por um impulso irresistível" a escrever à Rainha expressando a "jubilosa admiração e gratidão" de sua parte e dos bahá'ís, tanto do Oriente como do Ocidente, pelo seu nobre tributo à Fé. Em 27 de agosto de 1926, a Rainha respondeu a essa primeira comunicação do Guardião, escrevendo-lhe o que ele descreveu como uma "carta profundamente comovente":

Bran, 27 de agosto de 1926.
Prezado Senhor,

Fiquei profundamente comovida ao receber sua carta.

Em verdade, uma grande luz me foi trazida com a Mensagem de Bahá'u'lláh e 'Abdu'l-Bahá. Veio como vêm todas as grandes mensagens, numa hora de angustiante tristeza, conflito íntimo e aflição, e assim a semente penetrou profundamente.

Minha filha mais moça também encontra grande força e consolo nos ensinamentos dos bem-amados mestres.

Nós passamos a mensagem de boca a boca e todos aqueles aos quais a oferecemos vêem uma luz subitamente irradiar-se em sua frente e muito do que estava obscuro e confuso se torna simples, luminoso e cheio de esperança como nunca antes.

Que minha carta aberta foi um bálsamo para aqueles que sofriam pela causa, é, em verdade, causa de grande contentamento para mim e tomo isso como sinal de que Deus aceitou meu humilde tributo.

A ocasião que me foi dada para me expressar publicamente foi também obra Sua, pois de fato houve uma corrente de circunstâncias das quais cada elo me levava, inconscientemente, mais um passo à frente, até que, de súbito, tudo se tornou claro diante de meus olhos e compreendi porque havia sido assim.

Assim Ele nos conduz, no fim, ao nosso destino final.

Alguns dos que pertencem à minha posição social admiram e desaprovam minha coragem em me levantar e pronunciar palavras que não são usualmente pronunciadas por Cabeças Coroadas, mas eu avanço por um impulso íntimo ao qual não posso resistir.

Com a cabeça baixa, reconheço que eu também sou apenas um instrumento em Mãos maiores e regozijo-me por sabê-lo.

Pouco a pouco o véu se levanta e o desgosto se despedaça. O desgosto também era um passo que me conduzia sempre para mais perto da verdade; portanto, não reclamo contra o desgosto!

Que o senhor e aqueles a quem guia sejam abençoados e sustentados pelo sagrado poder de seus antecessores.

Maria

Entre as coisas que a Rainha Maria - que não só era famosa pela sua beleza mas também era escritora e mulher de caráter e independência - escreveu em suas "cartas abertas" publicadas durante 1926, em 4 de maio e 28 de setembro no Toronto Daily Star, e em 27 de setembro no Evening Bulletin de Filadélfia, havia palavras como estas: "Uma mulher trouxe-me noutro dia um Livro. Escrevo-o com letra maiúscula porque é um Livro glorioso de amor e bondade, fortaleza e beleza... Eu o recomendo a vós todos. Se alguma vez o nome de Bahá'u'lláh ou de 'Abdu'l-Bahá vier à vossa atenção, não ponhais de lado os seus escritos. Buscai seus Livros e deixai suas palavras gloriosas, portadores de paz, criadoras de amor, e suas lições penetrarem em vossos corações como fizeram no meu. Nosso dia pode nos parecer demasiadamente cheio para religião. Ou podemos ter uma religião que nos satisfaz. Mas os ensinamentos destes homens gentis, sábios e bondosos são compatíveis com toda religião e com nenhuma religião. Buscai-os e sede mais felizes." "De início, todos nós concebemos Deus como algo ou alguém afastado de nós... Não é verdade. Não podemos, com as nossas faculdades terrenas, captar inteiramente o que Ele significa - assim como não podemos compreender realmente o significado da Eternidade... Deus é tudo, todas as coisas. Ele é o poder atrás de todos os começos. É a inesgotável fonte de providência, de amor, de bem, de progresso, de realizações. Deus é, pois, Felicidade. É Sua a voz dentro de nós que nos mostra o bem e o mal. Mas, na maioria das vezes, desprezamos ou entendemos mal essa voz. Por isso Ele designou Seus Eleitos para descerem entre nós na terra, a fim de esclarecer Sua Palavra, Seu verdadeiro significado. Eis o porquê dos Profetas; eis o porquê de Cristo, Maomé, Bahá'u'lláh, pois o homem, de tempos em tempos, necessita de uma voz sobre a terra para lhe trazer Deus, para aguçar sua percepção da existência do Deus verdadeiro. Essas vozes que nos foram mandadas tiveram que se tornar carne, a fim de que com nossos ouvidos físicos pudéssemos ouvir e entender."

Shoghi Effendi escreveu a Martha Root, em 29 de maio, quando acabava de receber uma cópia da primeira das "cartas abertas" da Rainha, que isso era "um bem merecido e memorável testemunho de seus notáveis e exemplares esforços pela difusão de nossa bem-amada Causa. Enlevou e reforçou muito meu espírito e minhas forças; é seu esse memorável triunfo, dificilmente excedido, quanto a seu significado, nos anais da Causa". Nessa mesma carta, ele lhe pede que pondere a prudência de dar a notícia dos mártires de Jahrum à Sua Majestade e possivelmente atrair sua simpatia pela causa das perseguições aos persas. Não pode haver dúvida de que isto influenciou as subseqüentes corajosas declarações da Rainha sobre a Fé, pois sua carta a Shoghi Effendi indica que foi isso que ocorreu. Shoghi Effendi havia recebido a notícia dessa vitória na véspera da comemoração do falecimento de Bahá'u'lláh, em Bahjí, num tempo em que, como ele o descreve em uma de suas cartas circulares, "... Seus servos entristecidos haviam se reunido em volta de Seu bem-amado Santuário suplicando alívio e libertação para os espezinhados da Pérsia", e Shoghi Effendi continua: "Com cabeças baixas e corações gratos, reconhecemos, nessa esplendorosa homenagem que assim a realeza prestou à Causa de Bahá'u'lláh, uma declaração histórica destinada a prenunciar aqueles eventos empolgantes que, segundo 'Abdu'l-Bahá profetizou, haverão de assinalar, na plenitude do tempo, o triunfo da Santa Fé de Deus."

Isso marcou o início de uma relação não somente com a Rainha, mas também com outras cabeças coroadas e a realeza na Europa por parte de Martha Root, e em alguns casos, do próprio Shoghi Effendi. Ele não somente a encorajava grandemente e a guiava nessas relações, mas, sempre dentro dos limites da dignidade e cortesia, e sincero nas relações humanas, usava esses contatos para servir os interesses da Causa, aumentando-lhe o prestígio aos olhos do público e fazendo questão de levá-los à atenção dos inimigos da Fé.

Até o falecimento da Rainha, em 1938, Martha Root manteve estreito contato com ela, informando-a das atividades bahá'ís e recebendo suas cartas amáveis, escritas de próprio punho, e que refletiam sua devoção aos Ensinamentos de Bahá'u'lláh. Houve também troca de cartas e cabogramas entre Shoghi Effendi e a Rainha, mas, na maioria das vezes, ele lhe enviava mensagens por intermédio de Martha, sendo este um modo mais íntimo de ter contato com ela e que exigia menos das altas posições que ambos, ele e a Rainha, ocupavam nas suas respectivas esferas. Havia outro fator que não podia ser menosprezado, isto é, a constante pressão exercida sobre a Rainha, que tinha tão elevado grau em sua nação - uma nação tão tumultuada politicamente não somente durante seu próprio reinado, mas também durante seu período como Rainha-Mãe, tanto da parte das facções eclesiásticas como das políticas - para que se silenciasse sobre uma religião não tão amplamente conhecida como o é hoje e que era vista pelos mal informados como sendo de natureza islâmica. Não somente desaprovavam inteiramente o franco apoio da Rainha a essa religião, mas também o consideravam apolítico no mais alto grau.

A própria Rainha menciona, em sua primeira carta ao Guardião, que: "Alguns dos que pertencem à minha posição social se espantam e desaprovam minha coragem em me levantar e pronunciar palavras usualmente não pronunciadas por Cabeças Coroadas..." Era necessário que ela tivesse coragem excepcional e sinceridade profunda para repetidamente testificar, por escrito, suas opiniões pessoais sobre a Fé Bahá'í e dar permissão para publicá-las. De fato, Sua Majestade deliberadamente escreveu algumas para publicação em The Bahá'í World. Em 1 de janeiro de 1934, escreveu a Martha, anexando um dos seus preciosos tributos e mandando notícias pessoais a respeito de si própria e de sua família: "Servirá isto para o Volume V? A dificuldade está em evitar repetição..."

Em 1927, no dia 25 de outubro, Shoghi Effendi escreveu a Martha: "Acuso recebimento de suas muito bem-vindas cartas... e estou emocionado com as notícias que contêm, especialmente a de sua notável e histórica entrevista com a Rainha e a Princesa. Estou lhe mandando algumas pedras bahá'ís... para serem apresentadas em meu nome à Rainha, à Princesa e quaisquer outros membros da Família Real que, em sua opinião, poderiam apreciar e estimá-las... Queira assegurar à Rainha e à Princesa nosso grande amor por elas, nossas orações por sua felicidade e êxito e nosso caloroso e cordial convite para visitarem a Terra Santa e serem recebidas na casa do Bem-Amado."

Por trás dessa entrevista com a Rainha, à qual Shoghi Effendi se refere na carta acima, estavam, sem dúvida, sua própria influência e as confirmações que emanavam das instruções que deu a Martha numa carta escrita em 29 de junho daquele mesmo ano, na qual ele disse: "Espero que consiga uma entrevista não só com a Rainha da Romênia, mas também com sua filha, a Rainha da Sérvia, e o Rei Bóris da Bulgária, e estou confiante de que não hesitará em me mandar todos os detalhes e minúcias a respeito de seu trabalho em tão importante campo." Que a Rainha da Romênia recebeu as pedras para anéis como presente e o convite para visitar Haifa é evidenciado em seu cabograma enviado a Shoghi Effendi, em 27 de julho de 1927, do Palácio de Sinaia:

Shoghi Effendi, Haifa

Agradeço-lhe imensamente e a todos os seus com quem me sinto em tão íntimo contato espiritual.

Maria

Martha Root teve êxito em seguir também a outra instrução de Shoghi Effendi, pois ele lhe escreve, em maio de 1928: "... Suas maravilhosas e históricas entrevistas com membros das Família Reais da Romênia e Sérvia emocionaram e inspiraram a nós todos..."

Antes, em abril, a Rainha Maria e sua filha Ileana estavam visitando o Chipre, e o Guardião diz, em sua carta a Martha Root, que os jornais publicaram a notícia de que a Rainha pretendia visitar Haifa e ele gostaria de saber "se tinham a intenção de fazer tal visita e se essa prematura divulgação as detivera de consumar a peregrinação planejada..." Durante a visita da Rainha ao Chipre, o Guardião telegrafou a Sir Ronald Storrs, o Governador do Chipre que hospedava as visitantes reais, a seguinte mensagem: "Queira por gentileza transmitir à Sua Majestade Rainha da Romênia e Sua Alteza Real Princesa Ileana em nome da família e dos amigos de 'Abdu'l-Bahá nossa sincera apreciação do nobre tributo prestado por ambas aos ideais que animam a Fé Bahá'í. Peço assegurar-lhes nossos melhores votos e profunda gratidão." Sir Ronald transmitiu a apreciação da Rainha e da Princesa em resposta a Shoghi Effendi.

O seguinte rascunho, de próprio punho, de uma longa carta escrita pelo Guardião, é de interesse histórico:

Haifa, Palestina.
3 de dezembro de 1929
Sua Majestade
A Rainha-Mãe da Romênia,
Bucareste
Vossa Majestade

Recebi, por intermédio de minha querida irmã bahá'í Srta. Martha Root, o retrato autografado de Vossa Majestade, trazendo-me, em termos simples e comoventes, a mensagem que Vossa Majestade gentilmente se dignou escrever pessoalmente. Guardarei com grande estima esse mais excelente retrato e asseguro-lhe que a Folha Mais Sagrada e a família de 'Abdu'l-Bahá participam plenamente de meus sentimentos de viva satisfação em receber tão admiravelmente belo retrato de uma Rainha a quem aprendemos a amar e admirar.

Durante estes últimos poucos anos, tenho seguido com simpatia profunda o curso perturbado de vários acontecimentos em seu bem-amado país, os quais sinto que lhe devem ter causado grande dor e preocupação. Mas, quaisquer que sejam as vicissitudes e perplexidades que cercam o caminho terreno de Vossa Majestade, estou certo de que, mesmo em suas horas mais tristes, Vossa Majestade tem obtido abundante conforto e alegria por ter trazido, através de suas fervorosas e históricas pronunciações sobre a Fé Bahá'í, bem como pelas suas subseqüentes manifestações de benévolo interesse pelo seu bem-estar, conforto e fortaleza duradouros à multidão de seus fiéis e tão resignados aderentes em todo o Oriente. É seguramente sua, muito amada Rainha, a posição ordenada por Bahá'u'lláh, nos domínios do além, à qual os esforços de nenhum poder terreno jamais haverão de atingir.

Imediatamente após a publicação do segundo volume do The Bahá'í World pelo Comitê Americano de Publicações Bahá'ís, remeti diretamente a Bucareste, ao endereço de Vossa Majestade e ao de Sua Alteza Real, a Princesa Ileana, exemplares desta mais recente e abrangente publicação bahá'í. Tomarei a liberdade, no decorrer do ano vindouro, de apresentar o terceiro volume desta mesma publicação que certamente será de interesse à Vossa Majestade.

Permita-me, ao concluir, reiterar a expressão do sentimento de profunda apreciação e júbilo da família de 'Abdu'l-Bahá e, universalmente, dos bahá'ís em todas as terras, pelo poderoso ímpeto que as francas e nobres palavras de Vossa Majestade deram ao progresso de sua bem-amada Fé.

A família une-se a mim para estender à Vossa Majestade, bem como à Sua Alteza Real, a Princesa Ileana, as mais cordiais boas-vindas à casa de 'Abdu'l-Bahá em Haifa, bem como àqueles lugares tornados tão sagrados e memoráveis pelas ações heróicas de Bahá'u'lláh e 'Abdu'l-Bahá, se em alguma ocasião pretenderem visitar a Terra Santa.

Shoghi

Em 1930, Sua Majestade visitou o Egito com sua filha Ileana. Shoghi Effendi, ao perceber o infeliz acontecimento da publicidade indiscreta durante sua visita ao Chipre, telegrafou a Alexandria em 19 de fevereiro: "Avisar Assembléia caso Rainha visite Egito apresentar expressão boas-vindas e apreciação por parte dos bahá'ís somente por escrito. Carta deve ser breve e cuidadosamente redigida. Nenhuma objeção mandar flores. Comunicações individuais devem ser estritamente evitadas. Informar Cairo."

Na esperança de que finalmente a Rainha pudesse visitar os Sagrados Lugares Bahá'ís na Palestina, o Guardião havia mandado à avó da Rainha, Rainha Vitória, a Epístola de Bahá'u'lláh, copiada em fina caligrafia persa e ornamentada em Teerã. Em 21 de fevereiro, ele telegrafou a Teerã: "Epístola ornamentada Rainha Vitória deve chegar Haifa até dez março em uma ou várias páginas." Este seria seu presente à Sua Majestade. Não tendo recebido aviso algum a respeito dos planos da Rainha após sua chegada ao Egito, ele lhe telegrafou diretamente em 8 de março: "Sua Majestade, a Rainha-Mãe Maria da Romênia, a bordo de Mayflower, Aswan. Família de 'Abdu'l-Bahá se une a mim em renovar expressão de nosso afetuoso e cordial convite à Vossa digna Majestade e Sua Alteza Real, Princesa Ileana, para visitarem Sua casa em Haifa. O consentimento de Vossa Majestade em visitar Túmulo de Bahá'u'lláh e cidade-prisão de 'Akká, além de seu significado histórico será uma fonte de imensurável fortaleza alegria e esperança para os aderentes da Fé que sofrem em silêncio por todo o Oriente. Nosso terno amor, preces e melhores votos pela felicidade e bem-estar de Vossa Majestade."

Não recebendo resposta a este comunicado, Shoghi Effendi mandou mais um telegrama, em 26 de março, para a Rainha, no Hotel Semiramis em Cairo: "Receando minha carta anterior e telegrama nos quais Família de 'Abdu'l-Bahá se une a mim em estender convite à Vossa Majestade e Sua Alteza Real Princesa Ileana se possam ter extraviado, temos prazer em expressar novamente a satisfação que daria a nós todos se Vossa Majestade achasse viável visitar Túmulos de Bahá'u'lláh e 'Abdu'l-Bahá, e a cidade-prisão de 'Akká. Lamento profundamente publicidade dada pela imprensa sem autorização." Dois dias depois, o Ministro da Romênia em Cairo telegrafou a Shoghi Effendi: "Sua Majestade lamenta que por não passar pela Palestina não poderá vos visitar."

A reação que esse acontecimento produziu no Guardião é registrada por ele numa carta que escreveu a Martha Root em 2 de abril de 1930, na qual ele diz: "Estou lhe escrevendo muito confidencialmente a respeito da planejada visita da Rainha a Haifa. Infelizmente não se realizou. A razão, eu absolutamente ignoro." Prossegue dizendo que, apesar de seu convite por escrito a ela e seus dois telegramas que lhe foram mandados ao Egito (os quais ele cita na íntegra), tudo que ele recebeu foi o telegrama do ministro romeno (que também cita). Parece que a publicidade não autorizada que Shoghi Effendi mencionou em seu telegrama à Rainha havia sido largamente difundida, aparecendo na Palestina, na Inglaterra e na América. Ele informa Martha que: "Repórteres que me visitaram representando a United Press of América telegrafaram aos seus jornais justamente o contrário do que eu lhes disse. Perverteram a verdade. Oxalá pudéssemos ter a certeza de que ela ao menos conhece a verdadeira situação! Mas como podemos saber se nossas cartas à Sua Majestade daqui por diante lhe serão entregues? Sinto que você deveria lhe escrever, explicando a situação toda, e certificá-la de meu grande desapontamento." Ele lhe pede que considere tudo isso estritamente confidencial e diz: "Alimento a esperança de que essas infelizes ocorrências servirão apenas para intensificar a fé e o amor da Rainha, e reforçar-lhe a determinação de levantar-se e difundir a Causa." Obviamente o Guardião estava muito aflito por causa desse infeliz acontecimento, mas ele conforta Martha: "Não fique triste ou aflita, muito querida Martha. As sementes que você lançou com tanto amor, devoção e assiduidade, haverão de germinar..."

O cancelamento da visita da Rainha e sua filha aos Sagrados Lugares Bahá'ís, a qual ela de coração almejara, foi motivo de profundo desapontamento não só ao Guardião, mas também à própria Rainha. Por trás dessas cenas, deve ter havido uma verdadeira luta entre a corajosa e independente Rainha e seus conselheiros, pois, após um longo silêncio, ela escreveu a Martha Root, do próprio punho, descrevendo pelo menos um pouco do que havia acontecido. Numa carta datada de 28 de julho de 1931, afirmou: "Tanto Ileana com o eu ficamos cruelmente desapontadas por termos sido impedidas de ir aos sagrados túmulos e de ver Shoghi Effendi, mas naquele tempo estávamos passando por uma crise cruel e todo movimento meu estava sendo usado contra mim e explorado politicamente de um modo pouco bondoso. Causou-me muito sofrimento e tolheu-me a liberdade muito cruelmente. Há períodos, entretanto, em que temos de nos submeter à perseguição, no entanto, por mais magnânimos que sejamos, sempre nos choca e enche de dor quando pessoas são desprezíveis e maliciosas. Eu tinha minha filha para defender naquele tempo; ela estava passando por uma experiência amarga e assim eu não pude me levantar e desafiar o mundo. Mas a beleza da verdade permanece e nisso me apóio em todas as vicissitudes de uma vida que se torna um tanto triste... Estou feliz por saber que suas viagens têm sido tão frutíferas e eu lhe desejo êxito contínuo, sabendo como é bela a mensagem que leva de terra em terra." Essa carta termina com uma frase, após a assinatura de Sua Majestade, talvez a mais expressiva de sua atitude e seu caráter: "Anexo algumas palavras que podem ser usadas em seu Year Book."* Ao receber esta carta, Martha imediatamente telegrafou a Shoghi Effendi a essência de seu conteúdo, ao que ele respondeu por telegrama que estava muito contente e que lhe enviasse a carta.

*Anuário, referindo-se ao The Bahá'í World. (n.r.)

Lembro-me que Shoghi Effendi diversas vezes me contou como a Folha Mais Sagrada havia esperado, hora após hora, na Casa do Mestre a fim de receber a Rainha e sua filha - pois Sua Majestade realmente embarcara para Haifa e a notícia disso encorajou Shoghi Effendi a acreditar que ela iria realizar a peregrinação planejada. O tempo passou e nenhuma notícia veio, mesmo depois de o navio atracar. Mais tarde, o Guardião soube que, ao chegarem ao cais, a Rainha e sua comitiva haviam sido recebidos no navio e informados de que sua visita era imprudente e não permissível; sendo colocados num carro e levados para fora da Palestina, a outro país do Oriente Médio. Não é de se admirar que ela tenha escrito a Martha que pessoas haviam sido "desprezíveis e maliciosas".

A lealdade dessa "convertida real", como Shoghi Effendi a denominou, em face de seu crescente isolamento, de sua idade avançada e das tendências políticas da Europa que pouco a pouco iriam engolfar tantos de sua linhagem real, comoveu Shoghi Effendi profundamente. Em 1934, no dia 23 de janeiro, ele lhe escreveu outra vez:

Vossa Majestade,

Estou profundamente comovido pela esplêndida apreciação que Vossa Majestade bondosamente escreveu para o Bahá'í World e desejo oferecer minha sincera e duradoura gratidão por essa admirável evidência do contínuo interesse de Vossa Majestade na Causa de Bahá'u'lláh.

Eu me senti incentivado a empreender pessoalmente sua tradução e estou certo de que os inúmeros seguidores da Fé tanto no Oriente como no Ocidente sentir-se-ão profundamente estimulados em seu incessante trabalho pelo estabelecimento final da Suprema Paz predita por Bahá'u'lláh.

Estou presenteando Vossa Majestade, através da Srta. Martha Root, com um precioso manuscrito na caligrafia de Bahá'u'lláh, tendo sido ornamentado por um devotado seguidor de Sua Fé em Teerã.

Que sirva de sinal de minha admiração pelo espírito que moveu Vossa Majestade a expressar tão nobres sentimentos por uma Fé que se debate em meio à perseguição.

Asseguro-lhe minhas orações no limiar de Bahá'u'lláh pelo bem-estar e felicidade de Vossa Majestade,

Subscrevo-me, muito sinceramente,
Shoghi

Depois de enviar à Rainha um exemplar do Seleção dos Escritos de Bahá'u'lláh, que havia sido recentemente traduzido, e de receber em resposta uma carta expressando seus "mais calorosos agradecimentos", a qual ela termina dizendo: "Que o Grande Pai esteja conosco em espírito, ajudando-nos a viver e agir como devemos", Shoghi Effendi lhe escreveu como segue:

Haifa, 18 de fevereiro de 1936.
Vossa Majestade,

A Srta. Root transmitiu-me o original da apreciação redigida por Vossa Majestade para o próximo número do Bahá'í World. Estou profundamente comovido e sinto-me verdadeiramente grato por mais essa evidência do interesse duradouro de Vossa Majestade nos Ensinamentos Bahá'ís e de vossa admiração por eles.

As Comunidades Bahá'ís no mundo inteiro recordarão sempre, com sentimentos de orgulho e gratidão, esses belos, admiráveis e históricos testemunhos da pena de Vossa Majestade - testemunhos que, sem dúvida, haverão de inspirá-las muito e animá-las em seus constantes esforços pela difusão da Causa de Bahá'u'lláh.

Estou tão contente e animado em saber que Vossa Majestade obteve muito benefício da leitura do livro Seleção dos Escritos de Bahá'u'lláh e sinto que meus esforços em traduzir esses excertos são plenamente compensados.

Estou oferecendo à Vossa Majestade, através da gentileza da Srta. McNeill, a mais recente fotografia, recebida há pouco da América, que mostra o progresso na construção da Casa Bahá'í de Adoração em Wilmette.

Que o espírito de Bahá'u'lláh sempre abençoe e sustente Vossa Majestade no nobre apoio que está prestando à Sua Causa.

Com o mais profundo afeto e gratidão,
Shoghi

A Sra. McNeill, mencionada nesta carta, morava perto de 'Akká, na Mansão em Mazra'ih, outrora ocupada por Bahá'u'lláh. Ela conhecera a Rainha quando criança, em Malta, e quando, por intermédio do Guardião, soube do interesse da Rainha na Fé, informou-a de seu próprio interesse e da importância da casa em que morava. Em resposta, a Rainha lhe escreveu: "Foi realmente agradável saber de você e pensar que surpreendentemente está morando perto de Haifa e é, como eu, seguidora dos ensinamentos bahá'ís... a casa em que mora... tornada preciosa pela associação com o Homem que nós todos veneramos..."

O último tributo prestado à Fé por Sua Majestade e publicado, em 1936, dois anos antes de seu falecimento, parecia descrever com competência o que a Mensagem de Bahá'u'lláh significou para ela: "Àqueles que buscam a luz, os ensinamentos bahá'ís oferecem uma estrela que os conduzirá à compreensão mais profunda, à certeza, à paz e boa vontade com todos os homens." Ela ganhara para si, escreveu Shoghi Effendi, "renome imperecível... no Reino de Bahá'u'lláh" pela sua "corajosa e histórica confissão de fé na Paternidade de Bahá'u'lláh", "essa Rainha ilustre bem pode merecer a primeira posição entre aqueles defensores reais da Causa de Deus que deverão se levantar no futuro, e cada um dos quais há de ser, nas palavras do próprio Bahá'u'lláh, aclamado como 'a própria vista da humanidade, o luminoso ornamento na fronte da criação, o manancial de bênçãos para o mundo inteiro.'"

De tudo isso que começou no início de 1926, vê-se que as severas crises que surgiram logo após o início da Guardiania de Shoghi Effendi liberaram, como sempre, as forças espirituais inerentes à Fé e realizaram vitórias como a conversão da primeira rainha bahá'í.

5
O Princípio da Luz e da Sombra

Não se pode obter um quadro correto da vida de Shoghi Effendi sem alguma referência ao assunto do rompimento do Convênio. O princípio de luz e da sombra, cada uma realçando a outra, uma intensificando a outra, é visto na natureza e na história. O sol projeta sombras; ao pé do candeeiro, jaz sombra. Quanto mais brilhante a luz, mais escura a sombra. O mal nos homens faz lembrar o bem, e a grandeza do bem acentua o mal. A vida inteira do Guardião foi atormentada e frustrada pela ambição, pelo desatino, pelos ciúmes e ódios de indivíduos que se levantaram contra a Causa e contra ele como Chefe da Causa, pensando que poderiam subverter inteiramente a Fé ou desacreditar seu Guardião, estabelecer-se como líderes de uma facção rival e conquistar a generalidade dos bahá'ís para sua própria interpretação dos Ensinamentos e a maneira como eles acreditavam que a Causa de Deus deveria ser dirigida. Ninguém jamais conseguiu fazer tais coisas, mas uma série de indivíduos desleais nunca deixou de tentar. Os principais instigadores enganavam os néscios, os excomungados esforçaram-se em perverter os fiéis.

À captura das chaves do Santuário de Bahá'u'lláh por aqueles que haviam rompido o Convênio durante o ministério de 'Abdu'l-Bahá, seguiu-se, no decorrer dos primeiros anos do ministério de Shoghi Effendi, a expulsão de Faeg, no Egito, fundador de uma "Sociedade Científica" que ele agora tentava promover como rival da Administração cujo dirigente era Shoghi Effendi. Shoghi Effendi, especialmente depois de ter lido a denúncia contra os antigos rompedores do Convênio contida no Testamento de 'Abdu'l-Bahá, estava preparado para seus ataques, mas a repentina instigação de tanto agravo e oposição vindos de uma fonte tão inesperada, deixou-o chocado e profundamente aflito. Jamais me esquecerei de sua aparência quando ele chamou minha mãe e a mim ao seu aposento, em 1923; ficamos de pé, junto ao pé de sua cama, onde ele estava deitado, obviamente prostrado e profundamente magoado, com grandes olheiras pretas, e nos disse que não podia suportar mais e que iria embora. Deve ter sido extremamente difícil para ele, tão jovem, ver-se o alvo de tantos ataques e compreender que lhe cabia exercer sua prerrogativa e cumprir seu dever de excomunhão a fim de proteger a Fé e guardar o rebanho contra os lobos que a ameaçavam.

O rompimento do Convênio sempre fazia Shoghi Effendi ficar doente. Era como se, de algum modo misterioso, ele fosse a Causa, e qualquer ataque no corpo da Causa afetava aquele que era seu coração. Em 1930, os ataques de uma bahá'í americana completamente néscia, que afirmava ser o Testamento de 'Abdu'l-Bahá uma falsificação, estavam no auge. Shoghi Effendi escreveu a Tudor Pole que: "os mais poderosos e determinados oponentes da Fé no Oriente, que têm desafiado a própria base da Mensagem de Bahá'u'lláh... nunca sugeriram sequer a possibilidade de ser o Testamento um documento forjado. Eles atacaram veementemente suas cláusulas, mas nunca questionaram sua autenticidade. Creio que, quanto maior a publicidade sobre esta questão vital, ainda que possa envolver algum governo, melhor seria para a Causa..." E continuou dizendo: "Sinto mais pena do que temor pelos esforços que a Sra. White está envidando... tão grande e importante questão que ela faz surgir, envolvendo a honra da Causa, cedo ou tarde haverá, forçosamente, de ser averiguada... Estou convencido de que a agitação que ela possa provocar não será prejudicial, mas sim trará benefícios à Fé." Disse também "que o Testamento é autêntico, está além da mais ligeira sombra de dúvida". Os prolongados e árduos esforços da Sra. White, abrangendo um campo suficientemente amplo a ponto de incluir o Chefe dos Correios dos Estados Unidos, a quem escreveu pedindo que proibisse à Assembléia Nacional da América o uso dos correios dos Estados Unidos "para espalhar a mentira de que Shoghi Effendi é o sucessor de 'Abdu'l-Bahá e Guardião da Fé Bahá'í", como também às autoridades civis da Palestina, às quais ela pediu que tomassem ação jurídica para declarar o Testamento uma falsificação - pedido esse bruscamente negado - causaram ainda outro período de ansiedade desnecessária para Shoghi Effendi, exigindo-lhe maior vigilância e esforços redobrados numa época em que ele já estava sobrecarregado e "imerso em meu infindável trabalho". Tudo que a Sra. White conseguiu foi levantar uma temporária e insignificante nuvem de poeira. Na ocasião em que sua agitação estava em seu auge, a Assembléia Nacional britânica escreveu às Comunidades Bahá'ís da Alemanha, por intermédio de sua Assembléia Nacional, assegurando-lhes que os bahá'ís britânicos estavam apoiando lealmente a administração do Guardião. Porém, um dos fundadores da Comunidade Alemã, Herreigel, voltou-se contra a Fé, conforme administrada pelo Guardião, e a abandonou.

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FACULDADE BALLIOL, UNIVERSIDADE DE OXFORD

Prédio muito freqüentado por Shoghi Effendi, como estudante.

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FACULDADE BALLIOL, PÁTIO DOS JOVENS, 1920, OXFORD

Shoghi Effendi está no centro entre alguns de seus colegas (detalhes de uma grande foto).

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SHOGHI EFFENDI COM O DR. J. E. ESSLEMONT

Tirada no Hospital do Dr. Esslemont, em Bournemouth, Inglaterra, durante uma visita de Shoghi Effendi; eles eram grandes amigos.

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UM ENCONTRO EM MANCHESTER, INGLATERRA

Shoghi Effendi (segunda fila, terceiro pela esquerda) costumava visitar os bahá'ís de Manchester enquanto estudava em Oxford.

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O FUTURO LÍDER DA FÉ

Embora ainda um estudante, as qualidades de liderança estavam estampadas sobre Shoghi Effendi.

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O HERDEIRO DA RESPONSABILIDADE DE 'ABDU'L-BAHÁ
Shoghi Effendi aos 22 anos.
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SHOGHI EFFENDI NOS PRIMÓRDIOS DE 1920
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O PRIMEIRO VÔO?

Shoghi Effendi acreditava nas viagens pelo ar, mesmo nos primórdios de 1920-1921.

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Uma interessante conseqüência de toda essa agitação foi que, em 1941, o esposo da Sra. White telegrafou a Shoghi Effendi dizendo que ele estava "profundamente entristecido e arrependido suplicando perdão..." Parece que ele nunca havia realmente concordado com ela. Shoghi Effendi escreveu-lhe abrindo a porta para sua volta, mas ainda, depois de tanto tempo, tornou-se evidente que era impossível ele desenredar-se de sua esposa destemida e não arrependida, de modo que sua mudança de coração não pôde produzir uma mudança de estado.

Já Avarih, o bem conhecido instrutor persa, que Shoghi Effendi, após o falecimento do Mestre, havia mandado à Europa para fortalecer a fé dos bahá'ís e que mais tarde foi forçado a denominar um "apóstata desavergonhado", havia abandonado a Causa e começado a escrever livros (e durante alguns anos continuou a escrever livros) contra a Fé, atacando não só o Guardião, mas finalmente o Mestre e o próprio Bahá'u'lláh, em termos os mais vis. É significativo que sua esposa, diferente do Sr. White, desprendeu-se completamente dele e continuou devotada à Fé, sendo muito elogiada por seu corajoso ato de fé.

Ahmad Sohrab, que estivera intimamente associado ao Mestre, na qualidade de secretário, tendo tido o privilégio de acompanhá-Lo durante Sua visita aos centros nos Estados Unidos e Canadá, ficou, porém, inflado de convencimento e ambição, fundou a "New History Society" [Sociedade Nova História] e alienou-se, progressivamente, de seus companheiros bahá'ís pelos seus próprios atos, sendo que um dos principais era seu hábito de citar, em conferências públicas, as palavras de Bahá'u'lláh e 'Abdu'l-Bahá como se fossem suas próprias. Seria fácil escrever um livro inteiro sobre as circunstâncias da expulsão somente desse homem, citando os inúmeros telegramas e cartas do Guardião em seus esforços, primeiro para salvá-lo de seus próprios atos e, mais tarde, para expô-lo e proteger os bahá'ís americanos de suas perversões da verdade, suas evidentes mentiras e seus esforços para solapar a Ordem Administrativa estabelecida pelo Mestre em Seu testamento. Outra vez, é interessante notar que sua esposa e sua filha, ambas bahá'ís, cortaram completamente todas as relações com ele; de fato, tão humilhadas e desgostosas se sentiam, por causa de sua conduta, que mudaram de sobrenome.

Sobre crises como essas, que surgiam no decorrer do tempo, Shoghi Effendi escreveu: "Deveríamos também ver como uma bênção disfarçada cada tempestade de malícia com a qual aqueles que apostatam, ou se dizem seus expoentes fiéis, atacam a Fé de tempos em tempos. Em vez de solaparem a Fé, tais investidas, tanto de dentro como de fora, reforçam-lhe os alicerces e aumentam a intensidade de sua chama. Embora visando anuviar-lhe o brilho, proclamam ao mundo inteiro o elevado caráter de seus preceitos, sua unidade completa, sua posição incomparável e a vasta difusão de sua influência."

A história de apostasias como essas, entretanto, não apresenta o verdadeiro quadro do significado do rompimento do Convênio no ministério de Shoghi Effendi. Para compreender isso, devemos compreender a velha história de Caim e Abel, a história de ciúmes em família que, como um fio sombrio no tecido da história, atravessa todas as suas épocas e pode ser reconhecido em todos os seus acontecimentos. Desde a oposição de Mírzá Yahyá, o irmão mais novo de Bahá'u'lláh, o veneno do rompimento do Convênio, ou seja, a oposição ao Centro do Convênio, entrou na Fé e permaneceu. Para quem nunca teve experiência com essa moléstia, nem dedicou qualquer atenção ao assunto, é difícil captar a realidade do poder destruidor que ela possui. Todos os membros da família de Bahá'u'lláh cresceram à sombra do rompimento do Convênio. As tempestades, as separações, as reconciliações, o corte final de laços, tudo o que implica quando um parente próximo, distinto, muitas vezes querido, está morrendo espiritualmente de uma moléstia espiritual, são inconcebíveis para quem nunca os experimentou. A fraqueza do coração humano, que tantas vezes se prende a um objeto indigno, a fraqueza da mente humana, propensa à vaidade e confiança em suas próprias opiniões pessoais, tudo isso envolve as pessoas num reboliço de emoções que lhes cegam o juízo e as desviam do caminho. No Oriente, onde ainda hoje persiste um forte senso de intimidade dentro da família, seus membros se apegam uns aos outros mais intensamente do que acontece no Ocidente. Não importava o que Yahyá tivesse feito, persistia na família uma tênue impressão de que, afinal, deveria haver alguma razão de seu lado; numa questão de família, nem toda a justificativa estaria necessariamente do lado de Bahá'u'lláh. Podemos ver prontamente que, se mesmo o mais ligeiro traço de tal atitude existisse entre os membros da própria família de Bahá'u'lláh, os filhos cresceriam sem ver o rompimento do Convênio em suas proporções verdadeiras. A falha estaria aí, a mais perigosa de todas as dúvidas humanas, a de que, afinal, o Ser Perfeito poderia não ser perfeito sob todas as circunstâncias, mas algumas vezes um pouco propenso ao erro em julgar os outros. Quando essa dúvida entra, os germes estão presentes no próprio organismo da pessoa, talvez para permanecerem dormentes para sempre, talvez destinados a irromper em doença. Sempre tive a impressão de que a divisão que ocorreu na família de Bahá'u'lláh após Sua ascensão, e, duas gerações depois, a sucessiva deslealdade de toda a família de 'Abdu'l-Bahá em relação a Shoghi Effendi, tudo isso havia principiado numa atitude mental que se desenvolvera ainda em Bagdá, mesmo antes de Bahá'u'lláh ter declarado Sua Missão. A raiz estava lá no passado e o fruto venenoso seria colhido oitenta anos mais tarde.

Fé e obediência são os fatores mais importantes em nossa relação com Deus, com Seu Manifestante, com o Dirigente da Fé. Devemos acreditar, mesmo sem ver, e devemos obedecer, ainda que não acreditemos. O rompimento do Convênio no seio da família de Bahá'u'lláh era como uma videira que se enrolava na árvore e a sufocava; aonde quer que suas gavinhas se estendessem, arrancava tudo que enredava e também o destruía. Eis porque tantos dos parentes menos importantes, os secretários e os membros da comunidade, que cercavam o Centro da Causa, envolveram-se nos desafetos periódicos de vários membros da família e, cada vez que um desses membros acometidos da moléstia era cortado, alguns simpatizantes iludidos iam junto.

Parece simples escrito no papel. Mas quando, ano após ano, uma casa é dilacerada por emoções pungentes e abalada por cenas que paralisam o cérebro, dizimam os nervos e tumultuam os sentimentos, não é simples, é um verdadeiro inferno. Antes de um doente deitar-se na mesa de operação e remover a parte afetada, há um longo e demorado processo de esforço terapêutico para remediar a moléstia, e de esperança por seu restabelecimento. O mesmo ocorre com o rompimento do Convênio: a infecção é descoberta; seguem-se advertência, repreensão e aconselhamento; parecer haver melhora; irrompe outra vez, pior do que antes; surgem situações convulsivas - arrependimentos e, em seguida, perdão - e então tudo começa de novo, pior do que antes, recomeça. Com infinitas variações, foi isso que ocorreu nas vidas de Bahá'u'lláh, 'Abdu'l-Bahá e Shoghi Effendi.

Tudo isso já se tornou história e é inútil recapitularmos caso por caso. Creio, entretanto, que uma coisa deve ficar clara. Enquanto nós, seres humanos comuns, reagimos de certo modo, esses seres humanos extraordinários reagem de um modo inteiramente diferente. Eles são, em tais questões - não importa quão diferentes em suas próprias posições - inteiramente diferentes de nós. Nos primeiros anos de minha vida com o Guardião eu costumava me perguntar por que ele ficava tão extremamente perturbado com esses acontecimentos, por que reagia a eles tão violentamente, por que ficava prostrado ao perceber evidências de rompimento do Convênio. Gradativamente vim a perceber que tais seres, tão diferentes de nós, têm alguma espécie de misteriosa balança encerrada na própria alma; automaticamente registram o estado espiritual dos outros, assim como um lado de uma balança desce instantaneamente quando se coloca alguma coisa nele, por causa do desequilíbrio que isso cria. Nós, indivíduos bahá'ís, somos como os peixes no mar da Causa, mas esses seres são como o próprio mar; qualquer elemento, por assim dizer, estranho ao mar da Causa com o qual eles, em virtude de sua natureza, identificam-se inteiramente, produz uma reação automática de sua parte; o mar lança fora os seus mortos.

Shoghi Effendi, muitas vezes forçado a anunciar publicamente a queda espiritual não só de bahá'ís muito conhecidos, mas também de membros da própria família de 'Abdu'l-Bahá, refere-se a estes últimos como "aqueles cujos atos proclamam sua separação da Árvore Sagrada e a perda de seus sagrados direitos herdados". Seu coração, dizia ele, sentia-se oprimido pelas "repetidas expulsões" dos "parentes indignos" do bem-amado Mestre, expulsões que, ele deixou claro, eram um "processo de purificação através do qual uma sabedoria inescrutável decidia, de tempos em tempos, libertar o corpo de seus seguidores eleitos da contaminação dos indesejáveis e indignos..." Os que são hostis à Fé, frisava Shoghi Effendi, sempre tomam as evidências desse processo de purificação como sintoma de cisma iminente, que esperam confiantemente causar sua queda. Mas isto nunca aconteceu.

Ainda que esse fenômeno do rompimento do Convênio pareça ser um aspecto inerente à religião, isso não quer dizer que deixe de produzir um efeito prejudicial sobre a Causa. Pelo contrário, como Shoghi Effendi telegrafou aos bahá'ís após a morte de um parente: "só o tempo revelará quanta destruição causada esses vírus violação injetado nutrido mais de duas décadas família 'Abdu'l-Bahá". Não quer dizer que muito disso não poderia ser evitado se houvesse maior lealdade e esforço individual. Acima de tudo, não quer dizer que um efeito devastador não seja produzido no próprio Centro do Convênio. A vida inteira de Shoghi Effendi foi obscurecida pelos malévolos ataques pessoais contra ele. Eu pessoalmente estou convencida de que a razão principal pela qual o coração do Guardião estava suficientemente solapado fisicamente para parar em 1957 foi a insuportável tensão à qual os trinta e seis anos de interminável luta com uma série de rompedores do Convênio o haviam sujeitado. Basta dizer que foi a morte de seu próprio cunhado que ocasionou o envio do telegrama acima mencionado, para termos um vislumbre do que Shoghi Effendi repetidamente passou durante seu ministério.

Numa ocasião, Shoghi Effendi telegrafou a um bahá'í que lhe era muito íntimo e que, conforme soubera recentemente, fora muito maltratado por um parente próximo: "Coração transbordando simpatia seus sofrimentos tão corajosamente suportados. Teria comunicado imediatamente se tivesse sabido. Ambos, você eu, experimentamos taça desilusão tratamento parentes mais próximos. Sinto-me perto de você compreensão suas tristezas lembrança seus constantes serviços magníficos imperecíveis. Orando fervorosamente Sagrados Túmulos. Mais profundo amor."

Talvez estas palavras extraídas de meu diário, escritas entre 1940 e 1945, sob a influência daquilo que vi Shoghi Effendi passar na longa e esmagadora crise que o privou de seus parentes, possam melhor transmitir o efeito do rompimento do Convênio:

"Ele continua, mas é como um homem numa violenta tempestade de neve que, algumas vezes, nem pode abrir os olhos por estarem cegados pela neve." "Ele é como um homem cuja pele foi consumida pelo fogo... é milagre ele poder continuar." "Estou confiante de que a maré há de mudar. Mas, oh! Para nunca, nunca encontrar Shoghi Effendi como ele era! Creio que nada neste mundo jamais poderá apagar o que estes últimos anos lhe fizeram! O tempo é um grande remédio, mas não pode remover as cicatrizes." "Parece que tudo está irreparavelmente quebrado."

Que essas repetidas crises interferiam muito em seu trabalho pela Causa, não poder haver dúvida. Já por volta de 1926, ele escrevera a um bahá'í meio indiferente, que se tornou, mais tarde, vil rompedor do Convênio: "Sabe, não sou e nunca fui uma pessoa sentimental. Anseio por trabalho e meus pensamentos se concentram em realizar tarefas importantes se as circunstâncias permitirem e eu estiver livre de ataques, tanto de dentro como de fora."

A paciência de Shoghi Effendi em tratar dessas terríveis situações que surgiam em sua própria família é mostrada pelo fato de que, numa ocasião, ele guardou por oito meses um telegrama em que iria excomungar seu irmão, enquanto tentava - em vão - remediar a situação e evitar a necessidade de enviar uma mensagem que tanto lhe afligia o coração.

Tão desastroso é o efeito do rompimento do Convênio na Causa que um dos últimos atos do ministério de Shoghi Effendi foi informar às Mãos da Causa que deveriam nomear um segundo grupo de membros do Corpo Auxiliar para a proteção da Fé.

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Facetas da Personalidade de Shoghi Effendi

O fato de Shoghi Effendi ser rigoroso em tudo que se relacionava à proteção da Fé não quer dizer que ele não podia ser meigo e bondoso também. Fundamentalmente, era uma pessoa de coração muito terno e, quando suficientemente em paz interior, expressava essa bondade inata, essa ternura, não somente àqueles ao seu redor, mas também aos crentes, pessoalmente, de muitas maneiras. Há inúmeros exemplos disso entre seus telegramas arquivados. Muitas e muitas vezes, quando um desastre atingia algum país onde havia bahá'ís, ele mandava pedir informações, como neste telegrama mandado à Pérsia: "Telegrafar segurança amigos. Ansioso notícias terremotos Pérsia Turquistão." Muito freqüentemente, este era seguido de auxílio financeiro para aqueles desesperadamente necessitados. Quando um bahá'í americano, acometido de paralisia infantil na Pérsia, estava regressando para os Estados Unidos com a esposa, Shoghi Effendi telegrafou aos amigos em Beirute, Alexandria e Nova York, pedindo que fossem recebê-lo quando seu navio chegasse e o ajudassem de toda maneira possível. O Guardião mandou sete telegramas, dentro de um curto período, por causa de uma bahá'í que teve várias dificuldades em chegar a Haifa e em sair, depois de terminada a peregrinação. Sua meticulosidade em tais casos, bem como sua consideração, refletem-se agradavelmente neste telegrama ao Egito: "Dewing Bahá'í Nova Zelândia chegando hoje à noite Cairo por um dia. Favor recebê-lo estação. Ele usa capacete. Em caso desencontro encontrá-lo agência Cooks nove horas manhã. Mostrar extrema gentileza." Em outra ocasião, Shoghi Effendi telegrafa, por causa de um bahá'í que, por alguma razão, não havia conseguido desembarcar em Haifa, para "consolá-lo por mim". Ao saber por telegrama de alguém cuja esposa estava "completamente desequilibrada acredita ter perdido vosso amor mensagem a acalmaria", Shoghi Effendi telegrafou imediatamente: "Assegurar... amor não diminuído confiança." A um bahá'í no Oriente Próximo, cujos parentes moravam na Palestina, ele telegrafou: "Muito bem-vindo trazer crianças junto aliviar saudades sua avó." Um telegrama com uma mensagem para uma proeminente bahá'í nova diz: "Telegrafar princesa meus melhores votos afetuosos. Que os braços todo-poderosos de Bahá'u'lláh sempre a cinjam."

Dagmar Dole, uma das devotadas pioneiras, faleceu e foi enterrada na Suíça. Uma vez, quando eu estava acamada por alguns dias, lembro-me como fiquei profundamente comovida e admirada quando Shoghi Effendi me disse que fora visitar seu túmulo, a uma pequena distância por trem donde nós estávamos hospedados.

Algumas vezes, muito além do encorajamento usual e das instruções gerais que dava aos bahá'ís, ele se sentia impelido a intervir de um modo direto em seus planos. Um jovem de dezessete anos queria ir à América Latina, no primeiro Plano de Sete Anos, mas lhe haviam dito que era moço demais e deveria esperar até ficar mais velho e avançar mais nos seus estudos. Shoghi Effendi telegrafou à Assembléia Nacional americana que reconsiderasse sua decisão e o deixasse ir, dizendo que mencionaria com orgulho o gesto desse jovem em atender à necessidade de mais pioneiros. Uma senhora idosa, paraplégica, tinha grande desejo de ir à África do Norte como pioneira; Shoghi Effendi animou-a a fazer isso e o lugar em que Ella Bailey faleceu é marcado com uma estrela de ouro num de seus mapas! Lembro-me que um dia, à mesa, uma peregrina disse a Shoghi Effendi que tinha o consentimento de seu marido para se oferecerem como pioneiros, e perguntou se ele tinha alguma sugestão sobre o lugar. Shoghi Effendi respondeu imediatamente: "África." "Algum lugar especial na África?", ela perguntou. "África do Sul", respondeu ele. Um pouco admirada com essas respostas monossilábicas tão rápidas, ela disse: "Alguma cidade especial?" Ao que ele respondeu: "Johannesburgo", e assim seu destino e o de sua família foi determinado em quatro palavras.

Algumas vezes, o espírito que animava um bahá'í era tal que persuadia Shoghi Effendi a mudar suas próprias instruções. Um exemplo disso é o caso de Marion Jack, a quem 'Abdu'l-Bahá chamava de "General Jack" e o Guardião denominou uma "heroína imortal", dizendo que era um brilhante exemplo para pioneiros da presente geração e de gerações futuras, tanto no Oriente como no Ocidente, e que ninguém a havia excedido em "constância, dedicação, abnegação, intrepidez", exceto a "incomparável Martha Root". Jackie - como era usualmente chamada - morava em Sófia, na Bulgária e, quando irrompeu a guerra, Shoghi Effendi, preocupado pela sua perigosa situação, telegrafou-lhe: "Aconselho regressar Canadá telegrafar se financeiramente apta." Ela respondeu "... que tal Suíça?", mas assegurou-lhe sua obediência implícita. Shoghi Effendi então telegrafou: "Aprovo Suíça", mas ela ainda não queria deixar seu posto de pioneira e implorou permissão para ficar na Bulgária. Então o Guardião telegrafou: "Aconselho permanecer Sófia. Amor."

Há um grande mistério nos níveis de serviço. Shoghi Effendi sempre aconselhava aos amigos que seguissem um caminho moderado e prudente, mas, se assim não fizessem, preferindo ascender às alturas do heroísmo e auto-sacrifício, ele se orgulhava extremamente deles. Afinal, nada há de prudente ou moderado em ser martirizado - no entanto, nossa glória culminante, como religião, é que nosso primeiro Profeta foi martirizado e vinte mil pessoas seguiram Suas pegadas. Tenho me esforçado para compreender esse mistério, moderação por um lado e, por outro, as palavras de Bahá'u'lláh: "... escreve, pois, com aquela tinta carmesim derramada em Meu caminho. Esta Me é mais doce, em verdade, do que tudo mais..." e parece-me que o melhor exemplo é um aeroplano: enquanto vai deslizando no chão sobre suas pequenas rodas, está na dimensão do chão, prosseguindo firmemente num plano terreno, mas quando alça vôo, recolhe suas rodas e salta para frente a velocidades admiráveis, está num reino celestial e os valores são diferentes. Quando estamos no chão, recebemos bons conselhos para a terra, mas se elegemos desprezar o solo e saltar para os reinos de serviço mais elevado e de sacrifício, não recebemos mais aquela espécie de conselho, ganhamos fama imortal e nos tornamos heróis e heroínas da Causa de Deus.

Shoghi Effendi trabalhava por todos os meios; tudo o que ele encontrasse, indivíduo, objeto ou pedaço de terra, tudo o que ele pudesse utilizar de um modo vantajoso para a Fé, ele agarrava e usava. Embora, em geral, trabalhasse por intermédio de assembléias, trabalhava também diretamente com indivíduos. Um exemplo disso é Victoria Bedekian, conhecida como "Tia Victoria". Durante alguns anos, ela escrevia cartas que circulavam amplamente no Ocidente e no Oriente, e o Guardião a animava nessa atividade, dizendo-lhe até o que ela mais deveria enfatizar em seus comunicados.

Ele não se importava com a fonte de uma informação; quero dizer com isso que nem sempre esperava que a chegada de um pioneiro ao seu posto ou qualquer outra boa notícia, que já lhe tivesse sido transmitida por uma carta pessoal ou por um peregrino, fosse corroborada por fontes oficiais; mas incluía essa informação animadora nas suas mensagens. Essa amplitude que Shoghi Effendi se permitia exercer fazia com que todo o trabalho da Fé fosse impelido para frente com uma velocidade muito maior do que se ele agisse de outro modo. Como todos os grandes líderes, ele possuía algo de um bom jornalista que compreende que o fator tempo na transmissão de notícias é de grande importância e que a própria celeridade tem um impacto e estimula a imaginação. Esse seu costume, entretanto, não nos deve levar a supor que ele não fosse extraordinariamente meticuloso. Era espantosa a exatidão com que ele compilava estatísticas, pesquisava fatos históricos, elaborava minuciosamente cada detalhe de seus mapas e planos.

O Guardião tinha algumas poucas relações pessoais, além de seu usual afeto e boa vontade para com todos os crentes que eram realmente dignos do nome bahá'í. Certa vez, quando ele se encontrava enfermo, Philip Sprague lhe telegrafou expressando sua preocupação e terminou com estas palavras: "coração cheio de amor". Em resposta, Shoghi Effendi telegrafou: "Já restabelecido. Retribuo plenamente seu grande amor." Muito freqüentemente, ele tinha oportunidade de telegrafar ao seu representante, Dr. Giachery, na Itália, para pedir várias coisas de que precisava no Centro Mundial, e muitos desses telegramas eram semelhantes a este: "Queira encomendar mais vinte e quatro postes para lâmpadas idênticos àqueles encomendados. Com amor." Tais cabogramas eram longe de ser a prática usual do Guardião.

Havia outro aspecto, porém, em seus cabogramas. Se alguns eram muito afetuosos e a maior parte de caráter rotineiro, outros podiam ser extremamente bruscos. Há muitos cabogramas a Assembléias Nacionais semelhantes a este enviado à América em 1923: "Aguardando relatórios abrangentes freqüentes..." e muitos outros a várias pessoas, com frases mais fortes, como estes: "Acautelai-vos desobediência meus desejos"; "Advirto-vos novamente"; "guardai-vos de negligência", e assim por diante. É impossível encontrar cabogramas prolixos e não explícitos. "Mandar com irmã dez fitas Corona cor preta", telegrafou ao irmão em Beirute. Ao primeiro bahá'í a pedir permissão para vir a Haifa após o término da guerra, quando a peregrinação fora finalmente aberta, Shoghi Effendi telegrafou muito simplesmente o que queria dizer, em apenas uma palavra: "Bem-vindo".

Toda a atividade da vida de Shoghi Effendi como Guardião, sua mente e seus sentimentos, suas reações e suas instruções, encontram-se refletidos, em miniatura, em seus cabogramas e telegramas; muitas vezes, eram mais íntimos, mais poderosos, e revelavam mais do que milhares de cartas escritas por ele a indivíduos, porque nestas seu secretário usualmente tratava dos detalhes e assim as palavras não eram as próprias palavras do Guardião, exceto nos pós-escritos, os quais ele mesmo escrevia e na maioria dos quais ele lhes assegurava suas orações, encorajava as pessoas e expunha princípios gerais.

Shoghi Effendi, tal como seu Avô e seu Bisavô, possuía um deleitável senso de humor que estava sempre pronto a se manifestar quando ele tinha oportunidade de ficar contente ou de gozar um pouco de paz de espírito. Seus olhos literalmente dançavam de alegria e ele sorria alegremente, algumas vezes irrompendo até em gargalhadas. A um jovem peregrino que havia expressado seu interesse em se casar, Shoghi Effendi observou: "Não espere demais, nem espere que alguém caia do céu!" Num telegrama a alguns jovens parentes em Beirute, vemos que ele diz, em 1923: "Quando meus dois indisciplinados secretários terminarão seu período de tratamento médico? Telegrafem." Em família, ele gostava de brincar com aqueles que lhe eram mais íntimos. Eu era muitas vezes a vítima, e ele, sabendo que eu provavelmente acreditaria em qualquer coisa que ele dissesse, aproveitava-se disso e adorava me pregar peças. Lembro-me, por exemplo, que uma vez, durante a guerra, entrei em seu quarto e o encontrei muito solene, com os olhos arregalados de apreensão. Fiquei muito ansiosa. Então ele disse que algo terrível acontecera. Eu, naturalmente, fiquei ainda mais ansiosa e perguntei o que havia acontecido. Com expressão de preocupação profunda, informou-me que Churchill havia morrido. Como estávamos no período mais perigoso da guerra, fiquei muito agitada com essa notícia e perguntei-lhe o que aconteceria com os aliados agora, com a morte de seu grande líder, etc. Shoghi Effendi, não agüentando mais a minha aflição, começou a sorrir! Muitas vezes ele brincava assim comigo, por me achar uma vítima ideal - mas pouco a pouco minha credulidade foi se esgotando e, depois de vinte anos, ele me disse que estava ficando muito difícil me enganar. Algumas vezes, fracamente, eu tentava fazer o mesmo jogo com ele, mas nunca conseguia representar tão bem quanto ele e quase nunca consegui enganá-lo.

Por um lado, tão majestoso e, por outro, de uma ingenuidade tão cativante, de coração tão puro e tão jovem, assim era o nosso Guardião! Uma das minhas tarefas, logo que Shoghi Effendi descobriu que eu podia pintar um pouco, era colorir várias coisas para ele, sendo uma destas um mapa que mostrava os terrenos pertencentes à Comunidade Bahá'í no Monte Carmelo. Um dia, quando eu estava colorindo algumas áreas recém-adquiridas, Shoghi Effendi disse para eu pintá-las com cores mais claras. Perguntei por quê. Bem, ele disse, para mostrar que são uma "aquisição recente". Isso refletia claramente a alegria que esses terrenos recém-comprados lhe proporcionavam. Lembro-me como, em outra ocasião, passei horas e horas colorindo para ele fotografias, de diferentes tamanhos, do desenho de um arquiteto mostrando o monumento da Folha Mais Sagrada, tendo os dois mausoléus, de sua mãe e de seu irmão, um de cada lado.

Isso faz lembrar outro aspecto da personalidade tão ricamente dotada de Shoghi Effendi. Ele era muito tenaz em executar seus propósitos, muito determinado, mas nunca deixava de ser razoável. Embora nunca modificasse seus objetivos, ele algumas vezes modificava o modo como havia planejado executá-los. O desenho dos monumentos que eu colori é um bom exemplo disso. Quando ele concebeu a idéia de mover os restos mortais da mãe e do irmão de Bahíyyih Khánum, de 'Akká ao Monte Carmelo, encomendou imediatamente dois belos monumentos de mármore na Itália, semelhantes àquele do túmulo da Folha Mais Sagrada. Como isso aconteceu durante sua ausência de Haifa, ele teve a idéia de colocá-los um de cada lado do lugar de repouso da Folha Mais Sagrada e mandou fazer um desenho de como isso ficaria; mas, ao regressar a Haifa e estudar seu plano no local, ele decidiu que não ficaria tão bonito como colocar os dois, como um par, a alguma distância um do outro, porém no mesmo eixo, o que ele finalmente fez.

Durante todo o ministério do Guardião, vemos a luz da Guia Divina brilhando sobre seu caminho, confirmando suas decisões e inspirando sua escolha. Há, entretanto, sempre fatores imprevisíveis em cada plano. Atos de Deus e a soma do esforço humano constantemente mudam os planos, pequenos ou grandes. Isso sempre tem acontecido, aos maiores seres humanos, bem como aos menores, e as palavras dos próprios Profetas atestam isso. Shoghi Effendi estava sujeito a tais forças, mas ele mesmo freqüentemente modificava seus próprios planos. Há inúmeros e interessantes exemplos disso: numa ocasião, ele concebeu a idéia de colocar o Mausoléu de Bahá'u'lláh no Monte Carmelo, mas, mais tarde, abandonou essa idéia inteiramente e fixou seu lugar em Bahjí; o que se tornou conhecido como a Cruzada Mundial ou o Plano de Dez Anos, foi anunciado primeiro como um Plano de Sete Anos; o único Templo a ser construído durante esse Plano tornou-se três Templos; os originalmente oito países-meta da Europa tornaram-se dez; e assim por diante. Se forças exteriores, sobre as quais o Guardião não tinha controle, frustravam algum plano seu - em vez de modificar ou expandir seu próprio plano à luz das circunstâncias - ele imediatamente compensava, de modo que a Causa, embora sofresse temporariamente derrota ou humilhação, ficava, finalmente, com uma vitória maior, um mais rico dote.

Shoghi Effendi podia se desviar de seu caminho, mas nunca era frustrado em seu propósito; sua engenhosidade era notável. Um bom exemplo disso foi seu modo de conseguir a construção de dois dos três grandes novos Templos Bahá'ís Continentais do Plano de Dez Anos. Ele obteve, do arquiteto que lhe era disponível, os desenhos que lhe pareciam apropriados para as Casas de Adoração de Sidney e Kampala. Estes tinham certa dignidade, belas proporções, um estilo conservador e custo relativamente modesto. Como o arquiteto não estava em condições de elaborar os desenhos dos detalhes ou dirigir a própria construção, Shoghi Effendi, sem fazer questão daquilo que, para um homem cheio de exigências e de mentalidade pequena, teria criado um obstáculo insuperável, simplesmente instruiu as duas Assembléias Nacionais envolvidas a arranjarem firmas de arquitetura locais para elaborarem os detalhes e erigir as construções. O próprio Shoghi Effendi modificou as sugestões dispendiosas que essas firmas fizeram primeiro e conseguiu que ambos os Templos fossem construídos por um preço que ele considerava razoável para a Causa. Muitas e muitas vezes, sua astúcia e seu juízo equilibrado economizavam o dinheiro da Fé, de modo que pudesse ser empregado nas muitas tarefas de suma importância e não criar falência temporária pela execução insensata de um só projeto.

Economia era um princípio muito rígido para Shoghi Effendi e ele tinha idéias muito austeras em assuntos financeiros. Mais de uma vez, ele recusou permissão a um indivíduo fazer peregrinação, por saber que ele tinha dívidas, dizendo que ele deveria primeiro pagar suas dívidas. Nunca vi o Guardião pagar uma conta sem primeiro calculá-la cuidadosamente, fosse uma refeição ou um pagamento de milhares de dólares! Se houvesse cobrança excessiva, ele chamava a atenção - bem como se houvesse cobrança a menos. Muitas vezes, eu chamava a atenção das pessoas que ficavam admiradas quando lhes mostrava que seu cálculo estava errado e que deveriam fazê-la de novo ou então eles seriam os perdedores. Ele também era um pechincheiro determinado e nunca pagava por uma coisa que lhe parecia demasiadamente cara. Em mais de uma ocasião, quando um belo ornamento para os Santuários, Arquivos ou jardins era excessivamente caro e o vendedor não podia ou não queria ceder ao preço do Guardião, ele não o comprava, ainda que o desejasse e tivesse o dinheiro. Ele simplesmente não achava direito e não o fazia. Embora Shoghi Effendi (assim como 'Abdu'l-Bahá) tivesse um carro particular com motorista, durante os piores anos da guerra, quando peças sobressalentes não estavam disponíveis, ele mandou vendê-lo e usava táxis. Como geralmente se pode comprar qualquer coisa quando se tem dinheiro suficiente, não há dúvida de que ele poderia ter adquirido outro carro, mas isso nunca lhe ocorreu. Ele era contra extravagância, ostentação e luxo como tais, e negava muitas coisas a si próprio e aos outros por achá-las injustificáveis ou não apropriadas.

Outra das características fortemente marcantes do Guardião era sua franqueza. Os bahá'ís eram seus confidentes. Livre e majestosamente, reservado mas com uma confidência encantadora e cativante que conquistava o coração, ele compartilhava com os peregrinos que eram seus hóspedes não somente suas idéias e interpretações dos Ensinamentos, mas também seus projetos e planos. Não havia intermediários privilegiados que recebessem seus pensamentos como seu direito. Embora ele comunicasse seus planos através das Assembléias Nacionais e por seu intermédio os executasse, costumava participar esses Planos quase detalhadamente com todos aqueles que encontrava, de tal modo que muitos peregrinos, ao regressarem, sabiam quase todos os detalhes que dentro em breve seriam comunicados oficialmente ao mundo bahá'í. O mesmo se dava com seu trabalho no Centro Mundial. Tão completa era essa franqueza que, às vezes, à mesa, ele fazia pequenos esboços para ilustrar o que estava fazendo nos jardins do Monte Carmelo, como iria ser o "arco", quais os prédios a serem construídos nele, e assim por diante.

Cada coisa nova que ele começava, fosse de âmbito nacional ou internacional, seguia, quase se pode dizer, o mesmo padrão do alvorecer do dia: o primeiro vislumbre a atingir a visão era discernido em suas palavras aos peregrinos ou ficava meio oculto em seus comunicados ao mundo bahá'í; em seguida, vinha o luzir dos objetivos que começavam a tomar forma, à medida que o sol de sua concepção se levantava mais e ele focalizava a brilhante energia de sua mente sobre ela; e finalmente, num cintilante lampejo, erguia-se a idéia inteira em todo o seu esplendor - um Plano de Sete Anos, um Plano de Dez Anos, as advertências e as promessas em alguma nova e maravilhosa carta circular, as instruções completas sobre projetos importantes como o término do Santuário do Báb, dos Arquivos Internacionais, de uma das grandes Casas de Adoração, ou a exposição de certos temas fundamentais contidos em livros como O Advento da Justiça Divina e O Dia Prometido Chegou.

A relação de Shoghi Effendi com os peregrinos, sua cortesia como anfitrião, a bondade que ele lhes mostrava em tantas pequenas coisas, os assuntos de que tratava com eles tão abertamente, tudo isso tinha um efeito tremendo no trabalho que os bahá'ís estavam realizando em tantos países, pois esses crentes felizes, ao regressarem às suas próprias comunidades, agiam como uma levedura, estimulando seus companheiros bahá'ís a esforços maiores, tornando o Guardião uma pessoa mais real para aqueles que não haviam tido o privilégio de conhecê-lo face a face, criando um senso de proximidade, tanto a ele como ao Centro Mundial, que por qualquer outro método dificilmente teria sido conseguido. Em suas conversações com os peregrinos ele podia transmitir, numa linguagem mais fluente e dinâmica do que usaria se escrevesse, seus fortes sentimentos sobre certos assuntos. Durante a peregrinação com minha mãe em 1937, eu tivera o privilégio de anotar o que ele nos dizia à mesa, porém, depois, eu raramente fiz isso. Algumas poucas vezes, contudo, tomei notas enquanto ele falava, e uma dessas vezes foi em 1954, quando ele falou muito energicamente, aos peregrinos presentes, sobre o assunto das urgentes necessidades da Cruzada Mundial e a atitude dos bahá'ís em relação ao pioneirismo: "Posso adverti-los, posso exortá-los, mas não posso criar o espírito - pois desgosto para mim e perigo para os crentes é o que realmente resulta..." "Deveriam arrumar as malas e ir, e ninguém tem o direito de impedi-los - quando são independentes; que tirem seus passaportes e vão..." "A Causa triunfa apesar da inércia de grande número de seus defensores, opera de um modo misterioso." E ao se referir a alguns lugares onde os amigos trabalhavam como instrutores nos colégios, ele disse: "Eles trazem para os colégios o modo de vida americano em vez de repeli-lo e estabelecer o modo de vida bahá'í." Mas, a despeito de tudo o que ele dispensava aos peregrinos - desde as providências para seu conforto físico até a remoção dos véus de seus olhos e sua educação na Fé - sempre que um deles tentava expressar sua profunda gratidão pela honra de tê-lo conhecido, ele imediatamente desprezava isso, dizendo que o objetivo da peregrinação era a visita aos Santuários Sagrados.

Há tantas coisas que me voltam à memória quando penso nos peregrinos, inclusive em mim mesma, como, por exemplo, naquele amanhecer em 1923, quando eu, ainda criança, regressava de Bahjí, no automóvel do Guardião, aonde nós todos havíamos ido comemorar a ascensão de Bahá'u'lláh. Eu, em vez de ficar no assento, insistia em me sentar na beirada da capota do carro conversível, que estava dobrada para trás. Shoghi Effendi fez objeções, advertindo-me a tomar cuidado para não cair para fora, e eu lhe assegurei que isso não aconteceria. Eu estava tão extasiada com a manhã e com as graças que me eram dispensadas, que não podia ter medo. Naquele tempo, não havia estrada apropriada e nós passamos pela praia, entre 'Akká e Haifa, sobre a faixa de areia molhada entre o mar e as dunas. Centenas de pequenos caranguejos brancos fugiam diante do carro, em busca da segurança de seus buracos, numa interminável agitação diante de nós. O sol acabava de nascer e o mundo inteiro estava fresco, rosado e limpo. Shoghi Effendi começou a contar-me quanto ele desejava ver as Montanhas Rochosas do Canadá, falando de seu amor pelas montanhas e pelo alpinismo. Até o fim de sua vida sempre acompanhou, com o mais vivo interesse, qualquer narrativa sobre as tentativas feitas no Monte Everest. Seu amor à beleza das paisagens era muito grande e, tivesse tido liberdade individual, estou certa de que grande parte de seu tempo teria sido passado em visitas às maravilhas naturais do mundo.

No último ano da vida do Guardião, vieram a Haifa dois peregrinos suíços. Essa visita ressuscitou todas as suas memórias da Suíça, e seu amor por esse país brotava de uma maneira totalmente diferente de sua reserva costumeira a respeito de sua vida e sentimentos pessoais. Eu estivera acamada por doença, não tendo estado presente para o jantar na Casa dos Peregrinos, mas quando Shoghi Effendi veio para casa, disse-me: "falei de tudo" - das montanhas que subira, seus passeios a pé, as cenas que ele tanto amava. Isto não era típico dele, mas sim, uma coisa muito rara e um indício de algo muito fundo em seu coração.

Lembro-me de uma outra coisa que ocorreu na própria Suíça, quando, certa noite partíamos, de Zermatt. Todos os anos em que viajávamos juntos, Shoghi Effendi não fazia amizades e muito raramente falava com pessoas desconhecidas. Minha natureza era diferente e algumas vezes eu saía de nosso compartimento do trem, ou em alguma outra ocasião, e entrava em conversação animada com um companheiro de viagem. Ele sempre sabia (e nunca se importou) quando isso acontecia. Acho que devido à minha expressão de rubor e hesitação, quando eu reaparecia, ele sabia o que eu estivera fazendo, mas com brilho nos olhos ele me indagava. Nessa ocasião, entretanto, foi ele quem manteve uma longa conversação enquanto estávamos sentados nos duros bancos de madeira em nosso compartimento de terceira classe no trem. Um jovem, um rapaz realmente encantador, muito cortês, filho bielo-russos, que residiam na América, estava sentado à nossa frente. Ele estava viajando pela primeira vez à Suíça e o Guardião, com aquela mesma bondade e animação que tantas vezes caracterizavam sua conversação, pôs-se a aconselhá-lo com muitos detalhes sobre os lugares que ele não deveria deixar de ver no pouco tempo de que dispunha. Tirou até o guia suíço das estradas de ferro e lhe mostrou quais trens deveria tomar, onde deveria ir e quando. Fiquei sentada e escutava, observando o rosto fino do jovem, tão polido, tão contente com a atenção que recebia dessa pessoa desconhecida e, naturalmente, rezei em meu íntimo para que essa graça que ele estava recebendo - a qual eu de nenhuma maneira lhe podia mostrar - de algum modo o conduzisse, algum dia, à Fé da qual esse desconhecido era o Dirigente!

Mas voltando às observações de Shoghi Effendi aos peregrinos suíços em Haifa, ele sentiu-se movido a informá-los de seu desejo de que a Suíça tivesse seu próprio local para um Templo, perto de Berna, a capital, com um vista clara dos Alpes berneses, onde ele passara tantos meses de sua vida caminhando e subindo montanhas. Em 12 de agosto de 1957, comunicou à então Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá'ís da Itália e Suíça seus desejos a esse respeito. Seu secretário escreveu: "Como ele explicou a ___, ele está muito ansioso para que a Suíça compre um terreno, ainda que pequeno e modesto no início, para o futuro Mashriqu'l-Adhkár desse país. Ele acha que deve ser nas cercanias de Berna, com vista para o Bernese Oberland; e tem muito prazer em poder, ele mesmo, oferecer esse terreno à comunidade suíça. Não deve haver publicidade alguma a respeito disso, para evitar que no seio do ambiente ortodoxo de Berna seja provocada qualquer oposição semelhante àquela que surgiu na Alemanha. Quando o comitê responsável por achar esse terreno tiver localizado um apropriado, ele gostaria que sua Assembléia lhe informasse os detalhes." Foi uma doação única, não havendo nenhuma outra comunidade no mundo bahá'í assim honrada. O terreno, com uma área de quase 2.000 metros quadrados e situado nas cercanias de Berna, tem uma vista sobre o Gürbetal e dele podem ser avistadas as famosas montanhas de Finsteraarhorn, Mönch, Eiger e Jungfrau, cenário de muitas das façanhas do Guardião no alpinismo e também de muitas das horas mais agonizantes pelas quais ele passou após a ascensão de seu Avô.

Numa ocasião, uma peregrina do Canadá informara o Guardião de que, ao ensinar a Fé aos esquimós, era muito difícil fazê-los compreenderem o significado de metáforas como as do rouxinol e a rosa, pois estas coisas lhes eram totalmente desconhecidas. A reação de Shoghi Effendi a isso foi típica. Ao despedir-se dessa amiga, deu-lhe um pequeno frasco de perfume de rosas da Pérsia, a quintessência do que a rosa é, dizendo-lhe que com ela ungisse os esquimós, para que talvez assim pudessem adquirir alguma noção daquilo que Bahá'u'lláh queria dizer ao escrever sobre a rosa.

Outro incidente me vem à memória. Entre os últimos peregrinos que deixaram Haifa, antes de o próprio Shoghi Effendi partir, em junho de 1957, para nunca mais voltar, havia duas bahá'ís americanas negras. Enquanto eu viver, jamais esquecerei a expressão de uma delas quando ficava sentada à mesa, na Casa dos Peregrinos, em frente ao Guardião. Podia-se ver que, ao estar na presença dele - aquele que recebia todos os homens como a criação de Deus, sem outro sentimento senão o de prazer, por serem eles assim como Deus os fizera - os sofrimentos e as tristezas de uma vida inteira se dissolviam. Ela olhou para ele num misto de um grande coração materno amoroso, e de reverência a ele devida em virtude de sua gloriosa posição, olhar que parece-me ser o das faces dos anjos no Paraíso enquanto contemplam seu Senhor.

Os que tiveram o privilégio de estar perto do Guardião, não importa quão longa fosse sua experiência ou quanto tempo fossem bahá'ís - alguns, como eu, desde o nascimento - viam seu conceito da grandeza desta Causa expandir-se constantemente em virtude das palavras de Shoghi Effendi, suas reações e seu exemplo. Lembro-me de minha surpresa quando, em sua longa mensagem do Ridván de 1957 ao mundo bahá'í, ele mencionou (obviamente com orgulho, pois, caso contrário, ele não o teria incluído) os "presos recentemente convertidos para a Fé Bahá'í" na Prisão Kitalya, na Uganda. Nunca me havia ocorrido que se pudesse mencionar um bahá'í que estava preso sem se sentir vergonha! Mas aqui estava ele proclamando que tínhamos um grupo de seguidores de Bahá'u'lláh numa prisão. Ele muitas vezes se referia a isso em suas palestras aos peregrinos e, enquanto eu ponderava isso e as coisas que ele dizia sobre o assunto, compreendi que, como essa Fé é para todos os homens, os santos e os pecadores, havia dois princípios envolvidos. Um era o fato de que a sociedade deve ser governada por leis, protegida por leis, e os homens têm que ser punidos através de leis; e o outro, que a crença no Manifestante de Deus deve ser universal, incluindo todos, porque o ato de fé é a centelha que alumia a alma e lhe dá a consciência eterna de seu Deus, e que isso era uma coisa à qual cada alma tinha direito, não importando quais fossem seus pecados. Em mais de uma carta, em várias ocasiões e a pessoas diferentes, Shoghi Effendi estimulava os bahá'ís a ensinarem nas prisões.

A compaixão mostrada por todos os Profetas de Deus para com os espezinhados, os humildes, os pobres e os marginalizados, dispensando-lhes especial amparo, proteção e amoroso encorajamento, tudo isso estava sempre manifesto nas ações e palavras do Guardião. Não devemos confundir essa atitude, porém, com a verdade fundamental de que muitos grupos de pessoas, que atualmente recaem nessas categorias, não só merecem receber uma atenção especial, mas têm dentro de si reservas de poder e grandezas espirituais das quais o mundo inteiro necessita. Tomemos, por exemplo, os índios do hemisfério ocidental. 'Abdu'l-Bahá escrevera: "Deveis dar grande importância aos índios, os primitivos habitantes da América, porque essas almas se assemelham aos antigos habitantes da Península Arábica, os quais, antes da Revelação de Maomé, eram como selvagens. Ao brilhar em seu meio a Luz Maometana, a tal ponto eles se incendiaram que irradiaram luz sobre o mundo. Outrossim, se esses índios forem educados e devidamente guiados, não pode haver dúvida que, através dos Ensinamentos divinos, eles se tornarão tão esclarecidos que o mundo inteiro será iluminado." Por todo o seu ministério, Shoghi Effendi jamais se esqueceu dessas palavras e, repetidas vezes, exortava os bahá'ís em toda parte do Canadá e das Américas a alistarem essas almas sob a bandeira de Bahá'u'lláh. Algumas das últimas cartas escritas por ele, em julho de 1957, a várias Assembléias Nacionais no hemisfério ocidental, novamente dão grande relevo a esse assunto, referindo-se à "conversão já muito retardada dos índios americanos". Cito excertos de suas instruções escritas por seu secretário em seu nome:

"A tarefa de suma importância é, naturalmente, a de ensino; em todas as sessões, vossa Assembléia deve dar a isso a máxima atenção, deixando tudo mais em lugar secundário. Não somente devem ser desenvolvidas muitas Assembléias novas, como também novos grupos e centros isolados, mas, além disso, especial atenção deve ser focalizada no trabalho de converter os índios à Fé. A meta deveria ser Assembléias compostas totalmente por índios, de modo que esses aborígines da terra, tão explorados e oprimidos, possam compreender que são iguais e parceiros nos assuntos da Causa de Deus, e que Bahá'u'lláh é o Manifestante de Deus para eles."

"Ele estava especialmente satisfeito ao ver que alguns dos bahá'ís indígenas estiveram presentes na Convenção. Ele dá a máxima importância ao ensino da Fé aos habitantes nativos das Américas. O próprio 'Abdu'l-Bahá disse como são grandes as suas potencialidades; é direito deles, assim como é o dever dos bahá'ís não-indígenas, garantir que eles recebam a Mensagem de Deus para este dia. Um dos mais meritórios objetivos de vossa Assembléia deve ser o estabelecimento de Assembléias Espirituais compostas integralmente por indígenas. Do mesmo modo, outras minorias devem ser especialmente procuradas e ensinadas. Os amigos devem ter em mente que, em nossa Fé, diferente de qualquer outra sociedade, as minorias recebem atenção, amor e consideração especiais, a fim de equilibrar aquilo que poderia ser tratado como um grau inferior..."

"À medida que formularem os objetivos que deverão receber sua atenção total durante os anos vindouros, ele os exorta a terem em mente o mais importante de todos, a saber, a multiplicação das Assembléias Espirituais, grupos e centros isolados; isso há de assegurar tanto amplidão como profundidade aos alicerces que estão lançando para os futuros corpos nacionais independentes. Deve-se exortar os bahá'ís a considerarem individualmente as necessidades em suas regiões adjacentes e a saírem como pioneiros para cidades grandes e pequenas, próximas e distantes. Devem ser encorajados pela sua Assembléia a se lembrarem de que pessoas modestas, muitas vezes pobres e humildes, têm mudado o curso do destino humano mais do que pessoas que começaram com riqueza, fama e segurança. Foi o peneirador de trigo que, nos primeiros dias de nossa Fé, levantou-se e tornou-se um herói, um mártir, e não os sacerdotes eruditos de sua cidade!"

O Guardião expressou sentimentos similares a respeito de um outro povo, de uma outra raça. Em uma carta datada de 27 de junho de 1957, escreveu à recém-formada Assembléia Nacional da Nova Zelândia: "Quando formularem e executarem seus planos para o trabalho do qual foram incumbidos para os próximos seis anos, ele deseja que se lembrem especialmente da necessidade de ensinar aos maoris. Esses descobridores originários da Nova Zelândia são de uma raça admirável; são um povo há muito admirado pelas suas qualidades nobres. Deve-se fazer um esforço especial, não só para tomar contato com os maoris das cidades e atraí-los para a Fé, mas também ir aos seus povoados, viver entre eles e estabelecer Assembléias nas quais a maioria dos crentes seja maoris, se não todos. Isto, em verdade, seria uma realização de mérito."

A um peregrino, que pertencia à raça mongol, o Guardião disse que, como a maioria do povo do mundo não era branca, não havia razão para que a maioria dos bahá'ís fosse branca; pelo contrário, a Causa deveria refletir a situação existente no mundo. Para Shoghi Effendi, diferenças não eram algo a ser eliminado, mas sim ingredientes legítimos, necessários e de fato fascinantes que faziam o todo tão mais belo e perfeito.

Shoghi Effendi não só inculcava constantemente nos bahá'ís o respeito devido às pessoas de diversas origens étnicas, mas também lhes ensinava o que realmente o respeito e, acima de tudo, a reverência, são como qualidades necessárias para formar um nobre caráter humano. Infelizmente, hoje em dia, há uma falta de reverência por coisas sagradas no mundo ocidental. Numa época em que a idéia errônea de igualdade parece implicar em que todas as folhas de grama sejam exatamente da mesma altura, o profundo respeito do próprio Guardião por aqueles de posição superior a ele era o melhor exemplo que se poderia encontrar. A extrema reverência mostrada aos Manifestantes Gêmeos de Deus e a 'Abdu'l-Bahá, quer nos seus escritos, suas palestras ou na maneira de se aproximar de Seus sepulcros, provê um padrão permanente a ser seguido por todos os bahá'ís. Sempre que Shoghi Effendi estava próximo a um dos Santuários, todo o seu ser nos fazia sentir sua plena consciência disso. Seu modo de andar enquanto ele se aproximava, sua maneira quieta, a grande dignidade e reverência com que chegava ao limiar, onde se ajoelhava, e sobre ele colocava sua testa, sua maneira de nunca ficar de costas enquanto estava dentro do Santuário, aquele lugar no qual um desses Seres infinitamente santos e preciosos estava enterrado, o tom de sua voz, a ausência discreta de qualquer leviandade em tais ocasiões, tudo isso atestava a maneira como o homem deveria aproximar-se de um santo dos santos, pisando delicadamente o terreno sagrado. É realmente da alma que o homem tem que tratar nesta vida, pois é a única coisa que levará consigo ao partir deste mundo. É esse conceito fundamental - tão obscurecido e olvidado nas filosofias de hoje em dia - que faz com que até o pó dos seres nobres seja dotado de uma potência mística. Tão forte é o perfume de algumas rosas que, mesmo anos depois de haverem murchado e secado, pode-se ainda perceber nelas a fragrância da rosa. É apenas um tênue exemplo do poder que persiste no próprio pó que esteve associado aos gloriosos espíritos das divinas almas quando estavam neste mundo.

Este maravilhoso sentimento de reverência - que, ao se apoderar de nós, parece expelir tanto da escória existente em nossas naturezas imaturas - era uma característica profunda do Guardião, aprendida na infância, enquanto sentado de cócoras, com os braços cruzados no peito, diante de seu digno Avô. Lembro-me de um incidente que ocorreu após o regresso de meus pais para o Canadá, em 1937, quando me enviaram meus livros, minha estante e outras coisas de minha casa. Eu havia arrumado meus livros cuidadosamente na mesma posição em que se encontravam anteriormente em relação à minha cama no meu quarto, e colocado sobre eles a mesma fotografia de 'Abdu'l-Bahá, o que significava que estava paralelo ao pé da cama. Quando Shoghi Effendi notou isso, ele exclamou: "Puseste o Mestre a teus pés!" Fiquei no mínimo espantada com a intensidade dessa observação e disse que eu sempre O deixava naquela posição a fim de poder ver a Sua face quando acordava de manhã. Shoghi Effendi disse que isso não era apropriado e que, por respeito, eu deveria colocar o Mestre à minha cabeceira, e não aos pés. Nunca antes me ocorrera que um aposento possui cabeceira e pé, e que tão sagradas são as relações com coisas como a fotografia do Centro do Convênio do Supremo Manifestante de Deus e a reprodução do Maior Nome, que até a posição que ocupam num aposento deve ser elevada. Um exemplo dessa atitude do Guardião se encontra nas palavras escritas pelo seu secretário, em seu nome, à Assembléia Nacional americana, em 1933: "Quanto às Epístolas de Bahá'u'lláh à Folha Mais Sagrada, Shoghi Effendi acha que seria um pouco desrespeitoso reproduzir o fac-símile da Epístola manuscrita por Bahá'u'lláh no folheto proposto. Ele mandara reproduzi-las a fim de que fossem ornamentadas e enviadas como presente às várias Assembléias Nacionais para serem apreciadas e preservadas em seus arquivos nacionais."

Há outros exemplos semelhantes. Já em 1923, Shoghi Effendi telegrafou a essa mesma Assembléia: "Dignidade da Causa requer restrição no uso e circulação do disco da voz do Mestre". Isso se referia a uma gravação da voz de 'Abdu'l-Bahá entoando, feita durante a sua visita aos Estados Unidos. Em outra ocasião, Shoghi Effendi instruiu aquela Assembléia: "Na condução de qualquer atividade social na Sede Nacional, entretanto, deveria se tomar grande cuidado para manter estritamente a dignidade do lugar, especialmente em vista de sua proximidade à Casa de Adoração, o que torna duplamente essencial que todos os crentes se conformem com aquelas normas de conduta e de relação social estabelecidas nos Ensinamentos Bahá'ís."

Não se trata aqui de questão ritualista. Não há rituais na Fé Bahá'í. É uma atitude. Embora o Guardião costumasse prostrar-se diante dos Sagrados Sepulcros, ele se esforçava diligentemente em explicar aos peregrinos que eles tinham toda liberdade para assim fazerem ou não. Ele o fazia porque era costume naquela parte do Oriente donde vinham seus ancestrais. Mas a reverência era outra coisa. Uma coisa era a forma de expressão que o indivíduo poderia escolher para si mesmo; a outra era o espírito apropriado que deveria estar sempre presente no coração do devoto ao se aproximar daquelas coisas que são as mais sagradas neste mundo.

Seguindo os passos do Mestre, que reivindicara para Si o grau de Servo dos servos de Deus, o Guardião costumava ficar em pé ao lado da porta do Santuário e, com água ou essência de rosas, ungir os peregrinos enquanto passavam por ele para entrar no Santuário. Ele, então, entrava por último. No entanto, em meio a essa sincera servitude e humildade, não se perdiam de vista as devidas proporções, a inerente diferença de grau que faz parte da sociedade humana. Era ele que dirigia os fiéis na oração; eram aqueles de mais alta posição em Haifa que seguiam logo atrás do Guardião na entrada ao Santuário, enquanto ele ia na frente, ou que tinham o privilégio de acompanhá-lo em seu carro quando ele ia a uma comemoração bahá'í em Bahjí. Cortesia, respeito, reverência, tudo tinha seu devido lugar no plano das coisas.

Shoghi Effendi, em harmonia com esse profundo senso de reverência que ele tinha para com as Figuras Centrais de nossa Fé, era muito vigilante em defendê-Los de qualquer desconsideração ou insulto. Um exemplo disso ocorreu em janeiro de 1941. A prefeitura deu o nome de "Rua Bahá" a uma pequena rua em frente à casa de 'Abdu'l-Bahá e à Casa dos Peregrinos Ocidentais. Shoghi Effendi ficou muito indignado e imediatamente mandou seu secretário ver o prefeito para protestar que, sendo esse o nome do Fundador de nossa Fé, considerávamos isso não só impróprio, mas insultuoso. As autoridades municipais reuniram-se e mudaram o nome para "Rua Irã". Lembro-me que na época o Guardião estava tão agitado por causa disso que disse que, caso eles não removessem imediatamente a placa, ele iria derrubá-la com as próprias mãos, se necessário fosse, ainda que resultasse em sua detenção! Fiquei muito perturbada diante dessa expectativa, pois não queria que ele fosse preso sem mim e não sabia o que poderia fazer para ser levada à prisão com ele.

Nenhuma descrição da personalidade de Shoghi Effendi seria jamais completa sem que incluísse seu senso artístico verdadeiramente extraordinário. Não quer isso dizer que ele poderia ter sido pintor; era escritor por excelência. Mas ele certamente tinha a visão de pintor e de arquiteto. A isso se juntava aquela qualidade básica sem a qual não posso imaginar como alguém pode atingir a grandeza em qualquer das artes ou ciências - um perfeito senso de proporção, um senso de proporção medido em milímetros em vez de centímetros. Foi ele quem determinou o estilo do Santuário do Báb com suas instruções a meu pai, não tanto em detalhes, mas na concepção. Foi ele quem estabeleceu o desenho para o prédio dos Arquivos Internacionais, a ponto de seu arquiteto afirmar invariavelmente que o desenho era de Shoghi Effendi e não o seu. O Guardião, sem ajuda ou conselho algum, esquematizou seus esplendidos jardins em Bahjí e Haifa, sendo que cada medição foi realizada por ele, pessoalmente. Mas o que talvez não se saiba é que a decoração interior dos Santuários, da Mansão de Bahá'u'lláh, da Casa de 'Abbúd, da Mansão de Mazra'ih, não foi, nem no mínimo detalhe, senão criação do próprio Guardião. Ele não só aumentava constantemente o número de ornamentos, fotografias, lâmpadas e móveis que tornam esses lugares tão belos, como também determinava onde se deveria colocar cada objeto. Nenhum quadro estava pendurado nas paredes que não tivesse sido colocado por ele em seu lugar exato. Ele não só criou o efeito de beleza que nossos olhos encontram ao entrarmos nesses lugares, mas produziu tudo isso por um custo mínimo, comprando coisas não tanto por causa de seu estilo e período, mas pelo fato de não serem caras e de poderem dar um efeito independente de seu valor intrínseco. Suas visitas aos Santuários e jardins eram as únicas oportunidades que eu tinha para mandar limpar seu aposento. Lembro-me que muitas vezes, apesar dos meus esforços e os da empregada para recolocar os numerosos objetos que se encontravam sobre sua escrivaninha nas suas posições exatas, ele, ao entrar em seu quarto de dormir onde fazia todo o seu trabalho, ia à escrivaninha, automaticamente lançava um olhar sobre ela, estendia a mão e, com um movimento quase infinitesimal, recolocava os vários objetos que ele percebia estarem ligeiramente fora da posição em que ele gostava de tê-los, embora eu tenha a certeza de que a diferença era praticamente invisível a outros olhos senão aos seus. Desnecessário é acrescentar que tudo isso acompanhava uma ordem e um esmero fenomenais.

