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Shoghi Effendi : A Presença de Deus - God Passes by
A PRESENÇA DE DEUS
Shoghi Effendi

radução de LEONORA S.ARMSTRONG E JAIRO S. OLIVEIRA

ASSEMBLÉIA ESPIRITUAL NACIONAL DOS BAHÁ'ÍS DO BRASIL - 1981

TÍTULO ORIGINAL EM INGLÊS "GOD PASSES BY"
INTRODUÇÃO

Esta é uma história de nossos dias baseada num tema pouco vulgar - história impregnada de amor e felicidade, de visão e força, que conta triunfos já obtidos e vitórias mais amplas ainda por alcançar; e, embora se desenrole em quadros de tragédia desoladora, conduz a humanidade, no seu final, não para um futuro tenebroso, inospitaleiro, mas, sim, para uma radiosa estrada, liberta de sombras, pela qual há de ir a um destino inevitável - aos descerrados portais da Cidade Prometida, Cidade da Paz Eterna.

Estes últimos cem anos - como nos é dado observar - foram assinalados por conquistas humanas e maravilhas sem precedentes, e também por desânimos e abatimentos de espírito jamais igualados. Esta história, porém, conta-nos maravilhas maiores, mais benéficas e mais poderosas, forjadas nesse mesmo período. Traz-nos novas que, ao invés de lágrimas e tristezas, são de uma alegria há muito olvidada e de uma força que desfalecida, as quais descem das alturas mais uma vez para imprimir novas diretrizes à vida humana. Fala-nos de coisas divinas: do nascimento entre nós de uma nova Fé Mundial, Fé que vem suceder a todas as Crenças do passado, que as reconhece e completa todas, cumprindo o propósito comum inerente a todas elas, e trazendo aos cristãos, "o Povo do Evangelho", um apelo especial para que despertem e intensifiquem sua propagação através de toda a terra.

A narrativa desenvolve-se em torno de majestosa e solitária Personagem. Seu motivo principal é o transcendente e infinito amor dessa Personagem pela humanidade e o amor que sabe fazer brotar dos corações que Lhe são fiéis.

O tema, quanto ao seu lado humano, tem por base a trilogia: Amor, Luta e Morte. Fala-nos de homens e mulheres como nós mesmos, que arriscaram tudo o que tinham e tudo o que eram à causa do seu puro amor; fala-nos de lares desolados, corações despedaçados, luto, exílio, sofrimento, e de inquebrantável vontade.

Por muito tempo pareceu estar o mundo excessivamente infeliz, e em demasia voltado para suas ocupações triviais, para que pudesse aceitar, na prática, tão espiritual e universal Revelação. Mais de uma vez a violenta extirpação da Fé às mãos da tirania, pareceu consumada. Muitos houve, detentores de altos postos, em diversos países, conhecedores dessa Fé, que foram informados dos cruéis ultrajes infligidos aos seus adeptos, e que ouviram seus protestos e apelos de justiça. Ninguém houve, porém, que os socorresse.

É estranho e lamentável que uma época tão ávida de conhecimentos, tão progressiva e reveladora de tantas verdades, teria de deixar inexplorados os domínios do espírito, e haveria de permanecer ignorante da mais essencial de todas as verdades.

Nenhum profeta veio jamais ao mundo com maiores provas de Sua identidade que Bahá'u'lláh; tampouco, qualquer outra Fé mais antiga alcançou tanto ou foi tão difundida na terra quanto esta, ainda no ensaio dos seus primeiros passos.

A mais eloqüente prova de ser Profeta que alguém pode exibir, é a Sua própria pessoa e a eficácia do Seu Verbo. Bahá'u'lláh reacendeu as chamas da fé e da felicidade no coração dos homens. Seu saber era inato e espontâneo, não adquirido em qualquer escola. A ninguém foi possível refutar ou resistir à Sua sabedoria, e mesmo os Seus mais arraigados inimigos admitiam Sua grandeza. Todas as perfeições humanas foram Nele encarnadas. Sua força era infinita. Penas e sofrimentos só serviram para tornar mais sólidas Sua decisão e fortaleza. Como um médico divino, Ele diagnosticou o mal da época e prescreveu o remédio. Seus ensinamentos foram de âmbito universal e iluminaram toda a humanidade. Mais ativamente ainda, Seu poder se fez sentir após a Sua morte. Em Seu pré-conhecimento foi único, e os fatos provaram, e estão ainda provando, sua autenticidade.

Uma segunda prova trazida por cada Profeta tem sido o testemunho do passado: a evidência da Profecia Antiga.

O comprimento, neste Dia, das profecias contidas no Alcorão e na tradição muçulmana não impediu que o islã, perseguisse a Fé Bahá'í, mas o cumprimento tem sido, não obstante, espantoso e notável.

O cumprimento das profecias de Cristo e da Bíblia, durante um período de cem anos ou mais, tem sido assunto de conhecimento e comentário geral no Ocidente. Esse cumprimento em sua plenitude, porém, só se pode ver em Bahá'u'lláh. A proclamação de Sua Fé ocorreu em 1844, ano esse em que a estrita exclusão dos judeus de sua própria terra - que fora imposta pelos muçulmanos durante cerca de doze séculos - foi, enfim, atenuada pelo Édito de Tolerância, e "cumpriu-se" "o tempo dos gentios". O Advento havia tardado muito e sucedera em um tempo de opressão e iniqüidade, de irrealidade religiosa e descrença, quando se esfriara o amor a Deus e à humanidade e os homens estavam submersos em interesses e prazeres materiais. O Profeta veio como um ladrão na noite e se encontrava aqui em nosso meio enquanto o povo estava envolto em profundo sono espiritual. Ele examinou e pôs à prova as almas, separando as espirituais daquelas que não o eram, os crentes verdadeiros dos falsos, as ovelhas dos cabritos, e o povo, tomado desprevenido, foi preso assim como em um laço, e não soube de seu perigo até que a justiça retribuidora de Deus o cercou. O aparecimento da Fé, entretanto - e a rapidez e a direção de sua expansão - foi como o do relâmpago que reluz do Oriente e se mostra até o Ocidente. O cristianismo, em contraste com a Revelação de Maomé, se difundira do Oriente ao Ocidente e tem sido, predominantemente, uma Fé ocidental. A Fé Bahá'í, outrossim, tem se expandido para o oeste, mas com ainda maior celeridade e ímpeto do que o cristianismo.

Desde o início da Era, desde os dias do Arauto da Fé, o Báb - as crônicas mostram uma simpatia consciente, por parte dos cristãos, com o Novo Ensinamento, a qual estava em marcante contraste com a atitude de seus vizinhos muçulmanos. A primeira instância disso talvez fosse o bondoso tributo que o Dr. Cormick, médico inglês residente em Teerã, prestou ao Báb - a quem atendeu na prisão quando Ele estava sofrendo os efeitos da tortura - e seu comentário sobre a opinião prevalecente, de que o Ensinamento do Báb se assemelhava ao do cristianismo. O primeiro historiador ocidental do Movimento, o Comte Gobineau, diplomata francês, escreveu (1865) com entusiasmo sobre o caráter santo do Báb, sobre a sublimidade de Seus ideais, Seu encanto, sua eloqüência e o assombroso poder que Suas palavras exerciam tanto sobre amigos como sobre inimigos. Ernest Renan em "Lês Apôtres" (1866), Lord Curzon em "Pérsia", o professor Browne da Universidade de Cambridge em várias obras, e muitos literatos cristãos, posteriormente, têm escrito em tom similar.

Entre os numerosos exemplos dessa simpatia instintiva, porém, o mais espetacular é aquele que assinalou a execução do Báb na praça do mercado de Tabríz, no dia 9 de julho de 1850. O oficial que comandava o pelotão de fuzilamento era cristão. Aproximando-se do Báb, Lhe suplicou - dizendo ser ele cristão e em seu coração nenhuma inimizade Lhe sentir - por isso, que fosse livrado de culpa de perpetrar um crime tão nefando. O Báb respondeu que, se sua súplica era sincera, Deus lhe poderia satisfazer o desejo. O milagre extraordinário que foi a resposta a essa súplica e o martírio do Báb levado a efeito por outro regimento, mandado este por oficial muçulmano, são parte da história.

O Ocidente cristão, embora longe da cena do ministério do Profeta, sentia e respondia, de um modo prático ao divino Impulso Mundial, algumas décadas antes que o Oriente o sentisse. Poetas - os maiores e os menores - Shelley e Wordsworth e muitos outros, cantaram um novo Alvorecer. Um novo esforço missionário propagou o Evangelho Cristão por toda a terra; homens e mulheres espirituais tentaram ressuscitar a realidade na religião; reformadores levantaram-se para corrigir males de longa data; novelistas utilizaram sua arte para fins sociais. Que diferença entre tudo isso e a ação do Oriente corrupto, fanático, perseguidor!

O próprio Báb identificou Seu Ensinamento, em espírito e propósito, com aquele de Cristo, que fora uma preparação para Seu próprio, e citou algumas das instruções de Cristo a Seus discípulos, como parte de Seu próprio discurso de Ordenação às "Letras dos Viventes".

Bahá'u'lláh pareceu haver percebido, desde o começo, a capacidade especial do Ocidente progressista e empreendedor. Tomou as mais vigorosas medidas possíveis para levar a Verdade da Era ao conhecimento do Oeste e de seus dirigentes. Sendo impedido de entregar pessoalmente Sua mensagem à Europa, Ele, de uma prisão turca, escreveu uma Epístola geral aos cristãos, e outra Epístola aos soberanos e aos homens de maior destaque no mundo, mas especialmente aos dirigentes da Cristandade. Também cinco Epístolas pessoais foram dirigidas por Ele, uma ao Czar, outra ao Papa, outra à Rainha Vitória e duas a Napoleão III. Nestas, em tons ressonantes de poder e majestade, como seriam dignos do Rei dos Reis ao impor mandatos a Seus Vassalos, declarou ser esta Era o Dia Supremo de Deus e a Si Próprio o Senhor dos Senhores, o Pai que viera em Sua maior glória. Cumprira-se tudo o que havia sido mencionado no Evangelho. Jesus anunciara esta Luz, e Seus sinais se haviam difundido pelo Ocidente, para que, neste Dia, Seus seguidores volvessem as faces a Bahá'u'lláh.

Essas cartas são, em verdade, pronunciamentos de uma Providência de larga visão, e a catástrofe do Ocidente ocorrida desde que foram escritas, lhes dá agora um interesse trágico e terrível. São relativamente extensas, mas em poucos parágrafos se pode indicar seu teor geral.

Em Sua Epístola à Rainha Vitória, Bahá'u'lláh elogia Sua Majestade por haver posto termo ao tráfico de escravos e por haver "confiado as rédeas do conselho às mãos dos representantes do povo". Sua entrada na Assembléia, porém, deveria ser em espírito de oração a Deus, vendo-se eles como depositários dos melhores interesses de toda a humanidade. A espécie humana é uma só e deve ser vista como semelhante ao corpo humano, o qual embora criado perfeito, veio a ser vítima de graves doenças. Encontra-se à mercê de governantes tão ébrios de orgulho, que não podem ver o que é em seu próprio e maior benefício e muito menos, reconhecer esta poderosa Revelação. Diz Bahá'u'lláh, nesta Epístola, que o único remédio verdadeiro para os males do mundo é a união de todos os seus povos em uma só Causa Universal, uma Fé comum, e isto só pode ser realizado por intermédio do Médico Divino. Ele exorta a Rainha a assegurar a paz, a ser justa e ter consideração para com seus súditos, a evitar impostos excessivos e a efetivar uma união internacional para a redução dos armamentos e a resistência de todas as nações conjuntamente a qualquer Potência agressora.

Sua Epístola ao Papa contém um apelo apaixonado, amoroso, aos cristãos, para que reconheçam neste, o Dia Prometido de Deus, avancem à sua luz e aclamem o Senhor e para que entrem no Reino em Seu Nome. Foram criados para a luz, e não Lhe apraz vê-los na escuridão. Cristo purificou o mundo com Amor e com o Espírito, para que pudesse, neste Dia, receber Vida das mãos do Misericordioso. É esta a vida do Pai, de Quem falou Isaías; o ensinamento que Ele agora revela é aquele que Cristo reteve quando disse: "Outras coisas tenho que vos dizer, mas vós não as podeis suportar agora." Ele exorta o Pontífice a tomar o Cálice da Vida, dali beber e a oferecê-lo, então, aos que, dentre os povos de todas as Crenças, a ele se volvem.

A Epístola a Alexandre II é em resposta a uma súplica dirigida pelo Czar a seu Senhor, e em reconhecimento da bondade que um embaixador do Czar mostrara a Bahá'u'lláh enquanto estava encarcerado e acorrentado. Chama a atenção do Czar à suprema grandeza deste Manifestante, lhe diz como o Profeta se tem sujeitado a mil calamidades para a salvação do mundo e como, embora tenha trazido vida aos homens, é por eles ameaçado com a morte. Ele lhe solicita que exponha essa injustiça e, em amor a Deus e ao Reino de Deus, se ofereça como resgate no caminho de Deus, que nenhum dano lhe sobrevirá e sim, uma recompensa lhe será concedida, neste mundo e no vindouro. Grande, grande é a bem-aventurança que está à espera daquele rei que dá seu coração ao Senhor.

Em Suas duas Epístolas a Napoleão III, Bahá'u'lláh chama a atenção do Imperador à unidade do gênero humano cujas numerosas enfermidades não serão curadas, a menos que as nações, deixando de procurar seus próprios vários interesses, concordem e se unam em obediência comum ao plano de Deus. O gênero humano deve ser como um só corpo e uma só alma. Nesta Era, Deus exige de cada homem um grau de fé muito mais alto do que foi alcançado pelo mundo até agora. A todos se ordena que ensinem a verdade e trabalhem pela causa de Deus, mas ninguém há de produzir bons resultados nesse serviço, a não ser que primeiro purifique e enobreça seu próprio caráter.

Bahá'u'lláh ordena ao clero que abandone seu retiro, participe na vida do povo e se case. Deus está chamando homens a Si nesta Era, e qualquer teologia que tome suas próprias teses como padrão de verdade e Dele se afaste, carece de valor e eficácia.

Ele veio para regenerar e unir toda a humanidade, de fato, mesmo, e em verdade, e há de reunir todos à mesa única de Sua generosidade. Que o Imperador invoque Seu Nome e declare ao povo Sua verdade.

Todas essas Epístolas, especialmente esta a Napoleão III, contém graves advertências, bem como ameaças, abertas ou implícitas, caso os reis não reconheçam o Manifestante e Lhe obedeçam os mandatos. A Epístola coletiva, dirigida a todos os reis, é, no entanto, mais austera e ameaçadora do que as outras, Bahá'u'lláh adverte aos governantes que, se não tratarem os pobres em seu meio como uma incumbência dada por Deus, se não observarem a mais estrita justiça, se não reconciliarem suas diferenças, curarem as dissensões que os separam e reduzirem seus armamentos e, se não seguirem os outros conselhos que o Profeta está agora lhes dando, "O castigo de Deus vos atingirá de todas as direções e contra vós será pronunciada a sentença de Sua justiça. Vós naquele dia nenhum poder tereis para a Ele oferecer resistência e havereis de reconhecer vossa própria incapacidade. Tende misericórdia de vós mesmos e daqueles a vós subordinados."

Longos séculos antes, Cristo havia chorado pela cidade cujos filhos não atenderam à Sua vinda e que recusaram Sua proteção. Agora, na ocasião de Sua segunda vinda, ocorreu novamente o mesmo. Aqueles, porém, que sobre si atraíram a ira de Deus não foram os membros de uma nação, mas sim, de um mundo inteiro.

Antes de Seu passamento, Bahá'u'lláh proclamou: "Aproxima-se a hora em que terá aparecido a maior convulsão." E ainda, "A hora da destruição do mundo e de seu povo chegou."

Mais de quarenta anos após a emissão dessas Epístolas, Abdu'l-Bahá, filho do Profeta e o designado Exemplar de Sua Fé - ao ser finalmente libertado da prisão pelos Jovens Turcos - viajou durante três anos pela Europa e pela América. Embora entristecido por muitas coisas que Ele via, e se bem que reconhecesse o sombrio destino ao qual a negligência das nações as estava precipitando, Ele evitava fazer denúncias, repreensões ou criticas; antes, com palavras de ânimo e de amor sem distinções, convocava Seus ouvintes para ação elevada, heróica. Muito Ele falou da meta espiritual e social estabelecida por Deus para esta Era esclarecida: "A Maior Paz". Ele mesmo, em Sua alegria, Sua serenidade, Seu amor por todos, e em Sua sabedoria, Seu poder e resolução, e em Sua completa submissão a Deus, parecia ser a encarnação do Espírito dessa Paz. Sua própria presença punha almas receptivas em contato com um estado de ser do qual talvez tivessem ouvido falar, mas que nenhuma delas até então conhecera. No transcurso de muitos meses de labor missionário, Ele explicava as condições morais e espirituais que tornariam possível a Maior Paz e em numerosos discursos desenvolvia os meios práticos pelos quais poderia ser alcançada. Nos Estados Unidos, em Wilmette, nas margens do Lago Michigan, Ele lançou a pedra fundamental do primeiro Templo Bahá'í do Ocidente, ao redor do qual deverão agrupar-se prédios dedicados a fins sociais, humanitários, educacionais e científicos, formando todos estes um só desenho, a ser dedicado à glória de Deus e ao serviço do homem. Também viu Ele na América os primórdios da edificação da Ordem Administrativa de Bahá'u'lláh.

A resposta geral do público, entretanto, não foi suficiente para deter as marés que fluíam em direção à guerra. Antes de partir dos Estados Unidos, Abdu'l-Bahá predisse que irromperiam hostilidades dentro de dois anos.

Quando finalmente se fez a paz, Ele declarou que a Liga das Nações, na forma em que estava constituída, não poderia evitar a guerra e, antes de Seu passamento, em 1921, anunciou aos seguidores que outra guerra haveria de estalar, ainda mais feroz que a anterior.

Para muitos, nos limiares do segundo século bahá'í, parece estar a humanidade em desgovernada nau, ao sabor de tormentoso e desconhecido mar. Para os bahá'ís, porém, outra visão se lhes desvela. Os obstáculos pelos quais os homens bloqueavam o seu curso para o progresso, foram removidos. O orgulho humano é abatido; o saber humano invalidado. A anarquia do nacionalismo e a incompetência do secularismo estão completamente denunciadas.

Lentamente a face do futuro vai-se descobrindo. Ao longo de qualquer estrada a cuja extensão os homens esclarecidos lancem a vista, verão à sua frente alguma verdade guiadora, algum princípio liderante, que Bahá'u'lláh apontou tempos atrás sem que ninguém o quisesse ouvir. O sumário e a essência das melhores esperanças dos mais bem intencionados espíritos hoje, estão contidas nestes simples "Doze Princípios" de Abdu'l-Bahá:

1 - Livre pesquisa da verdade. 2 - Unidade do gênero humano. 3 - A religião como causa de amor e harmonia. 4 - Reconciliação da ciência com a religião. 5 - Paz Universal. 6 - Um idioma auxiliar internacional. 7 - Instrução obrigatória. 8 - Oportunidades iguais para o homem e a mulher. 9 - Justiça para todos. 10 - Trabalho obrigatório para todos. 11 - Abolição dos extremos de pobreza e riqueza (Equilíbrio econômico). 12 - O Espírito Santo como primária força motriz de todos os atos humanos.

A grandiosa, complexa e difícil tarefa da unificação de todos os povos nos é exposta, em sua completa e intrínseca simplicidade, por Abdu'l-Bahá em sete expressivas frases: 1 - Unidade no campo político. 2 - Unidade de idéias nos empreendimentos de caráter universal. 3 - União pela liberdade. 4 - Unidade religiosa. 5 - União das nações. 6 - União das raças. 7 - Unidade de linguagem.

Já os bahá'ís começaram, efetivamente, a construir o instrumento destinado a ser o modelo e o núcleo da Suprema Paz. A Ordem Administrativa é tão simples quão profundamente concebida, e poderá tão somente ser dirigida por aqueles cujas vidas são animadas pelo amor e pelo temor a Deus. É um sistema em que os opostos, como a unidade e a universalidade, o prático e o espiritual, os direitos do indivíduo e os direitos da coletividade, equilibram-se perfeitamente, não por meio de convenções mais ou menos precárias, mas sim por meio da revelação de uma harmonia mais íntima. Aqueles que já sabem o que é trabalhar na Ordem, testemunham ser ela como um corpo humano feito para expressar a alma que nele existe.

Na margem do lago em Wilmette se ergueu, já completado, o Templo de Louvor, sinal do Espírito da Maior Paz e do Esplendor de Deus que desceu para habitar entre os homens. As paredes do Templo são transparentes, feitas de uma filigrana aberta recortada como em pedra esculpida e forrada de vidro. Todos os símbolos de luz imagináveis são entretecidos no desenho, as luzes do sol e da lua e das constelações, as luzes dos céus espirituais desvelados pelos grandes Reveladores de hoje e de ontem, a Cruz em várias formas, o Crescente e a Estrela de nove pontas (emblema da Fé Bahá'í). Em nenhum momento a escuridão penetra o Templo; de dia, é iluminado pelo sol, cujos raios o inundam de todos os lados, através das paredes delicadamente perfuradas, e à noite se ilumina artificialmente, sendo que seu contorno decorado se realça com luz contra a escuridão. De qualquer lado que o visitante se aproxime, a forma ascendente do Templo aparece como o espírito da adoração e, visto de cima, do ar, se assemelha a uma Estrela de Nove Pontas descida do céu para encontrar sobre a terra seu lugar de repouso.

Para guiar os povos, porém, na senda que os levará à Terra Prometida, para a espiritualização da humanidade, para a consecução da Suprema Paz, o mundo espera que se levantem aqueles a quem o Rei dos Reis confiou a tarefa - os cristãos e as igrejas do Ocidente.

"Em verdade, disse Cristo: "Vinde após mim e eu vos farei pescadores de homens", e hoje Nós dizemos: "Vinde, e vos faremos ressuscitadores do mundo!... Atendei! Este é o Dia da Graça. Vinde, que Eu vos farei reis dos domínios do Meu Reino. Se Me obedecerdes, vereis aquilo que vos temos prometido, e Eu vos tornarei os amigos de Minha Alma nos domínios da Minha Grandeza e os companheiros para sempre da Minha Beleza nos céus do Meu Poder."

GEORGE TOWNSHEND
(Ex-cônego da Catedral de S.Patrício, Dublin)
PREFÁCIO

No dia 23 de maio deste ano auspicioso, o mundo bahá'í celebrará o centenário da fundação da Fé de Bahá'u'lláh. Comemora simultaneamente o primeiro centenário do início da Dispensação Bábí, da inauguração da Era Bahá'í, do começo do Ciclo Bahá'í e do nascimento de Abdu'l-Bahá. Desafia nossa imaginação o peso das potencialidades das quais foi dotada esta Fé que não tem par, nem semelhante, na história espiritual do mundo e que assinala a culminação de um ciclo profético universal. O brilho da glória milenária que deve, na plenitude do tempo, dela emanar, nos deslumbra a vista. A magnitude da sombra que seu Autor continuará a projetar sobre sucessivos Profetas destinados a levantar-se depois Dele, evade a nossos cálculos.

Já no transcurso de menos de um século, a operação dos misteriosos processos gerados pelo espírito criador dessa Fé tem provocado na sociedade humana tal tumulto, que mente alguma pode sondar. Passando ela mesma por um período de incubação durante sua época primitiva, tem induzido - à medida que surgia seu sistema que lentamente cristaliza - uma fermentação na vida geral do gênero humano designada para abalar os próprios fundamentos de uma sociedade desordenada, lhe purificar o sangue vital, reorientar e reconstruir as instituições e talhar o destino final.

A que outra coisa podem os olhos que observam ou as mentes livres de preconceito - tendo conhecido os sinais e portentos que anunciaram o nascimento da Fé de Bahá'u'lláh e acompanhado seu desenvolvimento - atribuir este horrendo tumulto planetário, com a destruição, a miséria e o medo que acarreta, senão à ereção de Sua Ordem Mundial embrionária, a qual - como Ele mesmo inequivocamente proclamou - tem "perturbado o equilíbrio do mundo e revolucionado a vida ordenada do gênero humano?" A que causa podem ser atribuídas as origens desta portentosa crise - crise essa, incompreensível ao homem e que, se admite, não tem precedentes no anais da humanidade - senão à irresistível difusão daquele espírito que comove, vitaliza e redime o mundo, o qual, segundo afirmou o Báb, "vibra na mais íntima realidade de todas as coisas criadas?" Nas convulsões da sociedade contemporânea, na frenética ebulição dos pensamentos dos homens, nos antagonismos ferozes que inflamam as raças, crenças e classes, no naufrágio das nações, na queda dos reis, no desmembramento dos impérios, na extinção das dinastias, no colapso das hierarquias eclesiásticas, na deterioração das instituições veneráveis, na dissolução dos laços, tanto seculares como religiosos, que desde tanto tempo mantinham ligados os membros do gênero humano - tudo o que se tem manifestado com sempre crescente gravidade desde que irrompeu a primeira Guerra Mundial, a qual precedeu imediatamente os primeiros anos da Idade da Formação da Fé de Bahá'u'lláh - em tudo isso podemos reconhecer facilmente as evidências das dores de parto de uma era que sustentou o impacto de Sua Revelação, desatendeu Seu chamado e agora se esforça para se livrar de sua carga, como uma conseqüência direta do impulso que lhe foi comunicado pela influência geradora, purificadora e transmutadora de Seu Espírito.

Na ocasião de um aniversário tão profundamente significativo, é meu propósito tentar, nas páginas que seguem, passar revista aos acontecimentos salientes do século que viu este Espírito surgir no mundo, bem como às etapas iniciais de sua subseqüente encarnação em um Sistema que há de evoluir até tornar-se uma Ordem designada para abarcar a humanidade inteira e capaz de cumprir o alto destino que espera o homem neste planeta. Tratarei de passar revista - em sua devida perspectiva e a despeito do intervalo relativamente curto que deles nos separa aos acontecimentos que o transcurso de cem anos, sem por tanto em glória como em tribulação, tem desdobrado ante nossos olhos. Procurarei representar e correlacionar, ainda que seja em forma muito resumida, aqueles momentosos eventos - que ante os próprios olhos de sucessivas gerações, perversas, indiferentes ou hostis - têm transformado, insensível e inexoravelmente, um ramo heterodoxo e aparentemente negligível da escola shaykhí da seita Ithná-Ashariyyih do islã xiita, em uma religião mundial cujos inumeráveis seguidores estão unidos orgânica e indissoluvelmente; cuja luz se difundiu sobre a terra, até a Islândia no Norte e Magalhães no Sul; cujas ramificações se têm estendido a nada menos de sessenta países do mundo; cuja literatura tem sido traduzida e disseminada em não menos de quarenta idiomas; cujas doações, nos cinco continentes do globo, quer locais, nacionais ou internacionais, já atingem um valor de alguns milhões de dólares; cujos corpos eletivos, com personalidade jurídica, têm obtido o reconhecimento oficial de numerosos governos no Oriente e Ocidente; cujos aderentes são recrutados das diversas raças e das principais religiões do gênero humano; cujos representantes se encontram em centenas de cidades, tanto na Pérsia como nos Estados Unidos da América; de cujas verdades a realeza tem dado testemunho, repetidas vezes e publicamente; cujo status independente seus inimigos - das fileiras de sua religião materna e no centro principal do mundo árabe, como também do muçulmano - têm proclamado e demonstrado; e cujas pretensões têm sido virtualmente reconhecidas, dando-lhe direito de figurar como a quarta religião de uma Terra na qual se estabeleceu seu centro espiritual mundial e a qual é, ao mesmo tempo, o coração da cristandade, o mais sagrado santuário do povo judaico e, excetuando-se somente a Meca, o lugar mais sagrado do Islã.

Não é meu propósito - nem tampouco a ocasião o exige - escrever uma história detalhada dos últimos cem anos da Fé Bahá'í, nem pretendo traçar as origens de tão tremendo Movimento, descrever as condições sob as quais nasceu, ou examinar o caráter da religião da qual se derivou, nem tentarei avaliar os efeitos que seu impacto sobre o destino da humanidade tem produzido. Antes, me contentarei com uma revista às características salientes de seu nascimento e desenvolvimento, bem como às etapas iniciais na criação de suas instituições administrativas - instituições essas que deverão ser consideradas o núcleo e o arauto daquela Ordem Mundial que haverá de encarnar a alma da Fé de Deus neste dia, lhe executar as leis e cumprir o propósito.

Nem é minha intenção - ao contemplar o panorama que o transcurso de cem anos estende ante nossos olhos - deixar de levar em conta o rápido entrelaçamento de aparentes reveses com evidentes vitórias, com o qual a mão de uma Providência inescrutável se dignou formar o padrão da Fé desde seus primeiros dias, ou menosprezar aqueles desastres que tantas vezes têm provado ser o prelúdio para novos triunfos, os quais, por sua vez, têm estimulado o crescimento da Fé e lhe considerado as realizações passadas. Em verdade, a historia dos primeiros cem anos de sua evolução resolve-se em uma série de crises internas e externas, de severidade variável, devastadoras em seus efeitos imediatos, mas cada uma liberando, misteriosamente, uma medida correspondente de poder diurno, dando assim um novo impulso a seu desenvolvimento. E esse maior desenvolvimento tem engendrado, por sua vez, uma crise mais grave, à qual tem sucedido uma efusão ainda mais liberal de graça celestial, capacitando seus defensores a acelerarem mais ainda sua marcha e ganharem em seu serviço vitórias ainda mais compelentes.

Em seu mais amplo perfil, o primeiro século da Era Bahá'í - pode-se dizer - compreende a Idade Heróica, Primitiva, Apostólica da Fé de Bahá'u'lláh, e também as etapas iniciais da Idade de Formação, de Transição, de Ferro, a qual há de testemunhar a cristalização e a modelação das energias criadoras que Sua Revelação liberara. Os primeiros oitenta anos deste século incluem praticamente, podemos dizer, o inteiro período da primeira idade, enquanto as duas últimas décadas podem ser consideradas testemunhas dos primórdios da segunda. A primeira começa com a Declaração do Báb, inclui a Missão de Bahá'u'lláh e termina com o passamento de Abdu'l-Bahá. A segunda inaugura-se com Sua Última Vontade e Testamento, o qual lhe define o caráter e estabelece a fundação.

O século ao qual estamos passando revista divide-se, pois - podemos dizer - em quatro períodos distintos, de duração desigual, cada um de importância específica e de significado tremendo - de fato, incalculável. Esses quatro períodos estão, entretanto inter-relacionados e constituem sucessivos atos de um só drama - indivisível, estupendo e sublime, cujo mistério nenhum intelecto pode sondar, cujo clímax visão alguma pode abranger, nem sequer vagamente, cuja conclusão mente alguma pode adequadamente prognosticar. Cada um desses atos gira em torno de seu tema próprio, orgulha-se de seus próprios heróis, registra suas próprias tragédias, anota seus próprios triunfos e contribui, com a parte que lhe cabe, à execução de um Propósito comum, imutável. Isolar qualquer deles dos demais, ou desassociar do objetivo prístino que a anima em seus primeiros dias, as manifestações posteriores de uma Revelação universal que a tudo abarca, seria equivalente a uma mutilação da estrutura sobre a qual descansa e a uma lamentável perversão de sua verdade e de sua história.

O primeiro período (1844-1853) centraliza-se na pessoa meiga, jovem e irresistível do Báb, incomparável em Sua humildade, de uma serenidade imperturbável, de uma eloqüência cujo poder era magnético, e sem rival nos episódios dramáticos de Seu ministério célere e trágico. Esse período começa com a Declaração de Sua Missão, culmina em Seu martírio e termina em uma verdadeira orgia de massacre religioso, um massacre de hediondez revoltante. É caracterizado por nove anos de feroz e implacável luta, cujo teatro era a totalidade da Pérsia, e na qual mais de dez mil heróis sacrificariam suas vidas, na qual participaram dois soberanos da dinastia Qájár e seus malvados ministros, e a qual foi sustentada pela inteira hierarquia eclesiástica xiita, pelos recursos militares do estado e pela inexorável hostilidade das massas. O segundo período (1853-1892) deriva sua inspiração da figura augusta de Bahá'u'lláh, preeminente em santidade, a majestade de Cujo poder e fortaleza O fez objeto de reverência e temor, o transcendente brilho de Cuja glória era inatingível. Esse período abre com o primeiro despontar - na alma de Bahá'u'lláh, enquanto Ele estava no Síyáh-Chál de Teerã - da Revelação prevista pelo Báb, atinge sua plenitude na proclamação dessa Revelação aos reis e dirigentes eclesiásticos da terra, e termina na ascensão de seu Autor, nas proximidades da cidade-prisão de 'Akká. Prolonga-se por trinta e nove anos de Revelação contínua, sem precedentes e sobrepujante, assinala-se pela propagação da Fé nos territórios vizinhos da Turquia, da Rússia, do Iraque, da Síria, do Egito e da Índia, e se distingue por um correspondente agravamento de hostilidade, representado pelos ataques conjuntos lançados pelo xá da Pérsia e pelo Sultão da Turquia - reconhecidos como os dois mais poderosos potentados do Oriente - bem como pela oposição das ordens sacerdotais gêmeas, do islã xiita e do sunita. O terceiro período (1892-1921) gira em volta da vibrante personalidade de Abdu'l-Bahá, misterioso em Sua essência, de uma posição sem par e de assombrosa potência no encanto bem como na força de Seu caráter. Esse período principia como anuncio do Convênio de Bahá'u'lláh, documento esse sem paralelo na história de qualquer Dispensação anterior, que atinge seu clímax na afirmação enfática - feita pelo Centro desse Convênio, na Cidade do Convênio - do caráter incomparável e das implicações de vasto alcance que esse Documento apresenta, e finaliza com Seu passamento e a inumação de Seus restos mortais no Monte Carmelo. Passará à história como um período de quase trinta anos de duração, no qual se têm entrelaçado tragédias e triunfos de tal modo que, em um tempo, eclipsam o Orbe do Convênio e, em outro, difundem sua luz sobre o continente da Europa e até a Australásia, o Extremo Oriente e o continente norte-americano. O quarto período (1921-1944) é motivado pelas forças que irradiam da Última Vontade e Testamento de Abdu'l-Bahá, aquela Carta Magna da Nova Ordem Mundial, o fruto que resultou do contato misterioso d'Aquele que é a Fonte da Lei de Deus com Aquele que é o veículo e o intérprete dessa Lei. O início desse quarto e último período do primeiro século bahá'í coincide com o nascimento da Idade de Formação da Era Bahá'í, com a fundação da Ordem Administrativa da Fé de Bahá'u'lláh - sistema esse que é a um tempo o precursor, o núcleo e o modelo de Sua Ordem Mundial. Esse período, abrangendo os primeiros vinte e três anos dessa Idade de Formação, já se distinguiu por uma erupção de renovada hostilidade, de caráter diferente, por um lado acelerando a difusão da Fé sobre uma área ainda mais extensa em cada um dos cinco continentes do globo e, por outro, resultando na emancipação de várias comunidades dentre de sua órbita e no reconhecimento de seu status independente.

Esses quatro períodos devem ser considerados não só as partes componentes, inseparáveis, de um todo estupendo, mas também etapas progressivas em um só progresso evolucionário, vasto, constante e irresistível. Pois ao contemplarmos o inteiro âmbito que a operação de uma Fé de um século de idade, tem desdobrado diante de nós, não podemos escapar à conclusão de que - não importa de qual ângulo avistamos essa cena colossal - os acontecimentos associados com esses períodos nos apresentam inequívocas evidências de um processo que lentamente amadurece, de um desenvolvimento ordenado, de consolidação interna, de expansão externa, de uma gradativa emancipação dos grilhões da ortodoxia religiosa e de uma correspondente diminuição nas incapacidades e restrições civis.

Ao examinarmos esses períodos da historia bahá'í como os constituintes de uma só entidade, observamos a sucessão de acontecimentos que proclamam com êxito o aparecimento de um Precursor, a Missão d'Aquele Cujo advento esse Precursor prometera, o estabelecimento de um Convênio gerado pela autoridade direta do próprio Prometido e, afinal, o nascimento de um Sistema que é descendente tanto do Autor do Convênio como de seu Centro designado. Notamos como o Báb, o Precursor, anunciou o início iminente de uma Ordem divinamente concebida, como Bahá'u'lláh, o Prometido, lhe formulou as leis e os preceitos, como Abdu'l-Bahá, o Centro designado, lhe delineou as características e como a presente geração de seus seguidores tem começado a erigir a estrutura de suas instituições. Observamos como, durante esses períodos, a recém-nascida luz da Fé se difunde desde seu berço, para o leste, até a Índia e o Extremo Oriente, para o oeste, dos territórios vizinhos do Iraque, da Turquia, da Rússia e do Egito, e como viaja até ao continente norte-americano, como ilumina, subseqüentemente, os maiores países da Europa, envolve com seu esplendor, mais tarde, os Antípodas, clareia as bordas do Ártico e, afinal, faz reluzirem os horizontes da América Central e do Sul. Testemunhamos um correspondente aumento na diversidade dos elementos incluídos nessa confraternização, a qual, restrita no primeiro período de sua história a um obscuro grupo de seguidores recrutados mormente das fileiras das massas na Pérsia xiita, já se expandiu até formar uma fraternidade que representa os principais sistemas religiosos do mundo, quase todas as castas e cores, desde os mais humilde trabalhador e camponês até a própria realeza. Notamos um desenvolvimento similar na extensão de sua literatura - uma literatura que, de início, se limitava ao estreito âmbito de manuscritos que os seguidores transcreviam apressadamente, muitas vezes corrompendo-os, e circulavam secretamente - manuscritos que eram tão furtivamente perscrutados, tantas vezes apagados e até, em algumas ocasiões, engolidos pelos membros aterrorizados de uma seita proscrita. Essa literatura, no transcurso de um século, tem de tal forma aumentado que possui inumeráveis edições, consistindo de dezenas de milhares de volumes impressos, em diversas escritas, em nada menos de quarenta idiomas, sendo alguns primorosamente reproduzidos, outros profusamente ilustrados, todos disseminados de um modo metódico e vigoroso, mediante comitês e Assembléias devidamente constituídas e especialmente organizadas, com âmbito mundial. Percebemos uma evolução não menos evidente no alcance de seus ensinamentos, de início deliberadamente rígidos, complexos e severos, subseqüentemente reformulados, expandidos e liberalizados sob a Dispensação posterior, mais tarde expostos, reafirmados e amplificados por um Intérprete designado e, afinal, sistematizado e universalmente aplicados tanto a indivíduos como a instituições. Podemos descobrir uma graduação não menos distinta no caráter da oposição que a Fé tem tido de enfrentar - uma oposição ateada primeiro no seio do islã xiita, aumentando em intensidade em época posterior, com o desterro de Bahá'u'lláh aos domínios do Sultão da Turquia e a conseqüente hostilidade da ainda mais poderosa hierarquia sunita e de seu Califa, líder de grande maioria dos seguidores de Maomé - uma oposição que agora, mediante o início de uma Ordem divinamente designada no Ocidente cristão e seu primeiro impacto nas instituições civis e eclesiásticas, oferece probabilidade de incluir entre seus defensores, governos estabelecidos e sistemas associados com as hierarquias sacerdotais mais antigas e mais profundamente entrincheiradas da Cristandade. Ao mesmo tempo podemos perceber, em meio à bruma de uma sempre crescente hostilidade, como certas comunidades dentro de sua órbita têm progredido, dolorosa mas persistentemente, através das etapas da obscuridade, da proscrição, da emancipação e do reconhecimento - etapas essas que, forçosamente, no decorrer dos séculos que sucedem, haverão de culminar no estabelecimento da Fé e na fundação - na plenitude de seu poder e de sua autoridade - da Comunidade Bahá'í que abarca o mundo. Podemos discernir, outrossim, um avanço não menos apreciável no estabelecimento de suas instituições, sejam como centros administrativos ou como lugares de adoração - instituições, clandestinas e subterrâneas em seus primórdios, emergindo imperceptivelmente para a plena luz do dia do reconhecimento público, legalmente protegidas, enriquecidas por piedosas doações, enobrecidas de início pela ereção do Mashriqu'l-Adhkár, de 'Ishqábád, primeira Casa Bahá'í de Adoração, e, mais recentemente, imortalizados pela construção, no centro do continente norte-americano, do Templo Máter do Ocidente, precursor de uma civilização divina que lentamente amadurece. E, finalmente, podemos até dar testemunho da notável melhora nas condições que afetam as peregrinações efetuadas por seus devotados aderentes a seus santuários consagrados em seu centro mundial - peregrinações que de início eram árduas, perigosas e, por serem tão prolongadas, muito tediosas, sendo feitas a pé freqüentemente, às vezes terminando em desapontamento, e limitadas a uma mão-cheia de perseguidos adeptos orientais. Essas condições melhores têm atraído gradualmente, em circunstâncias de segurança e conforto cada vez maiores, um sempre crescente número de novos adeptos que têm convergido dos quatro recantos do globo, destacando-se entre eles uma nobre Rainha cuja visita teve larga publicidade mas foi tristemente frustrada, vendo-se ela, segundo seu próprio testemunho escrito, compelida - no próprio limiar da cidade do desejo de seu coração - a desviar seus passos e renunciar o privilégio de tão inestimável benefício.

ÍNDICE
PRIMEIRO PERÍODO - O MINISTÉRIO DO BÁB
- 1844-1853
Capítulo I - A origem da revelação Bábí
Capítulo II - O cativeiro do Báb no Azerbaijão

Capítulo III - Tumultos em Mazindarán, Nayriz e Zanján

Capítulo IV - A execução do Báb

Capítulo V - O atentado contra a vida do xá e suas conseqüências

SEGUNDO PERÍODO - O MINISTÉRIO DE
BAHÁ'U'LLÁH - 1853-1892
Capítulo VI - O despontar da Revelação Bahá'í

Capítulo VII - O desterro de Bahá'u'lláh para o Iraque

Capítulo VIII - O desterro de Bahá'u'lláh para o Iraque (continuação)

Capítulo IX - A declaração da missão de Bahá'u'lláh e sua viagem a Constantinopla

Capítulo X - A rebelião de Mírzá Yahiá e a proclamação da missão de Bahá'u'lláh em Adrianópolis

Capítulo XI - O encarceramento de Bahá'u'lláh em 'Akká

Capítulo XII - O encarceramento de Bahá'u'lláh em 'Akká (continuação)

Capítulo XIII - Ascensão de Bahá'u'lláh
TERCEIRO PERÍODO - MINISTÉRIO DE
'ABDU'L-BAHÁ - 1892-1921
Capítulo XIV - O Convênio de Bahá'u'lláh
Capítulo XV - A rebelião de Mírzá Muhammad-'Alí

Capítulo XVI - O surgimento e o estabelecimento da Fé no Ocidente

Capítulo XVII - Renovação do Encarceramento de Abdu'l-Bahá

Capítulo XVIII - Sepultamento dos restos mortais do Báb no Monte Carmelo

Capítulo XIX - As viagens de Abdu'l-Bahá na Europa e na América

Capítulo XX - Crescimento e expansão da Fé no Oriente e Ocidente

Capítulo XXI - O falecimento de Abdu'l-Bahá
QUARTO PERÍODO - O INÍCIO DA IDADE
FORMATIVA DA FÉ BAHÁ'Í - 1921-1944

Capítulo XXII - Surge e estabelece-se a Ordem Administrativa

Capítulo XXIII - Ataques contra Instituições Bahá'ís

Capítulo XXIV - Emancipação e reconhecimento da Fé e suas Instituições

Capítulo XXV - Expansão Internacional das atividades de ensino

Capítulo XXVI - Retrospecto e Perspectivas
PRIMEIRO PERÍODO
O MINISTÉRIO DO BÁB
(1844-1853)
CAPÍTULO I
A ORIGEM DA REVELAÇÃO BÁBÍ

A data de 23 de maio de 1844 assinala o início da mais turbulenta fase da Idade Heróica da Era Bahá'í, idade em que se testemunhou o despontar da mais gloriosa época dentro do mais extenso ciclo já registrado pela história espiritual da humanidade. Um lapso de tempo não superior a nove anos marca a duração desse período que é por todos os títulos o mais empolgante, trágico e fértil em acontecimentos do primeiro século bahá'í.

Teve ele o seu marco inicial com o surgir de uma Revelação, cujo Portador a posteridade há de aclamar como o "Ponto em volta da qual giram as realidades dos Profetas e Arautos" e encerrou-se com as primeiras irradiações de uma ainda mais potente Revelação, "cujo dia todos os Profetas já anunciavam", como afirma Bahá'u'lláh, pelo qual "ansiava a alma de todo Mensageiro Divino", e através da qual "Deus pôs à prova os corações de toda a assembléia de Seus Mensageiros e Profetas". Não é, pois, de se admirar que o imortal historiador da Revelação Bahá'í tenha dedicado nada menos que a metade de sua impressionante narrativa à descrição desses eventos que se desenrolaram em tão breve espaço de tempo e tanto enriqueceram, pelo trágico e pelo heróico, os anais religiosos da humanidade. Este período de nove anos bem pode ser considerado como ímpar em todo o campo da experiência religiosa do homem pelo simples vigor dramático, pela rapidez com que se sucederam uns aos outros tão momentosos acontecimentos, pelo sacrifício que assinalou seu começo, pelas circunstâncias miraculosas que acompanharam o martírio d'Aquele que o inaugurara, pela potencialidade com que esteve tão intensamente impregnado desde o seu início e pelas forças a que posteriormente deu Sua vida. Ao acompanharmos os episódios do primeiro ato de tal sublime drama, ressalta à nossa observação a figura da sua Principal Personagem, o Báb, surgindo qual meteoro no horizonte de Shíráz, cruzando os sombrios céus da Pérsia, de sul a norte, ofuscando-se com trágica brevidade e extinguindo-se numa chama de glória. Vemos Seus satélites, uma galáxia de heróis, inflamados no amor Divino, alçados no mesmo horizonte, irradiarem aquela luz incandescente, consumirem-se a si próprios com a mesma rapidez e contribuírem, por seu turno, com mais um impulso para o sempre crescente desenvolvimento da nova Fé Divina.

Aquele que comunicou o impulso original a tão incalculável Movimento não foi outro, senão o prometido Qá'im (Aquele que se levanta), o Sáhibu'z-Zamán (o Senhor da Era), que assumiu o direito exclusivo de anular toda a dispensação do Alcorão, que se denominou "o Ponto primaz do qual se geraram todas as coisas criadas... o Semblante de Deus, cujo esplendor jamais se poderá obscurecer, a Luz de Deus, cuja fulgência não se esvaecerá jamais. O povo em cujo meio Ele apareceu era a raça mais decadente do mundo civilizado, extremamente ignorante, selvagem, cruel, submersa em preconceito, servil em sua submissão a uma hierarquia quase deificada, relembrando a maior abjeção, os israelitas do Egito nos dias de Moisés, em seu fanatismo, os judeus nos dias de Jesus e, em sua perversidade, os idolatras da Arábia nos dias de Maomé. O arqui-inimigo que Lhe repudiou a pretensão, desafiou Sua autoridade e perseguiu Sua Causa, conseguindo quase extinguir a Luz, e que finalmente se desintegrou sob o impacto de Sua Revelação, foi o sacerdócio xiita. Os membros dessa casta - ferozmente fanáticos, indizivelmente corruptos, gozando ilimitada ascendência sobre as massas, guardando com ciúmes sua posição, e irreconciliavelmente opostos a todas as idéias liberais - já há mil anos invocavam o nome de Imame oculto, com os peitos ardendo com a expectativa de Seu advento, os púlpitos ressoando com louvores de Seu domínio mundial, os lábios ainda devota e perpetuamente murmurando preces para que se apressasse Sua vinda. Aqueles que serviam de instrumentos, prontos para prostituírem seus altos postos a fim de que se cumprissem os desígnios do inimigo, não eram outros, senão os soberanos da dinastia de Qájár, primeiro, o liberal, doentio, vacilante Muhammad Sháh, que no último momento cancelou a iminente visita do Báb à capital e, segundo, o jovem, inexperiente Nasiri'd-Din-Sháh, que prontamente consentiu em sentenciar à morte seu Cativo. Os mais perversos homens, os quais se aliaram aos instigadores primários de tão hedionda conspiração, foram os dois grão-vizires, Hájí Mírzá Áqásí, o idolatrado preceptor de Muhammad Shá, um intrigante vulgar, de coração falso e mente instável, e o Amír-Nízám, Mírzá Tágí Khán, homem arbitrário, cruel e atrevido. O primeiro destes exilou o Báb aos redutos das montanhas de Azerbaijão, e o último decretou Sua morte em Tabríz. Seu cúmplice nesse e em outros crimes abomináveis foi um governo apoiado por um bando de assim chamados príncipes, vadios, parasitas, e de governadores corruptos, incompetentes, que tenazmente seguravam seus privilégios adquiridos por meio desonestos, e que se submetiam, em absoluto, servilmente a uma ordem clerical notória por sua degradação. Os heróis cujas façanhas reluzem no registro desse feroz conflito espiritual, envolvendo a um tempo povo, clero, monarca e governo, foram os discípulos escolhidos do Báb, as Letras do Vivente e seus companheiros, os rompedores d'alva do Novo Dia, que enfrentaram tanta intriga, tanta ignorância, tanta depravação e crueldade, tanta superstição e covardia, com um espírito elevado, indomável, que inspirava reverência com um conhecimento admiravelmente profundo, uma eloqüência de força invencível, uma fervorosa piedade jamais excelsa, uma coragem leonina em sua tenacidade, com uma abnegação santa em sua pureza, uma resolução de firmeza granítica, uma visão de estupendo alcance, uma veneração pelo Profeta e por Seus Imames que era desconcertante para os adversários, um poder de persuasão que alarmava os antagonistas, um padrão de fé e um código de conduta que desafiavam e revolucionavam as vidas dos conterrâneos.

A cena de abertura do primeiro ato deste grande drama desenrolou-se no quarto superior da modesta residência do filho de um capelista de Shíráz, num obscuro rincão daquela cidade. Era a derradeira hora do dia 22 de maio de 1844. Os figurantes foram o Báb - um siyyid de vinte e cinco anos, de pura e sagrada linhagem - e o jovem Mullá Husayn, o primeiro a crer Nele. O encontro entre os dois, nos momentos que antecipam essa entrevista, pareceu ser meramente ocasional.

Prolongou-se a entrevista até a hora do alvorecer. O Hospedeiro permaneceu encerrado com Seu convidado, enquanto que, lá fora, a cidade adormecida nem de longe sonharia com a importância das palavras que entre si trocavam. Nenhum registro nos foi legado dessa extraordinária noite, salvo o fragmentário mas altamente significativo relato ouvido dos lábios de Mullá Husayn.

"Sentei-me, encantado pela fluência do Seu verbo, esquecido do tempo e daqueles que me esperavam", ele próprio atestou, depois de descrever a natureza das perguntas que fizera ao Seu Hospedeiro e as conclusivas respostas que Dele recebeu, respostas estas que baniriam as sombra de qualquer dúvida que pairasse sobre a justeza de Sua pretensão ao proclamar-se o prometido do Qá'im. "De repente, a chamada do muezin, convidando os fiéis à prece matinal, despertou-me do estado de êxtase em que eu parecia estar mergulhado. Todas as delicias, todas as inefáveis glórias que o Todo-Poderoso narrou no Seu Livro como as inestimáveis riquezas dos habitantes do Paraíso - de tudo isso tive como que uma sensação nessa noite. Penso ter estado num lugar do qual se poderia realmente dizer: "Aqui nenhuma faina nos preocupará, aqui nenhuma fadiga nos molestará; nenhuma palavra vã será aqui ouvida, nenhuma mentira, mas apenas o brado de Paz! Paz!; o grito aqui levantado será: "Glória a Ti, ó Deus!" e a saudação aqui feita, "Paz!" sendo este o término de seus clamores: "Louvado seja Deus, Senhor de Todas as criaturas!" O sono afastou-se de mim naquela noite. Sentia-me dominado pela música daquela voz, que era ora mais viva ora mais branda, à medida que Ele recitava; ora tornando-se mais grave, ao declamar versos de Qayyúmu'l-Asmá, ou, ainda, adquirindo etéreas e sutis harmonias à proporção que pronunciava as orações que estava revelando. Ao termo de cada invocação, Ele repetia este versículo: "Muito aquém da glória do teu Senhor, o Todo-Glorioso, esteja tudo o que d'Ele dizem Suas criaturas! E a paz esteja sobre Seus Mensageiros! E louvado seja Deus, o Senhor de todos os seres!"

"Esta Revelação" - atestou ainda Mullá Husayn - "que tão rápida e impetuosamente me atingiu, baixou como um raio que, por certo tempo, parecia haver-me anulado as faculdades. Cegou-me o seu deslumbrante esplendor e abateu-me sua esmagadora força. Excitamento, alegria, reverência e maravilha agitaram as profundezas de minha alma. Predominava em meio a essas emoções uma sensação de contentamento e força que pareciam haver-me transfigurado. Quão débil e impotente, quão abatido e tímido eu me sentia anteriormente! Não me era dado, então, nem escrever nem andar, tão trêmulas estavam minhas mãos e meus pés. Agora, no entanto, o conhecimento de Sua Revelação galvanizara meu ser. Senti-me possuído de tal coragem e vigor que, se o mundo, todos os seus povos e potentados estivessem a marchar contra mim, eu teria, sozinho e impávido, resistido à sua investida. O universo se me afigurou como uma simples mancheia de pó. Parecia-me ser minha própria a voz de Gabriel personificado, que bradava a toda a humanidade: "Despertai, pois, eis que a luz matutina há raiou! De pé, porque Sua Causa já foi anunciada! Os portais de Sua graça estão abertos de par em par; entrai por eles, ó povos da terra! Porque é chegado Aquele que é o vosso Prometido!"

Uma luz mais significativa, entretanto, se irradia sobre esse episódio, assinalando a Declaração da Missão do Báb, através da leitura daquele, "primeiro, o maior e o mais poderoso" de todos os livros da Revelação Bábí, o célebre comentário sobre a Sura de José, o primeiro capítulo do qual - asseguram-nos - procedeu totalmente, no decorrer daquela noite das noites, da pena de seu Revelador Divino. A descrição desse episódio por Mullá Husayn, bem como as páginas nas introdutórias desse Livro, atestam a magnitude e a força daquela momentosa Declaração. A pretensão de ser nada menos que o porta-voz do próprio Deus, prometido pelos Profetas de passadas eras; a asserção de ser Ele, ao mesmo tempo, o Arauto de um Ser imensuravelmente maior que Ele próprio; o chamado que Ele bradou aos reis e príncipes da terra; as ominosas advertências dirigidas ao primeiro magistrado do reino, Muhammad Sháh; o conselho, dado a Hájí Mírzá Áqásí, de que temesse a Deus, e a ordem peremptória de que abdicasse a autoridade como grão vizir do xá e se submetesse Àquele que é o "Herdeiro da terra e de tudo o que nela está"; o desafio emitido aos governantes do mundo, proclamando a auto-suficiência de Sua Causa, denunciando a vaidade do poder efêmero por eles possuído, chamando-os - "cada um e todos - a deixarem de lado o domínio que lhes é próprio", e a transmitirem Sua Mensagem às "terras tanto do Oriente como do Ocidente" - constituem estas as características dominantes daquele contato preliminar que assinalou o nascimento e determinou a data do início da mais gloriosa era na vida espiritual da humanidade.

Com essa Declaração histórica, rompeu a aurora de uma Era que assinala a consumação de todas as épocas. O primeiro fluxo de uma Revelação grandiosa havia sido transmitido àquele de quem testemunha o Kitáb-i-Íqán: "Não fosse ele, Deus não se teria sentado na cátedra de Sua misericórdia, nem se teria elevado ao trono da glória eterna". Quarenta dias, porém, se passaram, até que fosse iniciada a escolha das outras dezessete Letras dos Viventes. Gradativa e espontaneamente, alguns adormecidos, outros acordados, alguns pelo jejum e pela prece, outros através de sonhos e visões - descobriram o Objeto de sua busca e se congregaram sob a bandeira da Fé recém-nascida. A última a ser inscrita na Epístola da Preservação - embora fosse a primeira em categoria - dentre essas assim chamadas Letras dos Viventes, foi o versado Quddús, de vinte e dois anos de idade, descendente direto do Imame Hasan e o discípulo dileto de Siyyid Kázim. Precedeu-o imediatamente uma mulher - a única do seu sexo que fora investida com o grau de apóstolo na nova Revelação, mas que, ao contrário de seus companheiros, nunca estivera na presença do Báb. Poetisa, com menos de trinta anos de idade, de nobre linhagem, de fascinante beleza, de cativante eloqüência, de um espírito indômito, heterodoxa em suas idéias, audaciosa em seus atos, foi imortalizada como Táhirih (a Pura) pela "Língua da Glória", o cognominada Qurratu'l-Ayn (Consolo dos Olhos), por Siyyid Kázim, seu mestre.

Em conseqüência de lhe haver aparecido o Báb num sonho, recebeu Táhirih as primeiras noções de uma Causa que estava fadada a eleva-la ao pináculo da fama, e para a qual ela - em razão do seu inaudito heroísmo - contribuiria de forma brilhante.

Estas "primeiras Letras procedentes do Ponto Primitivo", esta "companhia de anjos enfileirados perante Deus no Dia de Sua Vinda", estes "Relicários do Seu Mistério", estas "Fontes que brotavam do Manancial da Sua Revelação", estes primeiros companheiros que, no dizer do Bayán persa, "gozam da maior aproximação de Deus", estes "Luminares que vêm, através dos tempos, inclinando-se, e continuarão, para todo o sempre, a inclinar-se perante o Trono Celestial" e, finalmente, estes "anciãos" mencionados no Livro da Revelação como "assentados diante do Senhor, nos seus lugares", "vestidos de alva roupagem" e trazendo na cabeça "coroas de ouro" - estes foram, antes de sua partida, conclamados à presença do Báb, que a eles se dirigiu em pequenos discursos, confiando a cada qual uma tarefa determinada, indicando a alguns deles as suas próprias províncias de origem para seu campo de ação.

Concitou-os a observar a máxima precaução e moderação em sua conduta, revelou-lhes o alto sentido de sua investidura e frisou a magnitude de suas responsabilidades; citou as palavras de Jesus a Seus discípulos e acentuou a extraordinária grandeza do Novo Dia. Preveniu-os de que não retrocedessem, para não virem a perder o Reino de Deus, e garantiu-lhes que, se cumprissem a ordem de Deus, Este os tornaria Seus Herdeiros e mentores espirituais entre os homens. Ele fez alusão indireta ao segredo e anunciou a aproximação de um Dia ainda mais importante, e os convidou a se prepararem para seu advento. Rememorou o triunfo de Abraão sobre Nimrod, de Moisés sobre o Faraó, de Jesus sobre os judeus, e de Maomé sobre as tribos da Arábia; e sustentou a ascendência ulterior, inexorável, de Sua própria Revelação. Aos cuidados de Mullá Husayn confiou uma missão mais específica em caráter e mais significativa. Afirmou que Seu Convênio com ele estava assim estabelecido, preveniu-o de que fosse indulgente com os teólogos com que viesse a se encontrar, ordenou-lhe seguir para Teerã, e aludiu, nas mais calorosas palavras, ao ainda irrevelado Mistério encerrado como uma relíquia naquela cidade - um Mistério que, afirma Ele, transcenderia a luz irradiada quer por Hijáz ou Shíráz.

Galvanizados em ação pelo mandato que lhes foi conferido, entregues à sua perigosa e revolucionária missão, estes luminares de segunda grandeza que, juntamente com o Báb, constituem a Primeira Vahíd (Unidade) da Revelação do Bayán, infiltraram-se por toda a parte, através das províncias de seus rincões natais, onde, com sublime heroísmo, resistiram ao selvagem e combinado ataque das forças dispostas contra eles, e imortalizaram sua Fé por seus próprios feitos, assistidos por seus correligionários, provocando, em conseqüência disso, um tumulto que convulsionou seu país e irradiou seus ecos, atingindo lugares tão distantes como as capitais da Europa Ocidental.

Foi, entretanto, só depois de haver o Báb recebido de Seu fidedigno e bem amado tenente Mullá Husayn, a carta ansiosamente esperada - a qual Lhe comunicava as jubilosas novas de sua entrevista com Bahá'u'lláh - que Ele decidiu empreender Sua longa e árdua peregrinação aos Túmulos de Seus ancestrais. No mês de Sha'bán, do ano de 1260 A.H. (setembro de 1844), Aquele que, tanto por parte de pai como de mãe, era da estirpe da ilustre Fatimih, e que era descendente do Imame Hussein - o mais eminente dentre os legítimos sucessores do Profeta do Islã - procedeu, em cumprimento das tradições islâmicas, a visita a Kaaba. Ele embarcou de Bushihr no dia 19 de Ramadán (outubro de 1844), de veleiro, acompanhado por Quddús, a quem Ele estava preparado assiduamente para assumir seu futuro posto. Desembarcando em Jaddih, após uma viagem tempestuosa de mais de um mês de duração, Ele vestiu o traje de peregrino, montou um camelo e partiu em direção à Meca, onde chegou no dia 1 de Dhi'l-Hajjih (12 de dezembro). Quddús, segurando nas mãos as rédeas, acompanhou seu Mestre a pé até aquele sagrado Sepulcro. No dia de 'Arafih, o Profeta-peregrino de Shíráz - relata Seu cronista - devotou todo o seu tempo à oração. No dia de Nal'ar, seguiu a Muná, onde de acordo com o costume, sacrificou dezenove carneiros - nove em Seu próprio nome, sete em nome de Quddús e três em nome do servo etíope que Lhe atendia. Depois, na companhia dos outros peregrinos, circundou o Kaaba e cumpriu os rituais prescritos para a peregrinação.

Sua visita a Hijáz foi assinalada por dois episódios de especial importância. O primeiro foi a declaração de Sua missão e Seu franco desafio ao arrogante Mírzá Muhit-i-Kirmání, um dos mais ilustres expoentes da escola Shaykí, havendo ele algumas vezes chegado a ponto de asseverar sua independência da direção dessa escola, que fora assumida, após a morte de Siyyid Kázim, por Hájí Muhammad Karím Khán, temível inimigo da Fé Bahá'í. O segundo episódio foi o convite em forma de uma Epístola, que foi levado por Quddús ao Xerife de Meca, e na qual se instava o guardião da Casa de Deus a abraçar a verdade da nova Revelação. Absorto, porém, nas suas próprias atividades, o Xerife não respondeu. Sete anos depois, quando, durante uma conversação com um certo Hájí Níyáz-Baghdádí, esse mesmo Xerife foi informado das circunstâncias que acompanhavam a missão e o martírio do Profeta de Shíráz, ele escutou atentamente a descrição daqueles acontecimentos e expressou sua indignação por causa do trágico destino que Lhe sobreviera.

A visita do Báb a Medina assinalou a conclusão de Sua peregrinação. Alcançando Jaddih, Ele regressou a Búshihr, onde um de Seus primeiros atos foi despedir-se, pela última vez, de Seu companheiro de viagem e discípulo, e lhe assegurar que ele haveria de encontrar o Bem-Amado de seus corações. Ele lhe anunciou, além disso, que ganharia a coroa de mártir e que Ele Próprio, subseqüentemente, haveria de sofrer o mesmo destino nas mãos de seu inimigo comum.

O regresso do Báb à Sua terra natal (Safar 1261) (fevereiro-março de 1845) foi sinal para uma comoção que abalou o país inteiro. O fogo que a declaração de Sua missão acendera estava aumentando até flamejar, com as atividades de Seus escolhidos discípulos, que largamente se dispersavam. Dentro de um período de menos de dois anos, já havia inflamado as paixões de amigos e inimigos igualmente. Já irrompera a conflagração mesmo antes de regressar à Sua cidade natal Aquele que a havia gerado. As implicações de uma Revelação lançada tão dramaticamente em meio a uma raça a tal ponto degenerada, de temperamento tão inflamável, não poderia ter tido outra conseqüência, realmente, senão a de excitar nos peitos dos homens as mais violentas paixões de medo, de ódio, de ira e de inveja. Uma Fé cujo Fundador não se contentava com a pretensão de ser a Porta do Imame Oculto, que assumiu uma posição até superior àquela do Sahibu'z-Zamán, que se considerava o precursor de Alguém incomparavelmente maior que Ele Próprio, que mandara peremptoriamente não só os súditos do xá, mas também o próprio monarca e até os reis e príncipes da terra, abandonarem tudo o que tinham e O seguirem, que se dizia o herdeiro da terra e tudo o que nela se acha - uma Fé cujas doutrinas religiosas, cujas normas éticas, cujos princípios sociais e leis religiosas desafiavam a inteira estrutura da sociedade na qual nascera, muito breve alistou, com espantosa unanimidade, as massas do povo sob o mando de seus sacerdotes e seu supremo governante, com seus ministros e seu governo, fundindo-as em uma oposição que jurava destruir, desde a raiz, o movimento iniciado que jurava destruir, dede a raiz, o movimento iniciado por Alguém que eles consideravam um ímpio e presunçoso impostor.

Com a volta do Báb a Shíráz, pode-se dizer, ocorreu o choque inicial de forças irreconciliáveis. Já o enérgico e destemido Mullá'Aliy-i-Bastámí, uma das Letras dos Viventes, "o primeiro a deixar a Casa de Deus (Shíráz) e o primeiro a sofrer por amor a Ele" - quem, na presença de um dos principais expoentes do islã xiita, o Shaykh Muhammad Hasan, de grande renome, havia afirmado audazmente que jorraram da pena de seu recém-descoberto Mestre, em um período de quarenta e oito horas, versículos tão numerosos como os do Alcorão, os quais seu Autor levou vinte e três anos para revelar - fora excomungado, acorrentado, sujeitado a toda ignomínia, à prisão e, provavelmente, à morte. Mullá Sadiq-i-Khurásáni, impelido pela exortação do Báb, no Khasá'il-i-Sabih, a alterar a sacrossanta fórmula do adhán, soou-a em sua forma nova ante uma congregação escandalizada em Shíráz, e foi instantaneamente preso; ultrajaram-no, tiraram-lhe as vestes, acoitaram-no com mil chicotadas. O perverso Husayn Khán, o Nizamu'd-Dawlih, governador de Fars, que havia lido o desafio divulgado no Qayyúmu'l-Asmá, depois de mandar punir sumária e publicamente Mullá Sadiq, juntamente com Quddús e um outro crente, deu ordens para lhes queimar as barbas, furar as narinas e por elas passar cabrestos. Após haverem sido conduzidos pelas ruas nessa condição ignominiosa, foram eles então expulsos da cidade.

A esta altura estava o povo de Shíráz num frenesi de excitação. Violenta controvérsia, enfurecendo-se nos masjids, madrisihs e bazares, e em outros lugares públicos. A paz e a segurança periclitavam gravemente. Os mullás, receosos, invejosos, completamente irados, começaram a perceber a seriedade de sua posição. O governador, extremamente alarmado, mandou prender o Báb. Ele foi conduzido a Shíráz sob escolta e, na presença de Hussein Khán, severamente repreendido; com tanta violência Lhe bateram o rosto que Seu turbante caiu ao chão. Graças à intervenção do Imame Jum'ih, Lhe foi concedida liberdade condicional, sendo Ele entregue ao cuidado de Seu tio materno, Hájí Mírzá Siyyid'Alí. Seguiu-se um breve intervalo de calma, permitindo ao Jovem Cativo celebrar o Naw-Rúz daquele ano e do próximo em uma atmosfera de relativa tranqüilidade, na companhia de Sua mãe, Sua esposa e Seu tio. Entrementes, a febre que se havia apoderado de Seus seguidores estava se comunicando aos membros do clero e das classes mercantis, e já invadindo os mais altos círculos da sociedade. De fato, uma onda de apaixonada inquirição havia varrido o país inteiro, e inúmeros congregações escutavam, maravilhadas, os testemunhos relatados eloqüente e destemidamente, pelos mensageiros itinerantes do Báb.

Tais proporções, havia a comoção assumido, que o xá, não mais podendo deixar de levar em conta a situação, delegou o fidedigno Siyyid Yahyáy-i-Dárábí, apelidado de Vahíd, um dos mais eruditos e eloqüentes de seus súditos e de maior prestígio - um homem que havia memorizado nada menos que trinta mil tradições - para investigar e lhe informar da verdadeira situação. Dotado de largueza de visão, de viva imaginação e de uma natureza zelosa, e tendo íntima associação com a arte, ele, no decorrer de três entrevistas, foi completamente conquistado pelos argumentos e pela personalidade do Báb. Sua primeira entrevista focalizava os ensinamentos metafísicos do Islã, as mais obscuras passagens do Alcorão, e as tradições e profecias dos Imames. No decorrer da segunda entrevista, Vahíd ficou espantado ao verificar que as perguntas que ele tencionava submeter para elucidação se haviam apagado de sua tão retentiva memória e, no entanto, completamente maravilhado, descobriu que o Báb estava respondendo as mesmas perguntas que ele havia esquecido. Durante a entrevista, as circunstâncias que acompanhavam a revelação do comentário do Báb sobre a sura de Katwthar, consistindo de nada menos de dois mil versículos, tão profundamente emocionaram o delegado do xá, que ele, contentando-se com um simples relatório por escrito ao Mordomo da Corte, se levantou de imediato para dedicar sua vida inteira e todos os seus recursos ao serviço de uma Fé que haveria de lhe recompensar com a coroa do martírio durante o tumulto de Nayriz. Aquele que resolvera firmemente refutar os argumentos de um obscuro siyyid de Shíráz, induzi-lo a abandonar suas idéias e conduzi-lo a Teerã como prova da ascendência que sobre ele conseguira - foi impelido a sentir-se, como ele mesmo mais tarde confessou, tão "humilde como o pó sob Seus pés". Até Hussein Khán, que fora o hospedeiro de Vahíd durante sua estada em Shíráz, foi constrangido a escrever ao xá e expressar a convicção de que o ilustre delegado de Sua Majestade se tornara bábí.

Outro famoso defensor da Causa do Báb, de um zelo ainda mais intenso do que o de Vahíd e de posição quase igualmente alta, foi Mullá Muhammad-'Aliy-i-Zánjáni apelidado de Hujját. Um Akhbárí, veemente em controvérsia, de temperamento audaz e independente, que não tolerava restrição - um homem que ousara condenar toda a hierarquia eclesiástica, desde o Abváb-i-Arba'ih até o mais humilde Mullá - ele mais de uma vez, por meio de seus talentos superiores e sua fervente eloqüência, confundira publicamente seus adversários xiitas ortodoxos. Uma pessoa tal como esta, não poderia se manter indiferente para com uma Causa que estava produzindo tão grave divisão entre seus conterrâneos. O discípulo mandado por ele a Shíráz para investigar o assunto foi de imediato cativado pelo mágico encanto do Báb. A leitura de apenas uma página do Qayyumu'l-Asmá', trazido a Hujját por esse mensageiro, foi suficiente para efetivar dentro dele tal transformação que, perante a assembléia dos ulemás, de sua cidade natal, ele declarou que, fosse o Autor dessa obra pronunciar ser o dia, noite, e o sol, uma sombra, ele sem hesitação lhe sustentaria o veredicto.

Ainda outro recruta ao sempre crescente exército da nova Fé, foi o eminente literato, Mírzá Ahmad-i-Azghandí, o mais erudito, o mais sábio, aquele que mais sobressaía entre os ulemás de Khurásán. Na expectativa do advento do prometido Qá'ím, ele compilara mais de doze mil tradições e profecias referentes ao tempo e caráter da Revelação esperada e as circulara entre os co-discípulos, estimulando-os a cita-las extensamente a todas as congregações e em todas as reuniões.

Enquanto nas províncias a situação se deteriorava constantemente, a amarga hostilidade do povo de Shíráz rapidamente se aproximava de um clímax. Hussein Khán, vindicativo, implacável, exasperado pelas notícias trazidas por seus vigilantes agentes - de que o poder e a fama de seu Cativo cresciam de hora em hora, decidiu tomar providências imediatas. Diz-se até que seu cúmplice, Hají Mírzá Áqásí, lhe havia dado ordens para matar secretamente aquele que queria desintegrar o estado e lhe demolir a religião estabelecida. Por ordem do governador, o chefe de polícia, Abdu'l-Hamid Khán, na calada da noite, escalou o muro e entrou na casa onde o Báb estava confinado, prendeu-O e confiscou todos os Seus livros e documentos. Nessa mesma noite, entretanto, uma ocorrência, dramaticamente repentina acontece, designada providencialmente, sem dúvida, para confundir as tramas dos conspiradores e permitir que o Objeto de seu ódio prolongasse Seu ministério e consumasse Sua Revelação. Um surto de cólera, devastador em sua virulência, já havia, desde meia noite, abatido mais de cem pessoas. O pavor da praga entrara nos corações de todos e os habitantes da cidade aflita fugiam em confusão, em meio aos gritos de dor e tristeza. Três dos empregados domésticos do governador já haviam morrido, e membros de sua família estavam prostrados, gravemente doentes. Ele, em seu desespero, deixando os mortos sem sepultura, fugira a um jardim nos arredores da cidade. Abdu'l-Hamíd Khán, em face desse inesperado acontecimento, decidiu conduzir o Báb à sua própria residência. Lá chegando, ficou apavorado ao saber que o filho fora atacado da praga e já agonizava. Em desespero, jogou-se aos pés do Báb, implorando-Lhe perdão, rogando-Lhe a que não imputasse ao filho os pecados do pai e Lhe dando a palavra que se demitiria de seu posto, para nunca mais aceitar semelhante encargo. Vendo a resposta à sua súplica, dirigiu ele ao governador um apelo, pedindo-lhe que libertasse seu Cativo e assim desviasse de seu curso fatal essa temível visitação. Hussein Khán acedeu ao pedido, libertando seu Prisioneiro, mas impondo como condição, Sua saída da cidade.

Miraculosamente preservado por uma Providência onipotente e vigilante, o Báb viajou a Isfáhan (setembro de 1846), acompanhado por Siyyid Kazim-i-Zanjáni. Seguiu-se mais um intervalo de calma - um breve período de comparativa tranqüilidade durante o qual os processos Divinos que se haviam posto em movimento se aceleraram ainda mais, precipitando uma série de ocorrências que leva ao encerramento do Báb nas fortalezas de Máh-Kú e Chihríq e culmina com Seu martírio na praça do quartel de Tabríz. Bem ciente das provações que Lhe impendiam, que O haveriam de afligir, o Báb, antes de Sua separação final de Sua família, legara à Sua mãe e à Sua esposa todas as Suas possessões. À esposa havia Ele confiado o segredo daquilo destinado a Lhe sobrevir, e para ela revelara uma oração lhe resolveria as perplexidades e aliviaria as tristezas. Durante os primeiros quarenta dias de sua estada em Isfáhan Ele foi hóspede de Mírzá Siyyid Muhammad, o Sultamu'l-'Ulamá, o Imame Jum'ih, um dos principais dignitários eclesiásticos do reino, de acordo com as instruções do governador da cidade, Manuchihr Khán, o Mu 'Tamidu'd-Dawlih, que havia recebido do Báb uma carta na qual pedia que Lhe designasse o lugar onde Ele deveria hospedar-se. O Báb foi recebido com muita cerimônia, e a tal ponto encantou o povo dessa cidade que, em uma ocasião, após Seu regresso do banho público, uma multidão clamou avidamente pela água usada para Suas abluções. Tal era a mágica de Sua personalidade, que Seu hospedeiro, esquecendo a dignidade de sua alta posição, costumava servi-Lo pessoalmente. Foi a pedido desse mesmo prelado que, uma noite, após a ceia, o Báb revelou Seu bem conhecido comentário sobre a Sura de Va'l-'Asr. Escrevendo com assombrosa rapidez, dentro de poucas horas, havia Ele devotado à exposição do significado de apenas a primeira letra dessa sura - à qual Shaykh Ahmad-i-Ahsa'í dera especial importância e à qual Bahá'u'lláh se refere no Kitáb-i-Aqdas - versículos cujo número igualava ao da terça parte do Alcorão - façanha esta que evocou tão espontânea manifestação de reverente espanto por parte daqueles que testemunharam isso, que todos se levantaram e Lhe beijaram a orla do manto.

Aumentava, entrementes, visivelmente, o tumultuoso entusiasmo do povo de Isfáhan. Multidões de pessoas - algumas impelidas por curiosidades, outras desejando ardentemente descobrir a verdade, e ainda outras ansiosas de ser curadas de suas enfermidades - de toda parte da cidade se aglomeravam na casa do Imame Jum'ih. O sábio e judicioso Manúchihr Khán não pôde resistir à tentação de visitar um Personagem tão estranho, tão fascinante. Diante de uma ilustre assembléia dos sacerdotes de maior destaque, ele, georgiano de origem e cristão de nascimento, pediu ao Báb que expusesse e demonstrasse a verdade da específica missão de Maomé. A esse pedido, do qual aqueles presentes se haviam sentido forçados a declinar, o Báb prontamente acedeu. Em menos de duas horas, e no espaço de cinqüenta páginas, Ele não só revelara uma detalhada, vigorosa e original dissertação sobre esse nobre tema, mas também o ligara tanto com a vinda do Qá'im como com a volta do Imame Hussein - exposição esta que levou Manúchihr Khán a declarar, perante essa reunião, sua fé no Profeta do Islã, bem como seu reconhecimento dos dons sobrenaturais de que o Autor de tão convincente exposição estava dotado.

Essas evidências do crescente predomínio exercido por um Jovem iletrado, sobre o governador e o povo de uma cidade que com justiça era considerada uma das cidadelas do islã xiita, alarmaram as autoridades eclesiásticas. Abstendo-se de qualquer ato de hostilidade aberta, o qual - bem eles sabiam - haveria de lhes frustrar o propósito, eles, instigando a circulação dos mais extravagantes boatos, tentaram induzir o Grão-Vizir do xá a salvar uma situação que a cada hora se tornava mais aguda e mais ameaçadora. A popularidade da qual o Báb fruía, Seu prestígio pessoal e as honras que Lhe eram outorgadas pelos conterrâneos, haviam agora atingido o auge. As sombras de um destino agourento juntavam-se rapidamente a Seu redor. Daí em diante se acelerava uma série de tragédias que haveriam de culminar em Sua própria morte e na aparente extinção da influência de Sua Fé.

O arrogante e astucioso Hájí Mírzá Áqásí, receando que o predomínio do Báb envolvesse seu soberano e assim pusesse fim a seu próprio prestígio, ficou ainda mais alarmado. Incitado pela suspeita de que o Báb gozasse da simpatia secreta do Um'tamid, e bem ciente da confiança nele depositada pelo xá, ele severamente repreendeu o Imame Jum'ih por negligência de seu sagrado dever. Ao mesmo tempo, em várias cartas, ele prodigalizava seus favores aos ulemás de isfáhan, a quem está então não dera nenhuma atenção. Dos púlpitos dessa cidade, o clero, incitado, começou a vituperar e caluniar o Autor daquilo que, a seu ver, constituía uma detestável e muito perigosa heresia. O próprio xá foi induzido a chamar o Báb à capital; Manuchihr Khán, incumbido de providenciar Sua partida, decidiu transferir a residência do Báb temporariamente para sua própria casa. Entretanto os mujtahids e ulemás, desconcertados ao verem os sinais de uma influência tão extensa, convocaram um grupo, o qual imitiu um documento injurioso, assinado e selado pelos dirigentes eclesiásticos da cidade, denunciando o Báb como herege e condenando-o à morte. Até o Imame Jum'ih foi constrangido a acrescentar seu testemunho escrito, de que o Acusado era destituído de razão e de juízo. O Mu'tamid, em seu grande dilema, e a fim de apaziguar o crescente tumulto, concebeu um plano para fazer que a populaça, cada vez mais irrequieta, acreditasse haver o Báb partido para Teerã, enquanto ele conseguiu lhe arranjar um lugar de segurança, no 'Imárat-i-Khushíd, a residência particular do governador em Isfahan, por um breve período de quatro messes. Foi naqueles dias que Seu hospedeiro expressou o desejo de consagrar todas as suas possessões, avaliadas por seus contemporâneos em nada menos de quarenta milhões de francos, à promoção dos interesses da nova Fé; declarou sua intenção de converter Muhammad Shah, de induzi-lo a livrar-se de seu ministro ignominioso e dissoluto e de obter o consentimento real para o casamento de uma de suas irmãs com o Báb. A morte repentina do Mu'tamid, porém, predita pelo próprio Báb, acelerou a marcha da crise que se aproximava. O governador em exercício, o cruel e rapace Gurgín Khán, induziu o xá a emitir uma segunda notificação, ordenando que o Jovem Cativo fosse mandado, disfarçado, a Teerã, com uma escolta montada lhe acompanhado. A esse mandato do soberano, que veio por escrito, o perverso Gurgín Khán - que já havia descoberto e destruído o testamento de seu tio, o Mu'tamid, e se apoderado de seus bens - prontamente acedeu. A uma distância de menos que trinta milhas da capital, entretanto, na fortaleza de Kinár-Gird, um mensageiro entregou a Muhammad Big, chefe da escolta, uma ordem escrita de Hájí Mírzá Áqásí, segundo a qual ele deveria seguir até Kulayn e lá aguardar mais instruções. Logo depois veio uma carta que o próprio xá havia dirigido ao Báb, com data de Rabí'u'th-thání 1263 (19 de março a 17 de abril de 1847), a qual, embora redigida em termos cortezes, indicou claramente a que ponto chegara a venenosa influência que o grão-vizir exercia sobre seu soberano. Os planos tão acariciados por Manúchihr Khán foram agora completamente desfeitos. A fortaleza de Mah-Kú - situada no mais remoto canto de Azerbaijão - não muito distante da aldeia do mesmo nome, cujos habitantes desde longo tempo gozavam do favor do Grão-Vizir - foi o lugar que Muhammad Sháh, seguindo o conselho de seu ministro pérfido, designara para o encarceramento do Báb. Foi permitido que apenas um companheiro e um assistente dentre Seus seguidores. O acompanhasse nesse sombrio e inóspito recinto. Todo-poderoso e astuto, esse ministro, sob o pretexto de ser necessário que seu mestre concentrasse sua atenção imediata em uma recente rebelião em Khurásán e uma revolta em Kirmán, conseguira frustrar um plano que, se tivesse sido realizado, teria tido as mais serias repercussões em seus interesses, bem como nos destinos imediatos de seu governo, seu rei e se povo.

CAPÍTULO II
O CATIVEIRO DO BÁB NO AZERBAIJÃO

O período do exílio do Báb nas montanhas do Azerbaijão, que durou nada menos de três anos, constitui a mais triste, a mais dramática e, de certo modo, a mais fecunda fase do Seu ministério de seis anos. Abrange Sua ininterrupta detenção de nove meses na fortaleza de Máh-Kú e subseqüente encarceramento na fortaleza de Chihríq, que foi interrompida apenas por uma breve mas memorável visita a Tabríz.

Por toda a sua duração, esse período foi sombreado pela implacável e sempre crescente hostilidade dos dois mais poderosos adversários da Fé, o Grão-Vizir de Muhammad Sháh, Hájí Mírzá Áqásí e o Amir-Nizán, o Grão-Vizir de Násiri'd-Din Sháh. Corresponde à fase mais critica da missão de Bahá'u'lláh, durante Seu exílio a Adrianópolis, quando se confrontou com o despótico Sultão 'Abdu'l-Azíz e seus ministros, 'Álí Páshá e Fu'ád Páshá, e também paraleliza com os dias mais tenebrosos do ministério de Abdu'l-Bahá na Terra Santa, sob o domínio opressivo do tirânico Abdu'l-Hamíd e o igualmente tirânico Jamál Páshá. Shíráz fora o palco memorável da histórica Declaração do Báb; Isfahan Lhe havia proporcionado embora por curto período, um refúgio de relativa paz e segurança; enquanto Azerbaijão era destinado a tornar-se o teatro de Sua agonia e Seu martírio. Esses anos concludentes de Sua vida terrena consagrar-se-ão na história como o tempo em que a Nova Revelação atingiu sua plena altura; quando foi completa e publicamente asseverada a pretensão de seu Fundador; e suas leis se formularam, quando o Convênio de seu Autor foi firmemente estabelecido, quando sua independência foi proclamada e o heroísmo de seus Campeões flamejava em glória imortal. Pois foi durante aqueles anos intensamente dramáticos, fatídicos, que as plenas implicações da posição do Báb foram desvendadas aos Seus discípulos e por Ele formalmente anunciadas na capital do Azerbaijão, na presença do Herdeiro ao Trono; foi naqueles anos que o Bayán Persa, o repositório das leis ordenadas pelo Báb, foi revelado; que o tempo e o caráter da "Revelação d'Aquele que Deus tornará manifesto" foram inequivocamente determinados; que a Conferência de Badasht proclamou a anulação da velha ordem; e que as grandes conflagrações de Mázindarán, de Nayríz e de Zanján se atearam.

E no entanto, Hájí Mírzá Áqásí, com sua insensatez e curta visão, imaginava tolamente que, ao confundir o plano do Báb para encontrar com o xá face a face na capital e ao relega-Lo ao mais longínquo recanto do reino, ele tivesse sufocado o Movimento em seu início e breve pudesse ganhar um triunfo conclusivo sobre seu Fundador. Pouco imaginava ele que esse mesmo isolamento imposto sobre seu Prisioneiro haveria de capacita-Lo a evoluir o Sistema planejado para encarnar a alma de Sua Fé e iria Lhe oferecer a oportunidade de salvaguarda-la de desintegração e cisma, bem como de proclamar formalmente e sem reservas Sua missão. Pouco imaginava ele que esse mesmo encarceramento induziria os exasperados discípulos e companheiros do Cativo a livrar-se dos grilhões de uma teologia antiquada, e precipitaria acontecimentos que deles evocassem uma proeza, uma coragem, uma renúncia jamais igualada na história de seus país. Pouco imaginava ele que, com esse mesmo ato, facilitaria o cumprimento da tradição autêntica atribuída ao Profeta do Islã a respeito da inevitabilidade daquilo que haveria de suceder em Azerbaijão. Não tendo aprendido pelo exemplo do governador de Shíráz, que, à primeira indicação da sua vingadora de Deus, havia, apavorado e trêmulo, fugido ignominiosamente, e libertado seu Cativo, o Grão-Vizir de Muhammad Sháh estava, por sua vez, mediante as ordens por ele emitidas, preparando para si mesmo severo e inescapável desapontamento e pavimentando o caminho para sua própria queda final.

Suas ordens a Ali Khan, diretor do presídio de Máh-Kú, foram estritas e explícitas. No caminho para essa fortaleza, o Báb passou alguns dias em Tabríz - dias caracterizados por tão intensa excitação por parte da populaça que a nenhuma pessoa - com muito poucas exceções, nem do público nem dentre Seus seguidores, foi permitido encontrar-se com Ele. Enquanto Ele estava sendo conduzido pelas ruas da cidade, a exclamação de "Alláh-u-Akbar" ressoava por todos os lados. Tão grande se tornou, realmente, o tumulto, que o pregoeiro da cidade recebeu ordens para advertir aos habitantes que seriam confiscados todos os bens de qualquer um que se atrevesse a procurar a presença do Báb, e essa pessoa seria aprisionada. Durante as duas primeiras semanas após Sua chegada em Máh-Kú - denominado por Ele Jabal-i-Basit (a Montanha Aberta), a ninguém foi permitido vê-Lo, salvo Seu amanuense, Siyyid Husayn e seu irmão. Tão penosa era Sua situação enquanto permanecia nessa fortaleza, que Ele Próprio declarou, no Bayán Persa, que nem sequer tinha uma lâmpada acesa à noite e, a seu quarto solitário, construído de tijolos assados ao sol, até faltava porta. Em Sua Epístola a Muhammad Sháh Ele se queixou que os ocupantes da fortaleza se limitavam a dois guardas e quatro cães.

Recluso nos altos de uma distante montanha, perigosamente situada nas fronteiras dos impérios russo e otomano; aprisionado entre as sólidas paredes de uma fortaleza de quatro torres; apartado de Sua família, de Seus parentes e de Seus discípulos; morando nas vizinhanças de uma intolerante e turbulenta comunidade que, por raça, tradição, língua e credo, diferia da grande maioria dos habitantes da Pérsia; guardado pelo povo de um distrito que, como o berço natal do Grão-Vizir, se tornara o alvo de especiais favores de sua administração - o Prisioneiro de Máh-Kú parecia, aos olhos de Seu adversário, estar condenado a testemunhar o desvanecimento da flor de Sua mocidade e, em data não remota, a completa nulificação de Suas esperanças. Este adversário cedo verificaria, contudo, quão profundamente errara a respeito do seu Prisioneiro e daqueles a quem ele prodigalizara seus favores. Um povo insubordinado, orgulhoso e bruto, foi gradualmente cativado pela docilidade do Báb, depurado por Sua modéstia, moralizado por Seus conselhos e instruído por Sua sabedoria. Tão enlevadas ficaram aquelas pessoas pelo amor que Lhe devotavam, que a primeira coisa a fazerem cada manhã - não obstante os protestos do prepotente Alí Khán1 e as reiteradas ameaças de medidas disciplinares recebidas de Teerã - era procurar um lugar de onde pudessem vislumbrar Seu rosto e suplicar-Lhe à distância a bênção para o seu trabalho cotidiano. Em casos de divergências, costumavam acorrer aos pés da fortaleza e, com os olhos fixos na Sua morada, invocar Seu nome, prometendo um ao outro falar a verdade. o próprio 'Alí Khán, sob a influência de estranha visão, sentiu tal remorso que foi compelido a abrandar a severidade de sua disciplina, como reparação de seu culposo passado. Tão tolerante se tornou, que uma onda crescente de ansiosos e devotos peregrinos começou a ser admitia pelos portões da fortaleza. Entre estes se achava o destemido e infatigável Mullá Husayn, que viajara a pé durante todo o percurso de Mashad, no leste da Pérsia, até Máh-Kú, na fronteira ocidental do país, conseguindo assim, depois de tão árdua jornada, celebrar a festa do Naw-Rúz (1848) na companhia de seu Bem-Amado.

Agentes secretos, entretanto, encarregados de vigiar 'Alí Khán, informaram Hají Mírzá Áqásí2 do rumo tomado pelos acontecimentos, em razão de que ele imediatamente decidiu transferir o Báb para a fortaleza de Chihríq (cerca de 10 de abril de 1848), apelidada por Ele a Jabal-i-Shadíd (a Montanha das Dores). Aí foi Ele entregue à guarda de Yahyá Khán, um cunhado de Maomé xá. Embora a princípio ele agisse com a máxima severidade, foi finalmente compelido a render-se ao encanto de seu Prisioneiro. Do mesmo modo os curdos, que viviam na povoação de Chihríq e cujo ódio aos Shí'ahs excedia até ao nutrido pelos habitantes de Máh-Kú, foram incapazes de resistir à penetrante influência do Prisioneiro. Eles também eram vistos cada manhã, antes que partissem para a faina diária, aproximar-se da fortaleza e prostrar-se em adoração perante o seu santo Inquilino. "Tão grande foi a afluência de gente" - é o depoimento de uma testemunha ocular européia, contido em suas memórias do Báb - "que, o pátio não sendo suficientemente espaçoso para conter Seus ouvintes, a maior parte deles permanecia na rua e escutava com arrebatada atenção os versículos do novo Alcorão".

Em verdade, a agitação provocada em Chihríq eclipsou as cenas ocorridas em Máh-Kú. Siyyids de mérito, ulemás eminentes e até servidores do governo, abraçaram destemida e prontamente a Causa do Prisioneiro. O auge foi alcançado com a conversão do zeloso e famoso Mírzá Asadu'lláh - apelidado Dayyán - destacado funcionário de alta reputação literária, que o Báb iniciara no "secreto e preservado conhecimento" e exaltara como o "repositório da confiança de Deus, único e verdadeiro", e com a chegada de um dervixe, ex-nababo da Índia, a quem o Báb numa visão convidara a renunciar às riquezas e ao poder e ir a pé ao seu encontro no Azerbaijão. Notícias desses alarmantes acontecimentos atingiram Tabríz, sendo daí comunicados a Teerã, o que veio forçar Hájí Mírzá Áqásí a intervir de novo. O pai de Dayyán, íntimo amigo daquele ministro, já lhe havia manifestado sua profunda apreensão pela maneira por que os hábeis funcionários do estado estavam sendo atraídos pela nova Fé. Para que se abatesse a crescente excitação, o Báb foi chamado a Tabríz. Temerosos do entusiasmo popular no Azerbaijão, aqueles a cuja custódia ele fora entregue, resolveram desviar sua rota, passando por Urúmíyyih, para evitar a cidade de Khuy. Ao chegar àquela cidade, Ele foi cerimoniosamente, recebido pelo príncipe Malik Qásim Mírzá, que até foi visto, certa sexta-feira - quando seu Hóspede, montado, se dirigia ao banho público - acompanhando-o a pé, enquanto os seus lacaios se esforçavam para conter o povo que, em seu transbordante entusiasmo, se comprimia, no intento de ver passar tão admirável Prisioneiro. Tabríz, a seu turno, nos paroxismos de selvagem agitação, saudou alegremente Sua chegada. Tal foi o fervor do sentimento popular, que o Báb foi removido para um lugar fora dos portões da cidade. Esta medida, entretanto, malogrou no intuito de acalmar os ânimos. Precauções, advertências e restrições serviram apenas para agravar a situação que já se havia tornado crítica. Foi nesta conjuntura que o Grão-Vizir baixou sua histórica ordem para imediata convocação dos dignitários eclesiásticos de Tabríz, a fim de que deliberassem sobre as mais efetivas medidas para a extinção, uma vez por todas, das chamas de tão destruidora conflagração.

Os acontecimentos ligados ao julgamento do Báb, em conseqüência de tão precipitado ato, bem podem ser considerados como dos principais marcos de Sua dramática carreira. O manifesto propósito desse inquérito era inculpar o Prisioneiro e deliberar sobre os passos a serem tomados para a extirpação de Sua assim chamada heresia. Tal convocação, porém, ao contrário do seu objetivo, favoreceu-lhe a suprema oportunidade de Sua missão: a de afirmar em público, formalmente e sem qualquer reserva, as reivindicações inerentes à Sua Revelação. Na residência oficial do governador do Azerbaijão, Násiri'd-Dín Mírzá, o herdeiro do trono, e em sua presença, reuniram-se: Hájí Mullá Mahmúd, o Nizámu'l'Ulemá, tutor do Príncipe, os dignitários eclesiásticos de Tabríz, os líderes da comunidade Shaykí, o Shaykhú'l-Islam e o Imame Jum'ih. Perante essa assembléia, presidida por Hájí Mullá Mahmúd, o Báb, após assentar-se no principal lugar - lugar esse reservado para o Valí-Ahd, o herdeiro do trono - com voz vibrante deu Sua célebre resposta à pergunta que Lhe fizera o presidente da assembléia:

"Eu sou" - exclamou - "Eu sou o Prometido! Sou aquele cujo nome há mil anos vindes invocando cuja menção vos tem feito levantar, cuja vinda há muito esperais testemunhar, e de cuja Revelação tendes rogado a Deus que não tarde a hora. Em verdade vos digo, é dever que pesa sobre os povos do Oriente e do Ocidente obedecer Minha palavra e hipotecar fidelidade à Minha Pessoa."

Aterrados, os presentes por momentos baixaram suas cabeças em silenciosa confusão. Então Mullá Muhammadi-Mamáqání, um apóstata de barbas brancas e cego de um olho, cobrando suficiente coragem, com sua característica insolência acusou o Báb de perverso e desprezível adepto de Satanás, ao que o destemido Jovem refutou, dizendo que mantinha a declaração já feita. À pergunta que em seguida Lhe dirigiu Nizámu'l-Ulemá, o Báb afirmou que Suas palavras constituíam o mais irrefutável evidência de Sua missão, citando versos do Alcorão para provar a verdade de Sua afirmativa e confessando-Se capaz de revelar, no espaço de dois dias e duas noites, versículos tão numerosos quanto os daquele Livro. Replicando a uma crítica de haver Ele infringido regras gramaticais, comprovou estar certo, pela citação de algumas passagens do Alcorão, e refutou com firmeza e dignidade um frívolo e inconveniente aparte que um dos presentes Lhe dirigiu. Dissolveu então, sumariamente, a reunião, levantando-Se e abandonando a sala. Foi assim dispersada a assembléia, seus membros embaraçados, divergindo entre si, e amargamente contrariados e humilhados pelo fracasso de seus propósitos.

Longe de intimidar o espírito de seu cativo, longe de O induzir a retratar-Se ou a abandonar Sua missão, o resultado dessa reunião foi apenas decidir, após prolongados argumentos e debates, infligir-lhe espancamento no templo, pelas mãos do impiedoso e avarento Mírzá 'Alí-Asghar, o Shaykhu'l-Islám dessa cidade. Falhando em seus desígnios, Hájí Mírzá Áqásí viu-se forçado a ordenar a volta do Báb a Chihríq.

Essa dramática declaração - incondicional e formal - da missão profética do Báb, não foi a única conseqüência do ato néscio que condenou o Autor de tão influente Revelação a um encarceramento de três anos nas montanhas de Azerbaijão. Esse período de cativeiro, em um remoto canto do reino, longe dos epicentros de Shíráz, Isfahan e Teerã, proporcionou-Lhe o necessário lazer para se dedicar à Sua tarefa mais monumental, bem como ocupar-se com outras composições subsidiárias cujo intuito era desenvolver inteiramente Sua Revelação - tão momentosa, embora de pouca duração - e divulgar sua plena força. Na magnitude dos escritos que de Sua pena emanaram, e igualmente na diversidade dos assuntos neles tratados, Sua Revelação sobressai, absolutamente sem paralelo nos anais de qualquer religião anterior. Ele Próprio afirma, enquanto abrangendo assuntos altamente diversificados, haviam atingido quinhentos mil versículos. "Os versículos que têm chovido dessa Nuvem de Misericórdia Divina"- é o testemunho de Bahá'u'lláh no Kitáb-i-Íqán, "foram tão abundantes que ninguém até agora tem podido estimar seu número. Temos acesso agora a uns vinte volumes. Quantos ainda permanecem além do nosso alcance! Quantos foram pilhados e caíram nas mãos do inimigo, sendo desconhecido seu destino!" Não é de menor interesse a variedade dos temas apresentados por esses escritos volumosos, tais como preces, discursos religiosos, trechos oratóricos, Epístolas de Visitações, tratados científicos, dissertações doutrinais, exortações, comentários sobre o Alcorão e várias tradições, epístolas aos mais altos dignitários religiosos e eclesiásticos do reino, e leis e preceitos para a consolidação de Sua Fé e a direção de suas atividades.

Já em Shíráz, na primeira etapa de Seu ministério, havia Ele revelado o que Bahá'u'lláh tem caracterizado como "o primeiro, o maior e o mais poderoso de todos os livros na Era Bábí, o célebre comentário sobre a sura de José, intitulado o Qayyúmu'l-Asmá', cujo intuito fundamental era prognosticar o que o verdadeiro José (Bahá'u'lláh), em Era posterior, sofreria nas mãos de alguém que era a um tempo Seu arqui-inimigo e irmão consangüíneo. Esta obra, consistindo de mais de nove mil e trezentos versículos e dividida em cento e onze capítulos - sendo cada capítulo um comentário sobre um versículo da supracitada sura - começa com o toque de clarim do Báb e advertências sombrias dirigidas à "assembléia dos reis e dos filhos de reis"; prognostica o agourento destino de Muhammad xá; manda seu Grão-Vizir, Hájí Mírzá Áqásí, renunciar sua autoridade; admoesta a inteira ordem eclesiástica muçulmana; acautela mais especificamente os membros da comunidade xiita; louva as virtudes de Bahá'u'lláh e prevê Sua vinda, referindo-se a Ele como o "Remanescente de Deus", o "Supremo Mestre"; e proclama, em termos inequívocos, a independência e a universalidade da Revelação Bábí, lhe desvela o significado e afirma o inevitável triunfo de seu Autor. Essa obra, ainda mais, exorta os povos do Oeste a "saírem de suas cidades e auxiliarem a Causa de Deus"; adverte os povos da terra da "terrível, mais penosa vingança de Deus"; ameaça o inteiro mundo islâmico com o "Maior Fogo", se se desviassem da Lei novamente revelada; pressagia o martírio do Autor; elogia a alta posição ordenada para o povo de Bahá, os "Companheiros da Arca de rubi carmesim"; prediz o esvaecimento e completa obliteração de algumas das maiores luminárias no firmamento da Revelação Bábí; e até prognostica "aflitivo tormento", tanto no "Dia de Nossa Volta" como "no mundo que haverá de vir', para os usurpadores do Imanato, que "guerrearam contra Husayn (Imame Husayn) da Terra do Eufrates".

Este foi o Livro que os bábís universalmente consideravam, durante quase todo o ministério do Báb, como o alcorão do povo do Bayán; cujo primeiro capítulo - e o mais desafiador - foi revelado na presença de Mullá Husayn, na noite da Declaração de seu Autor; de cujas páginas algumas foram levadas por esse mesmo discípulo a Bahá'u'lláh, como os primeiros frutos de uma Revelação que instantaneamente ganhou Sua entusiástica lealdade; cujo texto inteiro foi traduzido para o persa pela brilhante, talentosa Táhirih; cujas passagens atearam a hostilidade de Husayn Khán e precipitaram o surto inicial de perseguição em Shíráz; do qual uma só página cativara a imaginação de Hujját e lhe extasiara a alma; e cujo conteúdo havia inflamado os intrépidos defensores do Forte de Shaykh Tabarsí e os heróis de Nayríz e Zanján.

Essa obra, de tão exaltado mérito, que atingiu tão larga influência, foi seguida pela revelação da primeira Epístola do Báb a Muhammad Sháh; de Suas Epístolas ao Sultão Abdúl-Majíd e a Najíb Páshá, o Vali de Bagdá; do Sahífiy-i-baynu'l-Haramayn, revelado entre Meca e Medina, em resposta a perguntas apresentadas por Mírzá Muhít-i-Kirmání; da Epístola ao Xerife de Meca; do Kitábur-Ruh, consistindo de setecentos surtas; do Khasá'il-i-Sab'ih, o qual ordenou a alteração da fórmula do adhán; do Risaliy-i-Furu'-i-Adliyyih, versada para o persa por Mullá Taqíy-i-Haráti; do comentário sobre a sura de Va'l-'Asr, na casa do Imame Jum'ih de Isfahan; da dissertação sobre a Missão Específica de Maomé, escrita a pedido de Manúchihr Khán; da segunda Epístola a Muhammad Sháh, na qual Ele suplicava audiência para que pudesse expor as verdades da nova Revelação e lhe dissipar as dúvidas; e das Epístolas enviadas da aldeia de Siyah-Dihán aos ulemás de Qasvín e a Hájí Mírzá Áqásí, inquirindo-lhe a causa de sua súbita mudança de decisão.

A grande maioria dos escritos que emanaram da mente prolífica do Báb, entretanto, foi reservada para o período do Báb, entretanto, foi reservada para o período de Seu encarceramento em Máh-Kú e Chihríq. A esse período devem pertencer, muito provavelmente, as inúmeras Epístolas que - segundo atesta tão grande autoridade como o próprio Bahá'u'lláh - o Báb dirigiu especificamente aos sacerdotes de cada cidade da Pérsia, bem como àquelas residentes em Najaf e Karbilá, nas quais Ele expôs em detalhe os erros cometidos por cada um deles. Foi durante Seu aprisionamento na fortaleza de Máh-Kú, que Ele - segundo o testemunho de Shaykh Hasan-i-Zunísí, o qual, durante aqueles nove meses, transcreveu os versículos ditados pelo Báb a Seu amanuense - revelou nada menos que nove comentários sobre o Alcorão inteiro - comentários cujo destino, infelizmente, é ignorado, e um dos quais - pelos menos, o próprio Autor assim afirmou - era em alguns aspectos, superior a um livro tão merecidamente famoso como o Qayyúmu'l-Asmá.

Dentro das paredes de uma mesma fortaleza, foi revelado o Bayán (Exposição) - aquele repositório monumental das leis e preceitos da nova Era, e o tesouro que encerrava a maior parte das referências e dos tributos do Báb "Àquele que Deus tornará manifesto", bem como Sua advertência a Seu respeito. Este Livro - ímpar entre as obras doutrinais do Fundador da Era Bábí; consistindo de nove Váhids (Unidades) de dezenove capítulos cada, que não deve ser confundido com o Bayán Árabe, menor e menos grave, o qual foi revelado durante o mesmo período; cumprindo a profecia maometana de que "um Jovem de Bani-Háshim... revelará um novo Livro e promulgará uma nova Lei"; completamente salvaguardada contra a interpolação e corrupção sofridas por tantas das obras menores do Báb - esse Livro, de aproximadamente oito mil versículos, que ocupa uma posição central na literatura bábí, deve ser considerado primariamente um elogio do Prometido em vez de um código de leis e preceitos destinado a ser um permanente guia para futuras gerações. Esse Livro, a um tempo, ab-rogou as leis e cerimônias ordenadas no Alcorão que tratavam de oração, jejum, matrimônio, divórcio e herança, e sustentou, em sua integridade, a crença na missão profética de Maomé, do mesmo modo que o Profeta do Islã, antes Dele, anulara os preceitos do Evangelho e, no entanto, reconhecera a origem Divina da Fé de Jesus Cristo. Interpretou, além disso, de um modo magistral, o significado de certos termos que ocorrem freqüentemente nos Livros Sagrados de Eras anteriores, como Paraíso, Inferno, Morte, Ressurreição, a Volta, a Balança, a Hora, o Juízo Final, e outros semelhantes. Propositalmente severo nas leis e regras que impunha, revolucionário nos princípios que instilava, tendo em mira despertar de seu torpor de séculos o clero e o povo, e dar um golpe repentino e fatal às instituições obsoletas e corruptas, este Livro proclamou, através de suas provisões drásticas, o advento do Dia previsto, o Dia em que "o Convocador haverá de convocar para um assunto austero", quando "demolirá tudo o que existia anteriormente, assim mesmo como o Apóstolo de Deus demoliu os modos daqueles que Lhe precederam."

Deve-se notar, a propósito disso, que no terceiro Vahíd deste Livro ocorre uma passagem que - tanto em virtude de sua explícita referência do nome do Prometido, como por sua antevisão da Ordem que, em época subseqüente, haveria de ser identificada com Sua Revelação - merece figurar como uma das exposições mais significativas registradas em quaisquer dos escritos do Báb. "Bem-aventurado aquele" - é Sua profética afirmação - "que fixa os olhos na Ordem de Bahá'u'lláh e agradece a seu Senhor. Pois Ele, seguramente, será tornado manifesto. Isso, em verdade, Deus ordenou, irrevogavelmente no Bayán." O Fundador da prometida Revelação, vinte anos mais tarde - incorporando esse mesmo termo em Seu Kitáb-i-Aqdas - identificou com essa mesma Ordem o Sistema ideado neste Livro, afirmando que "esta, a maior Ordem" havia perturbado o equilíbrio do mundo e revolucionado a vida ordenada do gênero humano. Foram as características dessa mesma Ordem que, em etapa posterior de evolução da Fé, o Centro do Convênio de Bahá'u'lláh, o designado Intérprete de Seus ensinamentos, delineou mediante as provisões de Sua Última Vontade e Testamento. É a base estrutural da mesmíssima Ordem que, na Época de Formação dessa mesma Fé, os guardiões do mesmo Convênio, os representantes eleitos dos bahá'ís do mundo, estão agora laboriosa e unissonamente estabelecendo. É a superestrutura da mesmíssima Ordem, atingindo sua plena altura ao surgir a Comunidade Bahá'í Mundial - o Reino de Deus na terra - o qual a Idade Áurea dessa mesma Era, afinal, na plenitude do tempo, haverá de testemunhar.

O Báb estava ainda em Máh-Kú quando escreveu a mais detalhada e a mais iluminadora de Suas Epístolas a Muhammad Sháh. Este documento histórico - prefaciado por uma referência laudatória à unidade de Deus, a Seus Apóstolos e aos doze Imames, e inequívoco em sua afirmação da divindade de seu Autor e dos poderes sobrenaturais das quais fora investido Sua Revelação; acurado nos versículos e nas tradições que cita em confirmação de uma pretensão tão audaciosa; severo em sua condenação de alguns dos oficiais e representantes da administração do xá e, em especial, do "perverso e amaldiçoado" Husayn Khán; comovedor em sua descrição da humilhação e das durezas às quais seu Escritor fora sujeitado - esse histórico documento assemelha-se, em muitas da suas características, à Epístola intitulada Lawh-i-Sultán, que em circunstâncias similares Bahá'u'lláh dirigiu da prisão-fortaleza de 'Akká a Násiri'd-Dín Sháh, e que constitui Sua mais longa epístola a um soberano.

A Dalá'il-i-Sab'in (Sete Provas), a mais das obras polêmicas do Báb, foi revelada durante esse mesmo período. Extraordinariamente lúcida, admirável em sua precisão, de conceito original, incontestável em seu argumento, esta obra, além das numerosas e diversas provas que a luz, é notável pela culpa que atribui aos "sete poderosos soberanos que governam o mundo" em Seu tempo, bem como pela maneira de acentuar as responsabilidades e de repreender a conduta dos sacerdotes cristãos de uma época anterior, os quais, se tivessem reconhecido a verdade da missão de Maomé - argumenta Ele - teriam sido seguidos pela generosidade de seus correligionários.

Durante o encarceramento do Báb na fortaleza de Chihríq, onde passou os quais dois anos restantes de Sua vida, foi revelada a Lawh-í-Hurufát (Epístola das Letras), em honra de Dayyán - Epístola essa que, embora fosse, de início, interpretada erroneamente como uma exposição da ciência da adivinhação, foi mais tarde reconhecida como revelação do mistério do Mustagháth, por um lado e, por outro, alusão obscura aos dezenove anos que haveriam de transcorrer entre a Declaração do Báb e a de Bahá'u'lláh. Foi durante esses anos - anos enegrecidos, por toda a sua duração, pelos rigores do cativeiro do Báb, pelas indignidades severas que Lhe foram infligidas e pelas notícias dos desastres que sobrevieram aos heróis de Mázindarán e Nayriz - que Ele revelou pouco depois de Seu regresso de Tabríz, Sua Epístola denunciatória a Hájí Mírzá Áqásí. Essa Epístola, redigida em linguagem audaz e comovente, implacável em sua condenação, foi remetida ao intrépido Hujjat, que - assim como Bahá'u'lláh corrobora - a entregou àquele ministro perverso.

A este período de encarceramento nas fortalezas de Máh-Kú e Chihríq - período de fecundidade não ultrapassada, apesar de cruento por suas humilhações e sempre crescentes infortúnios - pertencem quase todas as referências escritas, quer em forma de advertências, apelos ou exortações, que o Báb, antecipando-se à hora iminente de Sua suprema aflição, achou necessário fazer ao Autor de uma Revelação que cedo viria suceder a Sua própria.

Desde o princípio, compenetrado de Sua dupla Missão - como o Transmissor de uma Revelação completamente independente e como o Arauto de Outra ainda maior que a Sua própria - Ele não poderia contentar-se com o vasto número de comentários, orações, leis e estatutos, dissertações e epístolas, sermões e alocuções que fluíam incessantemente de Sua pena. Já se havia cumprido o Convênio Maior, referente à recém-nascida Fé, o qual - conforme afirmou em Seus escritos - Deus firmava com toda a humanidade, por intermédio dos Profetas de todas as épocas, desde tempos imemoriais. Era necessário acrescentar agora um Convênio Menor, suplementar, que Ele se sentiu obrigado a fazer com todo o grupo de Seus adeptos, com referência Àquele cujo evento Ele caracterizou como o fruto e propósito final do Seu Mandato. Tal convênio fora, invariavelmente, a base de todas religiões anteriores. Já existira, sob várias formas, com variados graus de intensidade, tendo sido sempre expresso em linguagem velada e tradições apócrifas e nas esparsas e enigmáticas passagens das Sagradas Escrituras. Na Revelação Bábí, porém, estava destinado a ser declarado em incisa e inequívoca linguagem, ainda que não corporificado em documento à parte. De maneira diversa à dos Profetas anteriores a Ele, cujos Convênios eram envoltos de mistério, como também à de Bahá'u'lláh, cujo claramente definido Convênio foi incorporado num Testamento escrito especialmente e denominado por Ele "O Livro do Convênio", o Báb preferiu inserir no Seu Livro das Leis - o Bayán Persa - inumeráveis passagens, algumas intencionalmente obscuras, a maior parte, porém, indubitavelmente clara e conclusiva, em que Ele fixa a data da Revelação prometida, exalta suas virtudes, defende seu preeminente caráter, atribui-lhe ilimitado poder e prerrogativas, e destrói toda barreira que possa ser um obstáculo ao seu reconhecimento. Bahá'u'lláh, referindo-se ao Báb em seu Kitáb-i-Badí, comentou: "Ele, em verdade, não faltou ao Seu dever de exortar o povo do Bayán e de entregar-lhe Sua Mensagem. Em nenhuma outra época ou revelação foi mencionado por qualquer Manifestante, em tão detalhada e explícita linguagem, como a usada por este, o Manifestante destinado a sucedê-Lo."

A alguns de Seus discípulos o Báb preparou com assiduidade para esperar a iminente Revelação. A outros Ele oralmente garantiu que viveriam para ver esse dia. A Mullá Báqír, uma das Letras da Vida, predisse até, numa carta que lhe dirigiu, que encontraria o Prometido, face a face. A Sayyáh, outro discípulo, fez, verbalmente, igual afirmativa. Mandou que Mullá Husayn se dirigisse a Teerã, garantindo-lhe que nessa cidade estava encerrado um Mistério com cuja luz não poderia rivalizar nem a de Hijáz nem a de Shíráz. A Quddús, nas vésperas de se separarem para sempre, afirmou que ele veria Aquele que era o Objetivo de sua adoração e amor. Ao Sheik Hasan-i-Zunúzí, declarou, quando em Máh-Kú, que este veria em Karbilá o semblante do prometido Husayn. A Dayyán conferiu o título de "terceira Letra a crer n'Aquele que Deus tornará manifesto" enquanto a 'Azim anunciou, no Kitáb-i-Panj-Sha'n, o nome d'Aquele que viria consumar a Sua própria Revelação, declarando estar próximo o Seu advento.

O Báb nunca nomeou um sucessor ou substituto, e Se absteve de indicar um intérprete de Seus ensinamentos. Tão transparentemente claras eram Suas referências ao Prometido e tão breve havia de ser a duração de Seu próprio Mandato, que nem um nem outro era julgado necessário. De acordo com o testemunho de 'Abdu'l-Bahá em "Narrativa de um Viajante", tudo o que fez foi, a pedido de Bahá'u'lláh e outro discípulo, apontar Mírzá Yahyá, para atuar apenas como chefe nominal, aguardando a manifestação do Prometido e assim capacitando Bahá'u'lláh a promover, em relativa segurança, a Causa tão querida ao Seu coração.

"O Bayán', afirma o Báb neste Livro, referindo-se ao Prometido, "é, do começo ao fim, o repositório de todos os Seus atributos e o tesouro tanto de Seu fogo como de Sua luz." "Se tu atingires à Sua Revelação", declara Ele em outra ocasião, "e O obedeceres, terás revelado o fruto do Bayán; se não, és indigno de menção perante Deus." "Ó povo do Bayán!" - assim Ele, nesse mesmo Livro, admoesta a inteira companhia de Seus seguidores, "não vos comporteis como o povo do Alcorão se tem comportado, pois se assim fizerdes, os frutos de vossa noite nada valerão." "Não permitais que o Bayán" - é Sua enfática exortação - "e tudo o que nele foi revelado vos impeçam daquela Essência do Ser, o Senhor do visível e do invisível." "Acautela-te, acautela-te", é Sua advertência significativa dirigida a Vahíd, "para que nos dias de Sua Revelação o Vahíd do Bayán (dezoito Letras do Vivente e o Báb) não te exclua d'Ele como se o fosse por um véu, desde que esse Vahíd é, a Seu ver, apenas uma criatura." E ainda: "Ó Congregação do Bayán, e todos os que nela estão! Reconhecei os limites que vos são impostos, pois tal Ser como o próprio Ponto do Bayán, acreditou, antes de serem criadas todas as coisas, n'Aquele que Deus tornará manifesto. Nisso, verdadeiramente, me glorio diante de todos os que estão no reino do céu e da terra."

"No ano nove", escreveu Ele explicitamente, referindo-se à data do advento da prometida Revelação, "havereis de atingir a todo o bem." "No ano nove, atingireis à presença de Deus." E ainda: "Depois de Hin (68) vos será dada uma Causa que vireis a conhecer." "Antes de haver transcorrido nove desde o início dessa Causa", declarou Ele mais explicitamente, "as realidades das coisas criadas não serão tornadas manifestas. Tudo o que tens visto até agora é apenas o estágio do gérmen umedecido, até ser por nós vestido de carne. Sê paciente, até que contemples uma nova criação. Dize: - Abençoado, pois, seja Deus, o mais excelente dos Criadores! -" "Espera tu", é Sua declaração a 'Azím, "até que nove tenha transcorrido desde o tempo do Bayán. Então exclama: - Abençoado, pois, seja Deus, o mais excelente dos Criadores! - " 'Sê atento", admoestou Ele, em uma passagem notável na qual se referiu ao ano dezenove, "desde o início da Revelação até o número de Vahíd (19)." "O Senhor do Dia do Juízo", disse Ele, ainda mais explicitamente, "manifestar-se-á no fim de Vahíd (19) e no começo de oitenta (1280 A.H.)." "Fosse Ele aparecer neste exato momento", revelou Ele em Sua ansiedade de assegurar que a proximidade da prometida Revelação não viesse a impedir os homens de se aproximarem do Prometido, "Eu seria o primeiro a adora-Lo, o primeiro a curvar-se diante d'Ele."

"Já inscrevi em Minha menção d'Ele" - assim Ele exalta o Autor da Revelação esperada - "estas preciosas palavras! - Nenhuma alusão Minha pode a Ele aludir, nem qualquer coisa mencionada no Bayán -" "Eu Próprio sou apenas o primeiro servo a acreditar n'Ele e em Seus sinais..." "O gérmen com idade de um ano", afirma Ele significativamente, "que contém dentro de si as potencialidades da Revelação que há de vir, é dotado de uma potência superior às forças combinadas do Bayán inteiro." E ainda: "O Bayán todo é apenas uma folha entre as folhas de Seu Paraíso." "Melhor é para ti", afirma Ele, outrossim, "recitar apenas um dos versículos d'Aquele que Deus tornará manifesto, do que assentar o Bayán inteiro, pois naquele Dia esse versículo, só, te poderá salvar, enquanto que o Bayán todo não te poderá salvar." "Hoje o Bayán está em etapa de semente; no início da manifestação d'Aquele que Deus tornará manifesto, sua perfeição final aparecerá." "O Bayán deveria toda a sua glória Daquele que Deus tornará manifesto." "Tudo o que se tem revelado no Bayán é apenas um anel em Minha mão, e Eu Próprio sou, verdadeiramente, apenas um anel na mão Daquele que Deus haverá de tornar manifesto... Ele o transforma do modo que Lhe apraz, para qualquer coisa que Lhe apraz, e através daquilo que Lhe apraz. Ele, verdadeiramente, é o Amparo no Perigo, o Altíssimo." "A própria Certeza", declarara Ele em resposta a Vahíd, e a uma das Letras dos Viventes que havia inquirido a respeito do Prometido, "tem vergonha de ser invocada para certificar Sua verdade... e próprio Testemunho envergonha-se de a Ele testificar." Dirigindo-se a esse mesmo Vahíd, Ele, ainda mais, afirmara: "Se me fosse assegurado que tu, no dia de Sua manifestação, O negarias, Eu, sem hesitar, te repeliria... Se, por outro lado, me for dito que um cristão, a quem não cabe nenhuma lealdade à Minha Fé, Nele acreditará, a tal pessoa haverei de considerar a menina de Meus olhos."

E, finalmente, nesta, Sua comovente invocação a Deus: "Dá Tu testemunho de que Eu, através deste Livro, fiz um convênio com todas as coisas criadas a respeito da missão Daquele que Tu haverás de tornar manifesto, antes de haver sido estabelecido o convênio relativo à Minha própria missão. Testemunha suficiente és Tu, bem como o são aqueles que em Teus sinais acreditaram." "Eu, em verdade, não faltei a Meu dever de admoestar aquele povo", é ainda outro testemunho de Sua pena, "...Se no dia de Sua Revelação todos os que estão na terra Lhe prestarem lealdade, Meu mais íntimo ser regozijar-se-á, desde que todos terão atingido o ápice de sua existência... Em caso contrário, Minha alma ficará entristecida. Eu, verdadeiramente, tenho nutrido todas as coisas para esse fim. Como, pois, pode alguém se velar Dele?"

Os últimos três e mais ativos anos do ministério do Báb, viram - como observamos nas páginas precedentes - não só a pública e formal declaração de Sua missão, mas também uma torrente não igualada de Seus escritos inspirados. Incluíam eles as leis fundamentais de Sua Revelação bem como o estabelecimento daquele Convênio Suplementar, que iria salvaguardar união de Seus prosélitos e preparar o caminho para o advento de uma Revelação incomparavelmente mais poderosa. Foi durante este mesmo período, nos primeiros dias de Seu encarceramento na fortaleza de Chihríq, que a independência da Fé recém-nascida foi abertamente reconhecida e proclamada por Seus discípulos. As leis referentes à nova Revelação foram enunciadas por Seu Autor na prisão de uma fortaleza nas montanhas do Azerbaijão, enquanto que a própria Revelação ia ser agora lançada numa planície na fronteira de Mázindarán, em uma conferência de Seus adeptos coligados.

Através de contínua correspondência, mantinha Bahá'u'lláh íntimo contato com o Báb e vinha Ele mesmo impulsionando as várias atividades de Seus esforçados condiscípulos. Despercebida mas efetivamente, presidiu essa conferência, guiando e controlando seu decurso. Como Quddús fosse considerado o expoente dos elementos conservadores dela integrantes, ele, em cumprimento de um plano pré-concebido, destinado a suavizar o alarme e a consternação que tal conferência fatalmente provocaria, fingiu ser contrário aos propósitos aparentemente extremistas advogados pela impetuosa Táhiríh. O principal fim dessa reunião foi objetivar a revelação do Bayán por um rápido, completo e dramático rompimento com o passado - sua ordem de coisas, seu eclesiasticismo, suas tradições e cerimônias. O objetivo subsidiário da conferência era estudar os meios de libertar o Báb de Seu cruel encarceramento em Chihríq. O primeiro foi grandemente coroado de êxito; o segundo estava destinado, de princípio, a fracassar.

A cena de tão audaz e tremenda proclamação foi o lugarejo de Badasht, onde Bahá'u'lláh alugara, em meio de aprazíveis arredores, três chácaras, uma das quais Ele cedeu a Quddús, outra a Táhiríh, reservando a terceira para Si Mesmo. Os oitenta e um discípulos que se achavam reunidos, procedentes de várias províncias, foram Seus convidados, desde o dia de sua chegada até o de sua partida. Em cada um dos vinte e dois dias de Sua permanência nesse vilarejo, Ele revelou uma Epístola, que era entoada na presença de todos os fiéis. A cada crente Ele conferiu um novo nome, sem, contudo, revelar a identidade daquele que o tivesse dotado. Ele Próprio passou a ser chamado pelo nome de Bahá. A Última Letra da Vida deu o título de Quddús, enquanto que a Quarratu'l-Ayn foi dado o título de Táhiríh. Por esses nomes eles passaram a ser tratados pelo Báb nas Epístolas que Este lhes dirigia.

Foi Bahá'u'lláh - embora ninguém o suspeitasse - quem, decidida e cabalmente, governou o curso desse memorável episódio, e foi ainda quem levou a reunião ao seu dramático clímax. Certo dia, em Sua presença, quando uma enfermidade O mantinha acamado, Táhiríh, que era considerada o símbolo puro e imaculado da castidade e a encarnação da santa Fátima, apareceu de repente sem véu, perante seus companheiros reunidos e sentou-se à direita do aterrado e enfurecido Quddús. Com suas veementes palavras rompeu os véus protetores da santidade dos ritos do Islã, fez soar o toque de trombeta e proclamou o nascimento de uma nova Era. O efeito foi eletrizante e imediato. Ela, tão imaculadamente pura, tão respeitada que até o contemplar-se fixamente sua sombra era considerado um ato condenável, pareceu, por um momento, aos olhos dos seus escandalizados espectadores, ter-se difamado a si mesma, desonrado a Fé que abraçara e maculado o imortal Semblante que simbolizava.

Medo, ira, perplexidade, lhes varreram o íntimo da alma e estontearam as faculdades. 'Abdu'l-Kháliq-i-Isfáhání, estupefato e perturbado diante de tal espetáculo, com suas próprias mãos cortou sua garganta. Manchado de gangue, em um frenesi de excitação, fugiu da presença dela. Alguns, abandonando os companheiros, renunciaram sua Fé. Outros ficaram em pé diante dela, mudos e imóveis. Ainda outros devem ter recordado, com corações palpitantes, a tradição islâmica que pressagiou o aparecimento da própria Fátimih, desvelada, enquanto atravessava a Ponte (Sirát) no prometido Dia do Juízo. Quddús, mudo de fúria, parecia estar só aguardando o momento em que a pudesse abater com a espada que ele então, por acaso, segurava.

Resoluta, serena e exultante de alegria, Táhiríh levantou-se e sem a menor premeditação, numa linguagem parecida à do Alcorão, dirigiu um fervoroso e eloqüente apelo aos remanescentes da reunião, encerrando-o com esta arrojada afirmativa: "Eu sou o Verbo que o Qá'im está para proferir, o Verbo que porá em debandada os chefes e nobres da terra!" Disto isto, ela convidou-os a se abraçarem uns aos outros e a celebrarem tão grandiosa ocasião.

Naquele dia memorável, soou o "Clarim" mencionado no Alcorão, ergueu-se altamente o "toque estarrecedor da trombeta" e a "Catástrofe" veio a realizar-se. Os dias que seguiram imediatamente tão espantosa divergência das tradições islâmicas consagradas pelo tempo, testemunharam uma verdadeira revolução na perspectiva, nos hábitos e cerimoniais e no modo de adoração característica daqueles que até então eram zelosos e devotados defensores da Lei Maometana. Se bem que a Conferência do começo ao fim fosse agitada, e não obstante o deplorável afastamento dos poucos que se recusaram a sancionar a anulação dos estatutos fundamentais da Fé Islâmica, o propósito da Conferência fora plena e gloriosamente realizado. Apenas quatro anos antes, o Autor da Revelação Bábí, na reclusão de Sua casa em Shíráz, havia declarado a Mullá Husayn Sua missão. Três anos depois dessa Declaração, Ele, dentro dos muros da fortaleza de Máh-Kú, estava ditando a Seu amanuense os preceitos fundamentais que distinguiam Sua Revelação. Seus seguidores, sob a direção atual de Bahá'u'lláh, seu co-discípulo, um ano mais tarde, na aldeia de Badasht, estavam, eles mesmo, ab-rogando a Lei do Alcorão, repudiando tanto os preceitos divinamente ordenados da Fé de Maomé, como aqueles feitos pelo homem, e livrando-se dos grilhões de seu sistema antiquado. Quase imediatamente depois, o próprio Báb, ainda preso, estava vindicando os atos de Seus discípulos com a declaração formal e sem reservas de Sua pretensão - a de ser o prometido Qá'im - na presença do Herdeiro ao Trono, dos principais expoentes da comunidade shaykhí e dos mais ilustres dignitários eclesiásticos congregados na capital de Azerbaijão.

Haviam-se passado pouco mais de quatro anos desde que surgira a Revelação do Báb, quando soou o toque de clarim anunciando a definitiva extinção da velha Era e a inauguração da nova. Nenhuma pompa ou alarde marcou esse ponto decisivo na história da religião no mundo. Tampouco estava seu modesto palco à altura de tão repentina, arrebatadora e completa emancipação das sombrias e agressivas forças do fanatismo, do clericalismo, da ortodoxia e da superstição. O exército reunido consistia de apenas uma única mulher e alguns homens, a maior parte deles recrutados das próprias fileiras que agora atacavam e, salvo algumas exceções, carentes de riqueza, prestígio e poder. O próprio Comandante do exército estava ausente, cativo nas garras de Seus inimigos. O campo de batalha foi uma humilde aldeia na fronteira de Badasht, às margens do Mázindarán. Quem tocara o clarim fora uma mulher, a mais insigne entre todas dessa Era, a quem mesmo alguns de Seus correligionários reputaram de herética. O toque que ala fez soar, foi o dobre de finados dos doze séculos de existência da lei do islã.

