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Luis Henrique Beust : Da Infância, do Coração e do Mundo
Da Infância, do Coração e do Mundo
Luis Henrique Beust
Editora Planeta Paz

A meus pais, Artur e Annamarie, por quem a vida me veio.

A Ginus, André e Alexandre, por quem a vida seguiu e seguirá fértil.

SUMÁRIO
Da Infância, do Coração e do Mundo
(À guisa de introdução)
Da Infância
Da Infância
O Trem se Foi
Carrinho de Lata
Passeio na Praia com a Vó
Passeio na Praia com o Vô
Conchas na Praia
Apesar de Tudo
A Casa da Omã, lá...
Dona Anita, Seu Borges e Iolanda
Loteamento na Praia
Estrada de Mim
De fato Feliz
Saudades e Medos
Do Coração
Do Coração
Bahjí
O Sol do Carmelo
Vem!
Ilusão Perdida
Meu Filho, Escuta
Dente-de-Leão
Pecados no Céu
Sorriso Perdido
Desejos
Consolo
Poemador
Dança
Poetar
Inverno de Mim
Saudades, Amor
Dias Tristes
Esperança, Sonhos e Fé
Coisas Grandes
Quem Sou Eu?
Paradoxos
Pranto Longo
Quebrou-se
Haverá Repouso
Musa
Abandonei o Porto
Adeus
Vento Úmido
Dos Anjos
Pena dos Homens
Estações da Vida
Interrogativa, quem sabe...
Do Mundo
Do Mundo
O Que Pensavas em Oxford?
Tua Lembrança em Oxford
Folhas Mil
Sinal dos Tempos
Mangueiras e Abacateiros
Não sem esperança
Flores Estranhas
Os Homens Ocos
Eternidades
Cidade
Regato
Hampton Court
Túmulo de Wordsworth
Estrada Vicinal
Veredas
Salisbury
Nova Iorque
Memorial da América Latina
A Guerra Começou
Lanche no Avião
Na Praia
Dias Atravessados
Da Infância, do Coração e do Mundo
(À guisa de introdução)
"Da infância, do coração e do mundo",
Os três reinos mágicos onde habito.
Num reina o que é doce, calmo, profundo;
Noutro o indizível e noutro o infinito.
Três mundos unidos numa só alma
Que clama por justiça, amor e calma;
Que chora tragédias, violência e dor,
Nos mundos de sombra, e cheios de cor.
"Da infância, do coração e do mundo".
Tanto a dizer, mas a voz é tão fraca!
Tanto verso sussurrado e fecundo,
Mas a mão - pesada - e a memória - opaca.
Perambulo, caçando borboletas:
Com a rede em punho, os olhos xeretas,
Bisbilhotando vida, gestos, sonhos,
A enredar versos: alegres, tristonhos.
"Da infância, do coração e do mundo".
Os três verdes vales nos quais nasci.
Lá entre os montes, ninados no fundo
Deste mundo de Deus onde cresci.
Germinaram versos, brotou poesia,
Berçados na luz da lua e do dia,
Crescendo em mim, em gavetas secretas,
Mofando no isolamento de ascetas.
"Da infância, do coração e do mundo":
Abro as portas de meu esconderijo,
Relato a vida, segundo a segundo;
É assim que me encontro e me corrijo!
E fico aqui, co'a mão no coração,
Contendo os nervos e a tanta emoção,
Qual mãe que sofre e finge não dar bola,
Quando o filho chora ao ficar na escola...
Da Infância, do Coração e do Mundo
Da Infância
The childhood shows the man
As morning shows the day.
- John Milton, Paradise Lost
The child is the father of the man;
And I could wish my days to be
Bound each to each by natural piety.
- William Wordsworth, My Heart Leaps Up
Toada.
Minha infância está presente.
É como se fora alguém.
Tudo o que dói nesta noite,
eu sei, é dela que vem.
- Emílio Moura, Itinerário Poético
Da Infância

Para os amigos da infância, cada um deles querido de modo especial,

apesar da distância e do tempo.
We wove a web in childhood,
a web of sunny air. - Charlote Bronté
Da Infância é que nos vêm as misteriosas brumas,
Que cá dentro do peito se espraiam sutis;
Recordações partidas, mas serenas, calmas,
Como nuvens dispersas pêlos céus anis.
É da infância que vêm esses raios solares

Entre as folhas brincando, entre os ramos e as flores;

Aquecem nossas almas, aquecem os lares,
Alumbram nossos dias repletos de dores.
Horas e dias longos; férias infinitas!
Com alegrias tantas, de riso, de sonho,
Mas noites de sombra: as aflições malditas...
Ódios e amores, frustração e regozijo,
Saltam das brumas frias e do sol risonho
Agora que as lembranças de mim eu exijo.
O Trem se Foi
Um dia o trem sumiu,
A maria-fumaça se foi
E então ficou o bruto silêncio
E então ficou a grande tristeza
Das coisas todas que não mais voltam
Das coisas esquecidas,
Das coisas mortas.
Toda a emoção se foi:
Não mais as estrelinhas à noite,
Feitas de incandescente carvão;
Não mais o belo assombro no céu.
Nossos olhos ficaram mais pobres,
E o céu ficou calado,
Ficou assim...
Passou tudo, tudo...
Foi-se o mastigar sonoro
Das velhas locomotivas.
Então ficou o vazio,
O vazio dos dias idos,
Ficou o abandono,
A saudade.
E por tantos anos,
Tão longos e coloridos,
O vácuo dos apitos
Ecoando na lembrança.
Os dormentes, resignados,
Vazios de trens,
Bocejantes...

(E grandes cravos enferrujados como recordação...)

O silêncio dos trilhos.
O silêncio dos trilhos.
O silêncio dos trilhos.
Passeios na via-férrea ociosa;
Cascalhos gemendo a cada passada
E os fantasmas das marias-fumaças
Povoando o velho caminho.
Passaram outonos e verões
Passaram risos e prantos,
Páscoas e aniversários,
Sonhos e desventuras,
Interjeições.
Cada ano trazia novamente os morangos;
Vinham os cogumelos e as framboesas;
As geléias da orna e da vó.
Mas, do trem, nem mais lembrança;
Só triste saudade, só.
Carrinho de Lata
Um pequeno carrinho de lata prateado
Com guidão cor-de-rosa e estofado encarnado
Conduziu-me aí pelo vasto mundo afora.
(Ah! era bem mais fácil então do que agora...)
Sonho de infância, de pura imaginação,
Quando sonhar acordado não era em vão;
Tudo acontecia num canto do jardim:
Lá o mundo inteiro se condensava p'ra mim.
Assim fui a Saturno, Marte e Alfa-Centauro:
No carro de lata fui à China, ao Japão,
Voei às estrelas sem nem sair do chão.
Com Emília, Pedrinho e o monstro Minotauro
Eu vivi, quando a vida era sonho encantado...
(Ah! quem me dera dele não ter despertado!)
Passeio na Praia com a Vó
Para Liselotte Schertel Machemer
Fim de tarde: a praia é deserta, o céu, rosado.
Com nossa vó buscamos os alvos mariscos:
Risos e correria a cada novo achado;
E o meu dedo do pé na areia faz rabiscos.
Quilômetros de andança, vasta vastidão!
O mar revolto beija as tantas altas dunas,
Deixa formadas longilíneas lagunas,
Recobrindo de rosa areias, praias, chão...
O vento sopra sempre sussurros maiores;
E à medida que a noite já domina o céu,
A tarde carmim é envolta em negro véu.
Medo de assombração, ou de coisas piores!
Muitos baldes nas mãos, com cantigas e histórias,
No retorno à casa: as saudades, as memórias...
Passeio na Praia com o Vô
Para Frederico Lourenço Machemer
Recordo bem o sol no rosto e o sal na pele;
Tinha areia nos tornozelos, comichando;
Tantas conchas vazias que o oceano expele
E meus olhos no mar infinito, sonhando.
Passeio na praia, luz e fascinação:
Praia longa como ávida; clara, brilhante
(Qual meus olhos meninos e meu coração);
Toda a dor era ainda longínqua, distante.
E o avô fotografava com arte e ternura
Os castelos de areia, e a boa pescaria:
Retratos preto e branco de nossa ventura.
Quem diria que tudo logo passaria?
A ventura fixada na branca moldura
Mais que a verdadeira ventura duraria...
Conchas da Praia
Para Annamarie Machemer Beust, minha mãe
Passos tranqüilos na areia marcam a praia,
No poente o fulgor carmim do sol desmaia;
A concha oca de um caramujo do mar...
(E no vazio da concha as ondas a troar.)
Mistérios da infância, sonho e fascinação,
Castelos de areia, tatuíras na mão,
Pescarias de rede, siris, caranguejos;
(No coração: fantasias, medos, desejos.)
Ninadas na magia de tantos verões,
Assim, na praia, as férias e a infância passavam,
(E no vácuo das conchas as ondas clamavam...)
Os espantos do mundo em nossos corações:
No céu, meteoritos riam traços de giz
(E o mar no oco das conchas me punha feliz...)
Apesar de tudo
Às famílias Guerreiro e Fadel
Ali havia um pinheiro
Que já não há.
Por que faz tanta falta?
Por que me faz chorar?
É que havia um pinheiro igual
Dentro do peito
Que já se foi.
Que já morreu.
Que já não há.
Eram outros os dias que passavam,
Sem medo da morte ou da dor;
Eram dias vibrantes de vida,
Inocentes e alegres,
Palpitantes de aventuras e de imaginação.
O assoalho de madeira estalava surpresas,
Ecoava sustos, rangia;
Assoalho pisado por pés rápidos,
Nervosos na fuga desabalada
(E as passadas eram apressadas, corridas).
E já éramos ladrões e policiais
E a vida estava sempre por um fio:
Cada porta, cada vão, cada quina
Apresentava um potencial perigo,
Um esconderijo donde o inimigo saltava.
(E a vida estava sempre por um fio...)
O coração batia acelerado,

Os gritos dominavam o ar afobado e fresco das manhãs,

As vozes se ampliavam de emoção,
E as faces rosadas ardiam surpresas e sustos
Com o sangue que pulsava nos membros,
Que corria nas veias carregadas de fantasias.
(E a vida estava sempre por um fio...)
Eram outros os dias que passavam,
E havia um pinheiro que crescia
Dentro do peito
Que já não há...
Hoje são outros pés que correm,
Outros os nomes gritados na brincadeira,
Outros os personagens vividos
Na fantasia.
Contudo, a confusão de vozes é a mesma,
O emaranhado de risos é igual;
E o espaço ao redor,
A casa toda, por dentro e por fora,
As árvores e caminhos todos,
Estão um quarto de século mais velhos,
Mas ecoam os mesmos gritos,
Viabilizam as mesmas correrias,
Encorajam as mesmas ilusões.
Então, como as mudinhas de pinheiro
Que silenciosas brotam devagarinho à sombra,
Que sugam sol e chuva e brisa,
Brota no fundo da alma um sorriso tênue,
Como raios matinais que rompem a neblina,
Como as avencas bebendo o orvalho.
E as lágrimas secam, então.
E o que se foi é feito eterno no renovar,
E onde havia um pinheiro
Haverá outros, e mais outros
E outros mais.
E sempre haverão crianças correndo,
Sempre rindo, sempre a gritar.
Apesar de tudo,
Apesar.
A Casa da Oma, lá...
Lá a casa, só.
Lá as lembranças,
As saudades,
O pó.
O pó acumulado dos anos passados,
O pó das muitas décadas corridas,
O pó de tantos antepassados
Já corridos pr'outras vidas.
Faz mais, mais de dez anos que a Oma se foi:
A estrada sinuosa foi já asfaltada
Como ela tanto tempo ansiara.
A rua hoje tem luz, mas nisso ninguém repara:
Luz fluorescente contra a negra colina,
Que geme e sussurra em noites de neblina.
No inverno.
No frio.
Subo só, solitário, a lomba para a casa
Que tantas longas décadas a viu viver.
Subo para contemplar e sentir e rever...
Antes era preciso galgar a subida
Pisando as grandes lajes de basalto frio,
Úmidas, alinhadas em trilha comprida
Que findavam além do cimo, no vazio.
Era qual o subir e descer cuidadoso,
De aranha apoiada ao fio.
Antes
Carregavam-se lampiões na noite,
Bruxuleantes, com o vento em duro açoite:
As velas enjauladas entre vidro e ferro,
Já quase mortas, já alvas e brilhantes,
Chorando mortalhas brancas gota a gota,
Afastando vampiros, monstros e gigantes:
Afastando a escuridão plena ao redor
Fazendo a via mais alva e o medo menor.
Antes...
Também havia os tais de querosene, fumegantes,
Chaminosos...
A estrada de Taquara, por detrás da casa,
Fora cm dias passados longa via-férrea
Por onde sofreavam os trens na subida.

(E a Oma reclamava da fuligem, e da tanta lida...)

