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Minhas Memórias do Início da Fé
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Dinah França : Minhas Memórias do Início da Fé
Minhas Memórias do Início da Fé Bahá'í no Brasil
DINAH A. C. FRANÇA
EDITORA BAHÁ'Í
Nota:

Os relatos deste trabalho foram tirados de minhas memórias e cartas pessoais, não constituindo dados oficiais da Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá'ís do Brasil. Tenho certeza de que historiadores irão, no futuro, resgatar toda a trajetória da Fé Bahá'í no Brasil e seu potentoso e árduo começo.

A Autora
Introdução

Os amigos sempre me perguntavam como me tornei bahá'í mas, uma em especial, a querida Muriel Miessler, insistia muito para que eu escrevesse algumas linhas contando a minha história. Como nunca dispus de muito tempo e, achava o fato irrelevante, fui deixando sempre para depois.

Ao completar 80 anos, em 1995, recebi da nossa Assembléia Espiritual Nacional, junto com as felicitações, um pedido para que eu registrasse as minhas memórias de maneira mais ampla, inclusive as experiências que tive no campo da administração; as viagens, congressos, convenções, etc., dos quais sempre participei. Hoje, apesar do tempo decorrido, numa tentativa de resgatar a minha dívida com a nossa Assembléia Nacional, estou reunindo fatos ainda bem presentes em minha memória, desde aquela memorável data em que conheci a Fé Bahá'í em Salvador. Consciente de que a Bahia foi o berço da Fé Bahá'í no Brasil, e como participei ativamente de sua Era Histórica, decidi oferecer a minha pequena contribuição para aqueles amigos que se interessam sobre a história da Fé em nosso país.

Minhas Memórias do Início da Fé Bahá'í no Brasil
LEONORA STIRLING HOLSAPPLE

Esta extraordinária mulher foi a primeira pioneira a pisar o solo brasileiro. Tendo chegado ao Brasil em 1921, se estabeleceu em Salvador durante alguns anos. A primeira Assembléia Espiritual de Salvador foi eleita por aclamação em 1940, mas já havia um grupo bahá'í desde 1925. Entretanto, quando me tornei bahá'í em 1948, ela não vivia mais em Salvador, porém encontrei muitos frutos do seu trabalho. Em seguida à minha declaração, fui eleita para a Assembléia Local de Salvador e convivi com aquelas pessoas que Leonora havia ensinado e ainda participei com várias delas das reuniões da Assembléia e demais festas comemorativas. Lembro-me bem dos nomes das pessoas que faziam parte deste grupo:

Margot Worley
Dr. Fernando Nova
Roy Lee Worley
Hilda Santos
Zuleika Guimarães
Joselina Duarte (Jujú)
José Sacramento
Hortência Guimarães
Telésforo Santos
Maria Santos
Dona Antonia

Dr. Fernando Nova era médico, reumatologista, muito conceituado em Salvador. Roy Lee Worley, casado com Margot, era gerente da Moore Mc Cormack Navegação e fez parte da Assembléia Espiritual Local de Salvador por muitos anos. Hilda Santos e Zuleika Guimarães eram igualmente funcionárias da mesma empresa, onde também trabalhei por algum tempo. Joselina Duarte (Jujú) que foi ativa durante toda a vida, era muito conhecida e querida por todos, pois, uma de suas características era a de estar sempre pronta para ajudar.

Alguns deles fizeram parte da nossa Assembléia Espiritual Local durante muitos anos e por isso tivemos uma convivência mais próxima enquanto participei da Comunidade Bahá'í de Salvador.

Assembléia Espiritual Local dos Bahá'ís de Salvador, ano 1951, segurando um tapete que foi presenteado por Shoghi Effendi à comunidade da Bahia.