O processo de desintegração que estava associado com um declínio do destino de uma Lei antiquada, embora tivesse sido divinamente revelada e que foi acelerado, vinte anos mais tarde, por outro toque de trombeta - o qual anunciou a formação das leis de ainda outra Era - esse processo adquiriu ímpeto adicional, precipitou em época posterior a anulação da Lei canônica Shari'ah na Turquia, levou ao virtual abandono dessa Lei na Pérsia xiita, tem sido responsável, mais recentemente, para desassociar da Lei eclesiástica sunita, no Egito, o Sistema contemplado no Kitáb-i-Aqdas; tem preparado o caminho para o reconhecimento desse Sistema na própria Terra Santa, e é destinado a culminar na secularização dos estados muçulmanos, no reconhecimento universal da Lei de Bahá'u'lláh por todas as nações e em sua entronização nos corações de todos os povos, do mundo muçulmano.

CAPÍTULO III
TUMULTOS EM MÁZINDARÁN,
NAYRYZ E ZANJÁN

O cativeiro do Báb em um rincão remota de Azerbaijão, imortalizado pelos eventos da Conferência de Badasht e caracterizado por tais notáveis acontecimentos como a declaração pública de Sua missão, a formulação das leis de Sua Era e o estabelecimento de Seu Convênio, haveria de se tornar ainda mais significativo por causa das terríveis convulsões oriundas dos atos não só de Seus adversários, mas também de Seus discípulos. À medida que os anos de Seu cativeiro passavam e o fim se aproximava, as comoções que se seguiram, culminando em Seu próprio martírio, evocaram um grande heroísmo por parte de Seus adeptos bem como uma hostilidade feroz da parte de Seus inimigos, que os primeiros três anos de Seu ministério nunca haviam testemunhado. De fato, esse período breve, porém o mais tumultuoso, pode com justiça ser considerado o mais sangrento e o mais dramático da Idade Heróica da Era Bahá'i.

Os momentosos eventos associados com o encarceramento do Báb em Máh-Kú e Chihríq, constituindo, em verdade, o ápice de Sua Revelação, outra conseqüência não poderiam ter, senão a de intensificar a chama tanto do fervor daqueles que o amavam, como da fúria de Seus inimigos. Uma perseguição mais horrenda, mais odiosa e mais astuciosamente calculada do que qualquer uma ateada por Husayn Khán, ou até por Hají Mírzá Áqásí, seria brevemente desenfreada, e haveria de acompanhá-la uma correspondente manifestação de heroísmo sem paralelo entre as primeiras ondas de entusiasmo que haviam saudado o nascimento da Fé, quer em Shíráz ou em Isfahan. Esse período de comoção incessante e sem precedentes haveria de roubar a esse Fé, em rápida sucessão, os principais protagonistas, atingindo seu clímax na extinção da vida de seu Autor e sendo seguido por mais uma - e esta vez quase completa - eliminação de seus eminentes defensores, com uma única exceção - d'Aquele a Quem, na hora mais tenebrosa, foi entregue, através das dispensações da Providência, uma dupla função, a de salvar de aniquilamento uma fé penosamente atribulada e a de inaugurar a Era destinada a superá-la.

Quando o Báb assumiu formalmente a autoridade do prometido Qa'im, em tão dramáticas circunstâncias e em um tom tão desafiador, diante de uma distinta congregação de eminentes eclesiásticos xiitas - poderosos, ciumentos, alarmados e hostis, esse ato foi a força explosiva que soltou uma verdadeira avalanche de calamidades que sobrevieram à Fé e ao povo em cujo meio nascera. Aumentou a ponto de fervura o zelo que ardia nas almas dos discípulos dispersos do Báb, que já estavam incendiados pelo cruel cativeiro de seu Líder e cujo ardor se inflamou ainda mais agora, em virtude das emanações de Sua pena que incessantemente lhes eram enviados do lugar de Seu encarceramanto. Provocou uma veemente e prolongada controvérsia por toda a extensão da terra, em bazares, mesquitas, escolas e outros lugares púbicos, assim tornando mais funda a divisão que já atingira seu povo. Muhammad Sháh, entrementes, numa tão crítica hora, declinava rapidamente sob o peso das enfermidades físicas. Hájí Mírzá Áqásí, homem de tão estreita mentalidade, agora o eixo dos assuntos de estado, exibia uma vacilação e uma incompetência que pareciam aumentar com cada expansão no âmbito de suas graves responsabilidades.

Em uma época, ele se sentia inclinado a apoiar o veredicto dos ulemás; em outra, lhes censurava a agressividade e desconfiava de suas afirmações; em ainda outra, entregava-se ao misticismo e, envolto em seus devaneios, perdia de vista a gravidade da emergência com que se defrontava.

Sua má administração, tão evidente, dos assuntos nacionais, tornou mais audaciosa a ordem clerical, cujos membros agora com zelo maligno arremessavam anátemas de seus púlpitos e com vociferações incitavam congregações supersticiosas a se armar contra os defensores de uma crença multo odiada, a insultar a honra de suas mulheres, a saquear suas propriedades e a injuriar e maltratar seus filhos. "Onde estão os sinais e prodígios", vociferavam diante de incontáveis assembléias, "que devem necessariamente preceder o advento do Qa'im? E as Ocultações - a Maior e a Menor? E as cidades de Jábalqá e Jábulsá? De que modo haveremos de explicar as palavras de Husayn-ibn-Rúh, e qual a interpretação a ser dada às tradições autênticas atribuídas a Ibn-i-Mihríyár? Onde estão os Homens do Invisível que devem atravessar, em uma só semana, toda a superfície da terra? E a conquista do Oriente e Ocidente que o Qa'im haverá de realizar quando aparecer? Onde está o Anti-Cristo zarolho e o asno que ele deve montar? Onde esta Sufyán e seu domínio?" "De veremos nós", protestavam ruidosamente, "considerar como letra morta as inúmeras tradições, indubitáveis, de nossos santos Imames, ou deveremos, com fogo e espada, extinguir essa impudente heresia que ousou erguer a cabeça em nossa terra?"

A essas difamações, ameaças e protestos, os sábios e resolutos campeãs de uma Fé erroneamente representada, seguindo o exemplo de seu Líder, opunham, sem hesitação, com tratados, comentários e refutações assiduamente escritos, poderosas em seu argumento, repletas de testemunhos, lúcidos, eloqüentes e convincentes, afirmando sua crença em Maomé como Profeta, na legitimidade dos Imames, na soberania espiritual do Sáhibu'z-Zamán (O Senhor da Era), interpretando de uma maneira magistral as obscuras e propositalmente obstrusas, alegóricas tradições, versículos e profecias nos sagrados Escritos islâmicos, e aduzindo, em apoio de seu argumento, a humildade e aparente fraqueza do Imame Husayn, que, a despeito de sua derrota, seu embaraço e seu martírio ignominioso, fora saudado pelos antagonistas como a própria encarnação e o incomparável símbolo da predominante soberania e poder de Deus.

Essa veemente controvérsia, de âmbito nacional, havia assumido proporções alarmantes quando Muhammad Sháh, afinal, sucumbiu à sua doença e, com sua morte, precipitou a queda de seu favorito e todo-poderoso ministro, Hájí Mírzá Áqásí, que, logo despojado dos tesouros que acumulara, caiu em desonra e, expulso da capital, buscou refúgio em Karbilá. Násiri'd-dín Mírzá, de dezessete anos de idade, ascendeu ao trono e incumbiu da administração o obstinado, implacável Amír Nizám, Mírzá Taquí Khán, que, sem consultar seus co-ministros, decretou que punição imediata e condigna fosse infligida nos desditosos bábís. Governadores, magistrados e servos civis, por todas as províncias, instigados pela monstruosa campanha de verificação dirigida pelo claro, e incentivados pela cobiça de recompensas pecuniárias - todos, em suas respectivas áreas, se rivalizaram uns com outros em perseguir os aderentes de uma Fé proscrita e sobre eles amontoar indignidades. Pela primeira vez na história da Fé, uma campanha sistemática, na qual estavam coligados os poderes civis e eclesiásticos, foi contra ela lançada - campanha essa que haveria de culminar nos horrores sofridos por Bahá'u'lláh no Síyáh-Chál de Teerã e em Seu subseqüente desterro para o Iraque. Governo, claro e povo levantaram-se, como um só homem, para assaltar e exterminar o inimigo comum. Em centros remotos e isolados, os discípulos dispersos de uma comunidade perseguida foram impiedosamente abatidos pelas espadas de seu inimigos, enquanto em centro onde se haviam congregado um grande número, medidas de defesa foram tomadas, as quais, sendo mal interpretadas por um astucioso e traiçoeiro adversário, serviram por sua vez para inflamar ainda mais a hostilidade das autoridades e multiplicar os ultrajes perpetrados pelo opressor. No leste, em Shaykh Tabarsí no sul, em Nayríz - no oeste, em Zanján e, na própria capital, massacres, manifestações, conflitos, assédios, atos traiçoeiros, proclamaram em rápida sucessão, a violência da tempestade que irrompera, expuseram a falência e enegreceram os anais de um povo orgulhoso, mas degenerado.

A Audácia de Mullá Husayn que, a mando do Báb, colocara na cabeça o turbante verde usado por seu Mestre e por Ele lhe enviado, e içara o Estandarte Preto, o qual, ao ser desfraldado, haveria de anunciar segundo o Profeta Maomé, o advento do vice-gerente de Deus na terra - foi sinal para um combate cujas reverberações haveriam de ressoar pelo país inteiro. Montado em seu corcel, ele marchava na vanguarda de duzentos e dois de seus co-discípulos para se encontrar com Quddús e lhe prestar assistência, no Jaziriy-i-Khadra (Ilha Verdejante). O conflito durou nada menos de onze meses. Seu palco foi pela maior parte a floresta de Mázindarán. Seus heróis eram a flor do discípulos do Báb. Seus mártires incluíram não menos que a metade das Letras dos Viventes, não excluindo Quddús e Mullá Husayn, a última e a primeira, respectivamente, dessas Letras. A força diretriz que o sustentou, embora despercebidamente, outra não foi, senão aquela que fluía da mente da Bahá'u'lláh. Foi acusado pela determinação, não ocultada, por parte dos rompedores d'Alva de uma nova Era, de proclamar destemida e dignamente, seu advento, e - por uma resolução não menos irrevogável, caso a persuasão falhasse - de resistir e se defender contra as investidas de maliciosos e irrazoáveis agressores. Esse conflito demonstrou, sem a menor sombra de dúvida, o que o indomável espírito de um golpe de trezentos e treze estudantes - sem treino ou equipamento, mas extasiados com o amor de Deus, pela maior parte reclusos sedentários, de colégio e claustro - poderia realizar quando, em defesa própria, se encarava com um exército treinado, bem equipado, que tinha o apoio da generalidade do povo, fora abençoado pelo clero, estava sob o comando de um príncipe de gangue real, sustentado pelos recursos do estado e agindo com a entusiástica aprovação de seu soberano, sendo também animado pelos infalíveis conselhos de um ministro resoluto e todo-poderoso. O resultado desse conflito foi uma hedionda traição que terminou em uma orgia de carnificina, maculando de eterna infâmia seus perpetradores, investindo nas vítimas de um halo de glória imperecível, e gerando as próprias sementes que iriam, em época posterior, florescer em instituições administrativas de âmbito mundial e que deveriam, na plenitude dos tempos, produzir seu fruto-áureo na forma de uma Ordem que venha a circular toda a terra e redimir o mundo.

Não será necessária tentarmos fazer nem sequer uma breve narrativa desse episódio trágico, por grave que seja sua significação e não importando quanto seja mal interpretado por cronistas e historiadores adversos. Bastará, para a finalidade destas páginas, olharmos rapidamente suas características salientes. Ao tentarmas idear os eventos dessa grande tragédia, notamos a fortaleza, a intrepidez, a disciplina e a engenhosidade de seus heróis, em acentuado contraste com a torpeza, a covardia, a desordem e a inconstância dos Seus oponentes. Observamos a sublime paciência, o nobre controle exercido por um de seus atores principais, o destemido Mullá Husayn, que persistentemente recusava desembainhar sua espada, até que uma furiosa multidão armada, pronunciando as mais vis invectivas, se havia aglomerado à distância de uma légua de Bárfurúsh para lhe obstruir o caminho e havia abatido mortalmente sete de seus companheiros inocentes e leais. Estamos cheios de admiração pela tenacidade de fé desse mesmo Mullá Husayn, assim como foi demonstrado por sua determinação de perseverar em fazer alertar as mentes, enquanto assediado na hospedaria de Sabsih-Maydán, embora três de seus companheiros, que haviam sucessivamente subido ao telhado da estalagem com o fim expresso de levar a efeito esse sagrado ritual, tivessem sido mortos instantaneamente pelas balas do inimigo. Maravilhamo-nos do espírito de renúncia que incentivou aqueles sofredores, tão penosamente aflitos, a desprezar desdenhosamente as possessões deixadas atrás pelo inimigo em fuga; que os levou a renunciar seus próprios pertences e contentar-se com seus corcéis e suas espadas; que induziu o povo de Badí', membro daquele nobre grupo, a jogar ao lado da estrada, sem hesitação, a sacola cheia de turquesas, que trouxera da mina de seu pai em Nishápúr; que levou Mírzá Muhammad-Taqíy-i-Juvayní a jogar fora uma quantia equivalente em prata e ouro e impeliu esses mesmos companheiros a desdenhar e se recusar até a tocar o valioso equipamento e os cofres de ouro e prata que o desmoralizado e vergonhoso Príncipe Mihdí-Qulí Mírzá, comandante do exército de Mázindarán e irmão de Muhammad Sháh, deixara atrás na precipitada fuga de seu acampamento. Não podemos deixar de estimar a apaixonada sinceridade com a qual Mullá Husayn apelou ao Príncipe e a declaração formal que lhe fez, negando, em termos inequívocos, qualqual intenção - de sua parte ou da parte de seus co-discípulos - de usurpar a autoridade do xá ou de subverter os fundamentos de seu estado. Não podemos deixar de olhar com desdém a conduta daquele arquivilão, o histérico, cruel e arrogante Sa'ídu'l-'Ulamá, que, alarmado por causa da aproximação desses mesmos companheiros, em um frenesi de excitação, diante de uma imensa multidão de homens e mulheres, jogou no chão seu turbante, rasgou a gola de sua camisa e, lamentando a triste situação em que o Islã caíra, implorou à congregação que corresse para pegar armas e ceifar a companhia que se aproximava. Espantamo-nos ao contemplarmos a proeza sobre-humana de Mullá Husayn, a qual, não obstante sua frágil estrutura e sua mão trêmula, o capacitou a trucidar um inimigo traiçoeiro que se refugiara atrás de uma árvore. Com um só golpe de sua espada, ele partiu em dois a árvore, o homem e sua espingarda. Comovemo-nos, além disso, com a cena da chegada de Bahá'u'lláh ao Forte, e a indescritível alegria que isso causou a Mullá Husayn, a reverência com que Ele foi recebido por Seus co-discípulos, Sua inspeção das fortificações que eles, apressadamente, haviam erigido para sua proteção, e o conselho que Ele lhes deu, o qual resultou na miraculosa libertação de Quddús, em sua íntima associação, subseqüentemente, com os defensores daquele Forte e em sua efetiva participação nas façanhas relacionadas com o assedio e a destruição final do Forte. Maravilhamo-nos da serenidade e da sagacidade desse mesmo Quddús, da confiança que ele inspirou com sua vinda, da engenhosidade por ele exibida, do fervor e júbilo com que os assediados escutavam, de manhã e ao anoitecer, a voz que entoava os versículos de seu célebre comentário, sobre o Sád de Samad, ao qual ele, enquanto em Sárí, já devotara um tratado três vezes mais volumoso que o próprio Alcorão, e o qual ele agora, a despeito dos tumultuosos ataques do inimigo e das privações sendo sofridas por ele e pelos seus companheiros, estava elucidando ainda mais, acrescentando àquela interpretação tantos versículos quantos havia anteriormente escrito. Lembramo-nos, com corações emocionados, daquele memorável encontro quando, ao brado de "Montai vossos corcéis, ó heróis de Deus!", Mullá Husayn, acompanhado por duzentos e dois dos companheiros assediados e penosamente aflitos, e precedido por Quddús, emergiu do Forte antes do alvorecer e, levantando a exclamação de "Yá Sáhibu'z-Zamán!", se precipitou com toda força em direção à cidadela do Príncipe, onde penetrou em seus aposentos particulares - para apenas descobrir que o Príncipe, em sua consternação, se havia jogado por uma janela de fundos, para o fosso, e escapado, descalço, deixando o exército confuso e debandado. Testemunhamos, revivificado de modo tocante em nossa memória, aquele último dia da vida terrena de Mullá Husayn, quando, pouco depois de maia-noite, tendo feito suas abluções, se vestiu de roupas novas e pôs na cabeça o turbante do Báb, montou seu corcel, mandou abrir o portão do Forte, saiu na vanguarda de trezentos e treze de seus companheiros, exclamando "Yá Sáhibu'z-Zamán!" investiu, em rápida sucessão, contra as sete barricadas que o inimigo erigira, capturou cada uma delas, não obstante as balas que sobre ele choviam, repeliu logo seus defensores e já dispersara suas forças quando, em meio ao tumulto que se sucedeu, seu corcel de repente se enredou na corda de uma tenda e, antes de se poder extricar, ele foi atingido no peito por uma bala que o covarde 'Abbás-Qulí Khán-i-Larijaní disparara, enquanto esperava de emboscada nos ramos de uma árvore na vizinhança. Aclamamos a magnífica coragem que, em um encontro subseqüente, inspirou dezenove desses destemidos companheiros a precipitarem-se no acampamento de um inimigo que consistia de nada menos de dais regimentos de infantaria e cavalaria, causando tão grande consternação que um de seus líderes, o mesmo 'Abbás-Qulí Khán, caindo de seu cavalo e em sua perturbação deixando uma das botas pendurada no estribo, fugiu assim meio-calçado e confuso, indo ao encontra do Príncipe, a quem confessou o ignominioso revés que sofrera. Nem podemos deixar de notar a magnífica fortaleza com que essas almas heróicas suportaram o peso de suas severas provações; quando seu alimento se reduziu primeiro à carne dos cavalos que eles traziam do acampamento abandonado pelo inimigo; quando mais tarde, tiveram que se contentar com um pouco de grama que podiam apanhar dos campos em qualquer ocasião em que obtivessem trégua de seus assediadores; quando eles foram, ainda mais tarde, forçados a consumir a casca das árvores e o couro de suas selas, seus cintos, das bainhas de suas espadas, e de seus sapatos; quando durante dezoito dias nada tinham, senão água, da qual recebiam um gole toda manhã; quando o fogo dos canhões do inimigo os obrigou a cavar passagens subterrâneas dentro do Forte, onde, vivendo em meio à lama e água, com as roupas apodrecendo de umidade, tinham que subsistir de ossos moídos; e quando, afinal, oprimidos por fome atormentadora, eles - como atesta um cronista contemporâneo - se viram forçados a desenterrar o corcel de seu venerando líder, Mullá Husayn, cortá-lo em pedaços, moer os ossos, misturar esse pó com a carne putrefeita e, cozinhando isso tudo, avidamente devorá-lo.

Referência deve ser feita, também, à abjeta traição à qual o Príncipe, fraco e desacreditado, finalmente recorreu, e a sua violação de seu assim chamado irrevogável juramento, por ele inscrito e lacrado na margem da sura introdutória do Alcorão, segundo o qual ele, jurando por aquele Livro Sagrado, se incumbiu de libertar todos os defensores do Forte, hipotecou sua honra afirmando que nenhum homem de seu exército ou da vizinhança os molestaria e que ele mesmo, a seu próprio custo, providenciaria sua partida segura para seus lares. E por fim, recordamos a cena final daquela sombria tragédia, quando, em conseqüência da violação do sagrado compromisso assumido pelo Príncipe, alguns dos companheiros de Quddús, vítimas dessa traição, foram ajuntados no acampamento do inimigo, despojados de suas possessões e vendidos como escravos, sendo os outros trucidados pelos dardos e espadas dos oficiais, ou despedaçados, ou amarrados a árvores e crivados de balas, ou expelidos das bocas dos canhões e entregues às chamas, ou então desentranhados, depois do que as cabeças eram empaladas com hastas e lanças. Quddús, seu bem-amado líder, por ainda novo ato ignominioso do Príncipe atemorizado, foi entregue nas mãos do diabólico Sa'ídu'l-'Ulamá, que, em sua inextinguível hostilidade, e, auxiliado pela turba cujas paixões ele havia assiduamente inflamado, despojou a vítima de suas vestes e amontoou-a de correntes. Então ele fez Quddús marchar pelas ruas de Bárfurúsh, e incitou os mais degradados de seus habitantes femininos a execrá-la, cuspir nele, agredi-lo com facas e machados, de mutilar o corpo e jogar no fogo os fragmentos esfarrapados.

Esse episódio comovente, tão glorioso para a Fé, mas que tanto denigre a reputação de seus inimigos - episódio esse, que deve ser considerado um fenômeno raro na história dos tempos modernos - foi logo seguido por um tumulto paralelo, de impressionante semelhança em suas características essenciais. A cena de penosas tribulações transferiu-se agora para o sul, para a província de Fárs, não muito distante da cidade onde a luz alvorecente da Fé irrompera. Nayríz e seus arredores tiveram que sustentar o impacto dessa nova tribulação em toda a sua fúria. O Forte de Khájih, nas proximidades do bairro de Chinár-Súktih, dessa violentamente agitada aldeia, tornou-se o epicentro da nova conflagração. O herói que se destacava dentre os correligionários, que lutou valorosamente e caiu vítima às suas chamas devoradoras, foi aquela "figura incomparável, única de sua época", o muito célebre Siyyid Yahyáy-i-Dárábí, mais conhecido como Vahíd. Proeminente entre seus adversário pérfidos, que atearam e nutriram o fogo dessa conflagração, foi o infame e fanático governador de Nayríz, Zaynu'l-'Abidín Khán, secundado por 'Abdu'llah Khán, o Shujá'u'l-Mulk, e reforçado pelo Príncipe Firúz Mírzá, governador de Shíráz. De muito mais breve duração do que o tumulto de Mázindarán, o qual continuou por nada menos que onze meses, as atrocidades que assinalaram a etapa final dessa conflagração não foram menos devastadoras em suas conseqüências. Mais uma vez uma mão cheia de homens inocentes, respeitadores da lei, amantes da paz, mas fortes de ânimo e indomáveis - consistindo em parte, neste caso, de jovens sem treino e de homens de idade avançada - foram surpreendidos, desafiados, cercados e assaltados pela força superior de um inimigo cruel e astucioso - uma hoste inumerável de homens aptos, os quais embora bem treinados, com equipamento adequado e continuamente reforçados, não puderam dominar o espírito de seus adversários ou coagi-lo a submeter-se.

Essa nova comoção originou-se em declarações de fé tão intrépidas e apaixonadas, e em manifestações de entusiasmo religioso quase tão veementes e dramáticas como aquelas que haviam dado início ao tumulto de Mazindaran. Foi instigada por uma erupção, não menos sustentada e violenta, de inexorável hostilidade eclesiástica. Acompanharam-na manifestações correspondentes de cego fanatismo religioso. A comoção foi estimulada por atos semelhantes de agressão nua tanto por parte do clero como por parte do povo. Foi uma nova demonstração do mesmo propósito, sendo animada do começo ao fim pelo mesmo espírito, e atingindo quase a mesma altura de heroísmo sobre-humano, de fortaleza, coragem e renúncia. Revelou uma coordenação de p;anos e esforços - calculada com astúcia igual - entre as autoridades civis e eclesiásticas, que visava a desafiar e derrubar um inimigo comum. Foi precedida por uma semelhante declaração categórica da parte dos bábís, desmentindo qualquer intenção de se intrometerem na jurisdição civil do reino, ou de minarem a legítima autoridade de seu soberano. Forneceu um testemunho não menos convincente da moderação e tolerância das vítimas em face da agressão implacável - sem que elas a tivessem provocado - por parte do opressor. Expôs, à medida que se movia em direção a seu clímax, - e de uma maneira quase igualmente impressionante - covardia, a falta de disciplina e a degradação de um inimigo espiritualmente falido. E enquanto essa comoção, afinal, se aproximava de sua conclusão, se evidenciou uma traição igualmente vil e vergonhosa. Terminou em um massacre ainda mais revoltante nos horrores que evocou e nas misérias engendradas. Selou o destino de Vahíd, sendo ele amarrado a um cavalo por meio de seu turbante verde - emblema da linhagem da qual se orgulhava - e arrastado ignominiosamente através das ruas, depois do que o decapitaram, encheram de palha a cabeça e a mandaram como troféu ao Príncipe, que estava assistindo uma festa em Shíráz, enquanto o corpo foi abandonado a mercê das mulheres enfurecidas de Nayríz, as quais, intoxicadas de bárbara alegria por causa dos brados de exultação levantados por um inimigo triunfante, dançaram a seu redor com o acompanhamento de tambores e címbalos. E, finalmente, levou em seu rasto, com o auxílio de nada menos que cinco mil homens, especialmente comissionados para esse fim, uma investida geral e feroz contra os bábís indefesos, cujas possessões foram confiscadas, cujas casas foram destruídas, cuja cidadela foi incendiada e arrasada, cujas mulheres e crianças foram capturadas, algumas das quais, quase completamente despidas, foram obrigadas a montar em burros, mulas e camelos e ser assim conduzidas em meio a fileiras de cabeças cortadas dos corpos inanimados de seus pais, irmãos, filhos e esposos que já haviam sido ferreteados, ou cujas unhas haviam sido arrancadas, ou que tinham sido chicoteados até morrerem, ou em cujas mãos e pés tinham sido encravados espetos, em cujos narizes haviam sido feitas incisões, pelas quais passaram cordões, sendo eles por estes conduzidos pelas ruas, onde enfrentaram o olhar irado e o escárnio da multidão.

Essa turbulência, tão devastadora, tão aflitiva, mal se havia acalmado, quando se ateou em Zanján e suas imediações outra conflagração, ainda mais calamitosa do que os dois tumultos anteriores. Sem precedentes quanta à sua duração e ao número daqueles que foram varridos pela sua fúria, essa violenta tempestade que irrompeu no oeste da Pérsia - na qual Mullá Muhammad-'Alíy-i-Zanjáni, apelidado Hujjat, um dos mais capazes e mais intrépidos campeões da Fé, juntamente com nada menos que mil e oitocentos de seus co-discípulos, sorveram da taça do martírio - definiu mais nitidamente do que nunca o golfo intransponível que separava os porta-tochas da fé recém-nascida dos expoentes civis e eclesiásticos de uma Ordem gravemente abalada. As principais figuras mormente responsáveis por essa horrenda tragédia e nela imediatamente interessadas, eram o invejoso e hipócrita Amír Arslán Khán, o Majdu'd-Dawlih, tio materno de Nasiri'd-Dín Sháh, e seus associados, o Sadru'd-Dawliy-i-Isfáhání e Muhammad Khán, o Amír-Túmán, assistidos, por um lado, por substanciais reforços militares despachados por ordem do Amír-Nizán e, por outro, ajudados pelo entusiástico apoio moral do inteiro corpo eclesiástico de Zanján. O local que se tornou o palco de esforços heróicos, a cena de intensos sofrimentos e o alvo para repetidos e furiosos assaltos, era o Forte de 'Alí-Mardán Khán, o qual num tempo abrigou nada menos que três mil bábís, incluindo homens, mulheres e criança, a história de cujas angústias jamais foi excedida nos anais de um século inteiro.

Uma breve referência a certas características salientes desse lastimável episódio - o qual dotou a Fé, em sua infância, de imensuráveis potencialidades - bastara para revelar sua natureza distintiva. Sobressaem como os pontos culminantes desse conflito sangrento as cenas patéticas que seguiram a divisão dos habitantes de Zanján em dois campos distintos, por ordem de seu governo - decisão essa que foi dramaticamente proclamada por um pregoeiro e que dissolveu laços de interesse e afeto pertencentes a este mundo, a favor de uma lealdade mais forte; também as reiteradas exortações dirigidas por Hujjat aos assediados, para se absterem de agressão e atos de violência, e sua afirmação - ao recordar a tragédia de Mázindarán - de que sua vitória consistia somente em sacrificar tudo no altar da Causa do Sáhibu'z-Zamán. Outro ponto saliente foi sua declaração de ser o inalterável intuito de seus companheiros servirem lealmente a seu soberano e desejarem o bem de seu povo. Houve também a espantosa intrepidez com que esses mesmos companheiros repeliram o ataque feroz iniciado pelo Sadru'd-Dawlih, sendo ele obrigado, afinal, a confessar seu abjeto fracasso e sendo repreendido pelo xá e degradado de sua posição. Outra característica notável foi o escárneo com que os ocupantes do Forte receberam os apelos do pregoeiro, quando ele procurava, em nome de um inimigo exasperado, persuadi-los a renunciar sua Causa, tentando seduzi-los pelas generosas ofertas e promessas do soberano. Recordamos, também, a engenhosidade e a incrível audácia de Zaynab, uma mocinha da aldeia, que, inflamada com um irreprimível desejo de participar da sorte dos defensores da Fortaleza, se disfarçou em vestes masculinas, cortou o cabelo, cingiu uma espada e, levantando o brado de "Yá 'Sáhibu'z-Zamán!" se precipitou atrás dos agressores e que, não levando em conta alimento ou sono, continuou, durante um período de cinco meses, no pior do tumulto, a animar o zelo de seus companheiros e correr à sua assistência. Houve o estupendo clamor erguido pelos guardas das barricadas enquanto vociferavam as cinco invocações prescritas pelo Báb, na mesma noite em que foram recebidas Suas instruções - um clamor que precipitou a morte de algumas pessoas no acampamento do inimigo, fez que os oficiais dissolutos deixassem cair instantaneamente seus copos de vinho, entornassem suas mesas de jogo e se precipitassem para fora, descalços, enquanto induziu outros a correr, meio-vestidos, para a mata ou fugir em pânico para as casas dos ulemás. Recordamos, outrossim, o contraste entre a desordem, a execração, as gargalhadas grosseiras, a devassidão e ignomínia que caracterizavam o acampamenta do inimigo e a atmosfera de reverente devoção que predominava no Forte, do qual ascendiam continuamente cânticos de louvor e hinos de júbilo. Nem podemos deixar de notar o apelo dirigido ao xá por Hujjat e seus principais partidários, refutando as maliciosas afirmações de seus inimigos, assegurando-lhe sua lealdade - a ele e a seu governo, e lhe dizendo que estavam prontos para estabelecerem a validez de sua Causa em presença dele. Tampouco devemos deixar de notar a intercepção dessas mensagens pelo governador as quais ele substituiu com cartas forjadas, cheias de abuso, por ele despachadas para Teerã em seu lugar, ou o entusiástico apoio prestado pelas ocupantes femininas do Forte, suas jubilosas exclamações, a ansiedade com que algumas, disfarçadas em vestes masculinas, corriam para reforçarem as defesas e tomarem os lugares dos irmãos caídos, enquanto outras cuidavam dos doentes, levavam nos ombros peles cheias de água para os homens feridos, e ainda outras, semelhantes as mulheres Cartaginesas dos tempos antigas, cortavam seu cabelo comprido e amarravam as tranças grossas em volta das espingardas para reforça-las. Recordamos também a abominável traição dos assediantes, que - no mesmo dia em que eles haviam composto e escrito um apelo de paz e o mandado a Hujjat, com um exemplar do Alcorão selado, incluso, como testemunho de sua promessa - não recuaram de jogar em uma masmorra os membros da delegação - inclusive as crianças - por ele enviada para tratar com eles, nem de arrancarem a barba do venerável líder da delegação ou de mutilarem com selvageria um de seus co-discípulos. Lembramo-nos, alem disso, da magnanimidade de Hujjat, que, embora angustiado com a perda repentina da esposa e do filhinho, continuou, com inalterável calma, a exortar os companheiros a exercerem tolerância e a se resignarem à vontade de Deus até que ele próprio sucumbiu a uma ferida que o inimigo lhe infligira; lembramo-nos da bárbara vingança que um adversário incomparavelmente superior em número e equipamento, tirou de suas vítimas, submetendo-as a um massacre e uma pilhagem sem precedentes quanto a âmbito e ferocidade, aos quais um exército rapace, uma populaça cobiçosa e um implacável clero livremente se entregaram. Recordamos a sujeição dos cativos, de ambos os sexos - famintos e insuficientemente vestidos, durante nada menos que quinze dias e noites - ao frio agudo de um inverno excepcionalmente severo, enquanto uma turba de mulheres dançava alegremente a seu redor, cuspia em seus rostos e os insultava com as mais abomináveis invectivas; também a bárbara crueldade que condenou outros a serem expelidos de canhões, mergulhados em água gelada e severamente chicoteados, ou a terem os crânios metidos em óleo fervendo ou a serem cobertos de melado e deixados na neve até perecerem; e, finalmente, o ódio insaciável que impeliu o astucioso governador a induzir, com suas insinuações, o filho de Hujjat, de sete anos de idade, a revelar o lugar da sepultura de seu pai - o ódio que, então, o levou a violar o túmulo, a desenterrar o cadáver, e a mandar arrastá-lo pelas ruas de Zanján, com o acompanhamento de tambores e trombetas, e, durante três dias e três noites, deixa-lo ficar exposto a indizível mutilação. Esses incidentes e outros similares ligados com a história épica do tumulto de Zanján - caracterizado por Lord Curzon como um "horripilante assédio e carnificina" - combinam-se para investi-la de uma glória sombria jamais excedida por qualquer episódio de natureza semelhante nos anais da Época Heróica da Fé de Bahá'u'lláh.

Para a onda de calamidade que durante os últimos anos do ministério do Báb varria com tal ominosa fúria as províncias da Pérsia - quer no Leste, no Sul ou no Oeste - o coração e centro do próprio reino não podia permanecer insensível. Quatro meses antes do martírio do Báb, Teerã por sua vez teria que participar - em grau menor e em circunstâncias menos dramáticas - na carnificina que estava maculando a face do país. Nessa cidade estava sendo representada uma tragédia que haveria de provar ser apenas um prelúdio à orgia de massacre que, após a execução do Báb, convulsionou seus habitantes e semeou consternação até nas províncias mais remotas. Originara nas ordens do irado e sanguinário Amír-Nizám e foi perpetrada ante seus próprios olhos, sendo ele apoiado por Mahmúd Khán-i-Kalantar e ajudado por um certo Husayn, um dos ulemás de Kashán. Os heróis dessa tragédia foram os Sete Mártires de Teerã, os quais representavam as mais importantes classes entre seus conterrâneos e de liberadamente recusavam comprar a vida simplesmente por se negarem a invocar o nome taqíyyih, que o Islã xiita desde muitos séculos reconhecera como um subterfúgio inteiramente justificável e até recomendável na hora de perigo. Não valeram tentativas de persuadir qualquer um dos sete a renunciar os almejados louros do martírio - nem as repetidas e vigorosas intercessões de eminentes membros das profissões às quais asses mártires pertenciam, nem as consideráveis somas que no caso de um deles, o nobre e sereno Hájí Mírzá Siyyid 'Alí, tio materno do Báb - influentes comerciantes de Shíráz e Teerã estavam ansiosos de oferecer como resgate, nem os apaixonados apelos por parte de oficiais de estado em prol de um outro, o piedoso e altamente estimado dervixe, Mírzá Qurbán-'Alí, nem mesmo a intervenção pessoal do Amír-Nizám, que se esforçou por induzir ambos desses corajosos homens a se retratarem. As respostas audaciosas dadas veementemente aos seus perseguidores; o júbilo extático que deles se apoderava enquanto se aproximavam da cena de sua morte; as jubilosas exclamações que eles erguiam ao enfrentarem seu algoz; os versículos profundamente comovedores, recitados por alguns deles em seus últimos mementos; os apelos e desafios que dirigiram à multidão de espectadores que, estupefatos, fixaram neles seu olhar; a ansiedade com que as últimas três vítimas se esforçaram para precederem, uma à outra, em selarem com o sangue sua fé; e, por fim, as atrocidades que um inimigo sanguinário, a tal ponto se degradando, infligiu a seus corpos mortos que jaziam no Salzih-Maydán, sem serem sepultados, por três dias e três noites, durante os quais milhares de assim-chamados xiitas devotos davam pontapés nos cadáveres, lhes cuspiam nos rostos, apedrejavam, amaldiçoavam e zombavam, e sobre eles amontoavam refugo - foram estas as principais características da tragédia dos Setes Mártires de Teerã, tragédia essa que sobressai como uma das cenas mais hediondas testemunhadas durante os primeiros tempos do desenvolvimento da Fé de Bahá'u'lláh. Não é de se admirar haver o Báb - curvado sob o peso de Suas acumuladas tristezas, na Fortaleza de Chihríq - os aclamado e glorificado nas páginas de um longo elogio que imortalizou a fidelidade deles à Sua Causa, como aqueles mesmos "Sete Bodes" que, segundo a tradição islâmica, haveriam, no Dia do Juízo, de "andar na frente" do prometido Qa'im, e cuja morte precederia o impendente martírio de seu verdadeiro Pastor.

CAPÍTULO IV
A EXECUÇÃO DO BÁB

As ondas de horrenda tribulação que batiam violentamente na fé - e que vieram por fim a engolfar, em rápida sucessão, os discípulos do Báb mais capazes, aos que Ele mais amava e nos quais maior confiança tinha - fizeram com que o Báb mergulhasse em indizível tristeza. Por nada menos de seis meses o Prisioneiro de Chihríq - Seu cronista anota - não podia nem escrever, nem ditar. Esmagado de pesar pelas más notícias que tão rapidamente a Ele vinham - relatando as incessantes provações que acometiam seus mais hábeis tenentes - pelas agonias que os assediados haviam sofrido e pela ignominiosa traição dos sobreviventes, pelas lastimáveis aflições que os cativos suportaram e pela abominável carnificina de homens, mulheres e crianças, como também pelas nefárias indignidades amontoadas sobre seus cadáveres - Ele, durante nove dias, segundo afirmou Seu amanuense, recusou receber qualquer um de Seus amigos, e não queria tocar o alimento que Lhe era oferecido. Lágrimas choviam continuamente de Seus olhos e expressões profusas de angústia manaram de Seu coração ferido, enquanto Ele languescia, por nada menos de cinco meses, solitário e desconsolado, em Sua prisão.

Os pilares de Sua Fé recém-nascida haviam sido derrubados, pela maior parte, com a primeira investida do furacão sobre ela soltado. Quddús, por Ele imortalizado como Ismu'lláhi'l-Ákhir (o Último Nome de Deus); a quem a Epístola de Kullu't-Ta'ám, revelada por Bahá'u'lláh conferiu, mais tarde, a sublime apelação de Nuqtiy-i-Ukhrá (o Último Ponto); sendo ele, em outra Epístola, elevado a um grau inferior ao de ninguém, senão do Arauto de Sua Revelação; e quem Ele identifica, em ainda outra Epístola, com um dos "Mensageiros acusados de impostura", mencionados no Alcorão - Quddús, exaltado no Bayán Persa como aquele coperegrino em volta de quem revolvem espelhos cujo número iguala oito Vahids; de cujo "desprendimento e cuja sincera devoção à vontade de Deus, Deus se orgulha entre a Assembléia no alto"; a quem 'Abdu'l-Bahá designou como a "Lua de Guia"; e cujo aparecimanto a Revelação de São João o Divino previu como uma das duas "Testemunhas" nas quais, antes de passar "a segunda tribulação", o "espírito de vida oriundo de Deus", haveria de entrar - um homem como esse, na plena flor da juventude, sofrera, no Sabzih-Maydán de Bárfurúsh, tal morte como nem Jesus Cristo como atesta Bahá'u'lláh - enfrentara na hora da Sua maior angústia. Mullá Husayn, primeira Letra dos Viventes, chamado o Bábu'l-Báb (a Porta da Porta); designado como o "Espelho Primaz"; a quem a pena do Báb prodigalizara elogios, orações e Epístolas de Visitação em número equivalente a três vezes o volume do Alcorão; mencionado nesses elogios como o "bem-amado de Meu Coração"; o pó de cujo sepulcro - declarara essa mesma pena - era tão potente que podia alegrar os tristes e curar os enfermos; de quem "as criaturas, levantadas no começo e no fim" da "Era Bábí", têm inveja e continuarão a ter até o "Dia do Juízo"; de quem diz o Kitáb-i-Íqán que se nas fosse ele, "Deus não se teria estabelecido no assento de Sua misericórdia, nem haveria ascendido ao trono de glória eterna"; a quem Siyyd Kázim prestara tal tributo que seus discípulos suspeitavam que o objeto de tal elogio pudesse bem ser o próprio Prometido - um homem como esse, também na flor da idade, morrera, como mártir, em Tabarsí. Vahíd, - pronunciado no Kitáb-i-Íqán "a figura incomparável, sem igual, em sua época", homem de imensa erudição e o mais proeminente a alistar sob a bandeira da nova Fé, de cujos "talentos e cuja santidade", de cujas "altas realizações no domínio da ciência e da filosofia", o Báb dera testemunho em Seu Dalá'il-i-Sab'ih (Sete provas) - já, em circunstâncias semelhantes, fora varrido no redemoinho de outro tumulto e breve teria que sorver, por sua vez, do cálice do qual beberam os heróicos mártires de mázindarán. Hujját, outro campeão de conspícua audácia, de vontade indomável, de extraordinária originalidade e veemente zelo, estava sendo levado, rápida e inevitavelmente, para a fornalha fogosa cujas chamas já haviam envolvido Zanján e suas proximidades. O tio materno do Báb - único pai que Ele conhecera desde a infância, Seu amparo e Seu apoio e aquele em quem confiava como o guardião de Sua mãe e de Sua esposa - fora, ainda mais, d'Ele apartado pelo machado do algoz, em Teerã. Nada menos que a metade de Seus discípulos escolhidos, as Letras dos Viventes, já Lhe haviam precedido no campo do martírio. Táhirih, embora ainda viva, corajosamente seguia num caminho que haveria de levá-la inevitavelmente, a seu trágico destino.

Uma existência em rápido declínio, tão sobrecarregada de ansiedade, revezes, traições e amarguras de um trágico ministério, agora celeremente se aproximava de seu clímax. O mais agitado período da Era Heróica da Nova Revelação rapidamente atingia o ponto culminante. A taça de amargas dores que o Arauto dessa Revelação havia experimentado, transbordava agora. E, na verdade, Ele Próprio já havia predito Sua morte próxima. No Kitáb-i-Panj-Sha'n, uma de Suas ultimas obras, Ele se havia referido ao fato de que o sexto Naw-Rúz após a declaração de Sua missão seria a última que Ele estava destinado a celebrar na terra. Em Sua interpretação da letra H, expressara Ele Seu anseio pelo martírio, enquanto no Qayyúmu'l-Asmá profetizara realmente ser inevitável essa consumação de Sua gloriosa carreira. Quarenta dias antes de Sua partida final de Chihríq, juntara Ele todos os documentos que possuía e os entregara, juntamente com Sua caixa de penas, Seus selos e anéis, às mãos de Mullá Báqir, uma Letra dos Viventes, com instruções para dá-los a Mullá 'Abdu'l-Karin-i-Qazvini, chamado Mírzá Ahmad, que os levaria a Bahá'u'lláh em Teerã.

Enquanto as convulsões de Mázindarán e Nayríz seguiam seu curso sangrento, Grão-Vizir de Násíri'-Din-Sháh, refletindo ansiosamente sobre o significado desses horrendos acontecimentos, e apreensivo de suas repercussões em seus conterrâneos, seu governo e seu soberano, revolvia na mente, em estão o de extrema agitação, aquela decisão fatídica, destinada não só a deixar sua impressão indelével nas fortunas de seu país, mas também a acarretar tão incalculáveis conseqüências para os destines da humanidade inteira. As medidas repressivas tomadas contra os seguidores do Báb estava ele agora plenamente convencido - haviam servido apenas para lhes inflamar o zelo, endurecer a resolução e confirmar a lealdade à sua Fé tão severamente perseguida. O isolamento e o cativeiro do Báb haviam produzido o efeito oposto àquele que o Amir-Nizám com tanta confiança esperara. Gravemente perturbado, ele condenou com amargura o desastroso afrouxamento por parte de seu predecessor, Hájí Mírzá Áqásí, como responsável por tal situação. Um castigo mais drástico e ainda mais exemplar, pensava ele, deveria agora ser aplicado àquilo que ele considerava uma abominável heresia, que estava poluindo as instituições civis e eclesiásticas do reino. Nada menos - acreditava ele - do que a extinção da vida d'Aquele que era o originador de tão odiosa doutrina e a força motriz atrás de tão dinâmico movimento, poderia deter a maré que causara em todo o país tamanha desordem.

O assédio de Zanján ainda continuava quando ele, dispensando uma ordem explícita de seu soberano, e agindo independentemente de seus conselheiros e co-ministros, despachou ao Príncipe Hamzih Mírzá, o Hish-matu'd-Dawlih, governador de Azerbaijão, instruções para a execução do Báb. Receando que se pusessem em movimento forças que ele não tivesse o poder de controlar, caso tão condigna punição fosse infligida na capital do reino, ele mandou levar seu Cativo a Tabríz e lá executá-Lo. Quando o Príncipe, indignado, recusou terminantemente perpetrar o que ele considerava um escandaloso crime, o Amír-Nizám comissionou o próprio irmão, Mírzá Hasan Khán, para cumprir suas ordens.

Prontamente foram cumpridas as formalidades usuais a fim de obter junto aos principais mujtahids de Tabríz a necessária autorização para por fim à vida do Báb. Nem Mullá Muhammad-i-Mamáqání, entretanto, que assinara a condenação capital do Báb no dia de seu julgamento em Tabríz, nem Hájí Mírzá Báqir, nem Mullá Murtadá-Qulí, a cujas casas sua Vítima foi ignominiosamente arrastada pelo farrásh-báshí, por ordem do Grão-Vizir, dignou-se enfrentar seu temido Adversário.

Poucos momentos antes e alguns instantes depois desse humilhante tratamento infligido ao Báb, ocorreram dais incidentes de grande significação, incidentes estes que derramaram esclarecedora luz sobre as misteriosas circunstâncias que se prendiam à fase inicial de Seu Martírio. O farrásh-báshí interrompera abruptamente a última conversa confidencial que o Báb mantinha no interior de uma das salas do quartel com Seu amanuense Siyyid Husayn, e estava obrigando este a acompanha-lo enquanto o repreendia severamente. Foi então interpelado por seu Prisioneiro nas seguintes palavras: "Até que Eu tenha dito a ele todas as coisas que pretendo, não Me fará calar nenhum poder terreno. Mesmo que todo o mundo esteja armado contra Mim, ainda dessa forma será impotente para impedir-Me de cumprir Minha intenção até a ultima palavra."

Ao cristão Sám Khán - coronel do regimento armênio encarregado de cumprir a execução - que estava receoso de provocar com seu ato a ira de Deus e assim pedira para ser desobrigado do dever que se lhe impunha, o Báb deu a seguinte promessa: "Siga suas instruções e se sua intenção for sincera, o Todo-Poderoso seguramente livrá-lo-á de seu embaraço."

Sám Khán, destarte, preparou-se para cumprir o seu dever. Um cravo foi pregado no pontal que separava as duas divisões do quartel fronteiro à praça. Duas cordas foram presas a esse cravo, pelas quais foram separadamente suspensos o Báb e um de seus discípulos, o juvenil e devoto Mírzá Muhammad-'Alí-Zunúzí, apelidado Anís, que se havia lançado aos pés de seu Mestre e implorado que por nenhuma contingência fosse Dele separado. O esquadrão de fuzilamento formou em três fileiras, cada uma de duzentos e cinqüenta homens. Cada fileira à sua vez abriu fogo, até que todo o destacamento disparou suas balas. Tão denso foi o fumo dos setecentos e cinqüenta rifles, que o céu se obscureceu. Logo que o fumo se dissipou, a multidão atônita - cerca de dez mil almas - que se amontoara sobre o telhado do quartel e nos sobrados das casas vizinhas, presenciou uma cena em que seus olhos mal podiam crer.

O Báb desaparecera de suas vistas! Apenas seu companheiro permanecera vivo e incólume junto à parede em que haviam sido suspensos. As cordas, pelas quais foram alçados, se haviam arrebentado. "O Siyyid-i-Báb desapareceu!" exclamaram os espectadores boquiabertos. Imediatamente foi iniciada uma frenética busca. Ileso e sereno, no quarto que ocupara a noite anterior, foi Ele encontrado, empenhado em completar Sua interrompida conversação com seu amanuense. "Já terminei a minha conversa com Siyyid Husayn" foram as palavras com que o Prisioneiro, tão milagrosamente protegido, saudou o aparecimento do farrash-báshí E acrescentou: "Agora podeis prosseguir para a consumação do vosso propósito." Lembrando-se da severa advertência que seu Prisioneiro lhe fizera no dia anterior, e abalado por tão espantosa revelação, o farrásh-báshí abandonou repentinamente a cena e resignou seu posta.

Sám Khán, da mesma forma, relembrando com sentimento de profunda reverência e solene admiração as palavras confortadoras que o Báb lhe dirigira, ordenou aos seus homens que abandonassem imediatamente o quartel e jurou, ao deixar o pátio, nunca mais, mesmo sob o risco da própria vida, repetir aquele ato. Aqá Ján-i-Khamsih, coronel do corpo do guarda, prontificou-se voluntariamente a substituí-lo. Na mesma parede e da mesma forma, o Báb e seu companheiro foram suspensos outra vez, enquanto o novo regimento formava em linha e abria fogo. Desta vez, porem, seus peitos ficaram crivados de balas, e seus corpos completamente estraçalhados, com exceção de seus rostos, que ficaram quase intactos. "Oh, perversa geração!" - foram as últimas palavras do Báb à contempladora multidão, ao preparar-se o regimento para fazer a descarga de fogo - ... "Tivésseis acreditado em Mim e teríeis, todos vós, seguido o exemplo deste jovem, que está em posição superior à maior parte dentre vós, e ter-vos-íeis sacrificado de bom grado em Meu caminho. Dia virá quando Me havereis reconhecido; aí não mais estarei convosco."

Mas não foi tudo. No momenta exato em que os tiros eram disparados, uma ventania de excepcional violência armou-se e varreu a cidade. Do meio-dia até a noite, um furacão de poeira obscureceu a luz do sol e cegou os habitantes. Em Shíráz, um "terremoto" prenunciado num Livro não menos importante que o Apocalipse de São João, ocorreu no ano 1268 (após a Hégira) o qual lançou toda a cidade em pânico, causando ruína entre o seu povo, grandemente agravado pela erupção do cólera, fome e outras desgraças. Nesse mesmo ano, nada menos que duzentos e cinqüenta homens do esquadrão de fuzilamento que substituiu o regimento de Sám Khán, encontraram a morte, juntamente com seus oficiais, num violento terremoto, enquanto os quinhentos restantes tiveram, três anos mais tarde, como castigo à sua rebelião, um destino igual àquele imposto ao Báb por suas mãos. Para garantia de que nenhum dentre eles tivesse sobrevivido, foram sujeitados a uma segunda descarga, depois do que seus corpos perfurados de lanças e dardos foram expostos à curiosidade do povo de Tabríz. O principal instigador da morte do Báb, o implacável Amír-Nízám, juntamente com um irmão, seu mais destacado cúmplice, faleceu no decorrer dos dais anos seguintes àquele barbárie ato.

Ao anoitecer no mesmo dia da execução do Báb, o dia nove de julho de 1850 (28 de Sha'bán, 1266 A.H.), em seu trigésimo primeiro ano de idade e no sétimo de Seu ministério, os corpos mutilados foram transferidos do pátio do quartel para a beira do fosso fora do portão da cidade. Quatro companhias, consistindo cada uma de dez sentinelas cada, tiveram ordens de vigiá-los por turnos. Na manhã seguinte o cônsul russo em Tabríz visitou o local e mandou o artista que o acompanhava desenhar os restos mortais assim como jaziam ao lado do fossa. Na noite seguinte um seguidor do Báb, Hájí Sulaymán Khán conseguiu, por intermédio de um certo Hájí Alláh-Yár, remover os corpos para uma fábrica de seda que era propriedade de um dos crentes de Milán, e os colocou, no dia seguinte, em um caixão de madeira, feito especialmente, o qual ele mais tarde transferiu para um lugar de segurança. Os mullás, entrementes, proclamavam jactanciosamente dos púlpitos que, enquanto o sagrado corpo do Imame Imaculado seria preservado contra animais rapaces (e rasteiros) e todas as coisas rasteiras, o corpo desse homem havia sido devorado pelos animais selvagens. Logo que foi comunicada a Bahá'u'lláh a notícia de que foram trasladados os restos mortais do Báb e daquele que participara de Seu sofrimento, Ele ordenou que esse mesmo Salaymán Khán os trouxesse a Teerã, onde foram levados para o Imám-Zádih-Hasan, donde removeram-nos para diferentes lugares, até o tempo em que, segundo as instruções de 'Abdu'l-Bahá, foram trasladados à Terra Santa e por Ele cerimoniosamente colocados em seu permanente lugar de repouso, em um mausoléu especialmente erigido no declive do Monte Carmelo.

Assim terminou uma vida que a posteridade haverá de reconhecer como marco da confluência de dois ciclos proféticos universais, o Ciclo Adâmico que se estende no passado até os primórdios da história religiosa do mundo que foi registrada e o Ciclo Bahá'í destinado a prolongar-se através de um inconcebível espaço de tempo, por um período de nada menos de cinco mil séculos. A apoteose na qual uma vida como essa atingiu sua consumação, como já observamos, assinala a culminação da mais heróica fase da Idade Heróica da Era Bahá'í. Ainda mais, não pode ser vista em outra luz senão na do evento mais dramático, mais trágico, em todo o decorrer do primeiro século Bahá'í. Em verdade pode essa vida com justiça ser aclamada como sem paralelo nos anais das vidas de todos os Fundadores dos existentes sistemas religiosos do mundo.

Tão momentoso evento mal poderia deixar de despertar interesse intenso e de vasto alcance, até além dos confins da terra em que ocorrera. "É um dos mais magníficos exemplos de coragem que a humanidade já teve oportunidade de contemplar", é o testemunho registrado por um letrado cristão e oficial de governo, que havia residido na Pérsia e se familiarizado com a vida e os ensinamentos do Báb, "e é também uma prova admirável do amor que nosso herói transmitiu a seus concidadãos. Ele sacrificou-se pela humanidade; pela humanidade deu seu corpo e sua alma e por ela se submeteu a privações, afrontas e injúrias, à tortura e ao martírio. Ele selou com seu gangue o pacto da fraternidade universal e, assim como Jesus, pagou com sua vida o anúncio do reino da concórdia, da equidade e do amor ao próximo." "Um fato extraordinário, único nos anais da humanidade", é ainda outro testemunho pela pena daquele mesmo erudito em um comentário sobre as circunstâncias que acompanharam o martírio do Báb. "Um verdadeiro milagre", é a afirmação feita por um orientalista francês de renome, "Um verdadeiro homem de Deus", é o veredicto de um famoso escritor e viajante britânico. "O mais exímio produto de seu país", é o tributo a ele prestado por um célebre publicista francês. "Aquele Jesus da era... um profeta e mais que um profeta", é o juízo pronunciado por um eminente teólogo inglês. "O mais importante movimento religioso desde a fundação do cristianismo", é a possibilidade que aquele muito famoso literato de Oxford, o falecido Mestre de Balliol, previra para a Fé estabelecida pelo Báb.

Escreveu 'Abdu'l-Bahá: "Muitas pessoas de todos os cantos do mundo partiram para a Pérsia e começaram a investigar, com o maior empenho, o acontecimento." Pouco antes do martírio do Báb, conforme conta um cronista contemporâneo, o Czar da Rússia instruíra seu cônsul em Tabríz no sentido de proceder um inquérito a respeito, dando a conhecer as circunstâncias atinentes a tão espantoso Movimento, mas a comissão não chegou a ser levada a cabo em vista da execução do Báb. Em países ainda mais remotos, como os da Europa Ocidental, um interesse não menos profundo se verificou, estendendo-se com grande rapidez aos círculos literários, artísticos, diplomáticos e intelectuais. Atesta o cronista francês acima mencionado: "Toda a Europa foi presa de pena e indignação... Entre os literatos de minha geração, no Paris de 1890, o martírio do Báb mantinha-se ainda um assunto tão atual quanto o foram as primeiras notícias de Sua morte. Escrevemos poemas inspirados n'Ele. Sarah Bernhardt empenhou-se junto a Catulle Mendès para a composição de uma peça sob o motivo de tão memorável tragédia." Uma poetisa russa, membro da Sociedade Filosófica, Oriental e Bibliológica de São Petersburgo, publicou em 1903 um drama intitulado "O Báb", que um ano mais tarde foi representado num dos principais teatros da cidade, em seguida teve alguma publicidade em Londres, foi vertido para o francês em Paris e para o alemão pelo poeta Fiedler, sendo levado outra vez à cena no Teatro Popular de Leningrado, pouco depois da Revolução Russa, merecendo franca simpatia e interesse do renomado Tolstoi, cujo elogio ao poema foi mais tarde publicado pela imprensa russa.

Não seria, pois, exagero dizer-se que em nenhuma outra parte, em toda a literatura religiosa da humanidade, exceção feita aos Evangelhos, encontramos uma descrição da morte de qualquer dos fundadores de religião do passado comparável à do martírio sofrido pelo Profeta de Shíráz.

Um fenômeno tão estranho, tão inexplicável, atestado por testemunhas oculares, corroborado por homens de reconhecida posição, registrado por historiadores do governo, bem como não oficiais, entre o povo que jurara infindável hostilidade à Fé Bábí - isso, em verdade, pode ser considerado a mais maravilhosa manifestação das incomparáveis potencialidades das quais fora dotado a uma Era prometida por todas as Eras do passado. A paixão de Jesus Cristo e, de fato, Seu inteiro ministério público, tão somente, oferecem um paralelo à Missão e morte do Báb, um paralelo que ninguém que estuda as religiões comparativas pode deixar de perceber e levar em conta. Na juvenilidade e na humildade do Inaugurador da Era Bábí; na extrema brevidade e na acentuada turbulência de Seu ministério público; na rapidez dramática com que esse ministério se moveu para seu clímax - em tudo isso não podemos deixar de discernir uma extraordinária semelhança às características que distinguem a carreira de Jesus Cristo, como também na ordem apostólica por Ele instituída e na primazia que Ele conferiu a um dos membros dessa ordem; na audácia de seu desafio às convenções, leis e formas rituais, consagradas pelo tempo, as quais haviam sido tecidas na própria trama da religião na qual Ele mesmo nascera; no papel que uma hierarquia religiosa firmemente entrincheirada, e que gozava de reconhecimento oficial, desempenhou como principal instigador dos ultrajes que Ele foi forçado a sofrer; nas indignidades sobre Ele amontoadas; bem como em Sua repentina detenção; na interrogação à qual O sujeitaram; no escárnio que sobre Ele chovia e na flagelação que Lhe foi infligida; na afronta pública à qual foi exposto; e, finalmente, em Sua suspensão ignominiosa perante o olhar de uma multidão hostil.

Deve-se lembrar, entretanto, que - não apenas em virtude do milagre associado com a execução do Báb - Ele, diferente do Fundador da religião cristã, não só deve ser visto como o independente Autor de uma Revelação Divina, mas também deve ser reconhecido como o Arauto de uma Nova Era e o Inaugurador de um grande ciclo profético universal. Nem se deve deixar de levar em conta o importante fato de que, enquanto os rabinos judeus e seus associados eram, durante a vida de Jesus Cristo, seus principais adversários, as forças enfileiradas contra o Báb representavam os poderes civis e eclesiásticos da Pérsia, em coligação, os quais, desde o momento de Sua declaração até a hora de Sua morte, persistiram, unissonamente e por todos os meios a seu dispor, em conspirar contra aqueles que sustentavam Sua Revelação e em lhe verificar os preceitos.

O Báb - aclamado por Bahá'u'lláh como a "Essência das Essências", o "Mar dos Mares", o "Ponto a cujo redor revolvem as realidades dos Profetas e Mensageiros", "de Quem Deus fez proceder o conhecimento de tudo o que havia e que haverá", Cujo "grau excede o de todos os Profetas", e Cuja "Revelação transcende a percepção e a compreensão de todos os seus eleitos" - havia entregue Sua Mensagem e cumprido Sua Missão. Aquele que, nas palavras de 'Abdu'l-Bahá, era o "Amanhecer da Verdade" e "Arauto da Mais Grandiosa Luz" - Cujo advento assinalou, a um tempo, a terminação do "Ciclo profético" e o início do "Ciclo do Cumprimento" - havia simultaneamente, através de Sua Revelação, banido as sombras da noite que envolviam Seu país e proclamado a impendente aparição daquele Orbe Incomparável cujo esplendor haveria de abranger a humanidade inteira. Ele, o Ponto Primaz - segundo Sua própria afirmação - "do qual foi gerada toda a criação," "um dos pilares que sustentam o Verbo Primaz de Deus", o "Templo Místico", o "Grande Anúncio", a "Flama daquela Luz superna que brilhou sobre o Sinai", a "Lembrança de Deus", a respeito de Quem "foi estabelecido com cada Profeta um Convênio separado" - havia, com Seu advento, cumprido a um tempo a Promessa de todos os tempos e inaugurado a consumação de todas as Revelações. Aparecera Ele, o "Qá'im" (Aquele Que se levanta), prometido aos xiitas, o "Mihdí" (Aquele Que é guiado), esperado pelos sunitas, a "Volta de João Batista, a qual os cristãos têm aguardado", o "Ushídar-Máh", a quem se referem as escrituras zoroástricas, a "Volta de Elias" prevista pelos judeus, Cuja Revelação haveria de manifestar "os sinais e símbolos de todos os Profetas", Que revelaria a perfeição de Moisés, o esplendor de Jesus e a paciência de Jó". Ele proclamara Sua Causa, fora impiedosamente perseguido e morrera gloriosamente. A "Segunda Praga" mencionada no Apocalipse de São João o Divino, aparecera, afinal, e se havia feito descer o primeiro dos dais "Mensageiros", Cujo aparecimento fora predito no Alcorão. O primeiro "Toque de Trombeta", destinado a bater na terra, trazendo-lhe extermínio, anunciado neste último Livro, soara finalmente. "O Inevitável", "A Catástrofe", "A Ressurreição", "o Terremoto da Última Hora" preditos por esse mesmo Livro, todos ocorreram. Se havia "feito descerem" os "sinais claros", e o "Espírito" "soprara" e as "almas" haviam "despertado", e o "céu" fora "fendido", e os "anjos" se haviam "enfileirado em ordem", e as "estrelas" foram "apagadas", e a "terra" "expelira seu peso", e o "Paraíso" "se aproximara", e se fizera o "inferno" "flamejar", e o "Livro" fora "estabelecido" e a "Ponte" "estendida", a "Balança" fora "erigida" e as "montanhas dispersas em pó". A "purificação do Santuário", prognosticada por Daniel e confirmada por Jesus Cristo em Sua referência a "abominação da desolação", fora efetivada. Terminara o "dia cuja duração será de mil anos", predito pelo Apostolo de Deus em Seu Livro. Os "quarenta e dais meses" durante os quais a "Cidade Santa", como predisse São João o Divino, seria pisada sob os pés, haviam passado. o "tempo do fim" fora introduzido, e a primeira das "duas Testemunhas" - em Quem, "após três dias e meio" entraria "o Espírito da Vida oriundo de Deus - havia aparecido e "ao céu ascendido em uma nuvem." As "restantes vinte e cinco letras a serem tomadas manifestas," segundo a tradição islâmica - "das vinte e sete letras" das quais o Conhecimento consiste, segundo se tem declarado -haviam sido reveladas. o "Menino Varão", menciona do no Livro da Revelação, destinado a "governar todas as nações com vara de ferro", tinha, com Sua vinda, liberado as energias criadoras que, reforçadas pelas efusões de uma Revelação infinitamente maior, que rapidamente sucederia, haveriam de instilar na inteira raça humana a capacidade de realizar sua unificação orgânica, de atingir maturidade e assim alcançar a etapa final em sua evolução através dos séculos. No Qayyumu'l-Asma, fora erguido o toque de clarim dirigido à "assembléia de reis e dos filhos de reis", assinalando o início de um processo que, acelerado pelas subseqüentes advertências de Bahá'u'lláh à inteira companhia dos monarcas do Oriente e Ocidente, viria a produzir uma revolução tão extensiva nos destines da realeza. No Bayán Persa fora categoricamente anunciada a "Ordem", cujos alicerces o Prometido iria estabelecer no Kitáb-i-Áqdas, as características da qual o Centro do Convênio delinearia em Seu Testamento, e cuja estrutura administrativa o inteiro corpo de Seus seguidores está agora erigindo. Haviam sido claramente formuladas e proclamadas as leis que, por um lado, visaram abolir, por um só golpe, os privilégios e cerimoniais, os preceitos e as instituições de uma Era antiquada e, por Outro, suavizar a vasta brecha entre um sistema obsoleto e as instituições de uma Ordem mundial destinada a superá-lo. Fora firme e irrevogavelmente estabelecido o Convênio que, a despeito dos determinados assaltos contra ele lançados, conseguiu - diferentemente de todas as Revelações anteriores - preservar a integridade da Fé de seu Autor e preparar o caminho para o advento d'Aquele que seria seu Centro e Objeto. Irrompera a luz que por períodos sucessivos viria a propagar-se, gradativamente, desde seu berço até Vancover no Ocidente e o Mar da China no Oriente, e a difundir seu resplendor até a Islândia no Norte e o Mar de Tasmânia no Sul. A investida inicial fora lançada pelas forças das trevas que primeiramente se limitavam à hostilidade dos poderes civis e eclesiásticos da Pérsia xiita em conjunto, mas que, em época posterior, adquiriram impulso através da declarada e persistente oposição do Califa do Islã e da hierarquia sunita na Turquia, e que estavam destinadas a culminar no violante antagonismo das ordens sacerdotais associadas com outros sistemas religiosos ainda mais potentes. Havia se formado, e lentamente se cristalizava, o núcleo da Comunidade divinamente ordenada, de âmbito mundial - Comunidade esta que, com suas forças infantis, já demolira os grilhões da ortodoxia xiita e que estava destinada, com cada expansão no âmbito de seu espírito fraternal, a buscar e a obter um reconhecimento mais amplo, e ainda mais significativo, de suas pretensões de ser a religião mundial do futuro. E, afinal, à semente que a Mão da Onipotência dotou de tão vastas potencialidades - embora tivesse sido pisada impiedosamente e parecesse haver sido eliminada da face da terra - fora concedida, através desse mesmo processo, a oportunidade de germinar e manifestar-se novamente, na forma de uma Revelação ainda mais poderosa - uma Revelação fadada a florescer, mais tarde, nas instituições viçosas de um Sistema administrativo mundial, e a amadurecer - na Idade Áurea ainda não nascida - de um modo a formar poderosas agências que funcionem em harmonia com os princípios de uma Ordem que haverá de unificar e redimir o mundo.

CAPÍTULO V
O ATENTADO CONTA A VIDA DO xá
E SUAS CONSEQÜÊNCIAS

A Fé que agitara uma nação inteira até as entranhas, por cujo amor milhares de almas preciosas e heróicas foram sacrificadas e sobre cujo altar Aquele que fora seu Autor entregara Sua vida, encontrava-se agora sob a tensão de mais outra crise de extrema violência e graves conseqüências.

Foi uma daquelas crises periódicas que, ocorrendo um século inteiro, conseguiam eclipsar momentaneamente o esplendor da Fé e quase minar a estrutura de suas instituições orgânicas. Repentinas, invariavelmente, e, muitas vezes, inesperadas, parecendo ser fatais tanto ao espírito como à vida da Fé, essas inevitáveis manifestações da misteriosa evolução de uma Religião mundial, intensamente viva, desafiadora em suas pretensões, revolucionária em seus preceitos, lutando contra desvantagens acabrunhadoras - foram precipitações externamente pela malícia de seus declarados oponentes, ou provocadas internamente pela imprudência de seus amigos, ou pela apostasia de seus adeptos ou pela defecção de alguns que eram da mais elevada posição entre os parentes de seus fundadores. Por maior que haja a consternação assim causada à maioria dos leais aderentes da Fé, e por mais que seus adversários as tenham apontado como sintomas de seu declínio e sua impendente dissolução, ao olharmos em retrospecto esses inquestionáveis revezes e infortúnios dos quais a Fé tem sofrido com tanta freqüência tão tragicamente, percebemos que não lhe puderam deter a marcha nem diminuir a unidade. Pesado, em verdade, tem sido o preço que asses revezes exigiram., indizíveis as angústias que engendraram, extensiva e paralisante, por algum tempo, o alarme que provocaram.. Vista na devida perspectiva, no entanto, cada um deles - podemos com confiança afirmar - tem sido uma bênção disfarçada, fornecendo um meio providencial de liberar uma nova emanação de força celestial, um modo miraculoso de escapar a calamidades iminentes e ainda mais temíveis, um instrumento que possibilita cumprir profecias transmitidas através dos séculos, uma agência para a purificação e a revitalização da vida da comunidade, um ímpeto para lhe ampliar os limites e lhe propagar a influência, e uma prova inquestionável de ser indestrutível sua força coesiva. Algumas vezes no auge da própria crise - mais freqüentemente depois de haver passado a crise - a significação dessas provações, tem se manifestado aos olhos dos homens, e a necessidade de tais experiências tem sido demonstrada em toda parte e além da menor sombra de dúvida, tanto a inimigos como a amigos. Raramente - se, de fato, alguma vez - deixou de ser revelado o mistério que baseia asses portentosos tumultos mandados por Deus, nem se manteve oculto das mentes dos homens, o propósito profundo e o significado de sua ocorrência.

A Fé do Báb, ainda nas primeiras etapas de sua infância, começava agora a experimentar uma dessas tão severas provações. Caluniada e perseguida desde o momento em que nasceu, e sendo em seus primeiros dias privada do apoio da maioria de seus principais defensores, abalada, logo depois, pela trágica e repentina perda de seu Fundador, e ainda cambaleando sob os golpes cruéis que sofrera sucessivamente em Mázindarán, Teerã, Nayriz e Zanján, essa Fé, assim tão penosamente atribulada, estava prestes agora - por causa do ato ignominioso de um fanático e irresponsável bábí - a ser sujeitado a uma humilhação tal como jamais conhecera antes. Às provações por ela já suportadas, acrescentou-se agora o peso opressivo de uma nova calamidade, incomparavelmente grave, de caráter infame, e devastadora em suas conseqüências imediatas.

Profundamente impressionado pela amarga tragédia do martírio do seu bem-amado Mestre, impelido por um frenético desespero à vingança desse ato bárbaro, e acreditando ser o autor e instigador de tal crime ninguém mais, senão o próprio xá, um certo Sádiq-i-Tabrízí, ajudante de uma confeitaria em Teerã, seguiu, no dia 15 de agosto de 1852 em companhia de seu cúmplice - um jovem, também humilde, chamado Fathu'llah-i-Qumí - rumo a Níyávarán, sede do exército imperial e residência do soberano. Aí, esperando à margem da estrada, no disfarce de um inocente transeunte, disparou a carga de sua pistola sobre o xá, mal este saíra dos jardins do palácio em sua montaria para o passeio matinal. A arma empregada pelo atacante evidenciou, sem sombra de dúvida, a tolice daquele semi-lance jovem, e claramente positivou que nenhum homem em perfeito juízo poderia ter instigado tão insensata proeza.

Em conseqüência desse assalto, todo o Níyávarán, onde se haviam congregado a corte e as tropas imperiais, mergulhou em um tumulto inimaginável. Os ministros de estado, chefiados por Mírzá Áqá Khán-i-Núrí, o I'timádu'd-Dawlih, sucessor do Amir-Nizám, correram, horrorizados, para o lado de seu soberano ferido. A fanfarra de trombetas, o ruído dos tambores e o estridor dos pífanos chamaram de todos os lados as hostes de Sua Majestade Imperial. Os subordinados do xá, alguns montados, outros a pé, aglomeravam-se nas cercanias do palácio. Pandemônio reinava - cada um emitia ordens, ninguém escutava, ninguém obedecia, nem entendia coisa alguma. Ardishír Mírzá, governador de Teerã, tendo já, neste ínterim, mandado suas tropas patrulharem as ruas desertas da capital, trancou os portões da cidadela, bem como os da cidade, carregou suas baterias e febrilmente despachou um mensageiro para se certificar da veracidade dos extravagantes boatos que circulavam entre a população e para pedir instruções especiais.

Mal fora perpetrado esse ato, quando sua sombra se estendeu sobre o inteiro corpo da comunidade bábí. A nação foi varrida por uma tempestades de horror, repugnância e ressentimento publico, agravada pelo implacável hostilidade da mãe do jovem soberano - situação essa que afastou toda possibilidade de uma investigação - nem sequer a mais rudimentar - sobre as origens do atentado e sobre seus instigadores. Bastava um gesto, um sussurro, para implicar um inocente e sobre ele soltar as mais abomináveis aflições. Um exército de inimigos - eclesiásticos, oficiais de estado e povo, unidos em ódio inexorável e aguardando uma oportunidade para desacreditar e aniquilar um temido adversário - havia, finalmente, conseguido o pretexto pelo qual ansiava. Poderia agora atingir seu malévolo propósito. Embora a Fé, desde seu início, tivesse negado qualquer intenção de usurpar os direitos e as prerrogativas do estado; embora seus expoentes e discípulos tivessem assiduamente evitado qualquer ato que pudesse despertar a menor suspeita de um desejo de travar uma guerra santa ou mostrar uma atitude agressiva, seus inimigos, entretanto, deliberadamente deixando de levar em conta as numerosas evidências da notável moderação exercida pelos aderentes de uma religião perseguida, provaram ser capazes de infligir atrocidades tão bárbaras como aquelas que haverão de permanecer para sempre associadas com os episódios sangrentos de Mázindarán, Nayriz e Zanján. A que profundezas de infâmia e crueldade não seria esse mesmo inimigo, disposto a baixar-se, agora que havia sido perpetrado um ato tão traiçoeiro, tão audacioso? Quais não seriam as acusações feitas por esse inimigo, e o tratamento dado, no caso das pessoas que ele quisesse implicar - embora fosse completamente injustificável - em tão horrendo crime contra aquele que em sua pessoa, combinava o supremo magistrado do reino e o representante do Imame Oculto?

O Reino de terror que sobreveio, foi de indescritível repugnância. O espírito de vingança que animava aqueles que haviam desenfreado seus horrores, parecia insaciável. Seus ecos atingiram até a própria imprensa européia, que ferreteou com a infâmia os seus sanguinários agentes.

O Grão Vizir, querendo reduzir o risco de vingança sanguinária, dividiu o trabalho de executar aqueles condenados à morte entre os príncipes e nobres, seus principais co-ministros, os generais e oficiais da Corte, os representantes das classes sacerdotais e comerciais, a artilharia e a infantaria. Até o próprio xá teve sua vítima designada, embora, a fim de salvar a dignidade da coroa, ele delegasse o seu mordomo para disparar em seu nome o tiro fatal. Ardishir Mírzá, por sua parte, estacionou piquetes nos portões da capital e mandou os guardas escrutarem os rostos de todos que queriam sair. Chamando à sua presença o prefeito, e demais autoridades, ordenou que procurassem e apreendessem cada um suspeitado de ser bábí. Um moço de nome 'Abbás, antigo servo de um bem-conhecido aderente da Fé, foi induzido, sob ameaça de tortura desumana, a andar pelas ruas de Teerã e apontar qualquer um que ele reconhecesse como bábí, sendo até coagido a denunciar qualquer indivíduo que ele achasse capaz - e disposto - a pagar um pesado suborno, a fim de obter sua liberdade.

O primeiro a sofrer naquele dia infausto foi o desditoso Sádiq, que foi morto instantaneamente na cena do atentado criminal. Seu corpo foi amarrado ao rabo de uma mula e arrastado por todo o caminho até Teerã, onde foi partido no meio, sendo cada metade suspensa e exposta à vista pública, enquanto as autoridades da cidade convidaram os habitantes de Teerã para subirem nas muralhas e contemplarem o cadáver mutilado. Na garganta de seu cúmplice despejaram chumbo fundido, depois de o haverem sujeitado à tortura de pinças em brasa e parafusos que racham os membros do corpo. Um companheiro dele, Hájí Qásim, foi despido e, com velas acesas inseridas em sua carne, foi obrigado a marchar diante da multidão que gritava e o amaldiçoava. Outros tiveram os olhos arrancados, foram cortados com serrotes, estrangulados, atirados das bocas de canhões, despedaçados, cortados ao meio com machados e clavas, lhes puseram ferraduras, apedrejados e espancados com baionetas. Traficantes de torturas rivalizaram, um ao outro, em recorrerem a toda a gama de brutalidade, enquanto a populaça, em cujas mãos foram entregues as corpos das pobres vítimas, cercava sua presa e mutilava-a a tal ponto que não restava a nenhum traço, sequer, de sua forma original. Os algozes, se bem que acostumados a sua própria horrenda tarefa, espantaram-se diante da diabólica crueldade da populaça. Mulheres e crianças podiam ser vistas, sendo conduzidas pelos algozes através das ruas, com sua carne dilacerada e com velas acesas nas feridas, enquanto alas cantavam, em vozes ressoantes, diante dos espectadores silenciosos: "Verdadeiramente, de Deus nós vimos e a Ele voltamos!" Quando algumas das crianças morriam no caminho, seus atormentadores jogavam os corpos embaixo dos pés de seus pais e irmãos, que, orgulhosamente pisando neles, não se dignaram lhes dirigir um segundo olhar. Um pai - segundo o testamento de um eminente escritor francês - para não abjurar sua fé, preferiu deixar as gargantas de seus dois jovens filhos, ambos já cobertos de sangue, serem cortados sobre seu peito, enquanto ele jazia no chão, e o maior dos dois, um menino de quatorze anos, insistindo vigorosamente em seu direito como mais velho, exigiu que fosse o primeiro a sacrificar a vida.

Um oficial austríaco, Capitão Van Goumoens, a serviço do xá nessa época, tão horrorizado ficou ante as crueldades que foi obrigado a testemunhar - conforme prova que não deixa margem a dúvidas - que se viu compelido a resignar seu posto. É este o testemunho do próprio capitão numa carta que escreveu duas semanas depois do atentado em questão, publicadas no "Soldatenfreund": "Acompanhai-me, amigo, vós que dizeis terdes coração e ética européia; acompanhai me a ver estes infelizes que, com os olhos arrancados, devem comer, o local do suplício, sem qualquer tempero, suas orelhas amputadas; ou estes cujos dentes são extraídos com desumana violência pela mão de seu executor; ou estes cujos crânios nus são esmagados a golpes de martelo; ou, ainda, estas infelizes vítimas que servem de lampadários ao mercado, tendo, à esquerda e à direita, seus peitos e ombros profundamente cavados pela populaça que insere mechas acesas nas feridas abertas. Vi alguns arrastados por correntes através do mercado, precedidos por uma banda militar, em que estas mechas tinham queimado tão fundo que a gordura pipoqueava convulsivamente como lâmpada recém-apagada. Não faro acontece que o infatigável engenho dos orientais se dirige no sentido de torturas novas. Assim, esfolarão as plantas dos pés do Bábí, embebedado as feridas em azeite fervente, calçado os pés como ferradura em casco de cavalo e obrigarão a vítima a correr. Nenhum gemido se ouve do peito da vítima; o tormento é suportado em tétrico silêncio pela sensibilidade entorpecida do fanático; deve correr, agora; o corpo não pode suportar o que a alma suportou - cai. Seja-lhe dado o "coup de grace"! Cesse sua tortura! Não! O algoz brande o chicote, e - eu tive que presenciá-lo - a infortunada vítima de cem torturas, corre! Isto é o começo do fim. Finalmente, alçam os corpos assados e perfurados pelas mãos e pés ao topo de uma árvore, de cabeça para baixo, e então cada persa pode tentar sua boa pontaria, a seu bel-prazer, a uma certa distância, mas não multo aproximada, sobre o nobre alvo à sua disposição. Vi cadáveres esfrangalhados por cerca de canto e cinqüenta balas. Quando releio o que já escrevi" - continua ele - "tenho a impressão de que aqueles que estiverem convosco em nossa mais querida Áustria duvidarão da inteira veracidade deste quadro, acusando-me de exagero. Prouvera Deus que eu não tivesse vivido para vê-lo! Por dever de minha profissão, porém, fui, infelizmente, muitas veres, demasiadas vezes, testemunha dessas barbaridades. Atualmente nunca abandono minha casa para que não venha a presenciar novas cenas de horror... Já que de toda minha alma me revolta tal infâmia, não mais estarei ligado à cena de tais crimes".

Não é de se admirar haver um homem tão famoso como Renan - em seu livro "Les Apôtres" - caracterizado a hedionda carnificina perpetrada em um só dia durante o grande massacre de Teerã como "um dia talvez sem paralelo na história do mundo!"

A mão que se estendeu para dar um golpe tão penoso aos aderentes de uma Fé que era alvo das mais aflitivas provações, não se limitou à generalidade dos perseguidos adeptos do Báb. Levantou-se com igual fúria e determinação, contra os poucos líderes restantes, abatendo com força igual, esses poucos que haviam sobrevivido à poeira dos ventos da adversidade - ventos que já haviam derribado tão vasto número dos defensores da Fé. Táhirih - aquela heroína imortal, que já havia derramado imperecível resplendor sobre seu sexo e sobre a Causa que ela esposara - foi arrastado pela furiosa tempestade e, afinal, nela engolfada. Siyyid Husayn, amanuense do Báb, companheiro de Seu exílio, a quem Ele confiara Seus últimos desejos, e a testemunha dos prodígios que acompanharam Seu martírio, também caiu, vítima de sua fúria. Aquela não teve a temeridade de se levantar até contra a sobrepujante figura de Bahá'u'lláh, mas, embora O atingisse, não conseguiu abatê-Lo. Pôs em perigo Sua vida, gravou em Seu corpo indeléveis tragos de uma crueldade impiedosa, mas foi impotente para abreviar uma carreira destinada não só a conservar vivo o fogo que o Espírito do Báb ateara, como também a produzir uma conflagração que, a um tempo consumaria e excederia em brilho as glórias de Sua Revelação.

Durante aqueles dias sombrios e angustiantes, quando o Báb nas mais existia, quando as luminárias que brilhavam no firmamento de Sua Fé haviam sido sucessivamente extinguidas, quando o sucessor por Ele nomeado - um "fugitivo confuso, disfarçado como darvish, com kashkul (cuia) na mão" - vagava pelas montanhas e planícies na vizinhança de Rasht, Bahá'u'lláh, em virtude dos atos por Ele consumados, aparecia aos olhos de um inimigo vigilante como seu mais temível adversário e a única esperança de uma heresia ainda nas extirpada. Sua apreensão e Sua morte tornaram-se agora imperativas. Foi Ele Quem, apenas três meses após o nascimento da Fé, recebeu, por intermédio do emissário do Báb, Mullá Husayn, o pergaminho que Lhe trouxe as primeiras novas da recém-anunciada Revelação, e Quem, instantaneamente, aclamou sua verdade e se levantou para ser campeão de Sua causa. Foi à Sua cidade natal e Sua morada, que os passos daquele emissário foram primeiro dirigidos, como o lugar que entesourava "um Mistério de tão transcendente santidade que nem Hijaz nem Shíráz podem esperar jamais rivalizá-lo". Foi o relato de Mullá Husayn sobre o contacto assim estabelecido,que o Báb recebera com tão exultante júbilo e que tanto Lhe confortou o coração, que Ele decidiu, afinal, empreender Sua projetada peregrinação a Meca e Medina. Bahá'u'lláh, tão somente, era objeto e centro das referências ocultas, dos ardentes elogios, das fervorosas preces, dos jubilosos anúncios de das temíveis advertências que tanto o Qayyúmu'l-Asmá como o Bayán continham, sendo estes designados a ser, respectivamente, o primeiro e o último testemunho escrito da glória de que Deus breve O haveria de investir. Ele foi Quem, através de Sua correspondência com o Autor da Fé recém-fundada e Sua íntima associação com os mais eminentes dentre seus discípulos, como Vahíd, Hujjat, Quddús, Mullá Husayn e Táhirih, lhe pôde nutrir o crescimento, elucidar os princípios, reforçar as bases éticas, preencher os urgentes requisitos, evitar alguns dos perigos imediatos que a ameaçavam e participar eficazmente de sua expansão e consolidação. Foi a Ele, "o Objeto único de nossa adoração e nosso amor", que o Profeta peregrino se referiu, quando de regresso a Búshihr, ao despedir Quddús de Sua presença, ele lhe anunciou a dupla felicidade - a de atingir a presença d'Aquele que era o Bem-Amado de ambos, e a de sorver da taça do martírio. Foi Ele Quem, na flor da vida, rejeitando toda e qualquer consideração de fama, riqueza e posição terrenas, indiferente para perigo, arriscando-se a ser condenado por Sua casta, se levantou para identificar-se, primeiro em Teerã e, mais tarde, em Sua província natal de Mázindarán, com a causa de uma seita obscura e proscrita; conseguiu para essa seita o apoio de um grande número dos oficiais e notabilidades de Núr, inclusive Seus próprios associados e parentes, expôs as verdades da Fé, intrépida e persuasivamente, aos discípulos do ilustre professor, Mullá Muhammad; alistou sob sua bandeira os designados representantes do professor, conquistando, como resultado desse ato, a lealdade incondicional de considerável número de dignitários eclesiásticos, oficiais do governo, camponeses e negociantes; e no decorrer de uma entrevista memorável, conseguiu desafiar o próprio professor. Foi devido, unicamente, à potência da mensagem escrita confiada por Ele a Mullá Muhammad Mihdiy-i-Kandí e entregue ao Báb enquanto Ele estava na vizinhança da aldeia de Kulayn, que a alma do desapontado Cativo pôde, em uma hora de incerteza e ansiedade, se livrar da angústia que d'Ele se apoderara desde Sua apreensão em Shíráz, foi Ele Quem - por causa de Tahirih e dos companheiros aprisionados - se submeteu voluntariamente a uma prisão humilhante, que durou por alguns dias - a primeira que Ele teve de sofrer - na casa de um dos kad-khudás de Teerã. Foi à Sua caução, previsão e habilidade que deve ser atribuído o sucesso de sua fuga de Qasvin, a qual a livrou de seus oponentes e lhe possibilitou a chegada em Sua casa, bem como a subseqüente transferência para um lugar seguro nas proximidades da capital, donde ela procedeu a Khurásán. Foi à Sua presença que Mullá Husayn, ao chegar em Teerã, foi secretamente conduzido, havendo ele, após a entrevista, viajado a Azerbaijão para visitar o Báb, nesse tempo confinado na fortaleza de Máhkú. Foi Ele Quem, sem ostentação ou equívoco, dirigiu a Conferência de Badasht, dando hospitalidade a Seus convidados - Quddús, Táhirih e os oitenta e um discípulos reunidos nessa ocasião, quando, cada dia, Ele revelava uma Epístola e a cada um dos que participaram, conferia um novo nome. Foi, outrossim, Bahá'u'lláh que, sem auxílio, enfrentou o assalto de uma turba de mais de quinhentos habitantes da aldeia em Niyálá; que protegeu Quddús contra a fúria de seus agressores; que conseguiu recuperar uma parte da propriedade saqueada pelo inimigo, e, tão constantemente injuriada e muito caluniada. Contra Bahá'u'lláh se incendiou a ira de Muhammad Sháh, quem, afinal, em conseqüência das persistentes representações dos malfeitores, foi induzido a ordenar Sua apreensão e chama-Lo à capital - chamado este que não estava destinado a ser atendido, por causa da morte repentina do soberano. Foi aos conselhos e às exortações de Bahá'u'lláh, dirigidos aos ocupantes de Shaykh Tabarsí - os quais O haviam acolhido com tanta reverência e tão grande amor durante Sua visita a esse Forte - que se deve atribuir, em grande parte, o espírito mostrado por seus heróicos defensores, enquanto foi às Sua explícitas instruções que se devia a miraculosa libertação de Quddús, com sua conseqüente associação com eles nas empolgantes façanhas que imortalizaram o tumulto de Mázindarán. Foi por causa desses mesmos defensores, com os quais Bahá'u'lláh tencionara aliar-se, que Ele sofreu a segunda prisão, desta vez na mesquita de Ámul, à qual foi conduzido, em meio aos clamores de nada menos que quatro mil espectadores; foi por amor a eles que suportou a bastonada - no quarto de oração do teólogo daquela cidade, até que os pés sangraram - e que, mais tarde, foi confinado na residência particular do governador; por causa deles, que foi veementemente denunciado pelo mullá principal, e insultado pela turba, que, assediando a residência do governador, O apedrejaram e Lhe arremessaram no rosto as mais abomináveis invectivas. Foi unicamente a Bahá'u'lláh que Quddús se referiu quando, ao chegar ao Forte de Shaykh Tabarsí - logo depois de apear e se encostar no santuário - pronunciou o versículo profético: "O Baqíyyatu'lláh (o Remanescente de Deus) vós será o melhor, se sois dos que crêem." Foi Ele, tão somente, o Objeto daquele prodigioso elogio, daquela interpretação magistral do Sád de Samad - parte da qual foi escrita, nesse mesmo Forte, pelo mesmo jovem herói, nas mais aflitivas circunstâncias - equivalente em dimensão a seis vezes o volume do Alcorão. À data de Sua impendente Revelação foi que o Lawh-i-Hurúfat - revelado em Chihrí'q pelo Báb, em honra de Dayyán - se referiu, de modo oculto e, no qual se desvendou o mistério do "Mustagháth". Para atingir a presença de Bahá'u'lláh, a atenção de outro discípulo, Mullá Báqir, uma das Letras dos Viventes, foi expressamente dirigida pelo próprio Báb. De acordo com instruções que Ele Próprio dera antes de Sua partida de Chihríq, foram entregues exclusivamente a Seu cuidado os documentos do Báb, Sua lapiseira, Seus selos e anéis de ágata, juntamente com um pergaminho no qual Ele havia delineado, em forma de estrela de cinco pontas, nada menos de trezentos e sessenta derivativos da palavra Bahá. Foi devido, unicamente, à iniciativa de Bahá'u'lláh e de estrita conformidade com Suas instruções, que os preciosos restos mortais do Báb foram transferidos de Tabríz para a capital, e escondidos e salvaguardados com o Maximo sigilo e cuidado durante todos os anos turbulentos que seguiram Seu martírio. E, finalmente, foi Bahá'u'lláh, enquanto residia temporariamente em Karbilá, nos dias antes do atentado contra a vida do xá, quem difundira - com aquele mesmo entusiasmo e habilidade que haviam distinguido Seus esforços anteriores em Mázindarán - os ensinamentos de Seu falecido Líder e foi por Seu intermédio que se havia salvaguardado os interesses de Sua Fé e revivificado o zelo dos entristecidos adeptos, e que se conseguira organizar as forças daqueles aderentes dispersos e desorientados.

Um homem como esse, com tamanho rol de realizações a Seu credito, não podia escapar - e de fato não escapou - à averiguação ou à fúria de um inimigo vigilante, posto plenamente alerta. Esse homem, inflamado, desde mesmo o início, com um irrestrito entusiasmo pela Causa que Ele esposara; conspicuamente destemido em Sua defesa dos direitos dos espezinhados; em pleno viço da juventude; de imensa capacidade; de inigualável eloqüência, dotado de inesgotável energia e de juízo penetrante; possuidor de riquezas e gozando plenamente da estima, do poder e do prestígio associados com uma invejavelmente alta e nobre posição e, no entanto, desdenhoso de toda a pompa, todas as recompensas, vaidades e possessões terrenas; por um lado, estreitamente associado, através de Sua correspondência regular, com o Autor da Fé que Ele se levantara para defender e, por outro, conhecendo intimamente as esperanças e os receios, os planos e as atividades de seus principais expoentes; em uma ocasião, avançando abertamente e assumindo uma posição de reconhecida liderança na vanguarda das forças, lutando pela emancipação da Fé, em outra, deliberadamente recuando, com consumida discrição, a fim de remediar, com maior eficácia, uma situação embaraçosa ou perigosa; em todas as ocasiões vigilante, pronto e incansável em Seus esforços para preservar a integridade dessa Fé, lhe resolver os problemas, pleitear a causa, galvanizar os seguidores e confundir os adversários - esse homem, Bahá'u'lláh, nesta hora supremamente crítica nas fortunas da Fé, estava, enfim, subindo ao próprio centro do palco que o Báb tão tragicamente deixara vago - palco este, no qual Ele estava destinado, por um período não inferior a quarenta anos, a desempenhar um papel de cuja majestade, cujo patético e cujo esplendor nenhum dos grandes Fundadores das religiões históricas do mundo jamais se aproximara.

Já havia essa tão proeminente e elevada figura - por causa das acusações contra Ele feitas - ateado a ira de Muhammad Sháh, que, ao saber o que sucedera em Badasht, tinha ordenado Sua apreensão, em várias ordens dirigidas aos kháns de Mázindarán, e expressado a determinação de sentencia-Lo à morte, Hájí Mírzá Áqásí, anteriormente desafeiçoado do Vizír (o pai de Bahá'u'lláh) e enfurecido por seu próprio insucesso em se apropriar, por fraude, de bens pertencentes a Bahá'u'lláh, havia jurado inimizade eterna Àquele que tão brilhantemente conseguira lhe frustrar os maus desígnios. O Amír-Nizám, ainda mais, bem ciente da extensiva influência de tão enérgico oponente, havia, na presença de um grupo de notabilidade, O acusado de ter infligido ao governo um prejuízo não inferior a cinco kurúrs, em conseqüência de Suas atividades, e Lhe havia pedido, em um momento crítico nas fortunas da Fé, que transferisse Sua residência, temporariamente, a Kabirlá. Mírzá Aqá Khán-i-Niví, sucessor do Amir-Nízám, se esforçara, mesmo no início de seu ministério, em efetivar uma reconciliação entre seu governo e Aquele que ele considerava o mais capaz dos discípulos do Báb. Não é de se admirar que, mais tarde, ao ser cometido tão grave e temeroso ato, uma suspeita tão terrível como infundada tivesse, de imediato, se insinuado nas mentes do xá, de seu governo, sua corte e seu povo, contra Bahá'u'lláh. Na vanguarda destes estava a mãe do jovem soberano, que, inflamada de indignação, O denunciava abertamente, como aquele que queria assassinar seu filho.

Ao ser cometido o atentado contra a vida do soberano, Bahá'u'lláh encontrava-se em Lavázán como convidado do Grão-Vizir e estava hospedado na aldeia de Afchih quando recebeu as graves notícias. Recusando-se a atender ao conselho do irmão do Grão-Vizir, Já'far-Qulí Khán, que O hospedava, para que permanecesse oculto naquelas paragens, e declinando os favores do mensageiro, enviado especialmente para garantir Sua segurança, partiu, na manhã seguinte, intrepidamente sereno, rumo ao quartel-general do exército imperial, cuja sede era, então, em Níyavarán, distrito de Shimírán. Foi ele encontrado na vila de Zarkandih, entretanto, por seu cunhado Mírzá Majíd, e levado para a casa deste. Esse cunhado trabalhava naquele tempo como secretário do ministro da Rússia, Príncipe Dolgorouki, e sua morada era contígua à de seu superior. Informados da chegada de Bahá'u'lláh, os subordinados do Hájibu'd-Dawlih, Hájí 'Ali Khán, imediatamente notificaram seu superior, que, por sua vez, levou o fato ao conhecimento do soberano. O xá, sumamente admirado, enviou seus agentes de confiança à Legação, exigindo que o Acusado fosse entregue incontinenti às mãos desses funcionários. Recusando-se a atender aos desejos dos emissários reais, o ministro russo rogou a Bahá'u'lláh que voltasse para a casa do Grão-Vizir, a quem em seguida comunicou formalmente seu desejo de que a segurança da Pessoa que o governo russo confiava à sua guarda fosse garantida. Este propósito, porém, não foi alcançado em virtude de recear o Grão-Vizir a perda de seu cargo, caso desse ao Acusado a proteção requerida.

Assim foi entregue às mãos de Seus algozes este mui temido, severamente acusado e ilustre Expoente de uma Fé perseguida sem tréguas, tendo Ele agora que bebeu no mesmo cálice cujo amargo conteúdo Aquele anteriormente reconhecido como seu Chefe, sorvera até a última gota.

De Níyávarán Ele foi conduzido "a pé e em correntes, com a cabeça descoberta e pés descalços", exposto aos severos raios do sol estival, ao Síyáh-Chál de Teerã. No caminho foi repetidas vezes despido de Sua roupa exterior, sujeitado a ridículo e apedrejado. Quanto ao calabouço em que foi atirado, e que antes servira de reservatório de água para um dos banhos públicos da capital, sejam Suas próprias palavras, registradas em Sua "Epístola ao Filho do Lobo", testemunhas da provação que suportou nessa pestilenta cova. "Estivemos confinados, durante quatro meses, num lugar indescritivelmente imundo... Após chegarmos, fomos conduzido através de um corredor muito escuro, daí descendo três escarpados lances de escadas, para chegar ao lugar de enclausuramento que Nos era designado. O Calabouço achava-se mergulhado em intensa obscuridade e Nossos companheiros de clausura, cerca de cento e cinqüenta, eram ladrões, assassinos e salteadores de estrada. Não obstante o amontoamento, outra saída não havia senão a passagem por onde entráramos. Pena alguma poderá descrever esse lugar, nem palavra qualquer dar a idéia plena de seu nauseabundo odor. A maioria desses homens não tinha roupas nem camas em que repousar. Só Deus sabe o que suportamos nesse tão fétido quão obscuro lugar!" Bahá'u'lláh foi posto com os pés em tronco*, e à volta do Seu pescoço foram penduradas as correntes de Qará-Guhar, de tão opressivo peso, que as marcas permanecem indeléveis em Seu corpo pelo resto de Sua vida. "Uma pesada corrente" - testemunha o próprio Abdu'l-Bahá - "foi colocada em torno de Seu pescoço, pela qual Ele ficava encadeado a cinco outros bábís; esses grilhões foram presos um ao outro por fortes e pesadíssimos ferrolhos e tarraxas. Suas roupas e turbante se haviam tornado farrapos. Nesta terrível situação Ele permaneceu durante quatro meses." Por três dias e três noites foi-lhe negada toda a sorte de alimento ou bebida. Era-lhe impossível conciliar o sono. O lugar era frio e úmido, imundo, pestilento, infestado de ratos e tomado por insuportável mau cheiro. Obcecados por implacável ódio, Seus desafetos chegaram ao ponto de interceptar e envenenar Sua comida, na esperança de caírem nas graças da mãe do soberano, Sua acérrima inimiga - atentado que, não obstante debilitar Sua saúde daí por diante, não logrou alcançar seu propósito. O Dr. J.E.Esslemont conta em seu livro: "Abdu'l-Bahá narra como, certo dia, lhe foi permitida a entrada no pátio da prisão para ver Seu querido Pai, quando saía Este para o exercício diário. Bahá'u'lláh se achava terrivelmente transfigurado, tão doente que mal podia caminhar, cabelos e barba em desalinho, o pescoço esfolado e inchado devido à pressão do pesado colar de aço, e Seu corpo curvado ao peso de Suas cadeias."

Enquanto se impunha a Bahá'u'lláh tão odiosas e cruéis provações e sofrimentos, característicos desses tumultuosos dias, outro luminar da Fé, a destemida Táhirih, sucumbia rapidamente ao poder devastador de semelhantes tribulações. Sua meteórica carreira, inaugurada em Karbilá, culminando em Badasht, estava agora às vésperas de atingir seu ponto final, por vias de um martírio que bem pode ser qualificado como um dos mais comoventes episódios do mais agitado período da história bahá'í.

Esse luminar da Fé, descendente de uma família de alta reputação, a de Hájí Mullá Sálih-i-Baragání, cujos membros ocupavam uma posição invejável na hierarquia eclesiástica da Pérsia; homônimo da ilustre Fátimih; designada Zarrín-Taj (Coroa de Ouro) e Zakíyyih (Virtuosa) por sua família e seus parentes; nascida no mesmo ano que Bahá'u'lláh; desde a infância considerada, por seus concidadãos, um prodígio em virtude tanto de sua inteligência como de sua formosura, e antes de sua conversão altamente estimada - até por alguns dos mais saltivos e eruditos ulemás de seu país - pelos pareceres brilhantes e originais por ela apresentados; aclamada como Qurratu'l-Ayn (consolo de meus olhos) por seu instrutor e admirador, Siyyid Kázim; intitulada Táhirih (a Pura) pela "Língua de Poder e Glória"; e a única mulher listada pelo Báb como uma das Letras do Viventes - esse luminar da Fé, através de um sonho, mencionado anteriormente nestas paginas, estabelecera seu primeiro contato com uma Fé que ela, até seu último momento, continuou a propagar - e na hora em que a Fé mais gravemente periclitava - com todo o ardor de seu indomável espírito. Os veementes protestos de seu pai não a puderam deter; os anátemas do tio, ela os recebia com desdém; diante das fervorosas solicitações de esposo e irmãos, mantinha-se inabalável; as medidas tomadas pelas autoridades civis e eclesiásticas, primeiro em Karbilá e subseqüentemente em Bagdá e, mais tarde, em Qasvín, a fim de lhe reprimir as atividades, não a fizeram vacilar - com ardorosa energia promovia ela a Causa Bábí. Através de seus eloqüentes apelos e suas intrépidas denúncias, com dissertações, poemas e traduções, comentários e correspondência, ela persistia em inflamar a imaginação e alistar a lealdade de árabes bem como de persas, à nova Revelação, em condenar a perversidade de sua geração e em apoiar uma transformação revolucionária nos hábitos e modos de seu povo.

Enquanto esteve em Karbilá - principal cidadela do islã xiita - fora Táhirih movida a dirigir longas epístolas a cada um dos ulemás residentes nessa cidade, os quais relegavam a mulher a um grau pouco superior ao do animal, nem sequer admitindo que ela possuísse alma. Nessas epístolas, Táhirih vindicou habilmente seu objetivo elevado e expôs os malévolos desígnios deles. Desafiando abertamente os costumes dos fanáticos habitantes daquela mesma cidade, ela audazmente deixou de comemorar o aniversário do martírio do Imame Husayn, ocasião de elaborada cerimônia nos primeiros dias de Muharram e, em seu lugar, celebrou o aniversario natalício do Báb, que era no primeiro dia desse mês. Foi em virtude de sua prodigiosa eloqüência e da espantosa força de seu argumento que Táhirih confundiu a delegação representativa composta por notabilidades xiitas, sunitas, cristãs e judias de Bagdá, a qual tentara dissuadi-la de seu declarado propósito de difundir a nova Mensagem. Foi ela quem defendeu com consumada habilidade sua fé, e que vindicou sua conduta na presença daquele eminente jurista, Shaukh Mahmud-i-Alúsí, o Muftí de Bagdá, e em sua casa, de que mais tarde teve suas históricas entrevistas com os príncipes, os ulemás e os oficiais do governo residentes em Kirmánsháh, durante os quais o comentário do Báb sobre a Sura de Kawthar foi lido publicamente e traduzido, culminando isso na conversão do Amír (o governador) e de sua família. Foi essa mulher de tão extraordinários dons, que empreendeu a tradução do longo comentário do Báb sobre a Súrih de José (o Qayymu'l-Asmá), em benefício de seus correligionários persas, e envidou os máximos esforços em disseminar o conhecimento daquele poderoso Livro e lhe elucidar o conteúdo. Foi devido à sua intrepidez, sua destreza, sua habilidade em organizar, e a seu inextinguível entusiasmo, que foram consolidadas suas vitórias recentemente ganhas em um centro tão hostil como a cidade de Qasvín, a qual se orgulhava do fato de que residiam dentro de seus portais nada menos que cem dos mais altos chefes eclesiásticos do islã.

Foi ela que, na cada de Bahá'u'lláh em Teerã, no decorrer de sua memorável entrevista com o celebre Vahíd, repentinamente interrompeu seu erudito discurso acerca dos sinais do novo Manifestante e com veemência exortou-o - enquanto acalentava Abdu'l-Bahá, então uma criança, no seu regaço - a levantar-se e demonstrar com atos de heroísmo e sacrifício a profundeza e a sinceridade de sua fé. Foi às suas portas durante o auge de sua fama e popularidade em Teerã, que a flor da sociedade feminina da capital se ajuntava para ouvir seus brilhantes discursos sobre os incomparáveis princípios de sua Fé. Foi a magia de suas palavras que atraiu os convivas presentes às festividades de núpcias, quando do casamento do filho de Mahmúd Khán-i-Kalantar - em cuja casa ela estava detida - e arrebanhou-os em sua volta, ansiosos de sorver cada palavra sua. Foi a sua apaixonada e irrestrita afirmação das reivindicações e distintas características da nova Revelação, numa serie de sete conferências mantidas com os delegados do Grão-Vizir incumbidos de interroga-la, enquanto detida naquela casa, que finalmente precipitou-a sentença de morte. Foi ainda de sua pena que em inconfundível linguagem verteram odes, atestadores não somente da sua fé na Revelação do Báb, mas, também, do seu reconhecimento da elevada e ainda incógnita missão de Bahá'u'lláh. E por fim, devido à sua iniciativa, quando participou da Conferência de Badasht, os mais intrincados pontos de uma Revelação revolucionária - até então muito pouco compreendida - foram elucidados aos seus correligionários como também a nova ordem foi definitivamente separada das leis e instituições do islã. Tão maravilhosas realizações vinham agora coroar-se e atingir sua consumação final através do seu martírio, em meio da tempestade que desabava sobre a capital.

Uma noite, certa de que a hora de sua morte se avizinhava, ataviou-se como para um casamento, perfumou-se e, mandando chamar a esposa do Kalantar, comunicou a esta o segredo de seu próximo martírio e confiou-lhes suas últimas vontades. Então, recolhendo-se aos seus aposentos, esperou, em preces e meditação, pela hora em que iria reunir-se ao seu Bem-Amado. Ia e vinha pelo quarto, cantando uma expressiva litania mista de dor e triunfo, quando, na calada da noite, chegaram os farráshes de 'Azíz Khán-i-Sardár para conduzi-la ao jardim de Ilkhání, situado fora dos muros da cidade, e que estava destinado a ser o local do seu suplício. Quando ela chegou, o Sardár achava-se entregue, com seus tenentes, a uma orgia de bebedeiras e gargalhadas; ordenou sumariamente que ela fosse em seguida estrangulada e lançada a um poço. Com o próprio lenço de seda, que intuitivamente guardara para esse fim, tendo-o entregue nos seus derradeiros momentos ao filho do Kalantar, que a acompanhava, foi consumado o fim desta heroína imortal. Seu corpo foi baixado a um poço, que foi, então, entulhado de terra e pedras, conforme havia sido o seu desejo.

Assim terminou a vida desta grande heroína bábí, a primeira sufragista mártir que, na hora de sua morte, dirigindo-se àquele a cuja custódia fora entregue, intrepidamente declarou: "Podeis matar-me, quando bem o quiserdes, mas não podereis impedir a emancipação das mulheres". Sua carreira foi tão brilhante quanto breve, tão trágica quanto cheia de acontecimentos. Ao contrário do que ocorreu com os irmãos de fé, cujos feitos continuaram ignorados, na sua maior parte, não sendo contados pelos seus contemporâneos em terras estranhas, a fama desta imortal mulher ultrapassou fronteiras, atingindo com incrível celeridade as capitais da Europa Ocidental, e despertou entusiástica admiração, evocando o ardente louvor de homens e mulheres de diversas nacionalidades, profissões e culturas. Não é de estranhar, pois, que Abdu'l-Bahá houvesse juntado o nome de Táhirih aos de Sara, de Asiyíh, da Virgem Maria e de Fátima, as quais, no decurso das sucessivas Revelações, pairaram, em razão de seus méritos intrínsecos e posição inigualável, acima da generalidade do seu sexo.

"Em eloqüência", escreveu o próprio Abdu'l-Bahá, "foi ela a calamidade da época e, em raciocínio, o embaraço do mundo". Ele, ainda mais, a descreveu como "um facho aceso com o amor de Deus" e "uma lâmpada ardendo com a graça de Deus".

De fato, a admirável história de sua vida propagou-se tão extensa e tão celeremente quanto a do próprio Báb, Fonte direta de sua inspiração. "Prodígio de conhecimento, mas também prodígio de beleza", é o tributo que lhe foi prestado por um renomado comentador sobre a vida do Báb e a de Seus discípulos. "A Joana d'Arc persa, líder da emancipação para as mulheres do Oriente... que se assemelhava tanto à Heloisa medieval como à Hypatia neo-platônica" - assim a aclamou um famoso dramaturgo de sua vida. "O heroísmo da encantadora mas desditosa poetiza de Qasvín, Zarrín-Táj (Coroa de Ouro)..." atesta Lord Curzon de Kedleston, "e um dos episódios mais comoventes da história moderna." "O aparecimento de uma mulher como Qurratu'l-'Ayn", escreveu o conhecido orientalista britânico, professor E.G.Browne, "é, em qualquer país e qualquer época, um fenômeno raro, mas, em um país como a Pérsia, é um prodígio - não, quase um milagre... Se a religião bábí não tivesse outra prova de grandeza, bastaria esta... haver produzido uma heroína como Qurratu'l-'Ayn.". "A colheita semeada em terras islâmicas por Qurratu'l-'Ayn", afirma significativamente o renomado eclesiástico inglês. Dr. T.K.Cheyne, em um de seus livros, "começa agora a aparecer... essa nobre mulher tem o credito de haver iniciado a lista de reformas sociais na Pérsia..." "Seguramente uma das mais impressionantes e mais interessantes manifestações dessa religião", é a referência que lhe foi feita pelo ilustre diplomata e brilhante escritor francês, Comte de Gobineau. "Em Qasvín", acrescenta ele, "com toda justificação era ela considerada um prodígio." "Muitas pessoas", escreveu ele ainda, "que a conheciam e ouviram em vários períodos de sua vida, me têm contado invariavelmente... que quem a ouvia falar se sentia comovido até as profundezas da alma e cheio de admiração, emocionado a ponto de chorar." "Nenhuma memória", escreve Sir Valentine Chirol, "é mais profundamente venerada ou incita maior entusiasmo do que a sua, e a influência que ela exercia beneficia ainda seu sexo." "Ó Táhirih!" exclama em seu livro o grande escritor e poeta da Turquia, Sulaymán Názim-Bey, "tu vales por mil Násiri'd-Dín Sháhs!" "O maior ideal da feminilidade foi Táhirih", é o tributo que lhe foi prestado pela mãe de um dos presidentes da Áustria, Marianna Hainisch, "... eu tentarei fazer para as mulheres da Áustria aquilo que Táhirih deu a vida para benefício das mulheres da Pérsia."

Numerosos e diversos são seus ardentes admiradores que, por todos os cinco continentes, anseiam por saber mais a seu respeito. Muitos são aqueles cuja conduta tem sido enobrecida por seu exemplo inspirador; muitos, aqueles que têm memorizado as inigualáveis odes de Táhirih, ou composto música para seus poemas, ou que guardam ante seus olhos a ardente visão de seu indomável espírito, em cujos corações estão entesourados um amor e uma admiração que jamais o tempo poderá diminuir, e em cujas almas flameja a determinação de trilhar tão destemidamente e com a mesma fidelidade, a senda que ela escolheu para si a da qual nunca se desviou, desde o momento de sua conversão até a hora de sua morte.

O violento vendaval de perseguição que havia varrido Bahá'u'lláh para uma masmorra subterrânea e apagado a luz de Táhirih, também selou o destino do distinto amanuense do Báb, Siyyid Husayn-i-Yazdí, apelidado 'Azíz, que participara de Seu encarceramento em Máh-Kú, como também em Chihríq, um homem rico em experiências e de alto mérito, profundamente versado nos ensinamentos de seu Mestre e gozando Sua confiança incondicional. Todas as oportunidades de libertação que os principais oficiais de Teerã lhe ofereciam, ele recusava, ansiando incessantemente pelo martírio que lhe fora negado no dia em que o Báb sacrificou a vida na praça do quartel de Tabríz. Foi companheiro de prisão de Bahá'u'lláh, no Síyáh-Chál de Teerã, Dele derivando inspiração e consolo, enquanto recordava aqueles dias preciosos passados na companhia de seu Mestre em Azerbaijão. Finalmente foi ele abatido, em circunstâncias de vergonhosa crueldade, por aquele mesmo 'Azíz Khán-i-Sardár que infligira à Táhirih o golpe fatal.

Outra vítima das horrendas torturas infligidas por um inimigo implacável foi o magnânimo Hájí Sulaymán Khán, homem de prestígio e de grande coragem. A tal ponto era ele estimado que o Amír-Nizám, em uma ocasião anterior, se sentira constrangido a não levar em conta sua ligação com a Fé que abraçara, e lhe poupar a vida. A turbulência que convulsionou Teerã como resultado da tentativa contra a vida do soberano, entretanto, precipitou sua apreensão e levou a seu martírio. O xá, não tendo conseguido induzi-lo, por intermédio do Hájibu'd-Dawlih, a retratar-se, ordenou que fosse executado de qualquer modo que ele próprio escolhesse. De acordo com seu expresso desejo, furaram-lhe a carne em nove lugares, em cada um dos quais foi colocada uma vela acesa. Como o algoz recuara, não querendo cumprir essa horrível tarefa, ele havia tentado tirar a faca de sua mão a fim de que ele mesmo pudesse mergulha-la em seu próprio corpo. O algoz, porém, receando que ele o atacasse, recusou, e mandou seus homens amarrarem as mãos da vítima para trás. O intrépido sofredor pediu, então, que lhe fizessem duas cavidades no peito, duas nos ombros, uma no pescoço, e quatro outras nas costas - e a esse desejo acederam. Mantendo-se ereto como uma seta, os olhos ardendo de fortaleza estóica, não perturbado pelos brados da multidão ou pelo espetáculo de seu próprio sangue que jorrava das feridas precedido por menestréis e tamborileiros, ele conduzia a turba que a seu redor se aglomerava, até o lugar final de seu martírio. De poucos em poucos passos, ele interrompia a marcha para se dirigir aos espantados espectadores, glorificando em suas palavras o Báb, e magnificando a significação de sua própria morte. À medida que seus olhos fitavam as velas que adejavam nos orifícios sangrentos, ele emitia exclamações de irreprimível deleite. Sempre que uma das velas caía, ele com sua própria mão a apanhava e, acendendo-a com uma outra, colocava-a novamente no lugar. "Por que não danças?" perguntou o algoz, zombando dele, "já que achas tão agradável a morte?" "Danças?" exclamou a vítima, "Em uma mão o cálice de vinho, em uma mão as madeixas do Amigo. Tal dança no meio do mercado é meu desejo!" Ele estava ainda no bazar quando o soprar de uma brisa, abanando as chamas das velas que agora queimavam bem fundo na carne, a fez chiar, e com isso ele exclamou, dirigindo-se às chamas que corroíam suas feridas: "Há muito tempo, ó chamas, perdestes vosso aguilhão, e vos foi roubado o poder de me infligir dor. Apressai-vos, pois de vossas próprias línguas de fogo posso ouvir a vos que me chama a meu Bem-Amado." Em um fulgor de luz andou ele, assim como um conquistador poderia ter marchado à cena de sua vitória. Ao pe do cadafalso, levantou a voz mais uma vez, em um apelo final à multidão de espectadores e, em seguida, se prostrou em direção ao santuário do Imame Zádih Hasan, murmurando algumas palavras em árabe. "Meu trabalho está agora terminado", exclamou ele ao algoz, "vem e faze o teu." Vida ainda nele persistia, enquanto seu corpo estava sendo serrado no meio, e louvor a seu Bem-Amado ainda tremulava em seus lábios desfalecentes. Os chamuscados e sangrentos restos de seu corpo - assim como ele mesmo pedira - foram suspensos dos dois lados do Portão de Naw, mudas testemunhas do amor inextinguível que o Báb acendera nos peitos de Seus discípulos.

A violenta conflagração em conseqüência do intentado assassínio do soberano não podia ser restrita à capital. Alastrou-se pelas províncias adjacentes, assolou Mázindarán, a província natal de Bahá'u'lláh, acarretando em seu rastro o confisco, o saque e a destruição de todas as Suas possessões. Na aldeia de Tákur, no distrito de Núr, Sua casa suntuosamente mobiliada, herdada de Seu pai, foi, por ordem de Mírzá Abu-Talib-Khán, sobrinho do Grão-Vizir, completamente pilhada, sendo destruído tudo aquilo que não pudessem levar, enquanto seus aposentos, mais majestosos do que os dos palácios de Teerã, foram irreparavelmente danificados. Até as casas do povo foram arrasadas, depois do que incendiaram a aldeia inteira.

A comoção que se apoderara de Teerã e dera início à campanha de ultrajes e devastação em Mázindarán, espalhou-se até mesmo a Yazd, Nayríz e Shíráz, abalando as aldeias mais remotas e ateando de novo as chamas da perseguição. Mais uma vez ávidos governadores e pérfidos subordinados rivalizaram-se entre si em roubarem os inocentes, em massacrarem aqueles que nenhuma culpa tinham e em desonrarem os mais nobres de sua raça. Seguiu-se uma carnificina na qual se repetiram as atrocidades já perpetradas em Nayríz e Zanján. "Minha pena," escreve o cronista dos episódios sanguinários associados com o nascimento e o desenvolvimento de nossa Fé, "recua com horror ao tentar descrever o que sobreveio àqueles valorosos homens e mulheres... o que tenho tentado contar dos horrores do assedio de Zanján empalidece diante da flagrante selvageria das atrocidades perpetradas alguns anos depois em Nayríz e Shíráz." As cabeças de nada menos que duzentas vítimas dessas erupções de fanatismo feroz foram empaladas em baionetas e levadas em um triunfo de Shíráz e Abadih. Quarenta mulheres e crianças foram carbonizadas em uma caverna, onde se empilhara uma vasta quantidade de lenha, a qual, depois de ser saturada de nafta, se acendeu. Trezentas mulheres foram obrigadas a montar, duas em cada cavalo, sem sela, por todo o caminho, até Shíráz. Despidas de quase todas as vestes, foram conduzidas entre fileiras de cabeças cortadas dos corpos inanimados de seus esposos e filhos, pais e irmãos. Indizíveis insultos foram sobre elas amontoadas, e tais eram as durezas sofridas, que muitas pereceram.

Assim chegava a um termino um capítulo que registra, para todo o tempo, o período mais sangrento, mais trágico e mais heróico do primeiro século bahá'í. As torrentes de sangue que jorraram durante aqueles anos movimentados e calamitosos podem ser considerados como constituindo as sementes férteis daquela Ordem Mundial que uma Revelação ainda maior, sucedendo rapidamente, haveria de proclamar e estabelecer. Os tributos prestados ao nobre exército dos heróis, santos e mártires dessa Época Primitiva - tanto por inimigo como por amigo, desde o próprio Bahá'u'lláh até o mis desinteressados observadores em terras longínquas, e desde o momento de seu nascimento até o tempo presente - dão imperível testemunho da glória das façanhas que imortalizaram essa Época.

"O mundo inteiro," é o incomparável testemunho de Bahá'u'lláh no Kitáb-i-Íqán, "maravilhou-se da maneira de seu sacrifício... A metade confunde-se ao contemplar seus feitos e a alma admira-se de sua fortaleza e sua resistência física... Alguma época já testemunhou tão momentosos acontecimentos?" E ainda: "Terá o mundo desde os dias de Adão, presenciado tumulto igual, tão violentas comoções?... A paciência, parece-me, foi revelada somente em virtude de sua fortaleza, e a própria fidelidade foi gerada somente por suas façanha." "Através do sangue por eles derramado" - Ele, em uma oração, referindo-se mais especificamente aos mártires da Fé, afirmou, de modo significativo, "a terra impregnou-se das admiráveis revelações de Teu poder e dos valiosos sinais de Tua gloriosa soberania. Dentro em breve haverá ela de promulgar suas novas, quando tiver vindo o tempo determinado."

A quem poderiam ser aplicadas essas palavras significativas de Maomé, o Apostolo de Deus - citadas por Quddús quando se dirigiu aos companheiros no Forte de Shaykh Tabarsí - senão àqueles heróis de Deus que inauguram, com seu sangue vital, o Dia do Prometido? "Oh, quanto anseio por contemplar o semblante de Meus irmãos - Meus irmãos que aparecerão no fim do mundo! Bem-aventurados somos Nós; bem-aventurados são eles; maior é sua bem-aventurança do que a Nossa." A quem poderia se referir esta tradição, chamada Hadíth-i-Jábir, registrada no Káfí e autenticada por Bahá'u'lláh no Kitáb-i-Íqán, a qual, em linguagem indubitável, expõe os sinais do aparecimento do prometido Qá'im? "Seus santos serão humilhados em Seu tempo, e as cabeças deles serão trocadas como presentes, assim como o são as cabeças do turco e do deylamita; eles serão mortos e queimados; deles o medo se apoderará; desalento e alarme lhes atemorizarão os corações; a terra será tinta pelo seu sangue; suas mulheres cairão em prantos e lamentos; são esses, em verdade, os Meus santos."

"Narrativas de magnífico heroísmo", é o testemunho escrito de Lord Curzon de Kedleston, "iluminam as páginas sangrentas da história bábí... Os fogos de Smithfield não incitaram uma coragem mais nobre do que aquela que enfrentou e desafiou os mais requintados atormentadores de Teerã. Não devem ser de pouco valor, pois, os preceitos de uma crença que pode despertar em seus seguidores tão raro e belo espírito de sacrifício. O heroísmo e o martírio de Seus (do Báb) seguidores apresentarão um apelo a muitos outros que não podem encontrar fenômenos semelhantes na história contemporânea do islã." "O bábísmo", escreveu o professor J.Darmesteter, "que se difundiu em menos de cinco anos, de uma extremidade da Pérsia à outra, que em 1852 foi banhado no sangue de seus mártires, tem progredido e se propagado silenciosamente. Se a Pérsia há de ser, em algum grau, regenerada, será através dessa nova Fé." "alguns milhares de mártires," atesta Renan em seu livro "Lês Apôtres", "têm-se apressado em ir a ele (o Báb), com alegria, para enfrentar a morte. Um dia talvez sem igual na história do mundo, foi aquele da grande carnificina que se fez com os bábís em Teerã." Declara o conhecido orientalista, professor E.G.Browne: "Uma daquelas estranhas erupções de entusiasmo, fé, fervorosa devoção e indomável heroísmo... o nascimento de uma Fé que talvez - não é impossível - ganhe um lugar entre as grandes religiões do mundo." E ainda: "O espírito que predomina os bábís é tal que dificilmente deixará de afetar muito poderosamente todos aqueles que vêm a se sujeitar à sua influência... Que aqueles que não têm visto isso, me desacreditem se quiserem, mas se esse espírito se lhes revelasse alguma vez, eles haveriam de experimentar uma emoção que não facilmente esqueceriam." "Confesso", é a afirmação feita por Comte de Gobineau em sua obra, "que, se eu visse na Europa uma seita de natureza semelhante ao bábísmo, apresentando-se com vantagens como as suas, fé cega, grande entusiasmo, coragem e devoção comprovadas, respeito inspirado nos indiferentes, terror profundo inspirado nos adversários e, além disso, como já tenho dito, um proselitismo que não se detém, e cujo êxito é constante em todas as classes da sociedade - digo que se eu visse, tudo isso suceder na Europa, eu não hesitaria em predizer que, em um dado momento, o poder e o cetro pertenceriam, forçosamente, àqueles que possuíam essas grandes vantagens."

"A verdade do assunto" - é a resposta que, segundo se diz, foi dada por Abbás-Qulí Khán-i-Lárijáni - aquele cuja bala foi responsável pela morte de Mullá Husayn - a uma pergunta que o Príncipe Ahmad Mírzá lhe dirigiu, na presença de várias testemunhas - "é que qualquer um que não tivesse visto Karbilá, se tivesse visto Tabarsí, não só teria compreendido o que lá aconteceu, como também teria deixado de considera-lo; e tivesse ele visto Mullá Husayn de Bushrúyih, teria se convencido de que o Chefe dos Mártires (Imame Husayn) havia regressado à terra; e tivesse ele presenciado meus atos, teria seguramente dito: - Este é Shimr voltado com espada e lança... Em verdade, não sei o que fora mostrado a essas pessoas, ou o que haviam visto, para saírem à batalha com tanta alacridade e alegria... A imaginação do homem não pode conceber a veemência de sua coragem e seu valor."

Em conclusão - bem podemos perguntar a nós mesmos - qual foi o destino daquele banho vicioso que, atuado por malicia, por cobiça ou por fanatismo, tentou extinguir a luz que o Báb e Seus seguidores haviam difundido sobre seu país e seu povo. A vara do castigo de Deus, rapidamente e com inexorável severidade, a ninguém poupou, nem o Supremo magistrado do reino, nem seus ministros e conselheiros, nem os dignitários eclesiásticos da religião com a qual seu governo estava indissoluvelmente ligado, nem os governadores que o representavam, nem os comandantes de suas forças armadas, todos os quais, em vários graus, deliberadamente, ou por medo ou por descuido, contribuíram às hediondas provações pelas quais, tão imerecidamente, uma Fé, ainda na infância, teve que passar.

O próprio Muhammad Sháh, um soberano a um tempo intolerante e irresoluto, que recusou atender ao apelo do Báb e recebe-lo na capital para Lhe possibilitar demonstrar a verdade de Sua Causa, cedendo antes, às importunações de um ministro malévolo, sucumbiu - com a idade de apenas quarenta anos, depois de haver sustentado um súbito revés de fortuna - a uma complicação de moléstias, e foi condenado àquele "fogo infernal" que o Autor do Qayyúmu'l-Asmá jurara haveria de o devorar "no Dia da Ressurreição".

O instigador do xá, o onipotente Hájí Mírzá Áqásí, o poder atrás do trono e principal instigador dos ultrajes perpetrados contra o báb, inclusive Seu encarceramento nas montanhas de Azerbaijão, foi - após um intervalo de apenas um não e seis meses desde o tempo em que ele se interpôs entre o xá e seu Cativo - derrubado do seu poder, privado de suas riquezas fraudulentamente adquiridas e desonrado por seu soberano; se viu forçado a buscar abrigo da crescente indignação dos conterrâneos, no santuário do xá 'Abdu'l-Azím e, mais tarde, foi expulso, ignominiosamente, para Karbilá, onde caiu vítima de doença, pobreza e aflitivo desgosto. Foi esta uma lastimável vingança daquela Epístola em que seu Prisioneiro prognosticara seu mau destino e denunciara sua infâmia.

Quando ao ignóbil e infame Amír-Nizám, Mírzá Taqí Khán - o primeiro ano de cujo breve ministério foi maculado com a investida feroz contra os defensores do Forte de Tabarsí, que autorizou e promoveu a execução dos Sete Mártires de Teerã, que desenfreou o assalto contra Vahíd e seus companheiros, que foi diretamente responsável pela sentença de morte do Báb, e que precipitou o grande tumulto de Zanján - ele, em conseqüência do inexorável ciúme de seu soberano e das intrigas vingativas da corte, perdeu todas as honras que ele desfrutara e foi traiçoeiramente assassinado por ordem imperial, sendo furadas suas veias no banho do Palácio de Fín, perto de Kashán. "Se o Amír-Nizam", afirmou Bahá'u'lláh - segundo a narrativa de Nabíl - "tivesse estado ciente de Minha verdadeira posição, ele certamente Me teria apreendido. Ele envidou o máximo esforço para descobrir a real situação, mas isso ele não conseguiu. Foi a vontade de Deus que ele a ignorasse."

Mírzá Áqá Khán - que tão ativamente participara nas desenfreadas crueldades perpetradas em conseqüência do atentado contra a vida do soberano - foi expulso de seu posto e permaneceu sob estrita vigilância em Yazd, onde findou seus dias em ignomínia e desespero.

Hussein Khán, governador de Shíráz - estigmatizado como "bêbado" e "tirano", primeiro a se levantar para maltratar o Báb, que O repreendeu publicamente e mandou seu subordinado Lhe bater com violência no rosto - foi obrigado não só a suportar horrenda calamidade que tão repentinamente lhe sobreveio, e também à sua família, sua cidade e sua província, mas, depois, a ver desfeitos todos os seus labores e a passar em obscuridade os dias restantes de sua vida, até ir cambaleando a seu túmulo, abandonado tanto pelos amigos como pelos inimigos.

Hájibu'd-Dawlih, aquele demônio sanguinário, que tão assiduamente perseguira tantos bábís inocentes e indefesos, caiu por sua vez, vítima da fúria dos turbulentos Lurs, que, depois de o despojarem de suas propriedades, lhe cortaram a barba e o forçaram a comê-la, lhe puseram sela e rédeas e o montaram diante dos olhos do povo, infligindo, em seguida, em sua própria presença, os membros femininos de sua família e às crianças, as mais vergonhosas atrocidades.