Depois, retiraram-se os dormentes;
Depois, compactou-se a terra,
Depois estendeu-se a brita em granulada manta
(E a Oma reclamava da poeira, e da lida tanta...)
Agora há asfalto, tudo já está pronto,
Tudo já foi terminado,
Mas ela se foi...
A casa da Oma
Divagando lá,
Eternizando
Ao Deus-dará...
Outros circulam pelas salas agora,
Outros sonham e jogam e vêem TV,
Outros riem e riem, muito embora
Corra o tempo sem dó e sem mercê.
Outros caminham para a morte,
Também.
Lá, a casa;
Lá as lembranças,
O pesar.
A tristeza de outra mobília
Que invadiu os espaços antigos.
Outros móveis, estendidos sem dó,
A entreter as aranhas,
A pegar pó.
Outros passos no assoalho antigo,
Descombinantes,
Alienígenas.
E eu agora um estranho
Onde fora íntimo, onde fora rei:
Um desconhecido onde antanho me criei...
Querer que o tempo pare, será loucura?
Querer reter o viço,
Aventura?
Sim, é sonho,
É ilusão...
Mas é tão doce o sonho, às vezes,
Frente à razão!
Os vaga-lumes inda voam fantasias
Nas noites de verão.
O céu brilha e rebrilha faceiro,
Sumamente estrelado. Então:
Vozes cantam,
Mãos se atam,
E tudo segue em frente, de roldão...
(E a casa, lá, só divagando,
Eternizando mais que os pobres moradores...)
Sobre o telhado verde de limo
Uma grande antena parabólica fulgura:
Tão deslocada lá no alto cimo
Da casa já tão cheia de amargura:
(É novidade incômoda, tão sarcásmica!
Será que sintoniza a Orna ectoplásmica?)
Antena qual balaio futurístico
Visando o negro céu ermo e distante:
Colhe entretenimento quase místico
Invisível no ar a cada instante.
Diversão que preenche as noites de outra luz,
Disfarça o envelhecer nas salas azuladas,
Mascara as tantas dores que a vida produz,
E dilui as tristezas das salas caladas...
Mas os minutos e as horas vão.
Irredutíveis ao choro,
Inexoráveis,
Inflexíveis.
Agora.
Sempre.
Dona Anita, Seu Borges e Iolanda
A eles
A casa de Dona 'nita, tão como um santuário.
Tão como um santuário:
Refugio de anjos,
Onde sempre se encontrava a paz.
Onde sempre havia sorrisos, palavras doces,
Afagos.
Forno de barro,
Pão caseiro,
Manteiga e geléia.
Afagos...
A cozinha era humilde:
Mesa retangular no centro
(Daquelas com gavetas para talhares),
Um armário empertigado contra a parede,
Uma pia gripada, sempre pingando,
E o mágico fogão a lenha:
Grande,
Monolítico,
Proibido.
Um tanto sagrado,
Um tanto tabu.
(O fogão era hegemônico:
Ocupava quase toda a parede, espraiava-se
Junto aporta e à janela sempre abertas...)
Lá fora, o quintal.
O mundo.
Sempre o fogo a crepitar:
Aquecendo a cozinha,
A sala e a casa,
Amornando o ar.
Como o amor de Dona 'nita,
De seu Borges e Iolanda
Nos aquecia o coração.
Como nos iluminava o coração!)

Madeiras ferventes a estalidar: borbulhando, assoviando,

Ferventes, chiosas...
Tudo era som de mistério e aconchego,
Tudo era perfume de carinho,
Tudo era toque de amor.

A grande chapa de ferro, como a ameaça do inferno,

Exalava vapores ferventes.
(Cada pecado é um pontinho preto
E as almas vão ficando negras ao crescer...)
As labaredas silvando,
A ciciar.

E na chapa negra do inferno, sempre alguma comida gostosa,

Sempre um prato a mais,
Sempre o feijão com arroz,
Sempre a carne desfiada, suculenta e macia...
Ninguém jamais preparou feijão como Dona 'nita:
Perfumado, denso, caudaloso, fumegante.
Havia toucinho, alho, cebola,
Louro, sei mais o quê...
Perfumado, fumegante, sei mais o quê...
E a carne de panela desfiante, macia,
Saborosíssima como deve ser.
A ambrosia de sobremesa: escura, pedaçuda.
Jamais voltei a saborear igual.
Gosto de meninice
Com leite.
Com açúcar.
Como ela fazia.
Escura,
Pedaçuda.
Como ela, tão somente, fazia...
A cozinha era o coração da casa,
Sempre aquecido,
Sempre o fogo a crepitar:
Queimando minutos e horas,
Dias e anos,
Secando lágrimas,
Iluminando o olhar.
E a casa.
Como descrever?
Aos que não aprenderam a amá-la,
Que importa?
Que interesse teria?
(Tão enfadonhas são as lembranças alheias
Que até trazem sono ao coração!)
Só direi que era casa antiga:
À minha bisavó pertencera.
Só direi que havia rachaduras nas paredes,
Como chagas do tempo, como chagas
Das lutas pela vida,
Da tristeza e da dor.
(E as brisas verdes e róseas
Sopravam perfumes de laranjeiras
Pelas mil chagas abertas...)
Só direi que havia um quartinho escuro
Também.
Lá ficava o tarro de barro
Com água fresca e saborosa como as alvoradas,
Com água geladinha,
Orvalhal.
Água bebida em copos de vidro grosso
Pintados nas bordas com florinhas azuis,
Com frisos amarelos e laranjas,
Crespinhos.
(E as brisas verdes e róseas
Sopravam perfumes de laranjeiras
Pelas mil chagas abertas...)
Direi que havia uma sala,
Imaculada, de assoalho espelhado;
Com cristaleira e bibelôs de porcelana,
Com sofá de visitas, duas poltronas,
E mesa central, de seis cadeiras.
Mesa que jamais vi posta,
Jamais vi servida,
Porém sempre ornada com flores:

À espera de visitas. Sempre à espera de visitas...

Nas paredes, fotos da família em original preto e branco,

Mas coloridas laboriosamente à mão,
Atentas:
Rostos graves emoldurados por nuvens;

Faces rosadas pelas mão otimistas do fotógrafo-pintor,

Aquareladas de generosidade:
Fotos de Iolanda nenê.
Cinco ou seis na mesma moldura;
Caleidoscópicas; variegadas.
Sortidas como a vida.
Lá estava, Iolanda sorrindo, Iolanda chorando,
Iolanda pensativa,
De perfíl...
(E as brisas verdes e róseas
Sopravam perfumes de laranjeiras
Pelas mil chagas abertas...)
Depois, dois grandes quartos melancólicos
Com armários de madeira escura;
Sombrios como os dias que viriam
Depois.
Sombrios como a tragédia
Que se abateria
Feroz.
No lado de fora, junto às espadas-de-São-Jorge,
Junto à entrada da cozinha,
O imenso tanque de cimento.
Grande, bojudo:
De lavar roupa e galinha;
De lavar pé.
Ali ficavam os guarda-chuvas
Das visitas dos dias de chuva.
Plantados.
Ali muitos banhos tomei.
Também.
Ao lado, aporta do depósito:
Enigmático. Coisa de adulto.
Trancafiado como os segredos da vida.
Lá dormia o milho seco,
Dourado nas espigas.
Lá repousava o arroz com casca.
As rações.
Os sacos de aniagem.
Cheiro de tudo-nada.

Lá ficavam pendentes (girando como os corpos enforcados)

Os arreios dos cavalos,
As celas e pelegos,
As esporas, os chicotes,
E mais.
E mais mil e uma coisas misteriosas,
Fascinadoras como os segredos sussurrados.
Local meio proibido, de perigoso:
Lá estavam foices e facões,
Cordas, pás, ancinhos e gadanhos.
Veneno de formiga,
Ratoeiras,
Pregos,
Arame.
Farragem.
(Cheiro de tudo-nada.)
Lá os ratos, à noite,
Roubavam às galinhas o milho estocado.
Barulhos sorrateiros.
Ruídos de esguelho.
Escarafunchar.
Tinir.
Roçar.
A noite:
Nosso peito ficava estreito de medo,
Apertado,
Sufocante,
Com medo do lobisomem,
Da mula-sem-cabeça,
De tanta outra assombração...
Arrepios.
Olhos arregalados,
Ouvidos atentos,
E o pavor disfarçado em risos;
A conversa alta, nervosa.

(Perguntas despropositadas só para encher o silêncio.)

Arrepios...
E os ouvidos vigilantes e atentos
Percebiam os ruídos como passos:
Os ratos à noite faziam andar o lobisomem!
Parecendo que era,
Parecendo...
(Arrepios.)
Depois, era o avarandado, largo, largo:
A mesa, as cadeiras,
Os vasos de plantas,
O banco encerado de tanto assentar-se.
Seu Borges tomava chimarrão.
Girava a bomba na cuia,
Assentava a erva,
Socava.
(A água quente da chaleira a fumegar.)
Escutávamos histórias e "causos",
Imóveis. Olhos mirando o infinito,
Desfocados.
Projetivos.
Cinemáticos:
Contemplando o invisível.
Enxergando o que nunca foi,
O que nunca será.
Seu Borges avançava com voz pausada;
Pensativo, gestos lentos:
Pigarreava;
Ponderando as frases. Escolhendo.
Tramando a teia de palavras e sucessos,
Enredando os corações infantis.
Pois: assombro! Espanto!
Tudo veraz. Jurado.
Deus-o-livre-e-guarde!
E nossos olhos: reticentes, oblíquos.
Ao viés.
Enfim.
Então, o pátio de terra, sempre varrido,
O pomar,
Nossa casa,
O jardim.
O rio dos Sinos, a olaria
E o vasto mundo ao redor:
Paragens estranhas,
Só ouvidas.
Mundo.
Mundo que jamais pensei
Vir tanto a conhecer.
Por onde iria tanto vagar...
Por onde iria tanto vagar,
Mundo que não conhece Berto Círio,
Que já perdeu Seu Borges,
E seu neto único, inda criança:
A desgraça.
O desespero.
A dor.
Mundo que não conheceu o pranto
De Dona 'nita e de Iolanda.
O pranto amargo da avó e da mãe
Que enterram o neto e o filho.
(E as brisas verdes e róseas
Sopravam perfumes de laranjeiras
Pelas mil chagas abertas...)
O pequeno Giovani foi-se:
A bicicleta avançando,
Pedaladas rápidas,
Risos.
A rampa,
O declive,
O descontrole,
O caminhão.
O caminhão.
O caminhão!
A roda.
Ai!
Ai!
Ai!
O desespero!
O desespero!
A dor! A dor! A dor!
(E as brisas verdes e róseas
Sopravam perfumes de laranjeiras
Pelas mil chagas abertas...)
Vasto mundo, vasto mundo,
Daquela cozinha ao redor.
Aconchego de minha infância,
Recanto, acalanto.
Mundo.
Vasto, largo, imenso mundo de Deus!
Vasto mundo de Deus.
Vasto mundo.
Onde todos necessitam de fogões à lenha,
De pão cozido em forno de barro
Com manteiga e geléia.
Vasto mundo, vasto mundo,
Sofrido, na dor crescido,
Vasto mundo de Deus.
Onde deviam todos conhecer Seu Borges,
Dona 'nita, Iolanda.
E o pequeno Giovani
Lá no Alto,
A cavalgar o seu cavalo etéreo,
Orando por todos nós...
Loteamento na Praia

Para Ana Cristina, Jorge Fernando e Daniela, meus irmãos

E se foi...
O largo espaço vazio
Coberto de areia fina e branca
Se foi.
Onde outrora corríamos
(Como perdidos no deserto!)
Se foi.
As curvas amenas dos montes de areia,
A mágica película esvoaçante
(Aura voadora
De grãos infinitos levados ao vento),
Não mais se vêem.
O sol a refletir doridamente: não mais.
O branco branco dos brancos grãos de areia:
Não mais...
Brilham negros os paralelepípedos.

As negras ruas dos loteamentos estiram-se tórridas.

E macularam o casto espaço branco.
O espaço branco, branco
Como os brancos sonhos enigmáticos
Após as chuvas azuis do verão.
Agora lá erguem-se vatídicos
Postes negros, como altas cruzes;
Vatídicos e soturnos
Indicando ali as tumbas dos momentos idos,
O lugar do sepultamento
De tantas lembranças infantis.
Perdeu-se a magia e o mistério.
Rompeu-se.
Rompeu-se.
E se foi...
O vasto espaço branco se perdeu.
As lagoinhas de águas claras,
Aos pés dos cômoros de areia foram drenadas.
Antes, por longos e generosos dias,
Lembravam longas chuvas passadas;
Agora estiolam-se secas,
Drenadas,
Corridas para o mar,
Canalizadas,
Sumidas.
Quem lhes permitiu destruir aquele mistério?
As dunas.
O deserto.
Com sua inconsciência
Por que destruir tantas lembranças?
Por que matar o que não se conhece?
Mas agora é tarde
E já se foi...
(Nas casas mesmerizadas
As televisões bocejam novelas.)
Quem lembrará dos sambaquis ancestrais,
De localização confusa e enigmática?
Atávicos.
Ósseos.
Quem recordará das aventuras?
Das expedições e piqueniques?
Do antes vasto lençol de areia?
Quem sentirá o suave tremor do mistério
Da lua e do vento sobre o vazio?
O vazio atapetado de areia.
De extenso branco.
(Nas casas mesmerizadas
As televisões bocejam novelas.)
Quem subirá às dunas para olhar as casas?
Quem subirá para mirar as estrelas?
Para contemplar o oceano?
...E já se foi.
Tudo já se foi...
Quanto tempo durarão os cômoros?
E a areia?
E a fantasia?
...E se foi...
Estrada de Mim
Para Jairo Bensussan Dechtiar
Fui-me pela estrada.
E segui...
E segui, e segui,
Margeando o rio de minha infância:
Rio dos Sinos, a soar.
Águas sonoras a repicar nascimentos,
Batizados, páscoas e natais;
Águas sonoras, fundas, pesadas:
Dobre de finados a chorar.
Rio dos Sinos, a soar.
Rio.
De enchentes, de secas,

De travessias de barca, os corpos afogados, sinuosos:

