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A Casa Universal de Justiça : Século de Luz
Século de Luz
Casa Universal de Justiça
Tradução - Osmar Mendes
Prefácio

O término do século vinte deixa os bahá’ís em uma posição singularmente vantajosa para observação. Durante os últimos cem anos, nosso mundo passou por transformações muito mais profundas do que quaisquer outras em sua história, mudanças que são, em sua maior parte, pouco entendidas pela atual geração. Esses mesmos cem anos viram a Causa Bahá’í emergir da obscuridade, demonstrando, em uma escala global, o poder unificador com o qual sua origem divina foi dotada. Com a aproximação do final do século, a convergência desses dois históricos desenvolvimentos tornou-se cada vez mais aparente.

O livro Século de Luz, preparado sob nossa supervisão, analisa esses dois processos e a relação existente entre eles no contexto dos Ensinamentos Bahá’ís. Recomendamos aos amigos que o estudem atentamente, na certeza de que as perspectivas nele descortinadas provarão ser tanto um enriquecimento espiritual como uma ajuda prática ao compartilharem com os outros as implicações desafiadoras da Revelação trazida por Bahá’u’lláh.

A Casa Universal de Justiça
Naw-Rúz, 158 E.B.
Século de Luz

O século vinte, o mais turbulento na história da raça humana, chegou ao fim. Desalentada pela degradação moral e pelo caos social que marcaram seu curso, a generalidade das pessoas do mundo está ansiosa em deixar para trás as recordações dos sofrimentos que essas décadas lhes trouxeram. Não importa quão frágeis possam parecer as bases de confiança no futuro, não importa quão grandes sejam os perigos que assomam no horizonte, a humanidade parece desesperada para acreditar que, por alguma conjunção fortuita de circunstâncias, será possível transformar as condições da vida humana em conformidade com os desejos humanos prevalecentes.

À luz dos ensinamentos de Bahá’u’lláh, tais esperanças não são meramente ilusórias, mas ignoram inteiramente a natureza e o significado do grande momento decisivo pelo qual nosso mundo passou nestes cem anos cruciais. Somente quando a humanidade entender as implicações do que aconteceu durante esse período da história é que será capaz de enfrentar devidamente os desafios que se encontram à sua frente. O valor da contribuição que nós, como bahá’ís, podemos dar às demandas desse tão esperado processo de transformação, exige que estejamos bem conscientes do que significa a transformação histórica forjada pelo século vinte.

O que torna esta compreensão possível para nós é a luz derramada pelo Sol nascente da Revelação de Bahá’u’lláh e a influência que veio exercer nos assuntos humanos. É esta oportunidade o assunto principal tratado nas páginas que se seguem.

RECONHEÇAMOS DE INÍCIO a magnitude da ruína que a raça humana trouxe para si mesma durante o período da história em consideração. Somente no que concerne à perda de vidas, seu número está além de qualquer contagem. A desintegração das instituições básicas da ordem social, a violação – na verdade, o abandono – dos padrões de decência, a traiçoeira renegação da vida da mente pela busca de ideologias tão esquálidas quanto vazias, a invenção e produção de monstruosas armas de aniquilamento em massa, a bancarrota de nações inteiras e a redução de verdadeiras massas de seres humanos a uma pobreza desesperadora, a irresponsável destruição do meio ambiente do planeta – tais são apenas os mais óbvios de um catálogo de horrores desconhecidos até mesmo durante as mais obscuras eras passadas. Apenas para mencioná-las, recordemos as advertências divinas expressas nas palavras de Bahá’u’lláh há um século: “Ó desatentos! Embora as maravilhas de Minha misericórdia tenham envolvido todas as coisas, tanto visíveis como invisíveis, e se bem que as revelações de Minha graça e generosidade tenham penetrado todo átomo do universo, no entanto, a vara com a qual posso castigar os malfeitores é penosa, e é terrível a veemência de Minha ira contra eles.”1

Que nenhum observador da Causa seja tentado a interpretar tais advertências como metafóricas somente. Shoghi Effendi, mencionando algumas de suas implicações históricas, escreveu em 1941:

Uma tempestade de inédita violência varre atualmente a face da terra, e não podemos prever seu curso. Os efeitos imediatos são catastróficos, mas as conseqüências finais serão gloriosas, além do que possamos imaginar. A força que a impele cresce impiedosamente em âmbito e rapidez. Seu poder purificador, se bem que despercebido, aumenta dia a dia. A humanidade, vítima desse inexorável ímpeto assolador, é abatida pelas evidências de sua fúria irresistível. Não percebe sua origem, nem pode sondar seu significado ou discernir seu fim. Perplexa, angustiada, impotente, vê esse grande e poderoso vento do castigo divino invadir as mais remotas e belas regiões, abalando a terra até os fundamentos e perturbando-lhe o equilíbrio; vê desintegrarem-se suas nações, sendo rompidos os lares de seus povos e arrasadas suas cidades; presencia o desterro de seus reis, a demolição de seus baluartes e o desmoronamento de suas instituições, sendo encoberta sua luz e atormentadas as almas de seus habitantes.2

Do ponto de vista da riqueza e influência, “o mundo” de 1900 era a Europa e, numa concessão relutante, também os Estados Unidos. Em todo o planeta, o imperialismo ocidental buscava impor, entre as populações de outras terras, o que era considerado como sua “missão civilizatória”. Nas palavras de um historiador, o início da primeira década do século mostrou ser essencialmente uma continuação do “longo século dezenove”,3 uma era cuja desmedida auto-satisfação foi talvez melhor exemplificada pela celebração, em 1897, do jubileu da Rainha Vitória, com um desfile que durou várias horas nas ruas de Londres e que teve uma pompa imperial e uma demonstração de poder militar que ultrapassaram qualquer tentativa similar em civilizações passadas.

No início do século, houve poucas pessoas, qualquer que fosse o seu grau de sensibilidade social ou moral, que perceberam as catástrofes à sua frente e praticamente ninguém que pudesse haver concebido a sua magnitude. As lideranças militares da maioria das nações européias pressentiam que algum tipo de guerra iria ocorrer, mas viam tal possibilidade com equanimidade devido a duas convicções gêmeas, inabaláveis, de que a guerra teria curta duração e seria vencida por elas. Em um grau que parecia um tanto miraculoso, o movimento internacional pela paz recrutava o apoio de estadistas, industriais, estudantes, dos veículos de comunicação e de personalidades influentes, até inacreditáveis, como o czar da Rússia. Se o aumento desenfreado dos armamentos parecia preocupante, a rede de alianças cuidadosamente costuradas, e muitas vezes sobrepostas, parecia garantir que uma conflagração geral seria evitada e as disputas regionais resolvidas, como ocorrera no século anterior. Esta ilusão foi reforçada pelo fato de que as cabeças coroadas da Europa ? a maioria delas membros de uma extensa família, e muitos desses governantes exercendo poder político aparentemente decisivo – chamavam-se uns aos outros, com muita familiaridade, por apelidos, mantinham contínuo contato através de íntima correspondência, casavam-se com as irmãs e filhas uns dos outros, passavam férias juntos por longos períodos, todos os anos, nos castelos e pavilhões de caça de um ou de outro e eram companheiros em competições esportivas de regata. Até mesmo as disparidades dolorosas na distribuição da riqueza estavam sendo objeto de atenção ? embora não muito sistematicamente – das sociedades ocidentais através de legislação destinada a conter os males decorrentes do pior capitalismo selvagem de décadas precedentes e para atender as demandas mais urgentes das crescentes populações urbanas.

A vasta maioria da família humana, vivendo em terras fora do mundo ocidental, usufruía pouco das bênçãos e compartilhava quase nada do otimismo alcançados por seus irmãos europeus e norte-americanos. A China, a despeito de sua antiga civilização e sua auto-imagem de “Reino Médio”, tornara-se vítima indefesa da pilhagem das nações ocidentais e do seu modernizado vizinho, o Japão. As multidões na Índia – cuja economia e vida política haviam caído de forma total sob o domínio de um único poder imperial, excluindo as outras nações poderosas da habitual busca de vantagens – escapou de alguns dos piores abusos que afligiam outras terras, mas observavam, impotentes, seus recursos desesperadamente necessários sendo espoliados. A iminente agonia da América Latina era também claramente visível no sofrimento do México, grande parte do qual havia sido anexada pelo seu grande vizinho do norte e cujos recursos naturais já atraíam a atenção de gananciosas corporações externas. Particularmente embaraçosa, de um ponto de vista ocidental – devido a sua proximidade com tão brilhantes capitais européias, como Berlim e Viena – estava a opressão medieval na qual centenas de milhões de servos na Rússia, que haviam sido libertados da escravatura apenas aparentemente, viviam na mais triste e desesperadora miséria. Mais trágico que tudo foi a situação difícil dos habitantes do continente africano, divididos e em conflito entre si mesmos devido às fronteiras artificiais criadas através de cínicas barganhas feitas entre grandes potências européias. Estima-se que, durante a primeira década do século vinte, mais de um milhão de pessoas no Congo pereceram – de fome, espancamento e maus tratos até a morte para beneficiar seus mestres distantes, num vislumbre do destino que iria engolfar mais de uma centena de milhões de outros seres humanos em toda a Europa e na Ásia antes da chegada do final do século.4

Essas massas da humanidade, desprovidas e maltratadas – mas representando a maioria dos habitantes da terra – não eram vistas como protagonistas, mas essencialmente como objetos do processo civilizatório tão alardeado do novo século. A despeito dos benefícios conferidos a uma minoria deles, os povos coloniais existiam principalmente para serem aproveitados – usados, adestrados, explorados, cristianizados, civilizados, mobilizados – conforme ditavam os diferentes programas dos poderes ocidentais. Esses programas podem ter sido rudes ou suaves em sua execução, iluminados ou egoístas, evangélicos ou exploratórios, mas eram formulados por forças materialistas que determinavam tanto os seus meios como a maioria dos seus fins. Em grande parte, os atos de piedade, religiosos e políticos de várias espécies, mascaravam tanto os fins como os meios dos povos de terras ocidentais, os quais podiam, assim, obter satisfação moral das bênçãos que imaginavam que suas nações estivessem conferindo aos povos menos dignos, enquanto eles mesmos usufruíam dos frutos materiais dessa benevolência.

Ressaltar as falhas de uma grande civilização não significa negar suas realizações. Com a abertura do século vinte, os povos do Ocidente podiam orgulhar-se, justificadamente, dos progressos tecnológicos, científicos e filosóficos pelos quais suas sociedades haviam sido responsáveis. Décadas de experimentações haviam colocado em suas mãos meios materiais que estavam ainda além do alcance do restante da humanidade. Tanto na Europa como na América, grandes indústrias haviam surgido, dedicadas à metalurgia, à manufatura de produtos químicos de todos os tipos, aos têxteis, à construção civil e à produção de instrumentos úteis para todos os aspectos da vida. O processo contínuo de descobertas, design e melhorias estava tornando acessível um poder de magnitude inimaginável – mas, também, de conseqüências ecológicas igualmente imprevisíveis naquele tempo – especialmente com o uso de combustível barato e eletricidade. A “era das ferrovias” estava bem avançada e as embarcações a vapor singravam os oceanos do mundo. Com a proliferação das comunicações via telégrafo e telefone, a sociedade ocidental se preparava para o momento quando seria libertada dos efeitos limitadores que as distâncias geográficas impunham à humanidade desde os primórdios da história.

As mudanças que ocorriam em um profundo nível do pensamento científico eram ainda maiores em suas implicações. O século dezenove estivera ainda sob o jugo do conceito newtoniano do mundo como um vasto sistema mecanicamente regular, mas ao final do século, os avanços intelectuais necessários para desafiar aquele ponto de vista já haviam ocorrido. Novas idéias emergiam e levariam à formulação da mecânica quântica; e não demorou para que o efeito revolucionário da teoria da relatividade questionasse crenças sobre o mundo fenomenal que foram aceitas como realidades durante séculos. Tais inovações foram encorajadas – e sua influência grandemente ampliada – pelo fato de que a ciência já se transformara de uma atividade restrita a pensadores isolados a um esforço sistematizado de uma vasta e influente comunidade internacional, que usufruía dos recursos providos pelas universidades, laboratórios e simpósios para o intercâmbio de descobertas experimentais.

A força das sociedades ocidentais não se limitava aos avanços tecnológicos e científicos. Com a abertura do século vinte, a civilização ocidental já colhia os frutos de uma cultura filosófica que liberava rapidamente as energias de suas populações, e cuja influência logo iria produzir um impacto revolucionário no mundo inteiro. Foi uma cultura que estimulava o governo constitucional, valorizava as regras da lei e respeitava os direitos de todos os membros da sociedade, e erguia diante dos olhos de todos ao seu alcance uma visão de uma próxima era de justiça social. Se as ostentações de liberdade e igualdade que enchiam de orgulho a retórica patriótica em terras ocidentais eram, na verdade, muito distantes das condições que de fato prevaleciam, os ocidentais tinham razão de celebrar seu progresso no sentido desses ideais como uma herança que recebiam do século dezenove.

