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Da Senzala a Unidade Racial
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Gabriel Marques : Da Senzala a Unidade Racial
Gabriel Marques
Da Senzala à Unidade Racial
Uma abordagem da realidade racial no Brasil
Editora Planeta Paz

O livro de Gabriel Marques expõe, com propriedade e maestria, as mazelas do racismo. Em linguagem simples, recorre à abordagem comparativa, sem sectarismos, para analisar o preconceito e a discriminação racial. Um livro que desmistifica, denuncia e propõe. Merece ser lido!

Jéferson Bacelar, Antropólogo

Diretor do Centro de Estudos Afro-Orientais / UFBA

O livro de Gabriel Marques ativa a discussão sobre os caminhos da democracia racial brasileira e sobre os caminhos da paz em um mundo tão conturbado; um forte instrumento educativo para as novas gerações e para a Escola Criativa Olodum será um material moderno para a aprendizagem da liberdade e da democracia. Oxalá os leitores compreendam o alcance desta obra para o presente e para o futuro da comunidade negra.

João Jorge Santos Rodrigues
Diretor de Cultura do Olodum

No momento em que os problemas sobre o negro estão ficando cada vez mais polêmico o livro de Gabriel Marques vem se somar ao que de mais representativo e desafiante se escreveu sobre o assunto.

Clóvis Moura, Sociólogo e Escritor

Presidente do Instituto Brasileiro de Estudos Africanistas

Gabriel Marques é mineiro de Belo Horizonte. E como todo bom mineiro, vinha trabalhando em silêncio uma proposta que propiciasse a unidade racial no Brasil. Agora, com o fruto maduro, eis que vemos o silêncio ser rompido: nasce o

Da Senzala à Unidade Racial
seu livro de estréia.

É oportuno destacar que nos últimos anos foi realizada uma pesquisa de opinião pública sobre a questão racial no Brasil e destacamos alguns dos resultados a duas das questões:

1. Você é preconceituoso?
Responderam "não" 99%.
2. Você conhece alguém preconceituoso?
Responderam "sim" 98%.

Como se vê, este não é um tema dos mais fáceis de ser abordado. Mas, na presente obra, o leitor verá que com seriedade e metodologia, e também com emoção e ternura, Gabriel Marques soube dar conta do recado. Confiram!

O racismo é um dos males mais funestos e mais persistentes, constitui um obstáculo importante no caminho da paz. A sua prática perpetra uma violação demasiado ultrajante da dignidade dos seres humanos para poder ser tolerada sob qualquer pretexto. O racismo retarda o desenvolvimento das potencialidades ilimitadas de suas vítimas, corrompe seus perpetradores e desvirtua o progresso humano. O reconhecimento da unidade da humanidade, implementado através de disposições jurídicas apropriadas, tem que ser universalmente sustentado para que este problema possa ser superado.

A Casa Universal de Justiça
Citado em A Promessa da Paz Mundial
À

minha avó Juventina (Caçula), filha da escrava Lia, da Fazenda Coreolano de Campos, MG; aos meus filhos Olive Gabriela e Victor, frutos da unidade racial e filhos do reino.

Aos 30 de junho de 1889 baptizei solenemente e pus o Santos Óleos a inocente Juventina, nascida a 10 de janeiro de 89. Filha de Lia escrava da 1ª. Faz. Coreolano de Campo e Padrinho Antonio Ferra. Du Meira e D. Maria Jezuina Ferra. de Almeida.

(Excertos do Registro do Batistério de minha Avó, contido na página 15 dos registros daqueles anos, cidade de Itamarandiba, MG.)

Meus agradecimentos a todos os queridos amigos que influenciaram para que este livro se tornasse possível, entre eles, Farhad Shayani, Rolf von Czékus, Roberto Eghrari, Washington Araújo e, acima de tudo, à minha querida esposa, Heather.

Introdução
Em busca da Unidade Essencial

Gabriel Marques é mineiro de Belo Horizonte. E como todo bom mineiro, vinha trabalhando em silêncio uma proposta que propiciasse a unidade racial no Brasil. Agora, com o fruto maduro, eis que vemos o silêncio ser rompido: nasce o Da Senzala à Unidade Racial, seu livro de estréia.

Nestas páginas, encontramos um autor nato, maduro. E somos impelidos para uma inadiável reflexão sobre a questão racial, seus dilemas e conflitos, e também as prováveis soluções que o assunto requer. Refazendo a longa caminhada do negro pelos caminhos dos corações e das mentes, brotando da África e aportando no Brasil, estamos diante de uma via crucis original: povos discriminados e tratados como seres humanos de segunda categoria pelo fato de terem a cor da pele diferente daquela das elites.

A leitura deste livro me fez ouvir os sons dos passos apressados de milhares de negros nas ruas de Memphis e de San Francisco, participando de manifestações públicas convocadas pelo líder negro Martin Luther King na busca dos direitos civis negados aos negros nos Estados Unidos. E também me trouxe à mente a figura de Malcolm X em busca da dignidade humana: "Não lutamos por integração ou por separação. Lutamos para sermos reconhecidos como seres humanos. Lutamos por... direitos humanos."

Como se estivesse com um roteiro de cinema nas mãos, comecei a visualizar as ruas de Johannesburgo e de Soweto em festa com a realização das primeiras eleições majoritárias em clima de unidade racial, consagrando Nélson Mandela para a presidência da África do Sul.

Encontramos no Brasil a longa luta contra o ciclo da opressão que faz refém milhões de negros em busca da cidadania plena e lutam também para resgatar sua própria história, que pode muito bem principiar com Zumbi. Sim porque a história dos negros no Brasil não começa com A mas sim com o Z... de zumbi.

Nunca é demais recordar François Jacob, prêmio Nobel de Biologia ao afirmar categoricamente que "o conceito de raça é, para nossa espécie, não operacional." Jacob não fica solitário nessa declaração. O duplamente premiado com o Nobel de Medicina e Psicologia, Jean Dausset declara que "a idéia de "raça pura" é um contra-senso biológico."

Se considerarmos a afirmação de muitos expoentes da ciência, de que não existem raças, ainda assim, teremos que conviver com este pernicioso defeito de nossa civilização: o racismo. É patético então encontrar alguém racista, já que não existem meios científicos que elabore a distinção de raças!

O geneticista e escritor francês, Albert Jacquard afirma que "na verdade, temos medo do desconhecido, de encontrar alguém que não seja nosso semelhante, este medo, por sua vez, transforma-se em agressividade e ódio e assim nasce o racismo." Eis, então, os pais da segregação, discriminação: fruto do medo e do ódio aos que achamos ser nossos "dessemelhantes". E a cada vitória do medo e do ódio corresponde uma derrota para a Humanidade como um todo.

Gabriel Marques mais que diagnosticar e refazer nossa história tantas vezes mal contada nos oferece uma visão original sobre a unidade essencial das raças e é muito feliz nesta apresentação, sem dogmatismos e sem meias palavras ele vai lá no fundo da questão e resgata lições de convivência ao tempo em que oferece luz sobre o nosso papel na construção de um mundo mais humano, justo e solidário.

A visão - e sobretudo a confiança inabalável - na emergência de um mundo organicamente unido é uma tônica no pensamento de Gabriel Marques. Ele desmistifica os diversos estereótipos em que aprisionamos nossos semelhantes de cor negra. Refuta com coragem e conhecimento de causa qualquer fundamento para o racismo e a discriminação racial.

Gabriel Marques vai mais além e nos fala sem rancor, e ao mesmo tempo com grande sensibilidade, sobre dramas cotidianos, de gente como a gente, que de um momento para o outro transformam-se em vítimas de um sistema impiedoso que se recusa a aceitar o fato de que não existe nada mais atrasado que acalentar alguma superioridade fundamentada na raça.

Washington Araújo
Escritor
Prefácio

Tem-se acompanhado, neste final de século, o desenrolar de acontecimentos sem igual na história da humanidade. A contração do mundo, face ao avanço tecnológico e das comunicações, tem colocado em evidência a diversidade da espécie humana, a variedade de seus pensamentos, culturas e ansiedades. Tem trazido também à tona a questão racial. Se há divergências de pontos de vista em relação a muitos assuntos de interesse comum, há também muitos pontos concordantes, especialmente quanto às aspirações maiores de um mundo unificado, de prosperidade global, de paz mundial e de oportunidades de educação, saúde e trabalho para todos. O surgimento da Liga das Nações, logo sucedida pelas Nações Unidas após as duas grandes guerras neste século, deu novo ímpeto à busca do entendimento global. Este magnífico empreendimento - as Nações Unidas - lançou-se em inúmeras campanhas mundiais de conscientização e avanço nos mais variados campos, tais como o da valorização da mulher, desarmamento e paz, meio ambiente, assentamentos humanos, saúde, economia, cultura... contando com o apoio crescente de milhares de organizações não governamentais através do planeta. Com o intuito de promover o entendimento entre indivíduos comuns e nações; também para fomentar uma apreciação da diversidade humana e para o respeito e consideração pelos direitos humanos fundamentais, o ano de 1995 foi declarado como Ano Internacional da Tolerância. No Brasil, 1995 foi declarado como o ano para a celebração do Tricentenário de Zumbi, líder negro de Palmares, que lutou e morreu na defesa da integridade de todo o seu povo. O tempo, portanto, é oportuno para se restaurar a memória deste povo ainda vivendo em opressão e de se buscar o reconhecimento e a valorização dos elementos de sua cultura e da criação dos instrumentos necessários de uma integração social justa. Mais do que nunca é preciso o reconhecimento, aceitação e legitimação da pluralidade sócio-cultural intrínseca ao povo brasileiro. É preciso, sobretudo, uma mudança dentro do coração!

Parte 1
Da Senzala
Capítulo 1
A discriminação e a intolerância
no dia a dia

A discriminação racial e a intolerância, dois dos males mais repugnantes e ultrajantes da dignidade humana, continuam a fazer suas vítimas; isto é, continuam a excluir grandes populações humanas de participarem dos benefícios de uma convivência harmoniosa e pacífica. Dentre os grupos mais atingidos estão os mais pobres, os meninos de rua, as mulheres, os habitantes das áreas rurais, minorias étnicas, grupos indígenas e grande parcela da população negra. Eles são os chamados "excluídos da sociedade".

A escravidão foi formalmente banida da Terra há pouco mais de uma década, mas ainda existem muitos casos de escravidão e de trabalho forçado. O Brasil, cuja abolição foi em 1888, figura entre os últimos 10 países que aboliram formalmente a escravidão. Na verdade, o Brasil foi o último país do ocidente a banir a escravidão, numa época em que a maioria das nações já havia condenado tal prática. Os outros nove foram países da África ou do Mundo Árabe: Serra Leoa e Madagascar em 1896; Zanzibar em 1897 e Nigéria em 1900. Já em pleno século XX a abolição prosseguiu nos seguintes países: Irã em 1928, Etiópia em 1942, Qatar em 1952, Arábia Saudita em 1962 e finalmente a Mauritânia em 1981. (1:01)

Enquanto se aproxima o final do século, faltando apenas alguns anos para o ingresso no tão esperado terceiro milênio, assistimos a milhares de seres humanos ainda enfrentando os horrores da escravidão ou vivendo e trabalhando sob regime semi-escravo, isto é, vivendo em condições de trabalho forçado ou de débito permanente para com os patrões. Eles são os chamados "escravos contemporâneos"!

O fato é que passado mais de um século, após o festivo 13 de maio de 1888, quando foi assinada a Lei Áurea, o trabalho escravo ainda vinga no Brasil. E está aumentando, apesar de toda a legislação trabalhista consolidada. A Comissão Pastoral da Terra (CPT), órgão da Igreja Católica, relata que de 1991 a 1994 o trabalho escravo quintuplicou no país. Há 25 mil pessoas trabalhando em regime de escravidão no Mato Grosso do Sul, em Minas Gerais e no Pará. (2:6) O mais triste é que a existência de trabalho escravo no Brasil vem sendo denunciado insistentemente por diversas organizações de direitos humanos, sem que até agora tais fatos tenham sido devidamente investigados, o que tem aumentado a perplexidade de observadores internacionais.

As implicações sociais destas distorções no relacionamento humano tem sido a eliminação gradual do espírito de colaboração e boa vontade entre as pessoas. A solução de tal problema requer a análise e aplicação tanto de fatores práticos, como também de princípios morais pertinentes, e traz à tona a verdade das seguintes palavras de Joaquim Nabuco: "o homem não é livre, nem quando é escravo nem quando é senhor. Vós deveis ser homens livres." (3:35)

A vasta maioria dos países do mundo assinaram a Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial, mas no dia a dia persistem as práticas de ações discriminatórias e atitudes raciais restritivas na vida de muitas populações, confirmando o ditado de que "não basta uma lei escrita para salvar um povo." (3:34) É preciso, além disso, cultivar no coração o amor por toda a humanidade; aceitar e ter uma compreensão coerente da realidade mundial, desenvolver uma apreciação sincera da contribuição e beleza de cada cultura, desenvolver e criar novos modelos de unidade, baseados no reconhecimento da unidade da humanidade.

"A diversidade na família humana", afirmam os Escritos Bahá'ís, "deveria ser causa de amor e harmonia, assim como o é na música, onde muitas notas diferentes se harmonizam a fim de produzirem um acorde perfeito." (4:45)

O Racismo

Racismo é a doutrina, a crença e a prática daqueles que pregam a superioridade de uma raça sobre outra. Pode ser ainda definido como qualquer atitude, ação ou estrutura institucional que subordine uma pessoa ou grupo, por causa de sua cor ou raça. Algumas vezes o racismo se manifesta de forma consciente e aí é fácil identificá-lo. Outras vezes, porém, ele se manifesta de forma subconsciente, isto é, está invisível e se torna mais difícil identificá-lo. Muitas vezes foi incorporado no dia a dia da nação, por força de um processo de opressão cultural e neste caso também é difícil identificá-lo.

Alguns exemplos disso poderia ser: um administrador, médico, advogado ou outro profissional Negro sente-se como preso dentro de uma gaiola de vidro, que o impede de crescer dentro da empresa ou quando a maioria das crianças negras escolhem bonecas brancas, de olhos azuis, tipo barbie, como mais bonitas e desejáveis.

Em todos os casos, o racismo é, acima de tudo, uma doença social e espiritual, uma grave enfermidade que tem penetrado na fibra moral e espiritual da sociedade. "O racismo", conforme bem ilustrado nos Escritos Bahá'ís, "é um dos males mais funestos e mais persistentes... A sua prática perpetra uma violação demasiado ultrajante da dignidade dos seres humanos para poder ser tolerada sob qualquer pretexto." (5:18)

Discriminação: rejeitada pelo pudor moral,
mas exercida no cotidiano

Apesar de ser constitucionalmente proibida a discriminação racial no Brasil, os Negros continuam a enfrentar a discriminação. Como assinalado pelo sociólogo Gey Espinheira (6:11), "no dia a dia dos Negros sabem do racismo proibido pela lei e rejeitado pelo "pudor" moral, mas que continua sendo exercido nos gestos mais cotidianos da existência, sobretudo no âmbito da segurança pública e nas relações de trabalho."

A discriminação racial é considerada ilegal no Brasil desde 1951, mas como o racismo, como crime, é difícil de provar nos tribunais, os brasileiros de pele mais escura continuam a enfrentar a discriminação. A realidade brasileira, sobre as minorias raciais e étnicas, é lamentável, quando vista à luz das práticas de direitos humanos, conforme tem atestado observadores internacionais.

Vejamos o que diz o Relatório de Direitos Humanos, preparado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, sobre o Brasil - ano 1994: "Embora, quase metade da população brasileira tenha alguma descendência africana, muitos poucos altos funcionários administrativos ou nas forças armadas são Negros. Há poucos Negros nas posições de gerência do setor privado.

Organizações de conscientização negra contestam a visão de que o Brasil seja uma democracia racial com tratamento igual para todos independentemente da cor da pele. Essas entidades confirmam que a discriminação racial torna-se mais evidente quando Negros procuram emprego, residência ou oportunidades educacionais." (7:13)

Discriminando Negros pela aparência

Uma forma de burlar as leis, fato tão comum em nosso Brasil, é o "mercado da boa aparência", isto é, um mecanismo criado e mantido desde há muito tempo para manter afastado os descendentes da cor negra de posições de destaque no mercado de trabalho.

A Lei no 1390, de 3 de julho de 1951, que incluiu entre as contravenções penais a prática de atos resultantes de preconceitos de raça ou cor, apesar de sancionada há mais de quatro décadas, na prática continua sem muita aplicabilidade. Alguns de seus artigos, dentre outros, consideram como contravenções penais os seguintes atos: recusar entrada em estabelecimento público, de diversões ou esporte, bem como em salões de barbearias ou cabeleireiros por preconceitos de raça ou de cor...; negar emprego ou trabalho a alguém em autarquia, sociedade de economia mista, empresa concessionária de serviço público ou empresa privada, por preconceito de raça ou de cor... (8:1073-1074)

Diante de uma lei em vigor no papel e de um passado de discriminação, sem perspectiva ou esperança de progressos, a não ser através da imitação ou incorporação dos modelos eurocêntricos, toda uma população, especialmente a feminina, durante as décadas de 60 e 70, passou a imitar o modelo branco, hoje com novos contornos, após o crescimento e difusão da TV e outros veículos de comunicação. Hildegardes Viana já havia assinalado que "é o cabelo crespo o que mais incomoda a alguns Brancos" (9:35); assim, nada mais natural para muitos do que tentar mudar este aspecto físico e estético visual, numa busca quase que desesperada de esconder o "feio da raça". Como mudar a estética visual? Em todo o país surgiram as alisadeiras. Nos bairros populares proliferam os salões para o alisamento do cabelo à "ferro", um processo de "vitimização" dos Negros, de acordo com as citações de Ângela Figueiredo, pesquisadora do programa "A cor da Bahia", do Mestrado em Sociologia da UFBA:

"As atividades das alisadeiras são realizadas nas cozinhas, pois é necessário o uso do fogo para aquecer o instrumento (denominado ferro ou chapa)." (10:33-34)

Em muitos salões, chegavam a usar soda cáustica para o alisamento, o que era um verdadeiro crime. Os primeiros sinais de mudança desta postura, pode-se dizer vieram a surgir na Bahia, com o advento dos blocos afros, à exemplo do Ilê Aiyê, Filhos de Gandhi, Olodum e muitos outros, os quais estão reforçando os valores culturais africanos. Os salões para a "fritura do cabelo" entraram em decadência desde o início dos anos 80, mas ainda não se encontrou o remédio para a discriminação racial no dia-a-dia. Os jornais, de norte a sul do país, continuam a procurar as pessoas de "boa aparência".

A cor da pele branca continua tendo a preferência nacional, especialmente para certas funções, à exemplo de recepcionistas, balconistas, aeromoças, modelos, vendedores externos, dentre muitas outras profissões. A revista Distribuidor Moderno, dirigida a leitores qualificados, ligados à comercialização e distribuição de produtos e equipamentos no varejo, trouxe à tona a questão da "difícil tarefa de contratar" recursos humanos; e é Gustavo Huber, proprietário de uma Assessoria para orientação de lojistas, quem melhor explica a "importância da cor" na contratação de pessoas. Diz ele: "...É preciso chegar a um perfil antes de colocar o anúncio no jornal. Dados como idade, sexo, cor (principalmente num país racista como o nosso) são importantíssimos. Eu digo para ele analisar com cuidado uma ficha, sugiro pedir uma cartinha aos candidatos explicando por que quer o emprego. Por aí já dá para saber com quem ele está lidando. Só com isto já dá para fazer uma pré-seleção." (11:12) Apesar de leis proibindo a discriminação racial, tal artigo é uma indicação clara dos caminhos do desrespeito à lei. A justificativa é simplesmente insustentável: o artigo diz que "especialmente num país racista como o nosso", a questão da cor é "importantíssima"; isto é dizer, em um país racista, a fórmula para se fazer bons negócios e talvez não afugentar o cliente, é perpetuando a discriminação!

Como se vê a discriminação racial já está institucionalizada e existem até inúmeras assessorias e outras empresas, dizendo a toda hora: se você está pensando em contratar alguém, dê preferência ao Branco. Em caso de contratar um Negro, esconda-o do público. Naturalmente isto não está escrito em lugar nenhum, mas para ler a realidade diária basta a sensibilidade. Quantos ainda são os anúncios diários de empregos, buscando alguém de "boa aparência", para cuja vaga não se arriscam aqueles de pele negra ou de cabelos crespos, conscientes que estão da recepção negativa que teriam ao se apresentarem como candidatos. Tais anúncios são as provas veladas, embora impressas com todas as letras nos jornais de nosso país, da presença da discriminação ainda presente e tolerada em nosso tempo.

Os anúncios de jornais saem todos os dias mais ou menos assim:

BALCONISTA

Moça, ginasial completo, boa aparência, residir Zona Oeste / Zona Sul. Trabalhar 2ª / sábado em loja congelados. Comparecer Rua....

OPERADORAS
Requisitos:
1.Ótima aparência e desembaraço.
2. 2º Grau completo ou cursando superior.
3. Experiência comprovada na função.
ACEITAMOS

Rapazes, moças, maior idade, 2º grau, boa aparência. ...

A Constituição declara de forma inequívoca, que o racismo é um crime inafiançável. Mas, alguém que se sente discriminado pela cor, não sabe e sente-se sem ter a quem recorrer. Primeiro, por que é muito difícil provar o racismo A lei 7.716 em vigor e que descreve as penas para os crimes de racismo, em quase todos os seus artigos, começam com verbos no infinitivo: "impedir", "recusar" ou "negar".

O fato é que, quando alguém não é contratado por determinada empresa, por que não tem "boa aparência", ele acaba é indo bater em outra porta.

Gente bonita

O que é "gente bonita"? Não existe ainda uma definição pronta, para o que venha a ser "gente bonita", mas os parâmetros para tal definição já estão claramente delineados. O modelo branco europeu, como elemento colonizador do mundo ocidental, é o único digno de apreciação. Ele se elegeu como o mais belo, o mais bonito, etc. Resumindo: tudo que for branco é bonito, lindo... e tudo que for Negro é feio, horroroso.

O conceito de "gente bonita", na prática funciona assim: quando você escuta falar de uma festa de "gente bonita" o que tinha muita "gente bonita", entenda que é só para Brancos ou que só havia Brancos. Na Bahia, por exemplo, existem alguns blocos de carnaval, que só dão acesso a "gente bonita". A lei proíbe, é verdade, e os dirigentes negam a confirmação de racismo. Mas é grande o desconforto sentido pelos não-Brancos, e ninguém vai ficar lá se auto-flagelando, especialmente durante o carnaval, onde cada um quer é se divertir, brincar e esquecer as agruras da vida.

Mas para confirmar que há algo de podre nesta invenção de "gente bonita", é só assistir ao desfile de tais blocos, seja pela televisão, seja nas exposições fotográficas posteriores ou simplesmente "esperando o bloco passar", literalmente.

Discriminação dos povos indígenas

Os povos indígenas também tem sido vítimas constantes de opressão, apesar do reconhecimento constitucional do direito às suas terras tradicionais. "A maioria de suas terras ainda encontram-se sem demarcação e ocupadas em grande parte por não-índios. Estima-se que pelo menos 84% das terras indígenas estão atualmente ocupadas por posseiros e garimpeiros." (7:12)

Em seu livro Estamos Desaparecendo da Terra, o escritor Washington Araújo, como o título de capa bem indica, mostra como toda uma população, com suas tradições, costumes, culinárias, artes, idiomas, enfim, toda uma cultura está na iminência de desaparecer para sempre, enquanto estamos simplesmente de braços cruzados. (12) Dos quase 5 milhões de habitantes originais das Américas, hoje restam no Brasil cerca de 400 mil. A Constituição de 1988 responsabilizou o Governo Federal pela demarcação de 519 áreas indígenas dentro de um período de 5 anos.

Alguns dos muitos processos que estavam parados há anos começaram agora novamente a andar; o receio é que a lentidão causada pelo descaso e burocracia adie uma solução por mais meio século! Enquanto isto, prossegue a mineração ilegal, a derrubada de florestas e a exploração agropecuária por não-índios dentro daquelas reservas, e muitos nativos sendo utilizados como mão de obra escrava.

O Conselho Indigenista Missionário (CIMI) relatou em 1993, que mais de 7.400 índios estavam submetidos a trabalhos forçados, sendo a maioria Índios Guaranis do estado do Mato Grosso do Sul. (7:12) Somente neste estado, durante o ano de 1995, houve 54 suicídios entre os Índios Kai owas. As investigações apontam como as principais causas para tais suicídios, o regime de trabalho degradante em fazendas da região.