Os submarinos humanos cadavéricos
Empurrados correnteza abaixo,
Flutuando, flutuando, flutuando...
Corpos afogados destituídos de sonhos,
Perambulando vadiamente sua morte
Sobre pedras e areia,
Sobre tigelas e jóias perdidas,
Esbarrando em tocos,
Em barrancos,
Em peixes e aguapés.
E então: presos, engastados
Num tronco submerso, numa pedra,
Estancando sua morte andarilha e ali ficando:
Silenciosos.
Pálidos.
Horrendos.
Num redemoinho mudo.
Serenos.
Daí, a busca:
Pescadores com anzóis, barcos,
Movimento, movimento.
Muito, muito, muito.
Nenhuma palavra.
Nenhuma palavra.
Nenhuma palavra.
É preciso pescar o morto,
É necessário achar.
É noite.
E à noite, quando os afogados suspiram,
As mulheres vêm à busca. Também.
Quando os afogados suspiram.
Rezas, preces, benzeduras.
Lágrimas, pranto, abraços.
Mãos trêmulas.
Frio.
Dor.
Casacos de lã, úmidos, puídos;
Rezas, preces e benzeduras.
É preciso pescar o morto.
É preciso achar.
Nenhuma palavra.
Nenhuma palavra.
Daí, a busca.
Daí, a simpatia, o encantamento:
Os pires com velas a buscar o corpo,
A navegar.
Brancos,
Dezenas.
Pires de louça branca,
Flutuantes.
Grossos , interioranos:
Sobre as águas com uma vela no centro.
Dançam, rodopiam,
Ziguezagueiam m o corpo,
Buscam o corpo,
Flutuantes.
Cada chama reluz triste na escuridão.
Os pires se alumiam:
As velas bruxuleiam,
Procissão mágica, dançante,
Fantasmagórica quase.
Bailarinos pires brancos
Em bale aquático pelo afogado.
Círculos alvos sobre o negro rio.
As chamas trepidam, tremelicantes,
Arrepiadas de frio.
Velas brancas de medo.
Chamas indecisas:
Ora moribundas, quase,
Ora vivas outra vez.
Depois.
Brisa fresca da noite,
Arrepio.
Pires brancos sobre as águas,
Velas peregrinas,
Círios bentos,
Viandantes,
Lá se vão...
Melancólico ziguezague,
Fantasmagórico cortejo
Em busca do corpo,
Do afogado que suspira por paz.
Que suspira em vão.
Cortejo em busca do morto
Que se prende aos troncos, às pedras,
Às raízes subaquáticas:
Aguapés.
Os pires brancos com velas brancas
A procurar...
E param:
Reúnem-se.
Aglomeram-se.
Encostam-se
Tilintando, em sombrio tilintar.
Luzes tremeluzentes reunidas.
Mancha alva sobre o rio,
De trêmulas cintilações.
Pires brancos sobre águas negras.
Como ameba sepulcral, d'outro mundo
Indizível.
Ali.
Lá!
Lá se lançam anzóis,
Lá se reza,
Lá está.
Braços fortes puxam,
Em solene forcejar;
Aos trancos e barrancos
Resgate-se o corpo,
A rezar.
Trabalheira bruta,
Custosa,
Molhada.
As testas suadas no frio.
E o corpo morto é erguido,
Rebocado.
Os pires são recolhidos,
As velas são apagadas,
O corpo do morto suspira,
E os vivos encontram paz.
E segui pela estrada.
Segui, segui...
Havia bosques de eucalipto
Onde brotavam cogumelos,
Amarelos, brancos, cinzas;
De formas tantas,
Surpreendentes.
"Chapéus de cobra".
Delicados
(Aqueles com anelzinho no caule
Não eram venenosos),
Outros: enrugados como coral,
Cor de abóbora,
Abertos como leques.
Todos em meio às folhas,
Junto aos troncos,
Tenros.
Sim, havia cogumelos.
E no fim do dia
Uma panelada de "Bilzen",
Esfumaçante.
Como caldeirão de bruxa.
Surpreendente.
Fascinante até.
(Colhê-los, porém,
Sempre melhor que comê-los!)
Cogumelos às margens do Sinos.
E segui ainda,
Fui-me pela estrada,
Só.
Segui para fora, para a cidade-grande,
Para escolas, festas e namoros;
Para cinemas e livros,
Para o mundo, o grande mundo,
Segui...
No caminho vi dores e risos,
Esperanças,
Suicídios.
Vi luxo e miséria
Por onde segui.
E então o caminho iluminou-se
E o rio agora era como o som de muitas águas,
E a estrada já não margeava o rio,
Nem havia bosques de eucaliptos,
Nem um afogado a buscar.
Pois o afogado era eu.
Daí.
De Fato Feliz
Para Stélio e Tarcísia Granucci
Talvez nunca fosse de fato feliz
Enquanto corria por tudo que é lado,
Empinando pipa de muito matiz,
Achando e querendo, bem mais, ser achado.
Quando tudo eu tinha em meu mundo petiz,
Na verdade nada eu tinha conquistado:
Pois é o coração quem mesmo contradiz
Os sorrisos todos que sorri forçado.
Mas na infância tudo se torna ventura,
Mesmo que tropece e vá sem diretriz ;
A mente confusa e de todo imatura.
E por isso, a infância em mim tanto resiste:
Talvez nunca fosse, de fato, feliz,
Mas, pelo menos, não me achava tão triste...
Saudades de Medos
Para Janete Cunha Claro
Quantas saudades tenho dos medos da infância!
Medo de lobisomem, mula-sem-cabeça...
Medos de assombração tinham mais importância
Que qualquer outro medo de que a alma padeça.
Temores que ficaram longe, na distância,
Pois hoje não há mais monstro que me apareça!
Como também não há mais a doce fragrância
Embora o coração tanto dela careça...
Fragrância que emanava da vida, dos sonhos,
Que dominava tudo o que eu era e sentia:
Foi-se! assim como o medo que eu tanto temia.
E a saudade que tange os meus dias tristonhos
Não é tanto dos medos vagos doutros dias:
É que então eram mais reais as alegrias...
Do Coração

Pois a boca fala daquilo que o coração está repleto.

- O Evangelho segundo São Mateus, 12:34
Um coração contrito e quebrantado,
ó Deus, não desprezarás.
- Salmo 51:17
Ich grolle nicht, und wenn das Hertz auch bricht
Ewig verlornes Lieb!
Ich grolle nicht.
- Heirich Heine, Ich grolle nicht
Do Coração
Para Madlen e Nosratolláh Vahdat

É o duelo entre Deus e o diabo, sendo o coração humano o campo de batalha.

- Dostoievski
Amplitude infinita cá dentro de mim:
É prado sem limites e alta cordilheira:
Lá onde tudo acaba sem que tenha fim,
Onde cresce emoção que é pura e verdadeira.
É mar sem praias, firmamento sem limites;
Onde nadam tristezas, voam alegrias.
Onde morrem sonhos e nascem apetites.
Região de borrascas e de calmarias.
Uma zona de mim tão misteriosa e oculta,
Assim é o coração que carrego no peito:
Esquiva-se de todo juízo e conceito.
Ah! Paragem de mim que só no etéreo exulta!
Ah! Região de mim onde vibra o infinito!

Onde as brisas constroem os castelos que habito...

Bahji
Às famílias Rabbani e Nourani
Há ciprestes serenos na planície de 'Akká:
Onde fora deserto o verde se destaca;
Uma terra de exílio é agora morada
Para os muitos que o exílio a pusera apartada.
Em meio ao largo círculo que ora circundo
Jaz o centro de tudo, augusto eixo do mundo:
Santuário que aninha as histórias de dor,
Que entesoura a oblação majestosa do amor.
Dentro dele, apesar do tanto ar e da luz
Mal e mal se respira, e não se quer bulir
A paz, a paz, a paz tanta da alma a sorrir...
É o Deleite que amor esparge e paz produz:
O Ponto que serve aos anjos de adoração,
A Fonte que verte as águas da redenção...
O Sol do Carmelo
Às famílias Saeed e Yazdani
Desceu por acaso o sol ao centro do Monte?
Fulgura o orbe no seio da santa Montanha?
Não, não! Já sabes tu antes mesmo que eu conte:
Trata-se de outro feito, é uma outra a façanha!
Onde antanho dominava o árido deserto
Agora nascem rosas num horto alto e belo.
Vê! O sol que rebrilha, se visto de perto,
É cúpula dourada a alumbrar o Carmelo.
Ah! Quem doou da própria vida o bom tesouro
Sem buscar o bem deste mundo ou do vindouro,
Só por amor sofreu as tantas duras penas.
E a Mão que sacrifica o sangue imorredouro
Também cinge o sagrado pó com manto de ouro:
Pois bem outorga as negras horas e as serenas...
Vem!
Para Ginus
Teu silêncio
É o eco do meu vazio,
O reflexo de minha imagem
Dolorida e triste,
Perdida...
Quem romperá o fio tênue
Que separa a felicidade
Do desespero e da dor?
Que palavra,
Em que momento,
Abrirá as portas da alma
Arejando o coração?
Vem, por favor, vem!
Meu silêncio grita por ti!
Minh'alma anseia
Pelo bálsamo do teu sorriso,
Pela bonança dos teus carinhos,
Pela eternidade do teu amor...
Vem, depressa, vem!
Antes que a solidão me sufoque,
Em meio a um mundo de estranhos.
Sem tua presença sou deserto,
Sou vácuo, apenas vácuo,
Pois só tu me povoas...
Ilusão Perdida
Para Ilse e Luiz Carlos Luz Silva
Escapou-me das mãos uma ilusão.
Caiu.
Despedaçou-se.
E fiquei a contemplar perplexo,
Amedrontado,
Seus estilhaços pelo chão.
Correu-me então pela espinha
O arrepio dos grandes terrores,
Dos medos indizíveis,
Das descidas de tobogã.
Escapou-me das mãos
Uma ilusão.
Despedaçada, inútil,
Fere com seus cacos o meu coração.
Ficou em mim o vácuo dos grandes silêncios
E o medo, o medo, o medo
Da pura realidade.
Escapou-me das mãos uma ilusão.
Rósea, querida, bela, acariciada.
Tão necessária e tão inútil
Como toda realidade fantasiada.
Meu Filho, Escuta
Para André Danesh e Alexandre Nabil
Meu filho! Como desejo te ensinar
O que aprendi com o vento do outono
E a brisa da primavera!
Quero te ensinar a escutar as estrelas:
As que, serenas, recitam versos infindos,
A cintilar rimas inescrutáveis.
Outras, que entoam odes vigorosas,
Cheias de brevidade e mistério,
Cadentes, a brilhar entre o céu e a terra.
Meu filho! Há tantos enigmas por decifrar,
Tantos mistérios por descobrir e aprender!
O coaxar dos sapos nas noites da serra,
O bailado dos vaga-lumes nas noites de primavera,
As sombras longas das tardinhas de outono...

Tu próprio: mistério amado mais que qualquer outro!

Quero te sussurrar o que me sussurraram as cigarras

Nas manhãs ensolaradas de verão;
Dizer-te o que me disseram as chuvas,
O que gritaram os trovões,
Nas noites melancólicas de inverno.
Desejo te ensinar muitas línguas
Para entenderes a natureza e sua canção.
Para decifrar o que diz, através dela,
O Poeta Maior, o Senhor da Expressão.
Meu filho amado! Meu filho amado!
Te quero mais feliz do que jamais fui,
Te quero mais puro, do que jamais serei...
Te quero um servo humilde, um auxiliador,
E por isso oro em minha solitude.
O tempo é curto, porém, muito curto para mim.
Outros mestres te dará a vida,
Outros guias.

Guarda, porém, o amor deste que te beija a lembrança,

Deste que teve a sublime alegria
De te transmitir o mistério da vida.
Dente-de-Leão
Para Marga e Ernesto Bercht

Humilha-te perante Mim, para que Eu, por Minha graça, te possa visitar.

- Bahá'u'lláh
E me quis perfeito
Para ser amado,
Para ser digno de carinho,
De estima e respeito,
De consideração.
(Pois não é a imperfeição indigna?
Desprezível?
Desamada?)
E me quis perfeito,
Pois seguia desde pequeno com amores seletivos
Plantados na alma:
Carinhos parcos,
Afagos ausentes;
O aconchego como recompensa,
Não como estímulo.
O amor como prêmio a ser conquistado,
Não como dote de nascimento.
E a alma de lábios secos,
Partidos,
Ansiando pelas águas refrescantes
De um abraço,
De um toque,
De um carinho.
O amor não era óbvio, mas oculto;
Por isso me quis perfeito.
(E meus olhos infantis ansiavam.)
Havia cuidados,
Ordens,
Instruções,
Presentes.
Havia comida,
Divertimentos,
Reprimendas,
Proteção.
(E meus olhos infantis ansiavam...)
Cultivavam-me,
Engordavam-me:
Preservado, aquecido,
Tratado.
Mas onde estavam os beijos?
Onde os abraços?
Onde o aconchego,
O acalento,
Os afagos?
E me quis perfeito
Para ser amado.
Quis obrar para receber carinho:
A perfeição era a matéria prima
Para a atenção,
Para a terna consideração.
Minha alma infantil, caçadora-coletora
Como toda alma infantil,
Não encontrou caça farta,
Não achou alimento abundante.
Nada havia para simplesmente colher.
Não bastava simplesmente ser
Para subsistir.
Nenhum tempo para só ser, é
Para somente ser.
Nenhum tempo para o calor
Da fogueira primeva;
Para o aconchego dos raios do sol,
Para o frescor das brisas,
Para a doçura das águas.
Nenhum tempo para só ser.
O seio familiar não era tropical:
Havia que obrar para comer.
Não havia frutas de amor ao redor
Para colher e lambuzar-se;
Não havia.
Havia de obrar para aquecer-se
Pois não havia um sol permanente.
(E meus olhos infantis ansiavam...)
Toda criança precisa brotar
Como brotou a vida da humanidade:
No coração aquecido da África,
Com abundante água,
Com muito alimento
E adequado calor.
O ambiente: generoso,
Cheio de dádivas.
Temem-se os tigres, as serpentes,
Mas não se teme a vida;
E basta ser para ser amado.
Basta colher,
Pois o alimento é farto.
Basta germinar.
Toda criança precisa germinar.
Todo infante precisa
Do seio dadivoso de uma preta gorda
E sorridente.
Todo infante precisa
Do ventre de uma preta gorda
E sorridente;
Todo infante precisa
Do colo de uma preta velha
E sorridente:
Sorriso sem dentes,
Sorriso de coração,
Sorriso de mãos,

Sorriso de pés arrastando velhos chinelos de couro.

