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Nem Todo Mar Tem Pérolas
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Loulie Albee Mathews : Nem Todo Mar Tem Pérolas
Nem Todo Mar Tem Pérolas
Loulie Albee Mathews
Editora Bahá'í

Título original em inglês: Not every sea hath pearls

Editora Bahá'í do Brasil

Tradução: Antonio Carlos de Godói e Stella Bueno Nikobin

Revisão: Jonny Carlos da Silva

Oh, Irmão! Nem todo mar tem pérolas; nem todos os ramos florescerão, tampouco sobre todos cantará o rouxinol. Antes, pois, que o rouxinol do paraíso místico se recolha para o jardim de Deus, e os raios da manhã celestial voltem ao Sol da Verdade, faze um esforço...

Bahá'u'lláh
Os Sete Vales

Dedicado aos pioneiros da América Latina e aos bahá'ís latino-americanos.

Por sua ajuda construtiva, sou grata a Roberta Christian e Ophelia Crum.

INTRODUÇÃO

Loulie Shaw Albee, minha mãe, nasceu em Newcastle, New Hampshire, em 12 de outubro de 1869. Seu pai, John Albee, professor de Grego na Universidade de Harvard, conviveu com eminentes homens de seu tempo, dentre estes Henry e William James; Henry Wadsworth Longfellow, que escreveu um poema a sua esposa e Alexander Graham Bell, que por ocasião do seu invento do telefone, ao visitar os Albee, disse: "John, ponha este pedaço de metal no seu ouvido e tente ouvir a minha voz" então o Sr. Bell foi até outro cômodo, e falando na outra parte daquele aparelho, perguntou: "John, você pode me ouvir?" "Sim", disse John Albee, "e também o resto do mundo".

A mãe de Loulie, Harriet Ryan Albee, era católica fervorosa, que também havia estudado para servir à Igreja Unitarista. Desde os 16 anos, Harriet sentiu grande empatia para com os pobres, idosos e doentes. Todos sabiam que ela guardava os lugares para os mais fracos dentre os velhinhos que aguardavam na fila da Sopa de Boston. Nos dias de mal tempo, após esperar pacientemente, ela mesma iria levar a sopa em suas casas. Com freqüência, ela permanecia na fila o dia inteiro. Durante aqueles dias, Harriet soube que muitas daquelas pessoas estavam morrendo de misteriosa doença, tuberculose, que os definhava progressivamente e como os hospitais se recusavam em recebê-los, não tinham onde buscar auxílio. Harriet apelou ao Dr. William Ellery Channing, reitor da Igreja Unitarista de Boston, para que ele abrigasse aqueles indivíduos em sua sacristia. Nascia então, o Lar Channing, um dos primeiros asilos no país, o qual eventualmente teve de mudar para um local maior e que durou 100 anos, somente fechando as suas portas em 1958. A dedicação de Harriet em servir aos idosos e aflitos só terminou quando ela própria faleceu devido à tuberculose, logo após ter dado à luz, sua filha Loulie Shaw Albee.

Confrontado com a urgente questão de criar e educar a filha sozinho, John decidiu que Loulie deveria seguir a mesma fé de sua mãe. Aos 8 anos, foi enviada para um internato religioso, onde a comida fraca, constante disciplina e a falta da alegria fez um efeito indelével em seu espírito. Assim que saiu do convento, ela não queria mais ouvir em instituições, principalmente as religiosas.

Em setembro de 1898, Loulie casou-se com Edward Roscoe Matheus, formado em Harvard, cujo pai presenteou-os com um emprego na Bolsa de Valores de Nova Iorque. Quatro anos depois deles se mudarem para Nova Iorque, nasceu sua filha Wanden Esther Matheus.

Loulie não sentiu falta da vida simples da Nova Inglaterra, ao contrário, pois vibrava com a agitação de Nova Iorque. Sempre ativamente envolvida com gente e interessada em quase tudo, Loulie elevou-se audaciosamente além das expectativas das mulheres naquele período e visitou prisões com a bela advogada Inez Mulholland; subiu a Quinta Avenida marchando com as sufragistas e fundou um lar para as operárias. Quando as atividades de Loulie tornavam-se demasiadamente embaraçosas para o orgulho masculino de meu pai, ele fugia para seu clube.

Os EUA declararam guerra em abril de 1917. O desejo de minha mãe de servir era tão grande, que provavelmente foi o que a possibilitou a tirar vim passaporte, o que era considerado quase impossível naquela época. Com torpedos chiando em volta do navio, ela foi para a França, onde nos seis meses seguintes, trabalhou num hospital para-queimados, atrás das linhas de combate.

Tendo se afastado da Igreja Católica, Loulie tornou-se fascinada por cartomantes, médiuns e fenômenos ocultos de toda forma. Felizmente, ela encontrou a Sra. Asa Neath Cocheran, que lhe ensinou, entre várias outras coisas, numerologia. Durante suas inúmeras visitas à casa de Sra. Cocheran, mamãe era sempre atraída e fascinada por uma determinada fotografia. Quando finalmente ela perguntou "Quem é essa pessoa maravilhosa?", a Sra. Cocheran recusou-se no início em responder-lhe, encorajando-a a terminar a lição; porém, na visita seguinte ela falou um pouco mais: "Seu nome é 'Abdu'1-Bahá. É filho de Bahá'u'lláh, que quer dizer a Glória de Deus. Você não deve jamais esquecer Seu Nome ou Seu Rosto". E lhe deu alguns Escritos de Bahá'u'lláh, dizendo-lhe que assim que chegasse a hora, ela aprenderia mais a respeito.

Estas palavras tornaram-se realidade apenas no outono de 1917.

Indo para Boston de nossa casa em Portsmouth, New Hampshire, minha mãe e eu sofremos um acidente de carro, e fomos hospitalizadas. Um primo de minha mãe, Harry Randal, veio em nosso socorro, levando-nos para sua casa, onde nos recuperamos. Este primo nos transmitiu a luz da Revelação Bahá'í; ele acompanhou 'Abdu'1-Bahá até Elliot, Maine, em 1912, a fim de visitarem uma propriedade que é agora a Escola Bahá'í Green Acre.

Entre o contato inicial com a Sra. Cocheran e a inesperada visita ao Harry, Loulie disse: "É isso aí!" ela falou e daquele momento até o fim de sua vida, ela dirigiu toda sua energia para servir a Fé Bahá'í.

Lembro-me carinhosamente de uma certa visita que nós duas fizemos. No outono de 1925, voltando para casa de Porto Fino, em um navio italiano, notamos um distinto senhor {negro}. Depois de muito especularmos sobre sua nacionalidade, o convidamos para sentar ao nosso lado e lhe perguntamos quem era. "Eu sou o Dr. W.E.B. Dubois e sou um negro norte-americano". Muito sem graça por estarmos deixando de lado um grupo inteiro de nossos conterrâneos, fizemos um pacto de nos tornarmos familiares com o pensamento, escritos e ensino do negro norte-americano. Foi através dele que conhecemos James Weldon Johnson, eminente e encantador poeta negro que trabalhava arduamente em seu livro "Os trombones de Deus". Tivemos, também, o privilégio de receber dois poetas mais jovens, Countee Cullen e Langston Hughes. E ainda, a Sra. Mary McCloud Bethune, que arrecadou fundo suficiente para abrir sua própria escola na Geórgia e foi nossa hóspede durante algumas semanas. Esta visita no entanto, terminou de forma triste. Meu pai tentou reservar uma cabine-leito para ela voltar de Nova Iorque para Washington, mas foi avisada que nenhum espaço no trem poderia ser reservado para pessoas negras. Apesar dos protestos indignados de meu pai, a discriminação prevaleceu.

Minha mãe não era apenas charmosa e bonita, mas seu entusiasmo fazia com que ela se relacionasse com todas as pessoas, sem distinção de raça. Acho que devido à nossa primeira experiência com o Dr Dubois, ela sentia uma preferência especial pela raça negra.

Até aos noventas e dois anos, ela ensinava dança para um grupo de crianças negras na Flórida. Na verdade, ela foi um dínamo movido por tanta energia, que não a deixava parar.

Neste livro, "Nem todo mar tem pérolas", minha mãe compartilha não somente de suas experiências como bahá'í no mundo visível, mas também dos seus testes e dificuldades na conquista da maturidade espiritual. 'Abdu'1-Bahá dizia sempre que a mais longa estrada no mundo é da cabeça ao coração. Este livro mostra as circunstâncias de uma incrível pessoa ao longo desta estrada.

Wanden Kane
28 de agosto de 1983
Parte I
O DOM DA FÉ
1. A FOTOGRAFIA

Embarquei no "Ile de France" na última semana de julho de 1914. Eu me sentia fatigada e com saudades dos Estados Unidos. Não havia me dado conta que uma era estava se findando, e que guerra e rumores de guerra eram agora o destino do mundo por muitos anos à frente. O mar tinha a cor azul pálido de meia-estação e estava liso como um assoalho. O capitão, com quem já havia viajado antes, convidou-me para um chá na ponte de comando. Nossos olhares percorrendo sem rumo o horizonte, detiveram-se sobre uma figura recurvada sobre a roda do leme e com tristeza estampada em cada linha de seu corpo.

"Infelizmente" exclamou o capitão, "esse excelente marinheiro avistou um navio fantasma. Foi durante nossa última travessia de Nova Iorque para o Havre. Não importa quão confiável um marinheiro possa ser, quando isso acontece ele não pode mais pegar o leme - isto é, nunca mais exceto se a guerra for declarada. Um navio fantasma é augúrio de conflito - e há muitos relatos de navios surgindo do nevoeiro antes do início de guerra".

Quatro dias depois, soubemos que a Alemanha havia declarado guerra à França. Nosso marinheiro tinha avistado o presságio fatal - o navio que previa morte e destruição.

Os Estados Unidos não estavam ainda envolvidos, mas uma onda de inquietação varria a terra e fui apanhada em seu vórtice. Pela primeira vez compreendi a instabilidade de minhas crenças religiosas e a necessidade de encontrar as respostas para a jornada da alma. O encanto dos rituais experimentado na infância já não dava mais espaço para contestação dos dogmas da Igreja - aqueles dogmas revestidos de termos ambíguos e tão insatisfatoriamente explicados. Em anos recentes eu havia investigado dois modernos movimentos, mas a reação que provocaram em mim fora superficial, insuficiente para atingir e aprisionar minha alma. Foi nesse momento que alguém falou-me sobre a Sra. Asa Cocheran, que ensinava uma ciência de números e explicava o simbolismo que se encontra em todas as religiões. Determinei a mim mesma que estudaria com ela. Descobri que vivia defronte ao Columbia College e passei a ter lições duas vezes por semana, para aprender as suas interpretações místicas. Nossos estudos eram realizados em um pequeno quarto abarrotado de pacotes de livros, papéis e cartas. Minha mestra era diferente de qualquer pessoa que eu já houvesse conhecido; algumas vezes parecia tão velha quanto a Esfinge, com olhos que pareciam guardar os segredos dos tempos; outras vezes, parecia uma jovem. Seu comportamento refletia mil vidas, e desde nosso primeiro encontro senti que ela possuía uma fonte de poder que jamais eu poderia compreender.

Certo dia, a empregada negra conduziu-me a um quarto que eu não sabia que existia, as paredes e o mobiliário pintados de branco e sobre a mesa havia simplesmente uma rosa, nada mais. Sentei-me e comecei a olhar a minha volta; a minha frente havia um quadro com o retrato de um homem vestido com trajes orientais. Ele respondeu ao meu olhar inquiridor. Quanto mais eu fixava seus olhos, mais desconfortável me sentia. Era como se eu estivesse em um aterro e subitamente a terra sólida tivesse se movido debaixo de meus pés. Perdi o domínio de mim mesma e me senti precipitada em um redemoinho. O centro irreal que eu havia criado desvaneceu-se e eu não tinha mais apoio. Tão envolvida estava naquele combate mental, que não ouvi a porta se abrir e nem percebi que não estava mais sozinha, até que a Sra. Cocheran sentou-se junto a mim.

Quem é aquele homem? perguntei. Não importa quem é, estude sua lição. Curvei-me sobre o livro, mas não consegui livrar-me daqueles olhos tristes que haviam penetrado até o mais íntimo do meu ser. Voltei para casa sem saber que um capítulo de minha vida estava encerrado para sempre; que eu jamais seria a mesma.

Quando retornei para outra lição fui conduzida ao mesmo pequeno aposento com sua costumeira desordem. Naquele dia a Sra. Cocheran vibrava com vida e vigor, como se a idade houvesse sido retirada de seus ombros e as sombras de seus olhos. Mal pude reconhecê-la. Assim que me viu, apertou-me as mãos e disse, "Durante sua última lição você perguntou-me sobre a fotografia que está no quarto branco. Bem, você saberá, porque ela terá um papel da maior importância em seu destino. É o retrato de 'Abdu'l-Bahá, o filho de Bahá'u'lláh, o Profeta de Deus, que recentemente visitou esta Terra. O nome Bahá'u'lláh significa A Glória de Deus; sua vibração é a mais poderosa que existe na face da Terra. Para que você possa tomar conhecimento de Seus ensinamentos, vou lhe enviar um livro na véspera do Ano Novo. Ele contém a chave para o que você está buscando - leia um parágrafo todos os dias antes de dormir e não se preocupe se o significado não estiver muito claro. Guarde as palavras em sua mente e logo descobrirá que consegue compreendê-las. Somente Bahá'u'lláh pode alterar o curso de sua vida e para você cumprir sua missão aqui, deve começar estudando a Mensagem Bahá'í."

A noite de 3l de dezembro chegou. Nesse período de minha vida eu tinha um verdadeiro anjo da guarda na pessoa de June, uma bela garota irlandesa quase da minha idade, e a ela confidenciei as novas do livro que estava para chegar ao soar da meia noite. Relatei como tinha visto o retrato no quarto branco e o extraordinário efeito exercido sobre mim. Para fazer passar as horas até a meia noite, June pôs-se a desfiar histórias da velha Irlanda sobre os gnomos; como na véspera do Ano Novo eles lançavam os molhos de feno para o alto, abriam as portas dos celeiros, e até subiam as torres das igrejas e tocavam os sinos antes de serem expulsos pelo sacristão. Exatamente cinco minutos antes da meia noite a campainha da porta tocou e June saiu em disparada para atender. Quando ela abriu a porta do meu quarto ao voltar, era outra pessoa. Com o livro suspenso acima de sua cabeça, parecia carregar uma tocha e seu corpo estava rígido - toda sua expressão parecia não pertencer a este mundo, como se tivesse visto um fantasma. "Isto é algo realmente maravilhoso - é para isto que você nasceu - é parte de seu destino - pegue-o agora e nunca mais o largue." Desembrulhei o livro. Era encadernado em tecido negro, com a palavra "Ighan" gravada a ouro - Eu não tinha a menor idéia do significado daquela palavra, nem de como deveria ser pronunciada, mas sabia que estava segurando um tesouro em minhas mãos e que aquele tesouro era meu! June aproximou-se e curvou-se por sobre meus ombros. "Há alguma coisa escrita na frente do livro", ela disse. Eu não havia tido tempo de olhar para a primeira página mas agora podia ver que o livro estava dedicado a mim como uma instrutora bahá'í. Se ao menos eu chegar a isso, pensei comigo - que milagre será necessário para que tal transformação ocorra? Virei uma página ao acaso:

"Cada manifestação de Deus tem uma individualidade distinta, uma Missão definitivamente prescrita, uma Revelação Predestinada, e limitações especialmente designadas. Cada uma é conhecida por um Nome diferente e é caracterizada por um atributo especial."

Novamente, abri em outro capítulo:

"Em qualquer idade ou ciclo em que sejam enviadas de suas invisíveis habitações da antiga glória para este mundo, (elas vêm), para educar as almas dos homens e favorecer com a graça todas as coisas criadas, elas são invariavelmente favorecidas com um poder que tudo compele e investidas de invencível soberania."

Isso mostrou-me o primeiro vislumbre do ritmo do planeta. Tudo aqui é recorrente - não apenas as estações, mas as próprias civilizações seguem-se umas às outras. Não há fenômenos isolados - os profetas vêm e vão, e tornam a voltar seguindo as mesmas leis que guiam todas as coisas aqui em baixo.

1 - Este livro encontra-se agora na Biblioteca da Escola Bahá'í Internacional em Pine Valley, Colorado.

Olhando retrospectivamente esse período, acredito que a Sra. Cocheran havia planejado ensinar-me pessoalmente, e que professora ela era! Mas, céus! Eu ainda não estava emancipada dos padrões do mundo. Eu ainda estava presa pelas limitações de minha própria geração, e quando a Sra. W.K. Vanderbilt convidou-me a acompanhá-la a Paris eu aceitei, pensando que aquela chance de ver a guerra em primeira mão era importante. Esse estado de espírito lembra-me da falsa importância que minha geração dava à aparência pessoal. As roupas prontas de hoje eram desconhecidas, e o culto da mulher bem vestida era a exclusividade. Livres dos espartilhos vitorianos e recatos exagerados, assumimos nossa nova individualidade. A aparência exterior de uma pessoa deve mostrar que ela não é feita de barro comum - não apenas uma dentro de uma espécime, mas o centro de uma nova criação; e para dar ênfase a essa teoria, o que você usava, deveria ser único. Os vestidos, portanto, foram selecionados nos grandes estabelecimentos de Paris após semanas gastas em salões de costura. Um chapéu não podia simplesmente ser comprado em uma loja - longe esse pensamento! Devia ser confeccionado na própria cabeça e ser um exemplar único; a marca registrada de distinção se encontrava a cada passo! A alta sacerdotisa do feltro e palha nos primeiros dias do século era Reboux e os preços que ela cobrava mostravam bem o seu gênio. Louis e Antoine haviam conquistado a reputação de criarem arranjos de cabelo de magnificência clássica; cada fio de cabelo no seu lugar - devia acentuar um encanto, ocultar um defeito, ou ser cortado. Um perfil devia denotar prestígio, e não seria difícil cruzar-se o oceano para visitar um conhecido estilista. A busca da Tesoura de Ouro era agora encontrar um novo decote! Embora a elite viajasse pelo mundo, permanecia trancada dentro de suas próprias cidadelas e abria defesas apenas para as pessoas íntimas e importantes, ou para um trovador ocasional que lhes apelasse à vaidade.

Quando conheci Ella Cooper, cuja mãe havia hospedado o Mestre em sua casa durante parte de Sua visita a São Francisco, perguntei se 'Abdu'l-Bahá havia dito como deveríamos nos trajar. Ela refletiu por um momento e então disse: Sim, Ele disse, "devemos nos trajar como um exemplo para os ricos e um conforto para os pobres". A partir daquele momento, abandonei a moda e a exclusividade e tomei a estrada chamada Universal. "Conviva com todas as pessoas em amor e fragrância. O companheirismo é a causa da unidade e a unidade é a fonte da ordem do mundo", escreveu Bahá'u'lláh.

Ir para a guerra durante aqueles primeiros meses foi uma experiência aterradora. De início encontramos desastre. A travessia do oceano tormentoso com seu blecaute noturno, seu pão preto e frio - todo esse desconforto finalmente culminou com o ataque de um submarino que destruiu parte das máquinas do navio. A partir de então, fomos obrigados a dormir no convés e com o salva-vidas debaixo de nossas cabeças. Paris, quando lá chegamos após uma eternidade, era um pesadelo de soldados mortos ou agonizantes. Aquelas cenas, atingindo-nos frontalmente, extraíram de minha mente reflexão, percepção, e na verdade, o próprio pensamento. Eu nada sabia sobre enfermagem e centenas de soldados feridos eram trazidos para o Hospital Americano em Neuilly todos os dias, sem que tivéssemos camas para oferecer-lhes ou mesmo remédios para aliviar suas dores. Como desejei ter feito ao menos um Curso de Primeiros Socorros! Minha inabilidade em lidar com a dor logo reduziu-me a um espectro de mim mesma e decidi retornar aos Estados Unidos. Dormi o tempo todo no caminho de volta, e embora três outras mulheres compartilhassem da cabina e falassem o tempo todo não consegui me animar, nem mesmo para temer os perigos das profundezas do oceano que, segundo elas, crescia a cada dia.

2. O GALGO* CELESTIAL

*N.R. Cão pernalto e esguio, próprio para caçar lebres.

Após minha desastrosa entrada na guerra européia tornei-me mais inquieta do que nunca. Eu queria fugir de tudo o que fosse familiar - esconder-me em algum lugar - qualquer lugar - e decidi-me pelas White Mounts de New Hampshire onde havíamos reformado uma velha casa de fazenda abandonada. Minha filha Wanden dirigiu o carro, e com minha costumeira impaciência pusemo-nos a caminho.

Havíamos acabado de passar por Newburyport e estávamos contornando as praias de Little Boar's Head quando um possante sedan em alta velocidade fez a curva atrás de nós e nos atingiu em cheio, reduzindo a destroços nosso carro. Wanden, embora sem ferimentos, ficara presa atrás do volante e eu fora jogada para dentro de uma vala lamacenta. Um fazendeiro bondoso, dirigindo uma carroça, parou e ajudou-me a chegar à casa mais próxima. Voltou e libertou Wanden do volante, depois encontrou o motorista que estava testando a velocidade de seu novo carro caído no mato, em meio a um amontoado de agulhas de pinheiros. Embora não seriamente ferido, ele estava atordoado demais para responder a qualquer pergunta coerentemente. Nunca soubemos quem era nosso Bom Samaritano - nem seu nome, nem onde vivia. A virtude devia ser sua única recompensa. Quando retomei a consciência bem mais tarde naquele dia, fiquei atônita ao deparar sobre minha cabeça com o retrato de 'Abdu'l-Bahá. Senti novamente o poder que havia me desafiado para um combate imortal. Quão estranho é o destino! O Galgo Celestial havia vencido a corrida! Ainda maior que a dor de um tornozelo fraturado era a consciência de ter abandonado uma orientação e seguido minha própria vontade. Essa vontade é como erva daninha. Mesmo que seja cortado, floresce de novo em outro jardim e adorna a si próprio com outras cores para iludir você. Foi necessário pressão tanto do alto como interna para curvar e marcar fundo aquele inimigo tão persistente. "Faça de sua vontade uma porta pela qual as confirmações do Espírito Santo possam entrar", aconselha 'Abdu'l-Bahá.

A casa que eu tão inesperadamente havia invadido, pertencia a meu primo Harry Randall, que a havia alugado para o verão. Ele, e sua esposa Ruth, haviam se tornado bahá'ís antes mesmo que 'Abdu'l-Bahá visitasse a América em 1912. Harry e Ruth não estavam apenas dispostos, mas desejosos de ensinar-me os fundamentos da Fé durante as semanas que antecederiam meu retorno a Nova Iorque. Nada me parecia estranho. Era como se eu estivesse fazendo uma retrospectiva do Caminho Místico: como a lembrança de já ter conhecido essas verdades há muito, muito tempo. Amei a poesia do idioma oriental antes mesmo de entender seu simbolismo. "O Rouxinol do Paraíso" era um título tão significativo para Aquele que havia sido enviado do Céu para nos ensinar. Quando me recuperei plenamente, aceitei a Fé Bahá'í e permaneci no sopé daquele íngreme caminho que cada um deve trilhar sozinho.

3. UM NOVO CENÁRIO

As Assembléias Bahá'ís, como as conhecemos hoje, ainda não estavam funcionando. Reuníamo-nos na casa de um dos amigos para discutir a possibilidade de termos um Centro Bahá'í. A mim, parecia que o grupo carecia de eficiência - eles não conseguiam fazer as coisas acontecerem. Pareciam, em minha opinião, necessitar de idéias mais atualizadas - mais métodos diretos, mas quando propus ação imediata recordaram-me a lei da consulta. Essa lei, que deveria exercer um papel tão importante no futuro da humanidade, era nova para mim e eu ainda não a havia compreendido. A meditação também foi outro espinho em minha carne - ação era minha esfera e a idéia de meditação perturbava-me profundamente, assim como a questão do sacrifício. Sua presença na vida de um crente era aclamada com alta aprovação, enquanto eu havia feito tudo para evitar o sacrifício.

Embora a moda não fosse mais meu critério para julgar, eu ainda era suficientemente afetada pelas aparências. Os amigos ficavam encantados por uma mulher, cuja saia despencava atrás e se suspendia na frente, e cujo cabelo precisava ser cortado. Falava-se dela como "uma alma adorável", mas para mim estes pequenos defeitos impediam que as qualidades de sua alma brilhassem. Eu me sentia deprimida com as conversas dos bahá'ís porque não conhecia nem as pessoas nem os acontecimentos aos quais se referiam. Para qualquer lado que me voltasse, fé e entusiasmo eram defrontados por testes desafiadores. Mamãe Beecher, avó de Dorothy Baker ainda vivia, e com Hooper Harris, Mary Handford Ford, Saffa Kinney e Grace Krug, ajudaram-me a superar as dificuldades e me falaram de suas experiências ao entrar para a Fé. As Festas de 19 Dias, todavia, eram pura alegria. Geralmente havia uma carta que alguém havia recebido do Mestre e que era lida em voz alta - um sopro dos céus chegando até nós, através dos mares.

Numa das noites de Festa, discutiu-se o apelo de Edith Sanderson de que alguém fosse para Paris, e o lugar me foi oferecido. Que melhor lugar para se "testar as asas" do que entre brotos de castanheiras e os costureiros do Champs Elysées? No início do mês seguinte, tendo obtido o consentimento de meu marido, lá cheguei e encontrei um Hotel visivelmente respeitável num bairro sossegado, e aluguei um espaçoso aposento no andar térreo, onde poderíamos servir chá e discutir a Fé.

4. A CARTA

Durante a primavera de 1916 muitos orientais passavam por Paris, e os bahá'ís dentre eles vinham assistir às reuniões; sentavam-se no chão ao longo das paredes formando uma decoração com suas vestes flutuantes e turbantes bíblicos. A animação, tão característica do ocidente, simplesmente não existia. Eles permaneciam imóveis, sorrindo freqüentemente, bebendo chá, porém raramente falando. Certa tarde, quando servia os meus companheiros orientais, bule de chá na mão, percebi um rosto trágico a me fitar com olhos profundos e olheiras quase negras. Quando ergueu a xícara, as largas mangas escorreram para trás expondo punhos que haviam sido cortados até os ossos. Recuei com horror. O que lhe aconteceu? perguntei, apontando para seus braços. "Fui aprisionado em nome de meu Senhor - e minhas mãos foram acorrentadas sobre minha cabeça". Ele sorriu gentilmente e continuou a mexer seu chá.

Quando meus hóspedes partiram sentei-me a uma mesa, coberta por uma toalha de chenile multicolorida para disfarçar as marcas do uso diário. Apoiei os cotovelos naquela maciez poeirenta e interroguei minha alma sobre a Fé que havia abraçado. Conhecia eu a Manifestação de Deus, Bahá'u'lláh? Poderia eu suportar as correntes e a prisão por Sua causa? Pensei nos Apóstolos de Cristo - como haviam deixado tudo para pregar o Evangelho. Agora eu estava vivendo o Dia que Cristo havia predito - o Dia profetizado através das eras - e vi que não poderia seguir ambos, o mundo e o espírito. Um dos dois eu teria que escolher e sustentar até mesmo acima de minha vida. Antes de poder ensinar aos outros eu precisava encontrar a mim mesma. Durante toda a noite fiquei ali sentada em grande perturbação, com aqueles pensamentos ferventes a me cruzarem o cérebro. Quando os primeiros raios de luz penetraram através da cortinas cerradas peguei uma pena e escrevi:

"Caro 'Abdu'l-Bahá,

Penso que é melhor eu voltar para casa - não conheço o suficiente da Fé para dirigir um centro, e além disso não sou boa o bastante."

Deixei a carta sobre a mesa; como naquele tempo em Paris não havia caixas de correio, planejei despachá-la mais tarde naquele dia. Exausta, sentei para tomar meu café com leite quando um visitante foi anunciado. Era um persa, alto e cujo nome não me recordo. Lembro-me apenas que havia vindo diretamente da presença de 'Abdu'l-Bahá, em Haifa. De dentro de seu manto ele tirou uma carta endereçada a mim e escrita com a letra do Mestre. Fiquei olhando fixamente o fino envelope cinza, mas não consegui decifrar uma só palavra, e nem o portador podia me ajudar. Febrilmente, saí em busca de Akbar, que tinha uma loja de artigos orientais e falava tanto persa como inglês. Quando o encontrei, estava ocupado com um freguês renitente e indeciso, que inspecionava cada peça de seda e todo o bric-a-brac* da loja. Por fim, Akbar levou-o até a porta, sentou-se e tirou de dentro do envelope uma única folha e leu-a para mim:

*Quinquilharia.

"Tua determinação de retornar ao lar é muito bem vista ao coração de 'Abdu'l-Bahá. O lar é o centro de onde a vida irradia para todos os horizontes. Volta para casa e seja humilde, e seja obediente e logo, logo tornar-te-ás o leão de 'Abdu'l-Bahá que rugirá através dos Sete Mares."

Sem fôlego, corri para o escritório da companhia de navegação e comprei uma passagem, e dentro de uma semana estava de novo em alto mar.

Meu retorno ao lar foi marcado por mudanças definitivas. Tive um entendimento mais profundo com meu marido, e um novo sentimento de felicidade que nada tinha a ver com acontecimentos, invadiu-me. As qualidades de humildade e obediência, mencionadas por 'Abdu'l-Bahá em sua carta, estavam enferrujadas por falta de uso e para enxertá-las em minha natureza rebelde, voltei-me para o livro de Orações Bahá'ís em busca de ajuda, e memorizei uma prece:

Há quem remova as dificuldades a não ser Deus? Dize: Louvado seja Deus! Ele é Deus! Todos são seus servos, e todos aquiescem a seu mandamento!

O Báb

Eu havia subido mais um degrau da íngreme montanha da compreensão espiritual, e o panorama da vida abriu-se e se revestiu de nova beleza.

5. GUERRA E NATUREZA HUMANA

Os Estados Unidos juntaram-se aos Aliados, entrando na guerra em 6 de abril de 1917. Houve um apelo por trabalhadores e tanto minha família como os bahá'ís insistiram para que eu oferecesse meus serviços. Meu marido não podia ir pois estava sob o peso de grandes responsabilidades financeiras e assim pela terceira vez durante a Primeira Guerra Mundial cruzei o Atlântico, agora com a Missão Ambrine - o único hospital para tratamento de queimaduras e que seguia as tropas junto à linha de frente. O hospital estava estacionado em Compeigne, próximo à gloriosa floresta agora pincelada de verde, através da qual filtravam-se os raios do sol desenhando um xadrez de sombras nos caminhos. Aqui, onde reis e rainhas e cortesãos com vestes principescas haviam caminhado, tinha agora a crua evidência da guerra - a praça em frente ao palácio que havia espalhado sua magnificência para admiração de toda a Europa, estava repleta de munição, e além das montanhas em Noyen os canhões disparavam sem cessar, dia e noite.

A Missão tinha sido financiada por Madame X, que pertencia a uma das mais conhecidas famílias da Europa e era meio francesa e meio austríaca. Ela era a cabeça da Missão, e eu o pé - a copeira, por assim dizer. Esta posição maravilhosa deu-me a oportunidade de ver de perto os intrincados motivos que regem a natureza humana. Aprendi a reconhecer os modos dos mundanos, os métodos dos invejosos, os jogos óbvios dos estúpidos e a bondade dos puros de coração. Longas horas de trabalho combinadas com uma dieta escassa fizeram de mim um rijo soldado, e devo muito aos meses que passei na Missão. Madame X não me apreciava, e falhando em atrair-me para o círculo de seus admiradores decidiu punir-me de vez em quando. Mas, como um bumerangue as setas atingiram seu próprio peito e eu me recordo de uma deliciosa ocasião. Duas grandes ambições motivavam o pessoal. Uma era que o General Petain e os maiorais visitassem o hospital, o que nunca haviam feito; e a outra era serem convidados ao Quartel-General Britânico em Amiens. Finalmente chegou um convite para o staff almoçar em Amiens. Naquele dia Madame X virou-se para mim e disse docemente: "Alguém precisa ficar tomando conta daqui, e como não há nenhum caso grave no hospital decidi que será você".

Meu castigo era leve. Pude tomar um banho (um luxo raro) e cheguei ao hospital em excelente condições. Durante a tarde, os soldados chegaram correndo e, sem fôlego avisaram que os Grandes Generais estavam se aproximando. Faça-os entrar disse eu em grande estilo. Olhando para cima vi as medalhas reluzentes brilhando no peito dos Generais Petain, Joffre e Pershing. Curvei-me e eles também curvaram seus nobres ombros em minha direção. Perguntei-lhes se gostariam de visitar o hospital, com o que amigavelmente concordaram. Havia mil leitos e as salas de tratamento ocupavam meio bloco. O General Pershing parecia um pouco abismado por ver este gigantesco estabelecimento nas mãos de uma frágil mulher americana - não aceitei nem repudiei a implicação - simplesmente fiz o que era digno de minha posição. Eu tinha ouvido que o general Petain gostava de chocolate e eu havia recebido um pacote de casa, e tinha instruído os soldados para prepará-lo. Sentamo-nos no pequeno refeitório e conversamos, enquanto saboreávamos os melhores e mais doces biscoitos da América. Os generais pareciam não ter pressa e quando finalmente se foram, expressaram sem reservas o prazer que haviam tido naquele festivo chá da tarde.

A escuridão já havia baixado quando nosso velho caminhão sem molas chegou ao pátio. Doloridos e enrijecidos da longa viagem, e cobertos de poeira das estradas esburacadas pelas bombas, desceram um a um; Madame X desceu por último, pálida como um fantasma e cinzenta de fatiga. "Bem", disse ela, "você tem algo a relatar?" Respirei fundo antes de soltar a bomba: "Apenas que três Generais vieram visitar o hospital e tomaram chá". A angústia transpareceu em sua fisionomia, mas tudo o que disse num trágico tom de voz foi: "Pode ir deitar-se"!