Muitas das terras dos quilombos, isto é, as áreas onde se refugiaram inúmeros escravos africanos, conhecidos como quilombolas, local onde ainda vivem seus descendentes, preservando os hábitos e costumes de suas tradições, também estão pendentes de reconhecimento e regularização. A comunidade negra "Rio das Rãs", por exemplo, remanescente dos quilombos, no município baiano de Bom Jesus da Lapa, teve a posse da terra confirmada em 1830. Durante os últimos 165 anos viveu inúmeros momentos de tensão, com invasão de sua propriedade, ameaças, etc. Somente em 1995 recebeu do Governo Federal o título de propriedade definitiva de uma área de 15.157 hectares, onde residem cerca de quatrocentas famílias. O fato é que estamos diante de um mundo, onde a intolerância e a discriminação racial, étnica, social, econômica e cultural tem se incorporado como elemento do cotidiano, muitas vezes através de formas claras, outras por meios sutis e quase imperceptíveis. A eliminação do racismo requer a atenção concentrada, uma ação firme e determinada de cada cidadão. Não se pode admitir, sob nenhuma circunstância, a tolerância para com o racismo e a discriminação, e isto precisa ser implementado através de disposições jurídicas apropriadas. Isto significa, de um lado, que é preciso maior rigor na aplicação das leis e, de outro, no campo da ação individual, uma compreensão de que nenhuma mudança real poderá ocorrer sem íntima associação, companheirismo e amizade entre pessoas de diferentes raças ou etnias.

Martin Luther King Jr., líder do movimento dos direitos civis nos Estados Unidos, assim se expressou durante seu discurso de recebimento do Prêmio Nobel da Paz, em 10 de dezembro de 1964, em Oslo, Noruega:

"Civilização e violência são conceitos antitéticos. ... O homem precisa desenvolver para todos os conflitos humanos um método que rejeite a vingança, a agressão e a retaliação. O alicerce de tal método é o amor..." (13:15)

Em outra ocasião, quando de seu famoso discurso "Eu tenho um sonho...", proferido na escadaria do Memorial de Lincoln, durante a histórica "marcha sobre Washington", ele disse:

"Não procuremos satisfazer a nossa sede de liberdade bebendo na taça da amargura e do ódio. Precisamos conduzir nossa luta, para sempre, no alto plano da dignidade e da disciplina. Precisamos não permitir que nosso protesto criativo gere violência física. Muitas vezes, precisamos elevar-nos às majestosas alturas do encontro da força física com a força da alma; e a maravilhosa e nova combatividade que engolfou a comunidade negra não deve levar-nos a desconfiança de todas as pessoas brancas..." (13:16)

Capítulo 2
Uma busca das bases históricas do
racismo

A escravidão é uma das instituições mais antigas. Muitos povos na antiguidade foram feitos escravos e sua história encontra-se registrada em inúmeros livros, incluindo as Escrituras Sagradas de muitas religiões. Assim, podemos recordar a história da escravidão dos judeus, sob o jugo do Faraó, de etíopes no mundo árabe, de germânicos no Império Romano, etc. Inúmeras populações foram feitas escravas durante longos períodos e, mesmo na Europa do século XV, existiam escravos temporários. Na antiguidade, entretanto, a totalidade dos escravos pertenciam à mesma "raça" de seu senhor. Conforme a ponderada análise de Tocqueville: "Só a liberdade os separava; dada a liberdade, confundiam-se facilmente. Por isso, tinham os antigos um meio bastante simples de livrar-se da escravidão e das suas conseqüências; esse meio era alforria, e como o empregaram de um modo geral, tiveram êxito." (14:262)

Mas é durante o século XV, diante do iminente encontro das civilizações européias e africadas e a necessidade de mão-de-obra grátis para o trabalho no Novo Mundo, recém descoberto, que a escravidão passou a agregar um novo e terrível elemento, trazendo à tona a antiga "mitologia cultural" sobre o Branco e o Negro: o Branco como símbolo da pureza e reflexo de Deus; o Negro como símbolo do diabo, das coisas negativas, do pecado.

O fato é que a alegação de que os "gentios" pertenciam a um grupo sub-humano desprovido de alma, justificava a escravatura.

Estima-se que cerca de 100 milhões de africanos foram feitos escravos para atender à necessidade de mão de obra e ao sistema escravocrata. Para uma Europa cristianizada, parece que não foi difícil encontrar os fundamentos morais, jurídicos ou teológicos que pudessem justificar e legitimar a nova escravidão: a dos africanos pagãos. Mas afinal, como harmonizar os fundamentos cristãos com conceitos de superioridade e posse sobre seres humanos?

A economia colonial precisava urgentemente do aval da Igreja para utilizar-se de mão-de-obra escrava. Tais argumentos e justificativas teológicas já existiam, ou melhor, haviam sido criados pela Igreja. Pela Bula Romanus Pontifex, do papa Nicolau V, de 8 de janeiro de 1454, conforme Chiavenato, (15:44) a Santa Sé autorizava como legítima a escravidão dos Negros, e dava aos portugueses exclusividade no apresamento dos Negros africanos. Outras duas Bulas merecem também um estudo especial.

São elas as emitidas em 1456 e 1481, nas quais os papas Calixto III e Sixto IV "afirmam e reafirmam que o ouro e os escravos são os principais produtos da costa da África. E que somente Portugal está autorizado a realizar esse negócio, enquanto a Igreja não estender sua permissão a outros." (15:46)

Como justificativa inicial para o aprisionamento e escravidão do Negro, estava a crença de que o Negro africano não tinha alma; que sua cor era resultado do pecado original, era um castigo.

Posteriormente tal justificativa ganhou novos contornos e evoluiu para a crença de que o Negro batizado e "resgatado" para fé católica, ainda que escravo estaria salvo para a eternidade. O fato é que por trás de todas as justificativas encontradas, o tráfico sempre representou um grande negócio, incluindo as muitas comissões pagas à Igreja. Mas diante do questionamento interior, que tal tema constantemente fazia surgir, muitos teólogos cristãos, especialmente os jesuítas, teriam que mais tarde reforçar a idéia da escravidão africana com novos fundamentos.

Dentre estes podemos citar alguns:

Uma primeira justificativa vai relacionar e justificar a escravidão, com base no pecado original, "donde se originou todos os males da humanidade"; assim era justo que alguns fossem senhores e outros servos.

A escravidão estaria também relacionada com o mal de Cam, um dos filhos de Noé, e os Pretos africanos foram logo identificados como descendentes de Cam, portanto, dignos de cativeiro. Uma descrição original desta fórmula foi inicialmente feita por Santo Agostinho (16:96), e mais tarde no Brasil, por Jorge Benci, jesuíta da Companhia de Jesus.

Este eminente teólogo ao escrever seu livro Economia Cristã dos Senhores no Governo dos Escravos, parece que estava motivado por um genuíno interesse cristão em reformar as relações da escravidão. Seu trabalho, entretanto, como retrato de uma época, espelha não apenas a dureza da vida escrava, mas também o pensamento da Igreja naqueles tempos. Falando sobre a vestimenta que os senhores deviam prover aos servos, relembra ele:

"... (Os escravos) deviam andar todos despidos, visto que a servidão e cativeiro teve sua primeira origem do ludíbrio, que fez Cam, da desnudez de Noé seu pai. Sabido é, que dormindo este Patriarca com menos decência descoberto, vendo Cam, e escarnecendo desta desnudez, a foi publicar logo a seus irmãos; e em castigo deste abominável atrevimento foi amaldiçoada do Pai toda a sua descendência, que no sentir de muitos é a mesma geração dos Pretos que nos servem; e aprovando Deus esta maldição, foi condenada à escravidão e cativeiro... Justo era logo, que tivessem os escravos, e singularmente os Pretos, em lugar do vestido a desnudez, ara ludíbrio seu e exemplar castigo da culpa cometida por seu primeiro Pai." (17:64-65) A cor preta veio a se tornar o principal fundamento para a escravidão. O digno de escravidão era o "Preto africano", conforme as muitas indicações dos letrados cristãos dos primeiros séculos de nossa colonização.

Quanto à escravidão dos nativos, ainda que sancionada sua escravidão, esta foi grandemente suavizada, sendo os Índios considerados "gentios" e, portanto, objeto quase que exclusivo de conversão, tendo sua escravização sido inúmeras vezes contestada. Contra sua escravização se levantaram as vozes de muitos setores da Companhia de Jesus, considerando que esta "solapava a ética missionária em nome da qual se fazia a colonização." (16:84)

Na verdade, os escravos africanos sempre foram os preferidos pelos colonizadores, pois eram facilmente identificados por sua cor e não tinham para onde fugir, como atesta Pero de Magalhães Gandavo em 1576:

"E assim há também muitos escravos da Guiné: estes são mais seguros que os índios da terra porque nunca fogem nem têm para onde." (18:75) O que se depreende e sobressai de forma incontestável em quase todos os textos coloniais, é a idéia de que o trabalho é coisa de escravo.

O mesmo Gandavo escreveu:

"Os mais dos moradores que por estas Capitanias estão espalhados, ou quase todos, têm suas terras de sesmarias dadas e repartidas pelos Capitães e Governadores da terra. E a primeira coisa que pretendem adquirir são escravos para nelas lhes fazerem suas fazendas, e se uma pessoa chega na terra a alcançar dois pares, ou meia dúzia deles ainda que outra coisa não tenha de seu) logo tem remédio para poder honradamente sustentar sua família: porque um lhe pesca e outro lhe caça, os outros lhe cultivam e granjeiam suas roças e desta maneira não fazem os homens despesas em mantimentos com seus escravos, nem com suas pessoas. Pois daqui se pode inferir quanto mais serão acrescentadas as fazendas daqueles que tiverem duzentos, trezentos escravos, como há muitos moradores da terra que não têm menos desta conta, e daí para cima." (18:69)

Tudo acontecia sob o olhar conivente dos jesuítas, os quais rapidamente aderiram à idéia de ter também alguns escravos para lhes servir, como admitido pelo famoso Manoel da Nóbrega, jesuíta da Companhia de Jesus, numa carta enviada ao Padre Geral, Diogo Láinez, à 12 de julho de 1561:

"Tem também o padre por grande inconveniente, ter muitos escravos, os quais ainda que sejam todos casados, multiplicarão tanto, que será coisa vergonhosa para religiosos, multiplicando muito sua geração, além da pouca edificação dos cristãos. Esta razão não me conclui muito, porque como um homem leigo os tem a cargo, sem nos entendermos com eles, por mais inconvenientes tenho ter dois ou três necessários para o serviço da casa, de que a casa tenha cuidado, que ter muitos mais, sem nos entendermos com eles, porque todos confessamos, não se pode viver sem alguns que busquem a lenha e água, e façam cada dia o pão que se come, e outros serviços, que não é possível poderem-se fazer pelos Irmãos, sobretudo sendo tão poucos, que seria necessário deixar as confissões e tudo mais." (19:72)

Convivendo com a escravidão lado a lado, foi se cristalizando um "projeto escravista-cristão", vindo a mesma ser pouco a pouco legitimada em todos os seus aspectos.

Os escravos deveriam ainda estar felizes por seu estado de padecimento; na verdade, o próprio cativeiro era ao mesmo tempo milagre e salvação, conforme as inúmeras pregações do padre Antônio Vieira:

"... porque o maior milagre e a mais extraordinária mercê que Deus pode fazer aos filhos de pais rebeldes ao mesmo Deus, é que quando os pais se condenam, e vão ao inferno, eles não pereçam e se salvem. Oh se a gente preta tirada das brenhas da sua Etiópia, e passada ao Brasil, conhecera bem quanto deve a Deus, e a sua Santíssima Mãe por este que pode parecer desterro, cativeiro e desgraça, e não é senão milagre e grande milagre?... Os filhos de Coré, perecendo ele, salvaram-se, porque reconheceram, veneram e obedeceram a Deus: e esta é a singular felicidade do vosso estado, verdadeiramente milagroso." (20:305)

O trabalho sempre foi considerado coisa para escravos, não para os senhores brancos. E esta visão cristã foi melhor exposta pelos jesuítas Benci, Jorge e Antonil, André João (João Antônio Andreoni): "Os escravos são as mãos e os pés do senhor de engenho, porque sem eles no Brasil não é possível fazer, conservar e aumentar fazenda nem ter engenho corrente." (21:159)

"Devendo pois os escravos merecerem o que comem, justo é que trabalhem; e sendo justo que trabalhem, justo é também que o senhor os ocupe e os não deixe andar ociosos; principalmente no tempo em que isto escrevo, pois tanto nos aperta a carestia ... Porque lhes não hão de meter na mão uma enxada, para que plantem mantimentos, e tenham com que se sustentem os mesmos senhores a si e a quem lhes trabalha?" (17:174)

Reafirmando a crença da superioridade branca e sua maior capacidade e em seguida reforçando a legitimação da escravidão com base na visão cristã, o jesuíta Jorge Benci de forma mais clara descreve o pensamento geral da Igreja naqueles tempos, pelo menos no Brasil:

"É o ócio (diz S. Bernardo) mãe de todas as leviandades e ainda das piores, que são os vícios, e madrasta de todas as virtudes. E se isto é o ócio geralmente para todos, muito mais o é nos escravos; porque sendo mau para todos, para os escravos é péssimo, por ser o único mestre de suas maldades... O ócio é a escola onde os escravos aprendem a ser viciosos e ofender a Deus... E como os Pretos são sem comparação mais hábeis para o gênero de maldades que os Brancos, por isso, eles com menos tempo de estudo saem grandes licenciados do vício na classe do ócio." (17:177-178)

Tornar os escravos dóceis, pacientes, resignados em seu sofrimento, parece ter sido claramente o papel assumido pelos líderes da Igreja no Brasil colonial. Conforme citado por Charles Hainchelin, em seu livro As Origens da Religião, Santo Agostinho concebeu a escravidão como uma forma de expiação aprovada por Deus. Teria ele declarado: "A missão da Igreja não é fazer os escravos livres, mas fazê-los bons." (22:202)

O Padre Antonio Vieira, por exemplo, em um de seus sermões aos Pretos de um engenho na Bahia, exaltava a condição de escravo e seu sofrimento, comparando-o ao calvário e paixão de Cristo; algo, portanto, sumamente invejável: "Não há trabalho, nem gênero de vida no mundo mais parecido à Cruz e Paixão de Cristo, que o vosso em um destes engenhos. Bem-aventurados vós se soubéreis conhecer a fortuna do vosso estado, e com a conformidade e imitação de tão alta e divina semelhança aproveitar e santificar o trabalho! Em um engenho sois imitadores de Cristo crucificado: Imitatoribus Christi crucifixi, porque padeceis de um modo muito semelhante o que o mesmo Senhor padeceu na sua cruz, e em toda a sua Paixão. A sua cruz foi composta de dois madeiros, e a vossa em um engenho é de três. Também ali não faltaram as canas, porque duas vezes entraram na Paixão: uma vez servindo para o cetro de escarneo, e outra vez servindo para a esponja em que lhe deram o fel. A Paixão de Cristo parte foi de noite sem dormir, parte foi de dia sem descansar, e tais são as vossas noites e os vossos dias. Cristo despido e vós despidos: Cristo sem comer, e vós famintos: Cristo em tudo maltratado, e vós maltratados em tudo. Os ferros, as prisões, os açoites, as chagas, os nomes afrontosos, de tudo isto se compõe a vossa imitação, que se for acompanhada de paciência, também terá merecimento de martírio." (20:309-310)

Invocando as Escrituras Sagradas e relembrando os Atos dos Apóstolos, a S. Jerônimo e Santo Agostinho, afirma, então, o Pe. Antonio Vieira:

"E como a natureza gerou os Pretos da mesma cor de sua fortuna, Infelix genus hominum, et ad servitutem natum; quis Deus que nascessem à fé debaixo do signo da sua Paixão para a paciência, lhe fosse também o alívio para o trabalho. Enfim, que de todos os mistérios da Vida, Morte e Ressurreição de Cristo, os que pertencem por condição aos Pretos, e como por herança, são os Dolorosos." (20:315)

Tais sofrimentos dolorosos, comparados aos da Paixão de Cristo, são, então, novamente descritos, agora utilizando-se de nova analogia, em linguagem transfigurada: o dos engenhos. O texto, entretanto, é rico em imagens descrevendo o calvário diário na vida dos escravos:

"E que coisa há na confusão deste mundo mais semelhante ao inferno, que qualquer destes vossos engenhos, e tanto mais, quanto de maior fabrica? Por isso foi tão bem recebida aquela breve e discreta definição de quem chamou a um engenho de açúcar doce inferno. E verdadeiramente quem vir na escuridade da noite aquelas fornalhas tremendas, perpetuamente ardentes: as labaredas que estão saindo a borbotões de cada uma pelas duas bocas, ou ventas, por onde respiram o incêndio: os etíopes, ou ciclopes banhados em suor tão negros como robustos que subministram a grossa e dura matéria ao fogo, e os forcados com que o revolvem e atiçam; as caldeiras ou lagos ferventes com os cachões sempre batidos e rebatidos, já vomitando espumas, exalando nuvens de vapores mais de calor, que de fumo, e tornando-os a chover para outra vez os exalar: o ruído das rodas, das cadeias, da gente toda da cor da mesma noite, trabalhando vivamente, e gemendo tudo ao mesmo tempo sem momento de tréguas, nem de descanso: quem vir enfim toda a máquina e aparato confuso e estrondoso daquela Babilônia, não poderá duvidar, ainda que tenha visto Etnas e Vesúvios, que é uma semelhança de inferno. Mas se entre todo esse ruído, as vozes que se ouvirem, forem as do Rosário, orando e meditando os mistérios Dolorosos, todo esse inferno se converterá em Paraíso; o ruído em harmonia celestial; e os homens, posto que pretos, em Anjos." (20:316-317)

A historiografia brasileira revela ainda, que a maioria dos religiosos e religiosas possuíam escravos ou servos particulares, sendo a igreja dona de engenhos, de trapiches e grandes fazendas, canaviais e fabrico de açúcar, sendo os escravos a força de trabalho gratuita propulsora de seus recursos.

Os arquivos brasileiros estão cheios de documentação demonstrando este e outros fatos. A grande maioria dos conventos, eram habitados igualmente por monges e/ou freiras e muitos escravos. Isto mesmo: escravos servindo dentro dos conventos, aos monges e freiras, cujos votos haviam sido os da "santa pobreza".

Anna Amélia Vieira Nascimento, historiadora com inúmeras publicações retratando a vida social brasileira, ao analisar alguns dos mapas sobre a população nos conventos da Bahia, no ano de 1775, declara:

"No aspecto demográfico, as casas monásticas femininas eram mais férteis no número de religiosas: 25,03% de freiras e 18,97% de padres. Em relação aos seus escravos, nos conventos masculinos estes representavam 24,38% e, nos femininos, 31,63%. A população escrava era maior (56,01%) que a livre (43,99%); justamente nos mosteiros femininos a percentagem da escravidão apresentava mais alto nível. Nos conventos masculinos existiam também escravas e, nos femininos, escravos; dos cativos dos frades, os comunitários eram as maiores presenças; nos mosteiros de freiras e recolhimentos femininos, geralmente as escravas particulares ultrapassavam o número das da comunidade. O maior número de escravos dos conventos de frades verificava-se no dos carmelitas calçados de N. Sra. do Carmo e, nas casas monásticas femininas, era de longe o mais abusivo em quantidade de escravaria o do Desterro, com 290 escravas e 8 escravos para 81 religiosas, 7 educandas e 17 recolhidas. Todos os conventos de padres e freiras, sem exceção, possuíam escravos." (23:170)

Luiz Gonzaga Piratininga Júnior, outro importante estudioso da historiografia brasileira, revela que somente a Ordem de São Bento, quando da Alforria Geral de 1871, possuía mais de 4.000 escravos. De acordo com suas pesquisas a Ordem de São Bento, no estado do Rio, em 1834, possuía cerca de 1497 escravos. O inventário dos Beneditinos do ano de 1833 revela a existência de 1097 escravos. No estado da Bahia, de acordo com dados do ano de 1854, a Ordem possuía cerca de 546 escravos, distribuídos entre o mosteiro e suas fazendas. (24:31-32)

Enquanto todas as colônias do mundo ocidental experimentavam sua independência e fim da escravatura, influenciados pelas novas idéias do Iluminismo (John Locke, Rousseau e Montesquieu), o Brasil continuava firme em sua resolução de manter a escravidão, apesar da forte e constante pressão da Inglaterra, a qual passou da condição de uma das maiores nações promotoras do tráfico negreiro, na principal interessada em seu término. Tudo, naturalmente, por interesses econômicos!

Para muitos analistas da historiografia brasileira, é difícil entender como foi possível redigir e aprovar a primeira constituição do país, em 1824, e incluir que "a liberdade é um direito inalienável do Homem", quando cerca de 48% da população vivia em escravidão!

O fato é que tais idéias abolicionistas custaram a ser aceitas pelas elites dominantes, e em especial faltava o apoio moral da Religião oficial, o que levou Joaquim Nabuco a lamentar:

"Entre nós, o movimento abolicionista nada deve, infelizmente, à Igreja do Estado; pelo contrário, a posse de homens e mulheres pelos conventos e por todo o clero secular desmoralizou inteiramente o sentimento religioso de senhores e escravos. No sacerdote, estes não viam senão um homem que os podia comprar, e aqueles, a última pessoa que se lembraria de acusá-los. A deserção, pelo nosso clero, do posto que o Evangelho lhe marcou, foi a mais vergonhosa possível: ninguém o viu tomar a parte dos escravos, fazer uso da Religião para suavizar-lhes o cativeiro, e para dizer a verdade moral aos senhores. Nenhum padre tentou, nunca, impedir um leilão de escravos, nem condenou o regime religioso das senzalas..." (25:67)

Em 1985, o Papa João Paulo II pediu desculpas na África pelo escravismo praticado em nome dos cristãos, mas nada falou sobre a prática da escravidão pela própria Igreja. Passado mais de um século, desde a assinatura da Lei Áurea (1888), a verdadeira igualdade e liberdade ainda se encontram no campo do idealismo.

A pretensa alegação da superioridade branca sobre Negros e Índios, persiste ainda no Brasil, especialmente nas relações econômicas entre patrões e empregados, onde tais desigualdades se encontram mais visíveis. Não se pode continuar vivendo com a hipocrisia de ensinarmos a nossos filhos a inviolabilidade dos direitos fundamentais e ao mesmo tempo violentá-los. Oxalá todos e também as instituições religiosas, políticas e sociais se dispusessem a oferecer, de forma sincera, consciente e sem vacilação, o seu precioso quinhão! Palavras, conceitos, pensamentos, tudo precisa ganhar um novo significado, um novo entendimento e, sobretudo, uma nova ação.

Capítulo 3
A dificuldade em se admitir o racismo

Há uma enorme dificuldade em se admitir que constituímos uma sociedade racista; afinal, o racismo é um mal inaceitável e cruel, e ninguém gostaria de ser identificado com tal atributo. Vide o recente repúdio mundial ao sistema de apartheid da África do Sul. Além disso, o Brasil foi um dos países onde ocorreu a maior mistura de raças, surgindo daí uma população multicolorida - Pardos, Mulatos, Cafusos e outras mais de cem diferentes denominações de cores e a idéia de "democracia racial"; isto é, uma sociedade multifacetada e com oportunidades iguais para todos. Tudo soa muito bonito, não fosse a dessemelhança da realidade. Isto mesmo! Que tal uma análise desapaixonada de muitos de nossos melhores programas de TV? Tal análise irá revelar dados surpreendentes!

Como é bem sabido, as artes, longe de representarem simples ficção, buscam retratar a realidade diária de uma época ou de uma população. Assim é que nossos programas de televisão, por exemplo, revelam que o papel destinado aos protagonistas da raça negra, são invariavelmente os de serventes, porteiros, meninos de rua, lavadores de carros, etc...

Tal realidade, naturalmente, não condiz com a idéia de "democracia racial". Revelam, na verdade, a existência de um "apartheid sem lei escrita", capaz de definir a posição e papel dos indivíduos dentro da sociedade. A existência de tal modelo discriminatório, deve nos levar a sérias reflexões e a mudanças capazes de transformar a realidade.

O processo de formação do povo brasileiro foi bastante diferenciado do processo de formação da nação americana; lá foram colonizados por cristãos protestantes, que haviam se rebelado contra a autoridade papal; posteriormente se viram engolfados pela guerra da sessão/guerra civil e pelos movimentos dos direitos civis. Lá surgiram organizações radicais, à exemplo da Ku-Klux-Klan, a defender a supremacia da etnia branca sobre a negra; evidenciando a existência da discriminação racial, também proibida pela Constituição; lá se viu ainda os graves incidentes raciais, como os ocorridos entre Brancos e Negros nos anos 60 e também os mais recentes, como os de Los Angeles, no caso de Rodney King e os conseqüentes incêndios e saques além dos guetos. Tudo isto tem levado ao surgimento de novas leis e uma maior consciência da necessidade de integração entre os vários grupos raciais, sejam afro-americanos, hispano-americanos, nativos americanos, Asiático-Pacífico americanos ou outras minorias. Tal foi o reclame de uma população oprimida, que os legisladores americanos se viram obrigados a criar leis mais eficazes garantindo os direitos fundamentais de cada um dos cidadãos daquela nação. Inicialmente foram feitas dez emendas à Constituição dos Estados Unidos, as quais ficaram conhecidas como Carta de Direitos. Tais emendas não são as únicas bases dos direitos civis e de proteção legal contra o racismo.