MARGOT WORLEY

Nascida no Brasil, de mãe francesa e pai escocês, trouxe da Inglaterra o movimento Bandeirante para as jovens de Salvador, do qual fiz parte desde 1937. Foi quando tive oportunidade de conhecê-la. Estávamos sempre juntas participando de reuniões, chás e festas, juntamente com as jovens da sociedade baiana. As bandeirantes eram muito requisitadas para a organização de chás beneficentes, festas e demais eventos desta natureza. Ela havia conhecido a Fé Bahá'í na sua juventude, através de Leonora Armstrong, mas somente em 1940 se tornou bahá'í nos Estados Unidos, onde encontrou vários bahá'ís, inclusive May Maxwell, mãe de Amatu'l-Bahá Rúhíyyih Khánum, esposa do Guardião, tendo visitado o Templo em Wilmette, nos Estados Unidos, ainda em construção. Ao retornar para o Brasil encontrou os bahá'ís que Leonora havia ensinado anteriormente em Salvador. May Maxwell, com quem ela havia se encontrado e conversado algumas vezes em Nova Iorque e no Rio de Janeiro, quando da sua passagem para Buenos Aires, onde faleceu, foi a sua grande incentivadora para o trabalho da Fé, que foi a grande motivação de toda sua vida. Dotada de espírito muito forte e inteligência brilhante, tinha uma tenacidade rara. Empreendeu muitas viagens para o ensino e venceu muitos obstáculos. Sua capacidade de liderança foi logo sentida por todos; razão pela qual foi tantas vezes eleita coordenadora da Assembléia Nacional dos dez países da América do Sul; posteriormente dos cinco países, quando o continente foi dividido para duas Assembléias Nacionais e, em seguida, para a Assembléia Espiritual Nacional do Brasil, onde serviu por muitos anos até 1954, quando foi designada para servir como Membro do Corpo Auxiliar da Mão da Causa de Deus residente no Brasil, cel. Djalal Khazéh, servindo nessa função até o ano de 1963, período em que visitou todos os países da América do Sul e as três Guianas. Sua vida foi totalmente dedicada ao trabalho da Fé. Fundou em sua residência um clube para jovens, do qual fiz parte, e que foi a origem de vários bahá'ís nesta Comunidade - Sergio Couto, Rolf Von Czekús, Edvaldo Andrade, Vivaldo Ramos, Brian Gleig, Rivadávia da Silva e Paula Sales. E além destes, seus três filhos: Anthony, Jeanne Hazel e Anna Lee. Levou a Fé aos índios Kiriris, na Bahia, com a participação dos jovens da Comunidade de Salvador, e muitos anos depois fundou uma escolinha para crianças na cidade de Lauro de Freitas, Bahia, local em que residiu até os últimos anos da sua vida.

Sr. Rafi e sra. Mildred Motahedah visitam Salvador, Bahia, em 1946. Eles foram os portadores do tapete com o Maior Nome enviado pelo Guardião.

Alguns primeiros bahá'ís de Salvador. Residência do casal Worley, em 1946.

Em 1947 assisti em sua casa a primeira palestra sobre Bahá'u'lláh, proferida pelo dr. Fernando Nova, membro da Assembléia Espiritual Local dos Bahá'ís de Salvador. Lembro-me que a palestra foi surpreendente. O assunto era inteiramente novo e também palpitante. Fiz muitas perguntas e, pelas respostas recebidas, ia me sentindo muito envolvida e não foi difícil naquele momento quase acreditar ter sido Bahá'u'lláh o Mensageiro para o nosso tempo. Estava vivendo um momento difícil. Minha família era católica pelo lado materno e sempre vivi de acordo com os princípios que me haviam ensinado e, tranqüilamente, aceitava todas as regras ditadas pela Igreja que ainda me satisfaziam; até que, já passando da adolescência, comecei a questionar certos procedimentos os quais, no meu entender, não faziam mais sentido e, como nunca encontrei argumentos nem respostas que esclarecessem as minhas dúvidas, fui me afastando da Igreja. Mas não estava feliz. Necessitava de algo que me devolvesse a paz espiritual, o que só conseguimos quando em harmonia com o Criador.

Foi justamente por esta época que assisti a palestra na casa de Margot e dela recebi o convite para acompanhá-la a Santiago, no Chile, onde ela participaria do 2º. Congresso Bahá'í de Ensino Sul-americano, seguido de uma Escola de Verão. Achei muito excitante a perspectiva de uma viagem ao Chile, mas precisava da aprovação da família. Era o ano de 1947 e naquela época uma jovem não viajava sem aprovação dos familiares. Ponderações feitas, a família concordou e lá fui eu em busca do desconhecido, que seria, em realidade, a mudança total da minha vida. E foi em Santiago, assistindo as reuniões que ali se realizavam, na companhia de muitos bahá'ís sul-americanos e alguns norte-americanos, num ambiente de rara beleza e numa atmosfera de paz e espiritualidade, que senti, pela primeira vez, a emoção de encontrar a resposta aos meus anseios, para os quais há muito tempo andava buscando.