E me quis perfeito
Porque não vivia na África,
Mas às margens do Reno,
Nas entranhas do Schwartzwald,
Nas planuras sisudas
Onde a Heide se espalha e floresce.
Vivia onde é frio,
Onde é como olhos que não miram nos olhos;
Onde é como abraços não dados;
Onde é como lareira apagada,
Cinzenta e fria.
Mas a dor não vinha do Reno,
Não vinha da floresta,
Não vinha das planícies geladas:
A dor estava na semente
A germinar...
Impávido.
Gentil.
Vivaz, arguto, prestativo;
Leal, submisso, cortês;
Culto, refinado.
Disponível. Aberto.
Forte.
Temente a Deus:
Quase Deus, de perfeito.
Invejando em Deus a perfeição,
Desejando-a insanamente
Para que Deus me pudesse amar.
Mas a vida, assim:
Como um desconsolo,
Um desencontro;
Como folhas secas queimadas no outono.
E no lugar da perfeição, a dor.
A máscara.
O vácuo.
O desespero.
O mundo perfeito desabava
Por dentro e por fora
Em alucinados turbilhões:
Tentativas de suicídio,
Enfermidades torpes e brutais,
Desavenças, ódios parricidas,
Violência, loucura e traição.
Na clã estavam os ninhos de serpentes,
No coração estava o desalento,
Na vida, o hálito venenoso do desespero:
Impávido,
Gentil,
Culto,
Temente a Deus.
E quase louco.
(E só me queria perfeito Para ser amado...)
Foi-se a magia.
Certo dia, de repente, nublou-se a alma
E a esperança
Era como um gato atropelado:
Um miado congelado nos ouvidos,
Os olhos fora das órbitas,
O pêlo tinto de sangue,
O pneu tinto de sangue,
Cinzento,
A rodar.
(E a esperança era como uma poça de sangue.)
"Per me si vá nella cittá dolente,
"Per me si vá all'eterno dolore,
"Per me si vá tra Ia perduta gente",
Assim os filhos como os antecessores:
Abandonai toda a esperança,
Vós que entrais...
As sete pragas do Egito em minha porta
E a morte a correr mundo:
Caveira e foice
Na Somália,
Na Bósnia,
No Nordeste.
E chegando logo mais ali, e ali.
Os sete cavaleiros do Apocalipse.
Os sete anos de vacas magras.
E dizia aos vermes:
- Sois meu pai e minha mãe,
Sois minha coberta,
Minha vestimenta.
Convosco repousarei!
(E a esperança era como poça de sangue.)
Prestativo.
Submisso
Cortês.
E orgulhoso! Arrogante!
(Só queria ser perfeito!)
Invejando a Deus...
Lúcifer caído.
E as portas do inferno escancaradas.
Bocarras sanguinolentas,
Carnes pútridas copulando,
Gargalhadas ébrias
E a alma assim
Como óleo quente derramado sobre uma criança.
Ai! Ai! Ai!
De gritar de desespero até morrer.
De arrancar os olhos.
De trespassar o peito.
De decepar as mãos.
E Deus quase inexistente, quase extinto.
Só perfeito me queria, para ser amado...
Depois, o silêncio.
(De profundis...)
Depois, bem depois,
Como após a erupção vulcânica
Seguida de muitas chuvas longas,
Tudo se cobriu de fumaça.
A lava crestada.
A terra nova envelhecida
Em rugas negras.
O silêncio.
O vazio.
Depois,
Como após os derrames de lava
Esfriados pelas chuvas longas,
Ficou o silêncio.
Não da morte, porém,
Apenas o sono depois do cansaço,
Apenas um suspiro,
Um fim de parágrafo,
Um virar de página.
Como uma brisa pela soleira da porta.
E renasce a vida,
Germina.
Renasce a vida
Sobre o grande deserto negro,
Sobre o Gólgota,
Sobre 'Akká.
Águas são drenadas e represadas,
O verde surge:
Frágil,
Tíbio,
Mas verde, verde, verde.
Tudo o que era foi-se.
E tudo o que será começa a brotar
O coro entoa etéreo o Réquiem
Para os vivos:
"Só seidnun geduldig, lieber Bruder,
"Bis auf die Zunkunft dês Herrn.
"Siehe, ein Ackermann wartet
"Auf die köstliche Frucht der erde
"Und ist geduldig darüber,
"Bis er empfahe den
"Morgenregen und Abendregen.
"Só seid geduldig..."
E ali, no inferno onde estivera
Não encontrei o demônio.
Ali, no seio do vulcão medonho
Não encontrei o fogo abrasado
No mais profundo do vulcão,
No mais profundo do inferno,
Está Ele, está Deus.
Só Ele está.
Só Ele é.
E não pode haver mais ninguém.
E já não me quero perfeito, Senhor!
Arrasado, crestado,
Só me quero a germinar.
E Tu amas o que germina, Senhor!
E não queres a perfeição,
Mas o eterno aperfeiçoar.
E não amas as fantasias,
E não queres a ilusão.
E só me quero redimido, Senhor!
Tépido, orvalhal.
Como brisa na soleira da porta
Aos Teus pés...
Abandonada ficou a torre, mais uma vez.
E não alcançou o céu.
E os homens baixaram à terra confusos;
Eu o primeiro entre eles.
E ficou outra vez Babel inglória,
Louca,
Vã.
Foi-se. Abandonada ficou.
E a hera há de crescer
E tomar conta.
Gotas de chuva cavarão as pedras
Lentamente.
Os caibros cairão.
E tudo será entulho,
Esquecido.
Cá embaixo, coberto de vermes,
Sorrio:
Quanto mais imperfeito sou
Mais Teu amor resplandece!
E a perfeição
É um dente-de-leão maduro
Quando começa a ventania.
E a perfeição
É um dente-de-leão maduro
Quando termina a ventania...
Pecados no Céu
Para Foad e Shahla Shaikza

Em todos os tempos, estou perto de ti, mas tu estás sempre longe de Mim.

- Bahá'u'lláh
Choro, pois mesmo no puro céu
Existem pecados...
Os anjos imaculados, companheiros de Deus,
Lamentam, lamentam, envergonhados.
E choram imenso pranto
Por estarem tão próximos
E ainda assim tão distantes.
Quantos suspiros! Ai, ai quantos ais!
Tantos suspiros, tantos mais!
As celestes alturas tremem de comoção!
E o silêncio,
Só o silêncio da dor concede perdão...
E Deus é nossa recompensa
E nosso castigo.
Que se cale o mundo, então.
Sorriso Perdido
Para Nereida Manzoli Rosat
Perdeu-se um sorriso na rua,
Em alguma esquina ou estação de metro.
Pobre coitado, como criança perdida
Deve andar por aí vagando, pequenino,
Sem companheiro ou amparo,
Desesperado e só.
Um sorriso nem alto nem baixo,
De cor indefinida,
Vestindo roupagem comum,
Foi perdido recentemente.

Se alguém acaso o encontrar, favor devolver ao dono,

Que também vaga solitário.
(Pois é difícil substituir um sorriso perdido.)
Só se espera que não tenha sido roubado,
Pois sorrisos roubados não se encontram jamais...
Desejos
Para Enayatolláh e Jaléh Vahdat
Possa o amor dentro de nós ser tão forte
Que não conheça o medo e a vergonha,
Seja estranho ao esquecimento e à distância,
Seja cego às aparências,
Às personalidades
E aos erros de cada um de nós.
Possam os dias nos ensinar a amar
Todos os homens,
Cada pobre e desolado homem
Que acaricia com seus passos
A face suave da terra.
Possamos nos apoiar uns aos outros
Sempre, nesta caminhada
Árdua, sofrida,
Mas por isso fértil
E infinitamente bela.
Possamos, por amor a Deus,
Romper os véus das diferenças
E amar os homens
Não pelo que são,
Mas pelo que desejam e podem ser...
Consolo

Para Geni Bensussan Dechtiar e Gládis Vais de Moraes

Se a adversidade não te sobrevier em Meu caminho, como poderás andar nas veredas dos que se contentam com Meu beneplácito?

- Bahá'u'lláh
Mais sofrimento, mais aflição,
Mas não ansiando a retirada do cálice
Amargo, mas pedindo mais;
Sedento ainda, pedindo mais.
Cálice amargo
Tornado doce pela bênção de Deus.
Encontro então tanta paz
Lá dentro, na dor dilacerante:
Paz nobre, soberba, eficaz.
Encontro a serenidade da lutas que cessam
Perdidas ou vencidas;
Não importa.
Importa que cessam,
Que não duram mais.
O que vier então, é bom,
Pois é esta a lição do Mistério de Deus:
As calamidades são a própria bênção,
E a realidade da Misericórdia
É a aflição:
Como no meio da tempestade tremenda
Brilha e refulge luz fabulosa,
Claríssima, veraz.
Como no centro do tornado há calma
Rodeada de ventos procelosos.
Já nada importa,
Senão a face do Bem-Amado
Nada senão Seu beneplácito, Sua Lei...
E o mundo é uma poça de lama
Que se evapora e resseca
E endurece e racha
E vira pó.
(Soprado por ventos alísio...)
Poemador
Para Washington e Ceres Araújo
Poeta, mesmo, isso não sou.
Como os que da alma universal
Retratam venturas e dores
Sempre em linguagem diamantina
Aqueles de fala eloqüente,
Vociferante, cristalina.
Isso não sou.
Poetas, esses, rimam bem como outros grandes:
Profetas, ascetas, estetas, exegetas...
Eu, que me conheço (um pouco)
Sei que sou poemador...
E lá busco, na pequenez
De minh'alma já tão cansada,
Nas recordações de petiz,
Coisas doces e delicadas,
Amargas e tristonhas,
Sutis e passageiras
Que me fazem sentir...
(Poemador, só isso.)
E lá vou, poemador,
Na esperança de encontrar,
Com meus versos molambentos
(Qual bandeirolas no ar),
Outros corações abertos
Aos versos simples que oferto.
E na confiança e na fé,
De existir tantos pés tortos,
Fico aí oferecendo
Meus tantos chinelos velhos...
Poemas trôpegos, cabisbaixos.
Não porcelana de cristaleira,
Não qual prata de cerimonices.
Apenas versos quais tarros d'água:
Escondidos em cantos escuros,
Mas com água fresquinha e sincera.
Dança
Para Iradj e Valéria Eghrari
Veste o teu manto de orvalho,
Pois a noite nos convida à dança!
Vem! Fujamos agora que o júbilo,
Vencendo a desesperança,
Nos mostra o alvo caminho.
Veste o teu manto de orvalho,
Pois a noite nos convida à dança!
Escuta! há violinos nos astros
E, do seio bom da terra,
Nascem vozes celestiais.
Dança, pois! Dança tudo o que é belo!
Dança a vida! Dança o amor!
Não deixa que te roubem o riso.
Recolhe essa lágrima da face.
Sorri!
E veste o teu manto de orvalho,
Pois a noite nos convida à dança!
Poetar
Para Jacob e Andréia Ayvazian
A põem is a meteor.
- Wallace Stevens
Tão fácil é fazer poesia:
Basta somente trabalhar.
Basta tocar e ser tocado,
Basta amar e ser amado,
Basta só ver, ouvir, cheirar.
Navegar no oceano da vida
E deixar-se levar por correntes
(As que surgem de dentro e de fora,
Sem dizer o momento ou a hora
Em que aparecem brutas, dementes.)
Deslizar na torrente medonha,
Mas em todo o momento a remar
Com a ajuda da pena sofrida:
Poesia é como remo da vida:
Dá pequeno sentido ao singrar...
A poesia, como um remo que impulsiona,
Concede a segurança mínima e verdadeira

De se não ir só no arrastão de mandos e desmandos da vida:

Já não se fica à mercê da correnteza.
Talvez.
Poetar é trabalho,
Nada mais.
Basta que se deixe passar um tempo
Para que a agitação da alma serene:
Deixar a vida decantar no peito,
E então arregaçar as mangas
E trabalhar com jeito...
Fácil como cavar buraco
(Afinal, poesia é escavação de vida):
Ora garimpo,
Ora exumação.
Cavam-se os alicerces.
Como se cavam as sepulturas.
Tudo é trabalho porém...
Fácil fazer poesia.
Fácil como plantar.
(Poesia é semeadura de vida!)
Basta arar a planície da alma,
Adubar de sofrimento,
Lançar frases escolhidas
E orar pela chuva.
Mais cedo que tarde
Ela vem.
Inverno de Mim
Para Soheil e Manam Vahdat

Se Me tu quiseres ter, a nenhum outro busques senão a Mim.

- Bahá'u'lláh
Foram-se os dias de sol e veio a chuva.
E veio o vento e veio o frio.
E Tua saudade me invadiu por inteiro.