Os últimos trinta anos têm experimentado modificações profundas nas legislações locais, estaduais e federal, assegurando os direitos civis a cada um dos cidadãos. Entre tais avanços, está a legislação conhecida como "Ação Afirmativa", um conjunto de políticas públicas de combate às práticas discriminatórias, entre as quais as leis, e que assegura, por exemplo, um determinado percentual de vagas nas universidades destinada às minorias, a fim de traduzir para a prática a igualdade de educação a todos: uma espécie de "justiça compensatória". Apesar de todos estes esforços, o racismo se mostra evidente nas relações do dia a dia.

No caso brasileiro, convive-se há muito tempo com a idéia de "democracia racial", mas sem refletir seus benefícios na vida diária. Talvez, por que em nossa história não temos conhecido tais movimentos radicais, defendendo uma supremacia racial; nem tampouco tem a nossa população conhecido a guerra civil e nem se engajado em grandes movimentos de libertação (à exceção de algumas revoltas de escravos).

Embora sentindo na pele a discriminação, muitos se vêem incapazes de produzir as mudanças necessárias, seja por uma índole pacífica ou quaisquer outros motivos, mas também pela falta de apoio e vontade política em ajudar a superar as desigualdades sociais. Assim, pode se dizer que no campo do direito ainda não nasceu a política capaz de transformar e corrigir as injustiças históricas, que se acumulam sobre as pessoas e comunidades negras e indígenas, o que compromete o futuro de nossa nação.

No solo do coração ainda também não brotou a semente do verdadeiro amor pelo próximo, nem a árvore da verdadeira amizade e compreensão mútuas. O nosso dia-a-dia está repleto de exemplos, que refletem tais distorções. Durante o carnaval ou festas populares, oportunidades quando e onde se aglomeram milhares de pessoas de todas as camadas e segmentos sociais, é muito claro, visivelmente claro, que para a polícia, por exemplo, encarregada de dar proteção e segurança a cada cidadão, independente de sua cor ou condição social, ainda que inconsciente, para a polícia, todo Negro é considerado como suspeito, enquanto Brancos são identificados como turistas, e portanto, merecedores de atenção especial ou tidos como filhos de pais abastados, o que poderia lhes significar alguns constrangimentos, no caso de agressões injustificadas.

O jornal do dia

A escravidão foi abolida no Brasil, mas a discriminação racial continua vigorando no cotidiano; basta ler o jornal do dia:

Manhã de 29 de abril de 1994. Local: Lojas Americanas do Shopping Piedade, em Salvador, Bahia. A funcionária pública Maria Carmen dos Santos vai à loja e compra um caderno para sua filha. Isabela, uma menina de 13 anos, estava, naquele momento, estudando numa das salas da 8ª série do Colégio...

Início da tarde.

Isabela passa no trabalho da mãe. Precisava de dinheiro. Ia ao Shopping para, sem que Maria Carmen soubesse, lhe comprar um presente de aniversário. Recebe o dinheiro que precisava e o caderno comprado de manhã pela mãe. Junta o novo caderno aos antigos e vai às Lojas Americanas. Lá, Isabela olhou, olhou e nada comprou. Na saída, acontece o que ela e sua mãe jamais previram. É abordada por um segurança que lhe pede o ticket da compra. Ela não tinha. Negra, foi levada até a funcionária Marivalda que, num instante, a transformou numa pequena ladra. "Eu já a conheço, ela é uma das que roubam aqui", acusou sumariamente.

Sem direção à defesa, Isabela tentou explicar que uma simples ligação telefônica desfaria o mal-entendido. Estava com sua mãe o ticket que lhe traria de novo a inocência. Não lhe deram esse direito. A funcionária tratou então de afixar no caderno o adesivo com o preço, para caracterizar o furto. Cercada de seguranças, a trajetória de Isabela até o posto do Juizado foi sua via crucis. Vaias, críticas, olhares. Um momento terrível que ela ainda não esqueceu. No posto do Juizado pode finalmente contatar sua mãe. Tudo esclarecido. Maria Carmen voltou à loja e se identificou: "Eu sou a mãe da menina acusada de ter roubado um caderno." O segurança retrucou: "Ah! A senhora veio pagar o caderno?" Ela brandiu o ticket da compra: "Não. Vim provar que minha filha não é ladrona." Silêncio. Desculpas inconsistentes. (26:13)

Meses depois, Maria Carmen via a filha entrar numa depressão, cujas conseqüências se refletiam nos boletins escolares da adolescente. (Em decisão inédita, a Justiça baiana, através da juíza Maria do Socorro Santiago, titular do 1º Juizado de Defesa do Consumidor, sentenciou em 4.8.95 as "Lojas Americanas" a pagar a importância de R$ 1 milhão, além de 15% de honorários advocatícios, como indenização por danos morais à menor Isabela Santos de Jesus.)

Que dizer da situação flagrante, como citada no Relatório de Direitos Humanos no Brasil - 1994 (7:13) e também pela imprensa, de que em muitas cidades do sul do Brasil, os governos municipais tentam evitar a migração de famílias pobres de nordestinos, os quais são muitas vezes identificados pela sua cor de pele?

Por exemplo, autoridades municipais de Blumenau, Santa Catarina, têm como rotina fiscalizar os ônibus de passageiros que chegam à cidade e encorajar aqueles que não sejam Brancos e estejam sem emprego a deixar a cidade no próximo ônibus. Todos os brasileiros negros já passaram ou conhecem na vida diária amigos, que tiveram que passar por constrangimentos devido a coloração mais escura de sua pele. São piadas, são apelidos, são jargões, etc... todos reforçando a idéia da superioridade branca. Mesmo os poucos Negros ricos de nosso país, não estão livres do preconceito. Vejamos agora um deles:

"Na tarde de sábado dia 26, a estudante Ana Flávia Peçanha de Azeredo, negra, 19 anos, filho do governador do Espírito Santo, Albuíno Azeredo, segurou a porta do elevador social de um edifício em Vitória, enquanto se despedia de uma amiga. Em outro andar, alguém começou a esmurrar a porta do elevador. Ana Flávia decidiu então soltar a porta e, depois de conversar mais alguns instantes, chamou o outro elevador, o de serviço. Ao entrar nele, encontrou a empresária Teresina Stange, loira, olhos verdes, 40 anos, e o filho dela, Rodrigo, de 18 anos. O que se seguiu foi uma cena de baixaria. Segundo contaria mais tarde Ana Flávia, Teresina foi logo perguntando quem estava prendendo o elevador. "Ninguém", respondeu a estudante. "Só demorei um pouquinho." A empresária não gostou da resposta e começou a gritar. "Você tem de aprender que quem manda no prédio são os moradores, preto e pobre aqui não tem vez", avisou. "A senhora me respeite", retrucou a filha do governador. Teresina gritou novamente: "Cale a boca. Você não passa de uma empregadinha." Ao chegar ao saguão, o rapaz também entrou na briga. "Se você falar mais alguma coisa, meto a mão na sua cara", berrou. "Eu perguntei se eles me conheciam e insisti que me respeitassem", conta Ana Flávia. Rodrigo ameaçou outra vez: "Cale a boca, cale a boca. Se você continuar falando, meto a mão no meio de suas pernas." Teresina segurou o braço da moça e Rodrigo deu-lhe um soco no lado esquerdo do rosto..." (27:66-57)

Uma palavra mais...

Naturalmente que todas as leis foram feitas para serem obedecidas e não para figurarem como adornos decorativos. E a Constituição Federal está aí com todas as garantias e direitos dos cidadãos.

Mas por que tais leis não são observadas? Seria a falta de uma melhor compreensão do que é cidadania? Seria, por ventura, a certeza de impunidade? O certo é que não se compreendeu ainda, que a cidadania é um vínculo formal e moral entre o indivíduo e o Estado; um vínculo que traz em seu bojo deveres e responsabilidades, mas que seu conteúdo também são os direitos: os direitos civis, os direitos políticos e os direitos sociais.

O grande desafio que se apresenta neste final de século, é o desafio de criar as bases de um novo relacionamento humano, não mais baseado na cor da pele ou na descendência racial ou econômica, mas baseado no conceito da unidade da humanidade.

A aplicação deste princípio, requer a aplicação tanto de meios materiais quanto morais e espirituais. Dentre estes há de se reconhecer a interdependência de todos os países do globo, a unidade da raça humana, a necessidade da educação universal para seus povos, a urgente tarefa de redução das disparidades entre riqueza e pobreza, a concretização da visão da "terra como o lar da humanidade e dos seres humanos como cidadãos de uma pátria comum."

Um dos desafios deste nosso tempo "... é a grande tarefa política de lutarmos para que o conjunto da população se inclua na condição de cidadãos. ... O problema da fome, o problema do analfabetismo, o problema do desemprego, o problema da habitação, são problemas da sub-cidadania; que na verdade a subnutrição, a submoradia, o subemprego, a subalfabetização, a subcultura, tudo que formos pensar onde caiba o prefixo sub, designa na verdade uma grande população vivendo em condição de subcidadania, fazendo com que no país exista um 'apartheid social', quer dizer, uma linha demarcatória, uma linha de giz separando a população em cidadãos e subcidadãos", (28:85) como declarado por Gomes da Costa.

Quanto aos meios morais ou espirituais capazes de promover uma transformação de tão grande alcance, não há dúvidas de que é o papel da Religião provê-los.

Ao analisar a questão da escravidão na América, Aléxis de Tocqueville (1805-1859), reconheceu o grande papel destinado à Religião. Após estabelecer um paralelo entre os traços da servidão na antiguidade e nos tempos modernos, ele escreveu:

"O que havia de mais difícil nas nações antigas era modificar a lei; nas modernas, é modificar os costumes e, para nós, a dificuldade real começa onde a antiguidade a via terminar. ... A lei pode destruir a servidão; mas apenas Deus poderia fazer desaparecer as suas marcas." (14:262)

Capítulo 4
A "senzala da história"

Alguns cientistas sociais ressaltam ainda a existência da "senzala da história", uma vez que o "eurocentrismo", isto é, a história centrada e contada à partir do ponto de vista europeu, obrigou a maioria das enciclopédias e livros didáticos a não registrarem a existência de grandes personagens e outros líderes Negros, à exemplo de Zumbi dos Palmares, ou mesmo a valorizar elementos relevantes da cultura africana, a exemplo de sua grande destreza nas artes, escultura, criatividade musical e em tantos outros campos do conhecimento humano.

As ciências sociais modernas reconhecem claramente que "quando um povo conhece seu passado e se nutre com histórias de atos dignos de louvor e de serem seguidos, isto lhe dá uma conexão transcendental, um sentido de tradição e de uma herança nobre, que há que se perpetuar." (29:75)

Igualmente, e de outro lado, a ausência de tal reconhecimento explícito na literatura didática, com a conseqüente falta de menção de exemplos dentre sua própria etnia, continua a reforçar nas mentes de milhares de crianças através do país a idéia do "estigma da cor", o que é ainda realçado pela disparidade no acesso ao mercado de trabalho e pelas condições miseráveis de vida da maioria da população negra.

O porquê desta realidade se torna mais compreensiva, quando se analisa os processos de dominação de um povo sobre o outro, conforme a análise ponderada de destacados cientistas sociais, a exemplo de Anello e Hernendez.

"...quando um povo oprime a outro, constantemente dentro de sua estratégia de dominação, trata de suprimir a história do povo oprimido, queimar seus livros, destruir seus monumentos, castigar a menção de seus heróis e obrigar a aprendizagem da história do povo dominante... Por outro lado, quando se quer ajudar um povo oprimido a sair da opressão, um passo importante é ajudar-lhe a recordar e valorizar sua história, seu herói e seus valores culturais. Isto lhe dá um sentido de dignidade..."(29:75-76)

Nascimento, em seu livro "Pan-africanismo na América do Sul", também discorre sobre os processos de exploração econômica e humana, lembrando as guerras colonialistas na África e Ásia, com a escravidão de povos inteiros, e diz: "...E como atual a violência instrumental da arma ou ideologia? Buscando, primeiro, a obnubilação da memória e, em seguida, a implantação das próprias formas culturais das potências civilizadoras nos povos submetidos. Não é outra a ação e o efeito da chamada aculturação. ... O Negro foi aculturado dentro de linhas específicas de pressão espiritual. Sua religião e sua cultura, seus valores e sua concepção do mundo foram pulverizados até sua redução a matéria de folclore e antropologia, através da deformação pitoresca do sincretismo." (30:13)

Que outra conclusão, senão manifestação de racismo, poderia se deduzir da seguinte matéria, publicada em jornal de grande circulação da cidade de Salvador, Bahia, durante 1995 - ano da comemoração do tri-centenário de Zumbi:

"Zumbi era coxo, casado com branca e um mestiço o matou. ... O super-herói do movimento Negro desunificado tinha perfil do anti-herói. Zumbi, o rei dos Palmares, era coxo e foi casado com uma branca. E acabou assassinado por um mestiço." (31:2) Não satisfeito em sua investida contra a memória de um povo e seu herói, o mesmo colunista volta a publicar em edição de 13.5.95: "Mãe África: A África pode não ser a mãe da humanidade, mas foi escolhida para ser a mãe do fim da humanidade. Depois de gerar o vírus da Aids, acaba de parir o Ebola. E a bomba dizima no mês das mães." (32:2)

A pergunta que se faz urgente é: como ajudar a transformar a atual realidade? Outro caminho não há, senão o de reescrever a nossa história, reconhecer e valorizar os nossos heróis, trazer à luz todas as nossas raízes culturais e tê-las em grande consideração. É preciso, sobretudo, passar a limpo... bem a limpo, os currículos e materiais didáticos escolares, fontes que tem sido de uma imagem deturpada das realidades culturais dos Índios e dos Negros. É preciso ainda entender, que somos uma nação pluricultural, formada com a contribuição efetiva de ameríndios, de africanos, europeus, japoneses, alemães, italianos, eslavos, e de tantos outros povos. É preciso ainda entender e apreciar, dar as boas vindas às diferenças culturais e valorizar a possibilidade de uma "unidade na diversidade".

A idéia de "democracia racial", em vez de suprimir e não atentar para as diferenças, deveria reconhecê-las e legitimá-las como verdades da cultura ameríndia, africana ou outras; atentar para sua forma de transmissão do conhecimento, seus valores estéticos, éticos e sua forma de comunhão com a divindade. Nos Estados Unidos, para onde foram levados igualmente milhões de escravos africanos, algumas mudanças já começaram a ocorrer nos currículos escolares.

Naquele país, "... o afrocentrismo obrigou diversas universidades a reformularem seus currículos e subverteu a pedagogia do sistema educacional público do estado de Nova York. Depois de reconhecer a existência de uma "opressão intelectual e educacional" sobre as minorias étnicas, o governo mudou a agenda dos seus cursos de estudos sociais. Não passa pela cabeça de um professor falar em "selvagens", "tribos", "pigmeus" ou "feiticeiro". Nem pela de um editor publicar livros didáticos em que todas as famílias felizes e bebês-johnson são brancos." (33:125)

O "cativeiro dos livros"

O Brasil, de acordo com dados do IBGE tem uma população negra de cerca de 70 milhões de pessoas, a segunda maior população negra do mundo depois da Nigéria; entretanto, esta população tem uma renda muito menor que a da população branca, sem contar o baixíssimo índice de alunos universitários negros e o também pequeno número de empresários negros, médicos, arquitetos e tantos outros profissionais de nível superior.

A constatação desta realidade tem levado sérios historiadores e sociólogos a afirmar que em nosso país, a população negra foi também "submetida ao cativeiro dos livros"; isto é, ao limitar-lhes o acesso à educação, através de mecanismos vários, se limitou também o seu crescimento econômico e a possibilidade de igualmente participar dos benefícios sociais disponíveis.

Este processo começou a fixar conscientemente suas raízes ainda nos momentos iniciais da escravidão, quando aqui aportaram os primeiros navios negreiros, ali se inventando a idéia de Negro, um ser de segunda categoria, um objeto, um ser sem alma, submisso e servil ao mundo dos Brancos, "uma dualidade entre senhores e escravos, capaz de definir na vida concretamente o lugar das classes na hierarquia social." (16:154)

O abolicionista Joaquim Nabuco, também já observava, por volta de 1850, que "a pobreza estava associada à cor da pele e ao tipo antropológico: ser pobre e ser Negro, ou Mulato, eram fenômenos paralelos e intercausais." (3:34)

O fato preocupante é que já estamos nos aproximando do final do século XX e com pesar constata-se que a situação ainda não mudou muito. Os recentes dados de uma pesquisa, em fase de conclusão (1995), revelam a triste realidade social dos Negros no Brasil de hoje. Homens brancos ganham 2,5 vezes mais que os homens negros. Homens brancos ganham 4 vezes mais que as mulheres negras. Homens brancos ganham 2,1 vezes mais que os de cor parda. Os números são também desfavoráveis em relação às crianças no trabalho. Negros e Pardos juntos têm 40,52% de crianças de 10 a 14 anos no trabalho, contra 14,99% de Brancos. Estão precocemente no trabalho 20,56% das crianças negras. Este índice é cerca de 50% superior ao das crianças brancas, refletindo a demografia da desigualdade no Brasil. (34:6)

Na página seguinte veremos dados recentes do IBGE (38) sobre o tema da Educação.

O Negro no mercado de trabalho

Já existe disponível um grande número de pesquisas sérias sobre a realidade do Negro no mercado de trabalho brasileiro. Vários estudos levados a cabo por pesquisadores

EDUCAÇÃO

DISTRIBUIÇÃO DAS PESSOAS DE 10 ANOS OU MAIS DE IDADE, POR GRANDES REGIÕES, SEGUNDO A COR E OS ANOS DE ESTUDO - 1990

DISTRIBUIÇÃO DAS PESSOAS DE 10 ANOS OU MAIS DE IDADE (%)

COR E
GRANDES REGIÕES
ANOS DE ESTUDO
BRASIL
NORTE
NORDESTE
SUDESTE
SUL
CENT.OESTE
(1)
(2)
TOTAL (3) (4)
100,0
100,0
100,0
100,0
100,0
100,0
Sem instrução e menos
de 1 ano (3)
18,1
12,6
34,5
11,3
11,1
16,6
a 3 anos (3)
22,9
24,9
26,5
21,0
23,2
23,2
4 a 7 anos (3)
33,9
33,5
23,1
37,6
41,7
34,2
8 anos ou mais (3)
25,0
28,9
15,8
30,0
25,2
25,9
Branca (4)
100,0
100,0
100,0
100,0
100,0
100,0
Sem instrução e menos
de um ano
11,8
9,0
27,3
8,9
9,1
11,8
1 a 3 anos
20,0
18,9
24,2
18,6
20,8
19,9
4 a 7 anos
36,5
32,7
24,7
37,4
42,3
34,6
8 anos ou mais
31,7
39,4
23,6
35,1
27,7
33,6
Preta (4)
100,0
100,0
100,0
100,0
100,0
100,0
Sem instrução e menos
de 1 ano
28,3
19,7
46,5
19,7
17,7
32,6
1 a 3 anos
26,5
29,0
25,8
26,7
26,2
29,5
4 a 7 anos
31,2
31,6
17,6
37,5
40,5
27,1
8 anos ou mais
14,0
19,7
10,0
16,1
15,6
10,8
Parda (4)
100,0
100,0
100,0
100,0
100,0
100,0
Sem instrução e menos
de 1 ano
26,3
13,9
36,7
15,9
21,8
20,2
1 a 3 anos
27,0
27,1
27,6
26,0
28,4
26,1
4 a 7 anos
30,5
33,8
22,9
38,5
39,2
34,3
8 anos ou mais
16,1
25,2
12,7
19,5
10,6
19,2

FONTE - IBGE: Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios.

1. Exclusive a população da área rural da Região Norte

2. Exclusive a população da área rural.

3. Inclusive as pessoas de cor amarela e sem declaração de cor.

4. Inclusive as pessoas com anos de estudo não determinados e sem declaração.

nacionais e internacionais concluíram a existência de forte discriminação racial no campo do trabalho.

Como exemplo iremos citar o caso da cidade de Salvador, na Bahia, cidade que recebeu um dos maiores contingentes de mão de obra escrava e que ainda hoje tem cerca de 75,7% de sua população de descendência africana. De acordo com o censo de 1980, 17,3% da população é declarada "preta", 58,4% "parda", ou seja 75,7% não brancos, e 24,3% é declarada "branca". A relação salarial em diversas áreas também apresenta forte indicação de discriminação, indicando que "as 'ocupações manuais' são domínio dos Pretos e as 'ocupações técnicas' e as de direção/proprietários são de domínio dos Brancos. ... "Esta realidade, revela que continua sendo reservada aos Negros os trabalhos manuais, os trabalhos que demandam esforços físico, enquanto as atividades de comando, de poder, estão ocupadas por Brancos." (35:15)

Outros estudos, ao analisar a relação entre trabalho e cor entre metalúrgicos baianos, revelou a seguinte realidade: "Há uma forte concentração de Pretos e Mestiços nas ocupações manuais, realizadas nos espaços mais insalubres e periculosos, e nas ocupações técnicas de nível médio; por outro lado, eles estão ausentes, ou sub-representados, nas ocupações administrativas e técnicas de nível superior, que são realizadas em escritórios." (36:19)

Total de Trabalhadores, por sub-Espaço e Cor
Cor/Sub-Espaço
Prod.
Oper.
Manut.
Adm.
(41,7)
(12,5)
(21,4)
(24,4)
Pretos
51,0
40,2
48,8
18,9
Mestiços
37,6
45,4
36,4
33,3
Brancos
11,4
14,4
15,6
48,2
Total
100,0
100,0
100,0
100,0

Fonte: Trabalho de campo realizado por Paula Cristina da Silva, Mestre em Sociologia (UFBa).

Agier, em seu trabalho "Classe e Cor" traz à lembrança as pesquisas de Donald Pierson, como um dos primeiros pesquisadores a identificar com números tal realidade, tendo o mesmo já em 1936 indicado, por exemplo, que a profissão de pedreiros em Salvador, contava com 82,4% de Pretos, 17,6% de Mulatos e Cafusos, e nenhum Branco; entre os estivadores, havia 81,6% de Pretos, 16,8% de Mulatos, e 1,6% de Brancos. (37:7)

Nas páginas seguintes veremos dados recentes do IBGE (38) sobre o tema do Trabalho.

TRABALHO

DISTRIBUIÇÃO DAS PESSOAS OCUPADAS, POR GRANDES REGIÕES,

SEGUNDO A COR E A POSIÇÃO NA OCUPAÇÃO - 1990
DISTRIBUIÇÃO DAS PESSOAS OCUPADAS (%)
COR E POSIÇÃO
GRANDES REGIÕES
NA OCUPAÇÃO
BRASIL
NORTE
NORDESTE
SUDESTE
SUL
CENT.OESTE
(1)
(2)
Total
100,0
100,0
100,0
100,0
100,0
100,0
Empregados (3)
64,7
67,2
54,5
73,2
56,7
67,2
Conta-própria (3)
22,7
23,9
29,9
18,3
23,7
20,5
Empregadores (3)
4,6
4,9
3,3
5,0
4,5
6,7
Não Remunerados
8,0
4,0
12,3
3,5
15,1
5,6
Branca
100,0
100,0
100,0
100,0
100,0
100,0
Empregados
64,7
68,3
53,3
71,9
55,3
65,2
Conta-própria
21,7
21,7
30,0
18,5
24,3
20,2
Empregadores
6,0
7,3
5,0
6,4
4,9
9,5
Não Remunerados
7,6
2,7
11,7
3,2
15,5
5,1
Preta
100,0
100,0
100,0
100,0
100,0
100,0
Empregados
73,4
75,0
60,4
79,4
77,1
77,0
Conta-própria
20,3
20,1
27,7
16,9
18,2
17,8
Empregadores
1,3
4,0
1,4
1,2
1,4
1,6
Não Remunerados
5,0
0,9
10,5
2,5
3,3
3,6
Parda
100,0
100,0
100,0
100,0
100,0
100,0
Empregados
63,7
66,6
54,4
75,6
60,7
68,4
Conta-própria
24,5
24,8
30,0
18,1
72,0
20,9
Empregadores
2,7
4,0
2,8
2,2
1,8
4,4
Não Remunerados
9,1
4,6
12,8
4,1
15,5
6,3

FONTE: IBGE, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios.