Cheia de chocolate e cumprimentos, eu saí. Cama! O máximo do luxo que se podia ter na guerra! A mais perfeita recompensa e o pagamento para os esforços de uma pessoa - ela concedeu-me o fecho de ouro para um dia perfeito.

6. DE LICENÇA EM PARIS

Mais uma vez naquele inverno, desempenhei o papel de cinderela em uma licença de vinte e quatro horas em Paris. Eu geralmente ficava com duas velhas amigas americanas. Chegando na rua Thiers, uma visão estonteante atingiu-me os olhos! Uma verdadeira tempestade de papel de seda cobria a mobília, caixas de jóias abertas sobre as camas, e na porta do armário pendia um vestido Worth com sua cauda ondulando sobre o tapete. Uma cauda - aquele apêndice pré-histórico fora de moda desde 1914! O que poderia ter trazido à luz aquela coleção de coisas proibidas! As irmãs Mary e Joan explicaram-me o mistério. Seria oferecido naquela noite, na Embaixada Britânica, um jantar ao General Lawrence da Arábia. "Não podemos levá-la", disse Mary, "pois a lista foi feita na Legação* e inclue apenas pessoas conhecidas e algumas de nós que vivemos em Paris". - "Não se preocupem comigo", eu repliquei garbosamente. "Não trouxe nada comigo além do uniforme que estou vestindo, e de qualquer modo prometi jantar com o Tenente Verry, que não conhece ninguém por aqui, está com pouco dinheiro e tem apenas uma licença curta antes de voltar às trincheiras".

*N. R. Missão diplomática subordinada a embaixada.

O Tenete Verry era uma figura galante, que tinha vindo da Nova Caledônia para lutar lado a lado com seus ancestrais franceses. Numéia, do outro lado do mundo, era o nome gravado em seu bracelete de identidade. Ele havia encontrado um Café muito discreto, o Gato Dourado, anunciando frango às quintas-feiras. No fronte, comida era o tema básico das conversas e um desejo constante a cada hora do dia, já que nosso cardápio de pão preto e carne de cavalo só variava ocasionalmente com um pouco de batata e repolho no jantar de domingo. Havia apenas um garçom no Gato Dourado, que olhou para os nossos uniformes e evidentemente nos considerou como camaradas de armas, além de ter ficado encantado por ter uma chance de expressar suas opiniões sobre a situação atual. Ele até se permitiu um pouco de sarcasmo sobre a condução da guerra em geral e a supervisão dos alimentos em particular. Com um grande floreio, ele colocou uma coxa de frango em cada prato e curvando-se perto de meus ombros disse baixinho, "Está vendo aquele homem no canto, com um livro encostado na garrafa"? Olhamos na direção apontada pelo guardanapo e vimos um homem usando um estranho uniforme, sem fitas ou condecorações ou quaisquer outras marcas de identificação. "Aquele", continuou nosso informante, "é o General Lawrence da Arábia".

Então lá estava o Leão! Sozinho e nem um pouco preocupado que embaixadores e damas, enfeitados como os lírios do campo, esperassem por ele. Naquele canto desconhecido estava o homem-mistério cujas explorações haviam desafiado o mundo, e cujas aventuras rivalizavam com as "Mil e Uma Noites".

Verry disse ao garçom, "Vá até lá e pergunte-lhe se podemos tomar café com ele". Pudemos ver que ele acenava a cabeça afirmativamente, sem tirar os olhos do livro. Levantamo-nos e fomos até lá. Ele não demonstrou a menor curiosidade sobre quem éramos. Mexendo o café, disse que considerava o melhor café em Paris e que sempre vinha ali quando estava de passagem pela cidade. Falamos de como nossos uniformes eram desconfortáveis e ele replicou que as vestes orientais eram bem mais práticas que as européias. "Nunca darei um bom soldado", disse rindo, "porque não aprendi a primeira regra - obediência". Foi difícil não dizer-lhe que ele era o maior dos soldados na guerra, mas contivemos nossa tentação, e após tomarmos a última gota do café nos retiramos.

Voltei à casa das irmãs, onde as roupas de gala estavam sendo colocadas de volta nos armários, junto com cânfora.

"Bem", perguntei com malícia açucarada, "como foi o seu Leão?" "Ele não apareceu - no último momento foi chamado a Londres para uma conferência de guerra." "Não há dúvida", repliquei, "de que ele deixou Paris e foi para Londres, mas teve tempo para tomar uma xícara de café conosco no Gato Dourado antes de embarcar".

7. REALEZA À DERIVA

Os camponeses franceses estavam famintos e sem nada em suas aldeias devastadas, e a Cruz Vermelha decidiu dar uma grande festa beneficente para ajudá-los. Foi realizada em um adorável jardim no Bosque de Bolonha e as enfermeiras da Missão foram enviadas a Paris para ajudar. Estávamos quase tão famintas quanto os camponeses e acolhemos calorosamente a oportunidade de servir aqueles doces e biscoitos cobertos de glacê, pois nos daria a oportunidade de comer um de vez em quando. Ali conheci o Grão - Duque Dimitri, que disse desejar ir para a América e estudar com a Sra. Cocheran cuja ciência dos números o interessava muito.

"O senhor alguma vez ouviu falar da Fé Bahá'í", perguntei-lhe, "porque ela é bahá'í assim como eu". Ele me fez perguntas sobre a Fé durante algum tempo, e eu falei da Epístola que Bahá'u'lláh havia mandado ao avô do Duque prevenindo-o da desintegração de seu reino e da necessidade de tomar conhecimento sobre a identidade de Bahá'u'lláh. Dimitri ficou vivamente impressionado ao saber que o primeiro Templo Bahá'í fora construído na Rússia. Ele disse que havia ouvido falar de 'Abdu'l-Bahá mas não se recordava onde, e eu falei que o cônsul russo em Haifa foi quem oferecera refúgio ao Mestre quando um grupo de soldados turcos chegou para matá-lo. O Mestre recusou-se a ser salvo, dizendo que nem o Báb, nem Bahá'u'lláh haviam fugido de seus inimigos, e ele também não o faria - se Deus quisesse que ele morresse, estava preparado. Dimitri explicou que tinha sido exilado da Rússia por sua participação no assassinato de Rasputin. Alguns homens temiam o poder de Rasputin e determinaram livrar o país de sua presença; um banquete de gala foi preparado na véspera do Ano Novo, no ano anterior (1916). O local escolhido fora a casa do Príncipe Yousoupov, na Moila em Petrogrado; depois de repetidas tentativas eles finalmente conseguiram silenciar o arqui-inimigo.

Dimitri disse, "Você é afortunada por ter uma Fé à qual se apegar - eu não tenho nenhuma". Tirei de minha bolsa um pequeno panfleto bahá'í e dei-o a ele. Com um gesto distraído ele o colocou no bolso e se foi. Poucos minutos depois estava de volta. "Talvez você tenha uma prece ou algo parecido que possa livrar-me dos olhos malignos de Rasputin que me seguem por toda parte. Tente mandar-me algo," disse em tom trágico deixando seu endereço sobre a mesa de chá e se retirando.

Pouco tempo depois de nosso encontro Dimitri foi preso pelos ingleses e durante aquele período a família real russa, assim como os quatro Grão-Duques, foram executados. Dimitri tornou-se o legítimo herdeiro do trono. Escrevi para o endereço que ele havia me dado, anexando preces e citações bahá'ís. Recebi uma única linha dele antes do final da guerra, que dizia, "Sinto-me infeliz na Inglaterra - é escura - reze por mim".

Quando a guerra acabou e Dimitri foi libertado, os bolchevistas haviam tomado o poder e era evidente que ele jamais tornaria a ver sua pátria. Ele fez um esforço inútil para reassumir a vida casando-se com uma americana, mas isso foi um erro e ele acabou adoecendo e morreu.

Esse incidente imprimiu vivamente em mim as fatídicas palavras de Bahá'u'lláh:

O equilíbrio do mundo foi abalado através da influência vibrante desta nova e suprema Ordem Mundial. A vida ordenada do gênero humano foi revolucionada por meio deste Sistema Único, maravilhoso - cujo semelhante jamais foi testemunhado por olhos mortais.*

*Kitáb-i-Aqdas - parágrafo 181
8. A CANTINA DE LAON

Quando se tornou evidente que a guerra em breve terminaria, engenheiros foram mandados para reconstruir as estradas e pontes que levavam a Laon. No começo da guerra os alemães haviam tomado a cidade e a conservaram sob seu domínio. Voluntários foram chamados para abrir uma cantina, e eu fui juntamente com três outras enfermeiras. A cidade ficava no caminho de Chemin des Dames, a estrada pela qual a corte dos dias medievais havia viajado e da qual havia tirado seu nome "Estrada das Damas". As recentes batalhas em suas fortificações expostas haviam sido sangrentas e desastrosas.

Fomos aquarteladas em uma casa de campo arrasada por projéteis, com as janelas pregadas por grossas ripas, menos uma, para entrar luz. O piso era coberto com pranchas que rangiam e não havia aquecimento. Nossa única alegria era a cantina, que ostentava um aquecedor a gás e um fogão para se fazer chá ou café.

Uma tarde, quando estávamos nos vestindo para deixar aquele quartel varrido pelo vento, alguém disse que estava nevando e corremos para a janela. A neve era leve e dançava ao vento mas olhando em direção do Chemin des Dames vimos um veículo enguiçado e quatro soldados trabalhando com pressa evidente. Um deles estava trazendo o pneu, outro manejava o macaco e os outros dois tiravam alguma coisa da traseira do carro danificado. Havia dois soldados franceses no andar térreo e pedimos que subissem para ver o que, na opinião deles, estava acontecendo. Olhando pela janela um deles disse: "Não há dúvida que estão trabalhando com muita pressa. Não tenho idéia para onde eles pensam que vão - já estão no fim da estrada."

"Onde quer que estejam indo precisamos dar-lhe um pouco de café na cantina. Rapazes, vocês não querem ir até lá e convidá-los para vir até aqui?"

Os soldados, sempre bem humorados, saíram a passos rápidos e logo os perdemos de vista. Esperamos até ouvir um chamado vindo da alameda abaixo de nossa janela, e então corremos para ouvir as notícias. "Vocês não vão acreditar! Percorremos todo o caminho, mas não encontramos viva alma! Nenhum sinal de quem quer que fosse na estrada. Nem caminhão algum," acrescentou o outro soldado.

Ficamos como que coladas no lugar, "Vocês querem dizer que os soldados que estávamos vendo não estavam lá?"

"Exatamente, estava tudo quieto como um túmulo. O mais estranho de tudo," ponderou o segundo soldado, "é que não havia marcas de pneus na estrada. O pó está espesso e posso dizer que nada passa por lá há vários dias".

Seis pares de olhos haviam estado a focalizar o que? Uma miragem? Não tínhamos resposta. Edith Blake, nossa observadora mais analítica, lembrou-se que no "Outward Bound", onde todos os personagens são mortos, ninguém sabia disso e mesmo quando a evidência apresentada era irrefutável, eles se recusavam a acreditar na verdade. Temos dois livros sobre a Segunda Guerra Mundial, escritos por homens de ampla reputação, que ajudam a esclarecer essa experiência. No primeiro, Falling Through Space, o autor Paul Fleming escreve:

"Embora estivesse em um hospital londrino e com os olhos vendados, consegui assim mesmo ver a morte de meu companheiro Paul. Vi um avião da Luftwaffe sair das nuvens por trás do avião de Paul e disparar direto nele. Gritei para avisá-lo (e é claro que ele não pode ouvir). Por um breve momento o avião ficou como que imóvel e então lentamente virou de borco e caiu."

Antoine de Saint-Exupéry em "Flight Over Arras" nos dá esta magnífica descrição:

"Quando o homem está morrendo, vê que não será separado de sua espécie, continuará parte dela. Ele não estaria perdendo a si mesmo, mas encontrando-se. Esta é uma verdade escondida sob a aparência das nossas ilusões diárias. Mas no instante em que você está entregando seu corpo, você aprende para sua própria surpresa... quão pouco valor você dá a seu corpo. Seria tolice negar que durante todos aqueles anos de minha vida quando nada persistente me estimulava... nada era tão importante quanto meu corpo. Mas aqui neste avião, eu digo ao meu corpo: Não dou a mínima para o que aconteça com você. Não há esperança de sobreviver a isto mas mesmo assim eu não me importo. No passado, não era eu quem pensava, não era eu quem sentia; era você, meu corpo".

As outras enfermeiras voltaram-se para mim e disseram, "Talvez você possa nos contar algo sobre a vida eterna segundo os Ensinamentos Bahá'ís". Rebusquei minha sacola de viagem e tirei um pequeno compêndio sobre a Vida Eterna, onde 'Abdu'l-Bahá escreve:

"A condição humana pode ser comparada com o ventre materno do qual a criança deve sair para o espaçoso mundo exterior. No início, a criança acha difícil conciliar-se com essa nova existência. Ela reluta em deixar seu lar, mas a natureza força-a para o mundo exterior. Vindo para esta condição nova, descobre que passou das trevas para uma esfera radiante; de limites melancólicos e restritos foi transferida para um ambiente espaçoso e pleno de deleite. A analogia expressa a relação do mundo temporal com a vida após a morte; a transição da alma do homem da escuridão e incerteza, para a luz e realidade do Reino Eterno. A princípio, é difícil aceitar voluntariamente a morte mas após atingir sua nova condição, a alma sente-se grata pela libertação das amarras do limitado, que lhe permite a liberdade do ilimitado."

Havíamos nos esquecido de que estávamos com frio e fome. Esquecemo-nos até que tínhamos deveres na cantina - nada mais parecia importante à luz dos estranhos acontecimentos ocorridos bem debaixo de nossos olhos.

Em minha estada seguinte em Paris fui ao apartamento da Srta. Sanderson. Edith, de tempos em tempos, enviava uma carta conjunta de todas nós para 'Abdu'l-Bahá e eu acrescentei o que tinha visto e perguntei o que significava. O Mestre respondeu que os soldados haviam sido arremessados para fora desta vida com uma força tão súbita que não compreendiam sua nova condição. Assim, por terem sido privados de sua experiência terrena sem culpa própria, Deus os compensaria no futuro e lhes concederia a realização de seus mais ardentes desejos.

9. DR. ESSLEMONT

A guerra que deveria acabar com todas as guerras estava terminada! Quão pouco sabíamos! Cheguei a Paris vinda de Laon para aguardar minha vez de conseguir uma passagem para Nova Iorque em um dos poucos navios deixados intactos. Meu antigo quarto ainda estava vago, e acomodei-me. A velha mesa coberta do chenile multicolorido deu-me as boas-vindas e eu correspondi, já que ela havia compartilhado comigo da noite escura de minha alma. Enfim eu era bahá'í - lealdades conservadas, objetivos fixados, e o futuro plano bahá'í um pouco mais claro. Eu estava feliz e freqüentemente meu coração cantava como uma cotovia em vôo. O trabalho havia enrijecido minha fibra e abrandado meu ego. Não ter nada o que fazer era pura alegria, e quando eu me sentei na cadeira de balanço, mergulhada no luxo do ócio, a porta se abriu e Dr. Esslemont entrou. Eu nunca o havia visto antes, e quão escocês era ele! Cabelos ruivos rebeldes, sardas, e vivos olhos castanhos. De seu casaco de tweed pendia uma valise gasta pelo uso e na qual estava um manuscrito - Bahá'u'lláh e a Nova Era - aquele pequeno volume que deu a volta ao mundo e foi traduzido em mais de cem idiomas.* Implorei-lhe que me falasse sobre sua visita ao Mestre - o que aconteceu para ele ir até Haifa e como foi sua vida perto de 'Abdu'l-Bahá. Puxamos nossas cadeiras para junto da lareira, e muito simplesmente ele contou sua história.

*Atualmente a literatura bahá´í está traduzida para 804 idiomas e dialetos.

Ele era médico, encarregado de um sanatório para tuberculosos em Bournemouth, e frequëntemente fazia viagens a Londres para consultar os diretores do hospital. Geralmente ele dava uma passada de olhos pelo jornal matutino e extraia qualquer artigo que lhe chamasse a atenção. Já tinha ouvido falar da Fé Bahá'í por diversas pessoas e estava impressionado pelas respostas que dava aos problemas atuais, já tendo feito algumas anotações para seu próprio uso. Dessa forma, ele tinha recortado do jornal a palestra feita por 'Abdu'l-Bahá no dia anterior no Templo de Londres. Um homem que estava sentado próximo a ele disse que estava indo à casa de Lady Bloomfield para ouvir aquele famoso oriental e acabaram decidindo ir juntos. O Mestre falou brevemente sobre os ensinamentos de Bahá'u'lláh e mais tarde, quando Esslemont hesitava se devia ou não falar com ele, o intérprete bateu-lhe de leve no ombro e disse que o Mestre desejava falar-lhe. Esslemont seguiu seu guia pela multidão até onde estava 'Abdu'l-Bahá.

O Mestre saudou-o gentilmente, e como se fosse a coisa mais natural do mundo disse, "Dr. Esslemont, gostaria que escrevesse a Mensagem de Bahá'u'lláh para o mundo ocidental". Antes que o pobre doutor pudesse protestar dizendo que nada conhecia de Sua Mensagem, 'Abdu'l-Bahá continuou , "Seria necessário que viesse visitar-me em Haifa". O médico ficou tão surpreso que balbuciara ser aquilo impossível. Sorrindo, 'Abdu'l-Bahá respondeu-lhe, "Quando o momento oportuno chegar, será muito fácil".

O Mestre voltou-se para responder a pergunta de outra pessoa. Num estranho estado de perplexidade mental o doutor retornou a Bournemouth, mas as palavras que 'Abdu'l-Bahá havia dito soavam em sua mente. Por que havia sido assim abordado - o que significaria? Todo o seu ser estava agitado e durante muitas noites foi-lhe impossível dormir.

Três anos depois Esslemont sofreu uma hemorragia pulmonar e os diretores do Sanatório, temerosos de perdê-lo, ofereceram-lhe férias e insistiram que fosse para um lugar de clima mais quente. O convite do Mestre surgiu diante de seus olhos e num impulso mandou um telegrama: "Estou livre para ir a Haifa se ainda me quiser." A resposta não tardou. "Venha a Haifa. 'Abdu'l-Bahá o espera". Assim entrou ele em um novo mundo - o mundo da perfeição. Ele jamais imaginara tal sacrifício, tal beleza de caráter, conduta tão santa como testemunhava agora.

Certo dia, 'Abdu'l-Bahá levou-o até o túmulo de Bahá'u'lláh e deixou que entrasse sozinho. Jasmins e rosas estavam entrelaçadas nas colunas do Sepulcro. Os pássaros entravam e saiam. Esslemont ajoelhou-se em um dos degraus - uma estranha calma o invadiu. Sua vida passada com todos seus acontecimentos pareceu ser varrida para longe, e como cera seu espírito foi derretido ficando preparado para uma nova imagem. O perfume das flores impregnava o ar e ele estava tão alheio ao mundo exterior, que quando o Mestre tocou-lhe de leve no ombro foi como se tivesse retornado de um outro país. Após a experiência no Sepulcro de Bahá'u'lláh o panorama do plano para a Fé foi entendido por ele sem qualquer obstáculo. A glória que circundava a pessoa de 'Abdu'l-Bahá elevou-o cada vez mais alto, à medida que os dias se passavam: aquelas madrugadas inesquecíveis durante as quais percorriam os caminhos para os quarteirões pobres da cidade; 'Abdu'l-Bahá entrava em uma choupana como se esta fosse o palácio de um rei. Ele cozinhava um mingau de aveia, dava banho nos enfermos, varria o chão e dizia palavras de conforto a cada um - não o conforto exterior, mas palavras que respondiam aos anseios do coração. O Mestre caminhava tão rápido que Esslemont mal podia acompanhá-lo. Voltando à casa, 'Abdu'l-Bahá se juntava à família para tomar chá, entoava as preces e quando o sol surgia estava pronto para os deveres do dia. O mais difícil de tudo é descrever o Mestre! Harmonia preenchia todo seu ser, e luz parecia irradiar de cada movimento seu.

Sentamos a noite inteira junto às brasas da lareira, Esslemont tentando dar-me uma visão do paraíso do qual tinha tido o privilégio de entrar. Suas palavras vertiam sobre mim mas lamentavelmente, pouco depois eu me recordava apenas de uma fração do que havia sido dito. Às seis da manhã seu trem partiu para Calais, e ao nos despedirmos implorei-lhe para rezar por mim para que eu também entendesse as raízes dos ensinamentos bahá'ís e seguisse seus passos. "Alguém do outro mundo a ajudará." Ele apertou minha mão e se foi.

Quão freqüentemente, com os olhos de minha mente, tenho visto o pequeno túmulo ao lado do Monte Carmelo onde Esslemont repousa; quão frequëntemente tenho sentido seu espírito brilhante junto de mim, ajudando-me a compreender os mistérios entesourados na Fé!

10. A DÁDIVA

Nessa época, um capítulo significativo da história bahá'í estava sendo encenado em Haifa, pois 'Abdu'l-Bahá estava mandando seu neto mais velho para a Universidade de Oxford na Inglaterra. O acontecimento envolveu muito mais do que parecia, porque na realidade, 'Abdu'l-Bahá estava se despedindo daquele que havia escolhido para se tornar o Primeiro Guardião da Fé (aquele segredo tão bem guardado). A despedida rompeu o companheirismo existente desde o nascimento, entre Shoghi Effendi Rabbani e o Mestre, e embora este tivesse lhe ocultado o conhecimento da verdade, quando me recordo da tristeza refletida em seus olhos negros acredito que um pressentimento nublara sua alma sensível.

Para quebrar o cansaço da longa viagem, Shoghi Effendi Rabbani e o Dr. Lutfu'lláh Hakim ficaram comigo em Paris e, oh! quão pouco eu me dei conta de quem estava sob meu teto! Quão pouco eu soube do incrível e inestimável dádiva que me havia sido concedida!

Parte II
LUZES E SOMBRAS CRUZAM O CAMINHO
11. NOVAS IDÉIAS

Voltei para casa, e desta vez para sempre. Nunca, nunca mais, jurei, eu voltaria a cruzar o velho e traiçoeiro Atlântico. Minha intenção, verdadeira no momento, teve vida curta. Os amigos juntavam-se a minha volta para ouvir as experiências que tivera com a guerra, e também porque estavam curiosos a respeito de minha nova religião.

"Suas preces são diferentes das nossas?" Eu conhecia apenas o básico, já que apenas recentemente tinha aprendido aquelas coisas por mim mesma. "Sim, temos orações diferentes para cada ocasião - muito mais do que pensei poder existir." A meditação é de suma importância também - o que pode resultar da meditação é um milagre - Eu não me lembro do texto completo mas isto é o que 'Abdu'l-Bahá diz em parte:

"Meditação é a chave que abre as portas dos mistérios... Essa faculdade traz à luz as ciências e as artes que repousam nos planos invisíveis... Através da faculdade meditativa as invenções tornam-se possíveis, tarefas colossais são realizadas... assuntos sobre os quais o homem nada sabia, são revelados."

Outra coisa que aprendemos é que o trabalho é uma forma de adoração. Lady Bloomfield, em seu livro The Chosen Highway, relata este incidente ocorrido quando 'Abdu'l-Bahá a visitou em Londres:

"Um operário que tinha deixado sua sacola de ferramentas na entrada, foi recebido por 'Abdu'l-Bahá com bondoso sorriso. Com ar de tristeza o homem disse: "Não sei muito sobre as coisas de religião, pois não tenho tempo para outra coisa que não seja o trabalho."

"Isso é bom. O trabalho diário feito com espírito de serviço é em si um ato de adoração. Esse trabalho é uma prece a Deus."

O rosto do homem ressurgiu das sombras da dúvida e hesitação, e ele saiu da presença do Mestre, feliz e fortalecido.

"Bem", disse alguém, "essa é uma nova idéia - tenho que pensar sobre isso". Outro disse, "Eu gosto de fazer minhas próprias orações". "Mas", eu repliquei, "suas palavras não têm o poder daquelas de um Mensageiro de Deus. Você deve pensar quando está dizendo o Pai Nosso, que esta é mais poderosa do que qualquer outra que você possa compor". E assim a discussão foi pulando de um assunto para outro, e explicando a Causa para meus amigos, aprendi como transmitir a Mensagem.

Foi nesse período que encontrei Marion Little pela primeira vez. Ela havia servido no exterior com a Cruz Vermelha e tínhamos nossas experiências européias em comum. Um laço de afetiva compreensão criou-se entre nós - uma ligação que perdurou através dos anos. Marion chegava de seu trabalho de decoradora de interiores, atirava-se no imenso sofá de espaldar alto, conhecido na família como a cama universal e ali podíamos discutir qualquer coisa do mundo. Mas, não importa de que ponto a conversa iniciasse, invariavelmente acabava entrando em religião e, especificamente, na Fé Bahá'í. Logo de início Marion foi atraída para os Ensinamentos - seu coração já estava convencido antes mesmo que ela os estudasse, e não demorou muito para que caminhássemos de mãos dadas como duas novas e ansiosas bahá'ís. Seus serviços pioneiros no campo europeu são bem conhecidos hoje, mas naqueles dias iniciais haviam muitas perguntas que nos confundiam - uma em particular: Quanto de livre arbítrio tem o homem? Uma carta de 'Abdu'l-Bahá enviada a um crente alemão e recebida na América pelo Sr. Paulis nessa época, ajudou-nos a entender esse complexo assunto. Vou expô-la aqui com minhas próprias palavras: O homem não pode escolher o século no qual nascerá, nem seus antepassados ou pais, nem país ou religião ou mesmo o ambiente no qual surgirá. Esses, segundo 'Abdu'l-Bahá são os fios básicos do tecido da vida. Uma bahá'i inglesa fez ao Mestre esta pergunta: Por que nasci inglesa no século dezenove e cristã, ao invés de ter nascido homem, chinês, e seguidor de Confúcio na Idade Média? 'Abdu'l-Bahá respondeu que isso era um dos três grandes mistérios deste plano - o enigma do livre arbítrio. Ele então disse-lhe de que forma poderíamos lidar com o livre arbítrio. Quando o homem chega à Terra já encontra os fios básicos do tecido prontos - e o tear da vida preparado. A alma toma o fuso e escolhe seu próprio padrão. Algumas vezes emprega cores maravilhosas e fios de seda, e cria uma obra de arte; ou então, usa fios ásperos e tece um padrão rude. Algumas vezes não há marcas na estrutura da vida. Muitos começam um plano - ficam desencorajados e o abandonam, dão vida a outra idéia mas não conseguem levá-la até o final; assim, quando a vida termina, lá fica a estrutura coberta de fragmentos.

E novamente, 'Abdu'l-Bahá nos dá outra analogia, usando os trilhos e a locomotiva. Os trilhos são imóveis (nosso nascimento e as condições que o cercam) mas o maquinista (a alma) pode ir depressa ou devagar, pode escolher ou não outros trilhos segundo sua vontade, parar em uma estação ou passar direto. Pode obedecer ou ignorar as leis de tráfego. O que devemos fazer com este assunto tão complexo? 'Abdu'l-Bahá aconselha: encontre a harmonia entre os acontecimentos livres e os acontecimentos imutáveis da vida, entre a vontade consciente e a vontade inconsciente; procure conformar a vontade própria com a Vontade Divina - Daí, então, o homem possuirá o maior tesouro: a indestrutível paz mental.

12. QUEM SERÁ O PRIMEIRO

Certa manhã Grace Krug telefonou-me para avisar que havia chegado uma carta do Mestre referente à formação de uma Assembléia. Deveríamos nos encontrar em seu apartamento naquela tarde para estudar as instruções e ela já havia enviado um telegrama a 'Abdu'l-Bahá contando sobre nossas intenções. A novidade da situação nos deixou num estado de grande excitação já que nenhuma Assembléia havia ainda sido formada em Nova Iorque. Sabíamos muito pouco acerca dos procedimentos, mas fingimos uns para os outros que estávamos informados e tentamos parecer importantes e oficiais. Achamos que devíamos impressionar uns aos outros e mostrar que tínhamos uma compreensão especial e havíamos sido favorecidos com um conhecimento exclusivo. Primeiramente, sentamo-nos junto à parede, rígidas e duras. Então, alguém sugeriu que aquela formação não era conducente ao fluxo espiritual, de modo que formamos um círculo e tomamos todo o cuidado para que cada cadeira estivesse cuidadosamente em exata relação com a do vizinho. De repente, a campainha da porta tocou estridentemente e Grace foi atender, como se já soubesse o que estava do outro lado da divisória. Voltou com um telegrama nas mãos - uma mensagem de 'Abdu'l-Bahá. O círculo todo vibrou em agitação. Quase sem fôlego, esperamos até que Grace tirasse a folha amarela do envelope. Ajustando os óculos, ela leu o conteúdo: Leiam Mateus, Capítulo l9, Versículo 30. Onde estava a Bíblia? Na prateleira de baixo, não, tente a de cima - procurem uma escada! Finalmente, as Escrituras foram encontradas. Grace folheou as páginas, e pronto, lá estava o versículo! "Porém, muitos primeiros serão últimos; e os últimos primeiros."

Rapidamente, ficamos tão humildes quanto camundongos - e até temerosos de que o último lugar fosse o nosso! 'Abdu'l-Bahá nos havia dado uma maravilhosa lição aquela tarde! Se fomos embora sem muito conhecimento sobre como formar uma Assembléia, aprendemos uma lição sobre como nos tornarmos bahá'ís. Banhada pela aura da humildade, a Assembléia foi então criada. A brisa perfumada do esforço dedicado soprou sobre a terra.

13. JENAB FAZEL

Em abril de 1920 'Abdu'l-Bahá enviou Jenab Fazel para ensinar na América. O Mestre escreveu que ele tinha "muitas" perfeições. Ali estava um homem de muitas virtudes - não uma simples qualidade de bondade, mas um conjunto de estrelas a brilhar. Ele era de estatura acima da média e com uma sólida constituição física. Seus olhos escuros irradiavam luz e usava um turbante branco. Embora não falasse inglês, isso não era obstáculo para que seus pensamentos penetrassem fundo nas pessoas. Lembro-me do almoço, quando ele arrumou as sementes de uma melancia em círculo para explicar a similaridade entre o sol nascente do mundo físico e o nascimento de sóis espirituais. Fazel entoou as preces e embora muitos dos amigos estivessem familiarizados com o canto eu nunca o tinha ouvido. É entoado em um tom alto, mais ou menos nasal, e que produz uma sensação de nostalgia como se o som viesse de um minarete distante. Deu-me uma sensação peculiar a princípio, mas então comecei a reagir a sua qualidade especial e amá-lo.

Certo dia Fazel expressou o desejo de ver uma das séries de filmes educacionais que estavam sendo utilizados pelas escolas públicas de Nova Iorque. Fui escolhida não apenas para acompanhá-lo, mas para ir sozinha com ele, sem mais ninguém. Sua mente era tão profunda e clara que apenas estar em sua presença já era um privilégio. E assim fomos. A mostra era a Relatividade, por Albert Einstein. À medida que cada símbolo aparecia em branco sobre um fundo negro Fazel repetia Muito bom, muito bom e sorria brandamente. Foi tremendamente interessante e eu gostei muito. Quando terminou, procurei por meu casaco, sentindo um pouco de fome, pois já era meio-dia. Fazel mostrou-se chocado - Não ir, disse ele, nós ficamos, nós vemos.

Sentamo-nos novamente e ali permanecemos até que a última apresentação tivesse terminado. Não me recordo de quantas vezes o filme foi exibido mas creio que foram cinco ou seis. Sorrindo, relaxado e feliz, Fazel ficou sentado horas e horas bebendo da ampla teoria do Sr. Einstein. Quando a cortina desceu sobre o "The End" Fazel suspirou e nos levantamos. Eu me sentia endurecida, com frio, faminta e exausta, mas Fazel parecia tão revigorado quanto uma manhã de primavera.

Desde aquela vez, sempre que uma conversa gira em torno das teorias de Einstein eu asseguro com toda convicção que conheço TUDO sobre a Relatividade.

14. 'ABDU'L-BAHÁ NOS DEIXA

Nesse período, uma onda de desemprego varreu as ruas de Nova Iorque, e os bahá'ís davam assistência ao Dr. Guthrie na Igreja Episcopal de São Marcos onde ele havia instalado uma cozinha para fornecer sopa. Em troca, ele nos deixava usar a encantadora e pequena Capela para as comemorações bahá'ís. Era segunda-feira, 28 de Novembro de 1921. Estávamos todos ocupados desmontando as decorações de frutas, legumes e folhas de outono que haviam guarnecido a igreja para a festa de Ação de Graças. Eu estava em cima de uma escada desatando os longos ramos verdes que estavam suspensos sobre o púlpito. Olhando para baixo, vi Mountfort Mills parar na porta, e ouvi as palavras que ele disse em voz baixa e comovida: "'Abdu'l-Bahá morreu esta madrugada, cerca de uma e meia".

Subitamente veio-me o pensamento de que eu nunca tinha ido à Haifa! Nunca tinha visto 'Abdu'l-Bahá! Aquele pensamento tomou conta de mim, varreu-me com ondas de tristeza. Senti-me lançada fora dos limites da própria existência. Não me lembro de nada das horas entre o momento que Mountfort trouxe a notícia desoladora e quando dei por mim, sentada na Capela ouvindo a leitura do Testamento de 'Abdu'l-Bahá. À medida que fluíam suas palavras proféticas e aconselhadoras, em meus ouvidos penetraram palavras de alívio, palavras de conforto:

"Oh, meus amados amigos! Após a morte deste que foi tão injustiçado, é dever... dos amados da Beleza de 'Abhá voltarem-se para Shoghi Effendi... o jovem Ramo... colhido das Duas Árvores Abençoadas e Sagradas... Ele é o Sinal de Deus, O Ramo Escolhido, o Guardião da Causa de Deus."