O Sa'ídu'l-Ulemá, o fanático, feroz e desavergonhado mujtahid de Bárfurúsh, cuja inextinguível hostilidade amontoara sobre os heróis de Tabarsi tão grandes insultos e lhes causara tantos sofrimentos, caiu - pouco depois das abominações que ele perpetrara - vítima de uma estranha moléstia, que lhe causava uma sede insaciável e produzia tão intensos calafrios que nem as peles nas quais ele se enrolava, nem o fogo que estava continuamente aceso em seu quarto, podia lhe aliviar os ferimentos. O espetáculo de sua casa, outrora luxuosa, usada pelo povo da cidade, após sua morte, como depósito de refugo, impressionou os habitantes de Mázindarán tão profundamente que, em suas mútuas vituperações, eles costumavam invocar a mesma sorte daquela amaldiçoada habitação para as casas uns dos outros.

O falso e ambicioso Mahmúd-Khán-i-Kalantar, a cuja custódia Táhirih fora entregue antes de seu martírio, provocou, nove anos mais tarde, a ira de seu mestre real, e foi arrastado, por cordas amarradas nos pés, através dos bazares até um lugar fora dos portões da cidade, onde foi suspenso na forca.

Mírzá Hasan Khán, que levou a cabo a execução do Báb, sob as ordens de seu irmão, o Amír-Nizám, dentro de dois anos depois daquele ato imperdoável, foi sujeitado a um terrível castigo, o qual terminou em sua morte.

O Shaykhu'l-Islám de Tabríz, o insolente, avarento e tirânico Mírzá 'Ali Asghar, que, depois de haver o guarda pessoal do governador daquela cidade recusado infligir ao Báb a bastonada, aplicou as varas aos pés de seu Prisioneiro onze vezes com sua própria mão, foi, no mesmo ano, atacado de paralisia e, após haver suportado o mais cruciante sofrimento, teve uma morte miserável. Pouco depois de usa morte, foi abolida a função de Shaykhu'l-Islám naquela cidade.

O altivo e pérfido Mírzá Abu-Tálib Khán - que, não levando em conta os conselhos de moderação que lhe foram dados por Mírzá Áqá Khán, o Grão-Vizir, ordenou o saque e a conflagração da aldeia de Tákur, bem como a destruição da cada de Bahá'u'lláh - foi, um ano depois, contaminado pela praga e pereceu miseravelmente, abandonado até mesmo pelos parentes mais próximos.

Mihr-'Alí Khán, o Shujá'u'l-Mulk - que, após o atentado contra a vida do xá, tão selvagemente perseguiu os membros restantes da comunidade bábí de Nayríz - adoeceu, segundo o testemunho de próprio neto, e ficou mudo, continuando assim, sem alívio, até o dia de sua morte. Seu cúmplice, Mírzá Na'im, sofreu uma desgraça, foi duas vezes multado pesadamente, foi demitido de seu posto e sujeitado a requintadas torturas.

O regimento que olhou com desdém o milagre que advertiu Sam Khán e seus homens a que se desassociassem de outra tentativa de destruir a vida do Báb, e que tomou, voluntariamente, o lugar deles, crivando com suas balas o corpo do Báb, perdeu, naquele mesmo ano, nada menos que duzentos e cinqüenta de seus oficiais e homens em um terrível terremoto entre Ardibíl e Tabríz. Dois anos mais tarde os quinhentos restantes foram impiedosamente fuzilados em Tabríz por motim, e o povo, enquanto contemplava seus corpos expostos e mutilados, recordou seu ato selvagem expressou tanta condenação e admiração que os principais mujtahids foram induzidos a castiga-los e silencia-los. O comandante daquele regimento, Áqá Jan Big, perdeu a vida, seis anos após o martírio do Báb, durante o bombardeio de Muhammarík pelas forças navais britânicas.

O julgamento de Deus, tão rigoroso e incondicional em suas visitações àqueles que participaram insigne ou ativamente nos crimes cometidos contra o Báb e Seus seguidores, não foi menos severo em seu tratamento da generalidade do povo - um povo mais fanático do que os judeus nos dias de Jesus - um povo notório por sua ignorância, sua veemente intolerância, sua deliberada perversidade e sua crueldade selvagem, um povo mercenário, avarento, egoísta e covarde. Nada melhor do que citar o que o próprio Báb escreveu em Dalá'il-i-Sab'ih ( Sete Provas) durante os últimos dias de Seu ministério: "Recorda tu os primeiros dias da Revelação. Como foi grande o número dos que morreram de cólera! Foi isso, em verdade, um dos prodígios da Revelação, e no entanto, ninguém o reconheceu! Durante quatro anos o flagelo grassava entre os mulçumanos xiitas, sem que qualquer um compreendesse sua significação!" "Quanto a grande massa de seu povo (Pérsia)" - escreveu Nabíl em sua narrativa imortal - "que contemplou com sombria indiferença a tragédia que ora se desenrolava ante seus olhos e que fracassaram em erguer um só dedo em protesto contra o horror daquelas crueldades, por sua vez, caiu vítima de uma miséria que todos os recursos do país e o poder de seus estadistas foram impotentes para aliviar... Desde o dia em que a mão do agressor se voltou contra o Báb... provação sob provação aniquilou o espírito daquele povo ingrato, levando-os à iminência de uma bancarrota nacional. Calamidades, cujos nomes inclusive, lhes eram praticamente desconhecidos, exceto por uma fugaz referência a elas nos livros cheios de pó que poucos se preocupavam em ler, caíram sobre eles com uma fúria que ninguém pôde escapar. Aquele flagelo provocou devassidão onde quer que se propagasse. Príncipe e camponês sentiram igualmente sua investida e se curvaram sob seu juro. Manteve o populacho sob seu punho e recusou diminuir seu controle sobre eles. Tão maligna quanto a febre que dizimou a província de Gilán, aquelas súbitas aflições continuaram desolando o país. Terríveis como foram estas calamidades, a ira vingativa de Deus não se deteve no infortúnio que brindava um povo perverso e sem fé. Fez-se sentir em todo ser vivo que respirava sobre uma terra castigada. Afligiu a vida das plantas e dos animais e fez o povo sentir a magnitude de sua calamidade. A fome aumentou os horrores do estupendo peso das aflições sob as quais gemia o povo. O aspecto disforme da inanição caminhou abertamente entre eles e as perspectivas de uma morte lenta e dolorosa tomava forma ante seus olhos... tanto o povo quanto o governo almejaram pelo alívio que não encontraram em lugar algum. Eles sorveram até a última gota do copo das adversidades, sem perceber absolutamente a Mão que o levava aos lábios, a Pessoa por Cuja causa eles passaram sofrimentos."

SEGUNDO PERÍODO
O MINISTÉRIO DE BAHÁ'U'LLÁH
(1853-1892)
CAPÍTULO VI
O DESPONTAR DA REVELAÇAO BAHÁ'Í

A série de horrendos acontecimentos que em rápida sucessão seguiram ao calamitoso atentado contra a vida de Násiri'd-Din Sháh, assinalou, como já observamos, o término da Era Bábí e a conclusão do capítulo inicial, o mais tenebroso e o mais sangrento da história do primeiro século bahá'í. Esses acontecimentos haviam uma fase de imensurável tribulação, no decurso da qual as fortunas da Fé proclamada pelo Báb, se baixaram até o ínfimo grau. De fato, sempre desde seu início, provações e embaraços, reveses e decepções, denúncias, traições e massacres haviam, em um crescendo cada vez maior, contribuído para a dizimação das fileiras de seus seguidores, submetido às máximas provas a lealdade de seus mais intrépidos defensores, e quase conseguido minar os alicerces sobre os quais essa Fé repousava.

Desde o início da Fé, governo, clero e povo como se fossem um só homem, contra ela, se haviam levantado, jurando eterna inimizade à sua causa. Muhammad Sháh, fraco de mente bem como de vontade, havia, sob pressão, rejeitado as propostas reconciliatórias que lhe foram feitas pelo próprio Báb, declinando encontra-se com Ele face a face, e até Lhe recusou entrada na capital. O jovem Nasiri'd-Din Sháh, de uma natureza cruel e imperiosa, não só como o soberano reinante, mostrara cada vez mais a amarga hostilidade que, em etapa posterior de seu reinado, iria inflamar-se em toda a sua sombria e impiedosa selvageria. O poderoso e sagaz Mu'tamid - a única figura que Lhe poderia ter oferecido o apoio e a proteção de que Ele tinha tão premente necessidade - Dele foi tirado por uma repentina morte. O Xerife de Meca, que por intermédio de Quddús havia vindo a conhecer a nova Revelação, na ocasião da peregrinação do Báb a Meca, não dera ouvidos à Mensagem Divina e recebeu Seu mensageiro com ríspida indiferença. A reunião planejada para se realizar na cidade santa de Karbilá, no decurso da viagem do Báb de regresso de Hijáz, teve que ser definitivamente cancelada, para o desapontamento de Seus seguidores, que com ansiedade haviam aguardado Sua chegada. A maioria das dezoito Letras do Viventes - os principais baluartes que sustentavam a força infantil da Fé - caíra. Os "Espelhos", os "Guias", as "Testemunhas", que constituíam a hierarquia bábí, haviam sido trucidados pela espada ou expulsos de sua terra natal, ou com força brutal silenciados. O programa, cujas feições essenciais foram comunicadas aos proeminentes entre eles, havia, por causa de seu excessivo zelo, deixado de cumprir-se em quase sua totalidade. As tentativas feitas por dois desses discípulos para estabelecer a Fé na Turquia e na Índia falharam, notavelmente, desde o próprio início de sua missão. As tempestades que varreram Mázindarán, Nayríz e Zanján - além de demolir até às raízes as carreiras promissoras do venerado Quddús, do destemido Mullá Husayn, do erudito Vahíd e do indomável Hujjat, pôs termo às vidas de um número alarmante dos mais capazes e mais valorosos de seus condiscípulos. Os horrendos ultrajes associados com a morte dos Sete Mártires de Teerã foram responsáveis pela extinção de ainda outro símbolo vivo da Fé, que, por causa de seu estreito parentesco e sua íntima associação com o Báb, bem como em virtude de suas qualidades inerentes, teria - se sua vida tivesse sido poupada - contribuído decisivamente para a proteção e a promoção de uma Causa que tanto lutava.

A tempestade que irrompeu, subseqüentemente, com violência sem paralelo, sobre uma comunidade já abatida, lhe havia, além disso, roubado sua maior heroína, a incomparável Táhirih, enquanto ainda na maré-alta de suas vitórias, havia selado o destino de Siyyd Husayn, o fidedigno amanuense do Báb e escolhido repositório de Suas últimas vontades, havia derrubado Mullá 'Abdu'l-Karím-i-Qasviní - aquele que era, como se admitia, um dos muito pouco que podiam fazer pretensão de possuir um conhecimento profundo das origens da Fé - e havia atirado em uma masmorra, Bahá'u'lláh, único sobrevivente dentre as figuras de maior destaque na nova Era. O báb - o Manancial donde fluíram as energias vitalizadoras de uma revelação recém-nascida - havia, Ele Próprio, antes de irromper aquele furacão, sucumbido, em circunstâncias atormentadoras, às descargas de balas de um pelotão de fuzilamento, deixando atrás, como líder titular de uma comunidade já às bordas da desintegração, um chefe meramente em nome, de uma timidez extrema, de bom humor, mas suscetível à menor influência, destituído de qualidades notáveis - homem este que agora (não mais sendo controlado pela mão de Bahá'u'lláh, o verdadeiro Líder) buscava, no disfarce de dervish, a proteção das colinas de Mázindarán, sua terra natal, contra os assaltos que um inimigo perigoso ameaçava fazer. As volumosas obras do Fundador da Fé - em forma de manuscrito, dispersas, não classificadas, mal transcritas e inadequadamente preservadas, foram, em parte, devido à agitação e ao tumulto dos tempos, deliberadamente destruídas, confiscadas ou despachadas com pressa para lugares de segurança além dos confins da terra onde foram reveladas. Agora haviam surgido poderosos adversários - entre os quais destacava-se a figura do excessivamente ambicioso e hipócrita Hájí Mírzá Karím Khán, que, a pedido especial do xá, atacara viciosamente, em um tratado, nova Fé e suas doutrinas - e esses adversários, tornados mais audazes agora em vista dos revezes sofridos pela Fé, amontoavam sobre ela abuso e calúnias. Além disso, sob a tensão de circunstâncias intoleráveis, alguns dos bábís - um número muito restrito - foram constrangidos a retratar sua fé, enquanto outros apostataram e até entraram nas fileiras do inimigo. E agora foi acrescentada à soma desses horrendos infortúnios, uma calunia monstruosa, provocada pelo ultraje que uma mão cheia de irresponsáveis entusiastas perpetrara, e ferreteando uma Fé santa e inocente com uma infâmia que parecia ser indelével e que ameaçava desarraiga-la de seus alicerces.

E no entanto, o Fogo que a Mão da Onipotência acendera, embora abafado por essa torrente de tribulações sobre ele voltada, não estava extinto. A chama quer por nove anos ardera com tão brilhante intensidade estava, de fato, momentaneamente apagada, mas ainda existiam as brasas que aquela grande conflagração deixara atrás, destinadas a inflamar-se, mais uma vez, em data não remota, através das brisas revivificantes de uma Revelação incomparavelmente maior, e a difundir uma iluminação que não só dissiparia as trevas em volta, como também viria a projetar seu esplendor até às extremidades tanto do hemisfério ocidental, como do oriental. Assim como o forçado cativeiro e o conseqüente isolamento do Báb Lhe concederam, por um lado, a oportunidade de formular Sua doutrina, desenvolver as plenas implicações de Sua Revelação, declarar formal e publicamente Sua posição e estabelecer Seu Convênio e como, por outro lado, foram o meio da proclamação das leis de Sua Revelação, através da voz de Seus discípulos reunidos em Badasht, do mesmo modo a crise, de uma magnitude sem precedentes, culminando na execução do Báb e no encarceramento de Bahá'u'lláh, veio a ser o prelúdio de um renascimento que, mediante a força vivificadora de uma Revelação muito mais poderosa, haveria de imortalizar a fama da Mensagem original do Profeta de Shíráz e estabelecê-la em alicerces ainda mais duráveis, muito além dos confins de Sua terra natal.

Numa época em que a Causa do Báb parecia estar periclitando às bordas da extinção, quando as esperanças e anseios que a animavam, conforme impressão de toda a gente, haviam sido frustradas, quando os inauditos sacrifícios de inumeráveis prosélitos pareciam ter sido feitos em vão, a Divina Promessa nela contida chegou repentinamente às vésperas de seu cumprimento, e sua perfeição final estava prestes a ser misteriosamente manifestada. A gestão Bábí chegava ao seu termo (não prematuramente, mas no devido tempo, segundo fora anunciado) e entregava seus frutos predestinados, revelando seu propósito final - o nascimento da Missão de Bahá'u'lláh. Nesta hora prenhe de trevas e de terror, uma nova Luz estava prestes a irromper gloriosamente sobre o sombrio horizonte da Pérsia. Como resultado daquilo que, verdadeiramente, fora uma fase de preparação e amadurecimento, o mais importante, senão o mais espetacular estágio da Era Heróica da Fé estava agora às vésperas de sua inauguração.

Durante nove anos - assim como fora predito pelo próprio Báb - a Fé embrionária por Ele concebia atravessara rápida, misteriosa e irresistivelmente sua fase de desenvolvimento, até que, na hora determinada, o fruto da prometida Causa de Deus se manifestou em meio à obscuridade e agonia do Síyáh-Chál de Teerã. "Vede como" - o próprio Bahá'u'lláh atestou, alguns anos depois, refutando as pretensões dos que haviam rejeitado a validez de Sua Missão, que seguiu tão pouco depois daquela do Báb - "logo após a consumação do nono ano desta Era admirável, a mais santa e misericordiosa, o número exigido de almas puras, inteiramente dedicadas e santificadas foi com todo sigilo consumado." "Que tão breve intervalo" - asseverou Ele, ainda mais - "separou esta, a mais poderosa e admirável Revelação, de Minha própria Manifestação anterior, é um segredo que nenhum homem pode desvendar, e um mistério tal como mente alguma pode sondar. Sua duração fora predestinada."

O próprio São João o Divino, com referência a estas Revelações sucessivas, profetizou claramente: "É passado o segundo ai, e eis aqui o terceiro, que cedo virá." "Esse terceiro ai", Abdu'l-Bahá, comentando este versículo, explicou, "é o dia da manifestação de Bahá'u'lláh, o Dia de Deus, e é próximo do dia do aparecimento do Báb." "Todos os povos do mundo", afirmou Ele, além disso, "estão esperando dois Manifestantes, que deverão ser contemporâneos; todos aguardam o cumprimento desta promessa." E ainda: "O fato essencial é que a todos são prometidos dois Manifestantes, os quais virão, um após outro." Shaykh Ahmad-i-Ahsá'í - aquela luminosa estrela de guia Divina, que percebera tão claramente, antes do ano de sessenta, a glória de Bahá'u'lláh que já se aproximava, e dera ênfase "as Revelações gêmeas que haverão de seguir uma à outra em rápida sucessão" - fizera, por sua parte, esta significativa declaração a respeito da hora iminente dessa Revelação suprema, em uma epístola dirigida, de próprio punho, a Siyyid Kazím: "O mistério desta Causa há de ser tornado manifesto e o segredo desta Mensagem deve ser divulgado. Mais não posso dizer. Nenhum tempo posso marcar. Sua Causa será conhecida após Hin (68)."

O Veículo desta recém-nascida Revelação que seguiu tão rapidamente a do Báb, recebeu as primeiras intimações de Sua missão sublime em circunstancias que relembraram - e, de fato, excedem em sua intensidade emotiva - a comovedora experiência de Moisés ao ser confrontado pela Sarça Ardente no deserto de Sinai; a de Zoroastro quando uma sucessão de sete visões o despertou para Sua missão; a de Jesus quando, saindo das águas do Jordão, Ele viu os céus se abrirem e o Espírito Santo descer como um pombo e sobre Ele pousar; a de Maomé quando na Caverna de Hira, fora da cidade santa de Meca, a voz de Gabriel ordenou que Ele "exclamasse em nome de Teu Senhor"; e a do Báb quando, em sonho, Ele se aproximou da cabeça sangrenta do Imame Husayn e, sorvendo o sangue que de sua garganta dilacerada pingava, acordou para descobrir que era Ele mesmo o escolhido recipiente da efusiva graça do Todo-Poderoso.

Poderíamos perguntar a esta altura quais foram a natureza e a importância dessa Revelação que, manifestando-se logo após a Declaração do Báb, aboliu de um só golpe o Ministério que essa Fé tão recentemente proclamara, e sustentou, com tanta veemência e energia, a autoridade Divina do seu Autor? Quais - bem poderíamos deter-nos para considerar - foram as pretensões Daquele que, embora discípulo do báb, tão cedo veio a considerar-se autorizado a abrogar a Lei identificada com o Seu amado Mestre? Qual - poderíamos ainda refletir - seria a relação existente entre os sistemas religiosos estabelecidos antes Dele e a Sua própria Revelação - uma Revelação que, fluindo de Sua alma atribulada nessa hora extremamente perigosa, rompeu as trevas que pairavam sabre aquela pestilenta cava e, traspassando suas paredes e propagando-se até os confins da terra, infundiu a toda a humanidade suas ilimitadas potencialidades, estando agora, sob os nossos próprios olhos, a determinar as diretrizes da sociedade humana?

Aquele que em tão dramáticas circunstâncias foi incumbido de suportar o pesado fardo de tão gloriosa Missão, outro não foi senão Aquele a quem a posteridade consagrará e a Quem inumeráveis adeptos já reconheceram como o Juiz, o Legislador, e o Redentor de toda a humanidade, como o Organizador de todo o planeta, como o Unificador dos filhos dos homens, como o Inaugurador do há tanto esperado milênio, como o Iniciador de um novo "Ciclo Universal", como o Fundador da Suprema Paz, como a Fonte da Suprema Justiça, como o Proclamador da maturidade de toda a raça humana, como o Criador de uma Nova Ordem Mundial e como o Inspirador e Instaurador de uma civilização universal.

Para Israel, Ele não era nem mais nem menos que a encarnação do "Pai Eterno", o "Senhor dos Exércitos" que desceu "com dez milhares de santos"; para a Cristandade, o Cristo, que voltou una glória do Pai", para o islã xiita, a volta do Imame Husayn; para o islã sunita, a descida do "Espírito de Deus" (Jesus Cristo); para os zoroastrianos, o prometido Sháh-Bahrám; para os hindus, a reencarnação de Krishna; para os budistas, o quinto Buda.

No nome do qual era portador, Ele combinou os nomes do Imame Husayn, o mais ilustre dos sucessores do Apóstolo de Deus - a mais brilhante "estrela" reluzindo na "coroa" mencionada na Revelação de São João - e do Imame 'Alí, Comandante dos Fiéis, segunda das duas "testemunhas" elogiadas naquele mesmo Livro. Ele foi designado formalmente Bahá'u'lláh - nome este especificamente registrado no Bayán Persa, que significa, a um tempo, a glória, a luz e o esplendor de Deus, e foi também denominado o "Senhor dos Senhores", o "Mais Grandioso Nome", a "Beleza Antiga", a "Pena do Altíssimo", o "Nome Oculto", o "Tesouro Preservado", "Aquele que Deus tornará manifesto", a "Mais Grandiosa Luz", o "Altíssimo Horizonte", o "Mais Grandioso Oceano", o "Supremo Céu", a "Raiz Pré-Existente", o "Subsistente por Si Próprio", o "Sol do Universo", o "Grande Anúncio", "Quem Fala no Sinai", o "Peneirador dos Homens", o "Injuriado do Mundo", o "Desejo das Nações", o "Senhor do Convênio", a "Arvore além da qual não há passagem". Por um lado era Ele descendente de Abraão (Pai dos Fiéis), através da esposa, Katurah, e, por outro, de Zoroastro, bem como de Yazdigird, último rei da dinastia de Sasániyán. Era descendente, também, de Jessé, e pertencia - do lado de Seu pai, Mírzá 'Abbás, mais conhecido como Mírzá Buzurg - um nobre intimamente associado com os círculos ministeriais da Corte de Fath-'Alí-Sháh - a uma das famílias mais antigas e de maior renome de Mázindarán.

A Ele Isaías, o maior dos profetas hebreus, se referiu como a "Glória do Senhor", o "Pai da Eternidade", o "Príncipe da Paz", o "Maravilhoso", o "Conselheiro", o "Rebento que saíra do tronco de Jessé" e o "ramo que nascerá de Suas raízes", que "se estabelecerá sobre o tronco de Davi", que "virá com mão forte", que "julgará entre as nações", que "ferirá a terra com a vara de Sua boca, e com o assopro de Seus lábios matará o ímpio", e que "ajuntará os desterrados de Israel, e os dispersos de Judá congregará desde os quatro confins da terra". Em seu louvor, Davi cantou seus Salmos, aclamando-O como o "Senhor dos Exércitos" e o "Rei da Glória". A Ele fez Agêo referência como sendo o "Desejado de todas as nações", Zacarias como o "Renovo que brotará do Seu lugar" e "edificará o Templo do Senhor". Ezequiel exaltou-O como o "Senhor que será Rei sabre toda a terra", enquanto que Joel e Sofonias se referem a esse dia como o "dia de Jeová", o segundo descrevendo-o como "um dia de indignação, dia de angústia e assolação, dia de trevas e escuridão, dia de nuvens e densas brumas, dia de buzina e alarido contra as cidades fortes e contra as torres altas". A esse dia, Ezequiel e Daniel aclamaram ainda como o "dia do Senhor", e Malaquias o citou como "o dia grande e terrível do Senhor", em que" o Sol da Justiça nascerá e saúde trará debaixo de Suas asas", enquanto que Daniel predisse Seu advento como assinalador do término da "abominação desoladora".

Ao Seu Tempo os livros sagrados dos seguidores de Zoroastro se referiam como sendo aquele em que o sol deveria parar por não menos que um mês. A Ele deve Zoroastro ter aludido quando, conforme a tradição, predisse que um período de três mil anos de conflito e contenção deveria preceder o advento do Salvador do Mundo, Shah Bahram, que triunfaria sabre Ahriman e inauguraria uma era de beatitude e paz.

Somente Ele e subentendido na profecia atribuída ao próprio Gautama Buda, que diz deveria um Buda chamado Maitreye, o Buda da confraternização universal", na hora adequada, aparecer e revelar "Sua infinita glória". o Bhagavad Gita dos Indus a Ele se referiu como o "Supremo Espírito", o "Décimo Avatar", a "Imaculada Manifestação de Krishna".

Jesus Cristo menciona-O como o "Príncipe deste mundo", como o "Consolador" que "convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo", como o "Espírito da Verdade" que "vos guiará em toda a verdade", que "não falará de Si mesmo mas falará tudo o que tiver ouvido", como o "Senhor da Vinha" e como o "Filho do Homem" que "virá pela glória de Seu Pai", "nas nuvens do Céu, com poder e grande glória", com "todos os anjos celestiais" ao Seu lado, e "todas as nações" reunidas perante o Seu trono. A Ele aludiu o Autor do Apocalipse como a "Glória de Deus", o "Alia e o Omega", "o Princípio e o Fim", "o Primeiro e o Derradeiro". Identificando Sua Revelação com o "terceiro ai", ele, além disso, exaltou Sua lei como "um novo céu e uma nova terra", como o "Tabernáculo de Deus", como a "Cidade Santa", como a "Nova Jerusalém, que de Deus descerá do céu, adereçada como a noiva ataviada para o seu marido". O próprio Jesus Cristo referiu-se ao Seu dia como "a regeneração, quando então o Filho do Homem se assentará sobre o trono de Sua glória". São Paulo fez alusão à hora do Seu advento como a hora da "última trombeta", enquanto que São Pedro o mencionou como a "Dia do Senhor, em que os céus, incendiados, se desfarão, e os elementos, ardendo, se fundirão". Mais adiante ele descreve esse Dia como "a era da revivificação", "a era da restituição de todas as coisas que Deus tem falado pela boca de todos os Seus Santos Profetas desde o começo do mundo".

Maomé, o Apóstolo de Deus, a Ele se refere em Seu Livro como o "Grande Aviso", e declara ser o Seu Dia aquele em que "Deus descerá" "aureolado pelas nuvens", o Dia em que "teu Senhor virá e os anjos disporão em fileiras" e "o Espírito se levantará e as anjos se alinharão em ordem".

Nesse Livro, em uma sura que se diz haver sido por Ele denominada "o coração do Alcorão", Ele prognosticara Seu advento como o do "terceiro" Mensageiro, quem se fez descer a fim de "fortalecer" os dois que Lhe precederam. Nas páginas desse mesmo Livro prestara Ele um ardoroso tributo a Seu Dia, glorificando-o como o "Grande Dia", o "Último Dia", o "Dia de Deus", o "Dia do Julgamento", o "Dia do Juízo Final", o "Dia da Decepção Mútua", o "Dia do Desprendimento", o "Dia do Suspiro", o "Dia do Encontro", o "Dia quando se executará o Decreto", o Dia em que o segundo "Toque de Trombeta" soará, o "Dia em que a humanidade se apresentará diante do Senhor do mundo" e "todos a Ele haverão de vir nas vestes da humildade", o Dia quando "tu haverás de ver as montanhas, as quais consideras tão firmes, passarem com a passagem de uma nuvem", o Dia "em que contas serão prestadas", "o Dia que se aproxima, quando os corações dos homens subirão até as gargantas, sufocando-os", o Dia quando "todos os que estão nos céus e todos os que estão na terra serão apavorados, salvo aquele que Deus se digne de salvar", o Dia em que "cada mulher que amamenta haverá de abandonar sua criança, cada mulher prenhe livrar-se-á de seu fardo", o Dia "em que a terra resplandecerá com a luz de seu Senhor, e o Livro será estabelecido, os Profetas haverão de se levantar e as testemunhas; e se julgará entre eles com equidade; e ninguém será injuriado.

O Apóstolo de Deus, além disso - assim como o próprio Bahá'u'lláh atestou - comparara a plenitude de Sua glória à "lua cheia em sua décima quarta noite". O Imame 'Ali, Comandante dos Fiéis, segundo o mesmo testemunho, havia identificado Seu grau com "Aquele que, da Sarça Ardente no Sinai, conversou com Moisés." Do transcendente caráter de Sua missão, o Imame Hussein - ainda segundo Bahá'u'lláh - dera testemunho como sendo uma "Revelação cujo Revelador será Aquele que revelou", o próprio Apóstolo de Deus.

A Seu respeito, Shaykh Ahmad-i-Ahsá'í, arauto da Era Bábí - que prognosticara os "estranhos acontecimentos" que haveria entre os anos de sessenta e sessenta e sete, e categoricamente afirmara a inevitabilidade de Sua Revelação - havia, como foi mencionado anteriormente, escrito o seguinte: "O Mistério desta Causa, necessariamente, há de ser tornado manifesto e o Segredo desta Mensagem deve ser divulgado. Mais não posso dizer. Nenhum tempo posso determinar. Sua Causa será conhecida depois de Hin (68)" (isto e, após algum tempo).

Siyyid Kázim-i-Rashtí, discípulo e sucessor de Shaykh Ahmad, outrossim, escrevera: "o Qa'im há de ser morto. Depois de haver sido Ele trucidado, o mundo terá atingido a idade de dezoito". Em seu Sharh-i-Qasidiy-i-Lámiyyih, ele até fez uma referência ao nome "Bahá". Além disso, à medida que seus dias se aproximavam do fim, declarara ele, significativamente, aos discípulos: "Verdadeiramente, digo, após o Qa'im, o Qayyúm manifestar-se-á. Pois quando a estrela Daquele se tiver posto, o sol da beleza de Husayn haverá de nascer e iluminar o mundo inteiro. Então se desdobrarão em toda a sua glória o Mistério e o Segredo mencionados por Shaykh Ahmad... Ter atingido aquele Dia dos Dias é ter atingido a glória culminante das passadas gerações, e uma só bela ação realizada nessa era equivalente à piedosa devoção de incontáveis séculos".

Não menos significativamente, o Báb exaltou-o como a "Essência do Ser", como o "Remanescente de Deus", como o "Mestre Onipotente", como a "Luz Carmesim, toda circundante", como o "Senhor do visível e do invisível", como o "único Motivo de todas as Revelações precedentes, inclusive a Revelação do próprio Qá'im".

Ele O designara formalmente "Aquele que Deus haverá de tornar manifesto", Lhe fizera referência como "o Horizonte de Abhá", no qual Ele Próprio vivia e residia; Seu título havia Ele especificamente anotado, e Sua "Ordem" havia Ele elogiado em Sua mais conhecida obra, o Bayán Persa, revelando Seu nome através de Sua alusão ao "Filho de 'Ali, um verdadeiro e indubitável Líder dos homens"; repetidas vezes, oralmente e por escrito, havia Ele determinado, além da menor sombra de dúvida, o tempo de Sua Revelação, e advertido aos seguidores que não deixassem "o Bayán e tudo o que foi Dele revelado" "os excluírem" Dele "como se o fosse por um véu". Declara, além disso, ter sido Ele o "primeiro servo que Nele acreditou" e que Lhe prestava lealdade "antes de serem criadas todas as coisas", que "nenhuma referência" Sua "a Ele se poderia referir", que "o germe de um ano de idade que dentro de si encerra as potencialidades da Revelação que há de vir, é dotado de uma potência superior às forças combinadas do Bayán inteiro". Ele havia, ainda mais, afirmado claramente que "com todas as coisas criadas fizera um convênio" relativo Aquele que Deus haverá de tornar manifesto antes de ser estabelecido o convênio a respeito de Sua própria missão. Prontamente havia admitido ser Ele apenas "uma letra" daquele "o Mais Poderoso Livro", "uma gota de orvalho" daquele "Oceano Ilimitado", e que Sua Revelação era "apenas uma folha entre as folhas de Seu Paraíso"; que, "tudo o que fora exaltado no bayán" nada mais será que "um anel" em Sua própria mão e Ele mesmo "um anel na mão Daquele que Deus haverá de tornar manifesto", Aquele que "o vira assim como Lhe apraz, para qualquer coisa que Lhe possa aprazer e por meio de qualquer coisa que lhe apraza. Declarara inequivocamente se haver sacrificado "inteiramente" por Ele, haver "consentido em ser amaldiçoado por Sua causa" e "por nada haver ansiado, senão por martírio" no caminho de Seu amor.

Finalmente, Ele inequivocamente profetizou: "Hoje o bayán está na fase embrionária; no princípio da manifestação Daquele a Quem Deus tornará manifesto, ficará evidente sua perfeição final". "Antes que nove anos tenham decorrido desde o começo desta Causa, não se manifestará a realidade das coisas criadas. Tudo o que até agora tens visto, e apenas o germe desde sua fase primitiva até o ponto em que o revestimos de carnes. Sê paciente até que testemunhes uma nova criação. Diz: Abençoado, portanto, seja Deus, o mais Primoroso dos Criadores!"

Veio Aquele a Cujo redor tem revolvido o Ponto do Bayán" (o báb), e o testemunho confirmatório de Bahá'u'lláh a respeito da inconcebível grandeza e do caráter preeminente de Sua própria Revelação. "Se todos os que estão no céu e na terra", afirma Ele ainda, "forem investidos, neste dia, dos poderes e atributos destinados as Letras do bayán, cujo grau é dez mil vezes mais glorioso que o das Letras da Era do Alcorão, e se cada um deles - todos sem exceção - com a rapidez de um volver de olhos, hesitassem em reconhecer Minha Revelação, haveriam de ser contados, na vista de Deus, entre aqueles que se desviaram, e de ser considerados como as "Letras da Negação". "Potente é Ele, Rei de poder Divino", assevera Bahá'u'lláh, referindo-se a Si Próprio no Kitáb-i-Íqán, "para extinguir com uma só letra de Suas admiráveis palavras, o alento da vida em todo o bayán e seu povo e, com uma só letra, datá-los de uma vida nova e duradoura e fazê-los se levantarem e apressarem a sair dos sepulcros de seus desejos vãos e egoístas". "É este", declara Ele, além disso, "o rei dos dias", o "Dia do próprio Deus", o "Dia que jamais será seguido pela noite", a "Primavera que o outono jamais atingirá", "os olhos para os passados ciclos e séculos" - Dia para o qual "tem ansiado a alma de todo Profeta de Deus, de todo Mensageiro Divino", para o qual "todas as diversas raças da terra tem anelado", através do qual "Deus tem provocado os corações da inteira companhia de Seus Mensageiros e Profetas e, além deles, os que vigiam Seu sagrado e inviolável Santuário, os habitantes do Pavilhão Celestial, os que residem no Tabernáculo da Glória". "Nesta, a mais poderosa Revelação", declara Ele, além disso, "todas as Revelações do passado atingiram sua mais alta consumação, sua consumação final". E ainda: "Nenhum entre os Manifestantes de antanho jamais apreendeu completamente a natureza desta Revelação, e sim, apenas em grau prescrito."

E por último, mas nem por isso menos importante, vem o tributo do próprio Abdu'l-Bahá ao transcendente caráter da Revelação identificada em Seu Pai: "Não apenas séculos, mas idades deverão decorrer antes que a Estrela d'Alva da Verdade volte a brilhar em seu esplendor estival, ou apareça novamente na radiosidade de sua glória primaveril." "O simples conhecimento da Era inaugurada pela Beleza Abençoada", afirma Ele mais adiante, "teria bastado para abater os santos das eras passadas - santos que ansiosamente desejariam participar, por um instante apenas, de sua grande glória.". "Quanto aos Manifestantes que no futuro descerão 'nas sombras das nuvens', que sabiam, em verdade", é Sua afirmação significativa, "que, a respeito de sua relação à fonte de sua inspiração, estão à sombra da Beleza Antiga. Em sua relação, no entanto, à era em que aparecem, cada um deles faz qualquer coisa que queira". E finalmente vem esta, Sua explicação iluminadora, expondo concludentemente a verdadeira relação entre a Revelação de Bahá'u'lláh e a do Báb: "A Revelação do Báb pode ser comparada ao sol na posição que corresponde ao primeiro signo do zodíaco - o signo de Áries - posição esta em que o sol entra no equinócio vernal. A posição da Revelação de Bahá'u'lláh, por outro lado, é representado pelo signo de Leão, a mais alta posição do sol, a do solstício do verão. Isso significa que esta sagrada Era é iluminada com a luz do Sol da Verdade brilhando de sua mais excelsa posição e na plenitude de seu resplendor, de seu ardor e sua glória".

Tentar um exame exaustivo das referências proféticas à Revelação de Bahá'u'lláh seria, de fato, uma tarefa impossível. Disso a pena do próprio Bahá'u'lláh dá testemunho: "Todos os Livros Divinos e as Sagradas Escrituras têm predito e anunciado aos homens o advento desta, a Mais Grandiosa Revelação. Nenhum pode relatar adequadamente os versículos inscritos nos Livros das épocas anteriores que prognosticam esta suprema Graça, esta mais poderosa Doação."

Em conclusão deste tema, parece-me que se deve tornar claro que a Revelação identificada com Bahá'u'lláh anula incondicionalmente todas as Revelações anteriores, sustenta sem reservas as verdades eternas que elas encerram, reconhece firme e absolutamente a origem Divina de seus Autores, preserva inviolável a santidade de suas Escrituras autênticas, nega qualquer intenção de abaixar o grau de seus Fundadores ou de minar os ideais espirituais que inculcam, classificam e correlacionam suas funções, reafirma seu objetivo comum, imutável e fundamental, reconcilia suas pretensões e doutrinas que aparentemente divergem, e prontamente e com gratidão reconhece suas respectivas contribuições ao gradativo desenvolvimento de uma mesma Revelação Divina. Sem hesitação a Revelação de Bahá'u'lláh admite que é apenas um elo em uma corrente de Revelações progressivas, contínuas; suplementa seus ensinamentos, com as leis e os preceitos que estejam de conformidade com os imperativos requisitos de uma sociedade que constantemente muda e com rapidez evolui, e que sejam ditados por sua sempre crescente receptividade; e proclama seu desejo e sua habilidade para fundir e incorporar em associação fraterna, universal, as seitas e facções mutuamente opostas, nas quais elas se têm dividido - em uma fraternidade que funciona dentro das estrutura e de acordo com os preceitos de uma Ordem divinamente concebida, destinada a unificar e redimir o mundo.

Essa Revelação aclamada como a promessa e a glória soberana das épocas e séculos passados, como a consumação de todas as Revelações havidas no Ciclo Adâmico, inaugurou uma era de nada menos mil anos e um ciclo destinado a subsistir por tempo não inferior a cinco mil séculos; assinalou o fim da Era Profética e o começo da Era da Revelação das Profecias.

A duração do ministério do Autor desta Revelação jamais foi superada, e assim também a fecundidade e o esplendor de Sua Missão. Tal Revelação nasceu, como já citamos, em meio das trevas de um calabouço em Teerã, abominável cova que antes servira de reservatório d'água para um dos banhos públicos da cidade. Bahá'u'lláh estava envolto pela tétrica obscuridade, respirando o fétido ar, paralisado pela úmida e glacial atmosfera, supliciado com os pés no trono e o pescoço curvado ao peso de fortes correntes, cercado de criminosos e degenerados da pior espécie, oprimido pela consciência da terrível desgraça que maculou o nome de Sua bem-amada Fé, amargurado pelos imensos sofrimentos de que foram vítimas seus primeiros defensores e pelos graves perigos com que tinham de se defrontar os remanescentes de seus prosélitos. Em hora tão critica e sob tão aterradores circunstâncias, o "Supremo Espírito"- como Ele próprio o denominou - baixou e revelou-se personificado por uma Jovem, à sua torturada alma. Foi aquele mesmo Espírito que fora simbolizado na Revelação Zoroastriana, pelo Fogo Sagrado, na Mosaica pela Sarça Ardente, na Cristã pela pomba e na Muçulmana pelo Anjo Gabriel.

"Certa noite num sonho", escreveu Ele, recordando, no crepúsculo de Seus dias, os primeiros sinais da Divina Revelação no âmago de Sua alma, "estas exaltadas palavras foram ouvidas em toda parte: "Verdadeiramente, Nós Te faremos vitorioso por Ti Mesmo e por Tua pena. Não Te aflijas pelo que Te há acontecido, nem temas, por que Tu estás em segurança. Muito breve Deus levantará os tesouros da terra - homens que Te auxiliarão por meio de Ti Mesmo e de Teu Nome, com que Deus revigorou os corações daqueles que O reconheceram." Em outra passagem Ele descreve, concisa e significativamente, o choque da violenta força do chamado Divino sobre Seu inteiro Ser - um acontecimento que recorda vivamente a visão de Deus que prostrou Moisés num desmaio e a voz de Gabriel que provocou em Maomé tal abatimento que, buscando refúgio em Sua casa, rogou à Sua mulher, Khadíjih, que o escondesse sob o seu manto. "Durante os dias em que permaneci na prisão de Teerã" - são Suas Próprias memoráveis palavras - "embora o peso esmagador das correntes e o nauseabundo ar ambiente pouco Me permitissem dormir, contudo, em tais raros momentos de repouso, tinha a sensação de alguma coisa estar fluindo de Minha cabeça para o Meu peito, assim como uma poderosa torrente que, vertendo de uma altíssima montanha se precipitasse ao solo. Em conseqüência, cada fibra de Meu corpo ardia como fogo. Em tais mementos, Minha língua dizia coisas que nenhum homem poderia suportar."

Em Seu Súratu'l-Haykal (o Súrih do Templo), Ele assim descreve aqueles mementos emocionantes em que a Jovem, simbolizando o "Supremo Espírito", proclamou Sua missão, a toda a humanidade: "Enquanto mergulhado em amarguras, ouvi uma voz, a mais doce e maravilhosa, a chamar sabre Minha cabeça. Voltando Meu rosto, vi uma Jovem - personificação do nome do Meu Senhor - suspensa no espaço diante de Mim. Tão jubilosa estava em sua própria alma, que seu semblante irradiava a graça Divina e suas faces inflamavam-se com o esplendor do Todo-Misericordioso. Pairando entre o céu e a terra, fez uma exortação que cativou o coração e a mente dos homens. Deu-me a conhecer as boas novas que alegraram todo Meu Ser e as almas dos honrados servos de Deus. Apontando para a Minha cabeça, dirigiu-se a todos os que estavam no céu e a todos os que estavam sabre a terra, dizendo: "Por Deus! Este é o Mais Amado em todos os mundos, mas ainda não compreendeis isso! Ele representa a Formosura de Deus entre vós e o poder de Sua soberania em vosso seio - saberíeis, se vos fosse dado entender! Este e o Mistério de Deus e Seu Tesouro, a Causa de Deus e Sua Glória, para todos os que estão nos domínios da Revelação e nos reinos criados - saberíeis, se estivésseis entre aqueles que percebem!"

Em Sua Epístola a Seu adversário real, Násiri'd-Dín-Sháh, que foi revelada no auge da proclamação de Sua Mensagem, ocorrem estas passagens que derramam luz mais intensa sobre a Divina origem da Sua missão: "Ó Rei! Eu não era, senão um homem entre muitos, adormecido no meu leito, quando eis que o bafejo do Todo-Glorioso soprou sabre Mim, dando-me a conhecer tudo quanto tem existido. Isto não parte de Mim, mas de Alguém que é Todo-Poderoso e Onisciente e que Me ordenou levantasse a voz entre o céu e a terra. Por isso Me aconteceu aquilo que fez correrem as lágrimas de cada homem compreensivo... Isto é apenas uma folha agitada ao vento da vontade do Teu Senhor, o Todo-Poderoso, o Glorificado... Suas ordens imperiosas alcançaram-Me e levaram-Me a louvá-Lo entre todos os povos. Sentia-Me como um morto, quando foi proferida Sua determinação. A mão da vontade do Teu Senhor, o Compassivo, o Misericordioso, transformou-Me". "Por Minha vida", assegura Ele em outra Epístola, "Não Me revelei por Minha vontade, mas Deus, por Sua própria vontade, quis manifestar-Me". E ainda: "Sempre que Eu procurava entregar-Me ao silêncio e repouso, eis que a Voz do Espírito Santo à Minha direita, despertava-Me, e o Supremo espírito aparecia-Me, o anjo Gabriel Me encobria com sua sombra e o espírito da Glória se agitava dentro de Meu peito, concitando-Me a levantar e a romper Meu silêncio".

Tais foram as circunstâncias sob as quais o Sol da Verdade despontou na cidade de Teerã - cidade que, por tão grande distinção, foi glorificada pelo Báb como a "Terra Sagrada" e cognominada por Bahá'u'lláh a "Mãe do Mundo", a "Origem da Luz", o "Lugar da Revelação dos sinais do Senhor", a "Fonte de alegria de toda a humanidade". Os primeiros raios dessa Luz de incomparável esplendor, como já descritos, tiveram seu aparecimento na cidade de Shíráz. O limbo desse Astro aparecia, agora, no horizonte de Síyáh-chál de Teerã. Seus raios se espalhariam, dez anos depois, em Bagdá, rompendo as nuvens que em seu nascer, naquelas sombrias regiões, lhe haviam obscurecido o esplendor. Estava destinado a atingir seu zênite na remota cidade de Adrianópolis, e a desaparecer afinal nas vizinhanças da fortaleza de 'Akká.

Foi necessariamente lento e gradativo o processo pelo qual tão deslumbrante Revelação foi demonstrada aos homens. O primeiro vislumbre da Luz percebido por Aquele que a transmitiria a humanidade não foi acompanhado, nem sequer imediatamente seguido, por uma exposição completa de seu caráter a Seus companheiros, tampouco a Seus parentes. Não menos de dez anos teriam que decorrer até que suas implicações de tão vasto alcance fossem diretamente divulgadas até mesmo aqueles que mais de perto privavam com Ele. Durante esse período, de grande fermentação espiritual, Aquele que recebera tão importante Mensagem, antecipava com impaciência a hora em que pudesse aliviar Sua alma sobrecarregada, tão cheia das poderosas energias resultantes da nascente Revelação Divina. Tudo o que Ele fez no decorrer deste intervalo predeterminado, foi dar a entender, em velada e alegórica linguagem - em epístolas, comentários, preces e tratados, os quais foi movido a revelar - que a promessa do Báb já havia sido cumprida, e que Ele Próprio era o Escolhido para essa missão. Alguns condiscípulos Seus, destacáveis por sua sagacidade e devoção à Sua Pessoa, perceberam a radiação da ainda não revelada glória que Lhe inundara a alma, e teriam divulgado o Seu segredo, proclamando-o aos quatro ventos, se não fosse a Sua influência repressora.

CAPÍTULO VII
O DESTERRO DE BAHÁ'U'LLÁH
PARA O IRAQUE

O atentado contra a vida de Nasiri'd-Dín Sháh, como mencionado em capítulo anterior, ocorreu no dia 28 do mês de Shavvál, 1268 A.H. (o que corresponde ao dia 15 de agosto de 1852). Imediatamente depois, Bahá'u'lláh foi apreendido em Niyávarán, conduzido com a maior ignomínia a Teerã e lá atirado no Síyáh-Chál. Seu encarceramento durou por um período de não menos de quatro meses, no meio do qual se iniciou o "ano nove" (1269) - predito pelo Báb em termo tão ardorosos, e mencionado por Shaykh Ahmad-i-Ahsá'í como o ano "após Hín" - o qual dotou o mundo inteiro de potencialidades nem sonhadas. Dois meses depois de nascer esse ano, Bahá'u'lláh - havendo agora sido realizado o objetivo de Sua prisão - foi libertado e partiu, um mês mais tarde, para Bagdá, na primeira etapa de um exílio memorável, destinado a durar até o fim da vida e a levá-Lo, no decurso dos anos, até Adrianópolis na Turquia Européia e a terminar com Seu encarceramento de vinte e quatro anos em 'Akká.

Agora que - em conseqüência daquele sonho tão potente - Ele fora investido do poder e da autoridade soberana associados com Sua missão Divina, tornou-se imperativa e urgente, bem como inevitável, Sua libertação de um encarceramento que já havia atingido seu propósito e que, caso fosse prolongado, O teria impedido completamente do exercício de Suas funções, as quis tão recentemente Lhe foram conferidas. Nem faltavam os instrumentos e meios de efetivar Sua emancipação dos grilhões repressores. A persistente e decisiva intervenção do ministro russo, o príncipe Dolgorouki, que não poupou esforços para estabelecer a inocência de Bahá'u'lláh; a pública de Mullá Shaykh 'Alíy-i-Turshízi, apelidado Azím, que, no Síyáh-Chál, na presença do Hajibu'd-Dawlih e do intérprete do Ministro Russo e do representante do governo, enfaticamente O livrou da culpa, confessando sua própria cumplicidade; o indiscutível testemunho dado por competentes tribunas; os perseverantes esforços envidados por Seus próprios irmãos, irmãs e outros parentes - tudo isso se uniu para efetivar, afinal, Sua libertação das mãos de Seus inimigos rapaces. Outra influência poderosa - ainda que menos evidente - que se deve admitir haver contribuído para Sua libertação, foi o destino sofrido por tão grande número de Seus abnegados condiscípulos que com Ele languesciam nessa mesma prisão. Pois - como Nabíl observa com razão - "o sangue derramado no decurso daquele ano fatídico em Teerã, por esses heróicos companheiros de prisão de Bahá'u'lláh, foi o resgate pago por Sua libertação das mãos de um inimigo que tentava impedi-Lo de atingir o objetivo para o qual Deus O destinara."

Em virtude de testemunhos tão preponderantes, que estabeleceram, além da menor sombra de dúvida, não haver sido Bahá'u'lláh envolvido, o Grão-Vizir depois de obter o consentimento do seu soberano, embora relutante, estava em uma posição de despachar ao Síyáh-Chál seu representante fidedigno, Hájí 'Alí, para entregar a Bahá'u'lláh a ordem de libertação. O espetáculo com o qual esse emissário se deparou, ao chegar, nele evocou tão grande indignação que ele amaldiçoou seu mestre por esse vergonhoso tratamento de um homem de tão elevada posição e imaculado renome. Tirando dos ombros o manto apresentou-o a Bahá'u'lláh, implorando-Lhe que o usasse na presença do Ministro e seus conselheiros - pedido este que Ele enfaticamente recusou, preferindo se apresentar nas vestes de prisioneiro diante dos membros do governo imperial.

Assim que Bahá'u'lláh entrou em sua presença o Grão-Vizir dirigiu-se a Ele, dizendo: "Tivésseis vos dignado a seguir meu conselho e vos desassociado da Fé do Siyyid-i-Báb, nunca teríeis sofrido as dores e as indignidades que sobre vós têm sido amontoadas." "Tivésseis vós, por vossa vez", retrucou Bahá'u'lláh, "seguido Meus conselhos, os assuntos do governo não haveriam chegado a tão crítica fase." Mírzá Áqá Khán recordou então a conversação tida com Ele na ocasião do martírio do Báb, quando fora advertido de que "a chama que se acendeu arderá mais intensamente do que nunca". "Que é que me aconselhais agora a fazer?" inquiriu ele de Bahá'u'lláh. "Mandai os governadores do reino, foi a resposta instantânea, "deixarem de derramar o sangue dos inocentes, deixarem de lhes saquear as propriedades, deixarem de desonrar suas esposas e maltratar suas crianças." Nesse mesmo dia, o Grão-Vizir agiu de acordo com o conselho que lhe dera; mas qualquer efeito que tivesse - assim como o decurso dos acontecimentos subseqüentes demonstraram amplamente - provou ser momentâneo e insignificante.

O período de relativa paz e tranqüilidade desfrutado por Bahá'u'lláh depois de Seu trágico e cruel aprisionamento, estava destinado, por determinação de infalível Sabedoria, a uma duração extremamente limitada. Mal acabava Ele de retornar ao seio de Sua família e parentes, quando um decreto de Násiri-d-Dín Shá Lhe foi transmitido, pelo qual era intimado a deixar o território persa, fixando o prazo Maximo de um mês para Sua partida, e permitindo-Lhe o direito de escolher o país de Seu exílio.

O ministro russo, logo que foi informado da decisão imperial, expressou o desejo de colocar Bahá'u'lláh sob a proteção de seu governo e ofereceu proporcionar toda facilidade para Sua transferência à Rússia. Esse convite tão espontâneo, Bahá'u'lláh declinou, preferindo, guiado por um instinto infalível, estabelecer residência em território turco, na cidade de Bagdá. "Enquanto Eu jazia acorrentado e agrilhoado na prisão" - testificou Ele próprio, anos depois, em Sua Epístola dirigida ao Czar da Rússia Nicolaevitch Alexandre II - "um de teus ministros Me ofereceu sua ajuda. Por isso Deus te ordenou uma posição compreensível a nenhum conhecimento, senão o Seu. Acautela-te para que não troques essa sublime posição." E ainda outro testemunho esclarecedor revelado por Sua pena: "Nos dias em que este Ser Injuriado estava penosamente aflito na prisão, o ministro do altamente estimado governo (da Rússia) - que Deus, glorificado e exaltado seja Ele, o ajude! - envidou os máximos esforços para abranger Minha libertação. Várias vezes foi concedida permissão para Me libertar. Alguns dos ulemás da cidade, porém, impediam isso. Minha liberdade foi conseguida, finalmente, através da solicitude e do esforço de Sua Excelência, o Ministro... Sua Majestade Imperial, o Mais Grandioso Imperador - que Deus - exaltado e glorificado seja Ele, lhe ajude! - proporcionou-me, por amor a Deus, sua proteção que excitou a inveja e a inimizade dos insensatos na terra."

O édito do xá, equivalente a uma ordem para a expulsão imediata de Bahá'u'lláh para fora do território persa, abre um novo e glorioso capítulo na história do primeiro século bahá'í. Visto na devida perspectiva, será, até, reconhecido como o ponto donde se iniciou uma das mais agitadas e momentosas épocas na história religiosa do mundo. Coincide com a inauguração de um ministério que se estendeu por um período de quase quarenta anos - um ministério sem paralelo nos anais religiosos da humanidade inteira, em virtude de seu poder criador, sua força purificadora, suas influências saneadoras e da irresistível operação das forças que liberou - forças que dirigiram o mundo e lhe determinaram o curso de desenvolvimento. Assinala a fase inicial em uma série de desterros, que se estendeu sobre um período de quatro décadas e só terminou com a morte Daquele que era o Objeto desse édito cruel. O processo que o édito p6os em movimento, gradativamente progredindo e se desenvolvendo, de início estabeleceu Sua Causa por algum tempo no próprio centro da bem guardada cidadela do islã xiita, pondo-O em contato com seus mais altos e mais ilustres expoentes; então, em etapa posterior, O fez confrontar-se, na sede do califado, com os dignitários civis e eclesiásticos do reino e os representantes do Sultão da Turquia, o mais poderoso potentado do mundo islâmico; e, finalmente, O levou até as plagas da Terra Santa, assim cumprindo as profecias registradas tanto no Velho como no Novo Testamento, redimindo a promessa encerrada nas várias tradições atribuídas ao Apóstolo de Deus e aos Imames que Lhe sucederam e inaugurando a restauração da Israel - há tanto esperada - ao antigo berço de sua Fé. Pode-se dizer que com esse édito começou a última e a mais frutífera das quatro etapas de uma vida cujos primeiros vinte e sete anos foram caracterizados pelo desfrute despreocupado de todas as vantagens conferidas por uma nobre linhagem e grande riqueza, e por uma infalível solicitude pelos interesses dos pobres, dos enfermos e dos espezinhados; anos estes seguidos por nove anos de serviço ativo e exemplar como discípulo do Báb; e finalmente por um encarceramento de quatro meses de duração ensombrado do começo ao fim por perigo mortal, amargurado por tristezas agonizantes e imortalizado, ao aproximar-se de seu término, pela repentina erupção das forças liberadas por uma Revelação sobrepujante, que revolucionava a alma.

Esta compulsória e apressada, partida de Bahá'u'lláh para fora de Sua terra natal, acompanhado por alguns de Seus parentes, lembra, em alguns aspectos, a fuga precipitada da Sagrada Família para o Egito; a repentina migração de Maomé, pouco tempo depois de haver Ele assumido o cargo de Profeta, de Meca para Medina; o êxodo de Moisés, Seu irmão e Seus prosélitos de sua terra natal, em atenção à determinação Divina. Lembra, sobretudo, a expulsão de Abraão, de Ur da Caldéia para a Terra Prometida, banimento este que, pelo sem-número de benefícios que propiciou aos mais diversos povos, crenças, e nações, constitui a mais estreita aproximação histórica com as bênçãos incalculáveis que seriam concedidas, no presente e no futuro, a toda a espécie humana, como conseqüência direta do exílio suportado por Aquele cuja Causa é a flor e o fruto de todas as Revelações anteriores.

Abdu'l-Bahá, depois de enumerar em Sua obra "Respostas a Algumas Perguntas"1 as vastas conseqüências do banimento, afirma significativamente que "desde que o exílio de Abraão - de Ur e Aleppo na Síria - "desde que o exílio de Abraão - de Ur a Aleppo na Síria - produziu esse resultado, devemos considerar qual não será o efeito do exílio de Bahá'u'lláh nas várias transferências - de Teerã a Bagdá, dali a Constantinopla, a Adrianópolis e a Terra Santa."

No primeiro dia do mês de Rabí'u'th-Thání, do ano 1269 A.H. (12 de janeiro de 1853), nove meses após Seu regresso de Karbilá, Bahá'u'lláh, junto com alguns membros de Sua família e escoltado por um oficial da guarda pessoal do Imperador e um funcionário representante da Legação da Rússia, iniciou Sua viagem de três meses para Bagdá. Entre aqueles que compartiram Seu exílio figurava Navváb, Sua esposa, de caráter santo, por Ele intitulada a "Mais Excelsa Folha", e quem, durante quase quarenta anos, continuou a mostrar uma fortaleza, uma piedade, uma devoção e uma nobreza de alma que para ela ganharam, da pena de seu Senhor, o tributo póstumo, incomparável, de haver sido feita Sua "consorte perpétua em todos os mundos de Deus." Entre os exilados que agora se despediam pela última vez de sua terra natal, se incluíam também o filho de Bahá'u'lláh, de nove anos de idade, mais tarde apelidado o "Maior Ramo", destinado a ser o Centro de Seu Convênio e autorizado Intérprete de Seus ensinamentos, juntamente com Sua irmã de sete anos, conhecida em anos posteriores pelo mesmo título de sua ilustre mãe, e cujos serviços, até a idade avançada de oitenta e seis anos, bem como sua exaltada linhagem, lhe justificam a distinção de ser considerada a heroína proeminente da Era Bahá'i. Dos dois irmãos que o acompanharam nessa viagem, o primeiro era Mírzá Músá, conhecido geralmente como Áqáy-i-Kalím, Seu firme e apreciado defensor, o mais capaz e distinguido dentre Seus irmãos e irmãs, e uma das "únicas duas pessoas que", segundo o testemunho de Bahá'u'lláh, "estavam informadas, adequadamente, das origens" de Sua Fé. O outro foi Mírzá Muhammad-Qulí, um meio-irmão que, não obstante a apostasia de alguns de Seus parentes, permaneceu, até o fim, leal à Causa que ele adotara.

A viagem - empreendida no auge de um inverno excepcionalmente severo, a qual levou o pequeno grupo de exilados, tão mal equipados, através das nevadas montanhas da Pérsia ocidental - embora fosse longa e perigosa, se consumou sem outros acontecimentos, senão a cordial e entusiástica recepção que foi dada aos viajantes durante sua breve estada em Karand pelo governador, Hayát-Qulí Khán, da seita 'Allíyu'lláhí. Em retribuição, Bahá'u'lláh lhe mostrou tal bondade que toda a gente da aldeia se sentiu afetada e por muito tempo, depois disso, continuou a mostrar tanta hospitalidade a Seus seguidores, em seu caminho a Bagdá, que ganharam a reputação de serem bábís.

Em uma oração que Ele revelou naquele tempo, estendendo-se sobre as dores e tribulações que suportara no Síyáh-chál, Bahá'u'lláh dá testemunho das durezas sofridas durante aquela "terrível viagem", nas seguintes palavras: "Meu Deus, Meu Mestre, Meu Desejo... Tu criaste este átomo de pó mediante o consumado poder de Tua grandeza e O nutriste com Tuas mãos, as quais por ninguém podem ser acorrentadas... A Ele tens destinado provas e sofrimentos que língua alguma pede descrever, nem qualquer uma de Tuas Epístolas relatar de um modo adequado. A garganta que Tu acostumaste ao toque de seda, tens, afinal, cingido de fortes correntes, e o corpo ao qual deste o conforto de brocados e veludos, tens sujeitado, por fim, à degradação de um calabouço. Teu decreto Me prendeu com inumeráveis grilhões e ao redor do pescoço Me pôs correntes que ninguém pode romper. Passaram-se alguns anos, durante os quais aflições, assim como chuvas de misericórdia, sobre mim caíram... Quantas foram as noites em que o peso de correntes e grilhões nenhum repouso Me permitia, e que numerosos os dias durante os quais paz e tranqüilidade Me eram negadas, por causa daquilo com que as mãos e as línguas dos homens Me afligiram! Tanto o pão como a água - que Tu, através de Tua misericórdia que a tudo abarca, tens concedido ao animais do campo - eles, a este servo, têm por algum tempo negado, e as coisas que recusaram infligir aqueles que se têm apartado de Tua Causa, as mesmas eles deixaram ser infligidas a Mim, até que, finalmente, Teu decreto irrevogável foi determinado, e Teu mandato intimou este servo a que partisse da Pérsia, acompanhado por um grupo de homens debilitados e crianças de tenra idade, neste tempo em que o frio é tão intenso que se não pode nem falar, e o gelo e a neve estão tão abundantes que e impossível se mover."

Finalmente, no dia 28 de Jamádíyu'th-Thání 1269 A.H. (8 de abril de 1853), Bahá'u'lláh chegou em Bagdá, a cidade capital do território que naquele tempo era a província turca do Iraque. Daí procedeu Ele, alguns dias depois, a Kazimayn, cerca de três milhas para o norte da cidade - uma cidade habitada principalmente por persas, e onde os dois Kázims, o sétimo e o nono dos Imames, estão sepultados. Pouco depois de Sua chegada, o representante do governo do xá em Bagdá, Lhe visitou e sugeriu que seria aconselhável, em vista do grande número de visitantes que se aglomeravam nesse centro de peregrinação, estabelecer Sua residência no Bagdá Velho, sugestão esta que Ele de pronto aceitou. Um mês mais tarde, perto do fim de Rajab, Ele alugou a casa de Hájí 'Alí Madad, em um bairro antigo da cidade, e para essa casa se mudou com Sua família.

Nessa cidade, descrita em tradições islâmicas como "Zahru'l-Kúfih", designada por séculos como a "Morada da Paz", e imortalizada por Bahá'u'lláh como a "Cidade de Deus", Ele continuou a residir até Seu desterro a Constantinopla, com exceção de Seu retiro de dais anos nas montanhas de Kurdistán e Suas visitas ocasionais a Najaf, Karbilá e Kazimayn. A essa cidade havia o Alcorão aludido como a "Morada da Paz" para a qual o próprio Deus "convoca". Ainda outra referência se fizera a isso nesse mesmo Livro, no versículo: "Para eles há uma Morada de Paz, com seu Senhor... no Dia em que Deus a todos haverá de reunir." Dessa cidade se irradiava, onda após onda, um poder, um resplendor e uma glória que insensivelmente reanimaram uma Fé que languescia, penosamente ferida, afundando-se na obscuridade, ameaçada de extinção. Dessa cidade se difundiam, dia e noite, e com sempre crescente energia, as primeiras emanações de uma Revelação que em sua amplitude, sua profusão, sua força propulsora, e no volume e na variedade de sua literatura, estava destinada a exceder a do próprio Báb. Sobre Seu horizonte irromperam os raios do Sol da Verdade, cuja glória nascente se havia ensombrecido, durante dez longos anos, com as nuvens negras de um ódio consumidor, um clima inerradicável, uma implacável malicia. Nessa cidade se erigiu pela primeira vez o Tabernáculo do prometido "Senhor dos Exércitos", e se estabeleceram inexpugnavelmente os alicerces do Reino do "Pai", desde muito tempo esperado. Dela saíram as primeiras novas da Mensagem de Salvação, que - segundo profetizou Daniel - haveria de assinalar, depois do lapso de "mil e duzentos e noventa dias" (1290 A.H.), o fim "da abominação que desola". Dentro de seus muros foi irrevogavelmente fundada e permanentemente consagrada a "Mais Grandiosa Casa de Deus", Seu "Escabelo" e o "Trono de Sua Glória", "o Alvo de um mundo adorador", a "Lâmpada de Salvação entre a terra e o céu", o "Sinal de Sua lembrança para todos os que estão no céu e na terra", entesourando a "Jóia cuja glória se irradiou sobre toda a criação", o "Estandarte" de Seu Reino, o "Santuário a cujo redor circular a assembléia dos fiéis". Em virtude de sua santidade como a "Mais Sagrada Morada" de Bahá'u'lláh e a "Sede de Sua transcendente glória", lhe foi conferida a honra de ser considerada um centro de peregrinação - inferior a nenhuma outra cidade, senão à de 'Akká, Sua "Mais Grandiosa Prisão", em cujas imediações está entesourado Seu santo Sepulcro, o Qiblih do mundo bahá'i. Ao redor da Mesa celestial, posta em seu próprio coração, sacerdotes e leigos, sunitas e xiitas, curdos, árabes e persas, príncipes e nobres, camponeses e dervishes, se reuniam em número sempre crescente, de longe e de perto, recebendo - todos eles, de acordo com suas necessidades e suas capacidades - um quinhão daquele sustento Divino que, no decurso do tempo, os capacitaria a divulgar a fama daquele generoso Doador, encher as fileiras de Seus admiradores, difundir em toda parte Seus escritos, ampliar os limites de Sua congregação e lançar um alicerce firme para a futura ereção das instituições de Sua Fé. E finalmente, ante os olhos das diversas comunidades que habitavam dentro de seus portais, se introduziu a primeira rase no gradativo desenvolvimento de uma Revelação recém-nascida, foram escritas as primeiras efusões da inspirada pena de seu Autor, e formulados os primeiros princípios de Sua doutrina que lentamente se cristalizava; apreenderam-se as primeiras implicações de Seu augusto grau; foram lançados os primeiros ataques que visaram solapar interiormente Sua fé, e registradas as primeiras vitórias sobre Seus inimigos internos; e as primeiras peregrinações à Porta de Sua presença foram empreendidas.

Esse perpétuo exílio a que agora, providencialmente, acabava de ser condenado o Transmissor de tão preciosa Mensagem, nas manifestou logo - e, na verdade, não poderia manifestar súbita ou rapidamente - as suas potencialidades latentes. O processo pelo qual Seus inimagináveis benefícios seriam evidenciados aos olhos do homens, foi lento, penosamente lento, e caracterizou-se, como realmente demonstra a história da Sua Fé desde o seu início até os dias que correm, por um número de crises que, por vezes, ameaçaram interromper o seu curso e anular todas as esperanças que o seu progresso alimentara.

Uma dessas crises, à proporção que se agravava, ameaçando comprometer Sua recém-nascida Fé e abater Seus ainda frescos alicerces, encobriu os primeiros anos do Seu estágio no Iraque - o marco inicial de Seu longo exílio - dando a esse período uma significação toda especial. Ao contrário das crises que a precederam, esta foi de caráter puramente íntimo, tendo sido ocasionada tão somente pelos atos, ambições e desatinos daqueles que se enumeravam no seio de Seus declarados condiscípulos.

Os inimigos externos da Fé, quer civis ou eclesiásticos, que até então haviam sido os responsáveis principais pelos revezes e humilhações que ela sofrera, estavam agora relativamente quietos. O apetite público por vingança, que havia parecido insaciável, diminuíra um pouco agora, em conseqüência das torrentes de gangue que haviam corrido. Ainda mais, um sentimento que se aproximava de esgotamento e desespero se apoderara de alguns de seus inimigos mais inveterados, os quais tinham bastante astúcia para perceber que embora a Fé se tivesse curvado sob os severos golpes que suas mãos lhe infligiram, sua estrutura havia permanecido essencialmente intacta e seu espírito não se rendera. As ordens emitidas aos governadores das províncias pelo Grão-Vizir, além disso, tiveram um efeito moderado sobre as autoridades locais, levando-as agora a abster-se de desencadearem sua fúria sobre um odiado adversário e de lhe infligirem suas sádicas crueldades.

Houve, em conseqüência, um período de calma momentânea, destinado a ser interrompido, em época posterior, por mais uma onda de medidas repressivas nas quais o Sultão da Turquia e Seus ministros, bem como a ordem sacerdotal sunita, se aliariam com o xá e o clero xiita da Pérsia e do Iraque em um esforço de exterminar, uma vez por todas, a Fé e tudo o que ela representava. Enquanto persistia essa pausa, começavam a revelar-se os primeiros sinais da crise interna já mencionada - uma crise que, embora menos espetacular aos olhos do público, provou, à medida que se aproximava de seu clímax, ser de uma gravidade sem precedentes, reduzindo a força numérica dessa comunidade ainda em sua infância, pondo-lhe em perigo a unidade, causando dano imenso a seu prestígio e, por um período considerável, maculando-lhe a glória.

Essa crise, já em fermentação nos dias imediatamente depois da execução do Báb, intensificou-se durante os meses em que a mão controladora de Bahá'u'lláh foi de repente retirada, em conseqüência de Seu encarceramento no Síyáh-chál de Teerã. Agravou-se ainda mais com Seu precipitado desterro da Pérsia, e começou a salientar as feições perturbadoras durante os primeiros anos de Sua estada em Bagdá. A força devastadora dessa crise acelerou-se no decorrer dos dais anos do retiro de Bahá'u'lláh às montanhas do Curdistão e, embora fosse detida por algum tempo depois de Seu regresso de Sulaymaníyyih - em virtude das influências preponderantes exercidas enquanto se preparava para a Declaração de Sua Missão - irrompeu mais tarde, com violência ainda maior, e atingiu seu clímax em Adrianópolis, vindo porém a receber finalmente o golpe mortal, com o impacto das forças irresistíveis que foram liberadas mediante a proclamação dessa Missão a toda a humanidade.

A figura central dessa crise não era outra pessoa, senão aquela nomeada pelo próprio Báb, o crédulo e covarde Mírzá Yahyá, a certas características de quem já nos referimos em páginas anteriores. O homem malévolo, infame, que enganou e, com habilidade consumada e uma persistência indomável, manipulou aquela pessoa vaidosa e flácida, foi um certo Siyyid Muhammad, nativo de Isfáhán, notório por sua excessiva ambição, sua obstinácia cega e seus ciúmes irrefreáveis. A ele se referiu posteriormente Bahá'u'lláh, no Kitáb-i-Aqdas, como aquele que "desencaminhara" Mírzá Yahyá e, em uma de Suas Epístolas, o estigmatizou como a "fonte de inveja e a quinta essência da maldade", enquanto 'Abdu'l-Bahá descreveu a relação que existia entre os dois como a de uma "criança de peito" e o "muito apreciado seio" da mãe. Havendo sido forçado a abandonar os estudos no Madrisiyi-i-Sadr (Escola) de Isfahan, esse Siyyid, envergonhado e com remorso, migrara a Karbilá, onde se alistara nas fileiras dos seguidores do Báb, evidenciando-se nele, porém, após o martírio, sinais de vacilação que expunham a superficialidade de sua fé e a fraqueza de suas convicções. A primeira visita de Bahá'u'lláh a Karbilá e as inequívocas evidências da reverência, do amor e da admiração que alguns dos mais eminentes entre os antigos discípulos e companheiros de Siyyid Kázim sentiam por Ele, haviam incitado nesse intrigante e inescrupuloso tramador uma inveja, e em sua alma criado uma animosidade, sobre as quais a tolerância e paciência que lhe foram mostradas por Bahá'u'lláh outro efeito não tiveram, senão o de as avivar. Seus iludidos ajudantes, instrumentos voluntários de seus diabólicos designados, foram os bábís - de número considerável - que, frustrados, desiludidos e sem guia, já estavam predispostos a ser por ele seduzidos a um caminho diametralmente oposto aos preceitos e conselhos de um Líder falecido.

Em vista do fato, pois, de não mais estar o Báb no meio de Seus seguidores e de estar a pessoa por Ele nomeada buscando um refúgio seguro nas montanhas de Mazindarán, ou, disfarçado em derviche, ou em árabe, vagando de cidade em cidade; e em vista de haver sido Bahá'u'lláh aprisionado e, subseqüentemente, banido para além das fronteiras de sua terra natal, tendo sido ceifada a flor da Fé em uma série de matanças que parecia interminável, os remanescentes daquela comunidade perseguida estavam submersos em uma angústia que os aterrava e paralisava, lhes sufocando o espírito, confundindo a mente e pando à prova máxima a lealdade. Reduzidos a tal extremidade, não mais puderam depender de qualquer voz, de autoridade suficiente para lhes aquietar os pressentimentos, resolver os problemas ou lhes prescrever os deveres e obrigações.

O próprio Nabíl, viajando nesse tempo pela província de Khurasan, cena das tumultuosas primeiras vitórias de uma Fé nascente, havia resumido suas impressões da condição prevalecente. "O fogo da Causa de Deus", testifica ele em sua narrativa, "quase havia sido extinguido em toda parte. Nenhum traço de ardor podia eu perceber em qualquer lugar". Em Qasvín, segundo o mesmo testemunho, o remanescente da comunidade se havia dividido em quatro facções, amargamente opostas uma à outra, e presas das mais absurdas doutrinas e fantasias. Bahá'u'lláh, ao chegar em Bagdá - uma cidade que testemunhara as ardorosas evidências do zelo incansável de Táhirih - encontrou entre Seus conterrâneos residentes nessa cidade, apenas um só bábí, enquanto em Kazimayn, habitada principalmente por persas, permanecia uma simples mão-cheia de Seus compatriotas que ainda professavam sua fé no Báb, com medo e clandestinamente.

A moral dos membros dessa comunidade decrescente - tanto quanto seu número - havia declinado de uma maneira bem acentuada. Tão "refratários e insensatos" estavam - para citarmos as próprias palavras de Bahá'u'lláh, que, ao ser libertado da prisão, Sua primeira decisão foi "levantar-se... e empreender, com o máxima vigor, a tarefa de regenerar esse povo".

Como declinava o caráter dos professos adeptos do Báb, e como se multiplicavam as provas da profunda confusão que entre ales medrava, os desordeiros que se achavam à espreita e cujo único propósito era explorar em seu próprio benefício a progressiva piora da situação, se manifestaram cada vez mais audaciosos. A conduta de Mírzá Yahyá, que pretendia ser o sucessor do Báb e que se orgulhava de Seus altissonantes títulos de Mir'átu'l-Azalíyyih (Espelho Eterno), Subh-i-Azal (Manhã da Eternidade) e Ismu'l-Azal (Nome da Eternidade) e, especialmente as maquinações de Siyyid Muhammad, agraciado por ele com o grau de primeira entre as "Testemunhas" do Bayán, assumiam tal feição que o prestígio da Fé ia sendo diretamente envolvido, e sua segurança, seriamente comprometida.

Tão violento choque sofrera aquele, após a execução da Báb, que quase abandonou sua fé. Errando por uns tempos, sob os disfarces de um derviche, nas montanhas de Mázindarán, ele pelo seu procedimento, tão severamente pôs à prova seus irmãos de fé em Núr, a maioria dos quais fora convertida através da infatigável dedicação de Bahá'u'lláh, que eles também hesitaram em suas convicções chegando alguns a bandearem-se para as hostes inimigas. Ele, em seguida, encaminhou-se a Rasht e permaneceu oculto na província de Gílán até a sua partida para Kirmánsháh, onde, a fim de melhor encobrir-se, colocou-se ao serviço de certo 'Abdu'lláh-i-Qasvíní, fabricante de mortalhas, tornando-se vendedor de seus artigos. Ainda aí se achava, quando Bahá'u'lláh passou por essa cidade, a caminho de Bagdá; exprimiu a Este seu desejo de morar próximo a Ele, mas numa casa para si só, onde, incógnito, pudesse dedicar-se a algum negócio. Conseguiu de Bahá'u'lláh uma certa soma de dinheiro com a qual comprou diversos fardos de algodão, partindo em seguida, sem traje de árabe, para Bagdá, via Mandalíj. Aí estabeleceu-se na rua dos Negociantes de Carvão, situada num velho quarteirão da cidade, e colocando um turbante na cabeça, além de adotar o nome de Hájí Alíy-i-Lás-Furúsh, aventurou-se à sorte de sua nova ocupação. Siyyid Muhammad, nesse ínterim, estabelecera-se em Karbilá e se empenhava a fundo, tendo Mírzá Yahyá como seu braço direito, em disseminar a desavença e em atrapalhar a vida dos exilados e da comunidade que aos mesmos sa achegara.

Não é, pois, de estranhar ter Bahá'u'lláh - que se achava ainda incapaz de divulgar o Segredo que se revolvia dentro de Seu peito - proferido estas palavras de advertência, de conselho, e de afirmação ao tempo em que as sombras começavam a adensar-se em torno Dele: "Os dias de provações e aflições se levantam e as Bandeiras da Dúvida se agitam em cada canto, espalhando o mal e conduzindo os homens à perdição... Não consintais que a voz de alguns soldados da negação desperte a dúvida em vosso seio, nem permitais que o vosso espírito se incline a olvidar-se Daquele que é a Verdade, tanto mais que surgiram em todas as Eras Protéticas, transes idênticas. Deus, de qualquer maneira, estabelecerá Sua fé e fará irradiar Sua Luz, embora odiada pelos provocadores de tumultos... Aguardai, sem cessar, a Causa de Deus... Todos são cativos à Sua Onipotência. Não há guarida que possa abrigar a quem tente fugir-Lhe. Não penseis ser a Causa de Deus uma bagatela, em que qualquer um possa satisfazer seus caprichos... Em vários lugares, um certo número de pessoas alimenta, presentemente, essa mesma pretensão. Tempo virá em que... cada uma delas haja perecido, tendo-lhe perdido e voltado para o nada, como se fora a próprio pó."

Havia um jovem Bábí - Mírzá 'Aqá Ján, "o primeiro a crer" Nele, cognominado, mais tarde, Khádimu'lláh (Servo de Deus) - que, em sua fervorosa devoção, e influenciado por um sonho que tivera sobre o Báb, e também como resultado da leitura que fizera de certos escritos de Bahá'u'lláh, abandonou precipitadamente seu lar em Káshan, rumando para o Iraque, na esperança de chegar à Sua presença, e passou a servi-Lo assiduamente, por um período de quarenta anos na tríplice função de amanuense, companheiro e mordomo. A ele mais do que a qualquer outra pessoa, foi Bahá'u'lláh impelido a revelar, nesta crítica situação, um vislumbre da ainda irrevelada glória de Sua missão. Mírzá Áqá Ján, descrevendo a Nabíl os acontecimentos daquela primeira e inesquecível noite passada em Karbilá na presença do querido Objeto de sua busca, o qual era, naquela ocasião, hóspede de Hájí Mírzá Hasan-i-Hakím-Báshí, prestou o seguinte testemunho: "Como era verão, Bahá'u'lláh costumava passar as primeiras horas da noite, e mesmo dormir no terraço da casa... Essa noite, quando Ele se havia recolhido, eu, de acordo com Suas instruções, deitei-me para um breve descanso, a uma pequena distância de onde Ele se encontrava. Nem bem me levantara e... começara a oferecer minhas preces, quando a um canto do terraço, limitado por uma parede percebi Sua abençoada Pessoa levantar-se e caminhar em minha direção. Quando me alcançou disse: "Também tu estás desperto!" e pôs-se a salmodiar, andando de lá para cá. Como poderia eu descrever essa voz e os versos que entoava, e o garbo de Sua postura ao ir e vir, a largas e fortes passadas à minha frente! Parecia-me, a cada passada Sua e a cada palavra que pronunciava, surgirem diante de mim milhares de oceanos luminosos e descerrarem-s ante meus olhos milhares de mundos de incomparável esplendor, e irradiarem sua luz sobre mim, milhares de sóis! Aos raios do luar, que se derramavam sobre Ele, continuava, assim, a passear e a entoar. Cada vez que se aproximava de mim, fazia uma pausa, e, com acento tão maravilhoso que língua alguma poderá descrever, dizia-me: "Ouve-me, Meu filho, por Deus, o Verdadeiro! Esta Causa será, indubitavelmente, proclamada. Não dês ouvido às vãs palavras do povo do Bayán, que deturpa o significado de cada termo!" Desta forma, Ele continuou a andar, a entoar e a dirigir-me estas palavras, até que os primeiros albores do dia brilharam no céu... Depois disso, transportei os preparos do Seu leito para os Seus aposentos e, tendo-Lhe preparado o chá, retirei-me de Sua presença".

A confiança instilada em Mírzá Áqá Ján por este imprevisto e repentino contato com o espírito e gênio diretor desta Revelação recém-nascida, atingiu as profundezas de sua alma -alma esta já inflamada pela chama do amor que sentira, ao reconhecer a ascendência que seu recém-encontrado Mestre já exercia sobre Seus condiscípulos, tanto no Iraque como na Pérsia. Essa intensa adoração que tomou conta de todo seu ser e que não poderia ser suprimida nem abafada, foi logo percebida por Mírzá Yahyá e seu comparsa, Siyyid Muhammad. As circunstâncias que precederam à Revelação da Epístola de Kullu't-Tá'ám, escrita durante esse período, a pedido de Hájí Mírzá Kamálu'd-Dín-i Naráqí, bábí de honrosa linhagem e alta cultura, nada mais puderam fazer senão agravar uma situação que já se tornara séria e ameaçadora. Impelido pelo desejo de ser esclarecido por Mírzá Yahyá, sobre o significado do versículo do Alcorão: "Toda a sorte de alimentos foi permitida aos filhos de Israel", Hájí Mírzá Kamálu'd-Dín solicitara que escrevesse um comentário sobre isso - pedido que foi satisfeito, mas com relutância e de maneira tal, que patenteava a incompetência e a superficialidade de seus conhecimentos, o que levou Hájí Mírzá Kamálu'd-Dín a desiludir-se e a perder a confiança no seu autor. Voltando-se para Bahá'u'lláh e repetindo seu pedido, foi agraciado com uma Epístola em que Israel e seus filhos foram identificados como o Báb e Seus seguidores, respectivamente - Epístola que, em razão das alusões nela contidas, da beleza de sua linguagem e da lógica de seu argumento, tanto arrebatou a alma de seu destinatário que, se não o tivesse impedido a mão de Bahá'u'lláh, teria ele proclamado imediatamente sua descoberta do Segredo de Deus na pessoa Daquele que a revelara.

A essas provas de uma veneração cada vez mais profunda por Bahá'u'lláh e extremado afeto à Sua pessoa, acrescentavam-se, agora, ainda maiores motivos para eclosão dos recalcados ciúmes que o Seu crescente prestígio provocava nos ânimos de Seus desafetos e inimigos.

A constante ampliação do círculo de Seus conhecidos e admiradores; Seu contato amistoso com oficiais, inclusive o governador da cidade; a sincera homenagem que em tantas ocasiões e tão espontaneamente Lhe era prestada por homens que anteriormente foram distinguidos companheiros de Siyyid Kázim; a desilusão que a persistente ocultação de Mírzá Yahyá e as informações pouco lisonjeiras circulando a respeito de seu caráter e que suas habilidades haviam engendrado;os sinais de crescente independência, de sagacidade inata e de inerente superioridade e capacidade para dirigir que foram demonstradas inequivocamente pelo próprio Bahá'u'lláh - tudo isso contribuiu para alargar a brecha que o infame e astucioso Siyyid Muhammad se empenhara assiduamente em criar.

Percebia-se claramente uma oposição clandestina cujo escopo era anular todo o esforço despendido por Bahá'u'lláh e frustrar-Lhe todos os planos concebidos para a reabilitação de uma comunidade desorientada. Circulavam incessantemente insinuações cujo propósito era disseminar a dúvida e a suspeita, e fazer crer que Ele fosse um usurpador, o destruidor das leis instituídas do Báb, e provocador do naufrágio de Sua Causa. Suas Epístolas, interpretações, invocações e comentários vinham sendo velada e indiretamente criticados, impugnados e adulterados. Até mesmo um atentado físico à Sua Pessoa foi preparado, mas não chegou a concretizar-se.

A taça das tristezas de Bahá'u'lláh transbordava agora. Todas as Suas exortações, todos os Seus esforços para remediar uma situação que rapidamente se deteriorava, continuaram a ser infrutíferas. A velocidade de Suas múltiplas tribulações aumentava visivelmente hora a hora. Sobre a tristeza que Lhe enchia a alam e a gravidade da situação que enfrentava, Seus escritos revelados durante aquele período sombrio derramaram abundante luz. Em algumas de Suas orações confessa Ele de um modo lancinante que "tribulação após tribulação" se haviam aglomerado a seu redor, que "adversários de comum acordo" haviam contra Ele investido, que "miséria" lastimavelmente O atingira, e que "os mais negros pesares" Lhe sobrevieram. Ao próprio Deus invoca Ele como testemunha de Seus "suspiros e lamentos", de Sua "incapacidade, pobreza e desamparo", dos "males" que suportou e da "degradação" que Ele sofreu. "Tão penoso tem sido Meu pranto", assevera Ele em uma dessas orações, "que fui impedido de Te mencionar e de cantar Teus louvores." "Tão alta foi a voz de Minha lamentação", declara Ele em outra passagem, "que cada mãe de luto por seu filho se assombraria e haveria de deter seus prantos e seu pesar." "As injúrias por Mim sofridas", lamenta Ele em seu Lawh-i-Maryam, "apagaram da Epístola da criação as injúrias sofridas por Meu Primeiro Nome (o Báb)." "Ó Maryam!" continua Ele, "da Terra de Tá (Teerã), após incontáveis aflições, alcançamos o Iraque - a mando do Tirano da Pérsia - onde, depois dos grilhões de Nossos inimigos, fomos afligidos com a perfídia de Nossos amigos. Deus sabe o que Me sobreveio em seguida!" E ainda: "Tenho suportado o que nenhum homem, seja do passado ou do futuro, já suportou ou suportará." "Oceanos de tristeza", testifica Ele na Epístola de Qullu't-Tá'ám, "têm surgido sobre Mim, nenhuma gota dos quais qualquer alma suportaria beber. Tal é Meu pesar que Minh'alma quase partiu de Meu corpo." "Daí ouvidos, ó Kamál!" - exclama Ele nessa mesma Epístola, descrevendo Sua aflitiva situação - "à voz desta formiga humilde, abandonada, que se escondeu em seu abrigo e cujo desejo é partir de vosso meio e desaparecer de vossa vista, por causa daquilo que as mãos dos homens fizeram. Deus, verdadeiramente, tem sido testemunha entre Mim e Seus servos." E ainda: "Ai de Mim, ai de Mim!... Tudo o que tenho visto desde o dia em que primeiro bebi o puro leite do seio da Minha mãe até este momento tem sido apagado de Minha memória, em conseqüência daquilo cometido pelas mãos do povo." Além disso, Ele - em Seu Qasídiy-i-Varqá'yyih, uma ode revelada durante os dias de Seu retiro às montanhas do Curdistão, em louvor da Donzela, personificação do Espírito de Deus que, pouco antes, sobre Ele descera - assim se desabafa das agonias que pesam sobre Seu coração: "O dilúvio de Noé é apenas a medida das lágrimas por Mim vertidas, e o fogo de Abraão uma ebulição de Minha alma. O pesar de Jacó é apenas um reflexo de Minhas tristezas, e as aflições de Jó uma fração de Minha calamidade." "Derrama sobre Mim paciência, ó Meu Senhor!" - tal é Sua súplica em uma de Suas orações - "e faze-Me vitorioso sobre os transgressores." "Nestes dias" escreveu Ele no Kitáb-i-Íqán, referindo-se à violência dos ciúmes que naquele tempo começavam a mostrar suas presas venenosas, "difundem-se tais odores de ciúmes que... desde o principio da fundação do mundo até o tempo presente, não aparecem de modo algum tal malícia, tal inveja e ódio, nem se presenciará igual no futuro." "Por dois anos, ou um pouco menos", declara Ele, de igual modo, em outra Epístola, "afastei-Me de tudo, salvo de Deus, e para todos, exceto Ele, fechei os olhos, a fim de que o fogo do ódio talvez se extinguisse e o ardor dos ciúmes viesse a diminuir."

O próprio Mírzá Áqá Jan testificou: "Essa Abençoada Beleza demonstrava tanta tristeza que as fibras de meu corpo tremiam." Da mesma forma ele relatou - conforme a narrativa de Nabíl - que, pouco antes do retiro de Bahá'u'lláh, vira-O em certa ocasião, ao dealbar da aurora, sair pressurosamente de Sua casa, com Seu barrete de dormir ainda na cabeça mostrando tais sinais de perturbação que ele foi incapaz de encara-Lo, e O ouvira asseverar enquanto caminhava: "Estas criaturas são as mesmas criaturas que durante três mil anos têm adorado ídolos e se curvado perante o Bezerro de Ouro. Agora, também, de nada melhor são capazes. Que relação pode haver entre esta gente e Aquele que é o Semblante da Glória? Que laço pode uni-los Àquele que é a suprema encarnação de tudo quanto é digno de amor?" "Permaneci", declara Mírzá Áqá Ján, "pregado ao chão, inanimado, consumido como uma árvore morta, pronto a baquear sob o impacto do grandioso poder de Sua palavra. Finalmente Ele disse: "Ordenai-os a recitar: "Há Quem remova as dificuldades a não ser Deus? Dize: Louvado seja Deus! Ele é Deus! Todos são Seus servos, e todos aquiescem a Seu mando." Dizei-lhe que repitam isso quinhentas vezes, ou melhor, mil vezes, ao dia e à noite, adormecidos ou despertos para que, talvez, o Semblante da Glória possa ser revelado aos seus olhos e jorros de luz sobre eles desçam." Como soubemos mais tarde, Ele Próprio recitava esse mesmo versículo, traindo Sua face a máxima melancolia... Diversas vezes, durante aqueles dias, ouvia-se-Lhe asseverar "Temos por certo temo, estado entre essa gente e malogramos em perceber neles a mínima atenção." Freqüentemente fazia Ele, alusão ao Seu desaparecimento do nosso meio, sem que nenhum de nós entendesse o que queria dizer."

Finalmente, ao discernir - assim como Ele Mesmo atesta no Kitáb-i-Íqán - "os sinais de acontecimentos iminentes", decidiu Ele retirar-se antes que se realizassem. "O objetivo único de Nosso retiro", afirma Ele nesse mesmo Livro, "foi evitar vir a ser motivo de discórdia entre os fiéis, fonte de distúrbios para Nossos companheiros, meio de danificar qualquer alma ou causa de tristeza para qualquer coração." "Nosso afastamento" - Ele, além disso, nessa mesma passagem, afirma enfaticamente - "a nenhum regresso visava, e Nossa separação não nutria esperança de reunião."

Repentinamente e sem informar a ninguém, nem mesmo dentre os membros de Sua própria família, a 12 do Rajab, 1270, D.H. (10 de abril de 1854), Ele partiu, acompanhado por um servidor, maometano chamado Abu'l-Qásim-i-Hamadání, a quem forneceu certa quantia em dinheiro, instruindo-o a agir como se fosse um mercador e a usar esse dinheiro em seu próprio proveito. Pouco tempo depois, esse servidor foi assaltado e morto por bandoleiros, ficando Bahá'u'lláh completamente sozinho em Suas peregrinações através dos desertos do Curdistão, região cuja forte e belicosa gente era conhecida por sua secular hostilidade para com os persas, e quem consideravam como dissidentes da Fé do islã e de quem diferenciavam nas idéias, na raça e no idioma.

Vestido grosseiramente, como um viajante, levando consigo nada mais que seu kashkúl (tigela de esmolas) e uma muda de roupas, e tomando o nome de Darvísh Muhammad, Bahá'u'lláh retirou-se para a solidão, vivendo por certo tempo na montanha denominada Sar-Galú, tão distante dos pontos de povoamento que apenas duas vezes por ano, nas épocas de sementeira e de colheita, era visitada pelos camponeses, daquela região. Sozinho e tranqüilo passou considerável parte de Seu retiro no alto dessa montanha, numa tosca construção feita de pedras, que servia àqueles camponeses como abrigo contra os rigores do tempo. Às vezes Sua morada era uma gruta, à qual Ele se refere em Suas Epístolas, dirigidas ao famoso Sheik Abdu'r-Rahmán e a Maryam, uma parenta Sua. "Vaguei pelo deserto da resignação" - assim descreve, no Lawh-i-Maryam, os rigores de Sua austera solidão - "viajando de tal maneira que, no Meu exílio, todos os olhos pranteavam minhas penas e todas as criaturas vertiam lágrimas de sangue em razão de minha angústia. Os pássaros do céu eram os Meus companheiros e os animais do campo a Mim se associavam." No Kitáb-i-Íqán, referindo-se a esses dias, testifica Ele: "De Meus olhos vertiam lágrimas angustiosas, e de Meu coração dilacerado surgia um oceano de agônicos pesares. Muitas noites não tive com que Me alimentar e muitos dias Meu corpo não encontrou repouso... Sozinho comunguei com Meu espírito, alheado do mundo e de tudo o que nele existe."

Nas odes que revelou, enquanto se achava engolfado em Suas devoções durante aqueles dias de completo isolamento, nas orações e monólogos que, em verso e prosa, tanto em árabe como em persa, fluíram de Sua amargurada alma - muitas dessas composições costumava entoar em voz alta para Si Mesmo, ao amanhecer e durante as vigílias noturnas 0 Bahá'u'lláh exaltou os poderes e atributos do Seu Criador, celebrou as glórias e os mistérios de Sua Própria Revelação, cantou louvores àquela Jovem que personificava o Espírito Divino dentro d'Ele, demorou-se no tema de Sua Solidão e de Suas aflições passadas e futuras, estendeu-se sobre a cegueira de Sua geração, a perfídia de Seus amigos e a perversidade de Seus inimigos, afirmou Sua decisão em levantar-se e, se necessário, oferecer Sua Própria vida em holocausto à Sua Causa, insistiu sobre os requisitos prévios que todo aquele que busca a verdade deve possuir, e recordou, como que prevendo o destino que O aguardava, a tragédia do Imame Hussein em Karbilá, a desdita de Maomé em Meca, os sofrimentos de Jesus às mãos dos judeus, as provações de Moisés infligidas pelo Faraó e seu povo, e as amarguras de José ao ser lançado ao poço por traição de Seus irmãos. Estes primeiros e inflamados desabafos de uma Alma ansiosa por aliviar-se na solidão de voluntário exílio, (muitos dos quais, infelizmente, não foram preservados para a posteridade), formam, com a Epístola de Qullu't-Ta'ám e o poema intitulado Rash-i-amá, revelado em Teerã, os primeiros frutos de Sua Divina Pena. Foram os precursores das obras imortais - o Kitáb-i-Iqám, Palavras Ocultas e Os Sete Vales - as quais nos anos precedentes à Sua Declaração em Bagdá, enriqueceriam sobremodo o sempre crescente volume de Suas produções e preparariam o caminho para o futuro florescimento de Seu gênio profético por ocasião de Sua histórica proclamação ao mundo - que Ele fez em poderosas Epístolas aos reis e governantes de toda a terra - e, finalmente, para os últimos frutos de Sua Missão, isto é, as Leis e Estatutos de Sua Revelação, formulados durante o Seu isolamento na Grande Prisão de 'Akká.

Continuava ainda Bahá'u'lláh em Sua solidão naquela montanha, quando um certo Sheik, residente em Sulaymáníyyih, que possuía uma propriedade nessas vizinhanças, procurou-O, impelido por um sonho que tivera com o Profeta Maomé. Pouco tempo depois do estabelecimento desse contacto, o líder da Ordem do Khálidíyyih, Sheik Ismá'íl, que morava em Sulaymáníyyih, visitou-O e, após reiterados pedidos, obteve Seu consentimento em transferir Sua residência para essa cidade. Enquanto isso, Seus amigos em Bagdá, descobrindo Seu paradeiro, mandaram o Sheik Sultán, sogro de Áqáy-i-Kalím, rogar-Lhe que voltasse, e quando Bahá'u'lláh já morava em Sulaymáníyyih, num quarto pertencente ao Takyiy-i-Mawláná Khálid (seminário teológico) chegou esse mensageiro. Ao relatar esses acontecimentos a Nabíl, diz esse mesmo Sheik Sultán: "Encontrei todos aqueles que moravam com Bahá'u'lláh nesse lugar, desde o mestre até o mais humilde neófito, tão enlevados e arrebatados por Ele, e tão longe de admitir sequer a possibilidade de Sua partida, que tive a certeza de que, se eu os informasse do propósito de minha visita, não teriam hesitado em pôr termo à minha vida."

Pouco tempo depois da chegada de Bahá'u'lláh no Curdistão - relatou Shaykh Sultán - Ele, através de Seus contatos pessoais com Shaykh 'Uthmán, Shaykh Abdu'r-Rahmán e Shaykh Ismá'íl - os chefes honrados e indiscutíveis das Ordens Nagshbandíyyih, Qádiríyyih e Khálidíyyih respectivamente - pôde conquistar seus corações completamente e sobre eles estabeleceu Sua ascendência. O primeiro destes, Shaykh 'Uthmán, incluía entre seus aderentes até o próprio Sultão e seu séqüito. O segundo, em resposta a cuja pergunta foi revelada posteriormente a obra "Quatro Vales", dispunha da inabalável lealdade de pelo menos cem mil devotados seguidores, enquanto o terceiro era a tal ponto venerado pelos seus adeptos que o consideravam como igual ao próprio Khálid, fundador da Ordem.

Logo de início, quando Bahá'u'lláh veio a Sulaymáníyyih, ninguém suspeitava ser Ele possuidor de erudição ou sabedoria, por causa do estrito silêncio e da reserva que Ele mantinha. Foi só por acidente - havendo eles visto um espécime de sua fina caligrafia que lhes fora mostrado por um estudante que Lhe atendia - que se despertou a curiosidade dos eruditos instrutores e estudantes daquele seminário e eles se sentiram impelidos a se aproximar Dele a fim de averiguarem o grau de Seus conhecimentos e a medida de Sua familiaridade com as ciências e letras entre eles correntes. Aquela sede de erudição fora famosa por suas vastas doações e numerosos virtuosos e por sua associação com Saláhí'Din-i-Ayyúbí e seus descendentes; dela haviam saído alguns dos mais ilustres expoentes do islã sunita para ensinar seus preceitos, e agora uma delegação, chefiada pelo próprio Shaykh Ismá'íl e constituída pelos mais eminentes doutores e pelos estudantes de maior destaque, vai visitar Bahá'u'lláh e, vendo que Ele estava disposto a responder a qualquer pergunta que Lhe quisessem dirigir, pediram que elucidasse, no curso de várias entrevistas, as passagens difíceis contidas na obra célebre do famoso Shaykh Muhyí'd-Din-i-'Arabí, intitulada Futúhát-i-Makkíyyíh. "Deus é Minha testemunha" - foi a resposta imediata de Bahá'u'lláh à erudita delegação - "que nunca vi o livro ao qual vos referis. Qualquer coisa que desejeis que eu faça, entretanto, eu a considero fácil de fazer, através do poder de Deus." Pedindo que um deles Lhe lesse uma página desse livro cada dia, em voz alta, Ele lhes pôde resolver as perplexidades de um modo tão espantoso que os encheu de admiração. Não se contentando com uma simples clarificação das passagens obscuras do texto, Ele interpretava para eles o pensamento do autor, expondo sua doutrina e desvelando seu propósito. Algumas vezes até mesmo questionava a validez de certas opiniões apresentadas naquele livro e oferecia, Ele Próprio, uma exposição correta das questões que haviam sido mal compreendidas, sustentando-a com provas e evidências que convenciam plenamente Seus ouvintes.

Assombrados pela profundeza de Sua perspicácia e pelo alcance de Seu entendimento, foram impelidos a buscar Nele aquilo que consideravam ser uma evidência terminante e conclusiva do poder e conhecimento sem paralelo que para eles, agora, Ele parecia possuir. "Nenhum místico, sábio ou letrado", afirmaram eles, enquanto Lhe solicitavam mais este favor, "provou, até o presente, ser capaz de escrever um poema em rima e métrica idênticas às da mais longa da duas odes, intitulada Qasídiy-i-Tá'iyyih, de autoria de Ibn-i-Fárid. Rogamos-lhe que escreva para nós um poema nessa mesma métrica e rima." Para satisfazer esse pedido, Bahá'u'lláh ditou nada menos de dois mil versos completamente de acordo com os requisitos apontados. Desse, porém, Ele escolheu apenas cento e vinte e sete que lhes permitiu conservar, considerando os demais como tendo assunto prematuro e inadaptável às necessidades da época. São estes mesmo cento e vinte e sete versos que constituem o Qasídiy-i-Varqá'yyih, tão familiar e tão largamente divulgado entre os Seus prosélitos de língua árabe.

Tal foi a reação dos favorecidos a esta maravilhosa demonstração da sagacidade e gênio de Bahá'u'lláh, que eles, unanimemente, reconheceram ser cada verso dessa poema dotado de inspiração, beleza e vigor altamente superiores aos que caracterizavam as odes, tanto a maior como a menor, de autoria daquele celebrado poeta.

Este episódio, sem dúvida o mais significativo dentre os que se passaram durante os dois anos da ausência de Bahá'u'lláh de Bagdá, estimulou imensamente o interesse com que um crescente número de ulemás, eruditos, sheiks, doutores, sacerdotes e príncipes, que se haviam congregado nos seminários de Sulaymáníyyih e Karkúk, observavam, agora, Suas atividades cotidianas. Através de Seus numerosos discursos e epístolas, Ele descerrou novos horizontes aos seus olhos, resolveu as dúvidas que agitavam suas mentes, revelou o mais profundo significado de muitas passagens até então obscuras, contidas em escritos de vários comentaristas, poetas e teólogos, e explicou as asserções aparentemente contraditórias, tão abundantes nessas dissertações, poemas e tratados. Tais foram a estima e respeito a Ele dispensados, que alguns O consideraram como um dos "Homens do Invisível", outros O reputaram como sendo um adepto da alquimia e da ciência da magia, outros ainda o apontaram como um "pivot do universo", ao passo que não pequeno número de Seus admiradores chegou a acreditar ser Ele nada menos que um profeta. Curdos, árabes e persas, doutos e ignorantes, nobres ou humildes, jovens ou idosos - todos que vieram a conhecê-Lo - dispensaram-Lhe igual reverência, e não poucos dentre eles uma verdadeira e profunda afeição a despeito de certas asserções e referências à sua qualidade de profeta, feitas em público, que, se tivesse sido proferidas por qualquer outro de Sua raça, teriam provocado uma fúria capaz de pôr em perigo Sua vida. Não é de se admirar que o próprio Bahá'u'lláh, no Lawh-i-Maryam, houvesse qualificado o período de Seu retiro com "o mais poderoso testemunho" e "a mais perfeita e conclusiva evidência" da veracidade de Sua Revelação. "Em pouco tempo" - é a afirmativa de Abdu'l-Bahá - "o Curdistão tão se magnetizava como Seu amor. Durante esse tempo Bahá'u'lláh viveu na pobreza. Suas vestes eram as mesmas que as dos pobres e necessitados. Sua comida era a mesma dos indigentes e humildes. Uma atmosfera de majestade aureolava-O como ao sol do meio-dia. Em toda parte era Ele profundamente reverenciado e amado."

Enquanto os alicerces da futura grandeza de Bahá'u'lláh estavam sendo lançados numa terra estranha e em meio de estranha gente, a situação da comunidade Bábí descambava a largos passos de mal para pior. Favorecidos e encorajados por Seu imprevisto e prolongado afastamento da cena de Seus trabalhos, os detratores, com seus iludidos comparsas, se ocupavam em ampliar o âmbito de suas nefastas atividades. Mírzá Yahyá, encerrado a maior parte do tempo em sua casa, dirigia, secretamente, através de correspondência com os Bábís em quem confiava plenamente, uma campanha que visava o completo descrédito de Bahá'u'lláh.

Por meio de algum adversário potencial, havia ele despachado a Azerbaijão Mírzá Muhammad-i-Mázindarání, um de seus adeptos, com a expressa finalidade de assassinar Dayyán, o "repositório do conhecimento de Deus" a quem ele deu o título de "Pai de Iniqüidades" e estigmatizou como "Taghut" - a quem o Báb exaltara como a "Terceira Letra a crer Naquele que Deus haverá de tornar manifesto." Em seu desatino havia ele, ainda mais, induzido Mírzá Áqá Jan a seguir para Núr e lá esperar um momento propício quando pudesse efetuar com êxito um atentado contra a vida do soberano. Sua torpeza e desfaçatez haviam a tal ponto chegado, que o levaram a perpetrar, ele mesmo - e a permitir que Siyyid Muhammad o repetisse depois dele - um ato odioso que Bahá'u'lláh o caracterizou como "uma gravíssima traição", que infligiu desonra ao Báb e "acabrunhou todas as terras de pesar." Como maior evidência da enormidade de seus crimes, ele até ordenou que o primo do Báb, Mírzá 'Alí-Akbar, um fervoroso admirador de Dayyán, fosse secretamente assassinado - mandato este que foi executado em toda sua iniqüidade. Quanto a Siyyid Muhammad - havendo seu mestre, Mírzá Yahyá, lhe concedido agora plena liberdade de ação - ele se cercara, assim como Nabíl (que nessa época estava com ele em Karbilá) afirma categoricamente, de uma banda de rufiões, os quais ele licenciava, e até instigava, a arrebatarem, à noite, os turbantes das cabeças de peregrinos ricos que se haviam congregado em Karbilá, a roubarem-lhes os sapatos, a despojarem de seus divãs e suas velas o santuário do Imame Husayn e a apanharem os copos das fontes públicas. A profundidade da degradação em que haviam caído esses, assim chamados, aderentes da Fé do Báb, não pôde deixar de evocar em Nabíl a lembrança da renúncia sublime que foi evidenciada na conduta dos companheiros de Mullá Husayn, os quais, de acordo com a sugestão de seu chefe, jogaram com desprezo para o lado do caminho - o ouro, a prata e as turquesas que possuíam, ou que foi evidenciada no comportamento de Vahíd quando recusou permitir que se retirasse um dos tesouros - nem sequer o do menor valor - contido em sua suntuosamente mobiliada casa em Yazd, antes de ser ela saqueada pela populaça, ou que foi demonstrada pela decisão de Hujjat de não permitir que seus companheiros, embora na borda da inanição, se apoderassem de propriedade alheia, ainda que fosse para salvar suas próprias vidas.

Tais foram a audácia e desfaçatez desses desmoralizados e transviados bábís, que nada menos de vinte e cinco pessoas, de acordo como testemunho de Abdu'l-Bahá, tiveram a presunção de declarar-se o Prometido anunciado pelo Báb! Tal foi, porém, o declínio em seu sucesso, que quase não se atreviam mais a mostrar-se em público.

Os curdos e os persas, ao confrontarem-se com eles nas ruas, competiam entre si em amontoarem sobre eles abuso e em vilipendiarem abertamente a Causa que professavam. Não é de se admirar, pois, haver Bahá'u'lláh, ao regressar a Bagdá, descrito nas seguintes palavras a situação então existente: "Não encontramos mais que uma mão-cheia de almas, decaídas e desalentadas - não, antes, completamente perdidas e mortas. A Causa de Deus deixara de ser mencionada pelos lábios de qualquer pessoa, nem havia coração algum receptivo à sua mensagem." Tal foi a tristeza que Dele se apoderou, na ocasião de Sua chegada, que por algum tempo Ele recusava sair de casa, a não ser, de vez em quando, para ir a Kázimayn e ter uma reunião com alguns de Seus amigos que nessa cidade residiam, ou em Bagdá.

A trágica situação que se formara no decorrer dos Seus dois anos de ausência, agora exigia imperativamente o Seu regresso. Ele Próprio atesta no Kitáb-i-Íqán: "Da Fonte Mística dimanou a determinação de voltarmos ao lugar de onde viéramos. Rendemo-nos à Sua Vontade e nos submetemos à Sua ordem". "Por Deus o além Dele não existe outro Deus!" - é sua enfática afirmativa ao Sheik Sultán, (conforme narra Nabíl) - "Não fora Meu reconhecimento do fato de que a bendita Causa do Ponto Primordial estava na iminência de ser completamente destruída, e de que assim teria sido em vão todo o sangue que fora derramado no caminho de Deus, Eu não teria consentido, de modo algum, em tornar ao seio do povo do Bayán, e sim tê-lo-ia abandoando à adoração dos ídolos que sua imaginação criara."

Mírzá Yahyá, compreendendo perfeitamente as conseqüências de sua licenciosa direção da Fé, rogara-Lhe, insistentemente, por cartas, que voltasse. Não menos aflitos eram os apelos de Seus próprios parente e amigos, particularmente de Seu filho mais velho, de doze anos, Abdu'l-Bahá, cuja dor e solidão tanto lhe consumiam a alma que, numa palestra registrada por Nabíl em sua narrativa, Ele confessou haver envelhecido criança em conseqüência da partida de Seu pai.

Decidindo dar por terminada a fase de Seu retiro, Bahá'u'lláh despediu-se dos sheiks de Sulaymáníyyih, que agora se enumeravam entre os Seus mais ardentes e leais admiradores, conforme o demonstrou sua futura conduta. Acompanhado pelo Sheik Sultán, ele reencaminhou Seus passos em direção a Bagdá, "margeando o Rio das Tribulações" - no Seu próprio dizer - prosseguindo por lentas etapas e, conforme declarou ao Seu companheiro de viagem, no conhecimento de que estes derradeiros dias de Seu exílio seriam "os únicos dias de paz e tranqüilidade" que Lhe restavam. "Dias iguais", disse Ele, "nunca mais a sorte Me proporcionará".

Ao 12o dia do Rajab, 1272 D.H. (19 de março de 1856) chegou Ele a Bagdá, precisamente dois anos lunares após a Sua partida para o Curdistão.

CAPÍTULO VIII
O DESTERRO DE BAHÁ'U'LLÁH
PARA O IRAQUE
(continuação)

O regresso de Bahá'u'lláh de Sulaymáníyyih para Bagdá marca época altamente significativa na história do primeiro século bahá'í. A maré do destino da Fé, tendo chegado à vazante, começava agora a subir de novo, e haveria de surgir, constante e poderosamente, até atingir um mais alto nível de fluxo, associado esta vez, com a Declaração de Sua Missão, na véspera de Seu desterro para Constantinopla. Com Seu regresso a Bagdá, se estabelecia agora um porto seguro, tal como a Fé jamais conhecera em toda a sua história. Nunca antes, salvo durante os três primeiros anos de sua existência, pôde essa Fé pretender possuir um centro fixo e acessível para o qual seus adeptos se pudessem volver para orientação e donde pudessem derivar inspiração, livre e ininterruptamente. Nada menos que a metade do curto ministério do Báb foi passado na fronteira mais remota de seu país natal, onde estava Ele oculto e virtualmente isolado da vasta maioria de Seus discípulos. O período imediatamente após Seu martírio foi caracterizado por uma confusão ainda mais deplorável do que o isolamento por causa do cativeiro ao qual fora sujeitado. Nem quando apareceu a Revelação por Ele predita sucedeu, de imediato, uma declaração que possibilitasse aos membros de uma comunidade desorientada reunir-se ao redor da pessoa de seu esperado Salvador. A prolongada ocultação de Mírza Yahyá, que fora nomeado centro provisório até a manifestação do Prometido, e a ausência de Bahá'u'lláh, de Sua terra natal, durante nove meses, enquanto em visita a Karbilá, sucedendo, logo depois, Seu encarceramento no Siyáh Chál, Seu desterro para o Iraque e, em seguida, Seu retiro ao Curdistão - tudo isso combinou para prolongar a fase de instabilidade e suspense pela qual a comunidade bábí teve que passar.

Agora, a final, não obstante a relutância de Bahá'u'lláh em desvendar o mistério que envolvia Sua própria posição, os bábís verificaram ser possível centralizar as esperanças, como também os movimentos, em uma Pessoa que eles criam capaz (quaisquer que fossem as opiniões relativas à Sua posição) de assegurar a estabilidade e a integridade de sua Fé. A orientação assim adquirida pela Fé, e a fixidez do centro para o qual ela agora gravitava, continuaram a ser, de uma forma ou outra, suas características salientes, das quais nunca mais haveria de ser privada.

Em conseqüência das sucessivas e tremendas desgraças que a acometeram, como já vimos, a Fé Bábí chegara às bordas da extinção. E a momentosa Revelação feita a Bahá'u'lláh no Síyáh-chál não produziu imediatamente qualquer resultado palpável que pudesse exercer uma influência restauradora sobre uma comunidade quase completamente desintegrada. O imprevisto desterro de Bahá'u'lláh fora mais uma desgraça para os seus membros, que se haviam acostumado a depender Dele. O afastamento e a inatividade de Mírzá Yahyá vieram acelerar ainda mais o processo de desintegração que se vinha desenvolvimento. O prolongado retiro de Bahá'u'lláh no Curdistão, parecera ter selado a sua completa dissolução.

Entretanto, a maré que baixara de forma tão alarmante começava agora a encher, trazendo com ela, à proporção que se aproximava de seu nível normal, os inestimáveis benefícios que prenunciariam a Revelação já secretamente confiada a Bahá'u'lláh.

Durante os sete anos que mediaram entre o reassumir dos Seus trabalhos e a declaração de Sua profética missão - período a que agora dirigimos nossa atenção - não seria exagero dizer que a comunidade Bahá'í, sob o nome e nos moldes de uma ressurgida comunidade bábí, nascia e lentamente tomava forma, embora seu Criador ainda se apresentasse e agisse como um dos mais eminentes discípulos do Báb.

Foi um período durante o qual o prestígio do chefe nominal da comunidade cada vez mais se esvaía da cena, empalidecendo diante do crescente esplendor Daquele que era seu atual Líder e Salvador. Foi um período no decorrer do qual amadureceram e foram colhidos os primeiros frutos de um exílio dotado de potencialidades incalculáveis. Foi um período que passará à história, como um durante o qual se realçou imensamente o prestígio de uma comunidade revivificada, lhe reformando inteiramente a moral - como um período em que essa comunidade afirmou entusiasticamente seu reconhecimento Daquele que lhe reabilitou o destino, em que sua literatura foi enriquecida em vasta escala e suas vitórias sobre novos adversários foram universalmente reconhecidas.

O prestígio da comunidade e, em particular, o de Bahá'u'lláh, começou agora, desde seu início no Curdistão, a subir em um ritmo que crescia firmemente. Pouco depois de haver Bahá'u'lláh tomado de novo as rédeas de autoridade anteriormente abandonadas, os devotados admiradores que deixara atrás em Sulaymáníyyih começaram a congregar-se em Bagdá, com o nome de "Darvish Muhammad" nos lábios e tendo como sua meta a casa de Mírzá Musá, o Bábí. Atônitos diante do espetáculo de tantos ulemás e sufis de origem curda, da Ordem Qádiriyyih bem como da Ordem Khalidiyyih, os quais se aglomeravam na cada de Bahá'u'lláh, e impelidos por rivalidade de raça e de seita, os dirigentes religiosos da cidade, tais como o famoso Ibn-i-Álúsí, o Muftí de Bagdá, juntamente com Shaykh Abdu's-Salám, Shaykh 'Abdu'l-Qádir e Siyyid Dáwudí, começaram a procurar Sua presença e, havendo obtido respostas plenamente satisfatórias às suas múltiplas perguntas, se filiaram ao grupo de Seus primeiros admiradores. O fato de haverem esses proeminentes líderes reconhecido sem reservas aquelas qualidades que distinguiam o caráter e a conduta de Bahá'u'lláh, estimulou a curiosidade e, posteriormente, veio a evocar os irrestritos elogios de um grande número de observadores de menor destaque, entre os quais figuravam poetas, místicos e notabilidades que residiam na cidade ou a estavam visitando. Oficiais de governo, entre os quais os mais eminentes eram 'Abdu'lláh Páshá e seu tenente Mahmud Áqá e Mullá 'Alí Mardán, um curdo bem conhecido naquelas rodas, vieram pouco a pouco a entrar em contato com Ele e participaram da divulgação de Sua sempre-crescente fama. Nem puderam aqueles distinguidos persas que residiam em Bagdá e suas proximidades, ou que visitavam em peregrinação os lugares sagrados, permanecer indiferentes à mágica influência de seu encanto. Príncipes de sangue real, entre os quais figuravam tais personagens como Ná'ibu'l-Iyálih; o Shujá'u'd-Dawlih, o Sayfu'd-Dawlih e Zaynu'l-'Ábidín Khan, o Fakhru'd-Dawlih, foram, outrossim, atraídos irresistivelmente ao sempre crescente círculo de Seus associados e conhecidos.

Aqueles que durante os dois anos da ausência de Bahá'u'lláh de Bagdá haviam tão persistentemente rebaixados Seus companheiros e parentes e ruidosamente deles zombado, agora, pela maior parte, se haviam silenciado. Um número considerável dentre eles simulava respeito e estima por Ele, alguns se diziam Seus defensores e aderentes, enquanto outros professavam compartilhar Sua crenças e de fato entravam nas fileiras da comunidade à qual Ele pertencia. A tal ponto chegou essa reação que se ouviu um deles jactar-se de que já no ano de 1250 A.H. - uma década antes da Declaração do Báb - ele havia percebido e abraçado a verdade de Sua Fé!

Dentro de poucos anos após o regresso de Sulaymáníyyih a situação havia se invertido completamente. A casa de Sulaymán-i-Ghannám - à qual foi conferida posteriormente a designação de Bayt-i-A'zam (a Mais Grandiosa Casa) e que, naquele tempo, era conhecida como a casa de Mírzá Musá, o Bábí, uma residência extremamente modesta, situada no bairro de Karkh, perto da margem ocidental do rio, para a qual a família de Bahá'u'lláh se havia mudado antes de Seu regresso do Curdistão - agora se tornara o centro focal de um grande número de pessoas que buscavam a verdade, de visitantes e peregrinos, incluindo curdos, persas, árabes e turcos, e provenientes das religiões muçulmana, judaica e cristã. Havia se tornado, ainda mais, um verdadeiro santuário para o qual as vítimas da injustiça do representante oficial do governo persa costumavam fugir, na esperança de obterem reparação dos agravos por eles sofridos.

Ao mesmo tempo uma afluência de bábís persas, cujo único objetivo era chegar à presença de Bahá'u'lláh, aumentava o fluxo de visitantes que passavam por Suas portas hospitaleiras. Quando de volta a seu país nativo levavam inúmeros testemunhos, tanto orais como escritos, de Seu poder e glória sempre crescentes, e assim não puderam deixar de contribuir, em grande escala, ao progresso e expansão de uma Fé há pouco renascida. Vieram quatro dos primos do Báb e Seu tio materno, Hájí Mírzá Siyyid Muhammad; uma neta de Fath-'Alí Sháh, fervorosa admiradora de Táhirih, cognominada Varaqatu'r-Ridván; e o erudito Mullá Muhammad-i-Qá'ini, cognominado Nabíl-i-Akbar; veio o já famoso Mullá Sádiq-i-Khurásání, cognominado Ismu'bláhu'l-Asdaq, que com Quddús fora ignominiosamente perseguido em Shíráz, também Mullá Báquir, uma das Letras do Viventes; Siyyid Asadu'lláh, cognominado Dayyán; o reverenciado Siyyid Javád-i-Karbilá'í; Mírzá Muhammag-Hasan e Mírzá Muhammad-Hussein, mais tarde imortalizados pelos títulos de Sultánu'sh Shuhudá e Mahbúbu'sh-Shuhadá (Rei dos Mártires e Bem-Amado dos Mártires), respectivamente; Mírzá Muhammad-'Alíy-i-Nahrí, cuja filha, em data posterior, foi unida em matrimônio com Abdu'l-Bahá; o imortal Siyyid Ismá'íl-i-Zavárí'í; Hájí Shaykh Muhammad, cognominado Nabíl pelo Báb; o talentoso Mírzá Áqáy-i-Munir, cognominado Ismu'-lláhu'l Muníb; Hájí Muhammad-aqi, cognominado Ayyúb, que tanto sofreu; Mullá Zaynu'l-'Abidin, cognominado Zaymu'l-Muqarrabin que figurara como um mujtahid altamente estimado - todos esses se incluíram entre os visitantes e condiscípulos que cruzaram Seu limiar, apanharam um vislumbre do esplendor de Sua majestade e por toda parte transmitiram as influências criadoras neles instiladas através do contato com Seu espírito. Mullá Muhammad-i-Zarandí cognominado Nabil-I-A'zam, que bem pode figurar como Seu poeta Luareado, Seu cronista e Seu infatigável discípulo, já se havia aliado aos desterrados e havia empreendido Sua longa e árdua serie de viagens à Pérsia a fim de promover a Causa de seu Bem-Amado.

Até aqueles que, em Bagdá, em Karbila, em Qum, em Káshán, em Tabríz e em Teerã, haviam, em seu desatino e sua temeridade, arrogado a si próprios os direitos e assumido o título de "Aquele que Deus haverá de tornar manifesto", foram levados, em sua maioria instintivamente, a procurar a presença de Bahá'u'lláh, a confessar seu próprio erro e Lhe suplicar perdão. Com o passar do tempo, fugitivos impelidos pelo medo sempre presente de perseguição, buscavam, juntamente com as esposas e os filhos, a relativa segurança que lhes oferecia a íntima proximidade Àquele que já se tornara o ponto para o qual convergiam os membros de uma comunidade penosamente aflita. Persas muito eminentes, vivendo em exílio, rejeitaram - em vista do crescente prestígio de Bahá'u'lláh - os ditames da moderação e prudência, sentavam-se a Seus pés, esquecidos do próprio orgulho, e absorviam, cada qual segundo sua capacidade, um quinhão de Seu espírito e Sua sabedoria. Alguns dos mais ambiciosos entre eles, tais como 'Abbás Mírzá, filho de Muhammad Sháh, o Vazír-Nizám, e Mïrzá Malkán Khán, bem como certos funcionários de governos estrangeiros, tentaram, com sua estreiteza de visão obter Seu apoio e auxílio para a promoção dos desígnios por eles acariciados - desígnios estes que Ele pronta e severamente condenou. O então representante do Governo Britânico, o Coronel Sir Armold Burrows Kemball, cônsul geral em Bagdá, tampouco se mostrara insensível à posição que Bahá'u'lláh agora ocupava. Iniciando com Ele uma correspondência amistosa, assim como o próprio Bahá'u'lláh atesta, Lhe ofereceu a proteção da cidadania britânica, Lhe fez uma visita pessoal e ofereceu transmitir à Rainha Vitória qualquer missiva que Ele lhe quisesse enviar. Até expressou seu desejo de providenciar a transferência de Sua residência para a Índia ou qualquer lugar que Lhe aprouvesse. Essa sugestão Bahá'u'lláh declinou, preferindo permanecer nos domínios do Sultão da Turquia. E finalmente, durante o último ano de Sua estada em Bagdá, o governador, Námiq-Páshá, impressionado pelos numerosos sinais da estima e veneração em que era tido, Lhe fez uma visita para prestar sua homenagem pessoal Àquele que já ganhara tão insigne vitória sobre os corações e almas dos que O haviam conhecido. Tão profundo era o respeito que o governador Lhe tinha - pois O considerava uma das Luzes da Época - que só após três meses, durante os quais recebera cinco ordens sucessivas de 'Alí Páshá, se sentiu constrangido a informar Bahá'u'lláh que era o desejo do governo turco que Ele fosse à Capital. Em uma ocasião, quando Abdu'l-Bahá e Áqáy-i-Kalím haviam sido delegados por Bahá'u'lláh a visitá-lo, ele os festejou com tão elaborada cerimônia que o Governador-Suplente declarou que jamais soubera haver sido concedido a alguma notabilidade da cidade por qualquer governador uma recepção tão calorosa e cortez. Em verdade, tão impressionado ficara o Sultão Abdu'l-Majíd pelas favoráveis informações recebidas de sucessivos governadores de Bagdá a respeito de Bahá'u'lláh, (é este o testemunho dado ao próprio Bahá'u'lláh pelo suplente do governador) que ele consistentemente recusou a conformar-se com os pedidos do governo persa para que Ele fosse entregue a seu representante, ou que se ordenasse Sua expulsão do território turco.

Em nenhuma ocasião anterior, desde o início da Fé, havia qualquer de seus expoentes atingido tão alta distinção aos olhos do público, ou exercido sobre tão variado círculo de admiradores uma influência de tanto alcance e poder, nem mesmo durante os dias em que o Báb em Isfahan, em Tabríz e em Chihríq foi ovacionado por uma entusiástica população. Embora fosse sem precedentes o prestígio d Bahá'u'lláh naquela época primitiva da Fé, enquanto Ele residia em Bagdá, seu âmbito porém, era modesto em comparação com a magnitude da fama que, no final dessa mesmo época, através da inspiração imediata do Centro de Seu Convênio, a Fé adquiriu, tanto no continente europeu como no americano.

A ascendência alcançada por Bahá'u'lláh era, sobretudo, demonstrada por Sua habilidade em alargar as perspectivas e transformar o caráter da comunidade a que pertencia. Embora fosse conhecido como bábí e os preceitos do Bayán fossem ainda considerados como obrigatórios e invioláveis, Ele pôde inculcar normas que embora não incompatíveis com os seus dogmas, eram eticamente superiores aos mais altos princípios que o Ministério Bábí estabelecera. Além disso, as verdades salutares e fundamentais que o Báb advogara, e que haviam sido obscurecidas, olvidadas ou deturpadas, Bahá'u'lláh elucidou-as, reafirmou-as e instilou-as outra vez a vida coletiva da comunidade, e nas almas individuais que a compunham. A dissociação da Fé Bábí de toda e qualquer forma de atividade política e de todas as associações e facções secretas; o cerrado empenho no princípio da não-violência; a necessidade da estrita obediência à autoridade reconhecida; a condenação de qualquer forma de sedição, maledicência, vingança e contendas; a insistência na devoção, benevolência, humildade e piedade, na honra e veracidade, na castidade e fidelidade, na justiça, tolerância, amabilidade, amizade e concórdia, no conhecimento das artes e ciências, na abnegação e no desprendimento, na paciência, constância e resignação à vontade Divina - tudo isso constitui as características mais destacadas de um código de conduta ética, cuja sabedoria os livros, tratados e epístolas, revelados durante estes anos pela infatigável pena de Bahá'u'lláh, indubitavelmente provam.

"Com a ajuda de Deus e Sua divina graça e misericórdia"- Ele Mesmo escreveu, com referência ao caráter e às conseqüências de Seus próprios esforços nesse período - "Nós revelamos, assim como uma copiosa chuva, Nossos versículos, e os enviamos a várias partes do mundo. Exortamos a todos os homens e em especial, a esse povo, através de Nossos sábios conselhos e amorosas admoestações e lhes proibimos atos de sedição, altercações, disputas ou conflitos. Em conseqüência disso e pela graça de Deus, desobediência e desatino se transformaram em piedade e compreensão, e armas de guerra foram convertidas em instrumentos de paz. "Bahá'u'lláh", afirmou Abdu'l-Bahá, "após Seu regresso (de Sulaymáníyyih) fez tão árduos esforços em educar e treinar essa comunidade, em lhe reformar os costumes, regular os assuntos e reabilitar o destino, que dentro de pouco tempo se extinguiram toda essa turbulência e maldade, e a maior paz e tranqüilidade reinou nos corações dos homens." E ainda: "Quando esses fundamentos se estabeleceram nos seus corações, tal foi seu comportamento, em toda parte, que - na opinião do daqueles que tinham autoridade - esse povo adquiriu fama pela integridade de seu caráter, pela firmeza de seus corações, pela pureza de seus motivos, e por causa de suas ações louváveis e excelente conduta."

O elevado caráter dos ensinamentos que Bahá'u'lláh expôs durante aquele período talvez possa melhor elucidar pela seguinte afirmação feita por Ele naquele tempo a um oficial que Lhe informara que, em vista da devoção à Sua pessoa professada por um malfeitor, ele havia hesitado em infligir a esse criminoso o merecido castigo. "Diga-lhe: ninguém neste mundo pode pretender relação alguma Comigo, salvo aqueles que em todos os seus atos, em sua conduta, sigam Meu exemplo, de tal modo que todos os povos da terra seriam impotentes para impedi-los de fazer e dizer o que é apropriado e digno." "Este irmão Meu", ainda declarou Ele ao oficial, "este Mírzá Musá, filho da mesma mãe e do mesmo pai que Eu, e que desde a primeira infância está em Minha companhia - se ele perpetrasse um ato contrário aos interesses do Estado ou de religião e sua culpa fosse estabelecida aos vossos olhos, Eu aprovaria e apreciaria vossa ação se lhe amarrásseis as mãos e o lançásseis ao rio para se afogar, e se recusasse considerar a intercessão de qualquer um por ele." Em outra situação, querendo dar ênfase a Sua forte condenação de todo ato de violência, Ele escreveu: "Seria aceitável a Meus olhos que uma pessoa fizesse mal a um de Meus próprios filhos ou parentes do que infligisse dano a qualquer outra alma."