1. Exclusive a população da área rural da Região Norte.

2. Exclusive a população da área rural.

3. Inclusive as pessoas de cor amarela e sem declaração de cor.

Novas exclusões no futuro?

Diante de um mundo rapidamente em mudança, com o aperfeiçoamento de novas técnicas, com o uso crescente da informática, modernização de equipamentos, da necessidade da expansão dos conhecimentos, do aprendizado de um "idioma auxiliar internacional" a fim de facilitar e ampliar o entendimento entre os povos; tudo isto traz à mente sérios questionamentos: se ainda mantemos e vivemos numa sociedade com profundas desigualdades sociais e raciais, onde todo o sistema educacional, trabalhista, social continua a preservar determinados segmentos da população distante de oportunidades iguais, como vislumbrar um futuro diferente do atual?

Como livrar milhões de cidadãos brasileiros deste "apartheid", que se evidencia na estratificação do mercado de trabalho por cor e gênero?

A existência deste "apartheid sem uma lei escrita", tem sido registrado em diferentes pesquisas tanto de órgãos oficiais, à exemplo do IBGE e outros, como também por pesquisadores independentes e órgãos de imprensa. Em 1993, a Revista Veja encomendou pesquisa à Rede Nacional de Pesquisa Brasmarket, de São Paulo, a qual entrevistou 6.268 pessoas em catorze capitais brasileiras. (27:67-69)

Os resultados foram como segue:
Quem tem mais preconceito?
Brancos
* 40% admitem ter preconceito

* 36% dizem que os Negros é que são preconceituosos

* 3% afirmam que são os Mulatos
Negros
* 55% dizem que os Brancos têm mais preconceito
* 27% afirmam que são os Negros
* 9% dizem que são os Mulatos

Um Branco, um Negro ou um Mulato. Quem seria contratado para uma vaga?

Brancos
* 71% acham que o Branco tem vantagem
* 5% dizem que o Mulato levaria a melhor
* 3% afirmam que o Negro seria escolhido
Negros
* 81% acham que a vaga seria do Branco
* 4% dizem que seria do Negro
* 3% acham que a vantagem é do Mulato
O Negro no mercado publicitário e na televisão

A televisão é uma invenção da sociedade moderna; foi inventada há pouco mais de 40 anos. Inicialmente toda a programação era literalmente importada dos Estados Unidos, onde também o modelo branco é predominante. Nossa infância, pelo menos a da geração que hoje tem cerca de 40 anos, foi divertida com inúmeros heróis brancos. Quem não se lembra do Capitão América, do Capitão Marvel, do Homem Tocha, do Homem Aranha, do Batman e seu ajudante Robin, do Super Homem. Que eu me recorde, não havia um só herói Negro, como ainda não apareceu nenhum na TV. Quanto aos apresentadores de programas, todos eram e continuam brancos!

Quem não se lembra do Chacrinha, o "velho guerreiro"; de Flávio Cavalcanti, "o Rei da Televisão brasileira" e de tantos outros. A presente geração continua a assistir e a manter o mesmo padrão: Xuxa e suas paquitas, Angélica, Chico Anísio e sua Escolinha do Professor Raimundo, etc.

Uma verificação pessoal da programação de nossas redes de televisão trouxe dados pouco animadores. Após análise das programações nacionais das seguintes redes de televisão: Globo, SBT, Manchete, Record e Bandeirantes, os resultados foram:

À exceção de um único apresentador negro, em programa dominical, exibido pela TV Record, todos os demais são Brancos. No setor de telejornalismo, fora alguns poucos repórteres de rua negros, com aparições esporádicas nos telejornais, todos os demais são Brancos.

Considerando o perfil do povo brasileiro, poderíamos afirmar que ainda temos uma "TV branca". Existem ainda poucas pesquisas sobre a participação de Negros e Pardos no horário nobre da propaganda; entre as existentes, entretanto, levadas à cabo por experimentados pesquisadores, as principais constatações foram:

* Nos comerciais brasileiros pessoas negras comuns aparecem sempre como trabalhadores braçais: operários, motoristas ou empregadas domésticas.

* Quando aparecem favoravelmente nos comerciais de TV, atores Negros são pessoas de qualidades excepcionais, invariavelmente esportistas famosos.

* O homem negro comum, chefe de família, quase nunca é mostrado de forma real.

* Quando se quer vender um produto apela-se para atores brancos.

* Negros são utilizados para mostrar situações desfavoráveis ou excepcionais.

* Negros são retratados dentro de velhos preconceitos.

* Estereótipos preconceituosos que colocam o Negro como dono apenas de força física continuam em alta nas propagandas brasileiras. (39:3)

Outra pesquisa levada a cabo em 1990 (Leslie, 1992), apontou grandes divergências e distorções culturais entre a atual situação dos Negros e a representação televisada; especialmente na Rede Globo, reconhecida como a rede de TV comercial dominante no Brasil (com 80% da audiência total).

A imagem do Negro foi contrastada com sua realidade econômica, política e social. Em um país com uma herança de escravidão similar à dos Estados Unidos e no qual 46% da população foi classificada como negra ou parda no censo de 1987, os Negros estão simplesmente ausentes da TV. (40)

Como se vê, a discriminação racial tem lançado seus tentáculos em todas as áreas da atividade humana e em todas as direções. Não existe praticamente nenhum campo onde ela não tenha se enraizado. Felizmente, nos últimos anos temos assistido a um aumento nas publicações enfatizando a questão racial no Brasil, que a despeito de todas as negações oficiais, continua visível, de forma real e incontestável. A realidade diária tem se revestido de tal crueldade, que alguns autores ao tratar da questão, tem escolhido como linguagem a "ironia e a galhofa", numa tentativa de através do chamado "humor negro", despertar de seu torpor uma "sociedade branca".

As conseqüências da prática do racismo acabam por refletir-se na própria sociedade:

"Quando uma sociedade não distingue mais os limites entre a comédia e a tragédia, ocorre que as instituições que a sustentam chegam a tal grau de degradação dos valores humanos, que não há mais ídolos para serem celebrados nem heróis para serem glorificados." (41)

Como se pode depreender da citação acima, a situação é grave, gravíssima, sem que o país se dê conta de sua lamentável condição. A questão racial no Brasil é um assunto tão sério, que todas as instituições governamentais e ONGs deveriam dar-lhe atenção imediata; os políticos deveriam acordar e colocá-la na pauta do dia, e de preferência em caráter de "urgência urgentíssima"; as forças armadas a deveria colocar na "ordem do dia"; os professores e educadores no "planejamento do dia" e tantos outros em posição de influência em suas "agenda do dia". Existe uma fenda abismal entre a ideologia e a realidade! Quantos foram os sociólogos famosos a estudarem o "caso brasileiro" e a reconhecerem o mito da "democracia racial"? Roger Bastide, Florestan Fernandes, Donald Pierson, Thales de Azevedo, Oracy Nogueira, Abdias Nascimento, são apenas alguns nomes dentre uma lista quase que interminável de cientistas sociais que se aventuraram a pesquisar sobre o tema.

Na visão do sociólogo e historiador Thales de Azevedo, ainda "... encontram-se no país arraigados preconceitos e estereótipos contra as pessoas de cor, sobretudo contra os mais pretos e os mestiços das camadas baixas; fazem-se discriminações e preterições por motivos de supostas diferenças de aptidões, de capacidades e qualidades, entre aqueles e os "Brancos", porém, é também fato de que não se aceitam abertamente as idéias racistas nem se verificam ações violentas, originárias de uma militante consciência de raça. Todavia, a pretendida democracia racial realmente é uma ficção ideológica que as barreiras de classes tanto quanto a velha e ainda não esquecida separação entre escravos e livres e entre estacamentos superiores e inferiores impedem de realizar-se." (42:29)

O Negro no livro didático

A falta de auto-estima observada no comportamento de crianças e jovens negros; o alto índice de repetência e evasão escolar, que alcançava e continua a alcançar índices alarmantes, em média de 70% nas regiões norte e nordeste do país, à nível de primeiro grau, levou a pesquisadora baiana Ana Célia da Silva, a buscar uma resposta para a origem de tal problemática. Suas pesquisas indicam que a raiz da questão está na própria literatura didática!

Após rever os estudos já realizados por um grande número de outros pesquisadores, e também realizar as suas próprias, a conclusão chegada é a de que "a presença do Negro foi rara na literatura didática, especialmente nos livros de comunicação e expressão de nível 1. Sua rara presença foi marcada pela estereotipia, pela folclorização e cristalização da imagem. Foi sugerida uma desumanização e incapacidade, bem como uma atuação restrita ao espaço social." (43:73-74)

De acordo com Wanda Engel Aduan, em seu trabalho Educação e Exclusão: o caso do Brasil (44:230), de cada 100 alunos que entram na primeira série, apenas 60 passaram para a 2ª, 48 terminam a 4ª série, 20 chegam a concluir a 8ª série, 12 ingressam no 2º grau e 6 alcançam o curso superior. Os índices de evasão escolar chegaram em 1989 a 27% na 1ª série e 19% na 5ª série. Além disso, a questão da repetência escolar é tão séria que de 1.000 (mil) alunos que entram no 1º grau, apenas 45 conseguem terminar a 8ª série sem nenhuma reprovação e 175 com apenas 1 repetência, sendo necessários, em média, 9,8 anos para completar este nível.

O Negro, ainda de acordo com as pesquisas de Ana Célia da Silva, foi ilustrado e descrito nos livros didáticos, "como um ser próximos dos seres irracionais, com atitudes e comportamentos que traduzem incapacidade intelectual. Por outro lado, foi representado dissociado de contextos sociais próprios, como escola, família, igreja e trabalho. Foram também ilustrados e descritos como minoria e situados em último lugar. O contexto civilizatório do povo descendente dos africanos foi omitido nos livros. A presença dos estereótipos de feio, mau e incapaz foi constante e parece evidenciar a introjeção desses estereótipos inferiorizantes, cujas conseqüências mais graves são a perda da auto-estima, a rejeição ao outro assemelhado étnico e a rejeição e desrespeito por parte dos Brancos e Mestiços de pele clara, assim como o alijamento do mercado de trabalho..." (43:73-74)

É preciso urgentemente uma revisão racional desta situação irregular, injusta e gritante; entender, compreender, resgatar e valorizar os aspectos culturais de etnia negra, indígena e de quaisquer outras discriminadas; enfim, fazer o trabalho hábil de um jardineiro ou sábio agricultor, separando o joio do trigo, removendo para longe de nossas escolas e, conseqüentemente, para longe de nossas crianças, tais materiais deseducativos, porquanto continuam a semear as ervas daninhas do racismo, do preconceito e da divisão social. Referindo-se ao papel da educação no processo de exclusão social de crianças e jovens brasileiros, Aduan traz para análise, (44:229) os dados estatísticos apresentados pelo IBGE, sobre a escolarização no Brasil nas últimas décadas, os quais demonstram aumento no acesso à escola, para um número cada vez maior de crianças e jovens.

Tais estatísticas indicam que em 1990 cerca de 37,7 milhões de estudantes estavam matriculados, sendo 3,7 milhões em creches e pré-escolas, 29 milhões no 1º grau, 3,7 milhões no 2º grau e 1,5 milhões no ensino superior. Entretanto, estima-se que cerca de 4 milhões de crianças, na faixa de obrigatoriedade escolar, estavam ainda fora do sistema, com claras indicações de que tal fato estava associado às questões econômicas e racial.

Com relação à questão econômica, enquanto o atendimento pré-escolar atingia a 60,9% das crianças oriundas de famílias com renda mensal per capitã acima de 2 salários mínimos, este índice baixava para 17,4% em família de renda abaixo de meio salário mínimo. Do contingente de crianças que nunca freqüentaram a escola, 76% estava também neste grupo. Por outro lado, entre crianças de 7 a 9 anos, enquanto 91,1% dos Brancos estava nas escolas, isto acontecia apenas com 74,6% dos Negros.

Além do grande número de alunos que se evadem dos bancos escolares, a questão dos valores, significados, normas e mitos, que a escola vem transmitindo no processo de estruturação da visão do muno daquelas crianças, que ainda ficam na escola, ainda estão por serem explicitados.

Entre estes valores, significados e normas que precisam ser aclarados, de acordo com Aduan, estão: "Significados de trabalho, consumo, direito, dever, autoridade, propriedade, vida, morte, gênero, sexo, etc., transmitidos tanto através do currículo explícito quanto do chamado currículo oculto. Dados empíricos parecem mostrar, entretanto, que o universo simbólico transmitido vem reforçando visões de mundo discriminadoras do pobre, do Negro, da mulher, apoiadas na valorização do individualismo, do oportunismo e do hedonismo. ... A escola transmissora de um conteúdo ininteligível para a criança pobre, na qual fracassa sucessivamente, que a discrimina e agride, que não a compreende, que lhe parece chata e enfadonha, acaba por perder o sentido também como possível via de ascensão/adaptação social." (44:231-233)

Capítulo 5
Fazendo uma diferença no mundo...
A história de Rosa Parks

Era um dia frio de dezembro de 1955. Rosa Parks, uma senhora de meia idade, depois de um cansativo dia de trabalho estava esperando um ônibus para retornar à sua casa. Ela não queria nada mais que sentar num banco de ônibus e descansar até chegar em sua residência. Mas as leis do estado do Alabama, onde vivia, decretava que as pessoas de cor branca tinham preferência nos assentos da parte dianteira do ônibus. Quando um homem branco entrou naquele ônibus, o motorista mandou a senhora Parks ir se sentar no fundo do ônibus. Ela disse: "Eu não penso que deveria me mover." O motorista chamou a polícia e ela foi presa, dando início ao que hoje é conhecido nos Estados Unidos como o movimento dos direitos civis.

Os Negros, sob a liderança de Martin Luther King Jr., organizaram um boicote aos ônibus. Logo de manhã na segunda-feira (5 de dezembro de 1955), King e sua esposa, Coretta Scott King, ficaram observando a passagem dos ônibus. O primeiro que passou estava vazio e o segundo também. No terceiro haviam dois passageiros brancos e nenhum Negro.

O boicote durou 12 meses, enquanto os Negros se organizavam andando à pé, em carros particulares e de muitas outras maneiras, mas não de ônibus. Os efeitos econômicos do boicote nas empresas de ônibus foram grandemente sentidos, enquanto ações legais eram encaminhadas para terminar com a segregação racial.

Finalmente, aos 13 de novembro de 1956, a Corte Suprema decidiu que a segregação nos ônibus era inconstitucional. O boicote demonstrou que a ação direta e não-violenta produz bons resultados. Além disso, o boicote conseguiu também unir Negros de todas as tendências e movimentos, numa união quase que religiosa. E gerou um líder negro excepcional - Martin Luther King Jr. - capaz de inspirar milhões, levando-os a agir e a tocar toda a consciência de uma nação.

"As pessoas ficaram fora dos ônibus simplesmente porque eu fora presa, não porque eu lhes tenha pedido. Se todos estivessem felizes e prósperos, minha prisão não teria feito qualquer diferença. A única coisa que apreciei foi o fato de que quando tantos outros, ás centenas e aos milhares, se uniram, houve uma espécie de retirada de um encargo individual das minhas costas. Pude sentir que quaisquer que fossem minhas aspirações de ser livre, não estava sozinha. Muitos Brancos, mesmo sulistas brancos, disseram-me que embora parecesse que os Negros estavam sendo libertados, eles se sentiam mais livres e à vontade. Eles sentiram como se minha iniciativa não houvesse libertado apenas os Negros, mas eles próprios. Quando as pessoas decidiram que desejavam ser livres e agiram, então, houve a mudança. Mas elas não podiam apenas se contentar com esta mudança. Ela tinha que prosseguir", disse mais tarde a senhora Rosa Parks.

- EU SONHO COM UM MUNDO: Retratos de Mulheres

Negras que Mudaram a América. Brasília, USIS, 1992

Capítulo 6
American Minority Business

Em fevereiro de 1995, o governo dos Estados Unidos, dentro de sua política de expansão comercial e também de apoio às suas minorias, promoveu a vinda ao Brasil de uma Missão Comercial, constituída por empresários procedentes de minorias raciais em seu país e com o intuito de contactar empresários brasileiros também provenientes de minorias.

Tais empresários representavam pequenas e médias empresas americanas. Durante as reuniões preparatórias à vinda de tal missão, pode-se observar como a discriminação relacionada a cor negra se manifesta, ainda que inconsciente e de formas variadas em nosso dia a dia.

Uma primeira grande preocupação surgiu logo nos momentos iniciais das discussões com grupos empresariais locais. Naturalmente que a vinda de uma missão comercial para fazer negócios com o Brasil foi recebida com extrema satisfação, mas a informação, de que tal missão comercial era uma missão de minorias, trouxe de imediato a seguinte preocupação: Minority Business? Uma missão comercial americana de Negros? Bem, isso não vai ser bem recebido aqui no Brasil. Ainda que não expresso verbalmente, este era, sem dúvidas, o sentimento geral! Talvez não viesse a contar nem com o apoio do governo estadual!?

Havia uma preocupação visível nos rostos dos presentes naquelas reuniões. Por que tal preocupação? Seguramente porque já incorporamos a idéia de que Negro é pobre, portanto, tal missão seguramente não teria o 'cacife' necessário para negociar com os nossos empresários, digamos "Brancos"!

Havia outro fator complicador, isto é, a proposta era a de que empresários brasileiros, representando minorias, pudessem se encontrar com os empresários americanos. A questão emergente foi a seguinte: quem são ou seriam estas nossas minorias? Seriam os Negros? Seriam Índios? Sejam lá quem for, para nossa sorte ou azar, não temos empresários de tais minorias ou temos?

Na verdade, existem no Brasil centenas de "microempresários" negros; eles são camelôs, barraqueiros de praia, pescadores, baianas de acarajé, donos de oficinas mecânicas, etc. Estes são os nossos microempresários. Quanto aos empresários indígenas, assim como os negros, são artesãos, oleiros, vendedores ambulantes, etc. A missão comercial americana queria encontrar-se ainda com lideranças minoritárias no Brasil. Quem seriam nossas lideranças negras? Houve realmente bastante dificuldade em identificá-las.

Por fim, foram convidados o presente do Olodum, João Jorge; Mãe Stella, do terreiro de candomblé Apo-Afonja; Vovô do Ilê-Ayiê; Júlio Braga, etnólogo e professor da Universidade Federal da Bahia; Edvaldo Brito, advogado tributarista e ex-prefeito de Salvador, e parecia que havia terminado a lista das lideranças negras da "cidade mais negra das Américas". Decepção, engano ou a mais pura realidade? Eis a questão!

Novas informações chegaram dos Estados Unidos sobre a composição das empresas e empresários de tal missão, revelando, para surpresa nossa, uma composição étnica bastante variada: na verdade eram Negros, mas também Asiáticos, Latinos, mulheres, Palestinos, Indianos e até um Brasileiro. Isto mesmo! A visão e compreensão do que é uma minoria racial e étnica se mostrou bastante diferente da nossa, e mais, contando com o apoio governamental para poderem progredir.

As informações de que o faturamento médio de tais pequenas e médias empresas ultrapassavam o valor de mais de 100 milhões de dólares anuais, caiu como uma bomba em nossas reuniões. Afinal, muitas de nossas consideradas grandes empresas, muitas vezes não chegam a tal faturamento anual.

Assim, o entusiasmo com a vinda de tal Minority Business Trade and Development Matchmaker ganhou um novo ímpeto, com um volume crescente de empresários locais freneticamente solicitando horário para entrevistarem-se com os americanos. Que importava agora se haviam Negros e outras minorias em tal comitiva? Todos agora pareciam verdes, uma cor maravilhosa, diante dos milhões de dólares à vista, chegando com a "tão bem-vinda" missão comercial.

No almoço de recepção oferecida pelos brasileiros aos americanos, novas surpresas: a Diretora Geral do Comércio Exterior dos Estados Unidos, Lauri J. Fitz-Pegado, uma mulher e negra. Ali estava ela dirigindo-se aos presentes em português perfeito, sem necessidade de tradução. Em sua fala inicial, não vendo mulheres entre os empresários brasileiros, ela não perdeu oportunidade e discorreu, sem constrangimentos, sobre o processo de escravização nas Américas e no Brasil e arrematou dizendo, que ela mesma, como descendente daqueles primeiros africanos aqui chegados como escravos, em vez de nascida nos Estados Unidos, poderia ter nascido no Brasil. Não vendo mulheres empresárias brasileiras dentre os presentes, Lauri Fitz-Pegado, parecia disposta a não perder a viagem e convidou a todos os presentes, a olhar naquele salão e ver o grande número de mulheres empresárias americanas a contemplar a diversidade étnica da American Minority Business.

Lamentavelmente acostumados a identificar a cor negra com a pobreza e mulheres como predestinadas ao forno e fogão, muitos dos presentes ficaram sem entender as alusões feitas por Lauri Fitz-Pegado, ainda que falado em português perfeito!

Capítulo 7
Reconhecer a discriminação:
um passo importante

Um primeiro passo, mas de imenso alcance social para o futuro, especialmente no caso das minorias, seria o reconhecimento oficial da situação de desvantagem em que foram deixadas as populações negras e indígenas no Brasil.

A historiografia oficial, que reconhece a existência de uma "democracia racial" no país, precisa se adaptar à realidade anual. Ainda que muitas das descrições feitas por escritores, sociólogos e historiadores famosos, tais como Gilberto Freyre, Jorge Amado e tantos outros, descrevam os benefícios da miscigenação das etnias branca, negra e indígena no processo de formação do povo brasileiro; dizer que existe uma situação de igualdade em nosso país, é contrariar o bom senso e a razão e continuar a fechar os olhos para os fatos, para a realidade diária, a qual está acontecendo aqui e agora em cada canto deste imenso e vasto país.

Basta abrir os olhos e ver: são meninos de rua, são favelados, são pobres e miseráveis, são analfabetos, todos excluídos de participarem igualmente da mesa de oportunidades.

Olhe e veja as nossas universidades e questione: Onde estão os Negros, os Pardos e nossos Índios?

Olhe para os postos políticos de alto e baixo escalão através do país e torne a perguntar: Onde estão os Negros, os Pardos e Índios?

Busque os proprietários dos grandes, dos médios latifúndios e, se ainda quiser, também dos pequenos proprietários rurais deste imenso país e pergunte: Onde estão os Negros, os Pardos e até mesmo os Índios?

Olhe para o aparelho de televisão que está ligado à sua frente e novamente pergunte: Onde está o Negro, o pardo e o Índio?

Abra qualquer revista, de grande ou pequena tiragem e circulação; olhe detidamente e pergunte: Onde estão os Negros, os Pardos e os Índios?

A verdade é que não estarão lá!

As pesquisas realizadas em 1993, pelo prof. Paulo Vicente Magalhães, da Universidade de Brasília, indicavam a existência de apenas um ministro negro entre os juízes do Supremo Tribunal Federal, senadores ou no Alto Comando do Exército.

E mais: havia apenas três Negros entre os governadores de Estado e 11 deputados federais, entre um total de 503 parlamentares; existia apenas 200 Negros numa confraria de 7 mil padres e somente cinco, entre os 357 bispos católicos", (45:19) numa demonstração da presença quase nula de brasileiros negros nos principais postos de direção nas instituições do país.

Foi o reconhecimento da situação clara, explícita, de desvantagem das minorias étnicas e raciais, que levou o governo dos Estados Unidos, a criar leis de proteção e principalmente de promoção de tais minorias, a fim de assegurar uma participação mais justa e igualitária na sociedade americana.

Sobre a justiça, escreveu Bahá'u'lláh: "A luz dos homens é a Justiça. Não a apagueis com os ventos contrários da opressão e tirania. O objetivo da justiça é fazer aparecer entre os homens a unidade..." (46:35)

Depois de cerca de 300 anos de discriminação e privação, o movimento pelos direitos civis iniciado pelos Negros norte-americanos, veio a culminar no ano de 1964, com Leis que são consideradas o "divisor de águas" para a inteira comunidade negra norte-americana, e que ficaram conhecidas como "Ação Afirmativa", e que até a presente data (1995) tem servido como o instrumento legal para proteção e promoção das minorias, incluindo os Indígenas, os Asiáticos, Negros e outros residentes nos Estados Unidos.

Leis são instrumentos capazes de regular, proteger e assegurar o bem-estar social. Assim, como algumas leis especiais foram criadas nos Estados Unidos e ajudaram a criar uma nova perspectiva de futuro para milhares de cidadãos daquele país, aqui também mudanças na atual legislação bem poderia significar um futuro mais justo para todos os cidadãos.