De uma perspectiva espiritual, a era que se iniciava se confrontava com uma estranha dualidade paradoxal. Em quase todas as direções, o horizonte intelectual era obscurecido por nuvens de superstição produzidas pela incrível perpetuação das imitações de épocas anteriores. Para a maioria dos povos do mundo, as conseqüências variavam de profunda ignorância sobre as potencialidades humanas e físicas do universo, ao inocente apego a teologias que pouco ou nenhuma relação tinham com a experiência das pessoas. Onde os ventos das transformações dispersavam as névoas, entre as classes educadas do Ocidente, as ortodoxias herdadas eram com freqüência substituídas por um secularismo despreparado e agressivo que duvidava tanto da natureza espiritual da humanidade como da autoridade dos próprios valores morais. Em todas as partes, a secularização da alta sociedade parecia caminhar lado a lado com um crescente obscurantismo religioso entre a população em geral. A níveis mais profundos – devido ao fato da influência da religião alcançar o âmago da psique humana e outorgar-se um tipo singular de autoridade – os preconceitos religiosos em todas as partes mantiveram vivas, por sucessivas gerações, as chamas ardentes de uma cruel animosidade cujos resultados seriam vistos nos horrores das próximas décadas.5

NESTE HORIZONTE DE FALSA confiança e desespero profundo, de iluminação científica e obscurantismo espiritual, surgiu, no início do século vinte, a Figura luminosa de ‘Abdu’l-Bahá. A viagem que O levou ao centro deste momento crucial na história da humanidade percorrera mais de cinqüenta anos de exílio, prisão e privações, não tendo havido um mês sequer em Sua vida que Lhe proporcionasse momentos de tranqüilidade e conforto. Ele chegou decidido a proclamar, tanto aos atentos como aos desatentos, o estabelecimento na terra daquele reino prometido de justiça e paz universal que alimentara a esperança humana por séculos e séculos. Sua base de sustentação, declarou, seria a unificação, neste “século de luz”, de todos os povos do mundo:

Nos dias atuais... os meios de comunicação têm-se multiplicado, e os cinco continentes da Terra fundiram-se virtualmente num só. ... De modo igual, todos os membros da família humana, quer povos, quer governos, cidades ou aldeias, têm-se tornado cada vez mais interdependentes. ... Portanto, a unidade de todo o gênero humano pode ser conseguida na época atual. Em verdade, isso não é senão uma das maravilhas desta admirável era, deste século glorioso.6

Durante os longos anos de prisão e exílio que se seguiram à recusa de Bahá’u’lláh em servir aos propósitos políticos das autoridades otomanas, ‘Abdu’l-Bahá recebeu a missão de administrar os assuntos da Fé, com a responsabilidade de atuar como seu porta-voz. Um aspecto significativo deste trabalho era a interação que ‘Abdu’l-Bahá tinha com as autoridades locais e regionais, que buscavam Seus conselhos para a solução dos problemas que as confrontavam. Não eram diferentes as necessidades existentes em Sua terra natal. Já em 1875, atendendo a instruções de Bahá’u’lláh, ‘Abdu’l-Bahá dirigiu aos governantes e ao povo da Pérsia um tratado intitulado O Segredo da Civilização Divina, estabelecendo os princípios espirituais que deviam guiar a reformulação de sua sociedade na era da maturidade da humanidade. Seu texto de abertura convoca o povo iraniano a refletir sobre a lição ensinada pela história sobre a chave do progresso social:

onsiderai cuidadosamente: todos estes fenômenos altamente variados, estes conceitos, este conhecimento, estes procedimentos técnicos e sistemas filosóficos, estas ciências, artes, indústrias e inventos – todos são emanações da mente humana. Qualquer pessoa que se aventurou mais profundamente neste ilimitado oceano conseguiu sobrepujar o restante. A felicidade e orgulho de uma nação consistem nisto, que ela deve brilhar como o sol no elevado paraíso do conhecimento. “ Poderão, acaso, equiparar-se os sábios com os insipientes?”7

O Segredo da Civilização Divina pressagia a orientação que iria fluir da pena de ‘Abdu’l-Bahá em décadas subseqüentes. Depois da perda devastadora que representou a ascensão de Bahá’u’lláh, os crentes persas foram reavivados e fortalecidos por uma torrente de Epístolas do Mestre, que proveram não somente a sustentação espiritual de que precisavam, como também a liderança da qual careciam para saber que caminho seguir diante dos tumultos que minavam a ordem das coisas estabelecidas em sua terra natal. Essas comunicações chegavam até mesmo às vilas mais remotas e pequenas em todo o país, respondendo aos apelos e questionamentos levantados por incontável número de crentes, levando-lhes a orientação, o encorajamento e as confirmações de que tanto precisavam. Lemos, por exemplo, uma Epístola dirigida aos crentes da vila de Kishih, mencionando, pelo nome, cerca de cento e sessenta dos crentes. Sobre a era que agora despontava, disse o Mestre: “este é o século da luz”, explicando que o significado desta imagem era a aceitação do princípio da unidade e suas implicações:

O que quero dizer é que os amados do Senhor devem considerar o maldoso como bondoso... Isto é, devem associar-se com o inimigo como se fosse um amigo, e agir com o opressor da maneira que merece um companheiro bondoso. Não devem olhar para as faltas e transgressões de seus inimigos, nem dar atenção à sua inimizade, iniqüidade ou opressão.8

De forma extraordinária, o pequeno grupo de oprimidos crentes, vivendo naquele canto remoto de uma terra que permanecia em grande parte longe do progresso que ocorria em outras partes do mundo na vida intelectual e social, é convocado, por esta Epístola, a desviar seus olhos das preocupações locais, soerguendo-os para ver as implicações da unidade em uma escala global:

Melhor dizendo, devem ver as pessoas à luz do chamado da Abençoada Beleza de que os membros da inteira raça humana são servos do Senhor de poder e glória, pois Ele incluiu a inteira criação na graça de Sua misericordiosa Revelação, e concedeu a todos nós Seu amor e afeição, sabedoria e compaixão, fidelidade e unidade para todos, sem qualquer discriminação.9

Aqui, o chamado do Mestre não é somente para um novo nível de entendimento, mas implica também na necessidade de comprometimento e ação. Na urgência e confiança da linguagem empregada, sente-se o poder que iria produzir as grandes realizações dos crentes persas por décadas que se seguiriam – tanto na promoção mundial da Causa como na aquisição de capacidades para o progresso da civilização:

Ó vós amados do Senhor! Com a maior alegria e satisfação, servi ao mundo humano e amai a inteira raça humana. Afastai vossos olhos das limitações e libertai-vos das restrições, pois... a liberdade decorrente trará consigo graças e bênçãos divinas.

Portanto, não repouseis, sequer por um instante; não buscai descanso, sequer por um minuto, nem repouso, por um momento que seja. Levantai-vos como as vagas de um poderoso oceano, e remai como o leviatã do oceano da eternidade.

Conseqüentemente, enquanto houver um traço de vida em vossas veias, deveis esforçar-vos e agir, e buscar criar uma fundação que o passar dos séculos e ciclos não possa abalar, e construir um edifício que o transcorrer das eras e milênios não possa destruir – um edifício que prove ser eterno e duradouro, de forma que a soberania do coração e da alma possa ser estabelecida e assegurada em ambos os mundos.10

Os historiadores sociais do futuro, com uma perspectiva muito mais desapaixonada e universal da que é atualmente possível se ter, e se beneficiando do livre acesso à documentação original, estudarão minuciosamente a transformação que o Mestre obteve naqueles primeiros anos. Dia após dia, mês após mês, de um exílio distante, onde vivia ameaçado por uma hoste de inimigos que o cercavam, ‘Abdu’l-Bahá não somente foi capaz de estimular a expansão da comunidade bahá’í iraniana, como também organizar seus conceitos sobre a Fé e sua vida comunitária. O resultado foi o surgimento de uma cultura, embora localizada, como a humanidade até então não conhecera. Nosso século, com todos os seus tumultos e grandiloqüentes pretensões de criar uma nova ordem, não tem exemplo que se possa comparar no que tange à aplicação sistemática de poderes de uma única Mente para a construção de uma comunidade singular e bem sucedida, que viu sua esfera de ação final abranger o próprio globo.

Embora sofrendo intermitentes atrocidades nas mãos do clero muçulmano e seus apoiadores – sem proteção dos indolentes monarcas Qájár – a comunidade bahá’í da Pérsia encontrou um novo impulso de vida. O número de crentes multiplicou-se em todas as regiões do país; pessoas proeminentes da sociedade aceitaram a Causa, incluindo inúmeros membros influentes do clero; e os precursores das instituições administrativas emergiram na forma de rudimentares corpos consultivos. A importância deste último desenvolvimento jamais poderá ser devidamente enfatizada, considerando-se que em uma terra e entre um povo acostumado durante séculos a um sistema patriarcal que concentrava todas as tomadas de decisões nas mãos de um monarca absoluto ou dos sacerdotes xiitas, uma comunidade que representava uma fatia representativa da sociedade, que rompera com o passado, tomava em suas próprias mãos a responsabilidade de decidir seus assuntos coletivos através de ação consultiva grupal.

Na sociedade e na cultura que o Mestre estava desenvolvendo, as energias espirituais eram manifestadas nos assuntos práticos da vida diária. A ênfase dos ensinamentos na educação proveu o impulso para o estabelecimento de escolas bahá’ís – incluindo a Escola Tarbíyat para meninas,11 que ganhou renome nacional – na capital e também em outras regiões do país. Com a ajuda de alguns bahá’ís americanos e europeus, foram também instaladas clínicas e outras facilidades médicas. Nos idos de 1925, comunidades em diversas cidades haviam instituído aulas de esperanto, em resposta à sua conscientização pelo ensinamento bahá’í de que alguma forma de língua internacional auxiliar deveria ser adotada. Uma rede de carteiros que cobria todo o país provia à emergente comunidade bahá’í os rudimentos de um serviço postal que para o restante do país praticamente não existia. As transformações ocorridas abrangiam inclusive aspectos bem corriqueiros da vida diária. Um exemplo: em obediência às leis do Kitáb-i-Aqdas, os bahá’ís persas abandonaram o uso dos poluídos banhos públicos, que eram prolíferos na transmissão de infecção e doenças, e começaram a utilizar os chuveiros que utilizavam água fresca.

Todos esses avanços, sejam eles sociais, organi-zacionais ou práticos, deviam sua força propulsora à transformação moral que ocorria entre os crentes, uma transformação que foi rapidamente dando uma distinção especial aos bahá’ís – mesmo aos olhos daqueles que eram hostis à Fé – que foram cada vez mais alcançando a confiança de seus concidadãos. Tão abrangentes transformações, que prontamente criaram um segmento da população persa distinto da grande maioria, antagônica, à sua volta, foi uma demonstração dos poderes liberados pelo Convênio de Bahá’u’lláh com Seus seguidores, e pela assunção por ‘Abdu’l-Bahá da liderança na qual Ele havia sido investido de forma inequívoca por este Convênio.

Durante todos esses anos, a vida política na Pérsia estava quase constantemente em tumulto. Enquanto o sucessor imediato de Násiri’d-Dín Sháh, Muzaffari’d-Dín Sháh, era induzido a aprovar a constituição de 1906, seu sucessor, Muhammad-’Alí Sháh, precipitadamente dissolveu os dois primeiros parlamentos – em um caso atacando com tiros de canhão o edifício onde os membros do parlamento se reuniam. O assim chamado “Movimento Constitucional”, que o derrubou do poder e obrigou o último dos reis da dinastia Qájár, Ahmad Sháh, a convocar um terceiro parlamento, era vítima de facções e abertamente manipulado pelo clero xiita. Os esforços dos bahá’ís para exercer um papel construtivo neste processo de modernização foram sempre frustrados, tanto pelas facções da realeza como pelas populares, ambas inspiradas pelo preconceito religioso prevalecente e que viam na comunidade bahá’í apenas um conveniente bode expiatório. Aqui, novamente, somente uma época politicamente mais madura do que a nossa será capaz de apreciar a forma como o Mestre – dando um exemplo para os futuros desafios que a comunidade bahá’í deve inevitavelmente encontrar – guiava a oprimida comunidade a fazer tudo o que lhe fosse possível para estimular a reforma política e, então, estar disposta a afastar-se quando tais esforços fossem cinicamente rechaçados.

Não foi somente através de Suas Epístolas que ‘Abdu’l-Bahá exercia tal influência em uma comunidade que rapidamente se desenvolvia no berço da Fé. Diferentemente dos ocidentais, os crentes persas não se distinguiam de outras pessoas do Oriente Médio no modo de vestir e em sua aparência física, e por isso, viajantes do berço da Fé não levantavam suspeitas das autoridades otomanas. Conseqüentemente, uma onda crescente de peregrinos persas proviam a ‘Abdu’l-Bahá outro meio poderoso para inspirar os amigos, orientando suas atividades e proporcionando-lhes um entendimento cada vez mais profundo dos propósitos da Revelação de Bahá’u’lláh. Alguns dos maiores nomes da história bahá’í iraniana são daqueles que viajaram a ‘Akká e regressaram aos seus lares preparados para dar suas vidas, se necessário, para a realização da visão do Mestre. O imortal Varqá e seu filho Rúhu’lláh estiveram entre esse número privilegiado, como também Hájí Mírzá Haydar ‘Alí, Mirzá Abu’l Fadl, Mirzá Muhammad-Taqí Afnán e quatro distinguidas Mãos da Causa, Ibn-i-Abhar, Hájí Mulláh Alí Akbar, Adíbu’l-Ulamá e Ibn-i-Asdaq. O espírito que hoje dá sustentação aos pioneiros persas em todas as partes do mundo e que exerce um papel tão criativo na construção da vida comunitária bahá’í, descende diretamente, família a família, daqueles dias heróicos. Em retrospecto, é evidente que o fenômeno que hoje conhecemos como os processos gêmeos de expansão e consolidação tiveram sua origem naqueles anos maravilhosos.

Inspirados pelas palavras do Mestre e pelos relatos levados da Terra Santa, os crentes persas se levantaram para empreender atividades de viagens de ensino para o Extremo Oriente. Durante os últimos dias do Ministério de Bahá’u’lláh, comunidades foram estabelecidas na Índia e na Birmânia, e a Fé havia sido levada a lugares tão distantes como a China; e agora tal trabalho estava sendo reforçado. Uma demonstração dos novos poderes liberados na Causa foi a construção, na província russa do Turquistão – onde uma vigorosa comunidade bahá’í também fora estabelecida – da primeira Casa de Adoração Bahá’í no mundo,12 um projeto inspirado pelo Mestre e guiado por Ele desde a sua concepção.

Foi este amplo campo de atividades, realizado por um corpo de crentes cada vez mais confiante e que se estendia desde o Mediterrâneo até o Mar da China, que criou a base de apoio sobre a qual ‘Abdu’l-Bahá pôde aproveitar as promissoras oportunidades que, com a abertura do século, recém começavam a surgir no Ocidente. Um aspecto não menos importante desta base foi a inclusão de representantes da grande diversidade oriental de raças, nações e religiões. Esta realização proveu a ‘Abdu’l-Bahá os exemplos sobre os quais podia repetidamente referir-Se em Sua proclamação a audiências ocidentais sobre as forças de integração que haviam sido liberadas com o advento de Bahá’u’lláh.