"A maioria dos que se ajuntavam em torno de Bahá'u'lláh"- relatou Nabíl, descrevendo o espírito que animava a reformada comunidade bábí de Bagdá - "exercitava tal cuidado na santificação e purificação de suas almas, que nenhuma palavra sairia de seus lábios se não estivesse conforme com a vontade Divina, nem dariam eles um simples passo que pudesse estar contrário ao Seu desejo". "Os discípulos, a dois"- relata ele - "combinaram um pacto pelo qual se comprometiam a admoestar um ao outro e, se necessário, castigar-se reciprocamente com certo número de golpes nas solas dos pés, variando esse número na proporção da gravidade dos deslizes contra os sublimes preceitos que haviam jurado observar". Descrevendo o fervor do zelo desses discípulos, conta ele que "somente depois que houvesse o transgressor sofrido a punição que antecipadamente se comprometera receber, era que se permitiria a si mesmo comer ou beber."

A radical transformação que a palavra escrita e falada de Bahá'u'lláh operara nos modos e no caráter de Seus companheiros, foi igualada pela ardente devoção que Seu amor lhes ateara na alma. Um apaixonado zelo e fervor, rivalizando como entusiasmo que tão intensamente se inflamara nos peitos dos discípulos do Báb nos seus momentos de mais grandiosa exaltação, se apoderava agora dos corações dos exilados de Bagdá, galvanizando-lhes o inteiro ser. Descrevendo a fecundidade da desta dinâmica restauração espiritual, diz Nabíl: "Tão inebriados, tão enlevados, se mostravam todos pelos doces eflúvios matinais da Divina Revelação que, parece-me, de cada espinho nasciam braçadas de flores, e cada semente produzia inúmeras colheitas". "A salada Casa Suprema" - diz este mesmo cronista - "reservada para a recepção dos visitadores de Bahá'u'lláh, embora arruinada e tendo perdido de há muito sua habitabilidade, rivalizou, depois de ter sido calcada pelos abençoados passos do Bem Amado, com os mais exaltado Paraíso. Apesar de muito baixa, parecia estar junto às estrelas, e embora provida de um simples canapé feito de folhas de palmeira, onde costumava assentar-se o Rei dos Reis, atraiu, esta sala, para si, como se fora um imã, os corações dos príncipes."

Foi esta mesma sala de recepção que, a despeito de sua rude simplicidade, tanto encantara o Shujá'u'd-Dawlih, que este expressou aos príncipes, seus companheiros, o propósito de edificar uma duplicata da mesma em sua casa em Kázimayn. Conta-se ter Bahá'u'lláh sorrido significativamente ao inteirar-se desse desejo, e dito: "Bem pode ser que ele consiga reproduzir na aparência a fiel contextura dessa sala de teto baixo, feita de barro e palha, com seu jardinzinho. Mas, que dizer de sua capacidade de abrir nela as portas espirituais que conduzem aos ocultos mundos de Deus?" "Não sei como explica-lo"- outro príncipe, Zaynu'l-Abidín Khán, o Fakru'd-Dawlih, afirmara, ao descrever a atmosfera que enchia aquele sala de recepção - "descessem todas as aflições do mundo sobre mim e creio que não teriam nenhum efeito, estando eu na presença de Bahá'u'lláh. Era como se estivesse no próprio Paraíso."

As alegres festas que esses companheiros, a despeito de suas modestas posses, ofereciam continuamente em homenagem a seu Mestre; as reuniões que se prolongavam noite a dentro, nas quais, com preces, poemas e cânticos, louvavam ao Báb, a Quddús e Bahá'u'lláh; os jejuns e vigílias que guardavam; os sonhos e visões que inflamavam suas almas e eram transmitidos de um a outro com sentimentos de indizível entusiasmo; o zelo demonstrado por aqueles que serviam a Bahá'u'lláh, sua satisfação em cumprir Suas ordens, em atende-Lo em Suas necessidades, em carregar até pesados alforjes de água para Suas abluções e outros usos domésticos; os atos de imprudência que às vezes, em momentos de arrebatamento, eles cometiam; as expressões de admiração que suas palavras e gestos provocavam num povo que pouquíssimas vezes testemunhara tais demonstrações de transporte religioso e devoção pessoal - tudo isto e muito mais ficará para sempre associado à história desse período imorredouro, compreendido entre a hora natal da Revelação de Bahá'u'lláh, e a declaração nas vésperas de Sua partida do Iraque.

Numerosas e admiráveis são as histórias que têm sido contadas por aqueles a quem o dever, o acaso ou a vontade levava, no decorrer destes amargos anos, a ter contato direto com Bahá'u'lláh. Abundante e comovedor é o testemunho dos que tiveram por acaso o privilegio de mirar o Seu semblante, contemplar Seu porte, ou, fortuitamente, ouvir Suas observações, enquanto Ele transitava nos becos e ruas da cidade ou passeava pelas margens do rio; tocante, também, o testemunho das congregações que O viram orar em suas mesquitas, dos mendigos, enfermos, velhos e desafortunados a quem Ele socorria, curava, sustentava e confortava, como também o dos visitantes, do mais altivo príncipe até o mais humilde pedinte que atravessava Sua soleira e se sentava aos Seus pés, e do mercador, do artesão e do caixeiro que O atendiam em Suas necessidades diárias. Comove-nos o testemunho de Seus devotos que percebiam os primeiros vislumbres de Sua glória oculta; e até o de Seus adversários que eram confundidos ou desarmados pelo poder de Seu verbo e pelo afago de Seu amor; e ainda o testemunho dos sacerdotes e leigos, e os dos nobres e letrados que O buscavam com a intenção de desafiar Sua autoridade, ou de pôr à prova Sua sabedoria e investigar Suas reivindicações, ou, às vezes, a fim de confessar as próprias faltas e se declarar adeptos da Causa que Ele abraçara.

De tal tesouro de preciosas memórias, bastará para meu propósito citar somente um exemplar, o de um dos que O amavam ardentemente, um nativo de Zavárih, Siyyid Ismá'íl de nome, apelidado de Dhabíh (o Sacrifício), anteriormente um sacerdote de renome, taciturno, meditativo e completamente desprendido de todo laço terreno, que se incumbira voluntariamente de uma tarefa da qual se orgulhava, a de varrer as entradas da casa em que residia Bahá'u'lláh. Desenrolando da cabeça o turbante verde, insígnia de sua santa linhagem, ele, ao alvorecer, colhia, com infinita paciência, o cascalho que os pés de seu Bem-Amado pisara, soprava a poeira das fendas do muro adjacente à porta da casa, juntava nas dobras de sua própria túnica o cisco, e desdenhando livrar-se de sua carga para ser pisada pelos pés de outros, levava-a até as margens do rio, onde a lançava à água. Não mais podendo conter, afinal, o oceano de amor que surgia dentro de sua alma - depois de se abster tanto de sono como de alimento por quarenta dias - ele, um dia, tendo prestado pela última vez o serviço que tanto acariciava, foi às margens do rio, na estrada para Kazimayn, fez suas abluções, deitou-se de costas, com a face volvida para Bagdá, cortou a garganta com uma navalha, colocou a navalha no peito e expirou. (1275 A.H.)

Nem foi ele o único a meditar tal ato e determinar-se a leva-lo a cabo. Haviam outros dispostos a lhe seguir o exemplo, não tivesse Bahá'u'lláh prontamente intervindo e ordenado que os refugiados residentes em Bagdá voltassem de imediato para sua terra natal. Nem puderam as autoridades - a ser estabelecido definitivamente que Dhabíh morrera por sua própria mão - manter-se indiferentes para uma Causa cujo Líder podia inspirar tão rara devoção nos corações dos que O amavam e sobre eles exercer tão absoluto domínio. Ao ser informado das apreensões que esse episodio causara em certos bairros de Bagdá, Bahá'u'lláh - segundo se diz - observou: "Siyyid Ismá'íl possuía tão grande poder e força que, se fosse confrontado por todos os povos da terra, ele, sem dúvida, poderia estabelecer sobre eles sua ascendência." Com referência a esse mesmo Dhabíh, por Ele exaltado como "Rei e Bem-amado dos Mártires", disse Ele - segundo se consta - "Nenhum sangue, que se derramou sobre a terra, até agora, foi tão puro como o sangue por ele derramado."

"Tão empolgados ficavam aqueles que sorviam da taça da presença de Bahá'u'lláh" - é ainda outro depoimento de Nabíl, testemunha ocular da maioria desses comoventes episódios - "que aos seus olhos os palácios reais pareciam mais efêmeros que uma teia de aranha... Com tais celebrações e festividades como as suas, jamais sonhara um rei temporal". "Eu mesmo, com mais duas pessoas" - relata ele - "morava num quarto que se achava desprovido de móveis. Bahá'u'lláh penetrou nele certo dia e, olhando em torno de Si, observou: "Este vazio Me agrada. A Meu ver é bem preferível a um espaçoso palácio, tanto mais que os amados de Deus se encontram nele absortos na lembrança do Incomparável Amigo, com corações completamente limpos das impurezas do mundo." Sua própria vida caracterizou-se por essa mesma austeridade e evidenciou essa mesma simplicidade que pautou as vidas de Seus amados companheiros. "Houve tempo no Iraque" - Ele Próprio afirma em uma de Suas Epístolas - "em que a Beleza Antiga... não tinha muda de roupa. Só possuía uma túnica, que era lavada, secada e vestida de novo."

"Muitas noites" - continua Nabíl, descrevendo a vida daqueles companheiros esquecidos de si mesmos - "nada menos de dez pessoas se mantinham com apenas um punhado de tâmaras. Nenhum dentre eles sabia a quem, efetivamente, pertenciam os sapatos, os mantos ou as túnicas que se encontravam em suas casas. Qualquer que saísse para a rua poderia alegar serem seus os sapatos que usava na ocasião, e cada um que estivesse na presença de Bahá'u'lláh poderia afirmar serem seus, com efeito, o manto e a túnica que vestia. Até seus próprios nomes, eles haviam esquecido; seus corações estavam vazios de tudo que não fosse a adoração por seu Bem Amado... Oh! a alegria daqueles dias, a satisfação e encantamento daquelas horas!"

o grande desenvolvimento em quantidade e âmbito das obras literárias de Bahá'u'lláh, após Seu regresso de Sulaymáníyyih, constitui ainda outra característica distintiva do período em causa. Os versículos que fluíram de Sua pena durante esses anos, descritos por Ele Próprio como "uma copiosa chuva", quer em forma de epístolas, de exortações, de comentários, de apologias, de dissertações, de profecias, de orações, de odes, quer de cartas especificas, contribuíram, em grau notável, para a reforma e desdobramento progressivo da comunidade bábí, para o alargamento de suas perspectivas, para a expansão de suas atividades e para o esclarecimento dos seus membros. Durante os primeiros dois anos após Seu regresso do retiro, atesta Nabíl (que por esse tempo residia em Bagdá) versículos não registrados fluíam dos Seus lábios com tal abundância que equivaliam, em média, num lapso de vinte e quatro horas, aos existentes no Alcorão! Quanto aos versículos que Ele ditou ou escreveu, seu número não era menos notável quer no tocante à riqueza do material neles contida, quer no tangente à diversidade dos assuntos a que se referiam. Lastimável é o fato de se haver perdido irremediavelmente para a posteridade, a maior parte desses escritos. Uma autoridade tão eminente como Mírzá Áqá Jan, o amanuense de Bahá'u'lláh, afirma - conforme foi relatado por Nabíl - que por ordem expressa de Bahá'u'lláh, centenas de milhares de versículos, na sua maioria escritos de Seu próprio punho, foram obliterados e lançados ao rio. "Notando a minha relutância em executar Suas ordens" - Mírzá Áqá Ján narrou a Nabíl - "Bahá'u'lláh tranqüilizava-me dizendo: "Ninguém se encontra nesta época, que seja digno de ouvir estas melodias..." Não me mandou repetir esse ato apenas por uma ou duas vezes, mas por inúmeras vezes. Havia um certo Muhammad Karim, natural de Shíráz, que vira a rapidez e a maneira pela qual o Báb escrevera os versículos com que era inspirado, e que teve o privilégio de ser admitido, durante aqueles dias, à presença de Bahá'u'lláh e de observar com os próprios olhos o que ele considerava uma prova inigualável da missão do Prometido. Legou, pois, à posteridade o seguinte testemunho: "Juro que os versículos por Bahá'u'lláh eram superiores, pela rapidez com que foram redigidos, pela facilidade com que fluíram e por sua lucidez, profundeza, e doçura, aos que eu mesmo vi jorrarem da pena do Báb, quando em Sua presença. Se Bahá'u'lláh não tivesse outros títulos à grandeza, este seria suficiente, aos olhos do mundo e de seu povo, qual seja o de ter Ele produzido os versículos que hoje fluíram de Sua pena."

Primeiro dentre os inestimáveis tesouros produzidos pelo oceano encapelado da Revelação de Bahá'u'lláh, é o Kitáb-i-Íqán (Livro da Certeza), revelado no espaço de dois dias e duas noites, nos últimos anos daquele período (1278 D.H. - 1862 D.C.). Foi escrito em cumprimento à profecia do Báb, que estabelecera expressamente que o Prometido completaria o texto do inacabado Bayán persa, e em resposta às perguntas dirigidas a Bahá'u'lláh pelo tio materno do Báb, Hájí Siyyid Muhammad - que até então não se havia convertido - quando de sua visita a Karbilá, juntamente com seu irmão, Hájí Mírzá Hasan 'Ali. É modelo de prosa persa, esse Livro, sendo seu estilo ao mesmo tempo original, puro, vigoroso, e notavelmente lúcido, sendo incisiva sua argumentação, irresistível e inigualável sua eloqüência. Esboçando em linhas gerais o Grande Plano Redentor de Deus, ocupa lugar único em relação a qualquer outra obra de toda a literatura bahá'í, exceto o Kitáb-i-Aqdas, o Sacratíssimo Livro de Bahá'u'lláh. Revelado nas vésperas da declaração de Sua Missão, apresentou à humanidade o "Vinho Especial Selado", cujo selo é de "almíscar", quebrou os "selos" do "Livro" a que Daniel se referiu e patenteou o significado das "palavras" destinadas a ficarem "fechadas" até o "tempo do fim".

Dentro de um espaço de duzentas páginas, essa obra proclama inequivocamente a existência e a unicidade de um Deus pessoal, incognoscível, inacessível, fonte de toda a Revelação, eterno, onisciente, onipresente e Todo-Poderoso; assevera a relatividade da verdade religiosa e a continuidade da Revelação Divina; afirma a unidade dos Profetas, a universidade de sua Mensagem, a identidade de seus ensinamentos fundamentais, a santidade de suas escrituras e o caráter duplo de seus graus; denuncia a cegueira e a perversidade dos sacerdotes e letrados de cada era; cita e elucida as passagens alegóricas do Novo Testamento, os versículos obscuros do Alcorão e as crípticas tradições maometanas que têm gerado aqueles malentendidos, aquelas dúvidas e animosidades através dos séculos que têm apartado os seguidores dos principais sistemas religiosos do mundo e continuam a separá-los; enumera os requisitos essenciais para que cada um que busca verdadeiramente possa atingir o objeto de sua busca; demonstra a validez, a sublimidade e a significação da Revelação do Báb; aclama o heroísmo e o desprendimento de Seus discípulos; prognostica e prediz o triunfo universal da Revelação prometida ao povo do Bayán; sustenta a pureza e a inocência da Virgem Maria; glorifica os imames da Fé de Maomé; celebra o martírio do Imame Hussein e lhe exalta a soberania espiritual; revela o significado de tais termos simbólicos como a "Volta", a "Ressurreição", "Selo dos Profetas" e "Dia do Juízo"; prenuncia e distingue as três etapas da Revelação Divina; e discorre, em termos ardentes, sobre as glórias e as maravilhas da "Cidade de Deus", renovada, a intervalos fixos, pela dispensação da Providência, para a guia, o benefício e a salvação de todo o gênero humano. Bem pode-se asseverar que, de todos os livros revelados pelo Autor da Revelação Bahá'í, este Livro, por si só, tendo eliminando as barreiras seculares que, de um modo tão insuperável, vinham separando as religiões do mundo, tem estabelecido uma base ampla e inatacável para a completa e permanente reconciliação de seus seguidores.

Ao lado desse repositório incomparável de inestimável tesouros, deve figurar aquela maravilhosa coleção de preciosas sentenças, as "Palavras Ocultas", com que Bahá'u'lláh foi inspirado quando vagava, envolto em Suas meditações, pelas margens do Tigre. Revelado no ano 1274 D.H., parte em persa e parte em árabe, foi originariamente designado como o "Livro Oculto de Fátima", sendo identificado por Seu Autor com o Livro do mesmo nome. O islã xiita acreditava que este Livro estava sob a posse do Qá'im prometido e que continha palavras de consolo dirigidas à Fátima pelo anjo Gabriel, por ordem divina, e ditadas ao Imame 'Ali, com o único fito de confortá-la na hora da intensa angústia após a morte de seu ilustre Pai. O que significa esse dinâmico fermento espiritual introduzido na vida do mundo para dar às mentes dos homens uma nova orientação, aperfeiçoando-lhes a alma e retificando-lhes a conduta, poderá ser melhor julgado pela descrição de seu caráter cada na passagem inicial por seu Autor: "Isto é o que desceu do Reino da Glória, pronunciado pela língua da grandeza e do poder e revelado aos Profetas de antanho. Disto tiramos a quintessência e enroupamo-la nas vestes da brevidade, como uma prova de graça para com os justos, a fim de que eles possam manter-se fiéis ao Convênio de Deus, possam fazer com suas vidas jus à Sua confiança e no reino do espírito obter a preciosidade da virtude Divina."

A essas duas destacadas contribuições à literatura religiosa do mundo, que ocupam, respectivamente, posições de inexcedível proeminência entre os escritos doutrinais e éticos do Autor da Revelação Bahá'í, foi acrescentado, durante aquele mesmo período, um tratado que bem pode ser considerado como Sua maior composição mística, designada pelo nome de "Sete Vales". Foi escrita em resposta às perguntas do Sheik Muhyi'd-Dín, o Qádí de Khániqáyn e descreve os sete estágios que a alma daquele que busca deve necessariamente atravessar, antes de poder atingir o objetivo de sua existência.

A obra "Quatro Vales", uma epístola dirigida ao erudito Shaykh 'Abdu'r-Rahmám-i-Karkútí; a Epístola do Santo Marinheiro", na qual Bahá'u'lláh prediz as severas aflições destinadas a Lhe sobrevir; "Lawh-i-Húriyyih" (Epístola da Virgem), na qual acontecimentos de um futuro muito mais remoto são prognosticados; "Suriy-i-Sabr" (Sura da Paciência), revelada no primeiro dia do Ridván, que enaltece Vahíd e aqueles que compartilharam seu sofrimento em Nayríz; o comentário sobre as Letras com as quais se iniciam as Suras do Alcorão; Sua interpretação da letra Váv, mencionada nos escritos de Shaykh Ahmad-i-Ahsá'í, e de outras passagens obscuras nas obras de Siyyid Kázim-i-Rashtí; "Lawh-i-Madínatu't-Tawhíd" (Epístola da Cidade da Unidade); o "Sahífiy-i-Shattíyyih"; o "Musibát-i-Hurúfát-i-'Álíyát"; o "Tafsír-i-Hú"; o "Javáhiru'l-Asrár" e numerosos outros escritos, na forma de epístolas, odes, homilias, epístolas específicas, comentários e orações - todos contribuíram, cada um de seu próprio modo, para que intumescessem os "rios da vida eterna" manando da "Morada da Paz", e deram um poderoso ímpeto à expansão da Fé do Báb, tanto na Pérsia como no Iraque, vivificando as almas e transformando o caráter de seus aderentes.

Era inevitável que a animosidade que ardia ainda no peito de Seus inimigos xiitas e sunitas flamejasse fortemente agora em face de provas inegáveis do alcance e da magnificência do crescente poder de Bahá'u'lláh, como sejam: Seu prestígio que rapidamente aumentava; a miraculosa transformação que Ele, quer pela palavra, quer pelo exemplo, efetuara na perspectiva e no caráter de Seus companheiros desde Bagdá até as mais remotas cidades e aldeias da Pérsia; o amor febril por Ele, que lavrava no peito desses companheiros; e o prodigioso volume de escritos que fluía dia e noite de Sua pena.

Agora que Sua residência havia sido trasladada para a vizinhança das cidades do islã xiita e Ele Próprio foi posto em contato com os peregrinos fanáticos que se apinhavam nos lugares sagrados de Najaf, Karbilá e Kázimayn, não mais podia se adiar uma prova de força entre o crescente brilho de Sua glória e as forças escuras entrincheiradas do fanatismo religioso. Bastaria apenas uma fagulha para incendiar esse material combustível de todos os ódios, medos e ciúmes acumulados que as atividades revivificadas dos bábís haviam inspirado. Forneceu essa fagulha um certo Shaykh 'Abdu'l-Husayn, um astucioso e obstinado sacerdote, cujo predominante ciúme de Bahá'u'lláh foi excedido somente por sua capacidade para promover maldade tanto entre aqueles de alta categoria como entre os mais degradados dos degradados, árabes ou persas, que se aglomeravam nas ruas e nos mercados de Kázimayn, Karbilá e Bagdá. Foi ele a quem Bahá'u'lláh estigmatizara em Suas Epístolas por tais epítetos como o "mau", o "intrigante", o "perverso", "aquele que desembainhou a espada do eu contra a face de Deus", "em cuja alma Satanás sussurrou" e "de cuja impiedade foge Satanás", o "depravado", "de quem originaram e a quem regressarão toda infidelidade, crueldade e crime". Principalmente através dos esforços do Grão-Vizir, que desejava se ver livre dele, fora esse importuno mujtahid comissionado pelo xá para ir a Karbilá a fim de reparar os lugares sagrados daquela cidade. Aguardando a ocasião, aliou-se com Mírzá Buzurg Khán, um cônsul geral persa recém-nomeado, que, sendo das mesmas tendências iníquas que ele, um homem de inteligência medíocre, insincero, sem previsão ou honra, um ébrio consumado, logo caiu vítima da influência daquele vicioso conspirador, tornando-se o instrumento disposto a executar seus desígnios.

Sua primeira tentativa em conjunto foi a de obterem do governador de Bagdá, Mustafá Páshá, mediante uma flagrante deturpação da verdade, uma ordem para a extradição de Bahá'u'lláh e Seus companheiros - esforço este que fracassou miseravelmente. Reconhecendo a futilidade de qualquer tentativa de alcançar seu objetivo através de intervenção das autoridades locais, Shaykh 'Abdu'l-Husayn - com a assídua circulação de sonhos, por ele inventados, primeiro, e, depois, interpretados - começou a excitar as paixões de uma população supersticiosa e altamente inflamável. O ressentimento engendrado pelo insucesso em obter o resultado que visava, agravou-se com seu ignominioso fracasso em enfrentar o desafio de uma entrevista previamente arranjada entre ele e Bahá'u'lláh. Mírzá Buzurg Khán, por sua parte, usou sua influência a fim de excitar a animosidade dos mais baixos elementos da população contra um Adversário comum, instigando-os a Lhe infligir afrontas em público, na esperança de provocar algum ato temerário em represália do que, pudessem usar como base para acusações falsas, através das quais talvez conseguissem a desejada ordem de extradição. Essa tentativa, também, provou ser abortiva, pois a presença de Bahá'u'lláh - Quem, a despeito das advertências e súplicas de Seus amigos, continuou a andar sozinho, de dia como também à noite, pelas ruas da cidade - bastava para acabrunhar de consternação e vergonha aqueles que queriam molestá-Lo. Bem ciente de seus motivos, deles se aproximava, animando-os em suas intenções e com eles pilheriando, e os deixava completamente confusos e resolvidos a abandonar quaisquer planos que tivessem em mente. O cônsul-geral havia ido até ao extremo de contratar um homem infame, um turco, de nome Ridá, pela soma de cem túmáns, fornecendo-lhe um cavalo e duas pistolas, e manda-lo procurar e matar Bahá'u'lláh, prometendo que sua própria proteção lhe seria plenamente garantida. Certo dia, ao saber que a vítima em mira se encontrava no banho público, Ridá esquivou a vigilância dos bábís que Lhe atendiam, entrou no banho com uma pistola escondida debaixo da capa e confrontou-se no quarto interior - só para descobrir que lhe faltava a coragem para levar a cabo sua tarefa. Ele próprio, anos depois, relatou que em outra ocasião estava de emboscada à espera de Bahá'u'lláh, pistola na mão, mas, quando Bahá'u'lláh se aproximava - tal foi o medo que dele se apoderou - a pistola caiu de sua mão. Com isso Bahá'u'lláh pediu a Áqáy-i-Kalím, que O acompanhava, a devolver-lhe a arma e lhe indicar o caminho para casa.

Frustrado em suas repetidas tentativas de executar seu mau desígnio, Shaykh 'Abdu'l-Husayn agora deu uma nova direção a suas energias. Prometeu a seu cúmplice que o elevaria ao grau de ministro da coroa, se ele conseguisse induzir o governo a chamar Bahá'u'lláh a Teerã e novamente aprisiona-Lo. Quase diariamente despachava ele longos relatórios ao séqüito junto do xá, com extravagantes quadros da ascendência de que Bahá'u'lláh gozava, mostrando que Ele ganhara a lealdade das tribos nômades do Iraque. Afirmou ter Ele a possibilidade de reunir em um só dia, até um total de cem mil homens, prontos para tomar armas a Seu mando. Acusou-O de estar pensando em fomentar, juntamente com vários líderes na Pérsia, uma insurreição contra o governo. Por tais meios conseguiu exercer suficiente pressão sobre as autoridades em Teerã para induzir o xá a lhe conceder um mandato segundo o qual lhe fossem conferidos plenos poderes e os ulemás e funcionários persas fossem incumbidos de lhe prestar todo apoio. De imediato o Shaykh transmitiu esse mandato aos eclesiásticos de Nayaf e Karbilá, pedindo-lhes que convocassem uma reunião em Kázimayn, o lugar de sua residência. Uma congregação de shaykhs, mullás e mujtahids, ansiosos de ganhar favor com o soberano, prontamente respondeu. Ao serem informados do propósito da convocação, determinaram-se a declarar uma guerra santa contra a colônia de desterrados e, lançando contra a Fé uma repentina investida geral, destruí-la em seu âmago. Para o espanto e a desilusão deles, entretanto, descobriram que o principal mujtahids entre eles, o célebre Shaykh Murtadáy-i-Ansárí, um homem famoso por sua tolerância, sua sabedoria, sua indesviável justiça, sua piedade e nobreza de caráter, ao ser informado de seus desígnios, recusou pronunciar a necessária sentença contra os bábís. Foi ele a quem Bahá'u'lláh mais tarde exaltou no "Lawh-i-Sultán" e incluiu entre "aqueles doutos que, em verdade, sorveram do cálice da renuncia" e "jamais com Ele interferiram", e a quem Abdu'l-Bahá se referiu como o "ilustre e erudito doutor, o nobre e célebre letrado, o selo dos que buscam a verdade." afirmando não ter conhecimento suficiente dos preceitos dessa comunidade, nem haver testemunhado ato algum da parte de seus membros que não estivesse de acordo com o Alcorão, ele, desatendendo os protestos dos colegas, saiu abruptamente da reunião e regressou a Najáf, após haver expressado a Bahá'u'lláh, por intermédio de um mensageiro, seu pesar por aquilo que sucedera e seus sinceros votos por Sua proteção.

Frustrados em seus desígnios, mas inexoráveis em sua hostilidade, os teólogos reunidos delegaram ao erudito e devoto Hájí Hasan-i-'Ammú, reconhecido por sua integridade e sabedoria, a incumbência de apresentar várias perguntas a Bahá'u'lláh para elucidação. Ao receber respostas inteiramente satisfatórias, Hájí Mullá Hasan, afirmando o reconhecimento, por parte dos ulemás, da vastidão dos conhecimentos de Bahá'u'lláh, pediu, no entanto, uma prova da verdade de Sua missão, fosse feito um milagre que satisfizesse totalmente todos os que tinham interesse no assunto. "Muito embora não tenhais direito algum de pedi-lo", replicou Bahá'u'lláh, "pois Deus põe à prova Suas criaturas e elas não devem pôr Deus à prova, ainda assim, permito e aceito esse pedido... Os ulemás devem reunir-se e, unanimemente, escolher um milagre e escrever que, depois da realização do mesmo, não mais nutrirão dúvidas a Meu respeito, mas que todos reconhecerão e confessarão a verdade de Minha Causa. que eles lacrem este papel e tragam-no a Mim. Este deve ser o critério adotado: se o milagre se realizar, nenhuma dúvida mais haverá a respeito; do contrário, Nós seremos condenados por impostura." Esta réplica, clara, incisiva e corajosa, sem precedente nos anais de qualquer religião, e dirigida aos mais ilustres teólogos xiitas, reunidos no seu antiqüíssimo reduto, foi tão satisfatória para o seu enviado, que ele se levantou imediatamente, beijou o joelho de Bahá'u'lláh, e partiu para entregar Sua mensagem. Três dias mais tarde ele mandou dizer que a augusta assembléia não conseguira chegar a um acordo sobre a escolha, preferindo, pois, relegar o assunto ao esquecimento, decisão essa a que ele próprio deu grande publicidade durante sua visita à Pérsia, e que ele mesmo comunicou em pessoa, ao então Ministro das Relações Exteriores, Mírzá Sa'íd Khán. Diz-se que Bahá'u'lláh comentou, quando informado da reação deles a esse desafio: "Revelamos, através dessa mensagem que enviamos, em tudo satisfatória e completa, e vindicamos os milagres de todos os Profetas, já que deixamos a escolha a cargo dos ulemás, tomando sobre Nossos ombros a tarefa de revelar qualquer coisa que eles decidissem." "Se examinarmos cuidadosamente o texto da Bíblia", escreveu Abdu'l-Bahá, referindo-se a um desafio semelhante, feito mais tarde por Bahá'u'lláh no Lawh-i-Sultán, "veremos que o Manifestante Divino nunca disse aos que O negaram: "Qualquer que seja o milagre desejado, estou pronto a realiza-lo, e submeter-Me-ei a qualquer prova que Me propuseram". Todavia, na Epístola ao xá, Bahá'u'lláh disse claramente: "Congregue os ulemás e convoque-Me, para que testemunhos e provas possam ser estabelecidos."

Sete anos de consolidação ininterrupta, paciente e bem sucedida, chegavam agora ao seu termino. Ressuscitara-se essa comunidade desorientada, que havia sido submetida a tremendas e prolongadas provações, tanto de dentro como de fora, sendo até ameaçada de extinção. Elevara-se a uma ascendência sem igual no decorrer de sua história de vinte anos. Reforçara-se seu alicerce, exaltara-se seu espírito, transformara-se sua perspectiva, sendo-lhe garantida a direção, definidas novamente as características fundamentais e realçado o prestígio, enquanto seus inimigos ficavam embaraçados. Assim, gradativamente, veio a Mão do Destino preparando essa comunidade para entrar numa nova fase de sua acidentada carreira, em que tanto a ventura como a desventura deveriam leva-la, ainda, através de um outro estágio evolutivo. O Libertador dessa comunidade, sua única esperança, Aquele que era virtualmente reconhecido como seu líder, havia consistentemente inspirado tal respeito que frustrara os autores de todos os conluios para assassina-Lo. Desdenhosamente rejeitara todos os tímidos conselhos no sentido de que fugisse do local do perigo, declinando firmemente repetidas e generosas ofertas feitas por amigos e partidários, que visavam garantir-Lhe a segurança pessoa, e finalmente havia Ele obtido uma vitória notável sobre os Seus antagonistas. Agora nessa hora auspiciosa estava sendo impelido, pelo processo irresistível de Sua Missão evolutiva, a transferir Sua residência para o centro de ainda maior proeminência, a capital do Império Otomano, a sede do Califado, o centro administrativo do islã sunita, a morada do mais poderoso potentado do mundo islâmico.

Já havia lançado um desafio audaz à ordem sacerdotal representada pelos eminentes eclesiásticos que residiam em Najáf, Karbilá e Kázimayn. Agora, enquanto nas proximidades da corte de Seu adversário real, Ele haveria de oferecer um desafio similar ao reconhecido chefe do islã sunita, bem como ao soberano da Pérsia, o curador do Imame oculto. Ele iria se dirigir, além disso, a todos os reis da terra e, em especial, ao sultão e seus ministros, exortando e advertindo-lhes, ao passo que os reis da cristandade e a hierarquia sunita seriam severamente admoestados. Não é de se admirar que o exilado Portador de uma Revelação recém-anunciada - prevendo o futuro resplendor da Lâmpada de Sua Fé, após seu traslado do Iraque - tivesse pronunciado estas palavras proféticas: "Brilhará esplendorosa dentro de outro globo, assim como lhe predestinara Aquele que é o Onipotente, o Ancião dos Dias... Que o Espírito partisse do corpo do Iraque é, em verdade, sinal maravilhoso para todos os que estão no céu e todos os que estão na terra. Dentro em breve contemplareis este Jovem Divino montado no corcel da vitória. Nesse tempo haverão de tremer os corações dos invejosos."

Havendo agora soado a hora predestinada para a partida de Bahá'u'lláh do Iraque, o processo pelo qual seria realizada se pôs em movimento. Os nove meses de ininterrupto esforço envidado por Seus inimigos e, em especial por Shaykh 'Abdu'l-Husayn e seu confederado Mírzá Buzurg Khán, estavam prestes a dar seu fruto. Násirid-Dín Sháh e seus ministros, por um lado, e o embaixador persa em Constantinopla, por outro, foram incessantemente exortados a tomar ação imediata a fim de assegurar que Bahá'u'lláh partisse de Bagdá. Dando informações flagrantemente falsas sobre a verdadeira situação e disseminando notícias alarmantes, um inimigo maligno e enérgico, conseguiu, afinal, persuadir o xá a dar instruções a seu ministro de assuntos estrangeiros, Mírzá Sa'íd Khán, para que pedisse ao Embaixador persa ante a Sublime Porta, Mírzá Hussein Khán - amigo íntimo de 'Alí Pashá, o Grão-Vizir do Sultão e de Fu'ád Páshá, Ministro de Assuntos Estrangeiros - que induzisse o Sultão 'Abdu'l-Azíz a ordenar o traslado imediato de Bahá'u'lláh para um lugar remoto de Bagdá, alegando que Sua continuada residência naquela cidade, adjacente a território persa e perto de tão importante centro de peregrinação xiita, constituía uma ameaça direta à segurança da Pérsia e de seu governo.

Mírzá Sa'íd Khán, em sua comunicação ao Embaixador, estigmatizou a Fé como uma "seita desorientada e detestável", deplorou a libertação de Bahá'u'lláh do Síyáh-Chál e O denunciou como uma pessoa que não cessava de "corromper secretamente e desorientar pessoas néscias e homens ignorantes de mentalidade fraca." "De acordo com o mandado real", escreveu ele, "eu, vosso amigo fiel, fui ordenado... a vos mandar instruções para que procurásseis, sem demora, ter uma entrevista com Suas Excelências, o Sadr-i-A'zam e o Ministro de Assuntos Estrangeiro... a fim de pedirdes... o traslado dessa fonte de mal de um centro como Bagdá, uma cidade onde se congregam muitos povos diferentes, sendo situada perto das fronteiras das províncias da Pérsia." Nessa mesma carta, citando um verso célebre, ele escreve: "Vejo embaixo das cinzas o ardor do fogo, e pouco falta para que estale em chamas", assim deixando entrever seus receios, e visando a instila-los naquele a quem escrevia.

Animado pela presença no trono de um monarca que delegar a seus ministros grande parte de seus poderes e apoiado por certos embaixadores estrangeiros e ministros em Constantinopla, Mírzá Husayn Khán, mediante muita persuasão e a pressão amistosa que exercia sobre esses ministros, conseguiu obter a sanção do Sultão para o traslado a Constantinopla de Bahá'u'lláh e Seus companheiros (que nesse ínterim haviam sido forçados por circunstâncias a mudar sua cidadania). Diz-se, até, que o primeiro pedido feito a uma Potência amiga pelas autoridades persas, após a ascensão do novo Sultão ao trono, foi que interviesse ativa e prontamente nesse assunto.

No quinto dia de Naw-Rúz (1863) Bahá'u'lláh estava celebrando esse festival em Mazrá'iyli-Vashshásh, nos arredores de Bagdá, e acabara de revelar a "Epístola do Sagrado Marinheiro", cujos sombrios prognósticos haviam suscitado graves apreensões em Seus companheiros, quando chegou um emissário de Námiq Páshá e entregou em Suas mãos uma comunicação pedindo uma entrevista entre Ele e o governador.

Conforme Nabíl indicou em sua narrativa, já havia Bahá'u'lláh em alguns de Seus discursos, durante os últimos anos de Sua residência em Bagdá, aludido ao período de provações e tumulto que se aproximava inexoravelmente, demonstrando uma tristeza e desgosto que perturbaram grandemente os que O rodeavam. Um sonho que Ele teve por aquele tempo, cujo caráter sombrio não podia ser posto em dúvida, serviu para confirmar os temores e receios que assaltaram Seus companheiros. "Eu vi", Ele escreveu numa Epístola, "os Profetas e Mensageiros reunirem-se e sentarem-se em redor de Mim, lastimando-se, chorando e lamentando-se em voz alta. Assombrado, perguntei-lhes a razão de sua tristeza, ao que seus choros e lamentações aumentaram ainda mais, e disseram-Me: "Choramos por Vós, Ó Grandioso Mistério, ó Tabernáculo da Imortalidade!" Eles choraram de tal modo que Eu também chorei com eles. Em seguida, a Assembléia no alta dirigiu-se a Mim nestes termos: "...Breve vereis com Vossos próprios olhos o que nenhum Profeta viu... Tendes paciência!" ...Eles continuaram a se dirigir a Mim durante toda a noite, até o amanhecer."

"Surgiram oceanos de tristeza", afirma Nabíl, "nos corações dos ouvintes, quando lhes foi dada em voz alta a Epístola do Sagrado Marinheiro... A todos se tornava evidente que o capítulo de Bagdá estava prestes a terminar e que, em seu lugar, se abriria um novo. Logo depois de se haver entoado essa Epístola, Bahá'u'lláh ordenou que as tendas que haviam sido levantadas fossem desarmadas e que todos os Seus companheiros regressassem à cidade. Enquanto estavam desarmando as tendas, Ele observou: "Estas tendas podem ser comparadas com os atavios deste mundo - mal se acaba de arrumá-los quando chega a hora de deixa-los de lado." Destas palavras Suas, aqueles que as ouviram perceberam que nunca mais seriam essas tendas levantadas nesse lugar. Não as haviam levado ainda, quando chegou de Bagdá o mensageiro incumbido de entregar a comunicação, já mencionada, do governador.

No dia seguinte, o Governador Adjunto entregou a Bahá'u'lláh, numa mesquita nas vizinhanças da casa do governador, a carta de 'Alí Páshá, dirigida a Námiq Páshá e vazada em termos corteses. Essa carta convidava Bahá'u'lláh a prosseguir, como hospede do governo otomano, até Constantinopla, colocava uma quantia de dinheiro à Sua disposição e providenciava uma escolta montada para acompanha-Lo. A esse pedido Bahá'u'lláh deu o Seu imediato assentimento, mas recusou-se a aceitar a soma que Lhe fora oferecida. Quando, porém, o Adjunto insistiu, fazendo ver que tal recusa ofenderia as autoridades, Ele consentiu, embora com relutância, em receber a generosa verba apartada para o Seu uso, e distribuiu-a naquele mesmo dia entre os pobres.

O efeito dessa notícia repentina sobre a colônia de exilados foi instantâneo e acabrunhador. "Esse dia", conta uma testemunha ocular, descrevendo a reação da comunidade às novas referentes à próxima partida de Bahá'u'lláh, "viu um tumulto digno do Dia da Ressurreição. Os próprios portais e muros da cidade pareciam chorar por causa da separação iminente do Bem-Amado de Abhá. Na primeira noite em que se mencionou Sua intenção de partir, Seus entes queridos, todos eles, renunciaram tanto ao sono como ao alimento... Nenhuma só alma podia ser tranqüilizada. Muitos haviam resolvido que, na hipótese de serem privados da mercê de acompanha-Lo, matar-se-iam, sem hesitação... Aos poucos, contudo, através das palavras que Ele lhes dirigiu, e através de Suas exortações e de Sua terna bondade, acalmaram-se e resignaram-se à Sua vontade". Para cada um deles que vivesse em Bagdá - quer árabe ou persa, homem o mulher, criança ou adulto - Ele revelou durante aqueles dias, de Seu próprio punho, uma Epístola individual. Na maioria dessas Epístolas Ele predisse o aparecimento do "Bezerro" e das "Aves da Noite", alusões aos que - como fora previsto na Epístola do Sagrado Marinheiro e prognosticado no sonho acima citado - iriam levantar o estandarte da rebelião e precipitar a crise mais grave da história da Fé.

Vinte e sete dias depois que aquela Epístola de triste conteúdo fora tão inesperadamente revelada por Bahá'u'lláh, e depois que a comunicação fatídica, pressagiando Sua partida de Constantinopla, havia sido entregue em Suas mãos, numa tarde de quarta-feira (22 de abril de 1863), trinta e um dias após Naw-Rúz, no dia três de "Dhi'il-Qa'dih, 1279 D.H., Ele deu início à primeira etapa de Sua viagem de quatro meses à capital do Império Otomano. Aquele dia histórico - que passaria a ser designado daí por diante como o primeiro dia do Festival do Ridván - foi assinalado pela culminação das inúmeras visitas de adeus que amigos e conhecidos de todas as classes e condições Lhe vinham fazendo, e apresentou um espetáculo como os habitantes de Bagdá raramente haviam visto. Apinhava-se nas imediações de Sua casa uma aglomeração de pessoas de ambos os sexos e de todas as idades, compreendendo amigos e estranhos, árabes, curdos e persas, autoridades e clérigos, funcionários e mercadores, bem como muitos de classes inferiores, os pobres, órfãos e proscritos. Alguns mostravam surpresa, outros angústia, muitos estavam em pranto e apreensivos, enquanto alguns foram impelidos pela curiosidade ou por secreta satisfação. Todos estavam ansiosos por lançar um último olhar Àquele que, durante uma década, através dos preceitos e do exemplo, exercera tamanha influência sobre grande parte da população tão numerosa e heterogênea de sua cidade.

Pela última vez, em meio a choros e lamentos, deixara Ele Sua "Santíssima Habitação", Habitação essa, de onde "haviam emanado os sopros do Todo-Glorioso" e, em "borbotões incessantes", a "melodia do Todo-Misericordioso". No Seu caminho, com mão pródiga, dera uma última esmola aos pobres de quem sempre fora amigo fiel, e pronunciava palavras de conforto aos desconsolados que O procuravam de toda parte. Assim alcançou Ele as margens do rio, que cruzou em balsa, acompanhado de Seus filhos e do amanuense, em direção ao Jardim de Najíbíyyih, situado na margem oposta. "Ó Meus companheiros", assim dirigira-se Ele ao grupo fiel que O rodeou antes de Seu embarque, "confio à vossa guarda esta cidade de Bagdá, no estado em que agora a vedes, quando correm lágrimas - como a chuva primaveril - dos olhos dos amigos e estranhos, que se apinham nos seus sótãos, ruas e mercados, - e parto. Cabe-vos a tarefa de vigiar para que vossas ações e conduta não obscureçam a chama do amor que rebrilha dentro do peito de seus habitantes."

O muezim acabava de anunciar a oração vespertina,quando Bahá'u'lláh entrou no Jardim Najíbíyyih de onde permaneceu por doze dias antes de Sua partida definitiva da cidade. Lá Seus amigos e companheiros, chegando em ondas sucessivas, foram à Sua presença e transmitiram-Lhe suas últimas despedidas, com profundo pesar. Destacava-se dentre eles o renomado Álúsí, o Muftí de Bagdá, que, com os olhos marejados de lágrimas, execrava o nome de Násiri'd-Dín Sháh, a quem considerava principal responsável por tão imerecido desterro. "Deixei de considera-lo", declarava ele abertamente, "como Násiri'd-Dín (o auxiliador da Fé), e tenho-o antes na conta de seu destruidor." Um outro visitante distinto era o próprio governador, Námiq Páshá, que depois de expressar nos termos mais respeitosos o seu pesar pelos acontecimentos que culminaram com a partida de Bahá'u'lláh, fez protestos de sua boa vontade em ajuda-Lo, de qualquer maneira que pudesse. Entregou, então, ao oficial designado para acompanha-Lo, uma ordem escrita aos governadores das províncias através das quais os exilados iriam passar, mandando que lhes dispensassem a máxima consideração. "Qualquer coisa que seja de Vossa Vontade", informou ele a Bahá'u'lláh, após profusas desculpas, "basta ordenar. Estamos prontos para atende-Lo."

"Estendei a vossa consideração aos Nossos bem-amados", foi a resposta aos seus insistentes e reiterados oferecimentos, "e tratai-os com bondade" - pedido a que ele deu o seu cálido e pronto assentimento.

Em face de tão numerosa evidências de profunda devoção, simpatia e estima, manifestadas de um modo tão impressionante, tanto por aqueles de alta posição como por pessoas humildes, desde o momento em que Bahá'u'lláh anunciou Sua viagem planejada, até o dia de Sua partida do Jardim de Najíbíyyih - não é de se admirar que aqueles que tão incansavelmente se haviam esforçado por obter a ordem para Seu desterro e se haviam regozijado por causa do êxito de seus esforços, tivessem agora amargamente se arrependido de seu ato. "Tal foi a intervenção de Deus", afirma Abdu'l-Bahá, em uma carta por Ele escrita nesse jardim, com referência àqueles inimigos, "que o júbilo por eles demonstrado se converteu em desgosto e tristeza, a tal ponto que o cônsul-geral persa em Bagdá deplora profundamente os planos e as maquinações que os conspiradores idearam. O próprio Námiq Páshá, no dia em que fez uma visita a Ele (Bahá'u'lláh) declarou: "Antigamente insistiram em que partísseis. Agora, entretanto, se mostram ainda mais insistentes em que permaneçais."

CAPÍTULO IX
A DECLARAÇÃO DA MISSÃO DE BAHÁ'U'LLÁH
E SUA VIAGEM A CONSTANTINOPLA

A chegada de Bahá'u'lláh ao Jardim de Najíbíyyih - ou, como foi posteriormente designado por Seus adeptos, o Jardim de Ridván - marca o início do veio a ser reconhecido como o mais santo e o mais significativo de todos os festivais bahá'ís. Comemora o dia em que Ele declarou a Seus companheiros Sua Missão. Tão momentosa Declaração, bem pode ser considerada como a consumação lógica daquele processo revolucionário que Ele Mesmo, ao voltar de Sulaymáníyyih iniciara, e também como prelúdio para a proclamação final dessa mesma Missão que Ele haveria de fazer em Adrianópolis, ao mundo e aos seus governantes.

Com esse ato solene, terminara, finalmente, a "demora" de não menos que uma década, divinamente interposta entre o nascer da Revelação de Bahá'u'lláh no Síyáh-Chál e sua anunciação aos discípulos do Báb. Já se cumprira o "tempo determinado da ocultação", durante o qual, como Ele Próprio testemunhou, os "sinais e provas de uma Revelação de caráter divino" jorravam sobre Ele. Os "múltiplos véus de luz" com que Sua Glória se acobertou, foram, nessa histórica hora, parcialmente descerrados, permitindo à humanidade "um infinitésimo vislumbre" do resplendor de Seu "incomparável, santíssimo e excelso Semblante." Os "mil duzentos e noventa dias", fixados por Daniel no último capítulo de Seu livro, como o prazo da "abominação desoladora", haviam agora terminado. Começavam os "cem anos lunares", destinados a preceder essa bem-aventurada consumação (1335 dias), e anunciadas por Daniel no mesmo capítulo. Os dezenove anos, constitutivos do primeiro "Vahíd", e preconizados no Bayán Persa pela pena do Báb, haviam sido cumpridos. O Senhor do Reino, Jesus Cristo vindo na glória do Pai, estava prestes a galgar o Seu trono e assumir o cetro de uma soberania indestrutível sobre o mundo inteiro. Surgira, visivelmente, a comunidade do Supremo Nome, os "companheiros da Arca Carmesim", cantada em tão calorosas palavras no Qayyúmú'l-Asmá". A própria profecia do Báb com respeito ao "Ridván" - a cena do descerramento do véu da glória transcendente de Bahá'u'lláh - fora literalmente cumprida.

A perspectiva das aterradoras adversidades que brevemente O atingiriam, conforme Ele Mesmo predissera, não poderia detê-Lo. Não Lhe importava estar às vésperas de um segundo exílio, que se revelaria prenhe de riscos e perigos inumeráveis, e mais longe ainda O levaria de Sua terra natal, o berço de Sua Fé, para um país estranho, de raça, língua e cultura diferentes. Vivamente cônscio estava Ele da extensão do círculo de Seus adversários, entre os quais haveria logo de incluir-se um monarca ainda mais despótico do que Násiri'd-Dín-Sháh, e ministros não menos acirrados em sua hostilidade do que Hájí Mírzá Áqásí ou o Amír Nizám. Não O perturbavam as contínuas interrupções ocasionadas pelo afluxo de uma multidão de visitantes que se acotovelam em Sua tenda. Uma hora assim tão crítica e, aparentemente, inoportuna foi a que Bahá'u'lláh escolheu para lançar tão temerária proclamação, para evidenciar o mistério que envolvia Sua pessoa, e para assumir, em toda sua plenitude, o poder e a autoridade que seriam privilégios exclusivos Daquele cuja vinda o Báb profetizara.

Já tivera a colônia dos exilados um vislumbre do grande evento que estava próximo, e agora aguardava, esperançosa, sua consumação. Ao aproximar-se, pois, firme e inexoravelmente o ano "oitenta", Ele, que se tornara o verdadeiro líder dessa comunidade, sentia, em escala crescente, a pujante influência de sua força instrutiva e a comunicava, pouco a pouco, a Seus futuros adeptos. Inequívocos foram os sinais da iminência da Declaração: as festivas e empolgantes odes, que ele revelava quase diariamente; as Epístolas, repletas de referências veladas, que vertiam de Sua pena; as alusões - em palestras particulares ou em discursos públicos - que Ele fazia à hora que se aproximava; a exaltação, tanto nos momentos de alegria como nos de tristeza, que Lhe inundava a alma; o êxtase que se apossava de Seus fiéis, há arrebatados pelas inumeráveis evidências de Sua crescente grandeza e glória; a sensível mudança operada no Seu modo de ser; e, finalmente, o uso que passou a fazer to táj (toucado alto, de feltro), no dia da partida de Sua sacratíssima Casa. Tudo isso proclamava, indiscutivelmente, Sua iminente assunção do ofício profético e da franca direção da comunidade dos adeptos do Báb.

"Muitas noites", escreve Nabíl, retratando a agitação que se apoderara dos corações dos companheiros de Bahá'u'lláh durante os dias que precederam à declaração de Sua missão, "Mírzá Áqa Ján reunia-os em seu quarto, à porta cerrada, acendia numerosas velas canforadas e recitava-lhes as recém-reveladas odes e Epístolas em seu poder. Inteiramente alheios à veleidades deste mundo, completamente imersos nos domínios do espírito, esquecidos da necessidade de alimento, sono ou água, repentinamente percebiam que a noite já dera lugar ao dia e que o sol se aproximava de seu zênite."

Das exatas circunstâncias pertinentes a essa Declaração - marco na época - nós infelizmente não temos senão parcas informações. As palavras efetivamente proferidas por Bahá'u'lláh nessa ocasião, o modo por que fez Sua Declaração, a reação produzida pela mesma, o choque causado sobre Mírzá Yahyá, a identidade daqueles que tiveram a graça de ouvi-Lo, tudo isso está envolvido por nuvens difíceis de serem dissipadas pelos futuros historiadores. A fragmentaria descrição legada à posteridade por Seu cronista Nabíl, é um dos poucos registros autênticos que possuímos dos memoráveis dias por Ele passados naquele jardim. "Todos os dias" - relata Nabíl - "antes do alvorecer, os jardineiros colhiam as roas que se alinhavam ao longo das quatro avenidas do jardim, e as depositavam no centro do pavimento de Sua abençoada tenda. Tão grande era a pilha formada, que, quando Seus companheiros vinham reunir-se a Ele para tomarem o chá da manhã, era-lhes impossível verem-se entre si, desde que se achassem em lados opostos desse grande "bouquet". Todas essas rosas Bahá'u'lláh confiava, com Suas próprias mãos, àqueles que cada manha Ele dispensava de Sua presença, para serem entregues, em Seu nome, aos Seus amigos árabes e persas da cidade." "Certa noite" - continua ele - "a nona noite da lua crescente, calhou de ser eu um dos que, do lado de fora, vigiava Sua abençoada tenda. Ao aproximar-se a meia-noite, vi-O deixar Sua tenda, passar pelos lugares onde dormiam alguns de Seus companheiros, e começar a passear, à luz da lua, indo e voltando, pelas avenidas orladas de flores. Tão intenso era o cantar dos rouxinóis nos quatro cantos do jardim, que somente quem estivesse junto Dele poderia ouvir Sua voz. Continuou a caminhar até que, parando no meio de uma dessas avenidas, fez a seguinte observação: "Considerai estes rouxinóis. Tão grande é o seu amor por estas rosas, que, despertos, do anoitecer até a alvorada, gorjeiam suas melodias e comungam, ardentemente apaixonados, com o objeto de sua adoração. Como podem, pois, aqueles que pretendem inflamar-se com a rósea beleza do Bem-Amado, preferir o sono?" Por três noites sucessivas vigiei e girei em torno de Sua abençoada tenda. Cada vez que me acercava de Seu leito, encontrava-O desperto, e todo o dia, desde a manha até o cair da noite, eu O via, empenhado na incessante conversação que mantinha com a torrente de visitantes, que continuava a afluir de Bagdá. Nem uma só vez vislumbrei em Suas palavras o menor indício de dissimulação."

Deixemos que o Próprio Bahá'u'lláh nos diga o que significa essa Declaração. Aclamando essa histórica ocasião como o "Supremo Festival", o "Rei dos Festivais", o "Festival de Deus", Ele caracteriza-a em Seu Kitáb-i-Aqdas, como o dia em que "todas as criaturas foram imersas no mar da purificação", enquanto que, em uma de Suas Epístolas, se refere à mesma data como o Dia em que "as brisas do perdão sopraram sobre toda a criação". "Regozijai-vos com a maior das alegrias, ó povo de Bahá!", escreve Ele em outra Epístola, "ao invocardes o Dia da suprema felicidade, Dia em que falou a Língua do Ancião dos Dias, ao partir de Sua casa rumo ao Lugar de onde dispensou a toda a criação os esplendores de Seu Nome, o Todo-Misericordioso... Revelássemos Nós os profundos segredos desde Dia, todos que habitam a face da terra e os céus cairiam em letargo e morreriam, exceto os que fossem poupados por Deus, o Todo-Poderoso, o Onisciente, o Sapientíssimo. Tal é o efeito inebriante das palavras de Deus sobre o Revelador de Suas inequívocas provas, que Sua pena já não pode mover-se." E ainda: "É chegada a Divina Primavera, ó Sublime Pena! pois o Festival do Todo Misericordioso aproxima-se rapidamente... A estrela d'Alva de Suprema Felicidade brilha acima do horizonte de Nosso Nome, O Bem-Aventurado, visto que o Reino do Nome de Deus tem sido adornado com o ornamento do Nome de Teu Senhor, o Criador dos céus... Acautela-te para que nada te detenha de celebrar a grandeza deste Dia, Dia em que o Dedo de Majestade e Poder rompeu o selo do Vinho da Reunião, e convocou todos os que estão nos céus e todos os que estão sobre a face da terra... Este é o Dia em que o mundo invisível exclama: "Grande é a tua felicidade, ó terra, pois te tornaste o escabelo do Teu Deus e foste escolhida para o sitio de Seu poderoso trono"... Atende!... Ele é Quem vos permitiria encontrar a Pedra Preciosa, oculta e entesourada - se vós apenas a procurásseis. Ele é o Bem-Amado de todas as coisas, quer no passado ou no porvir." E ainda mais: "Erguei-vos e proclamai à criação inteira as novas de que Aquele que é o Todo-Misericordioso dirigiu Seus passos ao Ridván e nele penetrou. Guiai, pois, o povo para o Jardim das Delícias, que Deus tomou como Trono de Seu Paraíso... No seio deste Paraíso, e das alturas dos seus mais sublimes aposentos, as Jovens do Céu proclamaram em altas vozes: "Regozijai-vos, ó vós que habitais o reino celestial, porque os dedos Daquele que é o Ancião dos Dias estão fazendo bater, em nome do Deus de toda glória, o Mais Grandioso Sino, no âmago dos céus. As mãos da bondade estão fazendo correr de boca em boca a taça da vida eterna. Aproximai-vos e tomai a vossa porção." E finalmente: "Esquece o mundo da criação, ó Pena, e dirige-te para o semblante de Teu Senhor, o Senhor de todos os nomes. Embeleza, assim, a terra, com o ornamento das graças do Teu Senhor, o Rei da vida eterna. Pois que temos sentido a fragrância do Dia, em que Ele, o Desejado de todas as nações, irradiou sobre os domínios do invisível e do visível os raios da luz de Seus mais excelsos nomes, e envolveu-os com o fulgor dos luminares de Suas mais sublimes graças que, de tão abundantes, ninguém poderá contar senão aquele, o Onipotente Protetor de toda a criação."

A partida de Bahá'u'lláh do Jardim de Ridván, à tarde de 14 de Dhi'l-Qa'dih de 1279 D.H. (3 de maio de 1863), provocou cenas de tumultuoso entusiasmo não menos espetaculares e até mais comovedores do que aquelas que assinalaram a despedida de Sua Casa Suprema de Bagdá. "A grande agitação", escreveu uma testemunha ocular, "que em nossas mentes associamos como o Dia da Reunião, com o Dia do Juízo, foi por nós presenciada nessa ocasião. Crentes e céticos, soluçavam e lamentavam-se. As pessoas eminentes que se haviam congregado estavam atônitas de admiração. Era tal a emoção que os dominava que nenhuma língua seria capaz de descreve-la nem poderia qualquer observador escapar à sua influência."

Montado em Seu corcel, um garanhão ruano da mais fina raça, o melhor que Lhe puderam comprar Seus fiéis amigos, e deixando atrás de Si uma multidão reverente de fervorosos admiradores, lançou-se à primeira etapa de uma jornada que O levaria até a cidade de Constantinopla. "Numerosas foram as cabeças" - conta Nabíl, testemunha dessa memorável passagem - "que de todos os lados se inclinaram para o chão, aos pés de Seu cavalo, beijando-lhe os cascos, enquanto outros sem conta se precipitaram para cingir Seus estribos." "Quão grande foi o número dessas encarnações de fidelidade" - testifica um Seu companheiro de viagem - "que, arremessando-se à frente dessa montada, preferiram a morte à separação de Seu Bem-Amado!"

Parece-me que esse abençoado corcel pisou nos corpos daquelas almas de coração puro. "Foi Ele (Deus)", declara o próprio Bahá'u'lláh, "Quem Me possibilitou partir da cidade (Bagdá) ataviado com tal majestade como ninguém, a não ser o negador e o malicioso, podem deixar de reconhecer." Essas evidências de homenagem e devoção continuaram a rodeá-Lo até que se instalou em Constantinopla. Mírzá Yahyá, enquanto se apressava a pe, por sua própria vontade, atrás da carruagem de Bahá'u'lláh, no dia de Sua chegada nessa cidade, observou a Siyyid Muhammad (segundo relata Nabíl, que isso presenciou): "Se eu não tivesse preferido me ocultar, se eu tivesse revelado minha identidade, a honra a Ele (Bahá'u'lláh) conferida, neste dia, teria sido minha também."

Os mesmos sinais de devoção mostrados a Bahá'u'lláh na ocasião da partida de Sua Casa e, mais tarde, do Jardim de Ridván, foram repetidos quando, no dia 20 de Dhi'l-Qadih (9 de maio de 1863), acompanhado por membros de Sua família e vinte e seis de Seus discípulos, Ele partiu de Firayját, a primeira parada no decorrer dessa viagem. Uma caravana, formada por cinqüenta mulas, uma guarda de dez soldados com seu oficial, e sete pares de howdahs, estando cada par coberto por guarda-sóis, prosseguia seu caminho, por cômodas etapas, durante nada menos de cento e dez dias, através dos planaltos - passando pelos desfiladeiros, bosques, vales e prados que constituíam o pitoresco cenário da Anatólia oriental até o porto de Sámsún, no Mar Negro. Ora montado, ora descansando em um howdah reservado para Seu uso - o qual era muitas vezes rodeado por Seus companheiros, a maioria dos quais ia a pe - Bahá'u'lláh, em virtude da ordem escrita de Namíq Páshá, recebia, enquanto viajava para o norte, na senda da primavera, um entusiástico acolhimento por parte dos guardiões, governadores, lugar-tenente, dirigentes, chefes, interpretes e juízes, oficiais do governo e pelas notabilidades dos distritos pelos quais Ele passava. Em Karkúk, em Irbíl, em Mosul, onde se demorou três dias, em Nisíbín, em Márdín, em Díyar-Bakr, onde se fez uma parada de dois dias, em Khárpút, em Sívas, bem como em outras aldeias e vilas, Ele era recebido por uma delegação imediatamente antes de Sua chegada e, ao partir, era acompanhado, até certa distância, por uma delegação similar. As festividades em Sua honra realizadas em alguns lugares, os alimentos preparados pelos habitantes das aldeias e a Ele oferecidos, a solicitude que mostravam em provar, inúmeras vezes, os meios de Seu conforto - tudo isso fazia lembrar a reverência que em tantas ocasiões Lhe fora mostrada pelo povo de Bagdá.

"Enquanto passávamos pela cidade de Márdín, naquela manhã, relata o mesmo companheiro de viagem, "fomos precedidos por uma escolta montada de soldados do governo que levavam bandeiras e faziam ressoarem os tambores em sinal de boas vindas. O governador, juntamente com oficiais e notabilidades, nos acompanharam, enquanto homens, mulheres e crianças, aglomerando-se nos tetos das casas e enchendo as ruas, esperavam nossa chegada. Com dignidade e pompa atravessamos essa cidade e prosseguimos a viagem, sendo escoltados, por uma distância considerável, pelo governador e seu séqüito." "Segundo o unânime testemunho daqueles que encontramos durante essa viagem", anotou Nabíl em sua narrativa, "nesse caminho pelo qual passavam continuamente governadores e conselheiros que iam e vinham entre Constantinopla e Bagdá, nunca antes se havia visto alguém viajar com tanta pompa, dispensar tanta hospitalidade a todos e conceder a cada um tão grande quinhão de uma munificência." Ao avistar, de Seu Howdah, o Mar Negro, à medida que se aproximava do porto de Sámsún, Bahá'u'lláh, a pedido de Mírzá Áqá Ján, revelou uma Epístola designada Lawh-i-Hawdaj (Epístola do Howdah), a qual por tais alusões como a "Divina Pedra do Toque", a "Maldade penosa e atormentadora" reafirmou e suplementou os fatídicos prognósticos anotados na recém revelada Epístola do Sagrado Marinheiro.

Em Sámsún o Inspetor-Chefe da província inteira, a qual se estendia desde Bagdá até Constantinopla, Lhe fez uma visita, acompanhado por vários páshás, e Lhe mostrou o máximo respeito, sendo por Ele convidado para o almoço. Sete dias após Sua chegada, porém, assim como prognosticado na Epístola do Sagrado Marinheiro, foi Ele posto a bordo de um navio turco, sendo, três dias mais tarde, no primeiro de Rabí'u'l-Avval 1280 A.H. (16 de agosto de 1863), ao meio dia, desembarcado no porto de Constantinopla, juntamente com Seus companheiros de exílio. Em duas carruagens especiais que O esperavam no desembarcadouro, Ele e Sua família foram levados à casa de Shamsí Big, o oficial designado pelo governo para receber seus hospedes, sendo sua residência na vizinhança da mesquita de Khiriqiy-i-Sharíf. Mais tarde foram transferidos para uma casa mais cômoda, a de Visi Páshá, nas proximidades da mesquita do Sultão Muhammad.

Com a chegada de Bahá'u'lláh a Constantinopla, a capital do Império Otomano e sede do Califado (aclamada pelos maometanos como a "Cúpula do Islã", mas estigmatizada por Ele como o sítio onde se estabelecera o "trono da tirania") foi inaugurado, pode-se dizer, o mais terrível, o mais calamitoso e, contudo, o mais sublime capítulo da história do primeiro século bahá'í. Começava agora um período em que privações indizíveis e sofrimentos sem precedentes se confundiam com os mais elevados triunfos espirituais. A estrela d'Alva do ministério de Bahá'u'lláh estava prestes a atingir seu apogeu. Os anos mais momentosos da Era Heróica de Sua Dispensação, estavam eminentes. Começara o catastrófico desenrolar dos acontecimentos, já previsto desde o ano 60 por Seu Precursor no Qayyúmu'l-Asmá.

Vinte anos antes, exatamente, nascera na cidade de Shíráz, na sombria Pérsia, a Revelação Bábí. Não obstante o cruel cativeiro a que foi submetido Seu Autor, os magníficos princípios por que se debatia foram por Ele proclamados perante uma egrégia assembléia em Tabríz, a capital do Azerbaijão. Na aldeola de Badasht, a Era que Sua Fé iniciara havia sido inaugurada destemidamente pelos heróis de Sua Causa. Havendo se iniciado em meio do desespero e agonia do Síayáh-Chál de Teerã, essa Revelação, nove anos mais tarde, súbita e misteriosamente, começara a produzir seus melhores frutos. A rápida deterioração que se havia insinuado nos destinos dessa Fé, primeiro lentamente, vindo depois acelerar-se em grau alarmante nos anos do retiro de Bahá'u'lláh no Curdistão, fora sustada de forma notável, após o Seu regresso de Sulaymáníyyíh, e substituída por um processo contrário. Depois, durante Sua permanência em Bagdá, haviam-se estabelecido, inabalavelmente, os fundamentos - ético, moral e doutrinário - dessa comunidade nascente. E, afinal, no Jardim de Ridván, nas vésperas de Seu banimento para Constantinopla, o prazo de dez anos que uma inescrutável Providência ordenara, terminou com a Declaração de Sua Missão e o aparecimento daquilo que se tornaria o núcleo da Fraternidade Universal. O que restava anda a ser feito, era a proclamação, na cidade de Adrianópolis, dessa mesma Missão aos líderes seculares e eclesiásticos de todo o mundo. Haveria ainda, em sucessivas décadas, na prisão-fortaleza de 'Akká, a mais ampla elucidação dos princípios e preceitos constitutivos da base dessa Fé, e a formulação das leis e determinações destinadas a garantir-lhe a integridade. Isso seria seguido imediatamente após a ascensão de Bahá'u'lláh, pelo estabelecimento do Convênio destinado a preservar sua unidade e consolidar sua influência e pela prodigiosa e universal ampliação de suas atividades, sob a orientação de Abdu'l-Bahá, o Centro desse Convênio. Restava, finalmente, na Fase Formativa dessa Fé, inaugurar-se sua Ordem Administrativa - a precursora de sua Idade Áurea e de sua futura glória.

Essa histórica Proclamação, feita num momento em que a Fé passava pelas agonias de uma crise de extrema violência, foi dirigida especialmente aos reis da terra, aos lideres eclesiásticos cristãos e maometanos que, em razão de seu imenso prestígio, ascendência e autoridade, tinham sobre si tremenda e indeclinável responsabilidade pelos destinos imediatos de seus súditos e adeptos.

A fase inicial dessa Proclamação, pode-se dizer, abriu em Constantinopla com a comunicação (cujo texto, infelizmente, não possuímos) dirigida por Bahá'u'lláh ao próprio Sultão Abdu'l-'Azíz, vigário do Profeta do Islã - segundo ele mesmo se designara - e governante absoluto de um poderoso império. Esse tão potente, tão augusto personagem foi o primeiro entre os soberanos do mundo a receber o Chamado Divino e o primeiro entre os monarcas orientais que teve que suportar o impacto da justiça retribuitiva de Deus. A ocasião para essa comunicação foi fornecida pelo édito infame que o Sultão promulgara, menos de quatro meses após a chegada em sua capital - édito pelo qual, subitamente e sem qualquer justificação, foram banidos, em pleno inverno e nas mais humilhantes circunstâncias, para Adrianópolis, situada na extremidade de seu império.

Essa fatídica e ignominiosa decisão tomada pelo Sultão e por seus principais ministro 'Alí Pashá e Fu'ád Páshá, se podia atribuir em grande parte às persistentes intrigas do Mushiru'd-Dawlih, Mírzá Husayn Khán, o embaixador persa ante a Sublime Porta, denunciado por Bahá'u'lláh como Seu "caluniador", que aguardava a primeira oportunidade para infligir um golpe a Ele e à Causa da qual era gora o líder declarado e reconhecido. Esse embaixador era continuamente instado por seu governo a persistir na política de incitar contra Bahá'u'lláh a hostilidade das autoridades turcas. Favoreceu-lhe nisso o fato de haver Bahá'u'lláh recusado seguir a invariável prática do hóspedes do governo - por mais elevada que fosse sua posição - a prática de visitar em pessoa, ao chegarem na capital, o Shaykhu'l-Islám, o Sadr-i-Azam e o Ministro de Assuntos Estrangeiros. Bahá'u'lláh nem sequer retribuiu as visitas que Lhe fizeram vários ministros, Kamál Páshá e um antigo legado truco ante a Corte da Pérsia. Esse embaixador não foi dissuadido pela atitude reta e independente de Bahá'u'lláh, a qual contrastava tão nitidamente com o caráter mercenário dos príncipes persas que, ao chegarem, costumavam "solicitar em todas as portas quaisquer obséquios e presentes que pudessem obter." Ressentiu-se porque Bahá'u'lláh não estava disposto a apresentar-se na Embaixada Persa ou a retribuir a visita que Lhe fez seu representante; e, sendo ajudado, em seus esforços, por seu cúmplice, Hájí Mírzá Hasan-i-Safá, a quem deu instruções para circular informes infundados a Seu respeito, ele, mediante sua influência oficial bem como seu intercurso privado com eclesiásticos, notabilidades e oficiais de governo, conseguiu fazer Bahá'u'lláh figurar como uma pessoa orgulhosa e arrogante, que não se considerava sujeito a qualquer lei, que nutria desígnios hostis a toda autoridade estabelecida, e cuja arbitrariedade precipitara as graves diferenças que haviam surgido entre Ele e o governo Persa. Nem era ele o único que se ocupava nessas nefárias maquinações. Outros, segundo Abdu'l-Bahá, "condenavam e vilipendiavam" os exilados como causa de "dano para o mundo todo", como "destruidores de tratados e convênios", como "perniciosos para todas as terras" e como "merecedores de todo castigo e punição'.

Um personagem tão importante como o altamente respeitado cunhado do Sadr-i-A'zam foi comissionado para avisar o Cativo do édito contra Ele pronunciado - um édito que mostrava uma virtual coalizão dos governos imperiais da Turquia e da Pérsia contra um adversário comum, e que, no final, trouxe tão trágicas conseqüências ao Sultanato, ao Califado e à dinastia Qajár. Por haver Bahá'u'lláh lhe recusado uma audiência, esse legado teve de se contentar com uma apresentação de suas observações pueris e seus argumentos triviais a Abdu'l-Bahá e Áqáy-i-Kalím, que foram delegados a recebe-lo, e a quem ele informou que voltaria após três dias para receber a resposta à ordem que ele fora incumbido de transmitir.

Nesse mesmo dia Bahá'u'lláh revelou uma Epístola, em tom severamente condenatório e, na manhã seguinte, a entregou, em envelope selado, a Shamsí Big, dando-lhe instruções para entrega-la nas mãos de 'Alí Páshá e dizer que Deus a enviara. "Desconheço o conteúdo daquela missiva", informou subseqüentemente Shamsí Big a Áqáy-i-Kalím, "pois assim que o Grão Vizír a perscrutara, tornou-se tão pálido como um cadáver e observou: "É como se o Rei dos Reis estivesse emitindo seu mandato a seu mais humilde rei vassalo e lhe regulando a conduta." Tão penoso foi seu estado, que me retirei, retrocedendo de sua presença." "Qual quer ação", diz-se haver declarado Bahá'u'lláh, comentando o efeito que essa Epístola produzira, "que os ministros do sultão tomarem contra Nós depois de se informarem de seu conteúdo, não pode ser considerada injustificável. Os atos por eles cometidos antes de perscruta-la, porém, nenhuma justificação podem ter."

Essa Epístola, segundo Nabíl, era consideravelmente extensa, iniciando com palavras dirigidas ao próprio soberano, censurando severamente seus ministros, expondo-lhe a imaturidade e a incompetência, e incluindo passagens dirigidas aos ministros mesmos, as quais continham um audaz desafio e austeramente os admoestaram a que se não orgulhassem de suas possessões terrenas nem buscassem nesciamente as riquezas que o tempo inexoravelmente lhes roubaria.

Na véspera de Sua partida, que sucedeu quase imediatamente após a promulgação do édito de Seu exílio, Bahá'u'lláh, em uma última e memorável entrevista com o já mencionado Hájí Mírzá Hasan-i-Safá, enviou ao embaixador persa a seguinte mensagem: "De que proveito foi para ti e para aqueles que te são iguais, trucidar, ano após ano, tantos oprimidos e lhes infligir múltiplas aflições, desde que seu número tem aumentado cem vezes, e vós vos vedes em completa perplexidade não sabendo como aliviar vossas mentes desse opressivo pensamento... Sua Causa transcende todo o qualquer plano que possais idear. Sabe isto: Fossem todos os governos da terra unir-se e de Mim tirar a vida, bem como de todos os portadores deste Nome, jamais seria extinguido este Fogo Divino. Antes, Sua Causa haverá de envolver todos os reis da terra - ainda mais, tudo o que foi criado de água e argila... Não importa qualquer coisa que ainda Nos possa sobrevir, grande será o Nosso proveito, e manifesta a perda com a qual eles haverão de ser aflitos."

Em cumprimento das ordens peremptórias emitidas para a partida imediata daqueles já duas vezes exilados, Bahá'u'lláh, Sua família e Seus companheiros - alguns em carruagens, outros montados em animais de carga, com seus pertences empilhados em carroças puxadas por bois - partiram, acompanhados por oficiais turcos, numa fria amanha de dezembro, em meio aos prantos dos amigos que eles estavam deixando atrás, para uma viagem de doze dias através de uma região gélida e varrida por ventos, até uma cidade caracterizada por Bahá'u'lláh como "o lugar em que ninguém entra, a não ser aqueles que se tenham rebelado contra a autoridade do soberano." "Eles Nos expulsaram" - é Seu próprio testemunho no Suriy-i-Múlúk - "de tua cidade (Constantinopla) em uma humilhação com a qual nenhuma humilhação na terra pode ser comparada." "Nem Minha família, nem aqueles que Me acompanharam", diz Ele ainda, "tinham as vestes necessárias para se protegerem do frio naquele tempo gelado." E ainda: "Os olhos de Nossos inimigos choraram por Nós e, além deles, os de toda pessoa discernente." "Um desterro", lamenta Nabíl, "suportado com tal humildade que a pena derrama lágrimas ao relata-lo, e a página se envergonha de ser a portadora de sua descrição." "Um frio tão intenso prevalecia naquele ano", anota o mesmo cronista, "que os nonagenários não puderam recordar igual. Em algumas regiões, tanto na Turquia como na Pérsia, animais sucumbiam por causa da sua severidade e pereciam na neve. As nascentes do Eufrates, em Na'dan-Nugrih, ficaram cobertas de gelo por alguns dias - um fenômeno sem precedentes - enquanto em Díyár-Bakr o rio permaneceu gelado por nada menos que quarenta dias." "A fim de obter água das nascentes" - conta um dos exilados de Adrianópolis - "era necessário acender um grande fogo em suas imediações e mantê-lo aceso por umas duas horas para se degelassem."

Viajando através de chuva e tempestade, algumas vezes fazendo até marchas noturnas, os fatigados viajantes, após breves paradas em Kúchik-Chakmachih, Búyúk-Chakmachih, Salvarí, Birkás e Bábá-Iskí, chegaram a seu destino, no primeiro dia de Rajáb 1280 A.H. (12 de dezembro de 1863) e foram alojados no Khán-i-'Arab, uma hospedaria de dois andares, perto da casa de 'Izzat-'Aqá. Três dias depois, Bahá'u'lláh e Sua família foram mandados para uma casa habitável somente no verão, no bairro de Murádíyyih, perto de Taqyiy-i-Mawlaví, e mais uma vez, após uma semana, tiveram que mudar-se para uma outra casa, nas cercanias de uma mesquita, no mesmo bairro. Cerca de seis meses depois, foram transladados para uma casa mais cômoda, conhecida como a casa de Amru'lláh (Casa do mandato de Deus) situada do lado norte da mesquita do Sultão Salim.

Assim termina a cena inicial de um dos mais dramáticos episódios do ministério de Bahá'u'lláh. Agora se levanta a cortina sobre aquele período que se deve admitir ser o mais turbulento e crítico do primeiro século bahá'í - período esse destinado a preceder a fase mais gloriosa desse ministério, a proclamação de Sua Mensagem ao mundo e a seus governantes.

CAPÍTULO X
A REBELIÃO DE MÍRZÁ YAHYÁ E A
PROCLAMAÇÃO DA MISSÃO DE BAHÁ'U'LLÁH
EM ADRIANÓPOLIS

Uma Fé de vinte anos de idade mal começara a recuperar-se de uma série de golpes sucessivos, quando lhe sobreveio uma crise de primeira magnitude que a abalou até as raízes. Nem o trágico martírio do Báb, nem o ignominioso atentado contra a vida do soberano, com suas conseqüências sangrentas, nem o humilhante exílio de Bahá'u'lláh para fora de Sua terra natal, nem mesmo Seu retiro de dois anos para o Curdistão - por mais devastador que fosse o resultado de tudo isso - poderia ser comparado em sua gravidade com esta primeira grande convulsão interna que se apoderou de uma comunidade recém-ressuscitada e ameaçava lhe causar uma divisão irreparável nas fileiras dos membros. Mais odiosa do que a implacável hostilidade exibida por Abu-Jahl, tio de Maomé, mais vergonhosa do que a traição a Jesus Cristo por Seu discípulo, Judas Iscariote, mais pérfida do que o comportamento dos filhos de Jacó para com José, seu irmão, mais vil do que o ato cometido por um dos filhos de Noé, mais infame até do que o crime perpetrado por Caim contra Abel - a monstruosa conduta de Mírzá Yahyá, um dos meio-irmãos de Bahá'u'lláh, nomeado pelo Báb, e o reconhecido chefe da comunidade bábí, trouxe em seu rastro um período de tribulação que exerceu sua influência no destino da Fé por nada menos que meio século. Durante essa crise suprema, a qual o próprio Bahá'u'lláh designou como Ayyám-i-Shidád (Dias de Tumulto), "o mais penoso véu rompeu-se" e "a maior separação" foi irrevogavelmente efetivada. Isso causou imensa satisfação a seus inimigos externos civis, bem como eclesiásticos, tornando-os mais audazes, facilitando-lhes a consumação de seus desígnios e provocando seu escárnio aberto. Foi motivo de perplexidade e confusão para os amigos e aderentes de Bahá'u'lláh e prejudicou seriamente o prestígio da Fé aos olhos de seus admiradores ocidentais. Vinha fermentando sempre desde os primeiros dias da estada de Bahá'u'lláh em Bagdá, foi surpresa temporariamente pelas forças criadoras com as quais Ele, embora ainda não proclamado seu chefe, reanimava uma comunidade que se desintegrava, e irrompeu, afinal, com toda sua violência nos anos que precederam imediatamente a proclamação de Sua Mensagem. Trouxe incalculável tristeza a Bahá'u'lláh, fazendo-O envelhecer visivelmente, e Lhe infligiu com suas repercussões, o mais pesado golpe por Ele sofrido em Sua vida. Foi maquinada, em todo seu percurso, pelas tortuosas intrigas e incessantes tramas daquele mesmo diabólico Siyyid Muhammad, o vil murmurador que, desatendendo o conselho de Bahá'u'lláh, havia insistido em acompanha-Lo a Constantinopla e Adrianópolis, e agora redobrava os esforços com ininterrupta vigilância, para leva-la a um clímax.

Desde o regresso de Bahá'u'lláh de Sulaymáníyyih, Mírzá Yahyá passara a manter-se em ignominiosa reclusão, encerrando-se em sua casa ou foragindo-se, quando o perigo era mais ameaçador, em lugares como Híllih e Basra, que lhe ofereciam segurança. Esta última cidade ele alcançara disfarçado em judeu de Bagdá, tornando-se ali mercador de sapatos. Tão grande era o seu terror, que conta-se haver ele dito certa ocasião: "Considero infiel quem pretenda haver-me visto ou ouvido minha voz". Ao ser informado sobre a partida iminente de Bahá'u'lláh para Constantinopla, escondeu-se a princípio no jardim de Hurayda, nas vizinhanças de Bagdá, meditando, enquanto isso, sobre a conveniência de fugir para a Abissímia, Índia ou qualquer outro país. Recusando-se a atender o conselho de Bahá'u'lláh no sentido de que fosse para a Pérsia e aí disseminasse os trabalhos literários do Báb, mandou um certo Háji Muhammad Káxim, que muito se lhe assemelhava, ao palácio do governo para conseguir-lhe, sob o nome de Mírzá 'Alíy-i-Kirmansháhí, um passaporte, e assim partiu de Bagdá, deixando atrás os escritos do Báb. Disfarçado e em companhia de um bábí árabe chamado Záhir, rumou para Mosul, onde se juntou aos exilados que se encaminhavam para Constantinopla.

Esse arqui-violador do Convênio do Báb, Mírzá Yahyá, foi testemunha constante do apego a Bahá'u'lláh, cada vez mais profundo, que os desterrados demonstravam, e de sua admirável veneração por Ele, e percebia plenamente que grandes alturas foram atingidas pela popularidade de seu Irmão em Bagdá, no decurso de Sua viagem a Constantinopla e, mais tarde, através de Sua associação com as notabilidades e os governadores de Adrianópolis; enraivecia-se diante das múltiplas evidências da coragem, da dignidade e da independência que esse Irmão mostrara em Seu trato com as autoridades na capital, e também se encolerizava por causa das numerosas Epístolas incessantemente reveladas pelo Autor de uma recém-estabelecida Dispensação. Ele deixou-se enganar pelas perspectivas sedutoras de uma inquestionável liderança que lhe estava sendo oferecida por Siyyid Muhammad, o Anticristo da Revelação Bahá'í - assim com Muhammad Sháh fora encaminhado para o mal pelo Anticristo da Revelação Bábí, Hájí Mírzá Áqásí. Recusando ser admoestado por proeminentes membros da comunidade que, por escrito, lhe aconselhavam que exercesse sabedoria e moderação; esquecido da bondade de Bahá'u'lláh e da orientação que por Ele lhe fora dada, pois Bahá'u'lláh, sendo treze anos mais velho, lhe vigiara a adolescência e a juventude; tornado mais audaz por causa das indulgentes olhos do seu Irmão - que havia, em tantas ocasiões, estendido um véu sobre seus multíplices crimes e torpezas - esse arqui-violador do Convênio do Báb, incitado por seu sempre-crescente ciúme e impelido por seu apaixonado amor por liderança, foi levado a perpetrar atos tais que desafiavam tanto o encobrimento, como a tolerância.

Irremediavelmente corrompido por sua constante associação com Siyyid Muhammad, aquela personificação viva da perversidade, cupidez e falsidade, já havia ele - na ausência de Bahá'u'lláh de Bagdá e mesmo após Seu regresso do Sulaymáníyyih - maculado os anais da Fé com atos de indelével infâmia. A corrupção do texto dos escritos do Báb por Mírzá Yahyá, em inúmeras ocasiões; a blasfêmia passagem por ele introduzida na fórmula do adham, na qual identificou a si próprio com a Deidade; sua interpolação nesses escritos, de referência a uma sucessão na qual nomeava a si próprio e seus descendentes como herdeiros do Báb; a vacilação e a apatia por ele demonstrados ao ser informado da morte trágica que seu mestre sofrera; o ato de condenar à morte todos os Espelhos da Dispensação Bábí, embora fosse ele mesmo um desses Espelhos; o ato nefando de mandar assassinar Dayyán, a quem ele temia e invejava; sua ação hedionda - durante o tempo em que Bahá'u'lláh estava ausente de Bagdá - em efetivar o assassinato de Mírzá 'Alí-Aèbar, primo do Báb; e, mais nefando de tudo, durante esse mesmo período, sua indizivelmente abominável violação de honra do próprio Báb - todos os esse atos, assim como atesta Áqáy-i-Kalím e relata Nabíl em sua Narrativa, seriam vistos em uma luz ainda mais lúgubre por causa de outros atos, por ele perpetrados, os quais haveriam de determinar, irremediavelmente sua perdição.

Desesperados propósitos de envenenar Bahá'u'lláh e Seus companheiros e assim reaver sua própria falida liderança, começaram, aproximadamente um ano após sua chegada a Adrianópolis, a agitar sua imaginação. Bem inteirado da erudição de seu meio-irmão, Áqáy-i-Kalim, em assuntos relativos à medicina, começou, sob vários pretextos, a inquiri-lo sobre o efeito de certas ervas e venenos, passando então, contrariamente ao seu costume, a convidar Bahá'u'lláh para ir a sua casa, onde, certo dia, tendo misturado em Seu chá uma substância que ele próprio preparara, conseguiu envenena-Lo o bastante para provocar séria enfermidade que durou um mês inteiro, acompanhada de fortes dores e febre alta, e cuja conseqüência foi, para Bahá'u'lláh, ficar com uma das mãos trêmula para o resto da vida. Era tão grave Seu estado que um médico estrangeiro, de nome Shíshmán, foi chamado para atende-Lo. Tanto o médico se atemorizou ao ver Sua cor lívida que julgava não haver esperança para Seu caso e, depois de se prostrar a Seus pés, retirou-se de Sua presença, sem prescrever nenhum remédio. Poucos dias mais tarde, esse médico adoeceu e morreu. Antes de sua morte Bahá'u'lláh havia dado a entender que o doutor Shíshmán sacrificara por Ele sua vida. Dissera o doutor a Mírzá Áqá Ján, a quem Bahá'u'lláh mandara visitar, que Deus havia atendido às suas orações e que, após sua morte, deveria ser chamado em seu lugar, sempre que fosse necessário, um certo Dr. Chúpán, que ele sabia ser de confiança.

Em outra ocasião, esse mesmo Mírzá Yahyá - segundo o testemunho de uma de suas esposas que temporariamente o abandonara e que revelou os detalhes do ato que já mencionamos - havia envenenado o poço que fornecia água para a família e os companheiros de Bahá'u'lláh e, em conseqüência disso, os desterrados manifestaram estranhos sintomas de doença. A um dos companheiros, Ustád Muhammad-'Aliy-i-Salmání, o barbeiro, ele - depois de lhe haver prodigalizado sinais de favor - chegou mesmo ao ponto, gradativamente e com a maior circunspeção, de lhe revelar seu desejo de que, em alguma ocasião propícia, quando estivesse atendendo a Bahá'u'lláh no banho, O assassinasse. Tão indignado ficou Ustád Muhammad-'Alí, disse Áqáy-i-Kalim, ao relatar esse episódio a Nabíl em Adrianópolis, "quando foi informado dessa proposta, que sentiu um forte desejo de matar Mírzá Yahyá no mesmo instante, e assim o teria feito, se não fosse seu receio de desagradar a Bahá'u'lláh. Fui eu, por acaso, a primeira pessoa que ele encontrou quando, chorando, saiu do banho... Consegui, afinal, após muita persuasão, induzi-lo a voltar ao banho e completar sua tarefa inacabada." Embora, subseqüentemente, Bahá'u'lláh lhe ordenasse que a ninguém divulgasse essa ocorrência, o barbeiro não pôde guardar silêncio e revelou o segredo, assim fazendo com que grande consternação se apoderasse da comunidade: "Quando o segredo nutrido em seu (de Mírzá Yahyá) peito foi revelado por Deus", afirma o próprio Bahá'u'lláh, "ele negou ter tido tal intenção e a imputou a esse mesmo servo (Ustád Muhammad-'Alí)."

Havia chegado agora o momento quando Aquele que, em ocasião tão recente, revelara - verbalmente, bem como em numerosas Epístolas - as implicações das pretensões por Ele avançadas, comunicasse formalmente ao nomeado do Báb o caráter de Sua Missão. Mírzá Áqá Ján foi incumbido, pois, de levar a Mírzá Yahyá o recém-revelado Súriy-i-Amr, o qual afirmava inequivocamente essas pretensões, de ler a ele em voz alta o conteúdo e lhe exigir uma resposta clara e concludente. O pedido de Mírzá Yahyá por um dia de prazo para meditar a resposta, foi concedido. A única resposta que veio, entretanto, foi uma contra-declaração em que ele especificava a hora e o minuto em que recebera uma Revelação independente, a qual requeria que a ele se submetessem, incondicionalmente, os povos da terra, tanto do Oriente como do Ocidente.

Uma asserção tão presunçosa, que tão pérfido adversário fez ao mensageiro ao Portador de uma Revelação tão momentosa, foi sinal para a ruptura aberta e final entre Bahá'u'lláh e Mírzá Yahyá - ruptura essa que marca uma das datas mais negras da história bahá'í. Desejando mitigar a animosidade feroz que ardia no peito de Seus inimigos e assegurar a cada um dos exilados completa liberdade para escolher entre Ele e eles, Bahá'u'lláh retirou-se com Sua família para a cada de Ridá Big (Shavval 22, 1282 A.H.) alugada por Sua ordem, e, durante dois meses, recusou associar-se com qualquer um, fosse amigo ou estranho, inclusive Seus próprios companheiros. Deu instruções a Áqáy-i-Kalím para dividir toda a mobília, roupa de cama, vestimentas e utensílios que havia em Sua casa e mandar a metade para a casa de Mírzá Yahyá; para lhe entregar certas relíquias desde muito por ele cobiçadas, como os selos, anéis e manuscritos de próprio punho do Báb, e se certificar de que ele recebesse toda a sua parte do subsídio fixado pelo governo para a manutenção dos exilados e de suas famílias. Incumbira Áqáy-i-Kalím, ainda mais, de mandar qualquer um dos companheiros que ele mesmo escolhesse, fazer as comprar de Mírzá Yahyá durante algumas horas do dia, e de lhe assegurar que daí em diante qualquer coisa recebida da Pérsia em seu nome seria entregue em suas próprias mãos.

"Aquele dia", diz-se haver Áqáy-i-Kalím informado a Nabíl, "testemunhou uma comoção sumamente grande. Todos os companheiros lamentaram sua separação da Abençoada Beleza." "Aqueles dias" - é o testemunho escrito de um desses companheiros - "foram caracterizados por tumulto e confusão. Estávamos extremamente perplexos e com muito medo de sermos privados permanentemente da graça de Sua presença."

Esse pesar e essa perplexidade, no entanto, estavam destinados a ser de pouca duração. As calúnias com as quais tanto Mírzá Yahyá como Siyyid Muhammad enchiam agora suas cartas, que eles disseminaram na Pérsia e no Iraque, como também as petições redigidas em linguagem obsequiosa - as quais o primeiro deles dirigira a Kurshíd Páshá, governador de Adrianópolis e a seu ajudante 'Aziz Páshá - impeliram Bahá'u'lláh a sair de Seu retiro. Ele, pouco depois, foi informado de que esse mesmo irmão havia despachado uma de suas esposas à casa do governo para queixar-se que seu marido fora fraudulentamente privado de seus direitos e que seus filhos estavam a ponto de morrer de fome - acusação essa que se divulgou em toda parte e que, chegando a Constantinopla, se tornou, com profunda angústia para Bahá'u'lláh, o tema de excitada discussão e comentários prejudiciais em círculos que anteriormente foram muito bem impressionados pelo alto padrão que sua conduta nobre e dignificada estabelecera nessa cidade, Siyyid Muhammad viajou à capital, solicitou ao embaixador persa, o Mushirú'd-Dawlih, que lhe assinasse e a Mírzá Yahyá também, um estipêndio, acusou Bahá'u'lláh de haver enviado um agente para assassinar Nasiri'd-Din-Sháh, e não poupar esforços para amontoar abuso e calúnia sobre Aquele que, desde tanto tempo e com tão grande paciência, o havia tolerado, suportando em silêncio as atrocidades por ele perpetradas.

Após haver passado aproximadamente um ano na casa de Ridá Big, Bahá'u'lláh regressou à casa que ocupara antes de se retirar de Seus companheiros, e daí, depois de três meses, transferir a residência para a casa de 'Izzat Áqá, na qual continuou a morar até Sua partida de Adrianópolis. Foi nessa casa, no mês de Jamádíyu'l-Avval 1284 A.H. (setembro de 1867) que ocorreu algo muito significativo, completamente desconcertante para Mírzá Yahyá e seus adeptos - acontecimento esse que proclamou tanto aos amigos como aos inimigos o triunfo de Bahá'u'lláh sobre eles ganhara. Um certo Mír Muhammad, um bábí de Shíráz ressentindo-se profundamente tanto das pretensões como da reclusão covarde de Mírzá Yahyá, conseguiu forçar Siyyid Muhammad a induzi-lo a encontrar-se com Bahá'u'lláh face a face, para que se pudesse discriminar publicamente entre o verdadeiro e o falso. Supondo, tolamente, que seu ilustre Irmão jamais aceitaria tal proposta, Mírzá Yahyá designou a mesquita de Sultão Salim como o lugar para seu encontro. Logo que foi informado desse acordo, Bahá'u'lláh partiu, a pé, no calor do meio-dia e acompanhado por esse mesmo Mír Muhammad, para a mesquita que já mencionamos, situada num remoto bairro da cidade. Enquanto andava através das ruas e mercados, Ele recitava versículos, em uma voz e de uma maneira que muito espantaram aqueles que O viam e escutavam.

"Ó Maomé!" - são algumas das palavras por Ele proferidas nessa memorável ocasião, assim como Ele Próprio testifica em uma Epístola, "Aquele que é o Espírito tem, verdadeiramente, saído de Sua morada, e com Ele têm saído as almas dos eleitos de Deus e as realidades de Seus Mensageiros. Eis, então, acima de minha cabeça, os habitantes dos reinos no alto, e em Minha mão todos os testemunhos dos Profetas. Dize: Se todos os sacerdotes, todos os sábios, todos os reis e governantes da terra, se unissem, Eu, na verdade absoluta , Me confrontaria com eles e proclamaria os versículos de Deus, o Soberano, o Todo-Poderoso, o Onisciente. Sou Aquele que a ninguém teme, embora todos os que estão no céu e todos os que estão na terra contra Mim se levantem... É esta Minha mão que Deus há tornado branca, para que todos os mundos a vejam. É esta Minha vara; fôssemos Nós lançar por terra, tragaria, em verdade, todas as coisas criadas." Mír Muhammad, que fora mandado na frente para anunciar a vinda de Bahá'u'lláh, voltou logo e Lhe informou que aquele que desafiara Sua autoridade desejava, devido a circunstancias imprevistas, adiar a entrevista por um ou dois dias. Ao regressar à Sua casa, Bahá'u'lláh revelou uma Epístola na qual relatou o ocorrido, marcou uma hora para a entrevista adiada, selou a Epístola com Seu sinete, entregou-a a Nabíl e lhe deu instruções para leva-la a um dos novos crentes, Mullá Muhammad-i-Tabrízi, para a informação de Siyyid Muhammad, pois ele costumava freqüentar a loja desse crente. Foi combinado que se exigisse de Siyyid Muhammad, antes de lhe entregar essa Epístola, uma carta selada pela qual Mírzá Yahyá se comprometia - caso deixasse de aparecer no lugar determinado para o encontro - a afirmar por escrito serem falsas suas pretensões. Siyyid Muhammad prometeu que traria no dia seguinte o documento exigido e, embora Nabíl por três dias sucessivos esperasse a resposta nessa loja, nem o Siyyid apareceu, nem tal carta foi por ele mandada. Nabíl, vinte e três anos depois, relatando, em sua crônica, esse episódio histórico afirma ter ainda em seu poder essa Epístola que nunca foi entregue, "tão fresca como o dia em que o Maior Ramo a escrevera e o selo da Antiga Beleza a havia selado e adornado" - um testemunho tangível e irrefutável da ascendência estabelecida por Bahá'u'lláh sobre um adversário derrotado.

A reação de Bahá'u'lláh a esse extremamente penoso episódio em Seu ministério, foi caracterizada, como já observamos por aguda angústia. "Aquele que durante meses e anos", lamenta Ele, "Eu criei com a mão da benevolência, se tem levantado para Me tirar a vida." "As crueldades que Me foram infligidas por Meus opressores" escreveu Ele, com referência a esses inimigos pérfidos, "Me têm curvado o corpo e tornado branco o cabelo. Fosses tu te apresentar ante Meu trono, não mais reconhecerias a Antiga Beleza, pois se alterou a frescura deste semblante, e seu brilho se esvaeceu, por causa da opressão por parte dos infiéis." "Por Deus!" exclama Ele, "Não resta em Meu corpo nenhum ponto sequer, que os dardos de tuas maquinações não tenham tocado." E ainda: "Tu perpetraste contra teu Irmão o que nenhum homem perpetrou contra outro." "O que tem procedido de tua pena", Ele, além disso, afirmou, "fez que os Semblantes de glória se prostrassem no pó, irrompeu o Véu da Grandeza no Paraíso Sublime e lacerou os corações daqueles favorecidos que se estabeleceram nos mais altos assentos." E no entanto, no Kitáb-i-Aqdas, um Senhor clemente assegura a esse mesmo irmão, essa "fonte de perversão de cuja própria alma haviam surgido os ventos da paixão e sobre ele soprado" : "não temas por causa de teus atos", o manda "voltar a Deus, humilde, contrito e submisso" e afirma que "Ele te livrará de teus pecados" e que "teu Senhor é o Clemente, o Poderoso o de toda misericórdia."

A mando d'Aquele que é o Manancial da Maior Justiça e através de Seu poder, fora expulso da comunidade do Maior Nome, o "Maior Nome, o "Maior Ídolo", estando ele confundido, abominado e quebrado. A infante Fé de Deus, purificada dessa poluição, livrada dessa horrenda possessão, poderia agora ir adiante e, a despeito da turbulência que a havia convulsionado, demonstrar sua capacidade para travar outras batalhas, atingir mais sublimes alturas e ganhar vitórias mais grandiosas.

Uma brecha temporária fora feita, inegavelmente, nas fileiras de seus defensores. Sua glória havia sido eclipsada, e seus anais foram para sempre maculados. Seu nome, entretanto, não podia ser obliterado, seu espírito longe estava de ser quebrado, nem pôde esse cisma assim chamado lhe romper a textura. O Convênio do Báb, ao qual já se fez referência, com suas verdades mutáveis, suas profecias incontrovertíveis e suas repetidas admoestações, era o guarda que vigiava essa Fé, assegurando-lhe a integridade, demonstrando sua incorruptibilidade e perpetuando sua influência.

Embora Ele, pessoalmente, se achasse acabrunhado de tristeza e sentisse ainda os efeitos do atentado contra Sua vida, e embora estivesse bem ciente da provável iminência de um novo exílio - apesar de tudo isso, intrépido diante das desgraças que Sua Causa havia suportado e dos perigos que a espreitavam, Bahá'u'lláh, com inigualável poder, antes mesmo que o prazo da provação estivesse expirado, levantou-se para proclamar a Missão que Lhe fora confiada àqueles que, no Oriente e no Ocidente, empunhavam as rédeas da suprema autoridade temporal. A estrela d'Alva de Sua Revelação estava destinada, mediante esse Proclamação, a brilhar em sua glória meridiana, e Sua Fé viria manifestar a plenitude de seu divino poder.

Seguiu-se um período de prodigiosa atividade, o qual, por sua importância, eclipsou os anos primaveris do Ministério de Bahá'u'lláh. "Dia e noite", escreve uma testemunha ocular, "manavam, copiosamente, os divinos versículos; era impossível registra-los, a tal a sua abundância. Mírzá Áqá Ján escrevia-os à proporção que eram ditados, enquanto o Maior Ramo dedicava todo Seu tempo em transcrevê-los. Não havia um momento sequer para descanso."

"Vários secretários", atestou Nabíl, ocupavam-se dia e noite e, entretanto, não puderam desempenhar plenamente a tarefa. Entre eles figurava Mírzá Báqir-i-Shírází. ...Ele, por si só, transcrevia nada menos que dois mil versículos cada dia. Durante seis ou sete meses ele trabalhou. Cada mês o equivalente de vários volumes era por ele transcrito e enviado à Pérsia. Ele deixou como lembrança para Mírzá Áqá Ján cerca de vinte volumes em sua fina caligrafia. Escreveu o próprio Bahá'u'lláh, referindo-se aos versículos por Ele revelados: "Tais são as emanações... das nuvens da Generosidade Divina que, dentro do espaço de uma hora, o equivalente de mil versículos é revelado." "Tão grande é a graça concedida neste dia que, se fosse encontrado um amanuense capaz de transcreve-lo, o equivalente do Bayán Persa, se faria descer, em um só dia e noite, do céu da santidade Divina." "Deus é Minha Testemunha", afirmou Ele, em outra instância, "Naqueles dias tem sido revelado o equivalente de tudo o que se fez descer aos Profetas de outrora. O que já foi revelado nesta terra (Adrianópolis)", declarou Ele, além disso, referindo-se à abundância de Seus escritos, "secretários só incapazes de transcrever. A maior parte, pois, permaneceu sem ser transcrita."

Já no próprio meio dessa penosa, e mesmo antes de ser atingido o clímax, manavam da pena de Bahá'u'lláh inúmeras Epístolas, nas quais as implicações de Sua pretensões recém-afirmadas foram plenamente expostas. A Suriy-i-Amr, a Lawh-i-Nuqtih, a Lawh-i-Ahmad, a Suriy-i-Hájj, a Lawhu'r-Ruh, a Lawhu'r-Ridván, a Lawhu't-Tugá figuravam entre as Epístolas que Sua pena já assentara quando Ele transferiu Sua residência para a casa de 'Izzat Áqá. Quase imediatamente depois de se haver efetivado a "Máxima Separação", foram reveladas as mais imponentes Epístolas relacionadas com Sua estava em Adrianópolis. A Súriy-i-Mulúk, a mais momentosa Epístola (Sura dos Reis) revelada por Bahá'u'lláh, na qual Ele pela primeira vez dirige Suas palavras coletivamente à inteira companhia dos monarcas do Oriente e do Ocidente, e na qual se dirige separadamente ao Sultão da Turquia e aos seus ministros, aos reis da cristandade, aos embaixadores da França e da Pérsia, acreditados ante a Sublime Porte, aos líderes eclesiásticos muçulmanos em Constantinopla, a seus sábios e seus habitantes, ao povo da Pérsia e aos filósofos do mundo; o Kitáb-i-Badí, Sua apologia, escrita para refutar as acusações contra Ele feitas por Mírzá Mihdí-Rashtí, correspondente ao Kitáb-i-Íqán, o qual fora revelado em defesa da Revelação Bábí; as Munájátháy-i-Síyán (Orações para o Jejum), escritas em antecipação ao Livro de Suas Leis; a primeira Epístola a Napoleão III, na qual se dirige ao Imperador da França e põe à prova a sinceridade de suas profissões; a Lawh-i-Sultán, Sua detalhada Epístola a Nasiri'd-Din Shá, na qual Ele expõe os objetivos, propósitos e princípios de Sua Fé e demonstra a validade de Sua Missão; a Suriy-i-Ra'ís, começada na aldeia de Kashánih, em Sua viagem a Gallipoli e completada, pouco depois, em Gyáwur-Kyuy - não somente podem estas ser consideradas as mais notáveis entre as inúmeras Epístolas reveladas em Adrianópolis, como também ocupam uma posição proeminente entre todos os escritos do Autor da Revelação Bahá'í.

Em Sua Mensagem aos potentados do mundo, Bahá'u'lláh, no Súriy-i-Mulúk, desvela o caráter de Sua Missão, exorta-os a aceitar Sua Mensagem; assegura a validade da Revelação do Báb; reprova-os pela indiferença à Sua Causa; manda que sejam justos e vigilantes, que ajustem pacificamente, entre si, as questões existentes e reduzam seus armamentos; estende-se sobre Suas aflições; encomenda os pobres a seu cuidado; previne-os de que o "castigo Divino" "acossá-los-á" "por todos os lados" se se recusarem a atender a Seus conselhos, e profetiza Seu "triunfo na face da terra", embora não haja um só rei que Lhe dê ouvidos.

Aos reis do mundo cristão, mais especificamente, nessa mesma Epístola, Bahá'u'lláh censura por não terem "acolhido" nem "se aproximado" d'Aquele que é o "Espírito da Verdade", e por terem persistido em "divertir-se" com seus "passatempos e fantasias", e declara aos mesmos que "serão chamados a prestar contas" por seus atos, "na presença d'Aquele que um dia reunirá toda a criação."

Ele convida o sultão Abdu'l-Azíz a "ouvir com atenção as palavras... d'Aquele que infalivelmente trilha o Caminho Reto"; exorta-o a tratar em pessoa os assuntos de seu povo e a não depositar confiança em ministros indignos; aconselha-o a não confiar em seus tesouros e a não "ultrapassar os limites da moderação", mas, sim, a tratar seus súditos com "infalível justiça", e, finalmente fala-lhe da pesada carga de Suas próprias aflições. Nessa mesma Epístola Ele protesta Sua inocência e lealdade ao Sultão e aos ministros; descreve as circunstâncias de Seu banimento da capital; e promete-lhe preces a Deus em seu favor.

Além disso, conforme se verifica pelo Súriy-i-Rá'ís, Bahá'u'lláh, enquanto em Galípoli, transmitiu a esse mesmo sultão uma mensagem verbal, por intermédio de um oficial turco, chamado 'Umar, solicitando do soberano uma entrevista de dez minutos, "de modo que ele pudesse exigir o que considerasse ser testemunho suficiente e prova da veracidade d'Aquele que é a Verdade", acrescentando que "se Deus lhe concedesse a satisfação dessa exigência, ele deveria libertar os oprimidos e deixá-los em paz."

A Napoleão III, Bahá'u'lláh dirigiu uma Epístola especial que foi encaminhada ao Imperador por intermédio de um dos ministros franceses, na qual Ele se estende sobre os sofrimentos suportados por Si Mesmo e por Seus adeptos; proclama a inocência destes; lembra-o de suas duas declarações a favor dos oprimidos e fracos; e, desejando pôr à prova a sinceridade de suas asserções, implora-lhe que "estenda a situação de quantos têm sido oprimidos", "estenda sua proteção aos fracos" e dirija a Ele e a Seus companheiros de infortúnio "um olhar misericordioso."

A Násiri'd-Dín xá, Ele dirigiu uma epístola, a mais extensa dentre todas as que mandou aos soberanos, na qual narra a inigualável crueza dos dissabores que O afligiram; recorda o reconhecimento de Sua inocência por parte do soberano às vésperas de Sua partida para o Iraque; roga-lhe que governe com justiça; descreve o chamado que Deus Lhe dirigira para que s levantasse e proclamasse Sua Mensagem; garante-lhe o desinteresse pessoal de Seus conselhos; proclama, Sua crença na unidade de Deus, e nos Seus Profetas; transmite diversas preces em favor do xá; justifica Sua própria conduta no Iraque; acentua a benéfica influência de Seus ensinamentos e põe especial ênfase em Sua condenação a toda sorte de violência e perversidade.

Além disso, Bahá'u'lláh, nessa mesma Epístola, demonstra a validade de Sua Missão; expressa o desejo de ser "levado perante os teólogos da época, e de dar provas e testemunhos na presença de Sua Majestade", o que estabeleceria a verdade de Sua Causa; denuncia a perversidade dos líderes religiosos em Seus próprios dias, tal como a que se verificara nos dias de Jesus Cristo e de Maomé; profetiza que Seus sofrimentos serão sucedidos pelas "emanações de uma suprema misericórdia" e por uma "superabundante prosperidade"; traça um paralelo entre as aflições que pesaram sobre Sua família e as suportadas pelos parentes do Profeta Maomé; alonga-se sobre a falibilidade dos empenhos humanos; descreve a cidade para a qual se achava prestes a ser banido; prediz a futura humilhação dos ulemás, e conclui com ainda outra manifestação de esperança de que Deus ajude o soberano a "auxiliar Sua Fé e voltar-se à Sua Justiça."

A Alí Páshá o Grão-Vizir, Bahá'u'lláh dirigiu o Súriy-i-Rá'ís. Neste Ele o convida a "a atender à voz do Senhor"; declara que nem seus "grunhidos" nem os "latidos" daqueles que o cercam, nem "os exércitos do mundo" poderão impedir o Todo-Poderoso de executar Seu desígnio; acusa-o de ter perpetrado aquilo que causara "a lamentação do Apostolo de Deus no mais sublime Paraíso", e de ter conspirado com o embaixador persa, no propósito de fazer-Lhe mal; prevê "o manifesto fracasso" em que ele bem cedo se encontrará; exalta o Dia de Sua própria Revelação; prediz que esta Revelação "envolverá, muito breve, a terra e todos que nela habitam", e que "a Terra do Mistério (Adrianópolis) e o que esteja junto dela... escapará das mãos do Rei; verificar-se-á excitação; a voz da lamentação se fará ouvir, e as evidências de maldade se patentearão por toda parte"; identifica essa mesma Revelação com as Revelações de Moises e Jesus; lembra a "arrogância" do imperador persa nos dias de Maomé, a "transgressão" do Faraó nos dias de Moisés, e a "impiedade" de Nimrod nos dias de Abraão, e proclama o Seu propósito de "redimir o mundo, unindo todos os seus povos."

Em Sua obra, Súriy-i-Múlúk, Bahá'u'lláh censura a conduta dos ministros do Sultão, contestando em várias passagens a linha de seus princípios; prediz que serão punidos por seus atos, denuncia seu orgulho e sua falta de espírito de justiça, assegura Sua própria integridade e Seu desapego às vaidades do mundo, e proclama Sua inocência.

Ao Embaixador francês acreditando junto à Sublime Porta, Bahá'u'lláh, ainda nesse mesmo Súriy, acusa-o por se ter mancomunado com o Embaixador persa contra Ele; lembra-o dos conselhos de Jesus Cristo contidos no Evangelho de São João; adverte-o de que será chamado à responder pelas coisas forjadas por suas mãos e aconselha-o, bem como àqueles de conduta igual, a não mais fazer com outros o que fez com Ele.

Ao Embaixador persa em Constantinopla, nessa mesma Epístola, Bahá'u'lláh dedica longas passagens, nas quais denuncia-lhe os erros e calúnias, os atos de injustiça e os dos compatriotas; garante-lhe não alimentar qualquer animosidade contra sua pessoa; declara que, pudesse ele avaliar a enormidade de suas más ações, lamentaria durante o resto de sua vida; afirma que ele persistirá em sua irresponsabilidade até o fim de seus dias; justifica Sua própria conduta em Teerã e no Iraque, e declara-se testemunha da corrupção do ministro persa em Bagdá e de seu conluio com esse ministro.

À totalidade dos próceres religiosos do Islã sunita em Constantinopla, dirige Bahá'u'lláh uma mensagem especifica, no mesmo Súriy-Múlúk, na qual os denuncia como irresponsáveis e espiritualmente mortos; reprova-os por seu orgulho e por se haverem esquivado de Sua presença; revela-lhes a plena glória e importância de Sua Missão; declara-lhes que, fossem ainda vivos seus líderes, a Seu redor circulariam nomes de "adoradores de lideranças" e amantes do mando, e afirma que Deus nada encontrará de aceitável neles, a menos que a Seu ver, "renasçam."

Aos sábios da cidade de Constantinopla e aos filósofos do mundo, Ele dedica as passagens finais do Súriy-i-Múlúk, nas quais os adverte que não se mostrem orgulhosos perante Deus; revela-lhes a essência da verdadeira sabedoria; acentua a importância da fé e da conduta reta; censura-os por não terem recorrido à Sua fonte de esclarecimentos, e aconselha-os que não tentem "ultrapassar os limites determinados por Deus" e não se deixem levar pelos "caminhos e hábitos dos homens."

Aos habitantes de Constantinopla, ainda nessa mesma Epístola, declara que "a ninguém teme senão a Deus", que "nada fala senão sob a determinação de Deus", que nada segue salvo a verdade divina, que reputa os administradores e anciãos da cidade como "um grupo de crianças e divertir-se com barro", e que não encontra ninguém de natureza suficiente para alcançar as verdades que Deus Lhe transmitiu. Concita-os a observarem carinhosamente os preceitos de Deus; admoesta-lhes que não se tornem orgulhosos diante de Deus e Seus bem-amados; relembra os infortúnios e exalta as virtudes do Imame Husayn; roga aos Céus que Lhe seja dado passar por idênticos padecimentos; prediz que muito breve Deus fará surgir um povo que contará Suas desventuras e exigirá de Seus opressores a restituição de Seus direitos, e aconselha-os a ouvir Suas palavras e a voltarem-se para Deus em sinal de arrependimento.

Finalmente, dirigindo-se ao povo da Pérsia, nessa mesma Epístola, afirma-lhe que, se O entregar à morte, Deus seguramente fará surgir Alguém em Seu lugar, e assevera que o Todo-Poderoso "aperfeiçoará Sua luz", embora esse povo, no fundo do coração, a deteste.

Em tão crítico período, uma proclamação tão importante pelo Portador de tão sublime Mensagem - as reis da terra, muçulmanos e cristãos igualmente, a ministros e embaixadores, aos chefes eclesiásticos do islã sunita, aos sábios e habitantes de Constantinopla - sede tanto do Sultanato como do Califado - aos filósofos do mundo e ao povo da Pérsia - não deve ser considerada o único acontecimento notável relacionado com a estada de Bahá'u'lláh em Adrianópolis. Devem ser anotados nestas páginas outros desenvolvimentos e eventos de grande significado, embora um pouco menor, se desejamos avaliar com justiça a importância desta fase agitada, a mais momentosa do ministério de Bahá'u'lláh.

Foi nesse período, e como direta conseqüência da rebelião e d espantosa queda de Mírzá Yahyá, que certos discípulos de Bahá'u'lláh (que bem podem ser considerados entre os "tesouros" que Deus Lhe prometeu quando se encontrava no Síyál-Chál de Teerã, curvado sob o peso das correntes) - entre os quais se incluíam alguns sobreviventes da luta de Tabarsí, uma das Letras dos Viventes e o erudito Mírzá Ahmad-i-Azghandí - se levantaram para defender a Fé recém-nascida, para refutar, em numerosas e detalhadas apologias, assim como fizera seu Mestre no Kitáb-i-Badí', os argumentos dos adversários, e expor suas odiosas ações. Foi nesse período que os limites da Fé foram ampliados, quando seu estandarte foi implantado permanentemente no Cáucaso, pela mão de Mullá Abi-Tálib e por outros convertidos por Nabíl, quando se inaugurou o primeiro centro egípcio, na época em que Siyyid Husayn-i-Káshání e Hájí Baqir-i-Kasgshání estabeleceram residência nesse país e quando aos países que já foram iluminados pelos primeiros raios da Revelação de Deus e já lhe sentiram o ardor - Iraque, Turquia e Pérsia - se acrescentou a Síria. Foi nesse período que a saudação "Alláh-u-Abhá" veio a substituir a antiga saudação de "Alláh-u-Akbar", e foi adotada simultaneamente na Pérsia e em Adrianópolis, sendo Mullá Muhammad-i-Fúrúghí, um dos defensores do Forte de Shaykh Tabarsí, quem primeiro a usou na Pérsia, por sugestão de Nabíl. Foi nesse período que o uso da frase "o povo do Bayán", referindo-se aos seguidores de Mírzá Yahyá, foi abandonado, sendo por ela substituída a frase "o povo do Bahá". Foi durante esses dias que Nabíl - recentemente honrado com o título de Nabíl-i-A'zam, em uma Epístola que lhe foi dirigida especificamente, na qual se ordenou "entregar a Mensagem" de seu Senhor "ao Leste e ao Oeste", - se levantou, a despeito de perseguições intermitentes, para romper "o mais penoso véu", implantar o amor de um mestre adorado nos corações de Seus conterrâneos, e para defender a Causa proclamada por seu Bem-Amado em tão trágicas condições. Foi durante esses mesmos dias que Bahá'u'lláh deu instruções a esse mesmo Nabíl para que, quando ele visitasse a Casa do Báb em Shíráz e a mais Grandiosa Casa em Bagdá, recitasse em Seu nome as duas recém-reveladas Epístolas da Peregrinação e executasse, em Seu lugar, os rituais nelas prescritas - ato este que assinala o início de um dos mais sagrados cerimoniais, que, em época posterior, seriam formalmente estabelecidos no Kitáb-i-Aqdas. Foi durante esse período que as "Orações do Jejum" foram reveladas por Bahá'u'lláh, antecipando-se a Lei que esse mesmo Livro, dentro em breve, haveria de promulgar. Foi também durante os dias do exílio de Bahá'u'lláh a Adrianópolis, que Ele dirigiu uma Epístola a Mullá 'Alí-Akbar-i-Shahmírzádí e Jamál-i-Burújirdí, dois de Seus bem conhecidos seguidores de Teerã, dando-lhes instruções para transferirem, com o maior sigilo, os restos mortais do Báb do Imame Zádih Má'súm, onde estavam ocultados, a algum outro lugar de segurança - ato esse que subseqüentemente provou haver sido providencial e que pode ser considerado o que assinala mais uma etapa na longa e laboriosa transferência desses restos para o coração do Monte Carmelo, para o lugar que Ele, em Suas instruções a Abdu'l-Bahá, iria subseqüentemente designar. Foi durante esse período que a Súriy-i-Ghusan (Sura do Ramo) foi revelada, na qual a futura posição de Abdu'l-Bahá é prognosticada, na que Ele é elogiado como "Ramo da Santidade", o "Braço da Lei de Deus", a "Incumbência de Deus", que "se fez descer na forma de um tempo humano" - uma Epístola que pode bem ser considerada como anunciadora do grau que Lhe seria conferido, no Kitáb-i-Aqdas, e, mais tarde, seria elucidado e confirmado no Livro de Seu Convênio. E finalmente, foi durante esse período que se realizaram as primeiras peregrinações à morada d'Aquele que agora era o Centro visível de uma recém-estabelecida Fé - peregrinações que, em virtude de seu número e sua natureza, um alarmado governo na Pérsia se sentiu impelido, primeiro, a restringir e, mais tarde, a proibir, as quais, porém, foram os precursores das correntes de peregrinos que, convergindo de Leste e Oeste, de início sob circunstâncias árduas e perigosas, viriam a dirigir os passos à fortaleza-prisão de 'Akká - peregrinações que iriam culminar na histórica chegada ao pé do Monte Carmelo de uma representante da realeza que se convertera à Fé, mas que, ao primeiro limiar de uma peregrinação anelada e largamente anunciada, se viu tão cruelmente frustrada na realização de seu propósito.

Esses acontecimentos notáveis, alguns deles sincronizados com a proclamação da Fé de Bahá'u'lláh, enquanto outros fluíram dessa proclamação, bem como da convulsão interna que a Causa sofrera, não podiam escapar à atenção dos inimigos externos do Movimento, os quais se envidavam em explorar ao máximo cada crise que a imprudência dos amigos ou a perfídia dos renegados pudesse a qualquer momento precipitar. As nuvens espessas mal haviam sido dissipadas pelo repentino raiar de um Sol que agora brilhava do meridiano, quando a negrura de mais uma catástrofe - a última que o Autor da Fé estava destinado a sofrer - sobre ela caiu, lhe obscurecendo o firmamento e sujeitando-se a uma das mais severas provações que até então tivera de experimentar.

Esses inimigos que, momentaneamente, estiveram quiescentes, foram tornados mais audazes pelas recentes tribulações tão cruéis com que Bahá'u'lláh fora afligido, e começaram novamente a demonstrar, de várias maneiras, a animosidade latente que nutriam em seus corações. Uma perseguição que variava no grau de severidade, irrompia mais uma vez em alguns países. Em Azerbaijão e Zanján, em Níshápúr e Teerã, os aderentes da Fé foram aprisionados, vilipendiados, sujeitados a castigos, a torturas, ou à morte. Entre aqueles que sofreram, pode-se destacar o intrépido Najáf-'Alíy-i-Zanjání, sobrevivente da luta de Zanján e imortalizado na "Epístola ao Filho do Lobo", que, legando a seu algoz o ouro em seu poder, exclamou em alta voz, antes de ser decapitado, "Yá Rabbíya'l-Abhá". No Egito, um cônsul-geral cobiçoso e maligno extorquiu de um rico adepto chamado Hájí Abu'l-Qasim-i-Shíraz, nada menos que cem mil túmáns; prendeu Hájí Mírzá Haydar-'Alí e seis de seus correligionários, os quais por sua instigação foram condenados a um exílio de nove anos em Khartúm, sendo confiscados todos os escritos em seu poder, e então aprisionou Nabíl, incumbido por Bahá'u'lláh de apelar em seu favor ante o Khedive. Em Bagdá e Kázimayn inimigos incansáveis aguardando sua oportunidade, sujeitaram os fiéis adeptos de Bahá'u'lláh a tratamento brutal e ignominioso; selvagemente desentranharam Abdu'r-Rasúl-i-Qumí quando ele, na hora do amanhecer, ia levando, em uma pele, água do rio às Mais Grandiosa Casa, e baniram, entre cenas de zombaria pública, cerca de setenta companheiros, inclusive mulheres e crianças, a Mosul.

Não menos ativos era Mírzá Husayn-Khán, o Mushíru'd-Dawlih, e seus associados, que, determinando-se a aproveitar ao máximo as tribulações recentemente sofridas por Bahá'u'lláh, se levantaram para consumar Sua destruição. Encolerizaram-se as autoridades na capital por causa da estima que Lhe era mostrada pelo governador Muhammad Pásháy-i-Qibrisí, antigo Grão-Vizir, e pelos seus sucessores Sulaymán Páshá, da OrdemQádiríyyih e, em especial, por Khurshíd Páshá, que, abertamente e, em muitas ocasiões, freqüentava a casa de Bahá'u'lláh, O obsequiava nos dias de Ramadán e demonstrava fervorosa admiração por Abdu'l-Bahá. Estavam bem cientes do tom desafiador que Bahá'u'lláh assumira em algumas de Suas Epístolas recentemente reveladas, como também percebiam a instabilidade prevalecente em seu próprio país. Estavam preocupados com o constante ir e vir de peregrino em Adrianópolis e com os informes exagerados vindos de Fu'ád Páshá, que, pouco tempo antes, por ali passara em viagem de inspeção. Tais informes haviam sido provocados pelos pedidos de Mírzá Yahyá, que lhes estavam sendo transmitidos por Siyyid Muhammad, seu agente. Enchiam-lhes os peitos de alarma as cartas anônimas (escritas por esse mesmo Siyyid e por um cúmplice, Áqá Ján, que servira na artilharia turca), as quais pervertiam os escritos de Bahá'u'lláh e O acusavam de haver conspirado com líderes búlgaros e certos ministros de potências européias a fim de conseguir, com o auxílio de alguns milhares de Seus seguidores, a conquista de Constantinopla. E agora, animados pelas dissensões internas que haviam abalado a Fé, e irritados pela evidente estima que tinham por Bahá'u'lláh os cônsules das potências estrangeiras comissionados em Adrianópolis, determinaram-se a tomar a ação drástica e imediata a fim de extirpar a Fé e lhe isolar o Autor, despojando-O de todo o Seu poder. As ações indiscretas de alguns seguidores excessivamente zelosos que haviam chegado a Constantinopla, agravaram, sem dúvida, uma situação já aguda.

Tomou-se, por fim, a fatídica decisão: a de banir Bahá'u'lláh para a colônia penal de 'Akká, e Mírzá Yahyá para Famagusta, Chipre.

Essa decisão fazia parte do conteúdo de uma portaria redigida em termos fortes, emitida pelo Sultão Abdúl-'Azíz. Os companheiros de Bahá'u'lláh que haviam chegado à capital juntamente com alguns que vieram depois, bem como Áqá Ján, o notório instigador de distúrbios, foram apreendidos, interrogados, privados de seus documentos e metidos no cárcere. Os membros da comunidade de Adrianópolis foram, várias vezes, convocados para a sede do governo a fim de que se certificassem de seu número, enquanto circulavam boatos segundo os quais esses membros seriam dispersos e banidos para lugares diferentes, ou secretamente trucidados.

Repentinamente, certa manha, a casa de Bahá'u'lláh foi cercada por Soldados, sentinelas foram postadas nos portões, e Seus adeptos foram outra vez chamados pelas autoridades, interrogados e intimados a se aprontarem para sair da cidade: "Os bem-amados do Senhor e seus parentes" - é o testemunho de Bahá'u'lláh no Súriy-i-Rá'ís - "foram deixados sem alimento na primeira noite... O povo em torno da casa, muçulmanos e cristãos, chorava a nossa sorte... Notamos que o pranto do povo do Filho (cristãos) excedia ao dos outros - o que é significativo para quem meditar sobre isso". "Grande agitação apoderou-se do povo" - escreve Áqá Ridá, um dos mais intrépidos defensores de Bahá'u'lláh, exilado com Ele durante todo o percurso de Bagdá até 'Akká. "Todos se mostravam perplexos e pesarosos... alguns nos protestaram simpatia, outros procuravam consolar-nos e choravam por nós... A maior parte dos nossos bens foi posta em leilão pela metade do seu valor". Alguns dos cônsules das potências estrangeiras acudiram Bahá'u'lláh, expressando-Lhe sua disposição de interceder junto dos respectivos governos em favor Dele - sugestões que mereceram de Bahá'u'lláh o maior reconhecimento, mas das quais, firmemente, declinou: "Os cônsules dessa cidade (Adrianópolis) se reuniram, na presença deste Jovem à hora de Sua partida" - Ele próprio escreveu - "e expressaram seu desejo de O ajudar. Eles, na verdade, nos deram prova de sua manifesta afeição."

O embaixador persa informou aos cônsules persas no Iraque e no Egito que o governo turco retirara dos bábís sua proteção e que estavam livres, portanto, para trata-los de qualquer modo que quisessem. Alguns peregrinos, entre eles Hájí Muhammad Ismá'íl-i-Káshání, apelidado de Anis na Lawh-i-Ra'ís, haviam, entrementes, chegado em Adrianópolis e tiveram que partir para Galípoli sem sequer contemplarem a face de seu Mestre. Dois dos companheiros foram obrigados a se divorciar das esposas, por haverem seus parentes recusado que elas saíssem para o exílio. Khurshíd Páshá, que já havia várias vezes negado categoricamente as acusações por escrito a ele mandadas pelas autoridades em Constantinopla e vigorosamente intercedido em prol de Bahá'u'lláh, sentiu-se tão embaraçado diante da ação de seu governo que, ao ser informado de Sua partida imediata da cidade, decidiu ausentar-se e ordenou que o arquivista Lhe transmitisse o teor do édito do Sultão. Hájí Ja'far-i-Tabrízí, um dos adeptos, ao verificar que seu nome não fora incluído na lista dos exilados que podiam acompanhar Bahá'u'lláh, cortou a garganta com uma navalha, mas se conseguiu a tempo impedi-lo de pôr fim à sua vida - ato que Bahá'u'lláh, na Súriy-i-Ra'ís, caracteriza como "inaudito nos séculos passados", e um ato pelo qual Deus distingue esta Revelação, como evidência da grandeza de Seu poder.