Assim, daquela hora em diante, Shoghi Effendi tornou-se para todos nós o que estava explícito nas palavras de 'Abdu'l-Bahá: nosso Mui Amado Guardião.

15. A LIVRARIA DE PORTOFINO

Ao abrir a correspondência certa manhã, de dentro de uma carta caiu um cheque - um cheque de quinhentos dólares! Foi difícil para mim desviar a atenção do cheque e concentrar-me na nota que o acompanhava. Era de Elinor Stewart, uma amiga amável e gentil que na época estudava os Princípios Bahá'ís. Ela tinha ouvido falar que pretendíamos instalar uma livraria religiosa em Portofino, na Itália - uma livraria a partir da qual poderíamos enviar livros para toda a Europa. Eu já tinha telegrafado ao Guardião para perguntar-lhe se deveríamos remeter somente livros bahá'ís e ele me respondera que eu deveria incluir livros sagrados de todas as religiões.

Para isso, necessitávamos de auxílio e como o Sr. Brentano, pai, na época ainda era vivo, nós o consultamos. Seu entusiasmo igualou o nosso. Ele escolheu gemas preciosas dos pensamentos filosóficos, tratados sobre a vida interior, ensaios sobre as antigas crenças, e muitos volumes desconhecidos para nós que se provaram de inestimável valor para a livraria. A aventura foi despachada pelo S. S. Giulio Cesare e no devido tempo os livros chegaram todos intactos e foram instalados na Vila San Martino. Uma capa vermelho-fosco havia sido escolhida para nosso catálogo, com a Árvore do Conhecimento abrindo seus ramos sobre as palavras de Bahá'u'lláh:

"A raiz de todo conhecimento é o conhecimento de Deus."

Através de catálogos de universidades e escolas compilamos uma lista para mala direta, e a Árvore do Conhecimento começou a brotar! As respostas começaram a chegar de todos os quadrantes da Europa, e dentre elas uma nota da Alemanha, quase ilegível; "Seu catálogo recebido. Vimos que vocês têm a Consciência Cósmica. Esse livro, o único disponível para as mulheres na prisão de Moscou, já passou por tantas mãos que cerca de cinqüenta páginas (entre 40 e 90) estão ilegíveis. Se vocês tiverem tempo de copiar essas páginas, mandem-nas para este endereço que tomaremos as providências para que sejam traduzidas e cheguem à prisão de Lubin na Rússia. O recebimento será acusado por meio de um pequeno x."

Nenhum "x" apareceu na correspondência naquele verão. Mas, na primavera, quando eu estava descansando no terraço em San Martino nossa impecável governanta Rosa, chegou correndo para avisar-me de que havia alguém na porta. "Senhora, há um homem lá embaixo - não é uma visita eu lhe asseguro, mas um homem pobre, desarrumado, um mendigo pelo que presumo, que não quer me dizer a que veio." Mas eu já estava a caminho da porta e Rosa virou as costas para não ver aquilo que considerava uma impropriedade.

Lá estava um homem, exatamente conforme a descrição de Rosa - ele era não apenas maltrapilho, mas havia linhas de profundo desespero em sua face pálida. E ali ficou a me olhar, sem dizer uma só palavra. Senti-me um tanto preocupada quando lhe perguntei o que poderia fazer por ele.

"Estou vindo da Rússia, e tenho uma encomenda para entregar-lhe." Ele estendeu-me algo embrulhado em velhos jornais. "Devo ir a Gênova e pegar um navio ainda hoje à noite." Assim dizendo virou-se e foi embora. Eu já havia me esquecido da prisão russa e agora a imagem estava de volta à medida que eu desembrulhava o pacote. Dentro havia um tecido, quase do tamanho de um pires e junto um bilhete escrito em inglês:

"As mulheres da prisão de Moscou receberam seu inestimável presente. Gostaríamos de ter algo melhor para mandar-lhe em retribuição, mas aqui não temos nada. Uma de nós escondeu um pouco de barbante dos guardas - nossa única posse. Cada uma furou o dedo para tingir o barbante e com nosso único grampo de cabelo fizemos o tecido. Estamos enviando-o a você através de um amigo de confiança. E no canto estava o símbolo tão esperado - um pequeno x."

"Estou ensinando em uma escola, escreveu a Srta. Crandall, e morando numa fazenda de frutas na savana africana. A casa é de arquitetura holandesa e é rodeada por paredes altas e brancas. Nesta parte do mundo as árvores são controladas, colocadas em ripas junto às paredes e parecem mais trepadeiras do que árvores. Quando os pêssegos e pêras estão maduros o brilho de suas cores desafia a descrição. Além de mim há aqui um grupo de caçadores desventurados, com um dos homens com a perna quebrada, outro com a mão dilacerada e cujos companheiros não querem abandoná-los. O catálogo foi recebido por eles com intensa alegria e ficam o tempo todo gritando-me seus pedidos à medida que escrevo; estamos todos de acordo que queremos "Variedades de Experiências Religiosas", de William James. Um dos homens, um católico, quer "Fabíola", do Cardeal Wiseman. Outro deseja "A Luz da Ásia", de Edwin Arnold, e eu gostaria de receber "Foundation of World Unity e Divine Art of Living" para poder continuar minhas leituras bahá'ís. A não ser que você tenha vivido onde livros são raros, não poderia entender nossa sede pela palavra impressa."

Cinqüenta volumes foram embrulhados em papel impermeável e despachados. Um tempo considerável decorreu até que recebêssemos notícias de sua chegada. Cito a carta da srta. Crandall:

"Quando de Capetown nos avisaram que os livros estavam disponíveis, quase ficamos loucos. Nosso senhorio, um holandês, informou ao Supervisor do distrito e ele declarou feriado por uma semana para que os fazendeiros vizinhos pudessem também fazer uma visita à cidade grande. É uma jornada de oitenta quilômetros girando através de estradas de montanha - um lugar inseguro para os cavalos, de modo que dezoito mulas foram arreadas ao único carroção cerimonial que a cidade possui. Gastamos horas decorando-o com tiras de pano e galhos com folhas coloridas cortados das árvores frutíferas. E lá fomos nós - um bando alegre, cantando e brincando ao longo da estrada poeirenta. Os camponeses vinham correndo, curiosos para saber o motivo da festa e muitos se juntaram a nós - uma folga no monótono trabalho do campo era bem vinda e pularam para dentro da carroça do jeito que estavam. Quando chegamos perto do calçamento do cais de Capetown estávamos mais apertados que sardinhas em lata.

Triunfantes, levamos nossa preciosa carga para casa e sobre a longa mesa de carvalho foram espalhadas fileiras de livros; e só de ler os títulos já nos sentimos emocionados. Eles são como salva-vidas para esta pequena colônia, perdida numa solitária planície africana. Efusivos agradecimentos de todos nós."

A mais perturbadora experiência resultante da Livraria de Portofino veio de uma Madame X , uma americana que havia se casado com um oriental. O casamento havia se transformado em um fracasso do qual ela parecia incapaz de se desenredar. Ela gostava muito das reuniões bahá'ís mas nunca chegara a abraçar a Fé. Após ouvir atentamente a explicação sobre algum ponto, ela olhava para cima com uma expressão infantil e perguntava: Mas, por quê? Eu não consigo ver por que!

Assim, quando ela escreveu-me de Vitel, nas montanhas Vosges pedindo um livro sobre ensinamentos bahá'ís, confesso que fiquei perdida e sem saber o que mandar. Fui até a estante, fechei os olhos e pronunciei o Nome Supremo; estendi a mão e retirei um livro. Era "Divine Art of Living". Sua reação foi tão extraordinária, que a transcrevo aqui em suas próprias palavras:

Vitel, Montanhas Vosges, França
06 de agosto de 1928
Cara amiga:

Acordei cedo esta manhã e quando abri os olhos lembrei-me de que havia uma razão para acordar - o pequeno livro da Livraria de Portofino. Fui atraída pelo título. Ele soava como um caminho definido a ser trilhado e liberava uma intensa força dentro de mim. Formas de como se tornar um ser humano útil mostrou-me que havia uma centena de respostas para minhas perguntas. Não há dúvida de que os dias sombrios voltarão, mas, abrindo o pequeno livro a teia que obscurece minha mente se desvanecerá. A alegria que tenho procurado foi centrada no amor terreno e esse amor trouxe-me momentos escuros e trágicos, que aumentaram minha solidão e estraçalharam meus nervos. Estou incapaz de recuperar qualquer porção de tranqüilidade após fases tão obscuras de emoção. Hoje, tenho uma nova esperança - nova inspiração e por isso nenhum agradecimento é suficiente para o presente que recebi da Livraria de Portofino.

Com amor,
Mabel.

Pelo mesmo correio veio uma segunda carta ainda mais extraordinária:

Sei que você ficará surpresa, cara amiga, por receber uma segunda carta, já que coloquei uma hoje no correio; mas quando ler esta, estou segura que entenderá porque eu tinha que escrever-lhe ainda hoje. Coloquei a primeira carta na caixa do correio na entrada do hotel e fui para as colinas que circundam Vitel, e sentei-me num banco verde. A vista tinha nada de extraordinário. Eu via a estrada que segue para o norte, no céu apenas algumas nuvens fofas e por trás de mim uma colina coberta de flores brancas empoeiradas. A vinte e cinco quilômetros descendo a estrada, fica o local onde nasceu Joana D'Arc; é o mesmo tipo de vegetação. Fiquei pensando sobre Joana - tão jovem e sem nenhuma idéia do terrível destino que a aguardava! Após alguns minutos abri o livro ao acaso e li: "Não deseje nenhum companheiro exceto o verdadeiro. Não deseje outros associados, exceto voltar tua face para o Horizonte supremo."

Eu queria pensar sobre aquelas palavras e o que significavam para mim. Deixei o livro cair sobre o banco e olhei para a estrada. Subitamente, entre a terra e meus olhos começaram a subir longas vibrações luminosas que aumentaram de intensidade até eu não conseguir mais ver a terra. A luz subiu mais e mais alto até encher o espaço. Parecia vir tanto de fora como de dentro, e eu era parte da vibração. Não conseguia mover-me, e nem mesmo erguer a mão - não sei quanto aquilo durou até que a luz diminuiu e eu consegui mover a cabeça e olhar à minha volta. Tudo estava mudado - a colina, a estrada, até o céu, cada folha, cada grama, tudo estava envolto em luz. As pequenas flores brancas tinham estrelas de luz em seu centro, e até a poeira da estrada brilhava como diamante; as nuvens tinham fitas de ouro atravessando-as. Eu queria ficar para sempre em meio àquela glória que me rodeava, mas sabia que dariam por minha falta e precisava voltar. Fiquei com medo de encontrar-me fechada em meu quarto, atulhado de feia mobília mas quando girei a fechadura na porta vi a toalha da mesa rodeada de luz, assim como cada objeto no quarto. Por que uma experiência mística como essa aconteceu comigo, eu nunca conseguirei entender. Por que fui retirada de minha vida vazia e colocada na beleza que está oculta, oculta de nossos olhos físicos? Por que eu deveria ver a luz como uma causa ao invés de um efeito, isso eu jamais entenderei. Por favor, envie-me outro livro - um que possa ajudar a explicar a estranha experiência pela qual passei.

Mabel.

Experiências de Santos de muitos países foram embrulhadas e remetidas à terra de Joana D'Arc para acompanhar nossa viajante em suas jornadas celestiais.

16. A COLÔNIA DOS LEPROSOS

Em 1931 fomos convidados a passar o Natal em Honolulu. Foi a primeira das muitas visitas feitas àquela encantadora ilha. A frase imortal inscrita nas paredes do Forte Delhi poderia aplicar-se à ilha de Oahu: "Se há um paraíso na Terra, está aqui! Está aqui! Está aqui!."

Nada naquela terra mágica exigia esforço. A flor multicolorida do hibisco vivia tão bem em cima de uma mesa como mergulhada na água. Os cocos caiam das árvores para matar a sede; o mar era morno e sem perigo; o sol brilhava enquanto caía uma pancada de chuva enchendo os vales de sol líquido e formando arco-íris sobre as colinas. A tensão e a luta pela vida desapareciam da mente de uma pessoa como um sonho, e ao olhar para trás ela ficava admirada da energia exigida pela vida diária em outros climas.

Os bahá'is de Honolulu deram-me calorosas boas-vindas e pediram-me para falar em suas reuniões públicas. Fiquei pensando se 'Abdu'l-Bahá não teria encontrado o que fazer ali - ele não teria ficado contente se queimando ao sol - ele teria descoberto alguém necessitado ou doente e teria aliviado seus sofrimentos. Pensamentos como esses deixaram-me inquieta. O Natal estava se aproximando; brinquedos maravilhosos enchiam as vitrines das lojas mas a quem dá-los?

Uma noite, ao jantar sentei-me ao lado do governador e perguntei-lhe se não havia pobres em Honolulu. Apanhado de surpresa, nem ele conseguiu pensar em algum. Mais tarde, ele chamou-me de lado: "Por que você não enfeita uma árvore de Natal para as crianças leprosas ?"

"Eu não pegaria a doença?" Com todo meu zelo eu não havia considerado envolver- me com a lepra.

"Não", ele respondeu rindo, "elas não tem a doença, são filhos de mulheres da colônia de leprosos de Molokai. Assim que nascem são trazidas para Honolulu e colocadas sob a guarda das Irmãs de Caridade. Elas são criadas sob a tutela das Ilhas. Não desejamos alarmar nossos visitantes, ou perturbar nosso povo, de modo que elas são praticamente desconhecidas. São pequenas sombras tristonhas da humanidade; não creio que algum deles saiba o que é um brinquedo."

Pus-me a trabalhar com tal vontade e energia que o dinheiro começou a chover para a celebração. Na Noite de Natal lá estava uma árvore de um metro e oitenta brilhando com seus enfeites dourados e prateados e brinquedos! Havia carrinhos com cubos removíveis e pinças de ferro para retirá-los. Havia pôneis com pelo de verdade e arreios de couro. Havia bonecas de todos os países e bailarinas que faziam tantas piruetas que ficávamos zonzos só de olhar; para não falar dos ursinhos, feitos para serem abraçados.

As freiras vestiram as crianças com babados e roupas de marinheiro engomadas, mas nada podia esconder a anemia, a subnutrição, os olhos fracos e mentes atrasadas daqueles pequeninos à medida que marchavam a cantar os hinos de Natal. As crianças estavam fascinadas por tanta glória. O acontecimento abriu a porta de um mundo triste sobre o qual eu nada conhecia; mas a partir daí passei a trazer com freqüência sorvetes e doces para o Orfanato. Era um estranho contraste com a vida exótica da ilha.

Certa manhã, quase no fim de Janeiro, o Comissário das Instituições Havaianas chamou-me ao telefone.

"Sua festa de Natal atiçou um verdadeiro ninho de vespas no acampamento dos leprosos. Eles fizeram uma petição ao Governador para permitir que você os visite. Nenhum branco esteve lá durante onze anos. Se você e seu marido forem, colocaremos um avião à sua disposição sexta-feira pela manhã."

"Sim, eu irei", respondi sem saber ao certo como me sentia sobre tudo aquilo. Eu não conseguia imaginar como seria. Era nosso primeiro vôo de avião. As coisas familiares lá embaixo tinham um aspecto quadridimensional. O sol brilhando no oceano fazia-o parecer uma vasilha de leite coalhado. A cascata surgindo do Spouting Horn parecia uma estola de chiffon branco suspensa sobre as rochas. As plantações de abacaxi eram como teoremas geométricos e os pomares como frutas crescendo de cabeça para baixo. Passamos sobre as ricas fazendas da Ilha Molokai e do outro lado dos rochedos altos e escarpados, começamos a descer. A colônia dos leprosos ficava como um avental no sopé de um precipício rochoso. O avião parou em um trecho descampado e o piloto estendeu-me a mão, e eu me encontrei parada no lugar mais desolado deste vasto mundo. A areia era a negra lava pulverizada. A água rasa ao longo da praia também era negra. As ondas não dançavam sob o sol, mas quebravam-se na praia melancólica como se, elas também, só conhecessem tristezas. Não havia botes nem barcos de qualquer espécie ancorados ali, nada que trouxesse um pouco de prazer entre a terra e o mar. Ao invés disso, a praia estava semeada de cruzes de madeira, fila após fila - não em pé mas caídas em diferentes ângulos como se não houvesse ninguém para endireitá-las. Um farol, pintado com faixas pretas e brancas erguia-se reto e nu sobre as rochas. O quadro era desolador. Meu Deus, pensei, como conseguiremos passar um dia inteiro nestas plagas esquecidas. Ninguém veio nos esperar. O piloto dirigiu um velho carro por cerca de quilômetro e meio da terra alagada entre o farol e a Colônia, e chegamos a uma casa muito limpa e branca. Na porta estava o médico. Ele nos saudou com tal calor e sorria com tanto contentamento que involuntariamente lhe perguntamos há quanto tempo estava ali.

"Cerca de onze anos - minha esposa e eu somos felizes - isso deve lhes parecer estranho."

Eu estava no banco traseiro do carro, e curvei-me para frente para ter certeza de que havia entendido direito. Onze anos de exílio voluntário!

"Antes de levá-los pela Colônia, deixe-me explicar nosso funcionamento aqui. Os pacientes ocupam as pequenas casas em volta da praça que está à nossa frente, enquanto podem cuidar de si mesmos; quando a moléstia progride até o ponto em que não conseguem mais fazer isso, nós os levamos para um dos hospitais. Temos três deles; um para as mulheres, um para os homens, e um para os cegos. Enquanto os leprosos podem manter seus lares, eles compram o que precisam como qualquer outra pessoa e o governo lhes oferece um certo crédito. Algumas vezes temos pechinchas e então há uma verdadeira corrida em busca das coisas com preços baixos. Eles fazem compotas, geléias e picles. Nós fazemos todo o possível para que levem uma vida normal. O processo da desintegração varia muito. Já tivemos casos onde o paciente pode cuidar de si próprio por oito ou dez anos, e outros onde ele vai para o hospital em poucos meses. Não há meios de se saber.

Chegam cartas do mundo inteiro com perguntas sobre a doença, e temos que responder que sabemos muito pouco - não estamos sequer seguros de que seja contagiosa. Sua origem é obscura - falta de alimento e de limpeza a aceleram. A imoralidade não é causa direta nem indireta. O homem branco tem maior imunidade que outras raças, mas mesmo ele contrai a doença de alguma forma misteriosa. Hoje não temos cura para ela, mas nesta era da ciência, onde drogas miraculosas estão sendo descobertas certamente alguma panacéia surgirá em nosso caminho.

Quero que Timothy seja o primeiro a dar-lhes as boas-vindas. Ele é um dos poucos homens brancos e educados jamais trazidos até aqui. Ele completou o colegial sem nenhum sinal da doença, mas no segundo ano da faculdade não havia mais dúvidas e embora tivesse implorado para não ser enviado para cá - o que poderiam fazer as autoridades! Ele descreveu seus sentimentos no momento em que o avião o deixou na praia - não haveria mais retorno para a vida que ele conhecera - ele estava para sempre afastado das alegrias e lutas do homem comum. Sua porção era o Rio Styx, carregando as almas perdidas. Sua infelicidade me perseguiu durante muitos dias. Mas como vocês poderão ver, hoje ele é feliz. Ele é o predileto de minha esposa; ela lhe empresta livros e leva flores à loja onde ele trabalha. Espere até ver a absoluta eficiência em tudo, embora eu não saiba como ele consegue isso sem os dedos."

Timothy nos encontrou em sua loja e ficamos contemplando as prateleiras prodigiosas onde embalagens de aveia e maizena se alinhavam perfeitamente. Perguntamos-lhe quais os autores que preferia e prometemos mandar-lhe livros e revistas. Era evidente que ele havia aceitado seu destino, e nele encontrado imunidade. Eu podia perceber que o médico o amava. Elogiamos a loja e nos despedimos com um sorriso já que não podíamos apertar as mãos.

"Temos um missionário mormon aqui. Quero que você o conheça." Dirigimos ao longo da estrada até que encontramos um homem de barba e trajando um hábito marrom que o fazia parecer com um monge tirado de um livro de gravuras.

"O que o senhor está fazendo?", perguntamos ansiosamente.

"Oh, estou apenas construindo uma pequena cadeia; é para que essas pessoas sintam que são humanos e nada é tão humano quanto o pecado, como diz o poeta. Vim para este acampamento porque achei que um par de mãos seria útil, e parece que sim, não é doutor ?"

"Não sei como vivemos antes, sem você; você foi enviado por Deus e disso não há dúvida." Voltando-se para nós o médico disse: "Quando ele não está trabalhando, está nos fazendo rir ou então dando uma explicação sobre como abrir valetas."

Meu marido estava no banco da frente e eu me curvei para poder observar sua reação; a atmosfera lúgubre que estávamos esperando não era visível. Começamos a entender o espírito de sacrifício que impregnava aquela terra perdida.

O médico puxou o freio de mão, recostou-se e acendeu o cachimbo. Era evidente que tinha algo importante a nos dizer.

"Vou levá-los para conhecer Annie - ela é nossa Joana D'Arc. Mas, quero que ouçam sua história primeiro. Há apenas algumas regras férreas para a instituição, e a primeira é que nenhuma pessoa sã pode acompanhar um leproso e viver na Colônia. Todavia, se um homem ou mulher insistir nisso sua pena é viver aqui para o resto da vida, quer o paciente viva ou morra. Por não sabermos se a doença é ou não contagiosa não podemos correr o risco de mandar alguém de volta ao convívio da sociedade. Annie abriu mão da sua liberdade e ficou com o marido a quem amava. Por oito anos mantiveram seu lar, e ele parecia feliz e não sentia falta da vida e dos companheiros que deixara. Então Charles morreu e Annie teve que enfrentar a perspectiva de passar o resto da vida entre os leprosos."

Annie desceu correndo as escadas do hospital para os cegos, onde toda manhã lia para eles. "Puxa, como é bom ver gente do grande mundo, é realmente um feriado para a ilha." Fitando-nos com seus olhos castanhos, exclamou: "Vocês não podem imaginar o que isso significa para nós!"

"Annie, quero que você diga aos nossos visitantes o que fez para fazer de nós, velhotes antiquados, pessoas a par das novidades."

"Bem, durante muito tempo após a morte de Charles eu fiquei imaginando o que poderia fazer aqui pelo resto de minha vida. Minha mente percorreu as coisas que eu não poderia fazer - os céus sabem quantas elas eram! Eu precisava de uma inspiração e todas as noites orava pedindo por uma. De repente, uma idéia surgiu em minha mente - e se tivéssemos um cinema! Se pudéssemos ver o mundo dos vivos, o mundo que havíamos perdido. Assim que aquela idéia se alojou em minha mente não me deu mais sossego. Não tendo contraído a doença, eu poderia manusear os filmes sem problemas. Como poderíamos trazê-los através dos íngremes rochedos de Molokai?

Seria preciso uma cabra montesa para galgar aquele precipício! Uma cabra! Era isso o que precisávamos! Pedi ao Comissário para trazer-me um filhote. Um dia, ele chegou trazendo o cabritinho envolto em um pedaço de lona e iniciei a tarefa de treiná-lo. Durante todo um ano ele subiu até a metade do caminho, virou-se e desceu de volta. Eu adulei, xinguei, bati, mas tudo em vão. Um dia, ele saltou além da pedra de onde voltava e foi forçado a seguir até o topo. Nossos amigos da Administração estavam olhando de cima do rochedo mais alto e tinham preparado uma verdadeira festa. Um filme foi enrolado em sua barriga, e lá veio ele de volta como um herói retornando da guerra. Agora ele sobe correndo, vencendo os obstáculos que o separam do banquete que o espera.

Duas vezes por semana vivemos no grande mundo; um mundo que não podemos visitar, mas que vem até nós. Vemos como as mulheres da moda se vestem e os enfeites esquisitos que usam em seus chapéus. Trememos à vista dos altos edifícios de Nova Iorque, e perdemos o fôlego com os jardins de Hollywood. O romance cruza as águas, assim como os mistérios do crime. Vemos os soldados marchando, e crianças - adoramos crianças."

Ficamos perplexos diante daquela mulher que trocara a liberdade pelo amor; uma mulher que, sozinha, havia expulsado o isolamento e trazido o vasto mundo exterior para as areias negras de Molokai. Ela não era objeto de piedade, mas sim uma heroína que havia criado uma epopéia e que estava ali diante de todos nós como símbolo triunfante!

O médico apontou para uma construção baixa perto da praia; "é o nosso Teatro. Era uma construção praticamente em ruínas e que ninguém mais usava. O mormon, com a ajuda que pudemos fornecer-lhe, reparou-a e deu-lhe uma mão de tinta para deixá-la um pouco mais apresentável. Fizemos bancos com tábuas de um velho bote colocadas sobre barris vazios e aí está!"

O médico virou numa esquina; "eu estou no negócio de roupas - é um negócio paralelo, mas muito mais bem sucedido que a medicina, embora eu não diga isso aos outros médicos. Foi assim que acabei entrando nisso: as mulheres vestem as roupas listradas fornecidas pela instituição, e simplesmente as odeiam. Quando elas vão à igreja ou ao cinema, não têm o que vestir. Tenho um amigo que é dono de um armazém e ao final de cada estação ele me manda os vestidos que não conseguiu vender. Como nossas pacientes não têm dinheiro, pagam com trabalho - uma hora pelo algodão, duas pelos babados e até mais que isso por um vestido com laços e fitas!"

Lá na janela estavam as bandeiras da vaidade, com seus enfeites e cores alegres. Até ali Eva era tentada.

Estava na hora de eu visitar o hospital das mulheres, de modo que o médico e meu marido aproveitaram para fumar e me deixaram na entrada do Convento esperando a freira que deveria me acompanhar. Esperei com o coração leve, assimilando os valores tão rapidamente impostos na minha própria consciência. Refleti sobre os vestidos e seus babados, comprados com tanto trabalho, com aquele esforço desesperado de algumas pessoas tentando fazer a vida mais suportável, com o sacrifício transformado em um paramento protetor lançado sobre seus ombros e os fragmentos da natureza humana espalhados como pedaços de naufrágios nas areias Molokai.

Fui tirada de minhas reflexões por uma visão na porta. Era uma jovem, trajando o hábito e a coifa da Ordem, feitos para reduzir jovens e velhas a um dominador comum; mas, nada podia esconder as feições perfeitas, a pele sedosa, os profundos olhos azuis e as covinhas do rosto. Deixei escapar meus pensamentos:

"O que traz você aqui em sua juventude, para sepultar-se nesta morada da dor?"

Ela olhou para além de mim e as covinhas desapareceram. "Porque veio a mim o conhecimento de que do outro lado do sacrifício está a felicidade." Ela sorriu e as covinhas voltaram ao rosto.

"Sou a Irmã Cecille e estou encarregada do hospital. Antes de entrarmos nas dependências quero dizer-lhe o que a espera. Minhas infelizes imploram para vê-la devido sua bondade para com seus filhos, mas muitas oferecem uma visão terrível. Se medo ou repulsa aparecerem em seu rosto, a cruz que carregam terá se tornado mais pesada por você ter vindo. Terá condições de ocultar seus sentimentos? Não é fácil, especialmente porque não temos tempo de ensaiar. Haverá apenas esta vez e poderá ser um fracasso ou um sucesso."

Era um momento sério e eu não estava segura de poder controlar a situação. Olhando para o rosto sereno da freira tomei coragem; "bem, se você pode oferecer toda sua vida a este sacrifício, certamente eu devo ser capaz de contribuir com uma hora da minha."

Entramos. Os anjos devem ter ficado ao nosso lado porque sem ajuda eu teria caído ao chão e coberto meus olhos. As mulheres estavam no estágio terminal da doença, e a carne simplesmente derretia de seus ossos. Elas se amontoaram a minha volta, espremendo-se contra mim, ansiosas por notícias de seus filhos. Olhavam para meu rosto pelas respostas às perguntas que não tinham formulado. Ali ficamos, a freira, as moribundas, e eu, formando uma massa compacta. O primeiro mergulho tinha sido pavoroso mas depois soube que não tinha demonstrado medo algum, e essa conquista fez da visita o que a freira esperava, e quando saímos de volta ao sol a Irmã Cecille apertou-me o braço, dizendo-me; "Foi um milagre de nosso Senhor."

Dei um afetuoso adeus àquela santa adorável que me havia mostrado um vislumbre de seu halo através do sacrifício, um vislumbre que jamais eu perderia.

A esposa do médico levou-me de volta a sua casa. Enquanto tomávamos o chá ela falou de suas próprias reações à vida na Colônia.

"Logo que aqui chegamos pensei que fosse morrer! Meu marido tinha esperado durante anos por uma oportunidade de estudar a lepra, de modo que soube desde logo que deveríamos ficar aqui. Cerrei meus dentes e comecei um jardim; primeiro, eram legumes, e depois vieram as flores. Quando não havia mais terra para revolver, comprei tinta em Honolulu e pintei a casa por dentro e por fora. Saímos de férias naquele Verão, e quando girei a chave na fechadura da porta de entrada soube que aquele era o meu lar."

"Acredito que compreendo sua parte na grande quantidade de sacrifícios da ilha."

Ali, verdadeiramente, estava o espírito indomável do homem. Aquele espírito que levara o Padre Damien a dedicar sua vida aos leprosos; que trouxera o Irmão Ambroise para desfraldar sua bandeira naquelas praias; que compelira Mãe Julianna e suas freiras a caminhar numa interminável procissão de misericórdia.

Dentre os valores permanentes da vida está o ímpeto que nos faz erguer o irmão quando ele tomba e assim fiamos a Regra de Ouro no tecido de nossas vidas. Necessitamos do brilho, da alegria das coisas efêmeras, mas isso não constrói as verdades eternas.

Não dissemos uma só palavra durante o vôo de volta.

Embora nos anos seguintes tenhamos visitado muitas terras e em cada uma encontrado o que admirar, ainda assim, olhando para aquele dia memorável acreditamos que se existe lugar onde o Céu se curva e toca a Terra, é nas areias negras de Molokai, ali na Colônia de Leprosos.

17. EXPLORANDO CAMBRIDGE E LONDRES

A Assembléia Espiritual Nacional pediu-me que, enquanto eu estivesse na Inglaterra, negociasse a compra do livro "Narrativa de um Viajante" de autoria do Prof. E. G. Browne. Pelo catálogo da Editora de Cambridge para o ano de 1929 eles souberam que estava disponível no mercado. Assim, logo que cheguei a Londres enviei uma carta ao presidente da Editora de Cambridge solicitando uma entrevista. Sua pronta resposta foi um convite para ir a Cambridge, e lá fui eu para a famosa universidade cuja importância remontava ao século XII. Subi a magnífica escadaria tremendo por dentro, pois não estava familiarizada com as formalidades que a reunião envolvia. As salas de cada lado do hall principal estavam ocupadas por impressoras de cedro, cuidadosamente rotuladas, mas antes que eu pudesse fazer um giro de inspeção mais adequado, a porta se abriu e a Cultura Britânica, em carne e osso, estava a minha frente. Não me recordo seu nome, um fato que demonstra como se pode ser descuidado em preencher os escaninhos da memória, retendo informações de caráter não essencial e lembrando de coisas inúteis. Lembro-me, isso sim, de seus sapatos com cobertura de tecido e pontas finas, e isso nada tinha a ver com a entrevista. Ele começou a iniciar-me na história da impressão e no papel importante que Cambridge havia desempenhado no crescimento cultural da Inglaterra. Consegui encaixar uma pergunta - tinha ele conhecido bem o Prof. Browne?

"Oh, sim eu o conheci bem; uma das mentes mais brilhantes de nossos dias. No fim da vida sua mente ficou prejudicada devido à moléstia que o acabaria matando. Uma pena, acrescentou tristemente, que aquela mente notável tivesse se perdido no estudo de um culto oriental ambíguo e sem importância."

Não pude resistir e retrucar que a fama do Prof. Browne ou da própria Universidade de Cambridge se baseariam, no futuro, no fato de que a religião bahá'í tinha sido primeiramente investigada e trazida ao público ocidental por um dos membros daquela Instituição. Ele descartou a opinião de uma rude americana com um aceno polido de sua mão bem feita, e prosseguiu, por um caminho alternativo, para falar das caixas-fortes que guardam os livros publicados. "Estas caixas-fortes", disse ele, "são especialmente construídas, à prova de fogo e de roubo; são protegidas contra assaltos da Terra ou do Céu e no entanto (aqui ele fez uma pausa), exatamente as placas desse livro estão desaparecidas do cofre! O desaparecimento é um caso único nos anais da impressão. Desde o princípio da Universidade uma coisa como essa jamais ocorreu. Como foi acontecer isso, ninguém sabe! Um livro publicado mas sem as placas não pode ser conservado aqui".

Eu estava procurando ansiosamente por um momento onde introduzir a questão do preço, já que era para isso que eu tinha vindo, mas naquela atmosfera rarefeita era difícil formular a questão sobre aquele volume errante. Finalmente eu disse: "Quanto dinheiro isso envolverá?"

Ele pareceu surpreso, embaraçado pela palavra dinheiro, tão crua, tão americana! Todavia, preservou sua dignidade e respondeu-me friamente: "Não estamos vendendo o livro - sem as placas corretas ele é inútil para nós - nosso agente, segundo fui informado, mencionou cem dólares apenas para cobrir as despesas com embalagem e seguro".

Como são estranhos os caminhos da Providência! Quão sutis os meios pelos quais os homens são forçados a abandonar velhas tradições no Dia de Deus! Voltei a Londres com um recibo assinado em meu bolso referente a um livro que dinheiro nenhum podia comprar - nenhum assaltante podia roubar! Um volume que doravante e para sempre pertenceria aos bahá'ís.