A maior vitória desses primeiros anos foi o sucesso obtido pelo Mestre com a construção, no Monte Carmelo, no local designado pelo próprio Bahá’u’lláh, e com um imenso esforço, do mausoléu para abrigar os restos mortais do Báb, que haviam sido trazidos até a Terra Santa com grande risco e dificuldade. Shoghi Effendi explicou que, enquanto em eras passadas o sangue dos mártires representava a semente da fé pessoal, neste dia tal sangue foi a semente das instituições administrativas da Causa.13 Tal discernimento dá um significado especial à forma pela qual o Centro Administrativo da Ordem Mundial de Bahá’u’lláh seria desenvolvido sob a sombra do Santuário do Profeta-Mártir da Fé. Shoghi Effendi coloca a realização do Mestre dentro de uma perspectiva global e histórica:

Pois, assim como ocorre no reino do espírito, a realidade do Báb foi exaltada pelo Autor da Revelação Bahá’í como “o Ponto em torno do Qual revolvem-se as realidades dos Profetas e Mensageiros” – da mesma forma, neste plano visível, Seus sagrados restos morais constituem o coração e o centro daquilo que pode ser considerado como nove círculos concêntricos14 e, de forma paralela, destacando ainda mais a posição central outorgada pelo Fundador de nossa Fé àquele “do Qual Deus fez surgir o conhecimento de tudo o que era e será”, o “Ponto Primordial do qual foram geradas todas as coisas criadas”.15

O significado, aos olhos do próprio ‘Abdu’l-Bahá, da missão que Ele cumprira com tanto esforço, é descrita com muita emoção por Shoghi Effendi:

Quando tudo terminou e os restos mortais do Profeta-Mártir de Shíráz, afinal, estavam seguramente depositados, para seu descanso eterno, no seio da sagrada montanha de Deus, ‘Abdu’l-Bahá, após haver posto de lado o turbante, removido os sapatos e despido o manto, curvou-Se sobre o sarcófago ainda aberto, com Seu cabelo prateado flutuando em volta da cabeça, estando transfigurada e luminosa Sua face, descansou Sua fronte na beira do ataúde e, em soluços, pranteou de tal modo que todos os presentes choraram com Ele. Naquela noite não pôde Ele dormir, tão acabrunhado estava.16

Em 1908, a chamada “Revolução dos Jovens Turcos” havia libertado não somente muitos dos prisioneiros políticos do Império Otomano, mas também ‘Abdu’l-Bahá. Subitamente, as restrições que O mantinham confinado à cidade-prisão de ‘Akká e suas vizinhanças caíram por completo, deixando o Mestre em uma condição de continuar um empreendimento que mais tarde Shoghi Effendi descreveu como uma das três principais realizações de Seu Ministério: Sua proclamação pública da Causa de Deus a grandes centros populacionais do Mundo Ocidental.

Devido ao caráter dramático dos eventos que ocorreram na América do Norte e na Europa, os relatos das históricas viagens do Mestre algumas vezes não se referem à importância do ano inicial que passou no Egito. ‘Abdu’l-Bahá chegou a esse país em setembro de 1910, pretendendo ir diretamente para a Europa, mas foi obrigado a lá permanecer por razões de saúde, residindo em Ramleh, um subúrbio de Alexandria, até agosto do ano seguinte. Como seria de esperar, os meses que se seguiram foram um período de grande produtividade, a plenitude de cujos efeitos sobre os destinos da Causa, no continente africano especialmente, será sentida por muitos anos no futuro. De alguma forma, o caminho sem dúvida havia sido aberto pela calorosa admiração ao Mestre de parte do Shaykh Muhammad ‘Abduh, o qual encontrara-se com Ele, diversas vezes, em Beirute, e que, posteriormente, tornou-se o Mufti do Egito e uma figura de liderança na Universidade Al-Azhar.

Um aspecto da estada do Mestre no Egito que merece atenção especial, foi a oportunidade surgida para a primeira proclamação pública da mensagem da Fé. A relativamente cosmopolita e liberal atmosfera prevalecente em Cairo e em Alexandria naquele tempo, abriu caminho para as conversações, francas e amplas, entre o Mestre e as figuras proeminentes do mundo intelectual do Islã Sunita, que incluíam sacerdotes, parlamentares, administradores e aristocratas. Ainda mais, editores e jornalistas de influentes jornais de língua árabe, cujas informações sobre a Causa haviam sido distorcidas pelos preconceituosos relatos vindos da Pérsia e de Constantinopla, tinham agora a oportunidade de conhecer pessoalmente os fatos da verdadeira situação. Publicações que eram abertamente hostis mudaram de tom. Os editores de tais jornais publicaram um artigo sobre a chegada do Mestre, referindo-se a Ele como “Sua Eminência Mírzá ‘Abbás Effendi, o sábio e erudito Líder dos bahá’ís em ‘Akká e Centro de autoridade para os bahá’ís em todo o mundo”, expressando a satisfação que Sua visita trouxera a Alexandria17. Este e outros artigos prestaram tributo especial ao conhecimento que ‘Abdu’l-Bahá tinha do Islã e aos princípios de unidade e tolerância religiosa que se encontravam no âmago de Seus ensinamentos.

A despeito da doença que se abatera sobre o Mestre, Sua estada no Egito provou ser uma grande bênção. Diplomatas e funcionários ocidentais foram capazes de testemunhar, em primeira mão, o extraordinário sucesso dos contatos de ‘Abdu’l-Bahá com figuras proeminentes em uma região do Oriente Médio de muito interesse em círculos europeus. Dessa forma, quando o Mestre embarcou para Marselha, em 11 de agosto de 1911, Sua fama já O precedera.

UMA EPÍSTOLA ENVIADA por ‘Abdu’l-Bahá a um crente norte-americano em 1905 contém uma declaração que é tanto esclarecedora quanto tocante. Referindo-Se à Sua situação após a ascensão de Bahá’u’lláh, ‘Abdu’l-Bahá falou de uma carta que Ele havia recebido da América, em “um tempo quando um oceano de testes e tribulações se avolumava...”:

Em tal condição nos encontrávamos quando eis que nos chega uma carta dos amigos americanos. Eles haviam pactuado entre si, assim escreveram, de modo a permanecer unidos em todas as coisas, e... votaram fazer sacrifícios na vereda do amor de Deus, para assim obter a vida eterna. No exato momento em que essa carta era lida, com as assinaturas que se lhe seguiam ao termo, ‘Abdu’l-Bahá experimentou um júbilo tão intenso que pena alguma é capaz de descrever...18

Uma análise das circunstâncias nas quais ocorreu a expansão da Causa no Ocidente é vital para os bahá’ís de nossos dias, e por muitas razões. Entenderemos melhor o que vai ser exposto se nos abstrairmos da cultura de comunicação vulgar e superficial que se tornou tão comum na sociedade atual, em especial para que não deixemos passar despercebido o espírito da comunicação utilizada por ‘Abdu’l-Bahá. O que nos chama a atenção é a forma gentil que o Mestre escolheu para apresentar ao público ocidental os conceitos sobre natureza humana e sociedade humana revelados por Bahá’u’lláh, conceitos revolucionários em suas implicações e inteiramente estranhos à experiência de Seus ouvintes. Explica a delicadeza com a qual Ele usa metáforas ou lança mão de exemplos históricos, a forma indireta freqüentemente utilizada em Seus enfoques, a facilidade com que podia resumir os assuntos e a aparentemente ilimitada paciência que tinha ao responder as perguntas que Lhe eram feitas, muitas delas já inteiramente superadas, tendo havia muito tempo perdido qualquer validade que pudessem ter possuído no passado.

Ainda outro aspecto importante, que uma análise imparcial da conjuntura histórica tratada pelo Mestre no Ocidente ajuda a propiciar à nossa geração, é o reconhecimento da grandeza espiritual daqueles que responderam positivamente à Sua mensagem. Essas almas atenderam ao Seu chamado, a despeito, não em razão, do mundo liberal e economicamente avançado que conheciam, um mundo que eles, certamente, apreciavam e valorizavam, e no qual precisavam viver em seu dia-a-dia. Suas respostas procediam de um nível de consciência que discernia, ainda que algumas vezes com dificuldade naquela penumbra, o anseio desesperado da raça humana por iluminação espiritual. Permanecer constante em seu compromisso com esta visão exigia muita firmeza daqueles primeiros crentes – em cujo sacrifício pessoal muitas das atuais estruturas das comunidades bahá’ís, tanto no Ocidente como em muitas outras terras, foram estabelecidas – diante das pressões sofridas, não somente de suas próprias famílias como também da sociedade em que viviam, que se apegava ainda a conceitos obsoletos sobre a vida e a religião. Há um heroísmo muito grande na firmeza desses primeiros bahá’ís ocidentais, que faz lembrar, em alguns aspectos, a firmeza demonstrada por seus co-irmãos na Pérsia, nos mesmos anos, diante das perseguições e mortandade, em sacrifício pela Fé que haviam abraçado.

Na linha de frente dos ocidentais que responderam aos chamados do Mestre, encontram-se os pequenos grupos de intrépidos crentes aos quais o Guardião saudou como “peregrinos intoxicados de amor a Deus” e que tiveram o privilégio de visitar ‘Abdu’l-Bahá na cidade prisão de ‘Akká, de ver por si mesmos a luminosidade de Sua Pessoa e ouvir de Seus próprios lábios palavras que tinham o poder de transformar a vida humana. O efeito sobre esses crentes foi bem expressado por May Maxwell:

“Daquele primeiro encontro,”... “não posso lembrar-me nem de alegria ou dor, nem qualquer sentimento que eu possa nomear. Fui levada subitamente a uma altura demais sublime, minh’alma entrara em contato com o Espírito Divino, e essa força, tão pura, tão santa, tão poderosa, aturdiu-me...”19

O retorno aos seus lares tornou-se, Shoghi Effendi explica, “o sinal para a eclosão de atividades sistemáticas e contínuas, as quais... espalhavam suas ramificações sobre a Europa ocidental e pelos estados e províncias do continente norte-americano...”20 Alimentando seus esforços e os de seus irmãos de fé, e atraindo à Causa um número crescente de novos aderentes, estava a torrente de Epístolas enviadas pelo Mestre aos crentes, em ambos os lados do Atlântico, mensagens que abriam a imaginação de seus receptores a novos conceitos, princípios e ideais contidos na nova Revelação de Deus. O poder desta força criativa pode ser sentido nas palavras com que o primeiro crente norte-americano, Thornton Chase, procurou descrever o que estava observando:

Seus [do Mestre] próprios escritos, espargindo-se como pombos brancos do Centro de Sua Presença até os confins da terra, são tantos (centenas emanando diariamente) que é impossível para Ele ter tempo de analisar em profundidade ou aplicar processos mentais de um erudito a eles. Seus escritos fluem como uma torrente de uma fonte inesgotável. ... .21

Estes sentimentos adicionam sua própria perspectiva à determinação com a qual o Mestre Se levantou para uma aventura tão ambiciosa que deslumbrou muitos daqueles ao Seu redor. Deixando de lado as preocupações levantadas em razão de Sua idade avançada, Sua saúde precária e as limitações físicas deixadas por décadas de prisão, Ele partiu para uma série de viagens que durariam três anos, levando-O até a costa do Pacífico no continente norte-americano. O cansaço e os riscos de uma viagem internacional nos primeiros anos do século foram os mais insignificantes dos obstáculos à concretização de Seus objetivos. Nas palavras de Shoghi Effendi:

Aquele que, em Suas próprias palavras, entrara na prisão na mocidade e a deixara na velhice, que nunca em Sua vida havia enfrentado um auditório público, nem sequer freqüentado uma escola ou Se movido em círculos ocidentais, e que desconhecia os costumes e idiomas ocidentais, levantou-Se agora não somente a fim de proclamar de púlpito e plataforma, em algumas das mais importantes capitais da Europa e nas principais cidades do continente norte-americano, as distintivas verdades entesouradas na Fé de Seu Pai, mas também a fim de demonstrar a origem Divina dos Profetas que Lhe precederam e revelar a natureza do laço ligando-Os àquela Fé.22

Nenhum palco mais brilhante para o ato de abertura deste grande drama teria sido melhor que Londres, a capital do maior e mais cosmopolita império que o mundo jamais conheceu. Aos olhos do pequeno grupo de crentes que organizaram Sua visita e que esperavam ansiosamente para ver Sua face, a viagem foi um triunfo que ultrapassou as mais otimistas expectativas. Altos dignitários do governo, eruditos, escritores, editores, industriais, líderes de movimentos reformistas, membros da aristocracia britânica e clérigos importantes de várias tradições religiosas, ansiosamente buscavam Sua presença, convidando-O para suas plataformas, salas de aula, lares e púlpitos, e demonstrando a Ele sua satisfação e concordância com os pontos de vistas por Ele expostos. No domingo, 10 de setembro de 1911, o Mestre falou pela primeira vez em Sua vida para uma platéia, subindo ao púlpito do City Temple. Suas palavras evocaram em Seus ouvintes a visão de uma nova era na evolução da civilização:

Este é um novo ciclo de poder humano. Todos os horizontes do mundo estão iluminados e o mundo tornar-se-á em verdade como um jardim e um paraíso... Vocês estão libertos das antigas superstições que têm mantido os homens em ignorância, destruindo os fundamentos da verdadeira humanidade.

A dádiva de Deus para esta era iluminada é o conhecimento da unidade da humanidade e da unidade fundamental da religião. A guerra cessará entre as nações e, pela vontade de Deus, a Paz Máxima virá; o mundo será visto como um novo mundo e todos os homens viverão como irmãos.23

Depois de uma estada adicional de dois meses em Paris e um retorno a Alexandria para passar o inverno e recuperar a saúde, ‘Abdu’l-Bahá viajou de navio para Nova York, partindo de Alexandria em 25 de março de 1912 e chegando a Nova York em 11 de abril daquele ano. Até mesmo no aspecto físico mais simples, um programa repleto com centenas de palestras públicas, conferências e audiências privadas em mais de quarenta cidades através da América do Norte e dezenove outras na Europa, algumas delas visitadas mais de uma vez, foi um feito que certamente não tem paralelo na história moderna. Em ambos os continentes, mas especialmente na América do Norte, ‘Abdu’l-Bahá teve uma recepção altamente calorosa por parte de distinguidas audiências, devotadas a temas como a paz, direitos da mulher, igualdade racial, reforma social e desenvolvimento moral. Praticamente todos os dias, Suas palestras e entrevistas receberam ampla cobertura em jornais de grande circulação. Ele próprio, mais tarde, escreveria que “encontrou todas as portas abertas... e o poder ideal do Reino de Deus removendo qualquer obstáculo e empecilho”.24

A abertura encontrada por ‘Abdu’l-Bahá permitiu-Lhe proclamar sem qualquer ambigüidade os princípios sociais da nova Revelação. Shoghi Effendi resumiu da seguinte forma as verdades apresentadas:

A independente busca da verdade, não agrilhoada por superstição ou tradição; a unidade da inteira raça humana, sendo este o princípio mais focalizado e a doutrina fundamental da Fé; a unidade básica de todas as religiões; a condenação de todas as formas de preconceito – quer de religião, raça, classe ou nacionalidade; a harmonia que deve existir entre a religião e a ciência; a igualdade do homem e da mulher, sendo eles as duas asas com as quais a ave do gênero humano poderá voar; a introdução da educação compulsória; a adoção de uma língua auxiliar universal; a abolição dos extremos de riqueza e pobreza; a instituição de um tribunal mundial para arbitrar entre nações em casos de disputas; a exaltação do trabalho – se for executado em espírito de serviço – ao grau da adoração; a glorificação da justiça como o princípio dominante na sociedade humana, e da religião como baluarte para a proteção de todos os povos e nações; e o estabelecimento de uma paz universal, permanente, como a meta suprema de toda a humanidade – esses princípios sobressaem como os elementos essenciais daquela política divina por Ele proclamada aos dirigentes de pensamento público, bem como às massas em geral, durante essas viagens missionárias.25

No âmago da mensagem do Mestre estava o anúncio de que havia chegado aquele Dia longamente esperado para a unificação da humanidade e para o estabelecimento do Reino de Deus na terra. Tal Reino, conforme exposto nas cartas e palestras de ‘Abdu’l-Bahá, nada tinha a ver com qualquer dos conceitos mundialmente aceitos decorrentes dos ensinamentos das religiões tradicionais. Pelo contrário, o Mestre proclamou a vinda da era de maturidade da humanidade e a emergência de uma civilização global na qual o desenvolvimento de toda a vastidão do potencial humano seria o fruto da interação entre valores espirituais universais, de um lado, e do outro, o progresso material do qual nem mesmo ainda se sonhara.