Conhecendo a história por dentro

Ainda que possamos identificar e valorizar a mistura das raças como algo positivo na sociedade brasileira, as bases de tal processo de miscigenação no Brasil teve fundamentos e premissas demasiado excusas, como atestado por inúmeros autores.

A idéia do "embranquecimento" da população, e não o reconhecimento dos benefícios da mistura racial, teria sido imaginada pelas elites brancas, como uma forma de camuflar o problema racial, e desta forma preservando o status quo das mesmas. Tal idéia estaria baseada na crença de que a miscigenação traria como resultado o gradual desaparecimento das populações negras, através de sua absorção pela população branca, a qual se considerava geneticamente superior. Ainda que difícil de se acreditar e imaginar o estabelecimento consciente de um processo tal, o fato é que passados mais de um século desde a Abolição, as proporções nas disparidades sociais entre Brancos e Negros quase se mantém inalteradas.

Ainda outra verdade é que pensamentos desta natureza sempre acabaram por se cristalizarem em grandes tragédias na vida da humanidade. Foi, por exemplo, com base na crença da superioridade da raça ariana, que Hitler não só dizimou milhões de judeus e membros de outras populações, como acabou por se tornar o pivô da II Guerra Mundial, a qual devastou toda a Europa.

O mesmo gérmen da superioridade racial está presente na obra A Curva do Sino (The Bell Curve), onde seus autores Charles Murray e Richard Hernstein, trazem à tona novamente o tema da suposta superioridade da raça branca, diante de um mundo clamando urgentemente pelo reconhecimento da unidade da espécie humana e de seus direitos fundamentais.

No Brasil, muitos de nossos estudiosos também chegaram a reafirmar tais falsos conceitos de superioridade racial, o que sem dúvida concorreu para a consolidação do preconceito contra os Negros. Nina Rodrigues1, por exemplo, apesar de seus vários estudos e tentativas de compreender o universo culural afro-brasileiro, escreveu sobre a existência de uma real hierarquia racial: "... torna-se impossível acreditar que logo que sejam afastadas todas as incapacidades civis, desde que a carreira lhe seja aberta e não sejam oprimidos nem favorecidos, nossos irmãos prognáticos possam lutar com vantagens com seus irmãos melhores favorecidos de cérebro... Nossos irmãos negros não poderão pois, chegar aos mais altos lugares da hierarquia estabelecida pela civilização, ainda que não seja necessário confiná-los para a última classe." (47:43-49)

Também todo o período ante e pós Abolição estas mesmas idéias estiveram presentes. A imigração européia era vista não apenas como possível fonte de progresso econômico, mas, sobretudo, como aperfeiçoamento étnico. Acreditava-se que era preciso dar novo ânimo ao corpo brasileiro.

Ainda que reconhecendo como virtude a grande capacidade imaginativa do africano, acreditava-se que era preciso "colocar outra alma no corpo brasileiro." Essa alma viria das "raças viris do norte do globo" - germânicos, ingleses, irlandeses, escoceses. Esse era o caminho visualizado para a salvação econômica e moral do Brasil. (48:735-36)

De acordo com a análise ponderada de Hasenbalg, (49:7) entre os fatores que favoreceram a formação do mito da "democracia racial", estão o sistema de paternalismo tradicional e clientelismo, no qual a mobilidade social era quase que apenas o resultado de patronagem controlada pela elite branca, em vez da competitividade de mercado, sistema esse que continuou em vigor mesmo após a abolição da escravatura; eliminando a necessidade de um sistema de segregação racial.

Há ainda de recordar que após a Abolição, se do ponto de vista jurídico todos os cidadãos brancos e negros gozavam da mesma igualdade, no plano prático isso não aconteceu. Os Negros foram deixados à sua própria sorte, sem nenhuma apoio moral ou institucional.

Pelo contrário, livres de seus antigos senhores, eram agora visto com desprezo. Populações inteiras sem nenhum recurso - terras, moradia, dinheiro ou outros bens - vagavam em busca de qualquer coisa que lhes pudesse ao menos garantir o sustento mais imediato. Nessa condição, muitos preferiram retornar às senzalas e casas de seus ex-senhores continuando sob o jugo da escravidão, ainda que "livres".

Paralelamente a estes acontecimentos, a imigração européia passou a ser incentivada, em detrimento da mão de obra nacional. Os resultados negativos de todas aquelas políticas são agora as distorções sociais presentes. Analisando, por exemplo, os resultados práticos da aceitação da mitologia racial brasileira pelos grupos brancos, Hasenbalg ressalta que:

"Em primeiro lugar, uma vez que são aceitos a democracia racial e seus corolários - a inexistência de preconceito racial e discriminação - manifestações de preconceito contra Negros são atribuídos a diferenças de classe e não de raça. Conseqüentemente, as desigualdades entre Brancos e Pretos não são percebidas como raciais de origem, mas como o resultado de fatores de classe. Esta perspectiva é comum entre os brasileiros educados e tem sido também afirmada por alguns analistas das relações raciais brasileiras. ... Em segundo lugar, a ideologia oficial de raça produz um sentimento de alívio entre os Brancos, que podem se isentar de qualquer responsabilidade dos problemas raciais dos não-Brancos. O consenso generalizado entre os Brancos, de que o país não tem nenhum problema racial, faz com que não haja a formação de coalizões com grupos brancos, os quais sob outras circunstâncias estariam mais receptivos às demandas dos movimentos sociais negros." (49:9-10)

Ainda outra análise ponderada da realidade brasileira relativa a "democracia racial", é exposta por Hasenbalg, com base nas argumentações de Bolívar Lamounier:

"Como uma construção ideológica, 'democracia racial' não é um sistema desconectado de representações. Está profundamente arraigado a uma matriz mais ampla de conservadorismo ideológico, no qual as preocupações principais são a preservação da unidade nacional e a paz social. Bolívar Lamounier tem argumentado que 'concessão' tem sido fundamental na política brasileira e para a consciência conservadora do país. Concessões, uma alternativa para a violência (especialmente as formas coletivas de violência), ajudaram a estabelecer o auto-conceito brasileiro como uma nação de 'homens cordiais', e 'pessoas pacíficas', com uma propensão para a tolerância e conciliação. O desenvolvimento de tal concepção ideológica é interpretada por Lamounier como uma resposta adaptada ao potencial de conflito inerente à sociedade brasileira.

"Assim a imagem de harmonia étnica e racial faz parte de uma percepção ideológica mais ampla da 'natureza humana' brasileira, que é associada com o mecanismo de legitimação, o qual absorve tensões, bem como antecipa e controla certas áreas de conflito social." (49:10-11)

A existência de um "ciclo de opressão"

Ainda que encontremos o racismo visível apenas em alguns setores sociais específicos, ele está em toda parte. Muitos seguramente se auto-proclamam isentos do vírus do racismo; mas vivendo em uma sociedade na qual o racismo está enraizado na cultura, é pouco provável que alguém possa estar totalmente livre dele. Todas as observações feitas nos capítulos anteriores reforçam a idéia da existência de um "ciclo da opressão". O "ciclo da opressão", de acordo com as observações da Dra. Haleh Arbab*, inclui dentre outros aspectos, o racismo e a discriminação contra a mulher.

Todos nós embora puros no momento do nascimento, vivemos em uma sociedade onde há discriminação e opressão. A cultura de um povo inclui elementos externos, mas também conceitos, teorias e crenças que não se apresentam visíveis e são, na verdade, o fundamento de muitas de nossas ações inconscientemente preconceituosas. Não se trata de buscar um ou mais culpados pelos atos, pois raramente existem culpados isolados.

Somos o produto de nossa cultura, a qual é aprendida e compartilhada através dos tempos. Não é culpa de ninguém que existam preconceitos; eles são, em grande parte, o produto de nossa sociedade. Mas afinal há de se perguntar: aonde aprendemos os preconceitos, opressão e discriminação?

Onde aprendemos que há de se ter cuidado com o Negro, que Negros são sujos, que não tem qualidades ou que quando tem "é Negro de alma branca", que "cabelo bom" é cabelo liso, que quando a situação está difícil, está negra; etecétera e etecétera. Seguramente que no seio de nossas famílias, na escola, na igreja, com os amigos e na TV.

Desde que declarada a Abolição proclamou-se a igualdade de direitos e leis complementares foram também estabelecidas. A instituição principal da escravidão foi demolida, mas que dizer das instituições invisíveis, enraizadas no coração de cultura e das pessoas? Estas foram os instrumentos da perpetuação da discriminação social e da opressão. Tais instituições culturais invisíveis são os estereótipos, imagens, a literatura, a linguagem diária, jogos e piadas, padrões de beleza e mesmo as estruturas sociais e econômicas mantidas e salvaguardadas intactas no tempo.

Analisemos novamente algumas destas questões.
Estereótipos

Negro só é bom em esportes e na música; todo Negro é pobre; Negros são apresentados como ladrões; cabelo de Negro é ruim...

Imagens

Todas as posições de destaque seja nas profissões, posições na administração pública e privada, nas Forças Armadas, na Igreja, etc..., sendo ocupadas por membros da raça branca. Negros sempre aparecendo em lugares secundários, seja na TV, nas propagandas, etc.

Piadas

Inúmeras piadas e ditados retratando o Negro como ladrão, como sujo, como dotado de menor inteligência...

Linguagem
Dia ruim é dia negro; "a coisa tá preta"; etc...
Literatura

Negros apresentados com imagens estereotipadas e que reforçam os demais elementos acima descritos.

Padrão de Beleza

O Branco e o louro sempre apresentados como o padrão de beleza aceitável; como "o padrão", etc...

Estruturas sociais e econômicas

O gerente de Banco não atende bem o cliente negro; faz exigências que não faria caso o mesmo fosse branco, o atende por último, não lhe dá a devida atenção, etc. Todas estas estruturas sociais estão enraizadas profundamente no inconsciente coletivo. Seus efeitos são devastadores, aniquilando e inibindo a manifestação e desenvolvimento de potencialidades latentes nos seres humanos.

Os efeitos desta opressão têm se tornado visível nas atitudes diárias, desde o olhar surpreso ao ver um Negro freqüentando "ambientes refinados", ao olhar de repulsa ao compartilhar a mesma piscina de um clube ou hotel.

Os pressupostos invisíveis por trás de tais sentimentos não são outros, senão os de que: o Negro não pode fazer, não pode estar, não pode ser... Estas são as leis que foram institucionalizadas no coração da cultura e foram apreendidas tanto por Brancos como por Negros igualmente. Estão internalizadas em nosso subconsciente e estão a nos dizer: o Branco é superior, sempre foi e sempre será.

E também: o Negro é inferior e assim deve permanecer. No Negro, a internalização destas leis não escritas, tornam-se manifestas quando no dia a dia ele prefere não votar nos próprios Negros ou quando identifica sua cor como moreno claro, moreninho, cor de jambo e suas múltiplas variações, como forma de aproximação ao mundo dos Brancos. Esta é nossa realidade atual e não há por que buscar culpados individuais, pois todos somos o produto de nossa sociedade. Pensamos e agimos de acordo com suas normas explícitas ou implícitas.

No entanto, ao reconhecer a existência de tal "ciclo de opressão", é preciso quebrá-lo, rompê-lo; promover as mudanças necessárias tanto a nível interno, como também à nível externo, para que o problema possa ser definitivamente superado.

Parte 2
Unidade Racial
Capítulo 8
A educação e a cidadania

Diz-se que a educação é o instrumento mais eficaz de mudanças. Naturalmente que a educação é um processo longo, ainda que possa ter seu início em qualquer época de uma vida. Mas é seguramente na mais tenra infância, onde as primeiras imagens, referências, conceitos e preconceitos são formados.

Alguns destes conceitos são aprendidos pela alusão verbal direta, enquanto a maioria através dos exemplos verificados no círculo familiar. Eles sempre acabam sendo formados de maneira sutil, quase imperceptível, mas acabarão por formar imagens mentais fortes, difíceis de serem apagadas na idade adulta.

A infância é por excelência a época e o campo fértil para se semear de forma consciente as sementes da tolerância, da apreciação da diversidade, da busca do entendimento mútuo, do companheirismo, da amizade sincera por todos os povos e da compreensão de que "todos somos as flores de um mesmo jardim."

Brinquedos reforçando preconceitos
ou criando experiências transculturais

Que pensamentos você imagina surgiriam nas mentes de pais e mães considerados brancos de nosso país, caso os brinquedos e especialmente as bonecas de suas filhas fossem todas negras e com os cabelos encaracolados? Isto mesmo, todas elas bonecas africanas! Imagine todas as suas crianças, incluindo também as de olhos azuis, brincando com suas lindas "filhinhas" bonecas africanas, cuidando delas com carinho, levando-as para dar banho, comida, colocando para dormir, etc.

Não há dúvidas de que para tais crianças, isto iria significar uma experiência transcultural da maior importância; seria a chamada "mudança de paradigma". Mas para a grande maioria dos pais, só o pensar nesta possibilidade - bonecas negras -, talvez os levasse a ficarem preocupados, enquanto muitos outros já poderiam estar indignados com tal idéia.

O certo é que a maioria absoluta ainda não se deu conta de que por anos a fio, ou melhor, por alguns séculos, estamos obrigando a milhões de crianças negras a terem como brinquedo apenas suas "lindas bonecas brancas".

Naturalmente que se a experiência acima sugerida fosse possível e realizável, estaríamos propiciando a tais crianças brancas uma experiência singular. Estamos, pelo menos por enquanto, vivendo em um mundo onde ainda não existe tal visão transcultural, nem uma compreensão e atitudes de apreciação sincera de todas as culturas do planeta.

Os valores dominantes, como já explicado, são eurocêntricos, isto é, um padrão onde o "Branco" deve sempre apresentar-se como superior ao "Negro" e sobre as demais etnias. Tudo que possa ser identificado como bom, deve ter seu referencial apenas no "mundo Branco".

As crianças brancas, negras, índias e pardas devem brincar apenas com bonecas brancas, de preferência de olhos claros, numa total falta de sensibilidade e imaginação. Em muitos casos criou-se o mito de que as bonecas que não sejam brancas dão azar, são feias, etc. Na mente daquelas pequenas crianças negras, desde a mais tenra idade, vai se cristalizando a idéia de que foram criadas para cuidar e servir ao mundo dos Brancos. Naturalmente elas terão seus próprios filhos e seguramente amarão a cada um deles profundamente, mas talvez permaneça a dúvida: serão eles tão lindos como suas bonecas "brancas"?

Tal pensamento poderá se manter por toda uma vida, enquanto uma consciência crítica da realidade não tiver lugar em suas mentes e corações.

Este padrão eminentemente branco já fez milhares de vítimas e continua a ganhar novos territórios, chegando agora ao mundo oriental, de onde chegam notícias frescas de que até mulheres asiáticas estão fazendo pequenas cirurgias estéticas, para perderem um pouco do formato alongado do olho, a fim de ficarem mais parecidas com as mulheres ocidentais.

Enquanto isto, outra novidade já está na praça; são lentes de contato azuis e verdes para "mudar a cor dos olhos"; uma novidade já à disposição nas melhores óticas!

Mas nem tudo é tão ruim quanto parece e alguns empresários estão despertando para o mercado das etnias e passando agora a investir em brinquedos etnicamente corretos.

Nos Estados Unidos são inúmeros os fabricantes agora produzindo bonecas e outros brinquedos que refletem uma melhor apreciação da diversidade humana. Bonecas tipo "barbie" e outras, brancas e negras, são encontradas em diversas lojas de brinquedos. Bonecas de várias etnias podem ser encontradas!

Para se ter uma idéia do tamanho desta mudança cultural, apenas uma empresa - a Cultural Exchange - possui uma linha de oito bonecas de diferentes raças e culturas, enquanto a Playskoll possui várias linhas de brinquedos de pano, como a boneca negra Kids of Color; (50:8) um exemplo que muitos empresários brasileiros bem poderiam seguir.

Capítulo 9
Diferentes formas de transmissão
e compreensão do conhecimento

Os últimos tempos, especialmente no campo da educação, têm sido marcados pelo surgimento das mais diferentes técnicas de entrosamento grupal, e da facilitação do processo de aprendizagem, todas com nomes que sugerem novidades, tais como "vivências"; "terapia de grupo", etc...

Para a satisfação geral, especialmente do meio acadêmico, a prática tem demonstrado, que tais técnicas tem ajudado os processos de comunicação e de aprendizagem de nossas crianças, jovens e adultos.

Os trabalhos com utilização de pintura, colagem, modelagem com argila, escultura, dramatização, dança, música, ... parecem estar criando e desenvolvendo novas possibilidades e interesses destes mesmos alunos.

Mas a verdade é que para aqueles descendentes das etnias africanas e ameríndias, tais técnicas não deveriam representar total novidade - não fosse a predominância dos valores civilizatórios europeus, os quais acabaram por suprimir os valores e práticas de seu sistema tradicional - visto que os elementos básicos de tais técnicas são intrínsecos de suas culturas.

Conforme ressaltado por Marco Aurélio Luz: "Enquanto, na cultura européia, a transmissão do saber se dá através da meditação do texto, isto é, da forma de comunicação escrita, nas culturas negra e ameríndia a transmissão se dá de forma discreta, dinâmica, pessoal e ou intergrupal. Se, nessas culturas, que denominamos de culturas da participação, o tempo de transmissão se caracteriza pela comunicação ligada a uma experiência vivida, aqui e agora, e que culmina nas situações rituais que marcam o fortalecimento da identidade e o lugar e a função do indivíduo na sociedade, no ensino oficial o tempo está demarcado pelo ano letivo, pela impessoalidade das relações do ensino de massa e pela passagem de série através dos exames que têm como referência básica o desenvolvimento do aluno no âmbito da comunicação escrita." (5:11-12)

O sistema de ensino oficial não tendo levado em consideração o fato de que a maioria do povo brasileiro, traz impregnado na alma, os vestígios de uma cultura negra e ameríndia, as quais combinam, de forma própria, valores religiosos, emblemas, códigos de cores, dança, música, poemas, e tantos outros elementos diferenciados dos valores europeus; acabou por negar e também a privar-se dos benefícios da pluralidade cultural do seu povo. Sejam quais forem as histórias de vida de cada um dos membros destas etnias, cada um carrega consigo influências ancestrais próprias, uma herança cultural, que não pode ser desprezada, oprimida ou ignorada.

A questão da evasão escolar precisa também ser revista sob o prisma do conteúdo programático dos currículos e dos textos escolhidos, uma vez que "nos materiais didáticos utilizados não há possibilidade alguma de identificação para a grande maioria das crianças brasileiras... pois a criança não se vê contemplada nesse contexto, nem a sua família, sua religião, sua comunidade, nem sua sociedade."

Para manter, então, sua integridade psicosocial, a criança, sentindo-se rejeitada, evade-se e prefere perder algumas oportunidades de mobilidade social individual, a submeter-se a padrões culturais exógenos ao seu próprio contexto", conforme ressaltado por Luz (1989). (51:14)

Outra educadora, igualmente preocupada com os evidentes e nefastos resultados da não contemplação do Negro, sua cultura e história nos currículos escolares, sugere que "o processo educativo, com efeito, deve ser revisto no sentido de desenvolver as potencialidades desses indivíduos. Se forem utilizados recursos adequados, esses podem favorecer não só à aquisição de conhecimentos, mas sobretudo o crescimento e a afirmação da identidade do educando negro." (52:71)

Em inúmeras outras culturas as formas tradicionais da transmissão do conhecimento tem sido exatamente a forma oral, com uma grande valorização dos mais velhos, fontes que são de experiência e sabedoria, verdadeiras "bibliotecas vivas", os quais são aceitos como verdadeiros guias e fontes de orientação e referências das crianças e jovens. Este é tradicionalmente o tratamento dispensado aos mais velhos nas culturas negras e ameríndias. Algo que infelizmente contrasta com nosso dia a dia, impregnado pelos valores europeus e que agora se cristalizam em nossas instituições e também em nossa Constituição Federal.

Nossa civilização, reconhecidamente tão identificada com valores eurocentricos, tem dispensado uma quase total falta de atenção aos nossos idosos e aposentados. Ainda outro aspecto cultural evidente em grande parte de nossa população afro-brasileira e ameríndia é a sua forma de conexão com o sagrado, seu uso de vocabulário e indumentárias próprias, sua alimentação e sua preferência pela medicina natural, a exemplo de raízes, chás e folhas.

A visão produtiva/mercantilista que se instaurou no Brasil à época de sua colonização, continua com sua influência marcante em nosso dia a dia. "Tempo é dinheiro", diz o ditado; portanto, não tempos tempo para outra coisa que não seja o trabalho, ou melhor, qualquer tempo dispensado para outras atividades, em última análise é um tempo perdido, não produtivo e, portanto, uma perda de dinheiro.

Mas, por outro lado, mesmo já tendo se passado quase cinco séculos desde a chegada ao Brasil dos primeiros navios negreiros, a população afro-brasileira e também a indígena, guardam traços marcantes de sua cultura original, opondo-se à forma de organização produtiva/capitalista; isto é, a visão de que "tempo é dinheiro" não faz parte de sua cultura, a qual permite ao indivíduo "o trabalhar apenas para viver, o divertir-se, as festas, o lazer, enfim, tudo tão depreciado e visto como preguiça e improdutividade pela sociedade de consumo", conforme assinalado por Ana Célia da Silva. (53:62)

É por isso que com freqüência os nordestinos, normalmente descendentes de africanos e tantos outros descendentes das comunidades indígenas, são chamados por sulistas, em sua maioria descendentes de europeus, por uma infinidade de termos depreciativos, como de "lentos", de "molengas", "de quem não quer nada com o trabalho", etc., demonstrando uma imensa falta de compreensão e apreciação cultural.

Na verdade, o que se pretende em última análise, ainda que inconscientemente, é validar o processo civilizatório europeu, como pretensamente o único possuidor de qualquer mérito. Em sua maioria, entretanto, estão as culturas tradicionais livres do stress, um mal que ameaça de morte os membros da chamada civilização moderna. O nordeste e a Bahia em especial tem sido conhecidos nacional e internacionalmente por sua hospitalidade e alegria, bem como por sua música e ritmos tão característicos, por sua culinária, por seus artistas. O símbolo da Bahia tem sido a baiana de acarajé, o "Preto velho", mas também o berimbau, a capoeira... enfim, tudo e todos de origem africanas. Diz o ditado popular, por exemplo, que "baiano não cresce; estréia!" E isto naturalmente por causa de sua criatividade e inventividade natas, o que não é senão um reflexo de sua ancestralidade.

Basta um olhar rápido sobre a história antiga e recente da música popular brasileira, para reconhecer inúmeros cantores nordestinos, com destaque para os ritmos de percursão. Um bom exemplo recente são os grupos musicais do Olodum, do Ilê Ayiê, do Araketu.

De acordo com o professor de Regência e Coral da Escola de Música e Artes Cênicas da UFBA, Hamilton Lima, "a influência da cultura negra na música brasileira pode ser detectada como registro a partir de Villa Lobos, encarregado de criar a educação musical no Brasil. Ele pesquisou 90% de influência afro na música brasileira. Villa Lobos criou o Conservatório de Canto Orfeônico, uma forma profissional para ensinar nas escolas, e reuniu seu material de pesquisa, transformando-os em livros de música e partituras.

A dificuldade em conseguir instrumentos fez surgir a música à capela, onde só é utilizado o vocal com efeitos onomatopaicos, onde a própria voz humana faz o som instrumental. Um dos muitos exemplos deste estilo musical de Villa Lobos é "estrela do céu e lua nova, baseada no candomblé da Bahia." (54:7)

Na verdade, o lúdico, a radiância, a alegria, hospitalidade tem se tornado aspectos relevantes na cultura nordestina, com sua inventividade, criatividade, as quais ainda não tem sido apropriadamente reconhecidas e valorizadas nos currículos escolares.

Uma outra questão, mas não de menor importância, é o fato de que em todos os países latino-americanos o modelo escolar tem seguido o padrão da chamada civilização ocidental. De acordo com observadores perspicazes, nossas universidades copiaram o modelo europeu, o qual evoluiu de acordo com realidades históricas fundamentalmente diferentes das da América Latina.

Indicam, por exemplo, que a divisão do conhecimento em disciplinas não surgiu de uma compreensão da diversidade do talento humano. Foi o resultado de um processo histórico e está fortemente influenciado por ideologias e condições sociais, refletindo desta forma estilos de vida e realidades históricas de certos povos, que não os nossos.

Desta forma, quando um país adota tal estrutura para seu sistema educacional, está adquirindo muito mais que conhecimento; está fazendo, de fato, planos concretos para sua futura organização social. (55:66-67)

Visto que tal sistema educacional importado não tem, em última análise, sido capaz de resolver os graves e crescentes problemas das massas de nossos países, os quais continuam a enfrentar a miséria e o descaso, é oportuna tal referência, uma vez que é urgente uma revisão de todo o sistema de educação, de forma a imbui-lo com o conhecimento acumulado, com o espírito e com a tradição milenar das culturas de tais populações, para assim desenvolver novos modelos educacionais e instituições mais próximas da realidade diária.