Tendo rompido com sucesso as muralhas da cultura na Universidade de Cambridge, comecei a perambular pelos museus de Londres à procura da Epístola que Bahá'u'lláh tinha enviado à Rainha Victória. Na pessoa do Curador do Museu Britânico encontrei um anjo sem asas que compartilhou de minha busca de corpo e alma. Levou-me imediatamente para ver uma caixa contendo uma Epístola de 'Abdu'l-Bahá escrita com tinta dourada em pergaminho delicadamente filetado em azul claro nas bordas das duas páginas. Havia sido escrita para um persa que vivera em Londres há alguns anos, e não estava acompanhada de tradução. Quando nada mais surgiu, o Curador escreveu uma carta ao Mestre dos Manuscritos de Windsor e despachou-me. Prometeu procurar nos armários trancados do Museu enquanto eu estivesse ausente, na busca de tesouros bahá'ís.

Fui para Windsor, onde pulei de um para outro funcionário do Castelo, até que finalmente fiquei sabendo que o Curador tinha ido a Londres por algumas horas, mas estaria de volta logo após o almoço. Passei uma manhã encantadora entre os esplendores do passado, sentindo no ar as antigas glórias. O Curador retornou, leu a carta, e pediu chá chinês com sanduíches de agrião e na pérgula de rosas, durante aquele delicado repasto, ele disse-me o que achava ter acontecido com os tesouros orientais ofertados à Rainha Victória. Numerosos presentes e cartas tinham chegado dos potentados orientais e para preservá-los Victória tinha ordenado que fossem confeccionados baús de cedro, ornamentados com arabescos de ferro e com cadeados medievais. Quando Eduardo VII subiu ao trono, mandou que os baús fossem transportados para o Castelo de Balmoral, na Escócia. Se tinha havido alguma mudança desde a Primeira Guerra Mundial, ele não sabia. Céus, eu não podia ir até a Escócia atrás de suas suposições. Pelo menos havia uma probabilidade para ser lembrada. Na segunda-feira pela manhã voltei ao Museu Britânico. Ninguém que se aproxime daquele formidável edifício, com sua fachada jônica - a sala circular para leitura com cerca de cinqüenta metros e capaz de abrigar trezentas pessoas; seu domo de quase sessenta metros; o grande quadrilátero - pensaria em dar o adjetivo familiar àquilo; no entanto, o efeito da bondade e interesse de uma pessoa foi o que realmente criou essa ilusão acalentadora quando entrei e bati à porta do escritório particular do Curador. Ele atendeu, e com um sorriso aberto disse: "venha, eu encontrei algo importante".

Ele conduziu-me pelo corredor até uma pequena porta, que abriu com uma enorme chave pendente de um aro metálico. Ao entrarmos ele fechou a porta e passou a chave; em seguida abriu o armário, e colocou sobre a mesa "A Epístola das Estrelas", do Báb. Eu sabia que não poderia ter o original; na verdade eu nem ousava tocar o papel sobre o qual a mão do Báb havia repousado. Estávamos ambos em silêncio, e então perguntei se poderia fotografá-lo e ficar com a cópia? "Certamente, com as testemunhas adequadas isso pode ser feito."

O fotógrafo do Museu foi chamado. Seus preparativos para o evento foram quase tão elaborados quanto os da coroação na Abadia de Westminster. Durante as horas em que tive que esperar, rezei por um americano rápido e ágil! O fotógrafo aparecia, depois desaparecia por longos períodos de tempo, e então reaparecia, ajustava a máquina, e tornava a desaparecer.

Depois de quatro horas de suspense, manquitolei de volta ao Hotel Grosvenor segurando firmemente a preciosa réplica. Escrevi imediatamente para Shoghi Effendi enviando-lhe a cópia e ele respondeu que era necessário enviá-la à Pérsia para se assegurar de sua autenticidade, visto que muitos manuscritos haviam sido copiados pelos seguidores de Yahyá, um inimigo da Fé. Nada mais ouvi sobre o assunto. Sabia que aquilo levaria tempo. Mas, em 1944 quando o Comitê do Centenário fez suas últimas inspeções antes de abrir a Convenção Nacional no Templo Bahá'í de Wilmette, cruzamos o hall da Fundação para admirar os tesouros que o Guardião nos havia enviado. Na parede central estava a Epístola das Estrelas, lindamente emoldurada. Era então, a verdadeira Epístola do Báb! Sua vista encheu-me de alegria e felicidade! Quanto eu devo ao Curador, que com tanto esforço e trabalho garantiu-nos aquela jóia preciosa.

18. NO VALE DAS SOMBRAS

Certa manhã de Novembro de 1929 fui atacada por uma estranha dor no peito, e fui para a cama. Daquele repouso casual só fui me levantar quando Fevereiro estava quase terminando. Rapidamente desenvolvi a pneumonia - o fatal tipo três. E ainda não havia sido descoberto o soro para combater seu veneno. Cada respiração que eu dava era uma verdadeira batalha contra aquela sufocação sem fim. Minha cabeça ficava dentro de uma tenda de oxigênio e o tempo passava em agonia. Muitas noites o Dr. Wheelwright que era nosso médico, passou à minha cabeceira; outros médicos foram consultados, porém, diariamente a doença progredia e minha resistência diminuía. Era evidente que nada mais podia ser feito e a família foi avisada de que eu morreria em breve. Minha filha, Wanden, ao ouvir aquele duro veredicto telegrafou ao Guardião pedindo por orações. O Guardião respondeu que o trabalho de sua mãe ainda não está terminado e ela viverá para completá-lo. Em Março, abri os olhos para um mundo familiar ainda que estranho. Eu já podia respirar novamente e sem agonia, mas não podia me mover. Não conseguia nem virar a cabeça. Uma fraqueza imensa havia tomado conta do meu corpo. O Dr. Wheelwright, que antes não acreditava em milagres, agora estava vendo um com seus próprios olhos. Ele não entendia que as preces de Shoghi Effendi haviam trazido a vida de volta, mas dizia repetidas vezes que nada em sua carreira médica o havia preparado para minha recuperação. Muito gentilmente ele disse que nunca mais eu poderia morar à beira-mar. Nada mais de Nova Iorque, nem Itália. Eu deveria refazer minha vida nas Montanhas Rochosas, no Colorado. Era também provável, disse ele, que eu não conseguisse mais falar alto novamente. Mas, ele não havia lido a carta de 'Abdu'l-Bahá dizendo que eu "deveria rugir através dos sete mares".

O destino é algo à parte do conhecimento, é uma dimensão que não está nos livros, mas que desce sobre nós na medida em que assim o deseja o Ser Supremo, e homem algum o conhece.

Como a família do Robinson Suíço, começou a mudança: os bens de família, os livros, a mobília, e as panelas foram embalados e despachados para Colorado Springs, o lugar desconhecido de nossa futura vida.

Assim que pude me levantar e dar alguns passos fomos para o Oeste. Numa noite estrelada olhamos para fora e lá estava o Mississipi correndo preguiçosamente, aquele poderoso rio que divide e novamente une a terra; o trem estava nos levando sobre as águas escuras para os portais do Oeste. Colorado Springs nos recebeu friamente. Estava nevando, estava ventando e era um lugar desolado; nuvens baixas ocultavam as montanhas, e nos primeiros dias senti-me mais como se estivesse cumprindo uma sentença na prisão do que renovando minha vida. Mas, o poder do ar do Colorado, aquela grande e seca altitude que enche o corpo de saúde, logo trouxe uma mudança incrível. Uma energia que tudo invadia, começou a fluir através de mim e me trouxe de volta à atividade.

Como os altos pontos para vistas panorâmicas eram desconhecidos, concordamos com qualquer sugestão que o motorista tivesse, e foi por puro acidente, que numa luminosa manhã ele nos levou a Pine Valley. É um pequeno espaço nivelado rodeado de pequenos platôs achatados, e fechado por montanhas em sua extremidade mais distante. Não é de modo algum um lugar espetacular, nem mais bonito que muitos outros vales, mas fez com que nossos corações batessem mais forte; ele tem uma qualidade de sonho que alguém sente somente quando volta às cenas de sua infância. Senti que estava abrindo uma porta, da qual eu havia guardado a chave toda minha vida. Compramos um pequeno pedaço de terra, e não estando certos de que ali seria uma morada permanente, encomendamos uma casa pré-fabricada no Leste. A casa chegou preparada por seções bem organizadas; a porta dianteira tinha até aldrava; as venezianas foram fixadas às janelas, e parecia que tudo era o cenário de um palco, e ao cabo de uma semana estava pronta! Havia um teto acima, assoalho sob os pés, portas que fechavam e abriam, e armários com ganchos. Entramos, e nos sentamos em nossa casa! Mas, éramos novatos, amadores, e os nativos do lugar abanaram as cabeças; "Não vai durar mais que um inverno", disseram eles.

Não estávamos contando com as rajadas e tempestades de inverno que arrancavam as rochas do chão.

"Vocês vão encontrar apenas um monte de ruínas quando voltarem na Primavera", disseram os mais prudentes. "Isto aqui é um faz-de-conta, e não uma casa de verdade que serve para homens e animais." "Bem, lá estávamos nós! Ela estava em pé! E estava paga! Por que não fomos indagar! Nenhuma daquelas reflexões resolveu nosso problema. Consultamos nosso sábio Roy que falou com dois pedreiros, e se eles não pudessem ajudar, disse, ninguém mais poderia. Sentamo-nos e olhamos para a morada tão airosamente fincada na colina. Vamos primeiramente ler as instruções que vieram com a casa! Assim fizemos, e descobrimos que nenhum peso de espécie alguma podia ser colocado sobre a casa. Em face desses enigmas desafiadores, tomamos uma decisão. Decidimos enclausurar a casa com tijolos, deixando um espaço de cerca de um centímetro entre eles e as tábuas, colocando-os em um alicerce próprio e cimentando-os à construção principal; Muito prático, concordaram os três homens, e puseram-se a trabalhar.

A cada dia os tijolos aumentavam ao redor das tábuas e subiam mais alto. Pesadas colunas de ferro trabalhado foram acrescentadas para sustentar o forro, e logo uma sólida estrutura de tijolos e ferro opôs-se aos elementos. Os ventos e tempestades do futuro não traziam mais temores à "Temeridade", nome que havíamos dado ao lugar como símbolo da coragem necessária para nos tornarmo-nos cidadãos das terras selvagens.

Parte III
INICIANDO MINHAS VIAGENS
19. MARTHA ROOT

Tendo me restabelecido, escrevi ao Guardião perguntando-lhe se havia algum país em especial que ele gostaria que eu visitasse. Ele respondeu que era de fundamental importância visitar a América Central e do Sul. Ninguém mais havia estado lá desde a jornada de Martha Root em 1919. Nossos contemporâneos não consideravam aquelas terras como estando na rota das viagens, de modo que a princípio meu marido considerou o projeto duvidoso. Mas, assim que ele se sentou com os mapas e roteiros tudo mudou de figura. Decidi ver Martha Root por sentir que a viagem dependeria de seus conselhos.

Assim que cheguei a Nova Iorque dirigi-me, através de vento e neve, ao Hotel Martha Washington onde a encontrei em um cubículo - pois aquilo não poderia ser chamado de quarto. Martha estava cercada de sacolas e embrulhos em preparação para sua próxima visita à Europa. Que calma ela era! Senti-me como um pequeno bote diante de um transatlântico - quisera eu ter aquele equilíbrio magnífico! Ela traçou um panorama de como a idéia de ir à América do Sul tinha surgido em sua mente. Ela tinha uma certa quantia de dinheiro deixada pelo pai, e em suas preces sempre se via naquela terra distante. A visão era tão persistente que decidiu escrever para 'Abdu'1-Bahá, e ele respondeu, "Vá para a América do Sul". Ela partiu a 22 de Julho, que é o meio do inverno nas terras abaixo de nós.

Naquela época tínhamos apenas um pequeno panfleto escrito em espanhol, e armada com a Palavra Poderosa ela visitou muitas cidades da América Latina. Ela descreveu sua viagem, cavalgando no lombo de uma mula, pelas alturas dos Andes em companhia de outros viajantes. Galgaram os picos estonteantes, e no alto passaram através de um túnel tão escuro que assustava até as mulas, que se mostravam indóceis e escorregavam dentro daquele negro buraco. A descida era ainda mais perigosa e foram obrigados a desmontar e caminhar pela borda do precipício. Todo tempo Martha foi repetindo o Supremo Nome de Deus, pedindo bênçãos para aquela região bravia. (O passo pelo qual Martha viajou foi fechado por uma avalanche pouco depois e até agora - 1951 - não foi reaberto).

Martha mostrou-se encantada por eu estar indo para lá - deu-me endereços e como régio presente uma Epístola de 'Abdu'1-Bahá escrita para os pesquisadores e enviada à América do Sul. (Essa Epístola está agora nos Arquivos Nacionais Bahá'ís em Wilmette). Tomando-me pelo braço, caminhou comigo até o elevador e lembrou-me que cada minuto pertence a Deus, e não um minuto aqui e outro ali. A América do Sul tinha sido o primeiro passo de Martha em seus anos de serviço para a Fé. Quando faleceu em Honolulu, em 1939, o Guardião declarou-a "Mão da Causa". Era a primeira americana a preencher tão elevado grau.

20. INDO PARA O SUL

Embarcamos no Santa Lúcia, com escala inicial no Panamá. Cruzando as comportas, meus pensamentos não eram para os engenheiros que haviam construído o canal, mas para os dois médicos que acreditando ser a febre amarela transmitida por um certo tipo de mosquito, aceitaram ser picados por eles. O Dr. Lazeard morrera, e o Dr. Carroll estava inválido para o resto da vida, mas seu sacrifício tinha tornado possível a construção do Canal do Panamá.

A cidade é fascinante, e os dez dias que ali passamos, simplesmente voaram. A costa oeste da América do Sul é árida devido às idiossincrasias da Corrente de Humboldt e há somente uma cidade de porte - Lima, no Peru. Aqui a civilização inça havia sido varrida pelo conquistador espanhol, seguida do nascimento de uma moderna cidade - eu sentia em meus ossos que era um bom presságio para o estabelecimento da Fé, como ficou confirmado.

Valparaiso era tão fria quanto Nova Iorque e estávamos gratos pelo abrigo de um modesto hotel. Verificamos as condições da cidade, já levando em consideração a vinda de outros pioneiros, e certo dia de muita ventania fomos até Vina Del Mar. Embora a distância entre Valparaiso e Santiago seja pequena, o mar pode estar a centenas de quilômetros. A cidade de Santiago é cercada por montanhas imponentes e o por do sol lança cores vivas nas encostas geladas dos Andes. O azul e a púrpura, com traços cor de rosa, faziam as montanhas brilhar como imensos arco-íris. As nuvens, ao passar sobre os picos das montanhas, refletiam a luz como espelhos. É uma das vistas mais espetaculares do mundo.

Fomos diretamente à Associação Cristã de Moças e pedimos permissão para dar uma palestra bahá'í. Os encarregados não podiam ter sido mais cordiais; eles próprios emitiram os convites e providenciaram todos os detalhes, de modo que ao chegarmos na tarde seguinte o salão estava lotado. Entre os presentes, estavam os diretores do Hospital e Clínica Sweet Memorial, o pessoal da Associação Cristã de Moços de Valparaiso, o presidente da universidade e quatro ministros. O Sr. Mathews abriu a reunião com a leitura de uma citação da "Promulgation of Universal Peace", que diz "As Divinas Manifestações desde os dias de Adão têm se esforçado para unir a humanidade, a fim de que todos os homens pudessem ser considerados como uma só alma". Quando ele fechou o livro, um dos ministros pediu-lhe que lesse novamente aquela passagem. Aquele pedido feliz e inesperado foi a nota chave daquela tarde. Eu falei sobre "Ampliando nosso Horizontes" e a palestra foi seguida de uma discussão amigável e muitas perguntas. Quando escureceu saímos para a rua. Havíamos descoberto um restaurante discreto, onde o "chef" nos serviu um ragu de galinha, arroz, rodelas de ovo e cebolas, tudo coberto com purê de batata gratinado. Trouxemos a receita para casa e ela se tornou uma das favoritas na Escola Internacional, onde foi batizada de "prato Chileno".

Um Sr. Stone, da Agência de Viagens Cook, havia estado na audiência na Associação. Seu domínio do espanhol era perfeito e combinamos que ele leria um capítulo do "Bahá'u'lláh e A Nova Era" na sociedade literária que ele havia formado. Durante os cinco meses antes que fosse transferido para São Paulo ele seguiu religiosamente aquele programa.

Como Martha Root não havia ensinado em Santiago creio que o meu endereço bahá'í foi o primeiro de lá. Francês Stewart estava entre as primeiras instrutoras enviadas ao Chile. Suas palestras eram altamente apreciadas pêlos funcionários do governo, tanto assim que pediram-lhe para transmitir através do rádio, para a Europa e América, as notícias sobre o catastrófico terremoto que havia atingido a cidade de Concepción.

21. OS LAGOS DO CHILE

Já estávamos olhando os Andes através das lentes coloridas de Santiago por muitos dias, e sentimos que era chegada a hora de continuarmos nossa jornada. Mas, a questão era, como deveríamos ir? Martha havia viajado através dos desfiladeiros das altas montanhas e nos sentimos impelidos a escolher outra rota. Após muita discussão decidimos nos arriscar cruzando os Lagos, embora os ventos do inverno estivessem ficando mais fortes e o tenebroso frio antártico começasse a cobrir as terras. O início de nossa viagem parecia propício, e os desafios a nossa frente ainda estavam ocultos aos nossos olhos. Tomamos um trem até Osorno e na estação conseguimos encontrar um velho táxi. O motorista poderia nos levar até Ensenada? Ele sacudiu os ombros, abriu as mãos em um típico gesto de desconsolo e foi dar partida no carro. Não havia estrada, mas apenas sulcos atravessando campos de lava, e lava é uma substância sobre a qual não se anda descuidadamente. O carro escorregava, virava para frente e para trás e para os lados continuamente durante todas as quatro horas e meia de uma travessia cheia de curva e enjôos. Finalmente, avistamos as luzes hospitaleiras da Ensenada às margens do Lago Llanquihue, e só os céus sabem como nos pareceram abençoadas! Havia apenas uma cabana no local, em meio a um verdadeiro mar de folhas gotejantes. A cabana servia como uma pousada e fomos instalados em um canto de um quarto tão austero quanto a cela de vim monge trapista; as camas eram feitas de toras, sem travesseiros nem colchões ou lençóis - apenas cobertores de lã vermelha; não havia mobiliário, apenas uma bacia de lata e uma bilha de água. O Sr. Mathews, ansioso por um pouco de ar fresco, tentou abrir a janela mas ela estava firmemente pregada como proteção contra o mundo exterior.

"Shoghi Effendi por acaso nos disse para vir aqui?", exclamou Matt irritadamente.

"Não, ele simplesmente deixou os planos a nosso critério, acreditando que teríamos bom-senso e que éramos adultos."

"Oh!", disse Matt enquanto batia em rápida retirada. Quando entrei na sala de estar, deparei com ele falando em alemão com nosso anfitrião, provando do seu melhor queijo, além de estar com o melhor humor.

Havia apenas mais um casal na Pousada, o Sr. e Sra. de Burmuilt que tinham vindo fazer a auditoria dos livros ao final da estação. Quando a senhora não conseguiu mais conter sua curiosidade perguntou-me por que estava eu naquele desolado posto da civilização e para onde me dirigia. Animadamente dei-lhe minhas razões. "Um Profeta viera à Terra e era preciso que sua Nova Mensagem fosse difundida e contada a cada pessoa". Ela me ouviu com atenção concentrada e depois de uma cuidadosa pausa disse: "Minha cara senhora, tudo neste mundo tem uma orientação superior: A Igreja Católica tem o Papa, a Inglesa tem seu Arcebispo, cada país tem seu governante - é uma lei - por acaso em sua religião vocês têm tal líder?"

"Sim," respondi, "temos um Guardião que foi indicado e legado a nós pelo Intérprete do Profeta".

Ela me olhou incisivamente e curvando-se em direção a seu marido disse: "Ouça, Gustavo você sabia que o mundo tem um Guardião - alguém que está destinado a guiar a humanidade e trazer uma Nova Ordem?"

"Graças sejam dadas a Deus por isso - de que outro modo seríamos libertados do caos e desespero dos dias de hoje - um Guardião é o único que nos pode guiar." Ele aproximou sua cadeira da minha e começou a fazer perguntas profundas, perguntas típicas da mente alemã. "Os termos usados - o que significam? O que quer dizer Báb?" "Significa 'A Porta' e sua vinda foi predita por Daniel", respondi. "O Báb proclamou sua própria posição com estas palavras maravilhosas: 'Eu sou o Santuário Místico, erguido pelas mãos do Todo Poderoso'". Ele escreveu aquilo nas costas de um envelope.

"E o que significa o título Bahá'u'lláh?"

"Significa - A Glória de Deus". Seu rosto se iluminou; havia algo naquele Nome que parecera haver despertado todo o seu ser.

Continuamos a conversar noite a dentro, e eles contaram-me um pouco de suas vidas. Após a Primeira Grande Guerra eles decidiram deixar a Alemanha e estabeleceram-se onde seus filhos pudessem ficar longe da guerra e do ódio. Chegaram ao Chile e compraram uma casinha em Porto Varas. Muitos dos vizinhos eram alemães e fundaram um clube chamado "Estudo do Pensamento Liberal". Eles acreditavam que aquele grupo os seguiria na adoção da Fé Bahá'í. Dentre meus panfletos estava a "Meta para a Nova Ordem Mundial". Dei-o a eles, e inflamada de entusiasmo por aquele maravilhoso tratado de fé a senhora começou imediatamente a traduzi-lo para o espanhol. Levou muitas horas para terminar, mas finalmente tínhamos ali, exceto por um panfleto anterior, a primeira tradução dos escritos bahá'ís em espanhol. Durante seis anos aquele dedicado casal trabalhou em prol da Fé, como pioneiros entre seus amigos. Mas, em 1939 Hitler os alcançou através do oceano e levou-lhes os dois filhos, e no ano seguinte levou também a filha.

Finalmente, recebi um bilhete escrito por mão estranha dizendo que estavam em perigo, que sua correspondência havia sido censurada e que seria mais prudente se eu não escrevesse mais. Nunca mais ouvi falar deles. Porém eles surgiram na aurora da história da Fé Bahá'í na América do Sul e aceitaram a Fé depois de investigá-la até o âmago. Foram os primeiros a traduzir as Palavras e sua memória pertence aos anais dos primeiros pioneiros.

Na manhã seguinte meu marido revirou a Pousada à procura de um roteiro dos barcos que cruzavam o Lago Llanquihue, e nada encontrando pediu ajuda ao hospedeiro.

"O barco parte" foi sua filosófica resposta, "quando decide vir, como uma ave quando cansa de se esconder, havia época em que chegava duas vezes por semana, mas ultimamente uma vez tem sido nossa quota. Sirenes poderosas nos avisam da sua chegada e lá vamos todos ao ancoradouro".

Os Burmuilts e eu tínhamos mais alguns preciosos dias para falar sobre a Fé e ler juntos. Então, certa manhã o silêncio foi quebrado por três violentos toques de sirene e em um segundo a Pousada estava um pandemônios! Subir a bordo de um navio era fácil em comparação.

O Sr. e a Sra. Burmiult insistiram em nos acompanhar até o ancoradouro, e a Sra. Burmuilt e eu nos sentamos na frente junto com o motorista e nossos maridos no banco de trás. À frente vi uma cachoeira e fiquei pensando de que maneira iríamos evitá-la quando subitamente o motorista acelerou o carro e a cascata caiu sobre nós. Descemos, sacudimos a água das roupas, secamos os bancos e abrimos uma toalha seca sobre eles. Rindo e fazendo de conta que o incidente era uma bobagem voltamos para o carro e eu pensei comigo, bem - é isso aí! Mas, eis que meu horror cresceu violentamente quando, em uma curva da estrada, outra catarata ainda mais alarmante que a primeira surgiu à frente. O motorista pisou no acelerador e mergulhamos na água - mas dessa vez ninguém disse nada e nem descemos do carro. Pingando água, sobrevivemos até outra torrente que caia das rochas acima. O sacrifício que os Burmuilt estavam fazendo para nos ver partir incluía o mergulho em seis cachoeiras diferentes - três na ida e três na volta!

Subimos no firme barco, feito de pranchas envernizadas de piche; bufando vapor e espadanando água por todos os lados o barco tomou o rumo do Lago. Nossos amigos ficaram na margem, acenando e pedindo bênçãos para nossa viagem. À medida que iam ficando menores na distância, mais pesado ficava meu coração, por encontrar amigos na Fé e perdê-los tão depressa. Invejo o gato com suas nove vidas - uma só é muito pouco para conter as lembranças, as emoções e mudanças com as quais é povoada; elas são acuadas em um canto da mente, ao invés de terem espaço para manter suas verdadeiras proporções.

O Lago de Todos os Santos era um protótipo de todos os lagos que havíamos cruzado. Arvores abundavam nas praias e soltavam suas folhas na água - não havia sinais de habitação humana, não havia som algum exceto o marulhar das ondas - havia a praia sem marcas, e acima as montanhas invictas e cobertas de gelo, liberando milhares de cascatas das geleiras e jogando-as nos lagos; a própria luz jorrava como se fosse uma torrente viva. O quadro que se nos deparava poderia ser descrito como a "Criação". A cada dia o vento se tornava pior, as praias tomavam cores de inverno e agora nos aproximávamos do último dos lagos da cadeia, Nahuel Huapi.

É o maior de todos, e em suas extremidades fica Bariloche, como uma jóia de esmalte verde. A travessia desse lago foi aterrorizante - o pequeno barco estremecia sob o impacto do vento e das ondas. Navegamos peno da praia tentando evitar o pior dos elementos. Cada pedaço do barco estava coberto de espuma e desistimos de tentar evitar a água que caia sobre nós continuadamente. Sentamo-nos resignadamente e indiferentes ao desconforto, rezando apenas para atingirmos terra. Quando as luzes de Bariloche foram avistadas piscando através da neblina, um grito de alegria surgiu dentre os passageiros. Nunca me esquecerei da bondade da dona da Hospedaria, que nos colocou na cama, deu-me bebidas quentes e mantas de lã para afugentar os tremores de frio.

Uma vez por semana um trem fazia o percurso entre Buenos Aires e Bariloche, chegando na quarta e saindo no sábado e era um centro de diversão social. Mulheres com xales e saias de colorido vivo chegavam dos distritos ao redor, com os braços cheios de flores para decorar o interior dos vagões. Crianças subiam na máquina, polindo o já reluzente cromo e latão.

No domingo, a plataforma assumiu o ar de festa, e havia brilho por todo lado, e embora não conhecêssemos ninguém recebemos uma carinhosa despedida! As mulheres acenavam, as crianças inundavam beijos, a banda tocava animadamente, e a longa viagem de dois dias e meio começou num estado de espírito brincalhão. No trem conhecemos a família Lavorello, mãe e duas filhas, que nos iniciaram no consumo da bebida local, o chá mate.

As meninas curiosas sobre minhas mensagens religiosas, ficaram interessadas até um certo ponto, mas não o suficiente para contrariar família e prestígio social. Os pampas cobertos de cereais ondulantes se sucediam quilometro após quilometro, e as plantações cresciam tão alto que às vezes o gado ficava escondido da vista. Algumas vezes passamos por feixes de cereais queimando - havia mais do que se podia consumir ou vender. Assim cruzamos o país que tem o maior pasto em todo o mundo em direção à capital da Argentina, Buenos Aires.

22. ARGENTINA

Chovia em Buenos Aires, e arrisquei-me a ficar ensopada para poder apresentar as cartas que havia trazido comigo. Minha saída foi infrutífera pois ninguém estava na cidade. Fiquei sem saber o que fazer a seguir, dando-me conta de que não havia naquela grande cidade uma única pessoa a quem eu pudesse apelar. Voltei-me então para o poder da oração. Eu já havia dependido da oração antes, mas olhando para trás, vi que havia nutrido outros meios de atingir meus objetivos - havia outras lealdades que puderam ser dirigidas em minha ajuda. Era minha primeira experiência na dependência total de oração. Parecia estranho que eu tivesse viajado todo o caminho até a América do Sul para descobrir uma simples lei espiritual, mas era assim mesmo! Deixei de escutar a chuva. Fechei minha mente contra todo outro tipo de pensamento e orei com todas as minhas forças para que Deus não permitisse que eu deixasse a Argentina antes de ter entregue a mensagem de Bahá'u'lláh.

A chuva continuava a bater contra a vidraça e eu a bombardear os portões do Céu. No segundo dia tive o pressentimento de que uma resposta estava próxima. Quando uma prece é respondida, não é por medida rasa, não por um traço de boa sorte, mas por um derramar de bênçãos como que saídas de uma cornucópia . Na opulência de sua natureza, ela suplanta todas as formas de generosidade. Na tarde do segundo dia um grande envelope foi passado por baixo de minha porta. Era um pedido do Clube das Senhoras Americanas para dar uma palestra sobre o Drama Moderno! Era o meu "abre-te sésamo" e respondi afirmativamente. Felizmente, enquanto estivera em Nova Iorque eu havia assistido três peças estimulantes, e apoiada naquele tênue conhecimento comecei o discurso.

No dia seguinte a imprensa matutina anunciou que uma crítica dramática se encontrava na cidade - eu tinha que desfazer aquela apresentação errônea e persuadi meu marido a convidar os repórteres para um almoço. Garanti a eles que eu tinha algo muito mais importante para trazer-lhes do que o contido no mundo da fantasia. "Bem", disseram em coro, "vá em frente e conte-nos tudo sobre isso".

"Chama-se Bahá'í."
Os lápis voltaram para cima da mesa.

"Ora, vamos, algo simples, por favor; nós não podemos entrar nesses termos orientais."

"Deixem-me explicar: essa palavra significa seguidores da luz ou da glória. Apenas uma palavra que será usada em todo o mundo; nada de versões para o alemão, espanhol ou francês, ou qualquer outra língua; de modo que, como vêem, é afinal bastante simples. O que têm a fazer é ajudar-me a tornar o termo 'Bahá'í' familiar às pessoas."

Os lápis voltaram a pousar na folha em branco. Como se soletra?

"B A H Á'Í." Eles anotaram.

"Diga-nos tudo sobre isso, mas seja sucinta porque temos apenas meia hora."

No dia seguinte, o Daily Standard publicou na página do editorial um dos mais abrangentes artigos jamais escritos pela imprensa. Telefonei ao Sr. Timmms para agradecer. "Eu gostaria de aparecer por aí qualquer hora, para me aprofundar um pouco mais nessa nova religião." Ele realmente veio, e conversamos, e eu pedi-lhe para usar o nome várias vezes e sucessivamente. Assim, ao invés de um editorial, tivemos quatro e o termo Bahá'í foi sucessivamente citado, com suas razões para ser amplificado.

23. A HISTÓRIA DA CONDESSA

Dentre os convites que eu tinha para falar, havia um pedindo-me para dar uma palestra no Clube Espanhol para Moças do Comércio. Nenhuma das moças falava inglês, de modo que tive que procurar por uma intérprete. A Associação Crista de Moças indicou-me uma que havia estudado nos Estados Unidos, e que ficou muito feliz por poder praticar. Quão frequentemente pensei em 'Abdu'1-Bahá, que se submetera àquele teste tantas vezes, durante muitos anos. Nunca se sabe quanto o intérprete está próximo do original, nem como o que foi dito está bem traduzido.

Quando eu fazia uma declaração curta e dava uma pausa, minha intérprete fazia um discurso de considerável extensão; ao contrário, quando eu explicava um ponto mais exaustivamente ela me seguia com umas poucas sentenças curtas. As moças do Clube eram jovens, com uma exceção apenas na audiência, uma senhora idosa sentada a um canto bem no fundo da sala. Ela estava trajada como na época das Nobres da Espanha, e à medida que a palestra prosseguia parecia mais e mais agitada. Quando aquele duelo terminou, a velha senhora aproximou-se de mim e pediu-me insistentemente que a procurasse na manha seguinte. Colocou-me nas mãos um cartão de visitas no qual estava gravado "Condessa Helena Marie de Barrill."

A casa que eu buscava ocupava todo um quarteirão. Eu já a havia notado, mas por seu tamanho pensei tratar-se de um edifício público. A entrada era difícil de se achar, porque o portão fazia parte de uma alta grade de ferro encimada por ponteiras douradas. Quando achei o caminho para a porta de entrada, fui conduzida a uma pequena sala de recepção. As paredes eram cobertas por tapeçarias Luiz XV, e cada peça denotava luxo e falava do mundo antigo. A Condessa abriu a porta, veio até mim e abraçou-me; sentando-se do outro lado de uma pequena mesa, ela desfiou a história que tinha esperado tantos anos para contar.

Ela começou a falar em voz baixa, "Nasci em Madri, Espanha, assim como meu mando. Quando ainda éramos jovens, Alphonse foi convidado a vir à Argentina e abrir o Primeiro Banco Nacional da Espanha. Era uma grande oportunidade para um jovem, e viemos para Buenos Aires que se tornou nosso lar. Prosperamos, e se você já visitou a Catedral deve ter visto os vitrais que mandamos desenhar especialmente pelo grande artista D'Albe, na Espanha. Foram transportados um por um". Fiz um ligeiro movimento negativo e ela prosseguiu com sua história.