Havia no continente poucas Assembléias Locais, mas quase todos os países estavam representados. Estavam presentes delegados do Peru, Bolívia, Argentina, Paraguai, Uruguai, Colômbia e Brasil. Isto aconteceu em janeiro de 1948. Todos os delegados traziam uma mensagem de seu país, e falavam com tanta segurança e convicção sobre o assunto que me deixava impressionada. Encantava-me conhecer tantas pessoas que demonstravam tanto amor aos novos amigos, como se já fossem velhos conhecidos. A harmonia que reinava naquela casa era tão evidente que mais parecia a ante-sala do Paraíso. Certa manhã, quando todos os delegados se reuniram para dar início aos trabalhos, depois das orações, e começamos a ouvir o delegado da Colômbia - dr. Carlos Saul Hernandez - percebi que algo estava me acontecendo. Comecei a chorar e, para diminuir o vexame, levantei-me sorrateiramente e fui até o quarto que estava ocupando com Margot. Eu já soluçava quando percebi que ela havia me seguido. Em silêncio, entregou-me um livro de orações e saiu silenciosamente do quarto. Recebi o livro, e ao abri-lo, ao acaso, deparei-me com esta oração de Bahá'u'lláh:

Cria em mim um coração puro, ó meu Deus, e renova uma consciência tranqüila dentro de mim, ó minha Esperança! Através do espírito do poder, confirma-me em Tua Causa, ó meu Bem Amado, e pela luz da Tua glória revela-me Teu caminho, ó Alvo do meu desejo! Através do poder da Tua transcendente grandeza, eleva-me ao céu da Tua santidade, ó Origem do meu ser, e com os sopros da Tua eternidade alegra-me, ó Tu que és meu Deus! Faze Tuas melodias imperecíveis irradiarem sobre mim tranqüilidade, ó meu companheiro, e as riquezas do Teu semblante antigo me livrarem de tudo, menos de Ti, ó meu Mestre, e o anúncio da revelação da Tua incorruptível Essência me trazer júbilo, ó Tu que és o Mais Manifesto dos Manifestos, o Mais Oculto dos Ocultos!*

*Referência: Orações Bahá'ís, 11ª Edição, p. 297.

Esta oração, lida pela primeira vez naquele momento, teve o efeito de um refrigério espiritual. Todo o meu ser reagiu à força daquelas palavras, e naquele exato momento não tive dúvidas de que havia acontecido uma grande mudança em minha vida. Meu espírito estava em festa e o que senti era tão forte, que ainda hoje não consigo explicar a maravilhosa sensação daquele momento: a consciência da Fé e a certeza do reencontro. Contive a emoção e ansiedade e retornei a Salvador em seguida.

CARTA AO AMADO GUARDIÃO

Durante os três meses que se seguiram, dediquei-me ao estudo das Escrituras Bahá'ís, até o momento em que senti estar preparada para assumir compromisso de me declarar, o que aconteceu em 09 de abril de 1948. Escrevi ao Guardião contando-lhe ter abraçado a Causa e ele me respondeu com uma carta cheia de palavras de incentivo para dedicar-me ao ensino da Fé, o que tenho feito ao longo de todos estes anos. A seguir estão as duas cartas na íntegra:

Bahia, 17 de maio de 1948.
Querido Guardião,

É a primeira vez que me dirijo ao Oriente, esse Oriente tão belo e tão feliz, que foi o berço dessa espiritualidade sadia que nos veio através de nosso querido Bahá'u'lláh. É também a primeira vez que, por me sentir tão cheia de felicidade, sinto necessidade de dizer que esta felicidade veio de um coração cheio de fé, cheio de esperança e transbordante de crença.

O meu nome ainda é desconhecido até este momento, de agora em diante, entretanto, sei que não mais o será. Sou bahá'í desde nove de abril último, porém de coração já o era há dois meses, desde o Congresso em Santiago que tive a felicidade de assistir e tomar parte em todas as reuniões.