Shoghi Effendi gostava muito de coisas ornadas, coisas ornadas muito bem proporcionadas, não simplesmente por serem ornadas. No decorrer dos anos, vim a saber quais eram algumas de suas predileções em edifícios e estilos de arquitetura; ele gostava muito do estilo grego, especialmente como exemplificado nas proporções jamais ultrapassadas do Parthenon; sua segunda predileção era a arquitetura gótica, da qual os mais belos exemplos, embora tão completamente diferentes da expressão grega, levavam-no a uma grande admiração pelos seus elevados arcos e delicados ornamentos em pedra; muitas vezes visitávamos catedrais góticas na Inglaterra, e em seus próprios aposentos ele colocou uma grande fotografia emoldurada da catedral de Milão. Ele possuía também fotografias da Alhambra na Sevilha, algumas em sua própria casa e algumas que ele colocara na Mansão em Bahjí, e a considerava muito bela. Havia outro edifício, de proporção e impressão muito diferentes desses, do qual Shoghi Effendi gostava muito: a Signoria, em Florença. Nada poderia ser um indício mais claro da profundidade de seu senso artístico e da perfeição de seu instinto em tais assuntos do que o fato desse sólido edifício italiano, tão diferente de seus outros favoritos, ter sido tão profundamente apreciado por ele.

Não restrito pela tradição em questões de gosto, Shoghi Effendi era extremamente original e engenhoso na maneira como conseguia seus efeitos. Ele fazia coisas que nenhuma autoridade superinstruída, numa série de recomendações e proibições de "faça e não faça" jamais teria tentado. Tomemos, por exemplo, a decoração interior do Edifício dos Arquivos em estilo grego. A fim de conseguir mais espaço num só salão gigante onde pudessem ser expostos os muitos objetos, sagrados ou não, com os quais ele tencionava guarnecê-lo, Shoghi Effendi mandou construir dois balcões estreitos por toda a sua extensão, um de cada lado, sendo eles protegidos por uma balaustrada de madeira, de puro e excelente estilo renascentista. A maioria dos armários que ele escolheu para cobrir as paredes do salão do pavimento inferior era de laca japonesa ou de teça* entalhada chinesa. Os seis grandes lustres pendurados no teto eram de cristal e de desenho puramente europeu. Quando perguntei ao Guardião que mobília ele iria colocar nas galerias, ele disse que usaria alguns dos armários do antigo edifício, os quais não eram realmente de estilo algum, sendo apenas móveis modernos de madeira compensada, como os que as pessoas hoje em dia possuem em suas casas. Essa estranha combinação, porém, de coisas que representavam diversos períodos e países diferentes, inclusive inúmeros objetos de arte, criam, em seu conjunto, uma impressão de beleza, de dignidade, de riqueza e esplendor dificilmente igualados.

*Árvore nativa da Índia, utilizada em marcenaria, carpintaria e construção naval. (n.r.)

Outro exemplo do extremo engenho do Guardião foi o pequeno jardim construído por ele, dois andares acima do chão, num pequeno pátio aberto na Casa de 'Abbúd em 'Akká. Não pedindo nenhum conselho - e conseqüentemente não recebendo nenhum contra - ele se pôs a criar, com algumas telhas adicionais, um pouco de argamassa de cimento, um velho pedestal de madeira, um pavão de metal e algumas plantas, um pequenino jardim quadrado que não só era um encanto, mas também atraía os habitantes de 'Akká - que visitavam a casa nos dias em que estava aberta ao público - a contemplar, boquiabertos, algo novo e inaudito, além de ser outro divulgador da fama da comunidade bahá'í.

O Guardião foi um homem verdadeiramente extraordinário. Existem intermináveis exemplos que nos vêm à mente quando pensamos em sua natureza e suas realizações. Ele tinha um coração tão fiel àqueles que lhe eram fiéis que dificilmente se encontraria outro similar. Nos jardins, no terraço em frente ao Santuário do Báb, há um pequeno compartimento de cimento, pouco maior do que uma caixa grande. Era o quarto de Abu'l-Qásim, um zelador do Santuário, muito estimado por Shoghi Effendi por causa de sua devoção e seu caráter. Na noite antes do falecimento desse homem, Shoghi Effendi me disse que tivera um sonho estranho, duas vezes repetido, no qual todo o verdor no Santuário murchara como se tivesse sido queimado. Ele ficou perplexo com isso, pois sentia que tinha algum significado. Quando, algumas horas depois, lhe foi trazida a notícia de que morrera o zelador do Santuário, ele logo compreendeu o que o sonho significava. Em várias ocasiões, durante um período de muitos anos, quando o Guardião estava construindo o Santuário e ampliando o terraço à sua frente, ele destruía esse quarto, mas cada vez o construía novamente, um pouco mais para o oeste, por causa da relação que o quarto tinha com aquela alma devotada.

7
Os Laços Mais Íntimos

Por mais fiéis e ternas que fossem as relações de Shoghi Effendi, por toda a sua vida, com aqueles que lhe eram mais íntimos, sua relação suprema era com a Folha Mais Sagrada. Quando ela faleceu, em 1932, ele recebeu a notícia em Interlaken, Suíça. Embora estivesse bem consciente de sua condição, a qual ele descreveu em 1929, quando escreveu que a Folha Mais Sagrada estava "agora no anoitecer de sua vida, enquanto as sombras cada vez mais profundas, causadas pelo enfraquecimento de sua vista e pelo declínio de suas forças, rapidamente a cercam"; embora ele tivesse tido um pressentimento de que sua morte celeremente se aproximava, quando, em março de 1932, escreveu aos crentes americanos exortando-os a apressar o término da cúpula do "nosso bem-amado Templo" e dizendo que "minha voz é mais uma vez reforçada pela súplica apaixonada, talvez a última, da Folha Mais Sagrada, cujo espírito, ora pairando à beira do Grande Além, almeja prosseguir o seu vôo ao Reino de Abhá ... assegurando a jubilosa consumação de um empreendimento cujo progresso tanto alegrou os dias finais de sua vida terrena"; embora ela tivesse agora oitenta e dois anos - nada disso serviu para suavizar a angústia que se apoderou do Guardião. Em 15 de julho, ele telegrafou à América, anunciando que seu espírito alçara vôo àquele Grande Além, lamentando o "repentino afastamento de meu único sustentáculo terreno, a alegria e o consolo de minha vida" e informando os amigos de que "uma perda tão penosa necessita a suspensão, durante nove meses, por todo o mundo bahá'í, de toda espécie de festividade religiosa"; reuniões comemorativas deveriam ser realizadas em toda parte, local e nacionalmente, em homenagem a ela, o "último remanescente de Bahá'u'lláh".

Foi em 17 de julho, porém, que ele escreveu aos bahá'ís americanos e canadenses uma carta que nos fornece um vislumbre daquilo que estava passando no mar encapelado de seu coração e na qual elogia a vida, a posição e os atos da irmã de 'Abdu'l-Bahá, expressando seu amor numa inesquecível torrente de palavras.

Muito amada Folha Mais Sagrada! Através da névoa de lágrimas que me enchem os olhos, posso ver claramente, enquanto escrevo estas linhas, tua nobre figura diante de mim, e posso reconhecer a serenidade de tua face bondosa. Posso contemplar ainda, embora a sombra da sepultura nos separe, teus olhos azuis plenos de amor, e posso sentir, em sua calma intensidade, o amor imenso que tinhas à Causa do teu Pai Onipotente, o laço que te prendia ao mais humilde e insignificante dentre seus seguidores, o afeto caloroso que nutrias por mim em teu coração. A memória da inefável beleza de teu sorriso continuará para sempre a alegrar e animar-me no caminho espinhoso que sou destinado a prosseguir. Ao lembrar-me do toque de tua mão, serei esporeado a seguir firmemente em tua vereda. A doce magia de tua voz lembrar-me-á, quando a hora da adversidade estiver mais tenebrosa, a segurar firmemente a corda à qual tu te seguraste tão resolutamente durante todos os dias de tua vida.

Leva tu, esta minha mensagem, a 'Abdu'l-Bahá, teu excelso Irmão, divinamente designado: Se a Causa pela qual Bahá'u'lláh trabalhou e labutou, pela qual Tu sofreste anos de agonizante tristeza e por cujo amor torrentes de sagrado sangue fluíram, tiver, em dias vindouros, que encontrar tempestades mais severas do que aquelas às quais já resistiu, continua Tu a amparar, com Teu cuidado e sabedoria que a tudo abrangem, Teu filho fraco e indigno que nomeaste.

O que a Folha Mais Sagrada fizera para Shoghi Effendi na ocasião do falecimento do Mestre e nos anos subseqüentes, é incalculável. Ela desempenhara, como ele disse, um papel único através de todas as etapas tumultuosas da história bahá'í, sendo que o estabelecimento do próprio ministério de Shoghi Effendi após o falecimento de 'Abdu'l-Bahá não fora a menor delas. "Quais das bênçãos deverei mencionar", escreveu Shoghi Effendi, "que ela, em sua infalível solicitude, dispensava-me generosamente, nas horas mais críticas e agitadas de minha vida?" Disse que ela havia sido para ele a encarnação da infinita ternura e amor de 'Abdu'l-Bahá. Enquanto a sua vida minguava, a dele crescia. Com que satisfação profunda ela deve ter visto que, à medida que a maré de sua própria vida retrocedia das praias deste mundo, Shoghi Effendi se tornava forte em sua Guardiania, capaz de enfrentar os incessantes golpes que o atingiam, com a fortaleza de um homem agora plenamente desenvolvido para sua estupenda tarefa.

Após o falecimento do Mestre, Shoghi Effendi se tornara tudo para Bahíyyih Khánum, o verdadeiro centro de sua vida - para ele, ela sempre fora, depois de seu Avô, a pessoa mais amada no mundo. Lembro-me como, numa ocasião durante minha peregrinação, em 1923, com minha mãe, houve uma grande reunião assistida pelos homens bahá'ís na sala central da casa de 'Abdu'l-Bahá; minha mãe e Edith Sanderson estavam sentadas ao lado do Guardião, mas eu ficara com as senhoras num aposento adjacente. Estávamos no escuro a fim de podermos deixar a porta aberta (naquele tempo, os homens e mulheres orientais, seguindo o costume do país, ficavam completamente separados) e ouvir um pouco do que se passava lá. Parece que algum crente oriental, de repente emocionado, se levantara e prostrara aos pés de Shoghi Effendi; nós, em nosso aposento, não pudemos ver o que acontecera, apenas ouvimos uma grande balbúrdia lá fora. A Folha Mais Sagrada, tão esguia e frágil, pôs-se em pé bradando alto, receando haver acontecido algo com o jovem Guardião. Aquietou-se ao saber que nada sério ocorrera, mas tão evidente foi sua angústia que a cena ficou gravada na minha mente para sempre.

Até a morte da Folha Mais Sagrada, era costume de Shoghi Effendi tomar com ela sua única refeição do dia, servida numa pequena mesa em seu quarto. Disse-me que, muitas vezes, vendo o quanto ele estava agitado, ela lhe dizia que não comesse nesse estado, pois fazia muito mal à sua saúde. Outra coisa que ele me contou a seu respeito foi que, quando ele havia insistido com ela para aceitar como herança de 'Abdu'l-Bahá uma pequena quantia em dinheiro, ela ofereceu grande parte desta para custear a construção do próximo terraço em frente ao Santuário do Báb, em cumprimento do tão acariciado plano de seu Irmão.

Tão íntima era a comunhão entre Shoghi Effendi e sua tia-avó que, muitas e muitas vezes, em telegramas e outras comunicações, especialmente durante os primeiros anos de usa Guardiania, ele a incluía, junto consigo próprio, em frases como "assegurar-nos", "a Folha Mais Sagrada e eu", "nós", e assim por diante. Num telegrama enviado em 1931, ele até assina "Bahíyyih Shoghi". Nada poderia melhor revelar esse seu intenso amor por ela do que, no dia do nosso casamento, o Guardião mandar celebrar a simples cerimônia bahá'í no quarto dela, onde tudo é preservado como estava no seu tempo, quando nós, em pé ao lado de sua cama, de mãos dadas, repetimos, cada um, as palavras em árabe: "Nós todos, verdadeiramente, anuiremos à Vontade de Deus."

Esse amor que o Guardião tinha pela Folha Mais Sagrada, aquela que, muito mais que uma mãe, zelara por ele durante trinta e cinco anos, continuou a ser demonstrado por todo o resto de sua vida. Quando, na Suíça, recebeu a notícia de sua morte, seu primeiro ato foi planejar para sua sepultura um monumento comemorativo apropriado e assim imediatamente foi à Itália para encomendá-lo. E esse monumento, tão primorosamente proporcionado, feito de lustroso mármore branco de Carrara, não poderia ser denominado senão aquilo que parece ser - um templo de amor, a incorporação do amor de Shoghi Effendi. Ele, sem dúvida, havia concebido seu desenho ao observar edifícios de um estilo semelhante e, sob sua supervisão, um artista agora incorporara esse conceito no monumento que ele planejara erigir sobre seu lugar de descanso. Shoghi Effendi costumava comparar as etapas da Ordem Administrativa da Fé com esse monumento, dizendo que a plataforma de três degraus era semelhante às Assembléias locais, os pilares, às Assembléias Nacionais, e a cúpula que os coroava e mantinha juntos era semelhante à Casa Universal de Justiça, a qual não poderia ser colocada em sua posição própria enquanto não fossem primeiro firmemente erigidos os alicerces e pilares. Quando o monumento da Folha Mais Sagrada fora completado em toda a sua beleza, ele mandou uma fotografia dele a muitas das várias Assembléias, bem como a uma lista especial de indivíduos a quem ele desejava presentear com tão terna recordação.

A poltrona na qual ele sempre se sentava no quarto da Folha Mais Sagrada, ele a transferiu para o lugar onde muitas vezes se sentava para algum descanso em seu trabalho, e continuou a usá-la até o fim de sua vida. Seu quarto estava cheio de fotografias dela, em várias épocas de sua vida, e havia mais de uma fotografia mostrando seu túmulo. Num cabograma profundamente comovente, enviado à América sete meses após seu falecimento, no qual ele elogia a lealdade e a abnegação dos construtores campeões da Ordem Mundial, ele acrescenta: "Fundador de nossa Fé muito satisfeito sinais sua sábia administração 'Abdu'l-Bahá orgulhoso sua intrepidez Folha Mais Sagrada radiante de júbilo sua fidelidade"; ele escreveu que a memória dela permaneceria como uma "influência enobrecedora... entre as ruínas de um mundo lamentavelmente agitado". Adornou os Arquivos com as Epístolas ornamentadas de 'Abdu'l-Bahá dirigidas a ela, colocando neles fotografias dela e de seu monumento, bem como alguns de seus pertences e lembranças pessoais. No dia em que Shoghi Effendi me disse que me havia escolhido para ser sua esposa, ele pôs em meu dedo o simples anel de ouro gravado com o símbolo do Nome Supremo, o qual a Folha Mais Sagrada lhe dera alguns anos antes como seu anel bahá'í; disse-me que esse anel não deveria ser visto por ninguém por enquanto, e eu o usava numa corrente em volta de meu pescoço até o dia de nosso casamento.

Em cada ato de sua vida, ele associava a Folha Mais Sagrada com seus próprios serviços à Fé. Quando sepultou os restos mortais da mãe e do irmão de Bahíyyih Khánum no Monte Carmelo, telegrafou: "Desejo estimado da Folha Mais Sagrada cumprido", referindo-se ao seu desejo, muitas vezes expresso, de ser sepultada perto deles. Disse ele, nessa momentosa ocasião, que se regozijava por ter o privilégio de prometer mil libras como sua contribuição ao Fundo Bahíyyih Khánum, o qual fora planejado para inaugurar a campanha final relacionada à finalização do Templo americano. Escreveu que essa transferência e novo sepultamento eram acontecimentos de "capital significado institucional". Disse que "a ligação do lugar de descanso da Folha Mais Sagrada àqueles de seu irmão e sua mãe reforça, em grau incalculável, as potências espirituais daquele Lugar consagrado, o qual era "destinado a evoluir no centro focal daquelas instituições administrativas ordenadas por Bahá'u'lláh, as quais haveriam de abranger o mundo, agitando-o e orientando-o..."

Quando o manto de 'Abdu'l-Bahá, como Dirigente da Fé, caiu nos ombros de Shoghi Effendi, houve nele uma grande transformação. Qual a natureza espiritual daquela transformação - tão infinitamente remota, tanto em grau como em estatura - não nos compete compreender ou procurar definir. Muitas vezes, ele me dizia: "Quando me leram o Testamento do Mestre, deixei de ser um ser humano normal." Aquele jovem sempre bem apessoado e nobre tinha agora, e cada vez mais com o passar dos anos, a estampa de realeza em sua face, suas maneiras, seu andar e seus gastos. Não era algo simulado, nunca uma imitação de seu Avô; era, quase se poderia dizer, uma transformação da qual fora dotado. Shoghi Effendi nunca fora realmente íntimo com qualquer pessoa exceto os parentes mais próximos e, nos primeiros tempos, com aqueles que exerciam funções de auxiliares e secretários. À medida que os anos se passavam e suas responsabilidades aumentavam, até essa intimidade diminuía, de modo que, quando os membros do Conselho Internacional Bahá'í vinham a Haifa, raramente ele encontrava algum de seus membros ocidentais individualmente, geralmente só para dizer adeus quando partiam ou para dar às Mãos da Causa algumas instruções quando iam representá-lo numa conferência. Quanto a essa questão, a pessoa mais favorecida era Milly Collins, cujo extraordinário amor e devoção ao Guardião a haviam tornado muito estimada por ele; depois que meu pai faleceu durante uma visita à sua casa no Canadá, o Guardião convidou Milly para vir residir na casa do Mestre, no quarto que meu pai havia ocupado, porque o quarto dela na Casa dos Peregrinos Ocidentais era úmido e ela sofria muito de artrite. Com exceção de Lutfu'lláh Hakim, todos os membros do Conselho Internacional Bahá'í eram hospedados nessa casa e Shoghi Effendi tratava todos os assuntos com os membros do Conselho na mesa de jantar nessa Casa de Peregrinos, ou através de mensagens levadas aí por seu mensageiro.

Não quer isso dizer que ele não dispensasse sua bondade freqüentemente aos membros do Conselho, especialmente a Milly. Ela era a única pessoa, exceto a que cuidava de sua correspondência, que tinha seu endereço quando estávamos fora de Haifa (com exceção, naturalmente, de meu pai) e que, portanto, tinha constante acesso a ele. Tão profundo e terno era seu amor por Shoghi Effendi - com quem ela se encontrara pela primeira vez pouco depois do falecimento do Mestre - que ela quase nunca escrevia a ele diretamente, mas endereçava suas cartas a mim, a fim de poupá-lo da necessidade de escrever a ela diretamente, pois bem sabia que alguns bahá'ís, em seu inocente egoísmo, tinham amontoado até cinqüenta, sessenta ou mais cartas daquela pena sobrecarregada. Ela estava determinada a jamais aumentar essa carga e todo pensamento seu visava poupar-lhe, de qualquer maneira que pudesse, o menor esforço extraordinário e de servi-lo de qualquer modo que pudesse trazer alguma felicidade a seu coração. Tão grande era sua preocupação em tais assuntos que, embora ela morasse na mesma casa, quando chegava a hora de Shoghi Effendi sair ou entrar, ela se retirava para seu quarto a fim de não obrigá-lo a gastar um momento de seu tempo, tão excessivamente sobrecarregado e com a mente tão cansada, para cumprimentá-la e se sentir constrangido a parar e conversar com ela por alguns minutos. Algumas vezes, sua idade e suas enfermidades confinavam-na a seu quarto e, nessas ocasiões, o Guardião costumava visitá-la por alguns instantes, muitas vezes trazendo-lhe um presente. Lembro-me que, uma noite quando ela estava doente, ele tirou de seu próprio pescoço o cachecol macio e quentinho de casimira que lhe fora dado por um bahá'í e colocou-o em volta do pescoço dela. Tornou-se sua mais estimada posse e ela nunca pôde esquecer o toque de calor do pescoço dele no seu.

Relações como essa, entretanto, eram raríssimas na vida do Guardião. Assim, porém, foi com meu pai. Muitas vezes me parece que, entre as numerosas imerecidas bênçãos de minha vida que Deus, com Sua infinita misericórdia, dispensou-me, uma das maiores foi esta - o grande amor entre Shoghi Effendi e meu pai. A origem desse laço afetivo remonta ao do tempo do casamento do amado Guardião. Até a última década da vida de meu pai, sempre foi minha mãe a famosa bahá'í: ela havia vindo com o primeiro grupo de peregrinos do Ocidente para visitar 'Abdu'l-Bahá, no inverno de 1898-1899; foi a primeira bahá'í do continente europeu, a mãe das comunidades bahá'ís tanto da França como do Canadá, um dos primeiros e mais distintos discípulos do Mestre, e muito amada por Ele. Menciono isso porque certa noite, depois da nossa união, quando Shoghi Effendi veio jantar na Casa dos Peregrinos Ocidentais, disse à minha mãe que, se eu não fosse filha de May Maxwell, ele não teria se casado comigo. Não quer isso dizer que esta fosse a única razão, mas foi, evidentemente, uma muito poderosa, pois no cabograma que enviou em 3 de março de 1940, anunciando oficialmente sua morte, ocorrida dois dias antes, ele disse: "Ao sagrado laço forjado pelos seus insignes serviços acrescenta-se agora inestimável honra morte mártir. Coroa dupla merecidamente conquistada." Estas palavras indicam claramente a relação dela com seu casamento. Numa Epístola de 'Abdu'l-Bahá a um dos filhos espirituais dela, Ele escrevera: "sua companhia enleva e desenvolve a alma". Antes de vir a ficar sob a influência direta do Guardião, por ter o privilégio de estar com ele por mais de vinte anos, posso dizer, em verdade, que meu caráter, minha fé em Bahá'u'lláh e quaisquer pequenos serviços que eu tivesse podido prestar a Ele, eram devidos inteiramente à influência de minha mãe. Destes fatos, torna-se evidente que, quando cheguei com ela em minha terceira peregrinação a Haifa, em janeiro de 1937, a posição de meu pai na Fé podia melhor ser descrita como sendo "o esposo de Sra. Maxwell".

Foi minha mãe que primeiro conheceu Shoghi Effendi como criança, quando ela veio à Terra Santa, no fim do século passado;* veio outra vez, em 1909, com meu pai mas não sei se tiveram algum contato com Shoghi Effendi naquela ocasião. Após o falecimento de 'Abdu'l-Bahá, ela sofreu um colapso completo de saúde, causado pelo choque de Sua morte, notícia que lhe fora participada muito de súbito por telefone e, por um ano, não sabíamos se ela iria viver ou morrer, ou sucumbir a uma doença mental. Meu pai achava que a única esperança de dissipar os pensamentos sombrios e a tristeza que a obcecavam - que devido à sua falta de merecimento ela jamais veria o bem-amado Mestre no mundo vindouro - era ela fazer novamente a peregrinação a Haifa, desta vez para ver o jovem sucessor de 'Abdu'l-Bahá. Em abril de 1923 chegamos a Haifa, e foi Shoghi Effendi que literalmente conseguiu ressuscitar uma mulher tão enferma que ainda não podia dar um passo, movimentando-se somente em cadeira de rodas. Desde então, o amor do coração de minha mãe concentrou-se inteiramente no Guardião e, quando ela pôde regressar à América, depois de termos passado dois longos períodos em Haifa (com um intervalo no Egito enquanto Shoghi Effendi estava fora na Europa), ela mais uma vez serviu à Causa muito ativamente. Eu mesma fiz a peregrinação novamente três anos depois, com duas amigas bahá'ís de minha mãe, e assim, quando chegamos em 1937, não foi como estranhas, mas sim, como duas pessoas atingindo o zênite de seu amor.

*Referindo ao século XIX. (n.r.)

Certamente a simplicidade do casamento de Shoghi Effendi - fazendo lembrar a simplicidade do casamento do próprio 'Abdu'l-Bahá na cidade-prisão de 'Akká - deveria prover um exemplo para reflexão dos bahá'ís em toda parte. Ninguém, com exceção de seus pais, meus pais, um irmão e duas irmãs dele, que residiam em Haifa, sabia do casamento. Ele se sentia fortemente impelido a guardá-lo em segredo, sabendo, por experiência no passado, quanto aborrecimento qualquer acontecimento de importância na Causa provocava invariavelmente. Assim, foi uma surpresa espantosa para os criados e os bahá'ís locais quando seu motorista o levou no carro, comigo ao seu lado, para visitarmos o Santo Túmulo de Bahá'u'lláh na tarde do dia 25 de março de 1937. Num momento como este de sua vida, seu coração o atraía àquele Sacratíssimo Lugar da terra. Lembro-me de que, com exceção da blusa de renda branca, eu estava vestida inteiramente de preto para essa ocasião ímpar. Era um exemplo típico do modo de vestir da mulher oriental quando, naquele tempo, saía na rua, sendo costume usar preto. Embora eu fosse do Ocidente, Shoghi Effendi desejava que eu me adaptasse ao padrão de vida em sua casa - o qual era muito oriental - tão natural e inconspicuamente quanto possível, e eu me sentia mais do que feliz em conformar-me com seus desejos em tudo. Quando chegamos a Bahjí e entramos no Santuário, ele me pediu que lhe desse seu anel, o qual eu ainda estava usando escondido, em volta do pescoço, e o colocou no dedo anular da minha mão direita, o dedo correspondente ao que ele sempre o havia usado. Foi este o único gesto que ele fez. Entrou no interior do Santuário, sob cujo piso Bahá'u'lláh está sepultado, e juntou num lenço todas as pétalas e flores secas que o zelador do Santuário costumava retirar do limiar, colocando-o num receptáculo de prata aos pés de Bahá'u'lláh. Depois de ele ter entoado a Epístola da Visitação, voltamos a Haifa e, no aposento da Folha Mais Sagrada, realizou-se o nosso casamento, como já mencionei. Salvo na ocasião dessa visita, no dia em que me disse que lhe aprouvera me conferir essa grande honra e em um ou dois breves momentos quando ele veio jantar na Casa dos Peregrinos Ocidentais, eu nunca estivera a sós com o Guardião. Não houve celebração, nem flores, nenhuma cerimônia elaborada, nem vestido de noiva ou recepção. Sua mãe e seu pai, em conformidade com as leis de Bahá'u'lláh, deram seu consentimento assinando nossa certidão de casamento e então voltei à Casa dos Peregrinos Ocidentais, no outro lado da rua, onde me encontrei com meus pais (que não haviam estado presentes em nenhum desses acontecimentos) e Shoghi Effendi foi tratar de seus próprios afazeres. Na hora do jantar, exatamente como de costume, o Guardião apareceu, dispensando a meus pais seu afeto e suas felicitações. Tomou o lenço, cheio de flores tão preciosas e, com seu sorriso inimitável, deu-as à minha mãe, dizendo que as trouxera do Santuário interior de Bahá'u'lláh para ela. Meus pais também assinaram a certidão de casamento e, depois que o jantar e esses acontecimentos terminaram, fui para casa com Shoghi Effendi, sendo que minhas malas tinham sido levadas para lá por Fujita enquanto jantávamos. Conversamos por algum tempo com a família do Guardião e então subimos aos seus dois quartos que a Folha Mais Sagrada mandara construir para ele havia tanto tempo.

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O GUARDIÃO TORNA-SE UM ALPINISTA

Shoghi Effendi (usando luvas) com alguns alpinistas e seu guia nos Alpes Suíços.

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O INDOMÁVEL ENTUSIASTA

Shoghi Effendi cavalgando um cume de gelo em uma de suas escaladas aos Alpes Suíços.

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SHOGHI EFFENDI E SEU GUIA

Um jovem Guardião muito alegre com seu guia, no topo de um dos Alpes Suíços; Shoghi Effendi carregava sua própria câmera; sem dúvida um membro da sua turma tirou esta foto.

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MONTANHA HAZARDS

Shoghi Effendi inspeciona uma cratera glacial nos Alpes Suíços.

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NO TOPO DO MUNDO

Sua bicicleta - o carro de um homem pobre - se torna sua favorita. Algumas vezes ele escalava os altos desfiladeiros da Suíça empurrando-a para cima e dirigindo-a montanha abaixo.

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UMA FOTOGRAFIA TIRADA POR SHOGHI EFFENDI

Shoghi Effendi tinha uma particular queda por cachoeiras e por tirar fotografias artísticas. Esta é uma foto da Cascata de Rhine em Schaffhausen, Suíça.

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O JOVEM GUARDIÃO NA SUÍÇA

Shoghi Effendi apreciava os famosos campos de primavera repleto de narcisos selvagens, acima do Lago Léman.

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INTERLAKEN, SUÍÇA

O cansado Guardião, que comumente passava 10 horas andando pelas montanhas, inspecionando seu amado cenário alpino.

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A quietude, a simplicidade, a reserva e a dignidade com que esse casamento se realizou não significava que o Guardião o considerasse um acontecimento sem importância - ao contrário. Com a assinatura de sua mãe, porém redigido pelo Guardião, foi enviado à América o seguinte cabograma: "Anunciar Assembléias celebração casamento bem-amado Guardião. Honra inestimável conferida à serva de Bahá'u'lláh Rúhíyyih Khánum Srta. Mary Maxwell. União de Oriente e Ocidente proclamada pela Fé Bahá'í consolidada. Ziaíyyih mãe do Guardião." Um telegrama semelhante a este foi enviado à Pérsia. Essa notícia, há tanto esperada, naturalmente produziu grande júbilo entre os bahá'ís e veio um dilúvio de mensagens a Shoghi Effendi de todas as partes do mundo. Àquela recebida da Assembléia Nacional dos Bahá'ís dos Estados Unidos e Canadá, Shoghi Effendi respondeu: "Profundamente comovido vossa mensagem. Instituição Guardiania, principal pedra angular Ordem Administrativa Causa Bahá'u'lláh, já enobrecida através sua ligação orgânica com Pessoas dos Fundadores Gêmeos Fé Bahá'í, é agora mais reforçada por associação direta com Ocidente e especialmente com crentes americanos, cujo destino espiritual é inaugurar Ordem Mundial Bahá'u'lláh. Da minha parte, desejo felicitar comunidades crentes americanos pelos laços aquisição unindo-os vitalmente a tão poderoso órgão de sua Fé." A inúmeras outras mensagens, sua resposta praticamente universal foi apenas uma expressão de afetuosa apreciação pelas suas felicitações. Mesmo nesses cabogramas, porém, notamos que suas reações estavam sempre em harmonia com a qualidade e a sinceridade das pessoas que os enviaram. Quando um indivíduo que ele não estimava especialmente, ou em quem não tinha confiança, telegrafava suas congratulações (de uma maneira que parecia inteiramente irrepreensível) o Guardião não expressava apreciação alguma, mas dizia: "orando por você Sagrados Santuários", como se dissesse: "Eu não preciso de suas congratulações, mas você certamente tem necessidade de minhas orações!" Uma das mais comoventes trocas de telegramas nesse tempo foi entre os bahá'ís de 'Ishqábád e o Guardião. Através de um intermediário, Shoghi Effendi telegrafou: "Gentileza telegrafar bahá'ís 'Ishqábád profundamente estimo mensagem orando continuamente proteção." Quando John e Louise Bosch lhe telegrafaram: "Ilustres núpcias enlevaram o universo", o Guardião, em sua resposta, revelou um pouco da profunda emoção que lhe causava o fluxo de amorosas mensagens: "Inexprimível apreciação emocionante mensagem mais profundo amor". Outra resposta especialmente carinhosa foi enviada às Antípodas: "Assegurar amados Austrália Nova Zelândia profunda permanente apreciação."

O aspecto mais significativo, porém associado ao casamento do Guardião, é a ênfase que ele dava ao fato de que unira mais estreitamente o Ocidente e o Oriente. E não só isso - havia reforçado e estabelecido outros laços também. Em resposta a uma consulta da Assembléia americana: "Pedimos informar sobre modo anunciar casamento", Shoghi Effendi disse: "Aprovo anunciar publicamente. Enfatizar significação instituição Guardiania união Oriente Ocidente e ligação destinos Pérsia América. Aludir honra conferida povos britânicos" - uma alusão direta a meu pai escocês-canadense.

Tudo isso teve tal efeito na comunidade americana que seu corpo nacional informou o Guardião de estar enviando $19 de cada uma de suas setenta e uma Assembléias americanas "para imediato fortalecimento novo laço unindo bahá'ís americanos à instituição Guardiania" - em verdade, um sincero e singular presente de casamento para a própria Causa!

O trabalho de Shoghi Effendi, após nosso casamento, continuou exatamente como antes. Por mais de dois meses, meus pais permaneceram na Palestina, a maior parte do tempo na Casa dos Peregrinos Ocidentais; embora o Guardião fosse lá jantar com eles quase todas as noites, não houve oportunidade para se desenvolver uma intimidade pessoal profunda. Finalmente chegou a hora de eles partirem e minha mãe um dia me disse: "Mary, você acha que o Guardião me dará um beijo de adeus?" (embora todos me chamassem pelo novo nome persa, Rúhíyyih Khánum, que o Guardião me havia dado, era permitido à minha própria família, naturalmente, me chamar de Mary, o nome que haviam usado durante toda a minha vida). Eu nunca tinha pensado nisso e repeti a Shoghi Effendi suas palavras, mas sem, naturalmente, pedir que ele fizesse algo a respeito. Meus pais iam partir à tarde e o Guardião, depois do almoço, foi sozinho ao aposento de minha mãe na Casa dos Peregrinos para vê-la. Quando ele já havia saído, eu fui lá e ela disse, com os olhos brilhando como duas estrelas: "Ele me beijou".

Passaram-se os anos e, em 1940, minha mãe, animada por um fervoroso desejo de prestar à Causa algum serviço em agradecimento pelas infinitas bênçãos que lhe foram conferidas pelo Mestre, das quais a última fora essa totalmente inesperada união de sua filha com seu bem-amado Guardião, decidiu ir à América do Sul e ajudar a ensinar a Fé na Argentina, que estava apenas começando a formar uma comunidade bahá'í. O laço profundo que se desenvolveu entre meu pai e Shoghi Effendi principiou, realmente, nesse tempo. Embora o Guardião tivesse gostado de meu pai, sendo atraído às suas valiosas qualidades quando ele esteve em Haifa, não houvera nem tempo nem oportunidade para se formar uma relação íntima. Agora, quando minha mãe, que tinha setenta anos de idade e, durante a maior parte de vida, tivera saúde débil, partiu para o fim do mundo, o Guardião sentiu o que isso significava para seu esposo. Em 22 de janeiro de 1940, ele lhe telegrafou: "Profundamente aprecio nobre sacrifício mais terno amor." Enviou um cabograma à minha mãe no mesmo dia, quando ela estava embarcando, dizendo que estava "orgulhoso nobre resolução". O Guardião, meu pai e eu havíamos consentido que ela fizesse essa longa viagem, mas nessa idade e com o coração longe de sadio, era, no mínimo, arriscada.

A razão por que relato todas essas coisas pessoais é porque por trás delas, dentro delas e penetrando-as, estava o espírito do Guardião e seu coração terno, sua própria dedicação ao serviço da Causa, seus tributos imparciais como Dirigente da Fé, todos os quais se refletiram nos acontecimentos subseqüentes. Minha mãe chegou a Buenos Aires e faleceu quase imediatamente de um ataque cardíaco. Os três cabogramas que vieram, um enviado por ela, pedindo-lhe orações, um de meu pai dizendo que ela estava gravemente enferma e que me preparasse, e um de minha prima Jeanne Bolles, que a havia acompanhado, dizendo que ela falecera, foram todos entregues por mim a Shoghi Effendi. Enquanto ele os lia, vi sua expressão mudar e ele olhou para mim com intensa ansiedade e preocupação. Então, naturalmente pouco a pouco, ele teve que me dizer que ela estava morta. Não posso imaginar que qualquer ser humano tenha jamais recebido tão pura bondade como eu recebi do Guardião durante aquele período de choque e pesar. Seus elogios ao sacrifício de minha mãe, suas descrições de seu estado e júbilo no mundo vindouro, onde, como ele disse em seu cabograma à Assembléia Nacional do Iraque informando os amigos de seu falecimento, "as almas celestiais buscam dela bênçãos no mais recôndito paraíso", sua vívida descrição dela enquanto vagava pelo Reino de Abhá, tornando-se completamente tediosa porque só queria falar da querida filha na terra! - tudo isso se combinava para levar-me a tal estado de felicidade que muitas vezes eu me achava rindo com ele pelas coisas que ele parecia estar realmente adivinhando.

Foi sua morte que de fato efetivou a relação entre o Guardião e Sutherland Maxwell, a qual o elevou às alturas do serviço que foi capaz de atingir antes de também falecer. No dia 2 de março, Shoghi Effendi telegrafou a papai: "Profundamente pesaroso, porém confortado, sempre consciente digno fim tão nobre carreira valoroso serviço exemplar Causa Bahá'u'lláh. Rúhíyyih embora agudamente cônscia perda irreparável regozija-se reverentemente grata coroa imortal merecidamente ganha sua mãe ilustre. Aconselho enterro Buenos Aires. Túmulo dela desenho seu erigido por mim onde ela lutou caiu gloriosamente tornar-se-á histórico centro atividade pioneira bahá'í. Muito bem-vindo concordar residir Haifa. Esteja certo mais profunda carinhosa condolência."

Foi essa mensagem que trouxe meu pai a Haifa e o capacitou, através de seu profundo conhecimento e experiência profissionais, a tornar-se o instrumento de execução dos planos de 'Abdu'l-Bahá, desenhando uma superestrutura apropriada em volta do Santo Túmulo do Báb que o próprio Mestre começara. Durante os anos de guerra, Shoghi Effendi, cada vez mais afligido pela crise em sua relação com os membros de sua família, desenvolveu um afeto por Sutherland e uma intimidade com ele que, até certo, ponto compensavam todos os sofrimentos pelos quais estávamos passando. Não é fácil ser íntimo de alguém infinitamente superior em posição e não perder, com a familiaridade, o respeito e a estima devidos àquela pessoa elevada. Meu pai, porém, nunca falhou nisso. Algumas vezes, quando ele trazia um novo desenho para mostrar a Shoghi Effendi, e o Guardião estava sentado na cama, encostando-se em seus travesseiros, ele convidava papai para sentar-se ao seu lado, a fim de poderem melhor examinar os detalhes juntos. Pode-se imaginar o que significava para mim, ver aquelas duas cabeças bem-amadas tão juntas, uma branca, a outra encanecendo nas têmporas! Momentos fugazes como estes, de paz e prazer em família, na tempestuosa atmosfera de nossas vidas, adoçavam o que era muitas vezes uma bem amarga taça de angústia.

Quando meu pai caiu desesperadamente enfermo no inverno de 1949-1950, foi desenganado pelos seus médicos. Chegou a um ponto em que parecia não mais ter mente consciente, não podendo reconhecer a mim, sua filha única e idolatrada, e não tendo mais controle sobre si, como se tivesse seis meses de idade. Tivesse eu qualquer necessidade de ser convencida sobre a questão de o homem ter ou não uma alma, teria uma prova concludente de sua existência naquela ocasião. Sempre que Shoghi Effendi vinha ver meu pai, embora este não pudesse falar nem desse sinal consciente de perceber a proximidade do Guardião, uma vibração, um tremor, alguma reação inteiramente efêmera, porém visível, passava por ele por causa da própria presença de Shoghi Effendi. Era tão extraordinário e tão evidente, que seu enfermeiro (o melhor de Haifa) também notou isso e ficou muito perplexo. Era contra todas as leis da mente, a qual, à medida que se esvai, lembra o passado remoto mais vividamente do que o imediato. Shoghi Effendi estava determinado a não deixar meu pai morrer. Por causa de sua insistência, quando ninguém, inclusive eu mesma, tinha a mínima esperança, nós o levamos com seu enfermeiro à Suíça, onde ele se recuperou rapidamente sob os cuidados de nosso próprio médico - um restabelecimento tão completo que, algumas semanas depois, quando seu novo enfermeiro suíço e eu o levamos para seu primeiro passeio de carro e ele avistou um café no meio de um jardim, de pronto nos convidou para entrarmos e tomarmos chá com ele - proposta essa que aceitei com indescritível sentimento de espanto e gratidão. Foi após este restabelecimento que o Guardião, numa mensagem enviada à América em julho de 1950, anunciando o progresso na construção do Santuário do Báb, sentiu-se impelido a aludir a esses acontecimentos: "Minha gratidão é intensificada pelo miraculoso restabelecimento de seu talentoso arquiteto, Sutherland Maxwell, cuja enfermidade fora pronunciada desesperadora pelos médicos."

Durante os anos que meu pai sobreviveu a essa doença, a qual o deixara muito frágil e se manifestava em repetidos ataques de vesícula biliar, um dos quais foi a causa de sua morte, eu muitas vezes me admirava da maravilhosa brandura e paciência que Shoghi Effendi mostrava a esse homem idoso. Foi uma revelação de um outro lado da natureza do Guardião, pois por temperamento ele era impaciente, sentindo sempre a premência de seu interminável trabalho. Não há adjetivo para descrever o grau da adoração de meu pai por ele. Seus sentimentos baseavam-se não só em sua profunda fé como bahá'í, no respeito e obediência que lhe devia como Guardião de sua Fé, mas também em seu amor por ele como um homem a quem admirava profundamente em todos os sentidos e, naturalmente, por causa da relação humana pessoal que ele sentia muito profundamente. Lembro que, quando a única irmã viva de meu pai faleceu, em 1942, Shoghi Effendi lhe disse que agora ele não devia considerar Montreal sua primeira residência e esta a segunda, mas vice-versa. Disse-lhe também que, como ele agora estava ajudando-o cada vez mais, não poderia dispensá-lo. A atitude de Shoghi Effendi para com os parentes de meu pai que não eram bahá'ís (só uma irmã, que havia morrido muitos anos antes, fora bahá'í) demonstrava toda a sua natureza. Recordo como, na ocasião de meu casamento, quando esses parentes me escreveram congratulando-me calorosamente, enviaram seu amor a "Shoghi". Fiquei um pouco embaraçada e indecisa sobre como transmitir essa mensagem ao Sinal de Deus na terra, mas finalmente decidi ler para ele o trecho da carta de minha tia. Ele ouviu atentamente e, após um momento, disse muito delicadamente "transmite meu amor também a eles". Através dos anos, mensagens semelhantes eram trocadas. Como ele era bondoso, nobre e impassível em todos os seus atos!

Uma das maneiras de Shoghi Effendi mostrar bondade ao meu pai era, algumas vezes, entusiasticamente passar nele algum perfume de essência de rosas. No Oriente não há a insensata proibição do uso de perfume por homens, e o Guardião apreciava muito essa maravilhosa fragrância. Valia a pena, realmente, ver a expressão no rosto de meu pai escocês! Ele veio de um ambiente e de uma parte do mundo onde o uso de perfume por homens é condenado. Ele jamais usou nem mesmo uma loção perfumada. Alarmado em pensar que agora ele ficaria fortemente perfumado e, ao mesmo tempo, sentindo pura alegria por haver recebido de seu amado Guardião essa atenção carinhosa, ficou estampada em seu rosto uma expressão realmente extraordinária!

Em 1951, o Guardião decidiu levar meu pai outra vez à Suíça conosco. Quando chegou a hora de regressarmos à Terra Santa, fomos informados de que a situação de escassez de alimentos estava tão difícil que seria praticamente impossível lhe dar a dieta de alimentos estritamente frescos, tão essencial para evitar a reincidência de seu mal. Ele mesmo estava ansioso para visitar sua casa e ver a família após mais de onze anos de ausência. O Guardião resolveu, pois, mandá-lo ao Canadá com o mesmo devotado enfermeiro suíço que cuidara dele no ano anterior e estava novamente conosco. Foi lá, na velha casa em sua cidade natal, que recebeu a notícia de sua elevação pelo Guardião ao grau de Mão da Causa, num tempo em que sua vida rapidamente minguava.

Não havia, em verdade, lugar algum na vida de Shoghi Effendi para o sofrimento que lhe impuseram a longa doença de meu pai, sua recuperação, os periódicos ataques de sua moléstia e finalmente sua morte. Quando, em março de 1952, veio a notícia de que ele estava tão doente que eu deveria apressar-me imediatamente a Montreal se quisesse vê-lo ainda com vida, foi mais um choque terrível. Enquanto eu me preparava apressadamente para partir, minha única prece era que, caso ele tivesse que morrer, que acontecesse antes de minha partida, para que eu não deixasse Shoghi Effendi no meio de todo o seu trabalho só para estar presente, num tempo em que meu pai nem mesmo saberia que eu estava lá. Esta prece foi atendida e veio a notícia de que ele fora libertado deste mundo. O pesar de Shoghi Effendi foi tão intenso que não tive tempo para parar e refletir que, afinal, foi meu próprio pai que havia falecido. Menciono tudo isso porque mostra os fatores que afetavam a vida do Guardião e as ondas de emoção, de provações e infortúnios que se abatiam na própria estrutura de seu coração e o desgastavam.

Depois de a Sra. Collins e eu assistirmos à Conferência Intercontinental realizada em Chicago, em 1953, fomos, com a aprovação do Guardião, a Montreal, a fim de que eu pudesse visitar o túmulo de meu pai, tratar de minhas coisas e, de conformidade com o seu desejo e o de minha mãe, oferecer nossa casa como presente à Assembléia Nacional - a única no Canadá visitada por 'Abdu'l-Bahá durante as Suas viagens na América do Norte. Shoghi Effendi não se esquecia daqueles que amava; sua fidelidade em todas as suas relações era muito forte. Depois de telegrafar ele mesmo à Assembléia Bahá'í de Montreal, ele me telegrafou o seguinte, em 9 de maio de 1953: "Incumbe à Assembléia Montreal reunir amigos túmulo Sutherland prestar homenagem memória. Recomendo colocar flores Santuário também comprar cem dólares mais belas flores maior parte azuis cobrir sepultura meu nome. Afixar seguinte inscrição grata memória Sutherland Maxwell Mão Causa talentoso profundamente amado arquiteto superestrutura sepulcro Báb Shoghi. Trazer cópia fotografia tamanho grande amigos reunidos sepultura. Telegrafar data hora reunião para comemorar Santuário." A coisa mais comovente foi que ele não só me deu em Haifa um pequeno frasco de essência de rosas para espargir na sepultura, e flores do limiar do Santuário do Báb para colocar lá, mas que também especificou que eu comprasse para ele principalmente flores azuis, lembrando-se de que azul era a cor que Sutherland sempre usava. Quando regressei a Haifa, Shoghi Effendi tomou as numerosas fotografias que eu tinha trazido, olhou-as por muito tempo e guardou-as para si.

8
Intimidades

Desejando transmitir pelo menos um vislumbre de como era a vida do amado Guardião - o lado de sua vida tão pouco conhecido a qualquer um senão sua família imediata - decidi citar alguns excertos de meus próprios diários. Deve-se ter em mente que estes não foram mantidos com regularidade através de todos os anos, eram, como a maioria dos diários, apenas um esboço de acontecimentos dos quais o registro detalhado teria levado horas, e estes diários, nos anos mais recentes, foram praticamente abandonados por mim por falta de forças e de tempo. Neles as referências a pessoas não são citadas por qualquer motivo individual, mas apenas porque naquele momento foram tecidas no fundo de algo que se passava na vida diária de Shoghi Effendi. Há qualquer coisa nas palavras escritas em momentos de emoção profunda ou observação penetrante que jamais é recuperada quando, mais tarde, são revistas; é a fim de recapitular esse senso de premência e pungência que me aventurei a publicar estas poucas citações, sem fazer nenhuma tentativa de elaboração ou explicação, apenas levantando um pouco o véu sobre um oceano de trabalho e desgostos diários.

1939 "Algumas vezes sinto que essa intensa objetividade de Shoghi Effendi é um dos fatores com os quais Deus o dotou. Ele é um instrumento absolutamente sem consciência de si próprio. Seus impulsos são violentos e ninguém (quero dizer, nenhum observador imparcial) poderia duvidar de suas tremendas realizações em prol da Causa, todas efetuadas por esses impulsos intrépidos. Isto é, todas as suas decisões - mas, naturalmente, ele revolve todas as questões em sua mente por semanas, algumas vezes anos, antes de agir. Todo o pensamento no mundo está aí, mas quando ele sente o ímpeto, nunca espera nem cinco segundos!"

1939 "O Mestre nos deu uma Incumbência. Essa Incumbência é o Guardião. Ele disse: 'que nenhum pó de desânimo macule sua natureza radiante.' Pó de desânimo! Aqueles que o deveriam ter apoiado e encorajado têm abusado dele e o atormentado tanto que sua natureza radiante não poderia se apresentar mais raramente do que agora. Algumas vezes, eu a vejo como um sol irradiando em sua querida face - ele sofre tanto que, muitas vezes, em conseqüência disso, ele tem que se deitar literalmente prostrado!"

1939 Ele sofreu: "tão freqüente e desmedidamente por mandar a comunidade para fora de Haifa."

8-8-39 "Levantamos às seis horas hoje e fomos obter os vistos necessários (sempre sob a condição de podermos sair da Suíça) e estamos caminhando há exatamente 18 horas! E não é este o primeiro dia de corre-corre... e isto é típico de minha vida. Sem tempo para nada..."

6-9-39 "Estamos de volta ao Oriente Médio... uma viagem extremamente exaustiva, a maior parte do tempo sem leito. Uma noite, dormimos uma hora e meia! Parece simplesmente irreal haver guerra no mundo. Passar por cidades enegrecidas - ver trens de tropas se movimentando - esperar ouvir as notícias pelo rádio... O caminho de Shoghi Effendi abriu-se tal como sempre será - a cena parecia explodir atrás de nós, mas nós passamos em segurança."

5-10-39 "Ele diz que se sente como um junco quebrado. Devido, em parte, sem dúvida, ao fato de ter ele estado muito doente, por dez dias com uma febre muito alta - atingindo algumas vezes 104 graus!* Z____ e eu temos cuidado dele dia e noite. Não seria exagero dizer que temos passado por uma espécie de inferno. Estar sozinha com o Guardião tão doente e um médico desconhecido foi grande responsabilidade e preocupação. Acho que dormimos no máximo 4 horas por noite durante uma semana!"

*Graus Fahrenheit. A temperatura de 104ºF corresponde a 40ºC. (n.r.)

22-1-40 "O Guardião e a Causa são invulneráveis. Muitas vezes, sinto grande desejo de dizer aos bahá'ís que devem 'segui-lo através do inferno ou do céu, das trevas ou da luz, da vida ou da morte, cegamente ou enxergando, segurar-se a ele, ele é sua única salvação'. Esta noite veio um homem aqui. Entrou em casa como bahá'í. Saiu um rompedor do Convênio (ele recusou-se absolutamente a obedecer o Guardião). Por longo tempo, ele ficou em pé junto ao portão. Tive vontade de lhe clamar: 'Deixará sua alma para trás tão facilmente?' Após esses anos todos, criado na Fé, ele tão pouco valor lhe dá que a joga fora! E que mais tem a vida para oferecer ao homem senão sua alma? E ele deixa cair pelo caminho a mais preciosa dádiva de Deus porque é inconveniente e difícil obedecer no momento... Se os amigos apenas soubessem como o Mestre e o Guardião sofriam por causa da qualidade dos bahá'ís locais. Alguns eram bons. Outros, porém, eram ruins. Quando alguém não estava firme no Convênio, era como se atacasse o próprio corpo do Manifestante, ou do Exemplar, ou do Guardião. Eu vi isto. É como veneno. Ele se recupera, mas isto lhe causa indizível sofrimento e foi devido a tais coisas que o Mestre, em Seu Testamento, Se descreveu como 'esta ave de asas quebradas'. É profundamente orgânico. Nada, em absoluto, tem a ver com sentimento."

Comentário de Shoghi Effendi: "Não se pode ser herói sem ação. É esta a pedra de toque. Não no movimento, no ir e vir, mas nas evidências do caráter. Jacky [Marion Jack] é heroína por causa de sua conduta, o espírito heróico revela-se nela. Martha [Martha Root] tinha a ação heróica. Prosseguiu até cair."

Comentários de Shoghi Effendi: "O objetivo da vida para o bahá'í é promover a unidade do gênero humano"; "Nosso desígnio é produzir uma civilização mundial que, por sua vez, reagirá sobre o caráter do indivíduo."

Comentário de Shoghi Effendi: "Sei que é uma estrada de sofrimento. Tenho que trilhar essa estrada até o fim. Tudo tem que ser feito através do sofrimento."

2-1-42 "Ele diz que, talvez, esta não seja a última guerra antes da Paz Menor, que talvez haja uma pausa, ou uma trégua, e então irromperá novamente, ou continuará, pior do que nunca. Naturalmente, ele não é dogmático nessa crença, diz apenas: 'Pode ser, é inteiramente possível.'"

5-1-42 "Eles [a família] estão todos em dissonância com a melodia predominante desta casa - o Guardião - e conseqüentemente não podem, de modo algum, ajustar-se como bahá'ís quando a coisa principal está deslocada."

7-1-42 "Tudo isso causa agonia ao Guardião. Estou realmente preocupada por causa de seu coração. Na noite passada, estava batendo tão depressa, muito, muito depressa mesmo! E algumas vezes, por quase várias horas, ele respira pesado e rapidamente por estar tão desgostoso... Há algo no Guardião como um barômetro. Registra a pressão espiritual da pessoa, por assim dizer; nada exterior explicaria como é que algumas vezes ele tanto se agita por causa de algo que nem sabe ainda! Já vi isso acontecer inúmeras vezes. Ele reage instintiva e imediatamente. Muitas vezes, a causa se torna clara mais tarde e conseguimos um vislumbre de como tudo isso funciona. No fim, isso o matará. Como e quando, sem a menor dúvida estará de acordo com a sabedoria de Deus. Sempre ele triunfará, como sempre triunfou. Mas gradualmente, pouco a pouco, os problemas incessantes, a eterna luta, primeiro com um, depois com outro membro da família, estão o desgastando. Ele está curvado. Seu coração está nervoso. Seus nervos estão exaustos..."

16-3-42 "Eles [a família do Mestre] já foram longe em sua tentativa de esmagar até o último grama do espírito do Guardião. Por natureza, ele é alegre e vigoroso, tendo uma índole incomparável e admiravelmente radiante, capaz de fazê-lo realmente cintilar quando ele está contente ou entusiasmado com alguma coisa. Mas a perpétua contenda em sua vida com a família do Mestre, os golpes que tem suportado durante o desempenho de sua função de Guardião (proveniente de várias crises na Causa)... tudo isso tem anuviado... ele. Todas as vezes que ele começa a se alegrar (durante os últimos cinco anos em que eu tenho podido observá-lo), lá vem alguém que joga sobre ele algum peso de preocupação ou aflição, e pronto! É criminoso! Quantas vezes eu o tenho ouvido dizer: 'Se eu apenas fosse feliz, se eles apenas me fizessem feliz, veriam o que eu faria por esta Causa!' Ele é como uma fonte. Cada vez que principia a borbulhar e correr, lá vem algo que o estorva de novo! Quando nos damos conta de que todo o trabalho realizado por ele foi apesar de seus sofrimentos e perseguições, e nunca porque ele estivesse livre, feliz e tranqüilo, percebemos quão grandes foram suas realizações e também imaginamos como teria sido se ele tivesse estado feliz. Shoghi Effendi foi maltratado. Esta é a única palavra adequada - maltratado, maltratado, maltratado. Agora já chegou ao ponto de um homem lutando de costas para a parede. Ele diz que lutará até o último assalto..."

20-3-42 Enquanto Shoghi Effendi estava trabalhando em A Presença de Deus, dois aviões militares de combate em vôo tocaram as asas um do outro, perderam controle e se despedaçaram, sendo que um deles veio caindo tão baixo, por sobre o nosso telhado, que pensei que ia atravessar o teto do quarto de Shoghi Effendi. Caiu e explodiu em chamas no final da rua, a menos de cem jardas.

26-4-42 "Shoghi Effendi esteve falando comigo acerca de suas próprias tribulações. Diz que 'Abdu'l-Bahá foi morto, assim como Bahá'u'lláh, por aqueles ao Seu redor - diz até mesmo: 'Eles me matarão também.' Disse-me que Hájí 'Alí lhe contou que Bahá'u'lláh, poucos dias antes de Sua ascensão, chamou-o para Seu aposento (a fim de lhe falar sobre algum assunto). Ele andava continuamente para lá e para cá, agitado demais para falar e, finalmente, dispensou Hájí 'Alí com um gesto. Hájí 'Alí pôde ver quanto Ele estava indignado, embora não dissesse a Hájí 'Alí por quê. Então, o Guardião disse que Bahá'u'lláh deve ter sofrido terrivelmente, pois previa, naturalmente, como Muhammad-'Alí se volveria contra o Mestre no futuro. Mas Ele guardava tudo Consigo mesmo.

18-5-42 "Shoghi Effendi diz tantas vezes que o Mestre lhes dizia (à Sua família) que após Seu falecimento 'eles todos seriam rebaixados'."

4-7-42 "Então há a invasão no Egito. Ele está refletindo sobre o que é pior - ficar ou ir, isto é, se as coisas piorarem muito aqui. Essa indecisão é muito penosa. Mas a verdade é que estamos tão acostumados com aborrecimentos que quase não nos afetam!"

3-1-43 "Qualquer um que conhecesse a verdadeira história da vida de Shoghi Effendi, choraria - choraria por sua bondade, choraria por seu coração puro, simples, choraria por suas fadigas e suas preocupações, choraria pelos longos, longos anos durante os quais ele labutava, cada vez mais solitário, cada vez mais perseguido por aqueles ao seu redor!

"Noutro dia, ele veio ao meu aposento, todo aborrecido pelo seu trabalho. Perguntei-lhe por que não lia obras de outros autores de natureza semelhante à obra que ele está escrevendo [era A Presença de Deus], a fim de ser estimulado... Ele disse: 'Não tenho tempo, nenhum tempo. Há vinte anos não tenho tido tempo!'"

30-1-43 "Estou realmente preocupada com Shoghi Effendi. Quando, no passado, ele ficava aflito e agitado assim, isso o afetava, mas não tanto como agora. Às vezes penso que isto causará sua morte prematura... sua respiração é tão ofegante, quase como de alguém que estivesse correndo, e ele tem olheiras tão enormes. Ele se força em continuar a terminar as cartas que por vários dias empilhou sobre sua mesa - mas algumas vezes ele lê e torna a ler a mesma coisa várias vezes durante dez minutos, pois não consegue se concentrar! Acho que nenhum sofrimento é pior do que vermos sofrer uma pessoa a quem amamos. E não posso remediá-lo. Fico admirada de como Deus pode vê-lo sofrer assim."

29-11-43 "Embora o verão fosse tranqüilo no sentido de não haver crises terríveis... não creio que o Guardião tenha jamais trabalhado tanto durante suas 'férias' e estou certa de que eu nunca o fiz! Muitas vezes, ele diz: 'Este livro está me matando', ao que respondo invariavelmente: 'A mim também'. Em outras palavras, o modo dele trabalhar nesta retrospectiva centenária [A Presença de Deus] é realmente cruel; há dois anos, ele literalmente se escraviza a isto - além de todas as suas outras tarefas e preocupações..." [Shoghi Effendi havia recebido uma carta especialmente seca e insensível de uma Assembléia Nacional, e eu estava indignada com isso] "... as cartas mais secas, mais frias que já vi. Por que não se aprende com o Guardião, que escreve com terna bondade até a pessoas mentalmente deficientes? Os bahá'ís não merecem um Guardião e só espero que Deus não os troque por outro povo."

Um membro da família havia morrido e a viúva veio à nossa casa, querendo que Shoghi Effendi aceitasse os termos do Testamento e recebesse dinheiro para a Causa, também que recebesse dela os preciosíssimos selos de Bahá'u'lláh, os quais 'Abdu'l-Bahá havia entregue ao seu cuidado ao partir em Suas viagens ao Ocidente. Por estar ela em contato com os excomungados membros da família, Shoghi Effendi recusou tudo... Relatei-lhe o que ela disse (ele não consentiu em vê-la, mandando-me em seu lugar):

26-12-43 "Tudo isso repeti detalhadamente para Shoghi Effendi, entregando-lhe os selos e o testamento de _____. Disse-me que lhe respondesse que ele não queria um milhão de selos nem o Monte Carmelo inteiro; queria, sim, sinceridade e lealdade e, a não ser que ela cortasse inteiramente as relações com a família de _____... em seu coração, ele nada poderia fazer por ela; que ela ficasse com os selos e o testamento... o Guardião teria gostado muito de ter os selos - tão preciosos - para os Arquivos, mas, como ele me disse, não poderia aceitar os selos e expulsá-la da casa! O que me desafia a compreensão é que agora faz 23 anos que o Mestre faleceu - será que durante esses 23 anos, muitos dos quais ela esteve intimamente associada ao Guardião, não lhe poderia ter entregue aquelas preciosas relíquias que, conforme ela disse, jamais lhe foram dadas, mas apenas confiadas a ela!? Ela queria que eu as aceitasse quando soube que o Guardião a recusava, mas eu lhe disse que não o faria, uma vez que não era o desejo de Shoghi Effendi que eu assim fizesse. ..."

"Shoghi Effendi passa o dia inteiro datilografando seu manuscrito [A Presença de Deus] e eu leio a cópia antes de enviá-la a Horace [Horace Holley, Secretário da Assembléia Nacional americana] para ter certeza de que o último erro havia sido corrigido, e ele e eu gastamos horas lendo o original, corrigindo as páginas e colocando os intermináveis acentos!

"Nem notei que meu pai, a pedido do Guardião, fizera um desenho para o Santuário do Báb. Hoje os minaretes ou torres (sugeridos pelo Guardião) foram aprovados por ele, e papai deve prosseguir e elaborar os detalhes, e um desenho final pode ser revelado ou exibido no Centenário e também providenciar um modelo. O modelo será a prova crucial - se agradar ao Guardião, ele anunciará o projeto ao mundo bahá'í."

"Parece absolutamente maravilhoso que tenha sido concedida ao meu pai esta bênção inestimável, a de desenhar o Santuário do Báb. Se ele for bem sucedido, será a mais pura bondade de Deus e, se não, não podemos nos surpreender, pois nós, como família, já fomos abençoados muito além de nosso merecimento, de toda maneira possível!"

5-7-44 "Shoghi Effendi é por natureza um administrador e um construtor, por excelência. As duas coisas de que mais precisamos justamente agora. Como é mesquinha a visão que o homem tem das coisas, em comparação com o Plano de Deus! Se louvássemos a Deus por um milhão de anos, de manhã, ao meio-dia e à noite, creio que não passaríamos além da primeira letra de 'grato'! - e, no entanto, somos tão cegos para nossas bênçãos!"

8-12-44 "Shoghi Effendi não pode suportar muito mais. Estou muito preocupada com ele... estão o desgastando. Ele esteve numa condição horrível hoje e chorou. Não posso escrever sobre isso. Não posso suportar isto! Não sei como Deus pode tolerar vê-lo assim."

24-7-44 "Estes são certamente os anos. Penso que Shoghi Effendi jamais enfrentará uma segunda crise como esta em sua vida [o desafeto da família, da comunidade local e dos criados]. Espero que não! Eu queria saber como se pode esperar que sua saúde e seus nervos sobrevivam a esta crise!"

30-1-45 "Não posso entrar em detalhes agora, mas devo dizer que é espantoso o grau de incompetência dos ineptos - para não dizer velhacos - que Shoghi Effendi tem ao seu redor. Ele sofre tanto! Dorme apenas 5 ou 6 horas cada noite. Se eu pudesse, preocupar-me-ia ainda mais..."

27-2-45 "Acho que as coisas seguramente hão de mudar. Mas oh! Shoghi Effendi nunca, jamais será o mesmo de antes! Creio que coisa alguma neste mundo jamais poderá apagar o que estes últimos anos lhe fizeram! O tempo é um grande remédio para feridas, mas não pode remover cicatrizes."

13-4-45 "... sempre que eu quero me certificar do grau de lealdade de algum bahá'í em relação a ele [Shoghi Effendi], procuro ver por quem ele é odiado; se for por sua própria família, posso ter a certeza de que ele é a essência de lealdade ao Guardião!"

6-7-45 "'Alí Askar foi ao hospital... tem piorado muito nestes últimos 3 ou 4 dias... tudo isso é tão desgastante. Mas nada me importa exceto o grande abalo que isto será para o Guardião... eles não morrem, nem tantos outros inimigos desprezíveis, inúteis - somente 'Alí Askar. Como disse Shoghi Effendi, a pessoa 'mais preciosa' que ele tem. Mas Deus haverá de ajudá-lo. Ele haverá, Ele haverá, sei que Ele haverá. Ele o erguerá em glória - e eu estava pensando na noite passada que, afinal, uma gota do amor de Deus pode compensar mil anos de dor... Shoghi Effendi foi visitá-lo enquanto eu estava lá hoje. Está planejando funerais pomposos para ele porque ele [Shoghi Effendi] assim deseja e os amigos o requerem. Mas tudo isso é tão penoso, tão penoso para ele... Shoghi Effendi disse: 'Você, seu pai e 'Alí Askar eram os únicos que me restavam e agora Deus leva Ali Askar!'"

8-7-45 "Subi ao hospital às 4 horas da tarde e fiquei até as 8. Shoghi Effendi mandou-me dizer a 'Alí Askar que ele havia enviado um telegrama para os amigos persas no qual o descrevia como o 'leão da floresta do amor de Deus' e mencionava todos os seus longos anos de serviço, etc. Quando eu disse isso a 'Alí Askar - que estava plenamente consciente, mas muito fraco - esboçou-se um sorriso de contentamento em sua face... Eu lhe disse que ele havia ido ao céu antes de partir deste mundo - ao céu do amor, do beneplácito e do louvor do Guardião. Ele guardou silêncio por algum tempo (exceto por alguns murmurados sinais de apreciação) e então, evidentemente, com perfeita compreensão de que tal telegrama significava que ele ia morrer, reagiu e disse que o livro que encomendara... ele queria... oferecer a Shoghi Effendi... Quando voltei e contei a Shoghi Effendi tudo sobre 'Alí Askar, e como ele queria mandar encadernar o livro para o Guardião, seus olhos encheram-se de lágrimas! Pobre bem-amado Shoghi Effendi - é o homem mais injuriado da terra! Todos deveriam regozijar-se por causa de 'Alí Askar - ele morreu como um rei... Hoje o Guardião disse às senhoras - ele as reuniu na sala de recepção - que de tal modo 'Alí Askar o servira que, no final, os peregrinos lhe escreviam, assinando: 'o servo do servo da casa'! Disse que era como as palavras da Epístola de Ahmad - um rio de vida para os bem-amados e uma chama de fogo para os inimigos. Então, enquanto partia, disse: 'Ele está no Concurso Supremo, conversando com os seus habitantes!' Bem, que mais pode um homem querer desta vida? Então ele foi ao Santuário esta tarde e, depois de visitá-lo, disse a ____ que trouxesse todas as flores de ambos os limiares. Ele foi sozinho ver 'Alí Askar, ungiu-o com dois frascos de água de rosas, colocou as flores sobre seu corpo - chorou por ele - que mais pode um homem querer deste mundo?!... Ontem à noite, ao voltar, Shoghi Effendi me disse uma coisa comovente, que quando estava a sós com seu corpo, lembrou-se: 'Como esse homem me serviu!'... aproximou-se, puxou o lençol, olhou para ele e quis dizer: 'Acorda 'Alí Askar, levanta!', porque lhe parecia que ele não podia estar morto, sua aparência estava tão natural..."

11-7-45 "O funeral foi perfeito. Shoghi Effendi falou sobre ele; depois mandou trazer o caixão à sala superior da Casa dos Peregrinos, onde ele se reúne; em seguida, ele e todos os outros se levantaram para a Oração pelos Mortos; depois, espargiu essência de rosas sobre o ataúde, erguendo-o então e, seguindo-o à porta, deu instruções e ocupou os dois primeiros carros... um funeral de vinte e cinco carros... depois todos partiram e Shoghi Effendi visitou o Santuário e mandou ____ colher todas as flores do limiar e levá-las à sepultura... Bem, 'Alí Askar deve estar no Sétimo Céu - todos estão suspirando e querendo estar em seu lugar! - inclusive eu."

14-7-45 "Agora Shoghi Effendi está doente. Teve um ataque de indigestão, causado, diria eu, por nervos completamente exaustos e sobrecarregados. E não é a primeira vez que tem isso. O surpreendente é ele estar vivo... está com febre agora - confio em Deus que ele não tenha nada grave... acabo de tomar sua temperatura - é 103-3/5 F!"*

*Aproximadamente 40ºC. (n.r.)

15-7-45 "Estou tão cansada dos sustos que Dr. ____ me dá! Agora ele diz que isto pode ser apendicite e disenteria; imagino uma viagem, loucamente apressada, a Jerusalém, de ambulância [naquele tempo não havia em Haifa um cirurgião a quem pudéssemos confiar tão precioso paciente] com Shoghi Effendi e papai - mas não posso acreditar que chegará a isso... só correr e correr, e quanto à preocupação, meu cérebro se sente como paralisado!... de hora em hora, tomo sua temperatura. Ele é tão encantador - que crime ele ter sido tratado assim por aqueles que estão ao seu redor... graças a Deus, não creio que ele tenha, nem que vá ter, apendicite..."

17-7-45 "Melhor, mas oh, tão fatigado e com os nervos tão abalados!..."

20-7-45 "Não desejaria para o diabo os sofrimentos pelos quais Shoghi Effendi e eu passamos. Nunca eu poderia descrevê-los - angústia mental e nervosa... sozinho... trabalhar, trabalhar, trabalhar, o dia inteiro. Compra de terras, problemas, cartas, perguntas, ardis, malevolência, suspeitas, ad infinitum."

11-4-46 "Shoghi Effendi disse a papai que desse início aos planos para a construção da primeira unidade do Santuário - Aleluia!"

20-4-46 "... tudo isso é demais para o Guardião... e, no entanto, ele escreveu um cabograma maravilhoso para a Convenção, com um novo Plano de Sete Anos, e está começando o Santuário. Mas ele sofre demais, demais!"

25-5-46 "Shoghi Effendi e eu não temos ninguém agora, a não ser papai [e dois bahá'ís leais, um dos quais com quase oitenta anos]; ele é tudo e faz tudo: trata de todos os assuntos bancários, envia todas as cartas, todos os telegramas, dá todos os recados confidenciais - para vistos, assuntos de governo, prefeitura, etc., e consulta e desenha, etc., tudo isso aos setenta e um anos. Está fazendo o trabalho de 'Alí Askar, Riaz e Hussein. Nunca se queixa... Shoghi Effendi e eu estamos falando sobre nossos planos; ele diz que devemos ir... parecia terrivelmente difícil termos que deixar papai mais uma vez, tão velho e cansado, e com todo o trabalho da Causa, sem descanso ou folga. Mas quando falei com ele hoje a esse respeito, ele foi maravilhoso, disse que podia dar conta de tudo, que não nos preocupássemos com ele, que tudo estaria bem. Não posso expressar em palavras, estando tão cansada (tive três bons choros hoje), como é maravilhoso seu espírito, tão despretensioso, e ainda tão nobre e heróico."

18-7-47 "Ela [Gladys Anderson] chegou no dia 30 de março... Ela faz todo o trabalho de papai agora, graças a Deus!... trata dos assuntos bancários, envia as cartas e os cabogramas, dá recados, recebe pessoas... No fim de abril, papai foi ao Chipre - primeiras férias em sete anos - e passou 6 semanas. Fez muito bem a ele e agora ele está começando os croquis do Santuário do Báb".

12-2-48 - De uma carta de Rúhíyyih Rabbani:

"Antigamente eu podia contratar uma estenografa judia para me ajudar, mas nenhum judeu agora entra nesta rua se ele puder evitar, pois fica na parte árabe da cidade. Isto é, fica na antiga colônia alemã e na nossa vizinhança a maioria são árabes e ingleses. Pode parecer incrível morarmos numa rua onde um homem poderia ser assassinado a sangue frio só por andar nela, mas assim é a Palestina hoje. Há, naturalmente, corajosos fatalistas que arriscam e descem a rua a noventa milhas por hora,* mas são considerados no mínimo atrevidos.

*Mais de 140km/h. (n.r.)

"Tudo isso é tão trágico. E o mais triste de tudo é a maneira como a mente humana se adapta a tal atmosfera. Um tiro que anteriormente nos faria gelar o sangue, enchendo-nos de indignação, com a repetição sem fim, acaba por nos deixar acostumados, fazendo-nos amaldiçoar aqueles que o fazem, e o outro lado também, e continuamos com nossos afazeres. Mais tarde ouvimos dizer quem foi a vítima daquelas balas e como foi. É realmente repugnante, indizivelmente repugnante, que na Terra Santa se tenha permitido, através da intriga e da negligência, que tal situação se desenvolvesse...

"A ira é minha emoção primária nestes dias. O assassínio insensato, desenfreado, enfurece-me. A maioria das pessoas nada mais deseja do que ser deixada em paz. Os sanguinários são a exceção, não a regra. Mas existem, infelizmente. Por que alguém não os fuzila? Sempre fuzilam as pessoas erradas, em todo combate, ao que me parece!"

1-3-48 "Armas são vendidas abertamente nos bairros árabes. Os bahá'ís aqui, em 'Akká, de Tiberíades, etc., todos dão testemunho disto... Hassan disse que ele e seu primo Muhammad estavam sentados num café em Tiberíades; ouviram um menino vendendo pelas ruas, a gritar: 'Granada, granada!' Hassan não pôde acreditar em seus ouvidos e assim, chamando-o, perguntou o que estava vendendo. Ele disse bombas. Tinha um saco nas costas, o que ele complacentemente jogou no chão, tirando em seguida sua carga, uma pilha de granadas manuais! (bombas de Mills) 'Quanto custa cada?', perguntou Hassan. 'Setenta e cinco piastras', disse o mascate! Desnecessário é dizer que ele não as comprou... Vi há poucos dias, da janela de meu próprio quarto, um homem com revólver na mão e uma multidão de árabes ao seu redor. Queria certificar-se de que estava funcionando; subiu no muro de nosso jardim, deu dois tiros nele e então partiu, rumo à cidade, provavelmente a fim de perpetrar sua parcela de assassínio."

11-4-48 "Papai e Ben [Ben Weeden, esposo de Gladys Anderson] partiram num táxi blindado para Tel Aviv! Devem ir de avião de Lydda a Roma a fim de firmarem contratos para as colunas e ornamentação do Santuário, se for possível."

"Agora Gladys dormirá aqui nesta casa... para ficar perto de nós, pois há muito tiroteio para ela ficar sozinha na Casa dos Peregrinos à noite... Também é perigoso atravessar a rua depois do escurecer... dissemos a Ben que a traríamos para cá, assim ele não ficará preocupado."

21-4-48 "Não pudemos visitar Bahjí devido às circunstâncias e assim visitamos o Santuário aqui. Depois, o carro não podia chegar aos Jardins, ou melhor, sair deles, por causa do tiroteio na estrada, estando o trânsito impedido. Portanto, Shoghi Effendi desceu para casa pela escada perto dos Jardins, e Gladys e eu fizemos o mesmo."

23-4-48 "Como estou terrivelmente cansada, isto será curto... Acho que a batalha de Haifa é bem noticiada a todos; assim, farei apenas um relato dos meus dias e noites. A batalha em si continua, uma verdadeira guerra. Aquela noite foi como se eu estivesse no fundo de uma piscina calma que alguém estivesse constantemente agitando. Eu estava tão cansada que algumas vezes adormeci, mas então o sonho, os tiros e as bombas tornavam-se uma mistura entorpecida que era pior do que adormecer e despertar. Todos estes dias, Shoghi Effendi estava assustadoramente perturbado com os A____, com M____ e com outros problemas."

25-4-48 "Ainda estou tentando chegar ao ponto principal deste memorando: No dia 23, o dia depois da batalha para conquistar Haifa, o Dr. Weinshall [o advogado do Guardião] me telefonou e perguntou como estávamos. Respondi que estávamos todos bem e ficando sempre em casa. Ele disse: 'Espero que não vão embora!' Eu disse que não, naturalmente, que nenhuma intenção tínhamos de partir, por que deveríamos partir? Ele disse que não havia razão alguma no mundo, que estava satisfeito por saber disso. Então eu disse que nós conhecemos os judeus e os judeus nos conhecem; nada temos a recear deles. Ele disse que certamente isto era verdade e que todos tinham o maior respeito por nós. Perguntou também se algum dos nossos empregados ia embora, e eu respondi que não, naturalmente não. Então, após uma breve troca de opiniões sobre como era insensato o êxodo em massa dos árabes, ele me pediu que desse seus mais cordiais cumprimentos a Shoghi Effendi. Ao saber disso, o Guardião disse-me para ir lhe agradecer e dizer que gostaria que soubesse de algo para sua informação, e então lhe relatei tudo sobre o casamento de Monib com a filha de Jamal Husseini, etc., e como ele fora publicamente expulso da Fé por isso, etc. Ele ficou muito admirado e anotou seu nome e o de Hassan. Também lhe falei da expulsão de Ruhi e, como ele poderia se admirar da dissensão em nossa própria família, disse-lhe que a verdadeira razão não era só religiosa mas por causa de afiliações políticas, etc. Disse-lhe que nós lhe mandaríamos (isso foi ontem, em outra conversação) o cabograma que o Guardião mandara, para que ele o visse...

"Hoje novamente telefonei a Weinshall para dizer que lhe queríamos dar os nomes daquelas pessoas que não poderiam reivindicar o direito de serem bahá'ís. Eu disse que Shoghi Effendi naturalmente se ressentia muito de pessoas que foram expulsas de nossa comunidade, havia dez ou quinze anos... e agora procuravam renovar suas relações com os judeus, declarando-se bahá'ís, quando nós mesmos não sabíamos o que estiveram fazendo durante esses anos todos."

27-4-48 "Ontem tivemos um momento de louca agitação, quando, de repente, a empregada subiu correndo, bateu na porta e disse que os Haganah* queriam entrar. Felizmente eu já estava vestida... e desci o mais depressa possível, pois parece que primeiro nossa tolinha... tinha ido à porta, e ao ver um grupo de judeus com armas de cano curto e revólveres, ela quase teve um colapso e foi chamar Banu, que veio, e então os judeus disseram: 'Abra a porta'; ela disse que tinha que chamar a dona da casa e, enquanto isso, correu à procura de B____, que não estava lá, e então foi me chamar. Eles disseram: 'Se não abrir, nós a arrombaremos!' A essa altura, cheguei e imediatamente os deixei entrar. Eram cinco, todos jovens. Perguntei se falavam inglês e um disse que falava um pouco. Perguntei-lhe se sabia de quem era esta casa, o Dirigente da Comunidade Bahá'í, e ele disse que sim, mas de certo modo penso que não sabiam e que haviam sido atraídos para lá por algum motivo ou outro, ou porque, pouco antes, um caminhão cheio de árabes havia parado, por um momento, em frente de nossa porta e pensaram que nós tivéssemos árabes aqui, ou por causa de nosso carro, pois uma das suas primeiras perguntas foi: 'De quem é aquele carro na garagem?' Quando lhes disse, ficaram satisfeitos. Descobri que um deles falava persa, pois sua mãe, segundo me disse, era persa, embora ele fosse de 'Yerushalim', e assim falei com ele em persa o tempo todo. Não pareciam ansiosos em vistoriar nossa casa, mostraram muita consideração e gentileza, dizendo-me, de início, que eu não tivesse medo, ao que respondi que certamente não tinha! Após uma olhada rápida em volta, sem ir para baixo ou à cozinha, foram embora...

*Força de combate pela independência de Israel, fundada por Ben Gurion na primeira metade do séc. XX. (n.r.)

"Gladys e eu continuamos nossas idas e vindas, como temos feito ininterruptamente há meses, em tempos bons e maus, ao quarteirão judeu. Penso que isso foi muito prudente, embora quando todos os árabes estavam caçando os judeus e nós tínhamos nossos próprios guardas árabes nesta mesma rua, era arriscado e íamos com menos freqüência, mas íamos. Isso demonstrou aos muitos judeus que nos conhecem que não somos do tipo de amigos de tempos prósperos que se afastam nos momentos críticos. Nosso carro era sempre inspecionado pelos guardas judeus e muitas vezes tínhamos que mostrar nossos passaportes americanos àqueles que não nos conheciam. De fato, num dia da semana passada, enquanto regressávamos do quarteirão judeu e diminuímos a marcha na barreira, um carro judeu precipitou-se em nossa frente e seus ocupantes começaram a falar com os guardas. Não podíamos passar e ele não se movia, de modo que perguntei ao guarda se ele não podia ir para frente. Ele ficou um pouco embaraçado e disse que eles estavam dizendo que haviam visto este carro sendo dirigido por um árabe. 'É verdade', respondi, 'sabem de quem é este carro? Pertence a Shoghi Effendi, o Dirigente da Fé Bahá'í, e nós temos um motorista de táxi árabe que vem todas as tardes e o leva aos Jardins Bahá'ís, e o traz de volta para casa; fora isso, nós mesmas sempre o dirigimos. Se prestarem atenção, dentro de quinze minutos verão este mesmo carro passar pela Estrada da Montanha, indo buscá-lo, com o árabe na direção.' Como isto era verdade, ele pareceu reconhecê-lo como tal e não tivemos mais dificuldades.

"B_____ disse-me uma coisa divertida: Eu perguntara se nossos vizinhos árabes iam embora... Ele me disse que todo dia lhe perguntavam se Shoghi Effendi estava partindo. Diziam que quando ele fosse, eles iriam. Disse que o policial palestino, agora residindo na casa de K____, perguntou-lhe quando deveria ir e K____ lhe disse: 'Quando vir Shoghi Effendi partir, pegue o paletó, tranque a porta e siga-o!' Disse também... 'Se não me disser quando Shoghi Effendi tenciona ir e ele for, você será responsável por minha vida.' A estima que nossos vizinhos têm por nós é um tanto engraçada, depois de 25 anos ignorando a Causa e o Guardião."

4-5-48 "Hoje o carro foi roubado! [Um presente de Roy Wilhelm a Shoghi Effendi. O Guardião não tinha carro já havia alguns anos, tendo vendido o velho durante a guerra por não existirem peças sobressalentes] Ó Deus, que dia! Às duas e meia, enquanto Gladys e eu estávamos sentadas tomando café depois do almoço, veio a empregada dizendo que havia um judeu à porta. Gladys foi ver o que ele queria. Para encurtar a história, era nosso chefe local de Haganah, Sr. Friedman, com cerca de 20 homens armados, dizendo que haviam sido chamados pelo guarda de Haganah (dois estão vigiando nossa rua), porque cinco homens armados estavam cercando a porta de nossa garagem e, quando ele lhes apontou o revólver e disse que se retirassem, eles lhe apontaram as espingardas, dizendo-lhe que se afastasse depressa. Como eram cinco contra um, ele foi buscar auxílio. Eles tinham um jipe e, quando o guarda voltou com o reforço, não estavam mais lá. Mas embora o cadeado em nossa porta tivesse sido serrado, a porta estava fechada por dentro, de modo que pensaram que o carro ainda estivesse lá. Espiei pelo buraco da fechadura e, que horrível vazio - o Buick não estava lá! Pobre Gladys, correu para a portinha nos fundos e, de fato, nada do Buick! O guarda de Haganah insinuava que judeus o tivessem levado (ou ingleses), mas não dizia diretamente. Bem, Friedman avisou Haganah, e Gladys e Mansoor avisaram o exército e a polícia da Rua Stanton. Telefonei ao Dr. Weinshall, que me aconselhou que fôssemos à Delegacia de Polícia de Hadar Hacarmel. Shoghi Effendi estava mais calmo que qualquer um, dizendo apenas: 'Como se regozijarão os meus inimigos!' Acho que nenhum de nós esperava realmente ver o carro novamente - mas como foi triste perdermos nosso grande, bonito Buick que acabamos de receber depois de tanto tempo! Com alguma dificuldade, consegui um táxi judeu para o Guardião. O taxista disse: 'Se foram judeus que levaram seu carro, vocês o recuperarão!' Fui com Gladys à Delegacia de Polícia e esperei fora, enquanto ela fazia a notificação, e então deixamos para Weinshall uma descrição do carro, como ele pedira, a fim de poder ajudar. Depois disso, nosso bom motorista de táxi levou-nos a um outro posto de Haganah, onde também fizemos a notificação. Então, uma coisa estranha aconteceu! Estávamos caminhando para casa, cansadas e deprimidas, quando Gladys viu, na vitrina de uma loja de cosméticos, uma loção para as mãos que eu várias vezes havia procurado. Primeiro não quis me incomodar com isso, mas depois decidi comprá-la e entrei. O proprietário conhece papai e a mim há alguns anos e, portanto, perguntou por papai e eu perguntei por seu velho pai, etc. Não ia falar do carro, porque me senti humilhada, mas depois de pagar as compras, ia saindo sem levá-las. Isso pareceu tão tolo que pedi desculpas, dizendo: 'Estou muito agitada porque nosso carro acaba de ser roubado!' O homem disse: 'Mas vi seu carro hoje por volta das duas e quinze, no novo Centro Comercial! E fiquei admirado, pois pensei como podiam vender um carro novo tão belo!' Parece que ele havia visto quando Gladys e eu passamos com ele no dia anterior e assim se lembrava do carro nitidamente e das placas dos Estados Unidos! Disse que judeus estavam nele e um judeu o dirigia, e que estava perto da esquina do Hotel Savoy. Disse-nos também que não déssemos seu nome como testemunha, mas eu respondi que então nada nos adiantaria, de modo que cedeu e disse que podíamos. Naturalmente, voltamos correndo para a delegacia e contamos o que ele dissera. Ao chegar em casa, soube que o Sr. Friedman havia deixado seu número para mim e, portanto, liguei para ele e contei tudo, ao que respondeu: 'Era isso que eu precisava saber. Já que sei que o trouxeram para nossa parte da cidade, posso apanhá-los!' Algum tempo depois, a Delegacia de Polícia de Hadar telefonou dizendo: 'Seu carro foi localizado e o receberão amanhã, portanto não se preocupem.' O Sr. Friedman também telefonou e disse a mesma coisa e, de fato, cerca de onze horas da manhã, no dia 4, ele telefonou dizendo que poderia levar Gladys para apanhar o carro e assim ela foi à delegacia e o recebeu! Meu Deus, nós todos ficamos contentes! O engraçado foi que, no caminho para casa, antes de voltar àquela loja, eu dizia comigo que somente um milagre poderia restituí-lo!

"Agora, porém, parece que os cinco jovens judeus armados (acima mencionados) que vieram aqui logo após a tomada de Haifa pelos judeus, que se diziam homens de Haganah, e os moços num jipe (o jipe figura constantemente e por isso acho que forma um elo de ligação), os quais B____ uma noite encontrou tentando arrombar a garagem e a quem ele disse que não precisavam arrombar a porta, que ele a abriria, e que então entraram e rodearam o carro até que ele finalmente disse: 'Se desejam saber tudo acerca do proprietário do carro, venham telefonar ao Dr. Weinshall', e eles, então, partiram apressadamente. De qualquer modo, todos nós acreditamos agora que eram sempre os mesmos homens, provavelmente de Irgun Zvi Leumi, certamente não de Haganah!"

14-5-48 "Hoje o mandato expira à meia-noite! A guerra começa, já está havendo tumulto, o que reserva o futuro? Papai e Ben estão para voltar amanhã! Estou cansada!"

15-5-48 "Papai está de volta! Eu pude ouvir pesada descarga de fogo nas colinas entre aqui e Nakura, a fronteira libanesa. Ontem também, quando os judeus tomaram 'Akká, ouvimos uma pesada descarga, mas agora, o tempo todo, ouve-se claramente o ribombar das metralhadoras. Isso me faz lembrar os dias em que os britânicos tomaram o Líbano durante a guerra - só que então tínhamos certeza de que a batalha iria se afastar de nós. Agora, quem sabe? E as distâncias na Palestina são tão diminutas - dez milhas podem modificar o curso inteiro de uma batalha, para vitória ou derrota...

"Papai e Ben, a quem Gladys havia ido esperar, chegaram em casa à uma e meia da tarde. Vieram no S. S. Argentina, que chegou aqui ontem à noite, dois dias adiantado, por haver deixado de parar tanto em Alexandria como em Tel Aviv. Sua viagem foi maravilhosamente bem sucedida em todos os sentidos. Como se pode agradecer suficientemente a Deus pelos Seus milagres e Suas bênçãos?"

3-7-48 "Hoje, como Shoghi Effendi disse a papai, que veio vê-lo depois do jantar: 'Bem, a decisão histórica de começar o trabalho no Santuário foi tomada hoje às 22:15h!' E lhe apertou a mão!...

P.S.: 23:30h. Posso ouvir explosões a pouca distância. Que Deus ajude este pobre país!"

6-7-48 "Shoghi Effendi está muito preocupado com a possibilidade de a guerra começar novamente na sexta-feira. Que perspectiva terrível! Como ele disse a Ben, a Gladys e a mim, a maior ameaça é ao Santuário de Bahá'u'lláh. Agora que Majdi'd-Dín e Shoah Bahá'í estão morando na Mansão - se os árabes vierem, as conseqüências são claras demais - oh meu Deus, tantas preocupações, tantos problemas... se não fosse nossa fé, onde estaríamos?

"Shoghi Effendi fez altos elogios sobre papai a Ben e Gladys, e disse que todos o amam, que ele tem um coração muito puro e que, além de tudo isso, o escolhera por suas qualificações como arquiteto."

28-12-48 "Sinto-me tão exausta. Parece não me restar, neste ano, nenhuma resistência para a vida... parece grave, mas talvez não seja. Espero que não pois, por pouco valor que eu tenha, sou ainda necessária, melhor que nada..."