"Sendo católicos, criamos nossos filhos sob os conselhos do Arcebispo, um homem piedoso e de valor. Não dávamos um passo sem consultá-lo, e assim nossas vidas fluíam em felicidades e conforto. Éramos indiferentes à passagem do tempo. Eu nunca havia pensado em um fim daquela vida e união felizes, de modo que você pode imaginar todo meu horror quando nosso médico particular chamou-me de lado para revelar-me que meu marido havia contraído uma moléstia incurável. Lutei com todas as minhas forças contra tal condenação. Telefonei para a Catedral e encomendei mais missas, trouxe os mais eminentes médicos para consultas, troquei enfermeiras uma atrás da outra, inutilmente. Dia a dia ele ficava mais fraco até que eu já não tinha mais certeza se ainda me reconhecia. Naquela época tínhamos um médico residente e no dia fatal ele aconselhou-me a ficar ao lado de meu marido porque o fim não estava longe. Abri a porta do quarto e entrei. O quarto havia sido escurecido e parecia estranho e desconhecido para mim - subitamente senti medo, sem saber por que. Hesitantemente aproximei-me do leito e peguei suas mãos. Ele abriu os olhos, olhou-me fixamente por um longo momento, e então falou. Sua voz parecia vir de muito longe.

"Marie, há algo maravilhoso neste mundo e sobre o qual não sabemos nada - chama-se BAHÁ'Í - quando eu já não estiver mais aqui, vá a sua procura".

Ele perdeu as forças, cerrou os olhos e não falou mais. Fiquei pregada no lugar, não sei por quanto tempo até que alguém veio e me levou para fora. O que significava aquela misteriosa palavra? Como poderia eu descobrir? Ponderei essas questões em meu coração, mas a ninguém falei delas. Passados alguns meses coloquei na mala apenas o necessário, e acompanhada de minha fiel Anna parti naquela estranha busca. Viajamos muito e longe, e em todo lugar eu perguntava "Sabem onde posso encontrar bahá'í? As pessoas sacudiam a cabeça negativamente, elas não sabiam sequer para onde me enviar. Só então eu me dei conta de que nunca havia tomado uma decisão em toda minha vida. Quando eu era jovem, meus pais faziam isso por mim, depois foi meu marido e depois o Arcebispo. Uma criança de dez anos não estaria mais confusa com o mundo do que eu. Eu parava em alguma cidade, pequena ou grande, simplesmente por não ter a mínima idéia para onde ir; na verdade, se não fosse pela vontade forte de Anna eu não teria conseguido voltar para casa. Acordando quase todas as noites, eu ficava imaginando se não teria confundido as palavras ditas por meu marido, mas mesmo assim a palavra Bahá'í persistia em minha mente. E assim se passaram nove anos de desapontamento e confusão. Nove anos! Então você chegou e novamente eu ouvi a palavra que tem soado em minha mente como um sino. Uma palavra que parecia ecoar de outro mundo e penetrar minha alma. A noite passada eu orei em agradecimento e para que ainda houvesse tempo de cumprir o último desejo de Alphonse. Você pode imaginar o que isso significa para mim?"

A tensão emocional era tão grande que eu não conseguia fazer nada além de apertar-lhe as mãos e limpar as lágrimas de meus olhos. Refletindo sobre aquele extraordinário acontecimento só posso conjecturar que aquela alma, ao passar de um plano para outro, teve por um instante, uma visão de ambos os planos terreno e eterno. Sem dúvida, um raro fenômeno!

As lições que transmiti a Marie foram diferentes de todas as outras. Ela bebia a Revelação, como um peregrino sedento no deserto beberia na fonte. Ela pôs de lado sua idade e tornou-se cheia de alegria e animação. Com freqüência batia palmas como uma criança, e dizia, "Oh, como é maravilhoso isso". Tudo o que fosse relacionado à Mensagem Bahá'í a preenchia de grande deleite. Não havia discussões, nada do temor de perder Cristo, tão frequentemente sentido quando se ensina os cristãos. Ela percebera que o que ensinávamos estava ligado às palavras de Jesus, e que apenas os dogmas criados pelo homem, haviam sido esquecidos. Ali estava uma alma repleta pela luz da Divina Revelação, vendo-a em suas verdadeiras proporções.

Amanheceu o dia que deveria nos levar a outro estágio de nossa jornada, desta vez para o Brasil. O navio da Linha Prince saia do estuário do Rio da Prata. O vapor atracou no velho e desgastado cais. Qual foi minha surpresa ao ver a Condessa, auxiliada por sua idosa criada e um carregador ainda mais frágil, carregando um pesado objeto em direção ao embarcadouro. Quando eu estava para embarcar, aquelas três pessoas idosas desembrulharam um grande estandarte de cetim branco, no qual estava gravada em ouro e prata uma única palavra: BAHÁ'U'LLÁH.

(nota): Tinha sido acertado entre nós que na primavera a Condessa iria para Genebra a fim de se encontrar com Lady Bloomfield. Ela partiu para a viagem com sua fiel Anna, e chegou sã e salva. Faleceu na Suíça pouco tempo depois da chegada.

24. BRASIL

É interessante relembrar como o pequeno Portugal tomou posse desta vasta porção de terra. Quando o Papa Alexandre VI estava dividindo o novo território, ele não tinha mapas e supondo que por detrás das montanhas só houvesse o mar, e não tendo a menor idéia da ponta do Brasil, passou um traço por sobre o dorso dos Andes e acabou dando, involuntariamente, a maior parte das terras a Portugal.

A beleza do Rio de Janeiro é espetacular; é como se você tivesse saído do planeta Terra e pisado em outro totalmente desconhecido, o que, na verdade, acontece de muitas maneiras. Um colar de montanhas perfura o céu azul, enquanto ao longe se estende imensa anágua recortada feita pela areia branca, sorvida gulosamente pelo mar. Sombras estranhas de coloração verde descem pelas colinas e se perdem na arrebentação.

O cenário maravilhoso empalideceu ante a alegria de encontrar a única bahá'í do continente sul-americano, Leonora Holsapple (agora a Sra. Armstrong). Ela informou-me que a lei exigia que todo aquele que fosse falar em público deveria fazê-lo antes diante dos Guardiões do Treinamento Moral e Religioso. Eles eram escolhidos por serem católicos fervorosos, sendo o catolicismo a religião predominante no Brasil. Quando recitei minha parte, envolvi-me numa aura branca e infantil e contei pequenas histórias calculadas para não despertar o cérebro adormecido. Embora eu acreditasse que eles sabiam que eu não estava dizendo TUDO, o que, obviamente era o caso, deram-me uma relutante e apreensiva permissão, especialmente porque Krishna Murti estava na cidade, arrastando pessoas atrás de si como o Flautista Mágico, e o cais do porto estava coberto de pétalas de rosa para serem pisadas por seus pés santificados.

No Banco da Inglaterra encontrei o Sr. Cecil Best, para quem eu trazia uma carta de apresentação. Ele me recebeu delicadamente e explicou que ele tinha um grande grupo de sufis. Eles pareciam não ter qualquer relação com os sufis persas, mas tinham vindo da índia via Inglaterra. Ele convidou-me para falar para eles, o que aceitei alegremente. Sua casa ficava no alto das colinas, oposto à grande cruz erigida no cume de uma das montanhas; as nuvens abaixo de nós faziam parecer que a cruz flutuava no ar. De sufis grandes e pequenos havia cerca de uns quarenta. Tive uma gentil apresentação por parte do Sr. Best. A platéia ouviu a Mensagem com atenção concentrada e quando terminei juntaram-se ao meu redor para dizer que aquilo era exatamente o que acreditavam!

"Vocês têm algum Profeta cujas palavras seguem?" perguntei.

Não, eles não tinham nenhum Profeta, embora sua crença fosse uma contra-parte da bahá'í.

Eu estava fascinada e fui por três vezes à casa da colina para descobrir em que acreditavam e de que maneira eu poderia trazê-los para a compreensão da Fé. Nunca consegui ter a menor idéia do que estava acontecendo. Era como um sonho onde tudo parecia certo e natural e, no entanto, não significando coisa alguma! Achei o Sr. e Sra. Best pessoas sinceras e encantadoras e creio que se pudesse ter ficado, poderíamos ter chegado a um ponto comum; eu estava ávida do desejo de trazer aquele grupo de pessoas valiosas para a Fé.

Aprendi algumas palavras em português, e não desejando abusar do tempo de Leonora decidi ir fazer compras sozinha. Eu havia visto de relance uma peça de maravilhoso tafetá carmesim e achei que ficaria perfeito em "Temeridade" por isso desejava examiná-la mais de perto. Eu não conseguia juntar umas às outras as palavras que aprendera, e logo esgotei meu vocabulário e desisti de meus esforços de barganhar. O balconista esperou pelo momento certo e então me disse com um sorriso maroto, "O.K. garota, eu sou do Brooklyn e o preço é o mesmo que seria se você estivesse no porão do Macy's".

Leonora tinha nos aconselhado a visitar Santos e São Paulo, e a viagem foi verdadeiramente recompensadora. O setor comercial de São Paulo é muito impressionante. Visitamos o Instituto Butantã, um estabelecimento que reduzira as mortes por picada de cobra de oitenta para trinta e cinco por cento. É impossível, na América do Norte, compreender o benefício desse único e já famoso instituto científico.

Naquele ano a colheita do café havia sido abundante e por todo o porto de Santos havia grandes montanhas de grãos cor de chocolate sendo desperdiçados. Os depósitos aconselhados por Bahá'u'lláh teriam impedido aquela tremenda perda.

Devo muito de minha experiência ao ministrar a Fé no Brasil, pois ali encontrei um estado mental que quebrou o molde rígido de minha maneira de ensinar. Compreendi que se deve acomodar as palavras, revestir as expressões nos, termos da terra onde você se encontra. Os latinos não são anti-sociais como os povos do Norte, mas eles precisam ser contatados com emoção, com visão espiritual em vez de frias razões. É necessário estudá-los e compreendê-los antes de se poder fazer uma profunda impressão em suas mentes.

25. YUCATAN

Da América do Sul tomamos um barco para Yucatan via Cuba. Em Havana tivemos que fazer um transbordo pois Yucatan fica fora da rota dos navios a vapor e apenas uma vez por mês um barco ancora por lá. A costa do Yucatan é extremamente inóspita; faixas de areia avançam mar adentro, forçando os barcos a ancorarem várias milhas longe da praia, e os passageiros têm que ser transportados por botes. Foi a força das circunstâncias, a aventura, ou o destino que levaram aquele povo antigo a escolher esta terra como centro de sua vida religiosa e intelectual, que existiu por mais de mil anos? As ruínas, tão vastas em extensão quanto em beleza, arrancaram suspiros de admiração do mundo inteiro, embora estejam escondidas como gemas em uma mina.

A terra é plana como o mar. Os rios são subterrâneos e não dão sinais de sua existência exceto pela vegetação exuberante. Mesmo quando nos sentávamos no ancoradouro esperando pelas autoridades, os valores de ontem esvaneciam-se; esperar ao sol parecia ser uma ocupação normal e as horas ficavam mais longas, de modo que havia tempo de sobra. Todo lugar tem seu ritmo, parado ou lento, medido ou rápido, e assim você aprende a manter o passo com cada um e ficar em sintonia com todos.

Às vezes durante a tarde íamos até Mérida, a única cidade de porte considerável no Yucatan. Qualquer um pode perceber de que forma encantadora a cidade foi planejada, com três fileiras de árvores de cada lado das largas ruas, e flores e arbustos no centro. Certamente no passado ela deve ter sido um oásis de fragrante beleza em meio a uma terra castigada. Agora, sua grandeza está sepultada no pó. Grandes mansões copiadas das vilas francesas do século dezoito gritam alto seus lamentos. Riscas de tinta enegrecem as paredes, as janelas ovais estão sem vidraças, e as entradas entulhadas de rosas de estuque e cupidos que caíram das cornijas ornamentais. Blocos inteiros estão pregados com tábua. Houve um tempo em que as fontes jorraram livres e orgulhosas; agora, estão todas silenciosas.

O que trouxe essa mudança tão desastrosa? A resposta está na troca de propriedade que levou os ricos mercadores à falência, pois o Yucatan é o habitat natural de um tipo especial de cacto do qual se faz cordas. O controle dessa importante indústria passou para o governo mexicano e a renda procedente das plantações vai para aquele país. Com o declínio da riqueza particular, começaram os dias calamitosos para o clero e tanto as igrejas quanto as mansões foram fechadas. E um sacerdote para cada oitenta quilômetros é a regra cumprida à risca.

Nossa primeira visita foi ao Sr. Rube M. Romero, editor e proprietário do único jornal liberal do Yucatan. Por essa audácia, mais de uma vez foi apedrejado e seu equipamento incendiado. Ele foi muito receptivo aos ideais bahá'ís e ouviu a Mensagem com profunda atenção. Por não falar inglês, pediu-me os livros em espanhol e disse que com prazer daria publicidade em seu jornal. Ele aceitou e realmente publicou um artigo sobre a religião bahá'í na primeira página.

Em seguida fomos à Câmara de Comércio, onde o presidente, Sr. Sarlet, nos concedeu uma entrevista. Ele nos recebeu com cortesia, porém sem comprometimento; sua preocupação era se familiarizar conosco, enquanto falava com homens importantes da cidade. Era uma atitude de ouvir com medo de ouvir o que pudesse ser dito, um estado de temor onde ninguém ousaria tomar uma decisão, uma grande falta de disposição para falar, pois as palavras poderiam se voltar contra si próprio.

Chichen Itza foi nossa última visita, distante quatro horas de Mérida. Os caminhos eram incrivelmente ruins; às vezes, as rodas do carro pareciam querer se separar e o motor voar aos pedaços. O motorista, magoado com nossa apreensão, garantiu que aquela era considerada urna ótima estrada e mostrou-se surpreso que não a estivéssemos apreciando. Finalmente, paramos em frente à única hospedaria em Chichen Itza, que consiste de um edifício principal rodeado de pequenas casas de pau-a-pique, redondas e cobertas de sapé, e que são os aposentos para os hóspedes. Trechos da cidade Maia podiam ser vistos entre as árvores. Os trabalhos de restauração já duravam cem anos, e logo após a guerra, o Instituto Carnegie enviou uma comissão para completar atarefa. Embora ainda haja inúmeras coisas a fazer, um grupo de prédios que deve ter sido o pivô central da cidade permanece completo e perfeito. A arquitetura é surpreendente, combinando muitas formas que eles não poderiam ter visto anteriormente; o campo de jogos poderia ter sido construído hoje, enquanto os altares cerimoniais se parecem com antigas pirâmides, ao topo das quais se chega através de centenas de degraus em cada um dos quatro lados; as serpentes emplumadas foram esculpidas em todo o comprimento, para formar tanto uma sacada quanto um ornamento simbólico.

O "Templo dos Guerreiros", assim intitulado pela Comissão Carnegie, tem seis colunas de figuras, elaboradamente vestidas com túnicas. Ele sugere um templo grego, enquanto que a torre para observações astronômicas é redonda e pode muito bem ter sido uma mesquita. Como os padres espanhóis queimaram todos os registros maias, pouco se conhece sobre as crenças ou mesmo os costumes do povo. Nenhuma Pedra de Rosetta que pudesse decifrar os hieróglifos inscritos nas pedras foi ainda encontrada. Talvez seja esse fato que age sobre a imaginação e dá um toque especial aos fragmentos para alguém vislumbrar esse fascinante povo.

Em qualquer clima existe um momento de suprema glória - o nascer do dia - mas nenhum pode superar o nascer do sol em Yucatan. O efeito mais dramático é causado pelo pesado orvalho que cai todas as noites, obscurecendo a floresta e o vale estreito e cobrindo o chão até parecer que sobre ele se estendeu um grande lençol branco. Os primeiros raios de sol penetram os telhados de sapé como longos dedos, dando a impressão de puro ouro; chuveiros de diamantes caem das árvores, enquanto estolas de vapor com as cores do arco-íris causadas pêlos raios do sol flutuam pelo ar. Então o orvalho some da grama e como um tapete mágico desaparece. Pássaros selvagens, excitados com a chegada do dia, tentam alcançar o sol com seus trinados fortes e à medida que a cortina de vapor se desvanece, um edifício após o outro surge para saudar a manhã, como o faziam há milhares de anos atrás.

Mesmo hoje, os orgulhosos descendentes dos maias não falam espanhol a não ser que sejam forçados a isso, mas gostam de aprender palavras inglesas e são amistosos com os estrangeiros. A estação chuvosa tinha acabado há pouco quando chegamos, e um exército de trabalhadores estava reparando as paredes de barro, que derretem literalmente todos os anos. Os maias não trabalham sob as ordens de um supervisor. Um homem que poderíamos chamar de capataz, ou encarregado, é citado como o mais velho amigo do Chichen Itza Inn, e foi essa importante pessoa que nos convidou para uma ceia realizada para celebrar a Décima Segunda Noite. Aceitamos alegremente. Sua casa, como a dos seus ancestrais, ficava na floresta. Cada casa está oculta por quilômetros de vegetação. Somente quando a Lua está alta no céu é que se pode penetrar com segurança na floresta durante a noite. Os caminhos são ásperos e tortuosos e frequentemente seu traçado nem mais existe. A profundidade da floresta lhes garante o isolamento que prezam.

A Décima Segunda Noite caiu na Lua Cheia. Embora o orvalho estivesse caindo de milhares de folhas, podíamos ver pedaços do céu acima. Um membro da família foi destacado para nos conduzir, e dele aprendemos porque não existem fechaduras nas portas em Chichen Itza. Ele disse-nos que seu povo nunca desejou o que pertence a outro - só podemos usar aquilo que voluntariamente vem a nós. Nenhum acampamento maia jamais permitiu o uso de fechaduras ou chaves. Perguntei se seu povo era católico.

"Apenas até um certo ponto, mas nós lembramos as crenças e ditados de nossos antepassados e as passamos de uma para outra geração."

As tochas da casa para qual nos dirigíamos ficaram visíveis. Uma casa maia consiste de dois cômodos separados por um pátio murado. Um dos aposentos guarda todos os pertences da família, enquanto que o outro é usado para cerimoniais. O pátio é a cozinha e o lugar onde se vive. Tanto pobres quanto ricos dormem em redes, que são penduradas à noite e retiradas durante o dia. As redes dos pobres são feitas de cânhamo, mas os bem-de-vida empregam seda crua com longas bordas trançadas, que podem ser enroladas em volta da pessoa para aquecer. Uma rede dura a vida inteira e pode ser facilmente lavada ou remendada. O preço original é alto - para a seda algumas vezes é de mil dólares. Isso reduz a incômoda parafernália da noite a sua mais simples equação.

Fomos muito bem recebidos. Ramos de suave odor tinham sido postos sobre a porta e nas paredes do pátio. O chão de terra batida não só tinha sido varrido como estava forrado de flores silvestres, e muitas mãos se ocupavam com o preparo de uma ceia de tortillas. Fomos levados para a câmara cerimonial, onde nos sentamos. Diante de nós um altar - muito rude feito de pranchas não aparadas. A prancha do topo tinha longas tiras de papel de seda representando a visita ao Menino Jesus dos três reis magos do oriente. A prateleira do meio era maia, com cães de porcelana guardiães da lei - muito chinês, na verdade. A terceira prancha era católica, em memória aos padres espanhóis que trabalharam para convertê-los ao cristianismo. No fundo envolto em renda estava um quadro fortemente colorido de Nossa Senhora de Guadalupe, rodeado de velas feitas à mão. Do lado oposto àqueles símbolos misturados, sentamo-nos; um inglês, um maia, dois espanhóis e eu. Fitamos o altar por um longo tempo e nada foi dito.

O espanhol próximo de mim finalmente quebrou o silêncio dizendo: "Em que podemos acreditar - quanto do passado é verdade - quanto é falso?" O maia perguntou, "Não é a crença ancestral que realmente sustenta o centro do nosso pensamento religioso?"

Longe de nós, no pátio ruidoso, os preparativos continuavam em andamento, de modo que nos aproximamos mais uns dos outros para podermos falar melhor. "Não podemos simplesmente saltar no meio de um assunto assim estabelecido, eu disse; precisamos voltar atrás e ver o que faz o ritmo da evolução."

"Bem", respondeu o espanhol, "nós aceitamos apenas Cristo tanto no passado como no futuro".

Eu respondi, "Toda civilização foi fundada com a vinda de um grande ser. Para os hindus, esse ser é Buda; para os zoroastrianos, é Zoroastro; para os muçulmanos é Maomé; para os cristãos, é Cristo. Mas nós acreditamos que cada um deles foi enviado por Deus Todo Poderoso num dado tempo e com uma mensagem, sem a qual a humanidade não poderia seguir adiante. Esses Profetas representam as estações espirituais; o aparecimento é a primavera. Quando Seus ensinamentos penetram os corações dos homens é o verão daquele ciclo, então chega a colheita e os preceitos são cumpridos. Seguindo a sucessão das estações materiais, às vezes o inverno chega e a religião é transmitida e aceita sem questionamentos ou êxtase. Os conceitos mentais obscurecem o amor a Deus. Mentes limitadoras constroem dogmas; formas e cerimônias surgem e se tornam de suprema importância. A crença não é mais fluida, e se torna como gelo no inverno. Os frios ventos da discórdia sopram sobre a terra e quem procura não sabe para onde se voltar em busca de orientação.

Nessa hora de trevas vem o Iluminado, nascido sob as leis da Natureza, surgindo de um povo desprezado do longínquo Oriente. Ele caminha entre os homens e onde pisa, a terra floresce. A Palavra se faz carne e vive entre nós. A nova luz criando uma vibração mais alta derruba barreiras e tradições - governos caem - ídolos são derrubados. Mas os olhos que vêm captam a visão de um novo dia. O momento chegou para tal Ser e Bahá'u'lláh veio para recriar todas as coisas e fazê-las novas."

Novamente se fez silêncio. No silêncio comecei a repetir o Maior Nome de Deus como ensinado por Bahá'u'lláh.

À pronúncia do Título de Deus as paredes ao nosso redor se dissolveram. O coração da floresta quedou nu. Com alguma percepção interior eu contemplei vim povo antigo. Vinham de todas as direções e eram de todas as idades. Eles estavam ouvindo o Grande Nome de Deus. Como as multidões se reuniram para ouvir o Sermão da Montanha, e os árabes selvagens do deserto seguiram Maomé, assim também o povo maia parecia responder ao chamado desse Novo Dia. Passado e presente foram unidos e em um instante de realidade projetados do céu para a terra.

O que se passou nas mentes dos homens ao meu redor eu não sei, mas eles também pareciam mudados. Olhamos uns para os outros com compreensão, e estávamos atraídos por um espírito que tinha levantado as cortinas do tempo e revelado a eternidade.

Quando fomos conduzidos para a festa o encantamento foi quebrado, entramos pensativos no pátio. Para os que estavam ali reunidos, era a Décima Segunda Noite, a antiga celebração, mas para nós era uma nova alegria. Alguma coisa tinha mudado de tal forma, que as palavras não tinham nenhum poder, mas cada coração carregaria uma mensagem que lançaria luz onde antes havia trevas.

26. MÉXICO

De Yucatan fomos para Vera Cruz e então seguimos para a Cidade do México mas não é sobre essa viagem que escrevo, já que doença e desastre a arrumaram. Em 1949 voltei novamente à Cidade do México. Dessa vez eu era uma delegada do Comitê Interamericano para o Congresso Latino-Americano.

Na manhã de l de Janeiro, com neve e temperatura abaixo de zero, Ophelia Crum (dirigindo o carro), Kay Zinky e eu deixamos Colorado Springs. Tínhamos ouvido que água potável era incerta por isso enchemos vários galões com água mineral gasosa da Fonte Manitou - enrolamos-nos em Ias e peles e partimos. Não tínhamos ido muito longe quando ouvimos uma série de explosões atrás. Quando fomos investigar descobrimos o chão do porta-malas coberto de pedaços de gelo e cacos de vidro. Assim terminou a precaução número um, e decidimos não levar nenhuma provisão para o dia seguinte. Entramos novamente no carro e nos enrolamos, quando "snap-snap", lá se foram as correntes de todas as quatro rodas. Sem nenhuma proteção, viajamos sobre uma superfície de gelo num preocupante silêncio delirante todo aquele dia! As montanhas mexicanas têm em seu topo centenas de quilômetros de curvas fechadas e quando se desce, um pedaço de chão plano se assemelha ao paraíso.

Nada toma tanto tempo nem absorve tanta energia como vim Congresso, se bem que nada é mais difícil de se descrever. "O que você faz durante o Congresso?" as pessoas perguntam; e você responde: "Falamos sobre planos para o ensino; revisamos a história da Fé"; e aí você pára, porque não está dando nenhuma idéia verdadeira nem descrevendo corretamente o Congresso. Vimos velhos e novos amigos, e nossa querida Marcia Steward estava presente; e onde Mareia está, acontecem coisas.

Nesta ocasião a ONU estava realizando reuniões na cidade e esse fato tornou-se favorável para nós de uma maneira notável. Tínhamos vários membros negros no Congresso e pedi ao Gerente do Hotel para usar o salão de musica e entreter nossos delegados. De início ele pareceu indiferente ao nosso pedido; então subitamente se tornou cheio de atenções e nos ofereceu o salão amarelo de baile sem qualquer ônus. Demos uma festa em grande estilo. O que aconteceu foi que ele nos tomou por delegados da ONU - o que não prejudicou ninguém e nos beneficiou grandemente.

Cada delegado pediu uma audiência a sós comigo, então dediquei as tardinhas a esse propósito. As profundas questões indagadoras estavam centradas nos ensinamentos - nenhum problema pessoal foi trazido à baila - e as minhas lembranças estão cheias do vigor do espírito do povo latino-americano.

27. AMÉRICA CENTRAL E OS ESFORÇOS DOS PIONEIROS

Viajar pela América Central foi menos recompensador do que viajar pela América do Sul, onde andávamos à vontade e sem limitação de horário. Aqui, as viagens tinham que ser feitas em barcos de frutas e o tempo no porto era limitado. As cargas perecíveis eram carregadas e imediatamente os navios zarpavam. Dessa forma, nossas impressões sobre as cidades centro-americanas foram fugazes. Quando atingimos o porto de Costa Rica, com seu belo panorama de ilhas, o tempo era muito escasso para a viagem de trem até San José. Ao invés disso, andamos pelo porto empoeirado, parando em soleiras de portas e lojas e nos perguntando como pessoas podiam existir sem abrigo, um pouco de verde ou livro para ler. Da mesma forma rápida visitamos três ilhas - Trinidad, Jamaica e Cuba. Marion Little e eu tínhamos sido convidadas pelo embaixador americano e sua esposa para passar uma semana com eles em Havana.

"Que oportunidade para ensinar!" dissemos uma à outra. Mas, as pessoas que vieram ao jantar ou que deram festas e chás não estavam nem um pouquinho interessadas. A primeira menção de religião elas começavam a bocejar prodigiosamente e só despertavam quando eu dizia que conhecia Mary Pickford e Douglas Fairbanks. Estávamos intrigadas por esse comportamento e lamentamos em altos brados nossos fracassos.

Não tínhamos aprendido ainda que aqueles que buscam o espírito já se libertaram das cadeias dos prazeres do mundo. Quando as viagens terminaram, dedicamo-nos a resolver qual seria a melhor maneira de enviar pioneiros à América Latina. Fui para Washington. Graças à bondade de Mason Remey consegui uma audiência com o Secretário de Estado, Cordell Hull. Expliquei-lhe nossos planos e porque estávamos enviando o que ele chamava "missionários" para os países do Sul. Tanto a unidade de raça como de religião lhe eram simpáticas, e nos prometeu endossar nossos esforços. Além disso aconselhou que estudássemos as leis de saúde, que diferiam de um país para o outro e por esse conselho, o Comitê lhe seria grato nos dias por vir. Determinei falar com o Prof. Lewis Hanke, que estava encarregado da Divisão Cultural da Biblioteca do Congresso. Havíamos nos correspondido quando ele era catedrático de literatura latino-americana em Harvard e agora era a minha chance para uma conversa pessoal. Ele me forneceu os nomes de cinco volumes que considerava indispensáveis à compreensão do povo latino-americano. Eram "The Gulf of Misunderstanding", "The Other Spanish Christ", dois pequenos livros de autores latino-americanos, e o "South América" de Prescott.

Os pioneiros estavam se dirigindo para o sul e a questão prioritária agora surgia - como nossos livros chegariam até eles? Havia o problema dos regulamentos postais - e havia o custo postal. Esse problema aparentemente insolúvel desapareceu diante da oferta generosa do Sr. O'Hanion. Ele era um velho amigo de Francês Stewart e quando soube de nosso dilema ofereceu-se para ser nosso agente. Por meio de um crente, o Sr. Filipac, que era comissário de bordo de um barco que fazia a rota do Brasil, alguns livros por vez eram entregues no Rio de Janeiro. Ele os levava ao nº. 2 da Avenida Rio Branco no Rio e através de ligações comerciais o Sr. O'Hanion os remetia para toda a América do Sul, até mesmo para o Chile. Assim foi que invadimos a América Latina! Desapontamentos dolorosos ocorreram ao longo de todo o caminho e atrasos, curtos ou longos, ocorriam como pontuações na linha de nossos esforços. Mas havia poderes mais altos trabalhando por nós e que triunfaram sobre os obstáculos. Esses obstáculos foram compreendidos pelo Guardião, como mostram algumas trocas de telegramas. Um dos primeiros que enviei a Shoghi Effendi e sua resposta reproduzo aqui:

Peço orações trabalho interamericano traduções espanhol atrasadas metas Panamá e Nicarágua preenchidas.

Ao que o Guardião respondeu:

Encantado. Orando obstáculos remanescentes sejam removidos. Com amor e gratidão.

(Assinado) Shoghi.

Eu gostaria de poder mencionar os nomes de todos aqueles que deram sua contribuição para a construção da Fé em toda América Latina, mas neste espaço limitado apenas os nomes dos primeiros pioneiros podem ser registrados. Os que os seguiram continuaram o mesmo propósito digno de louvor e muitos ainda vivem lá.

Primeiro foram Katherine Frankland e seu marido, que em 1912 viajaram à Cidade do México a pedido de 'Abdu'l-Bahá. Em 1919 Martha Root fez sua famosa viagem e foi seguida no mesmo ano por Leonora Holsapple Armstrong que se fixou na Bahia, Brasil. Os Louis Gregory ficaram vários meses no Haiti em 1934. A Sra. Joel Stebbins e Isabel Dodge ensinaram no Peru em 1936. Os Roy Worley, Eve Nicklin, Beatrice Irwin e Francês Stewart foram pioneiros em 1937. Em 1938 o Sr. e Sra. Ward Calhoon foram para Havana. Em 1939 recebemos o apelo do Guardião através do "O Advento da Justiça Divina" e em resposta, os que foram naquele ano são: Louise Caswell, Cora Oliver, Mathew Kaszab, Gayle Woolson, Margareth Lentz, os John Shaw, António Roca, John Eichenauer Jr., Clarence Iverson, Wilford Barton, Roheieh Jones, Katherine Disdier e John Stearns.

Relembrando nosso tímido início não faz ainda vinte anos, é impressionante ver que já contamos com duas Assembléias Espirituais Nacionais* na América Latina, eleitas por seus próprios delegados. Dorothy Baker, nossa última coordenadora, levou avante o trabalho como uma torrente irresistível.

*N.R. Atualmente, existem Assembléias Espirituais Nacionais em todos os países da América Latina.

Quando chegou o momento para o ápice daquela conquista eu não pude comparecer e enviei um telegrama aos meus filhos espirituais; eles responderam, "Suas crianças crescendo depressa - nosso amor para você". Nossos herdeiros espirituais mostram tanto sinceridade como maturidade, como foi testemunhado por Ophelia Crum e por mim quando viajamos para Havana e Jamaica no último inverno (1951). Encontramos grupos e Assembléias, estudando sinceramente os textos bahá'ís e cheios das "dores do crescimento espiritual".

Não podemos encerrar um traçado do trabalho feito no continente ao sul de nós, sem pensar em May Maxwell, que deu sua vida e seu talento para a Fé e que finalmente viajou para a Argentina para ensinar, morrendo naquela terra distante.

Parte IV
O MUNDO INVISÍVEL
28. UMA INSPIRAÇÃO

É um fato axiomático que enquanto você medita está falando com seu próprio espírito. Nesse estado mental você coloca certas perguntas a seu próprio espírito e seu espírito responde: a luz irrompe e a realidade é revelada.

'Abdu'1-Bahá, Epístola sobre Meditação.

Acordei certa madrugada, no verão de 1939, com um festival de luzes inundando o vale no sopé do Pike's Peak. Na presença do amanhecer não se tem memórias. O sol se levanta e você é testemunha de uma nova criação. A meditação é o modo natural de pensamento nesse estado de meia consciência e meia inconsciência. À medida que eu contemplava as colinas que perdiam suas sombras e se aguçavam contra a linha do céu, uma mensagem brilhou do espaço para dentro de meu coração. "Estas terras têm um alto propósito - acima das necessidades de família e amigos, aqui virão as nações em uma nova fraternidade. Elas se encontrarão aqui e formarão um denominador comum para o futuro da humanidade."

Uma vez que a inspiração era minha, não me deu descanso até que eu abrisse a casa como uma Escola Internacional Bahá'í. Convidei os crentes mais velhos para ajudarem a compor uma política que fosse bem adequada aos estudantes estrangeiros. Na inauguração Shoghi Effendi telegrafou, "Encantado - orando pelo sucesso, apreciação amorosa".

Numa carta a Max e Inez Greeven, que me ajudavam na formação da Escola, o Guardião escreveu: "Os cursos da Escola devem ser planejados de tal forma que exerçam a maior influência possível no progresso do trabalho de ensino que agora está em tão bom andamento nos países do Sul".