Aos vinte e dois dias do mês de Rabí'u'th-Thání 1285 D.H. (12 de agosto de 1868), Bahá'u'lláh e Sua família, escoltados por um capitão turco, chamado Hasan Effendi, e outros soldados designados pelo governador local, iniciaram a jornada de quatro dias para Galípoli, viajando em carruagens e fazendo escala em Uzún-Kúprú, e em Káshánnih, onde foi revelado o Súriy-i-Rá'ís. Escreve uma testemunha ocular: "Os moradores do mesmo quarteirão em que Bahá'u'lláh residira, e os vizinhos que se haviam reunido para Dele se despedirem, se aproximaram, um após outro, com a maior tristeza e acabrunhamento, para beijar-Lhe as mãos e a bainha da túnica, expressando-lhe pesar por Sua partida. Esse dia, também, foi um dia singular. Tive a impressão de que a cidade, seus muros e seus portões estremeceram à iminência de O verem partir". "Nesse dia" - escreve outro que presenciou a cena - "verificou-se enorme influência de muçulmanos e cristãos à porta da cada do nosso Mestre. A hora da partida tornou-se memorável. A maioria dos parentes chorava e lamentava-se, notadamente os cristãos." "Dizei!" - o próprio Bahá'u'lláh declara no Suriy-i-Rá'is - "este Jovem partiu deste país e deixou debaixo de cada árvore e debaixo de cada pedra uma incumbência, a qual Deus em breve tornará manifesta, mediante o poder da verdade."

Muitos dos companheiros que haviam sido trazidos de Constantinopla estavam à Sua espera em Galípoli. Ao chegar ao Seu destino, Bahá'u'lláh fez a seguinte declaração a Hasan Effendi, que, tendo cumprido o seu dever, aprontava-se para partir: "Dize ao rei que este território deixará de lhe pertencer e seus negócios se mergulharão em derrocada". "Comentando isto", escreveu o relator da cena, "Bahá'u'lláh em seguida ajuntou: "Não sou Eu quem diz estas palavras, e sim Deus." "Nesses momentos Ele pronunciava versículos que nós, parados embaixo, podíamos perceber. Eram pronunciados com tal veemência e intensidade que os alicerces da própria casa me pareciam tremer."

Mesmo em Galípoli, onde três noites foram passadas, ninguém sabia qual seria o destino de Bahá'u'lláh. Acreditavam alguns que Ele e Seus irmãos seriam banidos para o mesmo lugar e os restantes dispersos e exilados. Outros pensavam que se mandaria Seus companheiros de volta para a Pérsia, enquanto outros ainda esperavam sua exterminação imediata. A ordem original do governo era desterrar Bahá'u'lláh, Áq'ay-i-Kalím e Mírzá Muhammad-Qulí, com um servidor para 'Akká, enquanto os outros fossem a Constantinopla. Essa ordem, que provocou cenas de indescritível aflição, foi rescindida, no entanto, graças à insistência de Bahá'u'lláh e por intermédio de 'Umar Effendi, um major designado para acompanhar os exilados. Decidiu-se, afinal, que todos os desterrados, cerca de setenta em número, fossem exilados em 'Akká. Instruções foram dadas, além disso, para que certo número dos aderentes de Mírzá Yahyá, entre os quais figuravam Siyyid Muhammad e Áqá Ján, os acompanhassem, enquanto quatro dos companheiros de Bahá'u'lláh foram mandados para Chipre com os azalís.

Tão sérios eram os perigos e provações que se descortinaram a Bahá'u'lláh à hora de Sua partida de Galípoli, que ele assim advertiu os companheiros: "Esta jornada não se poderá comparar às outras jornadas anteriormente realizadas", e qualquer que não se sentisse "homem bastante para encarar o futuro" melhor faria "partindo para o lugar que mais lhe agradasse e protegendo-se contra as provações, porque daí por diante não mais poderia partir" - conselho que Seus companheiros, unanimemente, declinaram.

Na manhã de 2 de Jamádíyu'l-Avval, 1285 D.H. (21 de agosto de 1868), todos eles embarcaram num navio da Austrian-Lloyd para Alexandria, tocando em Madellí, e parando por dois dias em Esmirna, onde Jináb-i-Munír, de sobrenome Ismu'lláhu'l-Muníb, caiu gravemente doente e teve, para seu grande pesar, que ficar nessa cidade, ingressando num hospital, onde pouco depois faleceria. Em Alexandria baldearam-se para outro navio da mesma companhia, com destino a Haifa, onde, após breves paradas em Port Said e Jaffa, desembarcaram, partindo, poucas horas mais tarde, num navio à vela, para 'Akká, onde chegaram na tarde de 12 de Jamádíyu'l-Avval, 1285 D.H. (31 de agosto de 1868). No momento em que Bahá'u'lláh penetrava no barco que O levaria até o ponto de desembarque em Haifa, Abdu'l-Ghaffár - um dos quatro companheiros condenados a compartilhar do exílio de Mírzá Yahyá, e cujo "desprendimento, amor e confiança em Deus" Bahá'u'lláh exaltara grandemente - desesperado, atirou-se ao mar, exclamando "Yá Bahá'u'l-Abhá!" Foi tirado da água e, com grande dificuldade, reanimado, para ser forçado por severos oficiais a continuar sua viagem junto ao grupo de Mírzá Yahyá para o destino que lhe fora previamente determinado.

Capítulo XI
O ENCARCERAMENTO DE BAHÁ'U'LLÁH
EM 'Akká

A Chegada de Bahá'u'lláh em 'Akká assinala o início da última fase do Seu ministério de quarenta anos de duração, a etapa final e, na verdade, o clímax do desterro em que todo esse ministério se cumpriu.

Um degredo que, de início, O trouxera às imediações das cidadelas da ortodoxia xiita, pondo-o em contato com seus expoentes de maior destaque e, em época posterior, O levara à capital do Império Otomano, dando-Lhe assim a oportunidade de dirigir ao Sultão, aos ministros e aos chefes eclesiásticos do Islã sunita seus pronunciamentos históricos - esse degredo havia sido agora o meio de traze-Lo às plagas da Terra Santa - a Terra prometida por Deus a Abraão, santificada pela Revelação de Moisés, honrada pelas vidas e pelos labores dos patriarcas, juízes, reis e profetas hebraicos, reverenciada como o berço do cristianismo e como o lugar onde Zoroastro, segundo o testemunho de Abdu'l-Bahá conversava com alguns dos Profetas de Israel", e pelo Islã associada com a viagem noturna do Apostolo através dos sete céus, até ao trono do Todo-Poderoso. Dentro dos confins desse santo e invejável país, "ninho de todos os Profetas de Deus", "o Vale do inescrutável Decreto de Deus, o Ponto de nívea brancura, a Terra do esplendor que não fenece", o Exilado de Bagdá, de Constantinopla e Adrianópolis foi condenado a passar nada menos que a terça parte do decurso determinado de Sua vida, e mais que a metade do período total de Sua Missão. "É difícil se compreender", declara Abdu'l-Bahá, "como Bahá'u'lláh teria sido obrigado a partir da Pérsia e levantar Sua tenda nesta Terra Santa, se não fosse a perseguição pelos inimigos, Seu desterro e exílio."

De fato, Ele nos assegura, tal consumação fora realmente predita "através da língua dos Profetas dois ou três mil anos antes." "Fiel à Sua promessa", havia Deus, "a alguns dos Profetas revelado e anunciado a boa nova de que o Senhor dos Exércitos haveria de se manifestar na Terra Santa." Com referência a isto, Isaías anunciara em seu Livro: "Ascende à alta montanha, ó Sion, tu que trazes boas novas; levanta tua vos com força, ó Jerusalém, que trazes boas novas. Levanta-a, não temas; dize às cidades de Judá: Eis vosso Deus! Eis, o Senhor Deus virá com Mão forte, e Seu braço por Ele regerá." Davi em seus Salmos predissera: "Levantai vossas cabeças, ó vós portais; levanta-as mesmo, vós, portas sempiternas, e o Rei de Glória entrará. Quem é esse Rei de Glória? O Senhor dos Exércitos, Ele é o Rei de Glória." "De Sion, a perfeição da beleza, Deus resplandeceu. Nosso Deus virá e não haverá de guardar silêncio." Do mesmo modo havia Amós predito Sua vinda: "O Senhor bradará de Sion, e emitirá Sua voz de Jerusalém; e se lamentarão as moradas dos pastores, e o cume do Carmelo haverá de fenecer."

Esse cidade de 'Akká, flanquead apela "glória do Líbano", e repousando à plena vista do "esplendor do Carmelo", aos pés das colinas que circundam a cidade natal do próprio Jesus Cristo, foi descrita por Davi como a "Cidade Forte", citada por Oséas como "uma porta de esperança" e referida por Ezequiel como "o portal que olha para o caminho do Oriente", por onde "entrou a glória do Deus de Israel vinda pelo caminho do Oriente", sendo Sua voz como "ruído de muitas águas."

A essa cidade se havia referido o Profeta da Arábia como "uma cidade na Síria à qual Deus tem mostrado Sua misericórdia especial", situada "entre duas montanhas... no meio de um prado", "à orla do mar... suspensa sob o Trono", "alva, cuja alvura apraz a Deus." "Bem-aventurado o homem", declarara Ele, ainda mais - assim como Bahá'u'lláh confirma - "que tem visitado 'Akká, e bem-aventurado aquele que tem visitado o visitante de 'Akká." Além disso, "Quem (nela) levantar o chamado à oração, sua voz se elevará ao Paraíso." E ainda: "Os pobres de 'Akká são os reis do Paraíso e seus príncipes. Um mês em 'Akká é melhor que mil anos em outra parte." Além disso, em uma tradição extraordinária que se encontra na obra de Shaykh Ibnu'l-'Arabí, intitulada "Futúhát-i-Makkíyyih" e que é reconhecida como afirmação autêntica de Maomé, - sendo também citada por Mírzá Abu'l-Fadl em sua obra "Fará'id" - há esta predição significativa: "Todos eles (os companheiros do Qá'im) serão trucidados, salvo Um só - Aquele que alcançará a planície de 'Akká, o Salão de Banquetes de Deus."

O próprio Bahá'u'lláh, assim como atesta Nabíl em sua narrativa, já nos primeiros anos de Seu desterro a Adrianópolis, se referira a essa mesma cidade em Sua Lawh-i-Sayyáh, designando-a como o "Vale de Nabíl", sendo o valor numérico da palavra Nabíl igual ao de 'Akká. "Ao chegarmos", predissera essa Epístola, "fomos recebidos com estandartes de luz, e com isso exclamou a Voz do Espírito, dizendo: "Breve se alistarão sob estes estandartes todos os que habitam na terra."

Esse exílio - de nada menos de vinte e quatro anos de duracao, ao qual dois déspotas orientais, em sua implacável inimizade e sua falta de visão, haviam combinado em condenar Bahá'u'lláh - passará para a história como um período que testemunhou uma transformação milagrosa e verdadeiramente revolucionária nas circunstâncias relacionadas com a vida e as atividades do próprio Exilado, e será lembrado principalmente pela vasta recrudescência da perseguição, intermitente, mas excepcionalmente cruel, em toda Sua terra natal, bem como pelo simultâneo aumento do número de Seus seguidores e, finalmente, por uma enorme ampliação na diversidade e no volume de Seus escritos.

Sua chegada na colônia penal de 'Akká, longe de provar ser o fim de Suas aflições, assinalou apenas o principio de uma crise de magnitude maior, caracterizada por amargo sofrimento, severas restrições e intensa turbulência - uma crise que, em sua gravidade, ultrapassou até as agonias do Siyáh-Chál de Teerã, e com a qual se não pode comparar outro acontecimento na história do século inteiro, exceto a convulsão interna que abalou a Fé me Adrianópolis.

Comentando a respeito do caráter crítico dos primeiros nove anos de Seu banimento para essa cidade-prisão, escreveu Bahá'u'lláh: "Deves saber que, ao chegarmos a este Lugar, decidimos designa-lo como a "Suprema Prisão". Embora presos a cadeias e grilhões posteriormente, em outra terra (Teerã), ainda assim recusamo-nos a chamá-la por esse nome. Dize: meditei sobre isso, ó vós que possuís entendimento!"

O sofrimento que Ele suportou como direta conseqüência do atentado contra a vida de Nasiri'd-Din-Sháh foi um que Lhe fora infligido somente pelos inimigos externos da Fé. A tribulação em Adrianópolis, cujos efeitos quase dividiram em duas partes a comunidade dos seguidores do Báb, foi, por outro lado, de caráter puramente interno. Essa nova crise que, durante quase uma década, causava agitação a Ele e a Seus companheiros, foi caracterizada, porém, até o fim, não só pelos ataques de Seus adversários de fora, como também pelas maquinações de inimigos de dentro, e, ainda mais, pelos graves delitos daqueles que, embora portadores de Seu nome, perpetraram o que entristecia tanto Seu coração como Sua pena.

'Akká, a velha Ptolemais, o St. Jean d'Arc dos Cruzados, desafiara o assédio de Napoleão, mas sob o domínio dos turcos rebaixada ao nível de uma colônia penal para onde criminosos, salteadores de estrada e agitadores políticos eram mandados de todas as partes do Império Turco. Era cercada por um duplo sistema de muralhas; habitada por um povo que mereceu de Bahá'u'lláh o estigma de "geração de víboras"; desprovida de qualquer fonte d'água, portões a dentro; infestada de pulgas, úmida e retalhada de vielas ensombradas, sujas e tortuosas. Escreve a Suprema Pena, no Lawh-i-Sultán: "De acordo com o que se diz, é a mais desoladora cidade de todo o mundo, a de mais feio aspecto, mais detestável de ser ela a metrópole das corujas." Tão pernicioso era o seu ar que, conforme diz um provérbio, o pássaro que se aventurasse a cruzar os seus céus cairia morto.

Segundo ordens explícitas emitidas pelo Sultão e por seus ministros, os exilados - sendo acusados de haverem cometido erros graves e desencaminhado os outros - seriam sujeitados ao mais estrito encarceramento. Expressava-se confidentemente a esperança de que a sentença de prisão perpétua, contra eles pronunciada, levasse, afinal, a seu extermínio. O farmán* do Sultão Abdu'l-Azíz, com data de cinco de Rabí'u'th-Thání 1285 A.H. (26 de julho de 1868), não só os condenava a desterro perpétuo, como também estipulava sua estrita clausura, proibindo-lhes associação um com outro ou com os habitantes da localidade. O texto do próprio farmán, pouco depois da chegada dos exilados, foi lido publicamente na principal mesquita da cidade, como advertência à população. O embaixador persa, acreditado ante a Sublime Porta, em uma carta escrita pouco mais de um ano após o desterro a 'Akká, afirmou a seu governo o seguinte: "Tenho dado instruções por telegrafo e por escrito, proibindo que Ele (Bahá'u'lláh) se associe com qualquer pessoa, salvo Suas esposas e Seus filhos, ou que, sob quaisquer circunstâncias, deixe a casa em que está aprisionado. A Abbás-Qulikhán, Cônsul-Geral em Damasco, ... há três dias, mandei voltar e proceder diretamente a 'Akká ... conferir com seu governador a respeito de todas as medidas necessárias a fim de se manter estritamente sua prisão ... e, antes de seu regresso a Damasco, nomear um representante no lugar para se ter certeza de que as ordens emitidas pela Sublime Porta não sejam, de modo algum, desobedecidas. Outrossim, lhe tenho dado instruções, para que uma vez em cada três meses ele vá de Damasco a 'Akká, os vigie pessoalmente e submeta à Legação seu relatório." Tal foi o isolamento a eles imposto que os bahá'ís da Pérsia, alarmados pelos boatos circulados pelos azalís de Isfahan, segundo os quais Bahá'u'lláh fora afogado, induziram a agencia do Telégrafo Britânico em Julfá a averiguar para eles os fatos.

Ao desembarcarem em 'Akká após uma penosa viagem, todos os exilados - homens, mulheres e crianças - sob os olhares de uma população curiosa e brutal que se reunira no porto para ver o "Deus dos Persas", foram conduzidos para os alojamentos do exército e aí encerrados, com sentinelas incumbidas de manterem vigilância sobre eles. "A primeira noite", testifica Bahá'u'lláh no Lawh-i-Rá'ís, "todos foram privados de alimento ou bebida... Chegaram mesmo a implorar água, que lhe foi negada." Tão suja e salobra era a água do poço existente no pátio, que ninguém podia toma-la. Três pães de composição negra e salgada eram dadas a cada um, sendo-lhes permitido, mais tarde, trocá-los por dois outros de melhor qualidade no mercado, onde iam acompanhados por guardas. Subseqüentemente uma pequeníssima quantia passou a ser-lhes fornecida, em substituição à quota do pão. Todos adoeceram, com exceção de dois, poucos dias após sua chegada. Malária, disenteria, além do calor insuportável, contribuíram para os seus sofrimentos. Três sucumbiram, entre os quais dois irmãos, falecidos na mesma noite, "entregues", conforme relata Bahá'u'lláh, "um aos braços do outro".

O tapete que usava, Ele o deu para ser vendido, a fim de lhes providenciar as mortalhas e o enterro. A quantia insignificante obtida de sua venda em leilão foi entregue aos guardas, que haviam recusado enterra-los, a não ser que lhes fossem pagas, primeiro, as despesas necessárias. Mais tarde se soube que haviam sido enterrados sem serem lavados ou amortalhados, nas roupas que estavam usando, e sem caixões, embora lhes fosse dado - segundo afirma Bahá'u'lláh - o dobro da quantia precisa para seu enterro. 'Ninguém sabe o que Nos sucedeu", tem Ele Próprio escrito , "salvo Deus, o Todo-Poderoso, o Onisciente ... Desde a fundação do mundo, até o dia atual, não se tem visto uma crueldade como esta, nem ouvido falar de outra igual." "Durante a maior parte de Sua vida", ainda mais anotou Ele, referindo-se a Si próprio, "tem Ele sido posto, penosamente, à prova, nas garras de Seus inimigos. Seus sofrimentos agora alcançaram o ponto culminante nesta aflitiva Prisão, na qual Seus opressores, com tão grande injustiça, O lançaram."

Os poucos peregrinos que, a despeito da severa proibição baixada, conseguiram chegar até as portas da Prisão - havendo alguns viajado a pé desde a Pérsia - tiveram de contentar-se com um rápido vislumbre do rosto do Prisioneiro, tendo para isso ficado atrás de Sua Prisão. Os poucos que conseguiram ingressar na cidade tiveram, com grande pesar, de voltar sem O terem contemplado. O primeiro dentre eles a estar em Sua presença - o abnegado Háji Abu'lHasan-i-Ardikání, cognominado Amin-i-Iláhí (O da Confiança em Deus) - somente conseguiu vê-Lo num banho público onde fora combinado que visse Bahá'u'lláh sem se aproximar Dele nem dar qualquer sinal de que O reconhecia. Outro peregrino, Ustád Ismá'íl-Káshí, chegando de Mosul, postou-se na parte mais afastada do fosso a olhar durante algumas horas, em arrebatada adoração, para a janela de seu Bem-Amado, mas, devido à sua fraca visão, não pôde distinguir Seu rosto e assim teve que voltar à gruta que lhe servia de morada no Monte Carmelo sem tê-Lo visto - episodio esse que comoveu às lágrimas a Sagrada Família, que de longe observava, ansiosamente, a frustração de suas esperanças. O próprio Nabíl teve de fugir às pressas da cidade, onde fora reconhecido, e contentar-se com um breve visão de Bahá'u'lláh, tomada daquele mesmo fosso, seguindo depois em peregrinação pelas cercanias de Nazaré, Haifa, Jerusalém e Hebron, até que o gradual afrouxamento das restrições permitiu que se reunisse ao grupo de exilados.

Ao deprimente peso dessas tribulações vinha ajuntar-se agora a amarga dor de repentina tragédia - o prematuro passamento do nobre e piedoso Mírzá Mihdí, o Mais Puro Ramo, irmão de Abdu'l-Bahá, de vinte e dois anos de idade, secretário de Bahá'u'lláh e Seu companheiro de exílio desde os dias quando, ainda criança, fora trazido de Teerã para Bagdá a fim de reunir-se a seu Pai apor o regresso Deste de Sulaymániyyih. Certa ocasião, ao pôr do sol, caminhava ele pela área do pavimento superior do quartel, mergulhado em suas costumeiras devoções, quando caiu, através de uma clarabóia aberta, sobre uma caixa de madeira que se achava abaixo no chão, o que lhe provocou uma fratura das costelas, em conseqüência de que, vinte e duas horas depois, falecia, precisamente no dia 23 do Rabí'u'l-Avval, 1287 D.H. (23 de junho de 1870). Sua súplica de morte, dirigida a um Pai aflito, foi que fosse aceita sua vida como resgate para aqueles a quem se impedia de se aproximarem de seu Bem-Amado.

Em mui significativa prece revelada por Bahá'u'lláh em memória de Seu filho - oração que eleva sua morte ao nível, dos grandes sacrifícios, comparando-a a voluntária imolação de Isaac por seu pai Abraão, à crucificação de Jesus Cristo e ao martírio de Imame Hussein - lemos o seguinte: "Ofereço-Te, ó meu Senhor, aquilo que Me deste, a fim de que Teus servos sejam vivificados e todos os que habitam sobre a terra unidos."

E, outrossim, estas palavras proféticas, dirigidas a Seu filho martirizado: "Tu és aquele que Deus confiou, Seu tesouro nesta Terra. Dentro em breve Deus por teu intermédio revelará aquilo que é Seu desejo!"

Após haver sido lavado na presença de Bahá'u'lláh, aquele "que foi criado da luz de Bahá" - de cuja "humildade" a Pena Suprema dera testemunho e dos "mistérios" de cuja ascensão essa mesma Pena fizera referência - foi levado, com escolta dos guardas da fortaleza, para descansar além dos muros da cidade, em um lugar adjacente ao santuário de Nabí Sálih, donde, setenta anos depois, seus restos mortais, simultaneamente com os de sua ilustre mãe, seriam transladados para o declive do Monte Carmelo, nas proximidades do túmulo de sua irmã e à sombra do sagrado sepulcro do Báb.

Nem tampouco foi esta a medida total das aflições suportadas pelo Prisioneiro de 'Akká e por Seus companheiros de exílio. Quatro meses depois desse trágico acontecimento foi necessário, por cauda de uma mobilização de tropas turcas, que Bahá'u'lláh e Seus companheiros fossem removidos do quartel. Para Ele e Sua família, foi designada, pois, a cada de Malik, no bairro ocidental da cidade, donde, após uma estada de apenas três meses, as autoridades os fizeram mudar para a casa de Khavvám, em frente, e daí, novamente, depois de poucos meses, foram obrigados a mudar-se, desta vez para a casa de Rábi'ih. Finalmente, quatro meses mais tarde, foram transferidos para a casa de 'Údí Khammar, a qual era tão insuficiente para suas necessidades que, em um dos quartos, nada menos que treze pessoas, de ambos os sexos, tiveram que se acomodar. Alguns dos companheiros tiveram que morar em outras casas, enquanto para os restantes foi designada uma hospedaria chamada Khán-i-'Avámíd.

Mal se havia mitigado a severidade de seu encarceramento e demitido os guardas que os vigiavam, quando uma crise interna que já havia estado fermentando no meio da comunidade, foi levada a um repentino e catastrófico clímax. Tal fora a conduta de dois dos exilados incluídos no grupo que acompanhou Bahá'u'lláh a 'Akká, que Ele se viu forçado, afinal, a expulsa-los - um ato do qual Siyyid Muhammad não tardou a tirar a máxima vantagem. Reforçado por esses recrutas e, juntamente com os antigos associados agindo como espiões, ele embarcou em uma companhia de abuso, calúnia e intriga ainda mais perniciosa do que aquela por ele lançada em Constantinopla, e calculada para instigar a um novo grau de animosidade e excitação uma populaça já cheia de preconceito e desconfiança. Um novo perigo agora, claramente, ameaçava a vida de Bahá'u'lláh. Embora Ele próprio tivesse estritamente proibido a Seus seguidores, em várias oportunidades, tanto verbalmente como por escrito, qualquer ato de represália contra aqueles que os atormentavam - e até tivesse mandado voltar a Beirute um irresponsável adepto árabe que havia pensado em vingar os agravos sofridos por seu bem-amado Líder - sete dos companheiros clandestinamente procuraram e mataram três de seus perseguidores, entre eles Siyyid Muhammd e Áqá Ján.

A consternação que se apoderou de uma comunidade já oprimida foi indescritível. A indignação de Bahá'u'lláh não conhecia limites. "Fossemos Nós" - assim Ele expressa Suas emoções em uma Epístola revelada pouco depois de haver sido cometido esse ato, "fazer menção daquilo que Nos sucedeu, os céus romper-se-iam e as montanhas viriam a se desmoronar." "Meu cativeiro", escreveu Ele em outra ocasião, "não pode me causar dano. O que me pode prejudicar é a conduta dos que Me amam, que se dizem estar relacionados Comigo e, no entanto, perpetram o que faz gemerem Meu coração e Minha pena." E ainda: "Meu cativeiro nenhuma vergonha pode a Mim trazer. Não, por Minha vida, Me confere glória. O que Me pode envergonhar é a conduta daqueles de Meus seguidores que professam Me amar, mas, na realidade, seguem o Ente Mau."

Bahá'u'lláh estava ditando Suas Epístolas a Seu amanuense quando o governador, à frente de suas tropas - todos com espadas desembainhadas - cercaram Sua casa. A populaça inteira, bem como as autoridades militares, estavam extremamente agitadas. Os gritos e o clamor do povo podiam ser ouvidos por todos os lados. Bahá'u'lláh foi chamado peremptoriamente à sede do governo, onde O interrogaram e, durante a primeira noite, foi confinado, com um de Seus filhos, num quarto no Khán-i-Shávirdí. Deram-Lhe acomodações melhores, na vizinhança, para as duas noites seguintes, mas só no fim de setenta horas permitiram que Ele regressasse para Sua casa. Abdu'l-Bahá foi encarcerado e acorrentado durante a primeira noite, depois do que, teve permissão para se reunir com Seu Pai. Vinte e cinco dos companheiros foram mandados, em correntes, a outra prisão, da qual, após seis dias, foram transferidos para o Khán-i-Shávirdí, onde permaneceram sob custódia por seis meses, exceto os responsáveis por aquele odioso ato, cujo encarceramento durou vários anos.

"É correto" - perguntou audazmente o Comandante da cidade, volvendo-se para Bahá'u'lláh, depois de haver Ele chegado na sede do governo - "que alguns de vossos seguidores ajam dessa maneira?" "Se um de vossos soldados" - foi a resposta imediata - "cometesse um ato repreensível, serieis vós tido por responsável e castigado em seu lugar?" Quando O interrogaram, pediram-Lhe que dissesse Seu Nome e o do país donde viera. "É mais manifesto do que o sol", respondeu Ele. Novamente Lhe foi feita a mesma pergunta, à qual Ele deu a seguinte resposta "Creio que não seria apropriado menciona-lo. Referi-vos à portaria do governo que esta em vosso poder." Ainda outra vez, eles, com notável deferência, repetiam seu pedido e, com isso, Bahá'u'lláh pronunciou, com majestade e poder, estas palavras: "Meu nome é Bahá'u'lláh (Luz de Deus) e Meu país é Núr (Luz). Que sejais disso informados." Volvendo-se, então, ao Muftí, lhe dirigiu palavras de velada repreensão, depois do que Ele falou a todos os presentes, em linguagem tão veemente e tão exaltada que ninguém se atreveu a Lhe responder. Após haver citado versículos da Suriy-i-Múlúk, Ele levantou-se e saiu da reunião. Pouco tempo depois, o governador mandou dizer que Ele estava livre para volta à Sua casa e Lhe pediu desculpa por aquilo que sucedera.

Uma população, já hostil para com os exilados, inflamou-se, após esse incidente, com uma irrefreável animosidade contra todo portador do nome da Fé por eles professada e, com acusação de impiedade, ateísmo, terrorismo e heresia, os afrontava aberta e irrestritamente. Abbúd, que morava na casa do lado da de Bahá'u'lláh, reforça a divisão entre sua própria morada e a de seu Vizinho agora suspeito e muito temido. Até os filhos dos exilados encarcerados, sempre que se mostravam nas ruas durante aqueles dias, eram perseguidos, vilipendiados e apedrejados.

A taça das tribulações de Bahá'u'lláh transbordou agora. Uma situação extremamente humilhante, cheia de ansiedade e até perigosa, continuou a enfrentar os exilados até o tempo, determinado por uma Vontade inescrutável, quando a maré de miséria e degradação começou a baixar, assinalando nos destinos da Fé uma transformação que era até mais notável do que a mudança revolucionária efetivada durante os últimos anos da estada de Bahá'u'lláh em Bagdá.

Vários fatores vinham modificando a situação: todos os elementos da população reconheciam cada vez mais a completa inocência de Bahá'u'lláh; lentamente o verdadeiro espírito de Seus ensinamentos penetrava a dura crosta de sua indiferença e seu fanatismo; um governador compreensivo e humano, Ahmad Big Tawfíq, foi nomeado em substituição a outro cuja mente fora irremediavelmente envenenada contra a Fé e seus adeptos; Abdu'l-Bahá, em plena flor de Sua mocidade e incansável em Seus esforços, pelo contato com todas as classes demonstrava uma capacidade cada vez maior de agir em defesa de Seu Pai; e foram demitidos providencialmente aqueles oficiais responsáveis pelo prolongamento do encarceramento dos inocentes fiéis. Tudo isso preparou o caminho para a reação que agora se operava, à qual ficará indissoluvelmente associado o período de exílio de Bahá'u'lláh em 'Akká.

Tal foi a devoção que gradualmente se apoderou do coração desse governador, através de seu conhecimento com Abdu'l-Bahá, e mais tarde, através da leitura das obras relativas à Fé - literatura esta que os inimigos, na esperança de lhe provocarem a ira haviam submetido à sua consideração - que, invariavelmente, recusava apresentar-se diante de Bahá'u'lláh sem primeiro descalçar os sapatos, como sinal de respeito que Lhe dedicava. Chegou-se até a propalar que seus conselheiros prediletos eram os próprios exilados, adeptos do Prisioneiro sob sua custódia. Costumava mandar seu próprio filho à presença de Abdu'l-Bahá a fim de ser instruído e esclarecido. Foi por ocasião de uma longamente esperada entrevista com Bahá'u'lláh que, em resposta a um pedido para que lhe fosse permitido servi-Lo em alguma coisa, sugeriu Ele a restauração do aqueduto há trinta anos fora de uso, sugestão esta prontamente aceita e executada.

A afluência de peregrinos, entre os quais figuravam o devoto e venerável Mullá Sádiq-i-Khurásání e o pai de Badí - ambos sendo sobreviventes da luta de Tabarsí - ele nenhuma oposição, praticamente, oferecia embora o texto do farmán (portaria) imperial proibisse sua entrada na cidade. Mustafá Diyáh Páshá, feito governador alguns anos depois, dera a entender, até que seu Prisioneiro estava livre para passar pelos portões quando quisesse - sugestão esta que Bahá'u'lláh declinou. Mesmo o Muftí de 'Akká, Shaykh Mahmud, um homem notório por seu fanatismo, fora convertido à Fé e, inflamado com seu recém-nascido entusiasmo, fez uma compilação das tradições maometanas referentes a 'Akká. Nem os governadores indiferentes - despachados de vez em quando a essa cidade - puderam, não obstante o poder arbitrário que possuíam, deter as forças que estavam levando o Autor da Fé à Sua virtual emancipação e ao cumprimento final de Seu desígnio. Homens letrados, e até ulemás que residiam na Síria, se sentiam impelidos, no decurso dos anos, a expressar seu reconhecimento da crescente grandeza e poder de Bahá'u'lláh. 'Azíz Páshá, que em Adrianópolis mostrara um afeto profundo por Abdu'l-Bahá e que fora, entrementes, promovido à posição de Vali, visitou 'Akká duas vezes com o expresso propósito de prestar a Bahá'u'lláh sua homenagem e a renovar sua amizade com Aquele a quem havia aprendido a admirar e reverenciar.

Embora praticamente não concedesse Bahá'u'lláh entrevistas pessoais, como costumava fazer em Bagdá, ainda assim, tal era a influência agora desfrutada por Ele, que os habitantes comentavam serem os notáveis melhoramentos de clima e água de sua cidade devidos tão somente à Sua presença entre eles. Falam por si mesmos os epítetos pelos quais era Bahá'u'lláh tratado, tais como "líder augusto" e "sua alteza", bem mostrando a reverência que inspirava. Certa ocasião, um general europeu que juntamente com o governador conseguira que lhe fosse marcada uma audiência com Bahá'u'lláh, ficou tão impressionado que "permaneceu ajoelhado junto a porta." O Sheik Alíy-i-Mírí, Muftí de 'Akká, por sugestão de Abdu'l-Bahá, teve que rogar-Lhe insistentemente que desse por terminados Seus nove anos de reclusão entre as muralhas da cidade, antes que Ele consentisse passar além de seus portões. O jardim de Na'mayn, ilhota situada em um rio a leste da cidade, honrado com o nome de Ridván, e designado por Ele como a "Nova Jerusalém" ou "Nossa Ilha Verdejante", juntamente com a residência de Abdu'lláh Páshá, - alugada e preparada para Ele por Abdu'l-Bahá e situada a poucas milhas ao norte de 'Akká - tornaram-se os lugares prediletos de retiro d'Aquele que por quase uma década não pusera pé fora da área compreendida entre os muros da cidade e cujo único exercício era o ir-e-vir, monótono e repetido, no interior do Seu quarto de dormir.

Dois anos mais tarde, o palácio de Údí Khammár - em cuja construção imensa fortuna fora dissipada, enquanto Bahá'u'lláh permanecia detido no quartel - foi repentinamente abandonado por seu proprietário e sua família, devido à erupção de uma epidemia. Foi assim alugada, e mais tarde comprada para Bahá'u'lláh, essa habitação por Ele qualificada de a "excelsa mansão" e "o lugar que Deus estabeleceu como a mais sublime visão da humanidade."

A visita de Abdu'l-Bahá a Beirute, nesta época, a convite de Midhát Páshá, antigo Grão-Vizir da Turquia; Sua associação com os líderes civis e eclesiásticos dessa cidade; suas várias entrevistas com o bem conhecido Shaykh Muhammad 'Abdu - tudo isso tendeu a realçar imensamente o crescente prestígio da comunidade e a difundir por toda parte a fama de seu mais eminente membro. O esplêndido acolhimento que Lhe dera o erudito e altamente estimado Shaykh Yúsuf, o Muftí de Nazaré - que servia de anfitrião aos válís de Beirute e mandara que todas as notabilidades da comunidade andassem algumas milhas pela estrada para recebe-Lo, à medida que se aproximava da cidade, acompanhado por Seu irmão e pelo Muftí de 'Akká - bem como a magnífica recepção dada por Abdu'l-Bahá a Shyakh Yúsuf quando este O visitou em 'Akká - foram de tal envergadura que incitaram a inveja daqueles que, apenas poucos anos antes, haviam tratado tanto a Ele como a Seus companheiros de exílio, com sentimentos que eram uma mistura de condescendência e desprezo.

A drástica portaria do Sultão Abdu'l-'Azíz, embora não ab-rogado oficialmente, havia, a esta altura, se tornado letra morta. Se bem que Bahá'u'lláh fosse ainda nominalmente, um prisioneiro, "as portas da majestade e da verdadeira soberania estavam" - nas palavras de Abdu'l-Bahá, "abertas de par em par". "Os governantes da Palestina" - escreveu Ele, ainda mais - "Lhe invejaram a influência e o poder. Governadores e possessores, generais e oficiais da localidade, pediam humildemente a honra de atingir a Sua presença - um pedido ao qual Ele raramente cedia."

Foi nessa mesma morada que o renomado orientalista, Prof. E.G.Browne, de Cambridge, manteve com Bahá'u'lláh quatro entrevistas sucessivas, durante os cinco dias em que foi Seu hóspede em Bahji (15 a 20 de abril de 1890), encontros esse imortalizados pela histórica declaração do Exilado no sentido de que "estas infrutíferas contendas, estas calamitosas guerras, não mais se processarão, e a Suprema Paz terá seu advento." "De Sua face, em cuja contemplação me fixei" - é o memorável testemunho legado à posteridade por aquele professor - "jamais me esquecerei, embora não possa descreve-la. Aqueles olhos penetrantes pareciam ler-nos a própria alma; poder e autoridade residiam naquela testa larga... Não me foi preciso perguntar em presença de quem estava, enquanto me curvava diante daquele que é o objeto de uma devoção e um amor que os reis bem podem invejar e os imperadores em vão almejar!" "Aqui", declara o visitante, "passei cinco dias dos mais notáveis, durante os quais me foram concedidas oportunidades inesperadas e inigualáveis para intercurso com aqueles que são as fontes primazes desse espírito maravilhoso, potentíssimo, que opera com uma força invisível mas sempre crescente, efetuando a transformação e a ressurreição de um povo imerso num sono semelhante ao da morte. Foi realmente uma experiência extraordinária e comovente - uma experiência, entretanto, de que me sinto incapaz de dar mais que uma pálida impressão."

No mesmo ano a tenda de Bahá'u'lláh, o "Tabernáculo da Glória", foi erigida no Monte Carmelo, "o Monte de Deus e Sua Vinha", a terra natal de Elias, elogiada por Isaías como o "Monte do Senhor" para o qual "correrão todas as gentes". Quatro vezes Ele visitou Haifa, sendo que a última visita durou três meses. Durante uma dessas visitas, quando Sua tenda estava armada na vizinhança do Convento das Carmelitas, Ele, o "Senhor da Vinha", revelou a Epístola de Carmelo, notável por suas alusões e profecias. Em outra ocasião Ele mesmo indicou a Abdu'l-Bahá, ao deter-se no declive daquela montanha, o sítio que deveria servir para a sepultura permanente do Báb, e sobre o qual um adequado mausoléu seria mais tarde erigido.

Propriedades sitas às margem do Lago associado ao ministério de Jesus Cristo foram compradas, também por ordem de Bahá'u'lláh, com o fim de serem consagradas à glória de Sua Fé, e a serem as precursoras daquelas "grandes e majestosas estruturas" a serem erigidas - segundo Suas Epístolas - "por toda a extensão" da Terra Santa, e precursoras também dos "ricos e sagrados territórios às margens e nas vizinhanças do Jordão", os quais, nessa Epístolas, Ele dispusera fossem dedicados "à adoração ao serviço do Deus, Uno e verdadeiro."

A enorme expansão no volume da correspondência de Bahá'u'lláh; o estabelecimento de uma agência bahá'í em Alexandria para seu despacho e sua distribuição; as facilidades fornecidas por Seu fiel seguidor, Muhammad Mustafá, agora residente em Beirute para salvaguardar os interesses dos peregrinos que por essa cidade passava; a relativa facilidade com que um Prisioneiro nominal se comunicava com os centros que se multiplicavam na Pérsia, no Iraque, no Cáucaso, no Turquestão e no Egito; a missão por Ele confiada a Sulaymán Khán-i-Tanaká-Buní, conhecido como Jamál Effendi - a de iniciar uma campanha sistemática de ensino na Índia e na Burma; a nomeação de alguns de Seus seguidores como "Mãos da Causa de Deus"; a restauração da Casa Sagrada em Shíráz, que foi por Ele agora formalmente entregue à custódia da esposa do Báb e de sua irmã; a conversão de um número considerável dos aderentes da Fé Judaica, da Fé Zoroastriana e da Fé Budista, sendo isso o primeiro fruto do zelo e da perseverança tão notavelmente exibidos pelos instrutores viajantes na Pérsia, na Índia e na Burma - conversões essas que resultaram automaticamente em seu firme reconhecimento da origem Divina tanto do cristianismo como do islã - tudo isso atestou a vitalidade de Sua função de líder, a qual nem reis, nem eclesiásticos, por mais poderosos ou antagônicos que fossem, poderiam destruir ou minar.

Nem deveríamos deixar de nos referir ao fato de haver emergido na recém-fundada cidade de Ishqábád, no Turquestão Russo, uma próspera comunidade à qual estava assegurada a simpatia de um governo amistoso, que lhe possibilitava estabelecer um cemitério bahá'í, e comprar uma propriedade e nela erigir estruturas destinadas a serem as precursoras do primeiro Mashirqu'l-Adhkár do mundo bahá'í, nem deveríamos deixar de mencionar o estabelecimento de novos postos avançados da Fé nas longínquas regiões de Samarqand e Bukhárá, no coração do continente asiático, em conseqüência dos discursos e escritos do erudito Fádil-i-Qá'iní e do letrado apologista Mírzá Abu'l-Fadl, ou a publicação na Índia de cinco volumes dos escritos do Autor da Fé, inclusive Seu "Mais Sagrado Livro" - publicações que prenunciariam a vasta multiplicação de sua literatura, em várias escritas e línguas, e sua disseminação, em décadas posteriores, por todo o Leste bem como por todo o Oeste.

"O Sultão 'Abdu'l-'Azíz" disse Bahá'u'lláh, segundo relata um de Seus companheiros de exílio, "Nos desterrou para este país na maior humilhação, e desde que era seu propósito destruir-Nos e rebaixar-Nos, sempre que se apresentavam os meios de glória e comodidade, Nós não os recusávamos." "Agora, louvado seja Deus," Ele, além disso, comentou em uma ocasião, segundo relata Nabíl em sua narrativa, "chegou-se ao ponto em que toda a gente dessas regiões está manifestando sua submissão a Nós." E ainda - como se anotou nessa mesma narrativa: "O Sultão Otomano, sem qualquer justificação ou motivo, se levantou para Nos oprimir, e Nos mandou para a fortaleza de 'Akká. Sua portaria imperial decretou que ninguém Conosco se associasse e que viéssemos a ser objeto de ódio de todos. A Mão do Poder Divino, entretanto, celeremente Nos vingou, primeiro soltando os ventos da destruição contra seus dois insubstituíveis ministros e confidentes, 'Alí e Fu'ad, depois do que essa Mão se estendeu para envolver a armadura do próprio 'Aziz capturando-o como só pode capturar Aquele que é o Poderoso, o Forte."

"Seus inimigos", escreveu Abdu'l-Bahá, referindo-se a esse mesmo tema, "tencionavam, com Seu encarceramento, destruir e aniquilar totalmente a abençoada Causa, mas esta prisão foi, na realidade do maior benefício, tornando-se o meio de desenvolve-la" "...Este ilustre Ser", afirmou Ele, além disso, "enalteceu Sua Causa nesta Maior Prisão. Dessa Prisão Sua luz se difundiu largamente; Sua fama conquistou o mundo, e a proclamação de Sua glória alcançou o Oriente e o Ocidente." "De início fora Sua luz uma estrela; agora se tornou um poderoso sol." "Até o nosso tempo", declarou Ele ainda, "semelhante coisa jamais havia ocorrido."

Não é, pois, de estranhar que, em vista de tão completa transformação nas circunstâncias atinentes ao período de 24 anos de Seu exílio em 'Akká, o próprio Bahá'u'lláh tivesse escrito essas significativas palavras: "O Todo-Poderoso transformou esta Prisão no Mais Sublime Paraíso, no Céu dos Céus."

CAPÍTULO XII
O ENCARCERAMENTO DE BAHÁ'U'LLÁH
EM 'AKKÁ
(Continuação)

Enquanto Bahá'u'lláh e o pequeno grupo que O acompanhava estavam sendo sujeitados às severas durezas de um desterro planejado para elimina-los da face da terra, a comunidade de Seus seguidores, em constante expansão, na terra de Seu nascimento, estava sofrendo uma perseguição mais violenta e de maior duração do que as provações que afligiam Bahá'u'lláh e Seus companheiros. Embora em escala muito menor que os banhos de sangue que haviam batizado o nascimento da Fé, quando, no decurso de um só ano, assim como atestou Abdu'l-Bahá, "mais de quatro mil almas foram trucidadas, e uma grande multidão de mulheres e crianças foi deixada sem ninguém que as protegesse e amparasse", os atos horripilantes, assassinos, perpetrados subseqüentemente por um inimigo insaciável e tenaz, atingiram uma amplitude igual e eram caracterizados por ainda maior grau de ferocidade.

Nasiri'd-Din Sháh - a quem Bahá'u'lláh estigmatizara como o "Príncipe dos Opressores", como alguém que havia "perpetrado o que fez com que os habitantes das cidades da justiça e equidade lamentassem" - estava, no período ao qual nos referimos, na alta maré da virilidade e havia alcançado a plenitude de seu poder despótico. Sendo ele o único árbitro dos destinos de um país "firmemente estereotipado nas tradições imemoriais do Oriente"; estando rodeado de ministros venais, astuciosos e falsos", os quais ele podia elevar ou rebaixar a seu bel-prazer; sendo ele o chefe de uma administração na qual "cada ator era, sob diferentes aspectos, a um tempo o subornador, e o subornado"; estando aliado, em sua oposição à Fé, com uma ordem sacerdotal que constituía uma verdadeira "igreja-estado", e apoiado por um povo que se destacava na atrocidade, um povo notório por seu fanatismo, sua servilidade, sua cupidez, e por suas práticas corruptas - esse monarca volúvel, não mais podendo pôr as mãos na pessoa de Bahá'u'lláh, teve que conformar-se com a tarefa de tentar erradicar, em seus próprios domínios, os remanescentes de uma comunidade muito temida e recentemente ressuscitada. Em segundo lugar depois dele, no tocante ao grau e poder, estavam seus três filhos mais velhos, aos quais, para fins de administração interna, ele delegara, praticamente, sua autoridade e os quais investira no cargo de governadores de todas as províncias de seu reino. A província de Azerbaijão ele entregara ao fraco e tímido Muzaffari'd-Dín Mírzá, herdeiro do trono, que havia caído sob a influência da seita shaykhí e estava mostrando notável respeito pelos mullás. Ao austero e selvagem governo do astucioso Mas'úd Mírzá - comumente conhecido como Zillu'Sultán, o mais velho dos filhos sobreviventes, cuja mãe fora de origem plebéia - havia ele entregue mais de dois quintos de seu reino, inclusive as províncias de Yazd e Isfahan, enquanto a Kámrán Mírzá, seu filho favorito, comumente chamado por seu título, o Náyibu's-Saltanih, conferira jurisdição sobre Gilán e Mázindarán, e esse filho também ele fez governador de Teerã, seu ministro de guerra e o comandante-chefe de seu exército. Tal foi a rivalidade entre este dois últimos príncipes - os quais entre si competiam em cortejar o pai, com intento de obterem favores - que cada um, apoiado pelos principais mujtahids dentro de sua jurisdição, se esforçava por eclipsar o outro na meritória tarefa de caçar, saquear e exterminar os membros de uma comunidade indefesa, as quais, a mando de Bahá'u'lláh, cessaram de oferecer resistência armada, até em defesa própria, de acordo com a injunção de que "melhor é ser morto do que matar". E os agitadores clericais, Hájí Mullá 'Alíy-i-Kaní e Siyyid Sádiq-i-Tabátabá'í, os dois principais mujtahids de Teerã - juntamente com Shaykh Muhammad-Báqir, seu colega em Isfahan, e Mír Muhammad-Husayn, o Imame Jum'ih dessa cidade - tampouco estavam dispostos a deixar passar a menor oportunidade sem agredirem, com toda a força e autoridade que lhes cabiam, um adversário cujas influências liberalizadoras eles - com ainda mais motivo do que o próprio soberano - temiam.

Não é de se admirar que a Fé, ao ser confrontada com uma situação tão cheia de perigos, se tivesse visto forçada a agir clandestinamente, e que as características que se destacavam nesse período convulsivo em sue desenvolvimento, fossem apreensões, interrogatórios, encarceramentos, vituperações, pilhagens, torturas e execuções. As peregrinações que se haviam iniciado em Adrianópolis e que, em 'Akká, mais tarde, assumiram proporções impressionantes, juntamente com a disseminação das Epístolas de Bahá'u'lláh e a circulação de entusiásticas informações por intermédio daqueles que haviam atingido Sua presença - tudo isso serviu, ainda mais, para inflamar a animosidade do clero e leigos igualmente, havendo eles imaginado nesciamente, que a ruptura ocorrida nas fileiras dos adeptos da Fé em Adrianópolis e a sentença de exílio vitalício pronunciada em seguida contra seu Líder viessem a selar irreparavelmente seu mau destino.

Em Ábádih, um certo Ustád 'Alí-Akbar foi apreendido, à instigação de um siyyid local, e tão impiedosamente açoitado que se cobriu da cabeça aos pés com seu próprio sangue. Na aldeia de Tákur, a mando do xá, foram pilhadas as propriedades dos habitantes; Hájí Mírzá Ridá-Qulí, meio-irmão de Bahá'u'lláh, foi preso e então levado à capital e lançado no Síyáh-Chál, onde permaneceu por um mês, enquanto o cunhado de Mírzá Hasan,outro meio-irmão de Bahá'u'lláh, foi aprisionado e marcado com ferretes em brasa, depois do que a aldeia vizinha de Dar-Kalá foi entregue às chamas.

Aqá Buzurq de Khurásán, o ilustre 'Badí' (Maravilhoso) - convertido à Fé por Nabíl, apelidado o "Orgulho dos Mártires", com dezessete anos de idade, o portador da Epístola dirigida a Nasiri'd-Din-Sháh e em quem - segundo afirmou Bahá'u'lláh, "se soprou o espírito de grandeza e poder" - foi preso e ferreteado por três dias sucessivos, enquanto sua cabeça foi batida com uma coronha até ser reduzida a massa, depois do que lançaram o corpo numa cova e sobre ele amontoaram terra e pedras. Após haver visitado Bahá'u'lláh no segundo ano de Seu encarceramento, no quartel, Badí, havia se levanado com extraordinária vivacidade para levar essa Epístola de Teerã, a pé e sozinho, e entrega-la nas mãos do soberano. Uma viagem de quatro meses o levara àquela cidade e, depois de passar três dias em jejum e vigília, havia se encontrado com o xá, quando ele estava partindo para Shimírán em uma expedição de caça. Calma e respeitosamente havia Badí se aproximado de Sua Majestade, exclamando: "Ó Rei! Venho a ti de Sheba, com uma mensagem importante!" Com isso, mandou o Soberano tirar-lhe a Epístola e entregá-la aos mujtahids de Teerã com a ordem de que respondessem à Epístola - ordem essa da qual se esquivaram, recomendando, em lugar disso, que o mensageiro fosse executado. O xá subseqüentemente enviou essa Epístola ao embaixador persa em Constantinopla, na esperança de que sua leitura pelos ministros do Sultão servisse para lhes informar ainda mais a animosidade. Durante três anos continuou Bahá'u'lláh a elogiar em Seus escritos heroísmo daquele jovem, caracterizando as referências que fazia àquele sacrifício sublime como o "sal de Minhas Epístolas'.

Abá-Basír e Siyyid Ashraf, cujos pais haviam sido trucidados na luta de Zanján, foram decapitados, no mesmo dia, naquela cidade. O primeiro até chegou ao ponto, enquanto se ajoelhava em oração, de dar a seu algoz instruções sobre o melhor modo de infligir o golpe, enquanto o segundo, após haver sido açoitado tão brutalmente que o sangue lhe corria debaixo das unhas, foi decapitado, enquanto segurava nos braços corpo de seu companheiro martirizado. Foi a mãe desde mesmo Ashraf quem - ao ser mandada à prisão na esperança de que persuadisse a esse, seu único filho, a retratar-se - lhe advertira que ela o deserdaria, fosse ele renunciar sua fé, mandando que seguisse o exemplo de Abá-Basír e até presenciara sua morte sem que uma lágrima lhe turvasse a vista. A Muhammad-HasanKhán-i-Káshí, homem de grandes recursos e proeminente, deram bastonadas tão impiedosamente, em Burújírd, que ele sucumbiu a esse castigo. Em Shíráz, Mírzá Áqáy-i-Riháb-Sáz, juntamente com Mírzá Rafí-i-Khayyát e Mashhadí Nabí, foram, por ordem do mujtahid local, estrangulados simultaneamente, na calada da noite, e suas sepulturas, a turba mais tarde profanou, amontoando sobre elas refugo. A Shaykh Abu'l-Qásim-i-Mázkání, em Káshán, - que declinara beber a água que lhe foi oferecida antes de sua morte, afirmando que tinha sede da taça do martírio - infligiram um golpe fatal na nuca, enquanto se prostrava em oração.

Mírzá Báqir-i-Shírází, que transcrevera as Epistolas de Bahá'u'lláh em Adrianópolis com tão completa devoção, foi morto em Kirmán, enquanto em Ardikán o idoso e enfermo Gul-Muhammad foi agredido por uma turba furiosa, lançado ao chão, e a tal ponto espezinhado pelas botas tachonadas de dois siyyids que as costelas foram esmagadas e os dentes quebrados, depois de que seu corpo foi levado às cercanias da cidade e enterrado em uma cova, para ser, no dia seguinte, exumado, arrastado pelas ruas e, finalmente, abandonado no deserto. Na cidade de Mashad, notória por seu irrestrito fanatismo, Hájí 'Abdu'l-Majíd - de oitenta e cinco anos de idade, pai do Badí, acima mencionado e sobrevivente da luta de Tabarsí, e que, após o martírio de seu filho, havia visitado Bahá'u'lláh e regressado a Khurásán, inflamado de zelo - foi cortado da cintura até a garganta, sendo a cabeça colocada em lâmina de mármore e exposta aos olhares de uma multidão de espectadores insultantes que, depois de arrastarem o corpo ignominiosamente pelos bazares, o deixaram no necrotério para ser reclamado pelos parentes.

Em Isfahan Mullá Kazim foi decapitado por ordem de Shaykh Muhammad-Báqir, e fizeram galopar um cavalo sobre seu cadáver, o qual foi então entregue às chamas, enquanto Siyyid Áqá Ján sofreu a amputação de suas orelhas e foi conduzido por um cabresto através das ruas e dos bazares. Um mês depois, nessa mesma cidade, ocorreu a tragédia dos dois famosos irmãos, Mírzá Muhammad-Hasan e Mírzá Muhammad-Husayn, "as brilhantes luzes gêmeas", apelidados respectivamente "Sultánu'sh-Shuadá (Rei dos Mártires) e "Makbúbu'sh-Shuadá" (Bem-Amado dos Mártires), que eram celebres por sua generosidade, sua honradez, sua benevolência e piedade. Seu martírio foi instigado pelo desonesto e malvado Mír Muhammad-Husayn, o Imame Jum'ij, estigmatizado por Bahá'u'lláh como a "serpente", que, em vista de uma enorme dívida contraída em transações com eles, urdiu um meio de anular suas obrigações, denunciando-os como bábís e assim causando-lhes a morte. Suas casa ricamente mobiliadas, e até as árvores e flores em seus jardins foram sacrificadas, sendo confiscados todos os demais bens. Shaykh Muhammad-Báqir, denunciado por Bahá'u'lláh como o "lobo", pronunciou a sentença de morte, e o Zîllu's-Sultán ratificou a decisão, depois do que foram acorrentados, decapitados, arrastados ao Maydán-i-Sháh e lá expostos às indignidades sobre eles amontoadas por uma populaça degradada e rapace. "De tal maneira", escreveu Abdu'l-Bahá, "se derramou o sangue desses dois irmãos, que o padre cristão de Julfá vociferou, se lamentou e chorou naquele dia." Por vários anos continuou Bahá'u'lláh a menciona-los em Suas Epístolas, a expressar Sua tristeza por seu passamento e lhes exaltar as virtudes.

Mullá 'Alí Ján foi conduzido a pé de Mazindarán a Teerã, e tão severos foram os sofrimentos dessa viagem que seu pescoço ficou ferido e o corpo intumesceu, da cintura aos pés. No dia de seu martírio ele pediu água, fez sua abluções, recitou suas preces, presenteou o algoz com uma considerável soma de dinheiro, e ainda se ocupava em oração quando sua garganta foi cortada por um punhal, depois do que cuspiram sobre o cadáver, cobriram-no de lama, deixaram-no exposto por três dias e, finalmente, o cortaram em pedaços. Mullá 'Alí, que fora convertido à Fé nos dias do Báb, foi tão severamente atacado em Námiq, sendo suas costelas a tal ponto quebradas com uma picareta, que ele morreu instantaneamente. Mírzá Ashraf foi trucidado em Isfahan, sendo seu cadáver pisoteado por Shaykh Muhammad Taqiy-i-Najafí, o "filho do lobo", e seus discípulos, selvagemente mutilados e entregues à turba para serem queimados, depois do que seus ossos chamuscados foram enterrados sob as ruínas de uma muralha, que foi derrubada para cobri-los.

Em Yazd, por instigação do mujtahid da cidade e por ordem do insensível Mahmúd Mírzá, o Jalúlu'l-Dawlih, o governador, filho de Zillu's-Sultán, sete foram mortos em um só dia, em circunstâncias horripilantes. O primeiro destes, um jovem de vinte e sete anos, 'Alí-Asghar, foi estrangulado, sendo seu corpo entregue às mãos de alguns judeus, que, forçando os seis companheiros do homem morto a irem com eles, arrastaram o cadáver através das ruas, rodeados por uma turba de gente e por soldados, todos tocando tambores e fazendo soarem trombetas. Depois disso, ao chegarem perto da Agência de Telégrafos, decapitaram Mullá Mihdí, de oitenta e cinco anos de idade, e o arrastaram da mesma maneira a um outro bairro da cidade, onde, diante de uma grande multidão de espectadores, frenéticos com as cordas vibrantes da música, executaram do mesmo modo, Áqá Alí. Daí prosseguindo até a casa do mujtahid local e com eles levando os quatro companheiros restantes, cortaram a garganta de Mullá 'Alíy-i-Sabzivári - que havia estado dirigindo-se à turba e gloriando-se de seu iminente martírio - com pá lhe despedaçaram o corpo enquanto ele ainda vivia e batiam com pedras no crânio até reduzi-lo a massa informe. Em outro bairro, perto do portão de Mihríz, trucidaram Muhammad-Báqir e depois disso, no Maydán-i-Khán, à medida que a música se tornava mais frenética e abafava os brados do povo, decapitaram aqueles que ainda sobreviviam, dois irmãos de vinte e poucos anos, 'Alí-Asghar e Muhammad-Hasan. Rasgaram o abdômen deste último e lhe tiraram o coração e o fígado, depois de que a cabeça foi empalada numa lança, levada no alto com acompanhamento de música, pelas ruas da cidade, pendurada, afinal, numa amoreira e lá apedrejada por uma grande multidão. Seu corpo eles jogaram na porta da casa de sua mãe, onde entraram mulheres deliberadamente para dançarem e festejarem. Até levaram pedaços de sua carne para usar como medicamento. Finalmente prenderam a cabeça de Muhammad-Hasan à parte inferior do corpo e levaram-na, juntamente com os dois outros mártires, para fora da cidade, onde tão selvagemente as apedrejaram que os crânios foram quebrados, depois do que obrigaram os judeus a levar os restos e joga-los numa cova na planície de Salsabil. O governador declarou um feriado para o povo, fechou-se o comercio todo por sua ordem, à noite a cidade foi iluminada e festividades proclamaram a consumação de um dos mais bárbaros atos perpetrados em tempos modernos.

Nem tampouco os judeus e os parsis recém-convertidos à Fé - que viviam, aqueles em Hamadán e estes últimos em Yazd - foram imunes aos assaltos dos inimigos cuja fúria foi exasperada diante das evidências da penetração da luz da Fé em lugares que eles ingenuamente imaginaram estarem além do seu alcance. Até na cidade de Ishqábád, a recém-estabelecida comunidade xiita, invejosa do crescente prestígio dos seguidores de Bahá'u'lláh que viviam em seu meio, instigou dois homens brutais a assaltarem o setuagenário Hájí Muhammad-Riday-i-Isfáhání, a quem, em plena luz do dia e em meio ao bazar, apunhalaram em nada menos que trinta e dois lugares, lhe expondo o fígado, lacerando o estômago e rasgando o peito. Um tribunal militar que o Czar enviou a Ishqábád estabeleceu, após prolongada investigação, a culpabilidade dos xiitas e sentenciou dois deles à morte e a seis outros desterrou - sentença esta que nem Násiri'd-Dín Sháh, nem os ulemás de Teerã, de Mashhad e de Tabríz (aos quais se dirigiu um apelo) puderam mitigar, mas que os representantes da atribulada comunidade, através da sua magnânima intercessão - a qual muito surpreendeu as autoridades russas - conseguiram que fosse comutada por um castigo menos severo.

Tais são alguns exemplos típicos do tratamento dado pelos adversários da Fé à comunidade de sus seguidores que ressurgia durante o período do exílio de Bahá'u'lláh a 'Akká - um tratamento que, em verdade, se pode dizer, atestava alternadamente "a insensibilidade do bruto e ao engenho do demônio."

A "inquisição e as pavorosas torturas" que seguiram o atentado contra vida de Násiri'd-Dín Sháh, já haviam dado à Fé - citando-se as palavras de um observador tão iminente como Lord Curzon de Kedleston - "uma vitalidade que nenhum outro impulso teria conseguido." Esse recrudescimento de perseguição, esse novo fluxo do sangue dos mártires, serviu para avivar ainda mais as raízes daquela Sagrada Árvore que já haviam penetrado em seu solo nativo. Os seguidores de Bahá'u'lláh - não se preocupando com a política de fogo e sangue que visava seu aniquilamento, não desalentados pelos trágicos golpes que choviam sobre um Líder que fora removido para tão longe deles, não corrompidos pelos atos vis e sediciosos perpetrados pelo Arqui-Violador do Convênio do Báb - multiplicavam-se em número e, silenciosamente, adquiriam a força necessária que, em época posterior, haveria de capacita-los a levantar as cabeças em liberdade e erguer a estrutura de suas instituições.

Pouco depois de sua visita à Pérsia no outono de 1889, Lord Curzon escreveu - entre as referências que miravam dissipar a "grande confusão" e "erro'que prevaleciam "em meio aos escritores da Fé - que "se acredita agora que os bahá'ís compõem dezenove vigésimos dos crentes bábís. Comte Gobineu, escrevendo em época tão remota como o ano 1865, deu o seguinte testemunho: "A opinião geral é que os bábís se têm espalhado em todas as classes da população e entre os aderentes de todas as religiões da Pérsia, exceto os nusayrís e os cristãos; mas são especialmente as classes ilustres, os homens devotados às ciências, que estão mais sujeitos à suspeita. Pensa-se, e com razão, segundo parece, que muitos dos mullás e, entre eles, um número considerável de mujtahids, magistrados de alto grau, alguns homens que exercem na corte funções importantes e que têm íntima associação com o Rei, são bábís. De acordo com o cálculo feito recentemente, haveria em Teerã cinco mil adeptos dessa religião em uma população de mais ou menos oitenta mil almas." E ainda mias: '... O bábísmo tem exercido uma influência considerável sobre os intelectuais da nação persa e, estendendo-se até mesmo além dos limites do território, atingiu o "pachalik" de Bagdá e também penetrou na Índia." E ainda: "... Um movimento religioso muito especial com o qual a Ásia Central - isto é, a Pérsia, alguns lugares da Índia e uma parte da Turquia asiática nos arredores de Bagdá - está vivamente preocupada hoje - um movimento notável e digno de ser estudado em todos os aspectos. Permite testemunhar o desenvolvimento de tais feitos, de tais manifestações, de tais catástrofes como não se está acostumado a imaginar, salvo nos tempos remotos em que foram produzidas as grandes religiões."

"Essas mudanças, no entanto", escreveu, além disso, Lord Curzon, - referindo-se à Declaração da Missão de Bahá'u'lláh e à rebelião de Mírzá Yahyá - "de modo algum têm sido um obstáculo e sim, ao contrário, parecem haver estimulado sua propagação, pois tem avançado com uma rapidez que parece inexplicável àqueles que só podem ver nela (a Fé) uma rude forma de fermento político ou, mesmo, metafísico. Segundo o mais baixo cálculo, o número atual de bábís na Pérsia atinge a meio milhão. Estou disposto a pensar, baseando-me em conversações com pessoas bem qualificadas para julgar, que o total é mais perto de um milhão." "Encontram-se", acrescenta ele, "em todas as camadas sociais, desde os ministros e nobres da corte até o varredor de ruas e o lacaio, não sendo a menor arena de sua atividade o próprio sacerdócio muçulmano." "Dos fatos" - é outro testemunho seu - "de que o bábísmo em seus primeiros anos se via em conflito com os poderes civis, e de que um atentado contra a vida do xá foi feito por bábís, se tem inferido erroneamente que o movimento era de origem política e de caráter niilista... Atualmente os bábís são tão leais como quaisquer outros súditos da Coroa. Tampouco parece haver maior justiça nas acusações de socialismo, comunismo e imoralidade que tão livremente se tem feito contra a jovem crença... O único comunismo que Ele (o Báb) conhecia e recomendava era o do Novo Testamento e da Igreja Cristã primitiva, a saber, o de os membros da Fé, em comum, compartilharem os bens e o de ser dar esmolas e de praticar uma ampla caridade. A acusação de imoralidade parece haver surgido, em parte, das maliciosas invenções dos adversários e, em parte, da maior liberdade concedida às mulheres pelo Báb - o que, na mentalidade oriental, dificilmente se distingue de conduta libertina." E veio, afinal, de sua pena, o seguinte prognóstico: "Se o bábísmo continuar a crescer, mantendo o ritmo atual do progresso, é concebível que venha o tempo em que eliminará o maometanismo do campo da Pérsia. Isso, creio, provavelmente não aconteceria se se apresentasse no terreno sob a bandeira de uma fé hostil, mas já que seus recrutas se ganham dentre os melhores soldados da guarnição atacada, há maior razão para se acreditar que possa, afinal, prevalecer."

Nem o encarceramento de Bahá'u'lláh na Prisão-Fortaleza de 'Akká, com as muitas tribulações que suportou, nem as prolongadas provações a que se vinha sujeitando a comunidade de Seus adeptos na Pérsia, poderiam deter - e de fato nem sequer impediriam no mínimo grau - a poderosa torrente da Divina Revelação que vinha fluindo de Sua pena ininterruptamente e da qual a futura orientação, a integridade, a expansão e a consolidação de Sua Fé diretamente dependiam. Seus escritos durante os anos de Seu encarceramento, na Suprema Prisão excederam realmente, em número e variedade, a produção de Sua pena quer em Adrianópolis ou em Bagdá. Mais notável que a radical, transformação nas circunstâncias de Sua vida em 'Akká e de maior repercussão em seus efeitos espirituais do que a campanha de repressão processada tão implacavelmente pelos inimigos de Sua Fé na própria terra natal, esse aumento sem precedentes no âmbito de Sua produção literária, durante Seu exílio naquela Prisão, deve ser considerado uma das fases mais vivificantes e produtivas na evolução de Sua Fé.

Os ventos tempestuosos que varreram a Fé no início de Seu ministério e a desolação hibernal que assinalou os primórdios de Sua carreira profética, logo após Seu exílio de Teerã, foram seguidos, durante a última parte de Sua estada em Bagdá, por aquilo que se poderia descrever como os anos vernais de Sua Missão - anos que viram rebentarem em visível atividade as forças inerentes naquela Semente Divina, as quais haviam permanecido latentes desde o trágico desaparecimento de Seu Precursor. Com Sua vinda a Adrianópolis e a proclamação de Sua Missão, o Orbe de Sua Revelação, por assim dizer, subiu ao zênite e resplandeceu - assim como atestam o estilo e o tom de Seus escritos - na plenitude de Sua glória estival. O período de Seu encarceramento em 'Akká trouxe a maturação de um processo lento, gradativo, e foi um período em que, afinal, os mais preciosos frutos dessa missão foram colhidos.

Os escritos de Bahá'u'lláh durante esse período nos parecem - ao contemplarmos o vasto campo que abrangem - cair em três categorias distintas. A primeira compreende aqueles escritos que constituem a seqüela da proclamação de Sua Missão em Adrianópolis. A segunda inclui as leis e os preceitos de Sua Dispensação, os quais, em sua maior parte, foram registrados no Kitáb-i-Aqdas, Seu Mais Sagrado Livro. À terceira devem ser assinadas aquelas Epístolas que em parte enunciam e em parte reafirmam os preceitos e princípios fundamentais que baseiam essa Dispensação.

A Proclamação de Sua Missão, como se já observou, fora dirigida em especial aos reis da terra, os quais, em virtude do poder e da autoridade que exerciam, estavam investidos de uma responsabilidade peculiar e inescapável pelos destinos de seus súditos. Foi a esses reis, bem como aos dirigentes religiosos do mundo - cuja influência sobre a generosidade dos seguidores não era menos predominante - que o Prisioneiro de 'Akká dirigia Seus apelos, Suas advertências e exortações durante os primeiros anos de Seu encarceramento nessa cidade. "Ao chegarmos nesta Prisão", afirma Ele Próprio, "era Nosso propósito transmitirmos aos reis as mensagens de seu Senhor, o Poderoso, Alvo de todo louvor. Se bem que, em várias Epístolas, lhes tenhamos transmitindo o que Nos foi ordenado, Nós o fazemos, no entanto, ainda outra vez, como sinal da graça de Deus."

Os reis da terra, tanto no Oriente como no Ocidente,quer cristãos ou muçulmanos, haviam sido admoestados e advertidos coletivamente no Súriy-i-Mulúk, revelados em Adrianópolis, como também fervorosamente exortados pelo Báb, no capítulo inicial do Qayyúmu'l-Asmá, revelado na mesma noite da Declaração de Sua Missão. A eles agora Bahá'u'lláh, durante os mais negros dias de Seu encarceramento em 'Akká, dirigiu algumas das mais elevadas passagens de Seu Sacratíssimo Livro. Nestas passagens, concitou-os a penetrarem bem no espírito da "Suprema Lei", proclamou-se o "Rei dos Reis" e o "Desejo de Todas as Nações"; declarou que eles eram Seus "vassalos" e "emblemas de Sua soberania"; negou qualquer intenção de apoderar-se dos seus reinos; concitou-os a abandonarem os palácios e a darem-se pressa em penetrar no Seu Reino; elogiou aquele rei que se levantasse para auxiliar a Sua Causa, denominando-o "o próprio Olho da humanidade"; e finalmente repreendeu-os por tudo que Lhe sucedera em suas mãos.

Na Epístola à Rainha Vitória, Ele, além disso, convida esses reis a assegurarem a "Paz Menor", desde que recusavam "a Paz Suprema"; exorta-os a se reconciliarem uns com os outros, a se unirem e reduzirem os armamentos; aconselha-os a se conterem, não fazendo pesar excessivas cargas sobre seus súditos, os quais, Ele lhes informa, são seus "tutelados" e "tesouros"; enuncia-lhes o princípio de que, se qualquer um entre eles empunhasse armas contra um vizinho, todos os outros deveriam levantar-se contra ele; e avisa-os que não façam com Ele o mesmo que Lhe fizeram o "Rei do Islã" e seus ministros.

Ao Imperador da França, Napoleão III, o monarca mais destacado e de maior influência do Ocidente em seu tempo, apontado por Ele como o "maior dos Soberanos", o qual - citando Suas palavras - "rejeitara" a Epístola a ele dirigida em Adrianópolis, Bahá'u'lláh, quando prisioneiro no quartel, dirigiu uma segunda Epístola, encaminhando-a por intermédio do representante francês em 'Akká. Por esta, Ele anuncia a vinda "Daquele que é o Independente", cujo propósito é "vivificar o mundo" e unir seus povos; assegura inequivocamente que Jesus Cristo foi Arauto de Sua Missão; proclama a queda "dos astros do firmamento do saber" que se tenham afastado Dele; profetiza claramente que seu domínio "entrará em caos", "seu império se desvanecerá" de suas mãos, e "agitações se manifestarão em toda a gente nesse país", a não ser que ele se decida a ajudar a Causa de Deus e se disponha a seguir Aquele que é o Seu Espírito.

Em memoráveis passagens dirigidas aos "Chefes de Estado e Presidentes das Repúblicas da América", em seu Kitáb-i-Aqdas, concita-os a "adornar o templo do poder com o paramento da justiça e do temor a Deus, e as suas cabeças com a coroa do preito" ao Senhor, anuncia que "O Prometido" já se revelou; aconselha-os a se valerem do "Dia de Deus", e convida-os a "atender aos oprimidos com as mãos da justiça" e a "esmagar" o "opressor" com "o bastão dos mandamentos de Seu Senhor, O que ordena, o Ordenador, o Onisciente."

A Nicolaevitch Alexandre II, o todo-poderoso czar da Rússia, Ele dirigiu, quando ainda prisioneiro naquele quartel, uma Epístola em que anuncia o advento do Pai prometido a quem "a língua de Isaías exaltou" e "cujo nome adornou tanto o Torah como o Evangelho"; mando-o "levantar-se... e convocar as nações para Deus"; adverte-o que se acautele a fim de que sua soberania não o afaste "Daquele que é o Supremo Soberano"; reconhece o auxílio prestado por seu Embaixador em Teerã, e previne-o a não desmerecer o posto para ele designado por Deus.

Durante esse mesmo período, dirigiu Bahá'u'lláh à Rainha Vitória uma Epístola na qual a convida a prestar ouvidos à voz de seu Senhor, o Senhor de toda a humanidade; concita-a a "desprezar tudo que está sobre a terra" e dirigir seu coração a Deus, o Ancião dos Dias; declara "ter-se realizado tudo o que está citado nos Evangelhos"; garante-lhe que Deus a recompensaria por ter "proibido o comércio de escravos", se ouvisse o que lhe fora mandado por Ele; louva-a por ter "confiado as rédeas do conselho às mãos dos representantes do povo" e exorta-os a "se considerarem como os representantes de todos os que habitam na terra", e a julgarem entre os homens com "inteira justiça".

Em celebrada passagem dirigida a Guilherme I, Rei da Prússia e recém-aclamado imperador de uma Alemanha unificada, Bahá'u'lláh, em Seu Kitáb-i-Aqdas , convida o soberano a ouvir Sua voz, a Própria Voz de Deus; previne-o a tomar cuidado a fim de que seu orgulho não o prive de reconhecer "a Aurora da Revelação Divina" , e adverte-o a "lembrar daquele (Napoleão III) cujo poder excedeu" o seu próprio, e que "desmoronou fragorosamente." Nesse mesmo Livro, apostrofando as "margens do Reno", prediz que "as espadas do justo castigo" seriam desembainhadas contra elas, e que "as lamentações de Berlim" se falariam ouvir, não obstante serem os seus dias presentes de "radiante glória".

Em outra notável passagem desse mesmo Livro, dirigida a Francisco José, o Imperador Austríaco e herdeiro do Sagrado Império Romano, Bahá'u'lláh reprova o soberano por ter descuidado de saber a Seu respeito no decurso de uma peregrinação a Jerusalém; toma Deus como testemunha de que o encontrara "aderindo ao Ramo, sem dar atenção à Raiz"; aflige-se em observar seus caprichos, e aconselha-o a abrir os olhos e fixar-se na "Luz que brilha sobre este esplendoroso Horizonte".

A 'Álí Páshá, o Grão-Vizir do Sultão da Turquia, dirigiu, pouco tempo depois de Sua chegada a 'Akká, uma segunda Epístola, em que o repreendeu por sua crueldade "que fez o inferno arder e o Espírito lamentar-se"; relata seus atos de opressão; aponta-o como um daqueles que, desde tempos imemoriais, têm denunciado os Profetas como propagadores do mal; prediz sua queda; estende-se a respeito de Seus próprios sofrimentos e dos de Seus companheiros de exílio, cujo desprendimento e ânimo forte Ele elogia; prediz que a "inflamada ira" do Senhor cairá sobre ele e seu governo, que "a sedição será incitada" em meio deles e seus "domínios serão destrocados"; e afirma que, se ele despertasse para a luz, abandonaria todas as suas possessões e "iria habitar um dos arruinados quartos da Suprema Prisão". No Lawh-i-Fu'ád, na parte que se refere à morte prematura do Ministro do Exterior do Sultão, Fu'ad Pásha', Ele confirma a supracitada predição nas seguintes palavras: "Cedo Nós despediremos aquele ('Alí Páshá), que era semelhante a ele e prenderemos seu governante (Sultão 'Abdu'l- 'Azíz) que rege a terra e Eu, em verdade, sou o Todo-Poderoso que tudo comanda."

Não menos francas e enfáticas são as mensagens - algumas incorporadas em Epístolas específicas, outras espalhadas ao longo de Seus escritos - que Bahá'u'lláh dirigiu aos chefes eclesiásticos do mundo, mensagens em que descerra, clara e abertamente, os propósitos de Sua Revelação, convida-os a atenderem ao Seu chamado, e, em certos, denuncia a perversidade, extrema arrogância e tirania desses líderes eclesiásticos.

Em imortais passagens do Seu Kitáb-i-Aqdas e outras Epístolas, convida todos esses líderes eclesiásticos a "temerem a Deus", a "conterem" suas penas, "renunciar vãs fantasias e imaginações, e voltar-se então para o Horizonte da Certeza"; adverte-os que "não julguem o Livro de Deus (Kitáb-i-Aqdas) segundo as normas e ciências vulgares"; aponta esse Livro como a "Infalível Balança estabelecida entre os homens"; lamenta-lhes a cegueira e os caprichos; protesta Sua própria superioridade em visão, discernimento, elocução e sabedoria; proclama Seu conhecimento inato, concedido por Deus; exorta-os a não "imporem à humanidade ainda outro véu" depois de haver Ele Próprio "rompido esses véus de mistificação", acusa-os de terem sido "a causa do repúdio à Fé nos primeiros dias", e intima-os a que "examinem com boa fé e justiça aquilo que fora revelado" por Ele, e a não "desbaratarem a Verdade"com os meios de que dispõem.

Ao Papa Pio IX - inegavelmente o chefe da mais poderosa igreja da Cristandade, possuidor de autoridade tanto temporal como espiritual - Ele, um prisioneiro no quartel do exército da colônia penal de 'Akká dirigiu uma influentíssima Epístola, na qual anuncia que "Aquele que é o Senhor dos Senhores veio sombreado de nuvens" e que o "Verbo que o Filho oculta se torna manifesto". Adverte-lhe ainda mais, que com Ele não deve disputar como os fariseus de antanho disputaram com Jesus Cristo, ordena-lhe que deixe seus palácios para quem quer que os deseje, "venda todos os elaborados ornamentos" que possui e os "despenda no caminho de Deus", que abandone seu reino aos reis, "se levante... entre os povos da terra" e os convoque à Sua Fé. Considerando-o como um dos sóis do céu dos nomes de Deus, lhe adverte que se acautele para que sobre ele a "escuridão não estenda seus véus"; solicita-os a "exortar os reis"; a "tratarem os homens com equidade"; e aconselha que siga as pegadas de seu Senhor e Lhe imite o exemplo.

Aos patriarcas da Igreja Cristã Ele emitiu um especifico chamado no qual proclama a vinda do Prometido, os exorta a "temerem a Deus" e não seguirem "as vãs fantasias dos supersticiosos"; e lhes instrui que deixem de lado as coisas que eles possuem e "se segurem firmemente à Epístola de Deus, através de Seu poder soberano". Aos arcebispos dessa Igreja, outrossim, declara que "apareceu Aquele que é o Senhor de todos os homens", que eles "se incluem no número dos mortos", e que é grande a bem-aventurança de quem "se move com a brisa de Deus e se tem levantado dentre os mortos, neste Nome manifesto." Em passagens dirigidas aos bispos da Igreja Ele proclama que "o Pai Sempiterno chama em alta voz entre a terra e o céu; pronuncia-os as estrelas caídas do céu de Seu conhecimento e afirma que Seu corpo "anseia pela cruz" e Sua cabeça "almeja o dardo no caminho do Todo-Misericordioso". À congregação dos sacerdotes cristãos, Ele manda que "deixem os sinos" e saiam de suas igrejas; exorta-os a "proclamar em alta voz entre as nações o Nome Supremo"; assegura-lhes que quem convocou os homens em Seu Nome "manifestará o que está além do poder de todos os que estão na terra"; adverte-lhes que o "Dia do Juízo apareceu"; e lhes aconselha que se volvam com seus corações para seu "Senhor, o Clemente, o Generoso". Em numerosas passagens dirigidas à "congregação de monges", lhes solicita que se não reclusem em igrejas e claustros e sim se ocupem naquilo que trará proveito às suas almas e às almas dos homens; manda-os contraírem matrimônio; e afirma que, se decidirem segui-Lo, Ele os fará os herdeiros de Seu Reino e, se contra Ele transgredirem, isso, com Sua tolerância, Ele suportara pacientemente.

Finalmente, em diversas passagens dirigidas a todos os seguidores de Jesus Cristo, identifica-se com o "Pai" citado par Isaias, com o "Consolador" cujo Convênio fora estabelecido por Aquele mesmo que é o Espírito (Jesus), e com o "espírito da Verdade" que os guiará "em toda a verdade"; proclama o seu Dia como sendo o Dia de Deus; anuncia a conjunção do rio Jordão como "Supremo Oceano"; lembra-lhes a negligência com que agiram e o fato de ter sido Ele quem lhes abriu os "portais do Reino"; assegura-lhes que o prometido "Templo" foi construído "com as mãos da vontade" do seu Senhor, o Poderoso, o Generoso; exorta-os a "rasgarem os véus" e ingressar em Seu nome, no Seu reino; cita as palavras de Jesus a Pedro, e garante-lhes que, se ales resolverem segui-Lo, Ele os transformará em "salvadores da humanidade".

A todo o corpo eclesiástico muçulmano, Bahá'u'lláh dedicou inumeráveis passagens especificas nos Livros e Epístolas, nos quais lhes denuncia a crueldade em termos veementes; condena-lhes o orgulho e a arrogância; exorta-os a renunciar aos bens materiais, a guardar silêncio e dar ouvidos as palavras que Ele tem dito; e proclama que, em razão de seus atos, "a exaltada posição do povo está agora rebaixada; o estandarte do Islã e seu poderoso trono, abatidos". Ao "conjunto de te6logos persas", Ele mais especialmente dirigiu Suas condenatórias palavras, nas quais estigmatiza seus atos, e prediz que sua" gl6ria se transmutará na mais calamitosa das humilhações", e que hão de ver a punição que lhes será infligida, "já decretada por Deus, Quem ordena, o Onisciente."

Ao povo judaico também anunciou que era chegada a Lei Suprema, que a "Beleza Anciã governa sobre o trono de Davi", o qual em altos brados invoca Seu Nome, que "de Sion apareceu O que estava oculto", e que "de Jerusalém se faz ouvir a voz de Deus, o único, o Incomparável, o Onisciente."

Aos "sumos sacerdotes" da Fé zoroastriana , proclamou que "o Incompatível Amigo" já estava manifesto, que Ele "dizia aquilo em que repousa a salvação", que à Mão do Onipotente se estira detrás das nuvens", que os sinais de Sua majestade e grandeza estão revelados; e declarou que: "as ações de homem algum serão aceitáveis neste dia, a menos que ele renuncie à humanidade, e a tudo o que os homens possuem, e volte a face na direção do Onipotente."

Algumas das passagens mais imponentes de Sua Epístola à Rainha Vitória são dirigidas aos membros da Legislatura Britânica, a Mãe dos Parlamentos, bem como aos representantes eleitos dos povos de outras terras. Nestas, Ele reafirma que Seu propósito e vivificar o mundo e unir seus povos; refere-se ao tratamento que Seus inimigos Lhe concederam; exorta os legisladores a "tomarem deliberações em conjunto", e a se ocuparem somente "com aquilo que e de proveito para o gênero humano",. e afirma que o "remédio soberano" para a "cura de todo o mundo" e a "união de todos os seus povos numa Causa universal, numa Fé comum", a qual não pode "de maneira nenhuma ser conseguida, exceto através do poder de um Médico hábil, todo-poderoso e inspirado". Além disso, em Seu Livro Sacratíssimo, Bahá'u'lláh recomendou a escolha de uma língua única e a adoção de escrita comum para uso de toda a terra, uma injunção que seria, quando levada a efeito - como Ele Próprio afirma nesse Livro - um dos sinais da "maioridade da raça humana."

Não menos significativas são as palavras dirigidas separadamente por Ele ao "povo do Bayán", aos sábios, poetas, homens de letras, e mistérios do mundo, e até aos comerciantes, nas quais os exorta a estarem atentos à Sua voz, a reconhecerem o Seu Dia e seguirem Seus preceitos.

Tais são, em suma, as característica que se destacam nos pronunciamentos finais dessa histories Proclamação, cujas notas iniciais soaram durante a última parte do desterro de Bahá'u'lláh em Adrianópolis, e que terminou durante os primeiros anos de Seu encarceramento na fortaleza-prisão de 'Akká. Reis e imperadores, individual e coletivamente; os principais magistrados das Repúblicas do continente americano; ministros e embaixadores; o próprio Soberano Pontífice; o Vigário do Profeta do Islã; o Fidecomissário real do Reino do Imame Oculto; os monarcas da Cristandade, seus patriarcas, arcebispos, bispos, sacerdotes e monges; os chefes reconhecidos das ordens sacerdotais, tanto da sunita como da xiita; os sumos sacerdotes da religião zoroastriana; os filósofos, os dirigentes eclesiásticos, os sábios e os habitantes de Constantinopla - aquela orgulhosa sede tanto do sultanato como do califado; a totalidade dos declarados aderentes da Fé zoroastriana, bem como da judaica, da cristã e da muçulmana; o povo do Bayán; os sábios do mundo, seus literatos, poetas, místicos, comerciantes, os representantes eleitos de seus povos; Seus próprios conterrâneos - todos, em um ou outro momento, em livros e Epístolas, têm sido incluídos diretamente na esfera das exortações, das admoestações, dos apelos, das declarações e das profecias que constituem o tema de Seu momentoso chamado aos dirigentes da humanidade - um chamado sem paralelo nos anais da humanidade - um chamado sem paralelo nos anais de qualquer religião anterior, ao qual somente as mensagens dirigidas pelo Profeta do Islã a alguns dos governantes entre Seus contemporâneos mostram uma ligeira semelhança.

"Nunca, desde o princípio do mundo", afirma o próprio Bahá'u'lláh, "foi a Mensagem tão abertamente proclamada." "Cada uma delas", escreveu Ele, referindo-se especificamente às Epístolas que dirigiu aos soberanos da terra - Epístolas aclamadas por Abdu'l-Bahá como um "milagre" - "foi designada por um nome especial. A primeira foi intitulada "O Estrondo", a segunda, "O Golpe", a terceira, "O Inevitável", a quarta, "O Claro", a quinta, "A Catástrofe" e as outras, "O Atordoante Trombetador", "O Acontecimento Próximo", "O Grande Terror", "A Trombeta", "O Clarim", e semelhantes, a fim de que todos os povos da terra possam saber com certeza e possam testemunhar, com os olhos exteriores e interiores, que Aquele que é o Senhor dos Nomes tem prevalecido e continuará a prevalecer sob todas as condições, sobre todos os homens." A mais importante dessas Epístolas, juntamente com a celebre Surih-i-Haykal (a Sura do Templo. Ele, além disso, mandou escrever na forma de uma estrela de cinco pontas, simbolizando o tempo do homem, e esta - quando em uma de Suas Epístolas se dirigiu aos seguidores do Evangelho - Ele identificou com o Templo mencionado pelo Profeta Zacarias, e designou com o Templo mencionado pelo Profeta Zacarias, e designou como "a resplandecente alvorada do Todo-Misericordioso", o Templo que "as mãos do poder d'Aquele que é o Causador das Causas" edificara.

Muito embora essa Proclamação fosse única e estupenda, demonstrou vir a ser tão somente um prelúdio de uma revelação ainda mais grandiosa do poder criador do seu Autor, antecipando o que talvez seja tido na conta do ato mais importante de Seu ministério - a promulgação do Kitáb-i-Aqdas. Fez-se alusão a esse "Livro Sacratíssimo", no Kitáb-i-Iqán; é o principal repositório daquela Lei que o Profeta Isaías havia previsto, e que o escritor do Apocalipse descrevera como o "novo céu" e a "nova terra", como "tabernáculo de Deus", a "Cidade Santa", a "Noiva", a "Nova Jerusalém descendo de Deus". Esse Livro, cujas cláusulas devem permanecer invioladas por não menos de mil anos, e cujo sistema abrangerá todo o planeta, bem pode ser considerado como a mais brilhante emanação da mente de Bahá'u'lláh, o Livro-Mater do Seu Ministério, e a magna Carta de Sua Nova Ordem Mundial.

Revelado logo depois que Bahá'u'lláh fora transferido para a casa de 'Udí Khammár (por volta de 1873), numa época em que Ele ainda estava sob o influxo das atribulações que o Infligiram , através dos atos cometidos pelos inimigos e pelos seguidores professos de Sua Fé, esse Livro, esse tesouro que encerra as jóias inestimáveis de Sua Revelação, sobressai, em virtude dos princípios que inculca, das instituições administrativas que prescreve, e da função com que investe o nomeado Sucessor do seu Autor - um Livro único e incomparável entre as sagradas Escrituras do mundo. Pois, diferentemente do Velho Testamento e dos Livros Sagrados que o precederam, nos quais não existem preceitos efetivamente emitidos pelo Próprio Profeta; diferente dos Evangelhos, nos quais os poucos ditos atribuídos a Jesus Cristo não fornecem um roteiro certo quanto à administração futura dos assuntos de Sua Fé; diversamente mesmo do Alcorão - o qual, embora explicito nas leis e preceitos formulados pelo Apóstolo de Deus, silencia sobre o assunto importantíssimo da sucessão - o Kitáb-i-Aqdas, revelado desde o começo até o fim pelo próprio Autor da Revelação, não só preserva para a posteridade as leis e preceitos básicos sobre os quais deverá assentar a estrutura de Sua Ordem Mundial, mas também estabelece, além da função de interpretação que é conferida a Seu Sucessor, nas instituições imprescindíveis à preservação da integridade e da unidade de Sua Fé.

Nesta Magna Carta da futura civilização mundial, o seu Autor - simultaneamente Juiz, Legislador, Unificador, o Redentor da humanidade - anuncia aos reis da terra a promulgação da "Lei Suprema"; declara serem eles Seus vassalos e se proclama o "Rei dos Reis"; nega qualquer intenção de apoderar-se de seus reinos; reserva para Si Próprio o direito de "conquista e possuir os corações dos homens"; previne as autoridades eclesiásticas do mundo que não julguem o "Livro de Deus" segundo as normas correntes entre eles; e afirma que o próprio Livro é a "Balança Infalível" estabelecida entre os homens. Nele ordena formalmente a instituição da "Casa de Justiça", define suas funções, fixa as suas rendas, designa-lhe os membros como sendo "Homens de Justiça", os "Deputados de Deus", os "Depositários da Confiança do Todo-Misericordioso", faz alusão ao futuro Centro do Seu Convênio, e investe-O no direito de interpretar Sua Sagrada Escritura; prevê a instituição do Guardião; testemunha o efeito revolucionário da Sua Ordem Mundial; enuncia a doutrina da "Suprema Infalibilidade" do Manifestante de Deus; afirma que essa infabilidade constitui direito inerente e exclusivo do Profeta; e elimina a possibilidade do aparecimento de outro Manifestante antes que sejam decorridos pelo menos mil anos.

Neste Livro, prescreve, também, as orações obrigatórias; designa o tempo e o período do jejum; proíbe preces congregacionais exceto pelos mortos; fixa o Qíblih; institui o Huqúqu'lláh (Direito de Deus); formula a lei da herança, estabelece a instituição do Mashriqu'l-Adhká; funda as Festas de Dezenove Dias, os festivais bahá'ís e os Dias Intercalares; abole a instituição do clero, proíbe a escravidão, o ascetismo, a mendicância, o monasticismo, a penitência, o uso dos púlpitos e o beija-mão; prescreve a monogamia; condena a crueldade para com os animais, a indolência e a ociosidade, a maledicência e a calúnia; censura o divórcio; proíbe o jogo, o uso do ópio, do vinho e de outras bebidas intoxicantes; especifica os castigos para homicídio, incêndio criminoso, adultério e roubo; acentua a importância do casamento e estabelece suas condições essências; impõe a obrigação de se dedicar a algum ofício ou profissão, exaltando tal ocupação até as raias da adoração; realça a necessidade de se prepararem os meios para a educação das crianças; estabelece para todos a obrigação de escrever um testamento e de obedecer rigorosamente ao governo.

Fora dessas cláusulas, Bahá'u'lláh exorta os Seus seguidores a associarem-se com amizade, concórdia e sem discriminação, aos adeptos de todas as religiões; previne-o contra o fanatismo, contra a sedição, o orgulho, a disputa e a contenda; inculca neles uma limpeza imaculada, rigorosa veracidade, castidade intemerata, fidedignidade; hospitalidade, sinceridade, cortesia, tolerância, justiça e equidade; aconselha-os a serem "unidos como os dedos da mão e os membros do corpo"; concita-os a que se levantem e sirvam à Sua Causa; e assegura-os de Sua ajuda indubitável. Ele, além disso, detém-se sobre a instabilidade das coisas humanas; declara que a verdadeira liberdade consiste na submissão do homem aos Seus mandamentos; adverte-os de que não sejam indulgentes na aplicação de Seus estatutos; prescreve os dois deveres inseparáveis de reconhecer a "Aurora da Revelação de Deus" e de observar todos os preceitos por Ele revelados, nenhum dos quais, afirma Ele, é aceitável sem o outro.

Os significativos apelos dirigidos aos Presidentes das Repúblicas do continente americano no sentido de aproveitarem a oportunidade oferecida pelo Dia de Deus para patrocinarem a causa da justiça; a exortação aos membros de parlamentos em todo o mundo, encarecendo a adoção de uma língua e de uma escrita universais; Suas admoestações a Guilherme I, o vencedor de Napoleão III; a reprimenda que dirige a Francisco José, o Imperador da Áustria; Sua referência "às lamentações de Berlim" na apostrofe "às margens do Reno"; Sua condenação ao "Trono da tirania" estabelecido em Constantinopla, Sua profecia da extinção do "esplendor exterior" dessa cidade e das tribulações destinadas a se abater sobre os habitantes; as palavras de incentivo e conforto que dirige à Sua cidade natal, assegurando-a de que Deus a havia escolhido para ser a "fonte da alegria de toda a humanidade"; Sua profecia de que "a voz dos heróis de Khurásán" será levantada em glorificação de seu Senhor; Sua asserção de que homens "dotados de imenso valor" devem aparecer em Kirmán e fazer menção Dele; e finalmente, Sua magnânima afirmativa a um irmão pérfido que O afligira com angústia, nos termos de que um Deus "sempre clemente e de toda bondade" lhe perdoaria as iniqüidades desde que ele tão somente se arrependesse - tudo isso enriquece ainda mais o conteúdo de um Livro designado pelo Autor como "a fonte da verdadeira felicidade", como a "Balança Infalível", como o "Caminho Reto" e como o "princípio vivificador da humanidade".

As leis e preceitos que constituem o principal tema deste Livro, Bahá'u'lláh, ademais, caracterizou especificamente como "o sopro de vida para todas as coisas criadas", como "o mais poderoso baluarte", como os "frutos" de Sua "Árvore", como "o mais elevado meio para a manutenção da ordem no mundo e para a segurança de seus povos", como "as lâmpadas da Sua sabedoria e terna providência", como a "doce fragrância de Sua roupagem", como as "chaves" de Sua "misericórdia" para Suas criaturas. "Este Livro", Ele Próprio testifica, "é um céu que adornamos com as estrelas de Nossos mandamentos e proibições". "Abençoado seja o homem", declarou, além disso, "que o ler e que meditar sobre os versículos nele vazados por Deus, o Senhor do Poder, o Onipotente. Dizei, ó homens! Tomai-o com a mão da resignação... Por minha vida! Foi enviado de uma maneira que espanta as mentes dos homens. Na verdade, é o Meu mais momentoso testemunho a todos os povos, e a prova do Todo-Misericordioso para com todos que estão no céu e na terra". E ainda mais: "Abençoado seja o paladar que saboreia a sua doçura, o olhar perscrutador que reconhece o que lá está entesourado, e o coração compreensivo que alcança suas alusões e mistérios. Por Deus! Tal é a majestade do que ali foi revelado, e tão tremenda é a revelação de suas alusões veladas, que faz abalar-se a voz quando tenta descrevê-las." E finalmente: "De tal maneira foi o Kitáb-i-Aqdas revelado que atrai e abrange todas as Revelações de origem divina. Bem-aventurados os que o lêem! Bem-aventurados os que assimilam! Bem-aventurados os que sobre ele meditam! Bem-aventurados os que ponderam sobre o seu significado! Tão vasto é o seu alcance que abarcou todos os homens antes que disso eles se apercebessem. Dentro em breve manifestar-se-ão sobre a face da terra a sua força soberana, a sua influência penetrante e a grandeza do seu poder."

À medida que Sua Missão se aproximava de seu fim, a formulação que Bahá'u'lláh, em Seu Kitáb-i-Aqdas, fez das leis fundamentais de Sua Revelação, foi seguida pela enunciação de certos preceitos e princípios que se encerram no próprio âmago de Sua Fé, pela reafirmação de verdades que Ele anteriormente proclamara, pela elaboração e elucidação adicionais e pela apresentação de mandamentos subsidiários designados a suplementar as provisões de Seu Livro Mais Sagrado. Incorporaram-se em inúmeras Epístolas, as quais Ele continuou a revelar até os últimos dias de Sua vida terrena, destacando-se entre elas a "Ishrágát" (Esplendores), a "Bishárát" (Boas Novas), a "Tarázat" (Adornos), a "Tajallíyát" (Fulgências), a "Kalimát-i-Firdaw-síyyih" (Palavras do Paraíso), a "Lawh-i-Aqdas" (Epístolas Mais Sagradas), a "Lawh-i-Dunyá" (Epístola do Mundo), a "Lawh-i-Maqsud" (Epistola de Maqsúd). Estas Epístolas - efusões poderosas finais de Sua pena infatigável - devem figurar entre os frutos mais seletos que Sua mente produziu e assinalar a consumação de Seu ministério de quarenta anos de duração.

Dos princípios encerrados nessas Epístolas, o mais vital de todos eles é o princípio da unidade e da integridade da raça humana, o qual bem pode ser considerado a característica distintiva da Revelação de Bahá'u'lláh e o eixo de Seus ensinamentos. De importância tão cardeal é esse principio da unidade, que a ele se refere expressamente no Livro de Seu Convênio e Ele, sem reservas, o proclama o propósito central de Sua Fé. "Nós, em verdade", declara Ele, "cremos a fim de unir e amalgamar todos os que habitam a terra." "Tão potente é a luz da unidade", afirma Ele ainda, "que pode iluminar a terra toda." "Em uma época", escreveu Ele com referência a esse tema central de Sua Revelação, "falamos na linguagem do legislador; em outra, na linguagem de quem busca a verdade, e na do místico, e no entanto, tem sido sempre Nosso supremo propósito e mais elevado desejo desvelar a glória e a sublimidade desta posição." A unidade, afirma Ele, é a meta que "ultrapassa todas as metas", um alvo que é "o rei de todos os alvos". "O mundo", proclama Ele, "é apenas um só país, e o gênero humano, seus cidadãos." E declara, ainda mias, ser inevitável a unificação da humanidade, sendo esta a última etapa de sua evolução em direção à madureza, que "em breve a ordem da época atual será afastada e uma nova se desdobrará em seu lugar", que "toda a terra se acha agora em estado de prenhes", que "se aproxima o dia em que ela terá dado seus mais nobres frutos, quando dela haverão brotado as mais elevadas arvores, as flores mais encantadoras, as bênçãos mais celestiais". Deplora Ele as falhas da ordem prevalecente, expõe quando é inadequado o patriotismo como força diretriz e controladora da sociedade humana, e considera o "amor à humanidade" e a promoção de seus interesses como os objetivos mais dignos e mais louváveis do esforço humano. Ele, além disso, lamenta que "a vitalidade de crença dos homens em Deus esmorece em todas as terras", que a "face do mundo se volve para a desobediência e a descrença"; proclama ser a religião "uma luz radiante e uma inexpugnável cidadela para a proteção e o bem-estar dos povos do mundo" e "o principal instrumento para estabelecer ordem no mundo"; afirma ser o propósito fundamental da religião promover a união e a concórdia entre os homens; adverte que dela se não faça "uma fonte de dissensão , de discórdia e ódio"; ordena que seus princípios sejam ensinados às crianças nas escolas do mundo, de tal maneira que não motive preconceito nem fanatismo; atribui "a perversidade dos ímpios" ao "declínio da religião"; e prediz "convulsões" de tamanha severidade que "façam tremerem os membros da humanidade".

Ele encarece sem reservas o princípio da segurança coletiva; recomenda a redução dos armamentos das nações; e proclama como necessária e inevitável a convocação de uma assembléia mundial em que os reis e chefes de estado deliberem sobre o estabelecimento da paz entre as nações.

Exalta a Justiça como sendo "a luz dos homens" e sua "protetora", como "a reveladora dos segredos do mundo da existência, e o porta-estandarte do amor e da bondade"; declara ser incomparável o seu fulgor; afirma que dela deve depender "a organização do mundo e a tranqüilidade do homem". Caracteriza seus "dois pilares" - "a recompensa e o castigo" - como "as fontes de vida" para a raça humana; adverte os povos da terra a agirem em antecipação ao seu advento; e profetiza que, após um intervalo de grande tumulto e de injustiça atroz, seu Sol cintilará em pleno esplendor e glória.

Inculca, também, o princípio da "moderação em todas as coisas"; declara que tudo quanto "passa além dos limites da moderação", quer seja "Liberdade, civilização ou qualquer outra coisa", deve "exercer uma influência perniciosa sobre os homens"; observa que a civilização ocidental perturbou e alarmou gravemente os povos da terra; e prediz a aproximação do dia em que "a chama" de uma civilização "levada ao excesso" "consumirá as cidades."

Estabelece a consulta como um dos princípios fundamentais da Fé; descreve-a como "a lâmpada guiadora", como "a concessora de entendimento", e como um dos dois "luminares" do "céu da sabedoria Divina". O conhecimento, declara Ele, é "como asas para a vida do homem e uma escada para sua ascensão"; considera a aquisição dela como "dever de cada um"; julga que "as artes, os ofícios e as ciências" conduzem à exaltação do mundo da existência; aprova a riqueza adquirida por meio dos ofícios e profissões; reconhece o quanto devem os povos do mundo aos cientistas e artífices; e desaconselha o estudo de ciências inaproveitáveis aos homens, dessas ciências que "começam com palavras e terminam com palavras".

Acentua novamente a injunção de "conviver com todos num espírito amistoso e fraterno", e reconhece que uma tal associação conduz à "união e à concórdia", as quais, afirma Ele, instituem a ordem no mundo e são os princípios vivificantes das nações. A necessidade da adoção de uma língua e de uma escrita universais, Ele repetidamente encarece; lamenta a perda de tempo representada pelo estudo de vários idiomas; afirma que, com a adoção dessa língua e dessa escrita, toda a terra será considerada como "uma só cidade e um só país"; e apresenta-se como possuidor do conhecimento de ambas, prontificando-se a transmiti-lo a qualquer pessoa que a Ele venha em sua busca.

Aos fideicomissários da Casa de Justiça atribui o dever de legislar sobre assuntos não previstos expressamente em Seus escritos, e promete que Deus "inspirá-los-á em tudo quanto Ele quiser". Recomenda como uma realização meritória o estabelecimento de uma forma constitucional de governo, em que estejam ligados os ideais do republicano e a majestade da realeza, que é caracterizada por Ele como "um dos sinais de Deus"; insiste em que se preste especial atenção aos interesses da agricultura; e faz específica referência aos "jornais que surgem rapidamente", descrevendo-os "o espelho do mundo"; e "um fenômeno extraordinário e poderoso", e impõe a todos os responsáveis pela sua produção o dever de evitar a malícia, a paixão e o preconceito, de ser justos e equânimes, minuciosos na busca da verdade, e de verificar todos os fatos em todas as situações.

A doutrina da Suprema Infalibilidade é em maior detalhe elaborado por Ele; a obrigação imposta aos adeptos no sentido de "comportarem em relação ao governo do país em que residem, com lealdade, honestidade e veracidade", Ele a reafirma; dá novamente ênfase à proibição de se travarem guerras santas e a de se destruírem livros; e seleciona para um elogio especial homens de erudição e de sabedoria, a quem exalta como "olhos" em relação ao corpo da humanidade, e como sendo as "maiores dádivas" conferidas ao mundo.

Ao passar revista às características salientes dos escritos de Bahá'u'lláh durante a última parte de Seu desterro em 'Akká, não se deve deixar de incluir uma referência à Lawh-i-Hikmat ( Epístola da Sabedoria), na qual Ele expõe os princípios fundamentais da verdadeira filosofia, ou à Epístola da Visitação, revelada em honra do Imame Husayn, cujo louvor Ele celebra em linguagem ardorosa; ou à obra, "Perguntas e Respostas", a qual elucida as leis e os preceitos do Kitáb-i-Aqdas; ou à Law-i-Burhan (Epístola da Prova), na qual os atos perpetrados por Shykh Muhammad-Baqir, apelidado de "Dhi'h (Lobo) e por Mír Muhammad-i-Husayn, o Imame Jum'ih de Isfahan, apelidado de "Raqshá" (Serpente), são severamente condenados; ou à Lawh-i-Karmil (Epístola do Carmelo), na qual o Autor menciona significativamente "a Cidade de Deus que tem descido do céu", e prediz que "dentro em breve fará Deus navegar Sua Arca" sobre essa montanha e "tornará manifesto o povo de Bahá". Finalmente, deve se fazer menção de Sua Epístola a Shaykh Muhammad-Taqí, apelidado de "Ibn-i-Dhi'b" (Filho do Lobo), a última Epístola notável revelada pela pena de Bahá'u'lláh, na qual Ele insta àquele sacerdote rapace que se arrependa de seus atos, na qual também cita algumas das passagens mais características e mais célebres de Seus próprios escritos e aduz provas que estabelecem a validez de Sua Causa.

Com este livro, revelado cerca de um ano antes de Sua ascensão, pode-se dizer que havia praticamente terminado sua prodigiosa realização como autor de cem volumes, repositórios das inestimáveis pérolas de Sua Revelação - volumes repletos de inúmeras exortações e princípios revolucionários, de preceitos e leis modeladoras do mundo, fatídicas advertências e portentosas profecias, de preces e meditações que enlevam a alma, comentários e interpretações que enlevam a alma, comentários e interpretações iluminadoras, e de apaixonados discursos e homilias - todos entremeados com mensagens ou referências aos reis, aos imperadores e aos ministros, tanto do Oriente como do Ocidente, aos eclesiásticos de diversas denominações e aos dirigentes nas várias esferas de atividades humana, na intelectual, na política, na literatura, bem como na mística, na comercial e na esfera humanitária.

... "Nós, em verdade", escreveu Bahá'u'lláh de Sua Prisão Suprema, dando um balanço, no crepúsculo da vida, no alcance total dessa Revelação vasta e importante, "não fracassamos em Nosso dever de exortar os homens e de entregar aquilo de que fomos incumbidos por Deus, o Todo-Poderoso, o Todo-Glorificado". "Haverá qualquer desculpa", perguntou Ele ainda, "para alguém nesta Revelação? Não, por Deus, o Senhor do Trono Poderoso! Meus sinais abrangeram a terra toda, e Meu poder envolveu a humanidade inteira."

Capítulo XIII
ASCENSÃO DE BAHÁ'U'LLÁH

Quase meio século havia transcorrido desde o início da Fé. Nascida na adversidade, na infância sendo privada de seu Arauto e Guia, e lançada no pó por um déspota hostil, essa Fé fora afinal, levantada por seu segundo e maior Luminar. Este, a despeito dos sucessivos banimentos, conseguira, em menos de meio século, reabilitar o prestígio da Fé, proclamando sua Mensagem, estabelecendo-lhe as leis e estatutos, formulando-lhe os princípios e ordenando-lhe as instituições. Mal começara a Fé, porém, a gozar o brilho de uma prosperidade nunca antes experimentada, quando de repente se viu apartada de seu Autor pela Mão do Destino, ficando seus adeptos imersos em tristeza e consternação, enquanto que seu repudiantes sentiram reviver-lhes as esperanças em declínio, e seus adversários, tanto políticos como eclesiásticos, começaram a criar novamente coragem.

Já nove meses antes de Sua ascensão, Bahá'u'lláh, conforme atestou Abdu'l-Bahá, havia expressado o desejo de partir deste mundo. Daquele tempo em diante, tornou-se cada vez mais evidente, pelo tom de Suas observações aos que chegavam à Sua presença, que o término de Sua vida terrena se aproximava, muito embora evitasse dizê-lo abertamente a qualquer um. Na noite que precedeu os onze de Shavvál de 1309 D.H. (8 de maio de 1892), contraiu uma ligeira febre que, embora subisse no dia seguinte, logo depois abaixou. Continuava a conceder entrevistas a alguns de Seus amigos e a peregrinos, mas logo se tornou evidente que Ele não estava bem. A febre voltou mais aguda que antes, Seu estado geral agravou-se rapidamente, seguindo-se complicações que por fim culminaram com Sua ascensão, ao raiar da aurora do dia 2 de Dhi'l-Qa'dih de 1309 (era maometana) (29 de maio de 1892), oito horas depois do pôr do sol, estando Ele em seu septuagésimo quinto ano. Seu espírito, enfim, libertado das lidas de uma vida cheia de tribulações, alçara vôo para Seus "outros domínios", domínios "nunca percorridos pelas vistas dos mortais", e para onde a "Jovem Luminosa", "vestida de branco", mandara que se apressasse, como foi descrito por Ele mesmo no Lawh-i-Ru'yá (Epístola da Visão), revelado dezenove anos antes, no aniversário natalício do Seu Precursor.

Seis dias antes de falecer, chamou à Sua presença, quando jazia na cama apoiado num dos filhos, toda a companhia dos crentes, inclusive vários peregrinos que se haviam reunido na mansão, reunião que veio a ser sua última audiência com Ele. "Estou muito satisfeito com todos vós", disse, dirigindo-se suave e afetuosamente à multidão em pranto que se comprimia à Sua volta. "Prestastes muitos serviços e fostes muito assíduos em vossos trabalhos. Viestes até cá todas as manhãs e todas as tardes. Que Deus vos ajude a permanecer unidos. Que Ele vos ajude a enaltecer a Causa do Senhor da criação". Às mulheres inclusive os membros de Sua própria família, reunidas em torno do leito, dirigiu idênticas palavras de estímulo, assegurando-lhes definitivamente que, num documento confiado por Ele ao Maior Ramo, todos foram recomendados ao Seu cuidado.

A notícia de Sua ascensão foi imediatamente comunicada ao sultão Abdu'l-Hamíd num telegrama que principiava pelas palavras "o Sol de Bahá se pôs", e no qual o monarca foi informado da intenção de se enterrarem os sagrados restos mortais dentro do recinto da Mansão, ao que ele anuiu prontamente. Bahá'u'lláh, destarte, ficou em repouso no quarto mais setentrional da casa que serviu de morada a Seu genro, a casa mais ao norte dentre as três situadas a oeste da Mansão e adjacentes a ela. Seu enterro realizou-se logo após o pôr do sol, no mesmo dia de Sua ascensão.

O inconsolável Nabíl, que tivera o privilégio de uma audiência particular com Bahá'u'lláh durante os dias de Sua doença, a quem Abdu'l-Bahá havia escolhido para selecionar as passagens que constituem o texto da Epístola da Visitação, agora recitada na Tumba Sacratíssima, e que, no seu pesar incontrolável, afogou-se no mar logo após o passamento de seu Bem-Amado, assim descreve a agonia daqueles dias: "Parecia que a comoção espiritual estabelecida neste mundo de pó fizera com que todos os mundos de Deus tremessem... Tanto minha língua interior como a exterior, são impotentes para descrever a condição em que estávamos... Em meio à confusão reinante, uma multidão composta de habitantes de 'Akká e das aldeias circunvizinhas, que haviam apinhado os campos em redor à Mansão, podia ser vista chorando, batendo nas cabeças e lamentando-se em altos gritos."

Por toda uma semana um vasto número de pranteadores, tanto pobres como ricos, demorou-se para apresentar condolências à família enlutada, participando dia e noite da comida que foi prodigamente oferecida por seus membros. Pessoas gradas, entre as quais se contavam xiitas, sunitas, cristãos, judeus e drusos, bem como poetas, ulemás e funcionários públicos, todos juntaram-se para lamentar a perda e exaltar as virtudes e a grandeza de Bahá'u'lláh, muitos deles rendendo-Lhe seus tributos por escrito, em verso e em prosa, tanto em árabe como em turco. De cidades tão distantes como Damasco, Aleppo, Beirute e Cairo, tributos similares foram recebidos. Estes testemunhos rútilos foram, sem exceção, entregues a Abdu'l-Bahá, que agora representava a Causa do Chefe falecido, sendo Ele também freqüentemente elogiado nas homenagens prestadas a Seu Pai.

E, contudo, essas efusivas manifestações de pesar e expressões de louvor e admiração que a ascensão de Bahá'u'lláh espontaneamente evocara entre os incrédulos da Terra Santa e dos países adjacentes, eram uma gota d'água em comparação com o oceano de dor e as inúmeras provas de ilimitada devoção que, à hora do pôr do Sol da Verdade, jorravam dos corações de milhares que haviam esposado Sua Causa e estavam determinados a desfraldar sua bandeira na Pérsia, Índia, Rússia, Iraque, Turquia, Palestina, Egito e Síria.

Com a ascensão de Bahá'u'lláh, chega ao fim um período que, de muitas maneiras, é sem paralelo na história religiosa do mundo. O primeiro século da Era Bahia havia então completado a metade do seu curso. Terminara uma época não excedida em sublimidade, fecundidade e duração por qualquer época anterior, e caracterizada, exceto durante um curto lapso de três anos, por meio século de Revelação contínua e progressiva. A Mensagem proclamada pelo Báb havia produzido seus frutos de ouro. A fase mais momentosa, embora não a mais espetacular da Idade Heróica, findara. O Sol da Verdade, o maior Luminar do mundo, havia surdido no Síyáh-Chál de Teerã, raiado através das nuvens que o envolviam em Bagdá, sofrido um eclipse momentâneo enquanto subia para o zênite em Adrianópolis, e agora, finalmente, esse Sol se pusera em 'Akká para não mais ressurgir antes que um milênio inteiro fosse decorrido. A Fé recém-nascida de Deus, alvo de convergência de todas as Revelações anteriores, fora proclamada plenamente e sem reservas. As profecias anunciadoras de seu advento foram cumpridas de maneira notável. Suas leis fundamentais e princípios cardeais, a própria substância de sua futura Ordem Mundial, tinha, sido claramente enunciados. Sua relação orgânica, bem como sua atitude para com os sistemas religiosos que a precederam, haviam sido definidas de maneira inconfundível. As instituições primárias, dentro das quais uma Ordem Mundial embrionária estava destinada a sazonar, foram estabelecidas solidamente. O convênio destinado a salvaguardar a unidade e a integridade do seu sistema mundial fora irrevogavelmente legado à posteridade. A promessa da unificação de toda a raça humana, da inauguração da Suprema Paz, do desdobramento de uma civilização mundial, fora incontestavelmente dada. As sombrias advertências, vaticinando catástrofes destinadas a se abaterem sobre reis, eclesiásticos, governos e povos, como prelúdio de tão gloriosa consumação, foram repetidamente lançadas. A significativa exortação aos Primeiros Magistrados do Novo Mundo, precursora da Missão que o continente norte-americano iria tomar mais tarde de si, havia sido proclamada. Estabelecera-se o contato inicial com uma nação de cuja casa real um descendente iria esposar sua Causa antes do término do primeiro século bahá'í. Fora dado o impulso original que tem conferido no decurso de sucessivas décadas, e continuará a conferir nos anos vindouros, benefícios inestimáveis de significação tanto espiritual como institucional à montanha sagrada de Deus, donde se divina a Suprema Prisão. E, finalmente, os primeiros estandartes de uma conquista espiritual que, antes do término daquele século, iria abarcar nada menos de sessenta países, tanto do hemisfério oriental como do ocidental, foram triunfantemente erigidos.

A Fé de Bahá'u'lláh - na vastidão e na diversidade de sua Escritura Sagrada, no número de seus mártires; na intrepidez de seus campeões; no exemplo dado por seus aderentes; na condigna punição sofrida por seus adversários; na penetração de sua influência; no incomparável heroísmo de seu Arauto; na grandeza deslumbrante de seu Autor e na misteriosa operação de seu espírito irresistível - em todos estes aspectos, essa Fé, agora no limiar da sexta década de sua existência, havia demonstrado amplamente sua capacidade para avançar, indivisível e incorruptível, no caminho para ela marcado por seu Fundador, e para exibir ante a vista de gerações sucessivas, os sinais e as evidências daquela potência celestial que tão ricamente lhe fora conferida por Ele Próprio.

Creio que, a esta altura, se deve dirigir especial atenção ao destino que sobreveio àqueles reis, ministros e eclesiásticos, no Oriente bem como no Ocidente, que, em várias etapas do ministério de Bahá'u'lláh, ou deliberadamente perseguiram Sua Causa ou deixaram de atender às advertências por Ele pronunciadas, ou falharam no dever manifesto de responder a Seu chamado ou de conceder a Ele e à Sua mensagem o tratamento merecido. O próprio Bahá'u'lláh, referindo-se àqueles que se haviam levantado ativamente a fim de destruir Sua Fé ou lhe causar dano, declarara que "Deus não fechou os olhos, nem os fechará, para a tirania do opressor. Mais especialmente nesta Revelação tem Sua vingança atingido a cada um dos tiranos". Vasto e assombroso, em verdade, é o espetáculo com que nos defrontamos ao avistarmos o campo sobre o qual os ventos da retribuição de Deus, desde o início do ministério de Bahá'u'lláh, têm varrido com fúria, destronando monarcas, extinguindo dinastias, desarraigando hierarquias eclesiásticas, precipitando guerras e revoluções, expulsando de seus cargos príncipes e ministros, desapossando o usurpador, derribando o tirano e castigando os maléficos e os rebeldes.

O Sultão Abdu'l-Bahá - quem, com Násirid-Dín Sháh, foi autor das calamidades amontoadas sobre Bahá'u'lláh e, ele mesmo, o responsável por três decretos de desterro contra o Profeta; que fora estigmatizado no Kitáb-i-Aqdas como ocupante do "trono da tirania" e cuja queda havia sido predita na Lawh-i-Fu'ád - foi deposto em conseqüência de uma revolução no palácio, foi condenado por uma fatvá (sentença) do Muftí em sua própria capital, sendo assassinado quatro dias depois (no ano de 1876) e sucedido por um sobrinho que foi declarado imbecil. A guerra de 1877-78 liberou do julgo turco onze milhões de pessoas; Adrianópolis foi ocupada pelas forças russas; o próprio império dissolveu-se como resultado da guerra de 1917-18; aboliu-se o sultanato e se proclamou uma república, vindo assim a terminar um domínio que havia durado por mais de seis séculos.

O vaidoso e despótico Násiri'd-Dín Sháh - denunciado por Bahá'u'lláh como o "Príncipe dos Opressores"; de quem Ele havia escrito que breve seria feito dele "uma lição concreta para o mundo"; cujo reinado se maculou com a exceção do Báb e o encarceramento de Bahá'u'lláh; que havia persistentemente instigado seus desterros posteriores, a Constantinopla, a Adrianópolis e a 'Akká; que, em conluio com uma ordem sacerdotal depravada, jurara estrangular a Fé em seu berço - foi dramaticamente assassinado, no santuário do Xá Abdu'l-Azím, justamente na véspera de seu jubileu, o qual, por assinalar a inauguração de uma nova era, iria ser celebrado com a mais preparada magnificência, devendo passar à história como o dia mais grandioso no anais da nação persa. Desde então declinava persistentemente o destino de sua casa e, afinal, por causa da escandalosa conduta do dissoluto e irresponsável Ahmad Sháh, sucedeu o eclipse e o desaparecimento da dinastia Qájár.

Napoleão III, o monarca de maior destaque no Ocidente em sua época, excessivamente ambicioso, extremamente orgulhoso, astucioso e superficial - quem, segundo dizem, arremessou com desdém a Epístola que lhe fora enviada por Bahá'u'lláh e foi por Ele posto à prova, sendo verificada sua falha e predita explicitamente, em uma Epístola posterior, sua queda - sofreu na Batalha de Sedan (no ano de 1870) uma derrota ignominiosa, o que assinalou a maior capitulação militar registrada na história moderna; perdeu seu reino e passou em exílio os anos restantes de sua vida. Suas esperanças foram totalmente arruinadas, seu filho único, o Príncipe Imperial, morreu na Guerra Zulu, ruiu seu tão alardeado império, seguiu-se uma guerra civil mais feroz do que a própria Guerra Franco-Prussiana, e Guilherme I, o rei prussiano, foi aclamado no Palácio de Versalhes como imperador de uma Alemanha unificada.

Guilherme I, o recém-aclamado conquistador de Napoleão III, intoxicado de orgulho - a quem o Kitáb-i-Aqdas admoestou e mandou ponderar sobre o destino que sobreviera "àquele cujo poder transcendia" seu próprio, e advertiu que "os lamentos de Berlim" se fariam ouvir, e as margens do Reno seriam "cobertas de sangue" - suportou por um filho que morreu de certa enfermidade mortal três meses após sua ascensão ao trono, tendo este passado a Guilherme II, homem arrogante, obstinado e de curta visão. O orgulho do novo monarca precipitou-lhe a queda . Revolução - célere e subitamente, - irrompeu em sua capital, o comunismo ergueu a cabeça em numerosas cidades, os príncipes dos estados alemães abdicaram e ele mesmo, fugindo ignominiosamente para a Holanda, foi forçado a renunciar seu direito ao trono. A Constituição de Weimar selou a sorte do império cujo nascimento fora tão altamente proclamado por seu avô, e os termos de um tratado opressivamente severo provocaram "os lamentos" que, meio século antes, haviam sido objeto de tão ominosa profecia.

O arbitrário e inexorável Francisco José, imperador da Áustria e rei da Hungria, que fora repreendido no Kitáb-i-Aqdas por haver descuidado de seu evidente dever de perguntar por Bahá'u'lláh durante sua peregrinação à Terra Santa, foi engolfado pelas adversidades e tragédias, a tal ponto que seu reinado veio a ser considerado um reinado jamais excedido em número de calamidades causadas à nação. Seu irmão, Maximiliano, foi morto no México; o Príncipe Rodolfo, Herdeiro da Coroa, pereceu em circunstancias ignominiosas; a Imperatriz foi assassinada; o Arquiduque Francisco Ferdinando e sua esposa foram assassinados em Sarajevo; o próprio império mal construído desintegrou-se, foi subdividido, e se estabeleceu uma república, muito escolhida, sobre as ruínas do Santo Império Romano - república essa que após uma breve e precária existência se apagou do mapa político da Europa.

Nicolaevitch Alexandre II, o todo-poderoso. Czar da Rússia a quem Bahá'u'lláh três vezes admoestara em uma Epistola dirigida em seu nome, na qual lhe ordenou que "convocasse as nações a Deus", e lhe aconselhou que se guardasse de deixar sua soberania impedi-lo de reconhecer "o Supremo Soberano" - sofreu vários atentados contra sua vida e morreu afinal nas mãos de um assassino. Uma austera política de repressão, iniciada por ele mesmo e seguida por seu sucessor, Alexandre III, preparou o caminho para uma revolução que, no reinado de Nicolau II, varreu em uma onda de sangue o império dos czares, trazendo como seqüela guerra, moléstia e fome, e estabelecendo um projetariado militante que massacrou a nobreza, perseguiu o clero, expulsou os intelectuais, despojou de seus bens a religião do estado, executou o Czar com sua esposa e sua família e extinguiu a dinastia dos Romanoff.

O Papa Pio IX, inquestionável chefe da mais poderosa igreja da Cristandade - a quem Bahá'u'lláh, em uma Epístola a ele dirigida, mandou que deixasse seus "palácios para aqueles que os desejassem", que "vendesse todos os elaborados ornamentos" em seu poder, "os despendesse no caminho de Deus", e se apressasse em direção "ao Reino" - foi obrigado a render-se em penosas circunstâncias às forças assediadoras do Rei Vitor Manuel, e a submeter-se a ser privado dos Estados Pontificais e da própria Roma. A perda da "Cidade Eterna", sobre a qual a bandeira papal havia flutuado por mil anos, e a humilhação das ordens religiosas sob sua jurisdição, acrescentaram à suas enfermidades físicas angústia mental e amarguraram os últimos anos de sua vida. O reconhecimento formal do Reino da Itália que se exigiu subseqüentemente de um de seus sucessores no Vaticano, confirmou a virtual extinção da soberania temporal do Papa.

A rápida dissolução desses impérios, entretanto - do otomano, do napoleônico, do alemão, do austríaco e do russo, a destituição da dinastia Qájar e a virtual extinção da soberania temporal do Pontífice Romano, não esgotam o relato das catástrofes que sobrevieram às monarquias do mundo por não haverem sido atendidas as advertências de Bahá'u'lláh contidas nas passagens iniciais de Sua Epístola, Súrìy-i-Múlúk. A conversão das monarquias de Portugal e Espanha, bem como do Império Chinês, em repúblicas; o estranho destino que mais recentemente tem perseguido os soberanos da Holanda, da Noruega, da Grécia, da Iugoslávia e da Albânia, agora vivendo no exílio; a virtual abdicação da autoridade exercida pelos reis da Dinamarca, da Bélgica, da Bulgária, da Romênia e da Itália; a apreensão com que os outros soberanos devem estar contemplando as convulsões que se têm apoderado de tantos tronos; a ignomínia e os atos de violência que em alguns casos têm enegrecido os anais dos reinados de certos monarcas, tanto no Ocidente como no Oriente, e, ainda mais recentemente, a queda repentina do Fundados da recém-estabelecida dinastia na Pérsia - são estes ainda outros exemplos da aplicação do "Castigo Divino" prognosticado por Bahá'u'lláh nessa Sura imortal, e revelam a realidade divina da acusação por Ele pronunciada contra os governantes da terra em Seu Mais Sagrado Livro.

Não menos impressionante tem sido a extinção da influência predominante exercida pelos dirigentes eclesiásticos mulçumanos, sunitas bem como xiitas, nos dois países em que haviam sido erigidas as mais poderosas instituições do Islã, e que têm estado diretamente relacionadas com as tribulações amontoadas sobre o Báb e Bahá'u'lláh.

O Califa - por ele próprio denominado o vigário do Profeta do Islã, conhecido também como o "Comandante dos Fiéis", protetor das cidades santas de Meca e Medina, cuja jurisdição espiritual se estendia sobre mais de duzentos milhões de maometanos - com a abolição do Sultanato na Turquia, foi despido de sua autoridade temporal, até então considerada inseparável de sua alta função. O próprio Califa, após haver ocupado por um breve período uma posição anômala e precária, fugiu para a Europa: o Califado, a mais augusta e poderosa instituição do Islã, foi sumariamente abolido, sem se haver consultado qualquer comunidade no mundo sunita; assim se demoliu a unidade do mais poderoso ramo da Fé Islâmica; proclamou-se uma separação formal, completa e permanente entre o Estado Turco e a Fé Sunita; foi anulada a lei canônica Sharí'ah; as instituições eclesiásticas foram privadas da subvenção; promulgou-se um código civil, foram supressas as ordens religiosas e dissolvida a hierarquia sunita; a língua árabe, língua do Profeta do Islã, caiu em desuso, e sua escrita foi substituída pelo alfabeto latino; o próprio Alcorão foi traduzido para o turco; Constantinopla, a "Cúpula do Islã", desceu ao nível de uma cidade provincial, e sua incomparável jóia, a Mesquita de Santa Sofia, foi convertida em museu - uma série de degradações que relembram a sorte que, no primeiro século da Era Cristã, sobreveio ao povo judeu, à cidade de Jerusalém, ao Templo de Salomão, ao Santo dos Santos e a uma hierarquia eclesiástica cujos membros eram os declarados perseguidores da religião de Jesus Cristo.

Uma convulsão similar abalou os fundamentos da inteira ordem sacerdotal na Pérsia, embora não tenha sido proclamado ainda seu divórcio formal do Estado Persa. Desmoronou-se virtualmente o estado eclesiástico que estivera firmemente arraigado na vida da nação e que havia estendido suas ramificações a todas as esferas da vida nesse país. Uma ordem sacerdotal que era o muro de rochedo do Islã xiita nessa terra, se viu paralisada e desacreditada: seus mujtahids, os ministros favoritos do Imame oculto, foram reduzidos a um número insignificante; todos os seus oficiais, com exceção de uma mancheia, foram obrigados a trocar o turbante, o toucado tradicional, bem como as vestimentas tradicionais, pelas roupas européias que eles mesmos anatematizaram; desvaneceram-se a pompa e a ostentação que distinguiram suas cerimônias ; sus fatvás (sentenças) foram anuladas; suas doações foram entregues a uma administração civil; ficaram desertos seu seminários e suas mesquitas, e se deixou de reconhecer o direito de asilo que fora concedido a seus santuários; proibiram-se suas peças teatrais de caráter religioso; fecharam-se seus takgihs, e até seus peregrinações a Najaf e Karbilá foram desaconselhados e restritas. O abandono do véu; o reconhecimento da igualdade dos sexos; o estabelecimento de tribunais civis; a abolição do concubinato; a desaprovação do uso da língua árabe, o idioma do Islã e do Alcorão, e os esforços para separa-lo do persa - tudo isso proclama ainda mais a degradação e prognostica a extinção final daquela quadrilha infame, cujos líderes haviam ousado denominar-se "servos do Senhor de Santidade" (Imame 'Alí), que tão freqüentemente haviam recebido a homenagem dos piedosos reis da dinastia Safaví, e cuja anátemas contínuas, desde o nascimento da Fé do Báb, têm sido a causa principal das torrentes de sangue derramadas, e cujos atos denegriram os anais de sua religião, bem como de sua nação.