Aceitando um convite de Margot Worley viajei para Santiago onde como delegada do Brasil ela tomou parte no II Congresso Bahá'í Sul-americano. Eu quase nada sabia do movimento, pois tinha assistido apenas duas reuniões públicas onde ouvi falar pela primeira vez em Bahá'u'lláh. Fui ao congresso, assisti todas as reuniões e tomei parte na Escola de Verão. Senti-me de tal modo entusiasmada e maravilhada com os ensinamentos, com a espiritualidade, ambiente, enfim, com o movimento bahá'í que era completamente novidade para mim que senti em tudo aquilo a essência do que há muito buscava. Mas apesar de tudo, não quis tomar uma resolução precipitada e regressando ao Brasil procurei ler e estudar auxiliada por Margot, que tem me ajudado muito no esclarecimento de certos pontos. Agora consciente do que realmente quero, encontrei na Fé Bahá'í o consolo, o estímulo, o objetivo espiritual de minha vida e estou certa de que com a minha declaração no dia nove de abril alcancei um degrau da escada que me levará ao Criador. Não importa que esta escada seja de rosas ou espinhos. Ele mesmo há de me dar coragem para subi-la.

Eis aí querido Guardião, a razão desta minha apresentação.

Como principiante, sei que vou precisar de forças para minha jornada e estas forças só as orações me poderão dar, as minhas e as de todos os que quiseram me ajudar. Sei que o Guardião não esquecerá de mim em suas preces, pois elas muito hão de me ajudar.

Que Ele nos ajude e nos oriente.
Dinah de Almeida Couto França
A resposta do Guardião foi:
Sra. Dinah França
11 de Outubro de 1948

Sua carta ao nosso amado Guardião, datada de 17 de maio, demorou um longo tempo para chegar até ele, como você pode ver, mas ele ficou feliz em recebê-la e aproveita essa oportunidade para pessoalmente assegurá-la de suas amorosas orações para o sucesso de seus futuros serviços à nossa gloriosa Fé - uma Fé que você abraçou com tal alegria e devoção.

Ele ficou agradecido em ouvir que você está tão ativa e que atendeu ao Congresso Bahá'í para a América do Sul, e que está constantemente ensinando a Causa às pessoas.

Ele espera que a Bahia venha a se tornar um forte centro da Fé. Seu belo nome, tão próximo ao próprio nome da Fé, deve ser querido aos corações dos crentes brasileiros, e deve encorajá-los a estabelecer ali uma florescente Comunidade Bahá'í. De fato, através dos longos e devotados serviços da srta. Holsapple, ele foi o primeiro lugar na América do Sul a se tornar aceso com a Luz de Bahá'u'lláh!

Com amorosas saudações a você e desejos de seu sucesso no serviço à Causa de Deus,

R. Rabbani

P.S.: Eu espero ter endereçado corretamente a você?

Possa o Amado, cuja Causa você tem abraçado com tal zelo e determinação, guie seus passos no caminho do serviço, ajude-a a adquirir um profundo conhecimento das verdades de Sua Fé, e contribua, nos dias por vir, para a consolidação e multiplicação de suas instituições,

Seu verdadeiro irmão, Shoghi.

Primeiro Congresso Regional de Ensino, realizado em 1949, no Rio de Janeiro.

AS PRIMEIRAS ASSEMBLÉIAS LOCAIS

Hoje, decorridos 56 anos, todos os dias da minha vida são de louvores e gratidão a Deus pelo meu renascimento espiritual. Naquela época, os congressos eram organizados como Institutos para o Ensino e as cartas do Guardião eram repletas de estímulos, incentivos e orientações - elas eram os únicos instrumentos disponíveis, já que só tínhamos um livro em português: Bahá'u'lláh e a Nova Era, de John Esslemont.

O Guardião estava muito atento a todos os eventos e era ele quem traçava todos os planos de ensino e os detalhava onde e como deveriam ser realizados. Os congressos e as conferências de ensino eram realizados regularmente em diversos países da América do Sul. Assim, tivemos este tipo de atividade na Argentina, Chile, Uruguai, Peru, Brasil e de todos os países vinham os seus delegados.