Não sei escolher as palavras certas e belas e justas

(Ou talvez elas nem existam)
Para chorar este inverno solitário dentro em mim.
É algo assim como aquela tristeza doída e lenta
Do Natal nas casas pobres;
Dos sonhos que jamais se cumprirão,
Da dor de se não ser o que se quis...
E as lágrimas que minh'alma chora
Inundam os regatos dentro de mim,
Fazem transbordar meus rios e lagos,
E afogam as planícies da ventura.
E as águas fogem de encontro ao oceano,
Pranteando os tristes povos
Desta triste terra...
Preciso do manto de Tua presença
Para me aquecer a esperança;
Das estrelas de Teus olhos,
Para me guiar na noite escura que me envolveu
Tão repentina:
Com densas neblinas sopradas
De profundos abismos.
A! Este inverno que me consome!
Quando terminará?
Saudades, amor
Para Ginus
Chove muito lá fora, o céu lamenta,
Como meu coração chora tua ausência,
Como chora minh'alma tua falta,
Quase louca, sem paciência.
Acabo de ler a carta querida
A terceira, a quarta, sei lá que vez...
No fundo do peito a dor sem medida
Já me rouba a sensatez.
Talvez logo logo esta chuva acalme,
Dentro em breve a tardinha cairá,
Mas meu espírito, agitado, teme:
E meu pranto, cessará?
E o nosso grande amor que me consola
E nosso amado filho, outra lembrança
Que na saudade que pesa e desola,
Faz soprar boa esperança.
De um amor pelo bom Deus concedido
Mesmo a distância, castigo tão triste,
Mesmo o tempo, com sua cor e ruído,
Não vão abater a chama que existe
E rebrilha em meu coração sofrido...
Dias Tristes

Para Zlmarian Walker (in memoriam), Vênus Pezeshk e Osmar Mendes

... no devido tempo, o Senhor da riqueza haverá de te visitar.

- Bahá'u'lláh
São dias muito tristes estes em que vivo,
Com mil matanças bem aqui e mundo afora;
Deus está contrariado, e claramente esquivo;
Ou Ele até, quem sabe, já tenha ido embora.
Antes os dias eram mais doces, eu sei
E as noites não escondiam tantas torturas;
Eram gentis os caminhos por onde andei
Quando, menino, eu ignorava tais loucuras.
O que resta agora para nutrir a alma,
Quando nos dias corridos que vão e vêm
Quase nada se encontra que conceda calma?
São dias muito tristes, sim, mas tudo passa;
E aquela paz que agora minh'alma não tem
Bem sei que qualquer dia me virá de graça.
Esperança, Sonhos e Fé
Para as famílias Milani e Soltani
Esperança, sonhos e muita fé
Para enfrentar o longo dia a dia,
O frio, a tempestade, a calmaria,
O sofrimento, a dor e a morte até.
Agora o negro e o branco já se fundem,
Os opostos mergulham no cinzento,
Bem como a alegria e a dor se confundem
Quando a alma busca renovado alento.
E vai-se a brisa boa, vai-se o vento
Como se vão também o dia e a noite,
Como se vão a ventura e o tormento...
E na roda viva de ódios e amores
O temor bate n'alma o vil açoite
Enquanto a esperança a enche de cores...
Coisas Grandes
Para Dariush e Elena Akhavan

O êxtase, tão somente, pode abranger este tema, e não palavras ou argumento.

- Bahá'u'lláh
Coisas grandes tenho em meu peito
Que não posso sufocar.
Não me pertencem, não as possuo,
Mas em meu peito jazem ocultas
E as não posso calar.
Os ventos sussurram coisas semelhantes,
As águas murmuram os mesmos segredos
Que jazem fundo em meu coração:
Cada pássaro e montanha,
Toda árvore, toda flor,
Todo universo proclama
A mesma mensagem de amor.
Amor que sinto, incontido!
Que arrebata todo o meu ser!
Amor que tenho escondido,
Que aguarda para nascer.
Coisas grandes tenho em meu peito
E as não posso sufocar:
Mistérios que o Deus do mundo revela,
Entesourando-os em meu coração,
Ordenando-me a proclamar.
Mas, ai! Minha voz é tão débil!
E os ouvidos tão surdos ao meu redor!
Os homens só escutam o que querem
E rejeitam o que os poderia salvar.
Escolhem a torpeza, a luxúria,
E eregem ao vício um altar.
São como a pupila, paradoxal,
Que se fecha frente à luz,
Encolhendo-se para evitar
A bênção mesmo que a conduz.
Coisas grandes tenho em meu peito
E as não posso sufocar.
Mas morre, a voz, de tristeza!
Cessa, o coração, de pulsar!
Pois os brados que proclamo
Em desespero de amor,
Encontram peitos gelados,
Há muito defuntos de dor.
Quem Sou Eu?
Para Azm e Kathy Rassekh
Quem sou eu, Senhor?
Que ora me banho todo em lágrimas
E ardo em desejos depois?
Que sigo entre torturas e lástimas
E vivo assim partido em dois?
Quem sou eu, Senhor?
Que me queria esquartejado
E odiado por Te amar?
Que ora tanto Te sinto ao meu lado
Para então sozinho vagar?
Quem sou eu, Senhor?
Que grito um grito tão imenso
E apavorante, mas mudo?
Que busco só Teu amor e penso
Que amo Teu castigo fecundo?
Quem sou eu, Senhor?
Que me encontro quando me perco
E só sou feliz na dor?
Que não quero mais nada do mundo
E 'inda lhe guardo tanto amor?
Paradoxos
Para Shideh e Mehran Granfar

Liberta-te dos grilhões deste mundo e desprende tua alma da prisão do ego.

- Bahá'u'lláh
É quando me afasto de mim
Que mais me encontro,
Que mais me acho,
Que mais me vejo.
Quando sacudo o manto da dor
Que me encobre e dilacera:
Dor de não amar direito
Ou suficiente;
De não encontrar praia
Onde suaves ondas beijam
Suaves areias;
Onde suaves brisas acalentam
Suaves palmeiras...
É quando parto de mim
Que chego ao meu íntimo,
Onde há consolo e paz,
Onde há fé e esperança,
Quando todo o resto de mim
É um grito,
É um suspiro,
É um ai.
Quando me descuido de mim
É daí que me resguardo
Das feras atrozes que me rondam a noite,
Quando pia a coruja,
Quando uiva o lobo,
Quando sopra o vento feroz.
Quando me abandono
É que melhor me descubro,
Gotejante entre açucenas,
Verdejante em terra recém molhada,
Soprando ao léu sobre pradarias
Como o algodão das paineiras.
(E repouso como o rio que deita
No mar.
Profundamente.)
É quando me afasto de mim,
Quando parto,
Me descuido,
E me abandono
Que Tu me dominas.
E quanto mais me esqueço de mim
Mais Tu me recordas,
E me vestes de chagas rubis,
E me corróis o âmago
Com a dor que purifica
E salva.
Então minh'alma é como o campo arado
Que aguarda a chuva...
Pranto Longo
Para Maria e Bijan Ardjomand
Queria um pranto muito longo
Como as estepes russas,
Como a travessia do mar.
Queria um choro e um lamento
Que vertessem lágrimas incontáveis
Como as águas oceânicas,
Como os corações partidos
Das crianças que viveram tristes
Ao longo de incontáveis séculos.
Queria um pranto longo,
Quase infinito,
Para aplacar minha dor.
Um pranto soluçante, dorido,
Capaz de derreter as geleiras
Que se formaram dentro de mim.
Queria um pranto imenso, diluvial.
Que lavasse todas as minhas penas
E todos os meus pecados;
E me purificasse,
Como o leito de um regato,
Como uma gota de orvalho.
Queria chorar longamente um choro triste
Como crianças com frio em noites de inverno;
Como crianças com medo, desamparadas,
Como crianças que sofrem maus tratos,
Crianças órfãs e abandonadas.
Queria um pranto muito longo
Para depois suspirar
E dormir...
Quebrou-se

Para Fredo (in memoriam), Mônica, Ricky, Paulo Guilherme, Neca, Ana, Marajá e Dani.

Quebrou-se.
Uma pequena jóia que ia no peito
Quebrou-se,
Quebrou-se...
Irreparáveis,
Como cacos de porcelana delicada,
Jazem agora seus pedacinhos
Num canto do coração:
Naquele canto da alma
Onde se jogam amores perdidos,
Sonhos abandonados,
Esperanças vencidas.
Uma pequena jóia,
Que ia no peito,
Quebrou-se...
Fica menos rica a vida.
Mais cinzenta e pobre fica.
Uma pequena jóia quebrou-se,
Quebrou-se no coração...
Jóia que luzia miudamente,
Como vaga-lume em noites vernais.
Pequenina, fragilíssima,
Mas tão essencial;
Quebrou-se.
E lá vou eu a reunir outras,
A procurar outra pequena jóia
Que, quiçá, a substitua.
(Ficam os suspiros no ar.
E os caquinhos, num canto da alma. . .)
Haverá Repouso
Para Artur Daniel Beust, meu pai
Haverá repouso, um dia.
Já não mais carregaremos esses fardos
E as britadeiras silenciarão.
As pedras ficarão intocadas.
E musgo suave sobre elas brotará;
Pequenas margaridas,
Jacintos, violetas, amores-perfeitos
Brotarão entre as pedras intocadas.
Pois haverá repouso, um dia.
As ceifeiras e os arados,
As bigornas, as pás, os altos-fornos,
Todos silenciarão.
Não mais martelará o bate-estacas.
Todas as serras elétricas pararão.
Jamais se escutarão novamente
Os rangidos dos tratores
Ou o trovão das moto-niveladoras.
Pois haverá repouso, um dia...
Musa
Para Henrique e Fátima Volpini

Tenho feito da morte a mensageira de teu júbilo. Por que lamentas?

- Bahá'u'lláh
Bem ali, jaz nas brumas, sonolenta,
Entre mil pesadelos e ansiedades,
A bondosa visão
(Ah, que saudades!)
De uma musa que o amor muito acalenta.
Ó tu, fulgurante e doce visão!
Tão meiga e eterna é a Tua lembrança:
Ela faz em mini brotar a esperança,
Que me embrandece e purga o coração...
Vem! ó Tu banhada em orvalho e espuma,
Quem às fragrâncias da vida perfuma,
Quem nos mistérios da morte é serena.
Vem! vem! concede-me Tua beleza,
Infunde em mim tua paz, e a certeza,
Dos bales que a alma após a vida encena.
Abandonei o Porto
Para Ramin Shams
Quem ama verdadeiramente, anseia pela tribulação.
- Bahá'u'lláh
Em ondas convulsivas, atordoantes,
Meu coração navega...
Deixei a paz no porto, no cais,
Entre cordoalhas e trapiches,
Banhada pela lua pálida do céu outonal.
Segue minha jangada, trêmula, febril.
Tormentas, furacões em mar aberto!
Horizonte invisível-negro céu...
Ó Deus, que Te ocultas, ouvi minha prece!
Sustenta este que parte,
Teu oceano a frontear.
Ele se joga às Tuas tormentas,
Busca Tuas terras d'além-mar.
Desprezei a segurança do porto medíocre.
A paz infestada de ratos
E cheirando a podridão.
Agora, Teus ventos me destroem a vela,
Tuas ondas martirizam o casco
E a embarcação geme ante Teus elementos,
Desesperada.
Já não conduzo o leme, Senhor,
Mas seguro Tua mão!
Leva esta jangada a terras mais puras,
Onde sopre uma brisa terna e doce,
Onde o sol seja cálido
E as noites suaves e perfumadas.
Uma terra onde nossos filhos possam sorrir,
Pois no porto só havia pranto e dor.
Conduz este náufrago a Canaã,
Onde as muitas águas inundarão o deserto
E a voz do Senhor será como o Sol meridiano.
Não retornes os ventos, Senhor, não para o porto.
Se não for uma nova terra,
Que seja, então, o fundo do mar.
Adeus
Para Emélia Bassreí

Minha terra se enfastia de vós... tudo nela se vos evade.

- Bahá'u'lláh
Adeus aos homens agitados,
Aos homens barulhentos,
Adeus!
Seus dias estão findados,
Sua festa terminou.
Sua grande orgia de dor e angústia,
Colorida de sangue e paixão,
Está quase no fim.
Quase no fim...
(Se não fosse isso,
Pouco haveria para comemorar.)
Adeus aos homens agitados, adeus!
Tantos diriam que são versos amargos, estes,
Mas tantos são cegos!
Tantos são perfeitamente cegos!
A mim mesmo também soam terríveis,
Mas não é terrível o que se vê?
Quase a alma fenece.
Quase a mente não crê:
Matam os filhos em seu desamor.
Lobos vorazes, se destroem.
Destilam ódios nos corações
E os castelos da infâmia constroem.
É insano o que os homens têm feito.
(É perfeitamente insano.)
Adeus aos homens agitados,
Adeus! Adeus! Adeus!
Que já se exterminam!
Em suas cidades há multidões escravizadas
Pela fome, pelo ódio, pela descrença.
Em seu mundo há guerra e dor.
Muita, muita dor...
Olhares tristes no ônibus lotado,
Enquanto mais uma tarde finda.
E a hora se aproxima, silenciosa.
Silenciosa, silenciosa, inexorável.

A hora quando os prostíbulos não mais abrirão as portas.

Quando as conversas fúteis serão gritos de horror.