Além disso, uma crise - se bem que fosse menos severa do que aquela que abalou as ordens sacerdotais do Islã, os inveterados adversários da Fé - afligiu as instituições da Cristandade, cuja influência, desde o momento em que Bahá'u'lláh emitiu Seu chamado e fez soar Sua advertência, se tem deteriorado visivelmente, cujo prestígio tem sido severamente danificado, e cuja autoridade tem estado em constante declínio, sendo-lhes cada vez mais circunscritos os direitos, o poder e as prerrogativas. A virtual extinção da soberania temporal do pontífice romano, à qual já nos referimos; a onda de anteclericalismo que trouxe em conseqüência a separação entre a Igreja Católica e a República de França; o assalto organizado que um triunfante estado comunista dirigiu contra a Igreja Ortodoxa Grega na Rússia, e a conseqüente separação, privação dos bens e perseguição da religião do estado; a desintegração da monarquia austro-húngaro, a qual prestava lealdade à Igreja de Roma e lhe apoiava poderosamente as instituições; a provação à qual essa mesma igreja tem tido que se sujeitar na Espanha e n México; a onda de secularização que atualmente engolfa as missões católicas, anglicanas e presbiterianas em terras cristãs; a forças de um paganismo agressivo que estão atacando as cidadelas antigas da Igreja Católica, da Grega Ortodoxa e da Luterana na Europa Ocidental, Central e Oriental, nos Bálcãs e nos estados bálticos e escandinavos - estas se destacam como as mais conspícuas manifestações do declínio na sorte dos dirigentes eclesiásticos da Cristandade - dirigentes que, sem atenderem à voz de Bahá'u'lláh, se têm interposto entre o Cristo que regressou na glória do Pai e suas respectivas congregações.

Nem podemos deixar de notar a progressiva deterioração na autoridade exercida pelos dirigentes eclesiásticos da Fé Judaica e da Fé Zoroastriana, desde o instante em que se levantou a voz de Bahá'u'lláh, anunciando, em termos inequívocos, que "veio a Lei Suprema", que a Antiga Beleza "governa no trono de Davi" e que "qualquer coisa anunciada nos Livros (Escritura Sagrada Zoroastriana) se revelou e tornou clara". As evidências de crescente revolta contra a autoridade clerical; o desrespeito e a indiferença para com observâncias, rituais e cerimônias desde há muito consagradas; a freqüente invasão nas esferas de jurisdição clerical, por parte das forças de um nacionalismo agressivo e muitas vezes hostil; e a apatia geral com que é encarada essa invasão, especialmente no caso dos professos aderentes da Fé Zoroastriana - tudo isso subministra, além da menor sombra de dúvida, ainda mais justificado para as advertências e as predições de Bahá'u'lláh em Seus históricos pronunciamentos aos dirigentes eclesiásticos do mundo.

Tais são, em resumo, as assombrosas evidências da justiça retribuitiva de Deus, a qual tem afligido aos reis bem como aos eclesiásticos, tanto no Oriente como no Ocidente, como uma conseqüência direta, quer seja de sua ativa oposição à Fé de Bahá'u'lláh, ou à sua lamentável falha em responder a Seu chamado, em investigar Sua Mensagem, em impedir os sofrimentos que Ele suportou, ou em atentar os maravilhosos sinais e prodígios que, durante cem anos, têm acompanhado o nascimento e o desenvolvimento de Sua Revelação.

"De duas classes entre os homens", é Seu pronunciamento conciso e profético, "se tem arrancado o poder: os reis e os eclesiásticos." "Se não atenderdes" - assim advertiu Ele aos reis da terra - "aos conselhos que... Nós temos revelado nesta Epístola, o castigo de Deus vos atingirá de todas as direções... Naquele dia havereis... de reconhecer vossa própria impotência." E ainda: "Embora cientes da maior parte de Nossas aflições, deixastes de deter, no entanto, a mão do agressor." E mais, esta acusação: "Nós... seremos pacientes, assim como temos sido pacientes naquilo que Nos tem sobrevindo de vossas mãos, ó assembléia de reis!"

Condenando especificamente os dirigentes do mundo, escreveu Ele: "A fonte e origem da tirania têm sido os sacerdotes. ... Deus, verdadeiramente, deles se torna alheio, e Nós, também, deles Nos alienamos." "Ao observarmos com cuidado", afirma Ele abertamente, "descobrimos que Nossos inimigos são, pela maior parte, os sacerdotes." "Ó assembléia de sacerdotes" - assim a eles se dirige - "Doravante não havereis de vos ver dotados de poder algum, já que Nós o temos tirado de vós..." "Tivésseis vós acreditado em Deus quando se revelou", explica Bahá'u'lláh, "Dele o povo não se teria afastado, nem a Nós haveriam sobrevindo as coisas que hoje testemunhais", e ainda afirma, referindo-se mais especificamente aos eclesiásticos muçulmanos, "contra Nós se levantaram com uma crueldade que solapou a força do Islã..." "Os sacerdotes da Pérsia", declara Ele, "cometeram o que nenhum povo entre os povos do mundo jamais cometeu". E ainda: "... Os sacerdotes da Pérsia perpetraram o que os judeus não perpetraram durante a Revelação Daquele que é o Espírito (Jesus)." E, finalmente, estas portentosas profecias: "Por vossa causa foi o povo degradado e se arriou a bandeira do Islã e seu poderoso trono foi subvertido." "Dentro em breve haverá de parecer tudo o que possuis, e vossa glória se transformará na mais abjeta degradação, e havereis de ver o castigo por aquilo que fizestes..." "Em breve", prediz o Báb, ainda mais abertamente, "Nós, em absoluta verdade, atormentamos aqueles que contra Husayn (Imame Husayn) guerrearam... com o mais aflitivo tormento..." "Dentro de pouco tempo fará Deus sobre eles cair Sua vingança no tempo de Nosso regresso, e, em verdade absoluta, Ele lhes tem preparado, no mundo vindouro um severo tormento."

Em uma resenha desta natureza, tampouco devemos deixar de fazer referência àqueles príncipes, ministros e eclesiásticos que individualmente foram responsáveis pelas penosas provações às quais Bahá'u'lláh e Seus seguidores foram sujeitados: Fu'ád Páshá, o Ministro Turco de Assunto Exteriores - por Ele denunciado como o "instigador" de Seu desterro à Maior Prisão, que tão assiduamente se esforçara, em conjunto com o colega 'Alí Páshá, para excitar os receios as suspeitos de um déspota já predisposto contra a Fé e seu Chefe - cerca de um ano depois de haver ele conseguido executar seu desígnio, foi abatido pela vara da vingança de Deus durante uma viagem a Paris e morreu em Nice (no ano de 1869).

'Alí Páshá, o Sadr-i-A'zam (Primeiro Ministro), denunciado veementemente em Lawh-i-Ra'ís, cuja queda a Lawh-i-Fu'ád tão inequivocamente predissera, foi demitido de seu cargo, poucos anos depois do desterro de Bahá'u'lláh a 'Akká, perdeu todo seu poder e caiu em olvido completo. O tirânico Príncipe Mas'úd Mirzá, o Zullu's-Sultán, filho mais velho do Xá Násiri'd-Dín, que governava mais de duas quintas partes de seu reino, estigmatizado por Bahá'u'lláh como "a Árvore Infernal", caiu em desonra, foi destituído de todos os seus cargos, menos o de Isfahan, e perdeu toda expectativa de futura eminência ou promoção. O Príncipe Jalálu'd-Dawlih, de extrema rapacidade, tachado pela Pena Suprema como "o tirano de Yazd", foi privado de seu cargo cerca de um ano após as iniqüidades que perpetrara, sendo chamado a Teerã e obrigado a devolver às vítimas uma parte da propriedade que lhes havia roubado.

O intrigante, ambicioso e libertino Mírzá Buzurg Khán, Cônsul Geral da Pérsia em Bagdá, foi, enfim, destituído de seu cargo, "acabrunhado de desastres, cheio de remorso e submerso em confusão". O notório mujtahid Siyyid Sadiq-i-Tabátabá'i - denunciado por Bahá'u'lláh como "o Mentiroso de Teerã", autor do monstruoso decreto que condenou à morte todos os membros varões da comunidade bahá'í na Pérsia - jovens ou velhos, de alta ou baixa categoria, e todas as mulheres à deportação - adoeceu de repente, caindo vítima de uma moléstia que lhe devastava o coração, o cérebro e os membros de seu corpo, precipitando, afinal, sua morte. O altaneiro Subhí Pashá, que havia peremptoriamente chamado Bahá'u'lláh à sede do governo em 'Akká, perdeu a posição que ocupava, sendo afastado sob circunstâncias extremamente prejudiciais à sua reputação. Tampouco se livraram de um destino similar os outros governadores da cidade que haviam tratado com injustiça o exaltado Prisioneiro e os companheiros de exílio, sob sua custódia. "Cada páshá", atesta Nabíl em sua narrativa, "cuja conduta em 'Akká era louvável, fruía as vantagens de seu cargo durante um longo período, sendo-lhe concedidos por Deus abundantes favores, ao passo que todos Mutisarrifs (governadores) hostis eram rapidamente destituídos pela Mão do poder Divino, assim como Abdu'r-Rahmán Páshá e Muhammad-Yúsuf Páshá, que, havendo numa noite resolvido apreender os bem-amados de Bahá'u'lláh, foram no dia imediato avisados telegraficamente de sua destituição. Tal foi sua sorte que nunca mais lhes foi concedido um cargo."

Shaykh Muhammad-Báqir, apelidado de "Lobo" - condenado em veementes termos na Lawh-i-Burhán, a ele dirigida por Bahá'u'lláh, sendo comparado, nessa Epístola, ao "último traço de luz solar que toca o cume da montanha" - testemunhou o gradativo declínio de seu prestígio e morreu em um estado miserável de agudo remorso. Seu cúmplice, Mír Muhammad-Husayn, apelidado a "Serpente", descrito por Bahá'u'lláh como alguém "infinitamente mais malvado do que o opressor de Karbilá", foi expulso de Isfahan, mais ou menos na mesma época, depois do que vagava da aldeia em aldeia, contraiu uma moléstia que exalava tão nauseabundo odor que até a esposa e a filha não suportam dele se aproximar, e morreu tão desprestigiado ante as autoridades locais que ninguém se atreveu a assistir o funeral, sendo o cadáver ignominiosamente enterrado por alguns carregadores.

Deve-se mencionar, além disso, a fome devastadora que assolou a Pérsia cerca de um ano depois de o ilustre Badí' haver sido torturado até a morte - causando à população tão extrema angústia que centenas de mães, como vampiros, devoravam suas próprias crianças.

Nem se pode pôr termo a este assunto sem se fazer especial referência ao Arqui-Violador do Convênio do Báb, Mirzá Yahyá, que, em condições miseráveis, viveu o suficiente - em Chipre, chamada pelos turcos a "Ilha de Satanás" - para ver se reduzirem ao nada todas as esperanças que ele tão maliciosamente concebera. Sendo pensionista primeiro do governo turco e, mais tarde, do britânico, se viu sujeito a ainda mais humilhações por haver sido recusado seu pedido de cidadania britânica. Onze dos dezoito "Testemunhas" por ele nomeadas o abandonaram e, arrependidos, se volveram a Bahá'u'lláh. Ele próprio envolveu-se em um escândalo que manchou sua reputação e a de seu filho mais velho, privou esse filho e seus descendentes da sucessão da qual o investira anteriormente, nomeando em seu lugar o pérfido Mírzá Hádíy-i-Dawlat-Ábádí, um azalí (seguidor) notório, que, na ocasião do martírio de Mírzá Ashráf, já mencionado, se apavorou a tal ponto que, durante quatro dias consecutivos, proclamou do púlpito, em linguagem sumamente vituperativa, seu repudio absoluto à Fé Babí, bem como a Mirzá Yahyá, o benfeitor que nele havia posto tão implícita confiança. Foi aquele mesmo filho mais velho, quem, através da operação de um estranho destino, alguns anos depois, acompanhado por um sobrinho e uma sobrinha, procurou a presença de Abdu'l-Bahá, designado Sucessor de Bahá'u'lláh e Centro de Seu Convênio, expressou arrependimento, rogando perdão, foi por Ele benevolamente aceito e, até a hora de sua morte, continuou a ser um leal seguidor da Fé que seu pai havia tão nesciamente, tão vergonhosa e lastimavelmente se esforçado por extinguir.

1 O Diretor da Prisão.
2 O Grão-Vizir.
* Antigo instrumento de tortura.
1 "O Esplendor da Verdade"
* Portaria.
TERCEIRO PERÍODO
O MINISTÉRIO DE ABDU'L-BAHÁ
(1892-1921)
Capítulo XIV
O CONVÊNIO DE BAHÁ'U'LLÁH

Nos capítulos precedentes tenho tentado traçar o nascimento e o progresso da Fé associado com o Báb e Bahá'u'lláh, durante os primeiros cinqüenta anos de sua existência. Se me estendi em demasia sobre os acontecimentos relacionados com a vida e a missão destes Luminares gêmeos da Revelação Bahá'í, se em ocasiões me tenho permitido fazer uma narrativa demasiado circunstancial de certos episódios relacionados com Seus ministérios, é unicamente porque esses acontecimentos proclamam o início e assinalam o estabelecimento de uma época que futuros historiadores haverão de aclamar como o período mais heróico, mais trágico e mais momentoso da Era Apostólica da Dispensação Bahá'í. Em realidade, o relato que as décadas subseqüentes do século em revista desvelam ante nossos olhos é apenas a crônica das múltiplas evidências da irresistível operação daquelas forças criadoras que o transcurso de cinqüenta anos de quase ininterrupta Revelação liberara.

Um processo dinâmico, divinamente impulsionado, detentor de potencialidades jamais sonhadas, de âmbito universal, e cujas conseqüências finais iriam transformar o mundo, fora posto em movimento naquela noite memorável em que o Báb revelou o propósito de Sua missão a Mullá Husayn, num obscuro recanto de Shiráz. Adquiriu um ímpeto tremendo com os primeiros indícios da Revelação de Bahá'u'lláh que alvorecia em meio às trevas do Síyáh-Chál de Teerã. Foi ainda mais acelerado pela Declaração de Sua missão nas vésperas do Seu banimento de Bagdá. Evoluiu para um clímax com a proclamação dessa mesma missão durante os anos tempestuosos do Seu exílio em Adrianópolis. Revelou-se o pleno significado quando o Autor dessa Missão emitiu Suas histórias exortações, apelos e advertências aos reis da terra e aos chefes eclesiásticos do mundo. Foi finalmente consumado pelas leis e estatutos que Ele formulou, pelos princípios que enunciou, e pelas instituições que prescreveu durante os últimos anos de Seu ministério na cidade-prisão de 'Akká.

A fim de se dirigir e canalizar essas forças desatadas por este processo de origem celeste, e no intuito de se lhes assegurar o funcionamento contínuo e harmonioso depois da Sua ascensão, era claramente indispensável um instrumento divinamente prescrito, dotado de autoridade indiscutível e organicamente ligado ao Próprio Autor da Revelação. Esse instrumento fora expressamente providenciado por Bahá'u'lláh através da instituição do Convênio, instituição que Ele estabelecera firmemente antes de Sua ascensão. Esse mesmo Convênio, Ele o antecipara no Kitáb-i-Aqdas, e lhe fizera alusão ao dar o último adeus aos membros da família que haviam sido chamados para junto de Seu leito, nos dias que precederam a ascensão. Também o incorporara a um documento especial que designou como "o Livro do Meu Convênio", e que confiou durante a última doença ao filho mais velho, Abdu'l-Bahá.

Escrito inteiramente de Seu Próprio punho, deslacrado no nono dia após Sua ascensão e na presença de nove testemunhas escolhidas dentre Seus companheiros e membros de Sua Família - e lido subseqüentemente, na tarde desse mesmo dia, diante de um grupo grande reunido no Mais Sagrado Túmulo, que incluía Seus filhos, alguns dos parentes do Báb, peregrinos e bahá'ís residentes - este incomparável e histórico Documento, designado por Bahá'u'lláh como Sua "Maior Epístola" e por Ele mencionado em Sua "Epístola ao Filho do Lobo" como o "Livro Carmesim", não encontra paralelo nas Escrituras de qualquer Revelação anterior, não se excluindo a do próprio Báb. Pois em parte nenhuma dos livros pertencentes a quaisquer dos sistemas religiosos do mundo, nem sequer entre os escritos do Autor da Revelação Bahá'í, vemos um só documento que estabeleça um Convênio dotado de uma autoridade comparável àquela do Convênio que Bahá'u'lláh mesmo instituiria.

"Tão firme e poderoso é este Convênio" - afirmou Aquele que é seu Centro designado - que, desde o principio do tempo até o dia presente, nenhuma Era religiosa produziu igual." "Está indubitavelmente claro", disse Ele ainda mais, "que o eixo da unidade do gênero humano não é outro, senão o poder do Convênio." "Sabe tu", escreveu Ele, "que "Cabo seguro" mencionado, dede a fundação do mundo, nos Livros e nas Epístolas e Escrituras da antiguidades não é, senão o Convênio e o Testamento." E ainda: "A lâmpada do Convênio é a luz do mundo, e as palavras delineadas pela Pena do Altíssimo são um oceano ilimitado." "O Senhor, o Todo-Glorioso", declarou Ele, além disso, "fez à sombra da Árvore de Anísá (Árvore da Vida) um novo Convênio e estabeleceu um grande Testamento... Terá se estabelecido um Convênio, tal como este, em qualquer Era anterior, em qualquer época, período ou século do passado, ter-se-á visto Testamento igual, registrado pela Pena do Altíssimo?" Não, por Deus!" E, finalmente: "O poder do Convênio é como o calor do sol que vivifica e promove o desenvolvimento de todas as coisas que há na terra. A luz do Convênio, de modo igual, educa as mentes, os espíritos, os corações e as almas dos homens." A esse mesmo Convênio tem Ele em Seus escritos se referido como o "Testamento Concludente", a "Balança Universal", o "Imã da graça de Deus", o "Estandarte Erguido", o "Testamento Irrefutável", 'o todo-poderoso Convênio cujo igual as sagradas Eras do passado jamais testemunharam", e "uma das feições distintivas deste mais poderoso ciclo."

Louvado pelo escritor do Apocalipse como "a Arca de Seu (de Deus) Testamento"; associado com a reunião embaixo da "Árvore de Anísá" (Árvore da Vida); mencionado por Bahá'u'lláh em Palavras Ocultas; glorificado por Ele, em outras passagens de Seus escritos, como a "Arca da Salvação" e como "a Corda estendida entre a terra e o Reino de Abhá", este Convênio foi legado à posteridade em uma Vontade e Testamento que, juntamente com o Kitáb-i-Aqdas e algumas Epístolas, nas quais o grau e a posição de Abdu'l-Bahá são inequivocamente revelados, constituem os principais baluartes designados pelo próprio Senhor do Convênio para, após Sua ascensão, proteger e apoiar Aquele nomeado o Centro de Sua Fé e o Delineador de suas futuras instituições.

Nesse Documento importante, incomparável, o Arauto revela o caráter daquela "excelente e inestimável herança" legada por Ele aos "herdeiros"; proclama de novo o propósito fundamental de Sua Revelação; concita aos "povos do mundo" a se apegarem firmemente àquilo que "elevará" sua "posição"; anuncia-lhes que "Deus perdoou o que passou"; realça a sublimidade da posição do homem; revela o objetivo primordial da Fé Divina, recomenda aos fiéis que rezem pelo bem-estar dos reis da terra, "as manifestações da grandeza de Deus e as auroras de Seu poder e Suas riquezas"; investe-os no governo do mundo; escolhe como Seu domínio especial os corações dos homens; proíbe categoricamente dissensões e contendas; ordena aos adeptos que ajudem aqueles governantes que estão "adornados de equidade e justiça"; e manda, em particular, aos Aghsán (Seus filhos) que meditem sobre a "grande força e o poder consumado que jazem ocultos no mundo da existência". Ordena-lhes, ademais, bem como aos Afnán (parentes do Báb) e aos próprios parentes, que se "voltem todos para o Maior Ramo (Abdu'l-Bahá)"; identifica-O com "Aquele a Quem Deus designou", "Que derivou desta Raiz preexistente", a que o Kitáb-i-Aqdas faz referências; ordena que o grau de "Ramo Maior" (Mírzá Muhammad-'Alí) fique abaixo do "Maior Ramo" (Abdu'l-Bahá); exorta os crentes a tratarem aos Aghsán com consideração e afeto; aconselha-os a que respeitem Sua família e Seus parentes, bem como os do Báb; nega aos filhos "qualquer direito à propriedade dos outros"; concita todos os próprios parentes e aos do Báb a "temerem a Deus, a fazer o que é próprio e digno", e a seguir a coisas que irão "exaltar" sua posição; previne todos os homens de que não consintam em que "os meios de ordem se tornem causa de confusão e o instrumento da união motivo para a discórdia"; e conclui com uma exortação em que convida os fiéis a "servirem a todas as nações" e se esforçarem pela "melhoria do mundo".

Esse posto único e sublime conferido a Abdu'l-Bahá não surpreendeu, e na verdade não poderia surpreender, àqueles companheiros de exílio que tinham tido por ta longo tempo o privilégio de observar Sua vida e conduta, nem aos peregrinos a quem fora dado, embora de passagem, o contato pessoal com Ele, nem, seguramente, ao vasto círculo de fiéis que, em terras distantes, Lhe vieram a reverenciar o nome e apreciar as obras, nem ainda ao largo número de Seus amigos e conhecidos que, na Terra Santa e países circunvizinhos, estavam já bem familiarizados com a posição que Ele ocupara durante a vida do Pai.

Foi Ele cujo nascimento auspicioso ocorreu naquela noite inolvidável quando o Báb desvelou a Seu primeiro discípulo, Mullá Husayn, o caráter transcendental de Sua Missão. Foi Ele quem, criancinha ainda, sentado no regaço de Táhirih, registrara o empolgante significado do desafio comovedor que aquela indomável heroína havia dirigido a seu condiscípulo, o erudito e famoso Vahíd. Foi Ele cuja alma terna fora ferida com a impagável visão de um Pai macilento, desgrenhado, carregado de correntes, na ocasião de uma visita ao Siyáh-Chál de Teerã, quando era ainda menino de nove anos. Foi contra Ele, criança ainda, que - enquanto Seu Pai jazia preso naquela masmorra - se havia dirigido à malícia de uma turba de moleques que O apedrejaram, vilipendiaram e O acabrunharam de ridículo. Seu destino foi, pouco depois de haver sido Seu Pai libertado da prisão, de com Ele compartilhar os rigores e as misérias de um desterro cruel de Sua terra natal e as provações que culminaram em Seu forçado recolhimento às montanhas do Curdistão. Foi Ele a Quem adorava, confiava a Nabíl - segundo atesta este em sua narrativa - que se sentia envelhecido, embora apenas uma criança de tenra idade. Sua fora a distinção, sem igual, de haver reconhecido, enquanto ainda na infância, a plena glória da posição - não revelada ainda - de Seu Pai - reconhecimento este que O impelira a prostrar-se a Seus pés e Lhe implorar, espontaneamente, o privilégio de sacrificar a própria vida por Sua causa. De sua pena, quando era ainda adolescente em Bagdá, emanara aquele magnífico comentário sobre uma bem conhecida tradição maometana - escrito à sugestão de Bahá'u'lláh, em resposta a um pedido feito por 'Alí-Shawkat Páshá - o qual era tão esclarecedor que exercitou a ilimitada admiração de quem a recebeu. Foram Suas dissertações e Seus discursos, com os eruditos doutores com os quais teve contato em Bagdá, que primeiro despertaram a admiração geral por Ele e por Seu conhecimento - admiração essa que haveria de aumentar constantemente, à medida que se alargava o círculo de Suas relações mais tarde - primeiro em Adrianópolis e depois em 'Akká. Foi a Ele que o muito culto Khurshíd Páshá, governador de Adrianópolis, se sentira movido a prestar, em público, um fervoroso tributo quando, na presença de numerosos sacerdotes eminentes dessa cidade, o Jovem convidado havia, de uma maneira concisa e espantosa, resolvido um intrincado problema que causara perplexidade nas mentes das pessoas lá reunidas - uma realização que tão profundamente afetou o Páshá que, daquele tempo em diante, ele mal se podia reconciliar com a ausência desse Jovem nas reuniões.

Nele Bahá'u'lláh fora levado a depositar uma confiança sempre crescente, à medida que o âmbito e a influência de Sua Missão se estendiam, nomeando-O, em numerosas ocasiões, Seu deputado, habilitando-O a defender Sua Causa perante o público, destinando-Lhe a tarefa de transcrever suas Epístolas, permitindo-lhe que assumisse a responsabilidade de O proteger dos inimigos, e investindo-O na função de vigiar e promover os interesses dos companheiros de exílio e amigos. Foi Ele o comissionado para promover, assim que as circunstâncias o permitissem, a delicada e importantíssima tarefa de adquirir o local que iria servir como lugar de descanso permanente do Báb, bem como para assegurar o perfeito traslado de Seus restos mortais para a Terra Santa, e erigir-Lhe um sepulcro adequado no Monte Carmelo. Foi Ele o instrumento mais importante na obtenção dos meios necessários para a libertação de Bahá'u'lláh de Seu encarceramento de nove anos, dentro dos muros da cidade de 'Akká, bem como permitir-Lhe gozar, no entardecer da vida, algo daquela paz e segurança das quais fora privado durante tanto tempo. Foi através de Seus esforços incansáveis, que o ilustre Badí obteve a concessão de suas entrevistas memoráveis com Bahá'u'lláh; que a hostilidade demonstrada por vários governantes de 'Akká para com a comunidade exilada se transmutara em estima e admiração; que a aquisição de propriedades adjacentes ao Mar da Galileia e ao Rio Jordão fora efetuada; e que a apresentação mais eficaz e valiosa da Fé em seus primórdios, bem como de seus preceitos, fora transmitida à posteridade. Através da recepção extraordinariamente cálida que Lhe concederam - quando de Sua visita a Beirute - através de Seu contato com Midhát Páshá, ex-Grão-Vizir da Turquia e de Sua amizade com Azíz Páshá, que conhecera em Adrianópolis e que fora subseqüentemente promovido ao posto de Vahíd, e por meio de Seu trato constante com funcionários, notabilidade e eclesiásticos de prestígio, os quais em números crescentes procuravam a Sua presença durante os anos finais do ministério de Seu Pai - foi que Ele lograra êxito no levantamento do prestígio da Causa de que era campeão, a um nível que jamais atingira.

Só a Ele foi outorgado o privilégio de ser chamado "o Mestre", uma honra da qual Seu Pai tinha rigorosamente excluído todos os outros filhos. Aquele Pai extremoso e infalível O havia escolhido para conferir-Lhe o título único de "Sirru'lláh" (o Mistério de Deus), uma designação tão apropriada a Quem, embora essencialmente humano, e ocupando uma posição radical e fundamentalmente diferente da de Bahá'u'lláh e do Seu Precursor, podia ainda pretender ser perfeito Exemplar da Sua Fé, ser dotado de conhecimento sobre-humanos e ser considerado como o espelho imaculado que reflete Sua luz.

Enquanto em Adrianópolis, esse mesmo Pai, na Súriy-i-Ghusn (Epístola do Ramo) a Ele se referiu como "este Ser sagrado e glorioso, este Ramo de Santidade", como "o Braço da Lei de Deus", como Seu "maior favor" aos homens, como Sua "mais perfeita graça" a eles conferida, como Aquele através de Quem "é vivificado todo osso em decomposição", declarando que "quem a Ele se dirigir, se terá dirigido a Deus", e que "aqueles que se privam da sombra do Ramo se perdem no deserto do erro." E ele, enquanto ainda nessa mesma cidade, Lhe fez referências (em uma Epístola endereçada a Hájí Muhammad Ibrahim-Khalíl) como aquele entre Seus filhos "de Cuja língua Deus fará emanarem os sinais de Seu poder", e aquele que "Deus escolheu especialmente para Sua Causa". Em período posterior, o Autor do Kitáb-i-Aqdas - em uma célebre passagem subseqüentemente elucidada no Livro de Meu Convênio - a Ele conferiu a função de interpretar Seus Escritos Sagrados, proclamando-O, ao mesmo tempo, "Aquele a Quem Deus designou, derivado desta Raiz Antiga". A Ele - em uma Epístola revelada durante esse mesmo período e endereçada a Mirzá Muhammad Quliy-i-sabzívárí - se referira como "o Golfo que emanou deste oceano, o qual abrangeu todas as coisas criadas", e, a Seus seguidores, Ele ordenara que Lhe volvessem suas faces. A Ele, além disso, na ocasião de Sua visita a Beirute, Seu Pai, em uma comunicação por Ele ditada ao amanuense, havia rendido um fervoroso tributo, glorificando-O como Aquele "a Cujo redor revolvem todos os nomes", como "o Mais Poderoso Ramo de Deus" e como "Seu antigo e imutável Mistério". Foi Ele a Quem Bahá'u'lláh, em várias Epístolas que ele Próprio escrevera, se dirigira pessoalmente como "o Menino de Meus olhos", e a Quem se referira como "um escudo para todos os que estão no céu e na terra", como "um abrigo para toda a humanidade" e "uma cidadela para quem quer que em Deus tenha acreditado". Foi em Seu benefício que Seu Pai, em uma oração revelada em Sua honra, suplicara a Deus que "O Tornasse vitorioso" e "ordenasse para Ele, como também para aqueles que O amam", as coisas destinadas pelo Todo-Poderoso a Seus "Mensageiros" e aos "Fidedignos" de Sua Revelação. E finalmente, em ainda outra Epístola, foram registradas estas palavras poderosas: "A Glória de Deus esteja sobre Ti e sobre quem quer que Te sirva e a Teu redor circule. Infelicidade, grande infelicidade, sobrevenha a quem a Ti se opõe e causa dano. Feliz é aquele que a Ti jura fidelidade; e a quem seja Teu inimigo que o jogo infernal atormenta."

E agora, para coroar as inestimáveis honras, privilégios e benefícios de que foi cumulado em quantidade sempre crescente através dos quarenta anos do ministério de Seu Pai em Bagdá, em Adrianópolis e em 'Akká, Ele fora elevado ao alto cargo de Centro do Convênio de Bahá'u'lláh, e designado como sucessor do próprio Manifestante de Deus - posto que Lhe dava poderes para comunicar um ímpeto extraordinário à expansão internacional da Fé de Seu Pai, para amplificar-lhe a doutrina, para derrubar todas as barreiras que lhe obstruíssem a marcha, e para dar corpo e delinear as feições de sua Ordem Administrativa, Fruto do Convênio e Precursor daquela Ordem Mundial cujo estabelecimento deve necessariamente assinalar o advento da Idade Áurea da Era Bahá'í.

Capítulo XV
A REBELIÃO DE MIRZÁ MUHAMMAD-'ALÍ

O efeito imediato da ascensão de Bahá'u'lláh, como já observamos, foi o de espalhar pesar e confusão entre os adeptos e companheiros, e inspirar os adversários vigilantes e temíveis com nova esperança e renovada determinação. Numa época em que uma Fé penosamente caluniada emergira triunfantemente das duas crises mais severas que já havia conhecido - uma delas obra de inimigos externos e a outra de inimigos internos - quando seu prestígio se elevara a uma altura sem igual em qualquer período de sua existência de cinqüenta anos, a Mão infalível que havia dado forma a seu destino desde os primórdios foi removida de repente, deixando uma lacuna que tanto os amigos como os inimigos julgavam nunca mais poder ser preenchida.

Assim, no entanto, como o explicou mais tarde o próprio Centro do Convênio de Bahá'u'lláh - o intérprete autorizado de Seus ensinamentos - a dissolução do tabernáculo que a alma do Manifestante de Deus escolhera para Sua morada temporária, nada mais significava que a libertação das restrições que uma vida terrena Lhe havia necessariamente imposto. Sua influência não mais estando circunscrita por quaisquer limitações físicas, seu resplendor não mais estando anuviado pelo templo humano, essa alma poderia daqui por diante vivificar o mundo inteiro a um ponto jamais atingido em qualquer estágio de sua existência neste planeta.

A estupenda tarefa de Bahá'u'lláh, neste plano terreno, além disso, a época de Seu passamento, fora trazida à sua consumação final. Sua missão, longe de estar incompleta,f ora cumprida de um modo cabal, sob todos os pontos de vista. A Mensagem que Lhe havia sido confiada intemeratamente a seus reis e líderes o chamado de que Ele fora incumbido. Os pontos fundamentais da doutrina destinada a revivificar o gênero humano, curando-lhe as doenças e redimindo-o da servidão e da degradação, haviam sido estabelecidos inabalavelmente. A onda de calamidades que iria depurar e fortificar o organismo da Sua Fé e se abatera com fúria incontida. Fora derramado em profusão o sangue que iria fertilizar o solo do qual estavam destinadas a surgir as instituições da Sua Ordem Mundial. Acima de tudo, o Convênio que iria perpetuar a influência dessa Fé, assegurar-lhe a integridade, salvaguarda-la do cisma e estimular-lhe a expansão pelo mundo todo, fora fixado numa base inviolável.

Sua causa, de uma preciosidade além dos sonhos e esperanças dos homens, guardando qual relíquia dentro de sua concha aquele pérola de alto preço, que o mundo desde que foi criado, procurava; arrostando com tarefas colossais de urgência e complexidade inimagináveis, estava indubitavelmente em boas mãos, quanto a sua guarda. Seu próprio Filho bem-amado, a menina dos seus Olhos, Seu vice-regente da terra, o Executor de Sua autoridade, o Pivô do Seu Convênio, o Pastor do Seu rebanho, o Exemplar de Sua Fé, a Imagem de Suas perfeições, o Mistério da Sua Revelação, o Intérprete da Sua mente, o Arquiteto da Sua Ordem Mundial, a Insígnia da Sua Paz Suprema, o Ponto Focal de Sua direção infalível - numa palavra, o ocupante de um cargo sem par e sem igual em todo o campo da história religiosa - montava-lhe guarda, alerta, impávido e determinado a ampliar-lhe os limites, apregoar-lhe a fama intensamente, defender-lhe os interesses e consumar-lhe o propósito.

A vibrante proclamação que Abdu'l-Bahá escrevera, dirigida de modo geral aos adeptos do Pai, no dia seguinte ao da Sua ascensão, bem como as profecias que Ele Próprio formulara nas Epístolas, manifestavam uma resolução e uma confiança que os frutos colhidos e os triunfos alcançados no decurso de um ministério de trinta anos têm justificado em todos os sentidos.

Dissipara-se a nuvem de desânimo que momentaneamente se abatera sobre os desconsolados adeptos da Cauda de Bahá'u'lláh. A continuidade daquela direção infalível que lhe fora concedida desde o nascimento foi agora assegurada. Compreendia-se agora, claramente, o que significava a solene afirmação de que este é "o Dia que não será seguido pela morte". Uma comunidade órfã, em sua hora de necessidade desesperada, reconhecia em Abdu'l-Bahá seu Consolo, seu Guia, seu Esteio e Protetor. A Luz que fulgira com tal brilho deslumbrante no coração da Ásia, que se espalhara durante a vida de Bahá'u'lláh pelo Oriente Próximo, e que iluminava as orlas dos continentes europeus e africano, iria viajar, através da influência impulsionante do Convênio recém-proclamado, quase que imediatamente após a morte de seu Autor, até o continente norte-americano no ocidente, dali difundindo-se aos países da Europa e subseqüentemente derramando seu esplendor tanto sobre o Extremo Oriente como sobre a Australásia.

Antes que a Fé, contudo, pudesse içar o seu estandarte no âmago do continente norte-americano e dali, como base, estabelecer seus postos avançados sobre uma tão vasta parte do mundo ocidental, o recém-nascido Convênio de Bahá'u'lláh tinha que sofrer um batismo de fogo, como havia acontecido com a Fé que o originara, a fim de demonstrar sua solidez e proclamar sua indestrutibilidade a um mundo descrente. Uma crise, quase tão grave quanto a que acometera a Fé em seus primeiros anos em Bagdá, viria abalar seus alicerces no momento exato em que esse Convênio se iniciava, e sujeitar de novo a Causa, da qual era o fruto mais nobre, às mais acerbas provações experimentadas no decurso de todo um século.

No próprio coração e centro de Sua Fé foi precipitada essa crise erroneamente interpretada como um cisma pelos adversários, tanto políticos como eclesiásticos, bem como pelo remanescente dos sequazes de Mirzá Yahyá - em fraco declínio - e, portanto, vista com júbilo como sinal da imediata ruptura e dissolução final do sistema estabelecido por Bahá'u'lláh. Fora provocada por um membro de Sua própria família, um meio-irmão de Abdu'l-Bahá, expressamente nomeado no livro do Convênio, e detentor de uma categoria só inferior à d'Aquele que havia sido designado como o Centro desse Convênio.

Por nada menos de quatro anos, essa crise agitou com violência as mentes e os corações de uma vasta proporção dos fiéis por todo o Oriente, eclipsou, por algum tempo, o Orbe do Convênio, criando uma brecha irreparável nas fileiras dos próprios parentes de Bahá'u'lláh e selando em última instância o destino da grande maioria dos membros de Sua família, e, embora nunca conseguisse causar uma divisão permanente na estrutura da própria Fé, lhe danificou severamente o prestígio. A verdadeira base dessa crise era o ciúme veemente, irreprimível, que inflamava a alma - ciúme da reconhecida preeminência de grau, poder, habilidade, conhecimento e virtude que Abdu'l-Bahá demonstrava, acima e além de todos os outros membros da família de seu Pai - esse ciúme provocado não só em Mirzá Muhammad-'Alí, arqui-violador do Convênio, mas também em alguns de Seus parentes mais próximos. Uma inveja tão cega como aquela que se apoderara da alma de Mirzá Yahyá, tão fatal como aquela que a superior excelência de José havia incendiado nos corações de seus irmãos, tão profundamente arraigada como aquela que ardera no peito de Caim e o incentivara a matar seu irmão Abel - tal foi a inveja que, desde alguns anos, antes da ascensão de Bahá'u'lláh, lavrava no recôndito do coração de Mirzá Muhammad-'Alí, sendo secretamente inflamada por aqueles inúmeros sinais de distinção, admiração e favor conferidos a Abdu'l-Bahá não só pelo próprio Bahá'u'lláh, por Seus companheiros e Seus seguidores, como também pelo vasto número de descrentes que vieram a reconhecer aquela grandeza inata manifestada por Abdu'l-Bahá desde a infância.

Longe de ser apaziguado pelas provisões de um Testamento que o elevara à segunda posição mais alta dentro das fileiras dos fiéis, o fogo de impagável animosidade que ardia no peito de Mirzá Muhammad-'Alí flamejava ainda mais intensamente, logo que ele veio a perceber em sua plenitude as implicações desse Documento. Tudo o que Abdu'l-Bahá podia fazer durante um período de quatro anos angustiantes - Suas incessantes exortações, Seus fervorosos apelos, os favores e a bondade por Ele dispensados com tanto profusão, as admoestações e advertências que Ele pronunciava, até mesmo Seu voluntário recolhimento na esperança de evitar a tempestade ameaçadora - provou ser em vão. Gradativamente e com inexorável persistência, mediante mentiras, meia-verdades, calúnias e flagrantes exageros, esse "Promotor Primário de sedição" conseguiu alistar em seu apoio quase a família inteira de Bahá'u'lláh, bem como um número considerável dos que haviam formado seu séqüito imediato. As duas esposas sobreviventes de Bahá'u'lláh, Seus dois filhos, o vacilante Mirzá Díyá'u'lláh e o traiçoeiro Mirzá Badí'u'lláh, com sua irmã e meia-irmã e seus esposos, sendo um deles o infame Siyyid 'Alí, parente do Báb, o outro o astucioso Mirzá Majdi'd-Dín, juntamente com sua irmã e seus meio-irmãos - filhos do nobre, fiel, agora falecido Áqáy-i-Kalim - todos se uniram num determinado esforço para subverter os fundamentos do Convênio estabelecido pelo Testamento recém-proclamado. Até Mirzá Áqá Ján, que durante anos laborara como amanuense de Bahá'u'lláh, bem como Muhammad-Javad-i-Qasvini, que sempre desde os dias de Adrianópolis se ocupara em transcrever as inumeráveis Epístolas reveladas pela Pena Suprema, com sua família inteira, se aliaram com os violadores do Convênio, deixando-se enredar por suas maquinações.

Abandonado, traído, assaltado pela quase totalidade dos seus parentes, ora congregados na Mansão e nas casas circunvizinhas que se apinhavam ao redor do mais Sagrado Túmulo, Abdu'l-Bahá, já privado tanto de Sua mãe como de Seus filhos, e sem qualquer apoio, a não ser o de uma irmã solteira e de quatro filhas solteiras, o da esposa e de um tio (meio-irmão de Bahá'u'lláh), ficou sozinho para suportar, frente a uma multidão de inimigos organizados contra Ele, interno e externos todo o peso das tremendas responsabilidades que Seu elevado cargo acumulara sobre Ele.

Esses repudiadores de um Convênio divinamente estabelecido - estritamente unidos por um só desejo e um só propósito comuns; incansáveis em seus esforços; confiantes do apoio do poderoso e pérfido Jamál-i-Burujirdí e de seus sequazes, Hají Husayn-i-Kashí, Khalíl-i-Khu'í e Jalíl-i-Tabrízí, os quais haviam esposado sua causa; ligado por um vasto sistema de correspondência com todos os centros e indivíduos que podiam alcançar; secundados em seus labores por emissários que eles enviavam à Pérsia, ao Iraque, à Índia e ao Egito; e encorajados em seus desígnios pela atitude de oficiais a quem subornavam ou seduziam - todos levantaram-se, como um só homem, a fim de lançarem uma campanha de injúrias e vilipêndios que era comparável em sua virulência às acusações infames dirigidas a Bahá'u'lláh por Mirzá Yahyá e Siyyid Muhammad em conjunto. A amigos e desconhecidos, crentes e descrentes, igualmente, a oficiais de alto ou baixo nível, tanto abertamente como por insinuação, não só verbalmente, como também por escrito, representavam Abdu'l-Bahá como um usurpador que era ambicioso, arbitrário, sem princípios ou piedade, que havia deliberadamente desatendido as instruções testamentárias de Seu Pai e, em linguagem intencionalmente velada e ambígua, assumido um grau equivalente ao do Próprio Manifestante, havendo, em Suas comunicações como Ocidente, começado a fazer pretensão de ser a volta de Jesus Cristo, o Filho de Deus, vindo "na glória do Pai" e, em suas cartas aos crentes da Índia, se proclamado o prometido Sháh Bahrám, arrogando a Si Próprio o direito de interpretar os escritos de Seu Pai, de inaugurar uma nova Dispensação e de compartilhar com Seu Pai a Suprema Infabilidade, prerrogativa exclusiva dos detentores da função profética. Afirmaram eles, ainda mais, que por interesses particulares Abdu'l-Bahá fomentara discórdia, promovera inimizade e brandira a arma da excomunhão; que Ele havia pervertido o propósito de um testamento - o qual, segundo sua alegação, tratava primariamente dos interesses particulares da família de Bahá'u'lláh - pois Ele o aclamara um Convênio de importância mundial, preexistente, incomparável, sem igual na história de todas as religiões; que Ele privara Seus irmãos de seu legítimo quinhão, despendendo-o com oficiais em Seu próprio beneficio; que Ele havia declinado todos os reiterados convites que Lhe foram feitos para tratar das questões surgidas e reconciliar as divergências que prevaleciam; que Ele realmente corrompera o Texto Sagrado, nele interpolando passagens escritas por Ele Próprio, e pervertera o propósito e o significado de algumas das mais poderosas Epístolas reveladas pela pena de Seu Pai; e, finalmente, que em conseqüência de tal conduta, o estandarte da rebelião fora içado pelos crentes orientais, que a comunidade dos fiéis fora rompida, rapidamente declinava e estava condenada à extinção.

E foi, não obstante, esse mesmo Mirzá Muhammad-'Alí que - considerando-se o expoente da fidelidade, o porta-estandarte dos "Unitários", o "Dedo que aponta seu Mestre", o campeão da Sagrada Família, o porta-voz dos Aghsán, o esteio dos Escritos Sagrados - havia ainda durante a vida de Bahá'u'lláh, em uma declaração por escrito, assinada e lacrada por ele, apresentado tão aberta e vergonhosamente a mesma pretensão agora falsamente imputada por ele a Abdu'l-Bahá, devido a que, o Pai com Sua própria mão, o castigara.

Foi Ele quem, ao ser enviado em missão à Índia, alterara o texto dos sagrados escritos entregues a seu cuidado para publicação. E foi quem teve a desfaçatez e a temeridade de dizer diretamente a Abdu'l-Bahá que, justamente como Omar conseguira usurpar a sucessão do Profeta Maomé, ele também se sentia capaz de fazer o mesmo. Foi quem, obcecado pelo medo de não sobreviver a Abdu'l-Bahá, no momento quando este lhe assegurou que, com o tempo, toda a honra por ele cobiçada viria a ser sua, respondeu imediatamente que nenhuma garantia havia de Lhe sobreviver. Segundo atesta Mirzá Badí'u'lláh em sua confissão, escrita e publicada na ocasião de seu arrependimento e de sua reconciliação com Abdu'l-Bahá, que tão pouco durou, foi ele quem levara, mediante um estratagema - enquanto o corpo de Bahá'u'lláh ainda esperava sepultamento - duas pastas que continham os mais preciosos documentos de seu Pai, por Ele confiadas, antes de Sua ascensão, a Abdu'l-Bahá. Foi ele quem, por uma extremamente hábil e simples falsificação de uma palavra repetida em algumas das passagens denunciatórias, dirigidas pela Pena Suprema a Mirzá Yahyá, e mediante outros ardis, tais como mutilação e interpolação, conseguira que essas passagens se tornassem diretamente aplicáveis a um Irmão a quem ele odiava com ódio tão consumidor. E final, foi esse mesmo Mirzá Muhammad-'Alí quem, assim como afirma Abdu'l-Bahá em Seu Testamento, conspirara, com circunspecção e astúcia, para Lhe tirar a vida - intenção essa indicada pelas alusões em uma carta escrita por "Shú'á'u'lláh (filho de Mirzá Muhammad-'Alí), o original da qual estava incluso nesse mesmo Documento por Abdu'l-Bahá.

Por atos como esses, e outros demasiado numerosos para serem relatados, fora o Convênio de Bahá'u'lláh manifestamente violado. Outro golpe, atordoante em seus primeiros efeitos, fora administrado à Fé e lhe fizera tremer, momentaneamente, a estrutura. A tempestade prognosticada pelo autor do Apocalipse irrompera. Os "relâmpagos" , os "trovões", o "terremoto" que deveriam necessariamente acompanhar a revelação da "Arca de Seu Testamento", já haviam todos sucedido.

Tal foi a tristeza de Abdu'l-Bahá por tão trágico evento, seguindo tão rapidamente após a ascensão de Seu Pai, que ficou estampada em seus traços até o fim de sua vida, não obstante os triunfos testemunhados no decurso de Seu ministério. A intensidade das emoções Nele despertadas por esse sombrio episódio fazia recordar o efeito produzido sobre Bahá'u'lláh pelos fatídicos acontecimentos precipitados pela rebelião de Mirzá Yahyá. "Juro pela Antiga Beleza", escreveu Ele em uma de Suas Epístolas, "tão grande é Minha tristeza, Minha dor, que a pena se paralisa entre Meus dedos." "Tu Me vês" - Ele em uma oração escrita em Seu Testamento, assim lamenta, "submerso num oceano de calamidades que acabrunham a alma, de aflições que oprimem o coração... Acerbas provações Me têm cercado, e de todos os lados perigos Me sobrevêm. Tu Me vês imerso num mar de insuperável tribulação, afundando em um abismo insondável, angustiado por Meu inimigos e consumido com a chama do ódio que Meus parentes acenderam - parentes com quem fizeste Teu forte Convênio e Teu Testamento firme..." E ainda nesse mesmo Testamento: "Senhor! Tu vês todas as coisas chorarem por Mim, e Meus parentes se regozijarem por causa de Minhas tribulações. Por Tua glória, ó meu Deus! Até entre Meus inimigos alguns lamentaram Meus pesares e Minha angústia, e dentre os invejosos um grande numero tem pranteado por causa de Minhas vicissitudes, Meu exílio e Minhas aflições." "Ó Tu, a glória das glórias!" exclamara Ele em uma de Sua últimas Epístolas: "Renunciei ao mundo e a seu povo e estou desconsolado e penosamente aflito por causa dos infiéis. Na gaiola deste mundo Eu adejo assim como um pássaro assustado e, todo dia, anseio por alçar vôo para Teu Reino."

O próprio Bahá'u'lláh revelara, significativamente, o seguinte, em uma de Sua Epístolas - uma Epístola que derrama uma luz iluminadora sobre o inteiro episodio: "Por Deus, ó povo! Meus olhos choram, e os olhos de 'Alí (o Báb) choram entre a Assembléia nas alturas, e Meu coração clama e o coração de Maomé clama dentro do Mais Glorioso Tabernáculo, e Minha alma brada e as almas dos Profetas bradam ante aqueles que estão dotados de compreensão. Minha tristeza não é por Mim Mesmo, e sim por Aquele que há de vir depois de Mim - à sombra de Minha Causa, com soberania manifesta e indubitável - desde que não acolherão com agrado Sua vinda, Lhe repudiarão o sinais e disputarão a soberania, com Ele contenderão e Sua Causa atraiçoarão..." "Será possível", observara Ele, em uma Epístola não menos significativa, "que, após o alvorecer do sol de Teu Testamento acima do horizonte de Tua Mais Grandiosa Epístola, os pés de qualquer um possam tropeçar em Teu Caminho Reto? A isto respondemos: "Ó Minha mais excelsa Pena! Convém Te ocupares com aquilo que Te foi ordenado por Deus, o Excelso, o Grande. Não perguntes por aquilo que possa consumir Teu coração e os corações dos habitantes do Paraíso, os quais têm circundado Minha maravilhosa Causa. incumbe-Te não conhecer o que de Ti temos velado. Teu Senhor é, verdadeiramente, o Ocultador, o Onisciente!" Bahá'u'lláh, mais especificamente, referindo-se a Mirzá Muhammad-'Alí em linguagem clara e inequívoca, havia afirmado: "Ele, em verdade, é apenas um de Meus servos... Fosse ele por um momento passar além da sombra da Causa, seria, seguramente, reduzido ao nada." Ainda mais, em linguagem não menos enfática, com referencia a Mirzá Muhammad-'Alí, havia Ele, outra vez, declarado: "Por Deus, o Verdadeiro! Fôssemos Nós, por um só instante, priva-lo das efusões de Nossa Causa, ele definhar-se-ia e viria a cair no pó." Além disso, o próprio Abdu'l-Bahá testificara: "Não há dúvida de que em mil passagens nos sagrados escritos de Bahá'u'lláh os violadores do Convênio têm sido execrados." Alguns dessas passagens, Ele Mesmo as compilou, antes de partir deste mundo, incorporando-as em uma de Suas últimas Epístolas, como advertência e proteção contra aqueles que, por todo o Seu ministério, Lhe haviam manifestado tão implacável ódio e que chegaram tão perto de conseguir a subversão dos fundamentos de um Convênio do qual dependia não só Sua própria autoridade, mas também a integridade da própria Fé.

Capítulo XVI
O SURGIMENTO E O ESTABELECIMENTO
DA FÉ NO OCIDENTE

Embora a rebelião de Mirzá Muhammad-'Alí precipitasse acontecimentos sombrios e dolorosos, cujas terríveis conseqüências, prolongadas por muitos anos, viessem obscurecer a luz do Convênio, pôr em perigo a vida do seu credenciado Centro, dispersar os pensamentos e retardar o progresso das atividades de seus defensores, tanto no Oriente como no Ocidente - todo esse episódio, no entanto, visto na devida perspectiva, provou não ser senão uma dessas crises periódicas que, desde o início da Fé de Bahá'u'lláh e por todo um século, vinham sendo o processo de eliminação dos elementos perniciosos, visando fortalecer-lhe as bases, demonstrar sua resistência e dar maior expansão às suas forças latentes.

Agora que se havia proclamado indubitavelmente as provisões de um Convênio designado por Deus; agora que o propósito do Convênio designado por Deus; agora que o propósito do

Convênio estava claramente apreendido e seus fundamentos se haviam estabelecido, em forma inabalável, nos corações da grande maioria dos aderentes da Fé; e agora que foram rechaçados com êxito os primeiros ataques lançados por aqueles que o queriam subverter, a Causa para a qual esse Convênio fora delineado pôde seguir adiante no curso que o dedo de seu Autor para ela traçara. Brilhantes façanhas e inesquecíveis vitórias já haviam assinalado o nascimento dessa Causa e acompanhado seu progresso em vários países do continente asiático, especialmente na terra natal de seu Fundador. A missão de seu recém-nomeado Líder, o mordomo de sua glória, incumbido de lhe difundir a luz, era - assim como Ele Próprio a concebeu - a de enriquecer o incorruptível patrimônio confiado em Suas mãos, e lhe estender os limites através da difusão sobre o Ocidente da iluminação da Fé de Seu Pai e pela exposição dos preceitos fundamentais dessa Fé e de seus princípios cardeais, pela consolidação das atividades que já haviam sido iniciadas para a promoção de seus interesses e, finalmente, pela inauguração, através das provisões de Sua própria Vontade e Testamento, da Era Formativa em sua evolução.

Um ano após a ascensão de Bahá'u'lláh, num versículo que Abdu'l-Bahá revelara, e que provocara motejos por parte dos violadores do Convênio, foi vaticinado um acontecimento auspicioso que a posteridade haveria de reconhecer, como sendo um dos maiores triunfos do Seu ministério, que ulteriormente iria conferir uma benção inestimável ao mundo ocidental, e que em breve iria dissipar a tristeza e as apreensões que pairavam sobre a comunidade dos Seus companheiros de exílio em 'Akká. A Grande República do Oeste, acima de todos os outros países desse hemisfério, foi escolhida para ser a primeira recebedora da benção inestimável de Deus, e para se tornar o principal agente de sua transmissão a tantas de suas nações irmãs através dos cinco continentes da terra.

Não se pode exagerar, de modo algum, a importância de tão momentoso evento na evolução da Fé de Bahá'u'lláh - o estabelecimento de Sua Causa no continente norte-americano, num tempo em que Abdu'l-Bahá acabava de inaugurar Sua Missão e estava ainda na agonia da mais penosa crise com que Ele em qualquer época teve que defrontar. Já no ano que testemunhou o nascimento da Fé em Shiráz, o Báb, o Qayyumu'l-Asmá', após haver, em uma memorável passagem, advertido os povos tanto do Oriente como do Ocidente, se dirigira aos "povos do Oeste" diretamente e lhes ordenara, em palavras significativas, que "saíssem" de suas "cidades" para servirem a Deus e "tornarem assim como irmãos" em Sua "religião una e indivisível". "No Oriente", escrevera o próprio Bahá'u'lláh, prevendo esse desenvolvimento, "irrompeu a luz de Sua Revelação; no Ocidente, os sinais de Seu domínio apareceram". "Fossem tentar", predisse Ele, ainda mais, "lhe ocultar a luz no continente, levantaria a cabeça, decerto, no coração do oceano e, erguendo a voz, proclamaria: - Sou a vivificadora do mundo!" Segundo relata Nabíl em sua narrativa, Ele, pouco antes de Sua ascensão, declarou: "Se esta Causa tivesse sido revelada no Ocidente - tivessem Nossos versículos sido enviados do Ocidente à Pérsia e aos outros países orientais, teria se tornado evidente como o povo ocidental teria abraçado Nossa Causa. O povo da Pérsia, contudo, não soube aprecia-la." "Desde os primórdios do tempo até o dia atual", é o próprio testemunho de Abdu'l-Bahá, "a luz da Revelação Divina tem surgido no Oriente e lançado seus raios luminosos sobre o Ocidente. A iluminação assim difundida, entretanto, adquiriu no Ocidente um brilho extraordinário. Considerai a Fé que Jesus proclamou. Embora aparecesse primeiro no Oriente, antes, porém,de se haver irradiado sua luz sobre o Ocidente, não se tornou manifesta a plena medida de suas potencialidades." "Aproxima-se o dia", tem Ele afirmado, "quando havereis de testemunhar como, através do esplendor da Fé de Bahá'u'lláh, o Ocidente se terá estabelecido no lugar do Oriente, irradiando a luz da guia Divina." E ainda: "O Ocidente tem adquirido iluminação do Oriente, mas, de algum modo, a luz refletida no Ocidente tem sido maior." E ainda mais, "O Oriente foi iluminado, verdadeiramente, com a luz do Reino. Dentro em breve esta mesma luz haverá de emitir sobre o Ocidente uma iluminação ainda maior."

Mais especificamente tem o próprio Autor da Revelação Bahá'í se dignado conferir aos governantes do continente americano a incomparável honra de serem por Ele mencionados coletivamente no Kitáb-i-Aqdas, Seu Mais Sagrado Livro, no qual, de um modo significativo, Ele os exorta, a "embelezar o templo do domínio com o ornamento da justiça e do temor a Deus e lhe adornar a cabeça com a coroa da lembrança" de seu Senhor, e lhes ordena que "amarrem com a mãos da justiça aqueles quebrados", e "esmaguem o opressor" com a "vara dos mandamentos" de seu "Senhor, Quem ordena, a Suma Sabedoria". "O Continente da América", escreveu Abdu'l-Bahá, "é, aos olhos de Deus Uno e Verdadeiro, a terra em que se haverão de revelar os esplendores de Sua luz, onde se desvelarão os mistérios de Sua Fé, onde os justos viverão e os livres se reunirão". "O continente americano", predisse Ele, ainda mais, "dá sinal e mostra evidencias de um adiantamento muito grande. Seu futuro é mais promissor ainda, pois sua influência e sua iluminação são de vasto alcance - guiará todas as nações espiritualmente."

"O povo americano", Abdu'l-Bahá tem revelado, ainda mais claramente - distinguindo com Seu especial favor a Grande República do Ocidente, a nação principal do continente americano - "é, em verdade, digno de ser o primeiro a edificar o Tabernáculo da Maior Paz e proclamar a unidade do gênero humano." E ainda: "Essa nação americana está preparada e capacitada para realizar aquilo que adornará as paginas da história, para se tornar a inveja do mundo e ser abençoada tanto no Oriente como no Ocidente pelo triunfo de seu povo." E ainda mais: "Seja essa democracia americana a primeira nação a estabelecer a base do acordo internacional. Que seja a primeira nação a proclamar a unidade do gênero humano. Que seja a primeira a desfraldar o estandarte da Maior Paz." "Que os habitantes desse país", escreveu Ele ainda, "se levantem de seu presente estado de progresso material, a tais alturas que luz celestial emane desse centro para todos os povos do mundo."

"Ó vós, apóstolos de Bahá'u'lláh" - assim Abdu'l-Bahá se dirige aos crentes do continente norte-americano - "... considerai quão elevada e excelsa é a posição que estais destinados a atingir... A plena medida de vosso êxito não foi ainda revelada, nem se apreendeu seu significado." E mais: "Vossa missão é indizivelmente gloriosa. Se vossos empreendimentos forem coroados de êxito, a América haverá de evoluir, sem a menor dúvida, até se tornar um centro donde emanem ondas de poder espiritual, e o trono do Reino de Deus, na plenitude de sua majestade e glória, será firmemente estabelecido." E afinal, esta comovente afirmação: "No momento em que esta Mensagem Divina for levada adiante das plagas da América, pelos crentes americanos, sendo propagada através dos continentes da Europa. Ásia, África e Austrália, e até as ilhas do Pacifico, essa comunidade se verá estabelecida seguramente no trono de um domínio sempiterno... Então toda a terra ressoará com os elogios de sua majestade e grandeza."

Não é de se admirar que uma comunidade pertencente a uma nação tão abundantemente abençoada - uma nação que ocupa uma posição de tal destaque em um continente dotado de tanta riqueza - pôde acrescentar aos anais da Fé de Bahá'u'lláh, durante seus cinqüenta anos de existência, numerosas páginas plenas de vitórias. É essa a comunidade - deve ser lembrado - que desde que veio a existir, através das energias criadoras liberadas pela proclamação do Convênio de Bahá'u'lláh, foi acariciada no regaço da infalível solicitude de Abdu'l-Bahá. Para que ela viesse a desempenhar a incomparável tarefa que lhe cabia, Ele a treinou, através da revelação de inúmeras Epístolas, por meio das instruções dadas a peregrinos que regressavam, pelo envio de mensageiros especiais, através de Suas próprias viagens - em data posterior, de um lado a outro do continente norte-americano, e pela ênfase posta por Ele, durante essas viagens, na instituição do Convênio e, finalmente, através de Seu mandato contido nas Epístolas do Plano Divino. É essa a comunidade que, desde a primeira infância até o tempo presente, tem laborado incessantemente e conseguido, por seus próprios esforços, sem ajuda, implantar a bandeira de Bahá'u'lláh na grande maioria dos sessenta países que, tanto no Oriente como no Ocidente, podem agora reclamar para si a honra de ser incluídos na esfera fé Sua Fé. A essa comunidade pertence a distinção de haver evoluído o padrão, e de ter sido a primeira a erigir a estrutura, das instituições administrativas que anunciam o advento da Ordem Mundial de Bahá'u'lláh. Através dos esforços de seus membros, se erigiu no próprio coração do continente norte-americano, o Templo-Mater do Ocidente, o Precursor dessa Ordem, uma das mais nobres instituições ordenadas no Kitáb-i-Aqdas e o mais imponente edifício erigido no inteiro mundo bahá'í. Mediante os assíduos labores de seus pioneiros, seus instrutores e seus administradores, a literatura da Fé atingiu uma expansão enorme, os objetivos e propósitos da Fé têm sido defendidos intrepidamente, e suas instituições nascentes estabelecidas em bases sólidas. Em conseqüência direta dos incansáveis esforços da instrutora viajante que mais se distinguiu - dela só, sem auxílio, a espontânea lealdade à Fé de Bahá'u'lláh por parte de Realeza foi obtida e, de um modo inequívoco, proclamada em vários testemunhos transmitidos à posteridade pela pena dessa própria rainha após sua conversão. E finalmente, aos membros dessa comunidade, descendentes espirituais dos rompedores d'Alva da Era Heróica da Dispensação de Bahá'í, deve ser atribuída a honra eterna de se haverem levantado, em numerosas ocasiões, com admirável alacridade, zelo e determinação, para serem campeões da causa dos oprimidos, para aliviarem os necessitados e defenderem os interesses dos edifícios e instituições erigidos pelos seus irmãos em países como a Pérsia, a Rússia, o Egito, o Iraque e a Alemanha, países nos quais os aderentes da Fé tiveram que sustentar, em grau variável, os rigores da perseguição, tanto racial como religiosa.

É, decerto, estranho que, em um país investido de tão incomparável função entre as nações irmãs em todo o Ocidente, a primeira referência pública ao Autor de uma Fé tão gloriosa foi por intermédio de um membro daquela ordem eclesiástica com a qual a Fé desde tanto tempo contente e sem cujas mãos tem freqüentes vezes sofrido. Mais estranho ainda é que a própria pessoa, que primeiro a estabeleceu na cidade de Chicago - cinqüenta anos depois de haver o Báb declarado em Shiráz Sua Missão - abandonou, poucos anos depois, o estandarte que havia, sozinho, implantado nessa cidade.

A 23 de setembro de 1893, pouco mais de um ano após o passatempo de Bahá'u'lláh, num trabalho escrito pelo Rev. Henry H. Jessup, D.D., Diretor das Operações Missionárias Presbiterianas no Norte da Síria, e lido pelo Rev. George A. Ford da Síria no Parlamento Mundial da Religião, realizado em Chicago, juntamente com a Exposição Colombiana, em comemoração ao quarto centenário da descoberta da América, foi anunciado que "um famoso sábio persa", o "santo Babí", havia recentemente falecido em 'Akká e, dois anos antes de Sua morte, um erudito professor de Cambridge. O visitara e Dele ouvira "sentimento tão elevados e tão parecidos aos de Cristo" que, nas palavras finais de sua conferência, desejara fossem estes sentimentos partilhados pelo auditório.

Menos de um ano mais tarde, em fevereiro de 1894, um médico sírio, de nome Ibrahim Khayry'lláh - que, enquanto residia no Cairo, fora convertido à Fé por Hájí 'Abdu'l-Karím-i-Tihrání, recebera uma Epístola de Bahá'u'lláh, comunicara-se com Abdu'l-Bahá e, em dezembro de 1892, havia chegado em Nova York - estabeleceu residência em Chicago e começou a ensinar ativa e sistematicamente a Causa por ele esposada. Dentro de um período de dois anos ele transmitira a Abdu'l-Bahá suas impressões e Lhe dera informações sobre o extraordinário êxito que havia resultado de seus esforços. Em 1895 se lhe apresentou uma oportunidade em Kenosha, e ele continuou a visitar essa cidade semanalmente, no decurso de suas atividades de ensino. Dentro de um ano os crentes nessas duas cidades, segundo informes, se contavam às centenas. Em 1897 publicou ele seu livro, intitulado o Bábu'd-Dín, e visitou Kansas City, New York City, Ithaca e Philadelphia, onde conseguiu ganhar um número considerável de adeptos para a Fé. Thornton Chase - aquele de coração firme, apelidado de Thábit (Constante) por Abdu'l-Bahá, e por Ele designado "o primeiro crente americano", tendo sido convertido à Fé em 1894 - bem como a imortal Louisa A.Moore, a instrutora-mãe do Ocidente, por Abdu'l-Bahá apelidade de Livá (Bandeira), e Dr. Edward Getsinger, com quem ela mais tarde casou, Howard Mac Nutt, Arthur P.Dodge, Isabella D.Brittingham, Lillian F.Kappes, Paul K.Dealy, Chester L.Thatcher e Helen S.Goodall - cujos nomes para sempre estarão associados com os primeiros sinais da Fé de Bahá'u'lláh no continente norte-americano - se destacam como os mais proeminentes entre aqueles que, nesses primeiros anos, despertaram ao ouvirem o Chamado do Novo Dia e consagraram suas vidas aos serviço do Convênio recém-proclamado.

Em 1898, a Sra. Phoebe Hearst, conhecida filantropa (esposa do senador George F.Hearst), a quem a Sra. Getsinger, quando em visita à Califórnia, atraíra para a Fé, expressou sua intenção de visitar Abdu'l-Bahá na Terra Santa, bem como convidou vários crentes, entre os quais o Dr. E a Sra Getsinger, o Dr. Khayru'lláh e sua esposa, para a acompanharem, e completou os necessários preparativos para sua histórica peregrinação a 'Akká. Em Paris, vários residentes americanos, entre os quais se contavam May Ellis Bolles, a quem a Sra. Getsinger convertera à Fé, a Srta. Pearson e Ann Apperson, ambas sobrinhas da Sra. Hearst, com a Sra. Thornburgh e sua filha, juntaram-se ao grupo, cujo número foi mais tarde acrescido no Egito pela inclusão das filhas do Dr. Khayru'lláh e da avó delas, a quem ele convertera recentemente.

A chegada de quinze peregrinos, em três grupos sucessivos, o primeiro dos quais, incluindo o Dr. Getsinger e a esposa, alcançou a cidade-presídio de 'Akká em 10 de dezembro de 1898; o íntimo contato pessoal estabelecido entre o Centro do Convênio de Bahá'u'lláh e os recém-surgidos arautos da Sua Revelação no Ocidente, as tocantes circunstâncias relacionadas com a visita deles a Seu Túmulo e a grande honra que lhes foi tributada, qual fosse a de serem conduzidos pessoalmente por Abdu'l-Bahá à mais recôndita parte do Túmulo; o espírito que, por meio de preceitos e exemplos, malgrado a brevidade da sua estada, um Hospedeiro amável e bondoso tão poderosamente lhes infundiu; e o zelo apaixonado e a resolução inabalável que Suas exortações inspiradoras, bem como Suas instruções luminosas e os múltiplos testemunhos do Seu amor divino acenderam-lhes nos corações - tudo isso marcava o início de uma nova época no desenvolvimento da Fé no Ocidente - uma época cujo significado foi amplamente demonstrado pelos atos subseqüentemente praticados por alguns desses mesmos peregrinos e de seus condiscípulos.

"Daquele primeiro encontro", escreveu um desses peregrinos, registrando suas impressões, "não posso lembrar-me de que me adviesse alegria ou dor, nem qualquer sentimento que eu possa nomear. Sentia-me transportada repentinamente a uma altura demais sublime, minh'alma entrara em contato com o Espírito Divino, e essa força, tão pura, tão santa, tão poderosa, aturdiu-se... Não podíamos afastar nossos olhos de Sua face gloriosa; ouvimos tudo quanto Ele disse; tomamos chá com Ele a Seu convite; mas a vida parecia suspensa e quando Ele se levantou e nos deixou, voltamos, com um estremecimento, a nós, porém, nunca mais, oh! nunca mais, graças a Deus, à mesma vida de antes nesta terra." "No poder e na majestade de Sua presença", testificou a mesma peregrina, relembrando a última entrevista concedida ao grupo de que fazia parte, o "nosso temor transformou-se em fé perfeita, nossa fraqueza em força, nossa tristeza em esperança, e esquecemo-nos de nós próprios em nosso amor por Ele. Quando estávamos todos sentados perante Ele, esperando ouvir Suas palavras, alguns e nosso grupo choravam amargamente. Ele lhes pediu que enxugassem as lágrimas, embora não o pudessem fazer imediatamente. De modo que Ele novamente lhes disse que não chorassem, em atenção a Ele, pois não nos iria falar ou ensinar, a menos que cessassem todas as lágrimas..."

..."Aqueles três dias", atestou a própria Sra. Hearst, numa de suas cartas, "foram os dias mais memoráveis da minha vida... Não tentarei descrever o Mestre; apenas declararei que acredito de todo o coração que Ele é o Mestre, e minha maior benção neste mundo é que tive o privilégio de estar em Sua presença e de contemplar Seu Semblante santificado... Sem dúvida, Abbás Effendi é o Messias de hoje e desta geração, e não necessitamos procurar outro." "Devo dizer que", escreveu ela em outra carta, "Ele é o Ser mais maravilhoso que já encontrei ou espero jamais encontrar neste mundo... A atmosfera espiritual que O envolve e que afeta profundamente todos os bem-aventurados que se Lhe acercam é indescritível... Creio n'Ele de todo o coração e com toda a minh'alma, e espero que todos os que se dizem crentes Lhe concederão toda a grandeza, toda a glória e todo o louvor, pois por certo Ele é o Filho de Deus - e o espírito do Pai habita Nele."

Mesmo um serviçal da Sra. Hearst, um negro de nome Robert Turner, o primeiro de sua raça a abraçar a Causa de Bahá'u'lláh no Ocidente, ficou arrebatado pela influência exercida por Abdu'l-Bahá no decurso daquela peregrinação histórica. A tenacidade de sua fé era tal, que nem mesmo o subseqüente abandono da Causa - tão espontaneamente abraçada - por parte da estimada pessoa a quem servia, pôde empanar-lhe o esplendor, ou diminuir a intensidade das emoções que a bondade repassada de amor, prodigalizada a ele por Abdu'l-Bahá, despertara em seu peito.

O retorno desses peregrinos tão fervorosamente dedicados a Deus, alguns para a França, outros para os Estados Unidos, constituiu o sinal para a eclosão de atividades sistemáticas e contínuas, as quais, à medida que adquiriam impulso e espalhavam suas ramificações por sobre a Europa Ocidental e pelos estados e províncias do continente norte-americano, atingiram uma escala tão alta, que o próprio Abdu'l-Bahá resolveu empreender em pessoa uma missão no Ocidente, tão logo fosse libertado de Seu prolongado encarceramento em 'Akká. A comunidade dos crentes americanos ficou inflexível em sua diretriz a despeito da crise devastadora que a ambição do Dr. Khayru'lláh, com seu regresso da Terra Santa (dezembro de 1899), precipitara; manteve-se intrépida diante da agitação provocada por ele, em colaboração com o Arqui-Violador do Convênio e seus mensageiros, e desdenhosa dos ataques lançados por ele e seus companheiros de secessão, bem como por eclesiásticos cristãos cada vez mais invejosos do poder crescente e da influência avassaladora da Fé. Essa comunidade estava sendo nutrida por um fluxo contínuo de peregrinos que transmitiam as mensagens verbais e instruções especiais de um Mestre vigilante; sentia-se revigorada pelas efusões de Sua pena registradas em inumeráveis Epístolas; era instruída pelos sucessivos mensageiros e instrutores enviados por Sua ordem para orientá-la, edificá-la. Com tudo isso levantou-se essa comunidade para iniciar uma serie de empreendimentos que, abençoados e estimulados uma década mais tarde pelo próprio Abdu'l-Bahá, iriam constituir tão somente um prelúdio dos serviços incomparáveis destinados a serem prestados por seus membros, durante a Época Formativa do Ministério de Seu Pai.

Mal havia uma das peregrinas, a acima mencionada May Bolles, voltado a Paris, e eis que consegue, de acordo com as instruções expressas de Abdu'l-Bahá, estabelecer naquela cidade o primeiro centro bahá'í a ser formado no continente europeu. Esse centro foi, logo após a sua chegada, reforçado pela conversão do iluminado Thomas Breakwell, o primeiro crente inglês, imortalizado pelo caloroso panegírico de Abdu'l-Bahá, à sua memória; de Hippolyte Dreyfus, o primeiro francês a abraçar a Fé, que, por meio de escritos, traduções, viagens e outros serviços de pioneiro, pôde consolidar, com o passar dos anos, a obra que fora iniciada em seu país; e de Laura Barney, cuja contribuição imperecível foi a coleta e a transmissão à posteridade, em forma de um livro intitulado "Respostas a Algumas Perguntas", das explicações inestimáveis de Abdu'l-Bahá, abrangendo uma grande variedade de assuntos , que lhe haviam sido dadas durante uma demorada peregrinação à Terra Santa. Três anos mais tarde, em 1902, May Bolles, agora casada com um canadense (*), transferiu sua residência para Montreal, e conseguiu lançar os alicerces da Causa naquele Domínio.

Em Londres, a Sra. Thornburgh-Cropper - como resultado das influências criadoras emanadas daquela peregrinação inesquecível - foi habilitada a iniciar atividades que, estimulada e expandidas através dos esforços dos primeiros crentes ingleses, e especialmente de Ethel J. Rosemberg, convertida em 1899, lhes possibilitaram a ereção, anos após, da estrutura de suas instituições administrativas nas Ilhas Britânicas. No continente norte-americano, a deslealdade e as publicações denunciadoras do Dr. Khayru'lláh (encorajado por Mirzá Muhammad-Alí e seu filho Shu'á'u'lláh, a quem enviara para a América) puseram à prova a firmeza da comunidade recém-formada; porém, mensageiros sucessivos enviados por Abdu'l-Karím-i-Tihrání, Hájí Mirzá Hasan-i-Khúrásání, Mirzá Asadu'lláh e Mirzá Abu'l-Fadl conseguiram dissipar rapidamente as dúvidas e aprofundar a compreensão dos crentes, manter a comunidade unida e formar o núcleo daquelas instituições administrativas que, duas décadas mais tarde, iriam ser formalmente inauguradas segundo as cláusulas explícitas do Testamento de Abdu'l-Bahá. Já no ano de 1899 se estabeleceu na cidade de Kenosha, uma junta de conselho composta por sete oficiais, precursora de uma série de Assembléias que, antes do termino do primeiro século bahá'í, iriam cobrir o continente norte-americano de uma costa a outra. Em 1902, uma Sociedade Editora Bahá'í destinada a propagar a literatura dessa comunidade que se expandia gradativamente, formou-se em Chicago. Um Boletim Bahá'í, visando a disseminação dos ensinamentos da Fé, foi inaugurado em Nova York. O 'Bahá'í News" , outro periódico, surgiu em seguida em Chicago, e logo se transformou numa revista intitulada "Star of the West". Empreendeu-se energicamente a tradução de alguns dos escritos mais importantes de Bahá'u'lláh, tais como "Palavras Ocultas", o "Kitáb-i-Iqán", as "Epístolas aos Reis", e os "Sete Vales", juntamente com as Epístolas de Abdu'l-Bahá, bem como vários tratados e panfletos escritos por Mírzá Abu'l-Fadl e outros. Uma correspondência considerável com vários centros pelo Oriente afora foi iniciada, crescendo firmemente em âmbito e importância. Histórias abreviadas da Fé, livros e panfletos escritos em sua defesa, artigos para a imprensa, relatos de viagens e peregrinações, panegíricos e poemas, foram igualmente publicados e largamente disseminados.

Simultaneametne, missionários e instrutores, emergindo triunfantemente das procelas da provações e tribulações que ameaçaram tragar sua tão estimada Causa, levantanram-se espontaneamente, reforçar e multiplicar os baluartes da Fé já estabelecidos. Nas cidades de Washington, Boston, São Francisco, Los Angeles, Cleveland, Baltimore, Minneapolis, Buffalo, Rochester, Pittsburgh, Seattle, St. Paul e em outros lugares foram abertos Centros. Pioneiros destemidos, quer como visitantes, quer como colonos, ansiosos por espalhar o Evangelho recém-nascido além das fronteiras de seu país de origem, empreenderam viagens, e deram início a empresas que levaram sua luz ao coração da Europa, ao Extremo Oriente e até às ilhas do Pacífico. Mason Remey viajou até a Rússia e a Pérsia, e mais tarde, com Howard Struven, fez a volta do globo, pela primeira vez na história bahá'í, visitando no percurso as ilhas Hawai, o Japão, a China, a Índia e a Birmânia. Hooper Harris e Harlan Ober viajaram durante nada menos de sete meses pela Índia e Birmânia, visitando Bombaim, Poona, Lahore, Calcutá, Rangoon e Mandalay. Alma Knobloch, seguindo as pegadas do Dr. K. E. Fisher, alçou o estandarte da Fé na Alemanha e transportou sua luz para a autria. A Dra. Susan I. Moody, Sydney Sprague, Lílian F.Kappes, Dr. Sarah Clock e Elizabeth Stewart transferiram sua residência para Teera, no proposito de promoverem os múltiplos interesses da Fé, em colaboração com os bahá'ís daquela cidade. Sarah Farmer, que já em 1894, em Green Acre, no Estado de Maine, havia iniciado conferências de verão e estabelecido um centro para a promoção da unidade e da confraternização entre as raças e as religieos, após sua peregrincao a 'Akká, em 1900, pôs as facilidades oferecidas por essas conferências à disposição dos adeptos da Fé que ela mesma abracara recentemente.

E, afinal, os bahá'ís de Chicago, inspirados pelo exemplo dado por seus condiscípulos em Ishqábád - que já haviam principiado a construção do primeiro Mashriqu'l-Adhkár do mundo bahá'í - e consumidos pelo desejo de demonstrar, de maneira tangível e adequada, a qualidade de sua fé e devoção, solicitaram a Abdu'l-Bahá permissão para erigir uma Casa de Adorcao. Tendo obtido, numa Epístola revelada em junho de 1903, Sua aprovação pronta e entusiástica, levantaram-se, apesar de exigüidade do seu número e da limitação de seus recursos, para iniciar uma empresa que deve figurar como a maior contribuição que os bahá'ís da América, e na realidade, do Ocidente, fizeram até agora em favor da Causa de Bahá'u'lláh. O incentivo subseqüente que Abdu'l-Bahá lhes deu, e as contribuições arrecadadas por várias Assembléias, decidiram os membros dessa Assembléia a convidar representantes de seus confrades em partes do país para se reunirem em Chicago a fim de iniciarem o estupendo empreendimento que haviam concebido. A 26 de novembro de 1907, os representantes reunidos propositadamente para esse fim, nomearam um comitê de nove membros, para localizar um local adequado ao Templo proposto. Até 9 de abril de 1908, a soma de dois mil dólares fora paga para a compra de dois lotes situados perto da praia do lago Michigan. Em março de 1909, foi convocada uma convenção representativa de vários centro bahá'ís, em cumprimento a instruções recebidas de Abdu'l-Bahá. Os trinta e nove delegados, representando trinta e seis cidades, que se reuniram em Chicago, no mesmo dia em que os restos mortais do Báb foram depositados por Abdu'l-Bahá no mausoléu erigido especialmente no Monte Carmelo, estabeleceram uma organização nacional permanente, conhecida como a União do Templo Bahá'í, que se constituiu como corporação religiosa, regendo-se pelas leis do Estado de Illinois, e investida, de plena autoridade para arrogar-se a propriedade do Templo e prover os meios e determinar medidas visando a sua construção. Nessa mesma convenção, foi eleborada uma constituição e a Junta Executiva da União do Templo Bahá'í foi eleita e autorizada pelos delegados a ultimar a aquisciao das terras recomendada pela Convenção anterior. Contribuições para esse empreendimento histórico, da Índia, da Pérsia, da Turquia, da Síria, da Palestina, da Rússia, do Egito, da Alemanha, da França, da Inglaterra, do Canadá, do méxico, das ilhas Hawai, e mesmo das Maurícias, e de nada menos que sessenta cidades americanas, montavam por volta de 1910, dois anos antes da chegada de Abdu'l-Bahá à América, cerca de vinte mil dólares, testemunho notável tanto da solidariedade dos adeptos de Bahá'u'lláh, quer no Oriente, quer no Ocidente, quanto dos esforços abnegados feitos pelos crentes americanos, os quais, à medida que a obra progredia, assumiam um papel preponderante na consecução da soma de mais de um milhão e meio de dólares exigidos para a ereção da estrutura do Templo e para sua ornamentação externa.

Capítulo XVII
RENOVAÇÃO DO ENCARCERAMENTO
DE ABDU'L-BAHÁ

As mais insignes realizações de uma comunidade valorosa, vítima de tão severas provações, se haviam manifestado como os primeiros frutos, no mundo ocidental, do recém-estabelecido Convênio de Bahá'u'lláh, e haviam lançado um alicerce assaz imponente para convidar a presença do designado Centro desse Convênio - Aquele que chamara à existência essa Comunidade e vigiara com tão infinito cuidado e precisão, seus destino nascentes. Abdu'l-Bahá no entanto, antes de haver emergido da severa crise que desde alguns anos O haviam enredado, não teria podido empreender Sua memorável viagem às plagas de um continente onde o surgir e o estabelecimento da Fé de Seu Pai haviam sido assinalados por realizações tão magníficas e duráveis.

Esta segunda crise maior de Seu ministério, de natureza externa e pouco menos severa do que aquela precipitada pela rebelião de Mírzá Muhammad-'Alí, pôs em grave perigo Sua vida. O privou, por vários anos, da relativa liberdade que gozara, submergiu em angustia Sua família e os seguidores da Fé no Oriente e Ocidente e expôs, como nunca o havia feito antes, à degradação e à infâmia de Seus implacáveis adversários. Essa crise teve início, dois anos após haverem partido da Terra Santa os primeiros peregrinos americanos, e persistiu, variando no grau de sua intensidade, durante mais de sete anos, e foi em conseqüência direta das incessantes intrigas e monstruosos equívocos do Arqui-Violador do Convênio de Bahá'u'lláh, e seus seguidores.

Mirzá Muhammad-'Ali - cheio de amargura por haver falhado abjetamente em sua tentativa de criar uma divisão, na qual ele, insensatamente, havia depositado suas esperanças; aguilhoado pelo notável êxito no continente norte-americano, atingido, apesar de Suas maquinações, pelos porta-estandartes do Convênio; encorajado pela existência de um regime que prosperara em uma atmosfera de intriga e suspeita, tendo sido presidido por um potentado astucioso e cruel; determinado a explorar ao máximo as oportunidades para fomentar distúrbios que lhe foram oferecidos pela vinda de peregrines ocidentais à prisão-fortaleza de 'Akká, bem como pelo início da construção do sepulcro do Báb no Monte Carmelo - conseguiu, pois, mediante assíduos e persistentes esforços, excitar a suspeita do governo turco e seus oficiais, e induzi-los a impor novamente a 'Abdu'l-Bahá o encarceramento que, nos dias de Bahá'u'lláh, Ele tão penosamente sofrera. Fora secundado nisso por seu irmão, Mirzá Badí'u'lláh, e auxiliado pelo cunhado, Mirzá Majdi'd-Din.

Esse mesmo irmão, principal cúmplice de Mirzá Muhammad-'Ali, em uma confissão, escrita, assinada, selada e publicada por ele, na ocasião de sua reconciliação com 'Abdu'l-Bahá, deu testemunho dos malvados planos que idearam. "O que tenho escutado de outros", escreveu Mirzá Badí'u'lláh, "não levarei em conta. Relatarei só o que tenho vista com meus próprios olhos e ouvido de seus (de Muhammad-'Ali) lábios", e continua então: "Dispôs-se ele (Mirzá Muhammad-'Ali), "a enviar Mirzá Majdi'd-Dín com um presente e uma carta escrita em persa a Nazim Pashá, o Váli (governador) de Damasco, e pedir seu apoio... Como ele mesmo (Mirzá Majdi'd-Din) me informou em Haifa, ele fez tanto quanta pôde para que o governador tivesse pleno conhecimento da construção no Monte Carmelo, dos movimentos de vaivém dos crentes americanos e das reuniões realizadas em 'Akká. O Pashá, desejoso de conhecer todos os fatos, lhe mostrou extrema bondade e garantiu seu apoio. Poucos dias após o regresso de Mirzá Majdi'd-Din, foi recebido da Sublime Porta um telegrama em código que transmitia as ordens do Sultão para encarcerar 'Abdu'l-Bahá, a mim mesmo e aos outros." "Naqueles dias", testifica ele, ainda mais, nesse mesmo documento, "um homem que veio a 'Akká de Damasco disse a algumas pessoas estranhas que Názim Pashá fora a causa do encarceramento de 'Abbás Effendi. A coisa mais estranha de todas é que Mirzá Muhammad-'Ali, depois de ser encarcerado, escreveu uma carta a Názim Pashá com o propósito de obter sua própria libertação... O Pashá, entretanto, nenhuma só palavra escreveu em resposta a qualquer das duas cartas."

Foi em 1901, no quinto dia do mês de Jamádiyu'l-Avvál 1319 A. H. (20 de agosto), que 'Abdu'l-Bahá, ao regressar de Bahji, onde participara da celebração do aniversáio da Declaração do Báb, foi informado, durante uma entrevista com o governador de 'Akká, das instruções do Sultão 'Abdu'l-Hamid, segundo as quais seriam de novo impostas as restrições que gradativamente haviam sido relaxadas, e Ele e Seus irmãos seriam estritamente confinados dentro das muralhas dessa cidade. Esse edito do Sultão foi, de início, executado com todo rigor, sendo severamente restrita a liberdade da comunidade exilada, enquanto 'Abdu'l-Bahá teve de submeter-se, sozinho, sem apoio algum, ao prolongado interrogatório perante juizes e oficiais, que exigiram Sua presença na sede do governo, por varies dias consecutivos, para os fins da investigação. Um de Seus primeiros atos foi interceder em prol de Seus irmãos - que haviam sido chamados peremptoriamente e, por intermédio do governador, informados das ordens do soberano - mas nem este ato pôde lhes suavizar a hostilidade ou reprimir as malévolas atividades. Posteriormente, através de Sua intervenção com as autoridades civis e militares, conseguiu Ele a libertação de Seus seguidores que residiam em 'Akká, podendo eles assim continuar a ganhar, sem interferência, seus próprios meios de sustento.

Os violadores do Convênio não foram apaziguados pelas medidas que as autoridades tomaram contra Aquele que tão magnanimamente havia intercedido em seu favor. Levantaram-se para conseguir Sua ruína, apoiados pelo notório Yahyá Bey, chefe de policia, e por outros oficiais, civis bem como militares - que, em conseqüência de suas alegações, haviam substituído aqueles que eram amistosos para com 'Abdu'l-Bahá - e ajudados também por agentes secretos que viajavam constantemente entre 'Akká e Constantinopla e que até vigiavam tudo o que sucedia em Sua casa. Aos oficiais, prodigalizavam presentes que incluíam possessões consagradas à memória de Bahá'u'lláh e, aos de alta como também aos de baixa posição, ofereciam, desavergonhadamente, subornos, provenientes, em alguns casas, da venda de propriedades associadas a Ele ou dadas a alguns deles por 'Abdu'l-Bahá. Sem, no mínimo grau, diminuírem seus esforços, seguiram inexoravelmente com a promoção de suas atividades nefandas, determinados a se valer de todos os meios possíveis para efetivarem a execução de 'Abdu'l-Bahá ou assegurarem que Ele fosse desterrado para um lugar tão remoto que lhes possibilitasse tirar de Suas mãos a Causa. Em várias ocasiões se aproximavam do Váli de Damasco, do Muftí de Beirute, de membros das missões protestantes estabelecidas na Síria e em 'Akká, e, até, do prestigioso Shaykh Abu'l-Hudá em Constantinopla - tão profundamente estimado pelo Sultão como o fora por Muhammad Sháh seu Grão-Vizir, Haji Mirzá Aqasi - apelando e exortando-os a prestarem-lhes apoio na execução dos odiosos desígnios.

Mediante mensagens verbais, bem como formais comunicações, e através de entrevistas pessoais, os violadores do Convênio levavam essas notabilidades a acreditarem na necessidade de ação imediata, astuciosamente adaptando seus argumentos aos especiais interesses e preconceitos daqueles cujo auxílio solicitavam. A alguns representaram 'Abdu'l-Bahá como um inescrupuloso usurpador que lhes havia espezinhado os direitos e roubado a herança, que os reduziram à pobreza e que induziram os amigos na Pérsia a serem seus inimigos; que Ele para Si Próprio acumulara uma vasta fortuna e adquirira nada menos que dois terças da terra de Haifa. A outras, declararam eles que Abdu'l-Bahá visava fazer de 'Akká e Haifa uma nova Meca e Medina. A ainda outras afirmaram ser Bahá'u'lláh nada mais que um dervish em recolhimento, que professava e promovia a Fé do Islã, a quem Seu filho, 'Abbás Effendi, havia exaltada ao grau de Divindade, a fim de glorificar a si próprio, fazendo pretensão de ser Ele Mesmo o Filho de Deus, a volta de Jesus Cristo. Acusaram-No, além disso, de alimentar desígnios hostis aos interesses do estado, de pensar em incitar uma rebelião contra o Sultão, de haver já içado a bandeira de Yá Bahá'u'Abhá, a insígnia da revolta, em aldeias remotas da Palestina e da Síria, de haver levantado clandestinamente um exército de trinta mil homens, de estar ocupado na construção de uma fortaleza e um vasto depósito de munições no Monte Carmelo, de haver obtido o apoio moral e material de uma hoste de amigos ingleses e americanas, entre os quais se achavam oficiais de potências estrangeiras que chegavam em grande número, disfarçados, para Lhe prestarem tributo, e de haver, em conjunto com eles, já traçado Seus planos para a subjugação das províncias vizinhas, para a expulsão das autoridades governamentais e a conquista final do poder exercido pelo próprio Sultão. Mediante alegações falsas e subornos conseguiram induzir certas pessoas a porém suas assinaturas como testemunhas dos documentos que haviam redigido e que, por intermédio de seus agentes, despacharam à Sublime Porta.

Tão graves acusações contidas em numerosas informes, não puderam deixar de causar perturbação profunda na mente de um déspota já obcecado pelo medo de rebelião iminente em meio aos súditas. Nomeou-se, portanto, uma comissão para indagar sobre o assunto e lhe avisar do resultado de suas investigações. Ao ser chamada ao tribunal, em varias ocasiões 'Abdu'l-Bahá cuidadosa e destemidamente refutava cada uma das imputações levantadas contra Ele, expanda-lhes quanto eram absurdas tais acusações. Ele informou os membros da Comissão - em apoio de Seu argumento - das provisões do Testamento de Bahá'u'lláh, disse estar disposto a submeter-se a qualquer sentença que a corte decidisse Lhe impor, e afirmou eloqüentemente que, se eles O acorrentassem, O arrastassem pelas ruas, O execrassem e Dele zombassem, ou se O apedrejassem e sobre Ele cuspissem, ou se O suspendessem na praça pública e O crivassem de balas, Ele consideraria isso um sinal de honra, desde que assim estaria seguindo nas pegadas de Seu bem-amado Líder, o Báb, e com Ele compartilhando os sofrimentos. Em vista da gravidade da situação que enfrentava 'Abdu'l-Bahá, e dos boatos circulados por uma população que previa os mais sinistros acontecimentos; diante das insinuações e alusões aos perigos que O ameaçavam - segundo jornais publicados no Egito e na Síria - e da atitude agressiva que seus inimigos cada vez mais assumiam; bem como por causa da conduta provocadora por parte de alguns dos habitantes de 'Akká e Haifa que se haviam tornado mais audazes - em conseqüência das predições e invenções desses inimigos a respeito do destino que esperava uma comunidade suspeita e seu Líder - foi 'Abdu'l-Bahá levado a reduzir o número de peregrinos e até de suspender, por algum tempo, suas visitas, como também a emitir instruções especiais segundo as quais Sua correspondência viria por intermédio de um agente no Egito, em vez de Haifa; por algum tempo ordenou que fosse lá guardada até serem recebidas outras instruções Suas. Ordenou, ainda, aos crentes, bem como a Seus próprios secretários, que colecionassem e transferissem para um lugar seguro todos os escritos bahá'is que tinham em seu poder e, exortando-os a mudarem sua residência para o Egito, Ele inclusive proibiu que se reunissem, como de costume, em Sua casa. Até mesmo Seus numerosos amigos e admiradores evitaram visita-Lo, durante os mais turbulentos dias desse período, com medo de serem implicados e se exporem à suspeita por parte das autoridades. Em certos dias e certas noites, quando as perspectivas eram as mais negras, a casa em que Ele residia - a qual por muitos anos havia sido foco de atividade - ficava completamente deserta. Espiões, tanto aberta como secretamente, vigiavam a seu redor, observando todo movimento Dele e restringindo a liberdade de Sua família.

Apesar de tudo isso, não permitiu que fossa suspensa, nem interrompida por breve período sequer, a construção do sepulcro do Báb, cuja pedra angular fora lançada por Ele no lugar abençoado e selecionado por Bahá'u'lláh. Nem deixava qualquer obstáculo, por mais formidável que .fosse, impedir o fluxo diário de Epístolas que manava - com prodigiosa rapidez e sempre crescente volume - de Sua pena infatigável, em resposta ao vasto número de cartas, relatórios, perguntas, orações, confissões de fé, apologias e louvor recebidos de incontáveis seguidores e admiradores nas só do Oriente, como também do Ocidente. Testemunhas oculares têm declarado haverem sabido que Ele, durante esse agitado e perigoso período de Sua vida, escrevia, de próprio punho, nada menos de noventa Epístolas em um só dia, e passava muitas noites, desde o anoitecer até o alvorecer, sozinho, em Seu dormitório, ocupado com correspondência que a pressão de Suas múltiplas responsabilidades não lhe havia permitido atender durante o dia.

Foi durante essa época turbulenta, o período mais dramático de Seu ministério, que - no apogeu de Sua vida e no auge de seu poder - Ele, com inexaurível energia, admirável serenidade e inabalável confiança, iniciou e irresistivelmente levou avante os variados empreendimentos associados com esse ministério. Foi durante essa época que Ele concebeu o plano do primeiro Mashriqu'l-Adhkár do mundo bahá'i, cuja construção foi empreendida por seus seguidores na cidade de 'Ishqábád no Turquestão. Foi nesse mesmo tempo, apesar dos distúrbios que agitavam Sua terra natal, que Ele deu instruções para a restauração da sagrada e histórica Casa do Báb em Shiráz. Foi nesse tempo que se tomaram - principalmente em conseqüência de seu constante estímulo - as medidas iniciais que prepararam o caminho para a colocação da pedra fundamental - o que seria feito por Ele mesmo, quando, em anos posteriores, visitava o local do Templo-Mater do Ocidente, nas margens do Lago Michigan. Foi a essa altura que se fez aquela célebre compilação de Suas palestras à mesa, publicada sob o título de Some Answered Questions (Respostas a Algumas Perguntas) - palestras realizadas no breve espaço de tempo que Ele podia dispor, durante as quais foram elucidados certos aspectos fundamentais da Fé de seu Pai, citadas provas tradicionais e racionais de sua validade, e se explicou de um modo autoritativo uma grande variedade de assuntos relacionados à Era Cristã, aos Profetas de Deus, às profecias bíblicas, à origem e condição do homem, e outros temas similares.

Durante as mais tenebrosas horas desse período foi que, em uma comunicação dirigida ao primo do Báb, o venerável Hájí Mirzá Muhammad-Taqí, principal construtor do Templo de 'Ishqabad, 'Abdu'l-Bahá, em termos comovedores, proclamou a imensurável grandeza da Revelação de Bahá'u'lláh, fez ouvirem-se as advertências que pressagiavam o tumulto destinado a sobrevir ao mundo, proveniente de seus inimigos, de longe e de perto, e predisse em linguagem comovente, a ascendência que os porta-tochas do Convênio sabre ales, afinal, haveriam de atingir. Foi em uma hora de grave suspense, durante esse mesmo período, que Ele escreveu Sua Última Vontade e Testamento - aquele Documento imortal que delineia as características da Ordem Administrativa destinada a surgir após seu passamento e a anunciar a inauguração daquela Ordem Mundial cujo advento o Báb prognosticara e cujos princípios e leis Bahá'u'lláh já havia formulado. Foi no decurso desses anos turbulentos que, por intermédio dos arautos e campeões de um Convênio firmemente instituído, Ele ergueu as instituições embrionárias - administrativas espirituais e educativas, de uma Fé que constantemente se expandia - na Pérsia, berço da fé, na Grande Republica do Ocidente, berço de sua Ordem Administrativa, no Domínio do Canadá, na França, na Inglaterra, na Alemanha, no Egito, no Iraque, na Rússia, na índia, em Burma, no Japão e até nas remotas Ilhas do Pacifico. Foi nessa época emocionante que Ele deu um ímpeto tremendo à tradução, publicação e disseminação da literatura bahá'i, que agora incluía uma variedade de livros e tratados escritos em diversos idiomas - persa, árabe, inglês, turco, francês, alemão, russo e birmanês. A sua mesa naqueles dias - sempre que havia uma calmaria na tempestade que a Seu redor bramia - se reuniam peregrinos, amigos e inquiridores da maioria dos países já mencionados, representantes das varias religiões, cristã, muçulmana, judia, zoroastriana, hindu e budista. Aos necessitados que se apinhavam em Suas portas e enchiam o pátio de Sua casa, toda sexta-feira de manhã, a despeito dos perigos que O cercavam, Ele distribuía esmolas com as próprias mãos, com uma regularidade e uma generosidade que para Ele ganharam o título de "Pai dos pobres". Mesmo naqueles dias tempestuosos, nada Lhe abalava a confiança, nem permitia Ele que coisa alguma interferisse com Sua atenção aos destituídos, aos órfãos, aos doentes e aos espezinhados; nada podia impedi-Lo de visitar pessoalmente aqueles incapacitados, ou os que tinham vergonha de lhe solicitar auxilio. Inflexível em Sua determinação de seguir o exemplo tanto do Báb como de Bahá'u'lláh, nada podia induzi-Lo a fugir dos inimigos, a escapar do encarceramento, nem mesmo os conselhos que lhe foram dados pelos membros principais da comunidade exilada em Haifa, nem os insistentes apelos do Cônsul da Espanha - um parente do agente de uma companhia italiana de vapores - que em seu amor por 'Abdu'l-Bahá e sua ansiedade de afastar o perigo que ameaçava, havia até, posto à Sua disposição um cargueiro italiano, pronto para Lhe prover passagem segura para qualquer porto estrangeiro que Ele escolhesse.

Era tão imperturbável a equanimidade de 'Abdu'l-Bahá que, enquanto boatos circulavam, segundo os quais Ele poderia ser jogado no mar, ou exilado a Fizán na Tripolitânia, ou justiçado na forca, Ele, para espanto de Seus amigos e divertimento dos inimigos, podia ser vista ocupado em plantar árvores e trepadeiras no Jardim de Sua casa, os frutos das quais, logo que a tempestade tivesse passado, seriam colhidos por Seu fiel jardineiro Ismá'il Áqá, a Seu manda, e oferecidos àqueles mesmos amigos e inimigos na ocasião de suas visitas a Ele.

No princípio do inverno de 1907, outra Comissão - composta de quatro oficiais e chefiada por 'Árif Bey - foi subitamente despachada a 'Akká, por ordem do Sultão. Poucos dias antes de sua chegada, 'Abdu'l-Bahá teve um sonho, que contou aos crentes, no qual viu um navio lançar âncora perto de 'Akká e, desse navio, voarem algumas aves semelhantes a cartuchos de dinamite, as quais, depois de circularem em volta de Sua cabeça - enquanto Ele ficava em pe em meio a uma multidão de habitantes assustados da cidade, voltaram ao navio, sem explodirem.

Mal desembarcaram os membros da Comissão, quando puseram sob seu controle direto e exclusive tanto os serviços do Telegrafo como os dos Correios de 'Akká, arbitrariamente destituíram de seus cargos os oficiais suspeitados de serem amigos de 'Abdu'l-Bahá, inclusive o governador da cidade; estabeleceram contacto direto e secreto com o governo em Constantinopla; fixaram residência na casa de vizinhos e íntimas associados dos violadores do Convênio; trouxeram guardas para vigiarem a casa de 'Abdu'l-Bahá, a fim de impedirem qualquer um de vê-Lo, e iniciaram o estranho procedimento de chamar como testemunhas as mesmas pessoas - entre elas havendo cristãos e muçulmanos, orientais e ocidentais - que tinham anteriormente assinado os documentos que foram mandados a Constantinopla e que haviam trazido com eles para fins de investigação.

As atividades dos violadores do Convênio - em especial, de Mirzá Muhammad-'Ali, agora jubiloso e cheio de esperança - atingiram o auge, nesta hora de crise extrema. Visitas, entrevistas e diversões multiplicaram-se, em uma atmosfera de fervente expectativa, agora que viam aproximar-se a vitória. Não foram poucos aqueles, dentre os mais baixos elementos da população, que vieram a crer estar iminente sua aquisição da propriedade a ser deixada atrás pelos exilados. Insultos e calúnias aumentaram de um modo marcante. Até alguns dos pobres - tão generosamente socorridos por 'Abdu'l-Bahá durante tanto tempo - O abandonaram por medo de represálias.

Enquanto os membros da Comissão procediam em suas assim chamadas investigações, e durante toda a sua estada de aproximadamente um mês em 'Akká, Abdu'l-Bahá recusava insistentemente a reunir-se ou tratar com qualquer um deles, apesar das advertências e ameaças veladas que lhe vinham sendo transmitidas por intermédio de um mensageiro - atitude esta que lhes causava grande surpresa e serviu para lhes inflamar a animosidade e reforçar a determinação de executar os maus desígnios. Embora os perigos e as tribulações que O haviam cercado estivessem agora no auge, se bem que esperasse de prontidão, ora em 'Akká, ora em Haifa, o navio no qual se supunha Ele deveria embarcar com os membros da Comissão, e não obstante os mais extravagantes boatos que circulavam a Seu respeito, continuava imperturbável a serenidade que Ele havia invariavelmente mantido desde a renovação de Seu encarceramento, e Sua confiança tampouco se abalava. "0 que significava o sonho que tive", disse Ele, nessa ocasião, aos crentes que ainda permaneciam em 'Akká, "esta agora claro e evidente. Queira Deus que essa dinamite não exploda."

Enquanto isso, os membros da Comissão, numa certa sexta-feira, haviam ido a Haifa e inspecionado o sepulcro do Báb, cuja construção prosseguira no Monte Carmelo sem nenhuma interrupção. Impressionados por sua solidez e suas dimensões, haviam perguntado a um dos encarregados quantas criptas haviam sido construídas sob essa estrutura maciça.

Pouco depois de haver sido efetivada a inspeção, se observou de súbito, certa dia, na hora do por do sol, que o navio - que havia estado esperando perto de Haifa - levantara as âncoras e estava partindo em direção à 'Akká. Espalhou-se rapidamente, em maio a população excitada, a noticia de que os membros da Comissão haviam nele embarcado. Previam a probabilidade de o navio parar em 'Akká o tempo suficiente para levar 'Abdu'l-Bahá a. bordo, depois do que seguiria viagem are seu destino. Consternação e angústia apoderaram-se dos membros de Sua família quando se lhes informou que o navio se aproximava. Os poucos crentes que restavam choraram diante de sua iminente separação de seu Mestre. Podia-se ver 'Abdu'l-Bahá, nessa hora trágica, andando só em silencio, de um lado a outro do pátio de Sua casa.

Ao cair do crepúsculo, no entanto, se observou, de súbito, que as luzes do navio haviam virado de posição e o navio mudara de rumo. Tornou-se evidente agora que navegava diretamente para Constantinopla. Essa informação foi comunicada de imediato a 'Abdu-l'-Bahá enquanto Ela ainda, na crescente escuridão, andava em Seu pátio. Alguns dos crentes que se haviam colocado em pontos diferentes para observarem o progresso do navio, apressaram-se em confirmar a jubilosa noticia. Um dos mais graves perigos que em qualquer época haviam ameaçado a preciosa vida de 'Abdu'l-Bahá foi, nesse dia histórico, desviado súbita, providencial e definitivamente.

Pouco depois da partida do navio - tão precipitada e inteiramente inesperada - veio a notícia de que explodira uma bomba no caminho que o sultão seguia, ao regressar da mesquita a seu palácio, apos haver oferecido suas orações de sexta-feira.

Alguns dias depois desse atentado contra sua vida, a Comissão lhe submeteu seu relatório, mas ele e seu governo estavam demasiado preocupados para considerar o assunto. O caso foi deixado de lado e quando, alguns mesas mais tarde, foi novamente apresentado, se viu abruptamente encerrado por um acontecimento que, de uma vez por todas, pôs o Prisioneiro de 'Akká além do poder de Seu inimigo real. A Revolução dos Jovens Turcos, irrompendo de uma forma decisiva e rápida em 1908, obrigou um relutante déspota a promulgar a constituição que ale suspendera e a dar liberdade a todos os presos religiosos e políticos confinados sob o regime antigo. Mesmo então para perguntar especificamente se 'Abdu'l-Bahá estava incluído na categoria desses presos, foi necessário enviar a Constantinopla um telegrama, ao qual veio, de pronto, uma resposta afirmativa.

Dentro de poucos meses, em 1909, os Jovens Turcos obtiveram do Shaykhu'l-Islám a condenação do próprio Sultão, que, em conseqüência de ainda outras tentativas de derrubar a constituição, foi finalmente deposto, de um modo ignominioso, sendo deportado e feito prisioneiro de estado. Em um só dia desse mesmo ano foram executados nada menos de trinta e um eminentes ministros, pashás e oficiais, em cujo número se incluíam notórios inimigos da Fé. A própria Tripolitânia, que iria ser a cena do exílio de 'Abdu'lBahá, foi tirada dos turcos subseqüentemente pela Itália. Assim terminou o reinado do "Grande Assassino", "o mais miserável intrigante - astucioso, indigno de confiança e cruel - da longa dinastia dos 'Uthmán", reinado esse mais desastroso em sua perda imediata de território e na certeza de outras ainda por virem, e mais conspícuo pela deterioração da condição de seus súditos, do que o reinado de qualquer outro de seus vinte e três degenerados predecessores desde a morte de Sulayman o Magnífico."

(*) Sutheland Maxwell.
Capítulo
SEPULTAMENTO DOS RESTOS MORTAIS
DO BÁB NO MONTE CARMELO

A inesperada e dramática libertação de 'Abdu'l-Bahá, após Seu encarceramento de quarenta

anos, foi, para as ambições acariciadas pelos violadores do Convênio, um golpe tão devastador como aquele que, uma década antes, lhes havia destruído as esperanças de solapar Sua autoridade e destituí-Lo de Seu posto que Deus lhe designara. Agora, imediatamente após Sua triunfante libertação, lhes sobreveio um terceiro golpe tão atordoante como aqueles que o precederam, e quase igualmente espetacular. Dentro de poucos meses depois do decreto histórico que lhe deu Sua liberdade, no mesmo ano que testemunhou a queda do Sultão 'Abdu'l-Hamíd, aquele mesmo poder do alto que a Abdu'l-Bahá havia possibilitado preservar inviolados os direitos a Ele conferidos por Deus, estabelecer no continente norte-americano a Fé de Seu pai e triunfar sobre Seu opressor real, agora O capacitava a realizar um dos atos mais insígnes de Seu ministério: trasladar de seu esconderijo em Teerã para o Monte Carmelo os restos mortais do Báb. Em mais de uma ocasião testemunhara Ele Próprio que o traslado seguro desses restos, a construção de um mausoléu digno para recebê-los e o sepultamento deles, com Suas próprias mãos, no lugar de descanso permanente, constituíam um dos três principais objetivos cuja realização fora sempre vista por Ele, desde o início de Sua missão, como um dever primordial. Esse ato, em verdade, merece figural como um dos acontecimentos que sobressaem no primeiro século bahá'í.

Assim como se notou em capitulo anterior, os corpos mutilados do Báb e de Seu companheiro de martírio, Mirzá Muhammad-'Alí, foram removidos durante a segunda noite após a execução, através da piedosa intervenção de Hájí Sulaymán Khán, sendo tirados da beirada do fosso, no qual haviam sido jogados, e levados a uma fábrica de seda, propriedade de um dos crentes de Milán, onde, no dia seguinte, foram depositados em ataúde de madeira e daí transportados a um lugar de segurança. Subseqüentemente, de acordo com as instruções de Bahá'u'lláh, foram transferidos para Teerã e colocados no santuário do Imame Zádih Husayn. Mais tarde foram trasladados para a residência do próprio Hájí Sulaymán Khán, no bairro Sar-Chashmih da cidade, e depois para o santuário do Imame Zadih Ma'sún, onde permaneceram ocultos até o ano de 1284 A. H. (1847-1868), quando uma Epístola, revelada por Bahá'u'lláh em Adrianópolis, deu instrução a Mullá Alí-Akbar-i-Shahmírzádí e Jamál-i-Burújirdí, para que os transferissem, sem demora, para algum outro lugar - instruções essas que, em vista da subseqüente reconstrução do santuário, provaram ter sido providenciais.

Não conseguindo encontrar um lugar apropriado no subúrbio de Sháh 'Abdu'l-'Azím, Mullá 'Alí-Akbar e seu companheiro continuaram sua busca até que, na estrada para Chashmih-'Ali, descobriram o abandonado e dilapidado Masjid-i-Mashá'u'lláh, onde após o anoitecer, depositaram dentro de uma das paredes, sua preciosa carga, havendo primeiro envolvido os restos novamente em uma mortalha de seda que tinham trazido para este fim. Como no dia seguinte, para grande consternação sua, souberam que o esconderijo fora descoberto, levaram o caixão clandestinamente pelo portão da capital diretamente para a casa de Mirzá Hasan-i-Vazír, um crente e genro de Hájí Mirza Siyyid 'Alíy-i-Tafríshí, o Majdu'l-Ashráf , onde permaneceu por nada menos de quatorze meses. Assim que os crentes vieram a saber em que lugar estava, depois de isto haver sido desde tanto tempo, guardado em segredo, começaram a visitar a casa em tão grandes números que Mullá 'Alí-Akbar se sentiu obrigado a dirigir a Bahá'u'lláh uma comunicação na qual pedia que o orientasse no assunto. Hájí Sháh Muhammad-i-Manshádí, apelidado de Amínu'l-Bayan, foi encarregado, pois, de receber dele a Incumbência, sendo-lhe recomendado que nisso agisse com o máximo sigilo.

Ajudado por outro crente, Hájí Sháh Muhammad enterrou o ataúde embaixo do piso do santuário interior do túmulo do Imame Bádih Zayd, onde jazia desapercebido até que Mirzá Asadu'lláh-i-Isfahání foi informado de sua localização mediante um gráfico que Bahá'u'lláh lhe enviou. Em vista das instruções de BaM'u'lláh para que fosse escondida em outro lugar, ele trasladou os restos mortais primeiro para sua própria casa em Teerã e, depois, depositados em varias outras localidades, tais como a casa de Husayn-'Alíiy-i-Isfáhání e a de Muhammad-Karím-i-'Attár, onde permaneceram ocultos até o ano de 1316 A.H. (1899), quando, de acordo com as instruções dadas por 'Abdu'l-Bahá, esse mesmo Mirzá Asadu'lláh, juntamente com alguns outros crentes, os transportaram via Isfáhán, Kirmánsháh, Bagdá e Damasco, para Beirute e dali, por mar, até 'Akká. Chegaram a seu destino no dia 19 do mês de Ramadán, 1316 A. H. (31 de janeiro de 1899), cinqüenta anos lunares após a execução do Báb em Tabríz.

No mesmo ano em que essa preciosa Carga chegou nas plagas da Terra Santa e foi entregue as mãos de 'Abdu'l-Bahá, Ele, acompanhado por Dr. Ibráhím Khayru'lláh - a quem já honrara com os títulos de o "Pedro de Bahá", "o Segundo Colombo" e "Conquistador da América" - foi ao sítio recém-comprado, o qual Bahá'u'lláh escolhera no Monte Carmelo e abençoara, e lá colocou com as próprias mãos a pedra angular do edifício cuja construção Ele, alguns meses depois, haveria de começar. Nesse mesmo tempo fora completado e embarcado para Haifa, de acordo com a sugestão de 'Abdu'l-Bahá, o sarcófago de mármore destinado a receber o corpo do Báb, sendo uma oferta de amor da parte dos bahá'ís de Rangoon.

Desnecessário é estender-me sobre os múltiplos problemas e preocupações que por quase uma década continuaram a assediar 'Abdu'l-Bahá até a hora vitoriosa quando Ele pôde levar à consumação final a tarefa histórica que Lhe confiara Seu Pai. Os riscos e perigos com que Bahá'u'lláh e, mais tarde, Seu Filho, se haviam defrontado em Seus esforços por assegurarem a proteção daqueles restos mortais durante meio século, foram apenas prelúdio dos graves perigos os quais, em época posterior, o próprio Centro do Convênio teve que enfrentar no decurso da construção do edifício desenhado para recebê-los e, de fato, até a hora de Sua libertação final de Seu encarceramento.

As prolongadas negociações com o astucioso e sagaz proprietário do local para a construção do sagrado Edifício, quem, sob a influência dos violadores do Convênio, recusou por muito tempo vendê-lo; o preço exorbitante exigido de início para se abrir uma estrada que desse acesso a esse local, indispensável ao trabalho da construção; as intermináveis objeções feitas por oficiais, tanto de nível alto como de inferior, cujas suspeitas, tão facilmente provocadas, 'Abdu'l-Bahá mesmo tinha que mitigar com repetidas explicações e garantias; a perigosa situação criada pelas acusações monstruosas que Mirzá Muhammad-'Alí e seus cúmplices faziam a respeito do caráter e da finalidade desse edifício; as demoras e complicações ocasionadas pela prolongada e inevitável ausência de 'Abdu'l-Bahá de Haifa e a conseqüente impossibilidade de ser supervisionado por Ele pessoalmente o vasto empreendimento ao qual de início todos asses obstáculos figuravam entre os principais que Ele, em tão crítico período de Seu ministério, teve que enfrentar e superar antes de poder executar totalmente o Plano cujo esboço Bahá'u'lláh lhe havia dado na ocasião de uma de Suas visitas ao Monte Carmelo.

"Cada pedra desse edifício, cada pedra da estrada que a ele conduz" - ouvia-se Ele muitas vezes comentar - "Eu, com infinitas lágrimas e tremendo custo, levantei e pus em seu lugar." Segundo uma testemunha ocular, Ele uma vez observou, "Uma noite Eu estava tão assediado de angústia que outro recurso não tinha, senão o de repetir várias vezes uma oração do Báb que estava em Meu poder, e que muito Me acalmou. Na manhã, seguinte, o proprietário do terreno veio a Mim pessoalmente, pediu desculpas e rogou que comprassesua propriedade."

Finalmente, no mesmo ano em que Seu adversário real perdeu o trono - e na ocasião da abertura da primeira Convenção Bahá'í americana - convocada em Chicago com o fim de criar uma organização nacional permanente para a construção do Mashriqu'l-Adhkár, - 'Abdu'l-Bahá levou Seu empreendimento a uma conclusão vitoriosa, apesar das incessantes maquinações dos inimigos, tanto internas como externas. No dia 28 do mês de Safar, 1327 A. H. (1909), o dia do primeiro Naw-Rúz que comemorou após a libertação de Seu encarceramento, 'Abdu'l-Bahá mandou transportar, com grande esforço, o sarcófago de mármore à sepultura para ele preparada e, ao anoitecer, à luz de uma só lâmpada, nele colocou, com as próprias mãos - na presença de bahá'ís do Oriente e do Ocidente e em circunstâancias ao mesmo tempo solenes e comovedoras - o ataúde de madeira que continha os sagrados restos do Báb e de Seu companheiro.

Quando tudo terminou e os restos mortais do Profeta-Mártir de Shiráz. afinal, estavam seguramente depositados, para seu descanso eterno, no seio da sagrada montanha de Deus, 'Abdu'l-Bahá, após haver posto de lado o turbante, removido os sapatos e despido o manto, curvou-se sobre o sarcófago ainda aberto, com Seu cabala prateado flutuando em volta da cabeça, estando transfigurada e luminosa Sua face, descansou Sua fronte na beira do ataúde e, em soluços, pranteou de tal modo que todos os presentes choraram com Ele. Naquela noite não pode Ele dormir, tão acabrunhado estava.

"A mais jubilosa notícia é esta", escreveu Ele, mais tarde, em uma Epístola na qual anunciava aos seguidores essa gloriosa vitória. "que o corpo santo, luminoso do Báb... depois de haver sido transferido de lugar em lugar por sessenta anos, devido à ascendência do inimigo e por medo dos malévolos, e sem haver conhecido repouso ou tranqüilidade, já foi cerimoniosamente depositado, através da misericórdia da Beleza de Abhá, no dia de Naw-Rúz, dentro do sagrado ataúde no Santuário excelso no Monte Carmelo... Por uma extraordinária coincidência, nesse mesmo dia de Naw-Rúz, foi recebido um cabograma de Chicago anunciando que os bahá'ís em cada um dos centros americanos haviam decidido definitivamente sobre o local e a construção do Mashriqu'l-Adhkár."

Com a transferência para o Monte Carmelo dos restos mortais do Báb - Cujo advento assinala a volta do Profeta Elias - e sua inumação naquela montanha sagrada, não longe da caverna desse mesmo Profeta, fora executado, afinal, o Plano tão gloriosamente ideado por Bahá'u'lláh, no anoitecer de Sua vida, e foram coroados de êxito imortal os árduos labores associados aos primeiros anos tumultuosos do ministério do designado Centro de Seu Convênio. Nessa montanha, considerada sagrada, desde tempos imemoriais, fora permanentemente estabelecido um centro focal de iluminação e poder divinos, cujo próprio pó, declarou 'Abdu'l-Bahá, Lhe havia inspirado, e que não era inferior em santidade a nenhum outro santuário em todo o mundo bahá'í, com exceção do Sepulcro do próprio Autor da Revelação Bahá'í. Assim o mausoléu do Báb - uma estrutura, a um tempo, maciça, simples e imponente, abrigada no coração do Carmelo, a "Vinha de Deus", ladeada pela Caverna de Elias no oeste e pelas colinas da Galileia no leste, com a planície de Saran atrás, a cidade prateada de 'Akká em frente e, mais adiante, o Mais Sagrado Túmulo, Coração e Qíblih do mundo bahá'í - dominando a colônia dos Templários Alemães, que, na expectativa da "vinda do Senhor", haviam abandonado seus lares e se congregado ao pé dessa montanha, no mesmo ano da Declaração de Bahá'u'lláh em Bagdá (1863) - esse mausoléu agora foi estabelecido, com heróico esforço e inexpugnável poder, como "o Lugar em volta do qual a Assembléia no alto circula em adoração." Acontecimentos já tem demonstrada, pela extensão do própria Edifício, pela embelezamento de seus arredares, pela aquisição de amplas doações na vizinhança e por sua proximidade nos lugares de repouso da esposa, do filho e da filha do própria Bahá'u'lláh, que esse edifício estava destinado a adquirir, com o passar dos anos, um grau de fama e glória comensurável com a elevado propósito que incentivara sua fundação. Nem poderá, no decorrer do tempo - e à medida que forem gradativamente estabelecidas as instituições que giram em torno do Centro Administrativo Mundial da futura Comunidade Bahá'í - deixar de manifestar as potencialidades latentes das quais esse mesmo propósito imutável a datou. Irresistivelmente essa instituição divina haverá de florescer e expandir - por mais feroz que seja a animosidade mostrada por seus inimigas futuros - até que a plena medida de seu esplendor se tenha desvelado ante as olhos de toda a humanidade.

"Apressa-te, ó Carmelo", escreveu, significativamente, Bahá'u'lláh, dirigindo-se a essa sagrada montanha, "pois, eis que a luz do Semblante de Deus. .. se ergueu sobre ti... Regozija-te, pais Deus, nesse Dia, sobre ti estabeleceu Seu trono, te fez o ponto de alvorecer de Seus sinais e a aurora das evidencias de Sua Revelação. Bem-aventurado quem a seu redor circula, quem proclama a revelação de tua glória e relata o que a generosidade do Senhor teu Deus fez sobre ti chover." "Chama a Sião, ó Carmelo!" revelou Ele, além disso, nessa mesma Epístola, "e anuncia as jubilosas novas: Veio Aquele que se ocultara dos olhos mortais! Está manifesta Sua soberania predominante; revelou-se Seu esplendor que a tudo abrange. Acautela-te para que não hesites, nem pares. Apressa-te a sair e circundar a Cidade de Deus que se fez baixar do céu, a Kaaba celestial a cuja redor têm circulada em adoração os favorecidos de Deus, os puros de coração e a companhia dos mais excelsas anjos."

Capítulo XIX
AS VIAGENS DE ABDU'L-BAHÁ NA
EUROPA E NA AMÉRICA

O estabelecimento da Fé de Bahá'u'lláh no Hemisfério Ocidental - a realização mais notável que para sempre há de ser associada com o ministério de 'Abdu'l-Bahá - assim como se tem observado nas páginas precedentes, pusera em movimento forças tão tremendas, produzindo resultados de tão grande alcance, que era justificável a participação ativa, pessoal, do próprio Centro do Convênio naquelas atividades históricas que Seus discípulos ocidentais, através do poder impulsor desse Convênio, haviam valorosamente iniciado e estavam com vigor levando avante.

A crise precipitada pela cegueira e perversidade dos violadores do Convênio, a qual por vários anos havia tão tragicamente interferido com a execução do propósito de 'Abdu'l-Bahá, foi agora, providencialmente, resolvida. De súbito se retirara de Seu caminho uma barreira insuperável, abriram-se Seus grilhões - a ira vingadora de Deus remover a as correntes de Seu pescoço e as pôs no de 'Abdu'l-Hamíd, Seu adversário real e a instrumento de Seu mais implacável inimigo. Além disso, as sagrados restos mortais do Báb, que a Suas mãos foram confiadas pelo Seu falecido Pai, haviam sido trasladados, com dificuldade imensa, de seu esconderijo na longínqua Teerã até a Terra Santa e, no seio do Monte Carmelo, por Ele depositados, com reverência e cerimônia.

Nesta época, a saúde de 'Abdu'l-Bahá estava abalada. Ele sofria de vários males provocados pelas tensões e provações de uma vida trágica passada quase totalmente em exílio e encarceramento. Estava no limiar de setenta anos de idade. Assim que foi libertado, porém, de Seu cativeiro de quarenta anos, e logo que pusera o corpo do. Báb em um lugar de descanso, seguro e permanente, e Sua mente estava livre das penosas ansiedades relacionadas com a execução dessa inestimável incumbência, Ele, com sublime coragem, confiança e resolução, se levantou para consagrar as poucas forças que Lhe restavam, no anoitecer de Sua vida, a um serviço de tão heróicas proporções que nenhum paralelo pode ser encontrado nos anais do primeiro século bahá'í.

Em verdade, Seus três anos de viagens, primeiro ao Egito, depois à Europa e mais tarde à América, assinalam - se desejamos avaliar corretamente sua importância histórica - o início de uma nova fase sumamente significativa na história do século. Pela primeira vez desde o nascimento da Fé, sessenta e seis anos antes, seu Dirigente e supremo Representante rompeu os grilhões que, durante os ministérios tanto de Bahá'u'lláh como do Báb, tão penosamente lhe restringira a liberdade. Se bem que medidas repressivas ainda continuassem a circunscrever as atividades da vasta maioria de seus adeptos na terra de seu nascimento, foi agora concedida a seu Dirigente uma liberdade de ação que Ele iria continuar a fruir sempre - com exceção de um breve intervalo durante a guerra de 1914-18 - até o fim de Sua vida, e que jamais foi retirada das instituições da Fé em seu centro mundial.

Tão momentosa mudança nos destinos da Fé, foi sinal para uma explosão de atividade da parte de 'Abdu'l-Bahá que encheu de admiração e espanto Seus seguidores no Oriente e no Ocidente, e veio a exercer sobre o curso da futura história da Fé uma influência imperecível. Aquele que - em Suas próprias palavras - entrara na prisão na mocidade e a deixara na velhice, que nunca em Sua vida havia enfrentado um auditório público, nem sequer freqüentado uma escola ou se movido em círculos ocidentais, e que desconhecia costumes e idiomas ocidentais - levantou-se agora não somente a fim de proclamar de púlpito e plataforma, em algumas das mais importantes capitais da Europa e nas principais cidades do continente norte-americano, as

distintivas verdades entesouradas na Fé de Seu Pai, mas também a fim de demonstrar a origem Divina dos Profetas que Lhe precederam e revelar a natureza do laço que os ligava a essa Fé.

Com a inflexível resolução de empreender essa árdua viagem, não levando em conta quanto lhe minaria as forças, nem se importando do risco a Sua vida, Ele, quietamente, sem qualquer aviso prévio, embarcou para o Egito, numa tarde de setembro do ano de 1910, o ano depois daquele que testemunhou a queda do Sultão 'Abdu'l-Hamíd e o sepultamento formal dos restos mortais do Báb no Monte Carmelo. Após uma estada de um mês, aproximadamente, em Port Said, Ele de lá partiu com a intenção de seguir à Europa, mas viu que Seu estado de saúde tomava necessária que Ele desembarcasse de novo em Alexandria e adiasse Sua viagem. Fixou residência, então, em Ramleh, um subúrbio de Alexandria, e mais tarde visitou Zaytún e Cairo, só no ano seguinte, em 11 de agosto, com um grupo de quatro embarcando no SS. Corsica para Marselha, donde, após uma breve parada em Thonon-les-Bains, seguiu para Londres, lá chegando em 4 de setembro de 1911. Depois de uma visita de aproximadamente um mês, foi a Paris, onde passou um período de nove semanas, regressando ao Egito em dezembro de 1911. Mais uma vez estabeleceu residência em Ramleh, onde passou o inverno, e então, em 25 de março de 1912, embarcou em Sua segunda viagem para o Ocidente, pelo vapor Cedric, indo via Nápoles diretamente a Nova York, onde chegou em 11 de abril. Após um prolongado giro de oito meses de duração - que O levou de costa a costa e no transcurso do qual Ele visitou Washington, Chicago, Cleveland, Pittsburgh, Montclair, Boston, Worcester, Brooklyn, Fanwood, Milford, Philadelphia. West Englewood, Jersey City, Cambridge, Medford. Morristown, Dublin, Green-Acre, Montreal, Malden, Buffalo, Kenosha, Minneapolis, St. Paul, Omaha, Lincoln, Denver, Glenwood Springs, Salt Lake City, San Francisco, Oakland, Palo Alto, Berkeley, Pasadena, Los Angeles, Sacramento, Cincinnati e Baltimore - embarcou no dia 5 de dezembro no S.S. Celtic, de Nova York para Liverpool, donde seguiu de trem para Londres. Mais tarde, visitou Oxford, Edinburgh e Bristol, dai regressando a Londres e então partindo, em 21 de janeiro de 1913, para Paris. No dia 30 de março, Ele viajou a Stuttgart, e de lá seguiu, em 9 de abril, a Budapeste, nove dias depois visitou Viena, donde, em 25 de abril, regressou a Stuttgart e, no primeiro dia de maio, seguiu para Paris. Lá Ele permaneceu até 12 de junho, no dia seguinte embarcando de Marselha pelo SS. Himalaya, com destino ao Egito. Chegou quatro dias depois em Port Said, fez breves visitas a Ismá'ílíyyih e Abúqir, demorou-se por algum tempo em Ramleh e então regressou a Haifa, assim concluindo, em 5 de dezembro de 1913, suas viagens históricas.