Em 1945 foi eleita a Assembléia Espiritual Local da cidade do Rio de Janeiro e no ano seguinte a de São Paulo. Durante a Cruzada de 10 Anos - de 1953 a 1963 - chegaram ao Brasil muitos bahá'ís iranianos, que contribuíram bastante para a consolidação do trabalho de ensino e também na abertura de novas localidades em várias cidades do país e, conseqüentemente, na formação de novas Assembléias Locais. O Rio de Janeiro teve o privilégio de receber os primeiros amigos iranianos. Era o ano de 1954 e estávamos em reunião na sede local juntamente com alguns dos membros daquela comunidade - Aureo Cooper, Acrisio Lacerca, Helio Almeida, Maria Martins e Regina Schwartz - quando subitamente chegou o nosso querido e saudoso Habib Taherzadeh com a família. Era a primeira família bahá'í do Irã que chegava ao Brasil, para ajudar no cumprimento das metas da Cruzada de Dez Anos, que fora estabelecida pelo Guardião.

Logo em seguida chegaram as famílias Sahihí, Soltani, Eghrari e muitas outras. Naquela época, eu estava passando uma temporada no Rio, cuja cidade era o porto de entrada dos imigrantes, e tive o prazer de conviver com todos os amigos iranianos que ali aportavam e que eram recebidos naquela comunidade. Em consulta com a Assembléia Local, e conforme as suas conveniências de trabalho, eles iam se deslocando para outros estados onde se tornavam pioneiros. No Rio de Janeiro, só a família de Djalal Eghrari fixou residência, a qual muito contribuiu não somente para a consolidação do ensino, como também na abertura de novas Assembléias Locais e grupos na região.

Capa da primeira publicação bahá'í em português, em 1928.

EDITORA BAHÁ'Í DO BRASIL

Em 3 de maio de 1957, o Guardião, Shoghi Effendi, escreveu: "A Editora Bahá'í a ser estabelecida na capital do Brasil (Rio de Janeiro) e constituindo um dos primeiros objetivos da Cruzada de 10 Anos deverá ser rapidamente e firmemente estabelecida."

Djalal Eghrari fundou então, naquele mesmo ano, a Editora Bahá'í do Brasil, da qual foi gerente por 26 anos, até 1983, quando do seu passamento.

Dorothy Baker com os amigos bahá'ís do Brasil no IV Congresso Bahá'í Latino-Americano de Ensino em Lima, Peru, 1950.

ELEIÇÃO DE ASSEMBLÉIAS NACIONAIS

Em 1950, ocorreu o 4º Congresso Bahá'í Sul-Americano, que teve lugar em Lima, Peru, o qual teve características muito especiais. Podemos afirmar que aquele foi um congresso preparatório para a eleição da primeira Assembléia Nacional do continente sul-americano, que se realizaria em abril do ano seguinte. Naquela ocasião tivemos o privilégio da presença da senhora Dorothy Baker, então membro da Assembléia Nacional dos Estados Unidos, a qual veio nos ajudar a preparar o histórico acontecimento. Ela, que mais tarde seria apontada pelo Guardião como "Mão da Causa de Deus", enriqueceu o evento com a sua presença, que foi um privilégio para todos nós. Era uma pessoa carismática e muito querida. Com a sua experiência e sabedoria, conduziu os delegados orientando-os passo a passo. Em 1951, então, nasceria a primeira Assembléia Espiritual Nacional para a América do Sul que abrangeria os dez países do continente. Quando o Guardião anunciou este plano, deu instruções para que fosse realizado em Lima, Peru, e orientou que todos os delegados presentes deveriam ficar hospedados no mesmo local, onde seria realizada a Convenção.

Assim, uma linda recepção foi preparada e oferecida aos delegados que chegavam ao Hotel Crillon para a abertura daquela Convenção. Todos nós estávamos muito alegres e felizes ao encontrar os amigos e companheiros de reuniões anteriores. O sr. Paul Haney e sra. Edna True, representaram a Assembléia Nacional dos Estados Unidos e vieram ajudar os delegados na condução dos trabalhos da Convenção, já que era a primeira vez que participávamos de um evento daquela magnitude. E foi neste ambiente de alegria e felicidade que se realizou a eleição da primeira Assembléia Espiritual Nacional para o continente sul-americano. Era um fato histórico para o mundo bahá'í e estávamos muito felizes, pois tínhamos consciência de que havia sido uma grande conquista para a Causa de Deus, embora uma grande responsabilidade pesasse nos ombros de todos nós.