"Esta noite veio a proposta de Solel Boneh para a construção da Arcada, 18.000 libras. Terrível! Shoghi Effendi está muito aflito e desanimado; agora as pedras já estão chegando; ele arrancou as telhas, colocou o alicerce, demoliu a curva da montanha atrás do Santuário! Ele diz que não pagará nem perto desse preço - oh meu Deus! Tantos problemas, problemas. Que Deus me dê forças para servir e conservar meus pobres nervos em funcionamento."

20-1-49 "Isto será uma espécie de anotação taquigráfica das notícias. O tempo tem estado horrível - justamente quando temos uns oitenta caixotes ainda no porto para serem levados ao Santuário. Simplesmente não consigo dormir, ouvindo a chuva. Ela me corda porque sei que está atrasando o trabalho... uma coisa após a outra, o tempo todo. Parece que nós todos corremos mais e mais rapidamente este ano, devido ao trabalho no Santuário."

"Que dia, que dia. Dias como este deveriam ser contra a lei. Ontem à noite, o Guardião recebeu um convite para conhecer o Primeiro-Ministro na Recepção Municipal. Ele decidiu mandar papai e Bem. Hoje, após quatro dias de chuva, o carregamento no porto ia começar outra vez. Tudo foi confusão..."

"Agora mesmo, às 16:15h, o prefeito me telefonou pessoalmente para dizer que cumpriu com seu dever e arranjou para o Guardião o encontro com Ben Gurion hoje, às 19:15h, na casa do Sr. D____, no cume da montanha... No papel pode não parecer nada - mas quase mata aqueles que têm que passar por tudo isso. Tudo aqui é feito do modo mais difícil. Mas estou muito contente porque o Guardião vai se encontrar com o Primeiro-Ministro. Ontem à noite, quando ele decidiu que seria muito pouco apropriado ir ele mesmo à recepção, disse-me que estaria disposto a fazer uma concessão e visitar o Primeiro-Ministro, mas não queria se perder nu14-7-45ma multidão ou ser tratado de uma maneira que não fosse condigna à sua posição. Assim, pois, pedi que me deixasse telefonar ao prefeito, e ele consentiu, sendo este o resultado.

"São agora 19:00h, e o Guardião e papai, com Ben dirigindo o carro, acabam de partir... Desde que Shoghi Effendi, há vinte e cinco anos, tenta obter o reconhecimento da Causa não como comunidade local mas um centro mundial, e ele próprio, seu dirigente, não local ou nacional, mas mundial, esta oportunidade de conhecer o Primeiro-Ministro é muito importante. Sem dúvida, Bem Gurion acha que está mostrando muita condescendência - se apenas soubesse que honra lhe está sendo conferida e o quanto Deus está sendo condescendente com ele esta noite! Tal é a pequenez da vida dos homens e a vaidade do mundo.

"Bem, a entrevista acabou. Durou cerca de 15 minutos. Quando chegaram lá, o Guardião encontrou a porta da frente entreaberta, entrou, não viu ninguém, bateu na porta, foi mais adiante e encontrou Ben Gurion e sua esposa, com seu anfitrião, terminando a sobremesa, numa dessas casas pequenas em que alcovas dividem os compartimentos... Ben Gurion levantou-se e levou o Guardião para a sala adjacente, e cortesmente lhe ofereceu o melhor assento, etc. Então fez algumas perguntas sobre a Causa, dizendo que a conhecia, que era um 'movimento social', ao que o Guardião replicou que era muito mais que isso, que era inspirada por Deus, etc. Não frisou isso demais. Ben Gurion perguntou também a relação exata dele à Fé, o que lhe foi esclarecido.

"O Guardião não queria atrapalhar seu jantar e, após uma breve entrevista, levantou-se para ir. Ben Gurion acompanhou-o até a porta de fora e um criado o levou ao carro, abrindo-lhe a porta...

"Ben Gurion perguntou ao Guardião se havia uma história da Causa que ele pudesse ler, ao que Shoghi Effendi respondeu que teria satisfação em lhe enviar um livro (enviou-lhe A Presença de Deus). Disse também que teria prazer em mostrar-lhe os Santuários, se houvesse alguma oportunidade, mas o Primeiro-Ministro disse que estava muitíssimo ocupado, o que pode ser interpretado como uma recusa, creio... Obviamente, foi muita cortesia da parte de um homem tão sobrecarregado como Ben Gurion, dois dias antes da eleição geral, encaixar em seu programa uma entrevista, e acho que foi um ato realmente amável do prefeito Levy, que a arranjou. A primeira coisa que o Guardião disse foi que queria reafirmar pessoalmente os sentimentos expressos em sua carta, a qual o Primeiro-Ministro tinha lembrança de ter recebido. Ben Gurion respondeu que sim, naturalmente... O Guardião tratou-o com muita amabilidade, ele me disse, e estou certa de que sua personalidade maravilhosamente distinta, sincera e franca impressionou um homem que deve ser um avaliador perspicaz da natureza humana..."

8-2-48 Às três horas da manhã, afundou a barcaça com todas as nossas pedras a bordo! Apenas mais um belo acontecimento. Quando contei isso a Shoghi Effendi, ele disse: 'Não me importo mais.' Ele está simplesmente acostumado demais, cansado demais, com um problema após outro! Era só o que faltava - ao que nos parece! O tempo, as eternas complicações e agora isto! Poderão salvá-las - ouço dizer."

11-2-48 "Shoghi Effendi, quase o dia inteiro, todos os dias, está em cima nos Jardins, por causa das escavações atrás do Santuário, etc., que ele pessoalmente está dirigindo a fim de economizar."

5-4-49 "Shoghi Effendi veio ver Gladys e Ben (e eu) na sala de recepção, como costuma fazer às vezes quando tem tempo. Vi que ele tinha lama no paletó e perguntei o que esteve fazendo. 'Tive uma luta com o General Lama', disse ele, 'mas ele ganhou!' Então explicou que havia caído outra vez, pois estava tão escorregadio devido à chuva - mas nós todos demos uma boa risada."

3-4-52 "Duvido que eu tenha tempo ou forças para continuar com meu diário - o que é uma pena, pois vejo e sei muito do funcionamento interno aqui..."

15-9-55 "Suponho que há tantos infernos quanto há pessoas. Nem tantos, porém, eu espero, vivem no inferno particular em que Shoghi Effendi e eu vivemos. Se alguém me pedisse uma definição, diria que, embora haja tantas variedades, há em princípio dois tipos: inferno sem responsabilidade e inferno com responsabilidade..." [Para quem talvez não compreenda o emprego do termo "inferno" em inglês usado aqui, eu explicaria que quero dizer agonia, sofrimento intenso, abrasador.]

14-11-55 "O Guardião recebeu a notícia da morte de Varga. Shoghi Effendi disse: 'Ele era o homem mais excelente que tínhamos.' Naturalmente esperava-se isso desde muito tempo, mas ele sente a perda porque há tão poucos bahá'ís de capacidade, que se sobressaem."

9
Guerra

Ao reler meus diários - dos quais tenho citado tão pouco, com suas centenas de páginas escritas, ora sim ora não, no decorrer dos anos - parece-me estranho que não haja praticamente nada sobre a Guerra Mundial que aconteceu em toda parte durante quase seis anos e constituiu tão horrenda ameaça à segurança do Centro Mundial da Fé e, mormente, ao próprio Guardião como Dirigente dessa Fé. Nada daria mais eloqüente testemunho das tribulações interiores pelas quais ele passou durante todos aqueles anos do que esta lacuna. As pressões do dia-a-dia e o trabalho, a preocupação e o esgotamento mental eram tão grandes que empurravam para o fundo toda menção a essa constante ameaça e ansiedade. Shoghi Effendi era o mais perspicaz observador de acontecimentos políticos e se mantinha informado de tudo o que sucedia. Sua inteligência e suas faculdades de análise não permitiam que ele se embalasse numa falsa serenidade, induzida pela idéia, um tanto infantil, que algumas pessoas têm do que significa "fé". Bem sabia ele que ter fé em Deus não significa deixar de usar a mente, de avaliar perigos, de antecipar mudanças, de tomar as decisões certas durante uma crise.

É com grande relutância que me refiro à vida particular do Guardião, tão sem mácula, tão cheia de provações. Duas considerações me levam a fazer isto: a primeira é que, a não ser que tenhamos ao menos um vislumbre daquilo que ele, como ser humano individual, passou, não podemos apreciar verdadeiramente a grandeza de suas realizações; e a segunda é que qualquer pessoa famosa está sujeita, através dos séculos, a intensivas pesquisas históricas detalhadas; muitas coisas serão descobertas em registros colhidos aqui e ali, e se não houver evidências para explicá-las, provavelmente serão muito mal interpretadas e toda espécie de narrativa tola será tecida da pura imaginação.

Na ocasião em que, após o inesperado falecimento de minha mãe na Argentina, em março de 1940, meu pai foi convidado pelo Guardião a vir morar conosco, Shoghi Effendi, por suas próprias razões, havia decidido ir à Inglaterra. Para quem não esteve no palco da guerra entre Oriente Médio e Europa, é quase impossível formar uma idéia das infinitas dificuldades de tal viagem num momento histórico como este. A despeito do prestígio e da influência do Guardião, era fato que as autoridades na Palestina não podiam conceder visto para a Inglaterra, assim, nosso pedido foi remetido a Londres. Shoghi Effendi apelou também ao seu velho amigo Lorde Lamington, pedindo-lhe que usasse sua diplomacia para garantir a obtenção do visto, mas até a hora em que nossa partida imediata para a Inglaterra se tornou imperativa, se é que ainda chegaríamos lá, nenhuma resposta havia sido recebida pelas autoridades da Palestina e a resposta de Lorde Lamington só veio depois de longa demora. Impelido pelas forças que tão misteriosamente animavam todas as suas decisões, o Guardião resolveu ir à Itália, para onde já havíamos obtido visto, e então partimos de Haifa no dia 25 de maio, num pequeno aquaplano italiano malcheiroso, com a água batendo nas tábuas debaixo de nossos pés como se estivéssemos num velho barco a remo. Poucos dias depois, chegamos em Roma e eu fui a Gênova para esperar meu pai, que estava chegando com o S. S. Rex em sua última viagem como navio de passageiros. Logo que regressamos, o Guardião me mandou com meu pai ao cônsul britânico para perguntarmos se por acaso nosso visto havia chegado da Palestina, mas não havia notícia alguma e o cônsul disse que lhe era absolutamente impossível nos dar o visto, pois toda autorização tinha que vir de Londres e as condições não mais permitiam contato com seu governo! Voltamos com esta trágica notícia para o Guardião. Ele nos mandou de volta. Naturalmente, nós o obedecemos sem questionar, porque ele era o Guardião, mas nem meu pai nem eu podíamos vislumbrar o que mais nos era possível fazer do que já havíamos feito. No entanto, lá estávamos nós novamente sentados diante do cônsul, dizendo praticamente todas as mesmas coisas outra vez, com exceção de um fato que casualmente mencionei, o de que Shoghi Effendi era o sucessor e o neto de Sir 'Abdu'l-Bahá 'Abbás. Eu naturalmente já havia dito que ele era Dirigente da Fé Bahá'í, etc. O cônsul olhou para mim e disse: "Lembro-me de 'Abdu'l-Bahá" e então me relatou algum contato que tivera com o Mestre; era óbvio que estava profundamente comovido por essa recordação. Tomou nosso passaporte, carimbou nele um visto para a Inglaterra e disse não ter direito algum de fazer isso, que não era válido o papel em que estava carimbado, mas era tudo que ele podia fazer; se quiséssemos tentar entrar na Inglaterra com ela, isso teria que ser nossa própria decisão e correríamos o risco de sermos recusados. Com isto partimos imediatamente da Itália para a França, passando por Menton no dia 25 e seguindo para Marselha. Em poucos dias, a Itália entrou na guerra contra os Aliados.

É difícil descrever o período subseqüente. O episódio inteiro foi como um pesadelo brilhante - pesadelo pessoal para nós e um pesadelo gigantesco no qual a Europa inteira estava envolvida. Na nossa viagem de trem a Paris vimos cada estação apinhada de milhares de refugiados, os quais fugiam diante da frente Aliada já em rápido desmoronamento no norte. Não havia meio de se obter informação acurada, tudo era um caos. Para nossa consternação, em Paris descobrimos que todos os portos para a Inglaterra estavam fechados, e a última esperança de chegarmos àquele país - esperança que diminuía a cada hora - era descermos ao pequeno porto de St.-Malo e ver se ainda podíamos pegar algum navio lá. Nós, como centenas de outras pessoas tentando voltar para a Inglaterra, tivemos que esperar uma semana até que, finalmente, dois navios conseguiram entrar no porto de St. Malo. Nunca havia visto o Guardião na condição em que estava durante aqueles dias. Desde a manhã até a noite, a maior parte do tempo ele ficava sentado, em silêncio, imóvel, como uma imagem de pedra, e tive a impressão de que ele estava sendo consumido pelo sofrimento, como uma vela cuja chama a consumia. Duas vezes por dia, ele me mandava com meu pai à companhia de navegação no porto para perguntar se havia alguma notícia de algum navio, e duas vezes por dia tínhamos que voltar e dizer: "Nenhuma notícia". Talvez pareça estranho aos outros que ele tenha se preocupado tanto, mas uma mente como a sua estava tão infinitamente melhor equipada do que as nossas para compreender o perigo que nossa situação representava para a Causa - e, Deus sabe, eu também estava doente de tanta preocupação. Tanto meu pai como eu ainda estávamos sentindo o choque profundo da morte repentina de minha mãe, de um ataque cardíaco, e isso, combinado com tudo mais, fez com que pelo menos ele estivesse com os sentidos quase paralisados. Não era isto que acontecia com o Guardião; ele compreendia que, se caísse nas mãos dos nazistas, os quais já haviam banido a Causa em seu próprio país e estavam intimamente associados ao Grande Mufti de Jerusalém - que estava ativamente engajado na política árabe e era inimigo declarado do Guardião - muito provavelmente seria encarcerado, ou pior, e a própria Causa seria deixada sem dirigente, sem ninguém para animar e guiar o mundo bahá'í num tempo como aquele de caos mundial. Parece-me que a situação era muito semelhante àquela dos dias em 'Akká quando o Mestre estivera em perigo de ser levado para um novo lugar de exílio e Ele também havia esperado notícias de um navio. Finalmente, embarcamos no primeiro dos dois navios que vieram durante a noite de 2 de junho a fim de evacuar as pessoas abrigadas em St. Malo, e navegamos em escuridão absoluta para Southampton, aonde chegamos na manhã seguinte. Foi no dia seguinte à nossa partida, segundo me lembro, que os alemães entraram em St. Malo.

Tivemos quase a mesma dificuldade para sair da Inglaterra como havíamos tido para entrar. Era a época do grande movimento de "evacuar as crianças", o qual tinha suma prioridade, e foi só por causa da posição de Shoghi Effendi e da amizade de meu pai com o Alto Comissário Canadense em Londres, que conseguimos passagem para África do Sul, embarcando para Cape Town pelo S. S. Cape Town Castle no dia 28 de julho. Era um navio rápido e, uma vez afastado da costa da Inglaterra numa grande escolta, estávamos entregues à nossa própria responsabilidade; lembro-me que eu costumava observar o estranho rastro em ziguezague do navio no mar enquanto seguia um curso errático a fim de se tornar menos vulnerável a submarinos. Já que a entrada da Itália na guerra havia fechado o Mediterrâneo para os navios Aliados, o caminho através da África era o único que nos restava para regressarmos à Palestina. Embora Shoghi Effendi tivesse atravessado a África já em outra ocasião, no início de sua Guardiania - embarcando na Inglaterra, em setembro de 1929, e seguindo, a maior parte por terra, de Cape Town a Cairo - nessa ocasião ele não conseguira visto para o Congo Belga, que por alguma razão sempre o fascinara. Seu espírito aventureiro e seu amor pela beleza das paisagens o atraíam às altas montanhas e às densas florestas do mundo, tendo sido este o motivo de sua viagem anterior. Agora, por algum milagre extraordinário, em meio à guerra, conseguimos visto para o Congo. Quando chegamos a Stanleyville e fizemos uma excursão para a densa mata virgem, compreendi que foi o amor de Shoghi Effendi pela beleza natural, entre outros motivos, que o havia levado lá; ele queria ver a mata florida. Infelizmente, não era o lugar nem a estação apropriados, assim, prosseguimos nosso caminho, desapontados.

Shoghi Effendi estava demasiado preocupado com a saúde de meu pai (ele tinha sessenta e seis anos e estava fraco) para permitir que ele nos acompanhasse na viagem por terra, e assim o havíamos deixado num hotel, seguro, em Durban, enquanto ele aguardava a oportunidade de obter passagem aérea. A lista de espera era longa e pessoas que não fossem do governo ou militares eram constantemente descartadas em favor daquelas que tivessem prioridade. Foi durante essas semanas de espera que ele desenhou o túmulo de minha mãe, incorporando não só suas idéias e minhas, mas também uma excelente sugestão dada pelo próprio Shoghi Effendi para seu embelezamento.

Após uma viagem de três dias de carro, de Stanleyville a Juba, no Sudão, seguida por outra de navio, pelo rio Nilo, o Guardião e eu chegamos em Cartum - em minha opinião, o lugar mais quente da terra - e enquanto estávamos sentados na varanda de nosso hotel depois do jantar, começou a surgir do meio da escuridão um grupo de passageiros de avião para pernoitar e, entre eles, o Sr. W. S. Maxwell! Foi realmente um estranho golpe de sorte que nos reuniu no coração da África; foi também muito reconfortante, pois nenhum de nós tinha a menor idéia de onde o outro estava, nem meio algum de entrar em contato. Em Durban, Shoghi Effendi apenas dissera ao meu pai que ele fosse à Palestina, a um hotel em Nazaré, e lá nos esperasse para que nós três então regressássemos juntos a Haifa.

Para surpresa nossa, o governador-geral, Sir Stewart Symes, convidou-nos para almoçarmos com ele no Palácio, no dia 1º de outubro, e após essa renovação de uma amizade tão antiga prosseguimos nosso caminho para Cairo e Palestina, encontrando com meu pai, segundo combinado, e regressando a Haifa aproximadamente seis meses após a nossa partida. Bem se pode imaginar que uma viagem como esta, cheia de incertezas do começo ao fim, de suspense e perigo, era em si uma tremenda experiência, extremamente cansativa. Embora Shoghi Effendi nunca tivesse visitado o hemisfério ocidental, nem o Oriente além de Damasco, é interessante notar que duas vezes atravessou a África, do sul ao norte.

Quão espantados teriam ficado os atribulados bahá'ís britânicos se, juntamente com o telegrama de Shoghi Effendi à sua Assembléia Nacional, de 27 de dezembro de 1940, que dizia: "telegrafar segurança amigos Londres Manchester constantemente orando amorosa admiração", eles tivessem sido informados de que ele próprio havia escapado por um triz do grande ataque em Londres e só recentemente havia conseguido retornar à Terra Santa!

Os anos subseqüentes ao nosso regresso à Palestina testemunharam graves perigos para a Terra Santa - perigos que ameaçavam também o Centro Mundial da Fé e seu Guardião, bem como os bahá'ís em muitos países.

Imbuído dos Ensinamentos desde a infância, e da companhia viva e atenta de seu bem-amado Avô, Shoghi Effendi parece ter estado sempre consciente daquilo que ele chamava "as perturbações iniciais da catástrofe mundial à espera, por uma humanidade descrente". Embora percebesse que haveria outra guerra, ele não vivia num constante estado de emergência falsa. Assegurou a Martha Root, que em 1927 lhe escrevera da Europa acerca de seus receios: "Quanto ao assunto de uma guerra eventual que possa irromper na Europa, não deves ter a mínima preocupação ou ansiedade. A perspectiva é muito remota, o perigo para o futuro próximo, inexistente" - muito embora naquele mesmo ano ele tivesse declarado que a inevitabilidade de outro conflito mortal se tornava cada vez mais manifesta. Repetidamente ele preparava as mentes dos bahá'ís para enfrentarem o fato de que uma conflagração mundial se aproximava. Em 1938, escreveu: "Os processos gêmeos de desintegração interna e de caos externo aceleram-se e, a cada dia, movem-se inexoravelmente em direção a um clímax. Já pode ser ouvido o estrondo que deve preceder a erupção daquelas forças que haverão de fazer 'tremerem os membros da humanidade'. 'O tempo do fim', 'os últimos anos', segundo preditos nas Escrituras, finalmente estão nos sobrevindo." E em O Advento da Justiça Divina, obra escrita por ele em fins de dezembro de 1938, claramente anteviu a guerra: "Quem sabe", perguntou ele, "se esses poucos anos fugidios que restam, não estão prenhes de... conflitos mais devastadores do que quaisquer que os tenham precedido?" E em abril de 1939, escreveu: "A areia na ampulheta de uma civilização moribunda corre inexoravelmente."

Enquanto a longa sombra da guerra descia sobre a Europa, lembro bem da quase tangível sensação de catástrofe que me envolvia quando Shoghi Effendi escreveu, do próprio coração daquele continente, as poéticas e poderosas palavras com as quais principiou seu cabograma de 30 de agosto de 1939: "sombras noite descendo humanidade periclitante intensificam-se inexoravelmente..." Uma semana antes de Shoghi Effendi embarcar para a Inglaterra, em julho de 1940, ele havia telegrafado via Haifa (por onde todos os seus telegramas e cartas eram transmitidos invariavelmente durante sua ausência de casa) que os fogos da guerra "... agora ameaçam devastação tanto Oriente Próximo como Extremo Ocidente entesourando respectivamente Centro Mundial principal cidadela remanescente Fé Bahá'u'lláh..." Parece incrível, em meio a tantas ansiedades e após sua ausência de meio ano, durante a qual parecíamos estar correndo, o tempo todo, na crista de uma vagalhão (primeiro a fim de sairmos de Haifa a tempo e então para voltarmos a Haifa a tempo), que o Guardião tenha tido o poder mental e as forças físicas, ao regressar à Terra Santa, para sentar-se e escrever um livro como "O Dia Prometido Chegou" - um livro em que ele mostrou muito claramente que a "calamidade retribuidora" que sobreviera à humanidade, quaisquer que fossem suas causas políticas e econômicas, era devida primariamente ao seu desprezo, durante cem anos, à Mensagem de Deus para esta época.

Os perigos e os problemas que a guerra trouxe a nós em Haifa, e ao mundo bahá'í em geral, Shoghi Effendi os enfrentou com uma calma extraordinária. Isto não quer dizer que ele não sofresse por causa deles. A carga de responsabilidade estava sempre lá; jamais ele podia deixá-la de lado, nem por um momento sequer. Lembro-me de uma ocasião em que eu estava desesperada porque tudo sempre tinha que ser decidido por ele, mesmo quando estava doente, ele disse que outros dirigentes, mesmo Primeiros-Ministros, poderiam delegar a alguém seus poderes, pelo menos por um breve período, se fosse necessário, mas ele não podia delegar os seus, nem por um momento sequer enquanto vivesse. Ninguém mais era divinamente guiado para desempenhar sua função e ele não podia delegar sua guia a outrem.

Embora a Segunda Guerra Mundial não atingisse, realmente, a Terra Santa, durante anos vivíamos no perigo iminente de que isso acontecesse, a qualquer momento. Nós, como tantos outros países do mundo, tínhamos um blecaute completo. Como os prédios que compõem a Casa do Mestre têm quase cem janelas, só isso criou um problema considerável; naturalmente não era necessário nem possível escurecer todas elas, mas isso significava muitas caminhadas no escuro e freqüentes chamadas da irada defesa antiaérea. Haifa, por ser um dos principais portos com uma grande refinaria de óleo, era ponto estrategicamente importante. A cidade tinha vários canhões antiaéreos para sua proteção, estando dois deles a cerca de uma milha da casa do Guardião. Algumas bombas caíram, mas o dano foi insignificante - a proteção foi realmente milagrosa - mas muitas vezes tínhamos ataques aéreos e a metralha dos grandes canhões antiaéreos era estilhaçada. Isso era mais uma preocupação para Shoghi Effendi, porque um pedaço de metralha do tamanho de uma uva podia facilmente causar dano irreparável a um dos belos monumentos de mármore dos lugares de descanso da família do Mestre; pedaços grandes eram muitas vezes encontrados perto deles, mas nunca realmente caíram em cima. Tivemos que construir um abrigo antiaéreo, mas o Guardião e eu nunca o utilizamos. Algumas vezes, quando o alerta vinha à noite, Shoghi Effendi se levantava e olhava pela janela, mas, usualmente, nem isso ele fazia. A maior movimentação ocorreu quando os britânicos invadiram o Líbano e então, durante uma semana, podíamos ouvir pesadas descargas, e o porto, a meia milha de nossa casa, era freqüentemente atacado por bombardeiros de mergulho pelas forças de Vichy.

Mas todas essas coisas nunca foram muito graves ou muito perigosas. Em novembro de 1941, numa mensagem por cabograma, Shoghi Effendi havia predito o futuro, caracterizando os anos imediatamente à nossa frente: "... enquanto fúria destrutiva tremenda tribulação mundial atinge grau mais intensivo..." Não importa o que esperasse o mundo, nós na Palestina, já durante 1941, havíamos passado o que para nós era o período mais agonizante de toda a guerra, meses que haviam causado intensa ansiedade ao Guardião. Foi durante esse ano que a abortiva revolução do anti-aliado Rashid 'Alí ocorreu no Iraque; as forças britânicas eram persistentemente forçadas a recuar pelo General Rommel na Líbia e finalmente (em 1942) os alemães chegaram às portas da Alexandria; as forças nazistas ocuparam Creta - um segundo trampolim para a pretendida conquista do Oriente Médio; e as forças britânicas e francesas invadiram o Líbano e derrubaram o regime controlado pelo governo de Vichy nesse país. Além de todos estes perigos mais que palpáveis, o Grande Mufti de Jerusalém, inimigo tanto da Fé como do Guardião, era aliado firme do governo nazista. Não requer grande esforço imaginar o que teria acontecido a Shoghi Effendi e aos Santuários, aos registros e arquivos do Centro Mundial, se um vitorioso exército alemão, acompanhado pelo astuto e vituperioso Mufti, tivesse tomado a Palestina. Muitas vezes Shoghi Effendi dizia que não era tanto a questão daquilo que os alemães fariam, mas o fato de existirem tantos inimigos locais, os quais poderiam, junto com o Mufti, envenenar completamente as mentes dos alemães contra ele e assim agravar uma situação já bastante perigosa, uma vez que nossas idéias são, em muitos sentidos, tão opostas à ideologia nazista.

Durante meses Shoghi Effendi observava, com a mais profunda ansiedade, a maré da guerra que sempre se aproximava, ponderando o que deveria fazer se houvesse uma invasão, como seria a melhor maneira de proteger, em todos os sentidos, a Fé da qual ele próprio era o emblema vivo.

Durante todos os anos de guerra, Shoghi Effendi estava em posição de manter seu contato com a massa dos crentes naqueles países onde existiam algumas das mais antigas e mais populosas comunidades bahá'ís, tais como a Pérsia, a América, a Índia e a Grã-Bretanha, bem como os novos centros em rápido crescimento na América Latina. As comunidades relativamente pequenas no Japão, nos países europeus, em Burma e, por algum tempo, no Iraque, eram as únicas com a comunicação cortada com ele, o que lhe causou tristeza e grande apreensão pelo seu destino. Por causa dessa sua maneira, nada menos que milagrosa, de manter contato com o corpo dos crentes em todo o mundo bahá'í, Shoghi Effendi podia não somente mandar suas diretrizes às várias Assembléias Nacionais, mas também indicar o que significava essa grande guerra para nós como bahá'ís. Em sua epístola conhecida como O Dia Prometido Chegou, ele declarou que: "Não é outro o desígnio de Deus senão o de inaugurar - por meios que somente Ele pode usar e cuja plena significação Ele, tão somente, pode sondar - a Grande Idade Áurea de uma humanidade desde longo tempo dividida e angustiada. Seu estado atual é obscuro, como também o será, de fato, seu futuro próximo lastimavelmente obscuro. Seu futuro remoto, porém, será radiante, gloriosamente radiante - tão radiante que nenhuma visão o pode abranger... Passaram-se as épocas da infância e da juventude, para nunca mais voltarem, enquanto a Grande Época, a consumação de todas as épocas, que há de assinalar o amadurecimento da humanidade inteira, está ainda por vir. As convulsões deste período transitório, o mais turbulento nos anais da humanidade, são os requisitos essenciais e prenunciam a vinda inevitável daquela Época das Épocas, o 'tempo do fim', quando a inépcia e o tumulto da contenda que, desde os primórdios da história, enegrece os anais da humanidade, terão sido transmutados na sabedoria e na tranqüilidade de uma paz perfeita, universal e duradoura, quando a discórdia e a separação dos filhos dos homens serão substituídas pela reconciliação mundial e pela completa unificação dos diversos elementos que constituem a sociedade humana... Esta é a etapa da qual a humanidade, querendo ou não, está se aproximando, irresistivelmente. É para esta etapa que essa vasta e chamejante provação que ora atribula a humanidade, está preparando, misteriosamente, o caminho."

Tão grandes foram o alívio e o contentamento do Guardião quando terminou a fase européia da guerra, em maio de 1945, que ele telegrafou à América: "Seguidores Bahá'u'lláh toda parte cinco continentes regozijam-se unanimemente saída parcial guerra humanidade lacerada tumulto titânico" e expressou o que jazia tão fundo em seu coração: "com gratidão aclamo marcante evidência interferência Divina Providência que durante anos tão perigosos permitiu escapar Centro Mundial nossa Fé..." e prosseguiu, expressando agradecimentos similares pela maneira como outras comunidades haviam sido milagrosamente preservadas, repetindo as vitórias verdadeiramente extraordinárias ganhas para a Fé durante a guerra e apesar dela. Em 20 de agosto de 1945, telegrafou outra vez: "Corações enlevados agradecimentos completa cessação prolongado conflito mundial sem precedentes" e exortou os crentes americanos a se levantarem e prosseguirem seu trabalho, aclamando a eliminação das restrições que agora os habilitaria a lançar a segunda etapa do Plano Divino. Nada poderia ser melhor exemplo da determinação, do entusiasmo e da brilhante orientação do Guardião do que essas mensagens enviadas imediatamente depois do mundo emergir da pior guerra de toda a sua história.

Qualquer que fosse o estado do resto do mundo, a situação interna na Palestina continuou a piorar em todos os sentidos. O holocausto que havia engolfado os judeus da Europa; a amargura induzida entre os judeus da Palestina pela política britânica relativa à imigração judaica, a qual era estritamente limitada e controlada; o veemente ressentimento dos árabes contra essa mesma política - tudo servia para aumentar tensões e ódios locais. Em muitas das durezas das quais outros países já começavam a sair lentamente, como o severo racionamento de alimentos, nós estávamos entrando. Tudo era difícil. Não mais estávamos em perigo de invasão ou bombardeio, mas a perspectiva para este pequeno mas sagrado país enegrecia constantemente à medida que entrávamos naquele período caracterizado por Shoghi Effendi como "o mais grave tumulto a abalar a Terra Santa nos tempos modernos".

Shoghi Effendi estava exausto devido à tensão dos anos de guerra, anos durante os quais ele não somente escrevera O Dia Prometido Chegou e A Presença de Deus, mas prosseguira seu trabalho - pois quem pode negar que foi seu incessante fluxo de entusiasmo, encorajamento e energia que galvanizou os bahá'ís para a ação? - cinco anos do primeiro Plano de Sete Anos, durante os quais ele havia confortado, inspirado e conservado o mundo bahá'í unido, havia expandido constantemente as fronteiras da Causa e aprofundado e desenvolvido a vida de suas comunidades nacionais, havia iniciado o incomparável projeto de erigir a superestrutura do Santuário do Báb, e havia irreparavelmente perdido a família de 'Abdu'l-Bahá, inclusive sua própria família. Ele agora se aproximava dos cinqüenta anos; os cabelos embranqueciam nas têmporas, os ombros estavam arqueados de tanto se curvarem sobre a escrivaninha; o coração, não somente entristecido por tudo o que ele havia sofrido, mas, creio firmemente, exaurido por causa disso.

À medida que o Mandato Britânico se aproximava de seu fim, no dia 14 de maio de 1948, a situação na Palestina piorava constantemente. O país inteiro fervia de apreensão e ódio, e atos de terrorismo aumentavam dia a dia. Os árabes, os judeus e os britânicos estavam todos envolvidos; todos os três grupos estavam bem cientes do completo afastamento do Guardião das questões políticas em jogo e não é exagero dizer que o respeitavam universalmente - e não o perturbavam. Este é um fato de grande importância, pois, durante os anos e especialmente os meses que precederam o término do Mandato, praticamente não restava nenhum terreno neutro; judeus pagavam pela defesa da comunidade judaica e árabes, pela da comunidade árabe. O fato de o Guardião ter podido dirigir a pequena comunidade bahá'í com segurança através do perigoso tumulto daqueles dias e de não lhe terem sido solicitados fundos em apoio à causa de seus conterrâneos orientais (todos sabiam que ele nascera e fora criado no país), atesta a alta reputação que ele havia estabelecido como homem de princípios inabaláveis e férrea determinação.

Embora tivessem deixado o Guardião em paz, isto não quer dizer que não estivesse exposto a perigo, nem que a própria Causa não estivesse em situação grave. As grandes propriedades baldias em volta do Santuário do Báb eram o maior motivo de preocupação por serem adjacentes a áreas ocupadas por árabes. Qualquer espaço aberto, qualquer lugar vantajoso, era motivo de medo para ambos os elementos da população, que freqüentemente eram vítimas de franco-atiradores, bombardeios e ataques com granadas de mão. Foi, portanto, um choque para Shoghi Effendi quando certo dia, ao olhar para a área do Santuário do Báb com binóculos, ele descobriu que soldados britânicos haviam instalado em nossa propriedade uma metralhadora que dava para uma estrada, num ponto em que eles evidentemente consideravam ser uma boa posição para atirar em qualquer um que atacasse nas cercanias. Removeram-na, mas persistia o temor que havia causado, o terrível perigo de que nós, de algum modo, pudéssemos nos envolver inadvertidamente na tomada de partido e na matança que havia por todos os lados.

Lembro-me de uma outra ocasião em que um judeu, que muitas vezes fazia algum serviço especial para nós, acabava de sair da propriedade do Santuário e alguns árabes vieram perguntar onde ele estava - ele poderia ter sido morto se encontrado - e as repercussões poderiam ter sido terríveis para uma comunidade tão fervorosamente contra a carnificina que estava acontecendo o tempo todo, e tão completamente neutra na luta política que grassava. Muitas vezes, havia tiroteios nas proximidades da casa do Mestre, chegando a ser, algumas vezes, pequenas batalhas; ninguém jamais atirou em nós nem nos atacou, mas o perigo de ser atingido não podia ser subestimado. Enquanto o terrorismo aumentava, certas áreas, inclusive a nossa própria, eram voluntariamente escurecidas à noite, sem nenhuma luz acesa nas ruas; muitas vezes, impunham toque de recolher durante o dia, quando ocorriam verdadeiras batalhas ou sérios atos de terrorismo, e somente as forças britânicas se movimentavam com seus grandes tanques uivando nas ruas desertas e freqüentemente atiravam ao acaso com suas metralhadoras, enquanto passavam rodando. O uivo de suas sirenes era bem sinistro e desagradável; mas à noite era realmente aterrorizante para uma população com os nervos já torturados e vivendo à beira de um vulcão que a qualquer momento poderia explodir.

Em meio a tudo isso, Shoghi Effendi subia o Monte Carmelo todos os dias, como de costume, cuidando de suas tarefas, dirigindo o trabalho nos jardins, visitando os Santuários e voltando para casa antes do escurecer. Durante todo esse período, lembro-me de apenas uma ou duas ocasiões em que ele não pôde fazer isso, pois havia sido decretado toque de recolher por causa da situação. Um dia, enquanto ele ia aos Santuários de carro, com a Sra. Weeden na direção (nosso chofer árabe havia saído do país), um carro estava atirando no carro que ia à sua frente, o qual de repente ultrapassou o automóvel do Guardião e assim ele ficou entre os dois. O outro carro logo alcançou o do Guardião e passou, continuando a sua guerra particular, mas pode-se imaginar o que nós sentimos ao saber desse incidente mais tarde! Nada, porém, podíamos fazer. Quem tiver passado por tais experiências sabe que só há duas coisas que se pode fazer em tal situação - ir embora ou prosseguir como de costume. Nós simplesmente prosseguimos. O seguinte extrato de um de meus diários, com data de 22 de fevereiro de 1948, melhor descreve a atmosfera em que vivíamos naquele tempo: "Sabemos que Bahá'u'lláh vigiará por nós. Mas, sendo humanos, nós temos nossos momentos de ansiedade como, por exemplo, quando a descarga de tiros relampeja por toda a cidade e o bem-amado Guardião não desceu ainda dos Santuários, a estrada está impedida e ele tem que vir para casa a pé - então sabemos apenas que tudo depende de Bahá'u'lláh... não é exagero dizer que uma noite sem tiros simplesmente não existe mais. Às vezes, continua intermitentemente durante a noite toda. Mas logo se consegue dormir, a não ser que haja uma bomba..."

Não eram perigos como estes, entretanto, que causavam noites de insônia a Shoghi Effendi. Sua grande preocupação era a proteção dos Sagrados Santuários Gêmeos. Com o término do Mandato e a irrupção da guerra árabe-judaica, havia a ameaça de um verdadeiro perigo para os Sagrados Santuários e isto lhe causava ansiedade aguda. Bahjí ficava a apenas cerca de quinze milhas da fronteira, sobre a qual um exército invasor poderia enxamear a qualquer momento. Esta era uma das preocupações; a outra, de certo modo ainda mais intensa, foi ocasionada por um plano em discussão, seriamente considerado por algum tempo, de estabelecer as fronteiras do novo Estado Judaico de tal modo que sua parte norte separasse Haifa de 'Akká e assim o Centro Mundial seria dividido em dois, o Centro Administrativo situado em um país e o Sacratíssimo Lugar, o Qiblih da Fé, em outro, hostil ao primeiro e à própria Fé.

Se alguém perguntasse por que o divinamente guiado Guardião se preocupava tanto com tais coisas, eu gostaria de dar uma explicação, de meu próprio entendimento. Parece-me que há três fatores envolvidos na maioria das situações: a Vontade de Deus, na qual Sua Bondade, Onipotência e o destino ordenado por Ele para o homem estão todos incluídos - o que, afinal, endireita tudo o que está errado; o elemento acidente, o qual 'Abdu'l-Bahá diz ser inerente à natureza; e o elemento do livre arbítrio e responsabilidade individuais. Em vista destes fatores, não é de se admirar que o Guardião se preocupasse profundamente com qualquer situação que pudesse afetar os interesses e a proteção da Fé, e ponderasse ansiosamente os problemas com os quais se defrontava, visando garantir que a solução certa fosse encontrada, a melhor oportunidade, aproveitada, o maior benefício, obtido para a Causa.

Muitas vezes Shoghi Effendi se referia à proteção milagrosa concedida ao Centro Mundial durante o período de distúrbios e perigos no fim do Mandato Britânico e o firme estabelecimento do Estado Judaico. A própria lista dos perigos evitados e as realizações testemunhadas durante esse período - os quais ele enumerou num cabograma enviado à Convenção Bahá'í Americana em 25 de abril de 1949 - é suficiente para nos dar um vislumbre da intensa ansiedade que ele sentira e da gravidade dos problemas com os quais ele se defrontara. A versão publicada deste cabograma mostrava quão grandes haviam sido as "evidências proteção divina concedida Centro Mundial Fé decorrer terceiro ano segundo Plano de Sete Anos" e prosseguia, dizendo: "Prolongadas hostilidades devastando Terra Santa terminaram providencialmente. Lugares Sagrados Bahá'ís diferentemente daqueles pertencentes outras fés salvaguardados milagrosamente. Perigos não menos graves que aqueles que ameaçavam Centro Mundial Fé sob 'Abdu'l-Hamíd Jamal Páshá e pretendida conquista Oriente Próximo Hitler evitados. Estado soberano independente dentro confins Terra Santa estabelecido reconhecido marcando término condição provincial vinte séculos. Garantia formal proteção sagrados sítios bahá'ís continuidade peregrinação bahá'í por Primeiro-Ministro recém-inaugurado Estado. Convite oficial enviado pelo seu governo histórica ocasião abertura primeiro parlamento Estado. Registro oficial casamento bahá'í endossado doações bahá'ís eximidas autoridades responsáveis mesmo Estado. Melhores votos futuro bem-estar Fé Bahá'u'lláh transmitidos escrito por recém-eleito Chefe Estado em resposta mensagem congratulatória lhe dirigida assunção seu cargo."

Nos anos do pós-guerra, enquanto as vitórias obtidas pelos bahá'ís se multiplicavam e as Nações Unidas - o mais poderoso instrumento para criar a paz já inventado pelos homens - emergiam, muitos de nós, sem dúvida, esperavam e ansiosamente acreditavam que tivéssemos deixado atrás de nós a pior fase da longa história de guerras travadas pela humanidade e que poderíamos agora vislumbrar a primeira luz daquele alvorecer que, segundo nós bahá'ís cremos tão firmemente, espera o mundo. Mas a mente sóbria e guiada do Guardião não via os eventos sob esta luz. Até o fim de sua vida, continuou a fazer a mesma observação que tantas vezes fizera antes da guerra, baseada nas palavras do próprio Bahá'u'lláh: "O futuro distante é muito promissor, mas o imediato é muito tenebroso."

Entre as mensagens animadoras que ele tão freqüentemente enviava aos bahá'ís em toda parte do mundo, seus elogios dos maravilhosos serviços por eles prestados, seus planos tão detalhadamente elaborados para eles executarem, sempre e sempre se repetia a nota de presságio e advertência. Em 1947, ele declarou que os bahá'ís haviam sido, até então, benevolamente ajudados a prosseguir em seu caminho "sem serem desviados pelas correntezas contrárias e pelos ventos tempestuosos que necessariamente hão de agitar, cada vez mais, a sociedade humana, à medida que se aproximar a hora de sua redenção final..." Neste comunicado, que exorta a Comunidade Americana a ir avante no trabalho supremamente importante de seu segundo Plano de Sete Anos, ele disse a respeito do futuro: "Enquanto a situação internacional piora e os destinos da humanidade descem a um nível ainda mais baixo... Enquanto a estrutura da sociedade hodierna se rompe e racha sob a pressão e a tensão de portentosos acontecimentos e calamidades, enquanto se multiplicam as brechas, acentuando a divisão, separando nação de nação, classe de classe, raça de raça e credo de credo..." Longe de termos dobrado a esquina e para sempre virado as costas ao nosso infeliz passado, havia "uma crise que se aprofunda mais e mais". Em março de 1948, ele foi mais além ainda, numa conversação que registrei em meu diário: "Esta noite, Shoghi Effendi disse-me umas coisas muito interessantes: assim, por alto, disse que à luz das condições atuais era tolice afirmar que não haveria outra guerra, e dizer que, se houvesse outra guerra, a bomba atômica não seria usada, também era tolice. Assim, devemos crer que provavelmente haverá uma guerra e a bomba atômica será usada, e haverá terrível destruição. Mas os bahá'ís sobreviverão, dizia ele, a fim de formarem o núcleo da futura civilização mundial. Disse que não era direito dizer que os bons pereceriam com os maus porque, em um sentido, todos são maus e toda a humanidade, culpável por haver desprezado e repudiado Bahá'u'lláh após Sua repetida proclamação de Sua Mensagem a todos. Disse que os santos nos mosteiros e os pecadores nos piores antros da Europa eram todos maus porque rejeitaram a Verdade. Disse ser errado pensar como pensam alguns bahá'ís, que os bons perecerão com os maus, todos os homens são maus porque repudiaram Deus neste dia e se afastaram dEle. Disse que só podemos acreditar que, de alguma maneira misteriosa, apesar da terrível destruição, um número sobreviverá para construir o futuro."

Em novembro daquele mesmo ano, novamente animando os crentes americanos a perseverarem com seu Plano, ele escreveu: "À medida que se agrava a ameaça de convulsões ainda mais violentas, atacando uma era atribulada, e as asas de ainda outro conflito, destinadas a contribuir um quinhão notável, e talvez decisivo, para o nascimento de uma nova Ordem que deve indicar o advento da Paz Menor, escurecem o horizonte internacional... Retumbar de catástrofes ainda mais terríveis, agitando com freqüência crescente um mundo penosamente aflito e caótico... assim todo agravamento no estado de um mundo ainda atormentado pelas forças destrutivas de um conflito devastador e agora à beira de uma luta ainda mais crucial, deve ser acompanhado por uma manifestação ainda mais enobrecedora do espírito desta segunda cruzada..." Naquele mesmo mês, ele se referiu a: "A crescente crise que sinistramente ameaça perturbar ainda mais o equilíbrio de uma sociedade politicamente convulsionada, economicamente desintegrada, socialmente subvertida, moralmente decadente e espiritualmente moribunda." E prosseguiu, falando dos "estrondos premonitórios de uma terceira provação que, ameaçando engolfar os hemisférios, oriental e ocidental", e disse: "a perspectiva mundial escurece cada vez mais." Exortou os bahá'ís a "avançar para o futuro serenamente, confiantes de que a hora de seus mais poderosos esforços e a oportunidade suprema para suas maiores façanhas devem coincidir com o tumulto apocalíptico que assinala o mais baixo nível nas fortunas da humanidade já em tão rápido declínio."

Isto continuava sempre e sempre. As vitórias que obtivemos, os elogios, o encorajamento, o contentamento do Guardião - e as advertências. Em 1950, ele disse aos bahá'ís que deveriam ser "intrépidos" diante dos perigos de uma "deterioração progressiva da situação internacional" e, em 1951, informou à Conferência Européia de Ensino que os "perigos" enfrentados por aquele "continente severamente atribulado", estavam "aumentando constantemente". Mas foi realmente numa importante e ponderosa carta, escrita em 1954, que Shoghi Effendi se estendeu sobre esse assunto de um futuro conflito, suas causas, seu curso, seu resultado e seu efeito sobre a América, mais detalhadamente e em linguagem mais forte do que nunca. Ele associa o "grosseiro" e "canceroso materialismo" que predomina no mundo de hoje às advertências de Bahá'u'lláh e diz que Ele o comparara a uma "chama devoradora", considerando-o "como o principal fator na precipitação das horrendas provações e crises a abalarem o mundo que deverão necessariamente implicar na conflagração das cidades e na difusão de terror e consternação nos corações dos homens". Shoghi Effendi prossegue, dizendo: "De fato, um vislumbre da ruína que esse fogo consumidor infligirá ao mundo, com a qual assolará as cidades das nações que participam desse trágico conflito mundial, foi fornecido pela última Guerra Mundial, assinalando a segunda etapa da devastação global que infelizmente a humanidade, esquecida de seu Deus e desatento às advertências claras pronunciadas pelo Seu Mensageiro designado para este dia, haverá, inevitavelmente, de testemunhar."

A carta em que esses prognósticos espantosos se encontram foi dirigida aos bahá'ís americanos e nela o Guardião mostra claramente que a deterioração geral da situação de um "mundo desatento" e a multiplicação de armamentos cada vez mais destrutivos, para a qual os dois lados envolvidos numa disputa mundial, estavam contribuindo - "presos num remoinho de medo, suspeita e ódio" como estavam - afetando cada vez mais seu próprio país e, se isso não fosse remediado, iriam forçosamente "envolver a nação americana numa catástrofe de dimensões jamais sonhadas e de indizíveis conseqüências para a estrutura social, os padrões e conceitos do povo americano e de seu governo... A nação americana... de qualquer ângulo que se observe seu destino imediato, está, de fato, em grave perigo. As angústias e tribulações que a ameaçam são parcialmente evitáveis, mas na maior parte inevitáveis e mandadas por Deus..." Prosseguiu, mostrando as mudanças que essas aflições inevitáveis haverão de efetuar na "obsolescente doutrina da soberania absoluta", à qual seu governo e seu povo ainda se apegam, e que está tão "claramente em desacordo com as necessidades de um mundo que já se reduziu a uma comunidade e clama por unidade", e através das quais essa nação se verá purgada de seus conceitos anacrônicos e será preparada para desempenhar o grande papel que 'Abdu'l-Bahá predisse para ela na realização da Paz Menor. As "tribulações abrasadoras", ainda por vir, haveriam não somente de "unir a nação americana às suas nações irmãs em ambos os hemisférios", mas a purificariam da "escória acumulada que o preconceito racial arraigado, o materialismo desenfreado, a ampla descrença e a lassidão moral, que no decorrer de sucessivas gerações se juntaram para produzir, e que até agora a têm impedido de assumir o papel de dirigente espiritual do mundo, predito pela pena inequívoca de 'Abdu'l-Bahá - um papel que ela haverá forçosamente de desempenhar através de tribulação e sofrimento."

Durante o último inverno de sua vida, como se já fatigado pela sua longa luta com as nossas fraquezas e seus anos de incessante faina e dedicação completa, o Guardião se expressou mais fortemente sobre este assunto do que eu jamais o ouvira antes. Seu tema era não só uma advertência a respeito daquilo que nos aguardava no futuro, mas uma austera avaliação da falha dos bahá'ís - de todos eles, do Oriente e Ocidente - em sair em números adequados para a sua grande tarefa e ensinar a Causa de Deus em toda parte, nas ilhas e nos territórios recém-abertos do globo, enquanto ainda houvesse tempo e oportunidade para assim fazer e, deste modo, com um vasto aumento no número dos que seguem a Fé, criar aqueles núcleos espirituais que pudessem neutralizar as forças destrutivas que operam na sociedade humana de hoje e constituir as sementes da futura Ordem Mundial, a qual, cremos firmemente, pode e deve emergir do presente caos.

Alarmados deveríamos estar, porém, não paralisados. Em uma de suas últimas cartas a uma Assembléia Nacional européia, em agosto de 1957, a secretária do Guardião escreveu em seu nome: "Ele não quer que os amigos estejam receosos ou detidamente ocupados com as desagradáveis possibilidades do futuro. Devem ter a atitude de que, se fizerem a sua parte, que consiste em atingir as metas do Plano de Dez Anos, podem ter a certeza de que Deus fará a Sua parte e vigiará por eles." A maneira como os bahá'ís devem proceder neste tempo de crise mundial foi expressa em outra de suas cartas, escrita, um mês antes, a uma das Assembléias Nacionais da África, e assim redigida pela sua secretária: "Como a situação mundial, e na sua região, está piorando constantemente, os amigos não podem perder tempo para atingir os mais altos níveis de devoção e serviço e, especialmente, de percepção espiritual. É nosso dever remir o maior número de nossos semelhantes que pudermos, aqueles cujos corações estejam esclarecidos, antes que lhes sobrevenha alguma grande catástrofe na qual ou serão fatalmente engolidos ou sairão purificados e fortalecidos, prontos para servir. Quanto mais bahá'ís houver para se sobressaírem como faróis nas trevas, em qualquer tempo que isso aconteça, melhor será; eis a suprema importância do trabalho de ensino no momento atual."

Shoghi Effendi já apontara, em época anterior, que: "Por severo que seja o desafio e múltiplas as tarefas, por mais curto que seja o tempo, por mais sombria a perspectiva mundial e por limitados que sejam os recursos materiais de uma comunidade adolescente em grande dificuldade, as fontes inexploradas de força celestial, da qual ela pode usufruir, são imensuráveis em sua potência e, sem hesitação, farão manar suas influências vitalizadoras, se o esforço diário necessário for feito e os sacrifícios exigidos forem aceitos de boa vontade." Muito dependia de nós; o que dependesse de Deus, nós poderíamos confiantemente deixar em Suas mãos, uma vez que tivéssemos feito o nosso próprio esforço supremo.

Se nós, a geração do crepúsculo antes do nascer do sol deste novo dia, perguntarmos a nós mesmos por que teríamos que enfrentar tais catástrofes neste tempo, as respostas estão todas lá; o Guardião as deixou claras como cristal nas suas grandes exposições do significado e das implicações dos nossos ensinamentos. Há dois fatores envolvidos, segundo ele nos ensinou. O primeiro está contido naquelas palavras de Bahá'u'lláh: "Em breve será a presente ordem posta de lado, e uma nova se estenderá em seu lugar". Romper a cobertura protetora, consagrada pelo tempo, de inúmeras sociedades, cada uma baseada em seus próprios costumes, superstições e preconceitos, e aplicar-lhes uma nova estrutura universal de existência, é uma operação que somente Deus, o Todo-Poderoso, pode efetivar e há de ser forçosamente uma operação muito dolorosa. E torna-se ainda mais dolorosa pelo estado das almas e mentes dos homens; algumas sociedades são vítimas de um "secularismo flagrante - resultado direto da irreligião"; algumas estão apegadas a "um materialismo e um racismo vociferantes", as quais, segundo declarou Shoghi Effendi, "usurparam os direitos do próprio Deus", mas todos - todos os povos do mundo - são culpados por haverem, há mais de um século, "recusado reconhecer Aquele Cujo advento fora prometido a todas as religiões e em Cuja Fé, tão somente, todas as nações podem e devem, finalmente, buscar sua verdadeira salvação". Fundamentalmente, foi por causa desta nova Fé, esta "inestimável jóia da Revelação Divina que encerra o Espírito de Deus e encarna Seu Desígnio para toda a humanidade nesta era", como Shoghi Effendi a descreveu, que o mundo estava "sofrendo tais agonias". O próprio Bahá'u'lláh havia dito: "O equilíbrio do mundo foi abalado através da influência vibrante desta nova e suprema Ordem Mundial." "Os sinais de caos e convulsões iminentes podem agora ser discernidos, desde que a Ordem prevalecente parece ser lamentavelmente defeituosa." "O mundo agoniza e sua agitação aumenta dia a dia. Sua face inclina-se para a desobediência e a descrença. Tal há de ser seu dilema que não seria apropriado ou conveniente revelá-lo agora. Sua perversidade continuará por muito tempo. E, quando chegar a hora marcada, aparecerá de súbito o que fará tremerem os membros do gênero humano. Então, somente então, será içado o Estandarte Divino e o Rouxinol do Paraíso cantará sua melodia." "Após algum tempo, todos os governos na terra transformar-se-ão. Opressão haverá de envolver o mundo. E após uma convulsão universal, o sol da justiça levantar-se-á do horizonte do reino invisível."

Tão extasiante, porém, é a visão do futuro que Shoghi Effendi retratou para nós em suas brilhantes palavras, que expulsa todo o medo, e o coração de todo bahá'í é inundado de tamanha confiança e felicidade que a perspectiva das maiores tribulações e privações não poderá enfraquecer sua fé ou esmagar suas esperanças. "O mundo, em verdade," escreveu Shoghi Effendi, "move-se para seu destino. A interdependência dos povos e nações da terra - não obstante o que digam ou façam os que incentivam as forças divisoras do mundo - já é fato consumado." A comunidade mundial, "destinada a emergir, cedo ou tarde, da carnificina, agonia e destruição dessa grande convulsão mundial" era a assegurada consumação da operação dessas forças. Primeiro viria a Paz Menor, estabelecida pelas próprias nações da terra ainda não conscientes da Revelação de Bahá'u'lláh. "Esse passo momentoso e histórico, envolvendo a reconstrução da humanidade, em conseqüência do reconhecimento universal de sua unidade e totalidade, conduzirá à espiritualização das massas, uma vez reconhecido o caráter da Fé introduzida por Bahá'u'lláh e admitida a verdade de suas declarações - a condição essencial àquela fusão final de todas as raças, crenças, classes e nações, o que deve assinalar o surgir de Sua Nova Ordem Mundial." Prossegue afirmando: "Então, o amadurecimento de todo o gênero humano será proclamado e celebrado por todos os povos e nações da terra. Içar-se-á, então, a bandeira da Paz Maior. Então, a soberania mundial de Bahá'u'lláh... será reconhecida, aclamada e firmemente estabelecida. Nascerá, então, uma civilização mundial, fadada a florescer e a perpetuar-se, uma civilização com uma plenitude de vida que o mundo jamais viu nem pode ainda conceber... Então, o planeta, galvanizando pela crença universal de seus habitantes em um só Deus, e pela sua lealdade a uma Revelação comum... será aclamado como o céu terrestre, capaz de cumprir aquele destino inefável que lhe foi determinado desde tempos imemoriais, pelo amor e sabedoria de seu Criador."

10
Os Escritos do Guardião

Numa era em que se joga futebol com as palavras, chutando-as para lá e para cá indiscriminadamente, sem respeito pelo seu significado ou seu emprego certo, o estilo de Shoghi Effendi sobressai com beleza deslumbrante. Sua alegria nas palavras era uma de suas características pessoais mais fortes, quer escrevendo em inglês - idioma ao qual rendera seu coração - ou na mistura do persa com o árabe, usada por ele em suas cartas circulares ao Oriente. Embora tão simples em seus gostos pessoais, ele tinha um amor inato pela riqueza que se manifesta na maneira como ele arranjava e decorava os vários Lugares Sagrados Bahá'ís, no estilo do Santuário do Báb, nas suas preferências na arquitetura e na sua escolha e combinação de palavras. Dele se poderia dizer que, conforme as palavras de um outro grande escritor, Macaulay, "escrevia em linguagem... precisa e luminosa". Diferente de tantas pessoas, Shoghi Effendi escrevia o que queria dizer e queria dizer exatamente o que escrevia. É impossível eliminar uma palavra sequer, de suas sentenças, sem sacrificar uma parte do sentido - tão conciso, tão expressivo é seu estilo. Um livro como A Presença de Deus é uma verdadeira essência das essências; desta história centenária de um só volume, cinqüenta livros facilmente poderiam ser escritos e nenhum deles seria superficial ou pobre de material, tão rica é a fonte fornecida pelo Guardião, e tão condensado o tratamento que lhe dá.

A linguagem em que Shoghi Effendi escrevia, quer para os bahá'ís ocidentais ou para os orientais, estabeleceu um padrão que deveria efetivamente impedir que eles descessem ao nível dos letrados incultos, o que infelizmente muitas vezes caracteriza a presente geração no que diz respeito ao uso e à apreciação das palavras. Ele nunca se comprometia com a ignorância de seus leitores; esperava que eles, na sua sede por conhecimento, vencessem sua ignorância. Shoghi Effendi escolhia, tanto quanto podia, o veículo certo para seu pensamento e não se importava se a pessoa média conhecia ou não a palavra que ele usava; afinal, pode-se averiguar o que se não conhece. Embora ele tivesse tão brilhante domínio da língua, freqüentemente reforçava seu conhecimento pela certeza procurando no grande dicionário Webster a palavra que ele planejava usar. Muitas vezes, uma das minhas funções era passá-lo para ele, e era um volume realmente pesado! Não raramente, sua escolha era a terceira ou a quarta aplicação da palavra, às vezes aproximando-se do arcaico, mas era a palavra exata que transmitia o que ele queria dizer e, portanto, ele a usava. Lembro-me que minha mãe disse uma vez que, tornar-se bahá'í era como entrar numa universidade, só que nunca se parava de aprender, nunca se graduava. Em suas traduções dos escritos bahá'ís e, acima de tudo, em suas próprias composições, Shoghi Effendi estabeleceu um padrão que educa e eleva o nível cultural do leitor, ao mesmo tempo em que nutre sua mente e sua alma com pensamentos e a verdade.

Desde o começo até o fim de minha vida com o Guardião, eu estava quase sempre presente quando ele traduzia ou escrevia seus livros, suas longas cartas e cabogramas em inglês. Nada havia de extraordinário nisso; nessas ocasiões, ele gostava de ter alguém no seu aposento para ouvir o que ele escrevia. Seu método de composição era novo e fascinante para mim. Ele escrevia dizendo as palavras em voz alta enquanto registrava. Penso que esse hábito no inglês foi adotado do persa; a boa composição persa ou árabe não só pode, como deve, ser entoada. Podemos lembrar o Báb, revelando Qayyúmu'l-Asmá' em voz alta, e Bahá'u'lláh revelando Suas Epístolas do mesmo modo. Este era o costume do Guardião quando escrevia em inglês, bem como em persa, e creio que é por isso que até as suas sentenças longas e complicadas parecem mais fluentes e inteligíveis quando lidas em voz alta. O comprimento de algumas dessas sentenças era às vezes motivo de comentários da minha parte; Shoghi Effendi costumava então levantar a cabeça e, com aqueles maravilhosos olhos cuja cor e expressão mudavam com tanta freqüência, olhar para mim num toque de desafio e rebeldia - mas ele não encurtava sua sentença! Posso recordar de apenas uma ocasião em que ele admitiu, com lástima, que a sentença era longa, mas nem assim ele a modificou. A sentença dizia o que ele queria e da maneira que ele queria dizer! Foi pena ser tão longa! Por outro lado, ele gostava de usar, algumas vezes, uma estrutura de sentenças muito curtas, que seguiam uma após a outra como os estalos de um chicote. Ele chamava minha atenção para essa variação no estilo, mostrando como cada método era efetivo, como a combinação dos dois enriquecia o todo e atingia objetivos diferentes. Ele gostava muito do artifício da aliteração,* muito usado nas línguas orientais mas já não tão comum no inglês. Um excelente exemplo disso é fornecido por esta sentença de um de seus cabogramas, na qual são repetidas palavras que começam com "p": "Time pressing opportunity priceless potent aid providentially promised unfailing." [Tempo pressionando oportunidade preciosíssimo potente auxílio providencialmente prometido infalível]

*Repetição de fonemas idênticos ou parecidos no início de várias palavras na mesma frase ou verso, visando obter efeito estilístico na prosa poética e na poesia - Dicionário Houaiss. (n.r.)

O método de composição empregado por Shoghi Effendi era como o de um mosaicista, que cria seu desenho com peças separadas, claramente definidas; cada palavra tinha seu próprio lugar e, se ele se deparava com uma sentença difícil, não a modificava de modo a acomodar um pensamento que gramaticalmente não se encaixasse na estrutura da sentença, mas persistia, às vezes literalmente por horas, até que pelo menos eu estivesse exausta pela sua repetição verbal da frase, enquanto ele lutava para subjugá-la e colocá-la do modo que queria, experimentando uma peça após a outra do seu mosaico, até que tivesse resolvido seu problema! Raramente me lembro de ele ter abandonado uma sentença e a começado de novo em outra forma. Outra característica de sua escolha das palavras era que ele não via razão para abandonar ou evitar uma palavra devido à má aplicação ou abuso popular de um pensamento transmitido por uma palavra, mas ele a usava em seu significado próprio e exato. Não tinha medo de falar em "conversão" de pessoas à Fé, ou de chamá-las de "convertidos"; elogiava o "zelo missionário" dos pioneiros em "campos missionários estrangeiros" e se referia a seu "empreendimento missionário transatlântico"; ao mesmo tempo, deixava claro que não temos padres, nem missionários e que não fazemos prosélitos.

Lembro-me que uma vez Shoghi Effendi me deu um artigo de um jornal britânico para ler que chamava atenção para a linguagem burocrática que estava se desenvolvendo, especialmente nos Estados Unidos, na qual mais e mais palavras são usadas para transmitir cada vez menos e que apenas produzem uma tremenda confusão. Shoghi Effendi apoiou entusiasticamente o artigo! Palavras eram para ele instrumentos de grande precisão. Recordo também de uma distinção especialmente bonita que ele fez ao falar a alguns peregrinos na Casa dos Peregrinos Ocidentais. Ele disse: "Somos ortodoxos, porém não fanáticos."

Muitas vezes, a linguagem do Guardião atingia grandes alturas poéticas. Passagens como estas, que reluzem com o brilho de vitral de catedral, atestam isso! "Ao acompanharmos os episódios do primeiro ato de tal sublime drama, ressalta à nossa observação a figura de sua Principal Personagem, o Báb, surgindo qual meteoro no horizonte de Shíráz, cruzando os sombrios céus da Pérsia, de norte a sul, ofuscando-se com trágica brevidade e extinguindo-se numa chama de glória. Vemos Seus satélites, uma galáxia de heróis inflamados no amor Divino, alçados no mesmo horizonte, irradiarem aquela luz incandescente, consumirem-se a si próprios com a mesma rapidez e contribuírem, por sua vez, com mais um impulso para o sempre crescente desenvolvimento da nova Fé Divina." Chamou o Báb de "aquele jovem Príncipe de Glória" e descreveu a cena de Seu sepultamento no Monte Carmelo: "quando tudo terminou e os restos mortais do Profeta-Mártir de Shíráz, afinal, estavam seguramente depositados, para seu descanso eterno no seio da sagrada montanha de Deus, 'Abdu'l-Bahá, após haver posto de lado o turbante, removido os sapatos e despido o manto, curvou-Se sobre o sarcófago ainda aberto, com Seu cabelo prateado flutuando em volta da cabeça, estando transfigurada e luminosa Sua face, descansou Sua fronte na beira do ataúde e, em soluços, pranteou de tal modo que todos os presentes choraram com Ele." "O segundo período... deriva sua inspiração da figura augusta de Bahá'u'lláh, preeminente em santidade, imponente na majestade de Sua força e poder, inatingível no brilho transcendente de Sua glória." "Em meio às sombras que mais e mais se juntam ao nosso redor, podemos discernir os lampejos da soberania celestial de Bahá'u'lláh aparecendo, vacilantes, no horizonte da história." Ou estas palavras dirigidas à Folha Mais Sagrada: "Nos mais íntimos recônditos de nossos corações, ó Tu excelsa Folha do Paraíso de 'Abhá, nós te erguemos uma mansão brilhante que a mão do tempo jamais poderá minar, um santuário que há de emoldurar eternamente a inigualável beleza de teu semblante, um altar no qual o fogo consumidor de teu amor arderá para sempre". Ou estas palavras que ilustram a punição de Deus neste dia: "Em alto mar, no ar, na terra, na frente de batalha, nos palácios dos reis e nas cabanas dos camponeses, nos santuários mais reverenciados, quer seculares ou religiosos, as evidências do ato retribuidor de Deus e de Sua disciplina misteriosa, estão manifestas. O pesado tributo a ser pago aumenta constantemente - um holocausto que não poupa nem príncipe nem camponês, nem homem nem mulher, nem jovem nem velho." Ou estas palavras concernentes à atitude dos verdadeiros servos da Causa: "De tais homens e mulheres se pode dizer, em verdade, que para eles 'cada país estrangeiro é uma pátria, e cada pátria, um país estrangeiro'. Pois sua cidadania... está no Reino de Bahá'u'lláh. Embora consintam em desfrutar ao máximo dos benefícios temporais e das alegrias efêmeras que esta vida terrena pode conferir, embora ansiosos por participar de qualquer atividade que possa conduzir à riqueza, à felicidade e paz dessa vida, jamais podem esquecer que isto constitui não mais que uma etapa transitória e muito curta de sua existência, que aqueles que a vivem são apenas peregrinos e caminhantes cuja meta é a Cidade Celestial e cujo lar é o País de infalível alegria e esplendor."

Em parte alguma, o poder descritivo da pena de Shoghi Effendi é mais evidente do que nas preciosas frases que ele escolheu em inglês para expressar a posição de Bahá'u'lláh. Todas as seguintes palavras são citadas dos escritos do Guardião, selecionadas de várias fontes, mas reunidas aqui para mostrar seu extraordinário âmbito e poder: o "Pai Eterno", o "Senhor dos Exércitos", o "Mais Grandioso Nome", a "Beleza Antiga", a "Pena do Altíssimo", o "Nome Oculto", o "Tesouro Preservado", a "Mais Grandiosa Luz", o "Mais Grandioso Oceano", o "Supremo Céu", a "Raiz Preexistente", o "Sol do Universo", o "Juiz", o "Legislador", o "Redentor de toda a humanidade", o "Organizador de todo o planeta", o "Unificador dos filhos dos homens", o "Inaugurador do há tanto esperado milênio", o "Criador de uma Nova Ordem Mundial", o "Fundador da Suprema Paz", a "Fonte da Suprema Justiça", o "Proclamador da maturidade de toda a raça humana", o "Inspirador e Fundador de uma nova civilização mundial". Ou tomemos a tradução magistral que Shoghi Effendi fez de títulos como estes, referindo-se a 'Abdu'l-Bahá: "A Mola Principal da Unidade do Gênero Humano", a "Insígnia da Suprema Paz", o "Braço da Lei de Deus".

Quando os seguidores americanos de 'Abdu'l-Bahá se levantaram para a execução de Seu Plano, Shoghi Effendi disse que eles estavam "envolvendo toda a terra com um cinturão de glória", saindo para "blasonar sobre seus escudos os emblemas de novas vitórias". Na última Mensagem do Ridván ao mundo bahá'í, ele exorta os seguidores de Bahá'u'lláh em palavras de incomparável esplendor: "Vestindo a armadura de Seu amor, empunhando firmemente o escudo de Seu poderoso Convênio, montados no corcel da constância, erguendo a lança da Palavra do Senhor dos Exércitos e com confiança inquestionável em Suas promessas como a melhor provisão para sua jornada, que volvam suas faces para aqueles campos que ainda não foram explorados e dirijam seus passos àquelas metas ainda não atingidas, certos de que Aquele que os levou à realização de tais triunfos e os capacitou a acumularem tais prêmios em Seu Reino, continuará a ajudá-los a enriquecer sua herança espiritual a um grau que nenhuma mente finita pode imaginar ou coração humano, perceber."

Há tantos aspectos na vida literária de Shoghi Effendi. Posso mencionar, por um lado, os livros (fora seu bem-amado Gibbon) que ele lia por prazer durante os vinte anos que estive com ele, embora na juventude ele tivesse lido muito extensamente sobre grande número de assuntos. Isto, sem dúvida, é devido ao fato de que, em 1937, quando entrei em minha nova vida em Haifa, ele já estava sobrecarregado com a sempre crescente quantidade de material que tinha que ler, relacionado ao seu trabalho, como boletins de notícias, as atas das Assembléias Nacionais, circulares e correspondências. Até o fim da vida, se ele não lesse ao menos duas ou três horas por dia, de modo algum conseguia continuar seu trabalho; lia em aviões, trens, jardins, à mesa, quando estávamos fora de Haifa, e, em Haifa, hora após hora, sentado à sua escrivaninha, até que ficava tão cansado que ia para a cama, mas continuava, sentado, lendo. Assiduamente ele se mantinha a par das notícias e tendências políticas do mundo, por meio de seu Times, The Jerusalem Post e, às vezes, dos bem conhecidos jornais europeus, Journal de Genève e a edição do New York Herald Tribune publicada em Paris. Antes da guerra, ele tinha a assinatura de uma revista inglesa, The Nineteenth Century, que trazia muitos artigos sobre atualidades, e era a única que eu sei que lia, mas, após a guerra, ele achou que seu alto padrão declinara e deixou de assiná-la. Muito freqüentemente, a palavra "eliminar" estava em seus lábios; ele eliminava as coisas não-essenciais, livrava-se rapidamente das coisas secundárias, bania os restos triviais da vida. Ele costumava aplicar esse processo de eliminação ao seu jornal. Sabia exatamente quais páginas do The Times continham as notícias que ele queria ver - os líderes, as notícias mundiais e, acima de tudo, os editoriais - nestes, ele passava a vista rapidamente e então recortava os artigos que queria examinar ou ler cuidadosamente e jogava fora o resto - ele o havia eliminado! Não é necessária muita imaginação para compreender que isso, além de ser eficiente, era o reflexo de uma mente profundamente exausta, que tentava afastar tantas cargas. Até um pedaço de papel a mais havia se tornado uma carga. Com grande dificuldade é que, algumas vezes, eu conseguia ver um jornal inteiro ou ler qualquer coisa além das tiras compridas dos recortes que o Guardião passava para mim, dizendo: "Leia isto, é interessante", e eu me defrontava com um debate na Câmara dos Comuns ou algum artigo perspicaz sobre a situação política, as tendências econômicas ou sociais da época, questões religiosas, e assim por diante, que recheavam minha carteira ou meu bolso, aguardando um momento distante em que eu pudesse achar tempo para lê-los.

O método de escrever do Guardião era interessante: ele não gostava de pedaços grandes de papel e usualmente escrevia todos os seus livros e longos comunicados em pequenos blocos pautados. Escrevia toda a composição à mão; se o primeiro rascunho ficava emendado demais, ele se sentava pacientemente e o copiava todo. Datilografava todos os seus manuscritos, a dois dedos, numa pequena máquina portátil, fazendo quaisquer modificações adicionais enquanto escrevia. Não é de se admirar, portanto, que dessa maneira ele tenha produzido obras tão altamente esmeradas como as que temos de sua pena. No persa, ele entregava ao seu secretário um original limpo, escrito por ele, para ser copiado com bela caligrafia, e essa cópia então Shoghi Effendi enviava a Teerã. Sempre me interessou notar que, depois de se tornar Guardião, sua letra em inglês desenvolveu uma ligeira inclinação para a esquerda; era sempre forte, bem arredondada e legível. Sua letra em persa era linda. Há vários estilos de caligrafia persa e árabe mas o seu é uma variação de "Shikastih Nasta'líq"; tem um encanto e uma originalidade, uma graça e força próprios. Deve-se lembrar que a caligrafia era a mais elevada das artes gráficas nos países islâmicos e uma bela letra era a distinção par excellence para o homem oculto. O Báb, Bahá'u'lláh e 'Abdu'l-Bahá, todos tinham uma caligrafia maravilhosa e nesse sentido Shoghi Effendi também se provou digno de sua herança.

Contudo, ele não era demasiado exigente; quando examinava as muitas páginas de minhas cartas, às vezes longas, às Assembléias Nacionais, ele colocava uma série de "X" e "XX" e até mesmo "XXX" nas margens para eu acrescentar uma palavra ou um pensamento omitido. Então, no final da parte da secretária, ele começava seu pós-escrito do próprio punho e usualmente em volta de todas as margens, de página em página, em estilo verdadeiramente oriental. O que estou tentando dizer é que, se havia erros corrigidos por todo o texto de uma carta importante em inglês, isso não o incomodava em absoluto, contanto que o pensamento estivesse aí, claro como cristal.

A suprema importância das comunicações e traduções inglesas de Shoghi Effendi jamais poderá ser suficientemente enfatizada, em vista de sua função como intérprete único e autorizado dos Escritos Sagrados, conforme designado por 'Abdu'l-Bahá em Seu Testamento. Há muitos casos em que, devido à inexatidão na construção das frases persas, poderia haver ambigüidade na mente do leitor quanto ao sentido. Um inglês cuidadoso e correto, em primeiro lugar sem margem para ambigüidades, combinado com a mente brilhante de Shoghi Effendi e seu poder como intérprete da Palavra Sagrada, tornou-se o que bem poderíamos chamar de veículo cristalino dos Ensinamentos. Muitas vezes, recorrendo-se à tradução de Shoghi Effendi para o inglês, o sentido original do Báb, de Bahá'u'lláh ou de 'Abdu'l-Bahá se torna claro e é assim salvaguardado contra uma interpretação errônea no futuro. Ele era meticuloso no traduzir e queria ter absoluta certeza de que as palavras que usava em inglês transmitiam o pensamento e as palavras originais, e não se desviavam deles. É necessário que se tenha domínio do persa e do árabe para entender corretamente o que ele fez. Por exemplo, ao ler o original, verifica-se que uma palavra árabe é suscetível de ser traduzida para duas ou mais palavras inglesas; assim, Shoghi Effendi, na construção de suas sentenças no inglês, poderia usar "power", "strength" e "might" alternadamente,* para traduzir essa palavra, escolhendo a nuança exata do sentido que melhor se adaptasse, evitar a repetição e dar mais cor à sua tradução sem sacrificar o verdadeiro sentido, dando, ao contrário, maior realce ao verdadeiro sentido. Ele dizia que sinônimos árabes usualmente significavam a mesma coisa, mas que em inglês tinham sempre uma ligeira sombra de diferença, o que tornava possível transmitir o pensamento com maior exatidão. Ele dizia também que achava alguns dos escritos altamente místicos e poéticos de Bahá'u'lláh impossíveis de serem traduzidos, porque se tornariam tão exóticos e floridos que a beleza e sentido originais seriam completamente perdidos e transmitiriam uma impressão errada. Uma vez - só uma vez, infelizmente, em nossa vida ocupada e atribulada - Shoghi Effendi me disse que agora eu sabia bastante persa para compreender o original e leu um parágrafo de uma das Epístolas de Bahá'u'lláh, dizendo: "Como se pode traduzir isto para o inglês?" Por cerca de duas horas tentamos - isto é, ele tentava e eu fracamente o seguia. Quando eu sugeria uma sentença, que realmente transmitia o sentido, Shoghi Effendi dizia: "Ah, mas isso não é tradução! Não se pode mudar e omitir palavras do original, e apenas colocar o que lhe parece significar no inglês." Frisou que um tradutor deveria ser absolutamente fiel a seu texto original e que, em alguns casos, isso significava que o resultado em outro idioma fosse feio e, até, sem sentido. Como Bahá'u'lláh é sempre sublimemente belo em Suas palavras, isso não poderia ser feito. Ao final, ele desistiu, e disse que isto jamais poderia ser devidamente traduzido para o inglês, e que essa passagem estava longe de ser uma das mais abstrusas e místicas obras de Bahá'u'lláh.

*As três palavras podem ser traduzidas como "força", "poder". (n.r.)

Sei de apenas uma vez em que Shoghi Effendi disse ter modificado ligeiramente algo que existia no original e foi quando, imediatamente após o falecimento do Mestre, traduziu o Seu Testamento. A sentença em questão, referindo-se à Casa Universal de Justiça, diz: "o Guardião da Causa de Deus é seu sagrado dirigente e o distinto membro vitalício dessa entidade". Shoghi Effendi disse que a verdadeira palavra que fora substituída pela expressão mais suave, "membro vitalício", era "irremovível". Nada poderia melhor revelar sua profunda humildade do que ter suavizado o tom de sua própria relação com a Casa Universal de Justiça.

O Guardião era extremamente cauteloso em tudo que dizia respeito à palavra original e nunca explicava ou comentava um texto que lhe fosse submetido em inglês (quando não era sua própria tradução) antes de verificá-lo no original. Ele era muito cuidadoso com as palavras que usava ao comentar vários acontecimentos na Fé, recusando, por exemplo, designar uma pessoa como mártir - que é um grau - só por ter sido morta, e, algumas vezes, designando como mártires pessoas que não foram mortas, mas a natureza de cuja morte ele associava ao martírio.

Outro aspecto altamente importante de posição divinamente conferida a Shoghi Effendi, a de intérprete dos Ensinamentos, foi que ele não só protegia a Palavra Sagrada contra a interpretação errônea, mas também preservava cuidadosamente a importância dos diversos aspectos dos Ensinamentos e seu inter-relacionamento, e salvaguardava a posição própria de cada uma das três Figuras Centrais da Fé. Um exemplo interessante disso aparece numa carta de A. L. Nicolas, o erudito francês que traduziu o Bayán do Báb para o francês e que poderia ser corretamente descrito como bábí. Durante muitos anos, ele tinha a impressão de que os bahá'ís haviam ignorado a grandeza do Báb e lhe menosprezado o grau. Ao descobrir que Shoghi Effendi, em seus escritos, exaltava o Báb, perpetuara Sua memória com um livro como A Narrativa de Nabíl, e que repetidamente traduzia Suas palavras para o inglês, sua atitude mudou completamente. Numa carta a um dos antigos crentes da França, ele escreveu: "Agora posso morrer tranqüilamente... Glória a Shoghi Effendi, que acalmou minha tormenta e minha ansiedade, glória a ele, que reconhece o valor de Siyyid 'Alí Muhammad, chamado o Báb. Estou tão contente que beijo suas mãos que traçaram meu endereço no envelope que me trouxe a mensagem de Shoghi. Agradeço-vos, Mademoiselle, agradeço-vos do fundo de meu coração".

Shoghi Effendi era tolerante e prático diante de seu próprio trabalho. Durante alguns anos ele enviava suas traduções e manuscritos a George Townshend, cujo conhecimento e domínio do inglês ele admirava profundamente. Em uma de suas cartas a ele, Shoghi Effendi escreveu: "Sou-lhe profundamente grato pelas sugestões muito valiosas, detalhadas e cuidadosas que me deu..." Horace Holley intitulava muitas das cartas circulares de Shoghi Effendi ao Ocidente e também inseria subtítulos por todo o texto, escolhendo frases do escrito do Guardião que fossem mais descritivas do assunto geral. Se isto facilitava a leitura de suas obras, tornando-as mais inteligíveis para o crente americano comum, Shoghi Effendi não via objeção. O próprio Horace era escritor e os títulos que dava aos comunicados do Guardião não só serviam para identificá-las mas também dramatizavam sua mensagem, cativando a imaginação.

Um dos primeiros atos do ministério de Shoghi Effendi foi começar a circular suas traduções dos Sagrados Escritos: um ano e dez dias após a leitura do Testamento de 'Abdu'l-Bahá, ele escreve à Assembléia Nacional americana: "É um grande prazer para mim, partilhar convosco a tradução de algumas das orações e Epístolas do nosso bem-amado Mestre..." e ele prossegue, acrescentando que está confiante "que, no decorrer do tempo, poderei lhes enviar com regularidade traduções corretas e fidedignas... as quais desdobrarão ante os seus olhos uma nova visão de Sua Missão Gloriosa... e lhes darão um vislumbre do caráter e significado de Seus Ensinamentos Divinos." Muitas e muitas vezes, nas suas primeiras cartas a diferentes países, ele menciona a tradução anexa de alguma coisa que está mandando para os bahá'ís. Um mês depois, em outra carta à América, ele diz: "Estou anexando também minha tradução revisada de As Palavras Ocultas de Bahá'u'lláh, tanto árabe como persa, e espero enviar-lhes mais de Suas Palavras e Seus Ensinamentos no futuro." Em 27 de abril do mesmo ano, Shoghi Effendi escreve novamente à Assembléia Nacional americana: "Estou anexando também minha tradução de várias passagens do Kitáb-i-Aqdas, que podem tomar a liberdade de circular entre os amigos". Em novembro do mesmo ano, escreveu àquela mesma Assembléia que estava enviando "termos orientais transliterados... confiante de que os amigos não acharão suas energias e paciência sendo postas à prova pela escrupulosa adesão a um código autorizado, embora arbitrário, para a ortografia de termos orientais." Não há dúvida de que a transliteração é enfadonha e, muitas vezes, confusa, mas o que a pessoa comum não compreende é que, por meio da transliteração, a palavra exata é fixada e aqueles que estiverem familiarizados com o sistema sabem imediatamente qual era a palavra original, porque podem reconstruí-la no árabe ou no persa. Tal exatidão é muito importante para estudiosos e críticos da Fé. Também serve o fim de eliminar modos variados e confusos de soletrar a mesma palavra.

É interessante notar que o próprio Shoghi Effendi, na citação acima, escreve Kitáb-i-Aqdas mais ou menos foneticamente, porque não havia introduzido ainda o sistema de transliteração que posteriormente adotou. Uma palavra deveria ser dita acerca deste Livro Sacratíssimo, pois, embora seja a fonte das Leis de Bahá'u'lláh, é um volume pequeno e contém, na sua maior parte, outros assuntos. Na época de seu falecimento, Shoghi Effendi já havia dado aos bahá'ís do Ocidente, em excelente inglês, a maioria das passagens deste Livro, bem como todas as leis que ele considerava aplicáveis naquele tempo para os bahá'ís que viviam em sociedades não-bahá'ís. Ele não só traduzia e fazia circular passagens dos Ensinamentos, mas também se certificava de que os crentes, por excesso de zelo e falta de previsão, não levariam a um extremo o modo de editar e imprimir compilações bahá'ís. Em resposta a certas propostas feitas por um dos amigos sobre a publicação de um abrangente livro de orações, ele escreveu à pessoa que lhe havia transmitido esta sugestão: "Concordo com ele contanto que a classificação não seja levada além do que Bahá'u'lláh prescreve; de outro modo, nós nos precipitaremos num credo rígido e inflexível."

Escrever, traduzir e promulgar os livros bahá'ís eram um dos maiores interesses do Guardião, um dos quais nunca se cansava e que ativamente apoiava. A situação ideal é as comunidades locais e nacionais custearem suas próprias atividades, mas o Guardião compreendia plenamente que nesta Época Formativa de nossa Fé isso nem sempre era possível e, no decorrer dos anos, dos fundos ao seu dispor ele ajudava substancialmente, financiando a tradução e a publicação da literatura bahá'í. Em períodos de emergência, quando a realização de metas almejadas estava em jogo, Shoghi Effendi supria a brecha; assim, num só ano ele ajudou a Assembléia Nacional da Índia em seu programa de tradução e publicação com contribuições de mais de duas mil libras. No momento do término da Conferência Intercontinental americana, que abria a Cruzada de Dez Anos, Shoghi Effendi telegrafou à Assembléia Nacional americana: "Solicito medidas imediatas publicação folhetos idiomas designados à América." Dois dias depois, telegrafa a mesma coisa ao Comitê Europeu de Ensino, apenas mencionado "idiomas europeus". Mensagens semelhantes foram à Índia e à Grã Bretanha, e, a esta última, ele assegura o envio de mil libras para ajudá-los. Desde os primeiros dias de seu ministério, ele estava constantemente preocupado com a ampla difusão da literatura bahá'í em diversos idiomas e, sozinho, foi responsável pela maioria das traduções empreendidas durante os trinta e seis anos de sua Guardiania. Ele aproveitava toda oportunidade. Uma carta a um polonês que estava estudando os Ensinamentos na Polônia é típica: Shoghi Effendi diz que está lhe enviando as palavras da Rainha Maria da Romênia relativas à Fé e pergunta se ele poderá traduzi-las para o polonês e mandá-las de volta para ele! Isto foi em 1926, mas o mesmo entusiasmo e perseverança caracterizaram seus esforços nesse campo até o fim de sua vida.

Além disso, durante os primeiros anos de sua Guardiania, quando o Esperanto estava sendo difundido com grande rapidez, especialmente na Europa, ele dedicou muita atenção em encorajar a publicação de uma Gazeta Esperantista Bahá'í, explicando ao editor que seu interesse era devido ao "meu grande desejo de promover, nas partes do mundo bahá'í em que as presentes circunstâncias permitirem, o estudo de uma língua internacional".

O Guardião colecionava literatura de todos os idiomas em Haifa, colocando os livros em sua própria biblioteca, nas bibliotecas das duas Casas de Peregrinos, na Mansão de Bahá'u'lláh em Bahjí e nos Arquivos Internacionais. Em relação a isto, é interessante notar o modo como ele os dispunha, pois eu nunca havia visto fazer assim: ele tinha, digamos, um grande número de volumes parcamente encadernados de alguma edição barata, em cor cinza, e outro grande número em azul ou outra cor. Com estes, ele enchia as prateleiras, formando padrões, cinco vermelhos, dois azuis, cinco vermelhos e assim por diante, usando variação na cor e no número para dar maior realce ao efeito geral de uma estante que de outro modo apresentaria um aspecto monótono e de pouco interesse.

Numa carta a Martha Root, em 1931, ele diz: "Tenho agora em meu quarto exemplares de sete traduções impressas" (eram do compêndio do Dr. Esslemont) e a exorta a se apressar com mais traduções, dizendo: "Estarei mais que satisfeito em ajudar com a publicação final destes." Um ano depois, escrevendo a Siyyid Mustafá Roumie, na Birmânia,* o Guardião mostra claramente a satisfação que estas novas publicações lhe trazem. Ele diz que está "... anexando a quantia de nove libras para ajudar e apressar a completar a tradução do livro em birmanês. Dezesseis traduções publicadas já foram reunidas e colocadas na Mansão de Bahjí, junto ao Seu sagrado sepulcro, e agora o livro está sendo traduzido em mais dezesseis línguas, incluindo o birmanês." Em 1935, ele se encontra em posição de informar esse mesmo amigo de que "há trinta e uma versões publicadas do mesmo já em circulação em todo o mundo bahá'í".

*País que atualmente se chama Myanma. (n.r.)

Há inúmeros cabogramas nos arquivos de Shoghi Effendi, tais como estes a Asgarzadeh, em Londres: "Queira telegrafar custo mínimo publicação livro de Esslemont em russo"; tendo, evidentemente, recebido resposta, telegrafa outra vez, dizendo: "Enviando quarenta libras. Acho quinhentos suficientes. Primeira parte do manuscrito russo mandada hoje. Restante será enviado breve. Aprecio profundamente sua colaboração constantes serviços." A Ouskouli, em Xangai, ele telegrafou: "Telegrafe data publicação livro Esslemont. Envie cinqüenta exemplares. Amor." De vez em quando, em sua vida cheia e preocupada, Shoghi Effendi fazia uma avaliação e decidia que algum aspecto do trabalho necessitava de um empurrão imediato e enérgico. Um exemplo disto está em quatro cabogramas escritos, um após outro, no mesmo dia, em 1932, a Martha Root, na Europa, à América, Nova Zelândia e Birmânia: "Sinto profundamente necessidade pronta tradução livro Esslemont para tcheco, húngaro, romeno, grego como campanha intensiva preliminar ensino Europa. Ansioso auxiliar financeiramente aguardando orçamentos. Amor"; "Sinto fortemente desejável empreender prontamente tradução livro Esslemont para braile. Queiram telegrafar se viável. Amor"; "Informem B____ assegurar pronta tradução livro Esslemont maori"; Exorto empreender prontamente tradução livro Esslemont para birmanês. Amor." Impaciente com a falta de resultados em vários projetos que ele iniciara, encontramos estes cabogramas, mais tarde, naquele ano: "Se livro Esslemont já publicado em francês, telegrafem"; "Ansiosamente esperando versão em curdo livro Esslemont."

Shoghi Effendi encorajava vários bahá'ís a escreverem acerca da Fé. A uma crente inglesa, Srta. Pinchon, ele telegrafou, em 1927: "Seu livro admirável apresentação, excelente estilo. Solicito apressar publicação mandando dezenove libras"; a Horace Holley, ele telegrafou, em 1926: "Queira mandar cem exemplares seu livro. Afetuosamente." Shoghi Effendi não só pagava a publicação de livros bahá'ís, mas também, muitas vezes, os encomendava. Telegrafou à América: "Queiram mandar imediatamente por cinqüenta dólares edição mais barata livro Esslemont. Enviando cheque."