Quando toda a riqueza será lixo e pó.
Adeus aos homens violentos e descrentes,
Pois se perderam a si mesmos.
Benditos os que morrerão inocentes,
Pois encontrarão o consolo de Deus!
Benditos os que souberem orar
E tiverem fé,
Pois a hora será terrível!
Adeus aos homens podres,
Pois já se desintegram!
O coração se dilacera!
Arde a consciência de tanta miséria acumulada,
De tanta injustiça imperando no mundo!
(Os ricos 'inda comerão com os porcos,
Se não tiverem amor por Deus!)
Os líderes conhecerão a ruína eterna,
Se não amarem os espezinhados.
Acautelai-vos, acautelai-vos, poderosos!
Acautelai-vos com os suspiros dos sofredores,
Pois Deus os vingará!
Adeus, adeus aos orgulhosos,
Pois não perdem por esperar.
E as faces nas ruas que anoitecem
São de desespero, mas não sabem porquê.
Adeus a todos! Adeus a todos!
Pois a dor é demasiada,
É demasiada demais.
É demasiada demais...
Vento Úmido
Para Dariush e Maria Lúcia Touluí
Sopra no coração um vento úmido,
Dos que vêm de pantanais escondidos,
Como os que sopram em matas escuras,
Como os que açoitam rochedos perdidos.
Rochedos onde me vejo acorrentado:
Um Prometeu sem causa e sem motivo,
Herói sem nem coragem nem vigor,
Vítima apenas: de ilusões cativo.
Sopra no coração um vento úmido
Com lembranças de outras terras, distantes,
Lá onde morrem crianças de fome,
Lá onde adultos se matam arfantes.
Sopra um terrível vento de miséria
Vindo do centro, e da periferia,
Onde tantos milhões de mortos-vivos
Agonizam no bruto dia-a-dia.
Sopra no coração um vento úmido,
Daqueles que criam bolor na alma:
Ficam com mofo as paredes do ser.
Meus Deus! Preciso de sol e de ar fresco!
Para não morrer de tuberculose,
Nesse desconsolo lento e sem fim.
Preciso parar de pensar nos homens,
Os homens que tão selvagens se matam,
Sempre eternizando Abel e Caim.
Dos Anjos
Para Hooper e Marylin Dunbar
Viste aquele anjo? Viste?
Não aquele... O outro, o que passou correndo,
O que era corcunda.
Viste por que ia apressado?
(Tão apressado que nem acenou!)
Não entendo esses anjos apressados...
Mas..., entendo eu algum deles?
Pena dos Homens
Para Enayatolláh e Monireh Shayani (in memoriam)
Quando os trovões ribomboam ferozes,
E faíscas velozes riscam o céus,
É tempo de sentir pena dos homens.
Se uma chuva lenta cair, melancólica,
É tempo de sentir pena dos homens...
Dos homens, patéticos, que vêm e que vão,
Chegando e partindo, perdidos,
Quase loucos de dor e tristeza,
Rindo alto para afugentar os demônios
Que lhes brotam das almas.
Enquanto as janelas tremem,
Pela força da tempestade,
É tempo de sentir pena dos homens.
Dos homens devorados por seus receios,
Cegos por seus orgulhos,
Empobrecidos pelo ouro, tanto,
Que acumularam.
E se o tamborilar da chuva nas vidraças,
Em delicado e tímido estalidar,
Te trouxer uma lágrima à face,
Derrama-a pêlos homens violentos
Que j á não sabem chorar.
Deixa então que o amor te penetre,
Acompanhado pela resignação
De quem não pode sustar a tormenta
Ou interromper o trovão.
Quando, pois, sentires n'alma
A sede ardente por uma prece,
Eleva-a para além das nuvens e dos céus,
Deixa-a penetrar os confins do universo,
Carregada ao infinito pelo éter sutil.
Suspira, então, doloridamente,
Pois é tempo de sentir pena dos homens.
Estações da Vida
Para Suzi e António José Vals de Moraes
Há de ter estações, a vida:
Primaveras que abrandam invernos,
Outonos que refrescam verões.
Quatro estações que o são infinitas,
Em infinitos cambiares.
Há que tê-las durante a vida,
Durante o ano, durante o dia,
A cada hora, A cada instante;
Para que alma não congele em inverno perene;
Para que não abrase ao sol perpétuo.
Invernos de pecado e tristeza,
Outonos de arrependimento,
Primaveras de pureza,
E a alegria dos verões:
Alternância de humores,
Fluir de emoções.
Subir e descer;
Levantar e cair;
Abrasar e crer;
Chegar e sumir:
(Vai-e-vem da existência,
Gangorra da vida.)
Só assim a perpetuidade.
Só assim o perdurar.
Só assim se suporta,
E se vence,
E se vai.
Interrogativa, quem sabe...
Para Liselotte Schertel Machemer (in memoriam)
Esta poesia é destinada à incompreensão.
Quem a entenderia não a lerá,
Jamais tomará dela conhecimento,
Não escutará quando lhe for recitada,
Jamais.
É poesia composta de dó;
Porém nem piedosa
Nem didática,
Mas sofredora, só.
Quem a desejaria
Não a terá;
Impossivelmente clara, portanto,
Evidentemente hermética será.
Poesia da insensatez.
Da esclerose.
Pois era uma vez sorrisos e livros,
Era uma vez sestas no sofá da sala;
Eram receitas e mais receitas recolhidas:
Pois junto ao fogo muita dor se cala...
Receitas de revistas,
De embalagens,
De jornais.
Receitas nunca antes vistas
Acumulando-se mais e mais.
Receitas de papel amarelado, envelhecidas,
Recheando os muitos livros de culinária.
(E o ar recheado de muitos tristes ais...)
Gerânios queimavam seus vermelhos,
Begônias sorriam,
Amores-perfeitos brotavam do chão.
Avencas e azaléias abanavam as horas
E o sol poente escalava os troncos dos pinheiros.
Havia vaga-lumes nas noites
E coaxar de sapos durante a janta.
E então a mãe morre sozinha,
Com apenas a governanta.
(E a dor no peito dilacera e corrói.)
Houve muitas páscoas e natais,
Muitos aniversários,
Febres,
Coqueluches,
Cataporas.
Houve a dor do desamor
E o abandono,
E as horas amargas.
(E as entrelinhas dos livros eram largas...)
As entrelinhas eram cheias
De incongruentes razões,
Plenas de sofrimento.
Pois a insônia é a rebelião da alma
Que não aceita o freio da razão
E quer explodir em ira e desespero,
E enlouquece e grita,
E acusa,
E mata,
E vê.
(Também, pudera, a vida é suspiro...)
Sobretudo há vida,
Apesar de tudo. Apesar de tudo.
Também há fé,
E medo.
E felicidade depois.
Como fios de lã que se desenrolam
E o novelo vai rolando pelo tapete...
(Talvez a essência de baunilha
Fosse o segredo...)
Mas é tarde para isso tudo;
Dolorosamente cedo demais.
Igual a outras vidas,
Mas tão diferente.
Ininteligível.
Quem sabe?
(Também, pudera, a vida é suspiro...)
Do Mundo
Pois deixa o mundo existir! Irredutível ao canto,
superior à poesia, rola, mundo, rola, mundo,
- Carlos Drumond de Andrade, Rola Mundo
A ciranda rodava no meio do mundo,
No meio do mundo a ciranda rodava.
E quando a ciranda parava um segundo,
Um grilo, sozinho no mundo, cantava...
- Mário Quintana, A Rua dos Cataventos, XXIV

O mundo é apenas um espetáculo teatral, vão e vazio,

um simples nada, tendo a aparência de realidade.
Não lhe vos afeiçoeis.
Não rompais o laço que vos
une ao vosso Criador...
- Bahá'u'lláh, Seleção dos Escritos, CIII
Do Mundo
Para Robert Miessler
Tão vasto o mundo que gira, que gira, gira...
Levando no bojo multidões coloridas:
Gira em preto e branco; gira em amor e ira,
Em verdes, vermelhos; em bálsamos, feridas.
Mundo que é como um berço, rendado e macio.
Que é como sepultura, bem profunda e fria.
Mundo que é de contrastes: tão quente e tão frio,
Mundo que é doce e é amargo; que mata e cria.
Percorrer, conhecer, caminhar, descobrir:
Por todos os caminhos e rotas quisera
Trilhar terras e mares em busca sincera.
Mas, ai! tudo é tão longe de chegar e ir!
Então desprezo o mundo distante e sem fim:
Tudo faço no mundo que há dentro de mim...
O Que Pensavas em Oxford?
Para Maryam e Soheil Eftehari
O que pensavas em Oxford, quando entretido,
Tu caminhavas entre séculos de pedra?
Que era dos sonhos que na alma florescem ?
Que era da angústia que no peito medra?
Nos dias lúcidos do Centro do Convênio
Já te inquietavam as surpresas do futuro?
Já vislumbravas as tormentas negras?
Já pressentias o teu fim tão duro?
Ou eram teus dias cheios de luz,
Repletos da paz que encanta e seduz?
(Eram qual tulipas coloridos, serenos?
Eram dias, aqueles, de alegria plenos?)
Quisera estar contigo, sem receio,
Como amigos, companheiros, irmãos,
E compartir de teu fecundo anseio
Por uma Ordem divina que há de vir,
Pela Paz que a guerra está a parir:
Frutos da Luz que já no mundo veio.
Quisera andar contigo pelas ruas
Cheias de melancólicos fantasmas;
E quando o sol deitasse as chamas suas
E as sombras se estendessem, já cansadas,
No abraço as nossas almas enlaçadas
Seriam já só uma, e não mais duas...
Então um sorriso nos viria aos lábios
E como entre os santos e como entre os sábios
Seria nosso o mistério da unidade,
E seríamos um minuto felizes,
Como só se pode ser na eternidade...
Em Oxford há na biblioteca um volume
Do qual milhões outros têm vero ciúme,
Pois nele brilha como um rico brocado,

Mais que as belas Artes, bem mais do que as Letras,

Mais do que a Ciência, o teu nome adorado...
E Oxford é mais, bem mais do que o Cherwell.
Bem mais que tudo que ali se perpetua.
Oxford é tua lembrança.
É um suspiro,
É um desejo,
É meu consolo, enfim...
Tua Lembrança em Oxford
Para Shoghiéh, Faezeh e Muhammad Shaikhzadeh
O Cherwell meandra entre os verdes campos
E a água clara roça as margens tranqüilas.
Onde à noite voejam pirilampos
Barcos agora deslizam as quilhas.
Há risos, vestidos brancos,
E cestas de pique-nique no gramado.
O Sol primaveril desperta amores,
Acalenta tua lembrança,
Aconchega saudades,
E me consola.
Tua lembrança é como as fágeis margaridas
Que tremulam à brisa suave de maio;
Como as alegres efusões de sol partidas
Que ali penetram na floresta raio a raio.
Tua lembrança é qual a luz da branda lua
Que brinca nos altos ramos em noite plena;
É como as lufadas que o vento apazigua
Para não perturbar da tarde a paz serena.
Teu recordo é luz que monta a crista das ondas,
Ou cintila nas vitrinas, flores, telhados;
Por isso te encontro tanto, embora te escondas
Além das bandas desta vida, noutros lados...
Delicada demais, para ser bem descrita:
Tua lembrança é de ser ninada em silêncio,
Como quem deita um pequenino e logo evita
Um murmúrio qualquer que lhe roube o sono ínscio.
(Tua lembrança há de ser nutrida em sorrisos,
E descrita em suspiros...)
Há poças de luz no gramado, sob as árvores.
E sombras longas se espreguiçam, silenciosas,
Imperceptíveis
Espraiam-se na relva...
Uma brisa gentil,
Um sol poente,
E os passarinhos cantam ocultos no ar.

Tudo vibra com amor e melancolia. Tudo sussurra em meus ouvidos:

- Paciência! Paciência! O tempo virá!
- Paciência! Paciência! O tempo virá!
- Paciência! O tempo virá!
- Paciência!
E vão lá, Shoghi, só algumas linhas,
Para que miúda fração perdure,
- Pra que o dia, já de vermelho tinto,
Não passe sem registro que emoldure
A muita alegria que agora sinto.
(Para que tu saibas de meu amor...)
Folhas Mil
Para Doge e Simin Andrade
Estar assim tão próximo
Das folhas mil de uma árvore
É sentir bem de perto
O arfar da natureza.
(Mansamente o bosque suspira...)
Os galhos finos acenam,
Lentos e cerimoniosos.
Acenam adeus para os momentos que
Eterna
Eternamente
Escapam por entre os troncos
Em corrida desabalada.
(Os pobres fugitivos...)
O sol cortando as árvores
Lança no verde gramado
Longas sombras;
E as árvores sorriem
Ao ver assim estampadas
As consciências de si próprias.
Estar assim tão próximo
Das folhas mil de uma árvore
É sentir bem de perto
O bater do coração do mundo.
Sinal dos Tempos
A família Manutchehri

Dou testemunho, ó amigos, de que o favor está completo, o argumento se cumpriu, a prova se manifestou e a evidência acha-se estabelecida.

- Bahá'u'lláh
Luz foi lançada sobre a escuridão dos tempos:
Séculos e eras passados
Jazem descobertos e inteligíveis
Abertos, francos, íntimos até.
O drama humano foi revelado
Ao abrirem-se as cortinas de um novo tempo.
Das eras passadas, só as lições.
Dos desafios de hoje, expectativas, orações.
A civilização, embalada,
No giro eterno do mundo ninada,
Deu salto do berço, dominou o mundo.
Civilização petiz, que se lambuzou,
Fez, pulou, girou, rodou, até cansar.
Brincou, brincou e acabou chorando.
(Brincadeira de petizada termina em choro,
Ou não?)
De criança a adolescente, mais um passo.
Séculos e eras rolando.
Homens bons, homens maus,
Sábios, gênios, profetas,
Conhecimento, invenções, descobertas,
No tempo crescendo, passando,
Acumulando.
Fortalecendo.
Madurando...
Que fazemos agora com nossa adolescência?
Com nossa juventude coletiva?
Como bons adolescentes (intratáveis),
Os povos buscam o desatino, a experimentação.
Descartam velhos e sábios conselhos,
Desprezam a ordem,
A retidão.
(Como bons adolescentes,
Cheios de espinhas na face.)
Civilização adolescente, dividida.
Insegura por dentro, nem petiz nem adulta:
Mas de atos bombásticos,
De gestos violentos, decididos,
Auto-confiantes.
Civilização adolescente, dividida.
Daí os povos assim: cada um por si
E Deus por ninguém.
Deus também foi descartado,
Esquecido, atacado.
Deus foi ofendido por tolos
Que agiram como loucos em Seu Nome.
Deus de pirraça;
Burlesco na fé dos homens.
Civilização de espinhas na cara,
Descontrolada, inquieta, frenética,
Feroz.
Civilização adolescente (intratável).
De modos e idéias tolas,
Brilhantes,
Estabanadas.
Redenção virá, porém, e maturidade.
Do berço à sabedoria, à plenitude:
Tal é o caminho do mundo
Como de seus filhos.
Tal é a lição da História
Que agora podemos ler.
Vem Daniel, regozija-te!
Os Livros foram deslacrados
E as crianças já os tomam nas mãos!
É o Tempo do Fim, do Armagedom,
Mas nunca tanta vida sobre o mundo vibrou.
É o tempo do acerto de contas.
É o tempo de deixar a rebeldia.
É o tempo de ganhar maturidade;
Maturidade 'inda que tardia.
Luz foi lançada sobre a escuridão dos tempos
E o Plano Divino torna-se revelado.
Há esperança, pois, esperança infinita.
Há promessas de justiça e paz.
Há certezas de unidade e amor.
Mas quem compreende?
Quem acredita?
Quem crê?
Mangueiras e Abacateiros
Para Kamran e Adriana Nasrabadi
Já sinto o perfume dos abacateiros
E esse das mangueiras altivas em flor!
Perfumes soprados por brisas gentis,
Embalando sonhos de perpétuo amor.
(Perfume de tão inédita combinação
Que a nenhum perfumista ocorrera a criação.)
Vê! todo o meu ser agora regozija:
A alegria me invade pelas narinas!
O coração se abre às belezas da vida,
E inebria-se com fragrâncias divinas.
(Serão assim os perfumes dos céus altaneiros?
Flores celestes de mangueiras e abacateiros?)
Já tantos louvaram, da rosa, o perfume.
Ao jasmim, muitos versos ao seu odor.
Porém, aos abacateiros e mangueiras,
Deixai-me, solitário, prestar louvor!