Capítulo 10
Transformação da realidade pela educação

Por sua natureza transformadora, a educação é o instrumento para as soluções mais permanentes. Ela deve ser vista "como um processo pelo qual os seres humanos e as sociedades podem alcançar seu mais alto potencial", como sugerido no Capítulo 36.6 da Agenda 21.

Cabe a ela realizar um papel vital na cura do racismo; uma vez que é o meio eficaz para se moldar os valores, atitudes, comportamentos e habilidades humanas. Assim, considerando que o racismo está baseado no mito da superioridade branca e na inferioridade de outras raças; as escolas podem fazer um papel fundamental e consciente para expor as falsas bases de tais asserções racistas e, então, promulgar o conceito da unidade da humanidade.

A unidade da humanidade está assentada nas seguintes verdades:

1. A Humanidade é uma só: todos os seres humanos provêm de um ancestral comum. Todas as pessoas no planeta pertencem à mesma espécie; uma verdade espiritual, confirmada por todas as religiões e tradições espirituais e agora também reconhecida pelas ciências humanas. Todos são membros da família humana. As características condizentes com a condição humana são a honradez, a compaixão, compreensão, amizade, cooperação, a confiabilidade, e o desejo de servir seu próximo.

2. A capacidade espiritual é uma característica comum a todos os seres humanos. Os seres humanos de todas as culturas e origens geográficas e etnias tem a capacidade essencial que os predispõem para a transcendência, bem como a prosperar materialmente. Considerando esta unidade da raça humana, "... a educação deveria, em seus programas, currículos e atividades educativas, se esforçar por cultivar a tolerância e a fraternidade e promover uma apreciação da riqueza e importância dos diversos sistemas culturais, religiosos e sociais do planeta e fortalecendo aquelas tradições que contribuem para uma civilização mundial sustentável." (56:3)

3. Devemos ainda compreender que todas as pessoas são membros de uma comunidade global, a qual abarca a diversidade da humanidade. O planeta Terra, "nosso lar comum", atualmente com 5 bilhões de pessoas nele vivendo (a população poderá ser de 10 bilhões em meados do século 21), é o único lar que a raça humana possui. A sobrevivência da família humana depende da convivência pacífica, harmoniosa e cooperativa entre seus membros.

De acordo com a visão bahá'í, "a aceitação da unidade da humanidade é o requisito fundamental para a reorganização e administração do mundo como um só país - como o lar da humanidade. A aceitação universal deste princípio é a essência do êxito de qualquer tentativa de se estabelecer a paz mundial." (5:24)

Algumas sugestões que os currículos escolares
poderiam implementar

* Ajudar a criar um ambiente especial, que ajude os alunos a descobrirem e formularem suas opiniões a respeito de problemas nacionais, internacionais e interculturais, expondo-os às idéias dos membros de outras nações e culturas.

* Promover atividades que criem uma oportunidade de vida comunitária, na qual cada um possa avaliar suas crenças e motivações individuais, sua maneira de relacionar-se com os demais e sentir-se responsável numa convivência grupal.

* Ajudar os alunos a entenderem que conflitos são parte de nossa realidade diária, e estimulá-los a encontrar as soluções.

* Estimular os alunos a se interessarem pelo conhecimento de outras culturas, dando as boas vindas às diferenças e peculiaridades de cada uma.

* Desenvolver o espírito de solidariedade e de serviço desinteressado pelo próximo; criar uma visão e o sentimento de pertencer a uma mesma família, cujo lar é o planeta terra.

* Ajudar a eliminar os estereótipos baseados na raça, Religião, cultura, classe, nacionalidade, etnicidade e gênero nos currículos, como um meio de promoção da cidadania mundial.

* Saber que preconceitos levam inevitavelmente à falta de ordem e de união.

Na compreensão de um conceituado psicoterapeuta, em geral os preconceitos levam a três grandes conseqüências:

1. Eles perpetuam a ignorância.
2. Eles se tornam um obstáculo ao progresso.
3. Eles causam doenças psicológicas. (57:46)
Capítulo 11
Fazendo uma diferença no mundo...
A história de Oseola McCarty

Uma pequena ação pode captar a atenção de uma nação e transformar corações. Este foi o exemplo de Oseola McCarty, uma senhora negra americana.

Ela passou 75 anos de sua vida trabalhando como lavadeira, lavando roupas paras as pessoas da cidade de Hattiesburg, no estado do Mississippi, nos Estados Unidos. Entretanto, a senhora Oseola McCarty fez uma contribuição para a Universidade de Southern Mississippi que captou a atenção de toda a nação.

Os hábitos de trabalho e de economia da senhora McCarty foram estabelecidos desde muito cedo, quando ela ainda era criança, que ao chegar em casa vinda da escola ia passar roupas. Tão logo ela recebia o dinheiro por ter lavado e passado roupas, ela depositava uma pequena parte em sua conta de poupança, num dos bancos locais.

Agora depois de anos de trabalho e economia, ela se "aposentou" e começou a fazer planos para o futuro. Entre estes planos, incluiu uma doação de cento e cinqüenta mil dólares para uma universidade da cidade onde ela vive.

"Eu quero poder ajudar alguma criança a ir para o colégio", disse a Sra. McCarty."Eu só quero que este dinheiro vá para alguém que dê valor e estude. Eu estou muito velha e não vou viver para sempre. Estou também muito velha para receber educação, mas eles podem."

O dinheiro doado pela Sra. McCarty será usado pela Universidade pra dar anualmente uma bolsa de estudos a algum jovem, com prioridade para estudantes afro-americanos, que demonstrem ter necessidade. Tão logo a notícia da doação desta senhora simples foi divulgada, o assunto virou notícia nos Estados Unidos.

A história apareceu nas primeiras páginas dos grandes jornais: New York Times, Washington Post, Baltimore Sun, USA Today e nas redes de televisão CNN, NBC, ABC's, CBS e MTV, além de revistas e outras publicações. O exemplo da senhora McCarty tocou e emocionou milhares de outras pessoas. Muitas começaram a ligar para a Universidade oferecendo também contribuições para serem usadas na educação de jovens.

Uma senhora da Califórnia escreveu dizendo que era dia do seu aniversário e que não poderia pensar numa melhor maneira de celebrar, senão contribuindo para a causa pela qual a senhora McCarty deu tanto, e enviou junto um cheque, como sua contribuição.

Um homem do Texas enviou 10.000,00 dólares e assim por diante. "Eu não posso fazer tudo, mas eu posso fazer alguma coisa para ajudar alguém," disse a senhora McCarty. "E o que eu posso fazer eu irei fazer. Eu gostaria de poder fazer mais."

- SOUTHERN NEWS & VIEWS, Hattiesburg Miss,

University of Southern Mississippi Alumni Association,

Vol. XXXV, no. 1, p. 1-2, 1995
Capítulo 12

Criando as oportunidades para o intercâmbio cultural

A tolerância é uma das capacidades morais ou espirituais capaz de manter e promover a paz, a justiça, e o respeito aos direitos humanos. Ela se manifesta na habilidade de escutar as opiniões dos demais e de se expor a novas idéias; de permitir a livre comunicação e a liberdade de expressão.

A tolerância está relacionada ao reconhecimento de que toda pessoa humana - sem distinção de sexo, idade, raça, idioma, religião, opinião política ou origem nacional ou social - possui uma dignidade inalienável e inviolável.

Cada cultura traz em seu bojo importantes elementos que a identificam e distinguem das demais, seja por suas festividades, sua dança, música, artes, língua, etc.

Uma excelente maneira de diminuir os efeitos perversos do racismo é expor a nós mesmos e as nossas crianças às diferentes culturas. Este passo simples e a princípio pequeno, tem uma importância imensa, pois ajuda a eliminar muitos de nossos preconceitos.

Muitas ações podem ser tomadas, como por exemplo:

* Escolher na Vídeo locadora filmes que contem a história ou retrate aspectos distintos de diferentes povos e culturas. Convide as crianças e vizinhos para assistirem e após a sessão aproveite para conversarem sobre o que foi visto.

* Reconhecer que muitas das características da música e da dança africanas estão em evidência no samba, no jazz, no blues, no reggae, no soul, no sapateado, etc.

* Reconhecer que muito de nosso artesanato, de nossa culinária, de nossos utensílios tem origem indígena.

* Participar e até mesmo organizar exposições de artes de diferentes culturas.

* As escolas podem realizar estudos sobre as várias culturas e povos do mundo, pedindo para s crianças prepararem redações e até mesmo escreverem para crianças de outros países.

* Existem em muitas cidades exposições etinerantes de fotografias, teatro, dança, música, artesanato, etc. de países diversos. Tais exposições sempre são divulgadas nos jornais e nos informativos de Associações Culturais. Participe de tais exposições e leve outros amigos.

* Quando tiver contacto com algum estrangeiro, não se afaste dele. Pelo contrário, se aproxime, fale com ele, ente entendê-lo e ajude-o caso necessário. É importante fazer amizade com pessoas de todas as partes. Isto ajuda ao entendimento comum, a aproximação dos povos e vai criando o sentimento de pertencer a um só país, isto é, o conceito de "cidadania mundial".

* Entre em contato com entidades que promovam o intercâmbio e entendimento entre os povos, à exemplo do SERVAS, uma organização internacional que estimula o intercâmbio de idéias para ajudar as pessoas a compreender o ponto de vista das demais. Apóie os esforços de todo aquele que trabalha em prol da paz, através de medidas não violentas, em todo o mundo. No Brasil o SERVAS tem membros em todos os estados da federação e pode ser contactado através de sua Secretaria Nacional: Caixa Postal 6656, 0106-970 São Paulo, SP.

* Para aquelas crianças que dispõem de um computador em casa ou na escola, elas podem se corresponder com crianças do mundo inteiro, através da Internet. Eis alguns endereços para mais informações:

1. I*Earn: Uma grande rede internacional de comunicações ligando mais de 400 escolas em mais de 20 países, dedicada a estudos sociais, artes, meio ambiente ... e em todos os contextos de "fazer uma diferença no mundo". Email: iearn@igc.apc.org

2. Berit's Best Sites for Children
http://www.cochran.com/theosite/ksites.html
3. Canadas's SchollNet
http://schollnet.carleton.ca/enghish/schlnet.html
4. KidLink
http://gnn.digital.com/gnn/wic/ed.35.html
5. Kid/s Web
http://www.npac.syr.edu/textbook/kidsweb/
6. Interesting Places for Kids
http://www.crcrocoh.com/people/steve/kids.html

* Outra importante instituição, trabalhando para dar a jovens a oportunidade de aprenderem, pela experiência, a viver amigavelmente entre si, independente de suas origens culturais; contribui, através de pesquisas e experiência, para a ciência das relações internacionais e resolução não violenta de conflitos, é o CISV - Children's International Summer Villages, a qual está filiada à UNESCO.

Existem associações internacionais de CISV em inúmeros países através do mundo, inclusive no Brasil. O endereço internacional é: MEA House, Ellison Place, Newcstle Upon Tyne, NE1 8XS England.

O papel e a responsabilidade da mídia

Em 1986, havia mais de 625 milhões de aparelhos de televisão no mundo, um para cada oito homens, mulheres e crianças. No Brasil, de acordo com os dados disponíveis do IBGE, em 1990 cerca de 72,8% de lares brasileiros possuíam televisão. A verdade é que quase todo mundo vê televisão e isto altera a cultura e a nossa percepção da realidade.

Segundo Joshua Meyrowitz, analista americano dos meios de comunicação, na tradição do falecido Marshall McLuhan, "existem poucas coisas que as pessoas fazem mais do que ver televisão. Começamos a olhar para a televisão através das grades do berço e continuamos a vê-la através das cataratas da velhice. A televisão está no contexto da maneira como cada um de nós percebe o mundo, no que pensamos sobre a política, os divertimentos, as notícias, sobre quase tudo que existe." (58:58)

Ainda que culpemos muitas vezes a televisão pelo impacto negativo, que muitos de seus programas tem causado em nossas crianças e sobre nós mesmos; a verdade é, que a TV é apenas um instrumento, o veículo para a transmissão de pensamentos, conhecimentos e imagens.

Se há alguma coisa que precisa mudar, esta seguramente é o conteúdo de sua programação, ou melhor, a visão, a mente e o coração de seus autores. Muitos deles ao escreverem peças e programas para a TV, parecem esquecidos do inevitável grande impacto dos mesmos sobre o público.

Em um país ainda semi-alfabetizado, com a maioria de seus habitantes incapazes de formularem seu próprio destino e ainda vivenciando enormes disparidades sociais e econômicas; tais autores bem que poderiam se contrapor à atual tendência de dissimulação social, deixando de dar tanta ênfase aos aspectos negativos de nossa sociedade.

Falando da televisão como veículo dependente, José Marques de Melo, em seu ensaio Neocolonialismo: Evidências do caso brasileiro (1989), explica que "a implantação de meios de comunicação de massa nas áreas coloniais sempre obedeceu ao imperativo de introjectar a cultura e a ideologia do colonizador. No caso da televisão, esse papel avultou-se pela natureza do próprio meio e pela dependência que mantém em relação aos países metropolitanos." (59:58)

Não há dúvidas: a antiga e conhecida relação dominador versus dominado, colonizador versus colonizado, senhor versus escravo, ainda está viva e presente em muitas parte de nosso mundo e parece ter ganhado novos contornos nestes tempos modernos, com a invenção e avanço de novas tecnologias. O moderno, que sempre aparece identificado como "progresso", se apresenta de imediato como superior ao tradicional. Neste ambiente, o tradicional é considerado como sinal de antiquado, como "fora de onda" e, assim, é levado a ceder lugar ao chamado "moderno". Igualmente no campo cultural, um povo é muitas vezes levado a pensar que todo o seu acervo de conquistas, sua cultura e história, tem uma importância secundária, quando comparadas com o "moderno", identificado normalmente com os padrões ora vigentes nos países do hemisfério norte.

Pode-se dizer que existe uma pressão ou até mesmo uma "opressão cultural" no sentido norte-sul. É preciso, portanto, uma análise cuidadosa para se evitar a uniformidade cultural.

A diversidade cultural é fonte de riqueza e beleza; nela reside a história, as conquistas não são de um único povo, mas da humanidade como um todo. De acordo com a visão bahá'í, "a mídia tem a responsabilidade de ajudar as pessoas a entenderem que a diversidade não precisa ser uma fonte de conflito; antes, a diversidade pode, a agora deve, servir como um recurso para o desenvolvimento das nações. A mídia poderá alcançar esta meta, focalizando em empreendimentos construtivos, unificadores e cooperativos que comprovam a capacidade da humanidade de trabalhar junto para vencer os enormes desafios que ela enfrenta, em vez de continuar a dar ênfase em aspectos e diferenças que, aparentemente, são insuperáveis." (56:5)

Naturalmente que o quanto antes tais mudanças forem adotadas, mais cedo começaremos a visualizar resultados mais positivos no dia a dia.

Capítulo 13
Reafirmando a influência da África na formação
do povo e cultura brasileira

Não se pode deixar de reconhecer, que o candomblé foi durante mais de quatrocentos anos, a grande força promotora e guardiã dos valores étnicos e culturais negros no Brasil.

Para se ter uma idéia da dimensão da prática e influência do candomblé, os seguintes dados revelam sua importância;

"Um mapeamento concluído pelo antropólogo Ordep Serra, em 1980, através do convênio entre a Prefeitura Municipal de Salvador e a Fundação Pró-Memória, dava conta da existência de 1.200 terreiros na área metropolitana da capital. No estado, porém, o número é bem superior. O também antropólogo Waldeloir Rego, diz que passa de dois mil, enquanto o presidente da Federação Baiana do Culto Afro-Brasileiro (Febacab), Luis Sérgio Barbosa, fala em aproximadamente seis mil, incluindo na relação, casas de Umbanda. Certeza, pelo menos, ele tem do funcionamento em toda a Bahia de 3.052 terreiros, que é o número cadastrado pela entidade." (60:21-24)

A Bahia, naturalmente, parece guardar as evidências de uma influência mais marcante. Em todo o território nacional, entretanto, se pode visualizar as mesmas evidências de tal influência.

Alguns outros depoimentos

"A presença da África na cultura brasileira é insofismável. Ela está presente desde a época da colônia, e de uma maneira marcante nos grandes centros de pessoas vindas da África para o Brasil colônia. Esta presença é ainda mais marcante no Recôncavo (baiano) naquilo que a cultura tem de mais importante, a música, a arte e a culinária. E hoje em dia, são pouco eficazes as nossas linhas culturais com a África devido ao descaso dos setores diplomáticos nesta área. Espero que no presente estes encontros estreitem mais os contatos culturais com o povo africano que tanto nos ajudou." - Calasans Neto, Artista Plástico (54:8)

"A cultura brasileira, original e mestiça, resulta da fusão de raças, sangues, credos, costumes, culturas: européias, sobretudo latinas-ibéricas - portuguesas -, africanas, indígenas. Essa mistura se iniciou com a chegada das caravelas das descobertas, prosseguiu com o desembarque dos escravos africanos dos porões dos navios negreiros, prossegue e se intensifica cada vez mais, ampliando e aprofundando a singularidade de nossa cultura brasileira. As três raízes fundamentais - a indígena, a negra, a branca - possuem importância idêntica mas o peso da contribuição africana, parece-me o de maior força de invenção. Por isso mesmo tenho dito e repetido que o umbigo da nação brasileira é a África." - Jorge Amado, escritor (54:8)

"A matriz africana foi a mais importante vertente formadora do perfil da cultura brasileira em conseqüência da própria História do Brasil. Três séculos de escravidão, 5 milhões de Negros importados, mais o isolamento em que foi mantido o Brasil pela Coroa Portuguesa, asseguraram a maior população de descendência negra concentrada fora do continente africano. Esses fatores determinaram a primazia da influência africana nas artes, na música, na dança, na religiosidade, na língua, dentre outras manifestações culturais. O Brasil é hoje reconhecido como o país do samba, da capoeira, da figura da baiana, do candomblé e de instrumentos típicos como o berimbau, o reco-reco, a cuíca, de evidente origem africana. Sobretudo, embora ainda não reconhecido, o português que falamos no Brasil é diferente daquele de Portugal devido à influência de línguas africanas." - Yêda Castro (54:8)

Capítulo 14
SOS Unidade Racial

Sugestões, como as apresentadas por Washington Araújo em seu livro Nova Ordem Mundial: Novos Paradigmas (61:100), são sempre bem vindas. Diz ele:

"Um SOS Unidade Racial deveria ser criado em cada estado do Brasil, para inibir tais violações. Aos transgressores, a lei. Nada mais que a lei. Que as vítimas sejam encorajadas a processarem seus algozes. Não se constrói uma nação sã, sem indivíduos igualmente sãos."

Outra idéia prática e que tem ganhado a simpatia e a adesão de inúmeros colaboradores voluntários é o da criação de Institutos para a Cura do Racismo. Existem atualmente um número crescente destes centros de cura espalhados por todo os Estados Unidos e que tem como objetivos dois propósitos básicos:

1. Ajudar indivíduos a se livrar do racismo, aqui considerado como uma doença.

2. Se tornar um centro de ação social, ajudando a promover unidade racial dentro da comunidade. Os detalhes do funcionamento e atividades este instituto pioneiro na promoção da cura do racismo e promoção da unidade racial, estão descritos no livro Healing Racism in América, do autor Nathan Rutstein. (62:163-171)

Conheça também as leis brasileiras sobre racismo

Foi somente em 2 de fevereiro de 1987, que a Câmara Federal votou em plenário a preposição de Lei contra o racismo, apresentada pelos deputados Sra. Benedita Silva (PT) e Sr. Carlos Alberto Caó (PDT), ambos Negros, e autores do texto finalmente aprovado:

"A Lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais. A prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível sujeito a pena de reclusão, nos termos da Lei."

A Constituição Brasileira de 1988, no capítulo Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos, Art. 5o, XLII, agora declara solenemente: "a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito a pena de reclusão nos termos da lei."

A Lei no 7.716, de 5 de janeiro de 1989, em alguns de seus artigos, diz:

Art. 1o - Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes de preconceitos de raça ou de cor.

Art. 3o - Impedir ou obstar o acesso de alguém, devidamente habilitado, a qualquer cargo da Administração Direta ou Indireta, bem como das concessionárias de serviços públicos.

Pena: reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos.

Art. 4o - Negar ou obstar emprego em empresa privada.

Pena: reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos.

Art. 5o - Recusar ou impedir acesso a estabelecimento comercial, negando-se a servir, atender ou receber cliente ou comprador.

Pena: reclusão de 1 (um) a 3 (três) anos.

Art. 6o - Recusar, negar ou impedir a inserção ou ingresso de aluno em estabelecimento de ensino público ou privado de qualquer grau.

Pena: reclusão de 3 (três) a 5 (cinco) anos.

Parágrafo único: Se o crime for praticado contra menor de 18 (dezoito) anos, a pena é agravada de 1/3 (um terço).

Art. 7o - Impedir o acesso ou recusar hospedagem em hotel, pensão, estalagem ou qualquer estabelecimento similar.

Pena: reclusão de 3 (três) a 5 (cinco) anos.

Art. 8o - Impedir o acesso ou recusar atendimento em restaurantes, bares, confeitarias ou locais semelhantes abertos ao público.

Pena: reclusão 1 (um) a 3 (três) anos.

Art. 9o - Impedir o acesso ou recusar atendimento em estabelecimentos esportivos, casas de diversões ou clubes sociais abertos ao público.

Pena: reclusão de 1 (um) a 3 (três) anos.

Art. 10 - Impedir o acesso ou recusar atendimento em salões de cabelereiros, barbearias, termas ou casas de massagem ou estabelecimentos com as mesmas finalidades. Pena: reclusão de 1 (um) a 3 (três) anos.

Art. 11 - Impedir o acesso às entradas sociais em edifícios públicos ou residências e elevadores ou escada de acesso aos mesmos.

Pena: reclusão de 1 (um) a 3 (três) anos.

Art. 12 - Impedir o acesso ou uso de transportes públicos, como aviões, navios, barcas, barcos, ônibus, trens, metrô ou qualquer outro meio de transporte conhecido.

Pena: reclusão de 1 (um) a 3 (três) anos.

Art. 14 - Impedir ou obstar, por qualquer meio ou forma, o casamento ou convivência familiar e social.

Pena: reclusão de 2 (dois) a 4 (quatro) anos.
Capítulo 15
No âmbito do coração

O bem estar social é um direito de cada indivíduo, independente de sua origem, classe social, cor, crença, etc. A existência de uma legislação escrita assegura tais direitos inalienáveis, bem como oportunidades iguais para todos os segmentos de uma população; mas os primeiros passos de uma mudança verdadeira, efetiva e duradoura devem ter sua gênese no próprio coração, visto que aí é a sede de nossos mais acalentados sentimentos, sejam de intolerância ou de amor.

O reconhecimento universal de que não existem cidadãos de segunda categoria, precisa ser rapidamente ensinado e sustentado por uma legislação clara, mas também pela disposição sincera das pessoas em eliminar o preconceito do coração humano.

"O racismo é um dos males mais funestos e mais persistentes" declaram os Escritos Bahá'ís "...constitui um obstáculo importante no caminho da paz. A sua prática perpetra uma violação demasiado ultrajante da dignidade dos seres humanos para poder ser tolerada sob qualquer pretexto." (5:18)

É aqui, portanto, no âmbito do coração onde as mudanças básicas necessárias devem ser primariamente processadas, tanto em seus aspectos espirituais como práticos.

Os sentimentos de amor universal e compreensão genuínas de que "todos incorporam possibilidades divinas" devem ser cultivados e regados com a atenção de um jardineiro amoroso, não deixando espaço para que cresçam os "espinhos do ódio ou os cardos do rancor", pois "o racismo", advertem os Escritos Bahá'ís "... retarda o desenvolvimento das potencialidades ilimitadas de suas vítimas, corrompe seus perpetradores e desvirtua o progresso humano." (5:18)

Muitas vezes pensamos muito rápido e superficialmente e imaginamos que não temos preconceitos, quando, na realidade, nossas palavras, ações e expressões faciais demonstram o contrário. É preciso fazer, cada um de nós, um exame de consciência e descobrir as formas de eliminarmos os nossos preconceitos.

No Brasil o preconceito racial se revela em muitas situações, mas é sobretudo nas questões econômicas, onde parece estar mais evidente. Se alguém é Negro e rico, ele passa imediatamente a ser considerado como "Branco", como um "Negro que deu certo", ou até como um "negro de alma branca", e assim passa a gozar de muitos dos benefícios disponíveis apenas para uma parcela de nossa população.