Fatos e eventos são mais ou menos inúteis, a não ser que sejam vistos na devida perspectiva, a não ser que se aplique visão à sua interpretação. Um dos mais notáveis aspectos do gênio de Shoghi Effendi era seu modo de capturar o significado de uma ocorrência, de um fato isolado, em meio à confusão dos despropósitos associados ao desenvolvimento internacional da Causa e colocá-los em seu contexto histórico, focalizando neles a luz de sua mente avaliadora e nos fazendo entender o que estava acontecendo e o que significavam agora e para sempre. Não era algo estático, um quadro de figuras e formas, mas, antes, uma descrição em que um leviatã se movia num oceano - o leviatã dos movimentos coordenados dentro da comunidade dos seguidores de Bahá'u'lláh movendo-se no oceano de Sua Dispensação. Uma Assembléia era formada, alguém morria, um certificado era concedido por alguma obscura entidade governamental - em si, fatos e acontecimentos isolados - mas aos olhos de Shoghi Effendi, eram partes de um padrão, e ele nos fez ver também esse padrão sendo tecido diante de nossos olhos. Nos volumes do The Bahá'í World, o Guardião fez isto não só para aos crentes mas para o público em geral. Ele dramatizou o progresso da Fé e fez com que uma massa de fatos dispersos e fotografias sem relação atestassem a realidade da reivindicação dessa Fé de ser de âmbito mundial e toda abrangente.

É interessante notar que a verdadeira sugestão para um volume do tipo do The Bahá'í World veio a Shoghi Effendi de Horace Holley numa carta escrita por ele em fevereiro de 1924 - embora eu não tenha dúvida de que a amplitude de visão do jovem Guardião e a configuração que ele já estava dando ao trabalho da Causa em suas mensagens ao Ocidente, operando na mente criativa de Horace, é que o estimularam a conceber isso. Shoghi Effendi aproveitou essa idéia e, daí em diante, Horace, como escritor talentoso e em sua qualidade de Secretário da Assembléia Espiritual Nacional da América, tornou-se o instrumento primário de Shoghi Effendi em fazer do The Bahá'í World o livro extraordinário e incomparável que veio a ser. O Volume I, publicado em 1925 e chamado de Bahá'í Year Book [Anuário Bahá'í] - que abrangia o período de abril de 1925 a abril de 1926 e continha 174 páginas - recebeu seu título permanente no Volume II, The Bahá'í World, a Biennial International Record [O Mundo Bahá'í, um Memorial Internacional Bienal], sugerido por essa Assembléia Nacional e aprovado por Shoghi Effendi. Na época do falecimento do Guardião, doze volumes haviam sido publicados, sendo o maior com mais de mil páginas. Embora estes fossem preparados sob a supervisão da Assembléia Nacional americana, publicados por seu Comitê de Publicações, compilados por uma equipe de redatores e dedicados a Shoghi Effendi, seria mais condizente com os fatos chamá-los de Livro de Shoghi Effendi. Ele mesmo agia como redator-chefe; a tremenda quantidade de material contida em cada volume lhe era mandada pela Assembléia americana, com todas as fotografias, antes de sua publicação, e era sua a decisão final sobre o que deveria ser incluído e o que, omitido. Como seis desses livros foram publicados durante o período em que tive o privilégio de estar com ele, eu podia observar como ele os editava. Com sua infinita capacidade para o trabalho, Shoghi Effendi examinava os enormes pacotes de papéis e fotografias que lhe eram remetidos, eliminando o material mais fraco e irrelevante; as diversas seções, seguindo o índice que ele mesmo fizera, eram preparadas e colocadas de lado, até que o manuscrito inteiro ficasse pronto para ser mandado de volta à América para publicação. Ele sempre deplorava o fato de o material não ser de um padrão mais elevado. É somente por causa de sua determinação e perseverança que os volumes do The Bahá'í World são tão brilhantes e marcantes. Os editores (alguns dos quais ele mesmo nomeara), lutando contra as forças da inércia que atormentam qualquer entidade que tenta atingir seus objetivos por meio de correspondência com fontes a milhares de milhas de distância, e procurando trabalhar através de órgãos administrativos muitas vezes inexperientes e ineficientes, jamais teriam conseguido reunir o material necessário sem a guia e a autoridade do Guardião por trás de seus esforços. Uma interessante faceta incidental desse trabalho é que Shoghi Effendi, após a publicação do livro, recebia todos os manuscritos originais de volta a Haifa para serem guardados no Centro Mundial.

Logo que um volume era publicado, ele mesmo começava a colecionar material para o próximo. Além dos repetidos lembretes que mandava à Assembléia Nacional americana para que fizessem o mesmo, ele enviava inúmeras cartas e cabogramas a diferentes Assembléias e indivíduos. Num dia, por exemplo, Ele telegrafou a três Assembléias Nacionais: "Fotografia Assembléia Nacional essencial para Bahá'í World"; telegrafou a um ponto tão isolado e remoto como Xangai, em busca do material que desejava. "Manuscrito Bahá'í World enviado. Aconselho rápida cuidadosa publicação" era tipo de mensagem não raramente recebida pela Assembléia americana. Era Shoghi Effendi quem tratava da disposição do volume, mandava datilografar em Haifa o índice inteiro, intitulava todas as fotografias, escolhia os frontispícios, determinava a cor da capa para o volume a ser publicado e, acima de tudo, dava instruções precisas, em longas cartas detalhadas, a Horace Holley, escolhido por ele mesmo como a pessoa mais talentosa e bem informada para escrever o Levantamento das Correntes Atividades Bahá'ís, à qual ele dava grande importância. Ele lhe telegrafou: "Carta detalhada despachada para Levantamento Internacional confiante seu tratamento magistral dados coletados." Um exemplo de como eram compreensíveis e meticulosas as cartas de Shoghi Effendi sobre este assunto é fornecido pelos seguintes excertos de uma carta a Horace, escrita pelo secretário de Shoghi Effendi, mas quase sem dúvida ditada pelo próprio Guardião: "Shoghi Effendi examinou cuidadosamente este material, modificou, ordenou, enriqueceu, acrescentando novo material que coletou, colocou em sua forma final e enviará o manuscrito inteiro ao seu endereço antes do fim deste mês... Dedicou um tempo considerável ao seu minucioso exame e disposição, e achou este trabalho muito extenuante e árduo... Ele deseja frisar a importância de aderir estritamente à ordem adotada por ele. Espera que nada seja colocado fora de lugar, como ocorreu no volume anterior."

Shoghi Effendi escreveu a respeito do que ele próprio achava do The Bahá'í World. Já em 1927, quando apenas um volume havia sido publicado, ele escreveu a uma pessoa que não era bahá'í: "Eu o aconselharia enfaticamente a adquirir um exemplar do The Bahá'í Year Book... o qual vos dará uma apresentação clara e autorizada do objetivo, da reivindicação e da influência da Fé." Numa carta circular dirigida, em 1928, "Aos bem-amados do Senhor e servas do Misericordioso em todo o Oriente e todo o Ocidente", e dedicada inteiramente ao assunto do The Bahá'í World, Shoghi Effendi lhes informa: "Sempre, desde seu início, tomei um vivo e ininterrupto interesse pelo seu desenvolvimento, participando pessoalmente da compilação de seu material, da disposição de seu conteúdo e do minucioso exame de todos os dados que contém. Recomendo-o confiante e enfaticamente a todo seguidor atento e devotado da Fé, seja do Oriente ou do Ocidente..." Ele escreveu que seu material é de leitura aprazível, atraente, abrangente e autorizado; sua apresentação dos fundamentos da Causa, concisa e persuasiva, e suas ilustrações, inteiramente representativas; não é superado nem igualado por qualquer outra publicação bahá'í de seu gênero. Shoghi Effendi sempre o visualizou - de fato, designou-o - como eminentemente apropriado para o público, para os eruditos, para ser colocado em bibliotecas e, conforme ele o expressou, como um meio de "remover as maliciosas falsidades e os deploráveis mal-entendidos que há tanto tempo e tão lastimavelmente anuviam a Fé luminosa de Bahá'u'lláh".

Era um livro que ele mesmo freqüentemente dava de presente à realeza, a estadistas, a catedráticos, às universidades, aos redatores de jornais e não-bahá'ís em geral, enviando-o com seu simples cartão pessoal, "Shoghi Rabbani". A reação de um destes - um catedrático norte-americano - mostra muito claramente a impressão produzida pelo presente que Shoghi Effendi lhe enviara: "Dois exemplares do Bahá'í World chegaram às nossas mãos... Não sei lhe dizer o quanto aprecio a oportunidade de estudar o livro que é extremamente interessante e inspirador em todos os sentidos... Congratulo-o especialmente por desenvolver a literatura e manter vivo um espírito tão sadio entre as pessoas de muitos grupos diferentes que o têm como líder." Mas talvez a maior homenagem ao calibre dessa publicação à que Shoghi Effendi, através dos anos, dedicou tanto tempo e cuidado, seja o fato de uma rainha admirável ter escrito para esse livro tributos especiais à Fé e consentido que estes e seu próprio retrato aparecessem como frontispícios em seus vários volumes. "Não há palavras", escreveu Shoghi Effendi a Martha Root, em 1931, ao receber dela uma das homenagens especialmente escritas pela Rainha Maria, "que possam expressar adequadamente o meu prazer em receber sua carta com a preciosa apreciação que constituirá uma valiosa e notável contribuição ao próximo número do The Bahá'í World".

Recordando as realizações de Shoghi Effendi, é difícil conceber que ele realmente escreveu apenas um livro de sua própria autoria, e este foi A Presença de Deus, publicado em 1944. Mesmo O Dia Prometido Chegou, escrito em 1941, é uma carta circular de 136 páginas aos bahá'ís do Ocidente. Só este fato é uma indicação profunda do caráter extremamente modesto desse homem. Ele se comunicava com os bahá'ís porque tinha algo importante para lhes dizer, porque ele fora designado para guiá-los, por ser ele o Custódio da Fé de Bahá'u'lláh; era impelido por forças maiores do que ele próprio, sobre as quais não tinha controle. Além da torrente de cartas de comprimento moderado que dele fluía constantemente aos bahá'ís do Ocidente e às suas Assembléias Nacionais, há certas cartas circulares de uma natureza diferente, algumas dirigidas aos bahá'ís dos Estados Unidos e Canadá, algumas aos bahá'ís do Ocidente, as quais foram reunidas num só volume, sob o título de The World Order of Bahá'u'lláh [A Ordem Mundial de Bahá'u'lláh]. Os dois volumes, The World Order of Bahá'u'lláh e The World Order of Bahá'u'lláh - Further Considerations [A Ordem Mundial de Bahá'u'lláh - Considerações Adicionais] foram escritas respectivamente em 1929 e 1930; era seu propósito esclarecer aos crentes o verdadeiro significado e objetivo da Fé, seus princípios, suas implicações, seu destino e seu futuro, e guiar a comunidade em desenvolvimento e lento amadurecimento na América do Norte e no Ocidente, para uma melhor compreensão de seus deveres, seus privilégios e seu destino. Em seguida, em 1931, escreveu uma carta conhecida como The Goal of a New World Order [A Meta de uma Nova Ordem Mundial] que se ergue com um novo tom de domínio e confiança acima do nível de uma carta a colaboradores num campo comum e começa a refletir o extraordinário poder de exposição de pensamento que deve caracterizar um grande líder e um grande escritor. Numa carta do Guardião, escrita em janeiro de 1932, obviamente referindo-se a The Goal of a New World Order, seu secretário diz: "Shoghi Effendi escreveu sua última carta circular aos amigos ocidentais porque sentiu que o público deveria ser levado a entender a atitude que a Fé Bahá'í mantém face aos prevalecentes problemas econômicos e políticos; deveríamos fazer o mundo saber qual foi o verdadeiro objetivo de Bahá'u'lláh." Shoghi Effendi associou esta carta ao décimo aniversário do falecimento de 'Abdu'l-Bahá e nela trata detalhadamente da condição do mundo e da transformação que há de ser efetivada entre suas partes componentes, à luz dos ensinamentos de Bahá'u'lláh e 'Abdu'l-Bahá.

The Golden Age of the Cause of Bahá'u'lláh [A Idade Áurea da Causa de Bahá'u'lláh] seguiu-se em 1932, e foi uma exposição magistral da Divindade de Sua Fé que, segundo escreveu Shoghi Effendi, alimenta-se de "ocultos mananciais de força celestial". Mais uma vez, ele esclareceu a relação desta Dispensação com aquelas do passado e com a solução dos problemas que o mundo enfrenta atualmente. Em 1933, ele deu aos bahá'ís norte-americanos America and the Most Great Peace [América e a Suprema Paz] que tratava mormente do papel que essa parte do mundo fora destinada por Deus a desempenhar durante este período da história, rememorava as abnegadas viagens e os serviços do Mestre no Ocidente, que tanto sacrifício envolviam, e recapitulava as vitórias já obtidas para a Fé, por essa comunidade favorecida. O ponderoso tratado conhecido como A Dispensação de Bahá'u'lláh, escrito em 1934, lampejou como uma luz branca ofuscante sobre os bahá'ís. Lembro-me que, ao lê-lo pela primeira vez, tive a mais extraordinária impressão de que o universo inteiro tivesse subitamente se expandido em torno de mim e eu estivesse avistando sua deslumbrante imensidade estrelada; todas as fronteiras do nosso entendimento expandiam-se rapidamente; a glória desta Causa e a verdadeira posição de suas Figuras Centrais nos foram reveladas e nunca mais fomos os mesmos. Poder-se-ia pensar que o impacto assombroso desse comunicado do Guardião bastaria para matar a mesquinhez de alma para sempre! O que quer que Shoghi Effendi sentisse no imo do coração acerca de seus outros escritos, sei, pelos seus comentários, que de muitas maneiras ele considerava ter dito no Dispensação tudo o que tinha para dizer.

Em 1936, ele escreveu The Unfoldment of World Civilization [O Desenvolvimento da Civilização Mundial]; novamente, como ele tão freqüentemente fazia, Shoghi Effendi associa isso ao falecimento de 'Abdu'l-Bahá. Foi mais uma exposição do estado do mundo, do rápido declínio político, moral e espiritual nele evidente, do enfraquecimento tanto do Cristianismo como do Islamismo, dos riscos que a humanidade corria em sua negligência e o remédio poderoso, divino e promissor que os ensinamentos de Bahá'u'lláh tinham a oferecer. Importantes e educativas como eram, essas maravilhosas cartas do Guardião, ricas em citações pertinentes às próprias palavras de Bahá'u'lláh, traduzidas pelo Guardião e mencionadas em abundância, forneciam o sustento espiritual para os crentes, pois sabemos que a Palavra do Manifestante de Deus é o alimento da alma. Continham também inúmeras passagens, magnificamente traduzidas, das Epístolas do bem-amado Mestre. Toda essa graça que o Guardião oferecia aos crentes, banquete após banquete, nutriu e ergueu uma nova e forte geração de servidores da Fé. Suas palavras incendiavam-lhes a imaginação, desafiavam-nos a se elevarem a novas alturas e aprofundavam mais as suas raízes no solo fértil da Causa.

É realmente na década de 1930 que se nota uma transformação manifesta nos escritos de Shoghi Effendi. Com o espadim de sua pena na mão, ele agora se ergue e se revela como um gigante. Onde antes se podia discernir um certo traço de falta de autoconfiança, um eco da aflição pela qual passara após a ascensão do Mestre e a assunção de seu alto cargo, o pranto de seu coração em sua ânsia pelo falecido bem-amado de sua vida, agora o tom muda e um homem expressa sua certeza com grande confiança e força. O guerreiro agora sabe o que é a guerra. Ele fora surpreendido, assediado e ferido por inimigos malévolos e espiritualmente perversos. Algo do jovem terno e esperançoso se foi para sempre. Esta mudança manifesta-se não somente na natureza e no poder de suas diretrizes ao mundo bahá'í, na maneira como amolda a administração no Oriente e Ocidente e funde num todo as diversas e diversificadas comunidades de que se compõe, mas numa beleza e segurança de estilo que constantemente lhe acrescenta glória, à medida que os anos se passam.

Ao mesmo tempo em que estas primeiras cartas iluminadoras sobre assuntos tão importantes manavam da pena de Shoghi Effendi, ele empreendeu a tradução de dois livros. Numa carta escrita em 4 de julho de 1930, Shoghi Effendi diz: "Sinto-me extremamente cansado após um ano extenuante de trabalho, especialmente por ter acrescentado às minhas tarefas a tradução do Íqán, o qual já enviei à América." Esta foi a primeira de suas traduções de peso, a grande exposição de Bahá'u'lláh sobre a posição e a função dos Manifestantes de Deus, mais especialmente à luz dos ensinamentos e das profecias do Islã, conhecida como o Kitáb-i-Íqán ou o Livro da Certeza. Foi um acréscimo de inestimável valor para os bahá'ís ocidentais no estudo da Fé que haviam abraçado, enriquecendo infinitamente sua compreensão da Revelação Divina.

Durante aquele mesmo ano, o Guardião iniciou o trabalho no segundo livro publicado durante este período, um trabalho que não era nem uma tradução das palavras de Bahá'u'lláh, nem uma das cartas circulares de Shoghi Effendi, mas que deve ser considerado uma obra-prima literária e uma de suas mais preciosas dádivas para todo o sempre. Foi a tradução da primeira parte da narrativa compilada por um adepto contemporâneo tanto do Báb como de Bahá'u'lláh, conhecido como Nabíl, publicada em 1932, sob o título de Os Rompedores da Alvorada. Se o crítico e cético tende a menosprezar a literatura da Fé Bahá'í como sendo típica da melhor classe de livros religiosos destinados somente aos adeptos, não poderia deixar de lado um volume da qualidade da Narrativa de Nabíl, que merece ser considerado um clássico entre as narrativas épicas existentes na língua inglesa. Embora ostensivamente uma tradução do original persa, pode-se dizer que Shoghi Effendi o recriou em inglês, sendo a sua tradução comparável àquela de Rubaiyat, de Omar Khayyam, feita por Fitzgerald, que deu ao mundo um poema originalmente escrito num idioma estrangeiro numa tradução que em muitos aspectos excedia os méritos do original. Os melhores e os mais descritivos comentários sobre esta obra-prima do Guardião encontram-se nas palavras de pessoas proeminentes não-bahá'ís. O dramaturgo Gordon Bottomley escreveu: "... a convivência com ela foi uma das experiências mais notáveis de toda uma vida; mas, além disso, foi uma experiência comovente tanto em si mesma como pela luz psicológica que lança sobre a narrativa do Novo Testamento." O bem conhecido erudito e humanista Dr. Alfred W. Martin, da Sociedade de Cultura Ética, em sua carta de agradecimento a Shoghi Effendi por lhe haver mandado a Narrativa de Nabíl, escreveu: "Sua obra magnífica e monumental... será clássica e um padrão para todo o futuro. Admiro, além da conta, sua habilidade em preparar uma obra como essa para publicação ao mesmo tempo em que exerce todas as atividades que sua posição profissional normal lhe exige." Um de seus antigos professores, Bayard Dodge, da Universidade americana de Beirute, ao receber a Narrativa de Nabíl de presente do Guardião, escreveu-lhe: "... O último livro - Os Rompedores da Alvorada - é uma contribuição de especial valor. Congratulo-o sinceramente pela sua publicação. Deve ter trabalhado arduamente para produzir tão esplêndida tradução com notas e fotografias tão interessantes."

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O NOVO GUARDIÃO

Shoghi Effendi na época em que ele se tornou o Guardião da Fé Bahá'í, em 1921, tirada nos jardins da casa de 'Abdu'l-Bahá, em Haifa.

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O GUARDIÃO E BAHÍYYIH KHÁNUM

Provavelmente tirada em 1919, antes de Shoghi Effendi partir para estudar na Inglaterra.

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A CALIGRAFIA EM PERSA DO GUARDIÃO

Shoghi Effendi informa aos bahá'ís, através de uma carta ao Star of the West, que: "...não podendo agir de outro modo, por enquanto deixei os assuntos da Causa, tanto aqui como no exterior, sob... a direção da Folha Mais Sagrada". Cerca de abril de 1922.

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A CASA DE 'ABDU'L-BAHÁ

Mostra os quartos extras (na esquerda) construídos sobre o telhado pela Folha Mais Sagrada, para uso de Shoghi Effendi, em 1923.

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O SEPULCRO DO BÁB

Uma fotografia tirada por Shoghi Effendi de seu próprio quarto, no telhado da casa do Mestre, mostrando uma luz brilhante que vinha do Sepulcro.

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A CALIGRAFIA EM INGLÊS DE SHOGHI EFFENDI

Fax da primeira e última página de sua carta em inglês sobre o falecimento da Folha Mais Sagrada.

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A SEPULTURA DA FOLHA MAIS SAGRADA
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AQUELE LOCAL SAGRADO

Da esquerda para direita: os monumentos dos sepulcros do irmão, mãe, esposa e irmã de 'Abdu'l-Bahá, acima dos quais, em formato de um arco, serão agrupadas as Instituições Administrativas Internacionais da Fé.

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Em data posterior, ele comentou mais detidamente sobre esta obra incomparável:

"Aproveitei o lazer do verão para ler a Narrativa de Nabíl... Toda pessoa interessada na religião e também na história lhe deve imensa gratidão pela publicação de tão bela obra. O lado mais profundo da obra é tão impressionante que parece ser pouco pertinente congratulá-lo por alguns dos assuntos práticos referentes à tradução. Entretanto, não posso deixar de lhe dizer o quanto aprecio o fato de ter tirado, de uma vida cheia de ocupações, o tempo para realizar tão grande tarefa.

A qualidade do inglês e a deleitável facilidade da leitura da tradução são extraordinárias, pois usualmente uma tradução é difícil de ler. Foi esplendida a sua habilidade em fazer o livro tão neutro e em acrescentar as notas que tornam a obra mais um tratado científico de história do que algo como propaganda. A força do livro é muito grande, porque a tradução é tão científica e a autoria original tão espontânea, que a obra inteira há de parecer genuína, mesmo para o crítico mais cínico.

Do ponto de vista da história, a obra é do maior valor possível. É tremendamente proveitosa também, pois explica a psicologia por trás de nossos grandes movimentos de revelação religiosa. Naturalmente, seu valor principal é a luz que lança sobre os primórdios do Movimento Bahá'í. As vidas dos primeiros convertidos são extremamente inspiradoras.

Estou emprestando meu exemplar ao Professor Crawford e ao Professor Seelye, e espero que muitos de nossos professores e estudantes possam achar tempo para ler um livro tão instrutivo e estimulante."

Embora Shoghi Effendi deva ter ficado satisfeito e comovido em receber de tal fonte uma apreciação tão sensata daquilo que o seu trabalho representava, não há dúvida de que a carta que o bem conhecido orientalista Sir E. Denison Ross lhe escreveu da Escola de Estudos Orientais da Universidade de Londres, foi o mais altamente estimado tributo que Shoghi Effendi recebeu:

27 de abril de 1932.
Meu caro Shoghi Effendi,

Foi extremamente gentil de sua parte ter se lembrado de mim e me enviado exemplares de suas duas obras mais recentes, as quais muito me orgulho de possuir, especialmente por terem vindo dessa fonte. Os Rompedores da Alvorada é realmente um dos mais belos livros que tenho visto em muitos anos; o papel, a impressão, as ilustrações, são todos excelentes, e quanto ao seu estilo de inglês, realmente não poderia ser melhor, e jamais parece uma tradução. Permita que lhe ofereça minhas mais calorosas congratulações pelo seu grande sucesso em realizar seu propósito quando veio a Oxford, isto é, adquirir um perfeito domínio de nossa língua.

Além de tudo isso, a Narrativa de Nabíl será da máxima utilidade para mim nas conferências que faço aqui, em cada período escolar, sobre o Báb e Bahá.

Estimando que esteja com boa saúde.
Muito sinceramente,
E. Denison Ross
Diretor

O próprio Shoghi Effendi, numa carta a Martha Root, escrita em 3 de março de 1931, descreve o que é Os Rompedores da Alvorada e o que sua produção significou para ele: "Acabo de completar, após oito meses de árduo e contínuo labor, a tradução da história dos primeiros dias da Causa, e mandei o manuscrito à Assembléia Nacional americana. A obra contém cerca de 600 páginas e 200 páginas de notas adicionais que colhi de vários livros durante os meses do verão. Estive tão absorto neste trabalho que fui forçado a adiar minha correspondência... Estou agora tão cansado e exausto que mal posso escrever... O relato é autêntico e trata mormente do Báb. Algumas partes foram lidas para Bahá'u'lláh e revistas por 'Abdu'l-Bahá... Estou tão abatido pela fadiga que a longa e severa pressão do trabalho empreendido me causou, que devo parar e repousar."

Antecipando a publicação deste livro, Shoghi Effendi telegrafou à América em outubro de 1931: "Exorto todos crentes de língua inglesa a concentrarem estudo narrativa imortal de Nabíl como preliminar essencial à renovada Campanha Ensino intensiva necessária ao término Mashriqu'l-Adhkár. Sinto profundamente ampla difusão seu material variado rico e autêntico constitui mais efetiva arma para enfrentar desafio de uma hora crítica. Sem hesitação recomendo-o a todo aguardado visitante à terra natal de Bahá'u'lláh".

O volume que Shoghi Effendi recomendou aos crentes para estudo contém 748 páginas e mais de 150 fotografias; tem uma genealogia detalhada do Báb preparada pelo Guardião - de seu próprio punho e reproduzida em fac-símile; além do texto, baseado no original de Nabíl mas transfigurado pelo brilhante tratamento recebido ao passar pela mente e pelo vocabulário de Shoghi Effendi, as copiosas notas que anexou, em inglês e francês, colhidas de inúmeras fontes, derramaram uma iluminação sobre os eventos que registra, que lhe realça muito o interesse e a validade históricos. Uma edição de luxo, assinada e numerada, de 300 exemplares, foi publicada juntamente com a edição geral. A realização desta obra extraordinária exigiu de Shoghi Effendi quase dois anos de pesquisas, compilação e tradução. No decorrer de 1930, ele mandou um fotógrafo bahá'í australiano à Pérsia para retratar cuidadosamente as pegadas do Báb em Sua terra natal, nas cenas de seu martírio e do de Seus seguidores, e em muitas localidades históricas. Se Shoghi Effendi não tivesse feito isso, todo traço visual de muitos desses lugares, mais ou menos em seu estado original, teria sido perdido para sempre. Além de selecionar as fotografias para a Narrativa de Nabíl, Shoghi Effendi fez um cuidadoso arranjo para enviar à América aquilo que ele descreveu como uma "inestimável incumbência", nada menos que as Epístolas originais do Báb aos Seus dezenove discípulos, e a infinitamente preciosa, dirigida a Bahá'u'lláh como "Aquele Que Se Tornará Manifesto"; estas foram reproduzidas em fac-símiles perfeitos. Ele escolheu, como seu frontispício, uma reprodução colorida do interior do Santuário do Báb. Finalmente o Guardião tinha uma dádiva inteiramente sua para oferecer àquela que ele mais amava:

À
Folha Mais Sagrada

A Última Sobrevivente de uma Era Gloriosa e Heróica

Dedico Esta Obra
Em Sinal de uma
Grande Dívida de Gratidão e Amor

Após a experiência de ler esta história da vida e dos tempos do Báb, os bahá'ís do Ocidente emergiram transfigurados; era como se uma parte do precioso sangue daqueles primeiros mártires se tivesse espargido sobre eles. Tiveram um vislumbre da tradição por trás deles, perceberam que esta era uma Fé pela qual se levava a vida na mão, compreenderam sobre o que Shoghi Effendi estava falando, e o que esperava deles ao chamá-los de descendentes espirituais dos Rompedores da Alvorada. As sementes que este livro plantou nos corações dos seguidores ocidentais de Bahá'u'lláh cresceram e amadureceram na Cruzada de Dez Anos, e sua colheita continuará, cada vez mais abundantemente, à medida que o Plano Divino de 'Abdu'l-Bahá se desdobrar na conquista do globo inteiro.

Em 1935, novamente Shoghi Effendi presenteou os bahá'ís ocidentais com uma dádiva magnífica, uma obra publicada sob o título de Seleção dos Escritos de Bahá'u'lláh, a qual o próprio Guardião descreveu, em uma carta a Sir Herbert Samuel, como "consistindo de uma seleção das passagens mais características, ainda não publicadas, das mais destacadas obras do Autor da Revelação Bahá'í". Se lembrarmos das escassas páginas do Novo Testamento, das palavras atribuídas a Buda, e o mero punhado de dizeres de alguns outros Luminares Divinos, os quais, entretanto, transfiguraram durante séculos as vidas de milhões de homens, o "Seleções", sozinho, parece prover uma fonte de guia e inspiração suficiente para a Dispensação Espiritual de qualquer Profeta. O Professor Norman Bentwich, ao agradecer a Shoghi Effendi o exemplar do "Seleções" que lhe havia enviado, disse: "Eu o estimo com os outros frutos de sua diligente devoção" - realmente uma bela descrição da natureza do trabalho de Shoghi Effendi para trazer ao mundo ocidental as palavras do Manifestante de Deus para este dia. Mas, seguramente, o tributo mais precioso a este livro foi o da Rainha Maria da Romênia, que disse a Martha Root: "Até os céticos encontrariam nele uma força poderosa, se apenas o lessem, e daria às suas almas tempo para se expandirem." Ao próprio Shoghi Effendi, a rainha escreveu, em janeiro de 1936, depois de receber dele um exemplar: "Permita-me que eu lhe envie meus mais sinceros agradecimentos pelo maravilhoso livro, do qual cada palavra me é preciosa, e duplamente neste tempo de ansiedade e desassossego"; ao que o Guardião respondeu que julgava plenamente recompensados os seus esforços em traduzi-lo, uma vez que ela obtivera benefício de sua leitura.

A este livro seguiu-se, em 1936-1937, a tradução do que quase se poderia denominar um volume complementar, comparável em riqueza e suplementar em conteúdo, a saber, Prayers and Meditations by Bahá'u'lláh [Orações e Meditações de Bahá'u'lláh]. Novamente o antigo professor do Guardião, Bayard Dodge, lhe escreve com uma avaliação perspicaz daquilo que uma obra desta natureza significa: "A tradução de pensamentos profundos e poéticos, como os do Prayers and Meditations, requer uma quantidade enorme de árduo trabalho... Já lhe disse anteriormente quão maravilhado fico ao ver a qualidade do inglês que usa". Ao receber o "Seleções", o Professor Dodge escreveu ao Guardião: "O senhor domina o inglês de um modo tão notável que tenho certeza que os dizeres não perderam seu sentido e encanto no traduzir." E quando recebeu a tradução de Shoghi Effendi de As Palavras Ocultas, escreveu outra vez, com singular percepção do que um trabalho desta natureza significa: "Compreendo como é difícil, extremamente difícil, traduzir belos pensamentos orientais para o inglês, e eu o felicito pela qualidade da linguagem que usa."

Imediatamente após a publicação desta mina de diamantes de comunhão com Deus, não excedida em qualquer literatura religiosa do mundo, Shoghi Effendi se pôs a trabalhar numa carta circular mais longa do que qualquer anterior, a qual apareceu, em 1939, sob o título de O Advento da Justiça Divina. Foi escrita durante o ano em que o Guardião permaneceu na Europa devido às atividades terroristas na Palestina, e dirigida aos bahá'ís de toda parte dos Estados Unidos e Canadá. Nesta carta, o Guardião expôs, como nunca antes, o papel que essa comunidade estava fadada a desempenhar no destino, em desenvolvimento, do homem neste planeta. Definia os objetivos do Plano de Sete Anos recentemente inaugurado, o primeiro passo na execução das cláusulas do Plano Divino de 'Abdu'l-Bahá, e mostrou que, do sucesso desse imenso empreendimento conjunto, jamais realizado pelos seguidores de Bahá'u'lláh, haveria de depender a sorte de todas as futuras atividades na promulgação de Sua Ordem Mundial por toda parte dos outros continentes do globo. Com uma mão bondosa, mas firme, Shoghi Effendi ergueu diante da face da comunidade norte-americana o espelho da civilização que a cercava, e os admoestou, em termos de fixar os olhos e gelar o coração, contra seus males, chamando sua atenção para uma verdade que poucos deles haviam até então ponderado, a saber, que os próprios males daquela civilização eram a razão mística pela qual sua pátria fora escolhida por Deus como o Berço de Sua Ordem Mundial neste dia. Como as advertências contidas em O Advento da Justiça Divina são uma parte integrante da visão e da orientação que Shoghi Effendi deu aos fiéis durante todo o seu ministério, não podem ser negligenciadas se quisermos obter um correto entendimento de sua própria missão. Em termos inequívocos, ele repreendia a lassidão moral, a corrupção política, o preconceito racial e o materialismo corrosivo de sua sociedade, colocando-os em contraste com os elevados padrões inculcados por Bahá'u'lláh em Seus Ensinamentos e ordenados por Ele aos Seus seguidores. Advertia-os sobre a guerra tão próxima e admoestava-os a se manterem firmes, apesar de todas as provações que no futuro pudessem afligir a eles e às suas nações, e cumprissem sua sagrada incumbência, levando a uma conclusão triunfante o Plano tão recentemente inaugurado em todo o hemisfério ocidental.

Uma outra carta circular - desta vez dirigida à comunidade dos bahá'ís em todo o Ocidente - foi publicada em 1941. Era intitulada O Dia Prometido Chegou e, juntamente com O Advento da Justiça Divina, expôs a deterioração radical do mundo hodierno. Nesta carta, escrita durante o segundo ano da guerra, Shoghi Effendi vocifera suas denúncias contra a perversidade e iniqüidade desta geração, usando, em seus projéteis, citações dos lábios do próprio Bahá'u'lláh: "Já veio o tempo para a destruição do mundo e de seus povos." "Chegou o dia prometido, dia em que provações aflitivas surgirão sobre vossas cabeças e sob vossos pés, dizendo: 'Saboreai o que vossas mãos fizeram!'" "Dentro em breve o vendaval de Seu castigo vos baterá e o pó do inferno vos há de amortalhar." "E ao vir a hora predeterminada, haverá de aparecer subitamente o que fará tremerem os membros da humanidade." "Aproxima-se o dia em que sua chama (a da civilização) devorará as cidades, em que a Língua da Grandeza haverá de proclamar: 'O Reino pertence a Deus, o Onipotente, O de todos louvado!'" "Breve virá o dia em que clamarão por socorro sem receberem resposta alguma." "Determinamos um tempo para vós, ó povos! Se, na hora designada, não vos volverdes para Deus, Ele, em verdade, vos apreenderá com violência e fará atracar-vos de todos os lados aflições penosas. Quão severo, de fato, o castigo com que vosso Senhor, nessa hora, vos punirá!" "Ó vós, povos do mundo! Sabei, em verdade, que uma calamidade imprevista vos segue, e retribuição angustiosa vos espera. Não penseis que os atos que cometestes tenham sido apagados de Minha vista. Por Minha Beleza! Todas as vossas ações, Minha Pena as gravou em caracteres nítidos, sobre tábuas de crisólito."

O Guardião pinta um quadro terrível, horripilante e majestoso da condição lastimável a que a espécie humana foi reduzida por sua constante rejeição a Bahá'u'lláh. A "tribulação mundial que se apoderou da humanidade" é, escreveu ele, "primariamente, um juízo de Deus pronunciado contra os povos da terra, os quais, há um século, recusam-se a reconhecer Aquele Cujo advento fora prometido a todas as religiões". Shoghi Effendi recapitula os sofrimentos, a perseguição, a calúnia e a crueldade, aos quais o Báb, Bahá'u'lláh e 'Abdu'l-Bahá foram sujeitados, e relata a história de Sua inocência, Sua paciência e fortaleza em face dessas provações, e de Seu cansaço final com este mundo, enquanto Se envolviam em Suas vestes e Se recolhiam nos Domínios Celestiais de Seu Criador. Shoghi Effendi enumera os pecados da humanidade contra esses Seres Imaculados e aponta o dedo da denúncia para os líderes da humanidade, seus reis, suas mais altas personalidades eclesiásticas e governantes, aos quais os Manifestantes Gêmeos de Deus haviam dirigido a plena força de Sua Mensagem, e por cuja negligência ao seu dever supremo de atender ao Chamado de Deus o próprio Bahá'u'lláh declarou: "De duas classes entre os homens foi tirado o poder: reis e eclesiásticos."

Tão fascinantes, profusos e vastos são os temas dos escritos de Shoghi Effendi que, quando uma pessoa começa até mesmo a tocar num livro como O Dia Prometido Chegou, encontra-se vagando por este grande caminho de pensamento que ele revelou, esquecendo que o propósito destas páginas não é rever seus livros mas tentar recapitular as muitas facetas de sua vida e suas realizações. No entanto, não posso resistir ao desejo de citar uma carta que lhe foi escrita por um bahá'í muito humilde quando este livro foi publicado: "O Dia Prometido Chegou é um livro ótimo para mim, eu o adoro, agora tudo o que preciso é a compreensão clara em meu coração. Obrigado, Shoghi Effendi, por vossa bondade, não podeis saber quanto fizeste para mim... Que foi que nós alguma vez fizemos para vós? Vós fizestes tudo por nós..."

Entre estas duas, assim chamadas, cartas circulares - O Advento da Justiça Divina e O Dia Prometido Chegou - Shoghi Effendi deu aos crentes ocidentais seu quinto e último livro de traduções dos Escritos de Bahá'u'lláh, empreendido durante o inverno de 1939-1940, em outro dos períodos mais difíceis e arriscados de sua vida, e o enviou à América, para publicação, na véspera de sua partida para a Europa em plena guerra européia. A Epístola ao Filho do Lobo foi a última grande obra de Bahá'u'lláh e contém uma seleção de Seus próprios Escritos feita por Ele mesmo (certamente uma ocorrência sem igual na história religiosa!) durante os dois últimos anos de Sua vida, ocupando, portanto, uma posição própria especial na literatura de nossa Fé. Num telegrama, pouco antes de sua publicação, Shoghi Effendi disse: "Fervorosamente espero seu estudo possa contribuir mais esclarecimentos mais profunda compreensão verdades das quais depende, em última análise, efetivo prosseguimento empreendimentos administrativos ensino..."

De uma anotação em meu próprio diário, com data de 22 de janeiro de 1944, cito: "Hoje as últimas correções de Prospect and Retrospect [Perspectiva e Retrospecto], a seção final do livro de Shoghi Effendi, foram feitas, e amanhã será mandado a Horace. Já faz quase dois anos - ou talvez mais! - desde que o Guardião o começou. Tem lhe exigido trabalho quase contínuo, sendo uma carga terrível e muito fatigante, mas certamente valeu a pena. É um livro maravilhoso." Com tais pequenos apontamentos é que os grandes eventos de uma vida são muitas vezes registrados por aqueles que participam desses acontecimentos e, no fim, chegam exaustos, cansados demais para serem qualquer coisa senão triviais e circunstanciais! E nesse ponto, também cansados demais para lembrar que Shoghi Effendi havia levado realmente mais de dois anos para escrever o que ele e eu chamávamos "o livro" - que no final recebeu seu belo título.

A Presença de Deus, a mais brilhante e maravilhosa história de um século jamais registrada, é verdadeiramente "Mãe" de futuras histórias, um livro no qual cada palavra conta, em cada sentença desabrocham pensamentos, cada pensamento conduz a um campo próprio. Pleno de fatos notáveis, ele tem o âmbito e a precisão de cristais de neve, cada desenho perfeito em si, cada tema com contorno brilhante, coordenado, equilibrado, auto-suficiente, uma matriz para aqueles que prosseguem estudando, avaliando e elaborando a Mensagem e a Ordem de Bahá'u'lláh. Foi uma das mais densas e estupendas realizações da vida de Shoghi Effendi, o único verdadeiro livro que temos de sua pena, pois todas os seus outros comunicados eram, sem dúvida devido à sua profunda modéstia e humildade, como cartas dirigidas a uma comunidade específica ou parte do mundo bahá'í.

Ao escrever A Presença de Deus, Shoghi Effendi adotou o método de se sentar por um ano e ler todos os livros das Escrituras Bahá'ís em persa e em inglês, e todo livro escrito sobre a Fé por bahá'ís, quer estivesse em forma de manuscrito ou impresso, e tudo escrito por não-bahá'ís que continha referências significativas a ela. Acho que isso deve ter abrangido, ao todo, o equivalente a pelo menos duzentos livros. Enquanto lia, ele fazia anotações, compilava e ordenava os seus fatos. Qualquer um que tenha empreendido uma obra de ordem histórica sabe quanta pesquisa é envolvida, quantas vezes é necessário decidir, à luz de matéria pertinente, entre uma data que consta num lugar e outra que consta em outro, como é fatigante o trabalho todo. Quão mais exaustivo, pois, foi esse trabalho para o Guardião, que ao mesmo tempo tinha que fazer os preparativos para o Centenário da Fé, prestes a chegar, e tomar decisões relativas ao desenho da superestrutura do Santuário do Báb. Quando todos os ingredientes de seu livro haviam sido reunidos, Shoghi Effendi começou a tecê-los no contexto de sua descrição a respeito do significado do primeiro século da Dispensação Bahá'í. Não foi seu propósito, disse ele, escrever uma história detalhada daqueles cem anos, mas, antes, examinar as feições salientes do nascer e do surgir da Fé, o estabelecimento de suas instituições administrativas e a série de crises que, de uma maneira misteriosa, a impelira para diante, de vitória em vitória, pela libertação do Poder Divino dentro dela. Ele nos revelou o panorama de acontecimentos que, segundo ele escreveu, "a revolução de cem anos... desdobrou ante os nossos olhos" e abriu a cortina aos atos iniciais daquilo que ele afirmava ser "um só drama, indivisível, estupendo e sublime, cujo mistério nenhum intelecto pode penetrar, cujo clímax nenhuma vista pode, nem sequer vagamente, perceber, cuja conclusão mente alguma pode visualizar adequadamente".

Quantas centenas de horas Shoghi Effendi despendeu com a leitura de suas fontes e a compilação de suas notas, quantos dias e meses ele escreveu cuidadosamente à mão - e freqüentemente reescreveu - a majestosa procissão de seus capítulos, quantos dias fatigantes, ainda, ele passou sentado com sua pequena máquina de escrever portátil, batendo com poucos dedos, às vezes dez horas seguidas, enquanto escrevia a cópia final de sua obra! E quantas horas a mais gastávamos até tarde da noite, quando a datilografia diária já estava terminada, sentados lado a lado à sua grande mesa em seu quarto, cada um com três cópias da parte datilografada em nossa frente, conferindo, fazendo correções, colocando, à mão, os milhares de acentos nas palavras transliteradas que Shoghi Effendi lia em voz alta, até que seus olhos ficavam inflamados e nublados, as costas e os braços enrijecidos de cansaço, enquanto continuávamos a trabalhar a fim de terminarmos o capítulo inteiro ou parte de um capítulo que ele havia datilografado naquele dia. Tinha que ser feito. Não havia possibilidade de trabalharmos mais lentamente. Era uma corrida contra o tempo para presentear os bahá'ís do Ocidente com esta dádiva inimitável na ocasião do centenário do nascimento de sua Fé. Embora ele mandasse o manuscrito corrigido, parceladamente, as condições nos Estados Unidos atrasaram a publicação e o livro só saiu do prelo em meados de novembro de 1944.

Não basta dizer: "Vejam o que ele fez." Deve-se perguntar como e sob quais circunstâncias o fez. 'Abdu'l-Bahá escreveu as Epístolas do Plano Divino quando estava velho, esgotado e em grande perigo no fim da Primeira Guerra Mundial. Shoghi Effendi, já esmagado e sobrecarregado com o peso de vinte anos de Guardiania, quando a maré da Segunda Guerra Mundial ameaçava alastrar-se sobre a Terra Santa e, numa só torrente catastrófica, engolfá-lo juntamente com o Centro Mundial da Fé, num período em que seu lar estava convulsionado pelas repercussões do rompimento do Convênio que agora afligiam sua própria família, assumiu a tarefa de avaliar para a posteridade o significado dos eventos do primeiro século da Era Bahá'í. Durante esses anos, raras vezes tive a infelicidade de vê-lo chorar, como se seu coração se fragmentasse - tão grande era sua angústia, tão esmagadoras as pressões que lhe eram infligidas!

Não contente com a história que acabava de completar em inglês, Shoghi Effendi agora volveu os pensamentos à devotada e leal comunidade dos há muito sofridos e perseguidos seguidores de Bahá'u'lláh em Sua terra natal e principiou a composição de mais um memorial aos primeiros cem anos da Fé Bahá'í na Pérsia. Foi uma versão comparável, embora mais resumida, do mesmo assunto, diferente em natureza, mas não menos esplêndida, tanto nos fatos que apresentava como no brilho de sua linguagem. Eu havia acompanhado a maior parte de seu trabalho em escrever A Presença de Deus em inglês, mas não era justificável que fizesse o mesmo para esta epístola. A diferença entre o estilo das cartas e do discurso de Shoghi Effendi em persa - generosamente salpicado com árabe - e o persa cotidiano, é comparável à diferença entre o inglês shakespeariano e a linguagem jornalística moderna! Meu domínio do persa e minha ignorância do árabe eram tais que eu não podia captar mais de três ou quatro palavras entre dez. Entretanto, ele lia, ou melhor, entoava para mim algumas de suas passagens, e a majestosa cadência de suas palavras, sua perfeição e poder, eram evidentes para mim, embora eu não pudesse acompanhar completamente seu significado. Lembro-me que, enquanto me aproximava de seu quarto, ouvia sua voz entoando sua composição para si mesmo à medida que escrevia, infinitamente melancólica, infinitamente bela. Era também fascinante: ele entoava a sentença que estava escrevendo até encontrar um estorvo, uma palavra que não queria encaixar-se suavemente, quando então a voz encantadora, inconsciente de si próprio, parava, voltava para o começo da sentença e ia outra vez até o mesmo ponto; se não conseguia passar esta vez, repetia até conseguir! Era como uma ave maravilhosa, ensaiando suas melodias para si própria, absorta em seu próprio mundo. Esta epístola atingiu cem páginas, em fina caligrafia, e é outra das obras-primas de Shoghi Effendi. Estas duas retrospectivas dos cem anos foram as inestimáveis dádivas do centenário oferecidas pelo Guardião aos bahá'ís, elaboradas com grande prejuízo às suas forças e sua saúde, e legadas durante anos em que o mundo foi abalado pela sua maior guerra.

Durante os treze anos seguintes, Shoghi Effendi nem traduziu, nem escreveu mais livros. Foi uma grande perda para nós que ele não mais tivesse tempo para isso. A comunidade internacional da Fé que a tão duras penas ele havia erigido desde 1921, atingira agora tais proporções que lhe consumia o tempo e as forças, pouco deixando para o trabalho intensamente criativo que por natureza ele era tão ricamente dotado em realizar. No entanto, continuava a fazer manar sua orientação aos crentes e seus corpos nacionais, através de cartas e, especialmente, longos telegramas. Por volta de 1941, Shoghi Effendi já começara a enumerar as vitórias que os bahá'ís estavam obtendo em toda parte do mundo. Deste tipo de mensagens, evoluíram finalmente as impressionantes retrospectivas do Ridván do trabalho realizado em cada ano, retrospectivas que faziam os crentes verem seu próprio trabalho em todos os países como parte de um grande todo.

Desde o início de seu ministério, Shoghi Effendi havia usado cada vez mais, como meio de comunicação, telegramas e cabogramas, não só porque economizavam tempo, mas, como ele me explicou, por causa de seu efeito psicológico; um cabograma transmite um senso de urgência e dramaticidade e é, muitas vezes, um meio melhor de frisar um ponto. De tal modo Shoghi Effendi desenvolveu o que se poderia chamar de linguagem telegráfica que se tornou uma realização literária. Não raramente ele mandava cabogramas do comprimento de cartas. Ele pensava na forma abreviada quando os escrevia. Não era questão de expressar um pensamento no estilo normal de composição e então eliminar todas as palavras que podiam ser omitidas e ainda assim transmitir o sentido; desde o começo, ele absolutamente não pensava naquelas palavras em seu texto, e assim o estilo é muito enfático, poderoso e dramático. Quando se insere os "se", "e", "de", "o", etc., que ele acha necessários para tornar o texto claro, perde-se em estilo e freqüentemente na exatidão do sentido. Fazer tais interpolações sem parênteses é uma injustificável interferência nos texto de nossa Fé, pois significa que algum editor inseriu nas sentenças de Shoghi Effendi palavras que, segundo ele pensa, esclarecerão o que Shoghi Effendi queria dizer; por outro lado, inserir qualquer coisa, mesmo entre parênteses, parece insinuar que o leitor é uma pessoa sem inteligência, incapaz de entender por si mesmo o que o Guardião queria dizer.

Até o fim de sua vida, Shoghi Effendi continuou a inspirar o mundo bahá'í com suas instruções e pensamentos; palavras de grande poder e significação, que encheriam um número considerável de volumes, fluíam de sua pena. Mas, com o fim da guerra e o aumento na atividade administrativa em toda parte do mundo, uma época havia chegado ao fim. Embora o poder que o impelia para diante nunca o abandonasse e as horas de trabalho que a cada dia devotou à Causa de Deus nunca diminuíssem antes de seu falecimento, Shoghi Effendi estava profundamente fatigado.

O trabalho de toda a vida de Shoghi Effendi bem poderia ser dividido em quatro facetas principais: suas traduções das Palavras de Bahá'u'lláh, do Báb, de 'Abdu'l-Bahá e da narrativa de Nabíl; seus próprios escritos, como a história de um século, publicado sob o título de A Presença de Deus, bem como um fluxo ininterrupto de comunicados de instrução de sua pena que apontavam aos crentes a significação, o tempo e o método de erigir suas instituições administrativas; um programa constante para a expansão e a consolidação dos recursos materiais de uma Fé mundial, o qual não só envolvia a conclusão, a construção ou o embelezamento dos Lugares Sagrados Bahá'ís no Centro Mundial, mas também a construção de Casas de Adoração e a aquisição de sedes nacionais e locais, e doações em vários países por todo o Oriente e Ocidente; e, acima de tudo, uma orientação magistral de pensamento em direção aos conceitos encerrados nos ensinamentos da Fé, e metódica classificação daqueles ensinamentos no que se poderia descrever como uma ampla visão panorâmica do significado, das implicações, do destino e do propósito da religião de Bahá'u'lláh, de fato, da própria verdade religiosa em sua representação do homem como o apogeu da criação de Deus, evoluindo para a consumação de seu desenvolvimento - o estabelecimento do Reino de Deus na terra.

11

O Desenvolvimento das Instituições Internacionais da Fé

O desenvolvimento do Centro Mundial da Fé sob a égide do Guardião representa uma das maiores realizações de sua vida, só podendo ser comparado, em importância, à difusão e consolidação da própria Causa por toda parte do globo. Sobre a incomparável significação deste Centro, Shoghi Effendi escreveu que era: "... a Terra Santa - o Qiblih de uma comunidade mundial, o coração do qual manam continuamente as influências vigorantes de uma Fé vivificadora e a sede e centro ao redor do qual giram as atividades diversificadas de uma Ordem Administrativa divinamente designada."

Quando, em 1921, Shoghi Effendi assumiu as responsabilidades que lhe foram conferidas pela Vontade e Testamento de 'Abdu'l-Bahá, as propriedades bahá'ís em Haifa e 'Akká consistiam no Santuário de Bahá'u'lláh em Bahjí, situado na casa pertencente aos herdeiros Afnán da filha de Bahá'u'lláh, em cuja casa Ele fora enterrado após a Sua ascensão; o Santuário do Báb no Monte Carmelo, rodeado por alguns terrenos comprados durante a vida de 'Abdu'l-Bahá, em um dos quais ficava a Casa de Peregrinos Orientais; a casa de Abbúd, onde Bahá'u'lláh havia residido por muitos anos em 'Akká e onde revelou o Kitáb-i-Aqdas; o Ridván e os jardins adjacentes, e a casa de 'Abdu'l-Bahá em Haifa. A Mansão de Bahá'u'lláh, contígua ao Seu Santuário, estava ocupada pelo principal rompedor do Convênio, Muhammad 'Alí; e os títulos de quase todas as propriedades bahá'ís estavam registrados nos nomes de vários membros da família ou nos de alguns bahá'ís. Tão insegura estava toda a situação legal da Fé e de suas propriedades que o trabalho realizado por Shoghi Effendi, durante seu ministério, de salvaguardar e ampliar esses Lugares Sagrados, expandir as terras circunvizinhas e registrar estas terras, em muitos casos em nome de Filiais Palestinas, localmente incorporadas, de várias Assembléias Nacionais Bahá'ís, e de lhes conseguir isenção de impostos municipais e nacionais, é quase milagroso. Quando nos lembramos que sua posição, em 1922, era tão precária que Muhammad 'Alí se atreveu a apanhar as chaves do Sagrado Túmulo de Bahá'u'lláh e que muitos elementos muçulmanos e cristãos, enciumados pelo favor universal desfrutado por 'Abdu'l-Bahá no fim de Sua vida, estavam mais que ansiosos para desacreditar seu jovem sucessor aos olhos das autoridades, e que o próprio Shoghi Effendi havia sido imediatamente acabrunhado por graves problemas de toda natureza imaginável, dentro e fora da Causa, não podemos deixar de nos admirar, novamente, diante da sabedoria e diplomacia que caracterizavam sua administração de assuntos no Centro Mundial.

Passara-se a Idade Heróica da Fé. O que Shoghi Effendi denominava a "Idade Formativa" alvoreceu com seu próprio ministério e foi amoldado para sempre por ele. Compreendendo plenamente que nem sua própria posição, nem sua capacidade eram as mesmas das de seu bem-amado Mestre, Shoghi Effendi recusou imitá-Lo, seja no modo de vestir, nos hábitos, nos modos. Fazer isso, acreditava ele, seria mostrar uma falta completa de juízo e respeito. Havia chegado um novo dia para a Causa; métodos novos eram necessários. Esta seria a era da emancipação da Fé, do reconhecimento de sua condição independente, do estabelecimento de sua Ordem, da criação de suas instituições. 'Abdu'l-Bahá viera à Terra Santa como prisioneiro e exilado; embora nas Suas viagens pelo Ocidente e por meio de Suas cartas pudesse proclamar o caráter independente da Causa de Seu Pai, localmente Ele não pôde, no final de Sua vida, romper a crisálida de costumes comuns que desde tanto tempo O ligavam à comunidade predominantemente muçulmana; fazer as coisas de uma maneira pouco delicada, ou que magoasse, não fazia parte os Ensinamentos Bahá'ís. Shoghi Effendi, porém, ao regressar de seus estudos na Inglaterra, jovem, com educação e hábitos ocidentais, estava agora em posição de fazer isso. Por mais amado e estimado que 'Abdu'l-Bahá tivesse sido, Ele não era visto como Dirigente de uma religião mundial independente, mas, antes, como o santo protagonista de uma grande filosofia espiritual de fraternidade universal, uma notabilidade eminente entre outras notabilidades da Palestina. Pela pura força da personalidade, Ele havia dominado aqueles ao Seu redor. Shoghi Effendi, porém, sabia que ele nunca poderia fazer isso nas circunstâncias que o cercavam no início de sua Guardiania, nem tinha qualquer desejo de assim fazer. Sua função, em parte - mas especialmente no Centro Mundial - era ganhar reconhecimento para a Causa como uma religião mundial com direito à mesma posição e prerrogativas desfrutadas pelas outras religiões, como o Cristianismo, o Islamismo e o Judaísmo.

Desde o início, ele percebia que, se ele iria estabelecer o Centro Mundial numa base apropriada durante os anos em que a Fé Bahá'í inevitavelmente haveria de se expandir no exterior, então localmente sua própria posição - que não era a de um Dirigente local ou nacional, mas sim, de Dirigente Mundial daquela Fé - teria que ser posta numa base inteiramente diferente. A Palestina, embora sagrada para essas três grandes Fés Mundiais, não era ao mesmo tempo o coração espiritual e administrativo de nenhuma delas, e, portanto, ninguém no país tinha uma posição comparável à sua própria. Ele, no entanto, por ser Dirigente de uma Fé comparável e por residir em seu coração tanto administrativo como espiritual, deveria desfrutar o direito de precedência sobre todos os outros dirigentes religiosos do país. Embora Shoghi Effendi compreendesse isso desde o princípio de seu ministério, era bastante sagaz para perceber que, naquele tempo, não havia esperança de persuadir outros a aceitarem este ponto de vista. Ele mostrava seu brilho recusando-se a entrar nas atividades do Mestre e a associar-se livremente nos vários eventos sociais, quer oficiais ou não. Bem sabia que, entre os eruditos locais, ele não podia esperar receber o direito de precedência que sua posição merecia e que se, como representante bahá'í, ele fosse relegado a uma posição secundária devido à sua juventude e ao poder de controle exercido pela grande comunidade muçulmana, a situação iria se cristalizar em torno deste precedente e seria quase impossível, mais tarde, assumir seu legítimo lugar como Dirigente de uma Religião Mundial. Primariamente, por causa disso, por trinta e seis anos, com uma ou duas exceções, Shoghi Effendi evitou todos os eventos governamentais e municipais, e de modo algum participou da vida social, insistindo constantemente, porém com tato, que ele, ou qualquer um que ele escolhesse para ir em seu lugar, deveria receber a precedência que ele merecia; antes do final da vida, ele havia praticamente vencido essa longa batalha e, embora ao representante bahá'í nem sempre fosse concedida a prioridade desejada por Shoghi Effendi, ele efetivamente impedia que a esse representante fosse designada uma posição permanentemente secundária nos eventos oficiais. Nas raras ocasiões em que ele próprio assistia aos eventos de estado em Israel, recebia a devida deferência como o Dirigente de uma Fé Mundial. Em vista de sua constante preocupação com seu trabalho, das repetidas crises que o abalaram durante toda a sua vida e do tempo que dedicava aos peregrinos, a renúncia a toda a vida social não era grande privação para Shoghi Effendi. Mas isto aumentava seu isolamento e efetivamente o privava de todo companheirismo intelectual e estímulo que poderia ter recebido no encontro com pessoas de calibre e importância.

Durante as duas primeiras décadas de seu ministério, todavia, Shoghi Effendi teve contato pessoal, mais ou menos íntimo, com vários Altos Comissários e Comissários Distritais, sendo que por este meio conseguiu recuperar as chaves do Túmulo de Bahá'u'lláh e afirmar seu indiscutível direito à sua custódia, obter posse da Mansão de Bahá'u'lláh, receber permissão para enterrar os parentes mais próximos de 'Abdu'l-Bahá nos arredores do Santuário do Báb, no centro de um distrito residencial no Monte Carmelo, validar o Certificado de Casamento Bahá'í perante o governo, pondo-o no mesmo nível do dos judeus, cristãos e muçulmanos, e, acima de tudo, com seus persistentes esforços, persuadir as autoridades britânicas da natureza sagrada das propriedades bahá'ís na Palestina e obter a isenção de impostos, municipais e nacionais, que ele desejava.

Bahjí era sempre a primeira preocupação de Shoghi Effendi e ele estava determinado a salvaguardar não só o Santuário onde Bahá'u'lláh jazia mas a última casa que Ele ocupara neste mundo e os prédios e terrenos adjacentes. Desde o tempo do falecimento de Bahá'u'lláh, em 1892, até 1929, Muhammad 'Alí e seus parentes tiveram posse desta casa, conhecida como "Qasr", ou "Palácio", de 'Údí Khammar, uma construção sem igual na Palestina, por seu estilo majestoso de arquitetura, e que fora comprada para Bahá'u'lláh perto do fim de Sua vida. Esta Mansão estava agora num sério e lastimável estado de deterioração, manchada e desgastada pela chuva, seu teto, prestes a desabar, seus aposentos, outrora tão lindos, abandonados ou usados como armazéns. Em novembro de 1927, Shoghi Effendi escreveu a um dos amigos que: "O Qasr ainda está ocupado por Muhammad 'Alí, e Majdi'd-Dín [seu primo] mandou um recado pedindo que consertássemos o telhado, que podia desabar a qualquer momento. Foi dito a ele enfaticamente que nós não faríamos qualquer conserto a menos que, e até que, eles evacuassem o prédio inteiro." Parece que a situação da Mansão finalmente chegou a um ponto em que os rompedores do Convênio não tinham alternativa e foram obrigados a aquiescer às exigências de Shoghi Effendi. Em 27 de novembro de 1929, véspera do oitavo aniversário do falecimento de 'Abdu'l-Bahá, Shoghi Effendi telegrafou a um parente: "... Qasr evacuado. Restauração começada"; e em 5 de dezembro, escreveu a um dos amigos: "... a Mansão de Bahá'u'lláh, ocupada por cerca de quarenta anos por Muhammad 'Alí e seus seguidores, foi finalmente evacuada e a fotografia anexa indicará em que estado eles a deixaram! O trabalho de restauração já começou e os peregrinos estão visitando o aposento em que Bahá'u'lláh faleceu e onde passou os dias mais tranqüilos e felizes de Sua vida." Dois anos depois, o trabalho foi completado. Shoghi Effendi havia mandado reformar o prédio e lhe restaurar toda a beleza original. Ele trouxe um dos bahá'ís que estivera lá muitas vezes em sua mocidade, e que era capaz e consciencioso, para fiscalizar o trabalho. O telhado, o madeiramento, os afrescos na varanda, a intrincada decoração serigráfica nas paredes de todos os aposentos do andar superior, os tetos de finas vigas de madeira - tudo se fez voltar a seu estado original. Feito isto, Shoghi Effendi pôs-se a adorná-la com tapetes de grande valor enviados pelos bahá'ís da Pérsia, a colocar em suas paredes raras iluminuras dos escritos do famoso calígrafo bahá'í Mishkín Qalam, a mobiliá-la com estantes cheias de traduções da literatura bahá'í em muitos idiomas e, em suas várias salas, inúmeras fotografias e documentos de interesse histórico, e então convidou o Alto Comissário Britânico para visitá-la, acompanhando-o pessoalmente em sua inspeção. Depois dele haver visto tudo, Shoghi Effendi perguntou à Sua Excelência se ele não achava que um lugar como este, tão sagrado para os bahá'ís do mundo inteiro, transcendia por muito o direito de qualquer indivíduo de considerá-lo como sua residência particular, e se não deveria ser preservado como lugar de peregrinação e um museu histórico. Sua Excelência, sem dúvida impressionado tanto pelo advogado como pelo testemunho, concordou, e a Mansão permaneceu nas mãos de Shoghi Effendi. Já em abril de 1932, os peregrinos tiveram o privilégio de pernoitar neste lugar histórico e sagrado, e suas portas se abriram para visitantes não-bahá'ís também, os quais passavam pelos seus belos aposentos, contemplando a impressionante exposição de testemunhos à natureza mundial da Causa, as inúmeras cópias fotostáticas das incorporações de Assembléias Bahá'ís, certificados de casamento e outros materiais históricos, bem como fotografias dos mártires e pioneiros da Fé.

Lembro-me que, a despeito do fato de que Shoghi Effendi tivesse a posse da Mansão, ele estava constantemente preocupado, até o fim de sua vida, porque os rompedores do Convênio ainda ocupavam a casa adjacente. Na noite da comemoração da Ascensão de Bahá'u'lláh, quando o Guardião, na frente da procissão dos homens bahá'ís, prosseguia até Seu Santuário, após ter visitado o aposento da Mansão em que Bahá'u'lláh havia falecido, era obrigado a passar na frente da sala em que os rompedores do Convênio estavam fazendo sua própria vigília e muitas vezes faziam comentários audíveis sobre ele, enquanto ele passava, assim aumentando a aflição de uma noite que já era bastante aflitiva em suas associações. Só em junho de 1957 é que ele pôde telegrafar ao mundo bahá'í: "Com sentimentos profundo júbilo exultação gratidão anuncio dia seguinte sexagésimo quinto aniversário ascensão Bahá'u'lláh insigne momentosa vitória ganha sobre bando ignóbil rompedores Seu Convênio que decorrer mais de seis décadas se achava entrincheirado proximidades Sacratíssimo Santuário mundo bahá'í".

Desde janeiro de 1923, quando ele escrevera ao filho mais velho da filha de Bahá'u'lláh, pedindo-lhe que fizesse uma pronunciação definitiva declarando que, quaisquer que fossem os direitos legais desses Afnán, o Santuário em Bahjí, por causa de sua natureza, pertencia ao Movimento Bahá'í, até o fim da vida Shoghi Effendi lutou para pôr numa base inabalável a posição legal desse Lugar Sagrado, apesar da oposição daquele bando depravado de parentes que, durante mais de trinta anos, resistiu a todos os seus esforços. Foi por causa das misteriosas operações da Providência que, após a Guerra da Independência, com o êxodo em massa dos árabes, inclusive muitos inimigos da Fé, Shoghi Effendi pôde finalmente emergir triunfante desta longa luta. Em 1952, as terras há tanto tempo desejadas, nos arredores do Túmulo e da Mansão de Bahá'u'lláh, com uma área de mais de 145.000 metros quadrados, foram adquiridas. Já em 1931 Shoghi Effendi havia se esforçado para persuadir o governo a requisitar parte desse terreno - que originalmente havia pertencido à propriedade da Mansão, mas fora usurpado pelos amigos e partidários muçulmanos de Muhammad 'Alí - mas o governo recusara intervir e o preço pedido era mais de dez vezes o preço de mercado do terreno. O Guardião teve que esperar mais de vinte anos até que a sorte da guerra o devolveu aos seus legítimos proprietários. Além disso, a Casa de Peregrinos, que estivera sob o controle de 'Abdu'l-Bahá desde a ascensão de Bahá'u'lláh, e um prédio conhecido como a Casa de Chá do Mestre, onde Ele freqüentemente recebia os crentes - inclusive o primeiro grupo de peregrinos do Ocidente - foram adquiridos pelo Guardião durante os últimos anos de sua vida. Em 1952, o governo de Israel retirou da corte civil de Haifa uma questão movida contra o Guardião pelos rompedores do Convênio referente à demolição de uma casa em Bahjí e apoiou sua alegação de que a questão era de natureza religiosa, assim fazendo com que ele mais uma vez emergisse triunfante em sua luta com os inimigos entrincheirados de 'Abdu'l-Bahá que nunca haviam cedido a base que zelosamente guardavam perto do Sagrado Santuário de Bahá'u'lláh. Finalmente, em 1957, novamente pela cooperação das autoridades do Estado, Shoghi Effendi conseguiu uma ordem de expropriação para as casas ocupadas por aqueles que ele denominava "miseráveis remanescentes" dos rompedores do Convênio, alegando sua proximidade a um lugar sagrado de peregrinação, e, assim, finalmente pôde efetuar o que ele descrevia como o ato de purificar a Haram-i-Aqdas dessa contaminação espiritual. Essa ordem de expropriação, significando sua expulsão de Bahjí, foi tão veementemente contestada pelos rompedores do Convênio que eles a levaram à Suprema Corte de Israel, mas perderam a questão e foram obrigados a sair de lá definitivamente.

O desejo expresso do próprio Guardião fora fiscalizar a demolição dessas casas contíguas à Mansão e adjacentes ao Santuário, mas ele nunca regressou à Terra Santa. Quando, em cumprimento ao seu plano, elas foram demolidas alguns meses após seu falecimento, verificou-se que o grande jardim formal que ele fizera em frente delas estava tão acuradamente medido e planejado que podia ser continuado - eu diria desenrolado como um tapete - com absoluta exatidão, sobre o lugar onde elas ficavam, até a própria parede da Mansão.

Sempre lembrado daquilo que para ele era a mais profunda incumbência de sua Guardiania - cumprir, literalmente, na medida de sua possibilidade, cada desejo e instrução de seu bem-amado Mestre - a segunda grande preocupação de Shoghi Effendi no Centro Mundial era o Santuário do Báb. O trabalho relacionado com este segundo Mais Sagrado Santuário da Fé Bahá'í tinha dois aspectos: o término do próprio prédio e a proteção e preservação de seus arredores. O primeiro envolvia a construção de três compartimentos adicionais, bem como uma superestrutura - um prédio inteiro - sem dúvida, um dos mais belos edifícios nas margens do Mar Mediterrâneo; e o segundo, a compra gradativa, durante a terceira parte de um século, de uma grande faixa de terra de proteção em volta do Santuário e estendendo-se do cume até o pé do Monte Carmelo. Esta área de mais de cinqüenta acres é mais bem percebida à noite, porque se estende como um enorme "V" não iluminado, no coração da cidade, em cujo centro parece fixado um broche de ouro, o Santuário inteiramente iluminado do Báb, repousando majestosamente no seio da montanha e realçado pela escuridão aveludada dos jardins e terrenos ao seu redor. Durante trinta e seis anos, Shoghi Effendi dedicou-se ao desenvolvimento deste Lugar Sagrado no meio da Sagrada Montanha de Deus; tão impressionante, singular e de tão vastas proporções foi seu trabalho aí, que algo de sua própria essência, parece-me, deve estar incorporado em suas pedras e seu solo.

Foram necessários mais de cem anos para Bahá'u'lláh, 'Abdu'l-Bahá e Shoghi Effendi cumprirem, finalmente, a sagrada obrigação que os restos mortais do Báb lhes representavam, uma obrigação que durou desde o dia de Seu martírio, em 1850, até o término de Seu Santuário, em 1953. Desde o momento em que foi informado da execução do Báb até que ascendeu em 1892, Bahá'u'lláh havia vigiado esse Sagrado Pó, dirigindo sua transferência de um esconderijo a outro. Durante uma visita ao Monte Carmelo, Ele, com a própria mão, mostrara a 'Abdu'l-Bahá onde o corpo do Báb haveria de descansar para sempre, e Lhe dera instruções para comprar esse terreno, transferir os restos mortais da Pérsia e enterrá-los nesse lugar. 'Abdu'l-Bahá, Ele mesmo um prisioneiro, conseguiu que a pequena caixa de madeira, contendo os restos mortais do Báb e de Seu companheiro martirizado, fosse transportada, de caravana e de navio, da Pérsia até 'Akká. Quando o primeiro grupo de peregrinos ocidentais visitou a cidade-prisão, no inverno de 1898-1899, esse precioso caixão já estava escondido na casa do Mestre, sendo sua presença um segredo cuidadosamente guardado.

Um dia, em 1915, enquanto 'Abdu'l-Bahá estava em pé na escada de Sua casa, olhando para o Túmulo do Báb, Ele observou a um de Seus companheiros: "O Santuário sublime ainda não foi construído. Dez - vinte mil libras são necessárias. Se Deus quiser, isto será realizado. Já levamos sua construção até este ponto." A um peregrino, dissera: "O Santuário do Báb será construído no estilo mais belo e majestoso", e chegou até a mandar que um turco de Haifa lhe fizesse um rascunho mostrando como se pareceria quando completado. Mas, apesar de ter uma idéia clara da natureza do Santuário que Ele tanto desejava construir para o Precursor da Fé, a tarefa final iria caber a Shoghi Effendi.

Em 1928, mandou começar a escavação da rocha sólida atrás da estrutura existente, a fim de ter lugar para as três salas adicionais com arcadas e tetos altos para completar o andar térreo. Em 14 de fevereiro de 1929, ele mandou um cabograma a um dos Afnán: "Trabalho no Maqám iniciado" ("Maqám" era um termo persa usado para o Santuário do Báb) e, em dezembro do mesmo ano, ele informa a um amigo: "A construção das três salas adicionais contíguas ao Santuário no Monte Carmelo breve será completada realizando-se o plano do Mestre de ter nove salas no andar térreo do Mausoléu do Báb." É interessante notar que a construção da estrutura original de 'Abdu'l-Bahá, em si um empreendimento de grande vulto, e a restauração da Mansão de Bahá'u'lláh, dispendiosa, e uma tarefa árdua, foram começadas durante o mesmo ano e levaram aproximadamente o mesmo período de tempo.

Em tudo o que Shoghi Effendi fazia, era guiado por aquilo que ele sabia ser o desejo do Mestre. Em 1907, 'Abdu'l-Bahá havia conseguido completar apenas seis das nove salas que formariam um quadrado, no centro do qual repousaria o corpo do Báb e já nesse ano foram realizadas reuniões naquelas de frente para o mar. Em 1909, com as próprias mãos, Ele colocara os restos mortais do Arauto-Mártir da Fé em seu lugar de descanso final. No ano seguinte, Ele partiu para Suas viagens pelo Ocidente, depois veio a guerra e Ele faleceu. Já havia, porém, expressado Sua idéia da estrutura completa: deveria ter uma galeria com arcada em volta dos nove aposentos originais planejados por Ele e seria encimada por um domo. Shoghi Effendi nunca deixou de pensar nesse plano do Mestre, mas sua realização parecia muito vaga. Onde e quando ele encontraria o arquiteto para desenhar tal Santuário e o dinheiro para construí-lo?

A resposta veio de um modo inteiramente inesperado. Em 1940, minha mãe faleceu em Buenos Aires e meu pai ficou completamente só, pois eu era a filha única. Com aquela bondade sua, tão incomparável, um dia Shoghi Effendi me disse que agora que minha mãe havia morrido, o lugar de meu pai era conosco. Ele o convidou para vir se juntar a nós e, apesar da guerra, cuja arena se alastrava rapidamente, meu pai conseguiu. Por muitos anos, qualquer trabalho de construção empreendido por Shoghi Effendi nas propriedades bahá'ís, ele o havia executado com a assistência ocasional de um arquiteto ou engenheiro local. Além das três salas acrescentadas ao Santuário do Báb, a construção dos grandes e incomparáveis monumentos das sepulturas dos parentes imediatos de 'Abdu'l-Bahá e a restauração da Mansão, Shoghi Effendi construíra uma bela entrada para o lugar de descanso da Folha Mais Sagrada, demolira a casa de Dumit quando conseguiu comprá-la, utilizando as pedras, portas e caixilhos de suas janelas na construção de um edifício anexo à Casa dos Peregrinos Orientais, e construíra uma ponte sobre a rua para sustentar um dos terraços em frente ao Santuário. Em 1937, meu pai desenhara mais alguns aposentos para serem acrescentados àqueles ocupados pelo Guardião na cobertura da casa de 'Abdu'l-Bahá. Com exceção de coisas como estas, que haviam exigido assistência profissional, Shoghi Effendi invariavelmente elaborava sozinho as dimensões de escadas e de entradas de menor importância que ele colocava nos jardins. Eu não tinha tido experiência alguma nessas coisas e posso me lembrar que, numa ocasião em que ele quis construir um lance de escada mais ambicioso, ladeado por duas pilastras, conduzindo ao Santuário do Báb no final de um novo caminho, trabalhamos por algumas horas nas proporções e finalmente eu lhe fiz um modelo de papel, em escala, o qual olhamos com consideráveis receios! O resultado, porém, foi não só interessante, como satisfatório. O ponto é que o Guardião não era profissional e não queria gastar dinheiro desnecessariamente com um arquiteto para coisas tão pequenas, o que constituía um problema para ele e lhe consumia o tempo inutilmente. Um dia, quando voltou dos jardins do Santuário, ele me perguntou qual seria minha impressão de um lance de escada com tais e tais dimensões. Eu lhe perguntei por que não pedia a papai, um dos melhores arquitetos do Canadá, morando do outro lado da rua na Casa dos Peregrinos Ocidentais, que lhe elaborasse isso. Lembro-me que me olhou com surpresa e perguntou se eu achava que ele poderia. Assegurei-lhe que para meu pai seria facílimo desenhar uma coisa como essa e ele poderia fazê-la imediatamente. Não é que Shoghi Effendi não tivesse confiança nele como arquiteto; já numa ocasião lhe havia mandado, a Montreal, fotografias de um portão de ferro que havia encomendado para o terraço inferior do Santuário, pedindo-lhe para incorporar esse portão num desenho para completá-lo; ele realmente tinha gostado muito do projeto de meu pai, mas nunca conseguiu chegar a um acordo com a municipalidade sobre a ligação de seu terraço com a propriedade municipal e assim o esquema nunca fora executado. Apenas nunca lhe ocorrera que agora, após anos lidando sozinho com tais problemas, ele tinha alguém que pudesse fazer essas coisas por ele. Isto marcou o início de uma bela colaboração. Nunca conheci duas pessoas que tivessem tão perfeito senso de proporção como Shoghi Effendi e meu pai, e, dos dois, o do Guardião era o mais perfeito.

Ao relembrar a vida de Shoghi Effendi, parece-me que, fora a grande expansão da Fé, cujas vitórias tanto lhe significavam, Martha Root, de um modo, e Sutherland Maxwell, de outro, lhe trouxeram mais profunda satisfação pessoal do que qualquer outro crente. Eram muito parecidos em alguns aspectos, almas santas e modestas que adoravam Shoghi Effendi e, com grande prazer, lhe davam o melhor que tinham em serviço e lealdade. Embora os serviços de Martha Root fossem de muito maior importância para a Causa, os talentos de Sutherland se tornaram um meio pelo qual Shoghi Effendi poderia, finalmente, expressar com facilidade o grande lado criativo e artístico de sua própria natureza, o que lhe dava satisfação e felicidade. Até o fim de sua vida, meu pai lhe desenhou escadas, paredes, pilares, luzes e várias entradas para os jardins no Monte Carmelo. Além de ser arquiteto experiente, ele desenhava e pintava belamente, e podia modelar e esculpir qualquer coisa com as mãos. Lembro-me de uma noite em que, após Shoghi Effendi lhe pedir que desenhasse para ele uma entrada principal para a propriedade do Santuário, incorporando a grade de ferro já executada para o último terraço do Santuário acima mencionado, ainda incompleto, eu lhe levei esse desenho. Ele estava sentado na cama e, quando lhe dei o pequeno desenho colorido, fitou-o em silêncio, dizendo então: "Isso não está direito!" Fiquei bastante chocada com isso e perguntei o que ele queria dizer. "Bem", ele disse, "ninguém pode resistir a uma vista tão bela como esta!" Ele não só construiu a entrada, mas mandou emoldurar o rascunho e pendurá-lo na parede ao lado da cama.

Tendo testado meu pai em vários projetos pequenos e verificando que ele estava muito longe de ser falho, de repente - creio que foi perto do fim de 1942 - Shoghi Effendi lhe disse que queria que fizesse um desenho para a superestrutura do Santuário do Báb. Ao Construtor fora dado, afinal, o veículo por meio do qual poderia realizar o plano de 'Abdu'l-Bahá.

Relembrando os meses subseqüentes, fico admirada que Shoghi Effendi, tão completamente absorvido em seu trabalho com A Presença de Deus - que tinha que completar com urgência, antes do iminente Centenário da Fé - tenha conseguido dedicar atenção alguma a este outro projeto de grande importância. De início, Shoghi Effendi havia dado a Sutherland apenas umas breves indicações dos requisitos; disse-lhe que o Santuário deveria ter um zimbório e uma arcada, ser nem puramente ocidental nem puramente oriental em estilo, e não parecer com uma mesquita nem com uma igreja; deixou-o livre para conceber seu próprio desenho. O primeiro que ele fez, mostrava uma estrutura com uma grande arcada e uma seção de clerestório,* encimada por uma cúpula com o formato de pirâmide, do qual Shoghi Effendi não gostou; discutiu a cúpula com Sutherland e disse que queria que seu formato fosse semelhante à de São Pedro, a qual ele considerava a mais bela cúpula do mundo. Se Deus proveu Shoghi Effendi de um arquiteto, com Sua infinita misericórdia concedera também a esse arquiteto não só uma incalculável bênção espiritual mas também uma oportunidade rara na vida de qualquer profissional - a oportunidade de despejar o vinho maduro de seu talento e de sua experiência de uma vida toda numa expressão digna de seu gênio. O segundo desenho feito pelo meu pai, Shoghi Effendi considerou europeu demais em sua ênfase, embora satisfeito com suas proporções, e meu pai, muito contente com essa sugestão, voltou para o estilo de zimbório que usara em seu desenho para o Templo Bahá'í americano que havia apresentado na concorrência original para esse edifício e que mostrava uma acentuada influência indiana em alguns de seus detalhes. Este último desenho agradou muito ao Guardião, com exceção do tratamento da parte superior do clerestório, a qual precisava, em sua opinião, alguma elevação nos oito cantos. Durante semanas e semanas, Sutherland lhe submetia rascunho após rascunho, até que os presentes minaretes, altamente originais, foram aprovadas por ele, em 25 de dezembro de 1943. Suas sugestões tinham tido uma influência, também, nos quatro cantos da arcada, os quais, ele achava, precisavam ser mais pontiagudos e foram, portanto, modificados. Embora Shoghi Effendi gostasse muito do desenho em sua forma final, como mostrado na elevação colorida feita por meu pai, ele disse que queria mandar fazer um modelo, em escala, antes de chegar a uma decisão final num assunto de tão tremenda importância, pois deste modo ele poderia melhor visualizar a estrutura como apareceria depois de erigida; se ele concordasse, era seu plano desvelá-lo na ocasião do centenário da Declaração do Báb durante as festividades a se realizarem em Haifa.

*Conjunto de janelas laterais do andar superior das igrejas medievais - segundo Dicionário Houaiss. (n.r.)

Era extremamente difícil, naquele tempo, encontrar alguém capaz de executar esse modelo e, embora formalmente uma pessoa se incumbisse disso, na prática a maior parte do trabalho coube ao meu pai mesmo, e ele sentia a grande urgência de completá-lo. Em maio, o modelo foi entregue. Depois de examiná-lo cuidadosamente, Shoghi Effendi tomou sua decisão e, em 22 de maio, a imprensa foi informada de que o desenho para completar o Santuário do Báb fora escolhido e a construção seria iniciada logo que as circunstâncias permitissem. Durante a reunião da tarde de 23 de maio, realizada na Casa dos Peregrinos Orientais, quando os homens bahá'ís estavam reunidos na presença do Guardião - inclusive muitos visitantes de países vizinhos - para comemorarem o centenário do alvorecer de sua Fé, Shoghi Effendi mandou trazer o modelo e colocá-lo numa mesa para todos verem. Dois dias depois, ele telegrafou à América: "... Anuncio amigos jubilosas novas centésimo aniversário Declaração Missão Arauto Martirizado Fé assinalado por decisão histórica completar estrutura Seu sepulcro erigido por 'Abdu'l-Bahá local escolhido por Bahá'u'lláh. Modelo zimbório recentemente desenhado desvelado presença crentes reunidos. Suplicando breve eliminação obstáculos consumação estupendo Plano concebido pelo Fundador Fé e esperanças nutridas Centro Seu Convênio."

Quando isto foi anunciado, o mundo aproximava-se do fim da mais terrível guerra da história; os bahá'ís do hemisfério ocidental haviam se esforçado o máximo para ganhar as metas de seu primeiro Plano de Sete Anos; os crentes sentiam os efeitos do esgotamento econômico geral predominante na maioria dos países. Foi, sem dúvida, por causa disso, e porque o Guardião não fez esforço algum para inaugurar um fundo para o Santuário, que este projeto permaneceu em relativo silêncio e não se ouviu mais tocar no assunto até o dia onze de abril de 1946, quando Shoghi Effendi pediu ao Sr. Maxwell que colocasse os planos em ação para a construção da primeira unidade do Santuário e, mais tarde, ele mesmo escreveu às autoridades municipais:

Haifa, 7 de dezembro de 1947.

Departamento Local de Construção e Planejamento Urbano de Haifa

Ao Presidente
Prezado Senhor,

Com referência aos desenhos anexos e à solicitação de permissão para construir, desejo acrescentar uma palavra de explicação.

O Santuário do Báb e o de 'Abdu'l-Bahá, tão conhecidos ao povo de Haifa como 'Abbás Effendi, já existe no Monte Carmelo em forma incompleta. Em seu estado atual, apesar dos jardins extensos ao seu redor, é um edifício sem atrativos, com aspecto de fortaleza.

É minha intenção agora começar o trabalho de completar esse edifício preservando a estrutura original e, ao mesmo tempo, embelezando-a com uma construção monumental de grande beleza, assim contribuindo para a melhora geral no aspecto dos declives do Monte Carmelo.

A finalidade deste edifício, depois de completado, será a mesma de agora. Em outras palavras, será usado exclusivamente como Santuário para sepultar os restos mortais do Báb.

Como verificará pelos desenhos anexos, a estrutura completa será constituída de uma arcada de vinte e quatro colunas de mármore ou outra pedra maciça, encimadas por uma balaustrada ornamental no primeiro pavimento ou térreo do edifício. É nesta parte da construção que desejamos começar a trabalhar imediatamente, deixando a seção intermediária e o zimbório, que encimarão o edifício inteiro depois de completo, para o futuro, se for possível, pouco depois da terminação da arcada do andar térreo.

O arquiteto desta construção monumental é o Sr. W. S. Maxwell, F.R.I.B.A.,* F.R.A.I.C.,† R.C.A.,‡ o muito conhecido arquiteto canadense, cuja firma construiu o Hotel Chateau Frontenac, em Quebec, a Casa do Parlamento, em Regina, a Galeria de Arte, a Igreja do Messias, vários prédios de bancos, etc., em Montreal. Creio que a beleza de seu desenho para completar o Santuário do Báb dará grande realce à aparência de nossa cidade e será uma atração adicional para visitantes.

*Fellow of the Royal Institute of British Architects.

†Fellow of the Royal Architectural Institute of Canada.

‡Royal Canadian Academy of Arts.
Sinceramente,
Shoghi Rabbani

Citei esta carta por extenso porque demonstra a maneira magistral, diplomática e clara com que Shoghi Effendi tratava com as autoridades, e que lhe assegurou a necessária permissão para construir. Em 15 de dezembro, Shoghi Effendi telegrafou à América: "Satisfeito anunciar conclusão de projetos e especificações para construção da arcada cercando Sepulcro do Báb constituindo primeiro passo no processo destinado a culminar na construção do Zimbório antecipado por 'Abdu'l-Bahá e assinalando consumação do empreendimento iniciado por Ele há cinqüenta anos segundo instruções dadas a Ele por Bahá'u'lláh."

Os primeiros passos históricos já haviam sido dados, mas os obstáculos no caminho da realização desse plano cresciam até atingirem proporções que pareciam insuperáveis. O Mandato Britânico aproximava-se de seu fim; a Palestina era abalada por contenda civil e breve seria engolfada numa guerra local. Pesquisas mostraram que as pedreiras das quais poderiam ser obtidas pedras apropriadas para o Santuário estavam situadas tão perto da fronteira libanesa que os proprietários não podiam dar uma idéia de quando iniciariam a entrega. Além disso, a enorme quantidade de material esculpido no edifício requereria um equipe de peritos, os quais praticamente não existiam no país. Em vista disso, Shoghi Effendi tomou outra decisão, o que era típico de sua mente prática e audaciosa: veria se uma parte do trabalho podia ser feita na Itália.

É impossível entrar em todos os detalhes que compõem a saga da construção do Santuário, tão fascinantes em todos os sentidos. Uma carta datada de 6 de abril de 1948, que escrevi em nome do Guardião ao Dr. Ugo Giachery, apresenta muito claramente a situação naquele tempo: "... o Sr. Maxwell... por causa de várias dificuldades, não pôde firmar contratos para a execução do próprio trabalho aqui na Palestina. Entretanto, esteve em contato com uma firma em Carrara sobre firmar contratos para as colunas de granito que deverão cercar o edifício no primeiro pavimento. Ele vai agora à Itália, primariamente para firmar o contrato para essas e, se for encontrada a pedra apropriada, igual à pedra palestina que será usada aqui, firmar outros contratos também para os capitéis e certas peças da ornamentação esculpida... o Sr. Benjamim Weeden... acompanhará o Sr. Maxwell a fim de cuidar dele e ajudar a facilitar o trabalho lá... Como as condições neste país estão extremamente perturbadas e o futuro imediato, muito incerto, o Guardião está muito ansioso para ver os contratos firmados na Itália o mais breve possível e o Sr. Maxwell e Sr. Weeden voltarem antes que possam ser impedidos e assim separados de nós temporariamente. Ele apreciaria muito, pois, se o senhor pudesse dedicar o maior tempo possível para ajudá-los, traduzindo para eles e pondo-os em contato com firmas italianas confiáveis que negociem com eqüidade... Infelizmente, devido ao fato de estar interrompida praticamente toda a comunicação com Jerusalém... o Sr. Weeden não conseguiu se comunicar com o Consulado Italiano lá e obter seu visto. Se com a vossa ajuda ele não puder arranjar visto em Roma quando seu avião chegar, ele terá que seguir viagem até Gênova... e regressar para estar com Sr. Maxwell... como o Sr. Maxwell tem 74 anos, embora esteja com muito boa saúde, esperamos que possa cuidar muito bem dele... A situação é tão crítica que é extremamente importante que eles terminem seus negócios e regressem à Palestina..."

No dia 15 do mesmo mês, escrevi a Horace Holley, secretário da Assembléia Nacional americana, em nome do Guardião, informando-o, em detalhes, sobre essa viagem à Itália e explicando que os fundos do Guardião estavam bloqueados na Palestina por causa de estritos regulamentos de câmbio: "Portanto, ele tem em mente pedir aos amigos, àqueles cuja situação financeira permitir, levantarem um empréstimo a fim de se poder firmar esses contratos... ele mesmo deseja ser considerado como garantia da transação e pagará o empréstimo no primeiro momento possível. Insiste que não haja mal-entendidos sobre este ponto. Está financiando esta obra com os fundos internacionais da Causa e somente considerará um acordo pelo qual ele pagará esse empréstimo temporário... Desde que nossa situação aqui é tão incerta que qualquer dia podemos descobrir que a comunicação por correio e mesmo por telégrafo está temporariamente suspensa, ele está se apressando em lhes mandar esta informação... se tudo puder ser arranjado convenientemente e os contratos forem assinados, o Sr. Giachery terá que agir como representante na transação, recebendo as quantias que mandarão dos Estados Unidos, fiscalizando o trabalho na Itália, e assumindo a responsabilidade geral lá, se nós todos ficarmos separados uns dos outros... Ele exortou o Sr. Maxwell e o Sr. Weeden a regressarem à Palestina dentro de três semanas, se for possível, pois receia a interrupção completa de comunicação entre eles e nós... É maravilhoso saber que o presente trabalho no Santuário está agora tão adiantado que se vê a possibilidade de as operações da construção serem iniciadas em breve. Mas tremendos obstáculos haverão de ser superados e ele está confiante de que o serão."

Numa tempestade como essa, foi dado ainda outro passo na história incrivelmente agitada dos restos mortais do Báb e da construção de Seu Túmulo. Não foi confortante, no dia seguinte, 16 de abril, ver meu pai e o Sr. Weeden partirem, num táxi inteiramente blindado, sendo que a visibilidade para o chofer dependia de uma brecha de meia polegada de largura. Não tínhamos qualquer idéia de sua sorte até que telegrafaram da Itália. A meio caminho para o aeroporto, haviam sido forçados a descer do táxi e andar alguns centenas de metros, carregando suas pesadas malas, até alcançarem outro táxi, uma dureza desnecessária, típica das tribulações do povo desse país naquele tempo. Seu avião foi um dos últimos a sair do aeroporto de Lydda antes que este fosse atacado e tomado, e todos os serviços aéreos suspensos por algum tempo. Durante sua ausência, ocorreu a Guerra da Independência e o país passou a ter dias intranqüilos de trégua armada.