Durante a Convenção, recebemos do amado Guardião os seguintes cabogramas:

A Primeira Assembléia Espiritual Nacional da América do Sul, eleita em 1951, com o sr. Paul Haney e a sra. Edna True.

SUPLICANDO BÊNÇÃOS DIVINAS, GUIA GRANDES VITÓRIAS NOVOS ELEITOS REPRESENTATIVOS. PROFUNDO AMOR. SHOGHI.

APRECIO PROFUNDAMENTE SENTIMENTO DELEGADOS REUNIDOS ORANDO BÊNÇÃOS SEM PRECEDENTE PREENCHIMENTO OBJETIVOS. SHOGHI.

Aquela Assembléia Espiritual Nacional teve a duração de cinco anos, até quando em 1956 foram eleitas duas Assembléias Espirituais Nacionais para este continente, uma formada por cinco países do sul - Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia - e a outra para os cinco países do norte - Venezuela, Equador, Colômbia, Peru e Brasil. E assim ficaram constituídas as duas Assembléias Nacionais da América do Sul até o ano de 1961, quando cada país elegeu sua própria Assembléia Nacional.

Aquele período em que uma Assembléia Espiritual Nacional era composta de vários países foi uma fase muito difícil e de muito trabalho, mas também uma oportunidade de treinamento para todos nós. A extensão do continente sul-americano é muito grande e os amigos tinham de se deslocar constantemente a outros países para atender situações de emergência, seja na área administrativa ou mesmo para atender aos crentes individuais.

FALECIMENTO DO AMADO GUARDIÃO

Não posso deixar de mencionar a nuvem de pesar que se abateu sobre o mundo bahá'í no dia 4 de novembro de 1957 em que o nosso amado Guardião passou para o Reino de Abhá. No início tínhamos a sensação de que havíamos ficado órfãos. Era uma situação de quase desespero, pois sentíamos que sua vida era insubstituível. Todavia, aos poucos fomos racionalizando a situação e pudemos constatar que parecia ele previra este acontecimento de sua morte súbita - pois, a nomeação feita por ele, das Mãos da Causa de Deus, um pouco antes de seu passamento, indicava que o mundo bahá'í teria dali em diante um Corpo que o orientaria até a eleição da primeira Casa Universal de Justiça, prevista para ocorrer em 1963, o que foi confirmado pela proclamação assinada pelas Mãos da Causa de Deus, datada de 25 de novembro, e que restabeleceu a tranqüilidade do mundo bahá'í e, principalmente, das Assembléias Espirituais Nacionais do mundo para continuarem em seu trabalho.

ELEIÇÃO DA PRIMEIRA ASSEMBLÉIA ESPIRITUAL NACIONAL DOS BAHÁ'ÍS DO BRASIL

Finalmente, em 1961, com a presença do dr. Ali Akbar Furutan, representando as Mãos da Causa de Deus na Terra Santa, foi eleita a primeira Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá'ís do Brasil, durante a Convenção Nacional, ocorrida na cidade do Rio de Janeiro, no amplo salão da Associação Brasileira de Imprensa. Nos dias 21 e 22 de abril daquele ano, quando também comemorávamos o festival do Ridván, teve início a Pré-Convenção e nos dias seguintes, de 23 a 25, teve lugar a Convenção propriamente dita. O sr. Furutan fez uma linda palestra sobre a "Revelação Progressiva" e depois leu a mensagem das Mãos da Causa de Deus, enfatizando que, naquela data, também estavam sendo eleitas 21 novas Assembléias Espirituais Nacionais em vários países do mundo e que elas seriam os pilares da futura Casa Universal de Justiça.