Os meios para alcançar esta meta, disse Ele, já existiam. O que se fazia necessário eram apenas a vontade de agir e a fé para persistir:

Todos sabemos que a paz internacional é algo bom, que promove a vida, mas a vontade e a ação são necessárias. Porquanto este século é o século de luz, a capacidade para alcançar a paz está assegurada. Com certeza essas idéias serão espalhadas entre os homens a tal grau que resultarão em ação.26

Embora expressos com infalível cortesia e consideração, os princípios da nova Revelação foram definidos de forma bem clara tanto em encontros privados como públicos. Invariavelmente, as ações do Mestre eram tão eloqüentes quanto as palavras que usava. Nos Estados Unidos, por exemplo, nada explicaria mais claramente a crença bahá’í na unidade da religião do que a prontidão de ‘Abdu’l-Bahá em incluir referências ao Profeta Maomé em Suas palestras a audiências cristãs, e Sua afirmativa da origem divina tanto do Cristianismo como do Islã, na congregação do Templo Emanu-El, em São Francisco. Sua habilidade em inspirar nas mulheres de todas as idades a confiança de que elas possuíam capacidade espiritual e intelectual em igualdade com os homens; Sua não-provocativa mas clara demonstração do significado dos ensinamentos de Bahá’u’lláh sobre a unidade racial, mediante a acolhida que dava a convidados negros, junto com os brancos, em Sua própria mesa de jantar, bem como nas mesas de Suas proeminentes anfitriãs; e Sua insistência sobre a importância vital da unidade em todos os aspectos dos esforços bahá’ís – tais demonstrações da forma pela qual os aspectos espirituais e práticos da vida devem interagir, abriram para os crentes janelas que lhes mostravam claramente as perspectivas de um novo mundo de possibilidades. O espírito de amor incondicional com o qual esses desafios eram apresentados em palavras conseguiu superar os temores e incertezas daquelas aos quais o Mestre Se dirigia.

Maiores ainda que o esforço despendido em Suas exposições públicas da Causa foram o tempo e a energia que o Mestre devotava ao aprofundamento do entendimento dos crentes sobre as verdades espirituais da Revelação de Bahá’u’lláh. Cidade após cidade, desde cedo pela manhã até tarde da noite, as horas que não eram dedicadas aos compromissos públicos de Sua missão eram dedicadas para responder as perguntas dos amigos, atender às suas necessidades e infundir neles um espírito de confiança na contribuição que cada um deles podia fazer para a promoção da Causa que haviam abraçado. Sua visita a Chicago deu oportunidade a ‘Abdu’l-Bahá para colocar, com Suas próprias mãos, a pedra fundamental da primeira Casa de Adoração Bahá’í no Ocidente, um projeto inspirado em outro templo bahá’í já existente em ‘Ishqábád, na Rússia, o qual também havia sido estimulado por ‘Abdu’l-Bahá desde a sua concepção.

O Mashriqu’l-Adhkár é das mais vitais instituições do mundo, e tem muitas ramificações suplementares. Embora seja uma Casa de Adoração, está ligado a um hospital, um dispensário de medicamentos, uma pousada para viajantes, uma escola para órfãos e uma universidade para estudos avançados. … É minha esperança que agora o Mashriqu’l-Adhkár seja estabelecido na América, e que gradualmente a ele sejam acrescidos o hospital, a escola, a universidade, o dispensário e a hospedaria, todos funcionando conforme os mais eficientes e metódicos procedimentos.27

Como ocorre também com o processo simultâneo desenvolvido na Pérsia, somente os historiadores do futuro serão capazes de avaliar adequadamente o poder criativo desta dimensão das viagens de ‘Abdu’l-Bahá no Ocidente. Memórias e cartas dão testemunho da forma pela qual mesmo os encontros rápidos com o Mestre puderam dar sustentação a incontável número de bahá’ís ocidentais através dos anos e anos de esforços e sacrifício que se seguiram, e como eles lutaram para expandir e consolidar a Fé. Sem tal intervenção do próprio Centro do Convênio, seria impossível imaginar pequenos grupos de crentes no Ocidente – carecendo inteiramente da herança espiritual que seus correligionários persas receberam de um longo envolvimento de seus ancestrais nos heróicos eventos da história bábí e dos primórdios da história bahá’í – sendo capazes de tão rapidamente absorverem o que a Causa deles exigia e assumirem tão audaciosas tarefas delas decorrentes.

Seus ouvintes eram convocados a se tornarem agentes amorosos e confiantes de um grande processo civilizatório, cujo pivô é o reconhecimento da unidade da raça humana. Ao levantarem-se para assumir sua missão, ‘Abdu’l-Bahá lhes prometeu que encontrariam ativas em si mesmos, e em seus companheiros, capacidades inteiramente novas com as quais Deus dotara neste Dia a inteira raça humana:

Deveis vos tornar a própria alma do mundo, o espírito vivo no corpo dos filhos dos homens. Nesta Era maravilhosa, neste tempo em que a Antiga Beleza, o Maior Nome, trazendo incontáveis dádivas, elevou-se acima do horizonte do mundo, a Palavra de Deus infundiu tão assombroso poder na mais íntima essência da humanidade, que Ele despiu os homens do efeito das qualidades humanas e, com Seu poder predominante, unificou os povos num vasto mar de unidade.28

Nada, talvez, testemunhe de forma tão destacada a resposta dos crentes a este apelo do que o fato que a unidade estabelecida entre eles não inibia a forma particular de cada um deles, como indivíduos, de expressarem as verdades da Fé. O relacionamento entre o indivíduo e a comunidade tem sido sempre um dos maiores desafios no desenvolvimento da sociedade. Basta apenas ler, mesmo superficialmente, os relatos das vidas dos primeiros bahá’ís no Ocidente para que se tenha uma idéia do alto grau de individualismo que caracterizava muitos deles, particularmente os mais ativos e criativos. Não era raridade o fato de alguns deles só terem encontrado a Fé depois de intensas buscas em outros movimentos espirituais e sociais existentes naquele tempo, e que este amplo entendimento das preocupações e interesses de seus contemporâneos sem dúvida os ajudaram a tornarem-se tão competentes instrutores da Fé. É igualmente claro, porém, que o elevado nível de expressão e entendimento entre eles não os impedia, ou a seus companheiros de fé, de contribuírem decididamente para a criação da unidade coletiva, cuja realidade era a principal atração à Causa. Conforme relatos históricos e lembranças pessoais daquele período deixam evidente, o segredo deste equilíbrio entre o indivíduo e a comunidade era o laço espiritual que ligava os crentes às palavras e ao exemplo do Mestre. Em certo sentido, e de maneira muito importante, ‘Abdu’l-Bahá foi, para todos eles, a Causa Bahá’í.

Nenhuma análise objetiva da missão de ‘Abdu’l-Bahá no Ocidente pode deixar de considerar o fato de que apenas um pequeno número daqueles que aceitavam a Fé – e infinitamente menos ainda entre o público que se aglomerava para ouvir Suas palavras – obtinham dessas preciosas oportunidades mais do que um leve entendimento das implicações de Sua mensagem. Sabedor das limitações de Seus ouvintes, ‘Abdu’l-Bahá não hesitava em apresentar, em Seus contatos com os crentes ocidentais, ações que os elevassem a um nível de consciência bem acima de uma mera tolerância e integração social. Um exemplo marcante do alcance de tais intervenções foi Seu ato, carinhoso porém dramático, de encorajar o casamento de Louis Gregory e Louise Mathew – ele negro, ela branca. A iniciativa definiu um padrão para a comunidade bahá’í americana quanto ao real significado da integração racial, por mais tímida e vagarosa que tenha sido a resposta dos seus membros às implicações centrais deste desafio.

Mesmo sem um entendimento profundo das metas definidas pelo Mestre, os que abraçaram Sua mensagem começaram, quase sempre com grandes sacrifícios pessoais, a dar expressão prática aos princípios por Ele ensinados. O comprometimento para com a causa da paz internacional; a abolição dos extremos de riqueza e pobreza que estavam solapando a unidade da sociedade; a superação dos preconceitos nacionais, raciais e outros; o estímulo à igualdade na educação de meninos e meninas; a necessidade de libertar-se dos grilhões de antigos dogmas que inibiam a livre investigação da realidade – todos estes princípios para o progresso da civilização haviam exercido poderosa impressão em todos eles. Poucos, se alguns existiram, dos ouvintes do Mestre, efetivamente entenderam – ou podiam haver entendido – quão revolucionária seria a mudança na própria estrutura da sociedade e na submissão consciente da natureza humana à Lei Divina, a qual, em última instância, é a única força capaz de produzir as necessárias transformações nas atitudes e na conduta das pessoas.

A chave para esta visão da transformação iminente da vida individual e social da humanidade foi a proclamação de ‘Abdu’l-Bahá, logo após Sua chegada à América do Norte, do Convênio de Bahá’u’lláh e do papel central ao qual Ele fora chamado a exercer neste Convênio. Nas próprias palavras do Mestre:

Quanto às principais características da revelação de Bahá’u’lláh, um ensinamento específico, inexistente em revelações anteriores, é a criação e a designação do Centro do Convênio. Com esta designação e provisões decorrentes, Ele salvaguardou e protegeu a religião de Deus contra diferenças e cismas internos, tornando impossível, a quem quer que seja, criar uma nova seita ou facção dentro da Fé.29

Escolhendo a cidade de Nova York para Seu propósito – e designando-a “a Cidade do Convênio” – ‘Abdu’l-Bahá, com muita firmeza, revelou aos crentes ocidentais Sua autoridade, outorgada pelo Fundador da Fé para a interpretação definitiva de Sua Revelação. Uma discípula altamente respeitada, Lua Getsinger, fora chamada pelo Mestre para preparar o grupo de bahá’ís que haviam se reunido na casa onde Ele residia temporariamente, para este histórico anúncio, após o que Ele próprio desceu as escadas e falou, em termos gerais, sobre o sentido das implicações do Convênio. Juliet Thompson, a qual, com um dos tradutores persas presentes, estivera no quarto do andar superior quando tal missão fora dada à sua amiga, deixou um relato das circunstâncias. Ela cita ‘Abdu’l-Bahá, afirmando:

... Eu sou o Convênio, designado por Bahá’u’lláh. E ninguém pode refutar Sua Palavra. Este é o Testamento de Bahá’u’lláh. Vocês o encontrarão no Sacratíssimo Livro do Aqdas. Ide e proclamai, “Este é o Convênio de Deus em vosso meio”.30

Concebido por Bahá’u’lláh como o Instrumento que, nas palavras de Shoghi Effendi, iria “perpetuar a influência dessa Fé, assegurar-lhe a integridade, salvaguardá-la do cisma e estimular-lhe a expansão pelo mundo todo,”31 o Convênio havia sido violado por membros da família do próprio Bahá’u’lláh logo após Sua ascensão. Reconhecendo que a autoridade investida em ‘Abdu’l-Bahá no Kitáb-i-’Ahd, na Epístola do Ramo e em outros documentos relacionados ao Convênio, frustraram a expectativa que tinham de transformar a Causa de acordo com seus interesses pessoais, essas pessoas se lançaram em uma interminável campanha para subverter Sua posição, primeiro na Terra Santa, depois na Pérsia, onde se concentrava a maioria da comunidade bahá’í. Quando tais esquemas falharam, buscaram manipular os receios políticos do governo otomano e a avareza de seus representantes na Palestina. Esta esperança também foi por terra quando a “Revolução dos Jovens Turcos” derrubou o regime em Constantinopla, enforcando cerca de trinta e um de seus principais líderes, incluindo diversos que estavam implicados nos planos dos rompedores do Convênio.

No Ocidente, durante os primeiros anos do ministério do Mestre, representantes enviados por Ele já haviam rechaçado com sucesso as maquinações de Ibrahim Khayru’lláh – ironicamente, a pessoa que havia apresentado a Causa a muitos dos crentes norte-americanos – que tinha como objetivo garantir uma posição de liderança através de sua associação com os rompedores do Convênio na Família Sagrada. Tais experiências haviam preparado, sem dúvida alguma, os crentes ocidentais para a proclamação formal do Mestre sobre Sua posição e para a firmeza que instilou em seus corações para que evitassem qualquer envolvimento com aqueles promotores de desunião. “Certas almas fracas, capciosas, maliciosas e ignorantes… se empenharam em apagar o Divino Convênio e Testamento e turvar a água límpida para nela poderem pescar”.32 Mas seria apenas gradualmente, à medida em que as novas comunidades se esforçavam para superar as diferenças de opiniões e para resistir à perene tentação humana ao sectarismo, que as implicações desta grande lei normativa da nova Dispensação iriam surgir e firmar-se.

Ao mesmo tempo em que descortinava aos olhos das pessoas, tanto em palestras públicas como em conversas particulares, a visão de um mundo de unidade e paz trazida pela Revelação de Deus para a nossa era, o Mestre fazia sérias advertências sobre os perigos que ameaçavam a estabilidade social a curto prazo – tanto para a Fé como para o mundo, prevendo para ambos, nas palavras de Shoghi Effendi, um “inverno de severidade sem precedente”.

Para a Causa de Deus, o inverno incluiria a lamentável traição ao Convênio. Na América do Norte, a inconstância de um pequeno número de indivíduos, frustrados em suas aspirações de liderança pessoal, continuou sendo uma fonte interminável de dificuldades para a comunidade, solapando a fé de alguns e fazendo com que outros simplesmente deixassem de participar na Causa. Na Pérsia, também, a fé dos amigos foi repetidamente testada pelas maquinações de indivíduos ambiciosos que, subitamente, começaram a ver condições de engrandecimento pessoal, que pensavam usufruir ajudando o trabalho do Mestre no Ocidente, trabalho este sempre coroado de êxito. Em ambos os casos, as conseqüências de tais deserções serviram, no final, para aprofundar a devoção dos crentes que se mostraram firmes.