Durante 1948, o próprio Shoghi Effendi empreendeu - pela segunda vez em vinte anos - a escavação da rocha existente atrás do Santuário, a fim de alargar suficientemente a área para tornar possível a construção da arcada. Foi um trabalho tremendo, necessitando a remoção de centenas de metros quadrados* de pedra. A engenhosidade do Guardião foi demonstrada continuamente à medida que este trabalho prosseguia; ele mandou comprar uns trilhos de segunda mão e um veículo, instalá-los no caminho paralelo ao Santuário e em frente a ele, despejar através de calhas o material escavado e levá-lo, com o veículo, até o ponto mais oriental do terraço, que serviria como aterro para o próprio terraço. Desde o amanhecer até o escurecer, muitas vezes mais de oito horas em pé, dia após dia e mês após mês, ele dirigia o trabalho. Certamente este não era seu trabalho, mas ele estava determinado a fazer com que fosse executado não só com rapidez como também economicamente, e não havia outra pessoa com a força de vontade e vigor necessários para substituí-lo. Foi assim que Shoghi Effendi, com infatigável determinação e infalível perseverança, fez dos Lugares Sagrados, no Centro Mundial, o que hoje vemos diante de nós.

*Embora quantidade de pedra removida deva ser medida em metros cúbicos, no original consta squaremeters (metros quadrados). (n.r.)

Tenho uma anotação em meu diário datada de terça feira, 24 de fevereiro de 1949, a qual reza: "Domingo, M__ [o empreiteiro] começa os alicerces dos cantos sudeste e oeste. Na semana seguinte, a colocação das pedras do limiar - de modo que o trabalho, afinal, está realmente começando." Os longos meses de labuta do Guardião chegaram ao fim; agora o edifício se ergueria! Inexoravelmente, Shoghi Effendi construía o Santuário que, conforme ele disse, era "a consumação do irresistível Propósito de Bahá'u'lláh, o de erigir um memorial duradouro e digno para Seu Arauto Divino e Co-Fundador de Sua Fé." E não só o construiu, ele o dramatizou até que se tornou uma viva experiência para todos os bahá'ís, um projeto ao qual estavam ligados os seus corações, bem como o coração do Guardião. Ele tornou emocionante o trabalho comum de erigir um edifício. Quando ele anunciava a chegada de uma nova remessa de pedra da Itália, dando o número de toneladas recebidas, ou a construção de uma nova unidade, ou nos informar de que o zimbório tinha duzentos e cinqüenta metros quadrados de superfície, ou descrevia a beleza de algum detalhe, a mágica de suas palavras e o entusiasmo que refletiam arrebatavam-nos numa onda de júbilo, enlevando-nos, fazendo com que nos sentíssemos co-participantes em algo infinitamente grande e extasiante, de modo que aquilo que normalmente teria sido um fato insípido, num mundo insípido, relatado a pessoas insípidas, incendiava-nos a imaginação e nos identificava mais profundamente com a nossa Fé. Não é de se admirar que os crentes, embora preocupados com seus interesses nacionais do mundo pós-guerra, tenham se unido ao seu redor e lhe ajudado a completar, em cinco anos, um verdadeiro "empreendimento mundial", a um custo de três quartos de milhão de dólares.

De início, Shoghi Effendi contemplara a possibilidade de erigir apenas a arcada do Santuário e deixar para o futuro a superestrutura propriamente dita, mas a extraordinária reação dos bahá'ís em toda parte do mundo, unindo-se em apoio a esse sagrado edifício, a piora geral na situação internacional, as tendências econômicas para aumento do preço e o fato de que os mesmos altamente eficientes e hábeis trabalhadores que haviam executado com tanta perfeição o trabalho na arcada estavam ainda disponíveis na companhia contratada para o trabalho de pedra na Itália - tudo isso levou-o a seguir ininterruptamente com sua construção.

Um empreendimento como esse, durando tantos anos, consumia-lhe o tempo e causava muitos desgostos e dificuldades. Negociações com o engenheiro superintendente e o empreiteiro - em todas as quais eu representava o Guardião - eram, muitas vezes, extremamente difíceis, porque ninguém podia enganar ou roubar Shoghi Effendi; sempre que um orçamento era alto demais, ele o rejeitava terminantemente e numa ocasião declarou até que mandaria parar o trabalho no Santuário por um tempo indefinido, pois não tinha intenção de pagar o que achava ser um preço exorbitante. Ele batalhava para vencer todos os obstáculos em seu caminho e freqüentemente eu descobria, com grande surpresa, que eu era sua espada! Não somente todo o trabalho em pedra foi importado da Itália, mas, por algum tempo, até o cimento e o aço tinham que ser obtidos de lá por causa da acentuada carência local, e isto também era fonte de complicações e preocupações sem fim.

Além dos problemas desta natureza, havia um outro que por muito tempo o preocupava e até causou demora na construção da existente superestrutura do Santuário, pois deve-se lembrar que a arcada apenas abraça o edifício original e não foi construída sobre ele. A fim de se construir o resto do Santuário, oito pilares de concreto armado tinham que passar através de oito de suas paredes internas até alcançarem o leito da rocha. Isto foi motivo de grande preocupação para o Guardião porque as dimensões exatas da câmara na qual estão enterrados os restos mortais de 'Abdu'l-Bahá eram desconhecidas, havendo, pois, verdadeiro perigo de que, ao furarem uma das paredes, penetrassem o próprio túmulo. Pela atitude do Guardião para com este problema aprendi mais sobre o que significam, realmente, dignidade e santidade do que em todo o resto de minha vida. Shoghi Effendi disse que, se penetrássemos o sepulcro, o corpo do Mestre teria que ser removido. A mim, isto parecia muito simples; Ele seria apenas transferido para outro lugar temporariamente. De que modo maravilhoso Shoghi Effendi falou então! Oxalá pudesse me lembrar de suas palavras exatas. Disse que os restos mortais do Mestre nunca poderiam ser tratados de uma maneira tão informal. Teriam que ser removidos de um modo digno, com grande cerimônia, e colocados dignamente em algum outro lugar e então novamente sepultados com a mesma reverência. Onde seriam encontradas, perguntou Shoghi Effendi, pessoas para estarem presentes em tão solenes e sagradas ocasiões, numa comunidade local tão pouco fervorosa, constituída mormente por empregados domésticos e com todas as portas fechadas para os países vizinhos? E, acima de tudo, onde acharia ele um lugar apropriado para os sagrados restos de 'Abdu'l-Bahá repousarem temporariamente até ser completado o trabalho no interior de Seu Santuário? Sua própria voz respirava reverência. Depois disso, compreendi muito mais acerca de religião. Finalmente, depois que meu pai e o engenheiro percutiram exaustivamente todo o assoalho e as paredes, e velhos bahá'ís que haviam assistido aos funerais do Mestre deram suas recordações a respeito de onde se situava Seu sepulcro, parecia muito pouco provável que qualquer um dos pilares, por mais próximo que fosse localizado das paredes exteriores, pudesse penetrar o próprio túmulo, e assim se deu início ao trabalho.

Em março de 1952, Sutherland Maxwell faleceu, após dois anos de doença. Embora sua morte não pudesse prejudicar a execução do desenho concebido por ele para o Santuário, a parte do zimbório foi privada do benefício dos desenhos em grande escala que ele fazia e, portanto, daquele cunho de excelência que seu próprio tratamento detalhado sempre produzia em seu trabalho. Em reconhecimento aos serviços prestados por ele, bem como por Dr. Giachery, ao Santuário do Báb, Shoghi Effendi deu seus nomes às duas portas do edifício original de 'Abdu'l-Bahá que ainda não tinham recebido nomes e, mais tarde, deu à porta do octógono o nome de Sr. Ioas, que dirigiu a construção da parte cilíndrica e do zimbório do edifício.

Quando o Santuário que ele erigira com tanto amor e cuidado já estava completado, Shoghi Effendi, percebendo sua qualidade essencialmente feminina de beleza e pureza, denominou-o a "Rainha do Carmelo". Descreveu-a como "entronizada na Sagrada Montanha de Deus, coroada de ouro resplandecente, vestida de branco cintilante e cingida de verde-esmeralda, um espetáculo que encanta todos os olhos, quer visto do ar, do mar, da planície ou da colina". Dentre as inúmeras passagens nas quais Shoghi Effendi elogia e explica a profunda significação espiritual deste Lugar, nenhuma é mais impressionante e mais poderosa do que aquela na qual ele visualiza os restos mortais do Arauto-Mártir da Fé como o centro de um vórtice espiritual. O Báb, descrito pelo próprio Bahá'u'lláh como "O Ponto ao redor do Qual giram as realidades dos Profetas e Mensageiros", a forma física de cujo Pó Sagrado, deixado na terra, é no mundo espiritual, segundo disse Shoghi Effendi, o coração e centro de nove círculos concêntricos: o mais externo desses círculos é o próprio planeta; dentro deste, jaz a Terra Sacratíssima, descrita por 'Abdu'l-Bahá como "o Ninho dos Profetas"; dentro deste Ninho está a Montanha de Deus, a Vinha do Senhor, o Retiro de Elias, cujo retorno o próprio Báb simbolizou; contidos nesta Montanha, estão os sagrados recintos, os terrenos de propriedade internacional pertencentes à Fé; seus jardins e terraços que constituem a Corte Mais Santa; dentro desta Corte sobressai, em toda a sua encantadora beleza, o Mausoléu do Báb, a Concha; dentro desta Concha, está a Pérola de Grande Valor, o Sacrário, o Túmulo original construído pelo próprio Mestre; preservado dentro deste Sacrário está o Sepulcro ou Tabernáculo, a câmara central do Santuário; dentro deste Sepulcro está o Sarcófago de alabastro, o Sacratíssimo Ataúde, "no qual", escreveu Shoghi Effendi, "está depositada aquela Jóia inestimável, o sagrado Pó do Báb".

O Santuário, disse Shoghi Effendi, era uma "instituição" e é impossível exagerar a importância do papel que esta instituição é destinada a desempenhar no "desenvolvimento do Centro Administrativo Mundial da Fé de Bahá'u'lláh e no florescimento de suas mais altas instituições que constituirão o embrião de sua futura Ordem Mundial". À medida que a superestrutura se erguia em toda a sua majestade, Shoghi Effendi revelava cada vez mais da verdadeira significação do Santuário; não só era, escreveu ele, o primeiro e o mais sagrado edifício erigido no Centro Mundial da Fé, mas era "a instituição internacional inicial prenunciando o estabelecimento do Supremo Corpo Legislativo do Centro Administrativo Mundial..."

Os restos mortais de Bahá'u'lláh, o "Ponto de Adoração" ou "Qiblih" dos fiéis, era sagrado demais em sua essência, sendo sua posição tão infinitamente elevada, para servir de dínamo espiritual, galvanizando as instituições de Sua Ordem Mundial. Os restos do Báb, entretanto - Quem descrevera Sua própria posição em relação à de Bahá'u'lláh como a de "um anel na mão dAquele que Deus tornará manifesto", Quem "o vira do modo que Lhe apraz, para qualquer coisa que Lhe apraza e através de qualquer coisa que Ele deseje" - fora escolhido pelo próprio Bahá'u'lláh para ser o Centro ao redor do qual Suas Instituições Administrativas se agrupariam e sob cuja sombra haveriam de funcionar, graças a Seu ato de escolher no Monte Carmelo o sítio onde os restos mortais do Báb deveriam descansar, e em dar instruções a 'Abdu'l-Bahá sobre a compra do local e a transferência dos restos mortais da Pérsia para serem enterrados lá. Devemos nos lembrar de que, muito antes de Bahá'u'lláh declarar Sua posição, foi o Báb que levantou o toque de clarim da "Nova Ordem". Que seria mais apropriado e significativo, então, do que a escolha de Seus restos mortais para este fim? Shoghi Effendi tornou clara esta distinção quando se referiu à natureza gêmea de tantos edifícios no Centro Mundial, os Santuários Gêmeos, os Centros Gêmeos Administrativo e Espiritual da Fé.

Pouca dúvida pode haver de que Shoghi Effendi, ao ler a Vontade e Testamento de 'Abdu'l-Bahá, primeiro pensou no estabelecimento, com a maior brevidade, do Supremo Corpo Administrativo da Fé Bahá'í, a Casa Universal de Justiça. Um de seus primeiros atos, em 1922, fora a convocação, em Haifa, de crentes antigos e eminentes para tratarem deste assunto com ele. Repetidamente o mencionava em suas comunicações - de fato, ele se refere a isto em sua primeira carta à Pérsia, escrita em 16 de janeiro de 1922, na qual diz que, mais tarde, anunciará aos amigos as medidas preliminares para sua eleição. Nunca houve qualquer dúvida em sua mente quanto à sua função e à sua significação; em março de 1923, ele a havia descrito como "aquele Conselho Supremo que surgirá, organizará e unificará os assuntos do Movimento no mundo inteiro". Com toda certeza, duas forças operavam no Guardião naqueles primeiros dias de seu ministério; uma era seu entusiasmo de jovem para executar prontamente todas as instruções de seu bem-amado Mestre, as quais incluíam o estabelecimento da Casa Universal de Justiça; e a outra era a guia e proteção divinas que lhe foram prometidas no Testamento; esta última modificava a primeira. Muitas e muitas vezes, Shoghi Effendi tentava pôr em andamento pelo menos os preparativos para a eleição desse Corpo Supremo - e outras tantas vezes a Mão da Providência manipulava os eventos de tal modo que ação prematura se tornasse impossível. Na ocasião das consultas realizadas em 1922, subitamente deve ter ficado evidente para ele que, mesmo uma etapa preliminar na formação da Casa Universal de Justiça, por mais altamente desejável que fosse, poderia ser um passo perigoso naquele tempo. Faltava a firme base administrativa, essencial à sua eleição e ao seu apoio, bem como uma reserva suficiente de crentes qualificados e bem informados que a pudessem constituir.

Tendo verificado que a porta para a formação da Casa Universal de Justiça não estava aberta, Shoghi Effendi se pôs a tentar estabelecer ao menos as formas preliminares que poderiam preceder sua eleição. Quando, nos primeiros anos de seu ministério, ele procurou pessoas para virem a Haifa auxiliá-lo em seu trabalho, visava a formação de um corpo definitivo no Centro Mundial. Isto é comprovado pelas suas próprias palavras. Em 30 de agosto de 1926, ele escreveu a um dos bahá'ís: "Estou ansiosamente considerando meios e modos para a formação de alguma espécie de secretariado eficiente e competente em Haifa... Tenho pensado muito nisto e estou ainda sondando e procurando um amigo competente, de confiança, metódico e treinado que, livre e desimpedido, possa devotar... meses contínuos a tão delicada e responsável tarefa. Quando isto for atingido, nutro as mais vivas esperanças de que sejam fortalecidos os laços vitais entre o Centro em Haifa e todas as Assembléia do mundo bahá'í." Em 7 de dezembro do mesmo ano, ele informou um parente de que dois dos bahá'ís proeminentes haviam se unido a ele em Haifa e "esperamos formar alguma espécie de Secretariado Bahá'í Internacional..." A verdadeira importância que esse Secretariado tinha na mente de Shoghi Effendi, porém, é exposta numa carta sua, escrita duas semanas depois, na qual ele apresenta esses mesmos dois bahá'ís ao Sr. Abramson, Comissário para o Distrito Norte da Palestina, e após mencionar seus nomes, escreveu que esses "dois representantes bahá'ís... pedi que viessem aqui para considerar comigo, e com outros bahá'ís do Oriente, a formação de um Secretariado Bahá'í Internacional como passo preliminar ao estabelecimento do Conselho Bahá'í Internacional".

Das notas de um peregrino indiano, numa carta a um amigo, escrita em Haifa, em 15 de junho de 1929, encontramos o seguinte: "Shoghi Effendi diz... enquanto as várias Assembléias Nacionais não tiverem posições estabilizadas, bem organizadas, será impossível estabelecer mesmo uma Casa de Justiça informal. Ele deseja que redijamos imediatamente uma constituição da Assembléia Nacional seguindo o modelo do "American Trust" e a registremos junto ao governo da Índia, se possível como corpo religioso, senão, como corpo comercial... Shoghi Effendi, em suas cartas recentes aos países orientais, tem instado que tratassem do reconhecimento, pelos governos locais, das Assembléias Nacionais como Cortes Religiosas de Justiça..."

É interessante notarmos que, numa carta endereçada à Sra. Stannard, que dirigia o Escritório Internacional Bahá'í em Genebra - um escritório destinado a promover os assuntos da Fé na Europa, bem como estimular suas funções internacionais no mundo inteiro, e que era constantemente animada e orientada pelo Guardião em seu trabalho - Shoghi Effendi escreve, em agosto de 1926, que deseja que o Boletim Bahá'í publicado por esse escritório seja "nos três idiomas predominantes na Europa, isto é, inglês, francês e alemão... Já expressei em meu cabograma minha prontidão para lhes prestar assistência comum e financeira a fim de assegurar que a circular proposto seja publicado nas três línguas oficiais reconhecidas da porção ocidental do mundo bahá'í... Esse Centro na Suíça e a Revista Esperantista Bahá'í publicada em Hamburgo são ambos destinados a ombrear algumas das funções e responsabilidades que futuramente serão assumidas pela Assembléia Bahá'í Internacional quando estiver formada".

Em muitas referências semelhantes, especialmente nos dez primeiros anos de seu ministério, Shoghi Effendi revela que está constantemente antecipando a formação de alguma espécie de Secretariado ou Conselho Internacional até a eleição da própria Casa Universal de Justiça, cujas funções, significado e importância cresciam em sua mente. Em algum momento do verão de 1929, o Guardião concebeu a idéia de os bahá'ís realizarem uma Conferência Internacional, na qual os amigos se reuniriam informalmente para discutirem meios e maneiras de acelerar a formação de Assembléias Bahá'ís Nacionais no Oriente, bem como o assunto da Administração em geral como ele a estava desenvolvendo, e assim apressarem o dia em que pudesse ser eleita a Casa de Justiça segundo prevista por 'Abdu'l-Bahá. Alguns dos bahá'ís antigos tinham outro conceito daquilo que deveria ocorrer nessa conferência, sendo desejosos de ver eleita alguma forma de corpo interino. Ao ser informado deste fato, Shoghi Effendi imediatamente telegrafou, em 12 de dezembro de 1929, a dois dos homens mais interessados em arranjar essa conferência, e cancelou-a peremptoriamente, dizendo que seria "uma causa de confusão, mal-entendidos e até de controvérsia". Recuou diante do grande perigo que previa de que pessoas imaturas, ainda não imbuídas de compreensão da Ordem Administrativa que ele estava desenvolvendo e construindo, assumissem uma posição e um poder para os quais certamente não tinham capacidade e segurança. Por mais de vinte anos, a idéia toda ficou suspensa e cessou a repetida menção da formação da Casa Universal de Justiça que se encontra nas primeiras cartas de Shoghi Effendi, até que ele criou um Conselho Internacional, constituído por membros nomeados por ele mesmo. Não há dúvida em minha mente, a julgar pelas coisas que ele me disse em várias ocasiões, de que, nos primeiros anos de sua Guardiania, ele percebia em certos crentes proeminentes um desejo de fazerem parte de um corpo como a Casa de Justiça ou alguma instituição interina, e sentia, por parte deles, uma tendência a lhe menosprezar o juízo e a capacidade, e de se apoderarem das rédeas da Causa de Deus; eram homens idosos o bastante para serem seus pais e, quaisquer que fossem seus pensamentos acerca do Testamento do Mestre, de certo modo o consideravam como um jovem inexperiente.

Desde o início, Shoghi Effendi concentrava-se em multiplicar e fortalecer as "várias Assembléias, locais e nacionais". Já em 1924, declarou que elas constituíam "o leito de rocha sobre cuja firmeza a Casa Universal há de ser firmemente estabelecida e erguida no futuro". Quase invariavelmente, em anos subseqüentes, quando pedia a formação de novos Corpos Nacionais, o Guardião usava frases como a seguinte, em seu telegrama à Quarta Conferência Européia de Ensino, em 1951: "... Futuro edifício Casa Universal de Justiça dependendo, para sua estabilidade, da força sustentadora pilares erigidos diversas comunidades Oriente Ocidente, destinado a obter poder adicional através estabelecimento três Assembléias Nacionais... espera surgir estabelecimento instituições similares continente europeu..." Antecipando a eleição daquele Corpo augusto, Shoghi Effendi fez declarações que, acrescentadas às palavras de seu Fundador, Bahá'u'lláh, e aos poderes e prerrogativas que lhe foram conferidos por 'Abdu'l-Bahá em Sua Vontade e Testamento, não podem deixar de apoiar o poder e facilitar as tarefas daquela Casa Universal por pelo menos mil anos. Shoghi Effendi disse que a Casa Universal de Justiça seria o "núcleo e precursor" da Nova Ordem Mundial; que "aquela futura Casa" seria uma Casa que a "posteridade há de considerar o último refúgio de uma civilização cambaleante"; "a última unidade a coroar a estrutura da embrionária Ordem Mundial de Bahá'u'lláh"; "o mais alto corpo legislativo na hierarquia administrativa da Fé" e sua Suprema Instituição eleita". O Guardião declarou: "Aos Fideicomissos da Casa de Justiça" Bahá'u'lláh "designa o dever de legislar sobre assuntos não expressamente estabelecidos em Seus Escritos, e promete que Deus 'os inspirará com qualquer coisa que Ele queira'." Escreveu também que "... os poderes e prerrogativas da Casa Universal de Justiça, que possui o direito exclusivo de legislar sobre assuntos não explicitamente revelados no Livro Mais Sagrado; o decreto que isenta seus membros de qualquer responsabilidade perante aqueles que representam e da obrigação de se conformarem com suas opiniões, convicções ou sentimentos; as provisões específicas que requerem a livre e democrática eleição, pelas massas dos fiéis, do Corpo que constitui o único órgão legislativo na Comunidade Bahá'í mundial - são algumas das feições que se unem para distinguir a Ordem identificada com a Revelação de Bahá'u'lláh de qualquer um dos sistemas existentes de governo humano."

Muito subitamente, num dia em novembro de 1950, na Suíça, quando meu pai, segundo Shoghi Effendi anunciou, se restabelecera "milagrosamente" de uma grave doença, o Guardião sentou-se e, com grande espanto meu, mandou cabogramas convidando para Haifa os primeiros daquele grupo que posteriormente vieram a ser membros do Conselho Bahá'í Internacional. Como em quase tudo que ele fazia, primeiro veio o despontar e, depois, o sol do conceito completo surgiu acima do horizonte. Após o nosso regresso à Terra Santa, quando Lutfu'lláh Hakim (o primeiro a chegar), Jessie e Ethel Revell, seguidos por Amelia Collins e Mason Remey, estavam todos reunidos à mesa na Casa dos Peregrinos Ocidentais, juntamente com Gladys Weeden e seu marido Ben, que já moravam lá, o Guardião anunciou-nos sua intenção de constituir, desse grupo, um Conselho Internacional, deixando-nos todos atônitos diante da natureza sem precedentes desta medida que ele estava tomando e da infinita graça que conferia aos presentes, bem como ao inteiro mundo bahá'í. Foi só em 9 de janeiro de 1951, porém, que ele liberou esta notícia por um cabograma histórico: "Proclamo Assembléias Nacionais Oriente Ocidente importante histórica decisão formação primeiro Conselho Bahá'í Internacional precursor suprema instituição administrativa destinada emergir plenitude tempo dentro recinto abrigado à sombra Centro Espiritual Mundial Fé já estabelecido cidades gêmeas 'Akká Haifa."

O cumprimento das profecias, tanto de Bahá'u'lláh como de 'Abdu'l-Bahá, através do estabelecimento de um Estado Judaico independente após a passagem de dois mil anos, o desenvolvimento do portentoso empreendimento histórico associado à construção da superestrutura do Santuário do Báb, a maturidade agora adequada das nove Assembléias Nacionais funcionando vigorosamente, tudo isto se reunira para induzi-lo a tomar esta decisão histórica que era o marco miliário mais significativo na evolução da Ordem Administrativa durante trinta anos. Naquele cabograma, Shoghi Effendi prosseguiu, dizendo que esta nova instituição tinha uma tríplice função: formar contatos com as autoridades no recém-nascido Estado, ajudá-lo na construção do Santuário (só a arcada havia sido completada naquele tempo) e negociar com as autoridades civis sobre assuntos de cunho pessoal. Novas funções seriam acrescentadas à medida que esta primeira "Instituição Internacional embrionária" se desenvolvesse até se tornar uma Corte Bahá'í reconhecida oficialmente e se transformasse num corpo eleito, atingindo seu desabrochar final na Casa Universal de Justiça; isto, por sua vez, frutificaria na edificação de muitas instituições auxiliares, constituindo o Centro Administrativo Mundial. Esta mensagem, de significado tão emocionante para o futuro, explodiu no mundo bahá'í como um trovão. Tal como um hábil engenheiro, entrelaçando as partes componentes de sua máquina, Shoghi Effendi agora colocara em seu lugar a estrutura que finalmente viria a sustentar a unidade culminante - a Casa Universal de Justiça.

Quatorze meses mais tarde, em 8 de março de 1952, Shoghi Effendi, num longo cabograma ao mundo bahá'í, anunciou o aumento no número de membros do Conselho Bahá'í Internacional: "Membros incluem presentemente Amatu'l-Bahá Rúhíyyih escolhida elo de ligação entre mim e o Conselho. Mãos da Causa Mason Remey, Amelia Collins, Ugo Giachery, Leroy Ioas, respectivamente coordenador, vice-coordenadora, membro representante, secretário-geral. Jessie Revell, Ethel Revell e Lutfu'lláh Hakim, respectivamente tesoureira e secretários assistentes ocidental e oriental." Houve mudança na constituição original por causa da partida do Sr. e Sra. Weeden, por motivo de saúde, da chegada do Sr. Ioas, que oferecera seus serviços ao Guardião, e da inclusão do Dr. Giachery, que continuou a residir na Itália, dirigindo a construção do Santuário - sendo que cada pedra de sua construção foi extraída, cortada e esculpida naquele país e então transportada a Haifa, e as telhas douradas do telhado encomendadas na Holanda - e sendo o agente de Shoghi Effendi, encomendando e comprando muitas outras coisas necessárias na Terra Santa. Em maio de 1955, o Guardião anunciou ter elevado a nove o número dos membros do Conselho Bahá'í Internacional, com a nomeação de Sylvia Ioas. Em suas funções, o Conselho Bahá'í Internacional era semelhante àquele Secretariado que o Guardião, tantos anos antes, desejara estabelecer; seus membros eram individualmente instruídos por ele, na atmosfera informal da mesa de jantar da Casa de Peregrinos, e não formalmente como um corpo; suas reuniões eram raras, porque todos os seus membros se ocupavam constantemente com as numerosas tarefas que lhes eram designadas pelo próprio Guardião. Habilmente, Shoghi Effendi usou esta nova instituição para criar, nas mentes dos oficiais do governo e da municipalidade, a imagem de um corpo de caráter internacional que tratava dos assuntos administrativos no Centro Mundial. Não interessava ao público se este corpo possuía muita ou pouca autoridade; nós, que éramos seus membros, sabíamos que Shoghi Effendi era tudo; o público, porém, começou a ver uma imagem que poderia, mais tarde, evoluir até se tornar a Casa Universal de Justiça.

Entre a primeira e a segunda mensagem que Shoghi Effendi enviou ao mundo bahá'í, informando sobre a formação do Conselho Bahá'í Internacional e os nomes de seus membros, ele deu ainda outro passo fundamental no desenvolvimento histórico do Centro Mundial da Fé, anunciando oficialmente a nomeação, em 24 de dezembro de 1951, do primeiro contingente das Mãos da Causa de Deus, em número de doze, e igualmente distribuídas entre a Terra Santa, os continentes da Ásia, América e Europa. As pessoas que nessa época o Guardião elevou a este grau ilustre foram Sutherland Maxwell, Mason Remey e Amelia Collins, como Mãos da Causa de Deus na Terra Santa; Valíyu'lláh Varqá, Tarázu'lláh Samandarí e 'Alí-Akbar Furútan, na Ásia; Horace Holley, Dorothy Baker e Leroy Ioas, na América; George Townshend, Hermann Grossmann e Ugo Giachery, na Europa. Dois meses depois, em 29 de fevereiro de 1952, Shoghi Effendi anunciou aos amigos no Oriente e no Ocidente que ele aumentara o número da Mãos da Causa de Deus a dezenove, com a nomeação de Fred Schopflocher, no Canadá, Corinne True, nos Estados Unidos, Zikru'lláh Khadem e Shua'u'lláh Alai, na Pérsia, Adelbert Mühlschlegel, na Alemanha, Músá Banani, na África, e Clara Dunn, na Austrália. Com estas duas nomeações de Mãos da Causa, Shoghi Effendi disse que estava na hora dele dar este passo de acordo com as provisões do Testamento de 'Abdu'l-Bahá, e que era paralelo à medida preliminar da formação do Conselho Bahá'í Internacional, destinado a culminar no surgimento da Casa Universal de Justiça. Anunciou ele que o augusto corpo das Mãos, segundo o Testamento de 'Abdu'l-Bahá, estava investido da sagrada função dupla de propagar a Fé e lhe preservar a unidade.

Em sua última mensagem ao mundo bahá'í, em outubro de 1957, Shoghi Effendi anunciou ter designado "ainda outro contingente das Mãos da Causa de Deus... As oito pessoas agora elevadas a esse grau excelso são: Enoch Olinga, William Sears e John Robarts, na África Oeste e Sul; Hasan Balyuzi e John Ferraby, nas Ilhas Britânicas; Collis Featherstone e Rahmatu'lláh Muhajir, na área do Pacífico; e Abu'l-Qásim Faizi, na Península Arábica - um grupo escolhido de quatro continentes do globo e representando os Afnán, bem como as raças negra e branca, sendo seus membros de origem cristã, muçulmana, judaica e pagã."

Num período de dois meses em 1952, o Guardião criou um corpo de um Váhid (dezenove) de Mãos da Causa e manteve este número até 1957, quando acrescentou mais oito, assim atingindo três múltiplos de nove. Sempre que falecia uma das dezenove iniciais, Shoghi Effendi nomeava outra Mão. Duas das Mãos assim designadas foram elevadas à posição ocupada pelos seus pais; assim, em 26 de março de 1952, com a morte de Sutherland Maxwell o manto de meu pai caiu sobre meus ombros; e 'Alí Muhammad Varqá foi nomeado para suceder a seu pai em 15 de novembro de 1955, tornando-se também o Fideicomissário do Huqúq em seu lugar. Depois que Dorothy Baker foi morta num acidente, Paul Haney foi nomeado Mão da Causa, em 19 de março de 1954, e, após o falecimento de Fred Schopflocher, Jalal Khazeh foi elevado ao mesmo grau, em 7 de dezembro de 1953; e, não muito depois da morte de George Townshend, o Guardião designou Agnes Alexander, em 27 de março de 1957. Assim, o número de dezenove foi mantido por ele até a nomeação do terceiro contingente de Mãos, em sua última grande mensagem, a meio caminho da Cruzada Mundial.

Entre 9 de janeiro de 1951 e 8 de março de 1952, modificações notáveis e de vasto alcance ocorreram na Ordem Administrativa da Fé em seu Centro Mundial - modificações que finalmente significaram, segundo escreveu Shoghi Effendi, a criação da "maquinaria de suas mais altas instituições", "os supremos Órgãos de sua Ordem em evolução", os quais estavam agora em sua "forma embrionária", desenvolvendo-se ao redor dos Sagrados Santuários. Em seus escritos, ele mostrara aos crentes que o progresso e desenvolvimento da Ordem Mundial de Bahá'u'lláh eram guiados pelas diretrizes e pelos poderes espirituais liberados através de três poderosas "Cartas Magnas", as quais, disse ele, haviam posto em movimento três processos distintos, sendo que a primeira nos foi dada pelo próprio Bahá'u'lláh na Epístola do Carmelo, e as duas outras, pela pena do Mestre, a saber, Sua Última Vontade e Testamento e as Epístolas do Plano Divino. A primeira operava "numa terra que", segundo declarou Shoghi Effendi, "constitui geográfica, espiritual e administrativamente, o coração do planeta inteiro", "a Terra Santa, o Centro e o Pivô ao redor do qual giram as instituições divinamente designadas e em rápida expansão de uma Fé que abrange o mundo e marcha inexoravelmente para frente", "a Terra Santa, o Qiblih de uma comunidade mundial, o coração do qual manam continuamente as influências revigorantes de uma Fé vivificadora, sede e centro em volta do qual giram as diversas atividades de uma Ordem Administrativa divinamente ordenada". O eixo da Epístola do Carmelo é constituído por aquelas palavras de Bahá'u'lláh: "Dentro em breve Deus fará navegar sobre ti Sua Arca e tornará manifesto o povo de Bahá mencionado no Livro dos Nomes"; o "povo de Bahá", explicou Shoghi Effendi, significa os membros da Casa Universal de Justiça.

Enquanto a Carta Magna da Vontade e Testamento do Mestre operava no mundo inteiro através da criação daquelas instituições administrativas que ela tão claramente define, e a Carta Magna de Suas Epístolas do Plano Divino tratava da conquista espiritual de todo o planeta através dos ensinamentos de Bahá'u'lláh, tendo o próprio globo como palco, a Epístola do Carmelo irradiava sua luz e suas graças literalmente sobre o Monte Carmelo, sobre "aquele Lugar consagrado que", segundo escreveu Shoghi Effendi, "sob as asas protetoras do Sepulcro do Báb... está destinado a evoluir no Centro focal daquelas instituições fadadas a abalar o mundo, abraçar o mundo e dirigir o mundo, ordenadas por Bahá'u'lláh e antecipadas por 'Abdu'l-Bahá e que deverão funcionar em harmonia com os princípios que governam as instituições gêmeas da Guardiania e da Casa Universal de Justiça."

A significação da "glória revelada" dessas instituições no Centro Mundial foi refletida em muitas mensagens enviadas por Shoghi Effendi durante os últimos anos de sua vida - mensagens que levaram uma pessoa como George Townshend a lhe escrever, numa carta datada de 14 de janeiro de 1952, quando agradeceu ao Guardião a graça de ter sido nomeado como Mão da Causa: "Permita que eu lhe preste um humilde tributo de minha imensa admiração e gratidão pela iminente visão da Vitória de Deus que o você, quase unicamente pelo seu poder, tem difundido agora diante do mundo bahá'í atônito."

No decurso dessas mensagens, Shoghi Effendi revelou tanto a posição como algumas das funções desse recém-criado corpo de Mãos da Causa. Durante a segunda época da Idade Formativa desta Dispensação, ele saudou o desenvolvimento daquela "augusta instituição" que o próprio Bahá'u'lláh não somente predissera, mas para a qual nomeara alguns membros, e que 'Abdu'l-Bahá estabelecera formalmente em Sua Última Vontade e Testamento. Além do apoio que as Mãos da Causa já lhe haviam dado na Terra Santa em erigir o Santuário do Báb, em reforçar os laços com o Estado de Israel, em ampliar as propriedades internacionais na Terra Santa e em iniciar as medidas preliminares para o estabelecimento do Centro Administrativo Mundial Bahá'í, tomaram parte também nas quatro grandes Conferências Internacionais de Ensino realizadas durante o Ano Santo, de outubro de 1952 a outubro de 1953, nas quais representaram o Guardião da Fé, e após as quais, a seu pedido, viajaram extensivamente nas Américas do Norte, Central e do Sul, Europa, Ásia e Austrália. Este corpo, segundo disse Shoghi Effendi em abril de 1954, estava agora entrando na segunda fase de sua evolução, assinalada pela criação de laços entre ele e as Assembléias Espirituais Nacionais engajadas no prosseguimento do Plano de Dez Anos; durante o período de Ridván, as quinze Mãos que residiam fora da Terra Santa deveriam nomear, em cada continente, separadamente, Corpos Auxiliares dentre os crentes daquele continente, cujos membros atuariam como "representantes", "assistentes" e "consultores" para as Mãos e auxiliariam cada vez mais na promoção da Cruzada de Dez Anos. Esses Corpos deveriam consistir de nove membros na América, nove na Europa e nove na África, sete na Ásia e dois na Austrália. Os Corpos eram responsáveis perante as Mãos de seus respectivos continentes; as Mãos, por sua vez, deveriam manter estreito contato com as Assembléias Nacionais nas suas áreas e informá-las das atividades de seus Corpos Auxiliares; deveriam, também, manter íntimo contato com as Mãos da Causa residentes na Terra Santa que estavam destinadas a atuar como intermediárias entre aquelas e o Guardião. Nessa época, Shoghi Effendi inaugurou os Fundos Continentais Bahá'ís para o trabalho das Mãos, abrindo-os, ele mesmo, com a contribuição de mil libras para cada um.

Um ano depois, o Guardião nomeou as treze Mãos da Causa que desejava mandar como seus representantes às treze convenções a serem realizadas em 1957 para a eleição de novas Assembléias Nacionais; desde o tempo em que ele formalmente designou Mãos da Causa até seu falecimento, ele as utilizava constantemente para este fim. Em 1957, exatamente quatro meses antes de falecer, Shoghi Effendi, num longo cabograma, informou aos crentes que a "triunfante consumação série empreendimentos históricos" e as "evidências crescentes hostilidades fora" e "persistentes maquinações dentro" prognosticavam "terríveis contendas destinadas dispor Exército Luz forças trevas tanto seculares como religiosas" necessitavam mais estreita associação entre as Mãos, nos cinco continentes, e as Assembléias Nacionais para conjuntamente investigarem as "nefandas atividades inimigos internos adoção medidas sábias efetivas anular suas maquinações traiçoeiras" a fim de proteger a massa dos crentes e impedir a difusão da má influência desses inimigos. No começo deste cabograma, Shoghi Effendi assinala que as Mãos, além de sua recém-assumida responsabilidade de assistir às Assembléias Espirituais Nacionais no prosseguimento da Cruzada Espiritual Mundial, devem agora cumprir sua "obrigação primária" de vigiar e proteger a Comunidade Mundial Bahá'í em estreita colaboração com as Assembléias Nacionais. Ele conclui esta maravilhosa mensagem com estas palavras: "Convoco Mãos Assembléias Nacionais cada continente separadamente estabelecerem doravante contato direto deliberarem sempre que viável tão freqüentemente quanto possível trocarem relatórios a serem submetidos pelos seus respectivos Corpos Auxiliares Comitês Nacionais exercerem perseverante vigilância cumprirem resolutamente deveres sagrados inevitáveis. Segurança preciosa Fé preservação saúde espiritual Comunidades Bahá'ís vitalidade fé seus membros individuais devido funcionamento suas instituições laboriosamente erigidas fruição seus empreendimentos âmbito mundial cumprimento seu destino final tudo diretamente dependente adequado desempenho pesadas responsabilidades agora sobre membros dessas duas instituições que com Casa Universal Justiça juntamente Instituição Guardiania ocupam mais alta posição divinamente ordenada hierarquia administrativa Ordem Mundial Bahá'u'lláh."

A última grande mensagem da vida de Shoghi Effendi - datada de outubro, mas concebida, realmente, em agosto - veio reforçar novamente a significação e a importância da instituição das Mãos da Causa. Nela, Shoghi Effendi não só designou seu último contingente de Mãos, mas tomou a medida altamente significativa de inaugurar mais um Corpo Auxiliar em cada continente: "Este mais recente acréscimo à companhia dos oficiais de alta categoria de uma Ordem Administrativa Mundial em rápida evolução, envolvendo ainda uma expansão adicional da augusta instituição das Mãos da Cauda de Deus, exige, em vista da recente assunção de sua sagrada responsabilidade como protetores da Fé, a nomeação por essas mesmas Mãos, em cada continente, separadamente, de mais um Corpo Auxiliar, cujo número de membros seja igual ao atualmente existente, e incumbido do dever específico de vigiar pela segurança da Fé, assim servindo de complemento à função do Corpo original, cujo dever doravante será exclusivamente assistência no prosseguimento do Plano de Dez Anos."

É quase impossível imaginar o estado em que o mundo bahá'í teria sido mergulhado, após a morte de Shoghi Effendi, se ele não se tivesse referido nestes termos às Mãos da Causa, e não tivesse incumbido às Assembléias Nacionais com tanta clareza a colaborarem com as Mãos em sua função primária como protetoras da Fé. Não podemos discernir, nestas últimas mensagens, uma nuvem negra do tamanho da mão de um homem no horizonte?

Shoghi Effendi tinha o dever e o direito de, como afirmado explicitamente no Testamento do Mestre, designar as Mãos da Causa. Durante os trinta primeiros anos de seu ministério, com uma única exceção, ele fez somente nomeações póstumas. Era a mais alta honra que ele poderia conferir a um crente, vivo ou já falecido, e assim ele nomeou muitos bahá'ís do Oriente e do Ocidente, depois de terem falecido; a mais destacada entre esses é Martha Root, caracterizada por ele como a mais eminente Mão erguida no primeiro século da Fé desde o início de sua Idade Formativa. A exceção única foi Amelia Collins. Ele lhe telegrafou, em 22 de novembro de 1946: "Seus magníficos serviços internacionais devoção exemplar e agora esse serviço insigne impele-me a informá-la sua elevação grau Mão Causa Bahá'u'lláh. É a primeira pessoa informada desta honra em tempo de vida. Quanto ao tempo anunciar deixe-o meu critério." Era costume de Shoghi Effendi informar cada Mão de sua elevação a esta posição na ocasião em que anunciava publicamente sua escolha. A três delas - Fred Schopflocher e Músá Banani, que estavam em Haifa como peregrinos na ocasião do anúncio, e eu - ele informou pessoalmente. Seria impossível tentar descrever os sentimentos de estupefação, de desmerecimento e de reverência com os quais a notícia desta honra arrebatou aqueles que a receberam. Cada coração a recebeu como um dardo que despertou ainda maior amor e lealdade ao Guardião do que aquele coração jamais tivera antes.

Os longos anos de preparação - exteriormente, no corpo do mundo bahá'í, ao se erigir a maquinária da Ordem Administrativa e, no interior de seu coração, ao se erigir a superestrutura do Santuário do Báb e pela consolidação geral do Centro Mundial - haviam envolvido a criação de um Lugar apropriado para formar o "centro focal", como Shoghi Effendi o denominava, das mais poderosas instituições da Fé. Este Lugar era nada menos que os lugares de descanso da mãe, da irmã e do irmão de 'Abdu'l-Bahá, aquelas "três almas incomparavelmente preciosas", como ele os chamava, "os quais, após as três Figuras Centrais de nossa Fé, se elevam em grau acima da vasta multidão dos heróis, das Letras, dos mártires, das mãos, dos instrutores e administradores da Causa de Bahá'u'lláh".

Desde muito tempo, o desejo da Folha Mais Sagrada fora jazer perto da mãe, que estava enterrada em 'Akká, como também do irmão, Mihdí. Mas quando Bahíyyih Khánum faleceu, em 1932, foi dignamente enterrada no Monte Carmelo perto do Santuário do Báb. Shoghi Effendi concebeu a idéia de transferir os restos mortais da mãe e do irmão da Folha Mais Sagrada, tão indignamente enterrados em 'Akká, para perto de seu lugar de descanso, e, em 1939, encomendou na Itália monumentos gêmeos de mármore, semelhantes em estilo àquele que ele erigira sobre a sepultura da Folha Mais Sagrada. Felizmente, estes chegaram bem a Haifa, apesar da guerra. Longe de ser um processo simples, "a consumação desta esperança há tanto tempo e tão profundamente acariciada" provou-se extremamente difícil. Citarei de meu próprio relato publicado desses acontecimentos, pois, naturalmente, eu estava presente em Haifa na ocasião: "Enquanto seus túmulos estavam ainda sendo escavados na rocha sólida da montanha, o Guardião soube que os rompedores do Convênio estavam protestando contra o direito dos bahá'ís de remover a mãe e o irmão de 'Abdu'l-Bahá para novas sepulturas e tendo até a temeridade de expressarem ao governo suas reivindicações como parentes dos falecidos. Logo, porém, que os verdadeiros fatos se tornaram claros para as autoridades civis - que esses mesmos parentes haviam sido os arquiinimigos do Mestre e de sua família, deixando a verdadeira Causa de Bahá'u'lláh para seguirem seus próprios propósitos e tendo sido denunciados por 'Abdu'l-Bahá em Sua Última Vontade e Testamento - as autoridades aprovaram o plano do Guardião e imediatamente lavraram o necessário despacho para a exumação dos corpos. Para não correr o risco de mais demora, Shoghi Effendi, dois dias depois, removeu, ele mesmo, o Mais Puro Ramo e sua mãe para o Monte Carmelo.

Depois do alvorecer, acompanhado por um pequeno grupo de bahá'ís, Shoghi Effendi foi a 'Akká, abriu uma sepultura após a outra e trouxe os restos mortais a Haifa. Mais tarde, ele me contou tudo: fora para ele, em todos os sentidos, uma experiência torturante. Em primeiro lugar, havia verdadeiro perigo de que os rompedores do Convênio decidissem ir aos cemitérios com um grupo de partidários e tentar impedir, por força, a exumação; nisso teriam tido o apoio dos muçulmanos que acreditam ser a maior profanação abrir uma sepultura, e de fato, eles abrem túmulos justamente a fim de infligir este maior de todos os insultos. Além deste perigo, presenciar a abertura de um túmulo, por mais nobre que seja o objetivo de fazê-lo, é uma experiência muito angustiante, especialmente para uma pessoa sensível como Shoghi Effendi. Quando foi removida a terra do féretro da mãe do Mestre, ele descobriu que a madeira ainda estava intacta, exceto a do fundo, que havia apodrecido e, portanto, ele deu instruções para removerem a tampa com grande cuidado. Disse-me que a figura da mãe de 'Abdu'l-Bahá, envolvida em sua mortalha, lá jazia em tão nítido perfil que suas feições estavam quase discerníveis, mas, com o primeiro toque, desintegrou-se. Ele desceu à sepultura e, com as próprias mãos, ajudou a colocar o esqueleto no féretro novo que havia sido preparado e que foi, então, fechado e colocado num veículo à sua espera. Prosseguiram todos ao segundo cemitério árabe, onde estava enterrado o Mais Puro Ramo, e lá abriram seu sepulcro. Como ele havia sido enterrado duas décadas antes da mãe e o enterro fora apressado, nos dias em que Bahá'u'lláh estava tão estritamente confinado no quartel da prisão de 'Akká, o caixão se desintegrara completamente e, outra vez, Shoghi Effendi juntou os poucos ossos e pó que restavam e ele mesmo colocou-os no segundo féretro que jazia ao lado do sepulcro para recebê-los. Embora tudo isso fosse feito com êxito, levou muitas horas torturantes de tensão e ansiedade antes que Shoghi Effendi pudesse regressar a Haifa com sua preciosa carga. Citarei, outra vez, daquilo que escrevi na ocasião, pois é muito mais vívido do que qualquer coisa que pudesse escrever agora, tanto tempo depois da ocorrência: "O crepúsculo caiu sobre o Monte Carmelo e os véus do anoitecer enegreceram a baía de 'Akká. Um grupo de homens espera em pé, junto ao portão, debaixo da escada. De repente, ocorre uma agitação, o jardineiro corre para iluminar a entrada e, em meio aos feixes brancos de luz, aparece uma procissão. Um homem vestido de branco descansa o peso de um féretro sobre o ombro. É o Guardião da Causa e leva os restos mortais do Mais Puro Ramo, o bem-amado filho de Bahá'u'lláh. Lentamente, ele e seus companheiros sobem pelo estreito caminho e, em silêncio, aproximam-se da casa adjacente ao lugar de descanso da Folha Mais Sagrada. Um devotado servo se apressa para diante com um tapete e candelabro trazido dos Sagrados Santuários e rapidamente prepara o aposento. A face forte e meiga do Guardião aparece enquanto ele entra pela porta, com aquele precioso peso sempre no ombro, e o ataúde é colocado para descansar temporariamente num humilde aposento voltado para Bahjí, o Qiblih da Fé. Com seu Guardião na vanguarda, aqueles devotados servos voltam ao portão e, outra vez, sobem o caminho com outra sagrada carga, desta vez o corpo da esposa de Bahá'u'lláh, mãe do Mestre."

No momento em que esta tarefa fora seguramente executada, a Assembléia americana recebeu, em 5 de dezembro, o seguinte cabograma de Shoghi Effendi: "Abençoados restos Mais Puro Ramo e mãe Mestre transferidos com segurança sagrado recinto Santuário Monte Carmelo. Humilhação há muito infligida eliminada. Maquinações rompedores Convênio frustraram plano derrotados. Desejo acariciado Folha Mais Sagrada cumprido. Irmã irmão mãe esposa 'Abdu'l-Bahá reunidos no lugar designado constituir centro focal Instituições Administrativas Bahá'ís no Centro Mundial da Fé. Participar jubilosa notícia inteiro corpo crentes americanos. Shoghi Rabbani." O nome completo do Guardião foi exigido porque estávamos em tempo de guerra e toda correspondência era censurada.

Em parte alguma, o refinado gosto e senso de proporção, tão característico de tudo o que o Guardião criava, transparece melhor do que nos monumentos de mármore erigidos por ele sobre as quatro sepulturas desses parentes próximos de 'Abdu'l-Bahá. Desenhados na Itália de acordo com as próprias instruções de Shoghi Effendi e lá executados em mármore branco de Carrara, foram transportados a Haifa e, na década entre 1932 e 1942, colocados em suas posições predestinadas, ao redor dos quais ele criou os belos jardins que geralmente chamamos os "Jardins dos Monumentos" e que ele desenvolveu para formarem a base daquele arco no Monte Carmelo em volta do qual deverão agrupar-se no futuro as Instituições Internacionais da Fé.

Durante três semanas, esses preciosos restos foram guardados naquele aposento até que, conforme Shoghi Effendi telegrafou, em 26 de dezembro: "Véspera Natal bem-amados restos Mais Puro Ramo e mãe Mestre jaziam em câmara ardente Sagrado Túmulo do Báb. Dia Natal entregues ao sagrado solo do Carmelo. Cerimônia presença representantes crentes Oriente Próximo profundamente comovente. Impelido associar momentoso empreendimento Sete Anos da América memória imperecível estas duas almas santas que depois Fundadores Gêmeos Fé e Perfeito Exemplar se erguem juntamente com a Folha Mais Sagrada acima inteira assembléia fiéis. Regozijo privilégio hipotecar mil libras minha contribuição Fundo Bahíyyih Khánum designado inaugurar campanha final assegurar firmar contrato abril próximo última etapa restante construção Mashriqu'l-Adhkár. Tempo premente oportunidade inestimável potente auxílio providencialmente prometido infalível."

Em nenhuma ocasião, o gênio do Guardião para fazer as coisas de um modo digno, seguindo sempre tão fielmente as pegadas de seu bem-amado Avô, é mais bem demonstrado do que na honra e reverência extremas com as quais ele realizou o enterro final daquelas duas almas tão amadas tanto por Bahá'u'lláh como por 'Abdu'l-Bahá. Tão sem precedentes é todo este evento na história religiosa que sinto que deve receber aqui a plena atenção merecida. Outra vez me refiro ao artigo supracitado: "A última pedra é colocada nos dois túmulos, o chão é pavimentado de mármore, as placas com os nomes são fixados para marcar as cabeceiras, a terra é alisada, o caminho que conduz ao seu último lugar de descanso é construído... E agora, outra vez no ombro do Guardião, são carregados para fora, para jazerem em câmara ardente no Sagrado Túmulo do Báb. Lado a lado, muito maiores que os grandes deste mundo, jazem, juntos àquele sagrado limiar, volvidos para Bahjí, com velas acesas perto de suas cabeças e flores aos seus pés... Ao pôr-do-sol do dia seguinte, reunimo-nos novamente naquele Sagrado Santuário... Lentamente, erguidos nas mãos dos fiéis, Shoghi Effendi na vanguarda, nunca deixando sua preciosa carga... circundam uma vez os Santuários, o ataúde do bem-amado Mihdí sustentado pelo Guardião, seguido por aquele da mãe do Mestre, lentamente passam por nós. Em volta do Santuário, seguindo através do jardim iluminado, descendo o caminho branco, saindo na estrada iluminada pelo luar, passa aquela procissão solene. No alto, parecendo mover-se por si mesmos, os ataúdes seguem acima das cabeças daqueles que caminham... Passam em nossa frente, destacando-se contra o céu da noite... Aproximam-se, a face do Guardião encostada àquela preciosa carga que ele leva. Seguem em direção aos sepulcros que os esperam. Agora entregam o Mais Puro Ramo ao seu descanso. O próprio Shoghi Effendi entra no sepulcro atapetado e cuidadosamente abaixa o ataúde para seu lugar predeterminado. Ele mesmo o enche de flores, sendo suas mãos as últimas a acariciá-lo. A mãe do Mestre é então colocada no sepulcro vizinho, da mesma maneira, pelo Guardião... Pedreiros são chamados para selar os túmulos... Flores são amontoadas sobre os sepulcros e o Guardião esparge sobre eles um frasco de essência de rosas... E agora a voz de Shoghi Effendi se ergue enquanto ele lê aquelas Epístolas reveladas por Bahá'u'lláh e por Ele destinadas a serem lidas nas suas sepulturas."

Quando nos lembramos de que todos esses eventos, de uma natureza tão extremamente delicada, causando-lhe tanta ansiedade e angústia, e, de todas as maneiras, tão aflitivos para os sentimentos, ocorreram menos de dois meses depois de o Guardião ter se recuperado de uma das mais graves doenças que já tivera, não podemos deixar de nos maravilhar novamente diante da ternura de sua vida e da férrea determinação, coragem e devoção que o animavam em tudo que ele fazia.

Finalmente Shoghi Effendi, tão poderosamente guiado do alto, conseguira estabelecer seu "Centro focal". Mas foi somente quatorze anos mais tarde que ele esteve em posição de informar ao mundo bahá'í que agora estava tomando uma medida que viria a "inaugurar o estabelecimento do Centro Administrativo Mundial da Fé no Monte Carmelo - a Arca a que Bahá'u'lláh Se refere nas passagens finais de Sua Epístola do Carmelo". Esta medida não foi outra senão a construção de um Arquivo Bahá'í internacional.

Pouco depois de ter acrescentado três salas ao Santuário do Báb, nos primeiros anos da década de 1930, Shoghi Effendi estabelecera um Arquivo no Centro Mundial, alojando temporariamente neste recinto as preciosas relíquias tanto de Bahá'u'lláh como de 'Abdu'l-Bahá que já estavam em poder da família do Mestre e de muitos dos velhos bahá'ís que residiam na Palestina. Visitá-las tornou-se uma experiência profundamente comovedora. "Se alguém pudesse ter entrado num museu das relíquias autênticas dos dias e da vida de Cristo", escrevi em 1937, depois de vê-los pela primeira vez, "que significado teria tido para os cristãos? Se tivessem visto Suas sandálias cobertas do pó da estrada entre Belém e Jerusalém, ou o manto que pendia de Seus ombros - ou o pano que protegia Sua cabeça do sol - que atmosfera de certeza, de admiração, mesmo de adoração, não teriam sentido os herdeiros de Sua Fé? Se seus olhos pudessem ter fitado mesmo uma só linha fragmentária escrita pela Sua mão... Para a maioria do povo do mundo, a significação de tais coisas está além de sua imaginação; mas aos os bahá'ís, crentes na mais nova Revelação da Vontade de Deus concedida à humanidade em sua evolução neste planeta, foi outorgado este inestimável privilégio."

À medida que os bahá'ís conheciam melhor esse Arquivo, um sempre crescente número de peregrinos o visitava e via com que segurança o material histórico e sagrado era preservado, com que beleza e reverência era exposto, começaram a enviar da Pérsia artigos de valor verdadeiramente inestimável, artigos associados às três figuras Centrais da Fé, bem como a seus mártires e heróis. Entre estes tão gratos acréscimos, figuravam objetos que pertenceram ao Báb, contribuídos pelos Afnán, os quais muito enriqueceram a coleção. O arquivo cresceu a tal ponto que, subseqüentemente, a pequena casa onde os restos dos Mais Puro Ramo e de sua mãe haviam sido colocados antes de serem novamente enterrados, foi transformada pelo Guardião num Arquivo suplementar, e os dois lugares eram chamados, por conveniência, de Arquivos "Maior" e "Menor", ou apenas Arquivos "velho" e "novo".

Foi em 1954, durante o primeiro ano da Cruzada Mundial, que Shoghi Effendi resolveu dar início ao que ele disse ser "o primeiro dos edifícios mais importantes destinados a constituir a sede do Centro Administrativo Bahá'í Mundial a ser estabelecido no Monte Carmelo". Sua escolha recaiu num edifício que ele considerava tanto de necessidade urgente como também viável, a saber, para abrigar as sagradas e históricas relíquias colecionadas na Terra Santa, as quais estavam, naquele tempo, espalhadas em seis compartimentos, em duas casas separadas. No Naw-Rúz de 1954, as escavações para suas fundações haviam começado. Ao escolher seu desenho inicial para as construções tão importantes que tinha em mente, Shoghi Effendi era guiado por três coisas: deveria ser belo, deveria ser digno, ter um valor duradouro e não refletir o transitório (e, em sua opinião, na maioria das vezes feio) estilo das construções modernas sendo erigidas numa época de experimentação e tateando em busca de novas formas. Ele era um grande admirador da arquitetura grega e considerava o Partenon de Atenas uma das mais belas construções jamais criadas; escolheu as proporções do Partenon como seu modelo, mas mudou a ordem dos capitéis de dórico para jônico. Depois que as suas muitas sugestões haviam sido incorporadas no desenho final, Shoghi Effendi aprovou-o e, o que ele descreveu como "este imponente e magnificamente belo edifício", foi completado em 1957. Custou aproximadamente um quarto de milhão de dólares e foi, como o Santuário do Báb, encomendado na Itália, inteiramente esculpido e completado lá, e então embarcado para Haifa para ser edificado; não somente cada peça estava numerada, mas mapas mostrando a posição de cada uma facilitavam a colocação das mesmas nos seus lugares exatos. Com exceção das fundações e das obras de cimentação do piso, paredes e teto, não seria incorreto dizer que ele foi um edifício quase inteiramente fabricado no exterior e erigido no local.

Nenhum empreendimento de Shoghi Effendi demonstra tão bem a sua originalidade, sua independência do ponto de vista e opinião dos outros, e sua determinação em fazer as coisas com rapidez e eficiência, do que o modo como ele supervisionou pessoalmente este projeto inteiro. Primeiro, por intermédio de barbantes esticados no chão marcando as dimensões do edifício, ele levou muito tempo estudando a exata posição que ele queria que o mesmo ocupasse, modificando-o várias vezes até ficar satisfeito com sua localização; depois tratou do paisagismo de toda a área em sua frente, delineando caminhos e plantando árvores e gramados. Depois ele informou Leroy Ioas, que supervisionava a obra no local (pois Ugo Giachery estava supervisionando a outra parte na Itália), de que a construção teria que ser iniciada pelos fundos, ajustando sua frente aos jardins que já a cercavam, por praticamente toda a sua extensão nos três lados, deixando apenas uma faixa de cerca de cinco metros para trabalhar! O resultado foi que, à medida que o edifício se erguia, ficava cercado por jardins que pareciam bem crescidos e maduros e, quando foi completado, longe de ter aquela costumeira faixa de terra desolada e pisoteada ao seu redor, era como se estivesse lá durante anos. Quão providencial foi o Guardião ter feito isso; que sob sua guia, com seu impecável bom gosto, seu perfeito senso de proporção, foi tudo completado antes de seu passamento. De fato, tão completos foram todos os seus preparativos que, quando chegou o tempo de colocar nos Arquivos os móveis e objetos de arte que ele mesmo havia comprado e selecionado para mobiliá-lo, praticamente tudo que era necessário estava à mão e as relíquias e muitas coisas de interesse histórico, que tão assiduamente ele havia coletado nos Arquivos Maior e Menor, podiam ser dispostos nos lugares que ele havia designado para eles, mais ou menos como ele mesmo o teria feito.

Em sua última Mensagem de Ridván ao mundo bahá'í, a satisfação de Shoghi Effendi com o edifício dos Arquivos que ele escolheu e erigiu transparece claramente; após anunciar seu término, ele escreveu que ele está "contribuindo, de um modo sem precedentes, através de seu brilho, seu estilo clássico e proporções graciosas, e sua conjunção com o majestoso Mausoléu de coroa dourada que se ergue acima dele, para o despontar da glória das instituições de uma Fé Mundial aninhando-se no coração da sagrada Montanha de Deus".

Numa mensagem dirigida aos bahá'ís do mundo em 27 de novembro de 1954 - novamente ligada pelo Guardião ao passamento de seu bem-amado Mestre - Shoghi Effendi discorre sobre a importância desse edifício dizendo que a posse de um terreno há muito desejado fora finalmente assegurada e que a propriedade desta área tornaria possível agora dar início à construção do Arquivo Internacional Bahá'í. "A construção deste Edifício", continua ele, "prenunciará, por sua vez, no decorrer de sucessivas épocas da Idade Formativa da Fé, a construção de várias outras estruturas, as quais servirão de sedes administrativas de instituições divinamente ordenadas, tais como a Guardiania, as Mãos da Causa e a Casa Universal de Justiça. Estes Edifícios, na forma de um imenso arco e seguindo um estilo harmonioso de arquitetura, cingirão os lugares de descanso da Folha Mais Sagrada, cuja posição é proeminente entre os membros de seu sexo na Dispensação Bahá'í, de seu irmão, oferecido como resgate por Bahá'u'lláh para a vivificação do mundo e sua unificação, e de sua mãe, proclamada por Ele como Sua escolhida 'consorte em todos os mundos de Deus'. A consumação final deste estupendo empreendimento haverá de assinalar a culminação do desenvolvimento de uma Ordem Administrativa de âmbito mundial, designada por Deus, cujo início pode ser remontado aos anos finais da Idade Heróica da Fé."

Tão grande era a importância atribuída por Shoghi Effendi a este "arco", cujas linhas ele estudara muito cuidadosamente no terreno e que se estende sobre a montanha numa curva gigantesca formando um arco acima dos lugares de descanso dos parentes mais próximos de 'Abdu'l-Bahá, e ao lado direito do qual se ergue o Arquivo, que ele anunciou seu término na sua última Mensagem de Ridván em 1957: "O plano destinado a assegurar a ampliação e o término do arco que servirá de base para a construção de futuros edifícios que constituirão o Centro Administrativo Mundial Bahá'í, foi executado com êxito."

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O Surgimento do Centro Mundial

Fundamentando, reforçando e, de fato, muitas vezes possibilitando empreendimentos de importância capital como o erigir da superestrutura do Santuário do Báb, a construção do Arquivo e dos terraços no Monte Carmelo, e muitas outras atividades, a compra de terrenos, tanto em Haifa como em Bahjí; era uma tarefa à qual o Guardião dava grande importância e se dedicou durante todos os anos de seu ministério. Antes de seu falecimento, havia conseguido criar grandes círculos protetores de terra em volta do mais santo de todos os Santuários, o Túmulo de Bahá'u'lláh, e ao redor dos lugares de descanso do Báb, de 'Abdu'l-Bahá, Sua mãe, Sua irmã e Seu irmão. Além disso, havia escolhido e dirigido a compra do terreno no Monte Carmelo que serviria de sítio para o futuro Templo Bahá'í a ser erigido na Terra Santa. Se considerarmos que, na ocasião do falecimento de 'Abdu'l-Bahá, a área das propriedades bahá'ís no Monte Carmelo não excedia, provavelmente, 10.000 metros quadrados, e que, até 1957, Shoghi Effendi havia aumentado isso para 230.000 metros quadrados e que em Bahjí os números comparáveis seriam 1.000 metros quadrados, em 1921, e 257.000 metros quadrados, em 1957, teremos uma idéia de suas realizações só neste campo. Através da generosidade de indivíduos bahá'ís, através de seus legados, através da resposta deles aos seus apelos em tempos de crise e através do emprego de fundos em seu poder no Centro Mundial, Shoghi Effendi conseguiu comprar terrenos na escala assinalada por estes números e assim metamorfoseou a situação da Fé em seu Centro Mundial.

Em maio de 1931, o Guardião telegrafou à Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá'ís dos Estados Unidos e Canadá: "Assembléia americana incorporada como entidade religiosa reconhecida na Palestina com direito possuir propriedades como fideicomisso dos crentes americanos. Enviando título escritura propriedade já transferida seu nome. Prestígio Fé muito realçado seus fundamentos consolidados amor." Foi este o primeiro passo para constituir Filiais Palestinas - mais tarde transformadas em Filiais Israelenses - de várias Assembléias Nacionais e registrar, em seus nomes, propriedades na Terra Santa. Embora todo o poder de dispor dessas propriedades fosse investida localmente no Centro Mundial, o prestígio da Fé foi muito realçado por esta medida, seus Lugares Sagrados foram reforçados e salvaguardados, seu caráter mundial acentuado aos olhos das autoridades e as comunidades bahá'ís nacionais foram animadas e fortalecidas. As mensagens de Shoghi Effendi referentes a este assunto refletem muito claramente sua política e seus motivos: "Filial Palestina Assembléia Nacional Indiana estabelecida. Congratulo crentes Índia Birmânia incorporação sua Assembléia Nacional primeira instituição legalmente constituída seção oriental muito bahá'í..." "... reconhecimento serviços proeminentes continuamente enriquecendo registro realizações associados proeminente comunidade mundo bahá'í arranjando transferência extensa propriedade valiosa adquirida arredores Santuário Monte Carmelo nome Filial Palestina Assembléia Americana"; "Todo esforço será feito na Terra Santa como tributo ao espírito grandioso animando os crentes da Austrália e da Nova Zelândia e ao seu labor incessante e meritório... para apressar a transferência de uma parte das doações bahá'ís internacionais ao nome da recém-constituída Filial Israelense de vossa Assembléia - um ato que imediatamente concederá um grande benefício espiritual e material à vossa Assembléia e reforçará os laços que a ligam ao Centro Mundial..."

No tempo de seu falecimento, Shoghi Effendi já havia estabelecido nove destas Filiais, a saber, a dos Estados Unidos, do Canadá, da Austrália, da Nova Zelândia, das Ilhas Britânicas, do Irã, do Paquistão, do Alasca e da Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá'ís da Índia e Birmânia.

Ao construir as três salas adicionais do Santuário do Báb e completar a restauração da Mansão de Bahá'u'lláh, produzindo assim evidências locais tangíveis da força da Comunidade Bahá'í, e ao demonstrar às autoridades britânicas, através das vitórias obtidas sobre os rompedores do Convênio, que ele tinha o sólido apoio dos bahá'ís do mundo inteiro, Shoghi Effendi começou a tentar obter, para os Lugares Sagrados Bahá'ís, isenção de impostos, não só municipais como também governamentais. Não era tão difícil obter isenção de impostos para um edifício, obviamente um lugar de associação sagrada e visitado por peregrinos, como era conseguir semelhante isenção para a sempre crescente área de terra de propriedade da Fé, a maior parte da qual estava registrada em nomes de indivíduos. Governos e municipalidades nunca estão dispostos a perder fontes de renda, receando sempre que seja estabelecido um precedente que outras comunidades explorarão em seu próprio proveito. Em vista disto, a isenção que Shoghi Effendi conseguiu, afinal, de todas as formas da taxação, para os edifícios e propriedades bahá'ís no país inteiro, foi, em verdade, uma grande realização. As principais vitórias neste campo foram obtidas nos dias do Mandato Britânico, sendo que o governo israelense aceitou o status conseguido pelos bahá'ís antes da formação do novo Estado, em 1948.

Em seus primeiros esforços por obter esta forma de reconhecimento, no começo da década de 1930, Shoghi Effendi teve a valiosa assistência de Sir Arthur Wauchope, Alto Comissário para a Palestina naquela época, que, a julgar pelas suas cartas a Shoghi Effendi, parece ter sido um homem de grande gentileza, cortesia e magnanimidade. Em 26 de julho de 1933, ele escreveu ao Guardião: "Acabo de receber sua carta e apresso-me a lhe escrever para expressar meus agradecimentos e assegurar-lhe que, quando o caso que menciona for apresentado a mim para uma decisão, sob a Ordem Palestina (Lugares Sagrados) em Conselho, receberá minha mais cuidadosa consideração." Quase um ano mais tarde, em 10 de maio de 1934, Shoghi Effendi telegrafou à América: "Prolongadas negociações autoridades palestinas resultaram isenção de taxação inteira área cercando consagrados Santuários Monte Carmelo" e indicou que ele considerava este passo como equivalente a "conseguir reconhecimento indireto caráter sagrado Fé Centro Internacional..." Com referência a isto, há duas cartas, uma datada de 16 de maio de 1934, de Sir Arthur a Shoghi Effendi, na qual diz: "Espero que essa isenção lhe ajude no prosseguimento de seu nobre trabalho", e uma de Shoghi Effendi a ele, datada seis dias antes, na qual escreve: "A grata notícia acaba de me chegar, do Comissário Distrital de Haifa, de que a petição por isenção de impostos sobre propriedades bahá'ís no Monte Carmelo foi concedida pelo governo." Ele prossegue, expressando sua própria profunda apreciação e a dos bahá'ís pelo efetivo interesse de Sua Excelência neste assunto e diz que essa decisão abre o caminho para "nosso plano para gradualmente embelezar esta propriedade para o uso e o prazer do povo de Haifa..."

Lendo assim a agradável conclusão dos eventos, não se tem idéia alguma das dificuldades pelas quais Shoghi Effendi passou em relação à compra, à isenção de impostos e à proteção das propriedades no Centro Mundial. Num telegrama à Assembléia Nacional americana, em 28 de março de 1935, é dado um dentre os inúmeros exemplos do trabalho envolvido: "Contrato para compra e transferência para Filial Palestina Assembléia americana propriedade Dumit situada centro área dedicada aos Santuários Monte Carmelo firmado. Litígio quatro anos envolvendo petições mundo bahá'í Alto Comissário Palestina abandonado. Proprietários exigem quatro mil libras. Metade quantia disponível. Podem crentes americanos unidos contribuir mil libras antes fim de maio e mil restante dentro nove meses. Sou forçado apelar inteiro corpo comunidade americana subordinar interesses nacionais da Fé a seus requisitos urgentes superiores em seu Centro Mundial", ao qual a Assembléia americana respondeu, dois dias depois, que a Comunidade Bahá'í americana "como de um só coração, cumprirá o privilégio glorioso que lhe foi conferido pelo Guardião."

Muitas vezes, Shoghi Effendi referiu-se à Terra Santa como o "coração e o centro nervoso" da Fé. Protegê-lo, desenvolvê-lo e difundir a fama de sua glória, era parte de sua função como seu Guardião. Além de seus contatos oficiais com autoridades governamentais e municipais, ele mantinha relações corteses e amigáveis com muitas pessoas não-bahá'ís, quer eminentes ou não. A liberalidade de espírito que tão fortemente caracterizava o Guardião, sua falta absoluta do mais leve indício de preconceito ou fanatismo, a simpatia e a cortesia que tão acentuadamente o distinguiam, são todas refletidas em suas cartas e mensagens a essas pessoas. Durante os primeiros anos de seu ministério, ele manteve uma correspondência longa com o Grão-Duque Alexandre, da Rússia, de quem, obviamente, julgando pelo tom de suas cartas, ele gostava. Assim se dirige a ele: "Meu verdadeiro irmão no serviço de Deus!", "Meu caro irmão no amor de Deus!" O Grão-Duque estava muito interessado num movimento chamado a "Unidade das Almas" e Shoghi Effendi o encorajava: "Estou cada vez mais impressionado", escreve ele, "pela notável semelhança de nossos objetivos e princípios, e suplico ao Todo-Poderoso que abençoe Seus servos no serviço que prestam à humanidade sofredora." O Grão-Duque, numa carta ao Guardião, escreve: "Devo lhe confessar, meu caro irmão e colaborador, que, em meu trabalho modesto, sinto-me de vez em quando desanimado... o poder das forças do mal, sob a influência das quais a maior parte da humanidade vive, é espantoso." Shoghi Effendi responde de um modo muito bonito: "... Eu asseguro, meu querido companheiro no serviço de Deus, que eu também freqüentemente me sinto esmagado pela ascensão do materialismo egoísta e brutal que ameaça engolir o mundo, e sinto que, por mais árdua que seja nossa tarefa comum, devemos perseverar até o fim e orar contínua e fervorosamente para que o sempiterno espírito de Deus possa inundar as almas dos homens a tal ponto que os faça levantar com nova visão para o serviço e a salvação da humanidade. Sinto que à oração e ao persistente esforço individual deve ser dada maior e mais ampla importância nestes dias de tensão e escuridão..."

Shoghi Effendi estava em contato não só com a Rainha Maria, da Romênia, e vários de seus parentes, mas também com outras pessoas de linhagem real, como a Princesa Marina, da Grécia, que mais tarde veio a ser Duquesa de Kent, e a Princesa Kadria, do Egito. A muitas dessas pessoas, bem como a homens tão proeminentes como Lorde Lamington, alguns antigos Altos Comissários da Palestina, orientalistas, catedráticos de universidade, educadores e outros, Shoghi Effendi costumava enviar exemplares dos mais recentes volumes do Bahá'í World ou de uma de suas próprias traduções recém-publicadas, juntamente com seu cartão de visitas - praticamente a única ocasião em que ele os usava, pois parecia que para ele servia principalmente para fazer anotações. Ele era sempre muito meticuloso - contanto que a relação fosse de mútua cortesia e estima - em enviar mensagens de condolências às pessoas conhecidas que tinham perdido alguém da família, expressando seus "sinceros pêsames" pela "grande perda" sofrida pela pessoa. Estas mensagens, mandadas muitas vezes por telegrama, comoviam profundamente aqueles que as recebiam e lhe davam uma reputação entre eles que desmentia a figura que os rompedores do Convênio fizeram todo o possível para criar a respeito dele. Freqüentemente congratulava também as pessoas na ocasião de um casamento ou uma promoção.

Além destas relações pessoais, Shoghi Effendi tinha muito mais contato com organizações não-bahá'ís do que se supõe comumente. Isto era particularmente verdadeiro no caso dos esperantistas, cujo objetivo único era efetivar o cumprimento do princípio bahá'í de que uma língua universal auxiliar deveria ser adotada em prol da Paz Mundial. Temos cópias de suas mensagens pessoais às reuniões do Congresso Universal de Esperantistas realizados em 1927, 1928, 1929, 1930 e 1931, e sem dúvida ele enviava muitas mensagens de natureza similar em outras ocasiões. Shoghi Effendi não só respondia cordialmente quando lhe faziam algum gesto de amizade, mas muitas vezes ele mesmo tomava a iniciativa, mandando representantes bahá'ís, escolhidos por ele, a várias conferências cujos interesses coincidiam com os dos bahá'ís. Assim, ele escreveu à Associação Esperantista Universal, em 1927, que Martha Root e Julia Goldman iriam assistir ao seu Congresso em Danzig como representantes bahá'ís oficiais e se diz confiante de que isto "servirá para fortalecer os laços fraternais que ligam os esperantistas e os seguidores de Bahá'u'lláh, um dos cujos princípios cardeais... é a adoção de uma língua internacional auxiliar para toda a humanidade." Em sua carta dirigida aos delegados e amigos presentes nesse décimo nono Congresso Universal de Esperantistas, ele escreve:

Meus caros colaboradores no serviço da humanidade,

Tenho grande prazer em me dirigir a vós e vos desejar... de todo coração, o mais pleno êxito no trabalho que estais executando para a promoção do bem da humanidade.

Interessar-vos-á, estou certo, saber que, em conseqüência das repetidas e enfáticas admoestações de 'Abdu'l-Bahá, Seus numerosos adeptos, até mesmo nas mais remotas vilas e aldeia da Pérsia, onde a luz da civilização ocidental quase não penetra ainda, bem como em outras terras por todo o Oriente, estão assídua e entusiasticamente ocupados no estudo e no ensino do esperanto, para cujo futuro acariciam as mais altas esperanças..."

O próprio Guardião era altamente estimado por numerosas pessoas que trabalhavam por ideais semelhantes aos acariciados pelos bahá'ís. Em 1926, Sir Francis Younghusband escreveu-lhe com referência ao "Congresso Mundial das Fés": "Agora desejo lhe pedir um grande favor. Mais uma vez, quero tentar persuadi-lo a vir à Inglaterra assistir ao Congresso. Sua presença aqui exerceria grande influência e seria altamente apreciada. E nós, com todo prazer, proveríamos as despesas que pudesse ter." O Guardião aceitou esse convite mas providenciou a apresentação de um trabalho bahá'í. Ele sentia que seus próprios planos e trabalho o impediam de abrir uma porta como essa.

Em 1925, a Executiva Sionista em Jerusalém convidou-o a comparecer a um evento relacionado ao estabelecimento de uma universidade lá. Shoghi Effendi telegrafou-lhes em 1 de abril: "Aprecio gentil convite deploro impossibilidade estar presente. Bahá'ís esperam e rezam estabelecimento dessa sede de erudição possa contribuir para restauração de uma terra de memórias sagradas para todos nós e para a qual 'Abdu'l-Bahá acariciava as mais altas esperanças." A esta mensagem, responderam em termos cordiais: "Executiva Sionista aprecia muito sua amável mensagem e bons votos somos confiantes de que a universidade recém-estabelecida possa contribuir não só ao progresso da ciência e erudição mas também a melhor entendimento entre os homens ideal este tão bem cumprido pelos bahá'ís." Vinte e cinco anos depois, o laço estabelecido ainda permanece: "A Universidade Hebraica ficou realmente muito grata em receber seu cheque de 100 libras como a contribuição de Sua Eminência Shoghi Effendi Rabbani para o trabalho desta instituição... Tivemos muita satisfação em saber que Sua Eminência está consciente da importância do trabalho que a Universidade está fazendo e em receber dele esse generoso sinal de apreciação..."

Um cabograma de Shoghi Effendi, enviado à Índia em dezembro de 1930, é de interesse especial por mostrar que até o final da vida da Folha Mais Sagrada ele a incluía ternamente em mensagens que pareciam especialmente apropriadas: "Transmito à Conferência Indiana das Mulheres Asiáticas em nome Folha Mais Sagrada, irmã de 'Abdu'l-Bahá, e em meu próprio, nosso genuíno profundo interesse suas deliberações. Possa Todo-Poderoso guiar abençoar seus altos esforços."

Além desta vasta correspondência com indivíduos proeminentes como também com várias sociedades, Shoghi Effendi costumava receber em sua casa visitas de muitas pessoas distintas, tais como Lorde e Lady Samuel; Sir Ronald Storrs, outro amigo de 'Abdu'l-Bahá; Moshe Sharett, que posteriormente se tornaria um dos mais amados e proeminentes oficiais de Israel; Professor Norman Bentwich e muitos escritores, jornalistas e notabilidades.

Por importantes que fossem tais relações e contatos recíprocos com essas pessoas, a mais importante de todas, sem dúvida, era a relação que o Guardião tinha com os oficiais no Centro Mundial, quer sob o governo britânico durante o Mandato na Palestina, ou mais tarde, após a Guerra da Independência e o estabelecimento do Estado de Israel. Embora fossem cordiais essas relações com os representantes de ambos os governos, não há dúvida alguma de que teriam sido muito mais cordiais e tido resultados muito maiores se não fosse a insidiosa e persistente influência exercida por toda espécie de inimigos da Fé, quer bahá'ís descontentes ou membros ciumentos de outros grupos. A isto se deve acrescentar o fato de que, à maioria dos auxiliares de Shoghi Effendi, faltava competência. Certa vez, ele me fez a observação de que era muita pena que, a tantas pessoas boas faltava bom juízo e a tantas pessoas inteligentes faltava bom caráter, destacando que o ideal seria uma pessoa boa que fosse inteligente ao mesmo tempo. Ele, como Guardião, tinha seu pleno quinhão de ambos os extremos e muito raramente encontrou em seus auxiliares a combinação que ele desejava. Lembro-me de uma outra ocasião em que me falou de um provérbio persa que diz ser melhor ter um inimigo sábio do que um amigo tolo! Um exemplo daquilo com que o Guardião teve que lutar é uma observação que um membro de sua família fez a mim: disse que um certo inglês - absolutamente não um mero alguém - lhe havia dito que gostaria de visitar Shoghi Effendi, ao que essa pessoa respondeu que seria bem recebido, mas que não esperasse ter a visita retribuída por Shoghi Effendi, porque ele nunca fazia isto. Facilmente se pode ver que comentários tão irrefletidos e sem tato como este construíram ao redor de Shoghi Effendi um muro de má compreensão, o qual, combinado com os sussurros dos verdadeiros malévolos, serviu para deturpá-lo aos olhos do público, colocando-o numa luz muito desfavorável; se o homem tivesse visitado Shoghi Effendi, teria ficado tão impressionado que nem teria pensado se o Guardião retribuiria sua visita ou não. Mas, naturalmente, após aquela observação, nunca se aproximou do Guardião. O juízo do próprio Guardião, entretanto, era tão perfeito que, orientando cuidadosamente seus supostos colaboradores e subordinados, ele conseguia fazer milagres diante de situações que muitas vezes pareciam desesperadamente complicadas. Como ele mesmo não possuía mente complicada, conseguia enxergar o funcionamento das mentes daqueles que a tinham e assim não insistia imprudentemente numa questão em hora inoportuna, nem se deixava envolver por recusas que pudessem levar a Causa a um impasse do qual ele talvez não a pudesse livrar por muito tempo.

Quando se pensa a respeito de quem era Shoghi Effendi, como era excelsa sua posição bem como suas capacidades, não se pode deixar de deplorar intensamente o fato de lhe haver sido negada a companhia dos grandes homens deste mundo, os quais, pelo menos em algum grau, lhe poderiam ter sido companheiros interessantes e estimulantes. Que ele sentia a falta de tais relações em sua vida, muitas vezes indicava nas observações que me fazia. Shoghi Effendi discernia muito claramente o mais íntimo de uma pessoa, com uma astúcia que melhor seria descrita como divina do que como humana.

Em todas as suas relações com oficiais, tanto do governo como do município, Shoghi Effendi desde o início procurava convencê-los de que a Fé é uma religião independente, de caráter universal e que seu permanente Centro Mundial, Espiritual e Administrativo, situava-se na Terra Santa. Levou trinta e seis anos para conseguir das autoridades o reconhecimento e os direitos que a Fé Bahá'í, em virtude de tal posição, deveria usufruir, sendo que um aspecto era que, em ocasiões oficiais, ele mesmo deveria receber o tratamento digno de sua posição como Dirigente hereditário desta Fé. Por várias razões, tais como o número insignificante dos membros da Comunidade Bahá'í da Palestina, o desafio à sua autoridade por parte dos rompedores do Convênio imediatamente após o falecimento do Mestre, a relutância de todas as autoridades civis de se envolverem em questões religiosas, tanto o governo britânico como o de Israel hesitavam em conceder a Shoghi Effendi o grau de respeito e primazia que sua inigualável posição justificava e, por causa disso, com muito poucas exceções, ele evitava comparecer em eventos oficiais. Quando nos lembramos do fato de que 'Abdu'l-Bahá, desde 1968, quando chegou em 'Akká, até Seu falecimento, em 1921, nunca pôs os pés em Jerusalém, porque, como disse Shoghi Effendi, não teria sido tratado do modo digno de Sua elevada posição e da significação histórica que uma visita Sua a Jerusalém merecia, e que em vista disto Ele sempre evitava ir lá, temos alguma idéia das questões envolvidas nesta luta.

Na primeira parte de seu ministério, Shoghi Effendi teve uma experiência que o fez compreender claramente as armadilhas que se apresentariam caso aceitasse os convites que lhe eram mandados pelas autoridades locais para estar presente em ocasiões como a visita de um alto oficial a Haifa. Ele me contou que assistiu a uma dessas recepções, oferecida pelo Comissário do Distrito em homenagem ao Alto Comissário. Ao entrar na sala, o Guardião verificou que o Alto Comissário estava sentado na parte central ao fundo da sala; a única cadeira desocupada próxima ao Alto Comissário ficava à sua direita. Sem hesitação, Shoghi Effendi avançou e sentou-se nela; como esta cadeira estava reservada para o Comissário Distrital e ele não queria pedir a Shoghi Effendi publicamente que a desocupasse, outra cadeira foi trazida para esse oficial. Shoghi Effendi bem sabia que, em outra ocasião semelhante, não permitiriam que isso acontecesse e nunca mais compareceu a um evento como esse.

Parece haver uma alusão a isso, ou ao menos uma alusão ao dilema no qual Shoghi Effendi se encontrara, numa carta ao Coronel Stewart B. Symes, antigo Governador de Haifa, que recentemente havia sido transferido a Jerusalém e nomeado Secretário-Chefe da Administração Palestina. Em 17 de maio de 1925, Shoghi Effendi escreveu congratulando-o por essa nomeação. Parece que, então, o Coronel Symes veio a Haifa numa visita oficial, pois o Guardião lhe escreveu outra vez, no dia 25, que: "Em vista de várias considerações a respeito da condição ainda não definida da Comunidade Bahá'í, infelizmente, acho impossível participar pessoalmente dos vários eventos públicos arranjados em vossa honra. Assim me vejo privado do grande prazer e privilégio de levantar a minha voz não só em nome da comunidade local mas também em nome dos bahá'ís do mundo inteiro em apreciação e gratidão pela boa vontade e alto senso de justiça que têm caracterizado a vossa atitude para com os diversos problemas que surgiram com o repentino falecimento de 'Abdu'l-Bahá. Estou certo de que compreendereis que minha forçada ausência dessas reuniões públicas de modo algum implica numa falta de cordialidade e amizade para com o representante de uma administração, à qual os bahá'ís têm toda razão para mostrar alta estima e profunda confiança." Então ele convida o Coronel, a Sra. Symes e a mãe dela para tomarem chá nos jardins ou, se isso não pudesse ser arranjado convenientemente, ele os visitaria pessoalmente em sua casa. É interessante notar como, quase um quarto de século mais tarde, surgiu uma situação semelhante, desta vez por ocasião da primeira visita do Primeiro-Ministro Ben Gurion a Haifa, quando os mesmos motivos persuadiram Shoghi Effendi a fazer o mesmo.

O Guardião tinha relações muito amistosas com o Coronel Symes, que era aquele Governador da Fenícia que fez um discurso no funeral do Mestre e assistiu à reunião do quadragésimo dia em Sua casa. Fora ao Coronel Symes que Shoghi Effendi escreveu, em 5 de abril de 1922, na ocasião de seu retiro: "Como sou constrangido a deixar Haifa, por motivos de saúde, nomeei como meu representante durante a minha ausência, a irmã de 'Abdu'l-Bahá, Bahíyyih Khánum." E prossegue, dizendo: "Para ajudá-la a tratar dos assuntos do Movimento Bahá'í neste país e em outras partes, nomeei também um comitê dos seguintes bahá'ís... (oito homens da comunidade local, sendo três destes, os genros de 'Abdu'l-Bahá). O presidente deste comitê, a ser eleito dentro em breve pelos seus membros, com a assinatura de Bahíyyih Khánum, tem minha autoridade para tratar de quaisquer assuntos que precisem ser considerados e decididos durante a minha ausência. Deploro profundamente não vos poder ver antes de minha partida a fim de expressar mais adequadamente a satisfação que sinto, sabendo que vosso senso de justiça salvaguardará os interesses da Causa de Bahá'u'lláh em qualquer ocasião em que tiverdes de agir."

As relações cordiais entre os dois, e a estima que Shoghi Effendi evidentemente tinha pelo caráter do governador, transparecem na carta que lhe escreveu ao regressar: "É meu agradável dever informá-lo de meu regresso à Terra Santa, após um prolongado período de descanso e meditação, e da assunção de minhas funções oficiais", e prossegue, dizendo: "Após o falecimento de meu bem-amado Avô, eu me havia sentido demasiado exausto, abatido e pesaroso para poder dirigir eficientemente os assuntos do Movimento Bahá'í. Agora que me sinto novamente restabelecido e revigorado, e em posição de assumir novamente meus deveres árduos, desejo lhe expressar nesta ocasião minha sincera gratidão e apreciação pela sua simpática mostra de consideração ao Movimento durante a minha ausência." No parágrafo seguinte, a carta contém sentimentos mais calorosos do que de costume: "É um grande prazer e privilégio poder renovar meu conhecimento do Sr. e Sra. Symes que, estou confiante, com o tempo, virá a ser uma amizade calorosa e duradoura." Shoghi Effendi concluiu-a com seus "cordiais cumprimentos e melhores votos" e assinou simplesmente "Shoghi". A troca de correspondência com o Coronel Symes - que mais tarde recebeu o título de cavaleiro e foi nomeado Governador-Geral do Sudão, ocupando este posto antes e durante a Segunda Guerra Mundial - continuou por muitos anos, mesmo depois de ele ter sido reformado.

Em 1927, Shoghi Effendi lhe escreveu: "Tomo a liberdade de lhe mandar em anexo, para sua informação, cópia de minha mais recente comunicação dirigida aos bahá'ís das terras ocidentais, a respeito da situação egípcia... Estamos muito animados em pensar que, num tempo em que arrostamos questões delicadas e intrincadas, a Palestina está sob uma administração que é exercida pelos mais altos motivos de equidade e justiça, e pela qual nós bahá'ís temos toda razão para sentirmos apreciação e gratidão. Estou satisfeito em saber que o Bahá'í Year Book lhe interessou..." e outra vez conclui enviando a ele e à Sra. Symes as mais cordiais saudações. Em 27 de dezembro de 1935, Symes (agora Sir Stewart) escreveu a Shoghi Effendi de "O Palácio, Cartum": "Muitíssimo obrigado pelas suas gentis saudações de Natal e pelo livro..." e também um ano depois, do Sudão, em 9 de abril de 1936: "Agradeço-lhe por me haver enviado, tão gentilmente, o Volume V do The Bahá'í World. Oxalá um pouco do Espírito Bahá'í possa ser traduzido nos assuntos nacionais e internacionais! Espero que tudo esteja bem com o senhor e com seu trabalho..."

A última carta dele, nos arquivos de Shoghi Effendi, foi escrita em julho de 1945 e testemunha a permanência das relações de Shoghi Effendi com pessoas que correspondiam aos seus gestos amigáveis, tratando-o com a mesma cordialidade e cortesia que ele estava sempre pronto a derramar sobre elas. Ele havia sido informado da morte do filho dos Symes na guerra. "Minha esposa e eu," escreveu Symes "ficamos muito comovidos com seu cabograma. Foi verdadeiramente muita bondade de sua parte lembrar-se de nós em nosso pesar..." e termina sua longa carta ao Guardião: "Se o senhor for visitar a Inglaterra, espero que nos avise. Pois seria um grande prazer para nós vê-lo novamente. Com as mais cordiais lembranças e saudações..."