Em 1947, com o consentimento de meu marido e de minha filha, Wanden Kane, o imóvel foi passado para a Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá'ís do Estados Unidos. Pedi que a supervisão fosse oferecida a Margaret Randall Ford, filha de meu primo Harry Randall, que não só era meu parente próximo, mas que também tinha sido um amigo íntimo de meu marido. O Guardião confirmou a indicação. Com verdadeiro espírito pioneiro Harry Ford, o marido de Margaret, começou a trabalhar no local, enfrentando objetos inanimados de todo tamanho e formato, movendo rochas do chão, construindo paredes e cercas e pontes. Trabalharam incessantemente para a construção da Escola, e agora em 1951 suas portas estão abertas e eu rezo para que jamais se fechem.

29. UM SONHO

Se ponderarmos sobre cada coisa nada testemunharemos uma miríade de perfeitas sabedorias e aprenderemos uma miríade de novas e maravilhosas verdades. Um dos fenômenos aliados é o sonho. Contemplai quantos segredos ali estão contidos.

Observai como dormis numa morada, com suas portas cerradas; subitamente, percebeis a vós mesmos em uma cidade distante na qual entrastes sem moverdes vossos pés ou fatigardes vossos corpos;sem usardes vossos olhos, vistes;sem moverdes vossos ouvidos, ouvistes; sem uma língua, falastes. E possível que após dez anos venhais a testemunhar no mundo exterior, precisamente as mesmas coisas que haveis sonhado esta noite.

Bahá'u'lláh

Como poderemos distinguir entre os sonhos de que fala Bahá'u'lláh e as fugazes imagens da noite? Há uma regra infalível - um sonho se esvai. Não importa quão nítidas possam ser as imagens e impressões, poucas horas de vigília apagam sua claridade e a cada momento que passa vão sendo empurradas mais c mais para a obscuridade. Uma visão fica gravada na mente consciente e presa nos limites da memória. Os detalhes não aumentaram nem diminuem - a impressão é imune ao tempo. O sonho que agora relato assim aconteceu. Sua realidade levou anos para se mostrar, conforme o Profeta nos diz "É possível que após dez anos..." Disso concluímos que o tempo é um fator não-essencial na verdadeira visão.

Aconteceu antes da viagem para a América do Sul, durante uma curta visita a Honolulu. Lembro-me de estar pensando com satisfação que ali havia uma forte Assembléia e muitos trabalhadores no campo bahá'í e que eu não era necessária. Quanto mais vigorosamente eu escovava os meus cabelos, com mais direito me julgava ao lazer. Neste estado mental não-bahá'í adormeci. Subitamente, a porta entre o alpendre e meu quarto se abriu e 'Abdu'1-Bahá parecendo muito sério e nada contente comigo se moveu rapidamente pelo chão. "Tenho muitos amigos aqui que não me conhecem. Venha". Conforme Bahá'u'lláh descreve na citação, nós nos movemos, ainda que sem movimento, e nos encontramos em um local fechado no fim do qual havia um hospital e nós estávamos sob um arco de pedra de frente para ele. Uma jovem enfermeira de uniforme descia as escadas do edifício. Ela parecia perturbada e vendo o Mestre correu para ele chorando: "Oh, 'Abdu'1-Bahá! Preciso ir? - é meu dever? - não pode uma outra pessoa ser enviada em meu lugar? Lá é tão desolado e assustador".

'Abdu'1-Bahá deu um passo em sua direção e lançou-lhe um olhar de amorosa simpatia que teria derretido um coração de pedra, mas não pronunciou uma só palavra. O quadro pareceu recuar e então se apagou.

Novamente, sem movimento ou qualquer outra forma de transporte, fomos para os lados de uma colina. Estava coberto de árvores e flores e sob um carvalho ficamos parados, evidentemente aguardando algo que estava por acontecer. Diante de nós estava uma casa de estilo antigo com uma grande porta de entrada branca e três degraus de pedra que levavam ao jardim onde estávamos. Então, a porta foi aberta e uma mulher, vestida com um tecido branco e macio que flutuava à medida que se movia, desceu um dos degraus de pedra, parou como se estivesse com medo de ser observada, olhou para um lado e depois para o outro até que se deu conta da presença do Mestre. Ela emitiu um grito, cruzando as mãos sobre o peito e numa voz de emoção reprimida dirigiu-se a ele: "Oh, eu não sabia que estava aqui, 'Abdu'1-Bahá! Diga-me, o que estou para fazer está correto? Tenho sua permissão? Estou tão preocupada, e não sei se devo prosseguir com meu plano ou não". Assim dizendo, ela apontou para vim grupo de árvores novas crescendo do lado direito da casa. O Mestre permaneceu absolutamente imóvel, parou por um instante antes de dizer em voz clara: "A permissão está concedida, e não falhará em seus propósitos". Novamente, a colina, o jardim e a mulher recuaram de nosso campo de visão e nos encontramos viajando em uma parte inteiramente diferente da ilha. Pareceu-me estar ciente de que a casa de campo diante de mim pertencia a vim artista. Alguém que não conhecia a Fé, mas que o Mestre amava. O homem estava sentado em frente de vim cavalete e o Mestre se aproximou e colocou os braços em volta de seus ombros. Numa rede no alpendre estava um rapaz de cerca de dezesseis anos. Ele estava lendo um livro e balançando a rede para diante e para trás - era realmente atraente. O Mestre começou a falar com o artista; seu tom era sério, ainda que gentil: "Não tenha medo do que seu filho será chamado a fazer durante a guerra. E perigoso, mas ele terá proteção. Você deve permanecer calmo e não demonstrar medo. Não tente dissuadi-lo de seu dever. Siga seu caminho, pois ele tem que seguir o dele".

Três anos depois, durante a Segunda Guerra Mundial, o rapaz tornou-se piloto de caça de mergulho, a mais perigosa ocupação na Marinha. Ele passou incólume através dessa provação.

Os dois anos seguintes passamos em viagens, e então, voltamos mais uma vez à encantadora ilha Oahu. Os amigos estavam realizando suas reuniões públicas na ACM (Associação Cristã de Moças) e pediram-me para falar. Na fila da frente sentava-se a mulher dos três degraus de pedra (era como eu a chamava, em minha mente). Estava de luto fechado e parecia mais pálida que na noite de minha visão. Ela veio até à frente após a palestra e apresentou-se.

"Perdi meu marido", explicou, "e estou em busca de respostas sobre a outra vida. Vim a sua reunião pensando que a Fé Bahá'í pudesse lançar alguma luz sobre o assunto". Assegurei-lhe de que realmente tinha muitas novas revelações sobre a vida eterna e que eram satisfatórias tanto quanto consoladoras.

Praticamente todos os dias, até minha partida para China ela voltou para falar comigo sobre os muitos aspectos do ensino e quando a deixei, estava mergulhada fundo no estudo da Fé. Não fiquei surpresa, portanto, quando recebi uma carta no outono seguinte perguntando a data de nossa chegada e informando seu ingresso na Fé, dizendo aguardar minha volta. Quando chegamos ao ancoradouro, ao som da encantadora canção de boas vindas "Aloha", vi Florence - com uma grinalda de flores nas mãos - mostrando uma expressão radiante no rosto. Marion Little estava do meu lado e eu estava desejosa de contar-lhe meu sonho, já que partilhávamos de todas as experiências, mas algo me segurava. Senti que o momento era propício para perguntar a Florence o significado da cena ambígua que eu tinha presenciado. Com esse intuito fui sozinha até sua casa, determinada a re-encenar o sonho. Fiz com que ela abrisse a porta dianteira e descesse um degrau apenas. Fiquei junto ao carvalho, assim como naquela noite. "Florence, há dois anos atrás eu vim aqui num sonho - eu estava junto com 'Abdu'l-Bahá. Você abriu a porta da frente e parou no degrau exatamente onde está agora. Percebendo a presença do Mestre pediu-lhe permissão para algo que tencionava fazer dizia respeito àquelas pequenas árvores que crescem à direita da casa."

Ao ouvir isso Florence caiu sentada no degrau e escondeu o rosto nas mãos.

"Não, não," ela exclamou, "ninguém sabe disso - ninguém poderia sabê-lo!" Esperei até que ela se recompusesse e então ela levantou a cabeça e acenou. "O que você viu naquela noite é verdade. Mas, é um segredo que nem meus filhos conhecem. Quando decidi ingressar na Fé, mandei retirar meu mando do cemitério na colina e o coloquei sob as pequenas árvores que ele tinha plantado e das quais cuidava com tanto carinho."

O sonho das árvores tinha ocorrido antes que Florence estudasse os ensinamentos bahá'ís e numa época em que seu marido gozava de perfeita saúde. Talvez no fluxo da vida não exista passado ou futuro, como os conceituamos. O destino pode completar a si próprio da mesma maneira em que os ramos de um carvalho estão presentes em seu fruto, assim como a colheita está envolvida na semente. Nossa seqüência do tempo - a sucessão dos dias e noites, tão imperativa em nossa vida diária, pode não existir no mundo invisível. Nesse mundo a vida pode ser vim fluxo contínuo sempre se fundindo em um mar infinito. Quem sabe?

Mais três anos se passaram antes que eu conhecesse a enfermeira que tinha visto naquela noite memorável. Ela era uma bahá'í que trabalhava em outra ilha, razão pela qual nunca nos tínhamos visto. Durante a tarde ela disse baixinho que tinha um problema e queria pedir meu conselho. Quando nos afastamos dos demais, ela me disse que tinha sido solicitada a assumir uma posição como enfermeira no Campo de Leprosos, em Molokai.

"Odeio a idéia", ela falou, "mas como bahá'í tenho eu o direito de recusar? Alguém tem que ir em meu lugar se eu ficar em casa". Lembrando do silêncio de 'Abdu'1-Bahá eu sabia que não podia interferir na decisão dela. "Vamos ler a Epístola de Ahmad por nove dias - então nos encontraremos, e falaremos sobre isso novamente." Quando nos encontramos, todo traço de indecisão tinha sido varrido de sua mente. "Decidi ir", ela exclamou, "e depois que conversamos eu estive lá e tive uma impressão bem diferente, tanto que acho que não vou me sentir infeliz".

"Sua decisão é final?", perguntei. "Sim, sim," - ela parecia que estava para partir naquele instante. "Espere um instante antes de ir," disse eu, rindo da impaciência dela. "Queria dizer-lhe que você fez a 'Abdu'1-Bahá a mesma pergunta há quatro anos atrás." "E o que ele respondeu?" Fiquei a pensar na melhor maneira de explicar-lhe. "Ele não respondeu, mas deixou a decisão a você."

Ela foi para Molokai, e enquanto estava no Hospital conheceu o Comissário das Instituições das Ilhas Havaianas. Apaixonaram-se, se casaram e, como nos contos de fada de nossa infância, viveram felizes para sempre.

Aprendi dessa experiência a frágil qualidade da opinião pessoal. O Mestre, com sua capacidade de penetrar a substância etérea, sabia que ela deveria fazer por si mesma a escolha que envolvia seu destino. O que aparentava ser um sacrifício continha a vida futura que ela tinha que aceitar ou rejeitar. Mas, nossa introspecção é limitada - e não podemos ter certeza de nenhuma forma positiva. Nós supomos, imaginamos, e ainda que de olhos vendados miramos um alvo. Por que confiamos tão implicitamente em nosso julgamento? A vida é tão rica em bons conselhos mas, oh, quão pobre no conhecimento do coração humano.

30. UM MILAGRE

Quando 'Abdu'1-Bahá estava visitando Lady Bloomfield em Londres um homem aproximou-se dele e perguntou:

"Deve haver milagres na Fé Bahá'í. Muitos milagres, não é mesmo?"

"Sim, é claro," respondeu o Mestre, "muitos milagres, mas milagres frequentemente têm obscurecido os ensinamentos que os Mensageiros Divinos trouxeram. A Mensagem é o verdadeiro milagre. Os milagres fenomenais são de pouca importância, não provam nada a ninguém exceto a quem os testemunham, e mesmo estes algumas vezes lhes atribuem pouca importância! Portanto, os milagres não têm valor algum no ensino da religião".

The Chosen Highway

Durante nossas muitas viagens a Honolulu foi meu privilégio falar frequentemente com Elizabeth Mouther. Embora já fosse idosa quando a conheci, ainda tinha muita vitalidade. Ela estava vivendo seus últimos dias na casa de Katherine Baldwin, no n- 36 da Rua Bates. Pouco a pouco apanhei o fio da meada de sua vida. Ela veio de Illinois e ainda bem jovem tornou-se uma entusiasta bahá'í. Tinha chegado um chamado das ilhas havaianas pedindo professores para ensinar os filhos dos missionários. Ela se ofereceu para ir e embarcou num veleiro para o que era então, uma longa viagem. Elizabeth tinha uma qualidade isenta de malícia, que parece ser um dos atributos daqueles que reconhecem um novo Mensageiro. É uma qualidade peculiar que faz alguém entender o que Jesus queria dizer quando falava que tínhamos que nos tornar como crianças. Sozinha num mundo distante, Elizabeth começou a escrever para 'Abdu'1-Bahá extravasando seu coração, contando de seu desejo de se casar, ter filhos e uma vida doméstica. Ela explicou sua existência isolada e a falta de oportunidades para contatos sociais. Em resposta, 'Abdu'1-Bahá escreveu-lhe falando das maravilhas deste dia e de sua própria posição; aquela posição que não seria compreendida até muito além no futuro, quando então suas palavras teriam chegado aos quatro cantos da Terra. Após lutar com seus problemas, Elizabeth escreveu que sacrificaria sua vida pessoal pelo bem das crianças e permaneceria indefinidamente nas ilhas. Em resposta, 'Abdu'1-Bahá escreveu uma carta espantosa; em linhas gerais, ele disse que, por causa daquele sacrifício ela teria permissão para ter um vislumbre além do plano mortal e que seria testemunha da realidade da vida eterna e da continuidade da alma. Isso deveria acontecer dali a nove anos.

Elizabeth não conseguiu captar o significado daquelas palavras. Como, pensou, poderia ter uma visão de outro plano existencial quando ainda estava na Terra? Apesar de tudo, o misterioso documento contendo promessas que ela não entendia - palavras que estavam além de sua compreensão - foi colocado em uma caixa de madeira de sândalo, fechada a sete chaves. Algumas vezes, à tarde, depois de terminado o trabalho ela abria a caixa, pegava a carta e lia as estranhas e maravilhosas palavras escritas pelo Mestre. Quando chegou nesse ponto ela fez uma pausa e disse-me que eu não tinha liberdade para relatar esse capítulo secreto durante sua vida. Eu prometi. Então ela continuou.

Na época de que falava, ela era governanta de um garoto de três anos - uma criança encantadora e especialmente preciosa, visto que um bebe de colo tinha morrido antes de seu nascimento. O menino, Richard, tinha uma grande afeição por Uttie, como a chamava. Os anos passados na ilha de Mauí com Richard foram os mais felizes de sua vida, e sua dor e solidão foram intensas quando, na idade de onze anos, ele foi enviado para um internato no continente. Quando chegavam as férias havia nova alegria, comidas especiais eram preparadas, brincava-se e a casa ressoava com as risadas alegres.

Assim passaram os anos quando, do céu sem nuvens a tragédia caiu. Através de um telegrama as palavras fatídicas os alcançaram. Quando estava jogando, Richard tinha sido atingido por uma bola de beisebol que o matou. Um barco havia sido fretado para trazer o corpo da amada criança até Honolulu e depois seguir para Mauí onde seria enterrado.

Tremendo, Elizabeth pegou a Epístola e abriu-a diante de si. Cega pelas lágrimas ela mal podia ler as palavras tão conhecidas. Ali estava a data. Nove anos haviam se passado. Quando olhou para cima uma luz translúcida havia se espalhado e tornava imprecisos os detalhes dos objetos familiares e, para surpresa sua, ela viu Richard. Ele estava vestido com vim short azul e uma camisa branca aberta no pescoço. Ela notou um feio ferimento em sua fronte. "Oh, Uttie," ele exclamou, "eu voltei para casa. Tentei dizer a mamãe que não estou seriamente fendo mas ela não me ouve, e fica só soluçando e se lamentando. Eu estou bem, Uttie, mas não vou para Mauí - prometa-me que você não irá também. Eu vou ficar aqui com você e trazer meu irmão para brincar - ele já está grande agora e você vai gostar de vê-lo".

Uttie sentou-se na cadeira de balanço, literalmente paralisada - por quanto tempo não se lembra. Seu próximo momento consciente foi ver a mãe de Richard na porta dizendo-lhe para se preparar para partir para Mauí na manhã seguinte bem cedo. "Por favor, perdoe-me," disse Elizabeth, "eu não posso ir". "Mas você tem que ir, Uttie." Com voz sumida, Uttie respondeu, "Eu não posso ir para Mauí". Atônita, perturbada e muito magoada, a mãe se retirou.

Elizabeth sentou-se sozinha no quarto. A casa estava em silêncio, pois todos haviam partido para Mauí. No começo da tarde a estranha luz amarela que antes tinha envolvido seu quarto agora se estendia pêlos caminhos do jardim. Antes mesmo de olhar para cima Uttie percebeu que as crianças estavam ao seu lado. A marca na fronte de Richard tinha quase desaparecido. Ele parecia tão familiar e real que ela mal se continha para não toma-lo nos braços. "Oh, Uttie, estou tão feliz que você não tenha ido para Mauí - você nunca teria visto Charles, e não é gostoso que estejamos juntos só nós três?" Uma sombra apagou um pouco os sorrisos quando ele deu um passo adiante. "Uttie, porque mamãe não falou comigo - é porque ela estava chorando?" Uttie respondeu gentilmente, "Agora não é possível Richard, talvez mais tarde". Richard interrompeu, "Eu tentei dizer-lhe que não estava ferido, isto é, foi só por um momento - que não havia mais motivo". Os garotos correram para o jardim e Elizabeth ouviu suas vozes alegres, um chamando o outro.

Esse foi o cumprimento da promessa de 'Abdu'1-Bahá. Richard, a criança, era dela num plano não pertencente a este mundo físico. Ele havia voltado para ela, para confidenciar-lhe seu segredo e seu encontro com o irmão. Ela sozinha partilhou de sua felicidade. Elizabeth nunca havia duvidado da qualidade da vida eterna mas essa prova vívida era um conhecimento vivo que acelerava o pulso e cantava através do sangue, elevando seu ser para a fonte da vida eterna.

"Quando uma certa criança morreu, 'Abdu'1-Bahá disse à mãe: 'Há um Jardim de Deus. Seres humanos são árvores que ali crescem. O Jardineiro é nosso Pai. Quando Ele vê uma árvore pequena num lugar limitado demais para seu desenvolvimento, Ele prepara um lugar melhor e mais belo, onde possa crescer e dar fruto. Então Ele transplanta a pequena árvore'."

The Chosen Highway
Parte V
ATRAVÉS DOS SETE MARES
31. ILHAS DO HEMISFÉRIO SUL
Taití

Havia chegado a hora, há muito prometida por 'Abdu'l-Bahá, em que eu deveria cruzar os sete mares. O Francônia já estava à vista, seu gracioso contorno um encanto para se apreciar.

Deixamos Honolulu e avançamos através do Equador em direção ao Hemisfério Sul; as estrelas ocultas no céu do Norte estavam visíveis; golfinhos brincalhões saltavam sobre as ondas enquanto seguiam nossa esteira; o mar perdia o azul forte e a cada dia ficava mais claro e suas ondas passavam lenta e uniformemente como se medidas por uma fita métrica. As tiaras enviam seu perfume para saudar o viajante antes mesmo que ele aviste a terra. Essa pequena flor, parente próxima da flor de laranjeira, cobre a ilha com sua fragrância e faz seu caminho por entre as vinhas brilhantes de buganvílias. Louise e John Bosch, que tinham vivido algum tempo na ilha, deram-me o endereço de um casal, proprietário de uma loja a quem tinham despertado o interesse pela Fé. Quando cheguei à porta, um forte cadeado pendia sinistramente e venezianas de ferro cobriam as janelas. Foi meu primeiro desapontamento.

Juntei-me a um grupo de moças nativas no seu caminho para o banho, não para a praia como eu esperava, mas para um platô elevado e coroado por uma queda d'água, que enviava uma torrente de cristalinas águas por sobre as pedras, até uma bacia redonda e suave lá embaixo. As moças desmanchavam suas longas tranças e as lavavam na cascata. Elas pegavam folhas semelhantes ao nosso verbasco peludo, com as quais secavam os longos fios de cabelo castanho.

Como brilhantina, elas espremiam óleo da flor de tiara e esfregavam vigorosamente os cabelos até que brilhassem ao sol. No lugar de jóias trançavam flores frescas em guirlandas, reservando as tulipas vermelhas como brincos; usavam apenas vim sarongue - uma vestimenta prática com bolsos grandes e dobras volumosas. Juntas, descemos a colina em direção ao porto.

Às cinco horas zarpamos, deixando aquela terra de romance e história, as garotas acenando e mandando beijos da praia. O mar refletia os tons pastel do ocaso, e quase se poderia crer nas feitiçarias e superstições daquela ilha encantada. O mar agora vazio faz você pensar se realmente visitou aquele oásis perfumado ou apenas sonhou com ele!

Ilhas Cook, Rarotonga

Trezentos europeus viviam nessa ilha devido ao seu clima salubre. E claro que isso foi antes da Segunda Guerra Mundial. A morada nativa consiste em uma plataforma de madeira com um poste em cada canto. Em cada poste prende-se o pano de tapa, que pode ser descido para dar privacidade ou erguido para se apreciar o panorama. A tapa, um dos mais belos e práticos materiais a serviço do mundo, é feito de casca da amoreira. É impermeável à água da chuva e aos insetos e utilizado numa grande variedade de desenhos. Eu trouxe para casa várias peças de tapa, com as quais forrei a biblioteca da Escola Internacional. Na plataforma de uma casa nativa vi uma antiga máquina de costura, salva talvez de algum bangalô missionário. Estava exposta como se fosse uma relíquia da antiguidade. Seu dono não tinha idéia de seu uso, acreditando que fosse puramente ornamental.

Ilha da Lata

O correio para "Niuafoou" é selado numa lata e atirado ao mar a um nadador que espera na água, e que traz a correspondência a ser levada pelo navio. Esse processo é feito duas vezes por ano e é o responsável pelo apelido da ilha. Os selos de "Niuafoou" são procurados pêlos colecionadores.

Ilhas Fiji, Suva

Suva, situada no cruzamento das rotas dó Pacífico, é considerada como tendo um grande futuro. Mais ainda, os fijis desde que abraçaram o cristianismo tornaram-se dóceis e fáceis de se ensinar. No século passado o Rei Thakpombau, chefe da tribo, enviou à Rainha Vitória um bastão de guerra em testemunho de sua submissão à Coroa Britânica, e o Rei George V tendo-o descoberto no Palácio de Windsor em 1931 ordenou sua devolução à Suva para que fosse usado nas reuniões do governo. Há alguns anos atrás a Fundação Rockfeller enviou um contigente de médicos e enfermeiras para acabar com a ancilostomose nas Ilhas Fiji.

O Dr. S. M. Lambert, que chefiou a expedição, escreveu um livro encantador intitulado "Vinte Anos no Paraíso", descrevendo a vida nas ilhas. Com um médico inglês, Dr. Aubrey Montague, eles abriram uma escola médica para os nativos - isso foi em 1928. Eles descobriram uma aptidão nos fijis, tanto para medicina como para cirurgia. Treinaram os homens como médicos e as mulheres como enfermeiras, e o Dr. Lambert atesta que muitos europeus foram salvos por médicos nativos, especialmente nas ilhas afastadas. Os fijis também têm um ouvido quase perfeito para harmonia. Para os pioneiros bahá'ís essa é uma lição importante ao fomentar os talentos em grupos de pessoas, quando visitam terras desconhecidas.

Ilhas Samoa, Ápia

O porto de Ápia é bastante perigoso durante uma tempestade. Em 1889 sete vasos de guerra se perderam aqui em um único furacão. Hoje, todavia, ele está calmo como um açude e é difícil acreditar em seus perigos. Fomos recebidos por um Sr. Walker, que veio nos saudar por causa de amigos comuns na Austrália. Ele tinha vindo para Ápia como Diretor da Escola para Meninos de Fiji e seu entusiasmo pelo trabalho e pelas qualidades das crianças não conhecia limites. Bem antes de chegarmos ao topo da colina onde ficava a escola ele nos contou a história da devoção de Robert Louis Stevenson pelo povo da ilha.

Stevenson veio para Ápia após a grande tempestade de 1889 e ficou com a única casa adequada a família de um homem branco (é a casa hoje usada como Regência). Quando examinava a propriedade junto com um agente ele viu uma série de placas nas quais estava escrita a palavra "Kapoc".

"O que significa essa palavra?" Perguntou Stevenson. "Ela quer dizer, Proibida a Entrada - impede os nativos de entrar - eles não se atrevem a passar quando vêem essa placa."

O agente partiu, Stevenson encontrou duas tábuas e escreveu na língua fiji, "Entrem, Robert Louis Stevenson está sempre em casa".

Os nativos chegaram, leram a placa e se retiraram; mas um deles, mais ousado, abriu o portão, veio até os degraus da varanda e sentou-se. Esse foi o começo de uma amizade eterna entre os chefes fiji e Stevenson. Ele não só admirava suas qualidades, mas também lutou por seus direitos. As cartas de Vailima foram escritas com esse propósito. Descobrindo que frequentemente eram presos sem razão, Stevenson viajou até Londres para pleitear a causa deles diante do Parlamento. Foi durante essa visita a Londres que os nativos vasculharam a ilha para cortar feixes de capim e os colocaram em toda a extensão da estrada principal da ilha até o portão da casa de Stevenson, onde estava colocada a placa de boas vindas. Essa estrada ainda é mantida limpa e é conhecida como "A Estrada do Coração Amoroso".

A amizade de um único homem branco durante esse negro capítulo da história de Fiji resultou em transformação na vida daquele povo primitivo. Um pouco de amorosa compreensão abriu-lhes um novo mundo e a mudança que ocorreu foi pouco menos que milagrosa.

"Vocês ouvirão os netos desses chefes cantarem. Traduzimos as letras de canções populares para o fiji - vocês ficarão abismados quando os ouvirem," afirmou nosso guia.

No terreno da escola os meninos estavam jogando cricket, com suas peles escuras se destacando dos sarongues brancos e cada um tinha um narciso atrás da orelha. Suas idades variavam de doze a dezesseis anos e tinham os cabelos como touceiras, característica típica das tribos fiji. Os olhos eram negros como carvão, com sobrancelhas finamente marcadas, e eles eram altos e de físico bem constituído. Era evidente que estavam nos esperando e de imediato deixaram os jogos e tomaram os lugares de acordo com a parte que cada um ia cantar. Começaram o repertório com uma velha canção de canoeiros de Samoa, seguida de um canto pedindo bom tempo, e logo em seguida veio um grupo de canções americanas dentre as quais:

"There's a Long, Long Trail," "Pack Up Your Troubles" e "My Old Kentucky Home". O Sr. Walter destacou vim dos meninos mais velhos, que estava estudando inglês, para nos falar de sua última e mais importante canção.

Ele começou, "Nosso povo tinha um amigo. Seu nome era Robert Louis Stevenson e ele veio para Apia quando os Chefes, nossos avós, estavam sob forte provação. Eles conheceram o homem branco que tinha vindo para viver entre eles e com ele sentiram-se seguros. Ele lhes ensinou muitas coisas que não conheciam, e o melhor de tudo foi a camaradagem. Ele escreveu livros e algumas vezes canções, e escreveu o verso que está esculpido no bloco de rocha ao topo da colina em frente de vocês. Ao morrer, somente os chefes fiji foram fortes o suficiente para levá-lo onde ele queria ser enterrado. Aquele verso que está no túmulo nos fora ensinado em nossa própria língua, mas pensando nas palavras imaginamos como seriam em inglês e então após um certo tempo pedimos para aprendê-lo na língua em que nosso paizinho Stevenson o escreveu". Os rapazes se levantaram, ergueram as mãos para o alto da colina e cantaram com voz grave:

"Sob o céu amplo cheio de estrelas,
Abram uma cova e deixem-me lá
Feliz vivi e feliz morri,
E com um desejo me despedi!
Em minha lápide queiram gravar:
Aqui jaz onde sempre quis morar;
O marinheiro passa a vida no mar,
Mas o caçador faz na colina o seu lar."
Java

Java pertencia à Holanda antes da última Guerra Mundial quando eu a visitei em 1936. Era um mundo verde, com cento e quarenta montanhas vulcânicas se erguendo dos vales profundos. Essa é a terra do batik, um material que se faz emergindo algodão em cera derretida e depois prensando-o com um molde de metal de um dos lados, de modo que a estampa aparece do outro lado; esse material encantador serve a ricos e pobres e para as roupas de ambos os sexos.

A orquestra de gamelas consistindo de trinta instrumentos, a maioria de percussão, pode ser ouvida em qualquer cidade ou vilarejo. Há sempre um violino e uma flauta para sustentar a melodia, enquanto os demais instrumentos os seguem com estranhos sons desordenados e selvagens.

A religião do povo é uma forma de islamismo, mas difere grandemente das crenças principais, já que idéias e cerimônias antigas da índia se misturam com as de origem maometana. Numa colina em Borobudur foi descoberto um templo de origem budista, considerado pêlos arqueólogos como o mais perfeito existente.

Em Batávia, descobri sem esforço a livraria "Irmãos Olivier", que me havia sido recomendada. Com muita boa vontade eles aceitaram os livros em holandês que eu havia trazido comigo, e não apenas me prometeram colocá-los em circulação como pediram que lhes enviasse futuras traduções quando surgissem. Um encorajamento tão nobre me fez voltar ao barco em estado de êxtase. Então a Segunda Guerra Mundial desabou sob ré o mundo e nossas comunicações com os novos amigos cessaram.

Bali

Todo reino tem sua própria perfeição. O reino mineral tem suas jóias, o reino vegetal tem suas rosas, o animal tem suas cotovias, e dos homens tem seus Mensageiros vindo do alto. Eu penso que também a terra tem suas graduações de beleza e de bondade. Quando penso em Bali me ocorre a imagem de um mosaico bizantino, uma utopia pagã, o que era na verdade.

Nunca havia ocorrido um crime na ilha, nem uma prisão, e nem havia um só guarda. Os jovens vão para os campos de arroz engalanados com lírios e voltam para tocar as músicas que têm fascinado os músicos por todo o mundo. Ali, através de Millie Collins, encontrei um artista e sua esposa, que estavam familiarizados com a Fé Bahá'í. Receberam-me com calor e conversamos sobre a receptividade que eles estavam certos de termos do povo de Bali, quando os panfletos que eu trouxera fossem traduzidos para o Baixo e Alto Bali. É uma pena que me esqueci de seus nomes, mas não me esqueci de sua cordialidade e das conversas que tivemos juntos, sentados em um jardim de frente para o mar e planejando trazer um vislumbre da glória celestial para os balineses.

Então veio a Guerra. O partido militar do Japão estava no poder e eles marcharam contra Bali; o que aconteceu eu não tenho meios de saber - apenas que as cartas que enviei me foram devolvidas. Será que meus amigos tiveram tempo de traduzir a mensagem bahá''í para o Baixo Bali? Foram feitos prisioneiros ou conseguiram escapar? Não sei e para lá não pude mais voltar.

32. OPINIÕES DIFEREM

Eu argumentei com um ministro e sua esposa, trazidos para bordo do Francônia por Agnes Alexander em Yokohama, Japão. Jesus era o Único Ser Divino jamais vindo à Terra, defendiam eles, enquanto que eu e Agnes insistíamos vigorosamente que a revelação era progressiva, evolucionária e contínua.

Eu argumentei com os padres zoroastrianos em Bombaim, índia; eles declaravam que ninguém poderia tornar-se um zoroastriano - era preciso haver nascido na Fé. Refutei essa afirmação de que o nascimento físico controlava a decisão espiritual. O crescimento e o progresso trazem a evolução ao reino dos homens. O padre na frente da fila balançou tristemente a cabeça. Ninguém respondeu. "Eu conheço os escritos de seu Profeta e sei que você não pode substanciar sua afirmação. A resposta é: "Tradição!" E espero que eles tenham refletido sobre isso!"

Eu argumentei com um Príncipe do Sião enquanto estava em Bancok. Sentamo-nos a admirar o Buda de esmeralda; é tão lindo quanto o pode ser um objeto religioso. Sente-se realmente o repouso da meditação que flue dele. Foi uma experiência inesquecível. O Príncipe era graduado em Oxford. "O Cristianismo havia falhado em atraí-lo", disse, "visto que não sentira em Jesus o modelo divino de Buda". "Mas cada Mensageiro de Deus tem uma missão especial; cada um acrescenta a perfeição de alguma qualidade; cada um dá ao mundo o conhecimento que construirá uma civilização mais avançada. Buda desenvolveu a faculdade meditativa; Jesus, o amor; e Bahá'u'lláh proclamou a unidade como meta para esta era."

Eu argumentei com um coolie (trabalhador braçal) em Xangai, que escarneceu da honestidade - longe de ser a melhor política, ele acreditava que era estupidez. O homem prudente faz a sua cama - não importa por quais meios. O resultado da desonestidade, assegurei-lhe, com o tempo seria o caos, confusão e a destruição final - ao passo que a

Verdade é a jóia no coração da vida coletiva e que assegura a preservação individual. "Bem, talvez eu não devesse roubar para mim, mas se eu roubo para você isso não é amor fraterno?"

"Então vamos os dois para a prisão," retruquei rindo, "você como ladrão e eu como receptadora de mercadorias roubadas. Quando estivéssemos livres ninguém confiaria em nós, ninguém nos daria emprego, e nos tornaríamos fugitivos".

"Talvez tenha razão senhora, vou pensar nisso;" e ajudou-me a descer do riquixá, dizendo que me visitaria no barco para que pudéssemos conversar mais. Ele veio, mas não sei qual foi sua reação final.