Quanto à humanidade em geral, ‘Abdu’l-Bahá fez advertências bem claras sobre a catástrofe que sentia estar próxima. Embora enfatizando a urgência dos esforços para a reconciliação que poderia aliviar, pelo menos em parte, o sofrimento dos povos do mundo, ‘Abdu’l-Bahá não deixava dúvida, em Seus pronunciamentos, sobre a magnitude do perigo iminente. Em um dos principais jornais de Montreal, onde a cobertura da imprensa à Sua viagem foi particularmente ampla, foi registrado que:

“A Europa inteira é um campo armado. Todo o preparo bélico que se vê necessariamente culminará em uma grande guerra. Os próprios armamentos são produtores de guerra. Este grande arsenal deve pegar fogo. Esta opinião não é nem de natureza profética”, disse ‘Abdu’l-Bahá; “ela é baseada unicamente na razão”.33

Em 5 de dezembro de 1912, a Figura que havia sido saudada como “o Apóstolo da Paz” por toda a América do Norte, deixou Nova York para Liverpool. Depois de uma breve estada em Londres e em outros centros britânicos, Ele visitou diversas cidades no continente, novamente devotando muitas semanas a Paris, onde Ele pôde contar com os serviços de Hippolyte Dreyfus, cuja habilidade de escrever árabe e persa atendia às necessidades do Mestre. Como reconhecida capital cultural da Europa continental, Paris era o centro focal de visitantes de muitas partes do mundo, incluindo o Oriente. Enquanto as palestras feitas durante Suas duas visitas à cidade freqüentemente faziam referência aos grandes temas sociais discutidos em outras partes, elas parecem destacar-se principalmente por uma espiritualidade profunda que deve ter tocado fundo no coração daqueles que tiveram o privilégio de conhecê-Lo:

Elevai vossos corações acima do presente e contemplai o futuro com olhos de fé! Hoje, a semente está lançada, o grão cai sobre a terra, mas observai, virá o dia quando se levantará uma gloriosa árvore cujos ramos estarão carregados de frutos. Regozijai-vos e alegrai-vos porque este dia amanheceu; procurai compreender seu poder, pois é deveras maravilhoso!34

Na manhã de 13 de junho de 1913, ‘Abdu’l-Bahá embarcou em Marselha no vapor S. S. Himalaya, chegando a Port Said, no Egito, quatro dias mais tarde. O que Shoghi Effendi chamou de “Suas viagens históricas” encerrou-se com Seu retorno a Haifa no dia 5 de dezembro de 1913.

Dois anos depois, quase no mesmo dia das declarações de ‘Abdu’l-Bahá ao editor do jornal Montreal Daily Star, o mundo, que se mostrava tão confiante e cujas bases de sustentação pareciam inabaláveis, abruptamente desmoronou. A catástrofe, conforme registros históricos, está associada com o assassinato, em Sarajevo, do herdeiro do trono do império austro-húngaro, e certamente a seqüência de erros, de ameaças irresponsáveis e apelos inconseqüentes para “honra”, que levaram diretamente à Primeira Guerra Mundial, teve como estopim esse evento relativamente pequeno. Na realidade, porém, como o Mestre ressaltou, as “reverberações” preliminares ocorridas durante toda a primeira década do século deveriam ter alertado os líderes europeus quanto à fragilidade da ordem então existente.

Nos anos de 1904-1905, os impérios japonês e russo haviam entrado em guerra com uma violência que levou à destruição de virtualmente todas as forças navais da Rússia e à rendição de territórios que ela considerava vitais a seus interesses, uma humilhação que teria longas repercussões, tanto internamente no país como internacionalmente. Em duas ocasiões durante esses primeiros anos do século, uma guerra entre França e Alemanha sobre desígnios imperialistas no Norte da África foi evitada somente através da intervenção de outros países também interessados no motivo do litígio. Em 1911, as ambições da Itália provocaram, de forma semelhante, uma ameaça perigosa à paz internacional quando se apossou, do império Otomano, do que hoje é a Líbia. A instabilidade internacional foi ainda mais longe quando – como o Mestre havia advertido – a Alemanha, sentindo-se ameaçada por uma rede crescente de alianças hostis, iniciou um programa maciço de construção naval com o objetivo de eliminar a até então reconhecida liderança britânica.

Agravando estes conflitos havia tensões entre os súditos dos impérios Romanov, Hapsburg e Otomano. Esperando apenas por alguma reviravolta que quebrasse o jugo dos sistemas em decadência que os oprimiam, bálticos, poloneses, tchecos, sérvios, gregos, albaneses, búlgaros, romenos, curdos, árabes, armênios, e uma multidão de outras nacionalidades esperavam ansiosamente pelo dia de sua libertação. Explorando incansavelmente esta rede de fissuras na ordem prevalecente, havia uma verdadeira hoste de conspirações, grupos de resistência e organizações separatistas. Inspirados em ideologias que variavam desde um anarquismo quase incoerente, em um extremo, a um racismo exacerbado e obsessões nacionalistas, em outro extremo, estas forças subterrâneas compartilhavam de uma convicção ingênua: se uma parte da ordem prevalecente que havia se tornado seu alvo pudesse de alguma forma ser eliminada, a nobreza existente no segmento da humanidade que apoiava seus objetivos – ou a presumida nobreza da humanidade em geral – iria, por si mesma, assegurar uma nova era de liberdade e justiça.

Sozinha entre esses pretensos agentes de uma mudança violenta, um movimento com ampla base popular se desenvolvia sistematicamente, e com clareza implacável de propósito, rumo à meta da revolução mundial. O Partido Comunista, que derivava tanto seu impulso intelectual como sua confiança inabalável de seu triunfo final dos escritos do ideólogo do século dezenove, Karl Marx, conseguia estabelecer grupos de firmes apoiadores na Europa e em vários outros países. Convencidos de que a genialidade de seu mestre havia demonstrado, acima de qualquer dúvida, a natureza essencialmente material das forças que haviam dado nascimento tanto à consciência humana como à organização social, o movimento comunista descartou a validade da religião e dos padrões morais “burgueses”. Em seu modo de ver, fé em Deus era uma fraqueza neurótica incutida na raça humana, uma fraqueza que apenas havia possibilitado que sucessivas classes dominantes manipulassem a superstição como um instrumento de escravização das massas.

Aos líderes do mundo, cegamente afunilando seus caminhos no sentido da conflagração universal que o orgulho e a insensatez haviam preparado, os grandes avanços feitos pela ciência e tecnologia representavam principalmente um meio para conseguir vantagem militar sobre seus rivais. Os oponentes europeus das nações envolvidas, porém, não eram as populações coloniais empobrecidas e em sua maioria ignorantes que elas haviam conseguido subjugar. A falsa confiança que o poderio militar assim lhes inspirava levaram-nos inexoravelmente a uma corrida para equipar seus exércitos e navios com o que de mais avançado existia em armamentos, e isso da forma mais maciça possível. Metralhadoras, canhões de longo alcance, navios de guerra, submarinos, minas terrestres, gás venenoso e aviões de bombardeio – todos representavam conquistas do que um comentarista classificou de “tecnologia da morte”.35 Todos estes instrumentos de aniquilação seriam, como havia advertido ‘Abdu’l-Bahá, utilizados e aprimorados no curso do próximo conflito.

A ciência e a tecnologia também exerciam outra forma de pressão, mais sutil, sobre a ordem então prevalecente. A produção em larga escala, estimulada pela corrida armamentista, havia acelerado o movimento das populações para os centros urbanos. Ao final do século anterior, este processo já minava os padrões e a lealdade herdados, expondo um crescente número de pessoas a novas idéias para a transformação social e excitando o apetite das massas quanto aos benefícios materiais até então ao alcance apenas de segmentos da elite da sociedade. Mesmo sob sistemas relativamente autocratas, o público começava a perceber a medida em que a autoridade civil era dependente, para sua efetividade, de sua habilidade em conseguir amplo apoio popular. Esses desenvolvimentos sociais teriam conseqüências imprevisíveis e de longo alcance. Como a guerra iria arrastar-se indefinidamente, e a crença ingênua em sua simplicidade começou a ser questionada, milhões de homens integrantes dos exércitos de ambos os lados começaram a ver que seus sofrimentos não tinham um significado digno e que eram infrutíferos em termos de suas próprias vidas e do bem-estar de suas famílias.

Além destas implicações decorrentes das transformações tecnológicas e econômicas, o progresso científico parecia encorajar suposições simplistas sobre a natureza humana, um véu quase despercebido do que Bahá’u’lláh havia chamado de “o pó de todo o conhecimento adquirido que o obscurece”36. Esses pontos de vistas eram transmitidos naturalmente nas mensagens passadas a audiências cada vez maiores. O sensacionalismo na imprensa popular, os acerbos debates entre cientistas ou eruditos de um lado e teólogos ou clérigos importantes de outro, juntamente com a rápida expansão do ensino público, continuaram a solapar a autoridade das tradicionais doutrinas religiosas, como também dos padrões morais correntes.

Essas forças divisoras do novo século contribuíram para tornar a situação em que se encontrava o mundo ocidental em 1914 cada vez mais volátil. Quando irrompeu a grande conflagração, portanto, o pesadelo ultrapassou de longe os piores temores imaginados. Não teria propósito aqui analisar exaustivamente o cataclismo da Primeira Guerra Mundial. As estatísticas continuam ainda desafiando o entendimento humano: estima-se que sessenta milhões de homens, até o seu final, participaram desse mais horroroso inferno que a história jamais conheceu, oito milhões deles perecendo no curso dos conflitos e um adicional de dez milhões, ou mais, permanentemente incapacitados devido aos ferimentos que os mutilaram.37 Os historiadores avaliam que o total do custo financeiro pode ter chegado a trinta bilhões de dólares, destruindo uma porção substancial de toda a riqueza da Europa.

Mesmo as perdas maciças não chegam a dar uma idéia do alcance total da ruína. Uma das considerações que retardou muito a proposição feita pelo Presidente Woodrow Wilson ao Congresso dos Estados Unidos para a declaração de guerra que, então, tornara-se virtualmente inevitável, foi a consciência do estrago moral que traria. Dentre as qualidades distintivas que caracterizaram esse homem extraordinário – um estadista cuja visão tanto ‘Abdu’l-Bahá como Shoghi Effendi elogiaram - estava sua compreensão da brutalização da natureza humana, que seria a pior herança da tragédia que engolfava a Europa, um legado além da capacidade humana reverter.38

Uma análise da magnitude do sofrimento que a humanidade experimentou nos quatro anos de guerra – e o conseqüente retrocesso no longo e doloroso processo para civilizar a natureza humana – infelizmente mostra o significado trágico que tiveram as palavras que o Mestre havia dirigido apenas dois ou três anos antes a auditórios em cidades européias como Londres, Paris, Viena, Budapeste e Stuttgart, e também na América do Norte. Falando, certa noite, na residência do Sr. e da Sra. Sutherland Maxwell, em Montreal, Ele dissera:

Hoje, o mundo da humanidade caminha na escuridão porque está afastado do mundo de Deus. É por isso que não vemos os sinais de Deus nos corações humanos. O poder do Espírito Santo não pode exercer sua influência. Quando uma iluminação espiritual divina torna-se manifesta no mundo da humanidade, quando a instrução e a guia divinas aparecem, então ocorre a iluminação, um novo espírito surge no coração humano, novos poderes são despertados, uma nova vida lhe é dada. É como o nascimento do reino animal no reino humano. ... Orarei, e vocês precisam orar também, para que tais bênçãos celestiais possam ocorrer; que a contenda e a inimizade sejam banidas, a guerra e o derramamento de sangue sejam afastados; para que os corações alcancem a comunicação ideal entre si e todos os povos bebam da água da mesma fonte.39

O tratado de paz vingativo imposto pelos poderes Aliados sobre seus inimigos derrotados, resultou apenas, como ‘Abdu’l-Bahá e Shoghi Effendi haviam ressaltado, no plantio das sementes de um novo e muito mais terrível conflito. As ruinosas compensações que exigiam dos conquistados – e a injustiça que os obrigavam a aceitar a culpa total por uma guerra na qual ambos os lados haviam sido, de uma forma ou de outra, responsáveis – situam-se entre os fatores que iriam preparar povos desmoralizados na Europa para abraçarem as promessas totalitárias de alívio, as quais eles poderiam não ter contemplado de outra forma.

Ironicamente, não importando quão duras tenham sido as compensações exigidas dos vencidos, os supostos vencedores despertaram para a inesperada compreensão de que seu triunfo – e a exigência de rendição incondicional que levou a esse triunfo – ocorrera também a um preço igualmente desastroso. As pesadíssimas dívidas bélicas acabaram para sempre com o domínio econômico que essas nações européias haviam adquirido através de três séculos de exploração imperialista do restante do planeta. A morte de milhões de jovens que seriam urgentemente necessários para enfrentar os desafios das décadas à frente foi uma perda que jamais poderia ser reparada. Na verdade, a própria Europa – a qual apenas quatro anos antes havia representado o aparente ápice da civilização e da influência mundial – perdeu, de um só golpe, esta destacada posição, começando a inexorável derrocada durante as décadas seguintes rumo à condição de apenas um coadjuvante de um novo centro de poder na América do Norte.

Inicialmente, pareceu que a visão do futuro concebida por Woodrow Wilson seria agora realizada. Em parte, isso provou ser o caso dos povos dominados na Europa, que ganharam a liberdade de traçar seus próprios destinos ao saírem da ruína dos antigos impérios, formando então um conjunto de novas nações. Ainda mais, os “Quatorze Pontos” do Presidente Wilson, em síntese, tiveram em seus pronunciamentos públicos tão grande autoridade moral na mente de milhões de europeus que nem mesmo o mais recalcitrante dos líderes de seus companheiros dentre as forças Aliadas puderam rechaçar inteiramente os seus postulados. A despeito de meses de disputas sobre as colônias, suas fronteiras e cláusulas no texto dos tratados de paz, o acordo de Versalhes por fim incorporou uma forma atenuada da proposta da Liga das Nações, uma instituição que se esperava pudesse ajustar as futuras disputas entre nações e harmonizar os assuntos internacionais.