O preconceito racial no Brasil foi estruturado sobre a ignorância das massas, isto é, na obstrução à educação por parte das populações negras e indígenas; e sua expressão mais visível se dá no campo econômico, onde sem o acesso ao conhecimento ficam privadas do crescimento econômico. Assim é que a maioria quase absoluta da população de descendência africana e indígena está nas camadas sociais mais pobres.

Esta questão pode ser observada no cotidiano e basta apenas estarmos atentos.

Acho que um bom exemplo foi identificado por minha filha, de apenas 9 anos de idade. Durante certa manhã estavam ela e a mãe caminhando pela feira livre. Logo vieram alguns meninos oferecendo suas frutas, legumes e outras mercadorias. Voltando-se espontaneamente para sua mãe, disse: "Você sabe por que os meninos vieram perguntar se você quer comprar?"

Sua explicação foi simples e direta: "Como você é branca, eles acham que você tem dinheiro."

Como se vê, foi uma resposta reveladora de sua já profunda compreensão sobre a realidade social. Em todo o país, de norte a sul, leste a oeste e também no planalto central estão as evidências da discriminação racial, apesar de oficialmente alardearmos que somos e vivemos numa "democracia racial".

Fernando Conceição, uma das lideranças ativas do movimento dos favelados e militante o Movimento Negro Brasileiro, escreveu em seu livro:

"Um dia numa favela em Brasília encontrei uma família de Índios Pataxó-Hãhãhãe, do sul da Bahia. Olhamos nos olhos e o sentimento mútuo foi de orfandade. A quantas chegamos. Índio vivendo em favela do Planalto Central... O Estado brasileiro não nos aceita como filhos legítimos dessa abstração chamada Nação. Aqui estamos e aqui sobrevivemos, a duras penas..." (63:112)

Esta mesma visão de Brasília foi compartilhada por observadores internacionais, como publicado no The Washington Post:

"Brasília, a suntuosamente edificada capital, parece guardar alguma coisa de semelhante com o apartheidi. Os oficiais federais e burocratas que administram o país - a vasta maioria deles brancos - vivem em blocos de apartamentos na área central da moderna cidade. Outros trabalhadores, proibidos de sujar a pureza arquitetônica de Brasília, vivem a milhas de distância, em assentamentos esfarrapados, que mais parecem os distritos negros da África do Sul. Aqui também o abismo entre Negros e Brancos parece ser tão grande, tão injusto." (64:23)

Desnecessário é continuar o texto. Necessário e urgente mesmo é uma nova consciência para transformar esta realidade perversa. Comecemos pelo coração!

Capítulo 16
A Religião como luz e treva

A Religião, ao longo da história, tem sido a principal força civilizatória; porém, quando corrompida tem se transformado em uma grande fonte de mal. Sobre a Religião como força motivadora da civilização, a seguinte passagem é esclarecedora:

"... A Religião é a luz do mundo, e o progresso, realização e felicidade do homem resultam da obediência às leis estabelecidas nos Livros Sagrados. Em resumo, pode ser demonstrado que nesta vida, tanto exteriormente quanto interiormente, a mais poderosa das estruturas, a mais solidamente estabelecida, a mais duradoura, a que está de guarda do mundo, assegurando tanto a perfeição espiritual como material da humanidade, e protegendo a felicidade e a civilização da sociedade - é a Religião..." (65:86-87)

Em outra passagem dos Escritos Bahá'ís encontramos:

"... a Religião é a própria base e princípio fundamental da cultura e civilização..." (65:114)

"... Cada Profeta que o Criador Todo-Poderoso e Incomparável se propôs a enviar aos povos da terra foi incumbido de uma Mensagem e instado a agir de maneira que melhor satisfizesse os requisitos da época de Seu aparecimento. O desígnio de Deus em mandar Seus Profetas aos homens é duplo. O primeiro é livrar da escuridão da ignorância os filhos dos homens, e guiá-los à luz da verdadeira compreensão. O segundo é assegurar a paz e tranqüilidade do gênero humano, provendo todos os meios pelos quais podem ser estabelecidas. ... Os Profetas de Deus devem ser considerados como médicos cuja tarefa consiste em promover o bem-estar do mundo e de seus povos, para que, através do espírito da unidade, possam curar a doença de uma humanidade dividida." (66:58-59)

De outro lado, as mais severas advertências são ressaltadas no caso do eclipse ou corrupção da religião:

"... Se a lâmpada da Religião se obscurecer, seguir-se-ão caos e confusão, e as luzes da equidade, da justiça, da tranqüilidade e da paz deixarão de brilhar." (67:26)

Infelizmente, a atual desordem nos assuntos humanos, da qual temos sido testemunhas, é também o resultado das "... barreiras que, ao longo da história, a Religião organizada ergueu entre a humanidade e as Revelações de Deus. Os dogmas, inspirados pela superstição popular e aperfeiçoados pelo desperdício intelectual, têm sido repetidamente impostos a um processo divino cujo propósito tem sido sempre espiritual e moral. As leis de interação social, reveladas com o fito de consolidar a vida comunitária, têm sido utilizadas como base de estruturas de doutrina e práticas arcaicas, que têm oprimido as massas a cujo benefício deveriam servir. Mesmo o exercício do intelecto, a ferramenta precípua de que dispõe a raça humana, tem sido deliberadamente dificultado, levando ao colapso, afinal, do diálogo entre fé e ciência, do qual depende a vida civilizada." (46:47)

A verdade é que muitos líderes religiosos da humanidade, em vez de se dedicarem ao verdadeiro propósito a que se propuseram dedicar suas vidas, ou seja, o de se "adornar com o ornamento do conhecimento e de um caráter virtuoso" (68:135) e serem assim, "como a cabeça para o corpo do mundo, e como os olhos para as nações"; (68:135) preferiram fazer da Palavra de Deus "uma relíquia particular, e de sua exposição um instrumento para engrandecimento pessoal, e tornando-se o maior empecilho para o avanço da civilização." (46:47)

Infelizmente a história da humanidade, nossa história comum, está cheia de exemplos de lutas, guerras e outras incompreensões motivadas pelo amor e ódio religiosos.

Quantos milhares de nossos semelhantes morreram nas assim chamadas "guerras santas", seja do passado ou do presente, onde se matou e ainda se mata em nome de Deus.

Muitos líderes religiosos, fugindo do espírito de suas Escrituras Sagradas e dentro de uma busca louca de dominação e poder terrenos, tem buscado encontrar razões para discriminar contra ou subjugar outro grupo.

O cristianismo foi usado pelas lideranças da Igreja para justificar a escravidão e opressão de Negros em toda as Américas.

O protestantismo, desde o início do século XVI, tem sido usado para justificar a opressão dos Irlandeses católicos; de outro lado, o catolicismo é usado para justificar violência contra os protestantes Ingleses.

O islamismo tem sido usado para justificar um tratamento desumano contra os judeus e para a perseguição aos bahá'ís; o judaísmo para justificar um tratamento pobre aos árabes e assim por diante.

Essa cegueira de visão de muitos líderes religiosos tem levado a humanidade por caminhos obscuros, pelos quais se perderam inúmeras gerações.

Que dizer da Inquisição que lançou suas chamas de fanatismo até mesmo no Brasil. Em Portugal, nos arquivos, existem numerosos livros denominados Livros dos Culpados.

Um desses livros, o que traz o maior número de registros de nomes, tem 2.160 brasileiros registrados, os quais formavam a burguesia cristã-nova na Bahia, Rio de Janeiro, Minas Gerais, etc. (69:5)

Pensar que estamos livres do fanatismo religioso, seria querer fechar os olhos para a realidade. Considere ainda o fato de que no Brasil todas as tradições religiosas de origem indígena e afro-brasileiras, a exemplo do candomblé, sofreram e ainda sofrem inúmeras repressões.

Que justiça ou humanidade há nessa situação? Por muito tempo estas manifestações de religiosidade, intimamente ligadas às populações negras, foram combatidas e ainda hoje o são, especialmente pelas correntes cristãs mais radicais. O próprio Estado, através do Ministério da Educação e Cultura, por longo tempo veio a considerar o candomblé como apenas uma manifestação do "folclore" do Brasil, como evidenciado na publicação intitulada Afoxé. (70) Na verdade, houveram muitas demonstrações oficiais da incompreensão e não reconhecimento das tradições espirituais de origem africana.

É verdade que tal postura e compreensão estão mudando lentamente, mas fatos deixam na maioria das vezes impressões indeléveis. Por muitos anos, o candomblé foi considerado caso de polícia, a qual invadia os terreiros em plena realização das suas festas e outros rituais mais secretos.

Muitas vezes apreendiam atabaques e outros objetos religiosos e seus sacerdotes eram presos. Isto ocorreu em todo o Brasil, seja no Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Maranhão, etc...

Na Bahia, o candomblé somente deixou de ser "caso de polícia" em 1972, quando o então governador, Roberto Santos, criou a Lei 3.097, liberando as casas de candomblé de terem que pedir licença à delegacia mais próxima do terreiro para "bater" (realizar suas festas públicas). (71:9) E isto somente foi possível após a interferência e mobilização de personalidades importantes, já que as absurdas exigências da polícia contrariavam a liberdade de culto assegurado pela Constituição Federal.

Assim, como se vê, vergonhosamente "... as lutas religiosas têm sido a causa de inúmeras guerras e conflitos, uma praga para o progresso, e são hoje cada vez mais repugnantes - tanto às pessoas de diferentes confissões como àquelas que não professam nenhum credo." (5:19)

Um forte chamado às consciências e aos membros de todas as crenças está agora sendo lançado pelos Escritos Bahá'ís:

"Os adeptos de todas as religiões devem-se dispor a encarar as questões básicas suscitadas por tais disputas e a chegar a conclusões claras. Como deverão ser resolvidas as discordâncias entre eles, tanto em teoria como na prática? O desafio que se coloca ante os líderes religiosos da humanidade é o de contemplarem, com os corações cheios de compaixão e ânsia de verdade, a triste situação atual da humanidade, e de perguntarem humildemente a si mesmos perante o seu Criador Todo-Poderoso, se não podem conciliar as suas divergências teológicas num grande espírito de indulgência mútua que lhes permita trabalhar conjuntamente em prol da compreensão humana e da paz." (5:19-20)

Enumerando as graves conseqüências do eclipse da lâmpada da Religião, os Escritos Bahá'ís assinalam que a "perversão da natureza humana, a degradação da conduta humana, se revelam, em tais circunstâncias, em seus piores e mais repugnantes aspectos. O caráter humano se envilece, a confiança é abalada, os nervos da disciplina se relaxam, a voz da consciência se cala, o sentido da decência e da vergonha se obscurece, os conceitos do dever, da solidariedade, da reciprocidade e de lealdade são distorcidos e até mesmos os sentimentos de paz, de alegria e esperança se extinguem gradualmente" (5:8-9)

Toda e qualquer tentativa séria para corrigir a atual direção dos afazeres humanos e resolver os graves preconceitos agora corroendo a estrutura social, não poderá ignorar a Religião.

Um eminente historiador chegou a descrever a Religião como "uma faculdade da natureza humana", num reconhecimento de sua influência preponderante sobre as expressões vitais da civilização e de sua indispensabilidade à ordem social, a qual tem sido repetidamente demonstrada pelo seu efeito direto sobre as leis e a moralidade.

Bahá'u'lláh, falando sobre os instrumentos para a ordem no mundo, escreveu: "A Religião é o maior de todos os meios para o estabelecimento da ordem no mundo e para o contentamento pacífico de todos os que nele habitam." (5:8)

Capítulo 17
O que falaram os fundadores das Grandes Religiões

O que falaram as Grandes Manifestações Divinas fundadores das Grandes Religiões? E.S.Campbell, em seu livro intitulado "Las Flores de los Altares" (72:19-25) traz uma excelente compilação dos Escritos Sagrados dos fundadores das grandes religiões, demonstrando a evidente unidade entre elas, bem como ressaltando a ética, a atitude moral, o aspecto promotor da paz que emana e é inerente a cada uma delas. Eis algumas daquelas passagens:

Sobre a unidade da Religião
Krishna / Hinduísmo

As flores dos altares são de muitas variedades, mas a adoração é uma só. Os sistemas de fé são distintos, mas Deus é um só. O objeto de toda religião é encontrar a Deus.

- Vemana Padymula
Buda / Budismo

Jamais penses ou digas que tua religião é a melhor. Jamais menosprezes a religião dos outros.

- Éditos de Asoka
Zoroastro / Zoroastrianismo

Se se reconhece que a Religião de todos os Seres Sagrados é a verdade e suas leis a virtude e esta é ansiosamente anelada pelas criaturas; por que existe na maior parte delas tantas seitas, tantas crenças e tantas invenções humanas?

- Menóg-I-Kharád, 1, 16-17
Moisés / Judaísmo

Não farão mal nem causarão dano em todo meu santo monte; porque a terra será cheia com o conhecimento de Jehová, como as águas cobrem o mar.

- Isaías, 11:9
Jesus Cristo / Cristianismo

Eu sou o bom pastor, e conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido. Assim como o Pai me conhece a mim, também eu conheço o Pai, e dou a minha vida pelas ovelhas. Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também me convêm agregar estas, e elas ouvirão minha voz, e haverá um rebanho e um Pastor.

- São João, 10, 14-16
Maomé / Islamismo

E sabei que este vosso culto é único; e que Eu sou vosso senhor. Temei a Mim, pois! Pois os povos se dividiram em diferentes seitas, e cada seita se conforta com a sua. Deixai-os entregues a sua necessidade até que lhes chegue o seu destino.

- Alcorão, Sura 23, 52-53-54
Bahá'u'lláh / Fé Bahá'í

O que o Senhor ordeno como o remédio soberano e o mais poderoso instrumento para a cura do mundo inteiro é a união de todos os seus povos em uma Causa Universal, em uma Fé comum.

- Seleção dos Escritos de Bahá'u'lláh, CXX
Sobre a Unidade da Humanidade
Krishna / Hinduísmo

Os homens justos estão geralmente angustiados pelos sofrimentos da humanidade. Isto, verdadeiramente, é a adoração suprema da pessoa, quem é o espírito universal.

- Bhagavata Purana, 8-7-4
Buda / Budismo

Cultivando uma mente infinitamente amistosa, continuamente fortalecida, noite e dia, qualquer um pode infundir a bondade infinita através de todas as religiões.

- Sutta Nipata, 507
Zoroastro / Zoroastrianismo

Como pode um homem mortal desejar para outro a aniquilação de seu corpo e de sua alma, ou a morte de seus filhos ou de sua fazenda, se ele tem suficiente razão para reconhecer que ele é mortal?

- Fragmentos, 8; Aogenáide, 48
Moisés / Judaísmo

Não temos todos um mesmo Pai? Não nos criou a todos um mesmo Deus? Por que, pois, nos comportamos deslealmente um com outro, profanando o pacto de nossos pais?

- Malaquias, 2:10
Jesus Cristo / Cristianismo

E de um só fez toda a geração dos homens, para habitar sobre toda a face da terra... Deus não faz acepção de pessoas; mas que lhe é agradável aquele que, em qualquer nação, o teme e obra o que é justo.

- Atos dos Apóstolos, 17:26; 10:34-35
Maomé / Islamismo

Em outro tempo os homens formavam uma só nação. Deus enviou os profetas encarregados de anunciar e de advertir. Deus lhes deu o Livro que contém a verdade, para dirimir as divergências entre eles.

- Sura 2:213
Bahá'u'lláh / Fé Bahá'í

Todos os homens foram criados a fim de levarem avante uma civilização destinada a evoluir para sempre. O Todo-Poderoso dá-Me testemunho: Agir como os animais do campo é indigno do homem. Aquelas virtudes que convêm à sua dignidade são a tolerância, a misericórdia, a compaixão e a benevolência para com todos os povos e raças da Terra.

- Seleção dos Escritos de Bahá'u'lláh, CIX
Capítulo 18
A questão mais desafiadora

A eliminação ampla e radical do preconceito racial é a questão mais vital e desafiadora do momento, exigindo sacrifícios, cuidado e vigilância, coragem e fortaleza moral, tato e simpatia e uma urgência e importância que não podem ser exagerados.

Se até agora temos nos omitido em reconhecer a gravidade da situação, é chegado o momento de fazer a reparação; não apenas pelos perigos que tal realidade representa, mas, sobretudo, por que se trata da negação e privação imposta a uma parcela considerável de nossos semelhantes dos direitos humanos fundamentais.

O que falaram as Grandes Manifestações Divinas fundadores das Grandes Religiões? E.S.Campbell, em seu livro intitulado "Las Flores de los Altares" (72:19-25) traz uma excelente compilação dos Escritos Sagrados dos fundadores das grandes religiões, demonstrando a evidente unidade entre elas, bem como ressaltando a ética, a atitude moral, o aspecto promotor da paz que emana e é inerente a cada uma delas. Eis algumas daquelas passagens:

Dirigindo-se àqueles de raça branca, os ensinamentos bahá'ís prescrevem: "É mister que os Brancos façam um esforço supremo, em sua resolução de contribuir com sua parte na solução desse problema, para abandonarem, uma vez por todas, seu senso de superioridade - que é usualmente inerente e às vezes subconsciente - corrigirem sua tendência de mostrar uma atitude condescendente para com os membros de oura raça e, através de sua associação com eles - íntima, espontânea e informal - os persuadirem de que sua amizade é genuína e suas intenções são sinceras. Devem fazer um esforço, também, para dominarem sua impaciência por causa de qualquer falta de receptividade por parte de um povo, ao qual, durante um período tão longo, se tem infligido feridas tão severas e tão difíceis de serem sanadas." (73:62-63)

Igualmente, dirigindo-se aos representantes da raça negra, Shoghi Effendi recomenda: "... Que os Pretos, com um esforço incomensurável de sua parte, mostrem, por todos os meios a seu alcance, seu caloroso desejo de corresponder, sua disposição para esquecerem o passado e apagarem todo traço de suspeita que talvez persista ainda em seus corações e mentes. Que nenhuma das duas raças pense ser a solução de tão vasto problema uma questão que afete exclusivamente a outra. Que nenhuma delas pense que esse problema possa ser resolvido fácil ou imediatamente. Que nenhuma pense que possa aguardar tranqüilamente a solução desse problema até que outros... tenham tomado a iniciativa e criado as circunstâncias propícias." (73:63)

A discriminação racial é, sem sombra de dúvidas, um mal terrível, uma doença letal, que vem carcomendo as vísceras da sociedade brasileira, desde o início de sua fundação. E não somente no Brasil, mas igualmente em todos os outros países do continente americano, com maior incidência aqui ou acolá. Sua causa está no sentimento inerente e às vezes subconsciente de superioridade da etnia branca em relação à negra ou à indígena. E não nos deixemos enganar, imaginando que apenas membros da etnia branca estão infectados; não, muitos Negros e Índios também estão infectados, uma vez que foi criado um sentimento de inferioridade e de suspeita, abrindo feridas difíceis de serem sanadas.

Capítulo 19
O extraordinário poder da palavra

É facilmente verificável que as palavras carregam em si um significado óbvio e também um espírito e uma força capaz de influenciar e deixar marcas na mente do ouvinte, especialmente quando expressas com sentimento.

É nos Escritos de Bahá'u'lláh, onde encontramos uma descrição preciosa sobre o poder e o efeito da palavra. Diz ele:

"Cada palavra é dotada de um espírito e, por isso, quem faz um discurso ou dá uma explicação deve proferir suas palavras com cuidado na ocasião oportuna e no lugar apropriado, pois a impressão feita por cada palavra é claramente óbvia e perceptível. ... Uma palavra pode ser comparada ao fogo, e outra palavra à luz, e a influência que ambas exercem está manifesta no mundo. Um homem esclarecido e sábio, pois, deve falar principalmente com palavras suaves como leite, a fim de que os filhos dos homens sejam por elas nutridos e edificados e possam atingir a meta final da existência humana, o grau da verdadeira compreensão e nobreza. ... Assemelha-se uma palavra à primavera, a qual torna verdejantes e florescentes os tenros arbustos do roseiral do conhecimento, enquanto outra palavra é assim como um veneno mortal. Cumpre a um homem prudente e sábio falar com a máxima brandura e tolerância, de modo que a doçura de suas palavras induza todos a atingirem aquilo que seja condigno com o grau do homem." (66:192-193)

Imaginem agora a força que foi liberada durante tantos séculos, tanto pelo significado exterior, quanto interior das palavras branco e preto, especialmente vinculadas ao estado interior e espiritual de seres humanos. Tais palavras carregaram consigo conceitos de superioridade, ligados às pessoas brancas e de inferioridade relacionados com as pessoas de pele negra; se cristalizaram na instituição da escravidão e continuam presentes em nosso dia a dia, porquanto tais conceitos ainda não foram desmistificados.

Vejamos o que dizem nossos dicionários sobre tais palavras. O Novo Dicionário da Língua Portuguesa, nosso famoso Aurélio associa ou descreve o Branco como: "da cor da neve, do leite; alvo, cândido; claro, sem mácula; inocente, puro, cândido, ingênuo: alma branca."

Enquanto o Preto é descrito como: "Que tem a mais sombria de todas as cores; sujo, encardido; Preto de alma branca. Indivíduo negro, bom, generoso, nobre, leal." Negro: Sujo, encardido, preto; maldito, sinistro; perverso..." (74)

O chamado urgente para uma mudança, para uma nova postura, recai agora sobre a Religião, a qual tem o poder de moldar o caráter e motivar os indivíduos a agirem de uma forma moralmente aceitável, isto é, a viverem e agirem de acordo com os enunciados dos Livros Sagrados.

A ela cabe ser a propulsora de uma nova visão, dando um novo significado à palavra. Muita coisa é preciso ser feita, mas nada que seja tão difícil de se realizar.

Segue algumas sugestões:

* Em primeiro lugar devemos compreender que a cor da pele não diz nada sobre a verdadeira identidade de um indivíduo, seja ele branco, preto, amarelo ou vermelho. "A realidade do homem é o seu pensamento." (75:15) Se queremos identificar quais são os melhores homens, então "não olhemos para a cor do homem e sim para o coração." (76:102)

* Devemos saber que Brancos e Negros possuem duas realidades: uma humana e outra espiritual. Ambos incorporam possibilidades divinas.

* Desde que cada palavra carrega um espírito, um significado e está dotada do poder de influência, devemos refletir detidamente sobre seu significado antes de usá-la, especialmente as palavras Branco e Negro.

* Não existe "Negro de alma branca", nem "Preto que deu certo". Igualmente não existem povos condenados e outros salvos. As igrejas deveriam promover um amplo espírito de amor e bondade para com todos os povos, em vez de se julgarem superiores, especialmente sobre aqueles considerados pagãos; afinal, "ninguém sabe de seu próprio fim." Devemos substituir o espírito beligerante e de superioridade ainda presente em nosso dia a dia e na forma de pensar e agir, por uma indulgência mútua e saber que somos todos irmãos.

* Devemos todos compreender que cada cultura traz em seu âmago formas diferenciadas de reverência ao Criador; que cada uma está imbuída de verdades e de uma beleza única.

* Devemos apreciar a diversidade das formas de pensamento, das diferentes culturas e saber que "somos todos os frutos de uma só árvore e as folhas do mesmo ramo." (66:141)

* Que "as virtudes dignas da condição humana são a honestidade, a indulgência, a misericórdia, a compaixão, a bondade e o amor para com todos os povos." (5:34)

Capítulo 20
Muito além do multiculturalismo
e do etnocentrismo

Se verdadeiramente buscamos uma sociedade mais justa, onde as relações entre as diferentes culturas e grupos étnicos são de respeito mútuo e apreciação recíproca, temos que desenvolver a capacidade de construir uma nova visão de mundo. Esta visão deve estar além do multiculturalismo e do etnocentrismo.

Buscar o simples multiculturalismo, isto é, uma sociedade onde cada grupo étnico está fechado em si mesmo, como o que vem sendo experimentado por alguns países do hemisfério norte, a exemplo dos Estados Unidos, é segregar populações inteiras em guetos e perpetuar estigmas.

Naturalmente que cada grupo tem características e valores próprios, mas é da interação com outros grupos, que o valor, importância e significados individuais ganham maior expressão.