Eu argumentei com um prisioneiro na ilha Mindanao, na prisão de Zamboanga. Ele estava cumprindo sentença de prisão perpétua por causa de um momento de paixão cega. Ele julgava o veredicto injusto e encontrava-se num estado de rebelião. Eu repeti as palavras de 'Abdu'1-Bahá com respeito a sua própria prisão. Não existe prisão, exceto a do Eu. "É lindo aqui nesta ilha, e você só é trancado à noite. Você deve aprender a apreciar o grau de liberdade que tem - no céu e no mar, a mão do Criador é visível. Ajude seus companheiros de prisão e encontre um amigo entre eles. Embora você tenha recebido uma sentença por toda a vida, Deus tem poder para romper suas cadeias. Prometa-me que lerá todos os dias alguma passagem dos livros que estou deixando, e tenha fé."

Quando os japoneses invadiram a ilha, muitos prisioneiros escaparam talvez esse homem entre eles. Em meu coração sinto que ele está livre, ainda que eu não tenha nenhuma certeza disso.

Em todo lugar por onde viajei, discuti e argumentei que o Maior Evento da história tinha ocorrido; novamente Um Iluminado tinha caminhado pela Terra, criando uma vibração mais alta e derrubando barreiras e tradições.

33. CHEGAMOS À AUSTRÁLIA

O magnífico porto de Sydney é de uma profundidade de muitas braças, o que permite que os navios atraquem no próprio cais. Uma ponte suspensa de ferro trabalhado cruza uma das extremidades da baía. O porto fica repleto de mastros oscilantes e rebocadores em furioso movimento. O cais fica abarrotado de pilhas de fardos e caixas de todos os tamanhos imagináveis; apitos soam correntes rangem e guindastes se movem com suas cargas, e pode-se sentir o ritmo do comércio entre o Oriente e o Ocidente.

Em meu bolso eu levava o endereço do centro bahá'í, que não era longe do embarcadouro onde estávamos atracados. Não tive dificuldade em encontrá-lo e sentei-me em uma cadeira nos fundos da sala. No palco estava Hyde Dunn lendo um trecho de "The Foundations of World Unity," escrito por 'Abdu'1-Bahá.

Enquanto eu estava sentada, fragmentos da vida dele passaram diante de mim. Como certa vez Hyde ouviu que 'Abdul'1-Bahá dissera "Pudesse eu ir para a Austrália - mesmo descalço e pobre - e falar do Prometido que tinha vindo".

Em resposta àquele apelo o Sr. e Sra. Dunn, ainda que idosos e pobres, embarcaram. A despeito de muitos obstáculos eles insistiram e no primeiro ano Hyde ouviu uma voz interior dizendo-lhe para escrever a uma certa firma de Melbourne e solicitar um emprego. A resposta não demorou; ele estava autorizado a viajar pelas cidades da Austrália. Um homem admirável, de nome Whiterker, tinha ingressado na Fé em Sydney, e sempre que o Sr. Dunn estava ausente ele ministrava as aulas e continuava o trabalho.

Quando a Causa estava firmemente estabelecida, tanto em Melbourne como em Adelaide o indômito casal cruzou o Grande Deserto em direção a Perth onde encontraram Martha Root em sua viagem inicial ao redor do mundo. Eles haviam chegado em 1919 e agora em 1936 uma Assembléia Espiritual Nacional estava em vias de formar-se. Foi assim que Bahá'u'lláh colocou um tapete mágico para Seus discípulos e colocou-lhes nas mãos as chaves de um continente.

Um número de amigos voltou para o barco comigo naquela noite e lembro-me de que falamos sobre o Guardião, sua capacidade de captar as condições em qualquer parte do mundo, sua energia incessante e sua amorosa compreensão de nossas fraquezas, bem como de nossos esforços.

Uma reunião de jovens havia sido arranjada para a tarde seguinte. Fui apresentada pelo filho do prefeito e falei sobre 'O Objetivo da Nova Ordem Mundial". Os jovens australianos mostraram uma mente saudável e fizeram perguntas quanto à autoridade das provas para as palavras e princípios bahá'ís. A discussão foi tão vital que deu meia-noite antes que descêssemos as escadarias da Prefeitura. A lua cheia brilhava sobre a baía de prata, fazendo com que a delicada estrutura da ponte parecesse estar dependurada no espaço azul pálido. Era impossível ir para cama diante daquela beleza, de modo que dirigimos ao longo da praia e bebemos daquela magia sob o luar.

Na noite seguinte o governador e seu staff nos ofereceram um jantar. A mesa estava repleta de flores - e nenhuma que tivesse visto antes! Naquela terra distante há flores e animais de origem pré-histórica que não existem em qualquer outro lugar da Terra. Depois dos discursos, cada um foi solicitado a descrever algum incidente relativo à felicidade. Quando chegou minha vez, contei a história da Biblioteca de Portofino que provocou uma resposta tão viva que fui intimada a contar outras histórias bahá'ís. Depois daquela noite os pedidos de palestras começaram a chover, e nos movimentamos de um lado para o outro da cidade falando sobre a primavera da religião.

Depressa demais passaram-se os dias, até que chegou o momento da partida. Era domingo e todos os amigos vieram para um chá no navio. O sol se punha lançando raios coloridos sobre o convés que havia sido esfregado até ficar branco como a areia. Quando tomávamos o chá, os amigos contaram-me sobre Martha Root e Keith Ramson-Kehler e da impressão que causaram durante suas respectivas visitas. Quando as correntes da ancora começaram a ranger, o Sr. Dunn tirou do bolso vim livro de orações bahá'ís e leu a prece da partida. A Sra. Dunn acrescentou palavras de despedida. No mundo do espírito, tempo e espaço não existem. A fé se espalha pelo globo, criando novas e mais altas harmonias no coração do homem. À medida que a praia ia se distanciando, pensei nas grandes almas trabalhando por todo lado pela Causa e em como algumas das maiores estavam aqui, nesta terra distante da Austrália.

34. ESTRANHAS AVENTURAS NA NOVA ZELÂNDIA

A Nova Zelândia é dividida em duas ilhas, separadas por um largo canal de intersecção. As cidades de Auckland e Wellington ficam na ilha do Norte e a de Christ Church na do Sul. Estávamos agora a dezesseis mil quilômetros de distância das costas do Atlântico e apenas uma estreita faixa de terra, a Tasmânia, nos separava do Polo Sul. Em casa, a primavera estava chegando enquanto que aqui era outono, e embora o sol brilhasse, o vento soprava gelado. Eu havia remetido uma carta de Honolulu para a secretária da Assembléia de Auckland dizendo que esperava estar a bordo do Francônia quando ele atracasse, e que acharia o caminho para a casa dela o mais rápido possível. Antes da madrugada já estávamos atracados. Assim que o dia raiou a Comissária pôs a cabeça na porta de minha cabina.

"É melhor você se apressar e se vestir," disse ela, "há uma verdadeira multidão no convés de baixo perguntando por você".

"Por mim? Mas eu não conheço uma única alma aqui - deve haver algum engano."

"Eles parecem conhecê-la muito bem e estarão aqui em cima num instante."

Vesti-me apressadamente e quando abri a porta havia dezesseis bahá'ís alinhados no corredor. Para me dar as boas vindas deveriam ter se levantado antes da madrugada! Cada um deles repetiu a saudação bahá'í e colocou-me nas mãos flores ou uma delicada cestinha de frutas. Eu estava sem palavras. Que lição de cordialidade! Um deles, disseram-me, tinha tido um derrame, mas ainda assim viera até o cais. Eu olhei para baixo e vi uma cadeira de rodas com uma mulher enrolada em xales no meio de malas e barris. Apressamo-nos em nos juntar a ela. Os amigos disseram-me das muitas oportunidades que tinham arrumado para que eu falasse. Ninguém perguntou se eu estava habituada a falar em público. Era aceito que tudo o que pudesse levar adiante a Causa, eu o faria. Pedi sugestões, visto que eles conheciam melhor sua audiência, mas disseram-me que rezariam para que eu fosse guiada para dizer a coisa certa. Aquela sublime confiança foi contagiosa e comecei a me sentir alarmantemente competente e capaz de enfrentar qualquer emergência que aparecesse.

"Antes que eu dê um só passo," disse, "preciso comprar um cadarço para os sapatos. Junto-me a vocês num instante no Clube para tomarmos o café da manha".

Entrei numa sapataria, onde um homem munido de um longo cabo estava erguendo uma porta de aço para expor a vitrine. Olhou-me atentamente e foi para trás do balcão, voltando com um exemplar do jornal matutino. Ele apontou triunfante para minha fotografia. "Eu sei que você veio no "Francônia", e que ensina uma nova religião. Ao ler o artigo, eu disse a minha esposa que certamente gostaria de ouvir sobre uma nova religião, porque estou muito descontente com a que tenho. Chego a dormir na igreja e minha mulher tem que me beliscar para que eu não a envergonhe. Preciso de uma nova visão do reino celestial, e eis que aparece você para dizer exatamente isso!"

"Bem, já que é cedo, por que não nos sentamos e falamos sobre isso?" eu disse.

"Ótimo! Ótimo! Mas espere um pouco, na loja de couro lá em cima há um bocado de homens que gostariam de ouvir isso também."

Ele abriu uma porta nos fundos da loja e chamou: "Escute Joe, traga o pessoal para baixo. Há uma pessoa aqui que quero que eles conheçam".

O barulho do funcionamento das máquinas começou a diminuir até parar, e escadas abaixo veio vindo um bando de homens com aventais de couro que iam do pescoço até os joelhos. Eles se amontoaram dentro da loja. O sapateiro, um ator nato que teria cativado qualquer platéia, segurou o jornal mostrando uma série de fotos e apontou para a minha dizendo: "Quero que todos vocês escutem sobre a nova religião".

Nesse momento sua explicação foi interrompida por duas freguesas que pararam na entrada. "Por aqui, Senhoras." Ele as conduziu até um pequeno sofá encostado na parede. "Sentem-se aqui, e não façam nenhum movimento."

Hesitantes, as duas mulheres caminharam até o sofá e sentaram bem na borda, com os rostos alarmados. Decidindo que nenhuma outra interrupção deveria ocorrer ele fechou a porta de entrada e guardou a chave no bolso. Ele não se importou com o meu nome, mas prosseguiu a sua maneira fazendo minha apresentação, com profusão de gestos e pulando de um pé para o outro agilmente: "Esta pequena senhora que está diante de vocês viajou milhares de quilômetros através dos mares para nos falar de uma nova religião que surgiu no mundo, pois que há um novo Profeta, de quem até hoje nada sabíamos. Agora, se um grande acontecimento como esse transpirou, devemos saber a respeito e estou dando a vocês a oportunidade, e espero (olhando severamente para as duas freguesas) que vocês apreciem e tirem proveito disso".

Abri um pequeno livro que tinha na bolsa e li:

O advento dos profetas e a revelação dos Livros Sagrados têm a intenção de criar o amor entre as almas e a amizade entre os habitantes da Terra.

Condensei a Mensagem nos quinze minutos que tinha à disposição. Nunca tinha visto uma audiência tão extasiada - nunca houve uma mais atenta. Quando terminei, eles ficaram imóveis como se estivessem a quilômetros de distância dali, numa espécie de esfera mais elevada. Apertei a mão de cada um dizendo-lhes como os bahá'ís americanos ficariam interessados em ouvir sobre aquela nossa reunião matutina. As duas freguesas, grudadas uma na outra como se fossem um par de moluscos, voaram para a porta e a liberdade. Fiquei a pensar no que elas diriam sobre aquela aventura - "Fomos trancadas numa sapataria e alguém do estrangeiro estava falando algo - não pudemos entender o que". Enquanto isso o sapateiro e eu nos abraçamos como se já fôssemos velhos amigos e estivéssemos nos separando pela primeira vez. Ele compareceu a todas as reuniões públicas onde falei, trazendo a esposa e seus amigos, e nos correspondemos por muitos anos.

Quando cheguei ao clube os meus amigos estavam andando inquietos de um lado para o outro na varanda. "Onde é que você esteve?", perguntaram-me.

"Quando vocês ouvirem o episódio, entenderão. Jacó, pelo menos, tinha uma escada para subir aos céus enquanto que eu tinha apenas um cadarço de sapatos."

Uma reunião sobre os direitos da mulher foi programada no clube, e meus amigos em seu zelo pela difusão dos princípios bahá'ís, sugeriram que eu dissesse alguma coisa. Imaginem o horror que tomou conta daquelas frágeis criaturas quando a primeira oradora se levantou, e com os punhos fechados bateu na mesa num esforço para levar suas irmãs a um frenesi de ódio, repetindo sempre frases como "Abaixo os homens! Seu domínio já durou bastante! Devemos libertar o país de suas garras! Nós devemos liderar e eles serem os escravos!"

Com o fim das ácidas tiradas, a presidente virou-se para mim e perguntou se eu poderia dizer algo sobre a política na América. Respondi prontamente que eu era uma professora, e não estava qualificada para falar sobre política, mas que as mulheres americanas eram todas devotadas aos seus homens e talvez até um pouco preguiçosas e contentes por eles fazerem um pouco do trabalho. Mas, uma vez que estava ali contaria algumas histórias no interesse do companheirismo. Os aplausos mostraram que o companheirismo ainda era popular. Quando me sentei alguém perguntou se eu poderia continuar, visto que raramente eles tinham oportunidade de ouvir falar sobre assuntos da América. A presidente, com grande dignidade, respondeu que a reunião precisava prosseguir e as delegadas serem ouvidas e que, então, elas ficariam felizes de poder ouvir-me outra vez. A espinha do ódio havia sido quebrada. As oradoras que se seguiram não foram frias nem ardentes, e nenhuma idéia construtiva surgiu. De alguma forma o assunto acabou e me encontrei novamente no palco. Apeguei-me aos princípios bahá'ís, com referência especial à igualdade entre homens e mulheres, e como 'Abdu'l-Bahá comparava a família a um pássaro que não pode voar se lhe falta uma asa. Ele deveria ter ambas as asas para poder manter o equilíbrio e voar alto acima do chão. Contei mais algumas histórias para ilustrar os altos pontos da igualdade. Havíamos começado a manha como um centro de tempestade política, mas todos esses pensamentos haviam sido deixados para trás à medida em que avançávamos nos pensamentos bahá'ís que impregnavam a atmosfera. Tais foram as confirmações de uma simples manha. Pela força da oração e a confiança e humildade dos crentes elas tinham operado um milagre!

Todas as nossas tardes foram dedicadas a reuniões públicas. Só ocasionalmente nos permitimos o privilégio de gastar uma hora só para nós, quando podíamos discutir os excitantes acontecimentos em progresso - a formação da Assembléia Espiritual Nacional para a Austrália e Nova Zelândia, e a construção do templo em nosso país. Meu marido pediu ao capitão do Francônia para nos deixar realizar uma festa a bordo, e dissemos a ele que os maoris viriam para cantar e dançar para nós. O capitão sacudiu a cabeça:

"Tenho entrado e saído deste porto por vinte anos. Frequentemente alguém promete que os maoris virão, mas eles nunca o fazem. Sempre há uma desculpa, uma nota gentil de explicação ou então alguém aparece e nos diz que eles não poderão comparecer."

"Mas, capitão," eu disse, "esses maoris são bahá'ís. Quando eles dão a palavra, cumprem-na. O senhor verá".

Naquela noite cerca de cem pessoas lotaram o salão de baile e quando os maoris vieram, sua belezas negra ficou ressaltada pêlos xales brilhantes e as saias enfeitadas. Eles trouxeram um conhecido cantor maori para que pudéssemos ouvi-lo cantar suas lendas. Os dançarinos seguravam bolas de poi, feitas de um delicado trançado de palha colorida e presas aos seus pulsos. Conforme a dança prosseguia as bolas eram jogadas em círculos graciosos. Quando o tema é triste, elas se movem lentamente, e quando é alegre, depressa. Não pude deixar de pensar que as bolas se pareciam com um beija-flor em seus movimentos, e podem bem ter sido copiadas dessa fonte de inspiração. O capitão, com os olhos abertos como pires, ficou parado na porta, incapaz de acreditar no que seus olhos estavam vendo. Os famosos dançarinos maoris giravam e se contorciam com incrível graça e beleza. Há algo rítmico que penetra na atmosfera quando raças diferentes se unem em harmonia. Ninguém presente aquela noite, estou certa, jamais se esquecerá do que viu. A realidade vem nas asas do espírito. Quando está presente, afasta para longe a tristeza e os cuidados, e você habita por um momento no jardim secreto da felicidade.

Wellington fica a uma noite de viagem de Auckland, de barco. Navegamos ao longo da costa, cujas colinas arredondadas deram lugar a uma paisagem austera. Pela madrugada, uma fina faixa de água podia ser vista a correr por entre as escarpas agudas. A corrente serpenteava, até que finalmente se abria como um leque dentro da ampla baía. Aqui o vento sopra constantemente, e para proteger seus jardins os moradores colocam muros de pedra em torno das casas e ramos de pinheiro são espalhados em seu topo.

Há quatro bahá'ís em Wellington, um casal de irmãos vindos da Inglaterra e um escocês e sua esposa. Eles arranjaram uma reunião no clube, chamado "O Liceu". Mas, primeiro eu tinha que tomar a famosa estrada da qual eles tinham um justificado orgulho. Atingindo o topo de uma colina pode-se ver inúmeros vilarejos na orla marítima. São todos de colonos noruegueses, que só falam sua própria língua. Aqui também estão as areias movediças, com suas camadas móveis de areia que prendem e engolem o que quer que as toque. Avisos são colocados ao longo da bela praia para prevenir os incautos e mantê-los afastados. Quando se contempla aquela linda praia e se dá conta de seus terrores, compreende-se que em qualquer reino existem armadilhas. Voltamos para o clube. Estava arrumado com muito bom gosto, com cortinas de tons alegres, um piano, e muitos livros. Falei sobre a tradição e pedi que tirassem os óculos ancestrais que os induziram à miopia. Bahá'u'lláh nos diz em Os Sete Vales:

Quando a contemplação do peregrino está restrita a um lugar, apenas, ou seja, quando ele olha através de vidros de diferentes cores, eleve amarelo, vermelho, ou branco. Devido a esta visão, o conflito é incitado entre os servos, e um pó obscurecedor surgindo da limitação humana envolve o mundo.

Das vinte pessoas presente, quinze ficaram e nos acompanharam de volta ao Francônia, que deveria zarpar no fim da tarde. Fiquei penalizada por aquelas bravas almas, fortes na Fé mas limitadas em seus esforços pelo pensamento tradicionalista das pessoas ao seu redor. Quão rápido acabou o dia! Quão rápido o navio estava navegando pela faixa de água que se dirigia ao mar aberto!

35. AULA BAHÁ'Í EM ALTO MAR

Quando se cruza o Oceano Pacífico, eventualmente se chega ao Meridiano 180. O tempo em nosso planeta é determinado a partir dessa linha imaginária. É conhecida como "A Linha Internacional de Mudança de Data" e embora não perturbe o mar, provoca vim bocado de confusão no calendário. Digamos que se chegue ao Meridiano na quarta-feira, e se está navegando em direção ao Oriente! A quarta-feira se transforma em terça-feira. Mas, se a direção é para a América, a quarta-feira se transforma em quinta-feira. Não importa em que dia se comece, este é rudemente deixado de lado e acaba se ganhando um novo dia pelo qual não se pediu e nem se desejou.

Essa mudança tipo Alice-no-país-das-maravilhas, deu-me uma rasteira cada vez que cruzei a Linha Internacional de Mudança de Data. Todavia, não interferiu com as aulas bahá'ís que ministrei durante três meses consecutivos em alto mar. Regularmente, duas vezes por semana, apareceu no boletim de bordo esta notícia:

"Aula bahá'í esta tarde, no Auditório C, às 16,00 hs."

As ansiedades e perplexidades da vida diária desaparecem quando se está no mar. As pessoas ficam mais dispostas a ouvir, mais abertas a novas idéias, e não tão retraídas. Durante anos tive repercussões daquelas aulas por todos os lados do país. Por exemplo, um dia eu estava andando pela rua em Saint Paul, onde não conhecia ninguém, quando uma mulher correu para mim segurou-me pelo braço, dizendo: "Oh, estou tão contente por encontrá-la novamente, porque embora você não acredite tenho falado a meus amigos sobre a fé bahá'í - e por minha vida, não me lembro do nome do intérprete - aquele que veio para a América".

"A Sra. quer dizer 'Abdu'1-Bahá?" perguntei. "Sim, é claro! 'Abdu'1-Bahá! como sou boba por ter esquecido tal título - obrigada, muito obrigada!" e saiu tão depressa quanto chegara.

Certa manhã a aula bahá'í tinha dois novos alunos. Ambos confidenciaram a razão especial que os tinha induzido a juntarem-se a nós. "Quando eu era criança meus pais vieram em visita aos Estados Unidos. Era 1912, e estávamos no Cedric com 'Abdu'1-Bahá e sua comitiva persa. Minha família ficou profundamente impressionada com a aparência de 'Abdu'1-Bahá, ainda que não houvessem trocado uma palavra. Mas, um dia eu passei pela cadeira onde o Mestre estava sentado no convés, com os olhos fechados. Quando me aproximei, ele abriu os olhos diretamente para dentro dos meus. Aquele olhar - aquele olhar inesquecível - ficou gravado em minha alma. Cada parte de mim estava exposta ao seu escrutínio. Se ele não aprovar nada em mim, pensei, eu morro. Naquele momento um sorriso gentil iluminou seu rosto e me libertou do terror. Os soluços me sufocaram, as lágrimas desciam abundantes pelo meu rosto, e foi assim que minha família me encontrou. Eu não estava em condições de explicar o que havia acontecido, e em todos esse anos de minha vida, aquele foi o momento de realidade - sempre vivo em minha mente. Mas eu não havia ligado você a 'Abdu'1-Bahá até este momento. Agora eu quero estudar e entender seus ensinamentos. Como é estranho que novamente eu esteja no mar quando notícias dessa revelação chegam até mim."

Eu perguntei se a personalidade do Mestre havia impressionado os passageiros. "Oh, sim, todos falavam sobre seu porte majestoso, sua forma nobre de andar, e, sobretudo da estranha luz branca que o seguia por onde fosse."

Quando viramos para o sul e a brisa refrescou, outra passageira veio perguntar se poderia juntar-se à classe naquela tarde. "Quero entrar," disse ela, "por causa de um sonho muito estranho que tive a noite passada. Sonhei que estava em uma rodovia com muitas estradas cruzando-a em várias direções, e fiquei confusa sobre qual delas deveria tomar. Saí do carro e andei até uma grande placa de sinalização em um dos cruzamentos. Olhei para cima e vi que uma linha havia sido traçada sobre a seta indicativa e sob ela estava escrito com letras grandes, "Este é um novo ciclo do poder humano - este é o novo caminho, pegue-o porque ele conduz ao reino que você está procurando." Esta manhã eu peguei o pequeno panfleto azul que está na mesa da Biblioteca e li: "Este é um novo ciclo do poder humano".

Interessante na classe, era uma jovem americana casada com um chinês. O casamento havia recebido oposição dos parentes de ambos os lados. Lendo em nosso panfletos que "O homem é a imagem de Deus, portanto, cor ou raça não são importantes," resolveram juntar-se a nós.

A aula tinha assistentes sociais, profissionais, tanto homens como mulheres, velhos e jovens. Após cada lição tínhamos discussão aberta. Certa tarde, uma senhora que tinha freqüentado as aulas mas nunca tinha participado das discussões, falou à classe: "Sou uma estudiosa do ocultismo, e vim para aprender o que os ensinamentos bahá'ís têm para dizer sobre esse assunto da maior importância. Honestamente, fiquei desapontada uma vez que as aulas deixaram de lado esse assunto. Os Mestres do Oriente elevam-nos até as alturas! Na índia e no Tibete há homens que controlam de tal forma sua respiração que podem ser enterrados vivos sem qualquer dano. Eles podem voar pêlos ares e caminhar sobre a água. Isso indica um alto grau de conquista espiritual. Não está isso acima dos ensinamentos que você tem dado?"

"Esse assunto é do interesse de todos nós," respondi, "embora você possa se desapontar novamente, porque não concordo com o que disse. 'Abdu'1-Bahá nos garante que do encontro de opiniões surge a verdade. Bahá'u'lláh nos deu vim programa social, uma Nova Ordem Mundial para criar um grau mais alto de civilização. Ficar enterrado durante dias significa a perda de horas preciosas; nem qualquer benefício para a humanidade é gerado de tais fenômenos. 'Abdu'1-Bahá escreve: "Ocupar-se com forças psíquicas enquanto ainda neste mundo, interfere com as condições da alma no mundo por vir. Essas forças são reais mas não devem ser ativas neste plano". Suponhamos que o capitão deste navio, ao invés de estar ao leme quando cruzamos a Grande Barreira de Recifes estivesse lá fora andando sobre o mar da Tasmânia. Como nos sentiríamos? O medo do desastre, por acaso, não sufocaria todas as nossas outras sensações? Mas, dentro de nosso mundo existe vim mundo espiritual que nada tem a ver com os fenômenos psíquicos, mas que está ligado ao espírito. Ele pertence à alquimia do espírito. A realização do eu espiritual em nós mesmos significa a realização da verdade sublime de que viemos de Deus e para Ele retornaremos. Esse retorno a Deus é a meta gloriosa dos bahá'ís."

36. ENCONTRO COM OS CANIBAIS DA NOVA GUINÉ

Ao longo de todo o trajeto pelo Pacífico, carreguei comigo uma carta para uma bahá'í que vivia isolada em Port Moresby. O porto não tinha cais e fomos levados até a praia em pequenas canoas. Realmente senti pena da Sra. Smith, vivendo naquelas paragens solitárias! Andei para cima e para baixo pela rua do comércio perguntando o endereço da Sra. Smith, e o vendedor de tecidos indicou-me uma colina próxima cheia de casas brancas. Os raios de sol incidindo diretamente nas vidraças faziam com que as casas parecessem estar sempre em movimento. Não parecia muito longe, mas o termômetro registrava 36°C e o ar estava carregado de umidade tropical. Eu não tinha ido muito longe quando meus joelhos se vergaram e tive que me sentar. Havia uma pedra de aspecto bem confortável ao lado, mas quando coloquei as mãos nela estava quente como um forno, de modo que sentei no chão mesmo, tentando restabelecer meu equilíbrio. Logo, um soldado inglês surgiu no alto da colina seguido de sete nativos. A poucos passos de mim eles pararam e o jovem comandante tirou o capacete e começou a se abanar.

"Um cruzeiro?" ele perguntou, apontando para onde o Francônia tinha lançado âncora. Acenei afirmativamente, "Mas eu não fazia idéia de um calor assim." "E eu não sei?!" exclamou ele, "pois já agüentamos cinco quilômetros nele". "Mas vocês têm que andar? Não existe outra maneira de andar p ela ilha?"

"Geralmente nós voamos - não existem estradas no interior - alguns pôneis perto do porto - mas eles são inúteis no meio da selva. Não se pode usar um avião no lugar de onde vim - tem que andar mesmo. Vimos a fumaça de fornos tribais logo cedo esta manhã, e já tínhamos ouvido falar que havia luta. Sabíamos o que esperar."

O súbito conhecimento do horrendo crime parou as batidas de meu coração: "CANIBAIS" consegui murmurar quase sem fôlego. Ele acenou afirmativamente. "Na verdade, eles não são maus - não deram um pingo de trabalho, apagaram os fogos e vieram comigo. Eles sabem que nosso governo não permitirá essas práticas pagãs. Mas, e aqui é que está o problema - faz parte da religião deles. Até onde as tribos se lembrem, o costume é que o inimigo tem que ser devorado. A crença é que as qualidades são transferidas - que a bravura entra na tribo consumindo-se o vencido; mas, temos que ser condescendentes e tornar a punição leve. O cristianismo parece tê-los confundido ainda mais, porque eles encontraram na comunhão um padrão semelhante a sua própria crença, e na crucificação uma graça salvadora através do derramamento de sangue. De modo que não sabemos como tratar o problema - nós apenas os prendemos e deixamos as coisas como estão!"

Superstição! Quão lentos somos em sua cura! Bahá'u'lláh colocou a ciência ao lado da religião para nos dar uma faca de dois gumes a fim de combatê-la. Mas será que nós do mundo civilizado estamos livres dela? Lembro-me que os apartamentos de Nova Iorque omitem o número 13, e pulam dos 12 para o 14 temendo que as pessoas acreditariam ser má sorte morar no décimo terceiro andar. Os pedestres andam pela rua para não passar sob uma escada, batemos na madeira, cruzamos os dedos t damos sinais evidentes dessas crendices no mundo inteiro.

Minhas meditações foram interrompidas pelos nativos que se movimentavam. Subitamente lembrei-me da carta que tinha ido levar e apelei para o soldado quanto ao endereço da Sra. Smith. Ele balançou a cabeça, "Eu não conheço as mulheres, mas o carcereiro com certeza conhece. Ele conhece todo mundo aqui, e pode lhe falar sobre todos. Ele é o nosso jornal".

Juntei-me ao cortejo. Primeiro o tenente, depois os nativos arrastando os pés na poeira espessa, e finalmente eu na retaguarda. A cadeia era apenas uma casa com madeiramento cor de rosa, barras nas janelas e o carcereiro, um tal Sr. James, pegou o envelope que lhe estendi e olhou-me com um olhar de reconhecimento, observando: "Ah, Sra. Smith - ela é uma excelente pessoa, mas não se encontra aqui no momento. Ela embarcou segunda-feira passada no "The Empress" que foi para Sydney, comprar roupas para suas três crianças. Como crescem aquelas crianças!"

Os prisioneiros se amontoaram numa única janela, acenando timidamente para mim e quando passei um deles colocou-me uma flor murcha nas mãos. Será que ela tinha enfeitado a fronte de algum guerreiro durante seu trajeto para a batalha ao pálido amanhecer? Quem poderia dizer?

Quando me virei para sair o Sr. James chamou-me. "Como sua companheira de religião não está aqui, por que não vem comigo para assistir um batismo nativo? Vale a pena ver uma vez, e direi à Sra. Smith que procurei entretê-la enquanto estava fora."

Ofegante e transpirando apressei-me, tentando acompanhar o passo dele. Logo estávamos na praia, onde as casas dos nativos são construídas em palafitas sobre a água. Subimos um frágil lance de degraus até um quarto sem portas e com tábuas do assoalho tão separadas umas das outras que tínhamos que saltá-las, e por baixo de nós corria a água escura. Não havia mobiliário algum no quarto. Um representante do governo estava sobre uma das tábuas e o pai do menino em outra. Pendurado na parede, embrulhado em alguma coisa, estava o bebe e dentro de uma cesta de vime estava um porco. O bebê não soltava um som, mas o porco gemia mansamente e o pai se dirigiu a ele: "Oh, porco, nós o estamos enviando aos deuses do no e aos deuses da floresta, e queremos que lhes diga que somos pessoas pobres. Não podemos mandar-lhes presentes finos, como nossos vizinhos, porque temos pouco peixe e pouca terra, e quase não há o que comer. Você não se esquecerá de dizer isso a eles, não é porco? E importante que eles saibam e nos ajudem".

O porco, receio, estava mais preocupado com o seu destino imediato do que com mensagens para deuses distantes e começou a berrar com todas as forças. O pai pegou a cesta e, com uma longa faca entre os dentes desceu pelas escadas. Os sons de protesto do porco eram horríveis, mas logo se fez silêncio e o pai retornou, com o fígado do porco sobre uma tábua. Sobre o fígado curvaram-se o representante do governo, o carcereiro e o pai do bebe. A adivinhação através do fígado do porco era um problema complicado e sutil. O pai, um pessimista nato, parecia não encontrar nenhuma notícia boa nos volteios de vida simbolizados pelo fígado. Mas o representante do governo, cujo dever era encontrar algo encorajador, apontou para um ponto branco: "Isso é de bom augúrio", ele observou. O Sr. James, sempre dramático, assumiu a dianteira e pondo-se ereto espalmou as mãos e falou como se recitasse, "O menino ficou no convés em chamas", exclamou, "O menino irá para o mar - ele irá para o mar!" Ao ouvir essas palavras o pai do menino olhou com sarcasmo para o carcereiro e disse: "E o que mais ele poderia fazer, é o que quero saber". O Sr. James, que evidentemente havia antecipado o comentário soltou a bomba: "Eu não vejo a pescaria como meio de vida neste fígado. O que vejo é serviço - serviço na marinha de Sua Majestade, nada menos - aqui estão as marcas - as marcas de uma carreira da qual se orgulhar".

Eu podia ver que o pai não estava totalmente convencido do futuro brilhante de seu filho, mas não podia discutir com um superior e deixou por isso mesmo. O representante do governo parecia grandemente aliviado ao ouvir que o futuro estava acertado e saiu rapidamente. Quando saímos também pude ver os olhos da mãe do bebe grudados numa fenda da parede. Descemos rapidamente os degraus e quando ninguém mais podia nos ouvir, o representante enxugou a testa suada, "Eu não entendo nada sobre essas coisas e se não tivesse vindo conosco, Sr. James, penso que aquela faca estaria agora no meio de minhas costelas".

O Sr. James, recebeu esse comentário com indisfarçável orgulho, "Eu só me adapto aos seus velhos costumes," ele disse, "e lhes digo o que eles querem ouvir, assim como o faz qualquer adivinho que lê a sorte." Assim dizendo, partimos pelo longo cais, eu com aquelas aventuras perturbadoras guardadas em meu peito.

37. UMA MANHÃ EM MANILA

Era o começo da primavera quando o Francônia entrou na baía de Manila. Antes da invasão japonesa a cidade parecia feita de algodão doce - tudo era branco, rendilhado, e fugaz como uma cidade de sonho. Tínhamos cerca de doze horas em terra - tempo para colocarmos da melhor forma possível os panfletos em espanhol. Mas quando a prancha estava sendo descida o boletim de bordo anunciou que zarparíamos ao meio-dia, por causa da maré e do vento e outros assuntos que não comportavam discussão.