O comentário de Shoghi Effendi sobre o significado dessa histórica iniciativa exige uma atenta reflexão de parte de qualquer bahá’í que queira entender os eventos deste século conturbado. Descrevendo dois desenvolvimentos estrei-tamente relacionados entre si e que estão associados com o alvorecer da paz mundial, Shoghi Effendi enfatiza que eles “estão destinados a culminar, no decorrer do tempo, em uma única gloriosa consumação”.40 O primeiro, o Guardião descreve como associado com a missão da comunidade bahá’í no continente da América do Norte; o segundo, com o destino dos Estados Unidos como uma nação. Falando deste último fenômeno, o qual data do início da primeira guerra mundial, Shoghi Effendi escreve:

Ele recebeu seu ímpeto inicial com a formulação dos “Quatorze Pontos” do Presidente Wilson, ligando intimamente, pela primeira vez, aquela república com os destinos do Velho Mundo. Sofreu seu primeiro revés com a dissociação daquela república, não apoiando a recém-nascida Liga das Nações, a qual o Presidente muito trabalhara para criar... Deverá levar, porém, por mais longo e tortuoso que seja o caminho, através de uma série de vitórias e revezes, à unificação política dos Hemisférios Oriental e Ocidental, à emergência de um governo mundial e ao estabelecimento da Paz Menor, conforme predita por Bahá’u’lláh e profetizada pelo Profeta Isaías. Deverá, por fim, culminar no desfraldar da bandeira da Paz Máxima, na Idade Áurea da Dispensação de Bahá’u’lláh.41

Quão trágico, no entanto, foi o destino da concepção que havia inspirado os esforços do Presidente norte-americano. Conforme ficou logo evidente, a Liga das Nações havia nascido sem vida. Embora incluísse tais aspectos como uma legislatura, um judiciário, um executivo e uma burocracia de apoio, negava a autoridade vital ao trabalho que tencionava ostensivamente realizar. Fechada na concepção do século dezenove sobre a imutável soberania nacional, podia tomar decisões somente com o assentimento unânime dos estados membros, uma exigência que em grande parte impedia uma ação efetiva da entidade.42 A superficialidade do sistema estava evidente, também, por falhar em incluir alguns dos mais poderosos estados do mundo; a Alemanha havia sido rejeitada como uma nação derrotada e que foi responsabilizada pela guerra; à Rússia foi inicialmente negada admissão em razão de seu regime bolchevista, e o próprio Estados Unidos se recusou – como resultado do partidarismo estreito no Congresso – participar da Liga ou ratificar seu tratado. Ironicamente, mesmo os fracos esforços feitos para proteger as minorias étnicas que viviam nos recém-criados estados-nações provaram, por fim, ser pouco mais que munições a serem utilizadas nos contínuos conflitos fratricidas na Europa.

Em suma, precisamente no momento da história humana quando uma irrupção sem precedentes de violência havia destruído o baluarte da herança de uma conduta civilizada, a liderança política do mundo ocidental havia castrado o único sistema alternativo da ordem internacional, fruto da experiência daquela catástrofe e que, sozinho, poderia ter aliviado grande parte do sofrimento à sua frente. Nas proféticas palavras de ‘Abdu’l-Bahá: “Paz, Paz... os lábios dos potentados e povos clamam sem cessar, enquanto que o fogo de ódios insaciáveis ainda queima em seus corações.” “Os males que o mundo está sofrendo”, Ele acrescentou em 1920, “multiplicar-se-ão; as trevas que o envolvem aumentarão ainda mais. … Os Poderes subjugados continuarão a se movimentar. Eles recorrerão a todas as medidas que puderem para reascender a flama da guerra”.43

Enquanto o inferno da guerra engolfava o mundo, ‘Abdu’l-Bahá voltava Sua atenção para uma importante tarefa remanescente em Seu ministério, a de assegurar que fosse levada aos mais remotos recantos da Terra a mensagem que havia sido negligenciada – ou recebido oposição – tanto da sociedade islâmica como da ocidental. O instrumento que Ele criou para realizar esse propósito foi o Plano Divino, definido em quatorze grandes Epístolas, quatro delas dirigidas à comunidade bahá’í da América do Norte e dez adicionais, dirigidas a cinco segmentos específicos daquela comunidade. Junto à Epístola do Carmelo, de Bahá’u’lláh, e à Última Vontade e Testamento, de ‘Abdu’l-Bahá, as Epístolas do Plano Divino foram descritas por Shoghi Effendi como as “Cartas Magnas” da Causa. Reveladas durante os dias mais obscuros da guerra, em 1916 e 1917, o Plano Divino convoca o pequeno corpo de crentes norte-americanos e canadenses a assumirem o papel de liderança no estabelecimento da Causa de Deus através do planeta. As implicações da confiança neles depositada foram arrebatadoras. Nas palavras do Mestre:

A esperança que ‘Abdu’l-Bahá acaricia para vós é que o mesmo sucesso que tiveram seus esforços na América possa coroar suas atividades em outras partes do mundo, que através de vós a fama da Causa de Deus possa ser difundida através do Oriente e do Ocidente, e o advento do Reino do Senhor das Hostes seja proclamado em todos os cinco continentes do globo. Quando esta Mensagem Divina for levada pelos crentes norte-americanos das praias da América e propagada através dos continentes da Europa, Ásia, África e Austrália, e a regiões distantes como as ilhas do Pacífico, esta comunidade ver-se-á seguramente estabelecida sobre o trono de um domínio imperecível. Então, todos os povos do mundo testemunharão ser esta comunidade espiritualmente iluminada e divinamente guiada. Então, na Terra inteira ressoarão os louvores de sua majestade e grandeza....44

Shoghi Effendi nos lembra que esta histórica missão, descrita por ele como “a certidão de nascimento da Comunidade Bahá’í Norte-Americana”,45 tem suas raízes nas palavras das Manifestações Gêmeas de Deus sobre a era de maturidade da humanidade. Surge, primeiro, nas palavras do Báb, Quem convocou os “povos do Ocidente” a “deixarem suas cidades” para “ajudarem a Deus no Dia em que o Senhor de misericórdia descesse das nuvens do céu...”, e tornarem-se “como verdadeiros irmãos em uma única e indivisível religião de Deus, livre de distinções... para que vocês se vejam refletidos neles, e eles, em vocês.”46. Em Suas chamadas aos “Governantes da América e Presidentes de suas Repúblicas”, o próprio Bahá’u’lláh lhes dá um mandato que não tem paralelo em qualquer outro de Seus manifestos aos líderes mundiais: “Reuni vós os alquebrados com as mãos da justiça e esmagai o opressor que viceja com o bastão dos mandamentos do vosso Senhor, o Ordenador, o Sapientíssimo”.47 Foi Bahá’u’lláh, também, Quem enunciou uma das mais profundas verdades sobre o processo pelo qual a civilização tem evoluído: “No Oriente, a luz de Sua Revelação surgiu; no Ocidente, apareceram os sinais de Seu domínio. Ponderai isso em vossos corações, ó povos...”.48

Embora o Plano Divino, como o Guardião mais tarde iria afirmar, “fosse mantido em suspenso” até que o sistema necessário para a sua execução fosse criado, ‘Abdu’l-Bahá havia selecionado, fortalecido e autorizado um grupo de crentes que iriam tomar a liderança no lançamento de tal empreendimento. Sua própria vida caminhava já para seu fim, mas os três anos que Lhe restaram, após a conclusão da Guerra Mundial, pareciam, em retrospectiva, prover uma visão antecipada das vitórias que a própria Causa iria conhecer com a abertura do novo século. As mudanças políticas ocorridas na Terra Santa liberaram o Mestre para prosseguir, sem impedimentos, com Seu trabalho e criaram as condições pelas quais o brilho de Sua mente e a luz de Seu espírito podiam exercer sua influência junto aos representantes dos governos, visitando dignitários de todas as origens e as várias comunidades que formavam a população da Terra Santa. O próprio Poder Mandatário no país procurou expressar sua satisfação pelo efeito unificador de Seu Exemplo e pelo trabalho filantrópico que fez, conferindo-Lhe a honraria de cavaleiro.49 Mais importante ainda, uma torrente renovada de peregrinos e de Epístolas dirigidas aos bahá’ís tanto do Oriente como do Ocidente, estimulou vigorosamente uma expansão do trabalho de ensino e aprofundou o entendimento dos amigos sobre as implicações da mensagem da Fé.

Nada mais ilustra tão dramaticamente, talvez, o triunfo espiritual que o Mestre havia conquistado no Centro Mundial da Fé, do que os eventos em Haifa ocorridos logo após Sua ascensão nas primeiras horas de 28 de novembro de 1921. No dia seguinte, uma enorme multidão de milhares de pessoas, representando uma grande variedade de raças e seitas religiosas, seguiu o cortejo fúnebre pelas encostas do Monte Carmelo, demonstrando um profundo pesar como a cidade até então jamais presenciara. Foi acompanhado por representantes do governo britânico, membros da comunidade diplomática e pelos chefes de todas as comunidades religiosas daquela área, muitos dos quais participaram das orações e leituras feitas no Santuário do Báb. Tão irrestrita e unida demonstração de pesar refletia a inesperada consciência da perda de uma Figura cujo exemplo servira como centro focal de unidade em uma terra irada e dividida. Em si mesmo, o funeral serviu, para todos os que tinham olhos para ver, como uma comprovação comovente da verdade da unidade da humanidade que o Mestre tão incansavelmente proclamara.

COM O PASSAMENTO DE ‘ABDU’L-BAHÁ, a Idade Apostólica da Causa chegara ao fim. A intervenção divina que começara havia setenta e sete anos, na noite em que o Báb declarara Sua missão a Mullá Husayn – e o próprio ‘Abdu’l-Bahá nascia – havia completado seu trabalho. Foi, nas palavras de Shoghi Effendi, “um período cujo esplendor nenhuma vitória, nesta ou em uma era futura, por mais brilhante que seja, poderá rivalizar...”.50 À frente se encontravam os mil anos ou milhares de anos nos quais todo o potencial que esta força criativa plantou na consciência humana irá aos poucos se manifestar.

Contemplar tão grande conjuntura na história da civilização traz à luz o foco da Figura cuja natureza e papel foram incomparáveis neste processo de seis mil anos. Bahá’u’lláh chamou ‘Abdu’l-Bahá de “O Mistério de Deus”. Shoghi Effendi O descreveu como “o Centro e Pivô” do Convênio de Bahá’u’lláh, o “Exemplar Perfeito” dos ensinamentos da Revelação de Deus para a era de maturidade humana, e “a Fonte da Unidade da Humanidade”. Nenhum fenômeno comparável ao Seu aparecimento jamais ocorreu em qualquer das Dispensações Divinas que tenham dado nascimento a outros grandes sistemas religiosos que a História registra; todos eles foram estágios necessários para preparar a humanidade para a sua idade de maturidade. ‘Abdu’l-Bahá foi a Criação suprema de Bahá’u’lláh, Aquele que tornou tudo possível. Uma compreensão desta verdade levou um atento bahá’í norte-americano a escrever:

Agora, uma mensagem de Deus precisava ser proclamada, mas não havia humanidade para ouvir esta mensagem. Portanto, Deus deu ao mundo ‘Abdu’l-Bahá. ‘Abdu’l-Bahá recebeu a mensagem de Bahá’u’lláh em nome da raça humana. Ele ouviu a voz de Deus; Ele foi inspirado pelo espírito; Ele alcançou de forma completa o espírito e a compreensão do significado desta mensagem, e garantiu que a raça humana responderia à voz de Deus... para mim isto é o Convênio – que havia alguém na terra que podia ser um representante de uma raça ainda a ser criada. Havia apenas tribos, famílias, credos, classes, etc., mas não havia homem algum exceto ‘Abdu’l-Bahá, e ‘Abdu’l-Bahá, como homem, aceitou Ele próprio a mensagem de Bahá’u’lláh e prometeu a Deus que iria levar as pessoas à unidade da humanidade, e criar uma humanidade que pudesse ser o veículo para as leis de Deus.51

Iniciando Sua missão como um prisioneiro de um regime brutal e ignorante, e incansavelmente vituperado por irmãos infiéis, os quais, por fim, arquitetaram Sua morte, o Mestre, sem ajuda, fez da comunidade bahá’í persa uma demonstração brilhante do desenvolvimento social que a Causa pode produzir, inspirou a expansão da Fé no Oriente, levantou comunidades de devotados crentes no Ocidente, criou um Plano para a expansão mundial da Causa, conquistou o respeito e a admiração de líderes de pensamento onde quer que Sua influência chegasse e deixou aos seguidores de Bahá’u’lláh em todo o mundo um vasto acervo de orientações oficiais quanto ao conteúdo e aplicação das leis e ensinamentos da Fé. Nas encostas do Monte Carmelo, Ele erigiu, com enormes sacrifícios e dificuldades, o Santuário que abriga os restos mortais do martirizado Báb, o ponto focal do processo pelo qual a vida de nosso planeta será gradualmente organizada. Do início ao fim, por menor que fosse a ocasião, numa vida cheia de preocupações e demandas de todo tipo – uma vida exposta permanentemente ao exame de inimigos e amigos igualmente – Ele assegurou que a posteridade iria possuir aquele tesouro com o qual poetas, filósofos e místicos sonharam através dos tempos, uma demonstração da imaculada perfeição humana.

E finalmente, foi ‘Abdu’l-Bahá, Quem assegurou que a Ordem Divina concebida por Bahá’u’lláh para a unificação da raça humana e o estabelecimento da justiça na vida coletiva da humanidade seria dotada dos meios previstos para a realização do propósito de seu Fundador. Para a unidade existir entre os seres humanos – até mesmo num nível bem simples – duas condições são fundamentais. Aqueles envolvidos precisam, antes de mais nada, concordar sobre a natureza da realidade que afeta seu relacionamento mútuo e com o mundo fenomenal. Eles precisam, depois, dar assentimento a algum meio reconhecido e autorizado, através do qual sejam tomadas as decisões que afetem sua associação com os outros e que determine suas metas coletivas de ação.

A unidade não é meramente uma condição resultante de boa vontade coletiva e um propósito comum, por mais profundos e sinceros que sejam tais sentimentos, da mesma maneira que um organismo não é o produto de uma associação fortuita e amorfa de vários elementos. A unidade é um fenômeno de poder criativo, cuja existência se torna evidente através dos efeitos que a ação coletiva produz e cuja ausência é denunciada pela impotência de tais esforços. Ainda que muitas vezes tenha sido minada pela ignorância e perversidade, esta força tem sido a influência primária que leva ao avanço da civilização, gerando códigos legais, instituições políticas e sociais, trabalhos artísticos, realizações tecnológicas infindáveis, novos avanços morais, prosperidade material e longos períodos de paz pública, o reflexo de cujo esplendor permaneceu nas memórias de subseqüentes gerações como se tivessem sido “eras douradas”.