Vejamos quanta sabedoria encontram-se nas seguintes palavras de 'Abdu'l-Bahá:

"Contemplai as flores de um jardim; ainda que difiram em origem, cor e forma... esta diversidade aumenta seu encanto e sua beleza. Como seria desagradável se todas as flores e plantas, as folhas e botões, os frutos, os ramos e as árvores do jardim fossem todos de um mesmo formato e da mesma cor! A diversidade de cor, tipo e forma enriquece e adorna o jardim, e torna mais agradável seu efeito. Da mesma forma, quando diferentes matizes de pensamentos, temperamento e caráter, se juntam sob o poder e influência de uma só agência central, a beleza e a glória da perfeição humana se torna revelada e manifesta." (77:144)

Em palestra proferida em Paris, em 28 de outubro de 1911, o Mestre, como era chamado 'Abdu'l-Bahá, falava sobre a diversidade dos seres humanos, dizendo que todas as diferenças existentes no mundo dos seres criados são de cor e forma exteriores, o que traduz, na verdade, beleza e harmonia. Mas infelizmente tal efeito não tem sido reconhecido pelos seres humanos, onde tais diferenças exteriores tem motivado múltipla animosidade.

"Observemos preferencialmente a variação da beleza, a beleza da harmonia, e aprendamos uma lição do reino vegetal. Se contemplásseis um jardim cujas plantas fossem da mesma forma, cor e perfume, absolutamente não vos pareceria belo, mas, ao contrário, monótono e tedioso. O jardim que é agradável à vista e que alegra o coração é aquele onde estão crescendo, lado a lado, flores de todos os matizes, formas e perfumes, e o alegre contraste da cor é que produz encanto e beleza. Assim é com as árvores. Um pomar repleto de árvores frutíferas é uma delícia; assim é uma plantação com muitas espécies de arbustos. É precisamente a diversidade e a variedade que constituem seu encanto; cada flor, cada árvore, cada fruta, além de sua beleza própria, ressalta, pelo contraste, as qualidades das demais e mostra apropriadamente a graça especial de cada uma delas." (4:44-45)

Considerando a triste animosidade ainda presentes nas relações entre as diferentes culturas, tal analogia se adequa total e perfeitamente à necessidade de uma nova visão harmonizadora.

Capítulo 21
Existe apenas uma espécie, a espécie humana

Diante de um mundo com graves conflitos, poucos tem sido os cientistas sociais a lançar luz sobre tal questão desafiadora e propor soluções de longo alcance. Um destes escreveu:

"A capacidade de construir unidade na diversidade busca integrar duas dinâmicas que historicamente tem sido evitadas.

"Por natureza, é mais fácil para as pessoas se sentirem unidas com outras que lhe são mais parecidas, e assim, muitos tem escolhido associarem-se com pessoas de sua mesma nacionalidade, raça, classe social ou religião, ou ainda com pessoas que compartilham dos mesmos interesses, valores e formas de pensamento.

"Igualmente, é comum sentirem-se incômodas, quando se tem que estar por algum tempo com pessoas que são diferentes de si mesmas. Assim, o que tem dominado o mundo até agora, tem sido a unidade na uniformidade e a divisão na diversidade. No âmbito político, quando se trata da superação dos países ou de classes desfavorecidas, vemos as conseqüências destes enfoques.

"Quando um país ou uma classe dominante pensa em ajudar a outros; geralmente o faz baseando-se no modelo mental da unidade na uniformidade. Isto é, pensa em ajudar o outro a alcançar uma vida igual à sua, econômica e culturalmente. Não leva em consideração o fato de que o outro grupo pode ter uma cultura, a qual valoriza e que deseja conservar e que pensa desenvolvê-la de acordo com os seus próprios valores. Isto no melhor dos casos; no pior dos casos, o país ou classe dominante aplica o modelo mental da unidade na uniformidade de forma excludente, explorando a outra classe ou país em seu próprio benefício." (78:1)

Os resultados do modelo acima estão evidentes em muitas partes do mundo: diante do não reconhecimento e valorização das muitas culturas, diante da falta de respeito à identidade e vida cultural dos diferentes povos, "muitas minorias tem lutado para se tornarem independentes, buscando forjar seu próprio destino; respondendo ao modelo de unidade na uniformidade, com sua contraparte, isto é, com a divisão na diversidade." (78:2)

As últimas décadas têm sido as testemunhas das guerras e fragmentação que se abateu sobre inúmeras populações através do planeta, seja nos países africanos, na antiga Ioguslávia e União Soviética. "Obviamente que cada extremo deste modelo, tanto o da unidade na uniformidade como o da divisão na diversidade, são inviáveis para um mundo com dezenas de milhares de tribos e etnias, as quais têm escolhido neste último século a uma vizinhança, onde os problemas de um, afeta seriamente os outros." (78:2)

Talvez ainda seja difícil de se visualizar este novo paradigma emergente, ou seja, o da unidade na diversidade, o qual pode ser comparado com uma orquestra. Uma orquestra é composta por um grande número de diferentes instrumentos. Em uma sinfonia cada instrumento emite tonalidades distintas umas das outras, mas quando bem coordenadas entre si, o impacto do som resultante é muito mais belo que escutar um único instrumento, ou escutar todos os instrumentos tocando as mesmas notas.

De outro lado, um erro cometido por apenas um único músico, às vezes é sentido por todos e arruína a beleza do conjunto. Para este nosso mundo em conflito e guerras há apenas uma única solução: a mudança do atual paradigma! Como bem salientado por Anello, "a alternativa é desenvolver um novo modelo mental, baseado na unidade na diversidade, conjuntamente com a capacidade de estabelecê-la. Esta capacidade é necessária não apenas para resolver os problemas políticos, mas também para a solução de todos os outros conflitos em nosso complexo mundo atual." (78:2)

Além disso todas as ciências humanas tem confirmado a verdade espiritual de que a ordem mundial só pode ser estabelecida sobre uma consciência inabalável da unidade da humanidade.

"A Antropologia, a Fisiologia e a Psicologia reconhecem uma só espécie humana, ainda que infinitamente variada no que se refere aos aspectos secundários da vida. O reconhecimento desta verdade requer o abandono dos preconceitos - de todos os tipos de preconceitos - relacionados com raça, classe social, cor da pele, crença religiosa, nacionalidade, sexo e grau de civilização material; em suma, de tudo o que faz com que as pessoas se considerem superiores umas às outras." (5:23)

A palavra raça tem causado divisão entre os seres humanos e deveria, portanto, ser evitada. O termo "raça" traz à tona uma classificação dos seres humanos em sub-espécies, de acordo com características físicas de cada um, tais como a cor da pele, a textura do cabelo, a forma e o tamanho das partes do corpo.

Aspectos de comportamento também são freqüentemente associados com tais características físicas; e a partir daí o status de inferior ou superior é atribuído, de acordo com estes mesmos aspectos. Por isso, o termo "raça" deve ser evitado, pois ele é racista.

O termo científico e politicamente apropriado para se designar as diferenças geográficas e culturais mais evidentes entre as populações do mundo é o termo etnia. Todas as recentes tentativas feitas para estabelecer e separar a humanidade em sub-espécies (i.e. raças) falharam.

Em seu lugar, cada vez mais se tem encontrado os sinais de que a humanidade tem sua origem em um mesmo e único tronco. Todos somos irmãos e irmãs: é o que demonstram os resultados genéticos, após análise do DNA. Existem apenas quatro grupos sangüíneos do sistema ABO (tipos O, A, B, AB), os quais estão presentes, mais ou menos nas mesmas proporções entre os grupos humanos negróide (bantos), mongólico (japoneses) e caucasóides (ingleses); assim como também os grupos sangüíneos Rh+ e Rh- estão igualmente representados entre os diferentes grupos humanos.

As descobertas têm mostrado exatamente o contrário daquilo que até agora se acreditou; em vez de raças divididas pela cor da pele ou textura do cabelo, etc. ..., temos muito mais aspectos em comum que unem, que diferenças que poderiam nos dividir, conforme atestam cientistas, geneticistas, antropólogos, etnólogos, religiosos e também o bom senso.

Existe apenas uma espécie humana, ainda que ricamente variada nos aspectos secundários da vida. A verdade é que as normas até agora estabelecidas não funcionam. A questão da cor da pele também não funciona para dividir as pessoas em raças. Boyce Rensberger, famoso antropólogo esclarece:

"Muitos africanos do sul do Sahara e seus descendentes ao redor do mundo tem pele que é mais escura que a maioria dos Europeus. Mas há milhões de pessoas na Índia, que são classificadas pelos antropólogos como membros Caucasóide, ou "Brancos", apesar de terem a pele mais escura que muitos americanos, que os consideram a si mesmos como Negros. Existe também muitos africanos vivendo hoje na África do sub-sahara, que tem a pele mais clara que a pele de muitos espanhóis, italianos, gregos ou libaneses. O que dizer sobre a estatura como fator racial? Pelo fato de serem de pequena estatura, na média, os Pigmeus africanos têm sido considerados racialmente distintos de outros africanos de pele também escura. Se estatura, então, é um critério racial, deve-se então incluir na mesma categoria os altos Watusi africanos com os escandinavos da mesma altura? Os olhos puxados que normalmente são utilizados para caracterizar os orientais (mongolóides) também se manifestam em muitos índios americanos. O que se torna evidente é que entre os povos do mundo não existem normas para uma divisão, isto é, existem muitos Negros, muitos Brancos e muitos entre os dois. Entre a população negra do mundo existem muitos com o cabelo encaracolado, muitos com o cabelo liso ou 'wavy hair' (os aborígenes da Austrália por exemplo, que são considerados negróides. Muitos quando crianças tem os cabelos loiros) e muitos com o cabelo entre os dois tipos. Também entre as populações do mundo com nariz chato e beiço grosso existem muitos de pele escura, muitos de pele clara e muitos entre os dois." (79:52)

Vejamos o que tem dito alguns dos mais famosos antropólogos de nosso tempo:

"Nós sempre falamos facilmente de raças e ninguém nos pode dar uma resposta conclusiva sobre o que realmente é uma raça."

- Franz Boas, antropólogo, 1936

"É comum discutir as variações locais da humanidade em termos de 'raça'. Entretanto, é desnecessário o uso desta palavra, já que é fácil descrever as populações sem ela."

- Hans Kalmus, antropólogo, 1958

"O uso de 'raça' como uma unidade taxonômica (classificação) do homem parece antiquado."

- J.P.Garlick, antropólogo, 1961

"Os termos devem ser designados para adequar os fatos e não os fatos devem ser forçados arbitrariamente para se encaixar em categorias predeterminadas. ... O termo raça está além dos fatos e serve apenas para obscurecê-los."

- Ashley Montagu, antropólogo, 1964

"Talvez houve um tempo, quando, à primeira vista, não foi possível se distinguir uma vida humana vivendo naquilo que agora é a Inglaterra, daquela vivendo no que é agora a Nova Guiné."

- Michael Brown, antropólogo, 1990

Nota: as referências das citações acima, encontram-se em Montagu, Ashley. The Concept of Race. New York: Macmillan, 1964. (80)

O que disseram outros cientistas e pesquisadores

"A variação dos tipos humanos é tão grande que se torna difícil estabelecer uma classificação racial objetiva. ... A cor da pele é um caráter adaptativo que se distribui de acordo com a intensidade da radiação solar em diferentes latitudes. Observe-se que as peles mais escuras se encontram, originalmente, nas zonas equatoriais e subequatoriais." (81:353)

- Celso Piedemonte de Lima, autor do livro Genética

Humana. São Paulo: Harper & Row do Brasil, 1984

"A cor dos olhos, da pele, as proporções corporais e os tipos de cabelo são vernizes passados sobre uma estrutura biológica maravilhosamente idêntica... Não há base científica conhecida para afirmação de que uma população é intelectual ou fisicamente superior a outra... Somos todos membros da árvore da humanidade com diferenças cosméticas entalhadas em nossa aparência por necessidade de adaptação ao meio ambiente." (82:44)

- Luca Cavalli-Sforza, professor emérito da Faculdade de Medicina da

Universidade de Stanford, Califórnia, Estados Unidos

"Desde que as raças são sistemas abertos, os quais estão gradativamente em transição, o número de raças dependerá do propósito da classificação. Eu acho que nós deveríamos exigir que as pessoas que propõem uma classificação de raças, diga em primeiro lugar, por que eles querem dividir a espécie humana." (83:136)

- Sherwood Washburn, Antropólogo

Agrupar pessoas ou populações por origens geográficas - melhor conhecido como etnicidade - "é mais correto tanto no sentido estatístico quanto na compreensão da história da variação humana." (84:54)

- Hampshire's Goodman, Cientista

"Mistura racial não tem sido apenas um fato na história humana; mas é neste dia de mobilidade global sem precedentes, que está acontecendo numa velocidade mais rápida do que nunca. Não é exagerado imaginar o dia, daqui a algumas gerações, quando a "coloração" de grandes centros populacionais serão diferentes. Por enquanto, podemos ver tais mudanças ocorrendo diante de nossos próprios olhos, porque são parte da realidade diária..." (79:54)

- Boyce Rensberger, Cientista Social

"Nós somos uma espécie, um povo. Cada indivíduo nesta terra é um membro da "homo sapiens", e a variação geográfica que vemos entre os povos são simples nuances biológicas sobre um mesmo tema. A capacidade humana para a cultura permite sua elaboração em formas amplamente diferentes e coloridas. As muitas e profundas diferenças entre estas culturas não deveriam ser vistas como divisões entre povos. Em vez disso, culturas deveriam ser interpretadas como aquilo que elas realmente são: a legítima declaração de pertencer à espécie humana." (85)

- Richard Leaky, paleontólogo

"A principal lição que se pode tirar da Genética é que os grupos aos quais pertencemos diferem uns dos outros...: não sou superior nem inferior a ninguém; sou diferente de todos; quanto maior for a diferença entre mim e meu próximo, mais coisas teremos a oferecer um ao outro. Esta não é uma afirmação ditada pela moral; é a lição fundamental da Genética..." (86)

- Albert Jacquard, geneticista

Em seu livro intitulado The Seven Mysteries of Life, Guy Murchie explica o que faz com que a família do homem seja uma realidade. Ele diz: "... nenhum ser humano (de qualquer raça) pode estar menos relacionado com qualquer outro ser humano, do que aproximadamente o qüinquagésimo primo, e a maioria de nós (independentemente da cor de nossos vizinhos) está muito mais próximo. De fato, esta baixa magnitude para o compasso linear da humanidade é aceita pelos maiores geneticistas, que tenho consultado (desde J.B.S. Haldane a Theodius Dobshansky e a Sir Julian Huxley) e isto significa simplesmente, que as árvores genealógicas de todos nós, não importa sua origem ou características, devem se encontrar ou fundir em uma única árvore genética de toda a humanidade, por volta de época em que elas se espalharam, através de nossos ancestrais, por aproximadamente 50 gerações.

"Isto não é um fato de difícil compreensão, já que a simples matemática o demonstra; se duplicarmos o número de nossos ancestrais por cada geração, ao contarmos regressivamente (multiplicando-os consecutivamente por dois: 2 pais, 4 avós, 8 bisavós, 16 tataravós, etc.), nosso pedigree pessoal poderia alcançar toda a humanidade antes da trigésima geração. Neste sentido, a matemática é um tanto explosiva, já que 2 elevado a 30 (1.073.741.824); faz com que a população da terra seja maior do que era há trinta gerações atrás - isto é, no século treze, se assumirmos uma geração para cada 25 anos." (87:37)

Capítulo 22
Não mais vos considereis como
Estranhos...
Discriminação só se for a favor

Se há alguma ênfase ou discriminação que possa ser considerada aceitável, é tão somente uma ênfase na defesa dos direitos das minorias, sejam elas religiosas, raciais, de classe ou nação - e isto com o objetivo de ajudar-lhes a resgatar, estimular e valorizar os elementos de sua cultura e para promover os melhores interesses da comunidade.

Tal conceito é concisa e claramente apresentado nas palavras de Shoghi Effendi, como segue: "Se há alguma discriminação que deva ser tolerada, não deveria ser contra, mas sim, a favor da minoria, seja racial ou outra..."

Devemos considerar como uma primeira e inescapável obrigação, continua ele, "... nutrir, encorajar e salvaguardar toda minoria pertencente a qualquer fé, raça, classe ou nação... Tão grande e vital é este princípio, que, em tais circunstâncias, como no caso de um número igual de votos haver sido dado numa eleição, ou das qualificações para qualquer posto estarem equilibradas entre as raças, fés ou nacionalidades dentro da comunidade, a prioridade deve ser concedida, sem hesitação, ao grupo que representa a minoria, e isto não por outro motivo senão o de estimulá-la e encorajá-la e dar-lhe uma oportunidade para promover os interesses da comunidade..." (73:55-56)

Conscientes de que o racismo "viola a própria honra da humanidade", suscitando "nos povos de todas as nações e culturas profundos sentimentos de mal-estar e repugnância", (88) os bahá'ís vêm se esforçando para promover tanto em sua vida individual como em sua vida comunitária, os princípios morais e espirituais, capazes de promover a íntima associação, companheirismo e amizade entre as pessoas.

De acordo com tal visão, diversidade de cor, nacionalidade e cultura aumentam a experiência humana e nunca deveria ser transformada em obstáculo ao relacionamento harmonioso, à amizade ou ao casamento.

Vivendo em um século de extraordinário progresso científico e tecnológico, tais falsos conceitos de superioridade racial tendem a se desfazer ante as evidências das novas descobertas e pesquisas da ciência. Por outro lado, neste século de mobilidade global sem precedentes, a questão da mistura racial está se tornando um fato crescente e está acontecendo a uma velocidade mais rápida do que nunca.

Assim, num futuro não muito distante, já é possível visualizar uma mudança na "coloração" dos grandes centros populacionais e até mesmo de países inteiros, os quais seguramente terão uma coloração bastante diferente daqui a apenas algumas gerações. (79:54)

Tal visão futurista, longe de ser vista como romântica ou utópica, deveria nos comover e levar a presente geração a promover as mudanças necessárias dentro do coração, transformando sentimentos de superioridade e inferioridade numa consciência de igualdade, de respeito mútuo, de tolerância, de amizade e de apreciação sincera da diversidade e beleza humanas.

Em antecipação a esta visão de verdadeira cidadania mundial, escreveu Bahá'u'lláh (1817-1892), o fundador da Fé Bahá'í: "Ó bem-amados! Ergueu-se o tabernáculo da unidade; não vos considereis uns aos outros como estranhos. Sois os frutos de uma só árvore e as folhas de um mesmo ramo..." (89:140)

"Que não se vanglorie quem ama seu próprio país, mas sim, quem ama o mundo inteiro. A Terra é um só país e os seres humanos seus cidadãos." (89:158)

Capítulo 23
Fazendo uma diferença no mundo...
A história de Louis George Gregory

Louis George Gregory (1874-1951) era um professor renomado, escritor, advogado e um dos mais eminentes palestrantes da primeira metade deste século, e o primeiro Negro a servir no corpo administrativo nacional da Comunidade Bahá'í dos Estados Unidos e Canadá.

Louis Gregory, filho de escravos da Geórgia, se tornou uma das maiores figuras históricas mundiais.

"Poucos Negros de sua época jamais foram eleitos ou indicados repetidamente para servir em posição de liderança nacional em organizações com maioria branca. Nenhum trabalhou com maior afinco para a remoção do preconceito racial."

Como um dos primeiros bahá'ís do Ocidente, absorveu a luz e o poder transformador das palavras de Bahá'u'lláh e se tornou um instrumento de mudança. Seus quarenta anos de incansável trabalho na promoção da unidade racial são considerados sem precedentes em seu alcance. Conviveu e esteve associado com virtualmente todos os grandes líderes negros de seu tempo - educadores, religiosos, cabeças dos movimentos de direito civil - incluindo o também famoso escritor W.E.B. DuBois, editor do jornal The Crisis, e um dos primeiros líderes da N.A.A.C.P. (Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor), o qual conhecia muito bem a Fé Bahá'í, estava associado com muitos de seus membros e cuja própria esposa foi membro da Comunidade Bahá'í americana por algum tempo.

Louis George Gregory teve o privilégio de conhecer 'Abdu'l-Bahá, filho de Bahá'u'lláh, o profeta fundador da Fé Bahá'í, durante sua histórica visita aos Estados Unidos, em 1912. 'Abdu'l-Bahá, totalmente consciente das enormes dificuldades raciais presentes na vida da América, chamou Louis Gregory para o serviço da unidade racial, dizendo: "Eu espero que vós vos torneis... o meio pelo qual os Brancos e as pessoas de cor possam vir a fechar seus olhos para as diferenças raciais..."

Tendo viajado de costa a costa dos Estados Unidos, 'Abdu'l-Bahá em inúmeras ocasiões trouxe à tona o tema da unidade racial. Numa época em que muitas pessoas hesitavam até em promover reuniões interraciais, especialmente em lares brancos, e num tempo em que união marital entre Brancos e Negros era inaceitável e até mesmo considerada por muitos como ilegal, 'Abdu'l-Bahá conclamou os bahá'ís à promoverem e a demonstrarem sua adesão incondicional ao princípio da unidade da humanidade.

Assim, sob o incentivo e amorosamente guiado por 'Abdu'l-Bahá, Louis Gregory e Louisa Mathew se uniram em matrimônio. Louisa Mathew era uma jovem branca, bonita, nascida numa rica família do sul da Inglaterra.

Ela estudou economia, línguas e voz, tanto na Universidade de Cambridge como na França, onde ela havia se tornado uma bahá'í. Seu casamento veio a se tornar um exemplo vivo da unidade interracial e um potente instrumento para a promoção do princípio da eliminação de preconceitos, contrariando os falsos conceitos e teorias vigentes da superioridade e inferioridade racial, bem como desafiando não apenas a convenção social, mas também a ciência popular.

Conhecido amplamente como escritor e um palestrante renomado sobre a questão racial e uma variedade de outros princípios progressistas, Louis Gregory viajou incansavelmente por toda a extensão da América do Norte, difundindo o amor de Deus, guiando e ajudando as pessoas a se transformarem. Em 1920, escrevendo a uma mulher que tinha conhecido Louis Gregory, 'Abdu'l-Bahá prestou a ele um inesquecível tributo: "Esta alma pura tem um coração como água transparente. Ele é assim como puro ouro. Por isto, ele é aceito em qualquer mercado e é corrente em cada país." *

Capítulo 24

A unidade do gênero humano e a visão da cidadania mundial

As bases, os princípios, a visão e o modelo de um mundo unificado em todos os seus aspectos políticos, econômicos, educacionais, etc., estão amplamente explicados nos escritos bahá'ís.

'Abdu'l-Bahá escreveu: "Em ciclos passados, se bem que fosse estabelecida alguma harmonia, por falta dos meios, entretanto, ela não poderia ter sido atingida. Os continentes estavam separados por grandes distâncias e até entre os povos de um mesmo continente, a associação e o intercâmbio de idéias eram praticamente impossíveis. Em conseqüência disso o intercurso, o mútuo entendimento, e a união entre todos os povos e raças da terra eram irrealizáveis. Hoje, porém, os meios de comunicação têm se multiplicado e os cinco continentes da terra estão virtualmente unidos em um só. ... Da mesma maneira, todos os membros da família humana, quer povos ou governos, cidades ou aldeias, têm se tornado cada vez mais interdependentes. Não é mais possível que qualquer comunidade subsista por si própria uma vez que os liames políticos unem todos os povos e nações e laços de comércio e indústria, de agricultura e educação, dia a dia mais se fortalecem. Assim, pois, na época atual a unidade de todo o gênero humano é realizável. Em verdade, isso não é senão uma das maravilhas desta época admirável, deste século glorioso. Disso, os tempos passados ficaram privados, pois este século - o século da luz - foi dotado de glória, poder e iluminação incomparáveis, sem precedentes. Daí a miraculosa revelação de uma nova maravilha todo dia. Finalmente se verá com que intensidade ardem suas velas na assembléia do homem. (67:41-42)

Uma oração pela Unidade da Humanidade

Ó Tu, Senhor Bondoso. Criaste toda a humanidade dos mesmos pais. Desejaste que todos pertencessem ao mesmo lar. Em Tua Santa Presença, todos são Teus servos, e todo o gênero humano se abriga sob Teu Tabernáculo. Todos se têm reunido à Tua Mesa de graças e brilham pela luz da Tua Providência. Ó Deus! És bondoso para com todos, provês a todos, amparas a todos e a todos concedes vida. De Ti, todos os seres recebem faculdades e talentos. Todos estão submersos no oceano da Tua Misericórdia. Ó Tu, Senhor Bondoso! Une todos, faze as religiões concordarem e torna as nações uma só, para que sejam como uma única espécie e filhos da mesma pátria. Que se associem em união e acordo. Ó Deus! Ergue o estandarte da unidade do gênero humano! Ó Deus! Estabelece a Suprema Paz! Enlaça os corações, ó Deus! Ó Tu, Pai Bondoso! Extasia os corações com a fragrância do Teu amor, ilumina os olhos com Tua luz que guia; alegra os ouvidos com as melodias da Tua Palavra e abriga-nos no recinto de Tua Providência. Tu és o Grande e o Poderoso! És o Clemente, Aquele que perdoa as faltas da humanidade.

- 'Abdu'l-Bahá
(90:99)

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