Flores sem beleza, e o perfume: um diamante bruto.

(Perfume que vira poema, que vira fruto.)
Buscai as ternas messes da Natureza!
Respirai, olhai, com avidez, com gosto
As tantas fragrâncias, as cenas, os sumos,
Que afloram em maio, setembro e agosto.
Em todos os meses, do ano inteiro,
Buscai o sabor, a visão, o cheiro!
Não Sem Esperança
Para Mary e Farhang Sefidvash
Not without hope we suffer and we mourn.
- Wordsworth
Sofreremos sim, mas não sem esperança;
Não sem nutrir o sonho tranqüilo
De alcançar-nos um dia a bonança.
Cairá feroz e bruta tempestade;
E desabarão tenebrosos trovões.
Deus! A fortuna da liberdade
Padecerá sob tristes grilhões.
Naquele horizonte em tormenta, porém,
É certo que róseos tons discerniremos;
E no horizonte da alma, também,
Nova alvorada contemplaremos.
As calamidades severas, então,
Assim como bálsamo, suave cura,
Pelo mundo vil se espalharão
Para garantir a paz futura.
Sofreremos. Mas serão rápidos ais.
Dores cruéis trarão a certeza
De que não sofreremos jamais.
Flores Estranhas
Para Nilza (in memoriam) e Rangvald Taetz

Pois as mentes não Me podem abranger, nem os corações Me conter.

- Bahá'u'lláh
Foi o dia em que flores demasiado estranhas
Nasceram multicores dentro do jardim.
Verdes, amarelas, vermelhas como entranhas:
Ah! flores tão raras que eu jamais vira assim!
Foi o dia em que em nosso luzente gramado
Brotaram centenas de flores assombrosas!
Flores que o jardineiro, bastante assustado,
Condenava violento em palavras furiosas.
Foi o dia em que pude enfim ver novas cores;
Novas formas e perfumes senti também,
E invadido por novos e grandes amores
Eu as buscava aqui, ali e mais além...
Foi o dia em que pude afinal compreender
Que não basta ser belo para ser aceito:
A beleza que o tolo não quer entender
É odiada e rejeitada de qualquer jeito.
Os Homens Ocos
Para Minou e Roger Steiger

O mundo pertence aos que querem possuí-lo, e é desprezado pelos que o deveriam possuir.

- Marie von Eschenbach
Os homens ocos de Elliot
Estão a solto nas ruas da cidade.
Não só nas ruas, nas esquinas,
Nas calçadas, nos ônibus:
Ocupam também confortáveis gabinetes,
Festejam em clubes privados,
Movimentam-se em carros de luxo,
E gargalham nas sessões de cinema...
(Os homens ocos e vazios ocupam todo o espaço.)
As palavras brutais que proferem
Estão cheias de más intenções:
Machucam os ouvidos ninados
Pelo canto dos pássaros,
Pelo sussurro do vento,
Pelo silêncio das estrelas.
Os homens ocos vão matando tudo,
Aos poucos.
Seu vazio é contagioso
E passa de pai para filho,
De amigo para amigo,
De vizinho a vizinho;
É um vazio epidêmico, assim como a gripe,
Horrendo como os terrores silenciosos,
Multiplicando o vácuo que a tudo abarca...
Os homens ocos são cheios de ira,
São cheios de ódio e vingança,
São cheios de cólera e maldade,
Cheios de vilezas e orgulho,
Cheios de tudo o que nada vale,
Do egoísmo que a tudo consome,
Que a tudo destrói.
Mas, olha! os homens ocos estão morrendo:
Sufocados por seu próprio vazio,
Agonizando em seu próprio vácuo...
Eternidades
Para Mehranoush Anvari

Jamais olhos mortais haverão de reconhecer a beleza eterna...

- Bahá'u'lláh
irâmides,
Batalhas,
Livros,
Mausoléus:
O homem a buscar o que é permanente
A fim de perpetuar-se.
Fama,
Fortuna,
Poder:
A necessidade de não seguir incógnito
Para não desaparecer,
Para não sumir...
O homem constrói o eterno
Para não morrer.
E Deus a Se eternizar no que é passageiro,
No que é fugaz!
Assim,
Ali,
Já,
Passou...
Eternidade a passar,
A esvair-se.
Perpetuidade sutil:
Qual transitória fosse!
Transitória aparece,
Transitória é.
Alfa e Ômega.
Paradoxal
Como Deus:
Ali está!
Acabou-se.
Sumiu...
(Infinita demais para a nossa finitude:
Eternidade de vida e morte,
Eternidade de imensidão...)
A perpetuidade dos homens, tão estática!
Tão insistente!
Enfática como cartões de visita.
Peremptória como longas sirenes de fábrica.

Perpetuidade ostentosa como os chapéus nos hipódromos.

A eternidade de Deus é ressuscitante,
Renasce a cada instante, cada suspiro.
Recria-se com as cores a cada primavera,
Perpetua-se nas alvoradas e ocasos:
Ali está!
Acabou-se,
Sumiu.
Eternidade dos incontáveis momentos
Das asas das borboletas;
Dos inumeráveis ângulos das ondas que quebram;
Das infinitas posições das folhas que abanam,
Na leveza da alvorada,
Na serenidade das ondas...
Eternidade e permanência
A renovar-se:
Perplexamente fugazes,
Cíclicas, cambiantes.
Perenes e delicadas a voejar.
Eternidade andarilha;
Viajante;
Indo-se
Em constante ir.
Eternidade esvaecente,
Meteórica,
Refratária.
Perpetuidade sublimada,
Contida.
Modestamente sóbria:
Retraio invisível de Deus.
Amai, pois, aquilo que se não verá de novo!
É perpetuidade em ação:
Moto-contínuo da eternidade.
Cidade
Para Farhad e Cybele Shayani
Essa cidade de quinas retas, agudas!
Com prédios em ângulos rígidos,
De bordos afiados,
De vértices,
De arestas secas e exatas!
As silhuetas dos edifícios assim tão brutas:
Tão matemáticas,
Geométricas, cúbicas,
Paralelepipedais...
Ai! Que quinas, que beiras,
Que contornos!
Tão secos e exatos,
Tão imóveis, duros e mortos.
Uma cidade de caixas sem graça
E de gente encaixotada.
Gente que sofre e não sabe.
A friúra.
O pragal.
Ah! Que saudades dos contornos orgânicos,
Das silhuetas tortuosas da natureza!
Das rendas infinitas das copas das árvores,
Das espumas brancas das ondas do mar.
Que falta do oblíquo, do curvo, do sinuoso!
Das delicadas curvas e voltas,
Das ondulações da paisagem.
Que falta da Natureza!
Que falta de Deus!
Ele que, humilde, esconde Sua matemática,
E oculta Sua geometria suprema, divina.

Que disfarça Seus ângulos, Seus prismas, Suas retas,

E os fantasia de ternura e suavidade.
E os recobre de poesia.
Eterna.
Regato
Para Soraya, Jairo, Henri e Jorge
... e o revolver das águas,
O doce marulhar,
Das águas de um regato,
Lembra sons e harmonias
Muito antigas e já quase esquecidas.
... e o verde da folhagem,
Penteado pelo fluxo
Das águas muito escuras,
Denuncia o carinho
Da natureza pela natureza.
... e as vozes tão confusas,
Os risos entrecortados e francos
Na pureza de um banho de regato,
Firmam uma amizade bem maior que o céu
Que azul, azul no alto,
A tudo presencia.
E, quase, se se atentasse o ouvido,
Poder-se-ia escutar os cascalhos,
Os coloridos cascalhos cantando...
Hampton Court
Para Fariba e Henri Vahdat
Enquanto um rei joga tênis
Sua esposa é decapitada.
Horror! O horror!
Motocicletas,
Carros,
Bicicletas.
A primavera veste lentamente as árvores,
Enquanto a fonte resplandece ao sol.
Um Jumbo cruza o céu, descabidamente.
Casais de mãos dadas,
Cachorros no gramado,
Cachorros nos carros,
E um beijo furtivo à minha esquerda.
Os segundos passam,
O sol cruza o céu,
E brevemente os veados abandonarão seu repouso.
E todos voltarão para casa.
Mais um dia terá passado.
(Como alinhavar isso tudo num só todo?)
Túmulo de Wordsworth
Para Juán Carlos de León
Poeta, visitei hoje o teu túmulo,
Junto a esse rio sereno, de águas claras:
Onde o cipreste, como triste pêndulo,
Marca solene o vão passar das horas.
Contemplei essa lápide e o teu nome
Que em pedra muito dura foi lavrado,
E suspirei ao ver que a vida some
Sem que a notemos sequer ter passado.
Quantos buscam, grandes reis e guerreiros,
Em estátuas grandiosas ser lembrados!
Mas monumentos, também passageiros,
Em breve em pó serão todos tornados.
Tu erigiste, de matéria sutil,
Com belas palavras, rimas e imagens,
Um monumento tão brando e gentil,
Grande e perpétuo a transmitir mensagens.
Por que em torres e arcos deixar a fama
Conquistada à custa de tanta dor?
Bem melhor lembrança de quem muito ama
Guardarão todos que sentem amor.
Amigo, feliz faina a dos poetas,
Que aqui deixam nesta vida, inspirados,
Não um simples monte de pedras mortas,
Mas, nos homens, corações recriados.
Estrada Vicinal
Para Shapoor e Bahereh Monadjem
Um amanhecer gelado em maio.
As nuvens como chumbo, como musgo, como hera...
Nuvens pesadas, densas, envolventes,
E o mundo assim, como eu sempre quisera.
O vento (invisível ventríloquo)
Faz sussurrarem arbustos e árvores,
Cada qual num farfalhar distinto, inconfundível:
As touceiras de erva cidreira, serrilhadas,
As folhas secas de mato anônimo,
Os galhos acenantes dos ciprestes e eucaliptos,
Os ramos dos carvalhos, plátanos, pitangueiras,
Pés de framboesa, folhas de moranguinho,
Ramagem de chuchu e maracujá...
O pasto ralo do campo (como cabelo de cadete)
Enfrenta empertigado as chibatadas geladas.
Milico verde.
Fixo os olhos no céu:
As nuvens deslizam ligeiras,
Cobrem o horizonte,
As montanhas.
Descobrem o horizonte,
As montanhas, o sol.
O ar se ilumina e se escurece, alternadamente,
Em suave transfiguração.
Como tudo é belo ao redor!
Tudo canta em altos tons:
A glória e o júbilo, a paz e o amor.
Corais de gansos e marrecos, ao longe,
O solo de um galo invisível,
O doce ranger dos taquarais...
Dodecafônicos.
Atonais.
Passam carros na manhã gelada
E há acenos entre desconhecidos:
Balançar gentil de cabeças, em saudação;

E criam-se laços tênues de carinho e consideração,

Como fios de algodão doce, espantosos, passageiros,

Mas cheios de delícia e sabor.
(Gosto efêmero na boca, mas eterno na memória.)
Cumprimento entre estranhos:
É porque a estrada é de terra, macia,
Molhada pela chuva noturna.
É porque, nas sombras longas, matinais,
Os que aqui se encontram
Louvam a doçura da faina diária,
Do labor que o dia desperta e afaga.
Saudações silentes.
Cumpridoras.
O vento frio a todos envolve.
Rajadas mais violentas
Levantam as vozes do verde ao redor,
Em "adágio", "allegro ma non tanto", "largo",
Cerimoniosas, emblemáticas:
Como as ovelhas que pastam atrás da cerca,
Como os lentos passos dos cavalos a pastar.
O céu é cada vez mais plúmbeo.
Campos verdes, bem traçados, estendem-se,
Alargam-se.
Capões de mato agreste,
Pequenos bosques de eucalipto,
Montes, colinas e a serra ao longe.

A terra parece ondular com a claridade que vem e vai.

Ondas de luz correm ligeiras pela topografia,
Seguidas de ondas de sombra.

A natureza toda parece a projeção de um filme antigo,

De luminosidade inconstante, trêmula, tremulante,
Mas cálida e boa.
Há revoadas de pássaros negros.
Há grandes pedras deitadas nas colinas.