Através da Revelação de Deus à era de maturidade da humanidade, o pleno potencial desta força criativa foi por fim liberado, e instituídos os meios necessários para a realização do propósito divino. Em Sua Última Vontade e Testamento, que Shoghi Effendi descreveu como a “Carta Magna” da Ordem Administrativa, ‘Abdu’l-Bahá definiu em detalhes a natureza e o papel das instituições gêmeas que são Seus Sucessores designados e cujas funções complementares asseguram a unidade da Causa Bahá’í e a realização de sua missão durante toda a Dispensação - a Guardiania e a Casa Universal de Justiça. Ele particularmente deu forte ênfase à autoridade assim transmitida:

Qualquer coisa que eles decidam provém de Deus. Quem a ele não obedece, nem a eles, não estará obedecendo a Deus; quem se revoltar contra ele e contra eles, terá se revoltado contra Deus; quem se lhe opuser, terá feito oposição a Deus; quem com eles contender, terá contendido com Deus. ...52

Shoghi Effendi explicou o significado deste extraordinário Texto:

A Ordem Administrativa estabelecida por esse Documento histórico, devemos notar, é, em virtude de sua origem e caráter, única nos anais dos sistemas religiosos do mundo. Nenhum Profeta anterior a Bahá’u’lláh, podemos afirmar sem receio, ... determinou com autoridade e por escrito algo comparável à Ordem Administrativa que o Intérprete autorizado dos ensinamentos de Bahá’u’lláh instituiu... uma Ordem que deve proteger do cisma, e protegerá, a Fé da qual se originou, de modo sem paralelo entre as religiões anteriores.53

Antes da leitura e promulgação da Última Vontade e Testamento, a grande maioria dos membros da Fé imaginavam que o próximo estágio na evolução da Causa seria a eleição da Casa Universal de Justiça, a instituição fundada pelo próprio Bahá’u’lláh no Kitáb-i-Aqdas como o corpo governante supremo do mundo bahá’í. Um fato importante que os bahá’ís de nossos dias precisam entender é que, anterior a este ponto, o conceito de Guardiania era desconhecido da comunidade bahá’í. O regozijo foi geral quando foi anunciada a distinção única conferida pelo Mestre a Shoghi Effendi, e a continuidade do elo com os Fundadores da Fé representada pelo papel que ele iria desempenhar. Até então, porém, não havia pressentimento algum da intenção de Bahá’u’lláh de que tal instituição iria surgir, ou da função de intérprete oficial da Fé que ela teria de exercer – uma função cuja importância vital desde então saltou aos olhos e que eventos subseqüentes deixariam claro que estava implícita em alguns de Seus Escritos.

O que estava inteiramente além da imaginação de qualquer pessoa que vivia naquela época, fosse ele fiel ou mal-intencionado, foi a transformação na vida da Causa que o Testamento do Mestre pôs em movimento. “Se vocês soubessem o que irá ocorrer depois de Meu passamento”, ‘Abdu’l-Bahá declarou, “certamente vocês iriam orar para que Meu fim fosse apressado?”54

UMA APRECIAÇÃO DO LUGAR que tem a Guardiania na história bahá’í deve começar com uma consideração objetiva das circunstâncias nas quais a missão de Shoghi Effendi teve de ser realizada. Particularmente importante é o fato de que metade de seu ministério transcorreu entre duas grandes guerras mundiais, um período marcado por profunda incerteza e ansiedade sobre todos os aspectos da vida humana. De um lado, progressos significativos haviam sido feitos para superar barreiras entre nações e classes sociais; de outro lado, a incapacidade política e a resultante paralisação econômica grandemente prejudicaram os esforços para tirar proveito desses avanços ocorridos na sociedade. Havia em toda parte um sentimento de que alguma redefinição fundamental da natureza da sociedade, e do papel que teriam suas instituições, fazia-se urgentemente necessária – uma redefinição, na verdade, do propósito da própria vida humana.

Em alguns aspectos importantes, a humanidade encontrava-se, no final da Primeira Guerra Mundial, capaz de explorar possibilidades jamais imaginadas. Em toda a Europa e no Oriente Médio, os sistemas absolutistas, que faziam parte das mais poderosas barreiras à unidade, tinham sido extintos. Em grande parte, também, dogmas religiosos fossilizados, que haviam endossado moralmente as forças do conflito e da alienação, eram questionados em todas as partes. Os povos das ex-colônias estavam livres para considerar novos planos quanto ao seu futuro coletivo e para se responsabilizarem por seus inter-relacionamentos, através dos novos estados-nações criados pelo acordo de Versalhes. A mesma criatividade demonstrada na produção de armas de destruição era usada agora para as tarefas, desafiadoras mas compensadoras, da expansão econômica. Histórias comoventes foram contadas dos dias mais obscuros da guerra, como o impulso que rapidamente levou os soldados britânicos e alemães a deixarem as cidadelas de morte das trincheiras para comemorar juntos o nascimento de Cristo, dando uma pequena demonstração da unidade da raça humana que o Mestre incansavelmente proclamara em Suas viagens através daquele mesmo continente. Mais importante que tudo, um extraordinário esforço de imaginação havia levado a unificação da humanidade a dar um imenso passo adiante. Os líderes mundiais, embora relutantes, haviam criado um sistema de consulta internacional, o qual, embora mutilado por interesses bem definidos, dera ao ideal da ordem internacional sua primeira sugestão de formato e estrutura.

O despertar pós-guerra ocorreu espontaneamente no mundo inteiro. Sob a liderança de Sun Yat-sen, o povo chinês derrubara o decadente regime imperial que havia comprometido o bem-estar do país e buscava lançar as bases da grandeza de um país renascido. Em toda a América Latina, a despeito dos terríveis e repetidos contratempos, movimentos populares lutavam, da mesma forma, para ganhar controle sobre o destino de seus países e sobre a utilização das imensas riquezas naturais do continente. Na Índia, uma das figuras mais notáveis do século, Mohandas Gandhi, engajou-se em uma empreitada que iria não somente revolucionar os destinos de seu país, mas também demonstrar conclusivamente ao mundo o que a força espiritual pode alcançar. A África aguardava ainda o tempo de seu destino, como ocorria com os habitantes de outras terras coloniais, mas, para alguém com olhos que vêem, um processo de mudança havia sido colocado em ação, o qual jamais poderia ser suprimido, pois representava os anseios universais da humanidade.

Esses avanços, embora animadores, não podiam esconder a tragédia histórica que havia ocorrido. Durante a segunda metade do século dezenove, a proclamação do Dia de Deus feita por Bahá’u’lláh aos governantes de Seu dia, em cujas mãos encontrava-se o destino da humanidade, fora rejeitada ou ignorada por aqueles que a receberam, tanto no Oriente como no Ocidente. Uma reflexão sobre tão grande ruptura de fé revela a perspectiva sombria da resposta que a missão de ‘Abdu’l-Bahá tivera no Ocidente. Por mais que alguém se regozije pelo louvor demonstrado ao Mestre em todas as partes, os resultados imediatos de Seus esforços representaram ainda outro imenso fracasso moral de parte de uma considerável porção da humanidade e de seus líderes. A mensagem que havia sido suprimida no Oriente foi essencialmente ignorada pelo mundo ocidental, que continuou afundando no caminho da ruína há muito tempo preparado para si pelo excessivo orgulho que levou, finalmente, à traição do ideal incorporado na Liga das Nações.

Em conseqüência, as duas décadas imediatamente após ter Shoghi Effendi assumido suas funções como Guardião da Causa foram um período de profunda melancolia em todo o mundo ocidental, o qual parecia refletir um maciço recuo no processo de integração e iluminação espiritual proclamado de forma tão confiante pelo Mestre. Foi como se a vida econômica, social e política tivesse caído em uma espécie de limbo. Enormes dúvidas se formaram sobre a capacidade da tradição democrática liberal para enfrentar os problemas da época; na verdade, em muitos países da Europa, governos inspirados em tais princípios foram substituídos por regimes totalitários. Logo depois, a derrocada econômica de 1929 provocou uma redução mundial do bem estar material, com todas as posteriores inseguranças morais e psicológicas resultantes.

Uma análise dessas circunstâncias nos ajuda a entender a magnitude do desafio que Shoghi Effendi enfrentava no início de seu ministério. Nada havia na condição objetiva em que se encontrava a humanidade que pudesse ter-lhe inspirado confiança de que aquela visão de um novo mundo, legada a ele pelos Fundadores da Causa Bahá’í, poderia ser levada avante, de forma significativa, durante qualquer número de anos que lhe pudesse ser dado.

Também os instrumentos à sua disposição pareciam não possuir a força, a elasticidade ou a sofisticação que tal tarefa exigia. Em 1923, quando Shoghi Effendi por fim pôde assumir plenamente a direção da Causa, o núcleo básico dos seguidores de Bahá’u’lláh consistia de um grupo de crentes no Irã, de cujo número nem mesmo uma estatística confiável podia, na época, ser levantada. Sem a maioria dos meios necessários para a promoção da Causa, e severamente limitada em recursos materiais, a comunidade iraniana encontrava-se em difícil condição de atuar. Na América do Norte, tendo sobre os ombros as desafiadoras responsabilidades do Plano Divino, pequenas comunidades de crentes encontravam-se em situação muito difícil, até mesmo diante de simples desafios como trabalhar para sua própria subsistência e a de suas famílias, já que a crise econômica rapidamente se avolumava. Na Europa, na Australásia e no Extremo Oriente, pequenos grupos de bahá’ís mantinham viva a chama da Fé, como o faziam grupos isolados, famílias e indivíduos espalhados pelo resto do mundo. A literatura, mesmo em inglês, era inadequada; e a tarefa de traduzir os Escritos Sagrados para os principais idiomas e de encontrar fundos para publicá-los representava um peso quase que impossível de imaginar.

Embora a visão transmitida pelo Mestre brilhasse mais forte do que nunca, os meios à disposição dos bahá’ís devem ter-lhes parecido lamentavelmente inadequados em face das condições prevalecentes em toda parte. As fundações do futuro Templo Mãe do Ocidente, visíveis sobre o lago ao norte de Chicago, com suas obras paralisadas, pareciam zombar da brilhante concepção que havia deslumbrado o mundo da arquitetura apenas alguns anos antes. Em Bagdá, a “Casa Mais Sagrada”, designada por Bahá’u’lláh como centro focal de peregrinação bahá’í, fora apreendida pelos oponentes da Fé. Na própria Terra Santa, a Mansão de Bahá’u’lláh estava caindo em ruínas como resultado da negligência dos Rompedores do Convênio que a haviam ocupado; e o Santuário que abrigava os preciosos restos mortais do Báb e de ‘Abdu’l-Bahá não tivera progresso algum além da simples estrutura erguida pelo Mestre.

Uma série de consultas com proeminentes bahá’ís sobre as tarefas a realizar, deixou claro ao Guardião que mesmo uma conversa formal com alguns crentes qualificados, sobre a criação de um secretariado, seria não somente inútil mas provavelmente contraproducente. Foi sozinho, portanto, que Shoghi Effendi deu início à tarefa de levar avante o vasto empreendimento colocado em suas mãos. O quão inteiramente só ele estava, é algo quase impossível para a presente geração de bahá’ís entender; e quanto mais profundamente alguém entendesse, mais profundamente dolorosa seria sua compreensão.

Inicialmente, o Guardião julgou que os parentes próximos da família do Mestre, cuja destacada linhagem lhes trouxera imenso respeito dos bahá’ís em toda parte, iriam receber com satisfação a oportunidade de ajudá-lo a realizar o propósito que o Mestre definira em uma linguagem tão imperativa e comovente em Sua Última Vontade e Testamento. Da mesma forma, ele convidou seus irmãos, primos e uma de suas irmãs, cuja educação tornara-os qualificados para as finalidades previstas, para prover-lhe apoio administrativo que o volumoso trabalho da Guardiania exigia. Tragicamente, com o passar do tempo, uma após outra dessas pessoas mostraram-se insatisfeitas com o papel de apoiadores que lhes fora dado e desinteressadas no cumprimento de suas funções. Ainda mais seriamente, Shoghi Effendi viu-se diante de uma situação na qual a autoridade a ele outorgada, embora expressa em termos indiscutíveis na Última Vontade e Testamento, foi considerada por seus parentes como apenas relativamente nominal. Essas pessoas preferiam considerar a liderança da Fé como essencialmente um assunto familiar, no qual grande peso deveria depender dos pontos de vistas dos membros mais velhos da família, os quais eram supostamente qualificados para assumir tal prerrogativa. Começando com demonstrações de obstinada resistência, a situação deteriorou rapidamente, a um ponto tal que os filhos e os netos de ‘Abdu’l-Bahá julgaram-se autorizados a discordar de Seu sucessor designado e desobedecer Suas instruções.

Rúhíyyih Khánum, que viu este processo de deterioração em seus últimos estágios, ela própria sofrendo muito ao testemunhar seus efeitos tanto no trabalho da Causa como no Guardião pessoalmente, escreveu:

... devemos compreender a velha história de Caim e Abel, a história de ciúmes em família que, como um fio sombrio no tecido da história, atravessa todas as suas épocas e pode ser reconhecido em todos os seus acontecimentos. ... A fraqueza do coração humano, que tantas vezes se prende a um objeto indigno, a fraqueza da mente humana, propensa à vaidade e confiança em suas próprias opiniões pessoais, tudo isso envolve as pessoas num reboliço de emoções que lhes cegam o juízo e as desviam do caminho. ... Ainda que esse fenômeno do rompimento do Convênio pareça ser um aspecto inerente à religião, isso não quer dizer que deixe de produzir um efeito prejudicial sobre a Causa. ... Acima de tudo, não quer dizer que um efeito devastador não seja produzido no próprio Centro do Convênio. A vida inteira de Shoghi Effendi foi obscurecida pelos malévolos ataques pessoais contra ele. 55

Neste panorama sombrio surge, como uma brilhante luz na vida de Shoghi Effendi, a figura da Folha Mais Sagrada, a irmã de ‘Abdu’l-Bahá e a última sobrevivente da Idade Heróica da Fé, que, com sua presença e suas realizações, manteve inabalável o Convênio de Deus. Bahíyyih Khánum teve um papel vital na defesa e preservação dos interesses da Causa depois do falecimento do Mestre, tornando-se a única efetiva apoiadora de Shoghi Effendi. Sua fidelidade evocou de sua pena talvez a mais profunda e comovente passagem que ele escreveria. As palavras que lhe dirigiu, logo após sua morte em 1932, foram incluídas em uma carta aos bahá’ís “em todo o Ocidente”, a qual, em parte, diz o seguinte:

Somente gerações e penas mais hábeis que a minha, podem e poderão, prestar um tributo condigno à extraordinária grandeza de sua vida espiritual, ao inigualável papel que ela exerceu ao longo dos tumultuados estágios da história bahá’í, às expressões de irrestritos elogios que tanto a pena de Bahá’u’lláh como a de ‘Abdu’l-Bahá, o Centro de Seu Convênio, lhe dirigiram, embora não registrados, e as demonstrações insuspeitas de parte das massas de seus apaixonados admiradores no Oriente e no Ocidente, o papel que teve ao influenciar o curso de alguns dos principais eventos nos anais da Fé, os sofrimentos que suportou, os sacrifícios que fez, os raros dons de irrestrito apoio e compreensão que demonstrou possuir – essas e muitas outras expressões de louvor permanecem tão intimamente ligadas com a estrutura da própria Causa que, no futuro, os historiadores da Fé de Bahá’u’lláh não poderão ignorar ou minimizar... Quais das bênçãos poderia eu recordar que ela, em sua infalível dedicação, não tenha me demonstrado nas horas mais críticas e agitadas de minha vida? Para mim, que tanto preciso da graça vitalizadora de Deus, ela foi um símbolo vivo de muitos dos atributos que aprendi a admirar em ‘Abdu’l-Bahá.56

Por muitos anos, o Guardião sentiu que a proteção da Causa exigia dele que mantivesse silêncio sobre a deteriorante situação na Família Sagrada. Somente quando a oposição finalmente transformou-se em atos de desafio flagrante, envolvendo então a família em vergonhosa colaboração mútua e até mesmo casamentos com membros do próprio bando de rompedores do Convênio, contra cuja traição a Última Vontade e Testamento do Mestre advertira em veemente linguagem, como também com uma família local profundamente hostil à Causa, foi que Shoghi Effendi sentiu-se compelido a expor ao mundo bahá’í a natureza dos atos de delinqüência que tivera de enfrentar.57

É importante que se conheça esta triste história para um entendimento da Causa no século vinte, não somente por causa do que o Guardião chamou de “devastação” que causou na Sagrada Família, mas pelo motivo da luz que ela derrama sobre os desafios que a comunidade bahá’í enfrentaria cada vez mais nos anos à frente, desafios preditos em linguagem bem clara tanto pelo Mestre como pelo Guardião. Além da insinceridade que caracterizava muitos deles, os parentes de Shoghi Effendi demonstraram pouca, ou mesmo nenhuma, compreensão da natureza espiritual do papel a ele conferido na Última Vontade e Testamento. Que a Revelação de Deus à era da maturidade da humanidade iria trazer com ela, como aspecto central de sua missão, uma autoridade essencial para a reestruturação da ordem social, representava um desafio espiritual que eles, ao que se constatou, não podiam ou talvez nunca buscaram entender. O fato deles terem abandonado o Guardião é uma lição que permanecerá para a posteridade através dos séculos da Dispensação Bahá’í. O destino desta muito privilegiada mas indigna companhia de seres humanos demonstra, para todos os que lêem sua história, tanto a importância que o Convênio de Bahá’u’lláh tem para a unificação da humanidade, como as exigências inevitáveis que coloca diante daqueles que buscam seu abrigo.