Outro oficial, cuja posição, embora não tão alta, tinha relação direta com os interesses da Comunidade Bahá'í em seu Centro Mundial, era o Comissário Distrital. Durante aqueles anos em que Shoghi Effendi começava a procurar reconhecimento para a Fé na forma de privilégios tangíveis, Edward Keith-Roach, O.B.E.,* ocupava esse posto. Embora fosse um homem de calibre inteiramente diferente do Coronel Symes, ele era, no entanto, amável e prestativo, e parecia gostar de Shoghi Effendi, cuja correspondência com ele abrange o período entre 1925 e 1939. Keith-Roach, sem dúvida por saber que as autoridades superiores aprovariam, era às vezes muito cooperativo, não só em facilitar e agilizar o trabalho de Shoghi Effendi, mas também fazendo sugestões que o Guardião às vezes realizava. A primeira cópia que encontramos de uma carta de Shoghi Effendi a ele é tão simples, porém tão típica da cordialidade com que invariavelmente o Guardião correspondia aos gestos amigáveis de outras pessoas quando feitos com sinceridade, que não posso deixar de citá-la. Foi datada simplesmente "Haifa, 25-12-25" e dizia: "Meu caro Sr. Keith-Roach: Estou comovido pela sua grata mensagem de boa vontade e saudação, e apresso-me a lhe assegurar que retribuo plenamente os sentimentos expressos em sua carta. Com melhores votos de feliz Natal. Muito sinceramente, Shoghi Rabbani."

*Office of the Order of the British Empire (Oficial da Ordem do Império Britânico).

Muitas das cartas trocadas entre Shoghi Effendi e Keith-Roach evidenciam o fato de que eles freqüentemente se encontravam. Quando Keith-Roach esteve no hospital em Jerusalém, em 1935, Shoghi Effendi lhe escreveu: "Muito agradecido pela sua carta... Estou tão satisfeito por saber que sua saúde está melhorando e espero que, ao regressar, possa tomar chá comigo nos jardins recentemente ampliados que cercam o Lugar de Descanso." Em toda correspondência de Shoghi Effendi, tanto com Keith-Roach como com Symes, se encontram convites para tomarem chá com ele nos jardins no Monte Carmelo e, no caso do Coronel Symes, algumas vezes, incluindo a Sra. Symes no convite. Isto não era apenas uma maneira de Shoghi Effendi oferecer alguma hospitalidade a esses oficiais, mas também servia para lhes mostrar, levando-os para dentro da propriedade bahá'í, os mais recentes desenvolvimentos e ampliação nos jardins e, sem dúvida, ele aproveitava de sua presença para lhes apontar seus futuros planos e procurar sua simpatia e apoio. De fato, muitos destes encontros foram marcados especificamente para este fim.

Desde o início de sua Guardiania até a década de 1940, Shoghi Effendi costumava ver oficiais, engenheiros, advogados e outros não-bahá'ís pessoalmente relacionados a seus importantes negócios; não ia a seus escritórios mas se encontrava com eles em suas residências ou, mais freqüentemente, eles vinham à sua casa ou então se encontravam com ele nas propriedades do Santuário. Um exemplo dos resultados desta cooperação amigável é visto nos acontecimentos importantes que houve em 1932. Em 19 de novembro, o monumento para o túmulo da Folha Mais Sagrada foi desembarcado no porto de Haifa. No dia 20, Shoghi Effendi escreveu a Keith-Roach: "Eu desejaria pedir sua ajuda com referência ao monumento de mármore que deve ser erigido sobre a sepultura da irmã de 'Abdu'l-Bahá e que chegou bem, em Haifa, ontem à tarde. Um oficial subordinado do Departamento de Alfândega está disposto a isentá-lo de imposto, se a autorização necessária for concedida pelas autoridades superiores. Portanto apelo ao senhor, confiante de que fará todo o possível para facilitar a entrada na Palestina de uma obra de arte que, em alguns aspectos, bem pode ser considerada única neste país. Com a mais profunda apreciação e gratidão. Muito sinceramente". Em 22 de novembro, Shoghi Effendi novamente lhe escreveu: "Desejo lhe oferecer meus mais profundos agradecimentos por sua bondosa e pronta resposta ao meu pedido. O monumento foi entregue são e salvo, e já dei as instruções necessárias para ser imediatamente erigido. Reiterando os meus agradecimentos e com cordiais cumprimentos e melhores votos..." A entrada deste monumento com isenção de impostos criou um precedente de vastas implicações que, no decorrer das décadas seguintes, haveria de assegurar à Fé, em seu Centro Mundial, uma sempre crescente área de isenção, resultando na obtenção de certas concessões do Estado de Israel que não haviam sido obtidas durante o Mandato.

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O GUARDIÃO DEPOIS DE SEU RETORNO À HAIFA

Shoghi Effendi com Ismail Aqa, o antigo jardineiro de 'Abdu'l-Bahá, tirada no jardim da casa do Mestre, 1921.

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FAX DA CALIGRAFIA DA RAINHA MARIA

Acima: envelope endereçado a Shoghi Effendi pela Rainha da Romênia, o qual continha sua primeira carta a ele, escrita em 27 de agosto de 1926, de Bran, sua residência favorita.

Abaixo: um dos testemunhos escritos por Sua Majestade sobre o significado dos ensinamentos bahá'ís.

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FAX DA CALIGRAFIA DE SHOGHI EFFENDI

Na esquerda está um excerto de uma carta aos bahá'ís do leste, datada de novembro de 1927, a respeito dos serviços da Srta. Martha Root; na direita, algumas Palavras Ocultas.

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SAFÁRI

O carro no qual Shoghi Effendi viajava como passageiro com um caçador inglês, através da África Leste, 1919.

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UMA FOTOGRAFIA TIRADA PELO GUARDIÃO

Uma bela vila típica africana, tirada por Shoghi Effendi, quando ele atravessou a África, da Cidade do Cabo ao Cairo, em 1929.

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UMA TRAVESSIA NO NILO

Pegando um ferry-boat no pântano de papirus no rio Nilo, 1919. Foto de Shoghi Effendi.

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CATARATAS DE VICTÓRIA, ZIMBABWE (RODÉSIA), 1929

Principal fotografia de Shoghi Effendi de uma das maiores cataratas do mundo, Zimbabwe, África.

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CENAS AFRICANAS

Acima: Fotografia de Shoghi Effendi de uma gigante árvore Baobab, a qual cresceu perto das cataratas de Victória.

Abaixo: O Guardião no túmulo de Cecil Rhodes, 1929.

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Quatro dias mais tarde, Shoghi Effendi faz o Comissário Distrital lembrar de um pedido muito mais significativo que lhe fizera; a carta inteira, seguindo imediatamente após as duas supracitadas, representa uma diplomacia verdadeiramente magistral - somos quase tentados a dizer, tanto da parte de Deus como de Shoghi Effendi - pois Aquele proveu a seqüência dos acontecimentos e este arrebatou a oportunidade que eles apresentavam.

Haifa, 26 de novembro de 1932.
Caro Sr. Keith-Roach,

Estou certo de que o senhor terá interesse em saber que estou dando os passos preliminares necessários para a ampliação dos terraços que formam parte integral do Santuário e conduzem à Colônia Alemã.

Eu me dirigi ao Engenheiro Municipal e o achei muito simpático e favorável. É minha intenção, pois, submeter à Comissão de Planejamento Municipal uma declaração oficial das condições sob as quais estamos prontos para abrir e estender os terraços às nossas próprias custas e seguindo o desenho geral já adotado.

É minha fervorosa esperança que, antes do fim do ano de 1933, o desejo que o senhor expressou, e para cuja realização me esforçarei de coração, seja completamente cumprido.

Estou certo de que a petição que recentemente lhe submeti, concernente ao caráter sagrado da Mansão de Bahjí, a qual forma parte integrante do Santuário de Bahá'u'lláh, receberá sua consideração favorável e que será concedido o certificado necessário para isenção de direitos aduaneiros dos artigos consignados para esse edifício.

Obviamente Shoghi Effendi não só fazia com que seu Comissário Distrital ficasse sempre completamente informado, mas, de um modo cortês, amigável e magistral, mantinha com ele contato constante a fim de obter para a Fé aqueles privilégios que, ele acreditava, eram seu direito. E Keith-Roach, tendo sem dúvida se certificado de que a administração em Jerusalém simpatizava com o trabalho que Shoghi Effendi estava realizando, ajudava-o ativamente, com sugestões e cooperação. Assim, em 2 de fevereiro de 1934, Shoghi Effendi lhe escreveu uma carta que foi um dos principais elos na longa luta para isentar as propriedades bahá'ís de impostos:

Caro Sr. Keith-Roach,

De acordo com sua sugestão, mando anexa a declaração formal que eu, como Guardião da Fé Bahá'í, assinei e que, estou confiante, facilitará a isenção de impostos da área que circundará o Santuário Bahá'í internacional no Monte Carmelo.

Eu ficaria muito grato se expedisse a autorização necessária para isentar de direito aduaneiro o portão ornamental dourado que forma parte da entrada para o túmulo da Folha Mais Sagrada.

Mando anexa a chave para o portão superior do Santuário, que espero o senhor usará quando passar pelos jardins.

Assegurando-lhe minha perene gratidão e profunda apreciação por sua assistência e favorável consideração dos interesse da Comunidade Bahá'í.

Muito sinceramente,

Três meses depois, em 10 de maio, o Guardião escreve-lhe novamente: "Desejo expressar-lhe minha mais profunda apreciação da ação que tomou para isentar de taxação a área inteira que circunda e é dedicada aos Santuários Bahá'ís internacionais no Monte Carmelo." Uma das grandes vitórias no processo do desenvolvimento do Centro Mundial havia sido obtida.

Em outra carta, com data de 21 de junho de 1935, Shoghi Effendi, chamando a atenção de Keith-Roach a assuntos referentes a um caso judicial, diz: "Qualquer assistência que achar possível prestar neste caso, certamente seria apreciada por mim tanto quanto pelas várias Assembléias Bahá'ís cujos interesses represento." Por todo seu ministério, Shoghi Effendi sempre tornava bem claro aos oficiais que, embora ele fosse o Dirigente da Fé, por trás dele se encontrava um grande concurso de bahá'ís de muitos países, prontos para dar seu apoio, com todo o seu poder, às suas reivindicações e solicitações; e, ao expressar seus agradecimentos, muitas vezes incluía os sentimentos de gratidão e apreciação deles juntamente com os seus próprios.

Embora o Guardião não assistisse a recepções ou eventos governamentais, por motivos já expostos, ele freqüentemente consentia em visitar os oficiais em particular. Ele escreveu a Keith-Roach: "... Ficaria imensamente satisfeito se pudesse vir tomar chá amanhã à tarde em minha casa, onde poderíamos tratar do assunto... Posso ir encontrá-lo na Hospedaria, se isto lhe for mais conveniente, e a qualquer hora que lhe aprouver." Em 27 de dezembro de 1936, numa calorosa carta de próprio punho, marcada "Pessoal", Keith-Roach agradece a Shoghi Effendi por "suas muito apreciadas saudações de Natal, que eram fragrantes e também belas". Não só agradeceu a Shoghi Effendi pelas flores que ele lhe presenteou, mas em muitas ocasiões lhe agradecia pelos vários livros bahá'ís que muito apreciava. Após o casamento do Guardião, em março de 1937, Keith-Roach lhe escreveu: "Permite que eu congratule sua noiva e o senhor com verdadeira sinceridade na ocasião de seu casamento e deseje a ambos uma vida rica no serviço da grande tarefa cujo desempenho lhe foi determinado por Deus. Quando posso visitá-los? Com profunda estima..." A esta carta, de natureza tão calorosa e pessoal, Shoghi Effendi respondeu no mesmo dia em que a recebeu, 23 de abril: "Estou profundamente comovido pelos sentimentos que me expressou por ocasião de meu casamento. Estimo muito a sua mensagem de bons votos e sempre me lembrarei com sentimentos de gratidão a assistência que me tem prestado em minha árdua tarefa. Terei a máxima satisfação em recebê-lo em nossa casa em qualquer dia que lhe seja conveniente. Agradecendo-lhe muito calorosamente pela sua mensagem..." Pouco depois disso, Keith-Roach foi nomeado Comissário Distrital de Jerusalém, mas os laços de amizade permaneceram e, alguns anos mais tarde, nós o congratulamos pelo seu casamento, o qual nos escrevera estar planejando. Como não temos quase nenhum registro da atitude de Shoghi Effendi em relação a não-bahá'ís com quem ele tinha relações amistosas, eu me referi à sua correspondência com Keith-Roach, porque nos revela o outro lado da natureza multilateral do Guardião.

Imediatamente após seu regresso à Terra Santa, depois do falecimento do Mestre, Shoghi Effendi seguia a política de sempre informar as autoridades locais, e especialmente aquelas na sede do governo em Jerusalém, não só sobre seus planos mas também seus problemas e as várias crises que surgiam, tais como a tomada à força das chaves do Santuário de Bahá'u'lláh, em Bahjí, e de Sua Casa em Bagdá, bem como as perseguições e injustiças que a Fé estava sofrendo. Começando com sua primeira carta ao Alto Comissário, Sir Herbert Samuel, amigo de 'Abdu'l-Bahá, escrita em 16 de janeiro de 1922, Shoghi Effendi manteve esse contato com o governo até o fim de sua vida, primeiro com os representantes britânicos e, mais tarde, com os judaicos. Quando Shoghi Effendi saiu da Palestina, tão esmagado e doente, na primavera de 1922, ele havia informado Sir Herbert das medidas que tomara para proteger a Causa durante sua ausência; após seu regresso a Haifa, em 15 de dezembro daquele mesmo ano, telegrafou a Sir Herbert, no dia 19: "Peço-lhe que aceite meus melhores votos e cordiais cumprimentos ocasião meu regresso à Terra Santa e reassunção de meus deveres oficiais."

Em maio de 1923, Shoghi Effendi informa, tanto o Governador de Haifa como o Alto Comissário, dos acontecimentos, pois numa carta àquele ele escreveu que a "Assembléia Espiritual dos Bahá'ís de Haifa" foi "reconstituída oficialmente e, em conjunto comigo, dirigirá todas as atividades locais nesta região. Recentemente informei Sua Eminência o Alto Comissário sobre isto..." A carta à qual se referia, com data de 21 de abril, dizia que ele mandava anexa uma cópia de sua recente carta circular às comunidades bahá'ís do Ocidente, semelhante a uma escrita em persa às comunidades bahá'ís do Oriente. "Como expressastes em vossa última carta a mim o desejo de saber das medidas que foram tomadas para providenciar a organização estável do Movimento Bahá'í, terei o máximo prazer em lançar mais luz sobre qualquer ponto que Vossa Excelência queira indicar com relação à carta anexa, ou a respeito de qualquer outro assunto relacionado aos interesses do Movimento em geral."

É impossível entrar nos detalhes dos trinta e seis anos das relações de Shoghi Effendi com as autoridades, primeiro da Palestina e depois de Israel. Ter conseguido ganhar e manter a boa vontade delas, sua cooperação em seus vários empreendimentos no Centro Mundial e seu reconhecimento desse Centro como o coração histórico da Fé Bahá'í, merecendo desfrutar os mesmo direitos das outras Fés na Terra Santa - na verdade, direitos maiores, em alguns aspectos - tudo isso, em face do dano contínuo provocado por vários inimigos que aberta ou secretamente se opunham consistentemente a cada passo que ele dava, é um tributo à extraordinária sabedoria e paciência que caracterizavam a liderança de Shoghi Effendi na Causa de Deus.

Quando o exercício de Sir Herbert Samuel se aproximava do fim, o Guardião lhe mandou, em 15 de junho de 1925, uma daquelas mensagens que tão efetivamente moldavam laços de boa vontade com o governo, expressando um duradouro senso de gratidão e profunda apreciação, de sua própria parte e da dos bahá'ís, pela "atitude bondosa e nobre de Vossa Excelência para com os vários problemas que os têm assediado desde o falecimento de 'Abdu'l-Bahá... Os bahá'ís... lembrando-se dos atos de solidariedade e boa vontade que a Administração Palestina sob vossa direção lhes mostrou no passado, esforçar-se-ão confiantemente para contribuir com seu pleno quinhão para a prosperidade material bem como o progresso espiritual de uma terra tão sagrada e preciosa a todos eles". Sir Herbert respondeu a esta carta nos seguintes termos: "... Tenho tido grande satisfação durante os cinco anos de meu exercício em manter relações muito amigáveis com a Comunidade Bahá'í da Palestina e aprecio profundamente a boa vontade que eles sempre têm mostrado para com a Administração e a mim."

Quando, em 1929, houve distúrbios na Palestina, em 10 de setembro o Guardião escreveu ao então Alto Comissário, Sir John Chanallor, uma carta altamente significativa:

Vossa Excelência,

Recebi com profundo pesar notícias das ocorrências lamentáveis na Palestina e apresso-me, enquanto fora do país, a oferecer à Vossa Excelência minha sincera simpatia na tarefa difícil com a qual se defronta.

A Comunidade Bahá'í da Palestina, que por causa de sua Fé se prende profundamente ao seu solo, na verdade deplora essas violentas explosões de fanatismo religioso e aventura-se a esperar que, à medida que a influência dos ideais bahá'ís se estenda e se aprofunde, ela possa nos dias vindouros prestar crescente assistência à vossa Administração para a promoção do espírito de boa vontade e tolerância entre as comunidades religiosas na Terra Santa.

Sinto-me movido a oferecer à Vossa Excelência, em seu nome, a quantia anexa como sua contribuição para o alívio dos que estão sofrendo e dos necessitados, sem consideração à raça ou credo...

Foi durante aquele mesmo ano de 1929 que Shoghi Effendi, por meio de uma petição formal da Comunidade Bahá'í de Haifa ao governo, em 4 de maio, conseguiu obter para ela permissão para administrar, de acordo com a lei bahá'í, os afazeres da comunidade em assuntos de status pessoal, como casamento, colocando-a neste sentido em condições iguais às das Comunidades Judaica, Muçulmana e Cristã na Palestina. Shoghi Effendi aclamou este ato como "de significação tremenda e inteiramente sem precedentes na história da Fé em qualquer país". O casamento do próprio Guardião, exclusivamente bahá'í, foi registrado, tornando-se legal como resultado deste reconhecimento que ele obtivera para a Fé.

Um dos homens que ocuparam o importante posto de Alto Comissário durante esses anos em que a Causa estava começando a ganhar, de modo tangível, reconhecimento de seu status independente, foi Sir Arthur Wauchope, um homem que, semelhante ao Coronel Symes, gostava de Shoghi Effendi pessoalmente e que, há indícios, compreendia como era pesada a carga que recaía sobre os ombros do jovem que era Dirigente da Fé Bahá'í. Foi durante esse período de sua administração - que em parte coincidiu com o tempo em que Keith-Roach era Comissário Distrital em Haifa - que ocorreram algumas das maiores vitórias na obtenção de concessões por parte das autoridades, a mais importante das quais, depois do direito da comunidade de obedecer algumas de suas próprias leis concernentes ao status pessoal, foi a isenção de taxação da área inteira que circunda o Santuário do Báb, no Monte Carmelo. Diferente da maioria dos Altos Comissários, Sir Arthur parece ter se encontrado com Shoghi Effendi pessoalmente, porque se refere a isto em algumas de suas cartas.

Numa delas, datada de 26 de junho de 1933, Sir Arthur diz: "Recebi sua carta de 21 de junho e apresso-me a escrever para agradecê-la e assegurá-lo de que, quando o caso que mencionou for encaminhado a mim para uma decisão sob a Ordem Palestina (Lugares Sagrados) em Conselho, receberá a mais cuidadosa consideração. Recebi também o Bahá'í World de 1930-32. Sou-lhe muitíssimo grato por este livro extremamente interessante... Espero ter o prazer de mais uma visita aos belos jardins no declive nas imediações de Haifa."

Em 13 de março de 1934, Shoghi Effendi lhe escreveu: "... Como o caso recentemente submetido à Vossa Excelência relativo aos Santuários Bahá'ís no Monte Carmelo é de vital importância internacional, pedi ao Sr.___ que viesse à Palestina conferenciar comigo a respeito disto. Eu apreciaria muito se Vossa Excelência tivesse a bondade de lhe conceder uma entrevista a fim de que sejam esclarecidos um ou dois pontos que não compreendo completamente e dos quais depende minha futura ação nesta questão." Em 1 de maio daquele mesmo ano, Shoghi Effendi novamente lhe escreveu: "Apreciei profundamente a gentil mensagem de simpatia e apoio para o projeto da Comunidade Bahá'í de embelezar os declives do Monte Carmelo que me mandou por intermédio do Sr. ___ Isso me animou muito. Infelizmente há interesses fortes e influentes que estão tentando obstruir o plano. Estes são, em parte, meramente especuladores imobiliários que, com sua falta de perspicácia, estão fazendo o possível para desenvolver o declive setentrional do Monte Carmelo em seu benefício imediato. Mais difíceis e perigosos para nosso plano, porém, são aqueles que procuram definitivamente frustrar os esforços dos seguidores de Bahá'u'lláh em qualquer coisa que possam empreender. Cremos que essas pessoas estavam por trás da questão movida contra nós pelos Domet (Dumit), por exemplo, e foi por essa razão que nos achamos justificados em nosso esforço de retirá-la da jurisdição das cortes e submetê-la à consideração pessoal de Vossa Excelência... Com cordiais cumprimentos e reiterada expressão de minha sincera apreciação da simpatia e apoio de Vossa Excelência..." O caso em questão, que envolveu quatro anos de litígio, foi finalmente abandonado e, em 1935, foi assinado um contrato para a compra do terreno dos Dumit e Shoghi Effendi telegrafou à Assembléia Nacional da América que ele tencionava registrá-lo no nome de sua Filial Palestina. É interessante notar que, para os bahá'ís, ele transliterou o nome, mas não para o Alto Comissário.

Desde muito tempo, Shoghi Effendi se esforçava por obter isenção de taxação para as propriedades bahá'ís ao redor do Santuário do Báb e recebera, afinal, a notícia de que fora concedida. Por trás das linhas formais desta carta, escrita em 11 de maio de 1934, percebe-se seu júbilo interior sobre esta vitória:

Vossa Excelência,

A grata notícia acaba de me chegar do Comissário Distrital de Haifa, a de que a petição pela isenção de taxação das propriedades bahá'ís no Monte Carmelo foi concedida pelo governo.

Apresso-me a expressar à Vossa Excelência, por parte da Comunidade Bahá'í Mundial e de minha própria, quão profundamente apreciamos o interesse simpático e efetivo que Vossa Excelência tomou na questão e que deve ter contribuído, eu sei, em grande parte, para esse resultado. E aventuro-me a esperar que Vossa Excelência continue esse simpático apoio ao nosso plano de embelezar, pouco a pouco, essa propriedade para o uso e o prazer do povo de Haifa, para o que essa ação do governo agora abre o caminho.

A esta carta, Sir Arthur respondeu pessoalmente, cinco dias depois:

Caro Shoghi Effendi,

Agradeço-lhe a carta de 11 de maio e as palavras gentis que contém. Sempre tive grande simpatia pelo seu projeto de embelezamento dos declives do Monte Carmelo e espero que esta isenção ajuda-lo-á na execução de seu nobre trabalho.

Muito sinceramente,
Arthur Wauchope

Em outra carta, o Alto Comissário escreveu: "Sou-lhe muitíssimo grato pelo seu gentil presente, Os Rompedores da Alvorada. Lerei o livro com muito interesse, pois sabe quanto a maravilhosa narrativa me comoveu quando pela primeira vez a ouvi na Pérsia. O livro é apresentado numa forma encantadora, enquanto as ilustrações e reproduções lhe realçam a atração. Reitero meus profundos agradecimentos pelos seus pensamentos gentis e grato presente..." Há cartas semelhantes agradecendo ao Guardião pelo Seleções e The Bahá'í World. A última carta, escrita em fevereiro de 1938, por este homem que, em virtude de seu alto posto, ajudou Shoghi Effendi a obter uma das maiores vitórias no Centro Mundial da Fé, foi típica de sua amável benevolência: "... Era minha intenção visitá-lo em Haifa, onde esperava ver o progresso em seu jardim e dizer adeus pessoalmente. Infelizmente, as muitas obrigações que me tomaram o tempo... tornaram isto impossível, assim, aproveito esta oportunidade para me despedir e expressar meus melhores votos para a Comunidade Bahá'í." No fim da carta, acrescentou, à mão: "Ouço dizer que o seu jardim está ficando cada ano mais belo."

No tempo em que o Mandato se aproximava de seu término e o agitado povo da Palestina se preparava para lutar até o fim, a Organização das Nações Unidas nomeou um Comitê Especial na Palestina, chefiado por Justice Emil Sandstrom. Em 9 de julho, ele escreveu de Jerusalém a Shoghi Effendi, dizendo que, segundo os termos de referência desse comitê, estava incumbido de dar a mais cuidadosa consideração aos interesses religiosos na Palestina, do Islamismo, do Judaísmo e do Cristianismo, e prossegue dizendo: "Eu apreciaria que me avisasse se deseja nos apresentar, numa declaração por escrito, os interesses religiosos de sua Comunidade na Palestina." Em vista da importância histórica da resposta de Shoghi Effendi a esta carta, cito-a na íntegra:

14 de julho de 1947
Sr. Justice Sandstrom,
Presidente,
Comitê Especial das Nações Unidas na Palestina
Senhor,

Sua gentil carta de 9 de julho está em meu poder e desejo lhe agradecer a oportunidade que me concedeu para lhe apresentar, e aos seus estimados colegas, uma declaração da relação que a Fé Bahá'í tem com a Palestina, e nossa atitude para com quaisquer futuras modificações no status desta terra sagrada, objeto de tantas disputas.

Mando anexo a esta carta, para vossa informação, um breve esboço da história, dos objetivos e da significação da Fé Bahá'í, bem como um pequeno folheto que expõe suas opiniões sobre o estado atual do mundo e as diretrizes segundo as quais esperamos e acreditamos que deve e há de se desenvolver.

A posição dos bahá'ís neste país é, de certo modo, única: enquanto Jerusalém é o centro espiritual da cristandade, não é o centro administrativo nem da Igreja Romana nem de qualquer outra denominação cristã. Outrossim, embora seja considerada pelos muçulmanos o lugar em que se situam um de seus túmulos mais sagrados, encontram-se na Arábia, e não na Palestina, os Sítios Sagrados da Fé Maometana e o centro de suas peregrinações. Somente os judeus oferecem algo de paralelo ao apego que os bahá'ís têm a este país, desde que Jerusalém contém os restos de seu Santo Templo e era sede das instituições tanto religiosa como políticas associadas à sua história passada. Mas, em certo sentido, mesmo o seu caso difere do dos bahá'ís, pois é no solo da Palestina que as três Figuras centrais de nossa religião estão sepultadas e não é somente o centro de peregrinação dos bahá'ís de todas as partes do mundo, mas também a sede permanente de nossa Ordem Administrativa, da qual tenho a honra de ser o Dirigente.

A Fé Bahá'í é inteiramente apolítica e não tomamos partido na presente disputa trágica sobre o futuro da Terra Santa e de seus povos, nem temos qualquer declaração a fazer, ou conselho a dar, sobre qual deveria ser a natureza do futuro político deste país. Nosso objetivo é estabelecer neste mundo a paz universal e nosso desejo é ver a justiça prevalecer em todos os aspectos da sociedade humana, inclusive no da política. Como muitos dos aderentes de nossa Fé são de origem judaica e muçulmana, não temos preconceito para com qualquer desses grupos e estamos muito ansiosos a reconciliá-los em seu benefício mútuo e para o bem do país.

O que realmente nos importa, entretanto, em quaisquer decisões tomadas que possam afetar o futuro da Palestina, é que seja reconhecido, por qualquer um que venha a exerce soberania sobre Haifa e Acre, o fato de que existe dentro desta área o centro espiritual e administrativo de uma Fé mundial e que a independência desta Fé, seu direito de dirigir seus interesses internacionais a partir desta fonte, o direito dos bahá'ís de todo e qualquer país do globo de visitá-lo como peregrinos (usufruindo neste sentido do mesmo privilégio que os judeus, muçulmanos e cristãos, quanto a visitarem Jerusalém) seja admitido e permanentemente salvaguardado.

O Sepulcro do Báb no Monte Carmelo, o Túmulo de 'Abdu'l-Bahá nesse mesmo local, a Hospedaria de Peregrinos para os bahá'ís orientais, em sua vizinhança, os grandes jardins e terraços que circundam esses lugares (todos os quais estão abertos ao público de todas as denominações), a Hospedaria de Peregrinos para os bahá'ís ocidentais, ao pé do Monte Carmelo, a residência do Dirigente da Comunidade, várias casas e jardins em Acre e suas imediações, associados ao encarceramento de Bahá'u'lláh nessa cidade, Seu Sagrado Túmulo em Bahjí, perto de Acre, com Sua Mansão agora preservada como sítio histórico e museu (ambos igualmente acessíveis ao público de todas as denominações), bem como propriedades na planície de Acre - tudo isso constitui o volume das propriedades bahá'ís na Terra Santa. Deveria se notar, também, que praticamente todas estas propriedades foram isentadas de taxas tanto governamentais como municipais, em virtude de sua natureza religiosa. Algumas destas extensas propriedades pertencem à Filial Palestina da Assembléia Espiritual Nacional dos Estados Unidos e Canadá, incorporada como sociedade religiosa de acordo com as leis do país. No futuro, várias outras Assembléias Bahá'ís Nacionais, por intermédio de suas Filiais Palestinas, serão donas de parte das Propriedades Internacionais da Fé na Terra Santa.

Em vista da informação acima, eu pediria ao senhor e aos membros de seu Comitê que, em qualquer recomendação que façam às Nações Unidas atinente ao futuro da Palestina, levem em consideração a proteção dos direitos bahá'ís.

Permita que eu aproveite esta oportunidade para lhe assegurar a minha profunda apreciação ao espírito em que o senhor e seus colegas têm conduzido suas investigações nos distúrbios desta Terra Sagrada. Oro e tenho confiança de que as suas deliberações resultarão numa solução justa e rápida dos espinhosos problemas que têm surgido na Palestina.

Sinceramente,
Shoghi Rabbani

Deve-se lembrar que a única celebridade oriental de algum prestígio que não fugira da Palestina antes da Guerra da Independência foi Shoghi Effendi. Este fato não passou despercebido pelas autoridades do novo Estado. Mediante atos como este, o Guardião havia podido convencer não-bahá'ís, que nenhuma razão tinham para acreditar nele cegamente, da genuína integridade pessoal e estrita adesão ao caminho que ele julgava certo, que o caracterizavam em sua qualidade de Dirigente da Fé de Bahá'u'lláh. Em grande parte por causa disto e em virtude daquilo que os Ensinamentos Bahá'ís representavam, bem conhecido pela avant-garde do Movimento Judaico da Independência, as novas autoridades eram extremamente cooperativas em todos os sentidos. Um de seus primeiros atos, enquanto o conflito ainda prosseguia, fora fixar um aviso no Santuário de Bahá'u'lláh - muito mais isolado do que os Santuários em Haifa - indicando que era um Lieu Sainte ou "Lugar Sagrado", garantindo assim que seria tratado com respeito por todos os judeus.

No novo Estado, entretanto, o Guardião teve que enfrentar o mesmo velho problema que havia enfrentado sob a administração antiga, o de preservar sua posição em ocasiões formais. Em janeiro de 1949, o Sr. Ben Gurion, Primeiro-Ministro do Governo Provisório, veio a Haifa em sua primeira visita oficial e o prefeito, naturalmente, convidou Shoghi Effendi a assistir à recepção oferecida pela Municipalidade em sua honra. O dilema foi agudo, pois se o Guardião não fosse, isto seria considerado uma afronta ao novo governo, e se ele fosse, inevitavelmente seria submerso num mar de pessoas em que qualquer pretensão a protocolo seria ignorada (de fato, foi isso que aconteceu conforme meu pai, que representou Shoghi Effendi, relatou ao voltar da recepção). Como o Guardião não iria participar da recepção, mas estava muito disposto a mostrar cortesia ao Primeiro-Ministro do novo Estado, ele decidiu, então, que poderia visitá-lo em particular. Com grande dificuldade, isso foi conseguido mediante os bons ofícios do Prefeito de Haifa, Shabatay Levy, pois o tempo do Sr. Ben Gurion em Haifa era muito curto e estava a apenas dois dias da primeira eleição geral no novo Estado.

A entrevista realizou-se na noite de sexta-feira, 21 de janeiro, na casa particular em que o Primeiro-Ministro estava hospedado no Monte Carmelo, e durou cerca de quinze minutos. Ben Gurion indagou sobre a Fé e a relação de Shoghi Effendi com ela, e perguntou se havia um livro que ele pudesse ler; Shoghi Effendi respondeu à suas perguntas, assegurando-lhe que lhe enviaria um exemplar de seu próprio livro, A Presença de Deus - o que ele subseqüentemente fez, e cujo recebimento foi acusado com agradecimentos.

Típico de toda a história da Causa e dos constantes problemas que a assediavam foi um longo artigo que apareceu no principal jornal publicado em inglês, em 20 de dezembro de 1948, no qual, em termos os mais favoráveis, seus ensinamentos foram expostos e foi mencionada a posição de Shoghi Effendi como seu Dirigente Mundial. Em 28 de janeiro de 1949, apareceu na coluna de correspondência deste jornal uma afirmação curta e extraordinária, assinada "Bahá'í U. N. Observer", a qual refutava terminantemente o artigo, asseverando que:"O Sr. Rabbani não é o Guardião da Fé Bahá'í nem seu Dirigente Mundial", e deu a New History Society, em Nova York, como fonte de maiores informes. Como não existia nenhum "Bahá'í U. N. Observer", essa manobra foi evidentemente inspirada pelo novamente esperançoso bando dos velhos rompedores do Convênio que, no início de um novo regime, procurava macular a reputação de Shoghi Effendi e desviar a atenção de sua posição pela referência ao inconsistente grupo chefiado por Ahmad Sohrab, na América. Posteriormente, quando em 1952 os rompedores do Convênio em Bahjí levaram às cortes locais seu caso contra Shoghi Effendi por causa da demolição de um velho prédio perto da Mansão de Bahá'u'lláh, Sohrab tentou, sem êxito, exercer pressão sobre o Ministro dos Assuntos Religiosos para desacreditar as reivindicações bahá'ís. Foi com ataques como esses, tanto abertos como encobertos, que, no limiar de uma nova fase no desenvolvimento dos assuntos da Fé em seu Centro Mundial, o Guardião mais uma vez teve que lutar.

A cordialidade das autoridades para com Shoghi Effendi e a Fé Bahá'í transparece em muitas comunicações. Mas não era somente questão de palavras; havia também evidências tangíveis do reconhecimento do status da Fé em sua Sede Internacional.

Desde muito tempo, era o desejo de Shoghi Effendi obter controle da Mansão em Mazra'ih, onde Bahá'u'lláh primeiro morara ao sair definitivamente do interior dos muros da cidade-prisão de 'Akká. Essa era uma propriedade religiosa muçulmana e agora ficara vazia. O governo planejava convertê-la em lar de repouso para oficiais. Todos os esforços para obter essa propriedade por intermédio dos devidos departamentos foram improfícuos, até que Shoghi Effendi apelou diretamente a Ben Gurion, explicando seu significado para os bahá'ís e seu desejo de que fosse visitada por peregrinos como um lugar tão intimamente ligado a Bahá'u'lláh. Assim, o Primeiro-Ministro interveio pessoalmente na questão e ela foi arrendada aos bahá'ís como sítio histórico. Shoghi Effendi orgulhosamente informou ao mundo bahá'í, em 16 de dezembro de 1950, que suas chaves nos haviam sido entregues pelas autoridades israelenses depois de um lapso de mais de cinqüenta anos.

Os afazeres da Comunidade Bahá'í, em assuntos referentes a seus contatos diários com o governo a respeito do trabalho no Centro Mundial, estavam agora sob a jurisdição do Ministério de Assuntos Religiosos e inicialmente foram tratados pelo chefe do Departamento que tratava de assuntos muçulmanos. A isto, Shoghi Effendi fez veemente objeção, porque dava a entender que a Fé era de algum modo identificada com o Islã. Depois de muitas negociações, foi recebida uma carta do Ministério de Assuntos Religiosos, datada de 13 de dezembro de 1953, dirigida a "Sua Eminência, Shoghi Effendi Rabbani, Dirigente Mundial da Fé Bahá'í", na qual dizia:

"... Tenho a satisfação de lhe informar minha decisão de estabelecer em nosso Ministério um Departamento separado para a Fé Bahá'í. Espero que este departamento possa ajudá-los em assuntos atinentes ao Centro Bahá'í em nosso Estado.

Em nome do Ministério dos Assuntos Religiosos do Estado de Israel, desejo assegurar a Vossa Eminência que plena proteção será concedida aos Lugares Sagrados bem como ao Centro Mundial da Fé Bahá'í."

Esta vitória foi tanto mais apreciada, por seguir logo após a ação jurídica já mencionada movida contra Shoghi Effendi devido a questões técnicas pelos rompedores do Convênio, com referência à demolição de uma casa adjacente ao Santuário e à Mansão de Bahá'u'lláh, em Bahjí. Nunca cansados de procurar humilhar e desacreditar publicamente o Dirigente da Fé, fosse 'Abdu'l-Bahá ou o Guardião, tinham tido a ousadia de intimar Shoghi Effendi a aparecer na corte como testemunha. Mais uma vez, muito preocupado com a honra da Causa em seu Centro Mundial, Shoghi Effendi apelou diretamente ao Primeiro-Ministro, enviando em mais de uma ocasião o coordenador, o secretário-geral e um membro vogal do Conselho Bahá'í Internacional (a quem havia chamado da Itália para este fim) como seus representantes a Jerusalém para insistirem sobre a estratégia que ele mesmo inventara. Esses protestos foram bem sucedidos e, por ser uma questão puramente religiosa, foi removida da jurisdição das cortes civis pelo governo. Logo que os querelantes viram que seu plano para humilhar Shoghi Effendi havia sido impedido de execução, consentiram em resolver o caso por negociação. Que as autoridades e a Comunidade Bahá'í ficaram igualmente satisfeitas com esta conclusão do assunto, é mostrado nestas cartas escritas ao Guardião por membros do corpo de assistentes do Primeiro-Ministro - dois homens a quem a Fé muito devia, em vista de seus simpáticos esforços em seu benefício naquele tempo:

Escritório do Primeiro-Ministro
Jerusalém, 19 de maio de 1952.
Sua Eminência Shoghi Effendi,
Dirigente Mundial da Fé Bahá'í,
Haifa
Vossa Eminência,

Seguindo instruções, acuso recebimento de vossa carta de 16 de maio endereçada ao Primeiro-Ministro.

Como sem dúvida sabeis, a disputa entre Vossa Eminência, como Dirigente Mundial da Fé Bahá'í, e membros da família do fundador da Fé, já encontrou solução e não há, portanto, necessidade de se tomar qualquer ação administrativa a fim de resolver o problema.

Permiti que eu vos expresse nossa gratidão pela sua sábia e benévola atitude na disputa, capacitando-nos a impor ao grupo dissidente uma solução justa e, esperamos, duradoura.

O Primeiro-Ministro vos assegura sua estima pessoal e vos manda seus melhores votos.

Sinceramente,
S. Eynath
Consultor Legal

A segunda carta foi de Walter Eytan, Diretor-Geral do Ministério de Assuntos Exteriores, e foi escrita a Shoghi Effendi no dia seguinte. Ele diz:

"... Tendo feito sempre o possível para assistir Vossa Eminência na solução desses problemas vexantes, foi com grande satisfação que soube esta manhã que completo acordo havia sido atingido. Espero sinceramente que isso assinale o término de um período de ansiedade para Vossa Eminência e os membros da Fé Bahá'í, e que possa agora prosseguir em seus planos sem mais interferências de qualquer fonte."

Em cartas como estas, é significativo notar que, a começar pelo Presidente, todos se dirigiam a Shoghi Effendi como "Sua Eminência", um título que, embora ainda muito inferior àquele merecido pela sua posição, foi introduzido nos primeiros dias de seu ministério, mas nunca realmente usado por qualquer oficial antes da formação do Estado Judaico.

A natureza cordial das relações estabelecidas entre o Guardião e os oficiais do Estado de Israel animou Shoghi Effendi a indagar se o Presidente teria interesse em visitar o Santuário Bahá'í em Haifa; ao chegar o aviso de que ele aceitaria tal convite, Shoghi Effendi convidou-o formalmente e tudo foi arranjado para a manhã de 26 de abril de 1954, quando o Chefe do Gabinete do Presidente escreveu a Shoghi Effendi que o Presidente "teria satisfação em lhe fazer uma visita oficial". Conseqüentemente, o Presidente e sua esposa chegaram na casa do Mestre, acompanhados de dois oficiais, tomaram uma refeição leve e foram presenteados pelo Guardião com um álbum persa, pintado com miniaturas e encadernado em prata, contendo algumas fotografias dos Santuários, como recordação de sua visita. A comitiva presidencial, juntamente com Shoghi Effendi e aqueles que o acompanhavam, foram então aos jardins no Monte Carmelo. Esta foi a primeira vez na história da Causa que o Dirigente de uma nação independente fez uma visita oficial desta natureza, e constituiu mais um marco no desenvolvimento do Centro Mundial da Causa. O Presidente e sua comitiva mostraram o máximo respeito ao Sepulcro do Báb, removendo os sapatos, como nós fizemos, antes de entrarem, ficando os homens de chapéu, como fazem os judeus por reverência a um lugar sagrado. Foi um momento muito comovente ver o Presidente Ben Zvi em pé ao lado de Shoghi Effendi, diante do limiar, aquele com seu chapéu europeu, este com seu simples fez preto. Após umas breves palavras de explicação por Shoghi Effendi, todos nos retiramos e caminhamos pelos jardins por alguns minutos antes de nos despedirmos, em frente à Casa dos Peregrinos, onde o carro do Presidente o esperava.

Em 29 de abril, o Presidente escreveu pessoalmente ao Guardião: "Desejo expressar meus agradecimentos pela sua gentil hospitalidade e pelos momentos interessantes que passei consigo em visita aos belos jardins e ao notável Santuário... Aprecio verdadeiramente a amizade mostrada pela Comunidade Bahá'í para com Israel e é minha sincera esperança que nós todos possamos viver para testemunharmos o fortalecimento de relações amistosas entre todos os povos da terra." Em 5 de maio, o Guardião respondeu a essa carta em termos igualmente cordiais: "... Foi um grande prazer conhecer Vossa Excelência e a Sra. Ben Zvi, e ter a oportunidade de lhes mostrar um dos nossos lugares de peregrinação bahá'í em Israel... Se for conveniente, a Sra. Rabbani e eu, acompanhados pelo Sr. Ioas, gostaríamos de visitar Vossa Excelência e Sra. Ben Zvi em Jerusalém..." O dia marcado para esta visita de retribuição foi 26 de maio, à tarde, quando tomamos chá e tivemos uma conversação agradável com o Presidente e sua esposa, que era, a seu próprio modo, uma personalidade, como seu marido, e igualmente simpática. No intervalo entre essas duas visitas, Shoghi Effendi havia enviado ao Presidente alguns livros bahá'ís que lhe prometera e cujo recebimento fora acusado com os agradecimentos do Presidente e com sua declaração de que os leria com grande interesse. Sempre meticuloso em tudo, Shoghi Effendi escreveu, em 3 de junho, ao Presidente: "Desejo agradecer-lhe e à Sra. Ben Zvi por sua gentil hospitalidade. A Sra. Rabbani e eu apreciamos muito a nossa visita e estou confiante de que essa oportunidade que tivemos de juntos visitarmos os nossos Lugares Sagrados Bahá'ís e de os visitarmos na capital de Israel serviu para reforçar os laços de afeição e estima que unem os bahá'ís ao povo e ao governo de Israel. Com cordiais cumprimentos ao Sr. e a Sra. Ben Zvi..." Assim terminou mais um capítulo memorável no processo de conquistar reconhecimento para a Fé em seu Centro Mundial.

Embora os principais assuntos do Centro Mundial tivessem que ser tratados usualmente em Jerusalém com os mais altos oficiais, muito de seu trabalho precisava ser executado com o apoio dos oficiais municipais, tanto em 'Akká como em Haifa - especialmente nesta última cidade. É um fato interessante que a primeira das muitas negociações que no decorrer dos anos a Comunidade Bahá'í teve com os engenheiros municipais de Haifa foi no tempo do próprio 'Abdu'l-Bahá, quando um certo Dr. Ciffrin submetera-Lhe seu desenho para uma escada monumental e avenida ladeada de ciprestes desde a antiga Colônia dos Templários, ao pé do Monte Carmelo, até o Santuário do Báb. O Mestre não só aprovara esse esquema mas também concedera o terreno para sua realização e havia sido o primeiro a se inscrever na lista dos contribuintes com uma contribuição de 100 libras para a "Escada Monumental do Báb", como era chamado o projeto.

Além da luta que Shoghi Effendi, levada avante com astúcia e persistência, a fim de obter concessões dos oficiais municipais, bem como reconhecimento do status único da Fé Bahá'í tanto em Haifa como em 'Akká - as cidades gêmeas que abrigam seu Centro Mundial - ele mantinha uma relação amigável e cooperativa com o Prefeito de Haifa em relação a muitos empreendimentos municipais, sendo que não era sem importância o apoio que ele dava às autoridades - quer da Municipalidade ou, nos primeiros tempos, o Comissário Distrital - quando havia alguma necessidade especial de auxílio financeiro em obras de caridade.

Nada poderia melhor descrever a atitude e a política de Shoghi Effendi em tais coisas do que a carta que escreveu, em 7 de fevereiro de 1923, tão no princípio de seu ministério, ao Coronel Symes: "Acabo de ser informado do Baile de Caridade que a Sra. Symes está organizando para ajudar os pobres de Haifa. Ciente de que meu bem-amado Avô sempre apoiava sua causa e, procurando sinceramente seguir suas pegadas, peço-lhe que aceite a quantia anexa de 20 libras como contribuição ao fundo... Espero que tenha tido um tempo aprazível no Egito e que eu possa me encontrar consigo e com a Sra. Symes no futuro próximo..." Dois anos mais tarde, manifesta a mesma atitude e o mesmo sentimento em outra carta ao Coronel Symes: "Sua carta circular de 16 de fevereiro de 1925, referente ao estabelecimento do Fundo de Caridade de Haifa, foi lida com toda atenção e me fez lembrar do fervoroso interesse que 'Abdu'l-Bahá tinha pelas instituições de caridade. Animado pelo mesmo sentimento e desejoso de seguir as pegadas de meu bem-amado Avô, apresso-me a mandar anexa a quantia de 20 libras como contribuição para o alívio do sofrimento dos pobres em Haifa."

Sempre que alguma calamidade sobrevinha ao povo, Shoghi Effendi respondia calorosamente à sua necessidade. Em abril de 1926, ele escreveu ao Comissário do Distrito Norte: "Plenamente ciente do sofrimento intenso causado pelos distúrbios recentes e lembrado da afetuosa assistência prestada por 'Abdu'l-Bahá aos necessitados e àqueles que sofriam, tenho grande prazer em mandar em anexo a quantia de 30 libras - como minha contribuição para o alívio dos pobres e desabrigados... Ficarei grato se me avisardes de tempo em tempo, caso surja emergência semelhante, em qualquer lugar e em benefício de qualquer denominação." Em 1927, novamente responde ao infortúnio, remetendo ao Secretariado do Governo em Jerusalém 100 libras como sua contribuição ao Fundo de Alívio do Terremoto. No decorrer dos anos, com quantias grandes ou pequenas, ele seguia os caminhos do Mestre que fora chamado "o Pai dos Pobres".

Que estas contribuições às várias causas foram recebidas calorosamente, é evidente em si mesmo: o Comissário Distrital para o Distrito Norte agradece Shoghi Effendi, em 1934, pela sua "generosíssima contribuição para o alívio do sofrimento em Tiberíades" e também pela sua "mensagem de simpatia que levarei ao conhecimento do Comissário Distrital de Tiberíades". Em 1950, o Presidente da Comissão Municipal de Haifa, o Prefeito, agradece Shoghi Effendi pela quantia de 500 libras, "sendo a generosa contribuição de Vossa Eminência para o alívio dos pobres em Haifa, na ocasião do centenário do Martírio do Báb." Quase invariavelmente, ao remeter tais contribuições, o Guardião acrescentava que deviam "ser distribuídas igualmente entre membros necessitados de todas as comunidades, sem considerar sua raça ou religião".

A política geral da Fé em assuntos de caridade foi esclarecida plenamente por uma carta que ele escreveu ao Prefeito de Haifa em 7 de maio de 1929, na qual acusa recebimento de sua circular com referência à prevenção da mendicância na cidade de Haifa e diz: "Felizmente, este é um problema que não afeta a Comunidade Bahá'í, porquanto as nossas leis proíbem estritamente a mendicância. Aprecio, porém, a importância e a oportunidade da medida que o senhor está considerando e tenho o prazer em enviar em anexo um cheque de 50 libras - em nome da Comunidade Bahá'í, em antecipação a qualquer plano que a Municipalidade possa idear para o alívio da pobreza e auxílio aos necessitados de Haifa. Asseguro-lhe que a Comunidade observará rigidamente quaisquer regulamentos que sejam postos em vigor."

Nos anos em que o povo da Palestina e, mais tarde, o de Israel, estava passando por grandes sofrimentos, só no período entre 1940 e 1952, o Guardião deu à Municipalidade de Haifa mais de dez mil dólares para os pobres de todas as denominações. Além do auxílio dado por intermédio de entidades governamentais e municipais, ele respondia também aos apelos de muitas organizações de caridade, dava individualmente àquelas que julgava merecedoras e, algumas vezes, até contribuições em dinheiro para algum fim especial ligado à mesquita de Haifa. Muitas vezes, ele dava contribuições espontaneamente como, por exemplo, as 100 libras que doou ao Manicômio do governo, 'Akká - o antigo quartel turco - quando o quarto ocupado por Bahá'u'lláh foi entregue à custódia dos bahá'ís, e a quantia que ele contribuiu para a construção do Instituto de Física que o Memorial Nacional Weizmann estava empreendendo.

Mas não era só deste modo que Shoghi Effendi demonstrava às autoridades locais sua boa vontade. Usualmente ele se achava numa posição que lhe permitia responder com toda cordialidade a quaisquer pedidos que lhe fossem feitos. Um exemplo disto se encontra numa troca de correspondência com Aba Khoushy, Prefeito de Haifa, em 1952. Um Simpósio Nacional sobre Problemas de Iluminação ia se realizar na Faculdade Técnica de Haifa, coincidindo com a Festividade Judaica de Hanuca, a Festividade das Luzes. Sua Excelência, numa carta a Shoghi Effendi, informou-o disso e escreveu: "Eu ficaria muito grato se o senhor também pudesse participar de nossos esforços para que esta conferência seja um sucesso e tivesse a bondade de dar instruções para que o belo Santuário de sua Fé, no declive do Carmelo, seja iluminado festivamente durante a semana de 12 a 19 de dezembro de 1952, inclusive." Como era seu costume, sempre que alguém se dirigia a ele cortesmente, Shoghi Effendi respondia com cordialidade. Em 7 de dezembro, ele escreveu ao Prefeito:

Vossa Excelência,

Sua carta de 30 de novembro me foi entregue quando regressei de Bahjí e desejo assegurar-lhe que a Comunidade Bahá'í terá prazer em cooperar para tornar a cidade de Haifa luminosa e bela na ocasião do Simpósio a realizar-se na Faculdade Técnica Hebraica sobre Problemas de Iluminação, especialmente em vista do fato de que ocorrerá durante o Hanuca.

Darei instruções para que o período de iluminação de nosso Santuário seja prolongado durante estes dias [toda noite o Santuário era inundado de luz ao pôr-do-sol por um curto período] e desejo também fazer um convite por intermédio de Vossa Excelência aos delegados e visitantes do Simpósio para entrarem no Santuário e nos Jardins numa das noites em que estiverem em excursão pela nossa cidade, para apreciarem a iluminação. As necessárias providências poderão ser tomadas para que lhes estejam abertos os portões e o Santuário, se formos avisados antecipadamente.

Sinceramente,
Shoghi Effendi
Dirigente Mundial da Fé Bahá'í

Outro exemplo significativo do espírito com que Shoghi Effendi respondia a causas dignas levadas à sua atenção é a cooperação que deu ao Comissário Distrital de 'Akká quando, em 1943, este lhe escreveu dizendo que não conseguia um lugar para um colégio de crianças e perguntando se ele consideraria a possibilidade de lhe arrendar oito compartimentos na casa de 'Abbúd (um prédio grande e lugar de peregrinação bahá'í) para este fim. Shoghi Effendi permitiu que o colégio usasse alguns dos compartimentos, mas disse que não aceitaria nenhum pagamento.

13
O Surgimento da Ordem Administrativa

Durante os anos em que o Guardião estava não só construindo os bens materiais tangíveis da Fé em seu Centro Mundial, mas também ganhando para ela o reconhecimento, tanto do governo do país em que esse Centro estava situado, como das autoridades municipais da cidade na qual suas principais instituições haveriam de ter sua sede permanente, ele estava ao mesmo tempo desempenhando uma função semelhante no exterior. Alguns anos mais tarde, ele definiu o que isto havia sido: um esforço tríplice, de âmbito mundial, para demonstrar o caráter independente da Fé, ampliar-lhe os limites e aumentar o número de seus apoiadores. Para conseguir isto, entretanto, ele tinha que ter instrumentos, e estes instrumentos, tão claramente estabelecidos nos ensinamentos, eram as Assembléia Locais e Nacionais, os blocos construtivos de sua Ordem Administrativa. É interessante notar que Shoghi Effendi, numa carta a uma pessoa não-bahá'í, em 1941, define claramente sua relação com este trabalho sumamente importante: "... A Ordem Administrativa que eu, como intérprete responsável designado por 'Abdu'l-Bahá, tenho me esforçado em expor e estabelecer... de acordo com as instruções explícitas escritas por 'Abdu'l-Bahá em Seu Testamento..."; evidentemente não satisfeito, achando que não o havia expressado suficientemente sem ambigüidade, ele prossegue nesta carta, reafirmando-o, dizendo que fora "capacitado e instado" a estabelecê-la.

Embora Shoghi Effendi muito raramente mencionasse a si próprio - de fato, em suas mensagens gerais quase nunca usava o pronome "eu" - os poderes que lhe foram conferidos pela Vontade e Testamento eram de tal natureza que sem eles a Ordem Administrativa Bahá'í jamais poderia ter sido construída; a Comunidade Bahá'í Mundial, como nós a conhecemos hoje, jamais teria vindo a existir; os fundamentos da Ordem Mundial de Bahá'u'lláh jamais teriam sido lançados. À medida que as instituições da Causa se multiplicavam local e nacionalmente, e sua estrutura se fortalecia, a verdadeira posição do Guardião tornava-se mais evidente, não só para aqueles bahá'ís mais antigos que sempre a haviam reconhecido, mas também para os numerosos novos e muitas vezes inexperientes crentes que não haviam ainda compreendido sua verdadeira importância e implicações. Há uma carta em que ele foi forçado a expor seus próprios poderes administrativos a fim de proteger a Causa; foi escrita em resposta a uma carta do Secretário de uma Assembléia Nacional que mostrava uma singular falta de percepção, e à qual - coisa muito excepcional - ele não acrescentou nenhum pós-escrito de próprio punho, mas, simplesmente: "Lida e aprovada, Shoghi." Esta carta dizia:

Assim como a Assembléia Espiritual Nacional tem plena jurisdição sobre todas as Assembléias Locais, o Guardião tem plena jurisdição sobre todas as Assembléias Nacionais; não lhe é exigido consultá-las, se ele acredita que certa decisão é conveniente aos interesses da Causa. Ele é o juiz da sabedoria e da conveniência das decisões tomadas por esses corpos, e não eles das decisões tomadas por ele. Um exame da Última Vontade e Testamento torna inteiramente claro este princípio. Ele é o Guardião da Causa na própria plenitude do termo e o designado intérprete dos Ensinamentos, e em suas decisões é guiado a fazer o que a proteja e lhe promova o bem e os mais altos interesses.

Ele tem sempre o direito de intervir e anular as decisões de uma Assembléia Espiritual Nacional; se não possuísse este direito, seria absolutamente impotente para proteger a Fé, assim como a Assembléia Espiritual Nacional, se fosse privada do direito de anular as decisões de uma Assembléia Local, seria incapaz de vigiar e guiar o bem-estar nacional da comunidade bahá'í.

Muito raramente acontece - no entanto, acontece - que ele se sinta impelido a modificar uma decisão da maior importância (como vocês a chamam) tomada por uma Assembléia Espiritual Nacional; mas, sempre que necessário, ele faz isso sem a mínima hesitação e a Assembléia Espiritual Nacional em questão deveria aceitar isso com satisfação e sem hesitação, como medida que visa o bem da Fé que seus representantes eleitos se empenham em servir tão devotadamente.

Não é de se admirar que Shoghi Effendi tenha caracterizado o período da Fé que se inaugurou após a ascensão de 'Abdu'l-Bahá como a "Idade do Ferro", a "Idade da Transição", "o Período Formativo". Foi a Idade em que as instituições da Causa, quer nacionais, locais ou internacionais, estavam sendo criadas, instituições que, segundo disse o Guardião, constituem o padrão embrionário que há de evoluir, forçosamente, durante a Idade Áurea da Dispensação Bahá'í, até se tornar uma Comunidade Mundial. O "espírito vitalizador do mundo" que a Fé possui, escreveu ele, chegara ao ponto em que estava prestes a "encarnar-se em instituições destinadas a canalizar suas energias tão largamente difundidas e estimular seu crescimento". Os princípios que governam a Ordem Administrativa estabelecidos na Última Vontade e Testamento foram definidos por ele durante os primeiros anos de seu ministério, num dilúvio de cartas aos crentes em toda parte do mundo nas quais ele tornou claras as funções das Assembléias, seus campos de jurisdição e - o que era ainda mais essencial - o espírito que haveria de animá-las se fossem cumprir seu objetivo no futuro imediato.

As instituições administrativas podem ser comparadas às veias e artérias do corpo, que em sua rede conduzem o fluxo vital dos ensinamentos de Bahá'u'lláh a todas as partes do mundo; por seu intermédio, poderá vir a existir uma sociedade recriada, "aquele Reino prometido por Cristo, aquela Ordem Mundial cujo impulso gerador não é outro senão o próprio Bahá'u'lláh, cujo domínio é o planeta inteiro, cujo lema é a unidade, cujo poder animador é a força da Justiça, cujo propósito diretivo é o reinado da retidão e da verdade, e cuja glória suprema é a felicidade completa, ininterrupta e sempiterna de toda a espécie humana".

Depois de definir a técnica puramente mecânica de como Assembléias deveriam ser eleitas e como deveriam conduzir seus afazeres, as primeiras admoestações do Guardião a elas tratavam muitas vezes do assunto da unidade; se o "lema" da sociedade futura iria ser a "unidade", era obviamente essencial que fosse cultivada com assiduidade entre os próprios bahá'ís. Em 1923, ele escreveu a uma das Assembléias locais: "Completa harmonia e entendimento entre os amigos, fora e dentro da Assembléia Espiritual; implícita confiança por parte dos não-membros em toda decisão tomada pelos seus representantes eleitos; e a determinação destes em desconsiderarem suas preferências e aversões, e a nada aspirarem senão aos interesses gerais do Movimento - isto constitui o alicerce único e seguro sobre o qual pode ser edificado futuramente qualquer trabalho construtivo que venha a servir aos melhores interesses da Causa." Suas cartas às Assembléias Nacionais não eram menos enfáticas como testemunham estes excertos de duas, escritas durante 1925: "O requisito primário, entretanto, de todo empreendimento no qual os amigos possam se empenhar é a manutenção de um espírito de imaculada camaradagem e sincera e leal cooperação... o espírito de verdadeiro companheirismo bahá'í - o único meio de eliminar nossas muitas perplexidades na vida, a solução única daqueles problemas inevitáveis que haveremos de encontrar no curso de nossos esforços pela nossa bem-amada Causa." "Uma Assembléia Espiritual Nacional ativa, unida, harmoniosa, apropriada e conscientemente eleita, funcionando vigorosamente, vigilante e consciente de suas numerosas e prementes responsabilidades, em contato estreito e contínuo com o centro internacional na Terra Santa e cuidadosamente atenta a todo desenvolvimento por todo o âmbito de seu campo de trabalho em constante expansão - é, seguramente, de urgente necessidade e suprema importância neste tempo, pois é a pedra angular sobre a qual finalmente há de se apoiar o edifício da Administração Divina."

Lenta e pacientemente, com infinito amor e compreensão, Shoghi Effendi educou as Assembléias, do Oriente e Ocidente, na maneira de conduzir os assuntos da Causa de Deus numa base apropriada, de acordo com os ensinamentos. Os membros dessas instituições verdadeiramente nascentes, como crianças, tendiam algumas vezes a ter mal-entendidos entre eles mesmos; mas o Guardião não permitia que isto pusesse em perigo os interesses da própria Fé. Numa dessas ocasiões em que um proeminente Corpo Nacional, impaciente com um de seus membros, decidira expulsá-lo por voto, Shoghi Effendi telegrafou-lhes uma forte advertência de que isso poderia ter "repercussões mundiais infligindo irreparável dano Causa Bahá'u'lláh" e disse que a pessoa em questão deveria ser mantida como membro e todas as críticas e discussões, abandonadas e esquecidas, pois isso "prejudicaria toda autoridade instituição Assembléia Nacional".

O tratamento deste caso não era incomum; bem sabia o Guardião que o mundo, os crentes e as Assembléias estavam ainda muito imaturos; a administração de "justiça" - em si um assunto altamente complexo - pressupõe algum grau de maturidade, de experiência, de profundo conhecimento dos ensinamentos por parte dos interessados. Exige, também, grande quantidade de tempo. Muitas e muitas vezes, durante todo o seu ministério, o Guardião recusava arbitrar nos casos que lhe eram referidos e exortava os envolvidos a se elevarem acima da situação, esquecerem do passado e perdoarem, a se concentrarem nas necessidades prementes e de suma importância da Fé que eram alcançar as metas de seus Planos em curso e difundir entre toda a humanidade sua mensagem curadora. Naturalmente, em casos de divórcio ou disputas sobre questões financeiras e outros problemas tangíveis, os crentes eram aconselhados a se dirigirem às suas Assembléias e instava esses corpos que investigassem e chegassem a uma decisão; de fato, à medida que, com o passar dos anos, os corpos administrativos amadureciam gradualmente, ele encorajava os bahá'ís a levarem seus problemas a eles em busca de solução, de modo que tanto os bahá'ís como as Assembléias pudessem adquirir experiência e aprendessem a implementar a maravilhosa Ordem de Bahá'u'lláh em sua vida pessoal e comunitária; entretanto, nos casos em que franca desarmonia, maledicência e desconfiança mútua tivessem criado a situação, ele sempre solicitava aos amigos que se erguessem acima disso para o bem da Causa. Em tais ocasiões, suas admoestações e seus apelos eram como uma mão fresca numa fronte febril, acalmando e confortando os adversários encolerizados e magoados, aliviando-os até que se dispusessem a deixar seu amor essencial pela sua Fé inundar novamente seus corações e sanear suas feridas.

Tão logo Shoghi Effendi conseguiu que os Corpos Nacionais fossem devidamente eleitos e postos em funcionamentos - naqueles países onde tal passo era possível - ele empreendeu a tarefa de estabelecer esses Corpos numa base inequívoca, claramente legal. Em virtude de seu encorajamento, um dos grandes marcos da história bahá'í foi estabelecido em 1927, cinco anos depois de ele ter iniciado sua função como Guardião da Fé. Este marco não foi outro senão "a redação e a adoção de uma constituição Nacional Bahá'í, primeiramente criada e promulgada pelos representantes eleitos da Comunidade Bahá'í americana". Ele descreveu isso como o passo inicial na "unificação da Comunidade Mundial Bahá'í e na consolidação de sua Ordem Administrativa" e disse que era "uma exposição digna e fiel da base constitucional das Comunidades Bahá'ís em todos os países, pressagiando o surgir final da Comunidade Bahá'í Mundial do futuro".

Este documento tornou-se a "carta magna" para todas as Assembléias Nacionais, sendo traduzido para os principais idiomas em uso por toda parte do mundo bahá'í, tais como o persa, o árabe, o francês, o alemão e o espanhol, e suas cláusulas - baseadas naquelas diretrizes que o próprio Shoghi Effendi havia provido em seus escritos interpretativos sobre os ensinamentos da Fé e naquilo que ele descreveu como "sistema completo de administração mundial implícito nos ensinamentos de Bahá'u'lláh" - foram resumidas por ele nas seguintes palavras: "O texto desta constituição nacional consiste em uma Declaração de Incumbência, cujos artigos expõem o caráter e os objetivos da comunidade bahá'í nacional, estabelecem as funções, designam a sede central e descrevem o selo oficial, do corpo de seus representantes eleitos, bem como um código de estatutos que definem o status, o modo de eleição, os poderes e deveres tanto das Assembléias Locais como das Nacionais, descrevem a relação da Assembléia Nacional com a Casa Internacional de Justiça bem como às Assembléia Locais e crentes individuais, delineiam os direitos e as obrigações da Convenção Nacional e sua relação com a Assembléia Nacional, mostram o caráter das eleições bahá'ís e estabelecem os requisitos para membros votantes em todas as comunidades bahá'ís."

A redação dos Estatutos da Assembléia Espiritual dos Bahá'ís da cidade de Nova York, em 1931, também foi mais um grande avanço na evolução da Ordem Administrativa e foi seguida, um ano depois, pela incorporação legal dessa Assembléia no Estado de Nova York. Sobre esses estatutos, Shoghi Effendi escreveu que iriam "servir de padrão para toda Assembléia Local Bahá'í da América e um modelo para toda comunidade local em todo o mundo bahá'í".

A formulação deste protótipo para todas as constituições nacionais bahá'ís, bem como a estruturação dos estatutos apropriados para qualquer Assembléia Espiritual Local, estabeleceram uma base firme sobre a qual tanto as Assembléias Nacionais Bahá'ís, como as Locais, pudessem obter incorporação ou registro, segundo a lei do país em que funcionavam, e assim possuir título legal de propriedades da Fé como terrenos, sedes nacionais e locais, sítios históricos e, em alguns casos, Casas de Adoração Bahá'í - medidas a que Shoghi Effendi dava a máxima importância. Durante 1928, o Guardião começou a instar as Assembléias Nacionais orientais a formularem suas constituições nacionais, seguindo o padrão americano, e, além disso, tentarem obter reconhecimento como cortes religiosas com poderes para administrar as leis bahá'ís referentes a status pessoal, como casamento, divórcio, herança, etc., as quais, em muitos países islâmicos, não estão dentro da jurisdição das cortes civis usuais.

Tudo isso envolvia primariamente a batalha de uma Fé independente para obter pleno reconhecimento de sua posição na história e ser tratada em pé de igualdade com outras religiões mundiais. No constante processo de orientar os destinos de cada uma das comunidades bahá'ís em direção à sua meta comum de se tornarem um corpo internacional completamente unificado, dirigido de um Centro Mundial e se esforçando para atingirem nada menos que a fraternidade universal do homem, a paz mundial e finalmente uma comunidade mundial de nações, Shoghi Effendi aproveitou a formação das Nações Unidas como mais um meio de apressar a realização deste supremo objetivo.

Logo que se tornou claro que a estrutura desse Corpo Internacional permitia que organizações não-governamentais enviassem seus representantes acreditados às várias conferências realizadas sob os seus auspícios, Shoghi Effendi instou o corpo que era então a Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá'ís dos Estados Unidos e Canadá, que apresentasse seu pedido por tal status, sendo este obtido em 1947. Na época em que fez seu pedido, apresentou uma Declaração Bahá'í de Obrigações e Direitos Humanos, bem como uma Declaração sobre os Direitos das Mulheres. Foi nomeado um Comitê Bahá'í das Nações Unidas e um observador bahá'í assistia às sessões das Nações Unidas. Como esse status era de âmbito muito limitado, foram encontrados meios e maneiras para ampliá-lo. Isso foi conseguido durante o inverno de 1947-1948, quando sete Assembléias Espirituais Nacionais autorizaram o Corpo Nacional americano a agir em seus nomes como seu representante sob o título de Comunidade Internacional Bahá'í, devidamente reconhecida como organização internacional acreditada às Nações Unidas, status esse que não só realçou o prestígio da Fé, mas também aumentou os privilégios dos representantes bahá'ís oficiais que assistiam regularmente e participavam das várias conferências das Nações Unidas do tipo aberto àqueles que desfrutam de tal status. À medida que novas Assembléias Espirituais Nacionais eram formadas, estas também se afiliavam, reforçando a organização que representava o mundo bahá'í.

A importância que Shoghi Effendi dava a este elo que ligava a Causa ao maior instrumento internacional jamais criado na história humana, é refletida em suas próprias palavras: "Ela assinala importante passo adiante na luta de nossa bem-amada Fé para receber, aos olhos do mundo, o que lhe é devido e ser reconhecida como Religião Mundial independente. De fato, este passo deveria ter uma reação favorável no progresso da Causa em toda parte, especialmente naquelas partes do mundo onde ainda é perseguida, menosprezada ou escarnecida, particularmente no Oriente." Na ocasião da intensa onda de perseguição que se abateu sobre a Comunidade Bahá'í da Pérsia em 1955, as relações cuidadosamente estabelecidas e nutridas com as Nações Unidas deram seu fruto; em conseqüência da detalhada documentação sobre as injúrias e atrocidades sofridas pelos adeptos de Bahá'u'lláh em Sua terra natal, apresentada ao Secretário-Geral das Nações Unidas, uma comissão foi nomeada por ele, chefiada pelo Alto Comissário para Refugiados e instruída a entrar em contato com o governo persa e obter sua garantia formal de que os direitos da minoria bahá'í seriam salvaguardados. O Guardião dava tanta importância a essas relações que, um dos vinte e sete objetivos enumerados no Plano de Ensino e Consolidação Internacional de Dez Anos - a Cruzada Mundial - foi o "Fortalecimento dos elos que ligam a Comunidade Mundial Bahá'í às Nações Unidas".

A história da Causa, escreveu Shoghi Effendi, "se vista corretamente, pode-se dizer que se decompõe numa série de pulsações, de crises e triunfos alternados, conduzindo-a cada vez mais para perto de seu destino divinamente ordenado". Embora o falecimento da Figura Central da Fé - seja o Báb, Bahá'u'lláh ou 'Abdu'l-Bahá - tivesse inevitavelmente precipitado uma crise, a maioria de tais choques que a impeliram para frente era resultado das perseguições que sofria, ainda que não exclusivamente, nas mãos de seus inveterados inimigos, os eclesiásticos muçulmanos. Durante os trinta e seis anos de ministério de Shoghi Effendi, havia repetidos e violentos ataques, localmente e em escala nacional, da mais brutal e sanguinária natureza, contra os seguidores da Fé na Pérsia; seus aderentes na Turquia eram oprimidos, perseguidos e falsamente acusados; seus seguidores no Egito eram sujeitados a ataques contra suas pessoas, seus bens, seus cemitérios e seus direitos legais; seus adeptos na Rússia tiveram suas Assembléias dissolvidas, seu Templo confiscado e eles mesmos, na sua maioria, deportados ou exilados; a Comunidade Bahá'í na Alemanha foi oficialmente dissolvida e suas atividades foram proibidas, em junho de 1937, seus arquivos nacionais foram confiscados, alguns de seus membros interrogados e até presos.

Tais acontecimentos causaram angústia aguda ao Guardião, ocuparam muito de seu tempo e aumentaram a carga de seu coração e mente já sobrecarregados. O problema principal, entretanto, era sempre a Pérsia, onde uma "comunidade há muito maltratada, espezinhada e penosamente aflita" lutava permanentemente pela sua própria existência em face da contínua perseguição. Esta Comunidade "ternamente amada" - como ele repetidas vezes e com tanta afeição se referia a ela - preocupava-o desde os primeiros até os últimos dias de seu ministério. Um fluxo constante de comunicações manava dele aos seus membros e ao seu Corpo Nacional eleito, e em suas comunicações aos bahá'ís do Ocidente era muitas vezes objeto de sua solicitude, seus apelos por assistência em defendê-la e suas explicações de por que esta comunidade - que ele disse ter liderado a Idade Heróica da Fé - era tão amargamente assediada pelo povo de sua terra natal.

O fato de que o Supremo Manifestante de Deus apareceu na Pérsia e que por isso ela é o tão amado "Berço de nossa Fé e o objeto de nossa mais terna afeição", como disse Shoghi Effendi; o fato de que, como também ele escreveu, virá o tempo "que há de testemunhar a ascendência espiritual e material da Pérsia entre todas as nações do mundo", não quer dizer que, no presente, o caráter nacional esteja tão mudado que prometa o rápido cumprimento desta profecia. "Somente um observador, atento e imparcial, das maneiras e dos hábitos do povo persa...", escreveu ele em uma de suas cartas gerais, "pode avaliar corretamente a imensidade da tarefa que se apresenta a todo crente consciencioso naquela terra, por causa das "tendências predominantes entre várias camadas da população", tais como sua apatia, indolência, falta de senso de dever público e de lealdade a princípios, falta de esforços conjuntos e de constância na ação, e seu hábito de sigilo e de cega submissão a um clero ignorante e fanático. Assim como a Mensagem de Bahá'u'lláh deve transformar o mundo inteiro, do mesmo modo deverá transformar Sua terra natal, que tem tão grande destino diante de si, quando se abrigar à Sua sombra.

Houve um tempo, segundo indicam suas cartas, em que Shoghi Effendi esperava que o fundador da nova dinastia Pahlaví - que estava introduzindo muitas reformas urgentemente necessárias - em breve daria início a uma nova fase no desenvolvimento da Fé de Bahá'u'lláh nesse país. Em 1929, Shoghi Effendi escrevera que lá os crentes estavam "saboreando os primeiros frutos de sua sonhada emancipação". Foi em vista desse processo de reforma que ora acontecia, que ele aconselhara à Assembléia Nacional solicitar permissão para imprimir livros e estabelecer uma Editora Bahá'í. Ao ser negado isso, ele telegrafou à América, em janeiro de 1932: "Urge transmitir intermédio Assembléia Teerã dois comunicados escritos governo persa e Xá expressando em nome crentes americanos viva apreciação recentes benéficas reformas internas, salientando vínculos espirituais ligando dois países e energicamente apelando revogar interdição entrada literatura bahá'í acentuando seu alto valor moral com referência especial a Nabíl e Bahá'í World." As esperanças de Shoghi Effendi, entretanto, foram de pouca duração; as reformas não eram suficientemente amplas para incluírem uma comunidade amargamente odiada e este pedido também foi negado. Determinado a não ceder sem uma verdadeira luta, o Guardião telegrafou à América cinco meses depois: "Urge dirigir petição escrita em nome crentes americanos ao Xá apresentando Ransom-Kehler como representante escolhida autorizada apelar pela entrada literatura bahá'í Pérsia. Salientar ampla apreciação reformas e laços espirituais ligando ambos países acentuar alto tributo prestado ao Islã nos escritos bahá'ís e valor moral destes à Pérsia. Remeter petição por correio à Assembléia Nacional persa."

Este caso nos fornece um excelente exemplo de como o Guardião se apoderava de qualquer instrumento que chegasse às suas mãos, usando-o para servir aos interesses da Fé. A Sra. Keith Ransom-Kehler, crente americana e mulher de destacada capacidade e caráter, chegara à Haifa como peregrina e Shoghi Effendi decidiu enviá-la à Pérsia. Antes de se tornar bahá'í, ela fora ministra de uma igreja cristã e era oradora veemente e capaz. Ele a fez permanecer muitas semanas em Haifa, instruindo-a sucintamente sobre a Pérsia e explicando o que esperava que ela pudesse fazer lá para ajudar a obter maior liberdade para a Fé e pelo menos algum grau de reconhecimento. Embora não fosse atingido o objetivo da missão que lhe fora confiada, pois o Xá recusou receber a Sra. Ransom-Kehler, a visita desta emissária do Guardião teve, entretanto, um efeito histórico na Comunidade Bahá'í persa, porque ela estava imbuída de suas instruções referentes ao desenvolvimento da Ordem Administrativa na Pérsia e conseguiu que um comunidade freqüentemente intimidada, sempre espezinhada e às vezes apática, adquirisse uma nova percepção da missão que lhe esperava no futuro e da urgência dos deveres imediatos à sua frente. Mas, como no caso do Dr. Esslemont, esse instrumento recém-descoberto foi arrebatado da mão do Guardião. Em 28 de outubro de 1933, ele telegrafou à América: "Preciosa vida de Keith oferecida em holocausto bem-amada Causa em terra natal de Bahá'u'lláh. Em solo persa, por causa da Pérsia, ela enfrentou desafiou e combateu forças das trevas com alta distinção vontade indômita lealdade inabalável exemplar. Massa de seus desamparados irmãos persas lamentam súbita perda sua valiosa libertadora crentes americanos gratos e orgulhosos memória seu primeiro e distinto mártir. Angustiado lastimo separação terrena inestimável colaboradora conselheira infalível amiga estimada e fiel. Urge Assembléias locais organizarem reuniões comemorativas dignas em memória daquela cujos serviços internacionais a fazem merecedora eminente posição entre Mãos da Causa de Bahá'u'lláh." Com essa morte, a grande perda da Pérsia se tornara grande ganho da América.

O merecimento da emissária de Shoghi Effendi para as honras póstumas que ele tão generosamente a cumulou, transparece amplamente em suas próprias palavras, escritas na Pérsia numa época em que ela sentia agudamente o insucesso de sua missão principal: "Eu caí, embora nunca vacilasse. Meses de esforço sem nada realizar é o registro que tenho diante de mim. Se alguém no futuro se interessar por esta minha malograda aventura, só ele poderá dizer se meu velho e fatigado corpo caiu perto ou longe das alturas aparentemente inexpugnáveis de complacência e indiferença. A fumaça e o ruído da batalha estão hoje demasiado densos para eu poder me certificar se avancei ou fui morta no caminho. Nada no mundo é sem sentido, muito menos o sofrimento. O sacrifício com a agonia que o acompanha é um germe, um organismo. O homem não lhe pode frustrar a fruição como o pode às sementes da terra. Uma vez lançada a semente, ela floresce, penso eu, nos aprazíveis campos da eternidade. A minha será uma flor muito modesta, talvez como uma só pequenina miosótis, regada pelo sangue de Quddús, que colhi no Sabzih-Maydán em Bárfurúsh; se alguma vez ela cativar os olhos, possa alguém, que pareça estar lutando em vão, colhê-la em nome de Shoghi Effendi e acariciá-la como sua querida lembrança."

Em dezembro de 1934, Shoghi Effendi telegrafou à Assembléia Nacional da Pérsia: "Indaguem se a Escola de Tarbíyat foi fechada permanentemente e telegrafem." O que estava por trás desta questão é refletido na resposta daquela Assembléia ao Guardião: "De acordo com seu pedido no dia do Martírio do Báb ambas Escolas Tarbíyat Teerã foram fechadas por isso Ministério Educação obrigou fechar ambas escolas e perguntou por que não dissimulamos..." Este caso poderia ser citado como exemplo clássico da luta dos bahá'ís persas - constantemente esporeados e guiados por Shoghi Effendi - para obterem pelo menos um grau razoável de liberdade para seguirem sua própria religião que, depois do Islã, era numericamente a maior do país. A Escola de Tarbíyat, para meninos e meninas, propriedade dos bahá'ís e funcionando sob sua exclusiva direção, tinha trinta e seis anos de existência. Fundada em 1898, no tempo de 'Abdu'l-Bahá, fora um projeto acariciado em Seu coração; sempre tivera excelente reputação e, embora seus alunos fossem principalmente bahá'ís, crianças de todas as denominações a freqüentavam. A escola sempre fechava nos nove dias sagrados bahá'ís, mas agora, com o frívolo pretexto de que os bahá'ís pertenciam a uma denominação não oficialmente reconhecida na Pérsia, o Ministério da Educação havia repentinamente exigido que a Escola ficasse aberta nesses dias. Isso significava um retrocesso em vez de um avanço na batalha pela emancipação que a Causa tão desesperadamente lutava para conquistar e Shoghi Effendi recusou terminantemente, mandando a Assembléia fechar a escola no aniversário do Martírio do Báb. Como ele não consentiu em aconselhar os crentes a dissimularem sua Fé, nem a manterem a escola aberta nos Dias Sagrados Bahá'ís, e o governo recusou alterar suas ordens, a Escola de Tarbíyat, uma das melhores da Pérsia, fechou e permanece fechada até hoje.

Quando, um dia depois de receber sua resposta de Teerã, o Guardião transmitiu essa má notícia aos bahá'ís daquele país em que desfrutavam o maior grau de liberdade de todo o mundo, sua ira se reflete em cada palavra enquanto eflui a lista de indignidades e sofrimentos aos quais os bahá'ís da Pérsia estão sendo sujeitados: "Informação recém-recebida indica deliberados esforços solapar todas as instituições bahá'ís na Pérsia. Escolas em Káshán, Qazvín, Sultanabad fechadas. Em vários centros importantes inclusive Qazvín Kirmánsháh ordens emitidas suspendendo atividades ensino, proibindo reuniões, fechando Auditório Bahá'í, negando direito enterro em cemitérios bahá'ís. Bahá'ís de Teerã compelidos sob pena prisão registrar-se muçulmanos em documentos de identificação. Clero exaltado incitando população. Petições da Assembléia Nacional Teerã ao Xá não entregues rejeitadas. Convencer Ministro persa gravidade intolerável situação."

Em face destes golpes inteiramente injustificáveis, recebidos num tempo em que era lógico esperar que a política mais liberal, que afetava todo o país, fosse estendida aos membros de uma Fé que constituía a única verdadeira reivindicação do país à fama desde os dias de Dario e seus sucessores - num tempo como este, os bahá'ís persas conseguiram realizar uma Convenção cujos delegados eram suficientemente representativos da Comunidade Bahá'í desse país para elegerem uma Assembléia Nacional que Shoghi Effendi cita oficialmente em seus livretos estatísticos como tendo sido formada em 1934; já em 1927, fora realizado o que ele denominava "sua primeira conferência representativa histórica de vários delegados", sendo feitos planos para a realização de futuras reuniões anuais desta natureza e, em 1928, ele começara a se referir às Assembléias eleitas nestas reuniões como a Assembléia Espiritual Nacional da Pérsia. Uma das principais razões da longa demora para uma eleição apropriada, "modelada", como ele escreveu, "pelo método usado pelos irmãos nos Estados Unidos e Canadá", foi que a Assembléia não pudera executar suas instruções referentes à cuidadosa compilação de uma lista de todos os crentes do país como preliminar essencial ao devido procedimento administrativo envolvido na formação de um Corpo Nacional.

Durante 1931, Shoghi Effendi instruíra a Pérsia a comprar um terreno para seu futuro Mashriqu'l-Adhkár e começar a construção de um Hazíratu'l-Quds em Teerã. Sem dúvida, foi em parte por causa dessas afirmações de seu direito de existir como comunidade reconhecida que um governo encolerizado, longe de reconhecê-la, tornara mais firme sua determinação de negar sua existência, apesar de todos os cuidados do Guardião e da Comunidade, num razoável esforço para não provocar desnecessariamente as autoridades ou o povo. Um exemplo dessa moderação se vê em suas instruções às mulheres bahá'ís a não tomarem a dianteira do novo movimento de emancipação das mulheres, inaugurado pelo Xá - uma emancipação que implicava no abandono do véu e estava inteiramente de acordo com os ensinamentos tanto do Báb como de Bahá'u'lláh - para evitar novos problemas.

A situação dos bahá'ís no Oriente, e particularmente na Pérsia, nunca está realmente tranqüila, mas sempre em equilíbrio precário, sempre prestes a explodir numa violenta e freqüentemente sangrenta onda de perseguição. Muitas vezes, havia casos isolados de bahá'ís sendo mortos - alguns dos quais o Guardião mencionou como mártires; constantemente havia uma atmosfera de perseguição, ora mais quente aqui, ora mais quente acolá, mas sempre presente. A todas as vicissitudes que afligiam os amigos persas, o Guardião respondia com mensagens amorosas, com somas em dinheiro para alívio, instruindo geralmente a Assembléia Nacional americana a intervir em seu favor e clamar por justiça pela sua causa. Comunicados, como o que segue, não eram raros e refletem o espírito dessas mensagens: "aconselho... realizarem reuniões devocionais especiais auditório Templo suplicar assistência hostes invisíveis Reino de Abhá emancipação há muito sofridos irmão terra natal de Bahá'u'lláh.

No entanto, a pior crise pela qual os bahá'ís persas passaram nos trinta e seis anos do ministério do Guardião começou em 1955, quando, conforme ele telegrafou, ocorreu uma súbita deterioração nos afazeres da maior comunidade bahá'í do mundo. Num longo cabograma, datado de 23 de agosto, ele informou às Mãos e Assembléias Nacionais o que estivera acontecendo: seguindo o confisco da Sede Nacional dos crentes persas em Teerã pelas autoridades e a destruição de sua grande cúpula ornamental (quando um dos principais sacerdotes do país e um general de seu exército pegaram em picaretas e eles mesmos procederam à destruição), sedes administrativas locais bahá'ís foram confiscadas e ocupadas por toda a Pérsia, o Parlamento do país proscreveu a Fé, teve início uma virulenta campanha na imprensa e no rádio, distorcendo sua história, caluniando seus Fundadores, deturpando seus ensinamentos e obscurecendo seus objetivos e propósitos - acompanhando tudo isso, uma série de atrocidades foi perpetrada contra os membros dessa comunidade severamente afligida por todo o país. Em seu resumo dos terríveis danos infligidos e os "bárbaros atos" cometidos, ele cita acontecimentos como: a profanação da Casa do Báb em Shíráz, o mais importante Santuário da Fé na Pérsia, que havia sido seriamente danificada; a ocupação da casa ancestral de Bahá'u'lláh; o saque às lojas e chácaras da propriedade dos crentes e a pilhagem de suas casas, destruição de seus animais, queima de suas colheitas e a exumação e profanação de cadáveres de bahá'ís nos seus cemitérios; adultos foram espancados; moças abduzidas e forçadas a casar com muçulmanos; crianças foram escarnecidas, insultadas e expulsas de escolas, bem como surradas; comerciantes boicotaram os bahá'ís e recusaram-se a lhes vender comida; uma menina de 15 anos foi raptada; um bebê de onze meses foi pisoteado; houve pressão sobre os crentes para renegarem sua Fé. Mais recentemente, continuou ele, uma turba de dois mil fanáticos havia despedaçado, com espadas e machados, uma família de sete pessoas - o mais velho com oitenta anos e o mais novo com dezenove - ao som de música e tambores.

Instruídos pelo seu Guardião, os bahá'ís, por intermédio de telegramas e cartas às autoridades da Pérsia, provenientes de mais de mil grupos e Assembléias de todo o mundo, já haviam protestado contra tais atos injustos e ilegais infligidos aos seus irmãos obedientes à lei. Além disso, todas as Assembléias Nacionais haviam dirigido cartas ao Xá, ao Governo e ao Parlamento, protestando contra esta perseguição injustificada a uma comunidade inofensiva por motivos puramente religiosos. Como tudo isto não surtiu qualquer resposta oficial, o Guardião instruiu a Comunidade Bahá'í Internacional, a organização não-governamental acreditada junto às Nações Unidas, para levar o assunto ao corpo em Genebra, nomeando ele mesmo aqueles que desejava que atuassem como representantes da Comunidade nessa importante ocasião. Cópias da apelação bahá'í foram entregues aos representantes dos países membros do Conselho Social e Econômico e ao diretor da Divisão de Direitos Humanos, bem como a certas agências especializadas de organizações não-governamentais de status consultivo. Da mesma forma, houve um apelo da Assembléia Nacional americana e de todos os grupos e Assembléias Locais do país ao presidente dos Estados Unidos para intervir em favor de sua oprimida comunidade irmã da Pérsia.

Foi a primeira vez na sua história que uma Fé atacada pôde combater com armas que possuíssem alguma força para defendê-la. O significado disso foi claramente exposto por Shoghi Effendi. Qualquer que fosse a conseqüência desses "dolorosos" acontecimentos, um fato emergira nitidamente: a jovem Fé de Deus, que durante os vinte e cinco anos após a ascensão de 'Abdu'l-Bahá se muniu do mecanismo de sua Ordem Administrativa divinamente ordenada e subseqüentemente utilizou seus recém-nascidos corpos administrativos para a propagação sistemática dessa Fé através de uma série de planos nacionais que culminaram na Cruzada Mundial, agora, logo após essa tribulação que convulsionava a grande maioria de seus seguidores, emergia da obscuridade. As repercussões universais desses acontecimentos seriam saudadas pela posteridade como o "poderoso ressoar da trombeta de Deus" que, por intermédio dos "adversários mais antigos, mais temíveis, mais malévolos e mais fanáticos" da Causa, haveria de despertar a atenção dos governos e chefes de governo, tanto no Oriente como no Ocidente, para a existência e as implicações dessa Fé. Tão tempestuosas foram as circunstâncias que cercavam esses eventos na Pérsia, e tão impressionantes suas repercussões no exterior que, conforme disse o Guardião, forçosamente teriam que pavimentar o caminho para a emancipação da Fé dos grilhões da ortodoxia nos países islâmicos, bem como para o reconhecimento final, na própria terra natal de Bahá'u'lláh, do caráter independente de Sua Revelação.

Em vista dos grandes sofrimentos e da lastimável situação dos crentes persas, Shoghi Effendi inaugurou um fundo de "Auxílio aos Perseguidos", abrindo-o ele mesmo com uma contribuição equivalente a dezoito mil dólares para "esse nobre fim". Não se contentando com esta evidência de solidariedade bahá'í, ele determinou que fosse construído em Kampala, no coração da África, o Templo-Mãe daquele continente, como um "consolo supremo" para as "massas oprimidas" de nossos "valorosos irmãos" no berço da Fé. Ele combateu as forças das trevas que se enxameavam sobre o mais antigo baluarte dessa Fé no mundo, com as maiores armas a seu dispor - as forças do progresso criativo, do esclarecimento e da fé.

É difícil compreender que um homem, inteiramente só, em sua solidão na Suíça, sem conselheiros ao seu redor para lhe darem assistência ou conforto numa ocasião como esta, tenha sustentado o choque dessa violenta onda de ataque que irrompeu tão subitamente na Pérsia em 1955; que ele, inteiramente só, planejou sua estratégia, telegrafou aos seus auxiliares - as várias Assembléias Nacionais - dizendo-lhes qual a ação que deveriam tomar, nomeou aqueles que deveriam representar os interesses da Fé perante o mais alto corpo internacional já ideado pelo homem - as Nações Unidas - confortou os espezinhados, levantou fundos para socorrê-los, lançou seus dardos para direita e para esquerda em sua defesa.