Foi durante essas viagens históricas e diante de auditórios numerosos e representativos, consistindo, algumas vezes, de mais de mil pessoas, que 'Abdu'l-Bahá, pela primeira vez em Seu ministério, expôs - com brilhante simplicidade, mas de um modo persuasivo e pujante - os princípios básicos característicos da Fé de Seu Pai, os quais, em conjunto com as leis e os preceitos revelados no Kitáb-i-Aqdas, constituem o leito de rocha da mais recente Revelação de Deus à humanidade. A independente busca da verdade, não agrilhoada por superstição ou tradição; a unidade da inteira raça humana, sendo este o princípio mais focalizado, e a doutrina fundamental da Fé; a unidade básica de todas as religiões; a condenação de toda forma de preconceito - quer de religião, raça, classe ou nacionalidade; a harmonia que deve existir entre a religião e a ciência; a igualdade do homem e da mulher, sendo ales as duas asas com as quais a ave do gênero humano poderá voar; a introdução da educação compulsória; a adoção de uma língua auxiliar universal; a abolição dos extremos da riqueza e da pobreza; a instituição de um tribunal mundial para arbitrar entre nações em casos de disputas; a exaltação do trabalho - se for executado em espírito de serviço - ao grau da adoração; a glorificação da justiça como o princípio dominante na sociedade humana, e da religião, como baluarte para a proteção de todos os povos e nações; e o estabelecimento de uma paz universal, permanente, como a meta suprema de toda a humanidade - esses princípios sobressaem como os elementos essenciais daquela política Divina por Ele proclamada aos dirigentes de pensamento público, bem como às massas em geral, durante essas viagens missionárias. A exposição dessas verdades vitalizadoras da Fé de Bahá'u'lláh que Ele caracterizava como o "espírito da época", Ele suplementou com graves e reiteradas advertências de uma conflagração iminente, a qual - se os estadistas do mundo não conseguissem deixá-la, incendiaria todo o continente europeu. Predisse, ainda mais, durante essas viagens, as mudanças radicais que haveriam nesse continente, prognosticou a tendência à descentralização de poder político, a qual seria inevitavelmente iniciada, se referiu aos distúrbios que sobreviriam à Turquia, previu a perseguição dos judeus no continente da Europa e afirmou categoricamente que "o estandarte da unidade do gênero humano seria içado, o tabernáculo da paz universal se ergueria, e a mundo se tornaria outro mundo."

Nessas viagens 'Abdu'l-Bahá mostrava uma vitalidade, uma coragem, uma singeleza de propósito e uma dedicação à tarefa da qual Ele Próprio se incumbira, que causaram espanto e admiração àqueles que tiveram o privilégio de observar de perto Seus atos diários. Indiferente às curiosidades ou coisas de interesse que usualmente atraem os viajantes e que os membros de Seu séqüito muitas vezes queriam que Ele visitasse; não se preocupando nem com Seu conforto, nem com a saúde; gastando até a última gota de Sua energia, dia após dia, desde o alvorecer até altas horas da noite; recusando consistentemente qualquer donativo ou contribuição para as despesas de Suas viagens; mostrando infalível solicitude pelos enfermos, pelos entristecidos e espezinhados; intransigente na defesa das raças e classes menos favorecidas e aos pobres mostrando uma generosidade tão copiosa como a chuva, Ele, a encarnação de toda virtude bahá'í e personificação de todo ideal bahá'í, continuou, por três anos repletos de atividade, a proclamar a um mundo submerso no materialismo e já anuviado pela sombra de guerra, as verdades saneadoras, divinamente inspiradas, que a Revelação de Seu Pai encerrava. Desdenhava dos ataques contra Ele dirigidos por vigilantes e fanáticos expoentes da ortodoxia e do sectarismo. Admirável era Sua franqueza ao demonstrar, de palco e de púlpito, a Missão de Jesus Cristo aos judeus, ou, em igrejas e sinagogas, a origem Divina do Islã ou, aos materialistas, ateus ou agnósticos, a verdade da Revelação Divina e a necessidade da religião. Inequívoca era Sua glorificação de Bahá'u'lláh em todas as oportunidades e dentro dos santuários das diversas seitas. Sua recusa - em varias ocasiões, tanto na Inglaterra como nos Estados Unidos - de pedir favores a pessoas de destaque ou de riqueza, era inexorável. E, finalmente - mas não de menor importância - Ele era incomparável na espontaneidade, na sinceridade e no fervor de Sua simpatia e benevolência, mostradas a amigo e estranho igualmente, a crentes e descrentes, ricos e pobres, pessoas de alta posição ou humildes, com quem Ele encontrava íntima ou casualmente, a bordo de navios, ou enquanto andava pelas ruas, em parques ou praças públicas, em recepções ou banquetes, em favelas ou em mansões, nas reuniões de Seus seguidores ou em círculos eruditos.

Durante Suas várias visitas ao Egito, Ele teve mais de uma entrevista com o Khedive, 'Abbás Hilmí Pashá II, foi apresentado ao Lord Kitchener, teve oportunidade de conhecer o Muftí, Shaykh Muhammad Bakhít, bem como o Imame do Khedive, Shaykh Muhammad Rashíd, e de associar-se com diversos ulemás, pashás, notabilidades persas, membros do Parlamento Turco, editores dos principais jornais do Cairo e Alexandria e com outras pessoas proeminentes e representantes de bem conhecidas instituições, tanto religiosas como seculares.

Enquanto Ele permanecia na Inglaterra, a casa à Sua disposição em Cadogan Gardens tornou-se uma verdadeira maca para homens de todas as classes e condições os quais ali se aglomeravam para visitar o .Prisioneiro de 'Akká, que havia escolhido a grande cidade deles como a primeira cena de Suas atividades no Ocidente. "Oh, esses peregrinos, esses convidados, essas visitas!" assim testifica Sua devotada anfitriã, durante o tempo que Ele passou em Londres, "lembrando-nos daqueles dias, sentimos nossos ouvidos se encherem do som de seus passos - à medida que vinham de todos os países do mundo. Todos os dias, e o dia inteiro, uma torrente constante, uma interminável procissão! Sacerdotes e missionários, orientalistas e ocultistas, homens de negócios, como também místicos, anglicanos, católicos, dissidentes do anglicanismo, teosofistas e hindus, adeptos da ciência Crista e médicos, muçulmanos, budistas e zoroastrianos. Visitaram-No também: políticos, soldados do Exército de Salvação e outros que trabalhavam pelo bem da humanidade, mulheres sufragistas, formalistas, escritores, poetas, curandeiros, modistas, grandes damas, artistas e artesãos, pobres desempregados e comerciantes prósperos, gente do mundo do drama e da música - todos eles vieram, e nenhum era demasiado humilde, nenhum demasiado grande, para receber a compreensiva consideração deste santo Mensageiro, Que sempre dava Sua vida pelo bem alheio."

O primeiro aparecimento de 'Abdu'l-Bahá em público, perante um auditório ocidental, realizou-se - fato significativo - num templo cristão, quando, em 10 de setembro de 1911, Ele dirigiu a palavra a uma congregação numerosíssima, do púlpito do City Temple de Londres. Apresentado pelo Pastor, Rev. R. J. Campbell, Ele, em linguagem simples e convincente e com voz vibrante, proclamou a unidade de Deus, afirmou que a religião é fundamentalmente una, e anunciou que a hora da união dos homens de todas as raças, religiões e classes, havia soado. Numa outra ocasião, a 17 de setembro, a pedido do Venerável Arquidiácono Wilberforce, dirigiu a palavra à congregação de St. John the Divine, em Westminster, depois do oficio divino da tarde, escolhendo como tema a grandeza transcendental da Deidade, consoante o que foi afirmado e elucidado por Bahá'u'lláh no Kitáb-i-Iqán. "O Arquidiácono", escreveu um contemporâneo daquele acontecimento, "mandou colocar a cadeira do Bispo para seu hóspede nos degraus do coro, e, ficando de pé a Seu lado, leu ele próprio a tradução do discurso de 'Abdu'l-Bahá. A congregação ficou profundamente emocionada e, seguindo o exemplo do Arquidiácono, ajoelhou-se para receber a benção do Servo de Deus, que permaneceu de braços abertos, Sua voz maravilhosa subindo e baixando, no maio do silencio, com a força da Sua invocação."

A convite do Lord Mayor de Londres, Ele almoçou na Mansion House; dirigiu-se, em discurso, à Sociedade Teosófica, em sua sede, por solicitação expressa de seu presidente, bem como a uma Reunião do Centro de Pensamento Superior, em Londres; foi convidado por uma delegação da Sociedade Bramo-Somaj para realizar uma conferencia sob os auspícios da mesma; visitou a Mesquita de Woking e proferiu lá um discurso sobre a unidade mundial, a convite da Comunidade Muçulmana da Grã-bretanha, e foi recepcionado por príncipes persas, nobres, ex-ministros e membros da Legação da Pérsia em Londres. Foi hóspede do Dr. T. K. Cheyne em Oxford, e pronunciou um discurso perante "um auditório considerável e profundamente interessado", de caráter eminentemente acadêmico, reunido no Manchester College daquela cidade, e presidido pelo Dr. Estlin Carpenter. Falou, também, do púlpito de uma Igreja Congregacional do East End de Londres, em atenção ao pedido do seu Pastor; discursou em reuniões realizadas em Caxton Hall, e Westminster Hall, sendo que esta última sob a presidência de Sir Thomas Berkeley, e assistiu à representação de "Eager Heart", drama sobre o mistério do Natal, em Church House, Westminster, o primeiro espetáculo dramático que assistira até então, e que em sua representação gráfica da vida e dos sofrimentos de Jesus Cristo, arrancou-Lhe lágrimas. No salão de Passmore Edwards' Settlement em Tavistock Place, falou a um auditório de aproximadamente quatrocentas e sessenta pessoas, presidindo a sessão o Prof. Michael Sadler; fez uma visita a diversas operárias daquele estabelecimento que estavam em férias em Vaners, Byfleet, cerca de vinte milhas distante de Londres, e realizou uma segunda visita até lá, encontrando nessa ocasião pessoas de todas as categorias que se haviam reunido especialmente para vê-Lo, dentre as quais se distinguiam "o clero de várias correntes religiosas, um diretor de uma escola pública para meninos, um membro do Parlamento, um médico, um famoso escritor de assuntos políticos, o vice-reitor de uma universidade, vários jornalistas, um poeta famoso e um magistrado londrino." "Ele será lembrado durante muito tempo", escreveu um cronista a respeito de Sua visita à Inglaterra, descrevendo aquela ocasião "quando Ele ficava sentado junto a uma janela da frente, à luz do sol da tarde, com o braço em volta de um menino esfarrapado, mas feliz, que tinha vindo pedir a 'Abdu'l-Bahá uma pequena esmola para a mãe inválida e também para o seu cofrezinho, enquanto a Seu redor se reuniam homens e mulheres a discorrer sobre educação, socialismo, o primeiro Projeto-Lei de Reforma, e sobre a relação dos submarinos e da telegrafia sem fio com a nova era em que a humanidade está entrando."

Entre os que O procuraram durante os dias memoráveis que passou na Inglaterra e na Escócia contavam-se o Reverendo Arquidiácono Wilberforce, o Reverendo R. J. Campbell, o Reverendo Rhonddha Williams, o Reverendo Roland Corbet, Lord Lamington, Sir Richard e Lady Stapley, Sir Michael Sadler, o Jalálu'd-Dawlih, filho do Sultão de Zillú, Sir Ameer Ali, o ex-Marajá de Jalawar, que Lhe fez muitas visitas e deu um fino jantar e uma recepção condigna em Sua honra, o Marajá de Rajputana, o Ranee de Sarawak, a Princess Karadja, a Baronesa Barnekov, Lady Wemyss e a irmã, Lady Glencomer, Lady Agnew, Miss Constance Maud. Prof. E. G. Browne, Prof. Patrick Geddes, Mr. Albert Dawson, editor do "Christian Commonwealth", Mr. David Graham Pole, Sra. Annie Besant, Sra. Pankhurst e Mr. Stead, que manteve conversações longas e sérias com Ele. "Assaz numerosos", escreveu Sua anfitriã, ao descrever a impressão causada naqueles a quem Ele concedeu o privilegio de uma audiência particular, "eram os pretendentes a uma experiência tão rara, cuja singularidade só pederia ser avaliada pelos que estiveram na presença do Mestre, que podíamos adivinhar em parte, ao ver a expressão de suas faces, à medida que saíam - um olhar como que composto de reverência, maravilhamento e de uma alegria calma. Às vezes, davam a impressão de relutarem envolver ao mundo exterior, como se quisessem apegar-se à sua bem-aventurança, receando que a volta às coisas terrenas a arrebatasse deles." "Uma profunda impressão", consignou a supradita cronista, ao dar o balanço dos resultados produzidos por aquela memorável visita, "permaneceu na mente e nos corações de homens e mulheres de desta espécie e condição... Foi muitíssimo apreciada a permanência de 'Abdu'l-Bahá em Londres, ao mesmo passo que lamentadíssima Sua partida. Deixou inúmeros amigos. Seu amor ateara amor. Seu coração abrira-se para o Ocidente, e o coração ocidental achegara-se a essa presença patriarcal do Oriente. Suas palavras continham algo que apelava não só aos ouvintes presentes como a homens e mulheres em geral."

Suas visitas a Paris, onde ocupou por algum tempo um apartamento na Avenue de Camoens, foram notabilizadas por uma acolhida tão calorosa quanta a recepção que lhe concederam Seus amigos e adeptos em Londres. "Durante a visita a Paris", testemunhou Lady Blomfield, a devotada anfitriã inglesa, que o havia seguido até essa cidade, "do mesmo modo que em Londres, acontecimentos diárias revestiram-se da atmosfera de sucessos espirituais... Todas as manhãs, de acordo com o Seu costume, o Mestre expunha os princípios contidos nos ensinamentos de Bahá'u'lláh aos que se Lhe reuniam em torno, doutos e leigos, atentos e respeitosos. Eram de todas as nacionalidades e credos, do Oriente e do Ocidente, incluindo-se entre ales teosofistas, agnósticos, materialistas, espiritualistas, adeptos da Ciência Cristã, reformadores sociais, indus, sufis, muçulmanos, budistas, zoroastrianos, e muitos outros." E mais adiante: "As entrevistas sucediam-se. Vinham dignitários eclesiásticos de vários ramos da Arvore Cristã, alguns dos quais desejavam sinceramente achar novas aspectos da Verdade... Outros havia, que tapavam os ouvidos, de medo de ouvir e compreender."

Príncipes persas, nobres e ex-ministros, entre os quais se contavam o Sultão de Zillú, o Ministro persa, o Embaixador da Turquia em Paris, Rachíd Páshá, um ex-válí de Beirute, pashás e ex-ministros turcos, além do Visconde Arawaka, Embaixador do Japão junto à Corte da Espanha, foram alguns dos privilegiados que chegaram à Sua presença. Dirigiu a palavra a esperantistas e teosofistas, a estudantes da Faculdade de Teologia e a grandes auditórios na Alliance Spiritualiste; dirigiu-se a uma congregação missionária, em sua própria sede, num quarteirão paupérrimo da cidade, a convite do Pastor, enquanto que, em numerosas reuniões dos adeptos, os que já estavam familiarizados com seus ensinamentos tiveram o privilégio de ouvir-lhes dos lábios exposições pormenorizadas e freqüentes de certos aspectos da Fé estabelecida pelo Seu Pai.

Em Stuttgart - onde Sua estada foi curta mas inesquecível, e para onde viajou, apesar de adoentado, afim de estabelecer contato pessoal com os membros da comunidade de Seus entusiastas e muito amados amigos alemães - além de comparecer às reuniões dos devotados adeptos , distribuiu com liberdade suas bênçãos aos membros do grupo da Juventude, reunidos em Esslingen, e discursou, a convite do Professor Christale, Presidente dos Esperantistas da Europa, perante uma grande concentração de esperantistas em Seu próprio clube. Visitou, também, Bad Mergentheim, em Württemberg, onde poucos anos depois (1915) foi erigido por um de Seus discípulos gratos um monumento em memória de Sua visita. "A humildade, o amor, e a devoção dos crentes alemães", escreveu uma testemunha ocular, "regozijavam o coração de 'Abdu'l-Bahá, e eles receberam Suas bênçãos e palavras de conforto em completa submissão... Amigos vieram de longe e de perto para ver o Mestre. Havia um constante vaivém de visitantes no Hotel Marquart. Ali 'Abdu'l-Bahá os recebeu com tanto amor e afabilidade que eles ficaram radiantes de alegria."

Em Viena, onde permaneceu por alguns dias, 'Abdu'l-Bahá dirigiu-se a uma reunião de teosofistas daquela cidade, enquanto em Budapeste concedeu uma entrevista ao presidente da Universidade. Encontrou-se em diversas ocasiões com o famoso Orientalista, Professor Arminius Vambery, discursou na Sociedade Teosófica, foi visitado pelo Presidente dos Turanianos e representantes das Sociedades Turcas, por oficiais do exército, por vários membros do Parlamento e por uma delegação de Jovens Turcos chefiada pelo Professor Julius Germanus, que Lhe apresentou cordiais boas-vindas. "Durante esse tempo", reza o testemunho escrito do Dr. Rusztem Vambery, "Seu quarto no Hotel Dunapalota tornou-se uma verdadeira meca para todos aqueles a quem o misticismo do Oriente e a sabedoria de Seu Mestre atraíram para Seu círculo mágico. Entre Seus visitantes contavam-se o Conde Albert Apponyi, o Prelado Alexandre Giesswein, o Professor Ignatius Goldziher, Orientalista mundialmente renomado, o Professor Robert A. Nadler, famoso pintor de Budapeste e diretor da Sociedade Teosófica Húngara."

Estava reservado, contudo, ao continente norteamericano o privilegio de presenciar a mais admirável manifestação da vitalidade ilimitada que 'Abdu'l-Bahá exibiu no decurso dessas viagens. O notável progresso realizado pela comunidade organizada dos adeptos nos Estados Unidos e Canadá, a extraordinária receptividade do público americano para Sua Mensagem, bem como Sua consciência dos altos destinos futuros do povo daquele continente, compensaram plenamente o gasto de tempo e de energias que devotou a esta fase importantíssima de Suas viagens. Uma visita que acarretou uma viagem de mais de cinco mil milhas - que durou de abril a dezembro, que O levou da costa do Atlântico à do Pacifico, ida e volta, que originou preleções em tal número, de modo a encherem nada menos que três volumes - iria constituir o ponto culminante dessas viagens, e foi plenamente justificada pelos ótimos resultados que iriam produzir - Ele bem sabia - tais esforços da Sua parte. "Esta langa viagem", disse Ele aos adeptos reunidos por ocasião de Seu primeiro encontro em Nova York, "provará quão grande e Meu amor por vós. Houve muitos transtornos e vicissitudes, mas tudo isso desapareceu e foi esquecido ao pensar que ia encontrar-vos. "

O caráter dos atos que praticou, demonstrou cabalmente a importância que Ele ligava àquela visita. A colocação, por suas próprias mãos, da lápide comemorativa do Mashriqu'l-Adhkár, na praia do Lago Michigan, nas cercanias de Chicago, na propriedade recém-adquirida e na presença de uma reunião representativa de bahá'ís do Oriente e do Ocidente; Sua afirmativa dinâmica sobre os significados do Convênio instituído por Bahá'u'lláh, em seguida à leitura da recém-traduzida Epístola do Ramo, numa assembléia geral do adeptos em Nova York, designada daí por diante como a "Cidade do Convênio"; a cerimônia tocante em Inglewood, na Califórnia, marcando Sua peregrinação especial ao tumulo de Thornton Chase, o "primeiro bahá'í americano", e na verdade o primeiro a abraçar a Causa de Bahá'u'lláh no Mundo ocidental; a Festa simbólica que Ele próprio ofereceu a uma grande concentração de Seus discípulos reunidos ao ar livre, na moldura verde de um dia de junho, em West Englewood, New Jersey; as bênçãos que conferiu ao Open Forum em Green Acre, Maine, às margens do rio Psicataqua, onde muitos dos adeptos se haviam reunido, e queria evoluir de modo a tomar-se uma das primeiras escolas bahá'is de verão do Hemisferio Ocidental e ser reconhecida como uma das primeiras dotações estabelecidas no continente americano; Sua preleção diante de um auditório de várias centenas de pessoas que compareceram à última sessão da recém-fundada União do Templo Bahá'í, realizada em Chicago; e, finalmente, Sua ação exemplar levada a efeito ao unir pelos laços matrimoniais dois de Seus adeptos de nacionalidade diversas, um da raça branca e outro da raça negra - tudo isso deve ser levado em conta das notáveis realizações associadas com Sua visita à comunidade dos crentes americanos, realizações essas destinadas a pavimentar a estrada para a ereção de sua Casa de Adoração central, a fortificá-los para suportarem as provações que logo viriam, a cimentar-lhes a unidade, e a abençoar os começos daquela Ordem Administrativa que iriam logo iniciar e defender.

Não menos notáveis foram as atividades públicas de 'Abdu'l-Bahá por ocasião de Sua associação às multidões com que entrou em contato durante a excursão através do continente. Um relato completo das atividades diversas que ocuparam totalmente Seus dias durante nada menos de oito meses, estaria além do âmbito desta resenha. Basta dizer que somente na cidade de Nova York falou em público em varies lugares e realizou visitas formais a muitos outros, somando ao todo cinqüenta e cinco. Sociedades pacifistas, congregações cristãs e judaicas, colégios e universidades, organizações de assistência social e de caridade, membros de cultos éticos, centres de Novo Pensamento, grupos metafísicos, clubes femininos, associações cientificas, reuniões de esperantistas, teosofistas, mórmons e agnósticos, instituições para o progresso dos homens de cor, representantes das comunidades sírias, armênias, gregas, chinês as e japonesas - todos entraram em contato com Sua presença dinâmica e tiveram o privilegio de ouvir de Seus lábios a mensagem de Seu Pai. E nem tampouco tardou a imprensa, em Seus comentários editoriais, ou por meio da publicação de notícias sobre Suas conferências, a apreciar a largueza de Sua visão ou o caráter de Seu chamado.

Seu discurso nas Conferências de paz em Lake Mohonk; Suas preleções em grandes reuniões efetuadas nas Universidade de Columbia, Howard e N. York; Sua participação na quarta Conferência anual da Associação Nacional para o progresso dos Homens de Cor; Sua destemida assertiva da verdade das Missões proféticas tanto de Jesus Cristo como de Maomé no Templo Emmanu-El, sinagoga judaica de São Francisco, onde se achavam reunidas nada menos de duas mil pessoas; Seu luminoso discurso perante um auditório de mil e oitocentos estudantes e cento e oitenta professores e catedráticos na Universidade de Leland Stanford; Sua memorável visita à Missão Bowery nas favelas de Nova York; a brilhante recepção dada em Sua honra em Washington, na qual figuras proeminentes da vida social da capital lhe foram apresentadas - tudo isso se destaca como culminância da inesquecível Missão que Ele empreendeu ao serviço da Causa de Seu Pai. Ministros de Estado, Embaixadores, Congressistas, distintos rabinos, membros de igrejas, e outras pessoas de relevo chegaram à Sua presença, entre as quais se contavam personalidades como o Dr. D. S. Jordan, Presidente da Universidade de Leland Standford, o Professor Jackson da Universidade de Columbia, o Professor Jack da Universidade de Oxford, o Rabino Stephen Wise de Nova York, o Dr. Martin A. Meyer, os Rabinos Joseph L. Levy e Abram Simon, Alexander Graham Bell, Rabindranath Tagore, Sua Excia. Franklin K. Lane, a senhora William Jennings Bryan, Andrew Carnegie, Sua Excia. Franklin Mac Veagh, Ministro da Fazenda dos Estados Unidos, Lee Mc. Clung, Mr. Roosevelt, o Almirante Wain Wright, o Almirante Peary, os Ministros da Inglaterra, da Holanda e da Suíça em Washington, Yúsuf Díyá Páshá, Embaixador da Turquia naquela cidade, Thomas Seaton, William Sulzer e o Príncipe Muhammad-'Ali do Egito, irmão do Quediva.

"Quando 'Abdu'l-Bahá visitou este país pela primeira vez, em 1912", escreveu um comentarista de Suas viagens no continente americano, "encontrou um auditório numeroso e interessado que a esperava para cumprimentá-Lo pessoalmente e receber de Seus próprios lábios a mensagem espiritual e de amor... Transcendendo as palavras proferidas, havia algo de indescritível em Sua personalidade que impressionava profundamente todos quantos vinham até Sua presença. A cabeça em forma de zimbório, a barba patriarcal, os olhos que pareciam haver perscrutado para mais além do alcance do tempo e dos sentidos, a voz branda mas claramente penetrante , a humildade transparente, o amor infalível - porém acima de tudo, o senso de poder aliado com meiguice, que conferia a todo Seu ser uma rara majestade de exaltação espiritual, fator que ao mesmo tempo O destacava e O trazia para perto das almas mais humildes, - era tudo isso e muito mais, que nunca pode ser definido, o que legou aos Seus numerosos... amigos, recordações imperecíveis e inefavelmente preciosas."

Uma narrativa, embora inadequada, das variadas e imensas atividades de 'Abdu'l-Bahá em Sua excursão pela Europa e pela América, não pede deixar de mencionar alguns dos estranhos incidentes que freqüentes vezes resultavam do contato pessoal com Ele. A ousada determinação de certo jovem indômito, que, receando não poder 'Abdu'l-Bahá visitar os estados do oeste, e impossibilitado de pagar a passagem de trem para New England, viajara durante todo o percurso de Minneapolis a Maine deitado nos varrões de ferro entre as rodas de um trem; a transformação efetuada na vida do filho de um pastor rural na Inglaterra, que, em sua miséria e pobreza, resolvera, ao caminhar ao longo das margens do Tâmisa, pôr termo à sua existência, e que, à vista de uma fotografia de 'Abdu'l-Bahá colocada numa vitrina, quis saber sobre Ele, correu à Sua residência e ficou tão reanimado com Suas palavras de conforto e de encorajamento que abandonou quaisquer pensamentos de suicídio; a experiência extraordinária de uma senhora cuja filhinha, como resultado de um sonho que tivera, insistia em que Jesus Cristo estava no mundo, e que, ao ver o retrato de 'Abdu'l-Bahá exposta na montra de uma loja, identificou-o imediatamente como sendo o Jesus Cristo do Seu sonho - um ato que impeliu sua mãe, depois de ler que 'Abdu'lBahá estava em Paris, a tomar o primeiro navio para a Europa e apressar-se em chegar a Sua presença; a decisão do editor de um jornal impressa no Japão, de interromper em Constantinopla sua viagem a Tóquio e viajar para Londres só "pela alegria de passar uma tarde em Sua presença"; a cena tocante desenrolada ao receber 'Abdu'l-Bahá das mãos de um amigo persa, recém-vindo a Londres, procedente de Ishqábád, um lenço de algodão contendo um pedaço de pão negro ressequido e uma maça murcha - oferenda de um trabalhador bahá'í pobre daquela cidade - e abri-lo na presença dos hóspedes reunidos, não tocando em Seu almoço, partindo em pedaços aquele pão, que comeu e distribuiu entre os presentes - eis aí uns poucos dentre um sem número de incidentes que jorraram uma luz reveladora sobre alguns aspectos pessoais de Suas viagens memoráveis.

Nem poderiam jamais ser apagadas da memória certas cenas que giram em torno daquela Figura majestosa e patriarcal que se locomovia através das cidades da Europa e da América. A notável entrevista em que 'Abdu'l-Bahá com a mão afetuosamente colocada sobre a cabeça do Arquidiácono Wilberforce, respondia às suas numerosas perguntas, enquanto aquele distinto prelado estava sentado numa cadeira mais babes, a Seu lado; a cena ainda mais notável, na qual aquele mesmo Arquidiácono, após haver-se ajoelhado com toda a congregação para receber Sua bênção na Igreja de St. John the Divine, atravessou a nave em direção à sacristia, de mão dada com Seu Hóspede, enquanto um hino era entoado por todos os presentes, de pé; a visão de Jalálu'd-Dawlih, prostrado a Seus pés, desmanchando-se em desculpas e implorando-lhe o perdão por iniqüidades passadas; a recepção entusiástica que lhe foi tributada na Universidade de Leland Stanford, quando, diante dos olhares de cerca de dois mil professores e estudantes, Ele discorreu sobre algumas das mais nobres e básicas verdades contidas em Sua mensagem ao Ocidente; o espetáculo tocante na Missão Bowery, quando quatrocentos indigentes de Nova York desfilaram perante Ele, cada qual recebendo uma moeda de prata de Suas mãos abençoadas; a aclamação de uma mulher síria em Boston, que, abrindo caminho por entre a multidão que se ajuntara em torno Dele, atirou-se-Lhe aos pés, exclamando: "Confesso que em Ti reconheci o Espírito de Deus e do próprio Jesus Cristo"; o não menos férvido tributo de dois admiradores árabes, quando Ele ia deixar aquela cidade, em direção a Dublin, N.H., que se lançaram a Seus pés, e, soluçando alto, asseveraram que Ele era o próprio Mensageiro de Deus à humanidade; a vasta congregação de dais mil judeus reunidos numa sinagoga em São Francisco, escutando atentamente as Suas palavras, em que demonstrava a validade dos direitos que se arrogaram tanto Jesus Cristo como Maomé; a reunião realizada uma noite em Montreal, na qual Lhe caiu o turbante da cabeça, de arrebatado que estava pelo tema que abordava; a multidão turbulenta do quarteirão pobre de Paris, que, acalmada por Sua presença, lhe abriu alas, reverente e silenciosamente, quando voltava de uma palestra proferida perante a congregação de um estabelecimento de Missões; o gesto característico de um médico zoroastriano que, chegando depressa e esbaforido, na manhã da partida de Abdu'l-Bahá de Londres, para dar-Lhe as despedidas, untou com óleo aromático primeiramente Sua cabeça e Seu peito e depois, tocando as mãos de todos os presentes, colocou-Lhe em volta do pescoço e dos ombros uma grinalda de botões de rosa e lírios; a multidão de visitantes que chegava logo depois da aurora, esperando pacientemente nos degraus da porta de Sua casa em Cadogan Gardens, até que ela se abrisse para dar-lhes entrada; Sua figura majestosa enquanto pisava com passos firmes a estrada, ou parava, com as mãos levantadas, para pronunciar a benção, tanto na igreja como na sinagoga, e perante auditórios numerosos de ouvintes reverentes; as voluntárias demonstrações de respeito com que O acolhiam distintas senhoras da alta sociedade londrina, que se curvavam espontaneamente quando lhe eram apresentadas; a cena comovente que se desenrolou quando Ele se abaixou diante do túmulo do Seu discípulo bem-amado, Thornton Chase, no Cemitério de Inglewood, e beijou a pedra sepulcral, exemplo esse que foi apressadamente seguido por todos os presentes; a distinta reunião de cristãos, judeus, e muçulmanos, homens e mulheres, representando tanto o Oriente como o Ocidente, unidos na mesquita de Woking para ouvir Seu discurso sobre a unidade mundial - cenas como essas, mesmo no registro frio da página impressa, Binda guardam muito do caráter impressionante e cia força original.

Quem poderá perscrutar os pensamentos que inundaram o coração de 'Abdu'l-Bahá, ao sentir-se a figura central de cenas tão memoráveis quais as descritas? Quem poderá saber quais os pensamentos que Lhe dominavam a mente ao sentar-se ao lado do Prefeito de Londres para um almoço, ou quando era recebido com extraordinária deferência pelo próprio Quediva em seu palácio, ou quando escutava as aclamações de "Alláh'u'Abhá" e os hinos de ação de graças e de louvor que anunciavam Sua aproximação aos numerosos e brilhantes grupos de adeptos entusiastas e de amigos, organizados em tantas cidades do continente americano? Quem poderá saber quais as recordações que se agitavam dentro Dele, quando se defrontou com as águas tonitruantes do Niágara, respirando o ar de liberdade de uma terra bem distante, ou contemplou, por ocasião de um breve e multo oportuno descanso, os campos verdes de Glenwood Springs, ou se locomovia com um séqüito de crentes orientais pelos caminhos dos jardins do Trocadero em Paris, ou quando, ao anoitecer, passeava sozinho ao longo do majestoso Hudson em Riverside Drive em Nova York, ou andava pelo terraço do Hotel Du Parc em Thonon-les-Bains, tendo vista para o Lago de Genebra, ou quando apreciava, de Serpentine Bridge em Londres, a corrente perolada de luzes por baixo das árvores, estendendo.se até onde o olhar podia abarcar? Recordações dos sofrimentos, da pobreza, das calamidades que sempre ameaçaram Seus primeiros anos; recordações de Sua mãe, que vendeu seus botões de ouro para prover ao sustento d'Ele e dos irmãos, e que foi forçada, nos momentos mais atrozes, a colocar um punhado de farinha seca na palma de Sua mão para mitigar-Lhe a fome; recordações da infância, quando era perseguido e ridicularizado por um banda de brutos nas ruas de Teerã; do quarto úmido e sombrio, que anteriormente servira de necrotério, ocupado por Ele, quando detido no quartel de 'Akká, e do encarceramento na masmorra daquela cidade - recordações como estas, por certo, Lhe povoaram a mente. Devem ter-Lhe ocorrido, também, pensamentos relacionados com o cativeiro do Báb nos redutos montanhosos do Azerbaidjan, quando à noite lhe era negada uma simples lâmpada, como também a lembrança de Sua execução cruel e trágica, quando centenas de balas Lhe crivaram o peito juvenil. Acima de tudo devem Seus pensamentos ter-se centralizado em Bahá'u'lláh, a Quem amava tão apaixonadamente. Cujas provações presenciara e Cujos sofrimentos compartilhava desde a meninice. O Siyáh-Chál de Teerã, infestado de bichos repugnantes; a bastonada que Lhe infligiram em Amul; a humilde comida que enchia Seu kashkúl quando vivia como um derviche nas montanhas do Curdistão; os dias em Bagdá, quando não possuía uma muda de roupa sequer, e Seus discípulos se alimentavam com um punhado de tâmaras; o encarceramento dentro dos muros de 'Akká, onde por nove anos lhe foi negada até a vista da vegetação; e a humilhação pública a que foi submetido na sede do governo daquela cidade - quadros como esses, pertencentes a um passado trágico, devem tê-Lo freqüentemente tornado presa de sentimentos que eram um misto de gratidão e de pesar, ao testemunhar as inúmeras demonstrações de respeito, de estima, e as honrarias que Lhe eram agora prodigalizadas e que eram também proporcionadas a Fé que Ele representava. "Oh! Bahá'u'lláh! Que fizeste Tu?" - ouviu-se-Lhe exclamar certa tarde, quando era conduzido rapidamente para atender ao terceiro compromisso daquele dia, em Washington, segundo relatou o cronista de Suas viagens, "Oh! Bahá'u'lláh! Que a minha vida seja sacrificada por Ti! Oh! Bahá'u'lláh! Que minha alma seja oferecida por Teu amor! Quão prenhes de provações e tribulações foram Teus dias! Quão rigorosos os sacrifícios por que passaste! Quão sólidos os alicerces que lançaste finalmente e quão glorioso o estandarte que levantaste!" "Certo dia, quando Ele passeava", testificou o mesmo cronista, "evocou os dias da Beleza Abençoada, referindo-se com tristeza à Sua estada em Sulaymániyyih, a Sua solidão e às injustiças que Lhe fizeram. Embora tivesse relembrado muitas vezes esse episódio, a emoção dominou-O tanto naquele dia, que soluçou de maneira audível, em Seu pesar... Todos que o acompanhavam choraram com Ele e ficaram imersos em tristeza quando ouviram o relato das provações funestas porque passou a Beleza Antiga, e testemunharam a meiguice de coração que Seu filho demonstrou."

Uma cena de extraordinária significação fora representada, num drama secular. Escrevera-se um capítulo glorioso da história do primeiro século bahá'í. Sementes de potencialidades nunca antes sonhadas foram semeadas, pela mão do Centro do Convênio em pessoa, em alguns dos campos férteis do mundo ocidental. Nunca, durante todo o tempo abrangido pela história das religiões, surgira uma Figura de tal envergadura, que executasse uma obra de tal grandeza e tão imperecível valor. Desataram-se forças em conseqüência dessas jornadas momentosas que, mesmo agora, após quase trinta e cinco anos, somos incapazes de medir ou compreender. Já uma rainha, inspirada pelos poderosos argumentos apresentados por Abdu'l-Bahá, por ocasião de Suas conferências em apoio da Divindade de Maomé, proclamou sua fé e testemunhou publicamente a origem Divina do Profeta do Islã. Ja um presidente dos Estados Unidos, assimilando alguns dos princípios tão claramente enunciados por Ele em Seus discursos, incorporou-os num Programa de Paz que se destaca como a proposta mais ousada e mais nobre jamais feita para o bem-estar e a segurança da humanidade. E ja, ai! um mundo que tapou os ouvidos àas Suas advertências e recusou-se atender a Seus apelos, mergulhou-se em duas guerras globais de severidade sem precedentes, de cujas repercussões ninguém pode por ora formar sequer uma vaga idéia do que seja.

Capítulo XX
CRESCIMENTO E EXPANSÃO DA FÉ NO
ORIENTE E OCIDENTE

As viagens históricas de Abdu'l-Bahá ao Ocidente e, em especial, Sua jornada de oito meses pelos Estados Unidos da América, assinalaram - pode-se dizer - a culminância de Seu ministério - um ministério cujas inefáveis bênçãos e estupendas realizações somente futuras gerações poderão avaliar de um modo adequado. Assim como o sol da Revelação de Bahá'u'lláh resplandecera em seu fulgor meridiano na hora da proclamação de Sua Mensagem aos governantes da terra - na cidade de Adrianópolis igualmente o Orbe de Seu Convênio subiu ao zênite de difundiu seus raios mais brilhantes quando Aquele que era seu Centro designado se levantou a fim de proclamar entre os povos do Ocidente a glória e a grandeza da Fé de Seu Pai.

Logo de início, esse Convênio divinamente instituído havia demonstrado, além da menor sombra de dúvida, sua força invencível, com seu triunfo decisivo sobre as forças escuras que o arquiviolador, com tanta determinação, contra essa instituição divina dispusera. Seu poder ativador fora proclamado, pouco depois, através das vitórias insignes que seus porta-tochas tão rápida e corajosamente ganharam nas longínquas cidades da Europa Ocidental e dos Estados Unidos da América. Suas elevadas pretensões, além disso, haviam sido plenamente vindicadas, graças à sua capacidade para salvaguardar a unidade e a integridade da Fé, tanto no Oriente como no Ocidente. Ainda maior prova do indomável poder do Convênio fora dada, subseqüentemente, com a memorável vitória assinalada pela queda do Sultão 'Abdu'l-Hamíd, e a conseqüente libertação Daquele designado - o Centro desse Convênio, após um cativeiro de quarenta anos. Para aqueles ainda inclinados a duvidar de sua origem Divina, dera ainda outro testemunho indisputável de sua solidez, a possibilitar a 'Abdu'l-Bahá - a despeita de formidáveis obstáculos - efetivar o traslado dos restos mortais do Báb e sua inumação final em um mausoléu no Monte Carmelo. Também foram manifestadas, diante de toda a humanidade -com uma força sem precedentes e em uma medida jamais igualada - suas vastas potencialidades, quando Aquele em Quem estavam entesourados seu espírito e seu propósito foi capacitado a embarcar em uma missão mundo ocidental, de três anos de duração - uma missão tão momentosa que merece ser considerada a maior façanha associada com seu ministério.

Nem foram esses, por mais preeminentes que fossem, os únicos frutos colhidos através dos incansáveis esforços tão heroicamente exercidos pelo Centro desse Convênio. O progresso e a expansão da Fé de Seu Pai no Oriente; o início de atividades e empreendimentes que assinalam, podemos dizer, os começos de uma futura Ordem Administrativa; a ereção, na cidade de Ishqábád, no Turquestão Russo, do primeiro Mashriqu'l-Adhkár do mundo bahá'í; a expansão da literatura bahá'í; a revelação das Epístolas do Plano Divino; e a introdução da Fé no continente da Austrália - estas podem ser consideradas as mais notáveis realizações que embelezaram a brilhante história do ministério impar de 'Abdu'l-Bahá.

Na Pérsia, berço da Fé, apesar das perseguições que com implacável violência persistiram durante todos os anos desse ministério, se podia discernir claramente uma mudança impressionante, que assinalava estar uma comunidade proscrita emergindo gradativamente de sua existência até então clandestina. Quatro anos após a ascensão de Bahá'u'lláh, Násiri'd-Din Sháh, na véspera de seu jubileu - que fora planejado para marcar o início de uma nova etapa na história de seu país - foi vítima de um assassino, de nome Mirzá Rida, um seguidor do notório Siyyid Jamálu'd-Dín-i-Afghání, um inimigo da Fé e um dos que deram início ao movimento constitucional, o qual, à medida que adquiria impulso - durante o reinado de Muzaffari'd-Dín, filho e sucessor do Xá - estava destinado a envolver em ainda mais dificuldades uma comunidade já assediada e perseguida. Até o assassinato do Xá fora, de início, atribuído a essa comunidade, assim como evidencia a marta cruel sofrida, imediatamente após o assassínio do soberano, do célebre professor e poeta Mirzá 'Ali-Muhammad - apelidado "Vargá" (Pombo) por Bahá'u'lláh - que, junto com seu filho de doze anos, Rúhu'lláh, foi desumanamente assassinado na prisão de Teerã, pelo brutal Hájibú'd-Dawlih, sendo apunhalado no abdômen e depois cortado em pedaços, à vista do filho. O assassino então pediu ao menino para retratar-se e, quando este recusou terminantemente, o estrangulou com uma corda.

Três anos antes, foi morto a tiros, em Yazd, um jovem chamado Muhammad-Ridáy-i-Yazdí, na noite de seu casamento, enquanto ia do banho publico à sua casa, sendo ele o primeiro a sofrer martírio durante o ministério de 'Abdu'l-Bahá. Em Turbat-i-Haydaríiyyih, em conseqüência do assassínio do Xá, cinco pessoas, conhecidas como os Shuha-dáy-i-Khamsih (Cinco Mártires) foram mortas. Em Mashhad, um comerciante muito conhecido, Hájí Muhammad-i-Tabrízí, foi assassinado, e seu corpo foi queimado. O novo soberano e seu Grão- Vizír, o inescrupuloso e reacionário Mirzá 'Alí-Asghar Khán, o Atábik-i-A'zam, concederam uma entrevista a dois seguidores representativos da Fé em Paris (1902), mas isso não produziu nenhum resultado real. Pelo contrário, uma nova tempestade de perseguições irrompeu poucos anos depois e, à medida que o movimento constitucional se desenvolvia nesse país, as perseguições tornavam-se cada vez mais violentas, em conseqüência das infundadas acusações feitas contra os bahá'ís, por reacionários que os denunciavam publicamente como promotores e inspiradares da causa nacionalista.

Em Isfáhán despiram um certo Muhammad-Javád e açoitaram-no severamente com chicote de aramas trançados, enquanto em Káshán adeptos da Fé que eram de origem judaica foram multados, chicoteados e acorrentados, a instigação tanto do clero maometana como dos doutores judeus. Foi em Yazd, porém, e seus arredores, que ocorreram os mais sangrentos ultrajes cometidos durante o ministério de 'Abdu'l-Bahá. Nessa cidade, Hájí Mirzáy-i-Halabí-Sáz foi tão impiedosamente açoitado que sua esposa se jogou em cima de seu corpo e foi por sua vez chicoteada severamente. Depois disso laceraram o crânio dele com um cutelo de açougueiro, e chicotearam desumanamente seu filho de onze anos, apunhalando-o, então, com canivetes e torturando-o até a morte. No espaço de meio dia, nove pessoas encontraram a morte. Uma multidão de cerca de seis mil pessoas, de ambos os sexos, desenfrearam sua furía sobre as vítimas indefesas, chegando algumas ao extremo de lhes beber o sangue. Em alguns casos, como no de um homem chamado Mirzá Asadu'lláh-i-Sabbágh, lhes saquearam as propriedades e lutaram entre si por se apoderarem delas. Tão grande crueldade mostraram, que alguns dos oficiais do governo ficaram comovidos a ponto de verter lágrimas, ao testemunharem as cenas horripilantes, nas quais as mulheres daquela cidade, de um modo conspicuamente vergonhoso, tomaram parte.

Em Taft, foram mortas várias pessoas, sendo algumas fuziladas, depois do que foram arrastados pelas ruas seus corpos. Um jovem de dezoito anos, de nome Husayn, recém-convertido, foi denunciado pelo próprio pai e despedaçado ante os olhos de sua mãe, enquanto Muhammad-Kamál foi esmigalhado com faca, pá e picareta. Em Manshád, onde as perseguições duraram dezenove dias, foram perpetradas atrocidades semelhantes. Um homem de oitenta anos, chamado Siyyid Mirzá, foi morto instantaneamente, enquanto dormia, por duas enormes pedras que foram sobre ele jogadas. Um certo Mirzá Sadiq, ao pedir água, recebeu uma punhalada no peito, depois do que seu algoz lambeu o sangue da lâmina, enquanto se viu Shátir-Hasan, uma das vítimas, repartir entre os algozes, antes de morrer, alguns doces que tinha, e entre eles distribuir suas roupas. Uma mulher de sessenta e cinco anos, Khadíjih-Sultán, foi arremessada do telhado de uma casa; um crente, de nome Mirzá Muhammad, foi amarrado a uma árvore, onde o fizeram alvo de centenas de balas e lhe incendiaram o corpo, enquanto se viu outro, chamado Ustád Ridáy-i-Saffár, beijar a mão do assassino, depois do que o balearam, cobrindo seu cadáver de insultos.

Em Banáduh, em Dih-Balá, em Farásháh, em 'Abbás'Ábad, em Hangá, em Ardikán, em Dawlat-Ábád e em Hamadán, foram cometidos crimes de natureza similar, destacando-se o caso de uma mulher muito respeitada e de grande coragem, chamada Fátimih-Bagum, que foi arrastada ignominiosamente de sua casa, sendo-lhe arrancado da cabeça o véu, lacerada a garganta e destripado o abdômen; e finalmente, após haver sido açoitada pela turba selvagem, com toda espécie de arma a seu dispor, foi ela suspensa de uma árvore e entregue as chamas.

Em Sárí, nos dias em que chegava ao clímax a agitação por conseguir a constituição, foram mortos cinco crentes de reconhecida posição, conhecidos subseqüentemente como o Shuhadáy-i-Khamsih (Cinco Mártires) enquanto em Nayríz um assalto feroz, fazendo lembrar o de Yazd, foi lançado pelo inimigo, durante o qual dezenove pessoas perderam a vida entre elas Mullá 'Abdu'l-Hamíd, um cego de sessenta e cinco anos, em quem atiraram e abusaram atrozmente do corpo - e durante o qual, também, foi saqueada uma quantidade considerável de propriedades e numerosas mulheres e crianças tiveram que fugir para salvar suas vidas, ou buscar refúgio em mesquitas, ou viver nas ruínas de suas casas, ou ficar na estrada sem abrigo algum.

Em Sírgán, em Dúgh-Ábád, em Tabríz, em Ávih, em Qum, em Najaf-Ábád, em Sangsar, em Shahmírzád em Isfáhán e em Jahrum, inimigos temíveis e implacáveis, tanto religiosos como políticos, sob vários pretextos - mesmo depois de haver o Xá assinado, em 1906, a Constituição, e durante o reinado de seus sucessores, Muhammad-'Alí-Sháh e Ahmad Sháh - continuaram a trucidar, a torturar, saquear e abusar dos membros de uma comunidade que resolutamente negavam retratar-se e nem por um fio desviar-se do caminho que lhes fora marcado por seus líderes. Mesmo durante as viagens de 'Abdu'l-Bahá ao Ocidente e depois de Seu regresso à Terra Santa e, de fato, até o fim de Sua vida, continuou Ele a receber angustiantes notícias do martírio de Seus seguidores e dos ultrajes contra eles perpetrados por um inimigo insaciável. Em Dawlat-Abád, um príncipe de sangue real, de nome Habíbu'lláh Mirzá - que fora convertido a Fé e consagrara a vida a seu serviço - foi morto a golpes de machado, sendo o cadáver entregue as chamas. Em Mashhad, fuzilaram o erudito e piedoso 'Alí-Akbar-i-Qúchání. Em Sultán-Abád, Mirzá 'Alí-Akbar e sete membros de sua família, inclusive uma criancinha de quarenta dias de nascida, foram barbaramente massacrados. Perseguições de graus variados de severidade irromperam em Ná'ín, em Shahmírzád, em Bandar-i-Jaz e em Qamsar. Em Kirmánsháh, o mártir Mirzá Ya'qúb-i-Muttahidih, jovem judeu de vinte e cinco anos de idade, fervoroso convertido a Fé, foi o ultimo a sacrificar a vida durante o ministério de 'Abdu'l-Bahá, e sua mãe, com fortaleza exemplar, de acordo com as instruções que ele mesmo lhe dera, comemorou seu martírio em Hamadan. Em todos os casos a conduta dos crentes atestava o indomável espírito e a tenacidade inquebrantável que continuaram a distinguir as vidas e os serviços dos seguidores persas da Fé de Bahá'u'lláh.

A despeito dessas severas perseguições intermitentes, a Fé que em Seus heróis evocara tão raro espírito de sacrifício crescia silenciosa mas constantemente. Engolfada por algum tempo, e quase extinguida nos dias sombrios que seguiram o martírio do Báb, forçada a tornar-se clandestina por todo o período do ministério de Bahá'u'lláh, essa Fé, após Sua ascensão guiada infalivelmente por um Mestre sábio, vigilante e amoroso, e graças a Sua constante solicitude - começou a reunir suas forças e a erigir gradualmente as instituições embrionárias destinadas a pavimentar o caminho para o estabelecimento, em período posterior, de sua Ordem Administrativa. Foi durante esse pérfido que o número de Seus adeptos rapidamente se multiplicou, que seu âmbito, abarcando agora todas as províncias do reino, se ampliava continuamente, e que foram inauguradas as formas rudimentares de suas futuras Assembléias. Foi durante esse período - num tempo em que praticamente não existiam nesse país escolas e faculdades estaduais, e a educação dada nas existentes instituições religiosas era lamentavelmente defeituosa - que se estabeleceram as primeiras escolas, começando com as de Tarbíyat, escolas em Teerã tanto para meninas como para meninos, e seguidas pelas escolas de Ta'yíd e Mawhibat em Hamadán, a escola de Vahdat-i-Bashar em Káshán e outras instituições educacionais semelhantes em Bárfarúsh e Qazvín. Foi durante esses anos que pela primeira vez se deu à comunidade bahá'í desse país auxílio concreto e efetivo, tanto material como espiritual, na forma de professores visitantes procedentes tanto da Europa como da América, de enfermeiras, instrutores e médicos, constituindo a vanguarda daquela hoste de ajudantes que, segundo a promessa de 'Abdu'l-Bahá, haveria de se levantar, com o tempo, para promover os interesses da Fé, bem como os do país em que essa Fé nasceu. Foi no transcurso desses anos que o termo babí, como nome, designando os seguidores de Bahá'u'lláh nesse país, foi substituído universalmente pela palavra bahá'í, vindo o primeiro termo a ser aplicado, dali por diante, exclusivamente aos seguidores de Mirzá Yahyá, cujo número rapidamente decresceu. Durante esse período, além disso, se fizeram as primeiras tentativas sistemáticas para organizar e estimular o trabalho de ensino empreendido pelos crentes persas - tentativas que, além de reforçarem os fundamentos da comunidade, foram os meios de atrair para sua causa várias figuras notáveis na vida pública do país, inclusive certos membros proeminentes da ordem sacerdotal xiita, e até descendentes de alguns dos piores perseguidores da Fé. Foi durante os anos desse ministério que a Casa do Báb em Shiráz - ordenada por Bahá'u'lláh como centro de peregrinação para Seus seguidores e atualmente reconhecida como tal - foi restaurada, por ordem de 'Abdu'l-Bahá e com Seu auxílio, e se tornou, cada vez mais, um foco de vida e atividades bahá'ís para aqueles que as circunstâncias não permitiam visitar a Casa de Suma Grandeza em Bagdá ou o Mais Sagrado Túmulo em 'Akká.

Mais notável, porém, do que qualquer desses empreendimentos, foi a ereção, na cidade de Ishqábád, do primeiro Mashriqu'l-Adhkár do mundo bahá'í, centro esse fundado nos dias de Bahá'u'lláh - já durante Sua vida havendo sido dados os passos iniciais preparatórios para sua construção. Esse empreendimento, começado perto do fim da primeira década do ministério de 'Abdu'l-Bahá (1902) e por Ele fomentado a cada etapa de seu desenvolvimento, deve figurar não só como o primeiro de grande vulto a ser lançado através dos esforços em conjunto de Seus seguidores na Época Heróica de Sua Fé, mas também como uma das mais brilhantes e mais duráveis realizações na história do primeiro século bahá'í. Foi supervisionado pessoalmente pelo venerável Hájí Mirza Muhammad-Taqí, o Vakílu'd-Dawlih, primo do Báb, cujos recursos inteiros foram dedicados a seu estabelecimento, e cujos restos mortais repousam agora ao pé do Monte Carmelo, a sombra do Túmulo de seu bem-amado Parente. Foi levado a cabo de acordo com as instruções especificadas pelo próprio Centro do Convênio. É um testemunho duradouro do Fervor e do sacrifício dos crentes orientais, que estavam resolvidos a executar o que Bahá'u'lláh ordenara, segundo revelado no Kitáb-i-Aqdas.

O próprio edifício - cuja pedra angular foi lançada na presença do General Krupatkim, governador-general do Turquestão, delegado pelo Czar para representá-lo na cerimônia - foi descrito assim minuciosamente por um visitante bahá'í do Ocidente: "o Mashriqu'l-Adhkár está situado no coração da cidade; sua elevada cúpula salienta-se por uma das árvores e dos telhados das casas, e pode ser vista desde muitas milhas pelos viajantes, a medida que se aproximam da cidade. Fica no centro de um jardim limitado por quatro ruas. Nas quatro esquinas desse recinto há quatro edifícios: um é a escola bahá'í; um é a casa do viajante, onde se hospedam peregrinos e outros em viagem; um é para os zeladores, enquanto o quarto será usado como um hospital. Nove avenidas radiais dão acesso ao Templo das várias partes do terreno, uma das quais, o acesso principal, conduz do portão central do terreno, ao portal principal do Templo."

"Segundo seu plano", acrescenta ele ainda, "o edifício e composto de três partes; a saber, a rotunda central, a galeria ou ambulatório que a circunda, e a arcada que rodeia o edifício inteiro. É construído na forma de um polígono regular de nove lados. Um lado esta ocupado pela imponente entrada principal, flanqueada por minaretes - um elevado pórtico com área que se levanta a altura de dois andares, fazendo lembrar, em sua estrutura, a arquitetura do Taj Mahal, de fama mundial, em Agra, na Índia - o deleite do mundo para os viajantes, muitos dos quais o pronunciam o mais belo templo do mundo. Assim, a porta principal abre em direção a Terra Santa. O edifício inteiro esta circundado por duas séries de arcadas - uma superior e uma inferior - as quais se abrem sobre um jardim, dando um efeito arquitetônico muito belo, em harmonia com a luxuriante vegetação semitropical que cobre o jardim... As paredes interiores da rotunda se dispõem em cinco andares distintos. Primeiro, uma série de nove arcos e colunas que separam a rotunda do ambulatório. Segundo, uma disposição similar com balaustradas que separam do poço da rotunda (situado acima do ambulatório com acesso por meio de duas escadas nas arcadas, uma de cada lado da entrada principal). Terceiro, uma série de nove arcos ornados de gregas, entre os quais há escudos que levam o Maior Nome. Quarto, uma série de nove grandes janelas com arcos. Quinto, uma série de dezoito clarabóias. Por cima e descansando em uma cornija que é posta sobre esse último andar, se ergue o esqueleto hemisférico da cúpula. O interior esta primorosamente decorado com relevo de gesso. Toda a estrutura impressiona com sua solidez e força".

Não devemos deixar de mencionar as duas escolas para meninos e meninas que se estabeleceram nessa cidade, a casa de peregrinos instituída nas cercanias do Templo, a Assembléia Espiritual e seus corpos auxiliares formados com o fim de administrar os centros de atividade inaugurados em várias cidades grandes e pequenas, no Turquestão - tudo isso dando testemunho da vitalidade que a Fé havia sempre mostrado, desde seu início, naquela terra.

Podia-se observar no Cáucaso um desenvolvimento paralelo, se bem que menos espetacular. Depois de se haver estabelecido o primeiro centro e formado uma assembléia em Baku - cidade essa invariavelmente visitada por peregrines bahá'ís que em sempre crescente número viajavam da Pérsia à Terra Santa via Turquia - novos grupos começaram a ser organizados e, evoluindo subseqüentemente em comunidades bem estabelecidas, cooperavam, cada vez mais, com seus irmãos tanto no Turquestão como na Pérsia.

No Egito, um constante aumento no número de adeptos da Fé foi acompanhado por uma expansão geral em suas atividades. O estabelecimento de novos centros; a consolidação do centro principal que se estabelecera no Cairo; e, especialmente através dos incansáveis esforços do erudito Mirzá Abu'l-Fadl, a conversão de vários proeminentes estudantes e professores da Universidade de Azhar, sendo estes alguns sintomas que prognosticavam o advento do dia prometido quando, segundo 'Abdu'l-Bahá, o estandarte e emblema da Fé seriam implantados no coração dessa venerável sede islâmica de erudição; a tradução para o árabe e a disseminação de alguns dos mais importantes escritos de Bahá'u'lláh revelados em persa, juntamente com outra literatura bahá'í; a impressão de livros, tratados e panfletos por autores e eruditos bahá'ís; a publicação na imprensa de artigos escritos em defesa da Fé e com o fim de difundir sua mensagem; a formação de instituições administrativas rudimentares, na capital bem como em centros circunvizinhos; o enriquecimento da vida da comunidade com a entrada de novos adeptos de origem curda, cóptica e armênia - tudo isso pode ser considerado o primeiro fruto colhido em um país que, abençoado pelas pegadas de 'Abdu'l-Bahá, haveria de desempenhar, em anos subseqüentes, um papel histórico na emancipação da Fé, e que, em virtude de sua posição impar como o centro intelectual tanto do mundo árabe como do islâmico, deve, inevitavelmente, assumir uma parte notável e decisiva da responsabilidade pelo estabelecimento final dessa Fé em todo o Oriente.

Ainda mais extraordinária foi a expansão da atividade bahá'í na Índia e na Birmânia, ou de uma comunidade sempre crescente - que entre seus membros incluía agora representantes das religiões zoroastriana, islâmica, hindu e budista, como também membros da comunidade sikh - conseguiu estabelecer seus pastas avançados até Mandalay e a aldeia de Daidamaw-Kalazoo, no distrito Hanthawaddy da Birmânia, onde residiam nada menos de oitocentos bahá'ís, que possuíam uma escola, uma corte e um hospital próprios, bem como terra para cultivo comunitário, cujos rendimentos eles dedicavam a promoção dos interesses de sua Fé.

No Iraque, onde a Casa ocupada por Bahá'u'lláh foi totalmente restaurada e renovada, e onde uma comunidade pequena, porém intrépida, enfrentava constante oposição, em sua luta por regular e administrar seus assuntos; em Constantinopla, onde se inaugurou um centro bahá'í; na Tunísia, onde os alicerces de uma comunidade local foram finalmente estabelecidos; no Japão, na China e em Honolulu, para onde viajavam instrutores bahá'ís e onde permaneciam e ensinavam - em todos esses lugares se podia perceber claramente as múltiplas evidencias da mão de 'Abdu'l-Bahá, em tudo guiando, e os efeitos tangíveis de Seu infatigável desvelo e Seu cuidado infalível.

Tampouco as comunidades nascentes na França, na Inglaterra, na Alemanha e nos Estados Unidos, deixaram de receber, após Suas memoráveis visitas a esses países, mais sinais de Sua solicitude e Seu especial interesse em lhes promover o bem-estar e o progresso espiritual. Foi em conseqüência de Suas instruções e do incessante fluxo de Suas Epístolas, dirigidas aos membros dessas comunidades - bem como de Seu constante estímulo aos esforços por eles envidados que centros bahá'ís se multiplicavam constantemente, que reuniões públicas eram organizadas, novos periódicos eram publicados, que traduções de algumas das mais conhecidas obras de Bahá'u'lláh e das Epístolas de 'Abdu'l-Bahá foram impressas e distribuídas, nos idiomas inglês, francês e alemão, e que se fizeram as tentativas iniciais para organizar os assuntos dessas recém-estabelecidas comunidades e lhes consolidar os alicerces.

No continente norte-americano, em especial, os membros de uma comunidade florescente, inspirados pelas bênçãos que 'Abdu'l-Bahá lhes conferira, bem como por Seu exemplo e pelos atos por Ele levados a cabo durante Sua prolongada visita a esse país, deram sinal do magnífico empreendimento que haveriam de realizar em anos posteriores. Adquiriram os doze lotes restantes que formavam parte do local do templo planejado e, durante as sessões de sua Convenção de 1920, escolheram o desenho do arquiteto bahá'í franco-canadense, Louis Bourgeois, sendo feito, então, o contrato para a escavação e a colocação dos alicerces, e, pouco depois, conseguiram completar os necessários preparativos para a construção do andar subterrâneo. Todas essas providências eram o prenúncio dos estupendos esforços que, após a ascensão de 'Abdu'l-Bahá, culminaram na ereção da super-estrutura e no término da ornamentação exterior.

A guerra de 1914-1918 que fora repetidamente prognosticada por 'Abdu'l-Bahá nas lúgubres advertências por Ele pronunciadas durante Suas viagens ocidentais, e que irrompeu oito meses após Seu regresso à Terra Santa, lançou mais uma vez, sobre Sua vida, uma sombra de perigo, a última que iria obscurecer os anos de Seu agitado mas glorioso ministério.

Por causa da tardia entrada dos Estados Unidos da América nesse conflito que convulsionou o mundo, e, em conseqüência da neutralidade da Pérsia e do fato de serem a Índia e o Oriente tão longe do teatro de operações, foi assegurada a proteção da grande maioria de Seus seguidores, os quais, se bem que pela maior parte privados, por alguns deles, de todos os meios de comunicação com o centro espiritual de sua Fé, puderam, no entanto, levar avante Suas atividades e salvaguardar os frutos de suas recentes realizações, em relativa segurança e liberdade.

Na Terra Santa, entretanto, embora como resultado dessa luta tremenda o Coração e Centro da Fé fosse libertado, uma vez por todas, do jugo turco - jugo esse que por tanto tempo impusera ao Fundador e a Seu Sucessor restrições tão opressivas e humilhantes ainda, durante a maior parte desse conflito, severas privações e graves perigos continuaram a assediar os habitantes, renovando, por algum tempo, as perigos com os quais 'Abdu'l-Bahá se defrontara nos anos de Seu encarceramento em 'Akká. Os rigores de um bloqueio estrito agravaram as privações sofridas pelos habitantes por causa da flagrante incompetência, do descuido vergonhoso, da crueldade e da empedemida indiferença das autoridades, tanto civis como militares, embora seu sofrimento fosse mitigado graças a extrema generosidade, a previsão e ao terno cuidado de 'Abdu'l-Bahá. O bombardeio de Haifa pelos aliados era uma ameaça constante, parecendo, em uma ocasião, ser tão iminente sua realização que justificou o traslado temporário de 'Abdu'l-Bahá, Sua família e membros da comunidade local para a aldeia de Abú-Sinán, ao pé das colinas a leste de 'Akká. o comandante-chefe turco, o brutal, onipotente, inescrupuloso Jamál Pashá, inimigo inveterado da Fé, levado por Suas próprias infundadas suspeitas, como também instigado pelos inimigos da Fé, já causara a 'Abdu'l-Bahá penosa aflição, havendo até expressado sua intenção de crucifica-Lo e de arrasar o Túmulo de Bahá'u'lláh. 'Abdu'l-Bahá ainda sofria de saúde delicada e esgotamento em conseqüência da fadiga de suas viagens de três anos. Ele sentia agudamente a interrupção, praticamente total, na comunicação com a maioria dos centres bahá'ís no mundo inteiro. Angústia lhe enchia a alma diante do espetáculo de carnificina humana, precipitada por culpa da humanidade, por haver ela deixado de responder ao chamado por Ele emitido ou de atender as advertências que Ele lhe dera. Seguramente, tristeza após tristeza foi acrescentada a carga de provações e vicissitudes que Ele, desde o tempo de menino, havia tão heroicamente suportado por amor à Causa de Seu Pai e em seu serviço.

E contudo, durante esses dias sombrios, cuja escuridão fazia lembrar as tribulações sofridas durante o período mais perigoso de Seu encarceramento na fortaleza-prisão de 'Akká, 'Abdu'l-Bahá - enquanto no recinto do Santuário de Seu Pai, ou quando residia na Casa por Ele ocupada em 'Akká, ou a sombra do Sepulcro do Báb no Monte Carmelo - se sentiu impelido a conferir a comunidade de Seus seguidores americanos, ainda outra e pela última vez em Sua vida, um sinal notável de Seu especial favor, na véspera do término de Seu ministério terreno, ao investi-los - através da revelação das Epístolas do Plano Divino de uma missão mundial, cujas plenas implicações ainda permanecem desconhecidas, mesmo após o transcurso de um quarto de século, mas cujo desenvolvimento até agora, apesar de estar apenas na etapa inicial, já muito enriqueceu os anais administrativos, bem como os espirituais, do primeiro século bahá'í.

A conclusão desse terrível conflito - primeira etapa em uma convulsão titânica, desde tanto tempo predita por Bahá'u'lláh - não somente assinala a extinção do governo turco na Terra Santa e selou o fim daquele déspota militar que havia jurado destruir 'Abdu'l-Bahá, como também destruiu, de uma vez para sempre, as últimas esperanças ainda nutridas pelo remanescente dos violadores do Convênio que, não tendo aprendido com as severas retribuições que já os haviam atingido, ainda aspiravam a testemunhar a extinção da luz do Convênio de Bahá'u'lláh. E causou, além disso, aquelas mudanças revolucionárias que, por um lado, cumpriram as sinistras predições feitas por Bahá'u'lláh no Kitáb-i-Aqdas e permitiram que, segundo a profecia das Escrituras, tão grande elemento dos "proscritos do Israel" o "remanescente" do "rebanho" se "reunisse" na Terra Santa - sendo trazido de volta a "seus apriscos" e a "sua própria fronteira", a sombra do "Ramo Incomparável" ao qual 'Abdu'l-Bahá se referiu em Sua obra "Respostas a Algumas Perguntas" - e que, por outro lado, deram início a instituição da Liga das Nações, a precursora daquele Tribunal Mundial que os povos e nações da terra, de comum acordo, deverão necessariamente estabelecer, assim como foi profetizado por esse "Ramo Incomparável."

Desnecessário e estender-nos sobre as enérgicas medidas tomadas pelos crentes ingleses para assegurar a proteção da vida de 'Abdu'l-Bahá, ao saberem do grande perigo que a ameaçava, e sobre as medidas tomadas independentemente mediante as quais Lord Curzon e outros do Gabinete Britânico foram avisados da situação crítica em Haifa. Basta mencionarmos a intervenção imediata de Lord Lamington, que sem demora, escreveu ao Foreign Office para "explicar a importância da posição de 'Abdu'l-Bahá, e o comunicado que, no dia que recebeu essa carta, o Secretário de Relações Exteriores, Lord Balfour, enviou ao General Allenby, dando-lhe instruções para "estender todo meio de proteção e consideração a 'Abdu'l-Bahá, à Sua família e aos Seus amigos"; o cabograma enviado subseqüentemente a Londres pelo general depois de haver sido tomada a cidade de Haifa - pedindo as autoridades que "informassem ao mundo que 'Abdu'l- Bahá estava são e salvo", e as ordens emitidas por esse mesmo general ao Oficial Geral em Comando, sob cuja responsabilidade estavam as operações em Haifa, para que assegurasse a proteção de 'Abdu'l-Bahá, assim frustrando a intenção expressa do comandante-chefe turco (segundo informação recebida pelo "British Intelligence Service") de crucificar 'Abdu'l-Bahá e Sua família no Monte Carmelo, caso o exército turco fosse forçado a evacuar Haifa e retirar-se para o norte.

Os três anos que transcorreram entre a libertação da Palestina pelas forças britânicas e o passamento de 'Abdu'l-Bahá, foram assinalados por um incremento ainda maior no prestígio que a Fé adquirira em seu centro mundial, não obstante as perseguições as quais fora sujeitada, e por uma extensão ainda maior no âmbito de suas atividades de ensino em várias partes do mundo. O perigo que por nada menos que sessenta e cinco anos ameaçara as vidas dos Fundadores da Fé e do Centro de Seu Convênio fora agora, afinal, por meio dessa guerra, completa e definitivamente afastado. Através da substituição da administração corrupta do passado por um regime novo, liberal, o Dirigente da Fé e os dois sagrados Santuários gêmeos, na planície de 'Akká e no declive do Monte Carmelo, iriam dali em diante, pela primeira vez, gozar liberdade das restrições que, posteriormente, evoluiria em claro reconhecimento das instituições da Causa. Nem tardaram as autoridades britânicas a expressar sua apreciação do papel desempenhado por 'Abdu'l-Bahá em aliviar o peso do sofrimento, que oprimira os habitantes da Terra Santa durante os tenebrosos dias daquele conflito angustiante. A concessão do título de Cavalheiro em uma cerimônia realizada especialmente para Ele em Haifa, na residência do Governador britânico, na qual se haviam reunido notabilidades de várias comunidades; a visita que Lhe fizeram o General e Lady Allenby, convidados para almoçarem com Ele em Bahji e também por Ele conduzidos ao Túmulo de Bahá'u'lláh; a entrevista em Sua residência em Haifa, entre Ele e o Rei Feisal, que, pouco depois, veio a governar o Iraque; as várias visitas que Lhe Fez Sir Herbert Samuel (mais tarde, Visconde Samuel do Carmelo) tanto depois como antes de sua nomeação como Alto Comissário para a Palestina: Seu encontro com Lord Lamington, que outrossim, O visitou em Haifa, assim como o encontro com o então Governador de Jerusalém, Sir Ronald Storrs; as sempre crescentes evidências do reconhecimento de Sua elevada e incomparável posição por todas as comunidades religiosas, quer muçulmanas, cristãs ou judias; a afluência de peregrinos que, do Oriente e Ocidente, se congregavam na Terra Santa, com relativa facilidade e segurança, a fim de visitar os Sagrados Túmulos em Akká e Haifa, prestar-Lhe seu quinhão de homenagem, celebrar a insigne proteção que a Providência concedera a Fé e a seus seguidores e render graças por seu Dirigente e seu Centro mundial haverem sido finalmente emancipados do jugo turco - todos esses eventos contribuíram, cada um a sua maneira, para enaltecer o prestígio que a Fé de Bahá'u'lláh havia adquirido, gradativa e continuamente, mediante a inspirada direção de 'Abdu'l-Bahá.

À medida que o ministério de Abdu'l-Bahá se aproximava de seu fim, multiplicaram-se sinais do irresistível e multíplice desenvolvimento da Fé, tanto no Ocidente como no Oriente, na formação e consolidação de suas instituições, como também no crescente âmbito de suas atividades e sua influência. Na cidade de Ishqábád a construção do Mashriqu'l-Adhkár, a qual Ele Mesmo iniciara, foi consumada com êxito. Em Willmette as escavações para o Templo-Mater do Ocidente foram levadas a cabo e o contrato assinado para a construção do andar subterrâneo do edifício. Em Bagdá, de acordo com Suas instruções especiais, se deram os passos iniciais para reforçar os alicerces e restaurar a Casa de Suma Grandeza associada com a memória de Seu Pai. Na Terra Santa uma extensa propriedade ao leste do Sepulcro do Báb foi adquirida - graças a iniciativa da Santa Mãe e com o auxílio de contribuições dos bahá'ís tanto no Ocidente como no Oriente - para servir de local para a futura ereção da primeira escola bahá'í no Centro Administrativo mundial da Fé. Adquiriu-se na vizinhança da residência de 'Abdu'l-Bahá terreno para uma Casa de Peregrinos Ocidentais, a qual, pouco depois de Seu falecimento, foi erigida por bahá'ís americanos. Pouco depois da inumação dos restos mortais do Báb, a Casa de Peregrinos Orientais que foi erigida no Monte Carmelo por um crente de Ishqábád, para a conveniência dos peregrinos visitantes, obteve das autoridades civis isenção de impostos (a primeira vez que se havia concedido esse privilegio desde que se estabeleceu a Fé na Terra Santa). O famoso cientista e entomologista, Dr. Auguste Forel, converteu-se a Fé através da influência de uma Epístola que lhe enviara 'Abdu'l-Bahá - uma das mais influentes que o Mestre escreveu. Outra Epístola de imensa importância foi em resposta a uma comunicação a Ele dirigida pelo Comitê Executivo da "Organização Central para uma Paz Duradoura", a qual 'Abdu'l-Bahá lhes despachou por intermédio de uma delegação especial para Haya. Um novo continente foi aberto para a Causa quando, em resposta as Epístolas do Plano Divino que foram desveladas na primeira Convenção após a guerra, o magnânimo e heróico Hyde Dunn, com a idade avançada de sessenta e dois anos, deixou de imediato sua casa na Califórnia e, apoiado e acompanhado por sua esposa, se estabeleceu como pioneiro na Austrália, onde conseguiu levar a Mensagem a nada menos que setecentas cidades dessa nação. Iniciou-se um novo episódio quando, respondendo prontamente a essas mesmas Epístolas e seu chamado, aquela serva estelar de Bahá'u'lláh, a indomável e imortal Martha Root, designada por seu Mestre "arauto do Reino" e "precursora do Convênio", embarcou na primeira de suas históricas viagens que iriam prolongar-se por um período de vinte anos e levá-la várias vezes ao redor do globo e que terminaram somente com sua marte, longe de sua terra natal e no serviço ativo a Causa que ela tão profundamente amava. Esses acontecimentos assinalam a etapa final de um ministério que selou o triunfo da Idade Heróica da Era Bahá'í e que passara a história como um dos períodos mais gloriosos e frutíferos do primeiro século bahá'í.

Capítulo XXI
O FALECIMENTO DE ABDU'L-BAHÁ

A grande obra de 'Abdu'l-Bahá estava agora terminada. Gloriosamente havia Ele consumado a Missão histórica de que Seu Pai O incumbira vinte e nove anos antes. Um capítulo memorável da história do primeiro século bahá'í, fora escrito. A Idade Heróica da Era Bahá'í, de que Ele participara desde o início e na qual desempenhara um papel "sui-generis", chegara ao fim. Sofrera como nenhum discípulo da Fé havia sofrido ao esvaziar a taça do martírio; esforçara-se como nenhum de seus maiores heróis o fizera. Presenciara triunfos como nunca o Arauto da Fé nem o Seu autor jamais presenciaram.

Ao concluir Suas cansativas excursões pelo Ocidente, que consumiram os últimos resquícios de Suas forças já esgotadas, escrevera: "Amigos, aproxima-se o tempo em que não mais estarei com vocês. Fiz tudo quanta podia ser feito. Servi a Causa de Bahá'u'lláh até o limite máximo de Minha capacidade. Trabalhei dia e noite durante todos os anos da Minha vida. Oh! Quão intensamente desejo ver os crentes tomarem sobre os ombros as responsabilidades da Causa!... Meus dias estão contados e, exceto isto, já não resta nenhuma alegria para mim." Vários anos antes, Ele aludira assim a Sua morte: "Oh! Meus fieis amados! Se algum dia acontecimentos aflitivos vierem a se desenrolar na Terra Santa, nunca se perturbem ou se agitem não temam, nem fiquem pesarosos, pois tudo quanto acontecer fará com que o Verbo de Deus seja exaltado e Suas divinas fragrâncias difundidas." E mais adiante: "Lembrem-se, quer Eu esteja ou não na terra, Minha presença estará sempre com vocês." "Não considerem a pessoa de 'Abdu'l-Bahá", aconselhou Ele aos amigos, numa das últimas Epístolas, "pois esta pessoa terá finalmente de se despedir de todos vocês; antes fixem o olhar no Verbo de Deus... Os amados de Deus devem levantar-se com tal firmeza, que, se porventura, num dado momento, centenas de almas se tornarem alvo dos dardos das tribulações, do mesmo modo que 'Abdu'l-Bahá, mesmo assim, nada afetará ou diminuirá a sua... devoção a Causa de Deus."

Numa Epístola dirigida aos bahá'ís americanos, poucos dias antes do Seu passamento, 'Abdu'l-Bahá assim desabafou o ardente desejo, há muito alimentado, de partir deste mundo: "Renunciei ao mundo e as pessoas que o habitam.... Na gaiola deste mundo esvoaço como um pássaro assustado e suspiro todos os dias pelo momento em que voarei para o Teu Reino. Yá, Bahá'u'l-Ablá! Dá-me de beber da taça do sacrifício e liberta-me! "

Numa prece revelada menos de seis meses antes de Sua ascensão, em honra de um parente do Báb, escreveu: "Ó Senhor! Meus ossos estão enfraquecidos e os cabelos brancos brilham em Minha cabeça... e agora atingi a velhice, com as faculdades em decadência"... "Nenhuma força Me Testa com que levantar-Me e servir a Teus amados... Ó Senhor, Meu Senhor! Apressa Minha ascensão a Teu Limiar sublime... e Minha chegada a Porta de Tua infinita misericórdia..."

Através de Seus sonhos, das conversas que mantinha e das Epístolas reveladas, pressentia-se cada vez mais a iminência do Seu fim. Dois meses antes de Seu passamento, contou a família um sonho que tivera - "Parecia", disse Ele, "que Eu estava de pé dentro de uma grande mesquita, dentro do santuário, voltado para o Qíblih, no Lugar do próprio Imame. Percebi que se congregava na mesquita grande número de pessoas. Cada vez mais gente abarrotava o recinto, postando-se em fileiras atrás de Mim, até que se formou uma enorme multidão. De onde estava, invoquei-os com veemência a oração. De repente, ocorreu-Me o pensamento de sair da mesquita. Quando Me encontrei do lado de fora, disse comigo mesmo: por que razão vim-Me embora, sem ter dirigido a oração? Mas isso não tem importância; já que anunciei em voz alta o chamado a prece, a vasta multidão por si mesma entoá-la-á." Poucas semanas mais tarde, enquanto ocupava um quarto solitário no jardim de Sua casa, tornou a contar um sonho aos que o rodeavam. "Sonhei", disse, "que vi a Beleza Abençoada (Bahá'u'lláh) dirigir-se para o Meu lado e dizer-Me: "Destrua esse quarto". Nenhum dos presentes compreendeu o significado deste sonho, senão com Seu falecimento logo após, quando se lhes tornou claro que a palavra "quarto" designava o templo do Seu corpo.

Um mês antes de Sua morte (que ocorreu quando contava 78 anos de idade, nas primeiras horas do dia 28 de novembro de 1921), havia-se referido expressamente a esse acontecimento em Suas palavras de pêsames e conforto dirigidas a um adepto que estava lamentando a perda de um irmão. E cerca de duas semanas antes de Seu passamento, falara ao Seu fel jardineiro de uma maneira que indicava claramente saber Ele estar próximo do fim. "Estou tão fatigado", observou-lhe Ele, "é chegada a hora de deixar tudo e levantar Meu vôo. Estou demasiado cansado para andar." Acrescentou: "Foi durante os últimos dias da Beleza abençoada, quando Eu estava empenhado em colecionar Seus papéis esparramados pelo sofá do gabinete em Bahjí. Que Ele se virou para Mim e disse: "Não adianta reuni-los, poís preciso deixa-los e evolar-Me para o além." Assim também Eu já terminei Minha obra. Nada mais posso fazer. Por isso forçoso é deixá-la e partir. "

Até o ultimo dia de Sua existência terrena, 'Abdu'lBahá continuou a prodigalizar aquele mesmo amor tanto a pessoas de alta posição como a humildes, a estender aquela mesma assistência aos pobres e aos espezinhados, e a executar os mesmos deveres a serviço da Fé do Pai, como fora Seu costume desde os dias da meninice. Na sexta-feira anterior ao Seu passamento, apesar da fadiga extrema, compareceu a oração do meio-dia na mesquita e distribuiu depois esmolas, como costumava, entre os pobres; ditou algumas Epístolas - as últimas que revelou; abençoou o casamento de um criado de confiança, havendo Ele insistido fosse realizado naquele dia; compareceu a reunião costumeira dos amigos em Sua casa; sentiu-se febril no dia seguinte, mandou que todos os amigos fossem ao Túmulo do Báb assistir a uma festa oferecida por um peregrino persa por ocasião do aniversário da Declaração do Convênio; recebeu com Sua infalível cortesia e gentileza, naquela mesma tarde - a despeito de um cansaço crescente - o Muftí de Haifa, o Prefeito e o Chefe de Polícia e naquela noite - a última de Sua vida - antes de se retirar, perguntou pela saúde de todos os ocupantes de Sua casa, dos peregrinos e dos amigos em Haifa.

A uma e um quarto da madrugada, levantou-se e, encaminhando-se para uma mesa no quarto, bebeu água e voltou para o leito. Mais tarde, pediu a uma das duas filhas que tinham ficado acordadas para cuidar Dele, que levantasse as cortinas, queixando-se de dificuldade em respirar. Trouxeram-Lhe água de rosas, que bebeu, apos o que deitou-se novamente, e quando lhe ofereceram alimento, observou distintamente: "Querem que Eu me alimente quando estou prestes a partir?" Um minuto mais tarde Seu espírito adejara rumo a Sua morada eterna, para reunir-se, por fim, a glória do Seu amado Pai e experimentar a alegria de uma união sempiterna com Ele.

A notícia do Seu passamento, tão repentino, tão inesperado, espalhou-se com a rapidez de um raio pela cidade inteira e foi imediatamente transmitida pelo telégrafo aos mais remotos lugares do globo, aturdindo de pesar a comunidade dos adeptos de Bahá'u'lláh no Oriente e no Ocidente. Vieram inúmeras mensagens de longe e de perto, de pessoas de relevo ou humildes, através de cabogramas e cartas, trazendo aos membros de uma família abatida pela dor e consternação, expressões de elogios, de devoção, de angústia e de condolência.

O Ministro de Estado Britânico para as Colônias, Mr. Winston Churchill, telegrafou imediatamente ao Alto Comissário da Palestina, Sir Herbert Samuel, instruindo-o no sentido de "apresentar a Comunidade Bahá'í, em nome do Governo de Sua Majestade, seus pêsames." o Visconde Allenby, Alto Comissário do Egito, telegrafou ao Alto comissário da Palestina, pedindo-lhe que "apresentasse aos parentes do falecido Sir 'Abdu'l-Bahá 'Abbás Effendi e a Comunidade Bahá'í seu "sincero pesar pela perda de seu líder venerado." O Conselho de Ministros em Bagdá deu instruções ao Primeiro Ministro Siyyid 'Abdu'r-Rahmán no sentido de transmitir suas "condolências a família de Sua Sentidade 'Abdu'l-Bahá pela perda sofrida." O comandante em Chefe da Força Expedicionária Egípcia, General Congreve, dirigiu ao Alto Comissário da Palestina uma mensagem em que lhe solicitou "transmitir seus mais profundos pêsames a família do falecido Sir 'Abbás Bahá'í." o General Sir Arthur Money, ex-Administrador Geral da Palestina, escreveu expressando seu pesar, bem como seu profundo respeito e admiração por Ele, apresentado, além disso, suas condolências pela perda que Sua família sofrera. Uma das figuras de relevo na vida acadêmica da Universidade de Oxford, um professor e sábio famoso, escreveu em seu próprio nome e no da esposa: "A ultrapassagem do véu e a entrada numa vida mais plena devem ser especialmente maravilhosas e benditas para Alguém que sempre fixou Seus pensamantas no alto e esforçou-se para levar uma vida gratificante aqui na terra."

Jornais mais variados, tais como o "Times" de Londres, o "Mornins Post", o "Daily Mail", o "New York World", "Le Temps", o "Times da Índia" e outros, em línguas e países diferentes, renderam seu tributo a alguém que prestara a Causa da fraternidade humana e da paz serviços tão elevados e imperecíveis.

O Alto comissário, Sir Herbert Samuel, enviou imediatamente uma mensagem em que expressava seu desejo de comparecer aos funerais pessoalmente, a fim de, como ele próprio escreveu mais tarde, "testemunhar meu respeito por Seu credo e minha consideração por Sua pessoa." Quanto ao funerais, realizados na manhã de terça-feira - funerais como nunca se vira antes na Palestina - nada menos de dez mil pessoas participaram dele, representando todas as classes, religiões e raças daquele país. "Uma grande multidão", testemunhou posteriormente o próprio Alto comissário, tinha-se reunido, lamentando Sua morte, porém regozijandose por Sua vida." Sir Ronald Storrs, então Governador de Jerusalém, também disse, ao descrever os funerais: "Nunca soube de mais harmoniosa expressão de pesar e de respeito do que a invocada pela extrema simplicidade da cerimônia."

O ataúde contendo os restos mortais de 'Abdu'lBahá foi transportado ao lugar de descanso definitivo nos ombros dos Seus entes amados. O cortejo que o precedia era guiado pela Força Policial da cidade, no papel de Guarda de Honra, seguindo-se-lhe respectivamente os Escoteiros das comunidades muçulmanas e cristãs, erguendo bem alto Seus estandartes, um coral de muçulmanos entoando versículos do Alcorão, os chefes da comunidade muçulmana encabeçados pelo Muftí, e vários sacerdotes cristãos, latinos, gregos e anglicanos. Atrás do ataúde iam os membros da família, o Alto comissário britânico, Sir Herbert Samuel, o Governador de Jerusalém, Sir Ronald Storrs, o Governador da Fenícia, Sir Stewart Symes, funcionários do Governo, cônsules de vários países, residentes em Haifa, pessoas de destaque na Palestina, muçulmanos, judeus, cristãos, e drusos, egípcios, gregos, turcos, árabes, curdos, europeus e americanos, homens, mulheres e crianças. O longo séqüito de enlutados subia vagarosamente as encostas do Monte carmelo, em direção ao mausoléu do Báb, por entre os soluços e lamentos de muitos corações pesarosos.

Próximo à entrada leste do Santuário, o caixão sagrado foi depositado sobre uma mesa simples, e, na presença daquela vasta multidão, nove oradores, que representavam as Fés muçulmanas, judaica e crista, entre os quais se encontrava o muftí de Haifa, pronunciaram suas orações fúnebres. Concluídas estas, o Alto Comissário aproximou-se do caixão e, com a cabeça curvada na direção do Santuário, prestou sua homenagem de despedida a 'Abdu'l-Bahá; os outros funcionários do Governo seguiram o seu exemplo. o ataúde foi então removido para uma das câmaras do Santuário e baixado ali, triste e reverentemente, para a derradeira morada Dum sepulcro adjacente ao em que jaziam os restos mortais do Báb.

Durante a semana após Seu passamento, cinqüenta a cem pobres de Haifa eram diariamente alimentados em Sua casa, sendo que no sétimo dia foram distribuídos cereais em Sua memória a cerca de mil deles, independente de credo ou raça. No quadragésimo dia, uma impressionante comemoração foi realizada em Sua memória, tendo sido convidados mais de seiscentos dos residentes de Haifa, 'Akká e localidades circunvizinhas da Palestina e da Síria, inclusive funcionários e pessoas de destaque, de várias religiões e raças. Mais de uma centena de pobres foi alimentada também nesse dia.

Um dos convidados ali reunidos, o Governador da Fenícia, rendeu um ultimo tributo à memória de 'Abdu'l-Bahá nos seguintes termos: "A maioria de nós tem, assim o creio, uma recordação nítida de Sir 'Abdu'l-Bahá 'Abbás, de Sua figura serena caminhando pensativamente por nossas ruas, de Suas maneiras corteses e graciosas, de Sua amabilidade, de Seu amor pelas criancinhas e pelas flores, da Sua generosidade e dos cuidados dispensados aos pobres e aos sofredores. Diante de tamanha meiguice e simplicidade, esquecíamo-nos, quase, de que estávamos em presença também de um grande sábio e instrutor, cujas palavras, quer escritas quer orais, haviam proporcionado consolo e inspeção a centenas e milhares de pessoas no Oriente e no Ocidente."

Assim chegou a seu termo o ministério Daquele que foi, em virtude da categoria que Seu Pai lhe outorgou, a encarnação de uma instituição sem paralelo em todo o extenso campo da história das religiões, ministério que marca o estagio final da gloriosíssima Era Apostólica e Heróica da Revelação de Bahá'u'lláh.

Por Seu intermédio o Convênio - aquela "excelente e inestimável herança" legada pelo Autor da Revelação Bahá'í - fora proclamado, defendido e vindicado. Através do poder que esse Instrumento Divino lhe havia conferido, a luz da recém-nascida Fé de Deus havia penetrado no Ocidente, se difundido até as Ilhas do Pacífico e iluminado as bordas do continente australiano. Através da intervenção pessoal de seu Portador - Aquele que provara a amarguras de um cativeiro que durou por toda a vida - a Mensagem fora largamente difundida, sendo desvelados seu caráter e seu propósito, pela primeira vez em sua história, diante de auditórios entusiastas e representativas nas principais cidades da Europa e do continente norte-americano. Em virtude de Sua incessante vigilância, os sagrados restos mortais do Báb, tirados afinal de seu esconderijo de cinqüenta anos, haviam sido trasladados com segurança para a Terra Santa e encerrados digna e permanentemente no lugar exato designado pelo próprio Bahá'u'lláh e abençoado com Sua presença. Mediante Sua intrépida iniciativa, o primeiro Mashriqu'l-Adhkár do Mundo Bahá'í fora erigido na Ásia Central, no Turquestão Russo, enquanto, com Seu infalível estímulo, um empreendimento similar, de proporções ainda mais vastas, fora começado, sendo dedicado seu terreno por Ele Próprio, no coração do continente norte-americano. Através da graça sustentadora que o amparava desde o início de Seu ministério, fora humilhado até o pó Seu adversário real, derrubado completamente o arquiViolador do Convênio de Seu Pai, e o perigo que desde o exílio de Bahá'u'lláh ao território turco havia ameaçado constantemente o coração da Fé, fora definitivamente afastado. Segundo Suas instruções e de acordo com os princípios que Seu Pai enunciara e com as leis que ordenara, se haviam formado e estabelecido as instituições rudimentares que eram as precursoras anunciando a inauguração formal da Ordem Administrativa a ser fundada após Seu passamento. Em virtude de Seus incessantes esforços, demonstrados nos tratados que Ele compôs, nas milhares de Epístolas que revelou, nos discursos que fez, nas orações e nos poemas e comentários que legou a posteridade - a maioria em persa, alguns em árabe e um pequeno número na língua turca - haviam sido elucidados os princípios e leis que constituíam a urdidura e trama da Revelação de Seu Pai, sendo reafirmadas e interpretadas suas bases; aos seus preceitos fora dada aplicação detalhada e, plena e publicamente, se havia atestado a validez e o caráter indispensável de Suas verdades. Mediante as advertências por Ele proferidas, uma humanidade desatenta, submersa no materialismo e esquecida de seu Deus, fora prevenida dos perigos que ameaçavam lhe romper a vida ordenada, e forçada, em conseqüência de sua persistente perversidade, a suportar os golpes iniciais daquele tumulto mundial que, até o momenta atual, continua a abalar os fundamentos da sociedade humana. E finalmente, através do mandato emitido a uma comunidade valorosa - cujos membros com suas realizações em conjunto haviam derramado tão grande brilho sobre os anais de Seu próprio ministério - pusera Ele em movimento um Plano que, pouco depois de sua inauguração formal, conseguiu a abertura do continente australiano, e que, em época posterior, levaria à conquista do coração de uma convertida real à Causa de Seu Pai, e que hoje, com o irresistível desenvolvimento de suas potencialidades, esta ressuscitando, de um modo tão maravilhoso, a vida espiritual de todas as repúblicas da América Latina, o que constitui uma digna conclusão para os anais de todo um século.

Uma resenha das características salientes de tão abençoado e frutífero ministério não deve deixar de mencionar as profecias que a pena infalível do designado Centro do Convênio de Bahá'u'lláh registrou. Estas prognosticam a impetuosidade da investida que a irresistível marcha da Fé haverá, de provocar no Ocidente, na Índia e no Extremo Oriente ao confrontar-se com as veneráveis ordens sacerdotais da religião cristã, da budista e da hindu. Pressagiam o tumulto que sua emancipação dos grilhões da ortodoxia religiosa causará nos continentes de América, Europa, Ásia e África. Prognosticam a reunião dos filhos de Israel em sua antiga terra natal; a ereção da bandeira de Bahá'u'lláh na cidadela egípcia do islã sunita; a extinção da poderosa influência exercida pelos eclesiásticos xiitas na Pérsia; a carga de misérias que haverá de oprimir os lastimáveis remanescentes dos violadores do Convênio de Bahá'u'lláh no centro mundial de Sua Fé; o esplendor das instituições que essa Fé triunfante deverá erigir nos declives de uma montanha, destinada a ser de tal forma ligada com a cidade de 'Akká que uma só grande metrópole seja formada para encerrar as sedes espirituais, bem como as administrativas, da futura Comunidade Bahá'í mundial; a insigne honra que aos habitantes em geral da terra natal de Bahá'u'lláh, e ao seu governo, em especial, deverá ser conferida em futuro distante; a posição impar e invejável que a comunidade do Maior Nome, na América do Norte, devera ocupar, como conseqüência direta do cumprimento da missão mundial que Ele lhe confiara. Pressagiam, afinal, como soma total e clímax de tudo, a "elevação do estandarte de Deus entre todas as ações" e a unificação da inteira raça humana, quando "todos os homens aderirão a uma única religião... se fundirão em uma só raça, se tornarão um único povo."

Tampouco pode-se deixar passarem despercebidas as transformações revolucionárias que esse ministério testemunhou no mundo em geral - a maioria das quais fluía diretamente das advertências pronunciadas pelo Báb, no primeiro capítulo de Seu Qayyúmu'l-Asmá', justamente na noite da Declaração de Sua missão em Shiráz, as quais mais tarde foram reforçadas pelas passagens fecundas dirigidas por Bahá'u'lláh aos reis da terra e aos líderes religiosos do mundo, na Súriy-i-Múlúk, como também no Kitáb-i-Aqdas. A conversão da monarquia portuguesa e do império chinês em repúblicas; o colapso dos impérios da Rússia, da Alemanha e da Áustria, e o ignominioso destino que sobreveio a seus governantes; o assassínio de Násiri'd-Din Sháh, a queda do Sultão 'Abdu'l-Hamíd - esses acontecimentos, pode-se dizer, assinalaram ainda outras etapas na operação daquele processo catastrófico cujo início foi marcado, ainda durante a vida de Bahá'u'lláh, pelo assassínio do Sultão 'Abdu'l-'Azíz, pela queda dramática de Napoleão III, com a extinção do Terceiro Império, pelo encarceramento que o Papa a si próprio impôs e pela virtual terminação de sua soberania temporal. Mais tarde, após o falecimento de 'Abdu'l-Bahá, esse mesmo processo seria acelerado pela queda da dinastia Qájár na Pérsia, pelo derribamento da monarquia espanhola, pelo colapso tanto do Sultanato como do Califado na Turquia, por um rápido declínio nas fortunas do islã xiita e das Missões Cristãs no Oriente e pelo destino cruel que está agora sobrevindo a tantas das cabeças coroadas da Europa.

Nem se pede dar por concluído este assunto sem especial referência aos nomes daqueles homens eminentes e eruditos que, em vários estágios do ministério de 'Abdu'l-Bahá, se sentiram impelidos a render tributo não só ao próprio 'Abdu'l-Bahá, como também à Fé de Bahá'u'lláh. Nomes tais como o Conde Leo Tolstoy, Professor Arminius Vambery, professor Auguste Forel, Dr. David Starr Jordan, o venerável Arquidiácono Wilberrforce, professor Jowett de Balliol, Dr. T. K. Cheyne, Dr. Estlin Carpenter da Universidade de Oxford, Visconde Samuel do Carmelo, Lord Lamington, Sir Valentine Chirol, Rabino Stephen Wise, Príncipe Muhammad-'Alí do Egito, Shaykh Muhammad 'Abdu, Midhat Páshá e Khurshíd Páshá atestam, em virtude dos tributos com eles associados, o grande progresso realizado pela Fé de Bahá'u'lláh, sob a brilhante direção de Seu Filho - tributos cujo caráter impressionante viria a ser enaltecido, em anos posteriores, pelos testemunhos históricos, reiterados e escritos, que uma famosa rainha, uma neta da Rainha Vitória, se sentiu impelida a legar à posteridade como prova de seu reconhecimento da missão profética de Bahá'u'lláh.

Quanto àqueles inimigos que assiduamente tentaram extinguir a luz do Convênio de Bahá'u'lláh, o castigo condigno que tiveram de sofrer não é menos notável do que o destino sombrio que sobreveio àqueles que, em época anterior, sa haviam esforçado de um modo tão abominável, para esmagar as esperanças de uma Fé nascente e lhe destruir os fundamentos.

Ao assassínio do tirânico Nasiri'd-Din Sháh e à subseqüente extinção da dinastia Qájár, já fizemos referencia. O Sultão 'Abdu'l-Hamid, após sua destituição foi feito prisioneiro de estado, e condenado a uma vida de total obscuridade e humilhação, desprezado por outros governantes e vilipendiado por seus súditos o sanguinário Jamál Pashá, que havia resolvido crucificar 'Abdu'l-Bahá e arrasar o Sagrado Túmulo de Bahá'u'lláh, teve que fugir para salvar sua vida e, enquanto refugiado no Cáucaso, foi assassinado pela mão de um armênio cujos compatriotas ele havia tão impiedosamente perseguido. o conspirador Jamálu'd-Din Afgháni - cuja implacável hostilidade e poderosa influência haviam tão gravemente prejudicado o progresso da Fé em países do Oriente Próximo - após uma carreira acidentada, cheia de vicissitudes, foi acometido de câncer e, depois de se submeter a uma operação sem êxito, na qual lhe foi tirada a maior parte da língua, pereceu na miséria. Os quatro membros da infortunada Comissão de Investigação despachada de Constantinopla para selar o destino de 'Abdu'l-Bahá sofreram, cada um por sua vez, uma humilhação quase tão drástica como aquela que haviam projetado para Ele. Arif Bey, chefe da Comissão, ao tentar, furtivamente, a meia noite, fugir da ira dos Jovens Turcos, foi morto a tiros por uma sentinela. Adham Bey conseguiu escapar para o Egito mas lhe foram roubados os bens no caminho, por seu servente, e ele foi obrigado, afinal, a pedir dos bahá'ís do Cairo, assistência financeira, a qual não lhe foi negada. Mais tarde 'Abdu'l-Bahá, atendendo a seu pedido de ajuda, deu instruções aos bahá 'ís que lhe dessem uma quantia em Seu nome, o que não foi possível, porém, por causa de seu repentino desaparecimanto. Dos outros dois membros, um foi desterrado a um lugar remota, e o outro morreu pouco depois, em abjeta pobreza. O notório Yahyá Bey, chefe de Polícia em 'Akká, instrumento voluntário e poderoso nas mãos de Mirzá Muhammad-'Alí, arquiviolador do Convênio de Bahá'u'lláh, testemunhou a frustração de todas as esperanças que havia alimentado, perdeu seu posto e teve, finalmente, de pedir de 'Abdu'l-Bahá assistência pecuniária. Em Constantinopla, no ano que testemunhou a queda de 'Abdu'l-Hamíd, nada menos de trinta e um dignitários do estado, inclusive ministros e outros oficiais de destaque no governo, entre os quais haviam formidáveis inimigos da Fé, foram, em um só dia, apreendidos e condenados à forca - retribuição espetacular pelo papal por eles desempenhado em apoiar um regime tirânico e em esforçar-se para extirparem a Fé e suas instituições.

Na Pérsia, além do soberano que - no auge de suas esperança e na plenitude de seu poder - fora, de um modo tão espantoso, retirado da cena, havia numerosos príncipes, ministros e mujtahids que tinham participado ativamente na supressão de uma comunidade perseguida - inclusive Kámrán Mirzá, o Ná'íbu's-Saltanih, o Jalalu'd-Dawlih e Mirzá Alí-Asghar Khán, o Atábik-i-A'zam e Shaykh Muhammad-Taqíy-i Najafí, o "Filho do Lobo" - e estes, um por um, perderam seu prestígio e autoridade, caíram em obscuridade, abandonaram toda esperança de cumprir seu malévolo propósito e viveram - alguns deles - o tempo suficiente para testemunhar as evidências iniciais da ascendência de uma Causa que eles tanto haviam temido e tão veementemente odiado.

Quando notamos que, na Terra Santa, na pérsia e nos Estados Unidos da América, certos expoentes de eclesiasticismo cristão - tais como Vatralsky, Wilson, Richardson ou Easton - ao observarem e, em alguns casos, temerem, o vigoroso avanço sendo feito pela Fé de Bahá'u'lláh em terras cristãs, se levantaram para lhe deter o progresso; e quando observamos a recente continua deterioração de sua influência, o declínio de seu poder, a confusão em suas fileiras e a dissolução de algumas de suas antigas missões e instituições, na Europa, no Oriente Médio e na Ásia Oriental não poderemos atribuir esse enfraquecimento a oposição que membros de várias ordens sacerdotais cristãs, durante o ministério de 'Abdu'l-Bahá começaram a mostrar para com os seguidores e as instituições de uma Fé que afirma ser nada menos que o cumprimento da Promessa dada por Jesus Cristo, a Fé destinada a estabelecer o Reino pelo qual Ele Próprio suplicam e cuja vinda Ele predissera?

E finalmente, aquele que, desde o momento em que nasceu o Convênio Divino até o fim de sua vida, mostrou um ódio mais implacável do que aquele que animou os adversários de 'Abdu'l-Bahá já mencionados, e que, mais energicamente do que qualquer destes, contra Ele conspirou, afligindo a Fé de seu Pai com uma vergonha mais penosa do que qualquer que seus inimigos externos lhe haviam infligido - tal homem, em conjunto com a infame quadrilha de violadores do Convênio que ele havia desencaminhado e instigado, foi condenado a testemunhar, em medida crescente - assim como fora o caso com Mirza Yahyá e seus sequazes - a frustração de seus maus desígnios, a evaporação de todas as suas esperanças, a exposição de seus verdadeiros motivos e a extinção total de sua antiga honra e glória. Seu irmão, Mirza Díyá'u'lláh, sofreu uma morte prematura; Mirza Áqá Jan, seu instrumento, três anos depois seguiu ao túmulo esse mesmo irmão e Mirzá Badí'u'lláh, seu principal cúmplice, lhe traiu a causa, publicando uma denúncia, assinada, de seus atos maus, porém novamente se uniu com ele, embora ainda outra vez, em conseqüência da escandalosa conduta de sua própria filha, dele se afastasse. Furúghíyyih, meia irmã de Mirzá Muhammad-'Ali, morreu de câncer, enquanto seu esposo, Siyyid 'Ali, faleceu de um ataque cardíaco antes de os filhos poderem chegar a seu lado, sendo o mais velho deles vítima do mesmo mal, subseqüentemente, enquanto ainda no verdor dos anos. Muhammad-Javád-i-Qazvíní, notório violador do Convênio, pereceu miseravelmente. Shu'á'u'lláh, quem - assim como 'Abdu'l-Bahá atesta em Sua Última Vontade - contara com o assassínio do Centro do Convênio, e que fora enviado aos Estados Unidos por seu pai, a fim de aliar-se a Ibráhím Khayru'lláh, regressou de sua inglória missão, frustrado e de mãos vazias. Jámal-i-Burúgirdí, o mais capaz lugar-tenente de Mirzá Muhammad-'Alí na Pérsia, caiu vítima de uma molestia nauseabunda e fatal; Siyyid Mihdíy-i-Dahají, que, traindo 'Abdu'l-Bahá, se aliou aos rompedores do Convênio, morreu em obscuridade e pobreza, sendo seguido por sua esposa e seus dois filhos; Mirzá Husayn 'Alíy-i-Jahromi, Mirzá Husayn-i-Shírázíy-i-Khurtúmí e Hájí Muhammad-Husayn-i-Káshání, representantes na Pérsia, na Índia e no Egito do arquiviolador do convênio, fracassaram totalmente em suas missões; enquanto que o avarento e arrogante Ibráhím-i-Khayru'lláh que se designara sustentar o estandarte de sua rebelião na América por nada menos de vinte anos e que teve a audácia de denunciar 'Abdu'l-Bahá, por escrito, bem como Seus "ensinamentos falsos, Suas exposições erradas do baháismo, Sua dissimulação", e de estigmatizar Sua visita a América como "golpe mortal" para a "Causa de Deus", faleceu, pouco depois de preterir essas tendências, em completo abandono e desprezado pela totalidade dos membros de uma comunidade cujos fundadores ele mesmo convertera à Fé, e no próprio país que dava testemunho dos sempre crescentes sinais da ascendência estabelecida de 'Abdu'l-Bahá, Cuja autoridade ele, em seus anos posteriores, jurara desarraigar.

Quanto àqueles que haviam abertamente esposado a causa do arquiviolador do Convênio de Bahá'u'lláh, ou com ele secretamente simpatizado, enquanto aparentemente apoiavam 'Abdu'l-Bahá, alguns, afinal, se arrependeram e foram perdoados; outros ficaram desiludidos e perderam Sua Fé completamente; um pequeno número apostatou, enquanto o resto diminuía em número, deixando-o, no fim, só e sem nenhum apoio, a não ser de uma mão cheia de parentes. Sobrevivendo a 'Abdu'l-Bahá por quase vinte anos, aquele que tão audazmente afirmara em Sua presença que nenhuma razão tinha para acreditar que vivesse mais tempo do que Ele, viveu o tempo suficiente para testemunhar a bancarrota total de sua causa. Enquanto isso levou uma vida miserável dentro dos muros de uma Mansão, na qual havia morado outrora uma multidão de seus adeptos. Em conseqüência da crise que ele, tão nesciamente precipitara, após o falecimento de 'Abdu'l-Bahá, as autoridades civis lhe negaram a custódia oficial do Túmulo de seu Pai; e, poucos anos depois, ele foi obrigado a desocupar essa Mansão, a qual por causa de seu flagrante descuido havia caído em um estado de dilapidação. Acometido de paralisia que lhe aleijou a metade do corpo, ele jazia acamado, sofrendo por alguns meses antes de falecer; e foi enterrado de acordo com os rituais muçulmanos, nas proximidades de um santuário muçulmano. Até hoje sua sepultura permanece sem sequer uma lapide - um triste sinal da vacuidade das pretensões que ele entabulara, das profundezas de infâmia as quais se baixara e da severidade da retribuição que seus atos plenamente mereceram.

QUARTO PERÍODO
O INÍCIO DA IDADE FORMATIVA
DA FÉ BAHÁ'Í
(1921-1944)
Capítulo XXII
SURGE E ESTABELECE-SE A
ORDEM ADMINISTRATIVA

Com o passamento de Abdu'l-Bahá, o primeiro século da era bahá'í - cujo início fora sincrônico com Seu nascimento - havia percorrido mais de três quartos de seu curso. Setenta e sete anos antes, a luz da Fé proclamada pelo Báb surgira acima do horizonte de Shiráz e relampejara através do firmamento da Pérsia, dissipando as trevas seculares que haviam envolvido seu povo. Por um banho de sangue de inusitada ferocidade - no qual haviam participado conjuntamente governo, clero e povo, inconscientes do significado dessa luz e cegos para seu esplendor - quase fora extinguido o brilho de sua glória na terra onde nasceu. Na hora mais tenebrosa nas fortunas dessa Fé, Bahá'u'lláh, enquanto se encontrava, Ele mesmo, prisioneiro em Teerã, fora chamado para dar novo vigor à sua vida, e incumbido de lhe cumprir o propósito final. Em Bagdá - ao terminar o intervalo de dez anos entre o primeiro anúncio dessa Missão e sua Declaração - Ele havia revelado o Mistério que a Fé embrionária do Báb encerrava, e mostrado o fruto que produzira. Em Adrianópolis fora proclamada à humanidade a Mensagem de Bahá'u'lláh - promessa da Era do Báb, assim como de todas as Eras anteriores - e seu desafio fora anunciado aos governantes da terra, tanto no Ocidente como no Oriente. Atrás dos muros da prisão-fortaleza de 'Akká, o Portador da recém-nascida Revelação de Deus ordenara as leis e formulara os princípios que haveriam de constituir a urdidura e trama de Sua Ordem Mundial. Antes de Sua ascensão, ainda mais, havia Ele instituído o Convênio que iria guiar e assistir a colocação de seu fundamento e salvaguardar a unidade de seus construtores. Armado com esse incomparável e poderoso Instrumento, 'Abdu'l-Bahá, Seu Filho mais velho e Centro de Seu, Convênio erguera o estandarte da Fé de seu Pai no continente norte-Americano e estabelecera uma base inexpugnável para suas instituições na Europa Ocidental, no Extremo Oriente e na Austrália. Em suas obras, suas Epístolas, e em Seus discursos, havia Ele; lhe elucidado os princípios, interpretado as leis, amplificado a doutrina e erigido as instituições rudimentares de sua futura Ordem Administrativa. Sua primeira Casa de Adoração Ele levantara na Rússia, enquanto nos declives do Monte Carmelo havia construído um mausoléu digno para seu Arauto, onde, com as próprias mãos, depositara Seus restos mortais. Mediante as visitas a várias cidades da Europa e da América do Norte, 'Abdu'l-Bahá difundira a Mensagem de Bahá'u'lláh aos povos do Ocidente, elevando o prestígio da Causa de Deus a um nível nunca antes atingido. E afinal, no entardecer da vida, Ele, com a revelação das Epístolas do Plano Divino, emitira seu mandato à comunidade que Ele Próprio havia criado, treinado e nutrido - Plano esse que nos anos vindouros haveria de possibilitar a seus membros difundirem a luz e erigirem a estrutura administrativa da Fé em toda parte dos cinco continentes do globo.

Aquele Espírito imortal, fadado a vitalizar o mundo - que nascera em Shiráz, cuja luz se reacendera em Teerã e se transformara em chama em Bagdá e Adrianópolis, que fora levado ao Ocidente e já iluminava as orlas de cinco continentes - alcançara agora o momento propício para encarnar-se em instituições destinadas a canalizar suas energias transbordantes e a estimular seu crescimento. A Época que presenciara o despontar e o evolver da Fé, finalizara. A época Heróica e Apostólica da Revelação de Bahá'u'lláh, aquele período primitivo em que seus Fundadores viveram e sua vida fora gerada, em que seus maiores heróis lutaram e beberam da taça do martírio e os primeiros alicerces foram estabelecidos - período com cujos esplendores nenhuma vitória presente ou futura poderá rivalizar, por mais brilhante que seja - terminara agora com o passamento Daquele cuja missão pode ser considerada como o elo ligando a época em que germinara a semente da Mensagem recém-nascida com as que estão destinadas a presenciar sua florescência e sua fruição final.

Começava agora o Período de Formação, a Idade de Ferro dessa Revelação, a Época em que as instituições locais, nacionais e internacionais da Fé Bahá'í iriam tomar forma, desenvolver-se e consolidar-se inteiramente, antecipando-se a terceira e última, a Idade Áurea destinada a presenciar a evolução de uma Ordem de âmbito mundial que deve encerrar o fruto final da mais recente Revelação de Deus ao homem, um fruto cuja maturidade há de assinalar o estabelecimento de uma civilização mundial e a inauguração formal do Reino do Pai sobre a terra, segundo a promessa do próprio Jesus Cristo.

A essa Ordem Mundial o próprio Báb, enquanto prisioneiro nos redutos das montanhas de Azerbaidjan, havia referido explicitamente em Seu Bayán Persa, o Livro-Mater da dispensação Babí, tendo anunciado o advento e sua associação com nome de Bahá'u'lláh, de cuja Missão fora Ele Próprio o Arauto. "Bem-aventurado é Aquele" - é Sua notável afirmação no décimo sexto capítulo do terceiro Vahíd - "que fixa o olhar na Ordem de Bahá'u'lláh e rende graças a seu Senhor! Pais Ele, seguramente, será tornado manifesto..." A essa mesma Ordem - cujas leis e princípios lhe devem governar o funcionamento - Bahá'u'lláh revelou, em período posterior, no Kitáb-i-Aqdas, o Livro Mater de Sua Revelação: "o equilíbrio do mundo foi perturbado pela influência vibrante dessa Ordem, de Suma Grandeza. A vida ordenada do homem foi revolucionada através deste Sistema impar, maravilhoso, cujo igual jamais foi vista por olhos mortais." Suas características, Abdu'l-Bahá, seu grande Arquiteto, delineou em Sua Última Vontade e Testamento, e agora, depois Dele, os alicerces de suas instituições rudimentares estão sendo lançados por Seus seguidores no Oriente e no Ocidente, nesta Idade Formativa da Dispensação Bahá'í.

Os últimos vinte e três anos do primeiro século bahá'í podem assim ser considerados o estágio inicial do Período de Formação da Fé, época de Transição a ser identificada com o nascimento e consolidação da Ordem Administrativa, sobre que, forçosamente, as instituições da futura Comunidade Bahá'í Mundial deverão ser erigidas, nessa Idade Áurea que há de presenciar a consumação da Era Bahá'í. A Carta que deu origem a essa Ordem Administrativa, definindo-lhe os contornos e pondo em movimento os seus processos, não é outra senão o Testamento de 'Abdu'l-Bahá, Seu maior legado à posteridade, a mais brilhante emanação de Sua mente e o mais poderoso instrumento forjado para assegurar a continuidade das três épocas que constituem as partes componentes da Revelação de seu Pai.

O Convênio de Bahá'u'lláh fora instituído somente através da operação direta de Sua Vontade e Seu propósito. A Última Vontade e Testamento de Abdu'l-Bahá, por outro lado, pode-se considerar o resultado proveniente da comunicação mútua entre Aquele que gerara as forças de uma Fé dada por Deus e Aquele que fora designada seu Único Interprete e que era reconhecido como seu perfeito Exemplar. Das energias criadoras liberadas pelo Originador da Lei de Deus nesta era - mediante seu impacto sobre a mente Daquele que fora escolhido como seu infalível Expositor - nasceu esse instrumento, cujas vastas implicações, a presente geração mesmo depois do transcurso de vinte e três anos, é ainda incapaz de apreender plenamente. Esse Instrumento - se quisermos avalia-lo corretamente - não pode ser separado Daquele que forneceu o impulso motivador para sua criação, como tampouco pode ser separado Daquele que diretamente o concebeu. O propósito do Autor da Revelação Bahá'í, como já se observou, fora tão completamente infundido na mente de 'Abdu'l-Bahá, e Seu Espírito havia tão profundamente lhe impregnado o Ser, e os objetivos e propósitos dos dois a tal ponto se haviam harmonizado, que, se a doutrina estabelecida pelo Autor fosse desassociada do ato supremo relacionado com a missão de 'Abdu'l-Bahá, isso equivaleria ao repúdio de uma das verdades mais fundamentais da Fé.

A Ordem Administrativa estabelecida por esse Documento histórico, devemos notar, é, em virtude de sua origem e caráter, única nos anais dos sistemas religiosos do mundo. Nenhum profeta anterior a Bahá.'u'lláh - podemos afirmar sem receio - nem mesmo Maomé, cujo Livro estabelece claramente as leis e estatutos da Revelação Islâmica, determinou com autoridade e por escrito algo comparável à Ordem Administrativa que o Intérprete autorizado dos ensinamentos de Bahá'u'lláh instituiu. Em virtude dos princípios administrativos que seu Autor formulou, das instituições que estabeleceu e do direito de interpretação do qual foi investido o seu Guardião, essa Ordem deve proteger do cisma - e protegerá - a Fé da qual se originou, de modo inigualável entre as religiões anteriores. O princípio que lhe rege o funcionamento não é semelhante ao que baseia qualquer outro sistema, seja teocrático ou não, que as mentes humanas tenham imaginado para o governo das instituições humanas. Não se pode dizer que a Ordem Administrativa da Fé Bahá'í siga, na prática ou na teoria, qualquer tipo de governo democrático, qualquer sistema de autocracia, qualquer ordem puramente aristocrática, ou qualquer uma das várias teocracias, sejam elas judaicas, cristãs ou islâmicas, que a humanidade conheceu no passado. Ela incorpora em sua estrutura certos elementos que são encontrados em cada uma das três formas reconhecias de governo secular, está isenta dos defeitos inerentes a cada uma delas, e combina as verdades salutares que cada uma indubitavelmente contém, sem invalidar de qualquer maneira a integridade das verdades Divinas sobre as quais está essencialmente fundada. A autoridade hereditária que o Guardião da Ordem Administrativa é chamado a exercer, e o direito de interpretação das Sagradas Escrituras conferido a ele unicamente; os poderes e prerrogativas da Casa Universal da Justiça, possuindo o direito exclusivo de legislar em assuntos nas explicitamente revelados no Livro Sacratíssimo; a disposição que isenta os membros dessa Casa de qualquer responsabilidade para com aqueles a quem representam e da obrigação de concordarem com as suas opiniões, convicções ou sentimentos; as determinações específicas segundo as quais a massa dos fiéis elege livremente, de acordo com princípios democráticos, o Corpo que constitui o único órgão legislativo na comunidade bahá'í mundial - eis aí alguns dos caracteres que distinguem a Ordem identificada com a Revelação Bahá'í de qualquer outro dos sistemas existentes de governo humano.

Os inimigos, de dentro e de fora, tanto no Oriente como no Ocidente, que na hora do início dessa Ordem Administrativa e durante seus vinte e três anos de existentes lhe deturparam o caráter - ridicularizando-a e vilipendiando-a, ou esforçando-se para lhe deter a marcha ou criar uma divisão nas fileiras de seus adeptos - tampouco conseguiram realizar seu malévolo propósito. A assídua tentativa de um armênio ambicioso que, no decurso dos primeiros anos do estabelecimento dessa Ordem no Egito, se esforçou para substituí-la pela "Sociedade Científica" - que ele, em sua falta de visão, havia concebido e estava promovendo - fracassou completamente. A agitação provocada por uma mulher iludida que diligentemente se esforçou, tanto nos Estados Unidos como na Inglaterra, para demonstrar a falta de autenticidade da Carta Magna responsável por sua criação - e até para induzir as autoridades civis da Palestina a tomar ação legal no assunto, sendo, porém, terminantemente recusado esse pedido, para grande pesar seu - bem como a deserção de um dos primeiros pioneiras e fundadores da Fé na Alemanha, a quem essa mesma mulher tão tragicamente desencaminhara, não produziram efeito algum. Os volumes compostos e disseminados na Pérsia, durante esse mesmo período, por apóstota infame - em seus ousados esforços nas somente por romper essa Ordem, como também por minar a própria Fé que a concebera - provaram ser, igualmente abortivos. Os remanescentes dos violadores do Convênio, assim que conheceram os objetivos e propósitos da Vontade e Testamento de 'Abdu'l-Bahá, levantaram-se, chefiados por Mirzá Badí'u'lláh, para tirarem de seu designado Guardião a custódia do mais sagrado santuário do mundo bahá'í, mas os ardis por eles inventados também terminaram em nada, só lhes trazendo mais desonra. Os subseqüentes ataques lançadas por certos expoentes da ortodoxia cristã - em terras não cristãs bem como em cristãs - com o fim de subverter as bases dessa Ordem e lhe desfigurar as características - foram impotentes para minar a lealdade de seus defensores ou desvia-los de seus altos propósitos. Nem tampouco as infames e insidiosas maquinações de um antigo secretário de 'Abdu'l-Bahá - que, não tendo aprendido a lição dada pela retribuição que sobreveio ao amanuense de Bahá'u'lláh, ou pela sorte que alcançaram vários outros secretários e interpretes do Mestre no Ocidente como no Oriente, se levantou e ainda está se esforçando por perverter o propósito e anular as provisões essenciais do Documento imortal do qual essa Ordem deriva a autoridade - nem essas maquinações, pois, têm podido deter por um só momento a marcha de suas instituições pelo caminho determinado por seu Autor, ou criar qualquer coisa que, nem sequer remotamente, possa parecer uma divisão nas fileiras de seus firmes, despertos e vigorosos defensores.

O Documento que estabelece essa Ordem - a Carta de uma futura civilização mundial e que pede ser considerado em alguns aspectos o suplemento de um livro tão importante quanto o Kitáb-i-Aqdas - que foi assinado e lacrado por 'Abdu'l-Bahá e inteiramente escrito de Seu próprio punho, cuja primeira parte foi redigida durante um dos mais tenebrosos períodos de Seu encarceramento na fortaleza-presídio de 'Akká, proclama categórica e inequivocamente as crenças fundamentais dos adeptos da Fé Bahá'í. Revela, em linguagem cristalina, o duplo caráter da Missão do Báb; esclarece a posição exata do Autor da Revelação Bahá'í; assevera que "todos os outros são Seus servos e fazem o que Ele manda"; acentua a importância do Kitáb-i-Aqdas; estabelece a instituição da Guardiania como um cargo hereditário e esboça-lhe as funções essenciais; prevê as medidas necessárias à eleição da Casa Internacional de Justiça, define-lhe as atribuições e determina-lhe as relações com aquela Instituição; prescreve as obrigações e realça as responsabilidades das Mãos da Causa de Deus; e exalta as virtudes do Convênio indestrutível estabelecido por Bahá'u'lláh. Esse Documento, além disso, louva a coragem e a constância dos defensores do Convênio de Bahá'u'lláh; alonga-se no relato dos sofrimentos suportados por seu Centro nomeado; relembra a conduta infame de Mirzá Yahyá e sua desatenção às advertências do Báb; expõe, numa série de acusações, a perfídia e a rebelião de Mirzá Muhammad'Alí, e a cumplicidade de seu filho Shu'á'u'lláh e de seu irmão Mirzá Badí'u'lláh; reafirma sua excomunhão e prediz a frustração de todas as suas esperanças; exceto os Afnán (parentes do Báb), as Mãos da Causa e todo o conjunto dos seguidores de Bahá'u'lláh a levantaremse unidos para propagar a Sua Fé, a dispersar-se por todos os lados e laborar incansavelmente, seguindo o exemplo heróico dos Apóstolos de Jesus Cristo; previne-os contra os perigos decorrentes da associação com os violadores do Convênio, e recomenda-lhes que protejam a Causa contra os assaltos dos insinceros e dos hipócritas; aconselha-os a demonstrar por sua conduta a universalidade da Fé que esposaram e a fazer preces ler os seus elevados princípios. Nesse mesmo Documento seu Autor revelou o significado e o propósito do Huqúqu'lláh (Direito de Deus), já instituído no Kitáb-i-Aqdas; prescreve submissão e fidelidade para com todos os monarcas que sejam justos; exprime seu ardente desejo de martírio, e ora pelo arrependimento e perdão de Seus inimigos.

Os membros das comunidades bahá'ís largamente espalhados pelo Oriente e pelo Ocidente, obedeceram ao chamado emitido pelo Autor de tão momentoso Documento, conscientes de seu alto destino, sendo galvanizados à ação pelo golpe sofrido com o repentino e inesperado desaparecimento de 'Abdu'l-Bahá e guiados pelo Plano que Ele, o Arquiteto da Ordem Administrativa, confiara às suas mãos. Não os impediram os ataques dirigidos contra essa Ordem por traidores e inimigos que tinham ciúmes de seu crescente poder e eram cegos para seu significado incomparável. Levantaram-se, com visão clara e determinação inflexível, para inaugurar o Período de Formação de sua Fé, lançando os alicerces daquele sistema administrativo que abarca o mundo, desenhado para evoluir em uma Ordem Mundial, a ser aclamada pela posteridade como a promessa e a glória culminante de todas as Dispensações do passado. Não se contentando com a ereção e consolidação do maquinismo administrativo providenciado para preservar a unidade e tratar eficientemente dos assunto de uma comunidade em constante expansão, os seguidores da Fé de Bahá'u'lláh, no transcurso das duas décadas que sucederam ao passamento de 'Abdu'l-Bahá, resolveram asseverar e demonstrar por seus atos o caráter independente dessa Fé, lhe ampliar ainda mais os limites e aumentar o número de seus declarados defensores.

Neste tríplice esforço mundial, devemos notar, tal foi o papel desempenhado pela comunidade bahá'í americana desde o passamento de 'Abdu'l-Bahá até o fim do primeiro século bahá'í, que tem dado um tremendo ímpeto ao desenvolvimento da Fé no mundo todo, tem vindicado a confiança do próprio 'Abdu'l-Bahá em seus membros, e justificado os grandes elogios que Ele lhes conferira e as ternas esperanças que alimentava para seu futuro. Tão predominante, de fato, tem sido a influência de seus membros, tanto em iniciar como em consolidar as instituições administrativas bahá'ís, que seu país bem pode merecer reconhecimento como o berço da Ordem Administrativa que o próprio Bahá'u'lláh ideara e a Vontade do Centro de Seu Convênio chamada à existência.

Com referência a isto, devemos ter em mente que os passos preliminares que visavam revelar o âmbito e o funcionamento dessa Ordem Administrativa - a qual agora, após o passamento de 'Abdu'l-Bahá, iria ser formalmente estabelecida - já haviam sido dados por Ele, e até por Bahá'u'lláh nos anos anteriores à Sua ascensão, tais como a nomeação por Ele de certos crentes de destaque na Pérsia como "Mãos da Causa"; a formação, por 'Abdu'l-Bahá, de Assembléias Locais e corpos consultivos em alguns dos principais centros bahá'ís no Oriente bem como no Ocidente; a organização da "Unidade do Templo Bahá'í" nos Estados Unidos da América; o estabelecimento de fundos locais para a promoção de atividades bahá'ís; a compra de propriedades dedicadas a Fé e às suas futuras instituições; a fundação de sociedades editoras para a disseminação de literatura bahá'í; a ereção do primeiro Mashriqu'l-Adhkár do mundo bahá'í; a construção do sepulcro do Báb no Monte Carmelo; a instituição de hospedarias para a acomodação de instrutores itinerantes e peregrinos - esses passos podem ser considerados os precursores das instituições que, imediatamente após o término da Idade Heróica da Fé, iriam ser permanente e sistematicamente estabelecidas no inteiro mundo bahá'í.

Mal se haviam revelado aos seguidores de Bahá'u'lláh as diretrizes desta Carta Divina delineando as características da Ordem Administrativa da Fé, quando Seus adeptos se puseram a erigir sobre os alicerces lançados pela vida de seus heróis, santos e mártires, as primeiras etapas da estrutura de suas instituições administrativas.