Há vozes humanas, o tinir de utensílios domésticos,

O cacarejar de galinhas e perus:
Tudo suave pela distância,
Pela barreira do verde,
Como uma aquarela de sons pastéis.
Sons pastéis.
E fico pensando no que gostaria de dar ao inundo,
Às gerações futuras que agora são semeadas:
Queria doar o que sinto agora,
Em momentos como esse fecundos.
Queria doar essa terna melancolia feliz,
Essa doce e serena contemplação.
Queria que meus versos pudessem ser puros
Como o encantamento que me arrebata.
Queria que os homens escutassem o Verbo
E o amassem. Como agora O escuto e amo.
Mas que sei eu de meu destino?
Ou de outros destinos?
Que desejo meu encontrará acolhida
Nos desígnios da Providência?
Que pureza minha sobreviverá

Aos gritos e tumultos das cidades que construímos?

Entretanto, tudo parece correto e bem.
Nesta cena pastoril,
Nesta manhã gelada de maio.
Tudo parece fazer sentido, pelo simples ser.
And my soul remains a willing prisoner,
A delighted refugee,
In this evanescent homeland.
Where work, production and toil
Are of no consequence.
Where just sublimity, love and tenderness
Remain, and flowrish, and grow.
Homeland of mysteries,
Of light and darkness,
Light and shadow,
Como as poças de luz e sombra
Mutantes, peregrinas, sobre a face da terra.
Veredas
Para Tomaz Ferina
É tão fácil trilhar as veredas
Que outros antes de nós percorreram:
Mesmo que com descuido procedas
Nem sofrerás onde eles morreram.
Difícil é seguir outros nortes
Sair por trilhas novas, selvagens,
Onde as mãos não encontram suportes,
Onde os pés sofrem duras viagens.
Porém, na trilha antiga e calçada
Por onde todos vão sem pensar
De novidade não há mais nada:
Chega-se sempre ao mesmo lugar.
Que diferença em outros caminhos!
Nas picadas agrestes e virgens!
Onde os braços se arranham de espinhos
Mas os olhos contemplam.., vertigens!
Escolhamos nós nossa jornada:
Viajar onde há só auto-pistas,
Ou ir-nos pela mata fechada
E ver paisagens nunca j á vistas...
Nesta vida de tantas agruras
As boas almas fazem os dois:
Começam por veredas seguras
E se metem no mato depois!
E segue o mundo sem sobressalto,
Segue a vida com coisas bem certas:
Com caminhos bem cheios de asfalto
E com novas picadas abertas...
Salisbury
Para Touba Maani
Mais além, o rio.
Serpenteante,
Murmuroso,
Deslizante até.
Os campos são largos, serenos, extensos,
De ervas frescas cobertos,
De mistério semeados.
E bem acima de tudo,
Espetando o céu,
A torre da catedral.
E ao redor, o silêncio das tulipas brotando,
Os muros cobertos de hera,
E os gramados delicados, veludíneos...
E ao redor, as ruas sinuosas, medievais,
Reticentes como a fé dos homens.
E, acima de tudo,
A torre da catedral.
Espetando o céu.
Recordando os lá de cima
Das dores dos aqui de baixo.
Cutucando Deus,
Que Se ri de minha blasfêmia
E me perdoa
E a ti também.
Salisbury.
Mais além, o rio.
Nova Iorque
Para a família Saberin
Nova Iorque, capital do mundo,
Centro de atração,
Ilha comprida beijada por rios divididos
Qual língua de serpente:
Cidade-espetáculo,
Cidade-show.
Rutilante.
Cênica.
Retilínea.
Cidade-barco
Flutuante entre rios.
Luzes cintilam nas esquinas da Broadway
E a vida é choro, risos e arrepios
Sobre os palcos.
A vida é choro, risos e arrepios
Na platéia.
A vida é conseguir um táxi
Na saída do teatro.
E circulam multidões nas ruas.
Roçam-se descuidados negros e brancos,
Latinos e anglo-saxões,

Esquecidos do preconceito enquanto correm pelas calçadas.

Preconceito que emerge forte,
Incômodo,
No roçar dos corpos nos ônibus,
Nos elevadores:
Intimidante,
Pesado.
Desconfortável como gota de chuva no colarinho.
Como sapatos molhados.
Como espirro interrompido.
Preconceito que esgana a alma,
Que aperta,
Incômodo,
Como a roupa do casamento
Passados os anos...
Nova Iorque, cidade-maçã.
Símbolo da corrupção ofertada pela serpente
Aos prazeres de um mundo insano.
Cidade-pecado.
Nutrida.
Cevada.
Quão doce em teu gosto amaro
O sabor da redenção,
Da misericórdia suprema,
Da remissão.
(Do perdão divino que precisa do pecado
Para ser perdão.)
Perdão e misericórdia, que dão vida
Como os rios que banham tuas praias,
Como a chuva que cai sobre ti.
Limusines desfilam suas longitudes
Quase impudicas
Pelas retilíneas avenidas:
Deslavadamente
Exibem-se passando.
Limusines desconfortáveis
Ao dobrar nas esquinas:
Sobrantes,
Atravessadas.
Abusadas,
Ridículas.
Orgulho sobre rodas
Com janelas blindadas e negras.
Vidros negros.
Culpa negra.
Oculta.
Limusines desfilam:
Desconfortáveis nas esquinas,
Paquidérmicas.
Longas, mas todavia tão normais;
Todavia tão comuns
Em seus desabusados comprimentos.
Nova Iorque,
Cidade-expulsão-do-paraíso:
Que transpiras para viver
E gritas em dores de parto.
Enquanto a serpente rasteja
E o anjo brande a espada de fogo.
Arrepende-te, pois!
Baixa tua orgulhosa cabeça!
Busca os caminhos de teu Senhor!
Memorial da América Latina
Para a comunidade bahá'í do Uruguai
Pobre América Latina!
Visitei teu "Memorial".
Onde, nele, a lembrança
De tuas matas verdejantes,
De tuas florestas exuberantes,
De teus lagos,
De teus rios?
Só cimento e curvas arrogantes,
Espelhos d'água como poças,
Como as muitas que enchem as calçadas
Das cidades feias que sobre ti construímos.
Pobre América Latina!
Pobre de teu "Memorial"!
Tetos em ondas
Quebrando no frio do cimento;
Ondas sustentadas por goleiras gigantes
De futebol-americano.
Onde o aconchego de teus ranchos?
Onde a intimidade
De teu coração?
Somente concreto e vidro fumê...
(Operários pendurados em cordas
Sobre tetos escorregadios,
Lombosos, traiçoeiros.)
Pobre América Latina!
Que "Memorial" recebeste!
Orgulhoso como os conquistadores
Que te marcaram a ferro e fogo.
Árido como os peitos
Que roubaram teu ouro
E mataram teu povo.
Bruto como os séculos de opressão.
Arrogante como a transferência de tecnologia.
Operários alpinistas.
A recompor tetos em ondas.
- A pintura era pra durar dez anos!
(Conta o porteiro da biblioteca.)
Não durou dez meses.
Agora: cordas e andaimes balançam,
E há um rebuliço de maçaricos e espátulas,
Bujões de gás e escadas,
Recuperando o branco,
Salvando as aparências,
Gastando milhões.
(- A pintura era pra durar dez anos.
Não durou dez meses.)
Pobre América Latina!
Que, humilde, recebes outro golpe:
Um deserto de concreto
Com ondas de concreto
E poças d'água circundando os prédios.
Onde o espaço esqueceu do ser humano.
Onde não há grama para pisar,
Não há sombra acolhedora,
Não há flores,
Não há amor.
Só o vazio e a imponência.
Pobre América Latina!
Quem chorará teus espezinhados?
Quem louvará teus humildes guerreiros,
Que sobrevivem o dia a dia
E contemplam teu céu de anil
Com olhos esperançosos?
Quem ousará representar tua memória
De infinitas lutas e infinitos cantos,
De infinitas cores e infinitas dores,
De infinitos sonhos,
De infinita fé?
Pobre América Latina!
Visitei teu "Memorial".
Parecia um pedaço do estrangeiro
Transplantado para cá.
Esquece dele. Não é teu.
Como não é tua essa cidade
Que te impuseram.
Que carregas como cangalha,
Escrava ainda que és.
Mas chegará o dia do canto livre
E da libertação!
Chegará o dia dos humildes,
Dos simples, dos bons:
Quando não sofrerão mais.
Quando os últimos serão os primeiros.
Esse dia chegará!
Então teu memorial
Será cada casa tua,
Cada pobre casa tua
Com pão na mesa
E esperança no coração.
Então receberás justiça
E não monumentos milionários
Com ostentosas placas de inauguração.
A Guerra Começou
Para a família Behrouzi
A guerra começou
Mas a vida continua:
(A conclusão é patética, dolorosa,
Porém tão verdadeira...)
A vida continua para os que vivem,
(Mas principalmente para os que morrem!)
A vida continua patética, dolorosa,
Mas tão verdadeira.
A guerra começou
E já corre sangue fresco
De homens e mulheres estilhaçados,
De crianças estilhaçadas,
De seres humanos quebrados, rompidos,
Como potes de geléia que despencam da prateleira:
Jazem no chão sanguinolentos, irremediáveis;
Jazem pútridos, dolorosos,
Mas tão verdadeiros...
A guerra começou e o mundo geme.
E o mundo canta e dança.
E o mundo se diverte, compra e vende,
E a vida continua, patética,
Dolorosa.
Só Deus compreende esta dor! Só Ele geme!
A dor de Sua imagem e semelhança
Dizimando Sua imagem e semelhança.
E lá ficam tantas imagens e semelhanças
Dilaceradas,
Quebradas,
Sanguinolentas.
Só Deus compreende o grito mudo
Dos cadáveres infantis.
Ai! A dolorosa falta de gemidos,
A terrificante falta de soluços,
O arrasador silêncio...
(E então as pás a cavar sepulturas.)
E a vida continua
Dilacerada,
Estilhaçada,
Sanguinolenta.
Pútrida como o ódio nos corações.
Patética como as palavras vãs.
Como a retórica vã, que mata.
A guerra começou,
Mas a vida continua.
Segue sem sentido,
Cada vez mais sem sentido.
Como os cadáveres silenciosos.
Como as ruínas fumegantes.
Como os corações sem Deus.
Lanche no Avião
Para Beatriz e Marcos Gardinali
Pedi mais um lanche no avião,
Enquanto há fome na Somália.
Endêmica,
Horrenda,
Decenal.
Crianças de olhos longínquos
Contemplando seus próprios fantasmas.
Corpos esquálidos,
Costelas à mostra,
Ossos recobertos de pele.
Seres humanos dormentes de dor,
Quase suspiros,
Já quase.
A gentil aeromoça, Ana Rosa,
Sorridente.
Serve-me atenciosa.
E milhões morrem na África,
Na ex-Iugoslávia,
No Brasil.
De fome.
De desespero.
De abandono.
Meu Deus!
Quisera cem milhões de anãs rosas
A servir os famintos do mundo,
A sorrir-lhes.
(Pois os sorrisos também alimentam.)
Quisera compartilhar meu lanche
Com cem milhões de espezinhados,
Quisera doar o que agora tenho
Tão fácil nas mãos.
Quisera comer o lanche sem culpa,
Mas não posso.
A alma dói com a satisfação do estômago,
E a melancolia me abate.
Não tenho culpa, mas dói.
Na Praia
Para Jilá e Bahman Zaman
A praia navega deserta junto ao mar.
Tudo o que é eterno ali está, evidente.
Tudo óbvio, mas disfarçado;
Cada coisa abertamente oculta.
Imponderável.
Aos gritos e sussurros tudo se exibe:
A linha do horizonte, trêmula de mar;
Uma ilha à deriva na correnteza
Sem nunca soçobrar.
Montanhas no continente, diáfanas de maresia.
Tudo sereno a se eternizar
No compasso das ondas que rolam
Qual respiração imorredoura de Deus.
Sobe o sol e já chegam as esteiras,
E abrem-se os guarda-sóis,
E besunta-se óleo de bronzear;
Zigue-zagueiam os tênis de praia,
Espumam as cervejas de inveja do mar.
E o milho verde,
Os jet-skis,
As paqueras.
E mais mil bugigangas...
A praia navegava deserta junto ao mar.
Tudo o que é eterno estava ali.
Mas chegam os homens
E os minutos envelhecem.
Dias Atravessados
Há dias que começam atravessados,
Simplesmente,
E seguem atravessados
E findam atravessados,
E ficam atravessados
Na garganta.
Então, melhor deixar assim,
Não bulir, não forçar.
Deixar o dia passar
E passar pelo dia
Incólume.
Dias incômodos
Como casquinha de pipoca
Que gruda na gengiva,
Que fica presa entre os dentes.
Dias desconfortáveis,
Com ar de ressaca
E gosto de noite mal-dormida.
É nestes fatídicos dias
Que o telefone toca nas horas impróprias,
Em intervalos impróprios,
Para assuntos salobros.
Dias atravessados, esguelhos,
Desajeitados;
Como tirar os chinelos de frente para a cama
Antes de deitar:
No dia seguinte estão
Na contra-mão dos pés...
Dias assim oblíquos
Há que enfrentar com pachorra,
Com ânimo de urso que hiberna,
Com a velocidade das lesmas,
Com a argúcia das minhocas.
Acelerar seria desastroso,
Além de desagradável.
Nestes dias:
Deixar a alma de molho,
Evitar pessoas faladeiras,
E não tomar decisões importantes.
Nada de planos: são dias de sobreviver,
De subsistir na inércia de dias anteriores,
No arrastão dos dias que vêm
Pela frente.
Havidas que começam atravessadas,
Simplesmente,
E seguem atravessadas,
E findam atravessadas...
Mas estas são muito tristes
E doloridas demais de pensar
No dia atravessado que é hoje...

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