Considerando agora a questão da extinção da Fé na Rússia, devemos nos lembrar que lá havia existido uma das primeiras comunidades bahá'ís do mundo, no Cáucaso e no Turquistão, desde o fim do século passado,* onde muitos persas haviam encontrado um agradável refúgio das perseguições às quais estavam tão constantemente sujeitados em sua terra natal. Haviam se estabelecido em várias cidades, especialmente em Ishqábád, onde erigiram o primeiro Templo de todo o mundo bahá'í e abriram escolas para as crianças bahá'ís, que continuaram a existir por mais de trinta anos. Tinham tudo bem organizado. Havia, em 1928, várias Assembléias Espirituais Nacionais (inclusive uma em Moscou) e, antecipando as devidas eleições representativas nacionais, duas Assembléias Centrais haviam organizado sua administração, figurando em lista publicadas nos Estados Unidos como as Assembléias Nacionais do Cáucaso e do Turquistão. Numa carta dirigida à Assembléia Espiritual Local de Ishqábád, em setembro de 1927, Shoghi Effendi instruiu-a a gradualmente preparar o encontro dos delegados de todas as Assembléias do Turquistão e ser realizado em Ishqábád para elegerem sua Assembléia Nacional. Em 22 de junho de 1928, Shoghi Effendi recebeu o seguinte cabograma da Assembléia de Ishqábád: "De acordo pacto geral 1917 governo soviético nacionalizou todos os Templos mas sob condições especiais concedeu aluguel gratuito às respectivas comunidades religiosas quanto ao Mashriqu'l-Adhkár governo concedeu mesmas condições pacto com Assembléia suplicamos orientação por telegrama." O Guardião agiu imediatamente, telegrafando à Assembléia de Moscou para "Interceder energicamente autoridades prevenir desapropriação Mashriqu'l-Adhkár. Indagar peculiaridades Ishqábád..." e a Ishqábád "comuniquem Assembléia Moscou dirijam petição autoridades em nome todos bahá'ís Rússia. Ajam com firmeza asseguro-lhes orações".

*Referência ao século XIX.

Ao recapitularmos os eventos ocorridos na Rússia, devemos fazer uma nítida distinção - feita pelo próprio Guardião - entre as durezas às quais os crentes russos eram sujeitados e as perseguições sofridas pelos bahá'ís na Pérsia. Na Pérsia, os bahá'ís eram, e ainda são, vítimas de toda forma de injustiça por serem seguidores de Bahá'u'lláh; na Rússia, a situação era inteiramente diferente. Não havia discriminação contra eles por serem bahá'í; seu sofrimento era devido a uma política que o governo adotou contra todas as comunidades religiosas.

Em setembro de 1928, numa carta a Martha Root, Shoghi Effendi indica não só o que estava acontecendo na Rússia, mas como isso o afetara pessoalmente: "Este ano o verão tem sido muito deprimente para mim, pois a condição da Causa na Rússia vai de mal a pior. O Mashriqu'l-Adhkár foi confiscado pelo Estado, fechado e vedado. Uma quantia muito grande é exigida, se os amigos desejarem alugá-lo; senão, ameaçam dividi-lo e vender as partes para outros. A situação é muito crítica e numerosas famílias têm migrado para a Pérsia. Reuniões foram suspensas, Assembléias dissolvidas, impostas pesadas restrições e penalidades... este e outros acontecimentos fizeram com que eu me sentisse muito desanimado e triste." O regresso dos bahá'ís da Rússia para a Pérsia era algo que ele absolutamente não aprovava. Ele informou à Assembléia de Ishqábád que "partida amigos Irã extremamente prejudicial" e disse que deveriam mudar sua cidadania persa para russa se fosse necessário. Ele já havia instado aos imigrantes bahá'ís na Rússia que aprendessem o russo e traduzissem a literatura bahá'í para esse idioma. Em 1929, escreveu à Assembléia Nacional da Pérsia, dizendo que os crentes de Ishqábád deveriam permanecer lá e não se dispersar, mas esperar que passassem as más nuvens da injustiça e aparecesse o sol da justiça.

Em todos os casos de perseguição, o quanto a situação se agrava pela insensatez dos próprios perseguidos em combinação com a insensatez de subordinados que cumprem as instruções de seus superiores - que podem ser mal intencionados ou não - é um mistério que provavelmente jamais solucionaremos neste mundo. É razoável supor, entretanto, que pelo menos alguns de nossos infortúnios sejam aumentados devido aos nossos próprios atos.

O que havia acontecido na Rússia, escreveu Shoghi Effendi numa longa carta aos bahá'ís do Ocidente em 1º de janeiro de 1929, foi que os bahá'ís russos foram finalmente sujeitados à "rígida aplicação dos princípios já enunciados pelas autoridades do estado e universalmente executados em relação a todas as outras comunidades religiosas"; os bahá'ís, "conforme convém à sua posição de cidadãos leais e respeitadores da lei", haviam obedecido as "medidas que o Estado, no livre exercício de seus legítimos direitos, decidira impor". As medidas tomadas pelas autoridades, "Fiéis à sua política de desapropriar, nos interesses do Estado, todos os edifícios e monumentos de caráter religioso" haviam os levado a desapropriar o Mashriqu'l-Adhkár de Ishqábád, a tomar posse e controle sobre esta "mais acariciada e universalmente estimada propriedade bahá'í". Além disso, "ordens de Estado, verbais e por escrito" haviam "sido oficialmente comunicadas às Assembléias Bahá'ís e aos crentes individuais, suspendendo todas as reuniões... suprimindo os comitês de todas as Assembléias Espirituais Bahá'ís Locais e Nacionais, proibindo a angariação de fundos... exigindo o direito a plena e freqüente inspeção das deliberações... das Assembléia Bahá'ís... impondo uma estrita censura de toda correspondência para as Assembléias e por elas emitida... suspendendo todos os periódicos bahá'ís... e exigindo a deportação das personalidades de destaques na Causa, quer instrutores e oradores públicos ou oficiais das Assembléias Bahá'ís. A todas essas exigências," disse Shoghi Effendi, "os seguidores da Fé de Bahá'u'lláh, com sentimentos de intensa agonia e heróica fortaleza, têm-se submetido unanimemente e sem reservas, sempre lembrados dos princípios orientadores da conduta bahá'í segundo os quais, no que diz respeito às suas atividades administrativas - não importa quão severamente a interferência nestas possa afetar o processo de expansão do Movimento e não constituindo sua suspensão, em si, uma violação do princípio de lealdade à sua Fé - devem respeitar incondicionalmente e obedecer lealmente o ponderado juízo e os decretos autorizados emitidos pelos seus governantes responsáveis, se quiserem ser fiéis às expressas injunções de Bahá'u'lláh e de 'Abdu'l-Bahá." Prosseguiu dizendo que os bahá'ís do Turquistão e do Cáucaso, após haverem esgotado, sem êxito, todos os meios legítimos de aliviar essas retrações que lhes haviam sido impostas, resolveram "conscientemente conformar-se com o ponderado juízo de seu governo reconhecido" e "com uma esperança que nenhum poder terreno pode ofuscar... entregaram os interesses de sua Causa ao cuidado daquele vigilante, todo-poderoso Salvador Divino..."

Nesta mensagem, Shoghi Effendi assegurou aos bahá'ís que, se ele julgasse conveniente solicitar mais tarde a intervenção do mundo bahá'í, assim faria. Em abril de 1930, achou que chegara a oportunidade: o precioso Templo, que os bahá'ís haviam conseguido alugar das autoridades após seu confisco, corria agora o risco de sair de suas mãos para sempre, em virtude de uma séria de medidas adicionais, mais severas, impostas aos amigos. Ele telegrafou, portanto, à Assembléia Nacional americana: "... urge ação imediata. Frisem caráter internacional Templo..." Em sua longa carta anterior, ele já delineara a abordagem que deveria ser adotada quando, e se, chegasse o tempo para os crentes no exterior levantarem as suas vozes em protesto e esclarecimento: Assembléias Nacionais, bem como Locais, do Oriente e Ocidente, num gesto de solidariedade bahá'í, chamariam a atenção dos oficiais russos não só para refutar qualquer implicação de cunho político ou outro motivo que pudesse ser falsamente imputado a seus irmãos naquela terra, mas à "natureza humanitária e espiritual do trabalho em que os bahá'ís de todas as terras e todas as raças se empenham em unidade" e ao caráter internacional daquele Edifício que tinha a distinção de ser a primeira Casa de Adoração Universal de Bahá'u'lláh, cujo desenho o próprio 'Abdu'l-Bahá concebera e cuja construção Ele dirigira, e que fora custeada pelas contribuições coletivas dos crentes do mundo inteiro.

Mas, finalmente, no momento decisivo, Shoghi Effendi telegrafou à Assembléia de Ishqábád para se "conformar decisão Autoridades Estado". Um caso como este, envolvendo o primeiro dos dois Templos erigidos sob a égide de 'Abdu'l-Bahá, não pode deixar de formar um padrão de orientação para as Assembléias Bahá'ís seguirem sempre e uma fonte de informação para o crente individual a respeito de seu dever para com seu governo, seja qual for a natureza desse governo.

Dois outros países, a Turquia e o Egito, formaram com a Rússia, a Pérsia e a Alemanha, o cenário de sérias medidas repressivas e restritivas que foram impostas à Fé durante o tempo de vida do Guardião. Na Turquia, que desde a queda do Califado, conforme escreveu Shoghi Effendi, sempre fora sujeito de "uma política absolutista que visava a secularização do Estado e sua separação do Islã", haviam ocorrido grandes reformas civis, reformas com as quais incidentemente os bahá'ís tinham inteira simpatia. As dificuldades que lá surgiram, portanto, não se baseavam no preconceito religioso; antes, foram causadas pelo fato de que o novo regime, tendo descoberto que anteriormente pretensos grupos religiosos na Turquia forneciam disfarce para agitadores políticos, quando seus oficiais viram que a Comunidade Bahá'í estava organizada e prosseguia suas atividades abertamente, ensinando e difundindo a Fé, ficaram desconfiados e alarmados, fizeram vistoria em muitas casas dos crestes, confiscando qualquer literatura que encontrassem, interrogaram alguns severamente e encarceraram um grande número deles. Isso foi motivo de muita publicidade para a Fé, alguma no exterior, mas a maior parte na imprensa turca que reagiu a favor dos bahá'ís e lhes assegurou um inquérito completo e imparcial quando o caso veio ao Tribunal Criminal, em 13 de dezembro de 1928. Marcou uma nova etapa no desenvolvimento da Causa: "nunca antes na história bahá'í", escreveu Shoghi Effendi, "os seguidores de Bahá'u'lláh haviam sido obrigados pelos oficiais de um estado... a expor a história e os princípios de sua Fé..."

É interessante notar que, nos papéis da Assembléia de Constantinopla (a cidade agora conhecida como Istambul) que as autoridades apreenderam, foi encontrado um dos tributos da Rainha Maria à Fé e suas implicações não escaparam dos juízes atentos. O Coordenador da Assembléia Espiritual Bahá'í de Constantinopla, ao prestar seu testemunho perante a Corte, expôs de um modo muito brilhante os preceitos da Fé e incluiu esta pertinente citação das próprias palavras de Bahá'u'lláh: "Perante a Justiça, dizei a verdade e nada temais." A conclusão de todo esse episódio foi que os bahá'ís tiveram que pagar uma multa pela infração da lei segundo a qual todas as associações deveriam ser registradas perante o governo e a devida autorização obtida para reuniões públicas, mas seus resultados foram muito significativos para a Fé, não só localmente mas também no exterior. O veredicto da Corte foi resumido por Shoghi Effendi numa carta geral aos bahá'ís do Ocidente, escrita em 12 de fevereiro de 1929: "Quanto ao veredicto... é claramente exposto que, embora os seguidores de Bahá'u'lláh, em virtude de sua concepção inofensiva do caráter espiritual de sua Fé, tivessem achado desnecessário pedir permissão para prosseguirem suas atividades administrativas, sujeitando-se desse modo ao pagamento de uma multa, eles conseguiram, no entanto, para a satisfação dos representantes legais do Estado, não somente estabelecer a inocência da Causa de Bahá'u'lláh, mas também desempenhar dignamente a tarefa de lhe vindicar a independência, a origem divina e a adaptabilidade às circunstâncias e exigências da presente era."

Embora fosse este o primeiro episódio de importância envolvendo os bahá'ís com o novo Estado que evoluíra na Turquia após a queda do Califado, não seria o último. Os poderes seculares andavam constantemente à espreita de forças reacionárias no Estado e, como a memória oficial era curta, houve, em 1933, um recrudescimento das mesmas suspeitas e acusações que haviam motivado a questão em 1928. Em 27 de janeiro, Shoghi Effendi telegrafa à Assembléia Nacional americana: "Bahá'ís Constantinopla e Adana cerca de quarenta encarcerados acusados motivos subversivos. Solicito induzir Ministro Turquia Washington fazer imediatos protestos seu governo libertar seguidores Fé apolítica respeitadores da lei. Aconselho também Assembléia Nacional telegrafar autoridades Ancara e dirigir-se ao Departamento de Estado." Ao mesmo tempo, ele telegrafou à Assembléia Nacional da Pérsia: "Solicito imediatos protestos Embaixador Turco em favor bahá'ís aprisionados Istambul e Adana acusados motivos políticos." No dia seguinte, telegrafou a um turco eminente:

Sua Excelência Ismat Páshá
Ancara

Como dirigente da Fé Bahá'í, soube com espanto e pesar encarceramento seguidores de Bahá'u'lláh em Istambul e Adana... Respeitosamente apelo intervenção Vossa Excelência em prol seguidores de uma Fé que hipotecou lealdade ao vosso governo por cujas reformas históricas seus aderentes mundo inteiro nutrem constante admiração.

Os bahá'ís, familiarizados com toda a situação através das cartas detalhadas escritas pelo Guardião na ocasião do caso anterior, tomaram medidas imediatas e apresentaram suas representações às autoridades turcas, bem como, sem dúvida, as providências tomadas na Turquia no sentido de citar o veredicto dado pela Corte Criminal no caso anterior, e conseguiram, após muitos meses de esforço, a libertação e a absolvição dos crentes. Em 5 de março, o Guardião informou a Assembléia americana: "Amigos Istambul absolvidos 53 ainda encarcerados Adana solicito renovar energicamente protestos libertação imediata", e no dia 4 de abril, ele lhes telegrafou: "Amigos Adana libertados. Aconselho transmitir apreciação embaixador turco."

Quando nos lembramos de que este mais recente caso na Turquia estava ocorrendo na mesma ocasião em que Shoghi Effendi lutava para obter alguns direitos para a Fé na Pérsia - durante a estada da Sra. Keith Ransom-Kehler naquele país - temos uma ligeira noção do número e da natureza dos problemas dos quais ele tinha constantemente que tratar. Apesar de uma verdadeira recrudescimento de suspeita por parte das autoridades turcas, o Guardião pôde, durante sua vida, lançar alicerces suficientemente fortes na comunidade bahá'í daquele país para que ela pudesse, após seu falecimento, eleger sua própria independente Assembléia Espiritual Nacional, assim cumprindo uma de suas metas do Plano de Dez Anos.

No Egito, um dos primeiros países a receber a Luz da Revelação de Bahá'u'lláh durante Seu próprio tempo, três anos antes de ocorrer na Turquia o primeiro caso de litígio dos bahá'ís, ocorreram fatos que o Guardião considerava supremamente significativos. Começando com um ataque feroz contra um pequeno grupo de bahá'ís numa aldeia obscura no Egito setentrional, terminou como o "primeiro passo", segundo disse Shoghi Effendi, na "conseqüente aceitação universal da Fé Bahá'í como um dos independentes sistemas religiosos reconhecidos no mundo". As leis de status pessoal em quase todos os países islâmicos são administradas por cortes religiosas; quando os bahá'ís daquela aldeia formaram sua Assembléia Espiritual, o chefe, inflamado por fanatismo religioso, começou a incitar os ânimos contra três homens casados que se haviam tornado bahá'ís; por vias legais, foi exigido que suas esposas maometanas se divorciassem, uma vez que estavam agora casadas com hereges. A questão foi levada à corte religiosa de apelação em Beba, a qual deu seu veredicto em 10 de maio de 1925. Segundo eles, os hereges foram terminantemente condenados por haverem violado as leis e os regulamento do Islã, e os casamentos foram anulados. Essa ação em si foi significativa, mas aquilo ao qual o Guardião deu a maior importância foi que "Isto chegou ao ponto de fazer a positiva, espantosa e realmente histórica afirmação de que a Fé abraçada por esses hereges deve ser considerada uma religião distinta, inteiramente independente dos sistemas religiosos que a procederam". Em seu resumo desse veredicto, Shoghi Effendi citou as exatas palavras do julgamento, de tão imensa importância histórica para os bahá'ís:

A Fé Bahá'í é uma nova religião, inteiramente independente, com crenças, leis e princípios que diferem e estão absolutamente em conflito com as crenças, leis e princípios do Islã. Nenhum bahá'í, portanto, pode ser considerado muçulmano, ou vice-versa, assim como nenhum budista, brâmane ou cristão pode ser considerado muçulmano, ou vice-versa.

Ainda que esse veredicto tivesse permanecido um fenômeno isolado numa obscura corte local do Egito, teria sido uma arma inestimável nas mãos dos crentes em toda parte do mundo que estavam tentando afirmar justamente aquela independência tão claramente enunciada nesse julgamento. Mas não ficou nisso; foi subseqüentemente sancionado e apoiado pelas mais altas autoridades eclesiásticas de Cairo e foi impresso e circulado pelos próprios muçulmanos.

O Guardião, sempre pronto para aproveitar dos instrumentos mais insignificantes e fracos - desde seres humanos até pedaços de papel - e usá-los como armas em sua batalha para conseguir o reconhecimento e a emancipação da Fé, apanhou essa nova e aguçada espada, que lhe foi colocada nas mãos pelos próprios inimigos da Fé, e continuou a golpear com ela até o fim da vida. Foi, afirmou ele, a primeira Carta Magna da emancipação da Fé dos grilhões do Islã. No Oriente, os bahá'ís usaram-na, sob sua perspicaz orientação, como alavanca para conquistar para eles uma relutante admissão de que a Fé não era uma heresia dentro do Islã, e no Ocidente, para asseverar seu repúdio à mesma acusação. Foi citada até, na ocasião em que Shoghi Effendi fez enérgicos protestos ao Ministro de Assuntos Religiosos de Israel, como motivo de sua insistência que os assuntos da Comunidade Bahá'í não fossem tratados pelo mesmo chefe do departamento que era responsável pela Comunidade Muçulmana de Israel, frisando que isso criava a impressão de sermos nós um ramo do Islã e afirmando preferir que os assuntos bahá'ís ficassem sob a jurisdição do chefe de Departamento Cristão, pois, deste modo, não poderia haver ambigüidade quanto ao status independente da Fé Bahá'í. Foi em conseqüência de argumentos como esse que o Ministro de Assuntos Religiosos instaurou um Departamento Bahá'í com seu chefe próprio.

Com a poderosa alavanca do veredicto da Corte de Beba, a Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá'ís do Egito lutou, durante um período de anos, a fim de obter para sua Comunidade, pelo menos em grau moderado, reconhecimento de seu status de religião independente. Para facilitar isso, a Assembléia publicou uma compilação das leis bahá'ís relativas a assuntos de status pessoal, apoiada por este poderoso documento e usando repetidos incidentes provocados pelos muçulmanos fanáticos contra os bahá'ís, conseguiu obter, do governo egípcio, terrenos que lhe foram oficialmente cedidos naquelas cidades onde havia um grupo relativamente grande de bahá'ís, para serem usados como cemitérios exclusivamente bahá'ís.

Essa compilação das leis relativas ao status pessoal foi traduzida para o persa, bem como para o inglês, e usada como padrão no tratamento dos assuntos bahá'ís naqueles países que não tinham leis civis que abrangessem tais assuntos. Embora, em conseqüência disso, certas concessões fossem obtidas das autoridades em países muçulmanos como o Egito, a Pérsia, a Palestina e a Índia, permaneceu o fato de que a situação legal dos bahá'ís, especialmente no Egito e na Pérsia, era altamente ambígua e muitas vezes eles se encontravam sem direito algum em certos sentidos, vivendo numa espécie de terra de ninguém. Isto era especialmente verdadeiro no caso de seus casamentos e divórcios que eram registrados com suas Assembléias, sendo realizados de acordo com a lei bahá'í, mas eram como inexistentes aos olhos do governo de seu país. O fato de grandes comunidades de crentes terem aceito orgulhosamente essa provação, recusando humilhar-se aos olhos de seus conterrâneos escarnecedores e continuando até hoje a luta por reconhecimento em questões fundamentais, é o mais alto tributo possível ao espírito da fé que os ensinamentos de Bahá'u'lláh engendraram em seus corações, e à lealdade com que executaram as instruções de seu amado Guardião, no sentido de não se importarem com "qualquer onda de impopularidade, de desconfiança ou crítica que uma estrita adesão aos seus padrões pudesse provocar".

Recapitulando os acontecimentos que finalmente haveriam de levar ao reconhecimento e à emancipação da Fé, Shoghi Effendi, em A Presença de Deus, escreveu estas memoráveis palavras: "A todos os regulamentos administrativos que as autoridades civis têm imposto de tempos em tempos... a comunidade bahá'í, fiel às suas sagradas obrigações para com seu governo e consciente de seus deveres cívicos, tem prestado e continuará a prestar obediência implícita... A tais ordens, entretanto, que impliquem repúdio à sua fé pelos seus membros, ou um ato de deslealdade aos seus princípios e preceitos espirituais básicos, dados por Deus, essa comunidade recusará tenazmente submeter-se, preferindo encarceramento, desterro e toda espécie de perseguição, inclusive morte - como já sofrida pelos vinte mil mártires que sacrificaram suas vidas no caminho dos Fundadores - a seguir as imposições de uma autoridade temporal que exige que ela renuncie sua lealdade à sua Causa."

Em sua administração dos assuntos da Fé, Shoghi Effendi mostrou uma qualidade de rigidez nos aspectos essenciais e de fluidez nas coisas não-essenciais, o que deve sempre caracterizar um líder verdadeiramente grande. Embora não possa haver contemporização em coisas fundamentais, pode e deve haver, na administração dos assuntos de uma comunidade mundial, reconhecimento do fato de que pessoas estão em diferentes etapas de evolução. Um exemplo da sabedoria e habilidade de Shoghi Effendi é seu modo diferente de tratar as diferentes comunidades, sem jamais permitir que comunidade alguma - seja ela numa das maiores e mais sofisticadas metrópoles do mundo ou numa aldeia de camponeses iletrados - desconsidere os ensinamentos fundamentais de Bahá'u'lláh, mas, ao mesmo tempo, reconhecendo o fato de que não se exige de uma criança de cinco anos o que se exige de um adolescente, nem se espera a mesma sabedoria, obediência e experiência, num jovem de vinte e um anos, que se espera de uma pessoa que tenha passado setenta anos na escola da vida. Foi por causa dessa compreensão das diferentes etapas de inexperiência ou maturidade das várias comunidades bahá'ís, conforme o caso, que Shoghi Effendi tratava a Comunidade Bahá'í da Pérsia - a mais antiga de todas as comunidades do mundo e a mais testada no fogo das provações - com o máximo grau de severidade, esperando que seus privilegiados crentes fossem, sob todas as circunstâncias, exemplos de fidelidade e obediência às leis de Bahá'u'lláh. Por causa dessa tática, ele não só preparou bahá'ís norte-americanos, que constituíam a mais antiga comunidade ocidental do mundo a seguirem as leis - poucas, porém essenciais - que ele finalmente lhes deu, mas contemporizou com eles durante os longos anos necessários para educá-los, a ponto de quererem e poderem aceitar e aplicar aquelas leis. Foi de acordo com esse método que ele instruiu aquelas Assembléias Nacionais dedicadas ao ensino da Fé em tantos países abertos durante a Cruzada Mundial - países cujos habitantes, em sua maioria, havia vindo de origens pagãs - a exigir dos novos aderentes à Causa de Bahá'u'lláh o mínimo de conhecimento de seus ensinamentos e leis antes de os aceitarem na Comunidade do Nome Supremo.

Não há melhor exemplo dessa diferenciação nas etapas de desenvolvimento que caracterizam as diferentes comunidades bahá'ís atuais do que na última carta que Shoghi Effendi dirigiu a uma das grandes Assembléias Regionais da África. Com data de 8 de agosto de 1957 (menos de três meses antes de seu falecimento) e escrita segundo as instruções do próprio Guardião, sua secretária acentuou a verdadeira essência de seus pensamentos sobre um assunto tão supremamente importante neste período da história bahá'í:

"Durante a visita da Sra. ____, o Guardião falou com ela sobre o trabalho de ensino em ____, onde há tão grande receptividade à Mensagem e onde o povo em distritos adjacentes parece estar ansioso por se registrar. Ele acha que os responsáveis pela aceitação de novos crentes deveriam considerar que, nesta época, a qualificação mais importante e fundamental para aceitação é o reconhecimento, por parte do candidato, da posição de Bahá'u'lláh. Não podemos esperar que pessoas analfabetas (o que não afeta em absoluto suas habilidades ou capacidades mentais) tenham estudado os Ensinamentos - especialmente quando, em primeiro lugar, existe tão pouca literatura em sua própria língua - e compreendido todas as suas ramificações, do mesmo modo que se espera de um africano, digamos, em Londres. O espírito da pessoa é a coisa importante, o reconhecimento de Bahá'u'lláh e Sua posição no mundo hoje. Os amigos não devem, portanto, ser rígidos demais, ou verão esfriar a grande onda do amoroso entusiasmo com que o povo africano se volveu para a Fé e muitos a aceitaram; e, sendo sensíveis, sentirão que, de algum modo sutil, estão sendo rejeitados, e o trabalho será prejudicado.

"O objetivo das novas Assembléias Nacionais da África e o objetivo de qualquer corpo administrativo é levar a Mensagem ao povo e alistar os sinceros sob a bandeira desta Fé.

"Sua Assembléia jamais deve perder de vista, nem por um momento, esse objetivo; deve prosseguir corajosamente expandindo as comunidades sob sua jurisdição e, pouco a pouco, educar os amigos tanto nos Ensinamentos como na Administração. Nada pode ser mais trágico do que o estabelecimento desses grandes corpos administrativos sufocar ou afundar o trabalho de ensino. Devemos sempre lembrar que os primeiros crentes, tanto no Oriente como no Ocidente, praticamente nada sabiam em comparação com aquilo que o bahá'í comum sabe acerca de sua Fé hoje em dia; no entanto, foram eles que derramaram seu sangue, que se levantaram, dizendo: "Eu creio", não exigindo prova e, muitas vezes, sem nunca terem lido uma palavra sequer dos Ensinamentos. Portanto, os responsáveis pela aceitação de novo bahá'ís devem ter certeza de uma única coisa - que o coração da pessoa que deseja ser registrada foi tocado pelo espírito da Fé. Tudo mais pode ser construído sobre este alicerce gradativamente.

"Ele espera que durante o ano vindouro seja cada vez mais facilitada a circulação dos instrutores bahá'ís africanos entre os bahá'ís recém-declarados, a fim de lhes aprofundarem o conhecimento e a compreensão dos Ensinamentos."

O juízo equilibrado, uma das principais qualidades da mente do Guardião, jamais foi melhor exemplificado do que nestas instruções transmitidas naquela mesma carta:

"A respeito das questões de práticas tribais, o Guardião deseja que sejais extremamente tolerantes e pacientes em levar os bahá'ís a abandonarem seus velhos costumes. Isto só pode ser feito tomando-se cada caso individualmente, quando surge, usando a máxima sabedoria e bondade, e não tentando impor rigorosamente todas as leis bahá'ís, em cada detalhe, no tempo atual.

"Naturalmente, é óbvio que se um bahá'í já tem uma esposa não pode tomar outra, seja qual for a lei tribal. Sua Assembléia deve distinguir entre este ponto fundamental e outros aspectos da vida da comunidade tribal nos quais o novo bahá'í pode estar ainda profundamente envolvido e dos quais não poderá afastar-se enquanto o princípio bahá'í em sua comunidade não estiver bastante forte para ser um poder atuante.

"Ele concorda com o parecer de sua Assembléia de que seria extremamente imprudente, no tempo atual, começar a impor a pesada sanção de privar os amigos de seus direitos de voto. O melhor método é a educação afetuosa."

O que Shoghi Effendi nos fez compreender foi que a grande árvore da Ordem Mundial de Bahá'u'lláh, ao ser plantada, é uma pequenina semente - a crença nEle. Gradativamente ela crescerá, assim como qualquer coisa viva, tornando-se cada vez mais e mais madura. Shoghi Effendi concebeu como sua maior tarefa, segundo as instruções de 'Abdu'l-Bahá em Seu Testamento, promulgar a Fé pelo planeta inteiro e alistar sob sua bandeira todos os povos do mundo; percebeu que primeiro teria que ser reunida a matéria-prima da qual se poderia formar a futura sociedade desse mundo; embora tantas coisas fossem necessárias para moldar essa futura sociedade, sendo pré-requisitos realmente essenciais à sua criação, permanecia o fato supremo de que as massas têm que ser reunidas primeiro à sombra de Bahá'u'lláh, antes de Sua Ordem Mundial poder emergir em toda a sua glória.

Na América do Norte, Berço da Ordem Administrativa da Fé, o Guardião passou dezesseis anos lançando um alicerce firme e criando um padrão para todas as instituições administrativas bahá'ís. Em nossa terminologia moderna, ele construiu uma base da qual pudesse mandar seus foguetes - os grandes Planos de ensino que ocuparam tanto tempo das duas últimas décadas de sua vida. Shoghi Effendi deixou absolutamente claro que "a administração da Causa deve ser concebida como instrumento e não um substituto para a Fé de Bahá'u'lláh; que deve ser considerada como um canal por onde fluem Suas prometidas bênçãos, que deve acautelar-se contra tal rigidez que possa obstruir e restringir as forças libertadoras liberadas pela Sua Revelação..." "Certamente", prosseguiu ele , "incumbe àqueles em cujas mãos foi entregue tão inestimável herança, vigiarem, em atitude de prece, para que o instrumento não sobrepuje a própria Fé, para que excessiva preocupação com as minúcias relativas à administração da Causa não obscureçam a visão daqueles que a promovem, e a parcialidade, a ambição e o mundanismo não tendam, no decorrer do tempo, a anuviar o esplendor, macular a pureza e diminuir a eficácia da Fé de Bahá'u'lláh". Quatro anos depois de começar sua primeira correspondência com os bahá'ís do Oriente e do Ocidente, em janeiro de 1922, Shoghi Effendi principiaria a frisar este ponto, o que ele evidentemente via como um perigo, desde o começo até o fim de seu ministério. Em janeiro de 1926, ele escreveu à Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá'ís dos Estados Unidos e Canadá: "À medida que o trabalho administrativo da Causa se expande constantemente e suas várias ramificações crescem em importância e número, é absolutamente necessário que tenhamos em mente este fato fundamental de que todas essas atividades administrativas, por mais harmoniosa e eficientemente que sejam conduzidas, são apenas um meio para atingir um fim e devem ser consideradas como instrumentos diretos para a propagação da Fé Bahá'í. Devemos estar atentos para que, em nossa grande preocupação com o aperfeiçoamento da maquinária administrativa da Causa, não percamos de vista o Propósito Divino para a qual ela foi criada."

Quando as primeiras Assembléias Regionais foram eleitas na Europa, em 1957, como corpos intermediários incumbidos de administrar os assuntos de alguns dos dez países-meta do segundo Plano de Sete Anos, aguardando, para data posterior, a formação das Assembléias Nacionais independentes, o Guardião escreveu a cada um desses corpos recém-eleitos uma carta em que frisou, mais uma vez - assim como durante anos havia feito, repetidamente, a todas as Assembléias Nacionais - essa questão de ser a Administração um meio, e não um fim em si. "Todo o propósito dos corpos administrativos bahá'ís no tempo atual é ensinar, aumentar o número de crentes, de Assembléias e Grupos", escreveu sua secretária, em seu nome, a uma das Assembléias Nacionais; e a outra, escreveu: "O propósito fundamental da Administração Bahá'í presentemente é ensinar a Fé. Administrá-la é apenas coordenar suas atividades e salvaguardá-la. Os amigos devem ter isto em mente com toda clareza; e ele acha que deve chamar a atenção de sua Assembléia, no momento em que ela embarca em suas tarefas históricas, para o mesmo ponto que muitas vezes tem chamado a atenção de corpo nacionais antigos e experientes, isto é, que devem evitar introduzir regras e regulamentos que possam complicar o harmonioso funcionamento da Fé em sua região, desnecessariamente criar obstáculos para os bahá'ís e causar-lhes confusão. Fora dos aspectos essenciais, como já expostos nos Ensinamentos e de fácil acesso, os corpos nacionais devem se esforçar a fazer tudo que estiver ao seu alcance para encorajar os amigos a ensinarem individualmente, servirem ativamente, abrirem novos centros, transformarem grupos em Assembléias..."

Depois que o primeiro Plano de Sete Anos foi formulado e lançado, o Guardião, tendo sempre claro em sua própria mente o que ele estava fazendo e de que modo isso deveria ser feito, informou, em 1939, aos bahá'ís norte-americanos, sendo eles os executores desse Plano, que estavam "promovendo o crescimento e a consolidação daquele movimento pioneiro para o qual todo o mecanismo de sua Ordem Administrativa havia sido primariamente ordenado e erigido".

Exatamente como no universo há muitas galáxias em diferentes etapas de evolução, assim, no universo global da Causa de Deus, as diferentes partes do mundo bahá'í estavam em diferentes estados de desenvolvimento. As comunidades do Oriente Médio estavam muito mais adiantadas na aplicação dos preceitos e leis bahá'ís nas vidas dos crentes que as compunham, mas não estavam emancipadas, nem reconhecidas ou livres. As comunidades do Ocidente, nas Américas, na Europa e na Australásia, estavam livres, mas, por causa de seu passado cultural e em vista do fato de que em seus países, leis de status pessoal eram administradas por cortes civis e não religiosas, estavam muito mais atrasadas do que o Oriente na aplicação de muitas das leis de sua Fé, bem como na observância de seus preceitos. Os novos bahá'ís em muitos países mais atrasados do mundo estavam livres no sentido de não serem, como seus irmãos do Oriente, vítimas de governos fanáticos cuja religião de estado era o Islã, mas não podiam sempre aplicar as leis bahá'ís por causa das sociedades tribais em que muitos deles viviam e estavam também em desvantagem, pelo menos temporariamente, devido às suas origens históricas em muitos sentidos tão diferentes das dos povos de antecedência judaica, cristã ou muçulmana, de cuja origem comum a própria Fé Bahá'í procedera. Em vista desses fatores, Shoghi Effendi, como o condutor de uma grande orquestra, certificava-se de que cada comunidade dentro do mundo bahá'í estava tocando suas próprias notas na sinfonia do todo. Embora as partes fossem diferentes, cada uma tinha que seguir as notas que lhe haviam sido dadas. A não ser que captemos este quadro de como é o nosso mundo bahá'í nesta presente etapa de seu desenvolvimento, jamais compreenderemos devidamente o que Shoghi Effendi criou exatamente, o que ele conseguiu durante seu ministério e quão estupendas são suas realizações.

Esses diferentes exemplos indicam que, embora a humanidade seja uma só e a Fé, também uma só, embora sua Ordem Administrativa seja uma só e sua Ordem Mundial deverá ser apenas uma, a execução das leis, dos preceitos e procedimentos administrativos da Causa haverá forçosamente de progredir com diferentes graus de rapidez em lugares diferentes. Foi preciso muito tempo para os bahá'ís, tanto no Oriente como no Ocidente, chegarem a ponto de estarem suficientemente maduros e terem adquirido suficiente compreensão de sua Ordem Administrativa, para que Shoghi Effendi pudesse introduzir, por exemplo, a aplicação de sanções. Ele levou muitos anos erigindo, sobre o alicerce já criado pelo Mestre, um sistema organizado no qual um bahá'í era claramente diferenciado de um não-bahá'í - pelas suas crenças, pelos seus privilégios e pelas suas responsabilidades - antes que ele pudesse dar o passo de criar um modo de assegurar que, dentro das comunidades bahá'ís, os crentes fariam um esforço razoável para seguir os Ensinamentos Bahá'ís e que, se eles os desrespeitassem de modo flagrante, haveria um meio de punição - uma sanção - a ser aplicada a fim de assegurar o não comprometimento do bom nome e o caráter independente da Fé, e como meio de proteger a reputação da comunidade. Esta sanção era a perda dos direitos administrativos de um crente, isto é, que ele ou ela não mais poderia votar nas eleições bahá'ís, ser eleito para Assembléias Bahá'ís ou nomeado para comitês, ter casamento ou divórcio bahá'í, ou estar presente naquelas ocasiões em que os bahá'ís se reuniam como comunidade. É muito interessante notar que, quando Shoghi Effendi inaugurou esta sanção - que é a mais severa punição administrativa que os bahá'ís possuem e nem por um momento deve ser confundida com a violação do Convênio e sua conseqüente excomunhão, que é isolamento por causa de uma moléstia espiritual - ele deixou perfeitamente claro para as Assembléias Nacionais que deveria ser usada somente como medida extrema, aplicada (no Ocidente) só com a aprovação da própria Assembléia Nacional e invocada somente em casos extremos. No Oriente, onde muitas leis de status pessoal eram administradas pelas Assembléias, a sanção envolvia várias provisões do Aqdas; no Ocidente, onde existia uma situação diferente, envolvia obediência àquelas leis que o Guardião achava que os bahá'ís deveriam seguir agora, tais como a obtenção do consentimento dos pais de ambos para o casamento, a realização de uma cerimônia de casamento bahá'í e a conformidade às leis bahá'ís do divórcio. Essa sanção era invocada também nos casos em que bahá'ís, desrespeitando completamente os ensinamentos de sua Fé, se envolviam em questões políticas, ou naquilo que cautelosamente ele denominava "imoralidade flagrante", que trazia má fama à comunidade inteira, ou por causa de outras graves violações daquilo que ele chamava de "princípios orientadores e reguladores da crença bahá'í", que "os defensores da Causa... se sentem compelidos a asseverar e aplicar com vigilância, à medida que sua Ordem Administrativa se expande e se consolida". Shoghi Effendi deixou claro que a anulação do direito do voto nunca deveria ser usada levianamente, e que de qualquer modo deveria ser evitada tanto quanto possível, tanto para proteger os indivíduos contra uma retaliação precipitada por parte de instituições iradas, como para fazer os amigos compreenderem que, sendo bahá'ís, eles são privilegiados e têm responsabilidades e que, ao perderem seus direitos na comunidade, sacrificam algo muito grande e muito precioso.

Um procedimento tão fundamental como este foi o que Shoghi Effendi aplicou universalmente aos bahá'ís em toda parte do mundo, não importando qual o tipo de sociedade em que vivessem, e fazia parte de sua implementação gradativa das leis e dos princípios ordenados por Bahá'u'lláh, "os quais constituem", afirmou ele, "a urdidura e trama das instituições sobre as quais haveria de repousar finalmente a estrutura de Sua Ordem Mundial".

Essa orientação de uma Fé vinda de seu Centro Mundial, necessitando de rigidez e universalidade em questões fundamentais, enquanto permitia e até encorajava fluidez em questões secundárias, forma um fascinante objeto de estudo. O ministério de Shoghi Effendi era um rompimento constante dos vários grilhões que prendiam os bahá'ís ao passado, às sociedades em que viviam e um incremento gradativo de seu conhecimento da Fé e de suas instituições administrativas. Assim como um médico hábil, ele dava regras de saúde gerais a todos e remédios específicos em casos específicos. Há inúmeros exemplos disto, dos quais apenas poucos podem ser citados aqui.

Em 1923, Shoghi Effendi escreveu à Assembléia Espiritual Nacional da Índia e Birmânia que as mulheres bahá'ís deveriam ser incluídas em todas as atividades administrativas nas mesmas condições dos homens bahá'ís - naquela parte do mundo as mulheres já usufruíam uma liberdade maior do que geralmente se supunha no Ocidente. Porém, nos países do Oriente Médio, tais como a Pérsia, o Egito e o Iraque, onde as mulheres estavam inteiramente suprimidas da vida civil, o Guardião, não querendo provocar a população muçulmana desnecessariamente com uma medida altamente provocativa, só um quarto de século mais tarde permitiu que as mulheres bahá'ís tomassem parte na administração da Fé. A despeito dos muitos tributos fervorosos prestados por ele às mulheres bahá'ís e do testemunho de 'Abdu'l-Bahá de que "as mulheres têm demonstrado uma audácia maior do que dos homens, quando alistados nas fileiras desta Fé", e apesar do princípio fundamental enunciado nos Ensinamentos Bahá'ís de que os homens e as mulheres são iguais, sua dedicação ao mecanismo da Ordem Administrativa foi julgada puramente secundária por Shoghi Effendi, e relativamente insignificante em comparação com a necessidade sumamente importante de promover os interesses gerais da Fé nos países islâmicos e lhe proteger a própria existência.

Outro excelente exemplo de como o Guardião, de acordo com as situações mutáveis, modificava suas instruções explícitas a várias Assembléias Nacionais que conduziam os Planos sob sua supervisão, foi o estabelecimento de propriedades e sedes locais durante a Cruzada Mundial: como as metas do Plano de Dez Anos envolviam a aquisição tanto de Hazíratu'l-Quds Nacionais como de propriedades nacionais, ele havia instruído as Assembléias de que os desembolsos a nível local não deveriam mais esgotar os tão limitados recursos da Fé, que já ombreava tão pesado programa. Não tivesse ele especificado isso, as metas principais nunca teriam sido atingidas; mas, no verão de 1957, numa carta a uma das Assembléias Regionais da África, seu secretário escreveu: "Agora que o trabalho em toda parte do mundo bahá'í está progredindo tão notavelmente e, para todos os fins, os Hazíratu'l-Quds e propriedades nacionais já foram adquiridos, ele acha que os amigos devem estar livres para aumentarem o número de Hazíratu'l-Quds e propriedades em qualquer parte que desejarem."

Foi com métodos como estes que o Guardião havia conseguido, muito antes de seu falecimento, edificar a Administração da Fé em toda parte do mundo e fazer dela uma organização internacional de tão eficiente funcionamento. Jamais haveria ele realizado isto durante seu tempo de vida, se não tivesse possuído tão extraordinário senso de proporção. Ele sempre sabia onde podia ceder diante da pressão de eventos sem prejudicar a Fé e quando deveria insistir que certo princípio fosse seguido meticulosamente, pois não fazer isso, colocaria em risco uma questão fundamental. Tomemos os dois extremos que encontramos em suas instruções em várias ocasiões, ambos tratando do mesmo assunto - Convenções Nacionais. Numa ocasião, quando lhe foi apresentada uma sugestão pela Assembléia americana, de que, em vista da necessidade imperativa de economia, deixassem de realizar uma Convenção naquele ano, 1932, fazendo a eleição por correspondência, ele telegrafou: "Vantagens espirituais provenientes das deliberações dos delegados reunidos em Convenção superam considerações financeiras. Aconselho eliminarem despesas desnecessárias." Em outra ocasião, quando inaugurou o primeiro Plano de Sete Anos dos bahá'ís norte-americanos através de um cabograma dirigido à Convenção de 1937, enquanto ela estava reunida em sessão, apelou aos delegados para prolongarem a convenção a fim de terem tempo para a consideração dos detalhes desse Plano que tinham que formular e iniciar. Na ocasião, entretanto, em que instruiu a Austrália e a Nova Zelândia a formarem seu Corpo Nacional em conjunto, em 1934, ele deve ter estado perfeitamente ciente do fato de que, em vista da grande distância que separava os dois países, dispendiosa para transpor, a Assembléia poderia ter dificuldade em realizar suas reuniões. Ele evidentemente considerava as vantagens que superavam as desvantagens; os bahá'ís da Austrália e a da Nova Zelândia tiveram uma Convenção em 1934, uma em 1937 e uma em 1944 - três em dez anos; realizaram a maior parte de seu trabalho por correspondência, com um quorum funcionando na Austrália para emergências. Este exemplo, tão completamente diferente do conselho aos bahá'ís americanos, revela como Shoghi Effendi, através de sua sabedoria e juízo, pôde promover o desenvolvimento da Fé tão rapidamente, nunca permitindo que considerações de importância menor lhe criassem obstáculos ou frustrassem o propósito. De importância primária - logo que tivessem estabelecido uma base razoável para sua eleição - era a formação de novas Assembléias Nacionais; era desejável que se realizassem Convenções anualmente, que o maior número possível de delegados participasse delas, que a Assembléia se reunisse o mais freqüentemente possível para consultas, mas não era fundamental; a meta poderia ser alcançada por outros meios, se fosse necessário.

Outro exemplo típico do maravilhoso equilíbrio que Shoghi Effendi expressava em todas as suas opiniões, é o que transparece em sua atitude para com o assunto dos fundos da Fé. Providências para a manutenção da Causa de Deus haviam sido tomadas pelo próprio Bahá'u'lláh e mencionadas por 'Abdu'l-Bahá em muitas ocasiões; mas foi só em 1923 que Shoghi Effendi começou a lançar os alicerces para a manutenção financeira sistemática do trabalho. Em 12 de março daquele ano, ele escreveu uma carta geral dirigida "Aos bem-amados do Senhor e servas do Misericordioso em toda a América, em toda parte da Grã Bretanha, da Alemanha, da França, da Suíça, da Itália, do Japão e da Australásia", na qual dizia: "Como o progresso e a expansão das atividades espirituais depende e é condicionado a meios materiais, é de absoluta necessidade que, imediatamente após o estabelecimento de Assembléias Espirituais locais bem como nacionais, seja inaugurado um Fundo Bahá'í... É a sagrada obrigação de todo servo consciencioso e fiel de Bahá'u'lláh, que deseja ver Sua Causa progredir, contribuir livre e generosamente para o aumento desse Fundo." Em 6 de maio, ele escreveu à Assembléia Nacional, ampliando o assunto, afirmando que, para reforçar a campanha de ensino de tão vital necessidade que ela estava empreendendo, e de levar avante, de modo apropriado e eficiente, as múltiplas atividades que eram a responsabilidade da Assembléia Nacional, era "urgentemente necessário estabelecer aquele Fundo Central, o qual, se for generosamente sustentado e mantido pelos amigos individuais e pelas Assembléias Locais, breve capacita-los-á a executar seus planos com presteza e vigor". Numa carta em outubro daquele mesmo ano, sua profunda preocupação com o trabalho que os crentes tão urgentemente precisavam empreender após o falecimento do Mestre é refletido nestas palavras: "a Causa que está hoje em grave necessidade de ajuda e assistência materiais."

Por um lado estava evidente que em hipótese alguma a Ordem redentora de Bahá'u'lláh poderia ser estabelecida sem grandes despesas financeiras e, por outro lado, havia dois princípios que Shoghi Effendi se sentia compelido a levar à atenção dos bahá'ís, os quais, se não corretamente compreendidos e devidamente esclarecidos, poderiam impedir a tão necessária entrada de contribuições para os vários Fundos da Fé. O primeiro era que, como os bahá'ís haviam recebido a graça de conhecer e aceitar Bahá'u'lláh neste novo grande dia e, portanto, se tornaram Seu povo, e tiveram o privilégio de construir seu Reino Divino na terra, eles é que deveriam transmitir livremente aos seus semelhantes os benefícios que isto lhes trouxera; não se pode primeiro pedir às pessoas que paguem por uma coisa - neste caso, todas as múltiplas instituições da Fé Bahá'í - e então oferecê-la a eles de presente! Shoghi Effendi tornou isso bem claro já em 1929: "Sinto que deveríamos considerar como axioma e princípio orientador da administração bahá'í que, na condução de cada atividade bahá'í específica... somente aqueles que já se tenham identificado com a Fé e sejam considerados seus declarados e incondicionais defensores é que deveriam ser convidados a participar e colaborar. Pois além das complicações embaraçosas que a participação de não-bahá'ís no financiamento de instituições de caráter estritamente bahá'í podem possivelmente engendrar... deve-se lembrar que essas instituições especificamente bahá'ís, as quais devem ser vistas como dádivas de Bahá'u'lláh concedidas ao mundo, podem funcionar da melhor maneira e exercer sua máxima influência no mundo somente se forem edificadas e mantidas exclusivamente com o apoio daqueles que estão plenamente conscientes das reivindicações inerentes à Revelação de Bahá'u'lláh e a estas se submetam sem reservas." Este era o grande princípio espiritual em questão. O princípio prático, material, que poderia causar "complicações embaraçosas", era que, caso se aceitasse dinheiro de não-bahá'ís para escolas bahá'ís, Templos bahá'ís e outras instituições bahá'ís, inclusive as muitas atividades empreendidas por Assembléias, haveria o risco de esses benfeitores, quer governos ou indivíduos, sociedades ou filantropos, se acharem no direito de acompanhar aonde seu dinheiro era utilizado e de opinar na condução de assuntos puramente bahá'ís. Como isso era obviamente impossível, o Guardião afirmou que os bahá'ís só podem aceitar dinheiro de não-bahá'ís para fins puramente humanitários, tais como caridade, para despender com pessoas de todas as origens raciais e religiosas, e não somente para bahá'ís.

O segundo, e o que, numa mensagem de 1926, à Assembléia Nacional americana, ele chamou de "o princípio cardeal", era "que todas as contribuições ao fundo devem ser de caráter pura e estritamente voluntário. Deve ficar claro e evidente a todos que qualquer forma de compulsão, embora sutil e indireta, golpeia a própria raiz do princípio em que se fundamenta a formação do fundo desde o seu início". Esta instrução era conseqüência lógica da atitude da Fé Bahá'í de que a mensagem do Manifestante de Deus neste dia é o seu gracioso presente aos povos do mundo; que todos os homens foram chamados por Ele a entrar no Aprisco Divino e que, ao assim fazer, não lhes é exigido dinheiro, mas sim fé. Ao contrário de tantas igrejas, não havia taxa de inscrição, nenhuma obrigação a pagar, nenhum lugar no Templo para ser comprado, nenhuma contribuição compulsória. Os pobres podiam encontrar um refúgio e os ricos, bem-vindos em iguais condições.

Além desses dois princípios, qual era a obrigação dos bahá'ís em relação ao fundo? Havia uma grande e inequívoca obrigação a apoiar, pois Shoghi Effendi deixou bem claro: "Prover os fundos", escreveu ele à Assembléia americana, em 1935, "em apoio à Tesouraria Nacional, constitui atualmente o sangue vital daquelas instituições nascentes que vocês estão trabalhando para erigir. Sua importância obviamente não pode ser menosprezada". Na mesma mensagem, ele disse que o Fundo Nacional era a própria "fundação sobre a qual todas as outras instituições devem se apoiar e se estabelecer". Ele disse que o fundo "deveria ser cada vez mais apoiado por todo o corpo de crentes, tanto em suas capacidades individuais como em seus esforços coletivos, sejam eles grupos ou Assembléias". Como norma e exemplo, por um período de mais de um terço de século, o Guardião educou os bahá'ís para compreenderem, de um modo apropriado, o que significa ter um Fundo Bahá'í, apóia-lo e usá-lo. É um assunto dos mais fascinantes; tal como o coração impulsiona o sangue através das artérias e capilares do corpo para dar vida a cada célula individual, os Fundos Internacional, Nacional e Local levam ao corpo inteiro dos crentes todos os benefícios que suas contribuições podem lhes proporcionar. As instituições internacionais proclamam o renome e criam o coração de uma Comunidade Mundial; instituições nacionais, Templos Bahá'ís, escolas de verão, propriedades, institutos de ensino, literatura, boletins informativos, desempenham a mesma função na escala nacional; e os Fundos Locais capacitam os crentes a terem locais de reuniões, levarem avante suas atividades de ensino e promoverem os interesses da Fé nas cidades, vilas e aldeias.

Shoghi Effendi deixou claro que um dos deveres e privilégios de ser seguidor de Bahá'u'lláh era apoiar Seu trabalho neste mundo. Deixou claro, também, que o princípio de dar é mais importante do que a quantia que se dá; uma moeda de uma pessoa pobre, que para ele e sua família pode representar um verdadeiro sacrifício, é tão preciosa quanto necessária e uma contribuição tão respeitável quanto centenas ou milhares de dólares que um bahá'í mais rico pode oferecer. Sempre mais e mais ele enfatizava estes dois pontos: universalidade em dar, a participação de todos como um símbolo de nosso amor comum e solidariedade em nossa Fé, e sacrifício em dar. Na época em que o Templo-Mãe do Ocidente tinha necessidade urgente de contribuições para que sua estrutura fosse erigida, o Guardião escreveu: "Não se pode negar que as emanações de poder espiritual e inspiração destinados a irradiar do edifício central do Mashriqu'l-Adhkár dependerão largamente da magnitude e variedade dos crentes que contribuem, bem como da natureza e do grau de abnegação de suas ofertas voluntárias." É difícil para uma pessoa rica fazer sacrifício porque ela tem muito; mas para uma pessoa pobre é mais fácil fazer sacrifício, porque ela tem muito pouco. O dinheiro ofertado para a Causa com sacrifício por parte de qualquer doador é acompanhado de uma bênção especial.

Isto me faz lembrar de um exemplo desse dar pelo pobre e humilde no Reino de Deus a que o próprio Guardião se refere em A Presença de Deus: "... a cena tocante desenrolada ao receber 'Abdu'l-Bahá das mãos de um amigo persa, recém-vindo a Londres, procedente de Ishqábád, um lenço de algodão contendo um pedaço de pão negro ressequido e uma maçã murcha - oferenda de um trabalhador bahá'í pobre daquela cidade - e abri-lo na presença dos hóspedes reunidos, não tocando em seu almoço, partindo em pedaços aquele pão, que comeu e distribuiu entre os presentes." O primeiro Templo Bahá'í, construído na Rússia, o Templo-Mãe do Ocidente na América, e as outras três Casas de Adoração da Europa, África e Austrália, foram todos construídos com contribuições dos crentes de todas as partes do mundo, muitas das quais representam verdadeiro sacrifício da parte de bahá'ís, homens, mulheres e mesmo crianças.

Desde o início de suas instruções a respeito da necessidade de constituir um Fundo Nacional e criar Fundos Locais, num cabograma de 1923, Shoghi Effendi deixou bem claro outro princípio fundamental a respeito de doações: "Os indivíduos estão livres para especificar o destino de suas doações. Porém princípio geral contribuições, livres e freqüentes, por indivíduos e Assembléias Locais ao Fundo Central para distribuição critério Assembléia Nacional altamente recomendado." Resumidamente e com simplicidade, como de costume, ele colocava tudo em seu devido lugar; os fundos da Assembléia - Nacional ou Local - precisavam ser livre e freqüentemente apoiados, mas o princípio da liberdade individual, tão inerente à Fé, também era frisado.

O próprio Shoghi Effendi repetidamente apoiava diversos empreendimentos em diferentes países. Logo depois do passamento do Mestre, ele começou a contribuir para o Templo americano; em 1957, anunciou que ele mesmo arcaria com um terço dos custos da construção dos três novos Templos Bahá'ís a serem erigidos durante a Cruzada Mundial; ele apoiou grande parte das traduções e impressões de livros bahá'ís, contribuiu para cemitérios bahá'ís e aquisição de várias sedes bahá'ís e inúmeras outras atividades. Ao fazer isso, ele dava exemplo a todos os crentes e todas as instituições bahá'ís em contribuir e participar, juntamente com os outros, na alegria de levar os planos da Causa de Deus à frutificação. Sua total franqueza em tais assuntos, sua confissão de que algumas vezes não tinha o dinheiro necessário para algumas coisas que desejava fazer para a Causa, as palavras tocantes com as quais mandou uma pequena quantia para o Templo americano: "Suplico que incluam minha humilde contribuição de 19 libras como meu quinhão das numerosas contribuições que chegaram à tesouraria do Templo no ano passado", tudo isso fornecia não só um exemplo, mas um verdadeiro encorajamento para os crentes, ricos ou pobres, a seguirem seus passos, felizes por terem tais passos para seguir.

Em seu constante encorajamento dos bahá'ís para se levantarem e difundirem sua Fé entre as espiritualmente famintas multidões, o Guardião freqüentemente os fazia lembrar da injunção do próprio Bahá'u'lláh: "Concentrai vossa energias na propagação da Fé de Deus. Qualquer um que for digno de tal chamado, que se levante e a promova. Quem não puder fazê-lo, é seu dever indicar aquele que proclame esta Revelação em seu lugar..." e dizia que aqueles que não podiam ir e se estabelecer naqueles lugares em que havia necessidade urgente de bahá'ís, deveriam, atentos a estas palavras de Bahá'u'lláh, "decidir... indicar um delegado que, em nome daquele crente, levantar-se-á e se encarregará de tão nobre empreendimento". Em mais de uma ocasião, ele próprio, por intermédio de uma Assembléia Nacional, deputou bahá'ís para cumprirem metas específicas.

O Guardião deu aos bahá'ís do mundo aquilo que, para mim mesma, eu gosto de chamar de diretrizes de pensamento, diferentes temas em diferentes campos. Para usar uma metáfora conhecida, mas visual, eles eram como os trilhos de uma ferrovia sobre os quais corriam certos trens; é o trilho que mantém o trem em seu caminho e o faz chegar ao seu destino. Alguns desses temas principais devem ser lembrados se quisermos obter uma verdadeira apreciação do trabalho de uma vida inteira de Shoghi Effendi e investigar como ele conseguiu erguer as nascentes instituições de uma futura sociedade mundial.

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Linhas Diretrizes

Não se pode alcançar a devida compreensão da evolução da Causa de Deus a não ser que sejam esclarecidas certas verdades fundamentais nela encerradas. 'Abdu'l-Bahá expôs uma destas quando escreveu: "Desde o princípio do tempo até o presente, a luz da Revelação Divina tem surgido no Oriente e se irradiado sobre o Ocidente. A iluminação assim emitida, entretanto, tem adquirido um brilho extraordinário no Ocidente." Esta foi a exposição de um princípio geral comum ao fenômeno da religião neste planeta mas, nesta Dispensação Bahá'í, a clara e específica operação deste princípio tem sido exposta aos nossos olhos durante um período de mais de cento e vinte e cinco anos. Em seu primeiro e mais poderoso livro, o Qayyúmu'l-Asmá, o Báb convocara os povos do Ocidente a saírem de suas cidades e assegurarem o triunfo de Sua Causa. Bahá'u'lláh, em Seu Livro Sacratíssimo, o Kitáb-i-Aqdas, havia Se dirigido aos governos do continente americano, exortando-os a se levantarem e responderem ao Seu Chamado. Ao ímpeto liberado por essas primeiras pronunciações divinas dos Manifestantes Gêmeos de Deus para esta era, foi acrescentada a especial atenção pessoal do Centro do Convênio. Desde o tempo imediatamente após a ascensão de Bahá'u'lláh, quando se fez a primeira menção dEle na Exposição Columbiana Mundial em Chicago, em 1893, a América do Norte foi acariciada pelas ondas de emanações divinas da pena e da pessoa de 'Abdu'l-Bahá e, mais tarde, pelas incessantes diretrizes e pelo encorajamento de Shoghi Effendi. O Guardião informou-nos que o Plano Divino de 'Abdu'l-Bahá obtivera sua inspiração das próprias palavras de Bahá'u'lláh no Kitáb-i-Aqdas e em boa parte foi o resultado do contato direto de 'Abdu'l-Bahá com os crentes americanos e canadenses no curso de Suas viagens através da América do Norte.

A combinação do amor do Pai pelo primogênito, pela primeira nação do Ocidente a responder à Sua Mensagem, e a própria vitalidade do Novo Mundo parece, de um modo misterioso e belo, ter investido os bahá'ís norte-americanos de uma posição e de poderes sem paralelo na história. O próprio Mestre conferiu-lhes o título de "Apóstolos de Bahá'u'lláh" e eles se tornaram "o objeto", escreveu Shoghi Effendi, "da terna solicitude de 'Abdu'l-Bahá... o centro de Suas esperanças, o receptáculo de Suas promessas e alvo de Suas bênçãos". Durante todo o ministério de Shoghi Effendi, eles recebiam afeto e encorajamento iguais aos que o Mestre lhes havia conferido tão abundantemente - de fato, era a continuação daquele mesmo amor e atitude. O Guardião se referiu a eles como a "incansável Comunidade Bahá'í norte-americana, que avançava irresistivelmente, desenvolvendo-se majestosamente", como o "berço e a cidadela" da Ordem Administrativa, "eleita pelo Onipotente para tão incomparável medida de favor". Em suas inumeráveis cartas, muitas vezes se dirigia a eles como seus "mais prezados e mais amados irmãos", tão "ternamente amados, ricamente dotados, destemidamente resolutos". Eles foram investidos por 'Abdu'l-Bahá, disse ele, de "primazia espiritual" e eram "os designados e principais responsáveis" por aquele Plano Divino "divinamente concebido e de âmbito mundial", o que lhes conferia uma missão mundial, o "sagrado direito inato dos seguidores americanos de Bahá'u'lláh". Mais ainda, não eram apenas os executores do Mandato encerrado naquele Plano, mas os "Executores do Testamento de 'Abdu'l-Bahá" e, por causa desses fatores, eram os "construtores campeões da Ordem embrionária de Bahá'u'lláh" e os "portadores de tochas de uma civilização mundial" e os "privilegiados autores e custódios da constituição da própria Fé de Bahá'u'lláh". Em sua observação relativa ao cumprimento das verdades encerradas nos Ensinamentos, Shoghi Effendi assinalou que houvera forças operando, "as quais, por uma extraordinária oscilação do pêndulo, fizeram com que o centro administrativo da Fé se desviasse de seu berço e gravitasse para as plagas do continente americano". "Os crentes americanos, precursores da Idade Áurea, tornavam-se agora dignos sucessores de seus irmãos persas, que na Idade Heróica da Fé ganharam a coroa do martírio"; haviam se tornado os "descendentes espirituais dos heróis da Causa de Deus". Era seu destino, o destino dessa comunidade "muito amada", "magnânima e valente", "escolhida por Deus", esse "braço invencível, esse órgão poderoso" da Fé, enquanto prosseguia sua "missão incomparável", "ser aclamada como o criador e o construtor-mor da Ordem Mundial de Bahá'u'lláh."

O surgimento da Comunidade Bahá'í americana foi, na opinião de Shoghi Effendi, um dos mais nobres episódios do primeiro século da Fé; seu desenvolvimento foi diretamente devido à operação do Testamento do Mestre. O que o Guardião, com a intensa humildade que lhe era característica, deixou de acrescentar foi que sua própria implementação do Testamento, sua fidelidade às suas cláusulas e a aplicação das diretrizes nele encerradas efetivaram isso.

Numa das primeiras cartas que escreveu na qualidade de Guardião, dirigida à Assembléia Espiritual de Nova York em 1923, Shoghi Effendi expõe, em poucas palavras, sua atitude para com a América, atitude esta que nunca foi alterada até o fim de sua vida: "Consciente das claras e enfáticas predições de nosso bem-amado Mestre relativas ao papel predominante que o Ocidente está destinado a desempenhar durante as primeiras etapas do triunfo universal do Movimento, sempre, desde Seu falecimento, tenho volvido os olhos, esperançoso, cheio de expectativas, para as longínquas costas desse continente..." "Quantas vezes", escreveu ele à Assembléia Nacional americana naquele mesmo ano, "tenho desejado e ansiado por estar mais perto do campo de suas atividades e assim poder manter mais constante e estreito contato com todo detalhe dos múltiplos e sumamente importantes serviços que estão prestando".

Uma relação de mútua confiança e ternura desenvolveu-se entre o jovem Guardião e aqueles que ele chamava "os filhos de 'Abdu'l-Bahá" desde o primeiro momento em que souberam que ele fora nomeado o sucessor do Mestre. Ao serem promulgadas as provisões de Seu Testamento, após sua leitura oficial em 7 de janeiro de 1922, o Corpo Nacional, ainda conhecido como "Unidade do Templo Bahá'í" ou "Comissão Executiva", enviou-lhe o seguinte cabograma, em 20 de janeiro: "América regozija-se nomeação oferece-vos seus devotados serviços cooperação." Ambos eram jovens, o Guardião e a comunidade americana, e há algo profundamente comovedor na maneira como eles cresceram juntos, em seu ministério. Após seu colapso e retirada por algum tempo durante 1922, ele telegrafou à América em 16 de dezembro, depois de seu regresso a Haifa: "O avanço da Causa não foi, nem poderá ser jamais detido. Peço ao Todo-Poderoso que meus esforços, agora renovados e confiantes, possam, com seu constante apoio, levá-la à gloriosa vitória." A Assembléia Nacional respondeu no dia 19: "Sua Mensagem refrescou e revivificou cada coração como o renovado funcionamento do corpo da unicidade que o poder de uma unidade constante na América seja sua ajuda sempre presente nosso amor devotada lealdade cooperação e votos de felicidade."

Numa de suas primeiras cartas a eles, revelando o estado de sua mente e o começo das coisas, com o seguinte título: "Aos membros da Assembléia Espiritual Nacional, os representantes eleitos de todos os crentes de toda parte do continente americano", com data de 23 de dezembro de 1922 e seguida pelos seus nove nomes, Shoghi Effendi diz, entre outras coisas: "... A maneira eficiente com que levaram a efeito minhas humildes sugestões foi causa de grande encorajamento para mim e revivificou confiança em meu coração. Li e reli os relatórios de suas atividades, estudei minuciosamente todos os passos dados para consolidação dos alicerces do Movimento na América, e soube com imensa satisfação dos planos que estão considerando para a promoção da Causa em vosso grande país..." Ele não está apenas aguardando, ele assegura, "todas as jubilosas notícias sobre o aprofundamento bem como a propagação da Causa pela qual nosso bem-amado Mestre deu Seu tempo, sua vida e seu tudo", mas está se lembrando de seus "labores de amor e serviço todas as vezes que deito minha cabeça nos Sagrados Limiares". Ele assina: "Seu irmão em Seu serviço."

Devemos ter sempre em mente que foi esta sua primeira parceria com a América, inerente ao destino da Fé, que levou ao estabelecimento e crescimento da Ordem Administrativa no mundo inteiro. A matriz dessa Ordem foi aperfeiçoada na América, embora já tivesse existido, em forma embrionária, nos dias de 'Abdu'l-Bahá. Shoghi Effendi, desde o começo em 1923, quando escreveu: "Asseguro-lhes novamente minha prontidão e desejo de ajudar e servir àqueles fiéis e devotados servos de Bahá'u'lláh nessa terra", nunca mudou de atitude. Em 1939, escreveu: "Eu, de minha parte, estou determinado a reforçar o impulso que impele seus membros para diante ao encontro de seu destino."

Na ocasião da ascensão de 'Abdu'l-Bahá, os bahá'ís norte-americanos estavam atravessando uma crise de violação do Convênio. O golpe de Seu falecimento, a onda de agonia e desespero que lhes sobreveio, foi sucedida por uma onda de esperança e amor quando fixaram a vista em seu jovem Guardião. Ajuda depende de dois fatores: alguém que precisa de ajuda e está pronto a recebê-la, e alguém que deseja e pode ajudar. Shoghi Effendi começou a guiar ativamente a América, achando-a responsável e ansiosa, desde o início de seu ministério. À Convenção de 1923, ele telegrafou "que a Convenção deste ano possa... inaugurar uma campanha de ensino sem precedentes, é, em verdade, minha ardente prece. Que isto seja a mensagem do Ridván: unir, aprofundar, levantar." O capitão colocara a mão no leme. Em toda tempestade, em águas calmas, em anos de provação e vicissitude, na guerra e paz, na juventude, na maturidade, até o fim de sua vida, Shoghi Effendi nunca cessou de guiar, atender, amar, aconselhar e animar essa "preeminente comunidade do mundo bahá'í", uma comunidade que, escreveu ele certa vez, "fora escolhida pelo Onipotente para tão incomparável quinhão de favor... distinguida de suas comunidades irmãs pela revelação de um Plano que emanou diretamente do intelecto e da pena de seu Fundador", "reconhecida como a inexpugnável cidadela da Fé de Deus e o berço das nascentes instituições de sua Ordem Mundial", "cuja elevação ao trono do domínio eterno o Centro do Convênio confiantemente antecipara."

"Sempre que", escreveu Shoghi Effendi a uma das Assembléias Locais da América, em 6 janeiro de 1923 - um ano após a leitura do Testamento de 'Abdu'l-Bahá - "eu recordo as mensagens de amor, de confiança e de esperança que nosso Bem-Amado expressava em termos tão calorosos em Suas inumeráveis Epístolas aos amados amigos da América, sinto que, cedo ou tarde, o segredo desse ilimitado amor deve aparecer e esse grande continente tão próximo e tão querido de Seu coração, breve haverá de se desabrochar inteiramente para a Glória de Sua Revelação."

É absolutamente impossível separar o surgimento da Ordem Administrativa em todo o mundo da evolução da Comunidade Bahá'í norte-americana e especialmente dos crentes dos Estados Unidos, porque os dois processos são praticamente um só e a mesma coisa. Com raras exceções, durante trinta e seis anos, o padrão em assuntos administrativos, as grandes diretrizes relativas ao ensino, os conceitos e planos modeladores do mundo, transmitidos nas cartas gerais do Guardião, eram dirigidos a essa comunidade, publicados por ela ou colocados em ação por seu intermédio. Isso não quer dizer que o Guardião deixasse de dar atenção à Pérsia e às outras comunidades bahá'ís; longe disso. Ele mantinha uma relação independente, intensamente pessoal e afetuosa com cada uma delas, estabelecida com as comunidades mais antigas na mesma época que com a América, nunca tendo sido diminuída nem negligenciada no decorrer dos anos, mas, ao contrário, tendo crescido em âmbito e intensidade com o passar do tempo. Ele era sempre o Guardião de cada um. Mas o corpo de fiéis da América do Norte, de acordo com as misteriosas manobras da Providência, era encarregado de responsabilidades sem paralelo, e receptáculo de honras incomparáveis. Em América and the Most Great Peace [América e a Suprema Paz], obra escrita em 1933, Shoghi Effendi expõe a posição da América em termos inequívocos: da angústia subseqüente ao falecimento do Mestre, escreveu ele, "nasceu a Administração da invencível Fé de Bahá'u'lláh". A ascensão de 'Abdu'l-Bahá liberou "energias potentes", as quais "se cristalizaram nesse Órgão Supremo, infalível, para a realização de um Desígnio Divino". A Última Vontade e Testamento de 'Abdu'l-Bahá havia esclarecido seu caráter e suas provisões, a América esposara a causa da Administração: "Ela, e somente ela, foi destinada... a se tornar a destemida campeã dessa Administração, o pivô de suas instituições recém-nascidas e o principal promotor de sua influência."

Administrador inato, dotado de uma mente e um temperamento invariavelmente metódicos e organizados, Shoghi Effendi tomou o encargo de dispor os assuntos da Fé de uma maneira altamente sistemática. Durante os dois ou três primeiros anos ele mantinha listas de suas cartas, antes de se tornar impossível organizá-las assim devido ao volume de sua correspondência, seus problemas, sua fadiga e falta de auxiliares adequados. Destas listas, deduzimos que ele escrevia aos seguintes lugares: América, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Japão, Mesopotâmia, Cáucaso, Pérsia, Turquistão, Turquia, Austrália, Suíça, Índia, Síria, Itália, Birmânia, Canadá, Ilhas do Pacífico, Egito, Palestina, Suécia e Europa. Escrevia também a muitos centros isolados, na América, na Europa, no Oriente Médio e no Extremo Oriente. Ele lista sessenta e sete destas no período de 1922-1923, oitenta e oito durante o período de 1923-24 e noventa e seis no de 1924-25. Ele estendia as mãos, muitas vezes provavelmente tremendo literalmente de choque e enfermidade, e segurando as rédeas do governo no vasto reino de Bahá'u'lláh, do qual se tornara herdeiro em 1921.

A grande maioria dos bahá'ís residia ainda na Pérsia e nos territórios vizinhos; havia na América do Norte uma comunidade pequena, mas igualmente leal e devotada, algumas ainda menores na Europa, na África, no subcontinente indiano e na região do Pacífico. A maior parte desses crentes - inclusive alguns dos membros da própria família de 'Abdu'l-Bahá - estava longe de ter um conceito claro daquilo que a Fé representava, não tinha idéia da forma que iria tomar, segundo as instruções do Mestre em Seu Testamento, e, ainda menos, uma compreensão verdadeira de sua Ordem Administrativa. Embora existissem corpos chamados Assembléias Espirituais, muitas vezes eram chamados por outros nomes também e seu modo de se constituir e de funcionar era freqüentemente vago, assemelhando-se muito pouco àquilo que agora entendemos como uma Assembléia Espiritual. O Corpo Nacional da América, que de alguma forma havia existido desde 1908, era conhecido como "A Unidade do Templo Bahá'í"; foi incorporado em 1909 e possuía uma "Junta Executiva"; além dos delegados à Convenção Nacional, havia "delegados substitutos"; a Assembléia de Chicago era conhecida como "A Casa de Espiritualidade dos Bahá'ís de Chicago", tendo, em certa época, nove membros e dois "membros consultivos"; em Nova York havia nove pessoas conhecidas como "A Junta Consultiva" do distrito metropolitano de Nova York; os bahá'ís de uma cidade da Califórnia escreveram a Shoghi Effendi que haviam eleito um comitê de doze pessoas como sua Assembléia Local; embora por mais de uma década antes do falecimento de 'Abdu'l-Bahá tivessem realizado eleições, os assim chamados corpos administrativos eram irregulares em sua formação e funcionamento, embrionários no mais verdadeiro sentido da palavra; a situação na Pérsia não só era igualmente confusa, mas, além disso, a grande massa amorfa de crentes era tão perseguida e oprimida que foram necessários alguns anos para o Guardião poder transformar seu caos em alguma espécie de ordem; outros países, de igual modo, desconheciam os princípios da Ordem Administrativa da Causa. Os bahá'ís britânicos haviam formado espontaneamente, em 1922, um "Conselho Bahá'í" para promover assuntos nacionais; a Índia tinha alguma forma de Assembléia Nacional, pois, em 1923, Shoghi Effendi diz que, embora a Birmânia tivesse seu próprio "Conselho Central", está, no entanto, sob a jurisdição da "Assembléia Nacional Pan-Indiana"; em 1921, a Alemanha realizara uma Convenção Nacional, mas um corpo nacional foi eleito somente em 1922. Durante os primeiros anos do desenvolvimento da administração, os assuntos dos bahá'ís na Pérsia, no Cáucaso e no Turquistão eram administrados em cada área por uma proeminente Assembléia Local que desempenhava as funções de uma Assembléia Nacional ou um Conselho Nacional, até que se pudesse realizar uma Convenção Nacional representativa e livre. Foi até este ponto que 'Abdu'l-Bahá, antes de Seu falecimento, e Shoghi Effendi e os bahá'ís, imediatamente após Seu falecimento, haviam levado a recém-nascida Administração Bahá'í. Em 1922 não pode ter havido, em todo o mundo bahá'í, mais de um corpo - o americano - que de longe se parecesse com uma Assembléia Nacional, eleita nacionalmente, assim como nós hoje a conhecemos.

Essa massa dispersa, heterogênea, desorganizada, porém leal, dos crentes do mundo inteiro, tinha outros obstáculos a serem vencidos. Os amigos persas, embora plenamente conscientes do caráter completamente independente de sua Fé - independência pela qual eles haviam irresistivelmente sacrificado suas vidas - não haviam ainda, entretanto, conseguido livrar-se completamente de certos costumes e males nacionais que estavam em completo desacordo com os ensinamentos de seu Fundador. Existia ainda uma área de penumbra em que conviviam com os costumes do Islã e os muitos abusos aos quais seu gradativo declínio levara no decorrer dos séculos. O princípio da monogamia não era estritamente praticado nem devidamente compreendido; o uso de bebidas alcoólicas era ainda geral; o fato de haver Bahá'u'lláh proibido categoricamente os narcóticos, não tinha sido plenamente entendido, numa terra em que predominava cada vez mais o uso pernicioso do ópio e de outros entorpecentes. No Ocidente, especialmente na América, onde se encontrava o maior grupo de seus seguidores ocidentais, os bahá'ís, por mais ligados que estivessem a esta nova Fé que haviam aceito, estavam ainda enredados por afiliações com igrejas e várias sociedades, o que só servia para dissipar seus recursos extremamente limitados, desperdiçar sua capacidade para atividade unida e concentrada pela Causa de Deus e enfraquecer quaisquer reivindicações que pudessem fazer, relativas a seu caráter independente. Nem no Oriente nem no Ocidente os bahá'ís tinham bem claro em suas mentes o quanto deveriam evitar quaisquer afiliações e atividades políticas. Shoghi Effendi atacou essa condição um tanto nebulosa do mundo bahá'í de duas maneiras. A primeira foi criar um método universal, consistente e coerente de se viver a vida da comunidade bahá'í e organizar seus assuntos com base nos Ensinamentos e na elaboração que o Mestre fizera deles; e a segunda foi a de educar os crentes numa compreensão dos objetivos e das implicações de sua religião e das verdades nela encerradas.

O gênio de Shoghi Effendi para a organização - uma de suas mais fortes características, sem dúvida divinamente criada nele, para preencher as necessidades da Idade Formativa da Fé - tornou-se cada vez mais manifesto e um sistema uniforme de Assembléias Nacionais e locais foi rápida e cuidadosamente edificado por ele no mundo inteiro. O primeiro passo foi conseguir que o corpo nacional da América fosse devidamente denominado e eleito como tal. Imediatamente depois de serem anunciadas as provisões do Testamento de 'Abdu'l-Bahá, um grupo de proeminentes bahá'ís americanos seguiu para Haifa a fim de visitar os Santuários e seu Guardião. Um destes, Corinne True, relata a Shoghi Effendi, numa carta escrita em 4 de maio de 1922, que: "O espírito da Convenção foi muito maravilhoso e uma nova era na Causa Bahá'í foi inaugurada em conseqüência de sua carta. Estavam presentes delegados de sessenta e cinco centros de toda parte do Canadá e dos Estados Unidos... tentei apresentar a esses amigos o plano sobre o qual o senhor me havia instruído enquanto eu estava em Haifa... O resultado desta Convenção foi a eleição da 'Assembléia Espiritual Nacional' ou Comissão Executiva... Estes nove homens e mulheres são seus servos em todas as ocasiões, suplicando confirmação ao Centro do Convênio, para que eles possam servi-lo fielmente em todos os afazeres para o avanço da Causa..." A Sra. True, bem como alguns outros dos bahá'ís antigos que haviam recebido instruções de Shoghi Effendi em Haifa durante os primeiros meses de sua Guardiania, foi eleita para esta Assembléia.

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DUAS VISTAS DO MONTE CARMELO

Acima: O Sepulcro do Báb como era logo após o falecimento de 'Abdu'l-Bahá.

Abaixo: A superestrutura completada por Shoghi Effendi, em 1953, de acordo com as instruções gerais do próprio Mestre.

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O DESENVOLVIMENTO DO MONTE CARMELO PROMOVIDO POR SHOGHI EFFENDI

O Sepulcro do Báb entre terraços e jardins, esquerda acima; o alongado Edifício dos Arquivos, com o arco em sua frente e o estilo admirável dos arabescos dos jardins acima dele.

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O SEPULCRO DO BÁB NO MONTE CARMELO

Parte dos jardins e terraços envolvendo a superestrutura do Túmulo do Báb, erguido por Shoghi Effendi.

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EDIFÍCIOS ERGUIDOS POR SHOGHI EFFENDI
Esquerda: Edifício dos Arquivos Internacionais.

Direita: Sepulcro do Báb. A curva é parte do arco, ao redor do qual outros edifícios internacionais serão construídos.

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O GUARDIÃO ESTUDA OS JARDINS

Acima: Shoghi Effendi vê o Sepulcro do Báb do topo do Monte Carmelo.

Abaixo: Ele inspeciona o novo desenvolvimento da área em Bahjí.

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VISTA AÉREA DE BAHJÍ

O grande edifício é a Mansão de Bahá'u'lláh, o telhado pontudo na esquerda é Seu Sepulcro. O extensivo jardim criado por Shoghi Effendi é mostrado de sudoeste a norte. Note que no final do passeio, no canto acima, há um pequeno edifício branco, no qual ele, do telhado, inspecionava o trabalho.

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O TÚMULO DE BAHÁ'U'LLÁH EM BAHJÍ
Acima: Vista da entrada do Sepulcro, 1921.

Abaixo: A majestosa edificação da entrada de Seu Sepulcro, 1957.

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O TÚMULO SACRATÍSSIMO
Acima: O Sepulcro de Bahá'u'lláh em Bahjí.

Abaixo: Alguns dos 96 postes iluminando os jardins do Sepulcro, à noite.

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Em 4 de abril de 1923, Shoghi Effendi telegrafou a essa nova Assembléia Nacional: "Recomendo insistentemente reeleição todas Assembléias Locais primeiro Ridván 21 de abril." As repercussões desta ênfase dada por Shoghi Effendi à necessidade de sistematização e uniformidade nas eleições bahá'ís, bem como à importância de um título apropriado a esses corpos bahá'ís, parecem ter atingido toda parte do mundo bahá'í. Houve em toda parte um movimento universal, constantemente animado e promovido por ele, para eleger Assembléias locais e pô-las em funcionamento segundo os princípios já estabelecidos por 'Abdu'l-Bahá, mas que não haviam recebido atenção suficiente. Apesar desses primeiros esforços para assegurar que as Assembléias fossem realmente formadas, foi uma tarefa que, por muitos anos, Shoghi Effendi teve que perseguir ativamente, pois muitas vezes os amigos descuidavam completamente da eleição ou da reeleição de seu corpo local. Os bahá'ís, desejosos, mas confusos, agradeciam essa orientação de seu Guardião. Enquanto lhes esclarecia as coisas, estas se tornavam evidentemente mais claras para ele também. Em cópias de duas de suas cartas, escritas em dezembro de 1922 a representantes nacionais, encontramos os termos "a Assembléia Nacional Espiritual" e as "Assembléias Locais Espirituais". Mais tarde, ele adotou permanentemente os termos mais descritivos "Assembléia Espiritual Nacional" e "Assembléia Espiritual Local". Naquele mesmo mês, ele havia escrito aos crentes de Paris, França: "Dar-me-ia genuína satisfação e prazer saber do estabelecimento de uma Assembléia Espiritual Local, devidamente constituída, funcionando eficientemente e reconhecida oficialmente pelos membros da grande família bahá'í. Eu os aconselharia insistentemente que, se tal assembléia ainda não foi fundada, que estabeleçam esse centro definitivo e fixo para a Causa, o qual, embora inicialmente possa parecer mera formalidade, não só preencheria uma lacuna de uniformidade na administração do Movimento no mundo inteiro, mas estou certo que também se tornaria um núcleo em volta do qual se reuniriam muitas almas no futuro..." Não é de se admirar que, ao se aproximar dos bahá'ís com tal amor, tato e franqueza, como é demonstrado neste extrato de uma carta que provavelmente deve ter tido muitas semelhantes, Shoghi Effendi encontrasse cooperação universal e, sempre ao receber resposta, fosse rápido a congratular e elogiar. Nesse caso, ele esperou mais de um ano até poder telegrafar a Paris: "Calorosas congratulações por inauguração da Assembléia Espiritual."

Algumas comunidades, incentivadas por 'Abdu'l-Bahá, já haviam estabelecido comitês. A correspondência de 1922 e 1923 entre Shoghi Effendi e a Assembléia Nacional americana mostra que existiam Comitês Nacionais como o de Ensino, Publicações e Revisões, Educação de Crianças, Biblioteca, Estrela do Ocidente, Amizade Racial e Arquivos Nacionais. Ao revisarmos as primeiras medidas e comunicações do Guardião, ficamos atônitos e fascinados quando vemos que tudo o que estava lá no fim de seu ministério havia estado no começo também. Com o passar dos anos, ele ampliava seus pensamentos e elaborava seus temas enquanto ele próprio amadurecia e a Causa o acompanhava, mas estava tudo completo em estado embrionário quando principiou a dirigir os assuntos da Fé. As instruções que ele havia dado aos primeiros corpos e comunidades nacionais eram diferentes das do final de sua vida apenas na qualidade, mas não no tipo. Tomemos por exemplo seu telegrama à Convenção Nacional americana em 1923: "... Nesta hora desafiadora na história da Causa, vocês estão no limiar de uma nova era; as funções que têm a desempenhar estão repletas de imensas possibilidades; as responsabilidades que estão ombreando são sérias e momentosas; e os olhos de muitos povos volvem-se... para vocês, na expectativa de contemplar o alvorecer de um Dia que há de testemunhar o cumprimento de Sua Promessa Divina." Quase trinta e cinco anos de futuros acontecimentos estão contidos nessas curtas frases.

A educação dos bahá'ís nos princípios que sustentam o sistema social de Bahá'u'lláh tornou-se, por muitos anos, a suprema preocupação do Guardião. Os bahá'ís estavam acostumados a acreditar nos Ensinamentos, a tentar difundi-los entre seus semelhantes, a ter pelo menos um grau moderado de vida comunitária através das festas, reuniões e comemorações de seus Dias Sagrados. Não estavam acostumados a trabalhar de uma maneira organizada como membros de uma entidade, no mais verdadeiro sentido da palavra. Também não estavam acostumados a manter aberto o sistema de comunicação dentro da Fé. Shoghi Effendi compreendeu, desde o início, que o trabalho com o qual se defrontava exigia que ele, pessoalmente, tivesse um conhecimento completo de tudo que acontecia nas comunidades bahá'ís no mundo inteiro, da condição de suas atividades e de sua maneira de encarar a edificação do sistema administrativo da Causa. Isso tornou necessária uma estreita correspondência não só com todos os corpos nacionais, mas também com todas as Assembléias Locais; os corpos nacionais eram fracos ou praticamente inexistentes, as Assembléias Locais usualmente ainda mais fracas. Ele achava essencial manter contato com todos eles no Oriente e Ocidente. Em dezembro de 1922, informou à Assembléia Nacional americana: "Eu ficaria satisfeito e grato se pudessem informar todas as várias assembléias espirituais locais o meu desejo de receber, o mais breve possível, de toda assembléia local, um detalhado relatório oficial sobre suas atividades espirituais, do caráter e organização das respectivas assembléias, das suas reuniões públicas e privadas, da posição atual da Causa em suas províncias, de seus planos e providências para o futuro. Peço que transmitam a todas elas meus melhores votos e lhes assegurem meu caloroso apoio em sua nobre tarefa de servir à humanidade." Um ano depois, escreveu à Assembléia Nacional da Alemanha no mesmo teor: "Estou muito desejoso de receber da Assembléia Espiritual Nacional relatórios freqüentes, abrangentes e atualizados sobre a presente posição da Causa na Alemanha inteira, com informações a respeito das atividades dos vários centros bahá'ís recentemente estabelecidos em toda parte desse país."

Seu plano visava não somente colher informações para o Centro Mundial, mas também estimular e animar as oprimidas comunidades orientais, transmitindo-lhes boas-novas de suas comunidades irmãs no Ocidente. Ele tornou isso claro numa carta à Assembléia Local de Nova York, escrita em fevereiro de 1924: "Como já dei a entender em minha primeira carta à Assembléia Espiritual Nacional, terei grande satisfação em receber de cada centro bahá'í, por toda a América, relatórios abrangentes e regulares sobre a posição da Causa e a atividade dos amigos. Terei o prazer de transmiti-los aos amigos em todo o Oriente, os quais, em sua presente hora de desassossego e tumulto, hão de se regozijar, estou certo, ao saberem do constante e pacífico crescimento da Fé em sua terra... aguardando suas jubilosas notícias..."

Esse sistema haveria de funcionar de duas maneiras, assim como ele já escrevera ao "Conselho Nacional" dos bahá'ís britânicos, em dezembro de 1922: "Estou iniciando agora correspondência com cada centro bahá'í local por todo o Oriente e não deixarei de aconselhar e instar aos bahá'ís de toda parte que enviem diretamente por intermédio de suas Assembléias Locais Espirituais as jubilosas notícias do progresso da Causa, na forma de relatórios detalhados regulares, às várias assembléias de seus irmãos espirituais no Ocidente." Ele escreveu aos bahá'ís de Leipzig: "Aguardo carinhosa e ansiosamente suas cartas." Escreveu aos crentes japoneses: "É minha esperança que os amigos no Japão doravante me escrevam cartas freqüentes e detalhadas, relatando suas várias atividades espirituais e dando-me os planos para seus futuros serviços à Causa de Bahá'u'lláh." Aos bahá'ís das Ilhas do Pacífico, escreveu o mesmo. Sentimentos iguais eram expressos repetidas vezes em suas primeiras cartas aos centros locais dos vários países. Mas não foi fácil estimular a resposta concreta que ele queria. Muito de seu tempo, por todo o seu ministério, era passado em lembrar os bahá'ís de seus deveres e suas tarefas. "Esperando relatórios freqüentes abrangentes da Assembléia Nacional", telegrafou à América em 1923. "Nenhuma carta da Assembléia Nacional últimos dois meses", telegrafou-lhes em 1924. "Aguardando ansiosamente relatórios freqüentes detalhados da Assembléia Nacional", telegrafou à Índia em 1925. De modo algum tais lembretes eram raros, sendo mandados a mais de um país.

Em seus corações, os bahá'ís, um grupo de pessoas sinceras e amorosas unidas em torno de Bahá'u'lláh com convicção e confiança, estavam profundamente conscientes de seu laço internacional de unidade em fé. Mas isto não era suficiente. Chegara o tempo de uma consciência dinâmica, eficiente, diária a esse respeito. Além de criar um sistema uniforme de eleições bahá'ís e um fluxo de relatórios e correspondência recíproca, Shoghi Effendi tomou providências para reforçar e revigorar grandemente certas publicações bahá'ís já existentes quando ele se tornou Guardião e que haviam sido estimuladas e apoiadas pelo próprio 'Abdu'l-Bahá. Star of the West [Estrela do Ocidente], revista publicada na América, era a mais antiga e a mais famosa destas. Havia ainda Sun of Truth [Sol da Verdade], publicada na Alemanha, The Dawn [A Alvorada], publicada na Birmânia, The Bahá'í News of India [Notícias Bahá'ís da Índia], publicada naquele país, e Khorshid-i-Khavar, publicada em Ishqábád. A todas estas, Shoghi Effendi dava seu entusiástico apoio. Ele escreveu aos bahá'ís da Síria, em fevereiro de 1923, que deveriam assinar e contribuir para as revistas bahá'ís Star of the West, The Bahá'í News of India e Khorshid-i-Khavar dos crentes russos. O padrão que ele estabeleceu para tais publicações foi eloqüentemente expresso numa carta aos redatores de The Dawn, da Birmânia, escrita dois meses depois: "Universal em sua perspectiva, progressiva e prática nas medidas que recomenda, fiel às suas tradições sagradas e aos princípios da Causa, meticulosa em seus métodos, imparcial em suas opiniões e de estilo elevado e atraente, que possa progredir, resoluta e sem empecilhos, para o cumprimento de seu destino." Durante esses primeiros meses de 1923, ele escreveu ao editor da Bahá'í News of India: "Pedi recentemente aos amigos em toda parte da Pérsia, do Turquistão, do Cáucaso, do Iraque, do Egito, da Turquia, da América, da Grã-Bretanha, da Alemanha, da Síria e da Palestina, que contribuíssem com regularidade ao Bahá'í News of India com relatórios de suas atividades e artigos cuidadosamente escritos sobre assuntos espirituais, na esperança de assim lhe alargar o âmbito e realçar o valor como um dos principais órgãos da comunidade bahá'í no mundo inteiro... Acompanharei toda etapa de seu progresso com interesse esperançoso e não deixarei de contribuir com meu quinhão de ajuda à nobre tarefa que ela se propõe desempenhar." Cartas semelhantes foram mandadas tanto à Alemanha como à América, recomendando as mesmas medidas a respeito de suas próprias revistas bahá'ís. Ele instava repetidamente às diversas comunidades nacionais do mundo bahá'í para enviarem notícias e artigos apropriados a essas várias publicações, a fim de lhes prestar seu apoio, propagar a Fé e inspirar os crentes.