Os pioneiros construtores de uma Ordem divinamente concebida compreenderam a necessidade de construir, como primeiro passo, uma larga e sólida base sobre a qual pudessem ser levantados mais tarde os pilares daquela estrutura poderosa; e estavam plenamente cientes de que haveria de repousar sobre esses pilares, quando firmemente estabelecidos, a cúpula, a parte final a coroar o edifício todo. Não as deteve em sua marcha a crise que as violadores do Convênio causaram na Terra Santa, nem a agitação que os provocadores de desordens levaram a efeito no Egito, nem tampouco os distúrbios resultantes da confiscação da Casa de Bahá'u'lláh em Bagdá pela comunidade xiita. Não foram perturbados pelos perigos crescentes que ameaçavam a Fé na Rússia, ou pelo desprezo e ridículo que acompanharam as atividades iniciais da comunidade bahá'í americana, provindos de certos setores que interpretaram de maneira completamente errônea seu propósito. De perfeito acordo e a despeito da grande diversidade de pontos de vista, costumes e línguas, esses pioneiros empreenderam a dupla tarefa de estabelecer e consolidar seus conselhos locais, eleitos por toda a comunidade dos bahá'ís e destinados a dirigir, coordenar e estender as atividades dos adeptos de uma Fé espalhada por muitos lugares longínquos. Na Pérsia, nos Estados Unidos da América, no Domínio do Canadá, nas Ilhas Britânicas, na França, na Alemanha, na Áustria, na Índia, na Birmânia, no Egito, no Iraque, no Turquestão Russo, no Cáucaso, na Austrália, na Nova Zelândia, na África do Sul, na Turquia, na Síria, na Palestina, na Bulgária, no México, nas Filipinas, da Jamaica, em Costa Rica, em Guatemala, em Honduras, em São Salvador, na Argentina, no Uruguai, no Chile, no Brasil, no Equador, na Colômbia, no Paraguai, no Peru, no Alasca, em Cuba, no Haiti, no Japão, nas Ilhas Havaí, na Tunísia, em Porto Rico, no Belutquistão, na Rússia, na Transjordânia, no Líbano e na Abissínia, esses conselhos, constituindo a base da Ordem crescente de uma Fé há muito tempo perseguida, foram sendo gradativamente estabelecidos. Designadas como "Assembléias Espirituais" - denominação que deve no decorrer do tempo ser substituída pelo seu título permanente e mais descritivo de "Casas de Justiça", conferido a elas pelo Autor da Revelação Bahá'í - essas Assembléias têm sido instituídas, sem exceção, em todas as cidades, vilas ou aldeias em que residem nove ou mais crentes adultos. São eleitas anualmente, no primeiro dia do mais importante Festival bahá'í, por voto direto de todos os crentes adultos, tanto homens como mulheres; são investidas de uma autoridade que as isenta de responsabilidade pelos seus atos e decisões em relação ao eleitorado. Solenemente obrigam-se a seguir, em quaisquer condições, os ditames da "Suprema Justiça", a qual tão-somente poderá inaugurar o reinado da "Suprema Paz" que Bahá'u'lláh proclamou e deve finalmente estabelecer. São sempre responsáveis pela promoção dos melhores interesses das comunidades dentro de sua jurisdição, por familiariza-las com seus planos e atividades e por convida-las a apresentar quaisquer recomendações que elas porventura desejem fazer e ao mesmo tempo conhecem sua tarefa não menos vital, a de demonstrar, através de associação com todos as movimentos liberais e humanitários, a universalidade e o âmbito compreensivo de sua Fé, embora dissociados inteiramente de todas as organizações sectárias, qual religiosas, qual seculares. São auxiliadas pelos comitês que elas apontam anualmente e que lhes são diretamente responsáveis, a cada um dos quais e atribuído um campo especial de estudo e ação; e são mantidas por fundos locais constituídos por contribuições voluntárias de todos os adeptos. E essas Assembléias, representantes e guardiãs da Fé Bahá'í, atualmente em número de várias centenas, e cujos membros são provenientes das mais diversas raças, credos e classes que constituem a comunidade bahá'í mundial, demonstraram, cabalmente, no decurso das duas últimas décadas, em virtude de suas realizações, seu direito a ser consideradas como os esteios principais da sociedade bahá'í, bem como os alicerces definitivos de sua estrutura administrativa.

"O Senhor ordenou", preceitua Bahá'u'lláh no Seu Kitáb-i-Aqdas, "que em cada cidade seja estabelecida uma Casa de Justiça onde se reunirão conselheiros em número de Bahá (9), e no caso de ser excedido este número, não importa. Cabe a eles ser os elementos de confiança do Misericordioso entre os homens, e considerar-se os guardiões nomeados por Deus para cuidar de todos os habitantes da terra. Cumpre-lhes tomar deliberações em conjunto e interessar-se pelos serviços de Deus, por amor a Ele do mesmo modo que cuidam de seus próprios interesses, e escolher aquilo que e conveniente e decoroso." "Essas Assembléias Espirituais", é o testemunho de 'Abdu'l-Bahá, numa Epístola dirigida a um bahá'í americano, "são auxiliadas pelo Espírito de Deus. Seu defensor é 'Abdu'l-bahá. Sabre elas, Ele estende Suas Asas. Existirá, uma graça maior?" "Essas Assembléia Espirituais", declarou Ele na mesma Epístola, "são lâmpadas refulgentes e jardins celestiais, dos quais a fragrância da santidade e difundida por todas as regiões, e as luzes da sabedoria são espargidas por sobre todas as coisas criadas. Delas dimana o espírito da vida em todas as direções. São, na verdade, as fontes poderosas do progresso do homem, em todos os tempos e condições." Estabelecendo sem sombra de dúvida sua autoridade delegada por Deus, Ele escreveu: "Cabe a cada qual não dar um único passo sem consultar a Assembléia Espiritual, e todos devem certamente, obedecer as suas ordens com toda a alma e todo o coração, e ser-lhe submissos, a fim de que as coisas possam ser colocadas na devida ordem." Escreveu ainda: "Se, após ser discutida, for adotada uma decisão por unanimidade, muito bem; mas se - que Deus o proíba - surgirem opiniões divergentes, deverá prevalecer o voto da maioria."

Tendo estabelecido a estrutura de suas Assembléias locais - a base do edifício que o Arquiteto da Ordem Administrativa da Fé Bahá'í determinara fosse erigida por eles - seus discípulos, tanto no Oriente como no Ocidente, ousaram, sem hesitações, penetrar na etapa seguinte, a mais difícil de seu elevado empreendimento. Nos países em que as comunidades bahá'ís locais haviam progredido suficientemente em número e em influência, tomaram-se medidas para a inauguração de Assembléias Nacionais, os pivots ao redor dos quais deverão girar todos os empreendimentos de âmbito nacional. Designadas por 'Abdu'l-Bahá em Seu Testamento como as "Casas Secundarias de Justiça", constituem os corpos eleitorais para a formação da Casa Internacional de Justiça, e possuem poderes para dirigir, unificar, coordenar e estimular as atividades de indivíduos, bem como de Assembléias locais dentro de sua jurisdição. Repousando na ampla base formada pelas comunidades locais organizadas e, por sua vez, servindo de pilares para sustentar a instituição que deve ser considerada o ápice da Ordem Administrativa Bahá'í, essas Assembléias são eleitas, de acordo com o princípio de representação proporcional, por delegações representantes das comunidades bahá'ís locais reunidos em Convenção durante o Festival de Ridván; estão munidas da necessária autoridade para habilita-las a assegurar o desenvolvimento harmonioso e eficiente da atividade bahá'í dentro de suas respectivas esferas; estão libertadas de toda e qualquer responsabilidade direta, no que concerne às suas providências e decisões, em relação aos seus eleitorados; estão incumbidas do dever sagrado de tomar conhecimento das opiniões dos delegados, de acolher-lhes as recomendações e assegurar-lhes a confiança e a cooperação, bem como de familiariza-los com seus planos, problemas e ações; e são mantidas pelos recursos de fundos nacionais para os quais todas as camadas dos fiéis são solicitadas a contribuir.

Estes corpos nacionais instituídos nos Estados Unidos da América (1925) (a Unidade do Templo Bahá'í formada durante o ministério da 'Abdu'l-Bahá sendo substituída, nesse país, pela Assembléia Nacional), nas Ilhas Britânicas (1923), na Alemanha (1923), no Egito (1924), no Iraque (1931), na Índia (1923), na Pérsia (1934) e na Austrália (1934) - sendo sua eleição renovada anualmente por delegados cujo número tem sido fixado, de acordo com exigências nacionais, em 9, 19, 95 ou 171 (9 vezes 19) - estes corpos, com sua formação, têm assinalado o nascimento de uma nova época na Idade Formativa da Fé e marcado uma etapa mais avança na evolução, na unificação e na consolidação de uma comunidade que continuamente se expande. Essas Assembléias Bahá'ís Nacionais são assistidas por comitês nacionais - a elas responsáveis e por elas escolhidos, sem discriminação, dentre o inteiro corpo dos crentes sob sua jurisdição - a cada um dos quais é designada uma esfera especifica de serviço bahá'í. Com esse auxílio, à medida que, constantemente, se tem ampliado o âmbito de suas atividades, essas Assembléias - através do espírito de disciplina que têm inculcado e em virtude de sua lealdade incondicional a princípios que têm habilitado a superar todos os preconceitos, sejam de raça, nação, classe ou cor - têm provado ser capazes de administrar, de um modo notável, as sempre crescentes atividades de uma Fé recém-consolidada.

Os próprios comitês nacionais não têm sido menos enérgicos e devotados no desempenho de suas respectivas funções. Na defesa dos interesses vitais da Fé ou seja, na exposição de sua doutrina, na disseminação de sua literatura, na consolidação de suas finanças, na organização de suas equipes de ensino e na promoção da solidariedade de suas partes componentes; como também na compra de seus locais históricos, na preservação de seus sagrados arquivos, tesouros e relíquias; em seus contatos com as várias instituições da sociedade da qual a Fé faz parte, na educação de sua juventude, no ensino de suas crianças, no aprimoramento de seus adeptos femininos no Oriente - em tudo isso os membros dessas diversas agências, atuando sob a égide de representantes eleitos, nacionais, da comunidade bahá'í, tem demonstrado amplamente sua capacidade de lhe promover, de um modo efetivo, os múltiplos interesses vitais. A simples enumeração dos comitês nacionais - os quais, originando-se pela maior parte no Ocidente e funcionando com eficiência exemplar nos Estados Unidos e no Canadá, agora levam a cabo suas atividades com um vigor e uma unidade de propósitos em vívido contraste com as instituições esgotadas de uma civilização moribunda - bastaria para revelar o âmbito dessas instituições auxiliares postas em movimento por uma evolutiva Ordem Administrativa, ainda na etapa secundaria de seu desenvolvimento: o Comitê de Ensino, os Comitês Regionais de Ensino; o Comitê Inter-Americano; o Comitê de Publicações; o Comitê de Unidade Racial; o Comitê de Juventude; o Comissão de Revisão; o Comitê de Manutenção do Templo; o Comitê de programas para o Templo; o Comitê de Guias para o Templo; o Comitê de Bibliotecários e Vendas do Templo; o Comitê de Serviços de Meninos e Meninas.; o Comitê de Educação Infantil; os Comitês de Progresso, Ensino e programas para a Mulher; o Comitê Legal; o Comitê de Arquivos e História; o Comitê de Censo; o Comitê de Exposições Bahá'ís; o Comitê de oficias Bahá'ís; o comitê de "Bahá'í News Service"; o Comitê de Transcrição em Braille; o Comitê de Contatos; o Comitê de Serviços; o Comitê Editorial; o Comitê de índices; o Comitê de Biblioteca; o Comitê de Rádio; o Comitê de Contabilidade; o Comitê de "Souvenirs" Anuais; o Comitê Editorial do "Bahá'í World"; o Comitê de programas de Estado; o Comitê da Língua Internacional Auxiliar; o Comitê do Instituto de Educação Bahá'í; o Comitê de "World Order Magazine"; o Comitê Bahá'í de Relações Públicas; o Comitê de Escolas Bahá'ís; os Comitês de Escolas de Verão; o Comitê da Escola Internacional; o Comitê de Folhetos; o Comitê de Cemitérios Bahá'ís; o Comitê de Haziratu'lQuds; o Comitê de Mashriqu'l-Adhkár; o Comitê de Desenvolvimento das Assembléias; o Comitê Nacional de História; o Comitê de Materiais Miscelâneos; o Comitê de Literatura Gratuita; o Comitê de Traduções; o Comitê para Catalogar Epístolas; o Comitê Editor de Epístolas; o Comitê de Propriedades; o Comitê de Ajustes; o Comitê de Publicidade; o Comitê de Oriente e Ocidente; o Comitê de Benefícios; o Comitê de Transcrição de Epístolas; o Comitê de Instrutores Viajantes; o Comitê de Educação Bahá'í; o Comitê de Lugares Sagrados; o Comitê da Caixa Econômica para Crianças.

O estabelecimento de Assembléias locais e nacionais e a subseqüente formação de Comitês locais e nacionais, agindo como coadjuvantes necessárias aos representantes eleitos das comunidades bahá'ís, tanto no Oriente como no Ocidente, ambos constituindo em si mesmos fatos notáveis, mas eram, senão um prelúdio de uma série de empreendimentos da parte das recém-formadas Assembléias Nacionais que contribuíram de maneira importante para a unificação da comunidade bahá'í mundial e para a consolidação de sua Ordem Administrativa. O passo inicial dado nesse sentido foi a redação e a adoção de uma constituição bahá'í nacional arquitetada e promulgada pela primeira vez pelos representantes eleitos da Comunidade Bahá'í Americana em 1927, cujo texto desde então foi traduzido com pequenas variantes adaptadas a exigências nacionais - para o árabe, o alemão, e o persa, e constitui, presentemente, a carta das Assembléias Espirituais Nacionais dos Bahá'ís dos Estados Unidos e do Canadá, das Ilhas Britânicas, da Alemanha, da Pérsia, do Iraque, da Índia e Birmânia, do Egito e Sudão, da Austrália e Nova Zelândia. Prenunciando a formulação da constituição da futura Comunidade Bahá'í Mundial; submetida à apreciação de todas as Assembléias locais e ratificada por todo o conjunto dos bahá'ís reconhecidos nos países que possuem Assembléias nacionais, essa constituição nacional foi suprida por um documento análogo, contendo os regulamentos das Assembléias bahá'ís locais, redigido primeiro pela comunidade bahá'í de Nova York em novembro de 1931, e aceito como um modelo para todas as constituições bahá'ís locais. O texto dessa constituição nacional compreende uma Declaração de Incumbência, cujos artigos estabelecem o caráter e os objetivos da comunidade bahá'í nacional, determinam as funções do seu corpo de representantes eleitos, bem como designam a sua sede e descrevem o emblema oficial, e contem uma série de regulamentos que definem o estado geral, o modo de eleição, os poderes e deveres tanto das Assembléias locais como das nacionais, descrevem a relação da Assembléia Nacional com a Casa Internacional de Justiça, bem como sua relação às Assembléias locais e aos bahá'ís individuais; esboçam os direitos e obrigações da Convenção Nacional e sua relação para com a Assembléia Nacional, revelam o caráter das eleições bahá,'ís e estatuem os requisitos necessárias para que os membros exerçam o direito de voto em todas as comunidades bahá'ís.

A estrutura dessas constituições, tanto locais como nacionais, que para todos o fins e propósitos são idênticas em suas cláusulas, forneceu a base necessária à incorporação legal dessas instituições administrativas de acordo com estatutos civis que controlam entidades religiosas ou comerciais.

Ao dar a essas Assembléias categoria legal, essa incorporação lhes consolidou consideravelmente o poder e aumentou a capacidade e, nesse sentido, a realização da Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá'ís dos Estados Unidos e do Canadá e da Assembléia Espiritual dos Bahá'ís de Nova York deu mais uma vez um exemplo digno de ser emulado por suas Assembléias irmãs tanto do Oriente como do Ocidente. A incorporação da Assembléia Espiritual Nacional Americana como Fideicomissário voluntário - uma espécie de corporação reconhecida sob a lei consuetudinária, que lhe permite assinar contratos, possuir propriedades e receber legados, em virtude de um certificado emitido em maio de 1929, sob o selo do Departamento de Estado em Washington e levando a assinatura do Secretário de Estado, Henry L. Stimson - foi seguida pela adição de medidas legais semelhantes que resultaram, sucessivamente, na incorporação da Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá'ís da Índia e Birmânia, em janeiro de 1933, em Lahore, no Estado de Punjab, segundo as provisões da Ata de Registro de Sociedades de 1860; da Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá'ís do Egito e Sudão, em dezembro de 1934, assim como certificado pela Corte Mista em Cairo; da Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá'ís da Austrália e Nova Zelândia, em janeiro de 1938, segundo testemunho do Arquivista Comissionado no Departamento do Arquivo Geral para o Estado de Austrália do Sul; e, mais recentemente, da Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá'ís das Ilhas Britânicas, em agosto de 1939, como companhia ilimitada, sem fins de lucro, sob a Ata de Companhias de 1929 e certificada pelo Assistente Arquivista de Companhias na Cidade de Londres.

Paralelamente com a incorporação legal dessas Assembléias Nacionais, um número muito maior de Assembléias Bahá'ís locais foi incorporado de modo igual, seguindo o exemplo dado pela Assembléia Bahá'í de Chicago em fevereiro de 1932, em países tão distantes um do outro como os Estados Unidos da América, a Índia, o México, a Alemanha, o Canadá, a Austrália, a Nova Zelândia, a Birmânia, a Costa Rica, o Beluchistão e as Ilhas do Havaí. As Assembléia Espirituais dos Bahá'ís de Esslingen na Alemanha, da Cidade do México no México, de San Jose em Costa Rica, de Sydney e Adelaide na Austrália, de Auckland na Nova Zelândia, de Delhi, Bombaim, Karachi, Poona, Calcutá, Secunderabad, Bangalore, Vellore, Ahmedabad, Serampore. Andhert e Baroda na Índia, de Tuetta no Beluchistão, de Rangoon, Mandalay e Daidanow-Kalazoo na Birmânia, de Montreal e Vancouver no Canadá, de Honolulu nas Ilhas de Havaí, e de Chicago, Nova York, Washington, D. C., Boston, San Francisco, Filadélfia, Kenosha Teaneck, Racine, Detroit, Cleveland, Los Angeles, Milwaukee, Minneapolis, Cincinnati, Winnetka, Phoenix, Columbus, Lima, Portland, Jersey City, Wilmette, Peoria, Seattle, Binghampton, Helena, Richmond Highlands, Miami, Pasadena, Oakland, Indianapolis, St. Paul, Berkeley, Urbana, Springfield e Flint nos Estados Unidos da América - todas estas, gradativamente, e depois de submeterem às autoridades civis em seus respectivas estados ou províncias o texto de constituições bahá'ís locais quase idênticas conseguiram constituir-se em sociedades e corporações reconhecidas por lei e protegidas pelos estatutos civis vigentes em seus respectivos países.

Assim como a formulação de constituições bahá'ís, havia oferecido a base para a incorporação das Assembléias Espirituais Bahá'ís, do mesmo modo o reconhecimento que as autoridades locais e nacionais concederam aos representantes eleitos das comunidades, preparam o caminho para o estabelecimento de doações bahá'ís nacionais e locais - um empreendimento histórico que, como no caso de realizações anteriores de vasta importância, a Comunidade Bahá'í Americana foi a primeira a iniciar. Na maioria dos casos, essas doações, por causa de seu caráter religioso, têm sido isentas de impostos tanto governamentais como municipais, em conseqüência de representes feitas às autoridades civis pelas comunidades bahá'ís incorporadas, embora o valor das propriedades assim isentadas tivesse, em mais de um país, atingido uma soma considerável.

Nos Estados Unidos da América as doações nacionais da Fé, já representando um milhão setecentos e cinco mil dólares estabelecidas mediante uma série de Escrituras de confiança, criadas em 1928, 1929, 1935, 1938, 1939, 1941 e 1942, pela Assembléia Espiritual Nacional desse país, atuando como Fideicomissários da Comunidade Bahá'í Americana - incluem agora o terreno e a estrutura do Mashriqu'l-Adhkár e a casa do zelador, em Wilmette, Illinois; o Haziratu'l-Quds (Sede Bahá'í Nacional) adjacente e seu escritório administrativo suplementar; "The Inn" (Hospedaria), "Fellowship House" (Casa de Confraternização), a Sala Bahá'í, o Estúdio de Artes e Ofícios, uma fazenda, várias chácaras, alguns terrenos, inclusive a propriedade de Monsavat, abençoada pelas pegadas de 'Abdu'l-Bahá, em Green Acre, no Estado de Maine; a Casa Bosch, a Sala Bahá'í, um pomar, o Bosque Redwood, um dormitório e edifícios do Rancho de Geyserville, Califórnia; a Casa Wilhelm, a Cabana Evergreen, um bosque de pinheiros e sete lotes com construção em West Englewood, New Jersey, cena da memorável Festa de Unidade oferecida por 'Abdu'l-Bahá, em junho de 1912, aos bahá'ís do distrito metropolitano de Nova York; a Casa Wilson, abençoada por Sua presença, e terrenos em Malden, Massachusetts; a Casa Mathews e prédios do Rancho de Pine Valley, Colorado; terreno em Muskegon, Michigan e um lote de cemitério em Portsmouth, New Hampshire.

Em seu país de origem, a Fé possui agora bens de importância ainda maior e cujo valor total é muito superior ao das doações nacionais da Comunidade Bahá'í Americana, embora suas escrituras estejam em nomes de certos indivíduos como fideicomissários, por causa da impossibilidade de serem as Assembléias nacionais e locais incorporadas pela Comunidade Bahá'í Persa. À Casa do Báb em Shiráz e ã Casa ancestral de Bahá'u'lláh em Tákur, Mázindarán - já em poder da Comunidade no tempo do ministério de 'Abdu'l- Bahá, - têm sido acrescentadas, desde Sua ascensão, extensas propriedades nas cercanias da capital, situadas nos declives do Monte Alburz, com vista da cidade natal de Bahá'u'lláh, as quais incluem uma fazenda, um jardim e uma vinha, tendo uma área de mais de três milhões e meio de metros quadrados, preservadas como o futuro sitio do primeiro Mashriqu'l-Adhkár na Pérsia. Outras aquisições que têm estendido muito o âmbito das doações nesse país incluem a Casa em que Bahá'u'lláh nasceu, em Teerã; vários prédios adjacentes à Casa do Báb em Shiráz, inclusive a casa que era propriedade de Seu tio materno; a loja ocupada pelo Báb durante os anos em que Ele era comerciante em Bushihr; um bairro da aldeia de Chihriq, onde Ele esteve confinado; a casa de Hájí Mirzá Jáni, onde Ele se deteve em seu caminho para Tabríz; o banho publico usado por Ele em Shiráz e algumas casas adjacentes; a metade da casa que pertencia a Hujjat em Zanján; os três jardins arrendados por Bahá'u'lláh na aldeia de Badasht; o Lugar da sepultura de Quddús em Bárfurúsh; a casa de Kalantar em Teerã, cena do encarceramento de Táhirih; o banho publico visitado pelo Báb quando Ele esteve em Urúmíyyih, Azerbaidjan; a casa de propriedade de Mirzá Husayn, Alíy-i-Núr, onde foram ocultados os restas mortais do Báb; o Babíyyih e a casa que pertencia a Mullá Husayn em Mashhad; a residência do Sultanu'sh-Shuhadá (Rei dos Mártires) e do Mahbúbu'sh-Shuhadá (Bem-Amado dos Mártires) em Isfáhán, como também um número considerável de locais e casas, inclusive lugares de sepultura associados com os heróis e mártires da Fé. Essas propriedades que, com muito poucas exceções, foram adquiridas recentemente na Pérsia, estão sendo conservadas agora e, ano a ano, aumentadas, como também - sempre que for necessário - restauradas cuidadosamente mediante os assíduos esforços de um Comitê nacional, especialmente nomeado, que atua sob a constante supervisão geral dos representantes eleitos dos bahá'ís persas.

Não devemos deixar de mencionar os variados e sempre crescentes bens nacionais que, desde o início da Ordem Administrativa da Fé de Bahá'u'lláh, têm sido adquiridos constantemente em outros países, como a Índia, a Birmânia, as Ilhas Britânicas, Alemanha, Iraque, Egito, Austrália, Transjordânia e Síria. Entre estes, podemos mencionar especialmente o Haziratu'lQuds dos Bahá'ís do Iraque, o Haziratu'l-Quds dos Bahá'ís do Egito, o Haziratu'l-Quds dos Bahá'ís da Índia, o Haziratu'l-Quds dos Bahá'ís da Austrália, o Lar Bahá'í em Esslingen, a Editora dos Bahá'ís das Ilhas Britânicas, a Casa de Peregrinos Bahá'í em Bagdá e os Cemitérios Bahá'ís estabelecidos nas capitais de Pérsia, Egito e Turquestão. Quer sejam na forma de terrenos, escolas, sedes administrativas, secretariados, bibliotecas, cemitérios, hospedarias ou casas editoras, essas propriedades, largamente espalhadas, - algumas registradas em nome de Assembléias Nacionais incorporadas e outras mantidas em fideicomisso por bahá'ís individuais reconhecidos - têm contribuído de sua parte à ininterrupta expansão das doações bahá'ís nacionais em anos recentes, bem como a consolidação de suas bases. De importância vital, embora de significado menos notável, têm sido também as doações locais que vêm suplementando os bens nacionais da Fé e que, em conseqüência da incorporação das Assembléias Bahá'ís locais, têm sido legalmente estabelecidas e salvaguardadas em vários países, tanto no Ocidente como no Oriente. Especialmente na Pérsia, essas propriedades - sejam na forma de terrenos, centros administrativos, escolas ou outras instituições - têm enriquecido consideravelmente as doações locais da Comunidade Bahá'í Mundial e lhes ampliado a extensão.

Simultaneamente com o estabelecimento e a incorporação de Assembléias Bahá'ís locais e nacionais, com a formação de seus respectivos comitês, com a formulação de constituições bahá'ís nacionais e locais, e com a fundação de doações bahá'ís, empreendimentos de grande significado institucional foram iniciados por essas Assembléias recém-fundadas, dentre os quais deve figurar como um dos mais importantes a instituição do Haziratu'l-Quds - a sede da Assembléia Nacional Bahá'í e o eixo de toda atividade administrativa bahá'í no futuro. Essa instituição, estabelecida primeiro na Pérsia, agora universalmente conhecida por seu título oficial e distintivo que significa "o Aprisco Sagrado", assinala um avanço notável na evolução dum processo cujos começos remontam aos tempos de reuniões clandestinas realizadas às vezes subterraneamente e na calada da noite pelos tão perseguidos adeptos da Fé naquele país, e embora esteja ainda nas etapas iniciais de seu desenvolvimento, já contribuiu com o seu quinhão para a consolidação das funções internas da comunidade orgânica bahá'í, apresentando mais uma prova visível de seu progresso continuo e seu poder crescente. Servindo, em suas funções, de complemento as do Mashriqu'l-Adhkár - edifício reservado exclusivamente à devoção bahá'í - essa instituição, quer Bahá'í local ou nacional, à medida que se reúnem num só lugar e se coordenam em funcionamento as suas partes componentes, tais como o Secretariado, a Tesouraria, os Arquivos, a Biblioteca, o Departamento de Publicações, a Sala de Reuniões, a Câmara do Conselho, a Hospedaria dos Peregrinos, será considerada cada vez mais como o foco de toda a atividade administrativa bahá'í e simbolizará, de maneira adequada, o ideal de dedicação que anima a comunidade bahá'í em sua relação para com a Fé e também para com a humanidade em geral.

Do Mashriqu'l-Adhkár, estabelecido como casa de adoração por Bahá'u'lláh no Kitáb-i-Aqdas, as representantes das comunidades bahá'ís - tanto locais como nacionais, juntamente com os membros dos seus respectivos Comitês - à medida que se forem reunindo diariamente dentro de suas paredes na hora do alvorecer, derivarão a inspiração necessária que o habilitará a desempenhar, no decorrer de seus esforços cotidianos no Hazíratu'l-Quds - a cena de suas atividades administrativas - seus deveres e responsabilidades como convém aos administradores eleitos de Sua Fé.

Nas margens do Lago Michigan, nas proximidades do primeiro centro bahá'í estabelecido no continente Americano e a sombra do primeiro Mashriqu'l-Adhkár do Ocidente, e na cidade capital da Pérsia, berço da Fé, bem como na vizinhança da Casa de Suma Grandeza em Bagdá e na cidade de Ishqabad, ao lado do primeiro Mashriqu'l-Adhkár do mundo bahá'í - como também da capital do Egito, centro primordial tanto do mundo árabe como do islâmico, em Delhi, cidade capital da Índia, e até em Sydney, na longínqua Austrália - já foram dados os passos iniciais que devem culminar, afinal, no estabelecimento das sedes administrativas nacionais das comunidades bahá'ís já existentes nesses Países, e em todo seu esplendor e poder.

Em nível local, além disso - nos países já mencionados, bem como em vários outros - foram tomadas as medidas preliminares para estabelecer essa instituição na forma de uma casa pertencente à comunidade bahá'í local, ou por ele alugada, destacando-se entre essas os numerosos prédios administrativos que os bahá'ís de várias províncias da Pérsia têm conseguido comprar ou construir, a despeito dos obstáculos que lhes estão sendo impostos.

De igual importância como fator na evolução da Ordem Administrativa, tem sido o extraordinário progresso conseguido, especialmente nos Estados Unidos da América, com a instituição das escolas de verão planejadas para fomentar o espírito fraternal em uma atmosfera distintamente bahá'í, para oferecer o treinamento necessário para instrutores bahá'ís, para prover facilidades para o estudo da história e dos ensinamentos da Fé e para criar uma compreensão melhor de sua relação com outras religiões e com a sociedade humana em geral.

Essas escolas já foram estabelecidas em três centros regionais, para as três principais divisões do continente norte-Americano - em Geyserville, nas ladeiras da Califórnia (1927), em Green Acre, nas margens do Rio Piscataqua, no Estado de Maine (1929), e em Louhelen Ranch, perto de Davison, Michigan (1931) sendo recentemente suplementadas pela Escola Internacional fundada em Pine Valley, Colorado Springs, dedicada ao treino de instrutores bahá'ís que desejam servir em outros países, e especialmente na América Latina. Essas três embrionárias instituições bahá'ís de educação com a constante expansão de seus programas, têm dado um exemplo digno de ser imitado por outras comunidades bahá'ís do Oriente e Ocidente. Essas escolas têm possibilitado um estudo intensivo das Escrituras Bahá'ís e dos primórdios da história da Fé, organizado cursos sobre os ensinamentos e a história do islã, e conferências para a promoção de amizade entre as raças; tem oferecido cursos práticos que visam familiarizar os participantes com os processes de Ordem Administrativa Bahá'í, e sessões especiais dedicadas ao ensino dos jovens e das crianças. Seus currículos têm incluído cargos de oratória, conferências sobre Religiões Comparadas, cargos de ensino, de ética bahá'í e sobre a América Latina. Têm sido organizadas discussões em grupo sobre os múltiplas aspectos da Fé e reuniões devocionais e foros, como também peças teatrais e espetáculos, inclusive sessões especiais de inverno, e várias atividades recreativas, como piqueniques, sendo estabelecidas também bibliotecas. Assim, por todos esses meios, as escolas de verso, abertas a bahá'ís e não-bahá'ís igualmente, com seu tão nobre exemplo, têm inspirado outras comunidades bahá'ís - na Pérsia, nas Ilhas Britânicas, na Alemanha, na Austrália, na Nova Zelândia, na Índia, no Iraque e no Egito - a empreenderem as medidas iniciais designadas para capacitá-las a edificar, segundo as mesmas normas, instituições que prometem evoluir até se tornarem as universidades bahá'ís do futuro.

Entre outros fatores que têm contribuído à expansão e ao estabelecimento da Ordem Administrativa, podemos mencionar as atividades organizadas da juventude bahá'í, já muito adiantadas na Pérsia e nos Estados Unidos da América, e iniciadas mais recentemente na Índia, nas Ilhas britânicas, na Alemanha, no Iraque, no Egito, na Austrália, na Bulgária, nas Ilhas do Havaí, na Hungria e em Havana. Essas atividades incluem Simpósios anuais da Juventude Bahá'í, em nível mundial, sessões de juventude em escolas bahá'ís de verão, boletins e revistas de juventude, um departamento de correspondência internacional, facilidades de inscrição para jovens que desejam ingressar na Fé, a publicação de guias e referências para o estudo dos ensinamentos e a organização de um grupo bahá'í de estudos como atividade oficial universitária em uma das principais universidades Americanas. Incluem, ainda mais, "dias de estudo" em lares e centros bahá'ís, classes para o estudo do esperanto e de outros idiomas, a organização de bibliotecas bahá'ís e salas de leitura, produção de espetáculos e peças teatrais bahá'ís, realização de concursos de oratória, a educação de órfãos, classes sobre como falar em publico, reuniões para perpetuar a memória de personalidades históricas bahá'ís, conferências regionais entre grupos, e sessões de juventude em relação com as convenções anuais bahá'ís.

Ainda outras fatores que têm promovido o desenvolvimento dessa Ordem, e contribuído para sua consolidação, são a instituição sistemática da Festa de Dezenove Dias, que funciona na maioria das comunidades bahá'ís de Oriente e Ocidente, com sua tríplice ênfase nos aspectos devocional, administrativa e social da vida comunitária bahá'í; o início de atividades designadas a preparar um censo das crianças bahá'ís e lhes prover cursos práticos, livros de orações e literatura elementar; e a formulação e publicação de um conjunto de declarações autoritativas sobre o caráter apolítico da Fé, sobre afiliação com organizações religiosas nao-bahá'ís, sobre métodos de ensino, sobre a atitude bahá'í para com a guerra, e sobre as instituições da Convenção Anual, da Assembléia Espiritual Bahá'í, da Festa de Dezenove Dias e do Fundo Nacional. Deve-se fazer referência, além disso, ao estabelecimento de Arquivos Nacionais para se autenticar e colecionar as Epístolas de Bahá'u'lláh e de 'Abdu'l-Bahá, para que sejam traduzidas, catalogadas e preservadas, e para a preservação de relíquias sagradas e documentos históricos. Também devemos nos referir à verificação e transcrição das Epístolas originais do Báb, de Bahá'u'lláh e de 'Abdu'l-Bahá em poder de bahá'ís orientais, à compilação de uma história detalhada da Fé dos de seu início até o tempo atual, a abertura de um Departamento Bahá'í Internacional em Genebra, à realização de convenções bahá'ís de distrito, à compra de locais históricos, ao estabelecimento de bibliotecas comemorativas bahá'ís e ao início de uma próspera Caixa Econômica para crianças na Pérsia.

Nem se deve deixar de mencionar a participação, quer oficial ou não, de representantes dessas recém-fundadas comunidades bahá'ís nacionais, nas atividades e deliberações de grande variedade de congressos, associações, convenções e conferências levadas a cabo em vários países da Europa, da Ásia e da América, para a promoção da unidade religiosa, da paz, da educação, da cooperação internacional, da amizade entre as raças e para outros fins humanitários. Com organizações tais como a Conferência de algumas Religiões existentes dentro do Império Britânico ("Conference of some Litnns Religions Within the British Empire"), realizada em Londres em 1924, e a Confraternização Mundial de Religiões ( World Fellowship of Faiths) que se celebrou nessa mesma cidade em 1936; com os Congressos Universais de Esperanto convocados anualmente em várias capitais da Europa; com o Instituto para Cooperação Intelectual; com a Exposição do Século do Progresso (Century of Progress Exhibition) realizada em Chicago em 1933; com a Feira Mundial em Nova York em 1938 e 1939; com a Exposição Internacional de Golden Gate realizada em San Francisco em 1939; com a Primeira Convenção do Congresso Religioso em Calcutá; com a Segunda Conferência Cultural Pan-Indiana convocada nessa mesma cidade; com a Convenção da Liga de Todas as Religiões em Indore; com as Conferências de Arya Samaj e Brahmo Samaj, bem como as da Sociedade Teosófica e a Conferência Feminina Pan-Asiatica, realizadas em várias cidades da Índia; com o Conselho Mundial da Juventude; com o Congresso das Mulheres Orientais em Teerã; com a Conferência Feminina Pan-Pacifico em Honolulu; com a Liga Internacional Feminina Pró- Paz e a Conferência dos Povos em Buenos Aires na Argentina - com todos estes e outros, foram cultivadas, de uma ou outra forma, relações que têm servido ao duplo propósito de demonstrar o caráter universal e compreensivo da Fé de Bahá'u'lláh e de forjar elos vitais e duradouros entre eles e as amplamente difundidas agências de sua Ordem Administrativa.

Tampouco devemos deixar de levar em conta ou de apreciar os contatos estabelecidos entre essas mesmas agências e algumas das mais altas autoridades governamentais, tanto no Oriente como no Ocidente, como também entre essas agências e os chefes do islã na Pérsia, ou a Liga das Nações, e até entre elas e a própria realeza, com o fim de defender os direitos, ou de apresentar a literatura, ou de expor os objetivos e propósitos dos seguidores da Fé em seus incansáveis esforços por apoiar a causa de uma Ordem Administrativa ainda em sua infância. As comunicações dirigidas pelos membros da Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá'ís dos Estados Unidos e do Canadá - os campeões construtores dessa Ordem - ao Alto Comissário da Palestina, pedindo que as chaves do Sepulcro de Bahá'u'lláh fossem restituídas a seu zelador; ao Xá da Pérsia, em quatro ocasiões, implorando justiça para seus irmãos que estavam sendo perseguidos dentro de seus domínios; ao Primeiro Ministro da Pérsia sobre esse mesmo assunto; à Rainha Marie da Romênia, expressando gratidão por seus históricos tributos a Fé Bahá'í; aos chefes do islã na Pérsia, fazendo um apelo por harmonia e paz entre as religiões; ao Rei Faissal do Iraque com o fim de assegurar a proteção da Casa de Suma Grandeza em Bagdá; às autoridades soviéticas para a proteção das comunidades bahá'ís na Rússia; às autoridades da Alemanha a respeito dos sofrimentos de seus irmãos alemães; ao governo do Egito sobre a emancipação de seus correligionários do jugo da ortodoxia islâmica; ao Ministério Persa com referência ao fechamento de instituições bahá'ís de educação na Pérsia; ao Departamento de Estado do governo dos Estados Unidos, ao Embaixador da Turquia em Washington e ao ministério Turco em Ankara, em defesa dos interesses da Fé na Turquia; a esse mesmo Departamento de Estado a fim de facilitar o traslado dos restos mortais de Lua Getsinger do Cemitério Protestante do Cairo para o primeiro cemitério bahá'í estabelecido no Egito; ao ministro persa em Washington sobre a missão de Keith Ransom-Kehler; ao Rei do Egito, anexando literatura bahá'í; ao governo dos Estados Unidos e ao do Canadá, expondo os ensinamentos bahá'ís referentes à Paz Universal; ao Ministro da Romênia em Washington, em nome dos bahá'ís americanos, na ocasião do falecimento da Rainha Marie da Romênia, e ao Presidente Franklin D. Roosevelt para levar a seu conhecimento o chamado feito por Bahá'u'lláh em Seu Kitáb-i-Aqdas aos presidentes das Repúblicas Americanas e certas orações reveladas por 'Abdu'l-Bahá - tais comunicações constituem, em si, um capítulo notável e iluminador na história do desenvolvimento da Ordem Administrativa Bahá'í.

A estas devem ser acrescentadas as comunicações emitidas do centro mundial da Fé, como também por Assembléias bahá'ís nacionais e locais, quer por telégrafo ou por escrito, ao Alto Comissário da Palestina, nas quais lhe suplicavam que as chaves do Túmulo de Bahá'u'lláh fossem restituídas a seu zelador original. Devemos acrescentar também os apelos feitos pelos centros bahá'ís do Oriente a Ocidente as autoridades do Iraque pela restituição da Casa de Bahá'u'lláh em Bagdá e o apelo subseqüente dirigido ao Secretário de Estado Britânico para as Colônias, logo depois do veredicto da Corte de Apelações de Bagdá sobre a questão, bem como as mensagens despachadas à Liga das Nações, em nome das comunidades bahá'ís do Oriente e Ocidente, expressando sua apreciação pelo pronunciamento oficial do Conselho da Liga a favor das reclamações apresentadas pelos bahá'ís, assim como também várias cartas trocadas entre o Centro Internacional da Fé, por um lado, e o protótipo de instrutor bahá'í, Martha Root, por outro, com a Rainha Marie da Romênia, após a publicação de suas históricas apreciações sobre a Fé, e as mensagens de condolência dirigidas a Rainha Marie da Iugoslávia, em nome da Comunidade Bahá'í Mundial, na ocasião do passamento de sua mãe, e à Duquesa de Kent depois da trágica morte de seu esposo.

Nem devemos deixar de fazer menção especial da petição dirigida pela Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá'ís do Iraque à Comissão de Mandatos da Liga das Nações, em conseqüência da confiscação da Casa de Bahá'u'lláh em Bagdá, ou das mensagens escritas enviadas por essa mesma Assembléia ao Rei Ghází I do Iraque, após a morte de seu pai e na ocasião de seu casamento, ou das condolências transmitidas por escrito ao atual Regente do Iraque na ocasião da morte repentina desse rei. Devemos mencionar também as comunicações da Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá'ís do Egito apresentadas ao Primeiro Ministro Egípcio, ao Ministro do Interior e ao Ministro da Justica, após o veredicto da corte eclesiástica muçulmana no Egito, e as cartas dirigidas pela Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá'ís da Pérsia ao Xá e ao Ministério Persa com referência ao fechamento das escolas bahá'ís e à interdição imposta à literatura bahá'í nesse país. Menção deve ser feita, além disso, às mensagens escritas despachadas pela Assembléia Espiritual Nacional dos bahá'ís da Pérsia ao Rei da Romênia e a Família Real na ocasião da morte de sua mãe, Rainha Marie, como também ao Embaixador da Turquia em Teerã, acompanhando a contribuição dos bahá'ís persas para as vítimas do terremoto na Turquia, e das cartas de Martha Root ao falecido Presidente Von Hindenburs e ao Dr. Streseman, Ministro Alemão das Relações Exteriores, juntamente com as quais ela lhes apresentava literatura bahá'í, bem como das sete petições sucessivas dirigidas ao Xá da Pérsia por Keith Ransom Kehler e de suas numerosas comunicações aos vários ministros e altos dignitários do reino, durante sua memorável visita a esse país.

Colateralmente com esses primeiros sinais da Ordem Administrativa Bahá'í, e coincidindo com a formação das comunidades bahá'ís nacionais e com a organização de suas agências administrativas, educacionais e de ensino, estava se desenvolvendo irresistivelmente o poderoso processo posto em movimento na Terra Santa - o coração e centro nervoso dessa Ordem Administrativa - nas memoráveis ocasiões em que Bahá'u'lláh revelou a Epístola do Carmelo e visitou o futuro local do sepulcro do Báb. Esse processo havia recebido um tremendo ímpeto com a sua aquisição, pouco depois da ascensão de Bahá'u'lláh, com o subseqüente traslado dos restos mortais do Báb, de Teerã a 'Akká, com a construção desse sepulcro durante os anos mais atribulados do encarceramento de Abdu'l-Bahá e, afinal, com a permanente inumação desses restos mortais no coração do Monte Carmelo, com o estabelecimento de uma casa de peregrino nas imediações desse sepulcro e com a escolha do futuro local da primeira instituição educacional bahá'í nessa montanha.

Beneficiadas pela liberdade concedida ao centro mundial da Fé de Bahá'u'lláh - desde a ignominiosa derrota do decrépito império Otomano durante a guerra de 1914-1918 - as forças liberadas com o início do estupendo Plano por Ele concebido, podiam fluir agora sem estorvos, sob a influência benéfica a de um regime favorável, para canais designados a revelar ao mundo em geral as potências dos quais fora dotado esse Plano. O sepultamento do próprio 'Abdu'l-Bahá, numa abóbada do mausoléu do Báb - o que realçou ainda mais o caráter sagrado dessa montanha; a instalação de uma usina elétrica - primeira de sua classe a ser estabelecida na cidade de Haifa - inundando de iluminação o Túmulo Daquele a Quem, em Suas próprias palavras fora negada até uma "lâmpada acesa" em Sua fortaleza-prisão em Azerbaidjan; a construção de três aposentos adicionais adjacentes a seu sepulcro, assim completando o plano de 'Abdu'l-Bahá para a primeira unidade desse Edifício; não obstante as maquinações dos violadores do Convênio a vasta ampliação das propriedades que rodeiam esse lugar de descanso, estendendo-se do cume do Carmelo à colônia dos Templários, a qual se abriga a seu pé, e representando bens calculados em não menos de quatrocentas mil libras, juntamente com a aquisição de quatro lotes de terreno, dedicados aos Santuários Bahá'ís - situados na planície de 'Akká para o norte, no distrito de Beersheba para o sul e no vale do Jordão para o oriente, tendo uma área total de aproximadamente seiscentos acres - e a construção de uma série de terraços que, segundo foram desenhados por 'Abdu'l-Bahá, deverão prover acesso direto ao Túmulo do Báb, desde a cidade situada à sua sombra, bem como o embelezamento de seus recintos pela formação de parques e jardins, abertos diariamente ao público, e atraindo a seus portais tanto os residentes como os turistas - podemos ver em tudo isso as evidências iniciais da maravilhosa expansão das instituições internacionais e doações da Fé em seu centro mundial. Especialmente significativa, além disso, foi a isenção tributária concedida pelo Alto Comissário da Palestina à área inteira nos terrenos em volta, dedicados ao Santuário do Báb, à propriedade da escola e dos arquivos em sua vizinhança, à Casa dos Peregrinos Ocidentais situada nas proximidades, e a vários locais históricos, tais como a Mansão em Bahjí, a Casa de Bahá,'u'lláh em 'Akká e o Jardim do Ridván para o leste dessa cidade. Também foi significativo o estabelecimanto - como resultado de duas petições formais submetidas às autoridades civis - dos Ramos Palestinos das Assembléia Espirituais Nacionais da América e da Índia como sociedades religiosas reconhecidas na Palestina (a ser seguido, para fins de consolidação interna, por uma incorporação semelhante dos ramos de outras Assembléias Espirituais Nacionais em todo o mundo bahá'í), bem como a transferência ao Ramo da Assembléia Espiritual Nacional Americana - mediante uma série de nada menos de trinta transações - de propriedades dedicadas ao Túmulo do Báb, com uma área total de aproximadamente cinqüenta mil metros quadrados, a maioria de cujas escrituras tem a assinatura do filho do Arqui-violador do Convênio de Bahá'u'lláh, em sua qualidade de arquivista de terras em Haifa.

Igualmente significativa foi a fundação, no Monte Carmelo, de dois Arquivos Intencionais - sendo um adjacente ao Santuário do Báb e o outro nas imediações do lugar de descanso da Mais Sagrada Folha nos quais, pela primeira vez na história bahá'í, tesouros inestimáveis, antes espalhados e muitas vezes escondidos para segurança, tem sido colecionados e agora são mostrados aos peregrinos visitantes. Esses tesouros incluem retratos do Báb e de Bahá'u'lláh, relíquias pessoais, como o cabelo, o pó e as vestes do Báb, mechas de cabelo e sangue de Bahá'u'lláh, e tais artigos como Sua caixa de penas, Suas vestimentas, Seus tájes (turbantes) de brocado, o kashkúl (cuia) de Seus dias em Sulaymáníyyih, Seu relógio e Seu Alcorão; manuscritos e Epístolas de valor inestimável, sendo alguns iluminados, assim como uma parte das Palavras Ocultas, escrita pessoalmente por Bahá'u'lláh, o Bayán Persa, na letra de Siyyid Husayn, amanuense do Báb, as Epístolas originais as Letras dos Vivos escritas pelo Báb, e o manuscrito de "Some Answered Questions" (Respostas a Algumas Perguntas). Essa preciosa coleção, além disso, inclui objetos e pertences associados com 'Abdu'l-Bahá, as vestes sangrentas do Mais Puro Ramo, o anel de Quddús, a espada de Mullá Husayn, os selos do Vizir, pai de Bahá'u'lláh, o broche dado de presente a Martha Root pela Rainha da Romênia, os originais das cartas da Rainha a ela e a outras pessoas, e de seus tributos a Fé, bem como não menos de vinte volumes de orações e Epístolas reveladas pelos Fundadores da Fé, autenticadas e transcritas por Assembléias Bahá'ís em todo o Oriente, e suplementando a vasta coleção de seus escritos publicados.

Além disso, ainda outro testemunho, do majestoso desenvolvimento e progressiva consolidação do empreendimento estupendo lançado por Bahá'u'lláh nessa sagrada montanha, é a escolha de uma parte da propriedade para a escola, situada no recinto do santuário do Báb, como lugar permanente de repouso para a Mais Sagrada Folha, a "bem-amada" irmã de 'Abdu'l-Bahá, a "Folha que brotou" da "Raiz Preexistente", a "fragrância" do "resplandecente manto" de Bahá'u'lláh, por Ele elevada a um "grau jamais superado por mulher alguma", comparável ao grau daquelas heróicas imortais, como Sara, Asuyih, a Virgem Maria, Fátimilh e Táhirih, cada uma das quais excedeu em brilho todos os membros de seu sexo em Dispensações anteriores. E finalmente, como ainda mais evidência das bênçãos do Plano Divino, se deve mencionar que, poucos anos depois - após uma separação de mais de meio século, por causa de sua morte - foram transferidos para esse mesmo lugar sagrado, não obstante os protestos vociferados pelo irmão e lugar-tenente do arqui-violador do Convênio de Bahá'u'lláh, os restos mortais do Mais Puro Ramo, o filho martirizado de Bahá'u'lláh, "criado da luz de Bahá", a "Incumbência confiada por Deus" e seu "Tesouro" na Terra Santa, e oferecido por seu Pai como um "resgate", para a regeneração do mundo e a unificação de seus povos. No mesmo dia em que foram enterrados os restos mortais do Mais Puro Ramo, trasladaram a esse mesmo lugar de sepultura o corpo de sua mãe, a piedosa Navváb, de cujas penosas aflições, segundo afirma 'Abdu'l-Bahá em uma Epístola - o inteiro capitulo 54 do Livro de Isaías dá testemunho, cujo o "Esposo" - nas palavras desse Profeta é "o Senhor dos Exércitos", cuja "semente herdarão os gentios", e que Bahá'u'lláh, em Sua Epístola, destinou a ser "Sua consorte em cada um de Seus mundos".

A união desses três lugares de repouso eterno, à sombra do próprio Túmulo do Báb e acariciados no coração do Carmelo, frente à cidade nívea do outro lado da baía de 'Akká, o Qíblih do mundo bahá'í, situados em um jardim de rara beleza, reforça - se quisermos avaliar devidamente seu significado - as potências espirituais de um lugar designado pelo Próprio Bahá'u'lláh, como a sede do trono de Deus. Assinala, também, mais uma etapa no caminho que levará, afinal, ao estabelecimento daquele permanente Centro Administrativo Mundial da futura Comunidade Bahá'í, destinado a funcionar nas proximidades do Centro Espiritual dessa Fé e jamais dele se separar, em uma terra já reverenciada pelos adeptos de três dos principais sistemas religiosos do mundo e por todos igualmente considerada sagrada.

De importância comparável foi a ereção da superestrutura do primeiro Mashriqu'l-Adhkár do Ocidente, bem como o término de sua ornamentação exterior - a mais nobre das façanhas que têm imortalizado os serviços prestados à Causa de Bahá'u'lláh pela comunidade bahá'í americana. Consumado mediante o funcionamanto eficiente de uma Ordem Administrativa recém-estabelecida, esse empreendimento por si realçou imensamente o prestígio da comunidade que tornou possível sua construção, consolidando-lhe as forças e expandindo suas instituições subsidiárias.

Esse empreendimento, concebido há quarenta e um anos, que original com o pedido dirigido espontaneamente a 'Abdu'l-Bahá, em março de 1903, pela Casa da Espiritualidade, dos bahá'ís de Chicago, o primeiro centro bahá'í estabelecido no mundo ocidental - cujos membros, inspirados pelo exemplo dado por aqueles que construíram o Mashriqu'l-Adhkár de Ishqabad, haviam solicitado permissão para edificar um Templo semelhante na América - foi abençoado por Sua aprovação e Seus fervorosos elogios em uma epístola que Ele revelou em junho do mesmo ano, e foi lançado pelos delegados de várias Assembléias Americanas, reunidos em Chicago em novembro de 1907 para a escolha do local do Templo. Foi estabelecido em base nacional por intermédio de uma corporação religiosa conhecida como Bahá'í Temple Unity" (Unidade do Templo Bahá'í), a qual viera a existir pouco depois da primeira Convenção Bahá'í Americana realizada na mesma cidade em março de 1909, e foi honrado pela cerimônia de dedicação à qual o próprio 'Abdu'l- Bahá presidiu quando, em maio de 1912, visitou esse local. Sempre, desde essa memorável ocasião, esse empreendimento - a realização culminante da Ordem Administrativa da Fé de Bahá'u'lláh no primeiro século bahá'l - havia progredido, embora com algumas interrupções, até o tempo em que, com os alicerces dessa Ordem firmemente lançados no continente norte-americano, a comunidade bahá'í americana se achava em uma posição que lhe permitisse utilizar os instrumentos que forjara para cumprir com eficiência sua tarefa.

Na Convenção Bahá'í americana de 1914 consumou-se a compra da propriedade do Templo. A Convenção de 1920, realizada em Nova York, já havendo recebido instruções de 'Abdu'l-Bahá para que escolhesse o desenho do Templo, dentre vários submetidos em concurso, decidiu a favor do desenho de Louis J. Bourgeois, arquiteto franco-canadense, escolha essa que foi subseqüentemente confirmada pelo próprio 'Abdu'l-Bahá. Os contratos para a colocação das nove grandes sapatas para sustentar a parte central do edifício, até atingirem rochas, a uma profundidade de 120 pés abaixo do nível do solo, e para a construção do alicerce, foram assinados, sucessivamente, em dezembro de 1920 e agosto de 1921. Em agosto de 1930, a despeito da prevalecente crise econômica, e durante um período de desemprego sem paralelo na história da América, foi assinado outro contrato, com vinte e quatro contratos subsidiárias, além deste, para a ereção da superestrutura, a até o dia 1 de maio de 1931 o trabalho foi completado, sendo celebrado neste dia o primeiro oficio devocional na nova estrutura, o qual coincidiu com o décimo nono aniversario da dedicação do terreno por Abdu'l-Bahá. A ornamentação da cúpula iniciou-se em junho de 1932 e terminou em janeiro de 1934. Em julho de 1935 se completou a ornamentação da abóbada e, em novembro de 1938, a da galeria situada embaixo. Não obstante haver irrompido a guerra, empreendeu-se em abril de 1940 a ornamentação do andar principal, e foi completada em julho de 1942; enquanto os dezoito degraus circulares haviam sido colocados até dezembro de 1942, dezessete meses antes da celebração do centenário da Fé, a ocasião para a qual estava programada a terminação do exterior do Templo, e quarenta anos depois que o pedido dos bahá,'ís de Chicago fora submetido a 'Abdu'l-Bahá e por Ele aprovado.

Esse edifício extraordinário, primeiro fruto de uma Ordem Administrativa em lenta evolução, a mais nobre estrutura erigida no primeiro século bahá'í, o símbolo e o precursor de uma futura civilização mundial, esta situado no coração do continente norte-Americano, na margem ocidental do Lago Michigan, circundado por seus próprios terrenos, cuja extensão é de pouco menos de sete acres. Tem sido financiado, a um custo de mais de um milhão de dólares, pela comunidade bahá'í americana, ajudada em algumas ocasiões por contribuições voluntárias de bahá'ís do Oriente e Ocidente, de várias origens - cristã, muçulmana, judia, zoroastriana, hindu e budista. Em sua fase inicial, foi associado com Abdu'l-Bahá, e, nas etapas finais de sua construção, com a memória da Mais Sagrada Folha, do Mais Puro Ramo e de sua mãe. A estrutura própria é branca pura, um edifício em forma de nonágono, de desenho original e ímpar, elevando-se de um lance de escadas brancas que circundam sua base e encimado por uma majestosa cúpula de belas proporções, tendo nove arcos pontiagudos colocados simetricamente, de significado decorativo, bem como estrutural, os quais se remontam até o ápice, unindo-se, afinal, em um ponto comum que mira para o céu. Sua armação é feita de aço estrutural encaixado em concreto, e a material com que está ornamentada é uma combinação de quartzo cristalino, quartzo opaco e cimento branco de Portland, os quais produzem um composto de contextura clara, resistente e durável como pedra, impenetrável aos elementos e amoldado em um desenho tão delicado como renda. Eleva-se a 191 pés do piso da área .subterrânea até a culminância dos arcos que abraçam sua cúpula hemisférica, a qual tem quarenta e nove pés de altura, com um diâmetro exterior de noventa pés, e de cuja superfície a terça parte esta perfurada a fim de deixar entrar luz durante o dia e para emitir luz à noite. Sua estrutura é sustentada por pilões de quarenta e cinco pés de altura e, em cima de suas nove entradas, uma das quais é voltada para 'Akká, há nove citações escolhidas dos escritos de Bahá'u'lláh, como também o Maior Nome no centro de cada um dos arcos, em cima de suas portas. O edifício é consagrado exclusivamente à adoração, destituído de toda cerimônia e ritual, possui um auditório com capacidade para 1600 pessoas e deverá ser suplementado por instituições acessórias de serviço social a além estabelecidas nas cercanias, tais como um orfanato, um hospital, um dispensário para os pobres, um lar para inválidos, uma hospedaria para viajantes e uma faculdade para o estudo das ciências e letras. Muito antes de sua construção, já chamava atenção, e embora não tenha sido começada ainda sua ornamentação interior tem progressivamente chamado tão grande interesse e tantos comentários na imprensa pública, em jornais técnicos e em revistas, não só nos Estados Unidos como também em outros países, que foram justificadas as esperanças e expectativas que 'Abdu'l-Bahá a seu respeito alimentava. Com a exibição de seu modelo em centros de arte, galerias, feiras estaduais e exposições nacionais - entre estas, merecendo menção a Exibição do Século de Progresso, realizada em Chicago em 1933, onde Dada menos de dez mil pessoas, passando pela Sala das Religiões, a deveriam ter vista diariamente - sendo sua réplica incluída na exposição permanente do Museu de Ciências e Industria de Chicago; com visitantes de longe e de perto amontoando-se em suas portas, durante o período de junho de 1932 a outubro de 1941, ultrapassando 130.000 pessoas, e representando quase todos os países do mundo - esse grande "Instrutor Silencioso" da Fé de Bahá'u'lláh - podemos asseverar com confiança, - tem contribuído para a difusão do conhecimento de Sua Fé em uma medida que nem remotamente tem sido aproximada por qualquer outro departamento operando por si só dentro da estrutura de sua Ordem Administrativa.

"Quando os alicerces do Mashriqu'l-Adhkár na América estiverem prontos", predisse o próprio 'Abdu'l-Bahá, "e esse edifício Divino for terminado, o mais admirável e empolgante impulso aparecerá no mundo da existência. Desse ponto de luz, o espírito do ensino, difundindo a Causa de Deus e promovendo os seus ensinamentos, atingirá todas as partes do mundo." "Desse Mashriqu'l-Adhkár", afirmou Ele no Plano Divino, "nascerão, sem dúvida, milhares de Mashriqu'l-Adhkárs." "Assinala", escreveu Ele, além disso, "o início do Reino de Deus no, terra." E ainda: "É o Estandarte manifesto que flutua no centro desse grande continente." "Milhares de Mashriqu'l-Adhkárs," declarou Ele, ao dedicar o terreno do Templo, "serão construídos no Oriente e no Ocidente, mas este, por ser o primeiro erigido no Ocidente, tem grande importância." "Esta organização do Mashriqu'l-Adhkár", disse Ele, ainda mais, referindo-se a esse Edifício, "será um modelo para os séculos vindouros e terá a posição de mãe."

"Seu início", atestou o próprio arquiteto do Templo, "não veio do homem, pois como místicos, artistas, poetas recebem sua inspiração de um outro reino, assim também o arquiteto do Templo durante todos os anos de seu labor, estava sempre consciente de ser Bahá'u'lláh o criador desse edifício que se erigiria para Sua glória." "Neste novo desenho", escreveu ele, além disso, está tecido, em forma simbólica, o grande ensinamento bahá'í de unidade - a unidade de todas as religiões e de toda a humanidade. Há combinações de linhas matemáticas, que simbolizam as do universo e, em seu intrincado enlaçamento de círculo com círculo, e de círculo dentro de circulo, vamos simbolizada a fusão de todas as religiões em uma só." E ainda: "Um círculo de degraus, dezoito ao todo, circundará a estrutura por fora, levando ao andar do auditório. Esses dezoito degraus representam os primeiros dezoito discípulos do Báb e a porta à qual conduzem, representa o Báb." "Assim como a essência dos ensinamentos pelos, originais das religiões históricas foi uma só de modo semelhante no Templo Bahá'í, se usa uma arquitetura composta que expressa a essência na linha de cada um dos grandes estilos arquitetônicos e os harmoniza em um todo."

"É a primeira idéia nova na arquitetura desde o século XIII", declarou um arquiteto eminente, H. Van Buren Magonigle, Presidente da Liga de Arquitetos, após haver contemplado um modele do Templo em gesso, exibido no Edifício das Sociedades de Engenheiros em Nova York, em junho de 1920. "o arquiteto", disse ele ainda mais, "concebeu um Templo de Luz, no qual a estrutura, comumente usada, deve ficar oculta, sendo eliminado o mais possível todo apoio visível, e a inteira construção aparenta a substancia etérea de um sonho. É um exemplo de renda que entesoura uma idéia, a idéia de luz - um abrigo de teia de aranha interposto entre terra e céu, no qual a luz penetra totalmente - luz que há de consumir em parte as formas e transformá-lo em um alga encantador."

"Nas formas geométricas da ornamentação", disse um escritor na conhecida publicação "Architectural Record", "que cobrem as colunas e rodeiam as janelas e portas do Templo, pode-se decifrar todos os símbolos religiosos do mundo. Aqui estão a suástica, o círculo, a cruz, o triângulo, o triângulo dobrado ou a estrela de seis pontas (o selo de Salomão), porém - mais do que isso - o nobre símbolo do orbe espiritual... a estrela de cinco pontas, a cruz grega, a cruz romana e, suprema sobre todos, a maravilhosa estrela de nove pontas, que figura na estrutura do próprio Templo e aparece repetidas vezes em sua ornamentação, como significando a glória espiritual no mundo de hoje."

"A maior criação desde a período gótico" - é o testemunho de George Grey Barnard, um dos mais conhecidos escultores dos Estados Unidos da América - "e a mais bela que já vi."

"E uma criação nova" - declarou o Professor Luigi Quaglino, ex-professor de Arquitetura de Turim, depois de examinar o modelo - "que há de revolucionar a arquitetura no mundo, e a mais bela que já vi. Sem dúvida, terá uma página duradoura na história. É uma revelação que vem de um outro mundo."

Sherwin Cody, referindo-se ao modelo do Templo quando foi exibido na Galeria Kevorkian em Nova York escreveu na seção de revistas do New York Times: "Os Americanos terão que lhe dar bastante atenção para descobrir que um artista elaborou nessa estrutura o conceito de uma Liga Religiosa das Nações." E finalmente, este tributo prestado à suas características e aos ideais incorporados neste Templo - a mais sagrada Casa de Adoração no mundo bahá'í, seja do presente ou do futuro - pelo Dr. Rexford Newcomb, Reitor da Faculdade de Belas Artes e de Artes Aplicadas na Universidade de Illinois: "Este "Templo de Luz" abre sobre o campo da experiência humana nove grandes portas que acenam aos homens e às mulheres de todas as raças e todos os climas, de cada Fé e convicção, de todas as condições de liberdade ou servidão, para aqui entrarem e reconhecerem aquele parentesco, aquela fraternidade sem a qual o mundo moderno pouco mais progresso poderá fazer... A cúpula de forma pontiaguda, tão seguramente mirando coisas mais elevadas e melhores como o faziam as linhas ascendentes das catedrais medievais, atinge, nas só pelo simbolismo, mas também pela sua propriedade estrutural e pura delicadeza de forma, uma beleza não igualada por qualquer outro edifício que tenha cúpula desde a construção da cúpula de Miguel Ângelo na Basílica de São Pedro em Roma."

Capítulo XXIII
ATAQUES CONTRA INSTITUIÇÕEs BAHÁ'ÍS

As instituições que assinalaram o início e o estabelecimento da Ordem Administrativa da Fé de Bahá'u'lláh (assim como a história de seu desenvolvimento demonstra plenamente) não permaneceram imunes às investidas e perseguições às quais a própria Fé, progenitora dessa Ordem, se sujeitara durante mais de setenta anos e das quais ainda sofre. O nascimento de uma comunidade firmemente unida, que adiantava a asseveração de ser uma religião mundial, com ramificações espalhadas sobre os cinco continentes e representando uma grande variedade de raças, idiomas, classes e tradições religiosas, possuindo uma literatura difundida sobre a superfície da terra e em diversas línguas, expondo sua doutrina, com visão clara, sem receios, alerta e determinada a alcançar seu objetivo, à custa de qualquer sacrifício, fundida organicamente por meio da maquinaria de uma Ordem Administrativa divinamente designada, nas sectária, apolítica, fiel a suas obrigações civis, porém de caráter supranacional, tenaz em sua adesão aos preceitos e leis que regulam sua vida comunitária - o nascimento de tal comunidade num mundo saturado de preconceitos, que adora falsos deuses, que está dilacerado por divisões internas e se apega cegamente a doutrinas que se estão tornando obsoletas e a normas defeituosas - não poderia ter deixado de precipitar, cede ou tarde, crises não menos graves, se bem que menos espetaculares, do que as perseguições que em época anterior se haviam enfurecido em volta dos Fundadores dessa comunidade e seus primeiros discípulos. Essa Ordem recém-nascida identificada com uma comunidade, atacada por inimigos internos que se têm rebelado contra a autoridade conferida por Deus, ou renunciado inteiramente sua fé, ou sendo assaltada por adversários de fora, quer políticos ou eclesiásticos, - tem sentido severamente desde seu início e através de todas as etapas em sua evolução - o impacto das forças que em vão têm tentado lhe estrangular a vida incipiente ou obscurecer o propósito.

O próprio 'Abdu'l-Bahá, na ocasião em que delineou em Seu Testamento o esboço dessa Ordem Divina, já se havia referido, de um modo significativo, a esses ataques que são destinados a crescer em âmbito e severidade e a provocar um tumulto que há de ressoar através do mundo inteiro, dizendo: "Dentro em breve se fará ouvir, de longe e de perto, o clamor da multidão por toda a África, por toda a América, bem como o grito do europeu e do turco, e o gemido da Índia e da China. Todos eles, sem exceção, haverão de se levantar com todo o seu poder para resistir à Sua Causa. Então os cavalheiros do Senhor... reforçados pelas legiões do Convênio, levantar-se-ão e manifestação a verdade dos versículos: "Vede a confusão que sobreveio às tribos dos derrotados!"

Em mais de um país os fideicomissários e representantes eleitos desta indestrutível Ordem Mundial já têm sido chamados pelas autoridades civis ou pelas cortes eclesiásticas - que lhe ignoraram as pretensões ou eram hostis aos princípios ou temiam o crescente poder - para defenderem sua causa ou lhe renunciar a lealdade ou lhe restringirem a esfera de ação. Sem levar em conta a ira vingativa de Deus - alguém já estendeu a mão agressiva contra seus santuários e edifícios. Em alguns países, seus defensores e campeões já têm sido declarados hereges, ou estigmatizados como desrespeitadores da lei e da ordem, ou tachados de visionários, desleais à pátria, e negligentes de suas obrigações e responsabilidades cívicas, ou ordenados peremptoriamente a suspender suas atividades e dissolver suas instituições.

Na Terra Santa, sede mundial desse Sistema - onde seu coração pulsa, onde repousa o pó de seus Fundadores, onde originam todos os processos que mostram seus objetivos, que lhe estimulam a vida e amoldam o destino - caiu, na hora exata de seu início, o primeiro golpe que serviu para proclamar, tanto aos humildes como aos grandes, a solidez dos fundamentos sobre os quais foi estabelecido. Os violadores do Convênio, agora reduzidos a apenas um punhado, instigados por Mírzá Muhammad 'Alí, o arqui-rebelde - cujas esperanças dormentes haviam sido avivadas pela repentinas ascensão de 'Abdu'l-Bahá - chefiados pelo arrogante Mírzá Badí'u'lláh, com força se apoderaram das chaves do Túmulo de Bahá'u'lláh, expulsaram o zelador, o valoroso Abu'l-Qásim-i-Khurásání e exigiram que seu chefe fossa reconhecido pelas autoridades como aquele legalmente incumbido da custódia desse Santuário. Não advertidos por seu ignominioso fracasso - como evidenciado pela ação firme das autoridades da Palestina, as quais, após uma prolongada investigação, deram ordens ao oficial britânico em 'Akká, para entregar as chaves nas mãos do mesmo zelador - recorreram a outros métodos, na esperança de criarem uma brecha nas fileiras dos discípulos de 'Abdu'l-Bahá, desconsolados mas resolutos, e de minar finalmente os fundamentos das instituições que Seus seguidores se estavam esforçando por erigir. Com sua perniciosa deturpação dos ideais que animavam os construtores da Ordem Administrativa Bahá'i; pela manutenção, embora não em sua escala original, de uma correspondência subversiva com indivíduos cuja lealdade eles esperavam poder solapar; mediante deliberada perversão da verdade em seu contato com oficiais e notabilidades dos quais conseguiam se aproximar; por maio de tentativas - através de suborno e intimidação - de comprar uma parte da Mansão de Bahá'u'lláh; mediante esforços dirigidos à prevenção da compra, pela comunidade bahá'i, de certas propriedades situadas na vizinhança do Túmulo do Báb, e à frustração do plano para consolidar o fundamento de algumas dessas propriedades pela transferência de suas escrituras a assembléias bahá'ís incorporadas - por todos esses meios eles continuaram a esforçar-se, com algumas interrupções, por vários anos, até que a extinção da vida do próprio Arqui-violador do Convênio selou virtualmente seu destino.

Mais completamente foram derrubadas as esperanças daqueles que ainda se esforçavam desesperadamente por extinguir a luz do Convênio de Bahá'u'lláh, quando tiveram de evacuar a Mansão de Bahá'u'lláh, depois de a haverem ocupado sem interferência desde Sua ascensão - Mansão essa que, em conseqüência de seu flagrante descuido, caíra em lamentável estado de deterioração - e também quando, mais tarde, a Mansão foi totalmente restaurada - assim cumprindo um desejo desde muito tempo nutrido por 'Abdu'l-Bahá - e foi iluminada por uma instalação elétrica feita por um bahá'i americano para esse fim, sendo também mobiliados de novo todos os seus aposentos, os quais haviam sido - por seus ocupantes anteriores - inteiramente despojados das preciosas relíquias que continham, com a exceção de um castiçal no quarto em que Bahá'u'lláh expirara - e quando dentro de suas paredes foram colecionados documentos históricos bahá'is, relíquias e mais de cinco mil volumes de literatura bahá'i em Dada menos de quarenta idiomas, quando a Mansão foi incluída na isenção de impostos governamentais já concedida a outras instituições e propriedades bahá'is em 'Akká e no Monte Carmelo, e, finalmente, quando, de residência particular, foi convertida em centro de peregrinação visitado por bahá'is e não bahá'is igualmente. Além de tudo isso, o êxito que mais tarde se teve em adquirir e salvaguardar a área que forma o recinto do lugar de descanso do Báb no Monte Carmelo, e a transferência das escrituras de algumas dessas propriedades ao Ramo Palestina da Assembléia Espiritual Nacional Bahá'í da América, não menos que as circunstancias que acompanharam a morte daquele que fora o principal instigador de distúrbios durante todo o ministério de 'Abdu'l-Bahá, demonstraram a esses inimigos quanto eram fúteis seus esforços e sem a mínima esperança sua causa.

De natureza mais séria e provocador de repercussões ainda maiores, foi o ato ilegal dos xiitas do Iraque - quase na mesma ocasião em que as chaves do Túmulo de Bahá'u'lláh foram tiradas de seu zelador pelos violadores do Convênio - o de se apoderarem de ainda outro Santuário Bahá'i, a casa ocupada por Bahá'u'lláh durante praticamente todo o período de Seu exílio no Iraque, a qual fora adquirida por Ele, sendo mais tarde ordenado que se tornasse centro de peregrinação e tendo permanecido na ininterrupta e indiscutível posse de Seus seguidores desde Sua partida de Bagdá. Essa crise que surgiu cerca de um ano antes da ascensão de 'Abdu'l-Bahá - tendo sido precipitada pelas medidas tomadas após a mudança de regime no Iraque, segundo Suas instruções, para a reconstrução dessa Casa - adquiriu, à medida que se desenvolvia, publicidade cada vez mais extensa. Veio a ser objeto de consideração por sucessivos tribunais: primeiro da corte local xiita Ja'faríyyih em Bagdá; segundo, da Corte de Paz, em seguida, da corte de Primeira Instância, depois, da corte de Apelação no Iraque e, finalmente, da Liga das Nações, o maior corpo internacional que até agora veio a existir, dotado do poder de exercer supervisão e controle sobre todos os territórios sujeitos a Mandato. Embora a questão nas fosse resolvida ainda, por uma combinação de causas religiosas bem como políticas, já se cumpriu, de um modo notável, a própria predição de Bahá'u'lláh e, no tempo predeterminado, à medida que forem providencialmente criados os meios para sua solução, essa casa haverá de atingir o alto destino que lhe foi por Ele ordenado em Suas Epístolas. Muito antes de os inimigos fanáticos dela se apossarem - sem terem direito algum que fosse concebível - Ele havia profetizado que "será tão degradada nos dias vindouros que fará manarem lágrimas de todos os olhos discernentes."

A Assembléia Espiritual dos Bahá'ís de Bagdá, sendo privada do uso dessa propriedade sagrada, em virtude de uma decisão adversa por uma maioria da Corte de Apelação, a qual anulara o veredicto da corte inferior e concedera a propriedade aos xiitas - e provocada por ação subseqüente dos xiitas, pouco depois da execução do veredicto da corte - quando converteram a Casa em uma propriedade waqf (fundação piedosa), designando-a "Husayníyyih", a fim de consolidar o que ganharam - veio assim a perceber a futilidade dos três anos de negociações que tivera com as autoridades civis em Bagdá, na tentativa de retificar a injustiça que lhe foi infligida. Em sua qualidade de representantes nacionais dos bahá'is do Iraque, os membros da Assembléia Espiritual, pois, em 11 de setembro de 1928, por intermédio do Alto Comissionado para o Iraque e de conformidade com as provisões do Artigo 22 do Convênio da Liga das Nações, foram à Comissão Permanente de Mandatos da Liga, incumbida da supervisão da administração de todos os territórios sujeitos a Mandato, e lhe apresentaram uma petição que foi aceita e aprovada por esse corpo em novembro de 1928. Um memorandum referente a essa petição, que foi submetido a essa mesma Comissão pela Potência Mandatária, declarou inequivocamente que os xiitas "nenhum direito concebível" tinham à Casa, que a decisão do juiz da corte de Ja'faríyyh foi "obviamente errada", "injusta" e "sem dúvida motivada por preconceito religioso" , que a subseqüente expulsão dos bahá'ís foi "ilegal", que a ação das autoridades havia sido "sumamente irregular" e que se suspeitava ter sido o veredicto da Corte de Apelo "influenciado por considerações políticas".

"A Comissão" - afirma o Relatório que foi por ela submetido ao Conselho da Liga e publicado na Ata da décima quarta sessão da Comissão Permanente de Mandatos, realizada em Genebra no outono de 1928, e que foi, subseqüentemente, traduzido para o árabe e publicado no Iraque - "chama a atenção do Conselho às considerações e conclusões que lhe foram sugeridas por um exame da petição... Recomenda que o Conselho peça ao Governo Britânico que apresente protestos ao Governo do Iraque, visando à reparação imedia ta pela negação de justiça da qual os peticionários haviam sofrido".

O acreditado representante britânico que assistiu às sessões da Comissão afirmou ainda mais "haver a Potência Mandatária reconhecido que os bahá'is sofreram uma injustiça", enquanto, durante essa sassão, se fez referência ao fato de que a ação dos xiitas constituiu uma violação da constituição e da Lei Orgânica do Iraque. O representante finlandês, além disso, em seu relatório ao Conselho, declarou que essa "injustiça deve ser atribuída somente a paixão religiosa" e pediu que "as injustiças sofridas pelo peticionário fossem reparadas".

O Conselho da Liga, por sua parte, tendo considerado esse relatório, bem como as observações e conclusões conjuntas da Comissão, adotou por unanimidade, em 4 de março de 1929, uma resolução - que foi subseqüentemente traduzida e publicada nos jornais de Bagdá - segundo a qual a Potência Mandatária deveria "apresentar protestos ao Governo do Iraque visando à reparação imediata pela injustiça sofrida pelos peticionários". Deu instruções, pois, para que o Secretário Geral levasse à atenção da Potência Mandatária, bem como dos peticionários envolvidos, as conclusões às quais a Comissão chegara - instruções essas que foram devidamente transmitidas ao Governo do Iraque pelo Governo Britânico por intermédio de seu Alto Comissionado.

Uma carta de 12 de janeiro de 1931, escrita em nome do Ministro Britânico das Relações Exteriores, Mr. Arthur Henderson, dirigida ao Secretariado da Liga, informou que as conclusões às quais o Conselho chegara haviam "recebido a mais cuidadosa consideração pelo Governo do Iraque", o qual "decidira finalmente nomear um comitê especial... para considerar as opiniões expressadas pela comunidade bahá'í com referência a certas casas em Bagdá e formular recomendações para uma solução eqüitativa dessa questão". Essa carta, além disso, fez notar que o comitê havia submetido seu relatório em agosto de 1930, que fora aceito pelo governo, que a comunidade bahá'í "aceitara em princípio suas recomendações e que as autoridades em Bagdá haviam dado instruções para que "fossem preparados minuciosos planos e cálculos com o intuito de levar a cabo essas recomendações durante o próximo ano fiscal".

É desnecessário estender-se sobre a história desse momentoso caso, sobre as prolongadas negociações, as demoras e as complicações que se seguiram; sobre as consultas, "mais de cem" em número, nas quais participaram o rei, seus ministros e conselheiros; sobre as expressões de "lástima", de "surpresa" e de "ansiedade" registradas em sessões sucessivas da Comissão de Mandatos realizadas em Genebra em 1929, 1930, 1931, 1932 e 1933; sobre a condenação, por parte de seus membros, do "espírito de intolerância" que animava a comunidade xiita, da "parcialidade" das cortes do Iraque, da "fraqueza" das autoridades civis e da "paixão religiosa no fundo dessa injustiça"; sobre seu testemunho a respeita da "atitude extremamente conciliatória" dos peticionários, sobre sua "dúvida" quanto à adequação das propostas e sobre seu reconhecimenta do caráter "serio" da situação que fora criada da "flagrante negação de justiça que os bahá'is haviam sofrido, e da "dívida moral" contraída pelo Governo do Iraque - uma dívida que, quaisquer que fossem as mudanças em seu status como nação, tinha o dever inescapável de honrar.

Tampouco parece necessária estender-se sobre as desditosas conseqüências da morte imatura tanto do Alto Comissionado Britânico como do Primeiro-Ministro do Iraque; sobre a admissão do Iraque como membro da Liga e o conseqüente fim do mandato mantido pela Grã-bretanha; sobre a trágica e inesperada morte do próprio Rei; sobre as dificuldades que surgiram por causa de um plano de urbanização; sobre a declaração por escrito, transmitida ao Alto Comissionado pelo Premier interino em sua carta de janeiro de 1932; sobre a promessa dada pelo Rei, antes de sua morte, em presença do ministro das relações exteriores, em fevereiro de 1933, segundo a qual a Casa seria expropriada e a quantia necessária seria disponível na primavera do ano seguinte; sobre a categórica afirmação, feita por esse mesmo ministro em relações exteriores, de que o Primeiro-Ministro dera as necessárias garantias de que a promessa já feita pelo Premier interino seria cumprida; ou sobre as afirmações positivas feitas por esse mesmo Ministro das Relações Exteriores e seu colega, o Ministro das Finanças - quando representavam seu país durante as sessões da Assembléia da Liga realizada em Genebra - de que a promessa dada por seu falecido Rei seria plenamente honrada.

Basta dizer que - a despeito desses intermináveis atrasos, protestos e subterfúgios e, apesar do fato de não haverem as autoridades envolvidas executado, evidentemente, as recomendações feitas pelo Conselho da Liga, bem como pela Comissão Permanente de Mandatos - a publicidade obtida para a Fé por meio desse memorável litígio, e a defesa de sua causa - a causa da verdade e da justiça, pelo mais alto tribunal do mundo, foram tais que maravilharam seus amigos e consternaram os inimigos. Poucos episódios - talvez nenhum - desde o nascimento da Idade Formativa da Fé de Bahá'u'lláh, tem dado origem, em esferas altas, a repercussões que sejam comparáveis ao efeito produzido sobre governos e chancelarias por esse assalto violento, não provocado por qualquer agravo, dirigido por seus inimigos inveterados contra um de seus lugares mais sagrados.

"Não lamentes, ó Casa de Deus" - escreveu, de um modo significativo, o próprio Bahá'u'lláh - "se o véu de tua santidade for rompido pelos infiéis. Deus te adornou, no mundo da criação, com a jóia de Sua lembrança. Ornamento como este, homem algum pode, em qualquer época, profanar. A ti estarão dirigidos os olhos de seu Senhor, sempre, sob todas as condições." "Na plenitude do tempo", tem Ele profetizado, em outra passagem, referindo-se a essa mesma Casa, "o Senhor, através do poder da verdade, haverá de exaltá-la aos olhos de todos os homens. Ele a fará tornar-se o Estandarte de Seu Reino, o Santuário em volta do qual circulara a assembléia dos fiéis."

À investida audaz pelos violadores do Convênio de Bahá'u'lláh em seus esforços em conjunto por obter a custódia de Seu sagrado Túmulo, e ao ato da comunidade xiita do Iraque, de se apossar arbitrariamente de Sua Casa sagrada em Bagdá - haverá de ser acrescentado, poucos anos depois, ainda outro assalto penoso, lançado por um adversário ainda mais poderoso, dirigido contra a própria estrutura da Ordem Administrativa, estabelecida por duas comunidades bahá'is do Oriente, que desde muito tempo floresciam. Esse assalto culminou na virtual desintegração dessas comunidades e na confiscação do primeiro Mashriqu'l-Adhkár do mundo bahá'i e das poucas instituições acessórias já erigidas a seu redor.

A coragem, o fervor e a vitalidade espiritual que essas comunidades demonstravam; o estado altamente organizado de suas instituições administrativas; as facilidades oferecidas para a educação religiosa da juventude; a conversão de numerosos cidadãos russos de mentalidade evoluída, cujas idéias se harmonizavam quase completamente com os preceitos da Fé; a crescente compreensão das implicações de seus princípios, com sua ênfase na religião, na santidade da vida de família. Da instituição da propriedade privada e seu repúdio a toda discriminação entre as classes, bem como sua rejeição da doutrina da igualdade absoluta dos homens - tudo isso se combinou para excitar a suspeita das autoridades governamentais e, mais tarde, lhes provocar antagonismo feroz, e para precipitar uma das crises mais graves na história do primeiro século bahá'í.

À medida que a crise se desenvolvia e se espalhava mesmo até as centres mais distantes do Turquestão como também do Cáucaso, levou gradualmente à imposição de restrições que limitavam a liberdade dessas comunidades, à interrogação e apreensão de seus representantes eleitos; resultou na dissolução de suas Assembléias locais e de Seus respectivos comitês - em Moscou, em Ishqabad, em Bákú e em outras localidades nas províncias acima mencionadas - bem como na suspensão de todas as atividades da juventude bahá'í. Levou até ao fechamento das escolas bahá'is, de seus jardins de infância, suas bibliotecas e salas públicas de leitura; à interceptação de toda comunicação com centros bahá'is no exterior, à confiscação de imprensas bahá'is, de livros e documentos bahá'is, à proibição de todas Suas atividades de ensino, a ab-rogação da Constituição Bahá'i, à abolição de todos os fundos nacionais e locais e a uma interdição segundo a qual pessoas não bahá'is não podiam assistir uma reunião bahá 'i.

Em meados do ano de 1928, a lei da expropriação dos edifícios religiosos foi aplicada ao Mashriqu'lAdhkár de Ishqabad. o uso desse edifício como casa de adoração continuou, entretanto, com arrendamento por cinco anos, depois do que, em 1933, o contrato foi renovado pelas autoridades locais por mais um período igual. Em 1938 a situação, tanto no Turquestão, como no Cáucaso, deteriorou rapidamente, resultando no encarceramento de mais de quinhentos bahá'is muitos dos quais morreram - entre estes algumas mulheres, e a confiscação de suas propriedades, e, mais tarde, o exílio de vários membros proeminentes dessas comunidades a Sibéria, as florestas da região polar e a outros lugares nas proximidades do Oceano Ártico, a subseqüente deportação da maior parte dos que restavam dessas comunidades, para a Pérsia, devida a sua nacionalidade persa e, finalmente, a expropriação completa do próprio Templo e sua conversão em uma galeria de arte.

Na Alemanha, de modo igual, depois de haver surgido e se estabelecido a Ordem Administrativa da Fé - a cuja expansão e consolidação os bahá'is alemães contribuíam com distinção e em escala crescente seguiram-se, dentro em breve, medidas repressivas, as quais, embora menos penosas que as aflições sofridas pelos bahá'ís do Turquestão e do Cáucaso, equivaliam a virtual cessação, nos anos que precederam imediatamente à 2a Grande Guerra, de toda atividade bahá'í organizada, em toda a extensão desse país. O ensino público da Fé - no qual se dava ênfase abertamente a paz e universalidade, e se repudiava o racismo - foi oficialmente proibido; foram dissolvidas as Assembléias Bahá'ís e seus comitês, e se interditou a realização de Convenções Bahá'is. Apoderaram-se dos Arquivos da Assembléia Espiritual Nacional, aboliram a Escola de Verão e suspenderam a publicação de toda literatura bahá'i.

Na Pérsia, além de ondas esporádicas de perseguição em tais lugares como Shiráz, Ábádih, Ardibíl, Isfahán e em certos distritos de Azerbaidjan e Khurásán - ondas muito reduzidas em número como também em violência, por causa do notável declínio no prestigio dos eclesiásticos xiitas, outrora tão poderosos - as autoridades civis, tanto na capital como nas províncias, sujeitaram as instituições de uma Ordem Administrativa recém-estabelecida e ainda não consolidada, a restrições que visavam lhes circunscrever a esfera de ação, lhes limitar a liberdade e minar os fundamentos.

O fato de que, gradativa e inesperadamente, emergira da escuridão uma comunidade nacional firmemente unida, treinada na adversidade e com espírito indomável, com centros estabelecidos em cada província desse país - e a despeito das sucessivas ondas de perseguição desumana que durante três quartos de século sobre ela haviam se abatido e por pouco não a tinham engolfado - não pôde deixar de provocar as apreensões e a hostilidade daqueles que ocupavam os pastos de autoridade e que interpretavam mal os objetivos dessa comunidade, ou estavam determinados a lhe sufocar a vida. Também contribuiu para isso a determinação, por parte de seus membros, de difundir o espírito e os princípios de sua Fé, lhe propagar a literatura, executar as leis e os preceitos, punir aqueles que os transgrediam, manter um intercambio constante com os correligionários em outros países e erigir os edifícios e as instituições da Ordem Administrativa. O fato de que os membros dessa comunidade - embora em todas as questões de caráter puramente administrativo obedecessem aos estatutos civis de seu país - insistiram, no entanto, em aderir aos princípios espirituais, leis e preceitos fundamentais revelados por Bahá'u'lláh, os quais exigiam, entre outras coisas, que se apegassem à veracidade, não dissimulassem sua fé, observassem os preceitos estabelecidos relativos ao casamento e ao divórcio e suspendessem toda espécie de trabalho nos Dias Sagrados por Ele ordenados - isso haveria de causar, cedo ou tarde, conflito entre eles e um regime que, em vista de seu reconhecimento formal do islã como religião de estado da Pérsia, recusava conceder qualquer reconhecimento àqueles já condenados como hereges pelos expoentes oficiais dessa religião.

O fechamento de todas as escolas pertencentes à comunidade bahá'i nesse país, como conseqüência direta de haveremos representantes dessa comunidade recusado permitir que instituições bahá'is oficiais, de sua propriedade e controle exclusivo, transgredissem a lei claramente revelada que exigia a suspensão de trabalho nos Dias Santos Bahá'is; a rejeição de todos os certificadas de casamento bahá'is, não sendo permitido registrá-los em Departamentos Governamentais de Licenças; a interdição pronunciada contra a impressão e circulação de toda literatura bahá'i, como também contra sua entrada no país; a apreensão de documentos, livros e relíquias bahá'is em vários centros; o fechamento do Haziratu'l-Quds em algumas das províncias e, em algumas localidades, a confiscação de sua mobília; a proibição de qualquer demonstração, conferência ou convenção bahá'i; a estrita censura imposta sobre comunicações entre centros bahá'is na Pérsia e entre esses centros e comunidades bahá'ís em países estrangeiros e, muitas vezes, sua apreensão; a prática de negar certificados de bons antecedentes no caso de cidadãos leais, respeitadores da lei, por causa da sua adesão declarada à Fé Bahá'i; a demissão de empregados do governo, o rebaixamento de posto, ou a demissão, de oficiais do exército, a apreensão, a interrogação, o encarceramento e a imposição de multas e outros castigos a numerosos bahá'ís que recusaram desatender sua obrigação moral de aderir aos princípios espirituais de sua Fé, que não consentiram agir de qualquer maneira que estivesse em conflito com seu caráter universal e apolítico - tudo isso pode ser considerado como as tentativas iniciais, feitas no país cujo solo já fora embebido pelo sangue de incontáveis mártires bahá'is, para resistir ao surgimento e frustrar a luta pela emancipação de uma Ordem Administrativa nascente - cujas próprias raízes derivaram sua força de tão heróico sacrifício.

Capítulo XXIV
EMANCIPAÇÃO E RECONHECIMENTO DA FÉ
E SUAS INSTITUIÇÕES

Enquanto os passos iniciais que visavam a ereção da estrutura da Ordem Administrativa da Fé de Bahá'u'lláh estavam sendo dados simultaneamente por Seus seguidores no Oriente e no Ocidente, um ataque violento foi lançado numa obscura aldeia do Egito contra um punhado de bahá'ís que lá estavam tentando estabelecer uma das instituições primarias dessa Ordem - um ataque que, visto na perspectiva da história, será aclamado por futuras gerações como uma marca não só no Período Formativo da Fé, como também na história do primeiro século bahá'í. De fato, pode-se dizer que a seqüência desse assalto abriu um novo capítulo na evolução da própria Fé - evolução, essa que, levando-a através das sucessivas etapas da repressão, da emancipação, do reconhecimento como Revelação independente, e como religião de estado, devera conduzi-la ao estabelecimento do Estado Bahá'í e culminar na formação da Comunidade Mundial Bahá'í.

Originando-se em um país que se pode com justiça jactar de ser o centro reconhecido tanto do mundo árabe como do muçulmano; precipitado pela ação que os representantes eclesiásticos da maior congregação do islã tomaram, de sua própria iniciativa; o resultado direto de uma série de distúrbios instigados por alguns dos membros dessa congregação, com o fim de suprimir as atividades de certos seguidores de Fé que haviam ocupado postos clericais entre eles - este momentoso desenvolvimento no destino de uma comunidade esforçando-se com muito empenho, tem contribuído diretamente, em grau considerável, à consolidação e ao aumento no prestigio da Ordem Administrativa que essa comunidade principiara a erigir. Além disso, à medida que suas repercussões se espalharem mais largamente, atingindo outros países islâmicas, e seu vasto significado for mais claramente compreendido pelos adeptos tanto do cristianismo como do islã, esse, desenvolvimento apressara o fim do período de transição através do qual a Fé, agora na etapa formativa de seu crescimento, esta passando.

Na aldeia de Kawrnu's-Sa'áyidih, no distrito de Beba, da província de Beni Suef no Alto Egito, em conseqüência do fanatismo religioso que a formação de uma assembléia bahá'í incendiara no peito do chefe dessa aldeia, e das graves acusações feitas por ele à Polícia do Distrito, como também ao governador da província - acusações que a tal ponto excitaram os maometanos que os levaram a perpetrar atos vergonhosos contra suas vítimas - ação foi iniciada pelo notário da aldeia, em sua qualidade de querelante religioso autorizado pelo Ministério a Justiça, contra três residentes bahá'ís dessa aldeia, exigindo que suas esposas muçulmanas fossem divorciadas deles por haverem os esposos abandonado o islã após seu casamento legal como muçulmanos."

A opinião e Juízo da Corte Religiosa de Apelação de Beba, emitidos no dia 10 de maio de 1925 - que as mais altas autoridades eclesiásticas do Cairo sancionaram posteriormente e sustentaram como finais, e que foram impressos e circulados pelas próprias autoridades muçulmanas - anularam os casamentos contraídos pelos três bahá'ís acusados e condenou o grupo de hereges por violação dos preceitos e leis do islã. Chegou até ao extremo de fazer a asserção positiva, espantosa e, de fato, histórica, de que a Fé abraçada por esses hereges havia de ser considerada uma religião distinta, completamente independente dos sistemas religiosos que a precederam - uma asserção que até então os inimigos da Fé, quer no Oriente ou no Ocidente, haviam ou disputado ou deliberadamente deixado de levar em conta.

Havendo sido expostos os princípios e preceitos fundamentais do islã, sendo dada também uma detalhada exposição dos ensinamentos bahá'ís baseada em várias citações do Kitáb-i-Aqdas, dos escritos de Abdu'l-Bahá e de Mírzá Abu'l-Fadl, com referência especial a certas leis bahá'ís, e sendo demonstrado que os acusados haviam, realmente, à luz dessas exposições, renunciado a Fé de Maomé, o veredicto formal declara em termos absolutamente inequívocos: "A Fé Bahá'í é uma religião, inteiramente independente, com crenças, princípios e leis próprias que diferem das crenças, princípios e leis do islã e com elas estão diretamente em conflito. Nenhum bahá'í, pois, pode ser considerado um muçulmano, ou vice-versa, justamente como nenhum budista ou brâmane ou cristão pode ser considerado um muçulmano, ou vice-versa." Ordenando a dissolução dos contratos de casamento das partes em juízo, e a separação dos esposos de suas esposas, esse memorável pronunciamento oficial conclui com as seguintes palavras: "Se qualquer um deles (maridos) se arrepender, acreditar em Maomé, o Apóstolo de Deus e admitir qualquer coisa que Ele... tenha trazido de Deus... e se voltar à augusta Fé do Islã... e testificar que... Maomé... é o Selo dos Profetas Mensageiros, que nenhuma religião sucederá à Sua religião, que nenhuma lei ab-rogará Sua lei, que o Alcorão é o último dos Livros de Deus e Sua última Revelação a Seus Profetas e seus Mensageiros... ele será aceito e terá direito de renovar seu contrato matrimonial..."

Essa declaração profundamente significativa, sustentada por provas incontrovertíveis, citadas pelos próprios inimigos declarados da Fé de Bahá'u'lláh e feita em um país que aspira à chefia do islã, mediante a restauração do califado, e tendo a sanção das mais altas autoridades eclesiásticas do país - esse testemunho oficial que os chefes do islã xiita, tanto na Pérsia como no Iraque, por um século, têm cuidadosamente evitado dar, e que, de uma vez por todas, faz silenciarem aqueles difamadores, inclusive eclesiásticos cristãos no Ocidente que no passado têm estigmatizado a Fé como um culto, como uma seita babí e como um ramo do islã ou a têm representado como uma síntese das religiões - essa declaração foi aclamada por todas as comunidades bahá'ís no Oriente e no Ocidente como a primeira Carta Magna de emancipação da Causa de Bahá'u'lláh, para livrá-la dos grilhões da ortodoxia islãmica, o primeiro passo histórico dado - não pelos adeptos, como era de esperar, e sim, por seus adversários - no caminho que conduz, enfim, a seu reconhecimento mundial.

Tal veredicto, acarretando incalculáveis possibilidades foi reconhecido imediatamente como um poderoso desafio que os construtores da Ordem Administrativa da Fé de Bahá'u'lláh não tardaram a enfrentar e aceitar, e que lhes impôs uma sagrada obrigação que eles se sentiam prontos para - cumprir. Planejado por seus autores para privar os adversários de acesso às cortes muçulmanas, assim pondo-os em uma situação desconcertante e embaraçosa, veio a ser, no entanto, uma alavanca que a comunidade bahá'í do Egito, seguida, mais tarde, por suas comunidades irmãs, utilizou prontamente, com o fim de asseverar a independência de sua Fé e lhe conseguir o reconhecimento do governo. Traduzido para vários idiomas e circulado entre as comunidades bahá'ís do Oriente e Ocidente, esse veredicto gradualmente preparou o caminho para se iniciarem negociações entre os representantes eleitos dessas comunidades e as autoridades civis no Egito, na Terra Santa, na Pérsia e até nos Estados Unidos da América com o propósito de obter dessas autoridades seu reconhecimento oficial da Fé como uma religião independente.

No Egito foi sinal para a adoção de uma série de medidas que, em seu efeito cumulativo, têm facilitado muito a extensão desse reconhecimento por um governo que está ainda associado formalmente com a religião do islã e que deixa suas leis e seus regulamentos serem formulados em grande parte pelos pareceres e pronunciamentos de seus chefes eclesiásticos. Destacam-se como as conseqüências iniciais de um pronunciamento histórico que haverá de levar, afinal, ao estabelecimento da Fé em um base de igualdade absoluta com suas religiões irmãs nessa terra, a inflexível determinação dos bahá'ís do Egito de não se desviarem no mínimo grau dos preceitos de sua Fé, com sua insistência em evitar qualquer questão com uma corte eclesiástica muçulmana nesse país e em recusar qualquer posto eclesiástico que lhes pudesse ser oferecido; a codificação e publicação das leis fundamentais do Kitáb-i-Aqdas referentes a questões de status pessoal, tais como casamento, divórcio, herança e enterro, e a apresentação destas leis ao Gabinete Egípcio; a missão de certificados de casamento e divorcio pela Assembléia Espiritual Nacional do Egito; ter a Assembléia assumido todas as obrigações e responsabilidades relacionadas com a celebração de casamento e divórcios bahá'ís, bem como com a inumação dos falecidos; a observância, por todos os membros dessa comunidade, dos nove Dias Santos nos quais, segundo prescrevem os ensinamentos bahá'ís, se deve suspender todo trabalho; a apresentação de uma petição dirigida, pelos eleitos representantes nacionais dessa comunidade, ao Primeiro Ministro do Egito, ao Ministro do Interior e ao Ministro da Justiça (apoiada por uma comunicação semelhante dirigida ao governo do Egito pela Assembléia Espiritual Nacional Americana), que incluía uma cópia do veredicto da Corte e uma de sua constituição e estatutos bahá'ís nacionais, solicitando-lhes que reconhecessem sua Assembléia como um corpo qualificado a exercer as funções de uma corte independente e dotado do poder de aplicar, em todos os assuntos que afetam seu status pessoal as leis e os preceitos revelados pelo Autor de sua Fé.

Um corolário desta declaração histórica e uma conseqüência direta dos distúrbios intermitentes instigados em Port Said e Ismá'ilíyyih por uma população fanática na ocasião do enterro de alguns dos membros da comunidade bahá'í, foi a fatvá (ditame) oficial e não menos notável, emitido pelo Grão Muftí do Egito, a pedido do Ministério da Justiça. Pouco depois de seu pronunciamento, foi publicado na imprensa egípcia e contribuiu a fortalecer ainda mais o status independente da Fé. Sucedeu isso logo após as desordens que irromperam com excepcional violência em Ismá'illíyyih, quando turbas iradas cercaram o cortejo fúnebre de Muhammad Sulaymán, residente bahá'í de destaque nessa cidade, provocando tamanho tumulto que a policia teve de intervir e, tendo conseguido apoderar-se do corpo e devolvê-lo a casa do falecido, foi forçada a leva-lo à noite, sem escolta, até a orla do deserto e lá enterrá-lo.

Esse veredicto foi pronunciado como resultado da consulta por escrito, em 24 de janeiro de 1939, dirigida pelo Ministro do Interior egípcio ao Ministério da Justiça, com cópia inclusa da compilação das leis Bahá,'ís referentes a assuntos de status pessoal, publicada pela Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá'ís do Egito, e pedindo um pronunciamento pelo Muftí sobre a petição que fora apresentada por essa Assembléia ao Governo do Egito na qual solicitava que fossem cedidos quatro lotes para servirem de cemitério para as comunidades bahá'ís do Cairo, Alexandria, Port Said e Ismá'illíyyih. Escreveu o Muftí em sua resposta de 11 de março de 1939 à comunicação a ale dirigida pelo ministério da Justiça: "Recebemos vossa carta... de 21 de fevereiro de 1939, com anexos... perguntando se seria legal ou não enterrar os mortos bahá'ís em cemitérios muçulmanos. Nós pela presente declaramos que essa comunidade não deve ser considerada muçulmana, como mostram as crenças que professa. A leitura daquilo que eles chamam "As Leis Bahá'ís que Afetam Questões de Status Pessoal", e que acompanha os documentos é considerada evidência suficiente. Quem entre seus membros havia sido anteriormente muçulmano, tem agora, em virtude de sua crença nas pretensões dessa comunidade, renunciado o islã, e se deve considera-lo fora de sua jurisdição e sujeito às leis que se aplicam à apostasia, assim como foi estabelecido na Fé certa do islã. Não sendo muçulmano essa comunidade, seria ilegal enterrar seus mortos em cemitérios muçulmanos, fossem eles ou não muçulmanos originalmente..."

Em conseqüência dessa sentença final, inequívoca e autoritativa, pronunciada pelo mais alto expoente da Lei Islâmica no Egito - após prolongadas negociações que resultaram, de início, na doação, à comunidade bahá'í do Cairo, de um late de cemitério que formava parte daquele reservado para livre-pensadores residentes nessa cidade - foi que o governo do Egito consentiu em ceder a essa comunidade, bem como aos bahá'ís de Ismá'illíyyih , dois terrenos para servirem de cemitérios para seus mortos. Foi este um até de significado histórico que causou grande regozijo entre os membros de comunidades penosamente oprimidas, desde muito tempo atribuladas, e que tem servido para demonstrar ainda mais o caráter independente de sua Fé e estender a esfera da jurisdição de suas instituições representativas.

Ao primeiro desses dois cemitérios bahá'ís oficialmente designados, após a decisão da Assembléia Bahá'í Nacional do Egito, ajudada por sua Assembléia irmã da Pérsia, foram trasladados os restos mortais do ilustre Mírzá Abu'l-Fadl, sendo-lhe dada assim uma sepultada de acordo com sua alta posição e sendo inaugurada, de um modo digno, a primeira instituição bahá'í oficial, dessa natureza, a ser estabelecida no Oriente. A essa realização foi dado ainda maior realce, pouco depois, ao ser exumado de um cemitério cristão no Cairo o corpo daquela celebre instrutora-mãe do Ocidente, Sra. E. Getsinger, e enterrado - com a ajuda da Assembléia Bahá'í Nacional da América e do Departamento de Estado em Washington - em um lugar no coração desse cemitério, e adjacente ao lugar de descanso daquele distinto autor e campeão da Fé. Na Terra Santa, onde, antes desses pronunciamentos, durante o ministério de 'Abdu'l-Bahá, se estabelecera um cemitério bahá'í, foi tomada a decisão histórica de enterrar os mortos bahá'ís volvidos em direção ao Qiblih em ''Akká - medida essa que se tens mais significativa em vista da resolução de não mais se recorrer, como anteriormente, a qualquer corte maometana em assuntos referentes ao casamento ou ao divórcio, e de executar, em sua totalidade e sem qualquer dissimulação, os rituais prescritos por Bahá'u'lláh para a preparação e a sepultura dos falecidos. Pouco depois dessa medida, foi apresentada às autoridades da Palestina pelos representantes da comunidade bahá'í local de Haifa, com data de 4 de maio de 1929, uma petição formal, solicitando que - enquanto se esperava a adoção de uma lei civil uniforme de status pessoal aplicável a todos os residentes do país, sem distinção de crença religiosa - concedessem à comunidade reconhecimento oficial e "plenos poderes para administrar seus próprios assuntos, assim como outras comunidades religiosas na Palestina já tinham."

Sua anuência a esse pedido, um ato extremamente significativo e totalmente sem precedentes na história da Fé em qualquer país - assinalando o reconhecimanto oficial, pelas autoridades civis, de certificados de casamento emitidos pelos representantes da comunidade local, cuja validez o representante oficial do governo persa na Palestina já reconhecera tacitamente - foi seguida por uma série de decisões que isentaram de impostos governamentais todas as propriedades e instituições que a comunidade Bahá'í considerava lugares sagrados ou que estavam dedicadas aos túmulos de seus Fundadores em seu centro mundial. Além disso, mediante essas decisões, todos os objetos que serviam de ornamentos ou mobiliário para os santuários bahá'ís foram isentados de direitos alfandegários e os ramos das Assembléias Espirituais Nacionais Bahá'ís da America e da Índia puderam funcionar como "sociedades religiosas", de acordo com as leis do país, e possuir e administrar propriedades como agentes dessas Assembléias.

Na Pérsia, uma comunidade muito maior - já superior, numericamente, às minorias cristã, judia e zoroastriana residentes nesse país - havia conseguido erigir a estrutura de suas instituições administrativas, não obstante a atitude tradicionalmente hostil das autoridades civis e eclesiásticas, e tal foi a reação a essa declaração que inspirou seus membros e os induziu a aproveitar, na mais plena medida possível, as enormes vantagens que esse testemunho inteiramente inesperado lhes conferira. Havendo essa comunidade sobrevivido às provações de fogo às quais a sujeitaram os chefes cruéis, arrogantes e implacáveis de uma ordem sacerdotal todo- poderosa - mas agora penosamente humilhada - ela, acabando de emergir, triunfante da obscuridade, estava resolvida, mais do que nunca avançar sua pretensão de ser considerada uma entidade religiosa independente - dentro dos limites para ela prescritos por seus Fundadores - e a salvaguardar, por todos os meios disponíveis, sua integridade, a solidariedade de seus membros e a solidez de suas instituições eletivas. Agora que seus adversários declarados haviam, num país como aquele, em tais termos, e sobre uma questão dessa importância, feito um pronunciamento tão enfático e de tamanho alcance - rompendo o véu que desde muito tempo encobria algumas das verdades distintivas que faziam no âmago de sua doutrina - não mais podia essa comunidade guardar silêncio ou tolerar, sem protesto, a imposição de restrições calculadas para lhe circunscrever os poderes, sufocar a vida comunitária e negar o direito de ser admitida a um estado de igualdade incondicional com outras comunidades religiosas nesse país.

Inflexíveis em sua resolução de não mais ser classificados como muçulmanos, judeus, cristãos ou zoroastrianos, os membros dessa comunidade determinaram-se a adotar, como primeiro passo, medidas que vindicassem, além de qualquer desafio, a posição distintiva concedida à sua religião por aqueles que lhe eram inimigos declarados. Atentos a seu dever claro, sagrado e inescapável de obedecer às leis de seu país, sem reservas, em todos os assuntos de caráter puramente administrativo, mas firmemente resolvidos a asseverar e demonstrar, por todos os meios legítimos a seu dispor, ser sua Fé de caráter independente, eles formularam um método de proceder e embarcaram em atividades planejadas para leva-los mais uma etapa adiante, em direção à meta que se haviam incumbido de atingir.

A firme resolução, pois, de não dissimular sua fé, de forma alguma se importando com os sacrifícios que isto pudesse acarretar, e sua atitude em recusar terminantemente submeter a uma corte cristã, rabina ou zoroastriana qualquer assunto relacionado com seu status pessoal, e em recusar também afiliar-se com qualquer organização ou aceitar um posto eclesiástico associado com qualquer uma das religiões reconhecidas de seu país, bem como a observância universal das leis prescritas no Kitáb-i-Aqdas a respeito das orações obrigatórias, do jejum, do casamento, do divórcio, da herança, do enterro dos mortos, e do usa de ópio e de bebidas alcoólicas; a emissão e circulação de certificados de nascimento, morte, casamento e divórcio com a autorização de reconhecidas Assembléias Bahá'ís e sob seu selo; a tradução para o persa do livro "The Bahá'í Laws Affecting Matters of Personal Status" (As Leis Bahá'ís Relativas a Assuntos de Status Pessoal), primeiro publicado pela Assembléia Nacional Bahá'í do Egito; a suspensão do trabalho em todos os Dias Sagrades Bahá'ís; o estabelecimento de cemitérios bahá'ís na capital, bem como nas províncias, sendo isso planejado para prover um lugar de sepultura comum para os fiéis de todos os níveis, qualquer que fosse sua religião anterior; sua insistência em que não mais fossem registrados como muçulmanos, cristãos, judeus ou zoroastrianos em cartões de identidade, certificados de casamento, passaportes e outros documentos oficiais; a ênfase dada à instituição da Festa de Dezenove Dias, como foi estabelecida por Bahá'u'lláh em Seu Livro Mais Sagrado; a aplicação de sanções palas Assembléias Bahá'ís eletivas - as quais assumiam agora os deveres e as funções de cortes religiosas - sobre membros recalcitrantes da comunidade, sendo lhes negado o direito de votar e de ser membros dessas Assembléias e de seus comitês - tudo isso deve ser associado com os primeiros sinais de crescimento de uma comunidade que erigira a estrutura de sua Ordem Administrativa e agora, sob a influência propulsora da histórica sentença judicial pronunciada no Egito, se empenhava em obter - não mediante a força, mas sim, através da persuasão - o reconhecimento, pelas autoridades civis, ao status do qual seus adversários eclesiásticos haviam tão enfaticamente dado testemunho.

Não é de admirar haver sua tentativa inicial obtido apenas uma medida parcial de êxito, ou haver a comunidade, em algumas ocasiões, despertado a suspeita das autoridades governantes, ou haver sido flagrantemente difamada por seus vigilantes inimigos. Foi bem sucedida em certos respeitos em suas negociações com as autoridades civis, como, por exemplo, em conseguir o decreto governamental que eliminou toda referência à afiliação religiosa nos passaportes emitidos a súditos persas, e em obter a permissão dada e concedida em certas localidades para que seus membros não preenchessem as colunas religiosas em certos documentos de estado, mas giro, registrassem com suas próprias Assembléias seus certificados de casamento, divórcio, nascimento e morte, e efetuassem seus funerais de acordo com seus ritos religiosos. Em outros respeitos, entretanto, tem sido sujeitada a graves restrições as escolas de sua propriedade, fundadas e controladas exclusivamente por ela, foram fechadas por força, porque recusaram manter-se abertas nos dias sagrados bahá'ís; seus membros, homens, como também mulheres, foram processados; os que ocupavam cargos militares, ou de serviço civil, foram, em alguns casas, demitidos; foi proibido importar, imprimir ou circular sua literatura; foram proscritas todas as reuniões bahá'ís públicas.

A todos os regulamentos administrativos que, de tempos em tempos, as autoridades civis têm emitido, ou que no futuro emitirão nesse, como nos demais países, a comunidade bahá'í - fiel às suas sagradas obrigações para com seu governo e consciente de seus deveres cívicos - tem prestado e continuará a prestar obediência implícita. O fechamento imediato de suas escolas na Pérsia é prova disso. A ordens de tal natureza, entretanto, que equivalem a uma retratação de sua fé pelos membros da comunidade ou constituem um ato de deslealdade a seus princípios e preceitos espirituais, básicos, de origem diurna, ela tenazmente recusará submeter-se, preferindo prisão, exílio e toda espécie de perseguição, inclusive a morte - como já sofrida por vinte mil mártires que deram a vida no caminho de seus Fundadores - antes de seguir os ditamas de uma autoridade temporal que lhe exija a renúncia da lealdade à sua causa.

"Se nós - homens, mulheres e crianças, igualmente - formos despedaçados, no inteiro distrito de Ábádih" - foi a memorável mensagem que os intrépidos descendentes de alguns daqueles mártires, nesse centro turbulento, mandaram ao governador de Fárs - que tencionara coagi-los a se declararem muçulmanos - "jamais nos submeteremos a vossos desejos." E essa mensagem, ao ser entregue àquele governador pertinaz, induziu-o a desistir de tratar mais do assunto.

A comunidade bahá'í dos Estados Unidos da Américas, já havendo dado um exemplo inspirador com a ereção e o aperfeiçoamento da maquinaria de sua Ordem Administrativa, percebeu as vastas implicações da sentença pronunciada pela corte muçulmana do Egito, bem como o que significava a reação que essa sentença produzira na Terra Santa, e foi estimulada pela corajosa persistência demonstrada por sua comunidade irmã na Pérsia. Resolveu suplementar suas insignes conquistas com atos adicionais que visavam a ressaltar mais nitidamente o status conseguido pela Fé de Bahá'u'lláh no continente norte-americano. Numericamente, era menor do que a comunidade dos crentes persas. Por causa da multiplicidade das leis que governam os estados dentro da união, se viu enfrentada, em assuntos que afetam o status pessoal de seus membros, com uma situação radicalmente diferente daquela que confrontava as bahá'ís do Oriente, e muito mais complexa. Consciente, porém, de sua responsabilidade de prestar, mais uma vez, um poderoso ímpeto ao desenvolvimento de uma Ordem divinamente designada, incumbiu-se audazmente de iniciar medidas de tal natureza que acentuassem o caráter independente de uma Revelação que ela já havia com tanta nobreza defendido.

O reconhecimento, pelas autoridades federais, de sua Assembléia Espiritual Nacional como corpo religioso com direito de possuir, na qualidade de fideicomissários, propriedades dedicadas aos interesses da Fé, bem como a estabelecimento de doações bahá'ís e a isenção de impostos para elas obtida das autoridades civis - como sendo propriedades pertencentes a uma comunidade puramente religiosa e administradas exclusivamente em seu beneficio - viriam a ser suplementados agora por decisões e medidas cujo objetivo era dar maior proeminência à natureza dos laços que uniam seus membros. A especial ênfase dada a algumas das leis fundamentais contidas no Kitáb-i-Aqdas - àquelas referentes as orações obrigatórias diárias, à observação do jejum, ao consentimento dos pais como requisito para o matrimônio, à separação de um ano entre esposo e esposa como condição prévia, indispensável, do divórcio, à abstinência de todas as bebidas alcoólicas - bem como o relevo dado à instituição da Festa de Dezenove Dias, segundo ordem de Bahá,'u'lláh nesse mesmo Livro, a obrigação de não se afiliar a nenhuma Organização eclesiástica, ou de se retirar, se já for membro, e de recusar aceitar qualquer posto sacerdotal - tudo isso tem servido para destacar fortemente o caráter distintivo da Confraternidade Bahá'í e, aos olhos do público, desassociá-la dos ritos, das cerimônias e das instituições feitas pelo homem, aos quais estão identificadas com os sistemas religiosos do passado.

De importância especial, histórica, foi a solicitação dirigida às autoridades civis do Estado de Illinois pela Assembléia Espiritual dos Bahá'ís de Chicago - o primeiro centro estabelecido no continente norte-americano, a primeira entre suas Assembléias-irmãs a ser incorporada e a primeira a tomar a iniciativa em preparar o caminho para a ereção de um Templos Bahá'í no Ocidente - solicitação essa por reconhecimento civil do direito de efetuar casamentos legais de acordo com os preceitos do Kitáb-i-Aqdas e de registrar certificados de casamento que anteriormente receberam a sanção oficial dessa Assembléia. A anuência pelas autoridades que tornou necessária uma emenda nos estatutos de todas as Assembléias locais para lhes permitir efetivar casamentos legais bahá'ís e para dar ao Coordenador ou ao Secretário da Assembléia de Chicago o poder de representar esse corpo na ocasião de cada casamento bahá'í, bem como a emissão, no dia 22 de setembro de 1939, da primeira Licença Matrimonial Bahá'í pelo Estado de Illinois, autorizando a Assembléia de Chicago a solenizar casamentos bahá'ís e emitir certificados bahá'ís de casamento, e também as medidas eficazes tomadas subseqüentemente pelas Assembléias em outros estados da União, como Nova York, Nova Jersey, Wisconsin e Ohio, para obter para si privilégios semelhantes - têm todas, além disso, contribuído seu quinhão em realçar ainda mais o status de religião independente que cabe à Fé. A essas se deve acrescentar um reconhecimento similar e não menos significativo que, depois de irromper a último conflito, o Departamento de Guerra dos Estados Unidos concedeu - como evidência a comunicação dirigida à assembléia Espiritual Nacional Bahá'í da América, pelo Intendente Geral daquele Departamento, em 14 de agosto de 1942 - aprovando o uso do símbolo do Maior Nome nas lápides que marcam as sepulturas de bahá'ís mortos na guerra e enterrados em cemitérios militares ou particulares, assim distinguido essas sepulturas daquelas que tinham a Cruz Latina ou a Estrela de Davi colocadas mas que pertenciam a religião cristã ou a judaica, respectivamente.

Tampouco devemos deixar de mencionar a solicitação, que teve êxito igual, apresentada pela Assembléia Espiritual Nacional Bahá'í da América ao Departamento de Administração de Preços em Washington, D.C. com o objetivo de conseguir para os coordenadores e secretários das Assembléias locais bahá'ís, em sua qualidade de oficiais incumbidos de realizar reuniões religiosas e autorizados, em certos Estados, a efetuar cerimônias de casamento, um subsídio quilométrico sob as estipulações da Seção de Preferências Quilométricas dos Regulamentos sobre Gasolina, para que pudessem satisfazer as necessidades religiosas das localidades por eles atendidas.

As comunidades bahá'ís em outros países, tais como a Índia, o Iraque, a Grã-Bretanha e a Austrália, tampouco tardaram a apreciar as vantagens derivadas da publicação desse veredicto histórico ou a explorar, cada um de acordo com sua capacidade e dentro dos limites que lhe foram impostos pelas circunstâncias prevalentes, as oportunidades oferecidas por um testemunho público dessa natureza para que dessem mais uma demonstração do caráter independente da Fé cuja estrutura administrativa já haviam erigido. Através da execução das leis prescritas em seu Livro Mais Sagrado, em qualquer grau que lhes parecesse praticável, e mediante o rompimento de todos os laços de afiliação com instituições eclesiásticas de qualquer denominação, bem como pela formulação de um modo de proceder iniciado com o um único de dar maior publicidade a essa importante questão, a qual assinala um grande ponto crucial na evolução da Fé, e de lhe facilitar o estabelecimento final - essas comunidades e, de fato, todos os corpos bahá'ís organizados, tanto no Oriente como no Ocidente, por mais isolada sua posição ou imaturo seu estado de .desenvolvimento - conscientes de sua solidariedade e percebendo claramente as gloriosas perspectivas que diante delas se abrem - se têm levantado para proclamar, com uma só voz, o caráter independente da religião de Bahá'u'lláh, e preparar o caminho para sua emancipação de restrições de qualquer espécie, eclesiásticas ou outras, que lhe pudessem impedir ou atrasar o reconhecimento mundial.

Ao status já atingido por sua Fé - em grande parte através de seus próprios esforços e realizações, sem qualquer ajuda - tributos têm sido rendidos por observadores em vários níveis da vida, cujo testemunho essas comunidades têm recebido com regozijo e considerado mais um incentivo para ação em sua árdua e laboriosa escalada para o alto que, finalmente, eles haverão de alcançar.

"A Palestina", é o testemunho do Professor Norman Benturtch, um ex-Promotor Geral do Governo da Palestina, "pode agora, em verdade, ser considerada a terra não de três e sim, de quatro religiões, porque a crença bahá'í, que tem seu centro de fé e peregrinação em 'Akká e Haifa, esta atingindo o caráter de uma religião mundial. Quanto à sua influencia no país, é um fator que contribui para compreensão entre as nações e entre as religiões." "Em 1920", e a declaração que faz em seu testamento o famoso cientista e psiquiatra suíço, o Dr. Auguste Forel, "eu soube em Karlsruhe da religião supra-confessional mundial dos bahá'ís, fundada no Oriente há setenta anos por um persa, Bahá'í 'lláh. É esta a religião verdadeira de "Bem-estar Social", sem dogmas ou sacerdotes, que une todos os homens, deste nosso pequeno globo terrestre. Eu me tornei bahá'í. Que esta religião viva e prospere para o bem da humanidade! É este meu mais ardente desejo." "Há de haver um estado mundial, um idioma universal e uma religião universal"; disse ale, ainda mais, "O Movimento Bahá'í em prol da unidade do gênero humano é, em minha opinião, o maior movimento hoje, que trabalha pela paz e fraternidade universais."

"Uma religião" - é ainda outro testemunho, vindo este da pena da falecida Rainha Marie da Romênia, "que une todos os credos... uma religião baseada no espírito íntimo de Deus... Ensina que todos os ódios, intrigas, suspeitas, palavras más, até mesmo todo o patriotismo agressivo, estão fora da lei única, essencial, de Deus e que as crenças especiais são apenas coisas superficiais, enquanto o coração que bate com o amor Divino não conhece tribo, nem raça."

Capítulo XXV
EXPANSÃO INTERNACIONAL DAS
ATIVIDADES DE ENSINO

Enquanto se erguia gradualmente a estrutura da Ordem Administrativa da Fé de Bahá'u'lláh, e enquanto, mediante a influência de forças imprevistas, a independência da Fé estava sendo mais e mais definitivamente reconhecida por seus inimigos e demonstrada por seus amigos - ao mesmo tempo se estava pondo em movimento outro desenvolvimento não menos prenhe de conseqüências. Seu propósito era estender os limites da Fé, com o aumento no número de seus defensores declarados e de seus centros administrativos, e dar um novo e sempre crescente ímpeto ao enriquecimento, expansão e diversificação de sua literatura e à tarefa de disseminá-la cada vez mais largamente. A experiência provou, de fato, que o próprio padrão da Ordem Administrativa, além de outras características distintivas, estimulava, claramente, eficiência e rapidez neste trabalho de ensino, e seus construtores verificaram que seu zelo se avivava, continuamente, e seu ardor missionário se intensificava, à medida que a Fé avançava a uma emancipação cada vez mais completa.

Não descuidaram das exortações, dos apelos e das promessas dos Fundadores de sua Fé, que, por três quartos de um século - cada um de Seu próprio modo e dentro dos limites que lhe circunscreviam as atividades - haviam trabalhado tão heroicamente para difundir a fama da Causa cujo destino uma Providência Onipotente Os incumbira de amoldar.

O Arauto de sua Fé havia ordenado aos próprios soberanos da terra que se levantassem para ensinar Sua Causa, escrevendo no Qayyúmu'l-Asmá: "Ó Assembléia dos reis! Entregai, com verdade e com toda premência, os versículos que fizemos descer, aos povos da Turquia e da Índia e, além deles,... às terras tanto do Oriente como do Ocidente."

"Saí de vossas cidades, ó povos do Ocidente", escreveu Ele, ainda mais, nesse mesmo Livro, "para servirdes a Deus."

"Nós vos vemos de Nosso Mais Glorioso Horizonte" - assim Bahá'u'lláh, em Seu Kitáb-i-Aqdas, se dirigiu a Seus seguidores, "e a quem quer que se levante para servir Minha Causa, ajudaremos com as hastes da Assembléia nas alturas e uma corte dos anjos que estão próximos de Mim." "...Ensinai a Causa de Deus, ó povo de Bahá!", escrevera Ele, ainda mais, "pois Deus prescreveu a cada um o dever de proclamar Sua mensagem e o considera o mais meritório de todos os atos." "Se um homem, completamente só", havia Ele com toda clareza afirmado, "se levantar em nome de Bahá e sobre si puser a armadura de seu amor, o Onipotente o fará vitorioso, ainda que as forças da terra e do céu contra ele se armem." "Se alguém se levantar para o triunfo de Nossa Causa", declarou. Ele, além disso, "Deus lhe concederá a vitória, embora dezenas de milhares de inimigos contra ele se aliem." E outra vez: "Concentrai vossas energias na propagarão da Fé de Deus. Quem é digno de tão alta vocação, que se levante e a promova. A quem não pode, incumbe nomear em seu lugar, um outro que proclamará esta Revelação..." "Os que deixarem seu país" - é Sua própria promessa - "com o fim de ensinar Nossa Causa - estes o Espírito Fiel fortalecerá através de seu poder.

...Tal serviço, em verdade, é o príncipe de todos os atos belos e o adorno de cada bela ação." "Nestes dias", escrevera 'Abdu'l-Bahá em seu Testamento, "a mais importante de todas as coisas é guiar os povos e nações do mundo. O ensino da Causa é de suma importância, pois é a pedra angular do próprio alicerce." "Os discípulos de Cristo", havia Ele declarado nesse mesmo , Documento, "esqueceram-se de si mesmos e de todas as coisas terrenas, renunciaram todos os seus bens e as suas preocupações, purgaram-se do ego e da paixão e, com desprendimento absoluto, espalharam-se em toda parte e se ocuparam em conduzir os povos do mundo ao caminho certo, até que, afinal, fizeram do mundo um novo mundo, iluminaram a terra, e até sua última hora deram provas de sua abnegação. no caminho daquele Bem-Amado de Deus. Finalmente, em várias terras, sofreram o martírio. Os que foram homens de ação, que sigam suas pegadas!" "Quando chegar a hora" - havia Ele afirmado solenemente nesse mesmo Testamento - "em que esta ave oprimida, de asas quebradas, tenha alçado seu vôo para a assembléia celestial,... incumbirá aos... amigos e bem-amados - todos, sem exceção, despertarem e se levantarem, de coração e alma e de comum acordo para ensinarem Sua Causa e promoverem Sua Fé. Cumpre-lhes não descansarem nem por um momento sequer... Devem dispersar-se por todas as terras. .. e viajar através de todas as regiões. Impelidos à ação, sem descanso, e constantes até o fim, devem levantar o brado de Yá Bahá'u'l-Abhá (ó Tu, a Glória das Glórias)... de modo que por todo o Oriente e to do o Ocidente uma vasta assembléia se possa reunir à sombra da Palavra de Deus, para que os doces sabores da santidade emanem, as faces dos homens se iluminem, seus corações estejam plenos do Espírito Divino e suas almas se tornem celestiais."

Seus seguidores, tanto no Oriente como no Ocidente, obedecendo a essas repetidas instruções e lembrando-se dessas promessas resplandecentes, também percebendo a sublimidade de sua vocação e sentindo-se incitados pelo exemplo que o próprio 'Abdu'l-Bahá lhes havia dado - nem permitindo que Seu repentino desaparecimento os desalentasse ou que os ataques lançados pelos adversários de dentro e de fora os aterrorizassem - levantaram-se, na plena força de sua solidariedade, para promover, com mais vigor do que nunca, a expansão internacional de sua Fé - uma expansão que iria agora assumir tão grandes proporções que mereceria ser reconhecida como um dos desenvolvimentes mais significativos na história do primeiro século bahá'í.

Campanhas de ensino, lançadas em todos os continentes do globo - de início, intermitentes, ao acaso e sem organização, e, mais tarde, como resultado da Ordem Administrativa que lentamente se desenvolvia, conduzidas sistematicamente, com direção centralizada e levadas a cabo com eficiência - essas campanhas empreendidas pelos seguidores de Bahá'u'lláh em muitos países, mas mormente na América, por membros de todas as idades e ambos os sexos, novatos e veteranos, por instrutores viajantes e por pioneiros residentes, constituem em virtude de sua extensão e das bênçãos que delas fluíram, um episódio brilhante que a nenhum outro cede lugar, senão aqueles associados com as façanhas que imortalizaram os anos iniciais da idade primitiva da Dispensação Bahá'í.

A luz da Fé, durante os nove anos da Dispensação Babí, havia resplandecido na Pérsia, e se havia refletido no território adjacente do Iraque. Durante os trinta e nove anos do ministério de Bahá'u'lláh, derramara seu esplendor sobre a Índia, Egito, Turquia, Cáucaso, Turquestão, Sudão, Palestina, Síria, Líbano e Birmânia e, subseqüentemente, através do impulso de um Convênio divinamente instituído atingira os Estados Unidos da América, Canadá, Franga, Grã-Bretanha, Alemanha, Áustria, Rússia, Itália, Holanda, Hungria, Suíça, Arábia, Tunísia, China, Japão, as Ilhas Havaí, África do Sul, Brasil e Austrália. Agora, antes do término do primeiro século bahá'í, viria alcançar e iluminar nada menos de trinta e quatro nações independentes, bem como várias dependências situadas nos continentes da América, da Ásia e da África, no Golfo Pérsico e nos Oceanos Atlântico e Pacifico. Na Noruega, Suécia, Dinamarca, Bélgica, Finlândia, Irlanda, Polônia, Tchecoslováquia, Romênia, Iugoslávia, Bulgária, Albânia, Afeganistão, Abissínia, Nova Zelândia e em dezenove republicas da América Latina foram erguidos estandartes da Revelação de Bahá'u'lláh desde a falecimento de Abdu'l-Bahá e, em muitos desses países, já foi estabelecida a base estrutural da Ordem Administrativa de Sua Fé. Em vários territórios dependentes, além disso, tanto no Oriente como no Ocidente - inclusive Alasca, Islândia Jamaica, Porto Rico, a ilha de Solano nas Filipinas, Java, Tasmânia, as ilhas de Bahrayn e de Tahiti, Balochistão, a Rodésia do Sul e o Congo Belga - os portadores do recém-nascido Evangelho têm estabelecido residências e estão envidando todos os esforços para estabelecer uma base inexpugnável para suas instituições.

Essas insignes vitórias foram ganhas, durante as décadas finais do primeiro século bahá'í, por meio de palestras e conferências, mediante imprensa e rádio, como também pela participação nas atividades de sociedades, institutos e clubes que miravam a ideais semelhantes aos princípios da Fé, através da disseminação de literatura bahá'í e de várias exposições, por meio do estabelecimento de classes para treinar instrutores, através de contato com estadistas, eruditos, publicistas, filantropos e outros dirigentes do pensamento público - havendo se realizado a maior parte de tudo isso graças ao engenho dos membros da comunidade bahá'í americana, que assumiram responsabilidade direta pela conquista espiritual da vasta maioria desses países e territórios dependentes - e, acima de tudo