Tivemos a oportunidade de ouvir algumas lindas palestras por vários oradores, inclusive do dr. Furutan, que nos brindou mais uma vez com a sua sabedoria. Estiveram presentes à Convenção, além dos delegados, bahá'ís de todo o Brasil, muitos jovens e crianças. Concluída a votação, foram eleitos os seguintes membros para a nossa Assembléia Espiritual Nacional, que ficou assim constituída:

Edmund Miessler
Habib Taherzadeh
Idelmir Lima
Margot Worley
Mario Dantas
Muriel Miessler
Nilza Taetz
Rangvald Taetz
Vivaldo Ramos

Quando as festividades foram encerradas, a Assembléia Nacional teve a sua primeira reunião ali mesmo para eleger os seus oficiais. A sra. Margot Worley foi eleita a coordenadora daquela Assembléia. Embora a sua extensão seja menor do que a da América do Sul, o Brasil tem um vasto território; portanto, a recém eleita Assembléia teria um grande trabalho para estabelecer e alcançar metas e difundir a mensagem de Bahá'u'lláh em todo o país. Hoje, 44 anos decorridos, quero registrar um preito de gratidão especial para os membros da primeira Assembléia Espiritual Nacional do Brasil, oito dos quais já no Reino de Abhá, pelo dedicado trabalho que fizeram durante os primeiros anos em prol da nossa amada Fé.

A primeira Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá'ís do Brasil, 1961.

Primeira Convenção Nacional dos Bahá'ís do Brasil, no Rio de Janeiro, em 1961.

Em 1962, quando também fui eleita membro daquela instituição, e tive o privilégio de servi-la por alguns anos, pude conviver com aqueles dedicados e maravilhosos amigos, e testemunhar o quilate do trabalho empreendido por cada um deles e o quanto de sacrifício eles foram capazes de enfrentar. As reuniões eram agendadas nas cidades mais próximas de onde residia a maioria dos membros. Assim, nos reuníamos com freqüência em São Paulo, Curitiba e Porto Alegre, sempre nos fins de semana. Lembro-me que no inverno trabalhávamos com pequenos aquecedores sob a mesa, pois alguns de nós, acostumados com um clima quente, não suportava as baixas temperaturas de algumas regiões. Mas, apesar das dificuldades, todos demonstravam muita alegria, pois tínhamos consciência de que estávamos cumprindo uma meta divina e isto nos fazia muito felizes.

A segunda Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá'ís do Brasil, 1962, Campinas, SP.

Naquela época, no início do ano de 1961, eu trabalhava no Ministério da Fazenda em Salvador e fui transferida para o Rio de Janeiro. Em virtude da mudança da minha residência para aquela cidade, tive que me desligar da Comunidade Bahá'í de Salvador e também da sua Assembléia Local, da qual fiz parte por 13 anos. Ao residir no Rio de Janeiro, fui eleita para a sua Assembléia Local, na qual atuei por 42 anos. Foi uma experiência gratificante no trabalho da Fé, e também de sucesso na minha carreira profissional. Tive oportunidade de fazer muitas viagens a serviço da Fé, de visitar muitas Comunidades Bahá'ís e participar de muitos eventos que me tornavam sempre um pouco melhor, não só do ponto de vista espiritual como também no campo profissional e humano.

ELEIÇÃO DA PRIMEIRA CASA UNIVERSAL DE JUSTIÇA

Não preciso dizer quão importante foi aquele evento para todo o mundo bahá'i. Muitos planos e muita expectativa viveram-se para a eleição da primeira Casa Universal de Justiça em 1963. Aquele Órgão seria eleito em Haifa, Israel, pelos membros das Assembléias Espirituais Nacionais do mundo inteiro e que foi seguido pelo Congresso Mundial Bahá'í realizado em Londres, Inglaterra. Os membros das Assembléias Nacionais que não pudessem ir a Haifa teriam que enviar seus votos pelo correio. Para isto todos os membros receberam instruções e material para a votação.

Eu era membro da Assembléia Nacional do Brasil e como não tive condições para esta viagem ao Oriente, naquele momento elaborei meu voto de acordo com as instruções recebidas e o remeti pelo correio. Não foi fácil aquela decisão de não estar presente na eleição da primeira Casa Universal de Justiça, mas aceitei o fato com serenidade e viajei para participar do Congresso Mundial Bahá'í em Londres, que se realizaria um pouco mais tarde.