Além disso, Shoghi Effendi inaugurou uma "carta circular que a Assembléia Espiritual Bahá'í de Haifa manda a cada dezenove dias a todos os centros bahá'ís do Oriente inteiro. Isto era em persa. Havia também uma em inglês. "A Assembléia Espiritual que foi estabelecida em Haifa", escreveu ele aos bahá'ís suíços, em fevereiro de 1923, "enviar-lhes-á, regularmente, daqui por diante, as notícias da Terra Santa". Esta Carta Noticiosa de Haifa, meticulosamente examinada pelo próprio Guardião, com material fornecido por ele, continuou a ser emitida até que a Assembléia Espiritual de Haifa foi dissolvida por Shoghi Effendi, quando, em 1938 e 1939, ele dispersou a comunidade local. Medidas como estas tiveram o efeito de uma gigantesca colher com a qual ele mexia vigorosamente toda a comunidade dos fiéis no mundo inteiro, harmonizando, desafiando suas partes componentes a uma maior ação, cooperação e compreensão.

Mas o que era essa Administração - devemos fazer uma pausa e perguntar - que o Guardião trabalhava tão incansavelmente para estabelecer? À medida que evoluísse, disse ele, iria "a um só tempo, encarnar, salvaguardar e promover" o espírito desta Fé invencível. É sem paralelo na história, divinamente concebida e diferente de qualquer sistema que tenha existido nas religiões do passado. Fundamentalmente, é o veículo de uma futura Ordem Mundial de todas as nações deste planeta. Embora toda a sua estrutura de corpos eleitos fosse baseada em princípios de sufrágio universal e eleição por voto secreto, seu funcionamento final foi concebido sob uma luz diferente, pois, divergindo do supremo princípio da democracia, segundo o qual as pessoas eleitas estão constantemente responsáveis perante seus eleitores, os corpos bahá'ís são responsáveis, em todos os tempos, perante o Fundador de sua Fé e Seus ensinamentos. Enquanto na democracia o elemento governante no topo não pode sobrepujar seus próprios conselhos, e suas decisões estão sujeitas a exame e aprovação por aqueles a quem representam, na Causa de Deus esse elemento governante é, ao mesmo tempo, o servo de todos os servos de Deus - em outras palavras, o corpo dos fiéis - porém, responsável perante um elemento superior, divinamente guiado e inspirado, o Guardião ou o único intérprete, e o supremo corpo eleito, a Casa Universal de Justiça, o legislador único. Verificar-se-á que, neste sistema, o povo, isento das influências corruptas da nomeação e politicagem, e da violência daqueles caprichos e insatisfações tão facilmente engendrados nas massas pela operação exclusiva do princípio democrático, está livre para escolher aqueles que lhe parecem melhor qualificados para, de um lado, dirigir seus interesses e salvaguardar seus direitos e, de outro, proteger e servir os interesses da Causa de Deus.

Os corpos bahá'ís eleitos poderiam ser comparados a uma grande rede de tubos de irrigação, selecionados e reunidos pelo povo para seu próprio benefício. Mas as águas vivificadoras fluem do alto através desse sistema, independentes do povo, independentes de qualquer vontade dos canos, e estas águas são os divinamente guiados e inspirados conselhos do Guardião e do Supremo Corpo da Causa, que nesta era bahá'í são recebidos de nenhuma outra fonte senão a dos Manifestantes Gêmeos de Deus. O sistema de Bahá'u'lláh, escreveu Shoghi Effendi, "jamais poderá degenerar para qualquer forma de despotismo, de oligarquia ou de demagogia, os quais, cedo ou tarde, haverão de corromper a maquinária de todas as instituições políticas feitas pelo homem e essencialmente defeituosas". Já em 1934, Shoghi Effendi pôde escrever sobre o funcionamento desse sistema que, em tão rápido crescimento e estendendo suas raízes firmemente através de todo o mundo bahá'í, havia demonstrado um poder que uma "sociedade desiludida e tristemente abalada" só com grande prejuízo poderia desprezar. A vitalidade de suas instituições, os obstáculos vencidos pelos seus administradores, o entusiasmo de seus instrutores itinerantes, as alturas da abnegação de seus construtores campeões, a visão, a esperança, o júbilo, a paz interior, a integridade, a disciplina e a unidade manifestados pelos seus intrépidos defensores, a maneira como os diferentes povos foram purgados de seus preconceitos e fundidos na estrutura desse sistema - tudo dava testemunho, escreveu Shoghi Effendi, do poder desta sempre-crescente Ordem de Bahá'u'lláh.

Shoghi Effendi possuía as qualidades do verdadeiro estadista. Diferente de muitos dos bahá'ís que, infelizmente, semelhantes a Ícaro, tendem a levantar vôo com asas de cera, cheios de esperança e fé somente, Shoghi Effendi forjou sua máquina voadora com materiais apropriados para voar, construindo-a cuidadosamente, peça por peça. Nos primeiros poucos anos de seu ministério, ele criara uniformidade em assuntos essenciais da Administração Bahá'í. Estabelecera seu alicerce de Assembléias Locais e um corpo nacional onde quer que as comunidades nacionais fossem bastante fortes para sustentar tal instituição. Em 1930, ele tinha nove delas, registradas no Arquivo Bahá'í da Assembléia Nacional americana, conforme segue: Cáucaso, Egito, Grã-Bretanha, Alemanha, Índia e Birmânia, Iraque, Pérsia, Turquistão, e Estados Unidos e Canadá. Durante muitos anos, as do Cáucaso, do Turquistão e da Pérsia eram de uma natureza diferente das outras no sentido de que não estavam possibilitadas de realizar uma Convenção Nacional para reunir delegados livremente e eleger sua Instituição Nacional. Existia, entretanto, um corpo administrativo (em inglês, chamado de National Assembly [Assembléia Nacional] pelo Guardião, mas, em persa, designado por um termo diferente daquele usado subseqüentemente, quando se realizaram as eleições nacionais da Pérsia) que tratava dos interesses nacionais das comunidades; a situação na Rússia, porém, levou à dissolução das Assembléias do Cáucaso e do Turquistão quando, mais tarde, toda atividade bahá'í foi completamente suspensa naquela região.

Em seus esforços por estabelecer a Ordem Administrativa da Fé, Shoghi Effendi viu-se bem apoiado por colaboradores de capacidade e dedicação, tanto do Ocidente como do Oriente, colaboradores que pareciam ter sido levantados por Deus para captar a visão do Guardião, seguirem suas instruções e injunções, interagirem com sua mente por intermédio de sugestões construtivas e executarem com presteza os seus desejos, adaptando-os à necessidade local.

Simultâneo a esta quase repentina coalescência da Ordem Administrativa, prosseguia o outro processo, o da educação no verdadeiro significado e nas implicações da Fé - educação esta que ninguém, a não ser aquele a quem fora dado o direito exclusivo de interpretar seus ensinamentos, poderia ter efetivado. Como não se pode separar o veículo do espírito, tentemos obter um vislumbre de algumas das verdades destacadas, para as quais Shoghi Effendi chamava a nossa atenção através dos anos.

Uma das coisas mais admiráveis a respeito de Shoghi Effendi era que ele alargava cada vez mais os horizontes de nossas mentes. Sua visão da Causa partia do Everest de sua abrangente compreensão de suas aplicações. Em trinta e seis anos, jamais coisa alguma se tornou menor, tudo crescia mais e mais. Havia espaço infinito, não só para respirar, mas para sonhar. Bahá'u'lláh era o Inaugurador de um ciclo de quinhentos mil anos. Foi a culminação de um ciclo de profecia de seis mil anos, que começou com Adão. Sua Revelação não era senão parte de uma corrente infinita de Guia Divina. O Guardião resumiu este conceito em sua magistral exposição oferecida ao Comitê Palestino Especial das Nações Unidas: "O princípio fundamental enunciado por Bahá'u'lláh... é que a verdade religiosa não é absoluta, mas sim, relativa, que a Revelação Divina é um processo contínuo e progressivo, que todas as grandes religiões do mundo são divinas em origem, que seus princípios básicos estão em completa harmonia, e seus objetivos e propósitos são um mesmo, sendo seus ensinamentos apenas facetas de uma única verdade, que suas funções são complementares, suas doutrinas diferem somente nos aspectos não-essenciais e que suas missões representam sucessivas etapas na evolução espiritual da sociedade humana. O objetivo de Bahá'u'lláh... não é destruir, mas sim, cumprir as Revelações do passado... Seu propósito... é expor novamente as verdades básicas que esses ensinamentos encerram, e de modo adequado às necessidades da época em que vivemos... Nem pretende Bahá'u'lláh que seja final Sua própria Revelação, mas antes estipula que uma mais plena medida da verdade... há de ser revelada em futuras etapas da constante, ilimitada evolução do gênero humano."

Nessa mesma exposição ele, em palavras de clareza cristalina, coloca a Ordem Administrativa na sua devida relação com esta Revelação: "A Ordem Administrativa da Fé de Bahá'u'lláh, destinada a evoluir até formar a Comunidade Mundial Bahá'í... diferente dos sistemas evoluídos após o falecimento dos Fundadores das várias religiões, é divina em origem... A Fé que tal ordem serve, salvaguarda e promove - deveríamos a esta altura notar - é essencialmente sobrenatural, supra-nacional, inteiramente apolítica, não-partidária e diametralmente oposta a qualquer política ou escola de pensamento que procure exaltar alguma raça, classe ou nação em especial. Está livre de toda forma de eclesiasticismo, não tendo clero nem ritual, e é sustentada exclusivamente por contribuições voluntárias de seus declarados aderentes."

Em que este conceito implicaria foi expresso, em outra ocasião, num dos comunicados do Guardião aos bahá'ís do Ocidente: "A meta para a qual a humanidade está caminhando, impelida pelas forças unificadoras da vida, é um sistema federal mundial que regerá toda a terra... harmonizando e incorporando os ideais do Oriente e do Ocidente, libertado do flagelo da guerra... um sistema em que a Força se faz serva da Justiça, cuja vida é sustentada por seu reconhecimento universal de um só Deus e por sua lealdade a uma Revelação comum."

Com tudo isso, havia algo de muito grave com o mundo. Isto também Shoghi Effendi deixou claro para nós em O Dia Prometido Chegou: "Já há um século, Deus dá trégua ao homem, para que ele tenha a oportunidade de reconhecer o Fundador de tão grande Revelação, esposar Sua Causa, proclamar Sua grandeza e estabelecer Sua Ordem. O Portador desta Mensagem já proclamou - como jamais o fez qualquer Profeta anterior - a Missão que Deus Lhe confiara... De que modo - bem podemos perguntar a nós mesmos - o mundo, objeto dessa solicitude divina retribuiu Àquele que tudo sacrificou por sua causa?" A Mensagem de Bahá'u'lláh, escreveu Shoghi Effendi, encontrou inexorável indiferença por parte da elite; por parte dos eclesiásticos, ódio implacável; do povo da Pérsia, escárnio; foi recebida com desprezo absoluto pela maioria dos governantes aos quais Ele se dirigiu e com inveja e malícia por aqueles em terras estrangeiras, sendo tudo isso evidências do tratamento que tal Mensagem recebeu de "uma geração imersa na ufania, descuidada de seu Deus e desatenta às profecias, advertências e exortações reveladas pelos Seus Mensageiros". O homem haveria, portanto, de saborear o que suas próprias mãos fizeram. Ele recusara tomar a estrada direta que o levaria ao seu grande destino, pela aceitação do Prometido para esta Era, e escolhera o longo caminho, amargo, maculado de sangue, tenebroso, que literalmente o conduziria através do inferno, antes que ele pudesse se aproximar, mais uma vez, da meta que originariamente fora colocada ao seu alcance.

As palavras do próprio Bahá'u'lláh deixaram perfeitamente claro para nós o que a humanidade, por ter inicialmente recusado aceitar Sua Revelação, deve esperar: "Determinamos um tempo para vós, ó povos! Se, na hora designada, não vos volverdes para Deus, Ele, em verdade, vos apreenderá com violência e fará atacar-vos de todos os lados aflições penosas. Quão severo, de fato, o castigo com que vosso Senhor, nessa hora, vos punirá." "Já veio o tempo para a destruição do mundo e do seus povos." "Chegou o dia prometido, dia em que provações aflitivas surgirão sobre vossas cabeças e sob vossos pés..." "Dentro em breve o vendaval de Seu castigo vos baterá e o pó do inferno há de vos amortalhar."

Desde o início de seu ministério, mergulhado que estava nos Ensinamentos, Shoghi Effendi previa o que lhe parecia ser o curso inevitável dos acontecimentos. Já em janeiro de 1923, pintou o quadro do futuro numa carta a uma Assembléia Local americana: "Indivíduos e nações", escreveu ele, "estão sendo levados por um vendaval de insinceridade e egoísmo, o qual, se não for detido, poderá pôr em perigo, ou melhor, destruir a própria civilização. É nossa tarefa e nosso privilégio capturar gradativa e persistentemente a atenção do mundo pela sinceridade de nossos motivos, pela amplidão de nossa perspectiva e a devoção e tenacidade com que prosseguimos nossa obra de serviço à humanidade". Não somente via com clareza a situação e o remédio, mas tinha perspicácia suficiente para duvidar da possibilidade de, após oitenta anos de negligência por parte da humanidade, evitar a catástrofe universal. "O mundo", escreveu ele em fevereiro de 1923, estava "aparentemente se afastando cada vez mais do espírito dos Ensinamentos Divinos..." Muitas vezes, tanto em seus escritos como em suas palavras aos peregrinos visitantes, Shoghi Effendi lembrava aos bahá'ís a terrível advertência de Bahá'u'lláh: "A civilização tão freqüentemente alardeada pelos expoentes eruditos das ciências e letras, trará grande mal aos homens se lhe for permitido transpor os limites da moderação. Assim vos adverte Aquele que é o Onisciente. Se for levada a um excesso, a civilização se provará ser tão prolífica fonte de mal como o fora de bem, enquanto restrita pela moderação... Aproxima-se o dia em que sua chama devorará as cidades."

Shoghi Effendi compreendia desde o princípio que havia um grande cancro corroendo as vísceras dos homens, um materialismo que, no Ocidente, atingia um desenvolvimento jamais rivalizado pela decadência invariavelmente produzida por ele nas antigas civilizações, na época de seu declínio. Como muitas pessoas não sabem o que significa o materialismo, não seria inconveniente citarmos Webster, que define certos de seus aspectos como "a tendência de dar indevida importância aos interesses materiais; devoção à natureza material e suas exigências", e diz que outra definição é a teoria de que os fenômenos humanos deveriam ser vistos e interpretados em termos de causas físicas e materiais em vez de espirituais e éticas. A atitude de Shoghi Effendi para com este assunto, os males que produzem o materialismo e os que são dele provenientes, reflete-se em inúmeras passagens de seus escritos, começando em 1923 e continuando até 1957. Em 1923, ele se refere à "confusão e o crasso materialismo em que a humanidade está atualmente submersa..." Poucos anos mais tarde, ele escreve sobre "a apatia, do crasso materialismo e da superficialidade da sociedade de hoje". Em 1927, escreveu à Assembléia Nacional americana: "no próprio coração da sociedade, no qual os sinais agourentos de crescente extravagância e devassidão apenas prestam novo ímpeto às forças de revolta e reação que dia a dia se tornam mais distintas". Em 1933, numa carta geral aos bahá'ís americanos, ele fala das "loucuras e fúrias, os ardis, imposturas e condescendências que caracterizam a época atual". Em 1934, numa carta geral aos bahá'ís de todo o Ocidente, ele fala "dos sinais de uma catástrofe iminente, que lembra intensamente a queda do Império Romano no Ocidente que ameaça engolfar toda a estrutura da civilização hodierna". Nesta mesma comunicação, ele diz: "Como são inquietantes o desrespeito à lei, a corrupção e a descrença que estão corroendo as vísceras de uma civilização cambaleante!" Em sua carta geral aos bahá'ís do Ocidente, em 1936, diz: "qualquer que seja a direção a que olhamos... não podemos deixar de ficar impressionados com as evidências da decadência moral demonstrada pelos homens e mulheres ao nosso redor, em suas vidas individuais tanto quanto em sua capacidade coletiva." Em 1938, ele os advertiu do "desafio destes tempos, tão carregados de perigo, tão cheios de corrupção", e falou do mal que é a raiz de tudo: "... enquanto o calafrio da irreligião se alastra inexoravelmente sobre os membros da humanidade..." e de "Um mundo obscurecido com o persistente esmorecer da luz da religião", um mundo em que o nacionalismo é cego e triunfante, a perseguição racial e religiosa é impiedosa, um mundo em que falsas teorias e doutrinas ameaçam suplantar a devoção a Deus, em suma, um mundo "enfraquecido por um materialismo desenfreado e brutal, desintegrando-se com a influência corrosiva da decadência moral e espiritual".

Em 1941, Shoghi Effendi condenou as tendências prevalecentes na sociedade, em termos inequívocos: "o aumento da licenciosidade, da embriaguez, do jogo e do crime; o desmedido amor ao prazer, à riqueza e às outras vaidades terrenas; o desleixo moral, que se revela na atitude irresponsável para com o casamento, no enfraquecimento do controle dos pais, no crescente fluxo de divórcio, na deterioração de normas na literatura e na imprensa, e na promoção de teorias que são a própria negação da pureza, da moralidade e da castidade - estas evidências de decadência moral, invadindo tanto o Oriente com o Ocidente, atingindo cada estrato da sociedade e instilando seu veneno em membros de ambos os sexos, jovens e velhos igualmente, denigrem ainda mais o pergaminho no qual se acham inscritas as múltiplas transgressões de uma humanidade impenitente." Em 1948, ele novamente estigmatiza a sociedade moderna como sendo: "politicamente convulsionada, economicamente quebrada, socialmente subvertida, moralmente decadente e espiritualmente moribunda." Com palavras reiteradas como estas, o Guardião visava proteger as comunidades bahá'ís e alertá-las dos perigos que as cercavam.

Entretanto, foi perto do fim de sua vida que Shoghi Effendi tratou mais aberta e freqüentemente deste assunto, mostrando que, embora a Europa fosse o berço de uma civilização "ímpia" e "altamente alardeada, porém lamentavelmente defeituosa", o proeminente protagonista dessa civilização agora eram os Estados Unidos, e que nesse país atualmente suas manifestações haviam levado a um grau de desenfreado materialismo que representava agora um perigo para o mundo inteiro. Em 1954, numa carta aos bahá'ís dos Estados Unidos escrita em termos que ele nunca havia usado antes, recapitulou os privilégios extraordinários que essa comunidade havia usufruído, as vitórias extraordinárias que obtivera, mas disse que estava numa etapa extremamente crítica de sua história, não só de sua própria história mas da história de sua nação, nação que ele descrevera como "a concha que encerra tão precioso membro da comunidade mundial dos seguidores" de Bahá'u'lláh. Nesta carta, frisou que, o país do qual os bahá'ís americanos formavam uma parte, "está atravessando uma crise que, em todos os seus aspectos, espiritual, moral, social e político, é de extrema gravidade - uma gravidade que, para o observador superficial, está sujeita a ser perigosamente subestimada".

"A persistente e alarmante deterioração no padrão de moralidade, como exemplificada pelo espantoso aumento de crimes, pela corrupção política em círculos cada vez mais amplos e cada vez mais altos, pelo afrouxamento dos sagrados laços do matrimônio, pelo desmedido desejo de prazer e divertimento, e pelo notável e progressivo enfraquecimento do controle dos pais, é, sem dúvida, o aspecto mais apreensivo e mais angustiante do declínio que já se iniciou, e pode ser claramente percebido nas fortunas da nação inteira."

"Paralelamente a isso e invadindo todos os aspectos da vida - um mal que a nação e, na realidade, todos aqueles dentro do sistema capitalista, embora em grau menor, partilham com aquele estado e seus satélites que se consideram inimigos renhidos deste sistema - é o crasso materialismo que dá excessivo e sempre-crescente relevo ao bem-estar material, esquecido daquelas coisas do espírito sobre as quais, tão somente, pode ser lançado um alicerce seguro e estável para a sociedade humana. É esse mesmo materialismo canceroso, originalmente nascido na Europa, levado a excesso no continente norte-americano, contaminando os povos e nações asiáticos, estendendo seus tentáculos agourentos até as fronteiras da África e agora invadindo-lhe o próprio coração, que Bahá'u'lláh denunciou em Seus Escritos, em linguagem inequívoca e enfática, comparando-o a uma chama devoradora e considerando-o como principal fator na precipitação de temíveis provações e crises que abalarão o mundo, envolvendo necessariamente a conflagração das cidades e a disseminação de terror e consternação nos corações dos homens."

Shoghi Effendi lembrou-nos que 'Abdu'l-Bahá, durante Sua visita tanto à Europa como à América, levantara Sua voz da plataforma e do púlpito "com tocante persistência" contra esse "predominante e pernicioso materialismo", frisando que, enquanto "essa funesta lassidão na moralidade, essa ênfase crescente ao bem-estar e interesse materiais" continuasse, o horizonte político também estaria escurecendo, "assim como testemunhado pelo alargamento do abismo que separa os protagonistas de duas escolas de pensamento opostos, as quais, por mais divergentes que sejam em suas ideologias, deverão ser igualmente condenadas pelos portadores do estandarte da Fé de Bahá'u'lláh, em vista de suas filosofias materialistas e de seu desprezo por aqueles valores espirituais e verdades eternas sobre os quais tão somente poderá ser finalmente estabelecida uma civilização estável e florescente."

O Guardião constantemente chamava nossa atenção para o fato de que os objetivos, os padrões e as práticas do mundo hodierno eram, na sua maior parte, a antítese ou uma forma corrupta daquilo que os bahá'ís crêem e tentam estabelecer. A orientação que ele nos dava em tais assuntos não se limitava a questões tão ruidosas e cruciais como as supracitadas. Ele nos educava também - se aceitássemos ser educados por ele - em questões de bom gosto, bom senso e boas maneiras. Tantas vezes ele dizia: "Esta é uma religião da moderação, do meio- termo, nem de um extremo nem do outro." O que ele queria dizer com isso não era condescendência, mas sim, a verdadeira essência do pensamento transmitido por estas palavras do próprio Bahá'u'lláh: "Não excedas os limites da moderação"; "Quem adere à justiça não pode transgredir, sob nenhuma circunstância, os limites da moderação." Vivemos talvez na mais imoderada sociedade que o mundo já viu, despedaçando-se por ter voltado as costas para Deus e recusado Seu Mensageiro.

Shoghi Effendi não via essa sociedade com os olhos com que nós a vemos. Se a visse assim, não seria nosso guia e nosso escudo. Enquanto o Manifestante de Deus aparece dos reinos celestiais e traz com Ele uma nova era, a posição e função do Guardião eram inteiramente diferentes. Ele era um homem do século vinte por excelência. Longe de ser alheio ao mundo em que vivia, pode-se dizer que ele representava o melhor deste mundo, com sua mente esclarecida e lógica, e com sua avaliação livre e desimpedida. Sua compreensão das fraquezas dos outros, no entanto, não o tornava condescendente, nem o fazia aceitar as tendências erradas como males a serem perdoados por serem universais. Nunca é demais dar ênfase a este ponto. Temos a tendência de pensar que uma coisa, por ser universal, é a certa; ou porque nossos líderes e sábios têm uma opinião, que essa é a opinião correta; ou porque peritos nos asseguram que isto ou aquilo, ou qualquer outra coisa, é apropriada e duradoura, que eles falam com a voz da autoridade. Shoghi Effendi não padecia de tal complacência. Ele via tudo no mundo hoje - no campo político, moral, artístico, musical, no da literatura, da medicina, e da ciência social - comparado à estrutura dos ensinamentos de Bahá'u'lláh. Estava de acordo com as diretrizes estabelecidas por Bahá'u'lláh? Era uma direção sadia. Não estava? Era um caminho errado e perigoso.

No decorrer dos anos, Shoghi Effendi nos deu o que gosto de chamar "linhas diretrizes", o esclarecimento de grandes princípios, doutrinas e pensamentos em nossa religião. Apenas poucas podem ser arbitrariamente selecionadas para uma obra deste âmbito, mas são as que para mim têm um significado especial na formação da perspectiva bahá'í do mundo em que vivemos hoje. Uma das doutrinas modernas de maior falácia, diametralmente oposta aos ensinamentos de todas as religiões, é que o homem não é responsável pelos seus atos, que seu delito é perdoável porque é devido a fatores condicionantes. Este é um argumento com que Shoghi Effendi não tinha paciência, pois não estava de acordo com as palavras de Bahá'u'lláh: "O que treina o mundo é a justiça, pois é sustentada por dois pilares, a recompensa e a punição. Esses dois pilares são as fontes de vida para o mundo." Indivíduos, nações, comunidades bahá'ís, a raça humana, são todos considerados responsáveis pelos seus atos. Embora haja muitos fatores envolvidos em todas as nossas decisões, a essência da crença bahá'í é que Deus nos dá a oportunidade, a ajuda e as forças para tomarmos a decisão certa, pela qual seremos recompensados, ou punidos se falharmos. Este conceito é quase o contrário dos ensinamentos da psicologia moderna. Este princípio me foi mostrado muito vividamente na minha vida pessoal. Quando tive a grande e inesperada honra de ser escolhida pelo amado Guardião para ser sua esposa, veio-me a idéia de que, para mim, pelos menos, estavam terminadas todas minhas preocupações sobre qual seria meu destino espiritual. Estaria perto dele. Era como morrer e ir para o céu, onde nada mais me podia atingir. Um dia, numa conversação, Shoghi Effendi me disse palavras como estas: "Seu destino está na palma de sua própria mão!" Eu, fiquei horrorizada! Eu estava de volta à luta de toda a vida para fazer a coisa certa em benefício de minha própria alma.

A relação do Guardião com todo o mundo bahá'í, como também com indivíduos, oficiais e não-bahá'ís, baseava-se neste princípio. Ele era imensamente paciente, mas, no fim, a punição era célere e justa; suas recompensas eram céleres também e sempre me pareciam maiores do que mereciam aqueles que as recebiam.

Os mais elevados padrões de literatura e linguagem - quer no persa, no árabe ou no inglês - são refletidos nos escritos do Báb, de Bahá'u'lláh, 'Abdu'l-Bahá e Shoghi Effendi. Nenhum deles usou uma palavra de cunho indigno. Lembro-me que uma vez um peregrino, com sinceridade e humildade, queixou-se ao Guardião que pessoas comuns na América tinham dificuldade de compreender seus escritos e sugeriu que ele os fizesse um pouco mais fáceis. O Guardião deu a entender, com firmeza, que essa não era a solução; que as pessoas deveriam elevar seu padrão de inglês, acrescentando com sua bela voz e sua bela pronúncia - com um ligeiro piscar de olhos - que ele mesmo escrevia em inglês. A implicação de que grande parte do que se escrevia do outro lado do Atlântico nem sempre caía nesta categoria, foi bem clara! Ele frisava a importância de, nas revistas bahá'ís, ser usado um "estilo elevado e impressivo" e, certamente, ele mesmo sempre dava exemplo disso.

Quando me casei, estava inicialmente um pouco apreensiva sobre qual seria a atitude do Guardião para com a arte moderna. Como eu apreciava os grandes períodos de arte em nossa própria cultura como também em outras, eu perguntara a mim mesma o que faria se descobrisse que ele admirava as tendências modernas na pintura, na escultura e na arquitetura. Eu não precisava ter tido receios. Algumas vezes, tivemos oportunidades de visitar juntos famosos museus europeus e galerias de arte. Logo descobri, para grande alívio meu, que sua apreciação de simetria e beleza, de um estilo maduro e uma nobre expressão de valores reais, era profunda e verdadeira. A busca cega de um novo estilo, subseqüente ao desmoronamento geral da velha ordem das coisas do mundo, por mais sincera e lógica que pudesse ser, jamais foi confundida por Shoghi Effendi como evidência de uma nova e bem evoluída expressão de arte, muito menos uma expressão bahá'í de qualquer coisa. Ele conhecia bem demais a história para confundir o ponto mais ínfimo de declínio, reflexo de uma sociedade decadente e moribunda, com o nascimento de um novo estilo inspirado pela Nova Ordem de Bahá'u'lláh. Ele sabia que o fruto é o produto final do crescimento da árvore, e não o primeiro; sabia que um sistema mundial, fortalecido pela paz mundial e unificação, deve vir primeiro, e então ser seguido pela florescência, na Idade Áurea, de uma nova e madura expressão de arte. Para que não permaneça qualquer dúvida a esse respeito, vejamos a superestrutura do Santuário do Báb e o edifício do Arquivo Internacional, que ele construiu; vejamos os quatro desenhos para os Templos do Monte Carmelo, Teerã, Sidney e Kampala, escolhidos por ele mesmo. São reconhecidamente conservadores, baseados em experiências passadas; mas baseiam-se também em estilos que resistiram ao tempo e continuaram a assim fazer até que um novo estilo, organicamente evoluído, pudesse ser produzido à medida que o mundo evoluísse sob a influência dos ensinamentos de Bahá'u'lláh. Anotei uma observação sua quando examinou um desenho que lhe havia sido apresentado para o Templo de Kampala: "Pobres africanos! Tornam-se bahá'ís para se reunirem em tais monstruosidades?" Ele veio à defesa de seus bem-amados irmãos naquele continente, encomendando para eles um desenho criado no Centro Mundial, um que ele mesmo apreciava e aprovava. Basta olharmos suas próprias cartas para confirmação disso. Em cartas escritas em 1956 a duas diferentes Assembléias Nacionais a respeito de dois Templos diferentes, sua secretária expôs suas opiniões, como segue: "Ele acha que este, por ser o Templo-Mãe, tem grande importância; e deve, sob todas as circunstâncias, ter dignidade e não representar um ponto de vista extremista na arquitetura. Ninguém sabe como os estilos hodiernos serão julgados daqui a duas ou três gerações; mas os bahá'ís não podem se dar ao luxo de construir um segundo Templo, caso aquele construído agora possa parecer exagerado demais e pouco apropriado no futuro." "Sentiu muito ter que desapontar o Sr. F___... Entretanto, não havia qualquer possibilidade de aceitar algo tão extravagante como este. O Guardião está firmemente convencido de que, não importa qual seja a opinião da mais nova escola de arquitetura sobre este assunto, os estilos de arquitetura exibidos presentemente no mundo inteiro não só são muito feios, mas também carecem completamente da dignidade e graça que devem existir, pelos menos em algum grau, numa Casa de Adoração Bahá'í. Deve-se ter sempre em mente que a vasta maioria dos seres humanos não é nem muito moderna nem muito extremista em seus gostos e que aquilo que a escola mais adiantada talvez ache maravilhoso, é muitas vezes inteiramente desagradável ao gosto da gente comum, simples."

Os mesmos pensamentos do Guardião relativos à literatura e arte condiziam com seus sentimentos acerca da música, pela qual ele tinha grande amor.

O que se deduz disso é que o Guardião desejava salvaguardar a Causa, manter para ela, bem como para suas preciosas instituições, um padrão de dignidade e beleza que lhe protegesse o Santo Nome, a natureza sagrada de suas instituições, seu caráter internacional, sua qualidade de nova e promissora, contra os caprichos e extravagâncias de uma era em transição e contra a indevida influência de uma civilização corrupta, inteiramente ocidental. Pois se deve ter em mente que, até a época atual, a maioria dos seguidores da Fé tem sido de origem ariana, enquanto a maioria da raça humana não o é. Lembro-me da face do primeiro peregrino bahá'í japonês quando Shoghi Effendi, fitando-o com aqueles olhos maravilhosamente expressivos, disse que, como a maioria da raça humana não era branca, não havia razão para que a maioria dos bahá'ís fosse da raça branca. A ênfase e a franqueza com que Shoghi Effendi afirmou isto, foi claramente uma revelação para esse homem do Extremo Oriente que estava regressando após uma longa visita nos Estados Unidos.

Quantos bahá'ís percebem o fato de que, assim como lhes são exigidos a castidade, a honestidade e a veracidade, a cortesia, a dignidade e a reverência também são qualidades defendidas nos ensinamentos de Bahá'u'lláh? Um dos primeiros cabogramas de Shoghi Effendi à América frisa este ponto: "A dignidade da Causa exige restrição ao uso da gravação da voz do Mestre." O senso de santidade das coisas é uma das maiores bênçãos para o homem. Muitas vezes o Guardião chamava nossa atenção em instruções como estas: "Assegurar ninguém fotografe retrato do Báb durante exposição." Contemplar a reprodução da face do Manifestante de Deus, fosse o Báb ou Bahá'u'lláh era privilégio incomparável, a ser encarado como tal, e não apenas mais uma reprodução a ser passada de mão em mão.

A exposição de Shoghi Effendi dos ensinamentos sobre o papel determinado para certas nações na história do início do ciclo bahá'í, foi iluminadora, ponderável e freqüentemente em nítido desacordo com nosso próprio entendimento limitado. A razão de a Pérsia ter sido o Berço da Fé, e a América, o Berço de sua Ordem Administrativa, baseava-se no ensinamento de que o maior poder no mundo é o poder do Espírito Santo, uma alquimia divina que pode transmutar o material inferior, o cobre, no metal precioso que é o ouro. Em O Advento da Justiça Divina, o Guardião nos educou nesta verdade fundamental: "Alegar", escreveu ele, "que o merecimento inato, o elevado padrão moral, a aptidão política e as realizações sociais de qualquer raça ou nação sejam a razão pelo aparecimento em seu meio de qualquer um desses Luminares Divinos, seria uma perversão absoluta dos fatos históricos e equivaleria a um repúdio completo à indubitável interpretação que lhes foi dada tão clara e enfaticamente, tanto por Bahá'u'lláh como por 'Abdu'l-Bahá". E prossegue dizendo que tais raças e nações escolhidas especialmente por Deus devem reconhecer incondicionalmente, e corajosamente dar testemunho do fato de que foram assim escolhidas por causa de suas carências gritantes, sua lamentável degeneração, sua irremediável perversidade, e não devido a alguma superioridade racial, capacidade política ou virtude espiritual. Por razões como estas é que o Báb e Bahá'u'lláh escolheram a Pérsia para ser o Berço da Fé, e a América, o Berço de Sua Ordem Mundial. Pelo cumprimento dessa grande lei, a glória de Deus se manifesta e o homem vem a compreender que a origem de seus próprios poderes e glória é Deus tão somente. Que membros de "um dos povos mais atrasados, mais covardes e perversos", ao aceitarem a Mensagem Divina, seriam transformados numa raça de heróis, "capacitados a efetivar, por sua vez, uma revolução semelhante na vida da humanidade", era prova do espírito regenerador da Revelação de Bahá'u'lláh. O mesmo princípio é aplicável, asseverou Shoghi Effendi, à América: "É precisamente por causa dos males patentes, os quais, não obstante suas outras características e realizações inegavelmente grandes, têm sido engendrados em seu seio, infelizmente, por um materialismo excessivo e repressor", que foi escolhida para se tornar o porta-estandarte da Nova Ordem Mundial. "É por este meio", prosseguiu ele, "que Bahá'u'lláh melhor pode demonstrar, a uma geração desatenta, Sua onipotência para erguer, do próprio seio de um povo imerso num mar de materialismo, vítima de uma das formas mais virulentas e arraigadas de preconceito racial e notório por sua corrupção política, sua licenciosidade e seu relaxamento em padrões morais, homens e mulheres que, com o decorrer do tempo, exemplificarão cada vez mais aquelas virtudes essenciais da abnegação, da retidão moral, da castidade, da camaradagem sem discriminação, da santa disciplina e da percepção espiritual" que os prepararão para desempenharem um papel preponderante no estabelecimento do Sistema Mundial de Bahá'u'lláh.

Quando Shoghi Effendi estava começando a escrever O Advento da Justiça Divina, um dia, enquanto ele discorria sobre este tema, de repente afirmou que os Estados Unidos eram o país politicamente mais corrupto do mundo. Fiquei simplesmente estupefata com tal observação, pois eu sempre havia suposto que obviamente era devido ao nosso sistema de democracia e nossa proeminência política que Deus nos escolhera para edificarmos Sua Ordem Administrativa! Aventurei-me a objetar que certamente a Pérsia era politicamente mais corrupta. Ele disse que não, que a América era politicamente mais corrupta. Ele deve ter visto em minha expressão como me era incrível essa nova idéia e difícil de aceitar, pois ele me apontou o dedo, dizendo: "Engole isso, isso lhe faz bem." Engoli e guardei silêncio enquanto ele elaborava este tema, quando escreveu suas memoráveis passagens sobre o assunto e, naturalmente, com o passar dos anos, percebi claramente que ele estava enunciando e esclarecendo, através dos ensinamentos, grandes leis e verdades espirituais que encerram cura e vigor para nós, se apenas os captássemos. Como bahá'ís, nenhuma vantagem obtemos de nossos conceitos errados, de colorirmos os ensinamentos do Educador Divino com nossas idéias limitadas, preconcebidas, idéias produzidas pelo meio. Nada é melhorado ou tornado mais aproveitável por meio de deturpação. É por isso que penso nesses grandes temas, nessas afirmações da verdade que nos foram dadas pelo Guardião, como diretrizes de pensamento que nos capacitam a ver as coisas como são e obter uma compreensão correta de nossa Fé.

Essa atitude factual e realista do Guardião significava que ele não só conhecia a verdadeira força da Causa, mas também estava ciente de suas limitações na época atual. Nunca confundiu as duas coisas. Numa carta a uma pessoa não-bahá'í, líder de um grupo de jovens nos Estados Unidos, em 1926, ele disse: "Acreditamos que o espírito da Causa está pouco a pouco orientando os povos e as nações, e tudo que se exige dos bahá'ís é sua perseverança em promover os princípios sublimes revelados por Bahá'u'lláh. Jamais eles se afastarão dos grandes empreendimentos humanitários dos verdadeiros líderes do pensamento público; sempre acolherão toda oportunidade de levantar sua voz, em conjunto com outros movimentos, em prol da paz, da verdade e da justiça." Apesar disso, ele não tinha ilusões sobre quanto poder tínhamos nas mãos. Em julho de 1939, ele escreveu à Assembléia Nacional americana (representando a mais livre e a mais poderosa comunidade do mundo bahá'í) que eles não podiam impor sua vontade àqueles em cujas mãos estava o destino dos bahá'ís persas; que ainda não eram capazes de iniciar uma campanha de magnitude suficiente para capturar a imaginação e despertar a consciência da humanidade, assegurando assim a retribuição das injúrias sofridas pelos seus irmãos perseguidos; que presentemente não podiam exercer no conselho das nações uma influência proporcional às reivindicações e à grandeza da Causa de Bahá'u'lláh; nem podiam assumir uma posição e se incumbir de responsabilidades que os habilitassem a "inverter o processo que tão tragicamente impele ao declínio da sociedade humana e de suas instituições".

Não cabe a nós, escreveu Shoghi Effendi em 1948, "especularmos, nem nos determos a falar da operação imediata de uma inescrutável Providência que preside igualmente sobre os destinos decadentes de uma Ordem moribunda e à glória nascente de um Plano que encerra as sementes da revivificação espiritual do mundo e de sua redenção final". Muitas vezes, falava com os peregrinos acerca de dois planos: nosso próprio plano interno - a operação do Plano Divino que está em nossas mãos para ser executado - e o Plano universal de Deus, o Onipotente, para o planeta inteiro, o qual Ele estava executando de Seu próprio modo, através de forças externas à Causa, para acelerar e alcançar Seus próprios fins. Na mesma medida em que os bahá'ís trabalharem dentro da estrutura de seu próprio Plano e envidarem esforços pela sua rápida consumação - para estabelecerem o Reino do Senhor dos Exércitos no mundo inteiro - choverão sobre eles as bênçãos de Bahá'u'lláh; no mesmo grau em que o mundo desprezar Sua Mensagem e prosseguir em seus próprios objetivos perversos, a visitação de Deus descerá sobre os povos e nações igualmente, abatendo, esmagando e moendo-os num só mundo, porque recusaram criar esse mundo pacificamente através das instruções que lhes foram dadas pelo Mensageiro de Deus neste dia.

A nítida distinção entre a união dos seguidores de Bahá'u'lláh num sistema mundial unificado, espiritualmente motivado, e a desintegração, partidarismo e ódio que dizimam as raças, religiões e partidos políticos do mundo, eram constantemente apontados pelo Guardião, e os perigos existentes se os bahá'ís não se mantivessem estritamente afastados dessas dissensões eram repetidamente enfatizados por ele. Em setembro de 1938, enquanto a humanidade estava sendo levada em direção ao precipício de uma segunda guerra mundial, Shoghi Effendi telegrafou aos crentes uma austera advertência e instruções inequívocas sobre estas política de estrita neutralidade: "Lealdade Ordem Mundial Bahá'u'lláh segurança suas instituições básicas ambas exigem imperativamente todos seus declarados defensores especialmente seus construtores campeões continente americano nestes dias quando forças sinistras incontroláveis aprofundando ruptura apartando povos nações credos classes que resolvam a despeito pressão rapidamente cristalizando opinião pública abster individual coletivamente em palavra ação informalmente bem como em todas pronunciações públicas de atribuir culpa tomar partido ainda que indiretamente em repetidas crises políticas ora agitando finalmente engolfando sociedade humana. Grave apreensão de que efeito cumulativo tais condescendências oficiais desintegrem estrutura obstruam canal graça que sustenta sistema da ordem essencialmente supra-nacional sobrenatural de Deus tão laboriosamente desenvolvida tão recentemente estabelecida."

O patriotismo dos bahá'ís não está manifesto numa lealdade a preconceitos nacionais e sistemas políticos, mas, antes, de dois modos: servir a pátria promovendo seus mais altos interesses espirituais e obedecendo implicitamente ao governo, qualquer que seja. O Guardião frisou, em 1932, que a extensão das atividades bahá'ís em toda parte do mundo e "a variedade das comunidades que labutam sob diversas formas de governo, tão essencialmente diferentes em seus padrões, políticas e métodos, tornam absolutamente essencial que todos... os membros de qualquer uma dessas comunidades evitem qualquer ação que possa, por levantar suspeita ou por provocar antagonismo de qualquer um desses governos, envolver seus irmãos em novas perseguições..." e prosseguiu dizendo: "De que outro modo, eu pergunto, poderia uma Fé de âmbito tão vasto que transcende fronteiras políticas e sociais, que inclui dentro de seus confins tão grande variedade de raças e nações, e à medida que se impulsionar para frente, terá que depender cada vez mais da boa vontade e do apoio dos governos da Terra, tão diversificados e tão discordantes - de que outro modo poderia tal Fé conseguir preservar sua unidade, salvaguardar seus interesses e assegurar o constante e pacífico desenvolvimento de suas instituições?" Em outra ocasião, Shoghi Effendi escreveu: "Devem proclamar que, em qualquer país que residam, nada importando quão adiantadas sejam suas instituições, ou profundo seu desejo de cumprir as leis e aplicar os princípios enunciados por Bahá'u'lláh, eles, sem hesitação, subordinarão a operação destas leis e a aplicação destes princípios às exigências de seus respectivos governos. Não é seu objetivo, enquanto se esforçam por conduzir e aperfeiçoar os interesses administrativos de sua Fé, violar, sob quaisquer circunstâncias, as provisões da constituição de seu país, muito menos permitir que a maquinária de sua Administração substitua o governo de seus respectivos países." Um telegrama do Guardião, enviado em 1930 a uma das Assembléias do Oriente Próximo, aponta muito claramente a correta atitude bahá'í: "Não havendo objeção do governo formação Assembléia essencial". Os bahá'ís, como Shoghi Effendi disse tão apropriadamente, não pertencem a nenhum partido político, mas sim, ao "partido de Deus". São os agentes de Sua Política Divina.

A liberdade de um estado soberano para exercer sua própria política - por mais prejudicial que seja aos interesses bahá'ís - foi sustentada por Shoghi Effendi em 1929, quando o governo soviético desapropriou o primeiro Templo Bahá'í do mundo. Apesar da tristeza que tal ação causou ao Guardião, ele escreveu que, em vista dos artigos de sua própria constituição, as autoridades haviam agido "dentro de seus direitos reconhecidos e legítimos". Quando todo apelo falhara em seu propósito, ele mandou que os bahá'ís daquele país obedecessem aos decretos de seu governo, confiantes de que, na hora certa, como ele escreveu, Deus iria "levantar o véu que agora obscurece a visão de seus governantes e revelar a nobreza de objetivos, a pureza de propósitos, a retidão de conduta e os ideais humanitários que caracterizam as comunidades bahá'ís ainda pequenas, porém potencialmente fortes, em todas as terras e sob qualquer governo".

Não de deve pensar que, com o crescimento desta Fé, à medida que se tornava mais forte e passava de vitória a vitória, houvesse uma modificação nesta atitude fundamental enunciada por Shoghi Effendi apenas oito anos depois de ter sido nomeado Guardião. Longe disso. Em 1955, ele telegrafou uma mensagem a todas as Assembléias Nacionais, num tempo em que o número de países alistados sob o estandarte da Fé havia quase dobrado em dois anos, fazendo um apelo aos crentes que estavam empreendendo a mais poderosa Cruzada já iniciada desde o surgir da Fé, "quer residindo terra natal ou além mar não importando quão repressivo regimes sob o qual laboram que ponderem novamente plenas implicações requisitos essenciais sua custódia Causa Bahá'u'lláh... elevem-se mais altos níveis consagração combatam vigilantemente toda forma deturpação eliminem suspeitas dissipem desconfianças silenciem críticas através ainda mais impressionante demonstração lealdade seus respectivos governos ganhem mantenham fortaleçam confiança autoridades civis em sua integridade sinceridade reafirmem universalidade objetivos propósitos Fé proclamem caráter espiritual seus princípios fundamentais asseverem caráter não-político suas instituições administrativas."

Há três fatores envolvidos nesta questão de lealdade ao governo e, ao mesmo tempo, completo afastamento da política: um é obediência, outro é prudência e o terceiro é a utilização dos meios legais aprovados. Muitas vezes é descuidado o fator da prudência e, no entanto, o Guardião tornou bem claro que ela deveria sempre ser considerada, não somente nestas palavras: "a variedade das comunidades que trabalham sob diversas formas de governo... torna absolutamente essencial que todos... membros de qualquer uma dessas comunidades, evitem qualquer ação que possa, por levantar suspeitas ou provocar o antagonismo de qualquer um dos governos, envolver seus irmãos em novas perseguições...", mas também em suas repetidas instruções às diferentes comunidades e indivíduos sobre a necessidade de exercerem a máxima prudência em seu serviço à Fé. Num mundo onde imprensa e rádio, de hora em hora, lançam acusações e insultos contra os sistemas e políticas de outras nações, toda prudência é pouca para os bahá'ís. Ao lembrarmos do orgulho e da alegria de Shoghi Effendi, quando, no próprio coração do Islã, foi formada a primeira Assembléia Espiritual, e dos abundantes elogios feitos por ele ao pioneiro responsável - que era de descendência judaica, além de ser bahá'í, colocando assim sua vida duplamente em perigo - e recordarmos que durante dois anos esse homem não abriu a boca para revelar que ele era bahá'í, até o dia em que, receoso e trêmulo, e com uma prece em seu coração, ele convidou o primeiro prospectivo crente para os fundos de sua loja e principiou a abordar o assunto da Fé, formamos uma idéia do que Shoghi Effendi queria dizer por prudência.

Em vários países, ele proibiu que os bahá'ís procurassem publicidade e mandou que evitassem todo contato com certas seitas e nacionalidades, as quais, se soubessem da Fé ou a aceitassem, poderiam pôr em perigo todo o trabalho dos pioneiros. Esta era a essência da prudência e todas as vezes que era ignorada essa injunção o resultado era desastroso.

Por outro lado, em vários países e em várias ocasiões, o Guardião estimulava as comunidades e os pioneiros vigorosamente, sempre que o caminho estivesse aberto para assim fazerem, a protegerem os interesses da Fé através dos meios legais e obtendo para ela reconhecimento legal, bem como lhe assegurando o apoio da opinião pública por meio da imprensa e do rádio.

Em questões políticas, entretanto, que afetam o bem-estar e os interesses internacionais da Fé, a orientação e proteção devem vir do Centro Mundial, o qual, por sua própria natureza, é a única autoridade cuja posição permite o exercício de seu juízo em questões tão vitais e delicadas.

Outra grande diretriz de pensamento era a exposição do Guardião a respeito do significado de unidade nos ensinamentos bahá'ís. Shoghi Effendi escreveu que "o princípio da unificação que" a Causa "advoga e com o qual se identifica", os inimigos da Fé o "interpretaram erroneamente como uma tentativa oca para a uniformidade"; "Que não haja dúvidas quanto ao propósito vivificador da Lei mundial de Bahá'u'lláh... ela repudia a excessiva centralização por um lado e, por outro, não admite qualquer tentativa no sentido da uniformidade. Seu lema é unidade na diversidade..." O princípio da unidade do gênero humano, Shoghi Effendi declarou, embora visasse criar "um mundo organicamente unificado em todos os aspectos essenciais de sua vida", seria, no entanto, um mundo "infinito na diversidade das características nacionais de suas unidades confederadas". Ele escreveu sobre "a altamente diversificada sociedade bahá'í do futuro" e, instando aos bahá'ís para prestarem especial atenção à conquista da adesão de diferentes raças à Fé, disse: "Uma combinação destes altamente diferenciados elementos da espécie humana, entretecidos harmoniosamente na estrutura de uma fraternidade bahá'í que a tudo abrange, assimilados através dos processos de uma Ordem Administrativa divinamente ordenada e contribuindo cada qual com seu quinhão para o enriquecimento e a glória da vida da comunidade bahá'í, é seguramente uma realização que deverá alentar e comover todo coração bahá'í que a contemplar." Esta Fé, escreveu Shoghi Effendi, "não menospreza, nem tenta suprimir a diversidade de origem étnica, de clima, de história, de língua e tradição, de pensamento e hábito, que diferencia os povos e nações do mundo".

Numa era de proselitismo, quando nações e blocos de nações, várias sociedades e organizações, investem contra as mentes dos homens dia e noite, querendo reformá-las de acordo com sua própria imagem, tentando impor uma à outra seus sistemas políticos, seus vestuários, seus modos de vida, seus tipos de habilitação, seus sistemas médicos, suas filosofias e seus códigos morais e sociais, é, certamente, de suma importância, que os bahá'ís ponderem seus próprios ensinamentos e a interpretação iluminadora que lhes foi dada pelo seu Guardião. O mundo ocidental hoje tem uma paixão pela uniformidade. Está tentando tornar todos iguais o mais rápido possível. Em conseqüência, enquanto indubitavelmente muita coisa boa está sendo difundida e benefícios materiais estão atingindo um número de pessoas cada vez maior, estão acontecendo também muitas coisas diametralmente opostas aos métodos e objetivos de Bahá'u'lláh.

Uma das coisas que o nosso materialismo ocidental está rapidamente difundindo - além da irreligião, da imoralidade e da adoração ao dinheiro e às possessões - é uma onda de desespero, desassossego e um senso de profunda inferioridade entre os assim chamados povos atrasados do mundo. Bem poderíamos fazer uma pausa para comparar o impacto - tão furioso - que essa arrogância, auto-satisfação e riqueza estão exercendo sobre outros povos e aquilo em que o Guardião enfatizava em sua relação com tais povos. Por que Shoghi Effendi guardava e publicava listas tão completas das "raças" e "tribos" alistadas sob a bandeira da Fé? Será que ele as colecionou, cada uma como uma pérola separada, para tecê-las em preciosos adornos para o corpo da Causa de Bahá'u'lláh? Por que pendurou nas paredes da Mansão em Bahjí um retrato do primeiro bahá'í pigmeu e do primeiro descendente dos índios incas a aceitarem a Fé? Certamente não foi como curiosidades ou troféus, mas sim, porque os bem-amados Josés do mundo haviam vindo para casa, para a tenda de seu Pai. Tão bem me lembro da ocasião em que Shoghi Effendi descobriu que um de seus peregrinos era descendente da velha família real do Havaí. Ele parecia irradiar uma alegria e um deleite quase tangíveis, e esse fervor envolvia um homem cuja sorte na vida consistira, na maior parte, em escárnio pelo seu sangue nativo! Não se deve pensar que essas coisas fossem peculiaridades pessoais de Shoghi Effendi ou questões de estratégia. Longe, longe disso. Era o reflexo da verdadeira essência dos ensinamentos: que cada divisão da espécie humana é dotada de seus próprios dons, necessários para que a Nova Ordem de Bahá'u'lláh seja diversificada, rica e perfeita.

Shoghi Effendi não somente proclamava isto, mas também ativamente perseguia-o por intermédio de anúncios, apelos e instruções às Assembléias Bahá'ís: "Primeira Assembléia totalmente indígena consolidada Macy Nebraska", telegrafou triunfantemente em 1949. Lembrando constantemente das palavras de 'Abdu'l-Bahá nas Epístolas do Plano Divino, de "dar grande importância ao ensino dos índios, isto é, aos aborígines da América", Shoghi Effendi empenhou-se em atingir esse objetivo até os últimos meses de sua vida, quando, em julho de 1957, escreveu à Assembléia Nacional do Canadá que a "conversão já muito atrasada" dos índios americanos, esquimós e outras minorias, deveria receber tão grande ímpeto "de modo a espantar e estimular os membros de todas as comunidades bahá'ís em toda a extensão do hemisfério ocidental".

Um ano antes, em uma das cartas de Shoghi Effendi à Assembléia Nacional dos Estados Unidos, seu secretário havia escrito: "O amado Guardião acha que não se está prestando suficiente atenção à questão de fazer contato com as minorias nos Estados Unidos... Acha que sua Assembléia deveria nomear um comitê especial para examinar as possibilidades deste tipo de trabalho e então dar instruções adequadas às Assembléias Locais, animando os bahá'ís, entrementes, a serem ativos neste campo que está aberto para todos, pois as minorias invariavelmente se sentem solitárias e, muitas vezes, correspondem à bondade mais prontamente do que o faz a bem estabelecida maioria da população."

O resultado natural desta estratégia é a atitude peculiar da Fé Bahá'í para com as minorias e que foi tão claramente enunciada por Shoghi Effendi em O Advento da Justiça Divina: "Discriminar contra qualquer raça por estar ela atrasada socialmente, imatura politicamente e numa minoria, numericamente, é violação flagrante do espírito que anima a Fé." Uma vez que uma pessoa aceita esta Fé, "deve ser automaticamente obliterada toda diferenciação de classe, credo ou cor, jamais sendo permitido, sob pretexto algum, por maior que seja a pressão de acontecimentos ou de opinião pública, que ela ressurja". Shoghi Effendi então prossegue expondo um princípio tão completamente em desacordo com as idéias políticas do mundo inteiro que merece muito mais consideração do que nós usualmente lhe damos: "Se há alguma discriminação que deva ser tolerada, não deveria ser contra, mas sim, a favor da minoria, seja racial ou outra. Diferente das nações e povos da Terra - quer sejam do Oriente ou do Ocidente, democráticos ou autoritários, comunistas ou capitalistas, pertencentes ao velho mundo ou ao novo - os quais ou desatendem ou espezinham ou extirpam as minorias, quer raciais, religiosas ou políticas, dentro da esfera de sua jurisdição, toda comunidade organizada, alistada sob o estandarte de Bahá'u'lláh, deve considerar que é sua primeira e inescapável obrigação nutrir, encorajar e salvaguardar toda minoria pertencente a qualquer fé, raça, classe ou nação em seu seio. Tão grande e vital é este princípio que, em tais circunstâncias, como no caso de um número igual de votos haver sido dado numa eleição, ou de qualificações para qualquer posto estarem equilibradas entre as várias raças, fés ou nacionalidades dentro da comunidade, a prioridade deve ser concedida, sem hesitação, àqueles que representam a minoria e isto, não por outro motivo senão o de estimulá-los e encorajá-los, e lhes dar uma oportunidade para promoverem os interesses da comunidade." Certa vez, Shoghi Effendi explicou, de um modo tão sucinto e brilhante, a operação deste princípio, que anotei suas próprias palavras: "a minoria de uma maioria é mais importante do que a maioria de uma minoria." Em outras palavras, não é a força ou a fraqueza numérica na nação que é o índice de uma minoria, mas sua força ou fraqueza numérica dentro da comunidade bahá'í na qual se está realizando a eleição - tão grande é a proteção a qualquer minoria. O Guardião costumava dizer que, no dia em que existisse um Estado Bahá'í, os direitos das minorias religiosas não-bahá'ís seriam rigorosamente protegidas pelos bahá'ís.

A Fé Bahá'í não só salvaguarda a sociedade como um todo e protege os direitos das minorias, mas também defende os direitos do indivíduo, internacionalmente a nação individual, e dentro da comunidade, o ser humano individual. "A unidade da espécie humana, assim como Bahá'u'lláh a concebeu", escreveu Shoghi Effendi, "implica o estabelecimento de uma comunidade mundial... em que a autonomia dos estados membros e a liberdade e iniciativa pessoais dos indivíduos que os compõem sejam definitiva e completamente salvaguardadas".

Por mais vigorosamente que o Guardião sustentasse a autoridade das Assembléias, ele era também um intrépido defensor de Bahá'u'lláh. Quase nenhum apelo era feito ao mundo bahá'í ou às comunidades nacionais, que não se dirigisse ao bahá'í individual, não somente animando-o à iniciativa, mas frisando que, sem esta, todos os planos haveriam de falhar. Numa carta à Assembléia Nacional americana, em 1927, ele escreveu: "Em minhas horas de prece nos Sagrados Santuários, suplicarei que a luz da Guia Divina ilumine vosso caminho e vos capacite a utilizar, do modo mais efetivo, aquele espírito de empreendimento individual que, uma vez aceso no peito de cada crente e dirigido pela Majestosa Lei de Bahá'u'lláh, que nos foi imposta, haverá de levar avante nossa amada Causa para que atinja seu glorioso destino." Em O Advento da Justiça Divina, ele esclareceu que é o dever de cada crente "como leal fideicomisso do Plano Divino de 'Abdu'l-Bahá... iniciar, promover e consolidar" qualquer atividade que ele, ou ela, considere útil à execução daquele Plano, mas sempre dentro dos limites fixados pelos princípios administrativos da Fé. Ele disse à Assembléia Nacional americana que, ao manter a orientação dos afazeres bahá'ís e o direito da decisão final em suas próprias mãos, ela deveria "nutrir o senso de interdependência e cooperação, de entendimento e confiança mútua" entre ela própria e as Assembléias e crentes individuais.

Os humildes foram sempre escolhidos para bênçãos especiais. Em 1925, Shoghi Effendi escreveu: "não raramente, mas com muita freqüência, os mais humildes dentre os amigos, os de menor instrução e experiência, pela simples força inspiradora da desinteressada e ardente devoção, farão uma contribuição destacada e memorável para uma discussão altamente complicada em qualquer Assembléia." O Guardião era apaixonado admirador dos humildes e puros de coração, e tinha aversão a indivíduos agressivos e particularmente ambiciosos. Seus apelos por pioneiros tornaram bem clara a sua atitude. Durante o primeiro Plano de Sete Anos, ele escreveu: "nenhum crente, não importa quão humilde", deveria se sentir excluído da participação no grande movimento de pioneirismo que estava se realizando, e obstáculos não deveriam ser colocados no caminho daqueles que desejavam sair e servir, "quer jovens ou velhos, ricos ou pobres". E acentuou isto muito mais quando escreveu, em O Advento da Justiça Divina: "Incumbe a todos participarem, por mais humilde que seja sua origem, por mais limitada que seja sua experiência ou restritos seus recursos; ainda que seja deficiente sua educação, prementes suas responsabilidades e preocupações, e desfavorável o ambiente em que vivem... Quantas vezes... os mais humildes adeptos da Fé, sem instrução ou experiência alguma, sem o mínimo prestígio e, em alguns casos, destituídos de inteligência, têm podido obter vitórias para sua Causa, diante das quais empalideceram as mais brilhantes realizações dos letrados, dos sábios e dos experientes." Shoghi Effendi então frisa o fato de que, se Cristo, o Filho, pôde infundir em Pedro, que era tão iletrado que dividia seu alimento em sete porções e descansava quando chegava na sétima, sabendo assim que era o sábado, tão poderoso espírito que o capacitou a se tornar Seu sucessor, qual não deverá ser, então, o poder de Bahá'u'lláh, o Pai, para habilitar o mais débil e insignificante dentre Seus seguidores para realizar maravilhas que farão as façanhas do primeiro apóstolo de Jesus se afigurarem pequenas. Não se contentando em salientar os deveres dos humildes, o Guardião, em termos inequívocos, admoestou também aqueles que eram de uma categoria diferente: "É, portanto, imperativo que o crente americano individual, e especialmente o abastado, o independente, os que amam o conforto e os obcecados pelos bens materiais, a avançarem e dedicarem seus recursos, seu tempo, sua própria vida, a uma Causa de tal transparência que olhos humanos não podem perceber, mesmo que levemente, a sua glória." Ele disse, de um modo muito comovente, que "o coração do Guardião não pode deixar de saltar de alegria e sua mente, de obter nova inspiração com cada evidência que dá testemunho à resposta do indivíduo à sua designada tarefa".

A questão de quem é crente e como o vem a ser e se une à flexível, mas bem organizada Ordem Administrativa mundial da Fé, era perfeitamente clara para Shoghi Effendi - embora nem sempre tão clara para os próprios bahá'ís. Deve-se compreender que, em todos os tempos, o Guardião via a Causa como uma coisa viva que crescia, expandindo com uma marcha diferente em lugares diferentes. Deveria haver uniformidade nos aspectos essenciais; poderia e precisava haver diversidade em outras coisas. Um carro Ford, por exemplo, sendo máquina, é o mesmo carro em toda parte. Mas os membros de uma grande família, não sendo nem remotamente máquinas, são todos diferentes, cada um numa idade diferente, num estágio diferente de crescimento. Ninguém espera do neto de cinco meses a mesma conduta e compreensão do avô da família, que é professor de física na universidade. Desde o início, espera-se mais das velhas comunidades orientais, especialmente a da Pérsia, do que das mais novas do Ocidente, como as da América e da Europa, e muito mais se espera dessas do que, por exemplo, das comunidades ainda mais novas da África e da região do Pacífico. Devemos sempre lembrar-nos que, depois de nossa própria Fé, o Islã é a mais nova religião revelada do mundo. Os bahá'ís desta procedência estão mais próximos, por assim dizer, das leis que nos foram dadas por Bahá'u'lláh, porque Sua lei evoluiu das do Islã, se bem que, ao mesmo tempo, em muitos casos ab-rogasse estas. Não é surpreendente, portanto, que se esperasse que os crentes de tal procedência se conformassem ao padrão bahá'í em questões de status pessoal e, desde o início, seguissem aquelas leis e preceitos de Bahá'u'lláh que podiam ser aplicados na sociedade em que eles viviam, enquanto os adeptos da Fé que provinham do paganismo ou das antigas religiões reveladas precisavam de uma educação mais gradativa e paciente até que também pudessem assim fazer.

Antes de tentarmos compreender o que dá a uma pessoa o nome de bahá'í, procuremos primeiro ver de que modo o Guardião concebia a Causa de Deus e a dirigia. Se estudarmos o curso das religiões passadas, veremos que um dos principais males que as afetou foi a forte tendência de seus seguidores em querer adaptar o suave, expansivo, inspirador poder da Fé a moldes e cristalizá-lo em padrões. Uma religião é algo que cresce. Shoghi Effendi mesmo deu a mais bela e poética descrição desse processo natural de crescimento, em sua mensagem à Conferência Intercontinental realizada em Chicago, em 1953, na qual ele assemelhou a história da religião a uma árvore, que cresceu por milhares de anos, desde os dias de Adão até os dias do Báb, desenvolvendo ramos, folhas, botões, flores e finalmente produzindo uma Sagrada Semente, que era a Manifestação e Revelação do Báb. Esta Semente, moída no moinho do martírio, após apenas seis anos de existência, havia produzido um óleo cuja chama flamejara sobre Bahá'u'lláh no Síyáh-Chál, cujo ardor aumentara de brilho em Bagdá e resplandecera em Adrianópolis, cujos raios, mais tarde, atingiram as orlas dos continentes americano, europeu e australiano, cuja luz agora se irradiava sobre o globo inteiro durante esta Idade Formativa e cujo pleno esplendor, disse ele, estava destinado a inundar todo o planeta no decorrer de futuros milênios. Quão nascente, pois, deve ser o nosso estágio atual de desenvolvimento!

Mentes pequenas procuram instintivamente circunscrever as coisas ao seu redor, puxar os limites para si até corresponderem ao tamanho de sua própria pequenina existência, adaptar tudo à sua própria escala para que possam sentir-se seguras e satisfeitas consigo mesmas. Esse processo quer dizer, invariavelmente, que grande parte do material utilizado em suas paredes é da última casa em que moraram e é, em grande parte, aquilo com que estavam acostumadas antes de se mudarem, por assim dizer. Grandes mentes, ao contrário, empurram os horizontes para mais longe, criam novas fronteiras, deixam lugar para crescimento. Quando se perscruta as cartas escritas e recebidas pelo Guardião, não é difícil ver como ele mantinha perfeito equilíbrio entre aquilo que era prudente e essencial no presente estágio da Fé, e aquilo que lhe circunscreveria indevidamente o desenvolvimento e cristalizaria os ensinamentos viventes, confinando-os dentro de uma forma prematura, demasiadamente pequena, nacional ou provincial, excessivamente sectária ou racial, impedindo que ela se expandisse numa Ordem Mundial, com o governo mundial e a sociedade mundial que ela implica. Muitas vezes, no decurso de minha vida bahá'í, tenho admirado o fato de que tantas pessoas eminentemente práticas e sensatas em sua vida como comerciantes, médicos, advogados, pedreiros ou de qualquer outra profissão, não levam essas faculdades para sua atividade bahá'í. É quase como se para elas a Utopia fosse um filme e bastasse projetá-la na tela para ela se tornar realidade.

Não era isso que ocorria com o Guardião. Ele se pôs a desempenhar suas próprias tarefas - edificando a Ordem Administrativa, executando o Plano Divino de 'Abdu'l-Bahá, organizando seu trabalho e o do mundo bahá'í - de um modo muito parecido com o dos grandes pintores da Renascença na criação de seus vastos afrescos e quadros. Primeiro vinha o modelo, a idéia completa, escala, cor, proporção; então era dividida numa grade de quadrados; isto era transferido para a superfície permanente e eram traçadas as grandes linhas-guia, os contornos, as figuras em vulto; então vinham os detalhes e as cores, aplicados com infinita paciência até atingir a perfeição. Tal era o método de Shoghi Effendi e ele não permitia que se começasse a pintar as figuras e detalhes antes da tela estar pronta para recebê-los. O que isto significa em fatos reais?

Muitos exemplos vêm à memória. Após o falecimento do Mestre, queríamos ter a Casa de Justiça no dia seguinte. Foi preciso esperar quarenta e dois anos, até ser construído um alicerce para sustentá-la, camada após camada, de Assembléias Locais e Assembléias Nacionais, sobre as quais pudesse se estabelecer firmemente. Queríamos o Aqdas em inglês. Lentamente, Shoghi Effendi mesmo traduziu e nos deu grande parte deste, à medida que citava repetidamente trechos dele; as poucas leis, ordenanças e detalhes ainda não dados viriam mais tarde; exigiam trabalho muito cuidadoso, parte do qual ele mesmo empreendeu perto do fim de sua vida. Muitas vezes, um indivíduo ou grupo entusiástico queria começar agora, imediatamente, em algum lugar sossegado no campo, uma colônia bahá'í onde todos os ensinamentos econômicos pudessem ser postos em prática - uma projeção plana e não panorâmica da utopia - mas vinha sempre a resposta de Shoghi Effendi: agora não é o tempo; concentrem a atenção em aumentar o número de crentes, grupos, Assembléias. Queríamos construir uma escola na capital; não, não na capital, onde qualquer fracasso viria a humilhar a Causa, com seus escassos fundos e trabalhadores, mas, antes, no sertão - um começo simples, humilde. Queríamos uma universidade bahá'í - parecia nunca ter ocorrido ao autor da proposta - alguém que provavelmente, em sua própria vida, nunca contraiu dívidas nem tentou se fingir de milionário, que tal empreendimento haveria de paralisar todas as demais atividades nacionais e até exigir fundos, já tão limitados, que estavam sendo usados para abrir o mundo inteiro para a Fé! Todo impulso natural impedia Shoghi Effendi de embarcar naquilo que é conhecido no comércio como super-expansão. Riscos, ele corria, mas sempre riscos razoáveis e nunca imprudentes. Seu juízo era igual à sua fé. Em milagres, ele acreditava firmemente, mas jamais tratou o Onipotente como se Ele fosse um mágico. Se estudarmos a vida de 'Abdu'l-Bahá, veremos, lá também, esse maravilhoso equilíbrio entre a mente prática, razoável, e a sublime certeza da fé.

Um exemplo pequeno, mas não menos indicativo, vem à mente. O que dizer do espiritismo? "O Guardião não acha que agora seja o tempo oportuno para ele fazer alguma declaração especial sobre este assunto", escreveu seu secretário, "... há coisas mais importantes em que os amigos devem concentrar a atenção, a saber, a implantação de assembléias e grupos novos". Tantas vezes a resposta era a mesma, não é o tempo certo, ainda não. Implantem o estandarte de Bahá'u'lláh nos mais longínquos recantos da terra, tragam para Seu aprisco a humanidade, lancem os alicerces do Reino, não comecem a colocar pequenos enfeites numa casa ainda não construída.

Desde os primeiros dias de seu ministério, Shoghi Effendi se pôs a criar ordem naquilo que na época era um mundo bahá'í muito pequeno, parcamente existente em alguns dos trinta e cinco países que haviam recebido pelo menos um raio de iluminação da Luz de Bahá'u'lláh. As grandes diretrizes estavam claras em sua mente e, à medida que ele ficava mais velho e a comunidade de crentes crescia e adquiria mais experiência, estas diretrizes se tornavam mais claras e detalhes eram acrescentados. O próprio 'Abdu'l-Bahá havia prognosticado esse desenvolvimento em Sua Vontade e Testamento quando disse ao Guardião, "que dia a dia aumentem sua felicidade, seu contentamento e sua espiritualidade, e ele possa crescer até se tornar assim como uma árvores frutífera". Tempo e espaço não permitem uma recapitulação cronológica dessa evolução. Devemos tentar captar a grande visão que ele nos deu e perceber como os detalhes foram adicionados gradativamente. Muitas vezes, enquanto eu ouvia e observava Shoghi Effendi, achava que ele era o único verdadeiro bahá'í no mundo. Todos os demais, dizendo-se bahá'ís, tinham um quinhão da Fé, viam-na de certo ângulo, tinham um conceito, por maior que fosse, ainda tingido pelas suas próprias limitações, enquanto o Guardião a via como um todo, em sua plena grandeza e perfeito equilíbrio. Possuía a capacidade não só de ver, mas também de analisar e expressar com brilhante clareza o que ele via.

Tomemos, por exemplo, esta síntese de seu conceito sobre a Fé Bahá'í no contexto das coisas: "...deve-se tornar claro que a Revelação identificada com Bahá'u'lláh anula incondicionalmente todas as Revelações anteriores, sustenta sem reserva as verdades eternas que elas encerram, reconhece firme e absolutamente a origem Divina de seus Autores, preserva inviolável a santidade de suas Escrituras autênticas, nega qualquer intenção de abaixar o grau de seus Fundadores ou de minar as idéias espirituais que inculcam, classificam e correlacionam suas funções, reafirma seu objetivo comum, imutável e fundamental, reconcilia suas pretensões e doutrinas que aparentemente divergem, pronta e gratamente reconhece suas respectivas contribuições ao gradativo desenvolvimento de uma mesma Revelação Divina, sem hesitação, admite que é apenas um elo em uma corrente de Revelações progressivas, contínuas, suplementa seus ensinamentos, com as leis e os preceitos que estejam em conformidade com os imperativos requisitos de uma sociedade que constantemente muda e com rapidez evolui, e sejam ditados por crescente receptividade, e proclama seu desejo e sua habilidade para difundir e incorporar, em associação fraternal universal, as seitas e facções mutuamente opostas nas quais elas se têm dividido, funcionando dentro da estrutura e de acordo com os preceitos de uma Ordem divinamente concebida, destinada a unificar e redimir o mundo." Imediatamente se vê onde esta "suprema Dispensação religiosa na história da humanidade" se encaixa no panorama da história.

Esta Fé, "a um só tempo a essência, a promessa, a reconciliadora e a unificadora de todas as religiões", tinha como sua "missão primária" estabelecer uma Civilização Divina. Lembro-me da bela resposta de Shoghi Effendi à pergunta de um antigo professor seu na Universidade Americana de Beirute, no decorrer de uma conversação com ele. A pergunta foi sobre o objetivo da vida para um bahá'í. O Guardião respondeu que o objetivo da vida para um bahá'í era promover a unidade do gênero humano. Prosseguiu, então, mostrando que Bahá'u'lláh aparecera num tempo em que Sua Mensagem poderia e deveria ser dirigida ao mundo inteiro, e não simplesmente a indivíduos; que hoje a salvação era através da salvação do mundo, da modificação mundial, da reforma mundial da sociedade e que a civilização mundial que resultasse refletir-se-ia, por sua vez, sobre os indivíduos que a compunham e levaria à sua redenção e sua reforma. Repetidas vezes Shoghi Effendi deixava claro, em seus escritos e suas palestras, que os dois processos deveriam prosseguir juntos - reforma da sociedade e reforma do caráter pessoal. Nunca houve qualquer dúvida de que a regeneração individual, assim como ele escreveu a um não-bahá'í, em 1926, era "o alicerce seguro e permanente sobre o qual uma sociedade reconstruída" poderia desenvolver-se e prosperar. Mas como criar um padrão para a sociedade futura, mesmo um minúsculo embrião da futura Comunidade Mundial de Bahá'u'lláh, se em toda a sua orla ela estava ainda entretecida com a estrutura daquela sociedade moribunda, a qual haveria de se extinguir, a fim de ceder lugar à nova?

Shoghi Effendi tomou seu bisturi - a interpretação dos escritos da Fé - e começou a cortar. Embora a leitura correta de nossas doutrinas tenha mostrado que, no decorrer das eras, houve apenas uma religião, a do Onipotente, e que os Profetas eram expoentes em várias épocas da história, permaneceu o fato, segundo Shoghi Effendi nos fez entender, de que era o dever do homem, em cada nova Dispensação, aderir a esta em todas as suas expressões e se afastar das formas exteriores e leis secundárias da religião anterior. Como poderia um cristão honesto permanecer na igreja e orar pela vinda do Pai e de Seu Reino, quando muito bem sabia em seu coração que Bahá'u'lláh era o Pai e que o Reino estava começando a emergir através da implantação de Suas leis e Seu sistema, conforme refletidos e incorporados na Ordem Administrativa? Os bahá'ís do Oriente e do Ocidente haviam entendido isto vagamente, em grau maior ou menor, em lugares diferentes, mas agora, através das comunicações do Guardião, começaram a ver uma linha nítida onde a sombra e a luz se encontravam, não deixando nenhuma zona confortável de penumbra de condescendência para com sentimentos de família, opinião da comunidade e conveniência pessoal. Esperava-se que a pessoa entrasse ou se retirasse. Isto teve um efeito purificador e fortalecedor no corpo dos crentes em todo o mundo, e os tornou, como nunca antes, conscientes do fato de que eram um corpo mundial de pessoas, o povo do novo Dia, da nova Dispensação. Para usarmos uma simples comparação: se Bahá'u'lláh havia construído o barco, o Mestre havia acumulado o vapor, Shoghi Effendi soltou os cabos da âncora e calmamente se pôs a navegar. Com o passar dos anos, não só os não-bahá'ís começaram a olhar para nós com novos olhos, mas nós começamos a olhar para nós mesmos com novos olhos. Pouco a pouco, viemos a compreender que não éramos um aspecto novo da sociedade em que vivíamos, nós éramos a nova sociedade, nós éramos o futuro.

É à luz deste processo que devemos ver como, no decorrer dos anos, a ênfase mudou em relação à aceitação de novos bahá'ís. Durante a primeira década e meia do ministério de Shoghi Effendi, os corpos bahá'ís, especialmente no Oriente, eram exortados a ter certeza de que, aqueles que se tornavam bahá'ís, estivessem bem conscientes de como era grande o passo que estavam dando. Exigia-se uma separação definitiva do passado. "De outro modo", escreveu Shoghi Effendi em 1927, "aqueles cuja fé está ainda imatura podem assim permanecer por um tempo indefinido na periferia, continuando em sua lealdade parcial ao conjunto dos ensinamentos da Causa". Durante aqueles anos, a Fé cresceu em fama e em estatura, em muitos países ocidentais conquistou reconhecimento como religião independente, com sistema e leis que lhe eram próprias - sendo muito ajudada nesse processo pelo veredicto de uma corte muçulmana no Egito, que declarou não sermos parte do Islã, mas tão distintos dele como do cristianismo ou do judaísmo - e veio a ser cada vez mais reconhecida como uma Fé em seu próprio direito. Shoghi Effendi, entretanto, sempre vigilante e com uma sensibilidade extraordinária para qualquer coisa que afetasse a vida da Causa, percebeu uma tendência entre as instituições administrativas de levar a um extremo suas instruções originais a esse respeito (dadas em 1933), segundo as quais as Assembléias deveriam "deliberar antes de aceitarem" novos crentes. Uma nova rigidez estava em perigo de frustrar o propósito principal que animava todas as instituições bahá'ís - a conversão da humanidade para a Fé de Bahá'u'lláh. Os bahá'ís, ansiosos por obedecer às instruções de Shoghi Effendi, haviam tomado medidas extremas e estavam tão interessados em peneirar os candidatos que estava ficando completamente difícil alguém se tornar bahá'í. Por isso, em 1938, Shoghi Effendi achou necessário instruir as Assembléias americanas no sentido de "deixarem de insistir com demasiada rigidez sobre as observâncias e crenças de importância menor, o que poderia vir a ser um tropeço no caminho de algum candidato sincero", e mostrou que o dever das comunidades bahá'ís era nutrir os novos crentes após sua aceitação da Fé até atingirem maturidade bahá'í.

À medida que a Fé crescia em coesão e força interiores, e Assembléias Nacionais iam se formando uma após a outra no Oriente e Ocidente, e começavam a funcionar forte e sistematicamente, enquanto os povos do mundo se tornavam cada vez mais conscientes da existência desta nova religião como uma Revelação independente com seu próprio sistema, as instruções de Shoghi Effendi eram modificadas. Especialmente durante o grande Plano de Dez Anos de Ensino e Consolidação, toda a ênfase em relação à aceitação de novos bahá'ís foi modificada; agora estávamos fortes, nossos alicerces se haviam tornado inatacáveis, podíamos finalmente tratar das massas da humanidade em todos os países do mundo, abrir as portas de par em par e fazê-las entrarem na arca da salvação de Bahá'u'lláh! Já chegara o tempo para se obedecer à injunção de 'Abdu'l-Bahá: "Convocai os povos desses países, capitais, ilhas, grupos e igrejas a entrarem no Reino de Abhá." Em outras palavras, tendo atingido seu objetivo, Shoghi Effendi mudou de tática. Informou à Assembléia Nacional americana que os requisitos fundamentais e primários imprescindíveis para o candidato eram sua aceitação das posições do Báb, o Precursor, de Bahá'u'lláh, o Autor, e de 'Abdu'l-Bahá, o Exemplar da Fé; submissão a qualquer coisa revelada por eles; leal e firme adesão às provisões do Testamento do Mestre; e estreita parceria ao espírito e à forma da Administração Bahá'í mundial. Eram estes os "fatores principais" e qualquer tentativa de analisar e elucidar ainda mais, disse ele, levaria apenas a infrutíferas discussões e controvérsias, e seria prejudicial ao crescimento da Causa. Concluiu sua exposição deste assunto delicado, exortando os amigos a "absterem-se de traçar rigidamente a linha de demarcação", a não ser que alguma circunstância especial tornasse isto absolutamente necessário.

O Báb, Bahá'u'lláh, 'Abdu'l-Bahá e Shoghi Effendi foram os Grandes Instrutores. Seus ministérios - cada qual tão diferente em caráter - eram dedicados primariamente ao objetivo sublime de trazer todo o gênero humano ao abrigo da tenda da Fé curadora, que proporciona paz e regenera a alma. Repetidas vezes, insistentemente, durante trinta e seis anos, Shoghi Effendi convocava-nos para "a proeminente tarefa de ensinar a Fé às multidões ... uma tarefa", conforme ele nos assegurou em sua última mensagem de Ridván ao mundo bahá'í, "... a um tempo tão sagrada, tão fundamental e tão urgente; primariamente envolvendo e desafiando cada indivíduo; a base sobre a qual a solidez e a estabilidade das sempre crescentes instituições de uma Ordem nascente devem repousar - a esta tarefa deve ser dada, no decorrer deste ano, prioridade sobre todas as outras atividades bahá'ís", uma tarefa à qual o próprio Bahá'u'lláh concedera prioridade, assim como Shoghi Effendi repetidamente nos lembrava, sustentando sua asserção com citações como estas: "Ensinai a Causa de Deus, ó povo de Bahá, pois Deus prescreveu a cada um o dever de proclamar Sua Mensagem e considera isto o mais meritório de todos os atos"; "Concentrai vossas energias na propagação da Causa de Deus"; "Este é o dia em que se deve falar. Incumbe ao povo de Bahá esforçar-se, com a máxima paciência e tolerância, a fim de guiar os povos do mundo ao Horizonte Supremo [Ele próprio]"; "Soltai vossas línguas e proclamai incessantemente Sua Causa. Isto vos será melhor do que todos os tesouros do passado e do futuro..." Bahá'u'lláh dava tanta importância ao ensino de Sua Causa que advertiu firmemente aos Seus adeptos que, caso alguém não possa sair ele mesmo, "deverá designar alguém que possa proclamar em seu lugar esta Revelação". Em 1938, Shoghi Effendi escreveu que esse "Mandato de Ensino, tão vitalmente obrigatório para todos", deveria se tornar "o interesse predominante" de todo indivíduo bahá'í e que as Assembléias, em cada uma de suas sessões, deveriam reservar tempo para a "consideração sincera, em atitude de prece, de maneiras e meios que possam promover a campanha do ensino".

O Guardião deixou bem claro que, quem ensinasse deveria "de início, abster-se de insistir sobre a importância de tais leis e práticas que pudessem impor uma pressão demasiado severa sobre a fé há pouco despertada no inquiridor... Que não se contente antes de haver infundido em seu filho espiritual tão profundo desejo que o impulsione a levantar-se independentemente, por sua vez, e devotar suas energias à tarefa de ressuscitar as outras almas e sustentar as leis e os princípios estabelecidos pela Fé há pouco abraçada".

Se se compilasse o que o Guardião escreveu sobre o assunto do ensino, seria um livro bem volumoso. Mas, percebe-se sempre que o objetivo estava claro, o dever determinado, os métodos adaptáveis e fluidos. Shoghi Effendi usava tantas expressões em relação a novos bahá'ís e sua aceitação de Bahá'u'lláh: chamava-os "convertidos", "candidatos", "confessos aderentes", "novos crentes", "incondicionais" apoiadores da Fé e muitos outros nomes descritivos e satisfatórios; ele dizia que estavam "registrados", "convertidos", "declararam sua fé", "abraçaram a Fé", "alistados" sob a bandeira de Bahá'u'lláh, que "esposaram Sua Causa", "entraram nas fileiras" dos fiéis e assim por diante. Numa época de clichês estereotipados e banais, é bom lembrar disso. Eu gostaria de acrescentar que jamais o ouvi aviltar a aceitação do Supremo Manifestante de Deus com frases horríveis e sem sentido, aplicadas ao renascimento espiritual, tais como "ele assinou seu cartão". Shoghi Effendi nunca abandonou o uso correto da língua inglesa só porque certas palavras adquiriram uma conotação impopular. A Fé Bahá'í não tem padres ou missionários - mas os bahá'ís empreendem "viagens missionárias" com o declarado propósito da "conversão".

15
A Execução do Plano Divino de 'Abdu'l-Bahá

Ao fazermos qualquer tentativa de pintar um quadro coerente daquilo que Shoghi Effendi chamava de primeira época da evolução do Plano Divino de 'Abdu'l-Bahá - época essa que, segundo ele disse, principiou em 1937 e terminaria em 1963, e que incluía "três sucessivas" cruzadas - é necessário estudarmos seus escritos em ordem cronológica, pois neles podemos discernir o claro reflexo de sua mente e o surgimento do padrão de cronograma em seus planos. Desde o falecimento de seu bem-amado Mestre, todo o objetivo da existência do Guardião sempre foi o cumprimento de Seus desejos e a consumação de Suas obras. O Plano Divino, concebido por Ele, em um dos mais tenebrosos períodos da história humana, foi, segundo Shoghi Effendi, "o grande e incomparável desígnio de 'Abdu'l-Bahá", incorporado em Suas Epístolas aos bahá'ís dos Estados Unidos e Canadá, com o qual os destinos dos seguidores de Bahá'u'lláh no continente norte-americano "ficariam inextricavelmente entretecidos durante gerações ainda por vir"; por vinte anos, estivera suspenso, enquanto a Ordem Administrativa lentamente emergia e seus instrumentos estavam sendo criados e aperfeiçoados para sua "eficiente e sistemática execução". Temos a tendência de esquecer quanta importância o Guardião dava a esse conceito fundamental, muitas vezes frisado por ele; vejamos, portanto, suas palavras exatas. Durante os anos iniciais do primeiro Plano de Sete Anos, em 1939, ele escreveu à comunidade americana: "Por meio de todos os recursos ao seu dispor, estão promovendo o crescimento e a consolidação daquele movimento de pioneiros para o qual foi primariamente planejada e erigida toda a maquinária de sua Ordem Administrativa." Dezoito anos mais tarde, a opinião de Shoghi Effendi a esse respeito era a mesma, pois ele escreveu a uma das Assembléias Nacionais européias, em agosto de 1957, pouco antes de seu falecimento: "Menos substancial, entretanto, tem sido o progresso realizado no sumamente importante campo do ensino, e muito inferior a aceleração no processo vital da conversão individual para a qual toda a maquinária da Ordem Administrativa foi primária e tão laboriosamente erigida."

Era o Guardião que "tão laboriosamente" havia erigido essa "maquinária", com a ajuda de instrumentos desejosos e ansiosos que ele encontrou entre os crentes norte-americanos, aqueles que compreendiam seu pensamento, obedeciam às suas ordens e se apressavam a colocar suas instruções em ação. Apenas o Guardião possuía o divino e irrevogável direito de dirigir a batalha das forças da luz de Bahá'u'lláh contra as forças da escuridão. "Dentro em breve", escreveu Ele, "a ordem atual passará e uma nova se estenderá em seu lugar". Uma ordem que havia perturbado o próprio equilíbrio do mundo como os homens o conheciam. Bahá'u'lláh e 'Abdu'l-Bahá haviam produzido um rebento não somente capaz de captar Sua visão, mas também de organizar tanto os Seus ensinamentos como os Seus seguidores.

Se visualizarmos corretamente o que aconteceu em 1937, no começo do primeiro Plano de Sete Anos, veremos que Shoghi Effendi, então em seu quadragésimo ano, destacou-se como o general à frente de um exército - os bahá'ís norte-americanos - e marchou para a conquista do hemisfério ocidental. Enquanto outros generais, famosos aos olhos do mundo, conduziam vastos exércitos para a destruição em toda parte do planeta, travando batalhas de um horror sem precedentes na Europa, na Ásia e África, este general desconhecido, sem renome e glória, planejava e prosseguia uma campanha mais vital e de âmbito mais amplo do que qualquer coisa que eles jamais poderiam fazer. As batalhas deles eram inspiradas por ódios e ambições nacionais; as dele, por amor e sacrifício. Eles lutavam pela preservação de conceitos e valores moribundos, pela antiga ordem das coisas. Ele combatia pelo futuro, com sua radiante era de paz e unidade, de uma sociedade mundial e do Reino de Deus da terra. Os nomes e as batalhas daqueles, aos poucos são esquecidos, mas o nome e a fama de Shoghi Effendi crescem constantemente e com ele a grandeza de suas vitórias que jamais serão esquecidas. O sol de seu gênio e de suas realizações brilhará por mil anos, como parte da luz da Dispensação Bahá'í.

Ao revermos o tremendo volume de material sobre os Planos do Guardião, nunca devemos esquecer que, embora a primeira execução organizada do Mandato Espiritual de 'Abdu'l-Bahá aos crentes americanos (e notemos que este termo não se refere aos bahá'ís dos Estados Unidos somente, mas aos crentes da América do Norte) tivesse ocorrido com o início do primeiro Plano de Sete Anos, um grupo de devotados seguidores americanos da Fé, cuja maioria, segundo apontou Shoghi Effendi, eram mulheres "pioneiras", já se havia levantado em resposta imediata às Epístolas do Plano Divino, apresentadas à décima primeira Convenção Bahá'í anual em Nova York, em 1919, e se dirigido à Austrália, às capitais do extremo norte da Europa, à maioria de seus próprios estados centrais, à Península Balcânica, às costas da África e da América Latina, a alguns países da Ásia e à ilha do Taiti, no Oceano Pacífico. Durante trinta e seis anos, Shoghi Effendi nunca esqueceu os serviços prestados por essas almas nem deixou de mencioná-las. Deixou claro, entretanto, que esses empreendimentos no exterior por parte dos bahá'ís americanos haviam sido "experimentais" e "intermitentes". Com a inauguração do primeiro P