Corremos para o cais, subimos num coche e pedimos ao cocheiro que nos levasse a uma livraria - a maior e melhor que houvesse na cidade. Ele acenou afirmativamente, e dirigi vi rapidamente, deixando-nos diante de uma loja grande e imponente. Explicamos ao homem atrás do balcão o propósito de nossa visita. "Não," disse ele, sacudindo vigorosamente a cabeça, "nenhum livro poderia ser aceito ou vendido aqui sem o carimbo do Arcebispo de Manila". Deveríamos ir imediatamente e conseguir aquele carimbo. "Mas," eu disse calmamente, "Não é vim livro católico". Ele pareceu horrorizado - "nunca um livro desses seria colocado naquelas prateleiras, nem em qualquer lugar da cidade!" Aquelas palavras provaram-se infelizmente verdadeiras - a qualquer lugar que íamos a resposta era sempre a mesma - só se tivesse o carimbo do Arcebispo. Duas horas perdidas - gotas de ouro de tempo caindo no espaço - o que poderíamos fazer?

Havia vim colégio em Manila? Sim, e o cocheiro apresso vi o cavalo e fomos para a casa do presidente. A recepção foi cortês. Se a literatura era anti-católica, disse o presidente, eles não a queriam. "Oh não," eu respondi, "não é contra nada, mas dedicada a princípios universais que dizem respeito a todas as religiões e as aproximam mais". Após um tempo considerável de reflexão ele disse, "Na faculdade temos uma pequena prateleira dedicada às religiões comparadas - está superlotada mas podem tentar - o bibliotecário é um homem de mente muito liberal".

Agradecemos e saímos rapidamente, mal nos atrevendo a olhar para o relógio. Uma viva ansiedade devia ter transparecido em meu rosto quando me dirigi ao bibliotecário pedindo-lhe que aceitasse alguns panfletos para a prateleira das religiões comparadas. Segurei o menor deles para que visse quão pouco espaço ocuparia. "Muito bem," ele respondeu cuidadosamente, "vou levar um deles para a outra sala e dar uma olhada, talvez possamos ficar com um aqui".

Andei pela estreita sala o tempo todo, orando fervorosamente e pedindo a Bahá'u'lláh que abrandasse o coração daquele homem para permitir que aquelas palavras permanecessem na ilha. Em curto espaço de tempo o bibliotecário voltou sorrindo e disse, "Não há nada adverso em seu livreto. Pode colocar um ou dois dos panfletos em espanhol na prateleira de cima que está ali". Apressei-me e afastei os grossos volumes com todas as forças, e deixei quatro pequenos volumes brilhando em meio às antigas crenças que ficaram de ambos os lados.

Assim que soou o gongo para os últimos quinze minutos antes da partida, subimos a prancha. Vir de tão longe, conseguir tão pouco, era o triste refrão em meu coração. Mas, esta é a Causa de Deus e não somos nós, é ELE, que faz brotar a flor e nascer o fruto!

Quando o Francônia atracou em São Francisco em abril de 1938 uma carta esperava por mim, com a marca dos correios das Filipinas e assinada "Maddela". Então li: "Após alguns dias que você esteve em Manila, deixei Solano e vim para essa cidade a negócios onde, tendo um pouco de tempo livre, entrei na sala de leitura da biblioteca de uma faculdade. Na prateleira das religiões comparadas encontrei quatro livros novos. Peguei um e sentei fascinado. Era a religião que eu estava procurando! Um após o outro, li os quatro livretos esquecido do tempo e do lugar. Finalmente, peguei um lápis e escrevi sentença após sentença. Como em um sonho retornei a Solano; chamei minha esposa e o pessoal da família e disse-lhes que a religião que tanto havíamos procurado era a fé bahá'í e que todos devíamos abraçá-la".

Antes que se passasse muito tempo a comunidade bahá'í tinha crescido para cinqüenta membros. Quando a guerra irrompeu cessaram todas as comunicações com os Maddela e com a Assembléia Bahá'í de Solano. Os meses perturbadores se arrastaram até o verão de 1945. Então, em setembro, mais uma vez as notícias chegaram das Filipinas -desta vez através de um devotado bahá'í, Alvin Blum, ligado a uma unidade médica do exército americano.

"Deixei o 249° Hospital Geral em Manila," escreveu o sargento Blum, "onde estou lotado e peguei carona por mais de trezentos e cinqüenta quilômetros até chegar a Solano onde encontrei sua Assembléia Bahá'í. Solano está em ruínas. Era uma próspera cidade com mais de vinte mil habitantes antes da guerra, e agora está reduzida a uns poucos milhares. Logo encontrei os Maddela, felizes e plenos em espírito ainda que em condições de pobreza.

Antes da guerra eles eram influentes e bem estabelecidos, mas quando os japoneses chegaram, foram forçados a abandonar tudo e fugir para salvar suas vidas. Agora, com dez pessoas vivendo juntas eles têm apenas uma cabana de um só quarto, coberta de capim. Eles cozinham ao ar livre e os pratos e utensílios de cozinha são rudes e feitos à mão. Dos cinqüenta bahá'ís, vinte e cinco foram monos ou estão desaparecidos. Por três anos os Maddela se esconderam nos arrozais, vivendo em tais condições que chega a ser um milagre o fato de terem sobrevivido. Como resultado dos bombardeios e das terríveis condições, os cabelos do Sr. Maddela ficaram totalmente brancos e ele ficou completamente surdo. Todos ficaram muito felizes em ver um bahá'í, seu primeiro visitante, e falamos de nossa amada Fé até a noite cair e então fui para um hospital próximo, para dormir. Ali consegui comida e roupas para eles e pela manhã tivemos outra alegre reunião. Eles são excelentes pessoas e muito inteligentes; tanto o Sr. como a Sra. Maddela ensinavam na escola. Antes da guerra eles tinham construído um Centro Bahá'í com grande esforço, e tinham colocado uma placa na entrada convidando a todos para vir até a sala de leitura bahá'í. Finalmente, eles me contaram que quando puderam sair de seus esconderijos nos arrozais, haviam encontrado uma cidade em ruínas e seu lar destruído. Só uma coisa estava de pé! Era uma placa onde se lia:

"CENTRO BAHÁ'Í - SALA DE LEITURA
TODOS SÃO 'BEM-VINDOS'!"
38. O PORCO FILANTROPO

A linha Dollar nos deixou em Honolulu, em nosso retorno do Oriente. Oh, a alegria extasiante de ver formas e contornos familiares. Oh, a alegria de estar em terra consagrada pela lembrança. Como tudo parecia familiar depois dos panoramas e cenas de lugares estranhos. Os bahá'ís estavam felizes também, e passamos muito tempo juntos. Tanto para ouvir - tanto para dizer - que parecia não haver fim em nossas conversas! Certa noite uma das enfermeiras, que é bahá'í, chamou-me de lado: "Estou triste hoje" ela disse, "e meu coração está pesado; algo muito ruim foi feito a um de meus pacientes. Ele é um pobre homem com câncer no rosto e a doença o impede de trabalhar. Mas ele tem conseguido viver criando porcos. Na noite passada, ladrões entraram no chiqueiro e roubaram a Mãe Maisie, que estava para dar cria e fazer Noel feliz. Esta manhã encontramos o chiqueiro vazio!"

"Deus do Céu", exclamei, "deve haver mais que um porco nesta ilha. Por que não compramos um?" No triunfo de estar voltando para casa, um simples porco não era obstáculo sério.

Meus amigos bahá'ís balançaram a cabeça, "Não adianta procurar por ela. Sem dúvida que a esta altura já está morta e esquartejada".

"Bem, não uma exatamente igual", exclamei, "mas um tão bom quanto ela".

"Você acha realmente que pode encontrar um?" ela disse em tom de dúvida.

"Se eu posso comprar um porco? Ora, é claro que sim. O que na face da Terra me impediria de fazê-lo?"

"Eu não sei," ela respondeu tristemente, "sei que é difícil e complicado - mas se você acha que pode seria um ato de caridade".

"Deixe comigo", eu disse entusiasticamente. "Deixe comigo."

"Muito bem", ela disse e ia começar a me darás razões para suas dúvidas, mas acabou desistindo e apenas sorriu e se afastou.

Lentamente, os fatos sobre a venda de animais de criação foram agrupados. O mercado ficava em Pearl Harbor, distante cerca de quarenta quilômetros do Hotel Halekulani onde estávamos hospedados. A hora para a venda de animais era às três da manha. Freneticamente eu procurei por um homem que tivesse uma carroça e que estivesse disposto a andar pelo meio da noite. Os empregados do Hotel balançavam a cabeça. Nunca haviam visto alguém mais maluca em toda a vida! Mas, por volta das onze horas encontrei uma alma generosa, na pessoa de um rapaz chinês da lavanderia. Ele unha um primo e esse primo tinha uma carroça, e não se importava em levantar-se bem cedo. Fizemos um acordo. Meu guia era parte chinês e parte havaiano, com um pouco de sangue malaio e, na verdade, tinha a destreza das três raças juntas. Ele conhecia atalhos ocultos aos olhos dos motoristas e seu cavalo aparentemente cansado, manteve um ritmo surpreendente. Sacolejando por estradas vicinais e caminhos sem estrada, chegamos ao topo da colina quando o relógio da Marinha batia exatamente três horas. Era urna verdadeira confusão. Gritos e grunhidos rasgavam o ar, cavalos relinchavam, vacas mugiam, galos cantavam - sozinhos ou em coro. Mal conseguíamos nos fazer ouvir. Homens com archotes e aventais brancos cheios de manchas abriam as portas dos chiqueiros e chamavam uns aos outros. Eu não estava preparada para aquele conglomerado fervilhante de vida animal e muito perturbada, perguntei timidamente: "O que é que eu vou pedir?"

"Peça uma porca que esteja para ter os filhotes imediatamente," ele respondeu. Caminhei pela passagem entre os chiqueiros até que cheguei ao animal mais gordo que havia lá, com os flancos tão estufados que parecia encher todo o espaço disponível. Puxei a manga de um homem. À meia luz do lugar ele parecia ter certa semelhança com o animal no chão. "Esta porca está para dar a luz?" arrisquei. "Claro! Você terá sorte se chegar até em casa." Meu guia estava colado em meus calcanhares para fechar o negócio e ajudou rapidamente, "Vou pegar a carroça e conseguir ajuda".

A operação não foi de forma alguma simples. Para passar o tempo, comprei um rolo de tecido para mosquiteiro e enfeitei a porca, amarrando largas faixas em torno de sua barriga volumosa, uma faixa dupla fofa em seu rabo torcido e laços em torno das orelhas. Quando o monstro estava firmemente atado na carroça, saímos. Refleti que a enfermeira tinha razão em suas dúvidas - a coisa toda era realmente bem complicada!

Chegamos ao chiqueiro vazio e meu cocheiro prontamente conseguiu uma prancha, a qual, com muita presença de espírito havia trazido junto. A prancha foi colocada atrás da carroça e a porca foi induzida, por bem e por mal, a se mover até que pudesse ser colocada no chiqueiro. Eu estava exausta, assim como o cocheiro. Quanto ao cavalo, suas patas se arrastavam - sua cabeça roçava o chão. Acredito que os três dormimos naquela viagem.

No fim da tarde sugeri à enfermeira que fôssemos até à fazenda para ver como as coisas estavam indo. Era um lindo dia de sol líquido, que é como chamam as rápidas pancadas de chuva. Conforme nos aproximamos de um campo perto da fazenda, vimos pessoas ajoelhadas na grama. A enfermeira, reconhecendo vários deles na multidão perguntou "O que é isto? O que aconteceu?"

"Você não ouviu? Ora, aconteceu um milagre! E a festa de Santa Ana e ela atendeu às preces de Noel e lhe mandou uma porca - se não acredita olhe dentro do chiqueiro, ainda há fiapos de nuvem grudados na criatura!"

Quem éramos nós para perturbar os devotos? Silenciosamente subimos no veículo e saímos de cena. Olhamos uma para a outra. "Sim," dissemos, "nós também acreditamos em milagres!"

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Parte VI
ÁFRICA DO SUL
39. HORIZONTES ABERTOS

África! Devíamos ficar ancorados por dez dias nesta terra desconhecida antes de zarpar para o Oriente através do Oceano Índico. E foram dez dias gloriosos. O primeiro ministro era o marechal Jan Smuts e foi necessário pedir-lhe autorização para falar em público antes de colocar os pés na plataforma. Enviei uma nota dizendo que eu era bahá'í e que desejava falar sobre isso. Em sua resposta ele disse que admirava grandemente os princípios bahá'ís mas que religião era um assunto tão polemico que esperava que eu escolhesse outro tema. Assim como na América do Sul, onde fui forçada a abrir a campanha falando em um teatro, uma idéia me veio à mente, sobre como satisfazer a lei e ao mesmo tempo dar a Mensagem. Mas, é preciso voltar um pouco atrás. Meu marido tinha cartas de apresentação para o Sr. e Sra. Askerland e eles arranjaram uma reunião pública para mim em um belo clube e convidaram a elite de Capetown. O primeiro ministro mandou flores e estava representado por um alto dignitário. Haveria uma ceia depois. Vestida com minhas melhores roupas subi ao palco e anunciei que depois de uma curta palestra sobre o milagre dos Alimentos Congelados (um produto recém-surgido nos mercados americanos) eu me juntaria a cada grupo durante a ceia e falaria de algo vital, inspirador e impossível de ser revelado de um palco naquele momento. O método funcionou além de meus sonhos mais delirantes. Eles iriam ouvir algo especial - como um segredo e à medida que me sentei em cada mesa deram-me a máxima atenção. Eles me questionaram -expressando o interesse que todo professor gosta de despertar. No final das contas, a reunião acabou mesmo sendo bahá'í.

Visitamos as Cataratas Vitória, um lugar que meu marido tinha muita vontade de conhecer. Quase um quilômetro e meio de água jorrando! Ela não apenas caía, mas rugia e espumava e cobria a floresta com o vapor. O ser humano era uma mancha insignificante diante de um poder da criação como aquele. Fiquei feliz em sair dali, ainda que

excitada pela oportunidade de contemplar aquela força poderosa. Em seguida entramos no Parque Nacional Kruger, uma das maiores reservas de vida selvagem do mundo. Felizmente o cheiro da gasolina é incomodo para os animais, de modo que se pode dirigir entre eles, se as janelas estiverem fechadas, com a maior tranqüilidade. Um bando de leões estava estirado no meio da estrada e fomos forçados a dirigir na borda da valeta, mas nem um músculo ou orelha se moveram nos reis da floresta. Os tigres estavam nervosos e

somente seus olhos amarelados apareciam em meio aos arbustos quando passamos.

Eu deveria falar em Bulawayo para os professores e ministros que para isso me haviam convidado. Meu trem estava com quatro horas de atraso e a chuva caia a cântaros. Minha platéia, todavia, havia esperado e receberam minha palestra com calor e verdadeiro interesse. Foi uma reunião da qual nunca me esquecerei. Quando terminei, pedi se alguém poderia distribuir os panfletos bahá'ís para mim, já que deveríamos zarpar no dia seguinte. Um homem magro ergueu a mão, o Rabino de Bulawayo. Até sua morte, cinco anos depois, nós nos correspondemos e ele espalhou em sua área mais de setecentos panfletos bahá'ís. Essa cidade tem as ruas mais largas do mundo, pois foram traçadas para comportar entre dezoito a vinte juntas de bois.

Bem no alto dos rochedos arredondados fica o túmulo de Cecil Rhodes, um lugar que sugere bem os ásperos princípios da civilização. É uma cidade com educação em progresso e um povo adorável.

Embarcamos em Durban. Debruçados na amurada do Francônia ficamos a ver os gigantes Zulús carregando o navio. Em seus encaracolados cabelos preto-retintos, pousavam gorros de guerra, e suas pernas longas e finas estavam esbranquiçadas; seus pés têm palmilhas naturais que fazem com que pulem no ar a cada passo - mas passo não é a palavra certa para se usar, porque eles saltitam tão naturalmente como nos movemos perto do chão quando andamos. Adeus, África! Um dia eu voltarei.

40. NOSSA HABILIDADE DESAFIADA

Em uma carta escrita em 1948, o Guardião indicou que seria útil se eu fosse para a África do Sul. Agarrei aquela oportunidade. "Vá," escreveu, "mas antes do fim de agosto e leve Ophelia Crum com você".

Ansiosas, rebuscamos as listas das linhas marítimas. Nenhum navio parecia estar se dirigindo para a África do Sul, exceto da Linha Robbin, mas logo soubemos que senhoras desacompanhadas de homens era tabu. Em um folheto descobrimos um cargueiro zarpando de Nova Orleans e que podia levar doze passageiros (o sexo não era citado) e reservamos passagem imediatamente. Nessa época Marion Little estava vivendo em Nova Orleans e nos apressamos em direção ao sul e nos acomodamos em sua pequena e acolhedora casa. Sem sabermos, nossa querida amiga Mareia Stewart tinha deixado o Chile e voado para Miami em direção à Califórnia via Nova Orleans, onde teria uma espera de quatro horas para pegar o trem para Califórnia e ao ler o jornal matutino soube que estávamos na cidade aguardando a partida para a África do Sul, e que éramos hóspedes da Sra. Little. Para nossa intensa surpresa, vimos Mareia na porta da casa de Marion. Impelidas por ventos diversos, nos juntamos e discutimos nossos planos futuros - Marion se preparando para ir à Europa - Mareia para Honduras e nós para a África do Sul. Nem bem Mareia saiu para pegar seu trem a Linha Lykes ligou informando que o navio zarparia naquela noite. Entendemos que os passageiros eram um mero incidente se a carga estava à bordo, o navio zarpava.

Estava chovendo forte quando embarcamos no Mason Lykes. Foi uma agradável surpresa encontrarmos nossa cabina espaçosa e confortável. Cargueiros não têm comissários - quando um marinheiro arruma sua cama é o máximo da obrigação do navio para com seus passageiros. Se o mar está bravio e não se pode subir as escadas até a sala de jantar, jejua-se. Se ficar doente, não há médico, nem enfermeira, nem remédios. Não precisamos nada disso - pois comprovamos ser perfeitas marinheiras. A viagem começa com uma descida de doze horas pelo Mississipi. Durante a travessia do Golfo do México o capitão mudou a rota três vezes para escapar do caminho de furacões. Dia após dia em um oceano vazio - nenhuma embarcação encontramos - nenhuma vela apareceu no horizonte - nem mesmo um peixe surgiu das águas para nos saudar. Embaladas pela monotonia líamos e fazíamos crochê, e eu comparava os pontos com o capitão, que era muito bom na agulha e tinha orgulho disso. Ao final de vinte e um dias as luzes de Capetown apareceram sobre as águas verdes, em meio a uma chuvarada. Terra! Terra sólida! Que milagre ver outra vez uma árvore crescendo diante de nós. Capetown tem um cenário inigualável, flanqueada pelo Atlântico a Oeste, pelo Indico a Leste, com as águas do Antártico se estendendo longe para o Sul, isolada do resto do continente por uma alta montanha chamada Mesa, cujo topo está frequentemente coberto de nuvens que se derramam pelas encostas, o que lhe dá uma aparência de toalha de mesa toda bordada. Quando se olha para cima, tem-se a perfeita impressão de uma mesa posta para os deuses e na qual se sentam os gigantes da mitologia.

Em meio a tanta beleza há muitos problemas difíceis de se entender. O maior deles é a situação dos negros. Há muito tempo atrás seus antepassados eram escravos trazidos do norte da África, mas desde então muitas etnias e várias gerações produziram a atual raça de pessoas inteligentes e trabalhadoras. Eles são tão diferentes dos nativos (aqueles que vieram recentemente da selva) como os holandeses ou ingleses; todavia, são classificados com os nativos e banidos por um ato de segregação que é injusto. Assim como os nativos, eles têm que viver fora dos limites da cidade. "Apartheid", que significa segregação, é a palavra de ordem sob o atual governo. Falando sobre os quarteirões negros de Capetown, o historiador Henry Gibbs escreve em O Crepúsculo na África do Sul: "Além da Rua Roeland e do velho castelo atrás da estação ferroviária, há uma rua estreita e ligeiramente inclinada. É chamada de Canterbury. Na Inglaterra, Canterbury significa o cristianismo para o povo inglês. Em Capetown, significa favelas." Ali se encontram as casas do desespero, como tão apropriadamente as chamou um repórter do jornal Cape Argus.

Mas, tudo isso estava oculto de nós na noite de nossa chegada. No cais, debaixo de um grande guarda-chuva estava o Sr. Scott, da Agência de Viagens Sul-Africana, que nos deu as boas vindas assim que a prancha foi descida. Ele foi conosco na chuva até o Arthur's Seat Hotel. Sentamo-nos em nosso quarto estreito, planejando nossa campanha de ensino. Primeiro Johannesburg a maior cidade, depois Pretória, Durban e, por fim, Capetown que seria nosso porto de partida. No dia seguinte tomamos o famoso Trem Azul, que serpenteia as montanhas perto da costa através da estepe, de Kimberly até Johannesburg. Alojamo-nos no novo Skyline Hotel e depois de orarmos e consultarmos, decidimos colocar convites no Johannesburg Star:

"Procura-se pessoas de boa vontade que queiram dar um passo a frente e se juntar a um grupo que agora está sendo formado, baseado nos seguintes princípios:

Independente pesquisa da verdade; a base de todas as religiões é uma só; a religião deve estar de acordo com a ciência e a razão; devemos todos trabalhar juntos pela Paz Universal, começando com o indivíduo."

A partir dessa publicação recebemos trinta e três cartas, e para cada pessoa enviamos um panfleto bahá'í de modo que pudessem se familiarizar com as bases de nosso ensinamento. A partir desse segundo apelo recebemos quinze inscrições e numa noite de segunda-feira abrimos as portas para nossas aulas. Sem saber, tropeçamos em vim feriado e somente dois homens apareceram, um otimista e um pessimista, mas ambos ficaram conosco até o fim de nossa estada. Numa carta recente, o pessimista disse que havia dito a Deus que Loulie Mathews é que deveria fazer orações por ele. Muitas mulheres não podiam vir na parte da tarde, e perguntaram se não poderia haver aula pela manhã. Em poucas semanas nós tínhamos dezesseis alunos regulares naquela classe. No grupo estava a Sra. J. D. Rheinalt Jones, cujo marido era o representante das escolas primárias nativas, a única educação concedida pelo governo. Através da influência da Sra. Jones pude falar em todas as escolas nativas, inclusive duas instituições particulares, uma católica e outra judaica. Nossa procura por um motorista sem preconceitos teve a cooperação dos garçons e porteiros do hotel. Finalmente, um amigo simpático apareceu e lá fomos nós visitar nove escolas, uma atrás da outra. O motorista nos seguia dentro da escola e frequentemente juntava-se a nós na plataforma quando eu estava falando. As crianças são ensinadas em "African", que é uma espécie de holandês simplificado. Essa linguagem gradativamente está superando o inglês na África do Sul e é forçada ao povo pelo atual governo.

Coroamos nossas oportunidades nas escolas nativas ao conhecer o Reverendo Ray E. Phillips e sua esposa. Há trinta anos atrás eles tinham vindo dos Estados Unidos para a África do Sul como missionários. O destino determinou que eles cruzassem o caminho do Sr. Jan H. Hofmeyer um filantropo com um sonho em seu coração. Esse sonho era estabelecer um centro para os nativos que estavam chegando a Johannesburg. Encontrando nos Phillips o casal ideal para realização da idéia, construiu uma casa em rocha sólida, uma biblioteca e um acampamento para essas desnorteadas crianças da natureza. Ophelia e eu passamos uma tarde de domingo com eles na sala de recreação. Eu falei dos princípios bahá'ís e eles me contaram de suas experiências no mundo dos brancos. Um jovem descreveu suas dificuldades de encontrar emprego como professor. Ele havia sido preparado em Lovedale, mas encontrara as portas da escola fechada para ele. Em desespero, juntou as crianças da vila onde morava e ensinou-as a ler e escrever na beira da estrada. Esse flautista mágico da educação juntou em torno de si as crianças de todo lado, o que provocou a consternação das autoridades que, afinal, tiveram que oferecer-lhe um teto sob o qual pudesse dar suas aulas. Lembramo-nos das palavras de Alan Paton em "Chore, ó país amado". "Acreditamos na fraternidade entre os homens mas não para a África do Sul -acreditamos na ajuda aos miseráveis; aqui porém, queremos que eles assim permaneçam. A verdade é que nossa civilização está crivada por dilemas... Nossa civilização é vim trágico composto de grandes ideais e práticas atemorizantes, de grande segurança e de desesperada ansiedade, de caridade amorosa e de dominação impiedosa."

No meio das atividades bahá'ís chegou uma nota que dizia: "Estou mandando uma condução para você e a Srta. Crum virem para o almoço. Você não me conhece com meu nome atual, mas somos velhas amigas, como verá".

Muito intrigadas por essa nova aventura, lá fomos nós. Quando o carro subiu até a casa, vimos realmente uma velha amiga parada na porta, Cornelia Moody. Ela é filha de Dwight Lyman Moody, famoso evangelista da década de 1880 que, com I. D. Sankey revolucionou certos serviços religiosos cristãos introduzindo hinos alegres e ritmados que aqueciam o sangue e enchiam as igrejas. Cornelia, agora esposa do nosso Cônsul Geral Charles E. Dickerson, planejou muitas reuniões para nós. Que almoço alegre tivemos! Como apreciamos a comida caseira e a tão bem posta mesa onde nos sentamos. Os Dickerson estavam prestes a se mudar para Pretória e nos convidaram para ir visitá-los - o que aceitamos alegremente. Quando se mudaram, de novo o carro nos levou para a porta da Embaixada dos Estados Unidos em Pretória.

Pretória é uma cidade dividida em dois níveis. A parte alta domina a cidade com os belos prédios municipais. Os jardins cobrem as encostas com canas rubras surgindo de cada canto das colinas. Na parte baixa as ruas são alinhadas com as espetaculares árvores de Jacarandá, agora cobertas com a floração das lavandas! Essas árvores tornam o mundo cor de malva. Embaixo delas, formam um mundo secreto que esconde o forte azul do céu acima.

Sempre que tínhamos tempo livre pegávamos a lista da antiga classe de Fanny Knobloch e vasculhávamos a cidade à procura deles. Era desencorajador, pois já haviam se passado mais de vinte anos e algumas pessoas haviam se mudado, outras já haviam morrido, e olhamos para a casa branca da esquina - nosso último endereço - com ar deprimi do. Ali vivia Peter Cruse, um professor de musica cego, que tinha sido aluno daquela classe bahá'í. Ele continuava lá e nos recebeu com grande alegria. Ele ficou estonteado quando ouviu as brilhantes conquistas da Fé sob a bandeira do Guardião. No decurso da conversa ele mencionou Agnes Carey, que também freqüentara a classe e agora vivia em Durban. Ele estava certo que ela ainda continuava interessada na Fé.

Em poucos dias retornamos a Johannesburg. Quando ficamos livres, pegamos um avião e fomos para Durban encontrar Agnes Carey. Ela que nunca havia visto um só bahá'í nos últimos vinte anos, e nós que havíamos procurado em vão por um verdadeiro crente, nos saudamos como velhas amigas. Ficamos imersas em emoção. Agnes tinha continuado em contato com Shoghi Effendi e suas convicções interiores tinham atravessado imunes a marcha do tempo e a solidão. Ela tinha arranjado uma palestra bahá'í nos salões Teosóficos e muitos ouviram a Mensagem pela primeira vez. No domingo demos um chá informal e doze dos que haviam participado da reunião pública vieram e trouxeram suas perguntas e a conversa, como a maré que chega, fez desaparecer as horas. Desde que retornamos à América, Agnes tem escrito contando de suas próprias atividades, que estão sendo ricamente abençoadas.

Durante nossa estada em Durban o Cônsul Americano, Sr. J. S. McGregor e sua esposa nos levaram para almoçar em sua casa. Da casa avistavam-se plataformas de flores tropicais; à distância aparecia o Oceano Indico. Ficamos extremamente felizes por saber que ambos estavam familiarizados com a Fé; ele, porque havia freqüentado o Colégio de Antioquia com membros da família do Mestre, e ela porque tinha sido colega de escola de Amelie Pompelly. Ele nos falou com grande orgulho da recente visita de um navio de guerra americano e do excelente comportamento dos homens em terra durante a licença. Nossa despedida foi temporária porque planejávamos encontrá-los mais tarde em Pretória.

Fomos atraídas pelas belas lojas dos negociantes das Índias Orientais em Durban. Há muitos anos atrás, aquelas pessoas haviam sido trazidas à África do Sul para trabalharem nos campos de algodão. O trabalho para o qual haviam sido trazidos não se adaptava ao seu temperamento e era superior às suas forças, de modo que logo o abandonaram. Deve ser lembrado de que Ghandi estivera ali em 1894 e permanecera por mais de vinte anos ajudando-os em seus problemas. Caminhamos pelas ruas ensolaradas extasiadas com as coisas maravilhosas que se alinhavam nas janelas. Não tínhamos qualquer premonição dos trágicos acontecimentos que ocorreriam em algumas semanas. O incidente que detonou uma feroz revolta racial parecia bem insignificante. Um garoto nativo, chamado George, viera se encontrar com o irmão em frente à loja Bannath. Um garoto um pouco mais velho trabalhava para aquele lojista, e já tivera algumas brigas com George. Os detalhes exatos nunca serão conhecidos, mas George caiu ou foi empurrado pela janela de vidro da loja Bannath. O impacto de George e a janela fez história. Como uma chama, os rumores se espalharam pelo acampamento dos Zulus. Um deles havia sido assassinado - seus inimigos, das índias Orientais, haviam atirado em um membro da tribo. Semelhante a uma nuvem negra os Zulus desceram a Rua Vitória armados de paus, pedras, varas e facas. Ao passar o pior, cento e noventa e dois corpos jaziam nas ruas, mais de mil haviam sido levados para os hospitais, as ruas estavam em chamas e o belo distrito em torno da Rua Vitória era só um monte de entulho. Forças militares chegaram de Pretória, e ajuda veio da distante cidade do Cabo antes que a revolta fosse sufocada. O antagonismo racial não é a única faísca. Há também a religião.

O sol estava brilhando e voamos de volta para Johannesburg, felizes com nossa recente visita. A classe inteira nos saudou, e na primeira reunião eles expressaram o desejo de escrever uma carta ao Guardião dizendo de sua apreciação pelos ensinamentos de Bahá'u'lláh e da intenção de prosseguirem nos estudos. Deixamos para eles um conjunto de livros e um curso. Já havíamos sido bem sucedidas na colocação de vários livros bahá'ís na Biblioteca Pública. Depois de fazer tudo o que podíamos para mostrar a cada um sua responsabilidade pela aquisição de conhecimentos mais profundos, tomamos novamente o Trem Azul em direção à costa do Sul.

Na cidade do Cabo encontramos vaga no Hotel Monte Nelson, perto do centro da cidade. Lamentamos a ausência dos Askerland, que tinham acompanhado minhas palestras durante a visita anterior. Eles estavam na Noruega mas não tínhamos contado com sua amizade firme como rocha. Chegou então uma carta da Noruega, cheia de informações. Eles estavam nos oferecendo um chá na Cidade do Cabo e haviam convidado cerca de sessenta pessoas para ouvirem a mensagem bahá'í. Tinham cuidado de cada detalhe por carta e quando chegamos ao clube onde a festa seria realizada encontramos uma anfitriã, flores em cada mesa, moças com graciosos uniformes para servir a todos os convidados que compareceram! Eles ouviram com concentrada atenção à medida que eu ia expondo o Plano Divino. Quando a palestra terminou, e chá e bolo foram servidos, tivemos nossos momentos de sociabilidade e conheci várias pessoas que já me haviam ouvido falar. Embora tivéssemos inserido no Cape Argus o mesmo anúncio de Johannesburg nenhuma resposta veio pelo correio. O Natal estava se aproximando e uma febre de atividade era aparente entre as pessoas. Todavia, não tínhamos falta de estudantes individuais, e fizemos muitos amigos para a Fé.

No Natal, dissemos adeus à bela Cidade do Cabo e zarpamos no navio da Linha Castle para a Inglaterra.

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CONCLUSÃO
A NOVA FRONTEIRA

E assim, tendo feito o máximo que podia para rugir através dos Sete Mares volto-me agora com gratidão para Shoghi Effendi, nosso amado Guardião, cujo apoio incondicional e amorosa orientação foram sempre um farol permanente iluminando meus caminhos nessas viagens.

Ele abriu recentemente um novo e comovente episódio, chamando para a ação as Assembléias Espirituais Nacionais de cinco países: Inglaterra, Ira, Egito, índia e América para se unirem em um plano comum e mandar pioneiros para a África. A importância disso estava indicada nas palavras do Guardião:

"Verdadeiramente, o nascimento deste empreendimento na África, na primeira década do secundo século bahá'í... deve ser aclamado como um evento de particular significado na evolução de nossa amada Fé."

Assim a Mensagem Bahá'í envolverá toda a Terra.

Embora o Profeta Arauto tenha sido assassinado por fanáticos; Bahá'u'lláh aprisionado; o Intérprete de Suas Palavras sido perseguido, e milhares de mártires tenham manchado o solo da Pérsia com seu sangue, ainda assim a mensagem de esperança voou em volta do mundo. A hora é negra e perigosa, mas pessoas conscientes estão buscando as soluções para os problemas globais. O caminho para a paz e unidade mundiais, conforme enunciado na Revelação Divina de Bahá'u'lláh está permeando a consciência de pessoas maduras em toda a parte. A aurora da Idade de Ouro está pulsando nas mentes dos homens. Apressemo-nos, apressemo-nos para o Dia Prometido.


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