Membros da Comunidade Bahá'í de Niterói

ASSEMBLÉIA ESPIRITUAL LOCAL DE NITERÓI, RIO DE JANEIRO

O amado Guardião, nas suas cartas, sempre insistia que a cidade de Niterói, próxima ao Rio de Janeiro, na outra margem da baia de Guanabara, deveria ser aberta à Fé; por esta razão aquela localidade foi incluída nas metas da Assembléia Espiritual Local do Rio de Janeiro. Havia uma família bahá'í em Niterói e então ao chegar ao Rio me propus ajudar naquela meta. Durante alguns anos, todos sábados, dediquei-me ao ensino da Fé naquela cidade. Reuniamo-nos na residência do dr. Mario Dantas,* e juntos tentamos atrair as pessoas para a mensagem de Bahá'u'lláh. Assim foi formada a primeira Assembléia Espiritual Local de Niterói, que teve pouca duração, devido às freqüentes viagens de seus membros. Com a chegada da pioneira sra. Paquita Trujillo Lopes, espanhola, antes residente no Paraguai, e que alí residiu por algum tempo, foi possível a reeleição da segunda Assembléia Espiritual Local. Niterói hoje tem uma sede própria, uma Comunidade Bahá'í muito ativa, com muitos jovens cantores, compositores e realiza muitas atividades de ensino.

*Dr. Mário Dantas, paraense, advogado, cuja família também era bahá'í.

Congresso Nacional de Ensino em Niterói, em 1960.
RUA VISCONDE DE PIRAJÁ, 48/301

Ao chegar ao Rio de Janeiro residi naquele apartamento até o ano de 2002 e ali tive a oportunidade de receber inúmeros amigos bahá'ís não só do Brasil, mas também de outras partes do mundo. Era uma casa bahá'í e estava sempre aberta para qualquer atividade espiritual. Ali realizamos inúmeros ciclos de estudo, várias palestras de bahá'is que visitavam a comunidade, muitas reuniões da Assembléia Espiritual Local e comemorações diversas. Mesmo uma celebração especial, como a que realizávamos no Naw-Ruz, era ali preparada e realizada com muito amor e carinho, durante anos seguidos, onde estavam sempre presentes muitos amigos e amigos dos amigos.

Durante a ECO/92, quando também recebemos vários amigos de outros estados, tive a alegria de hospedar alguns deles, incluindo dois Conselheiros, que ali se alojaram, completando a alegria daquele lar.

Após 42 anos vividos no Rio de Janeiro, e já com 88 anos de idade, decidi no ano passado que era hora de retornar para Salvador, minha primeira comunidade onde ainda tenho muitos familiares. Aqui reencontrei velhos companheiros, com os quais me reúno todos os domingos, à tarde, para reuniões devocionais, atendendo a meta da Casa Universal de Justiça. Todavia, não posso deixar de mencionar as vitórias conquistadas para a nossa amada Fé durante os anos que passei no Rio de Janeiro, o que me proporcionou uma maior visão do mundo, não só no campo profissional como também pelas conquistas que sempre somaram ao meu crescimento espiritual. Viajei muitas vezes para várias partes do mundo, e dentre estas viagens algumas se destacaram, tendo em vista o seu objetivo espiritual. Assim, tive oportunidade de passar um mês em Macau, colônia portuguesa na China, em missão da Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá'ís do Brasil e também no Panamá, para a comemoração do Jubileu de Prata do Templo daquele país, e o privilégio inestimável de visitar a Terra Santa por várias vezes e fazer a minha peregrinação aos Santuários Sagrados, inclusive participar da comemoração do Centenário do passamento de Bahá'u'lláh, no ano de 1992, que foi o ponto alto de todas as viagens que empreendi durante toda a minha vida.

Nunca me esquecerei, com sentimentos de gratidão muito forte, da emoção que experimentei naquela comemoração, a qual compartilhei com centenas de delegados vindos de todas as partes do mundo. Aquela pequena multidão, às três horas da manhã, nos jardins do Santuário de Bahá'u'lláh, iluminado pela luz de centenas de velas, dentro de copos, apoiados nos canteiros, nos convidavam à oração e agradecimento por aquele sublime momento. Em seguida, já na madrugada, ao raiar da aurora, aquela procissão ao redor de Seu Santuário, em silêncio quase absoluto, que só nos deixava ouvir os pássaros e o ruído de nossos pés ao pisar os seixos que circundam aquele mesmo Santuário, foi uma experiência impar de amor e agradecimento, que me acompanhará enquanto viver.

Estar em Haifa é como estar na ante-sala do Paraíso, e praza aos céus que ainda possa voltar lá algum dia!

Santuário de Bahá'u'lláh em Bahjí, Haifa, Israel.

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