Ao considerar os eventos do ministério de Shoghi Effendi, os bahá’ís precisam fazer um esforço de imaginação para ver, com seus próprios olhos, a natureza da missão que lhe coubera. Nosso guia será o conjunto de escritos que ele deixou. ‘Abdu’l-Bahá havia proclamado, em um incontável número de Epístolas e palestras, o princípio básico da mensagem de Bahá’u’lláh: “Nesta maravilhosa Revelação, neste século glorioso, o fundamento básico da Fé de Deus e a característica distintiva de Sua Lei é a consciência da Unidade da Humanidade”.58 ‘Abdu’l-Bahá fora igualmente enfático ao afirmar, como já dito, que as transformações revolucionárias que ocorriam em todos os campos do esforço humano haviam tornado a unificação da humanidade um objetivo realístico. Foi esta visão que, durante os trinta e seis anos de sua Guardiania, propiciou ao trabalho de Shoghi Effendi a força organizadora que o distinguiu. Suas implicações foram o tema de algumas das mais importantes mensagens que ele escreveu. Dirigindo-se, em 1931, aos amigos no Ocidente, descortinou para eles um panorama fulgurante:

O princípio da Unidade da Humanidade – em torno do qual giram todos os ensinamentos de Bahá’u’lláh – não é apenas uma exibição de emocionalismo pouco inteligente, nem a expressão de uma vaga e piedosa esperança. O seu apelo não é meramente para ser identificado com um renascimento do espírito de fraternidade e benevolência entre os homens, nem tão pouco é o seu fim apenas a promoção da cooperação harmoniosa entre os diferentes povos e nações. Significa algo mais profundo, pretende algo mais do que qualquer dos Profetas da antigüidade pôde avançar. Sua mensagem não só é aplicável ao indivíduo, mas também trata primariamente da natureza daquelas relações essenciais que hão de ligar todos os estados e todas as nações como membros de uma única família humana. ... Este princípio compreende uma transformação orgânica na estrutura da sociedade atual, uma transformação como o mundo jamais presenciou. ... Exige nada menos que a reconstrução e desmilitarização do inteiro mundo civilizado – um mundo organicamente unificado em todos os aspectos essenciais de sua vida – seu mecanismo político, sua aspiração espiritual, seu comércio e suas finanças, sua escrita e língua, e que é, no entanto, de uma diversidade infinita no que diz respeito às características de suas unidades federadas.59

Um conceito enfatizado fortemente nos escritos do Guardião foi o da metáfora da vida orgânica que Bahá’u’lláh, e depois ‘Abdu’l-Bahá, haviam utilizado tão bem para explicar o processo milenar que levara a humanidade a este ponto culminante de sua história coletiva. A imagem foi a analogia que se pode tirar entre, de um lado, os estágios pelos quais a sociedade humana foi gradualmente organizada e integrada, e, de outro, o processo pelo qual cada ser humano se desenvolve, vagarosamente, partindo das limitações de sua infância para alcançar os poderes da maturidade. Tal analogia aparece, destacadamente, em muitos dos escritos de Shoghi Effendi sobre a transformação que ocorre em nosso tempo:

As longas eras da infância, através das quais a raça humana teve de passar, representam agora o passado. A humanidade começa a experimentar as comoções invariavelmente associadas com o mais turbulento estágio de sua evolução, o estágio da puberdade, quando a impetuosidade da juventude e sua veemência alcançam seu clímax, e precisam ser gradualmente superadas e transformadas na calma, sabedoria e maturidade que caracterizam o estágio da maturidade.60

A meditação sobre este vasto conceito levaria Shoghi Effendi a prover ao mundo bahá’í uma descrição coerente do futuro que, desde então, tem capacitado três gerações de crentes a explicarem aos governos, à mídia e ao público em geral, em todas as partes do mundo, a perspectiva sob a qual a Fé Bahá’í realiza seu trabalho:

A unidade do gênero humano, assim como Bahá’u’lláh a concebeu, compreende o estabelecimento de uma comunidade mundial em que todas as nações, raças, crenças e classes estejam estreita e permanentemente unidas, e em que a autonomia dos estados que a compõem, e a liberdade e iniciativa pessoal dos seus membros individuais, sejam garantidas de um modo definitivo e completo. Tal comunidade mundial deve abranger, segundo nosso conceito, uma legislatura mundial cujos membros, os representantes de todo o gênero humano, virão a controlar todos os recursos das respectivas nações componentes e criar as leis que forem necessárias para regular a vida, satisfazer as necessidades e ajustar as relações de todas as raças e povos entre si. Um executivo mundial, apoiado por uma força internacional, executará as decisões dessa legislatura mundial, aplicará as leis por ela criadas e protegerá a unidade orgânica da inteira comunidade mundial. Um tribunal mundial deverá adjudicar toda e qualquer disputa que surja entre os vários elementos que constituem esse sistema universal. ... Os recursos econômicos do mundo serão organizados, suas fontes de matérias primas serão exploradas e completamente utilizadas, seus mercados serão coordenados e desenvolvidos, e a distribuição de seus produtos será regulada de um modo eqüitativo.61

Escrevendo uma interpretação definitiva da Ordem Administrativa, em A Dispensação de Bahá’u’lláh, Shoghi Effendi faz particular referência ao papel que a instituição que ele próprio representava iria ter para capacitar a Causa a “obter uma longa e ininterrupta visão durante várias gerações. ...”. Esta visão singular foi expressa com clareza inexcedível em sua descrição da natureza dual do processo histórico que ele via se desenvolvendo no século vinte. O panorama dos assuntos internacionais iria, disse ele, ser cada vez mais reformulado pelas forças gêmeas de “integração” e “desintegração”, ambas além do controle humano. À luz daquilo que nossos olhos vêem atualmente, sua previsão da operação deste processo dual é de tirar o fôlego: a criação de “um sistema de intercomunicação mundial... funcionará com admirável rapidez e perfeita regularidade”62; o enfraquecimento da autoridade do estado-nação como o principal árbitro do destino humano; os efeitos devastadores que a crescente ruptura moral no mundo teria na coesão social; a desilusão pública cada vez maior, decorrente da corrupção política; e – inimaginável a outras pessoas daquela geração – o surgimento de órgãos globais dedicados à promoção do bem-estar humano, coordenando a atividade econômica, definindo padrões internacionais e estimulando um senso de solidariedade entre as diversas raças e culturas. Estes e outros fenômenos, o Guardião explicou, iriam alterar funda-mentalmente as condições nas quais a Causa Bahá’í realizaria sua missão nas décadas por virem.

Um dos impressionantes desenvolvimentos desta natureza que Shoghi Effendi discerniu nos Escritos que foi chamado a interpretar diz respeito ao futuro papel dos Estados Unidos como nação e, em menor extensão, de suas nações irmãs no hemisfério ocidental. Sua previsão foi ainda mais notável ao lembrarmos que ele escrevia durante um período da história quando os Estados Unidos estavam determinadamente isolacionistas, tanto em sua política externa como nas convicções da maioria de seus cidadãos. Shoghi Effendi, no entanto, visualizou o país assumindo um “papel ativo e decisivo... na organização e na solução pacífica dos problemas da humanidade”. Ele lembrou aos bahá’ís a previsão feita por ‘Abdu’l-Bahá de que, devido à natureza singular de sua composição social e desenvolvimento político – não significando isso qualquer “excelência inerente ou mérito especial” de seu povo – os Estados Unidos haviam desenvolvido capacidades que poderiam capacitar o país a ser “a primeira nação a estabelecer o alicerce da concórdia internacional”. Na verdade, ele anteviu os governos e povos de todo o hemisfério tornando-se cada vez mais orientados nessa direção.63

O papel que a comunidade bahá’í exerceria para ajudar na realização da consumação do processo histórico havia sido prefigurado nos chamados dirigidos aos Seus seguidores pelo Báb, já no nascimento da Causa:

Ó Meus amados amigos! Vós sois o portadores do nome de Deus neste Dia. ... Sois os humildes, de quem Deus assim falou em Seu Livro: “E Nós desejamos favorecer aqueles que foram criados humildes na terra, e fazer deles líderes espirituais entre os homens, e torná-los Nossos herdeiros.” Vós fostes chamados a esta condição: ireis alcançá-la, se apenas vos levantardes para esmagar sob vossos pés qualquer desejo terreno, e vos esforçardes para vos tornar aqueles “Seus honrados servos que não falam antes de Ele ter falado, e que fazem o que Ele deseja”. ... Não considereis vossa fraqueza e fragilidade; fixai vosso olhar no poder invencível do Senhor, vosso Deus, o Todo-Poderoso. ... Levantai-vos em Seu nome, ponde vossa inteira confiança nEle e estejais seguros da vitória final.64

Já em 1923, Shoghi Effendi foi levado a abrir seu coração sobre este assunto aos amigos na América do Norte:

Oremos a Deus para que, nestes dias de melancolia que envolve o mundo, quando as forças obscuras da natureza, de ódio, rebelião, anarquia e reação, estão ameaçando a própria estabilidade da sociedade humana, quando os frutos mais preciosos da civilização estão passando por testes severos e sem paralelo, possamos todos realizar, mais profundamente do que nunca, que embora sejamos uma mera mão-cheia dentre as acaloradas massas da humanidade, somos neste dia os instrumentos escolhidos das graças de Deus, que nossa missão é mais urgente e vital para o destino da humanidade, e, fortalecidos por estes sentimentos, devemos nos levantar para realizar o propósito de Deus para a humanidade.65

Inteiramente consciente da condição na qual a sociedade havia se afundado, das conseqüências da traição de parte dos membros de sua família, em cuja ajuda deveria ter podido contar, e da relativa fraqueza dos recursos disponíveis a ele na própria comunidade bahá’í, Shoghi Effendi levantou-se para criar os meios necessários para realizar a missão a ele legada.

Em grau maior ou menor, a maioria dos bahá’ís, sem dúvida, perceberam que as Assembléias que eles estavam sendo instados a formar tinham um significado muito além da mera administração dos assuntos práticos que deveriam tratar. ‘Abdu’l-Bahá, que havia dado o impulso inicial a esse desenvolvimento, dissera que as Assembléias eram como:

... lâmpadas radiantes e jardins celestiais, donde as fragrâncias de santidade difundem-se por todas as regiões e as luzes do conhecimento irradiam-se sobre todas as coisas criadas. Delas emana, em todas as direções, o espírito da vida. Elas, em verdade, são as poderosas fontes do progresso do homem, em todos os tempos e sob todas as condições.66

Coube a Shoghi Effendi, porém, a missão de ajudar as comunidades a compreenderem o lugar e o papel desses corpos consultivos locais e nacionais no contexto da Ordem Administrativa criada por Bahá’u’lláh e elaborada com mais detalhes na Última Vontade e Testamento do Mestre. Um obstáculo enfrentado por um número significativo de crentes nesse sentido foi a suposição impensada, de muitos deles, de que a Causa era essencialmente uma associação “espiritual”, na qual a organização, embora não necessariamente dispensável, não constituía um aspecto inerente ao propósito divino. Enfatizando que O Kitáb-i-Aqdas e a Última Vontade e Testamento “não são somente complementares, mas... que se confirmam mutuamente, e que são partes inseparáveis de uma unidade completa”67, o Guardião convidou os crentes a refletirem profundamente sobre a verdade central da Causa que haviam abraçado:

Poucos deixarão de reconhecer que o Espírito insuflado por Bahá’u’lláh sobre o mundo, e que se manifesta em variados graus de intensidade através dos esforços conscientemente demonstrados por Seus fiéis apoiadores, e, indiretamente, através de determinadas organizações humanitárias, jamais poderá permear e exercer uma duradoura influência sobre a humanidade, a não ser que, e até que, se encarne em uma Ordem visível, que deverá levar Seu nome, e que se identifique inteiramente com Seus princípios e funcione em conformidade com Suas leis.68

Ele foi além, instando os seguidores da Fé a se conscientizarem da diferença essencial entre a Causa de Bahá’u’lláh, cujos Textos Revelados contêm detalhadas provisões para a existência de tal Ordem de autoridade, e as Revelações anteriores, cujas Escrituras pouco tratam de assuntos administrativos e da interpretação das intenções de seus Fundadores. Nas palavras de Bahá’u’lláh: “O Ciclo Profético terminou, verdadeiramente. A Verdade Eterna é agora revelada. Ele ergueu a Insígnia do Poder. ...”.69 Diferentemente das Dispensações do passado, a Revelação de Deus para esta era deu nascimento, diz Shoghi Effendi, a um “organismo vivo”, cujas leis e instituições constituem “os fatores essenciais de uma Economia Divina”, “um modelo para a sociedade futura” e “o único meio para a unificação do mundo e para a proclamação do reino da retidão e da justiça sobre a Terra”.70

Os amigos devem esforçar-se para avaliar devidamente, o Guardião enfatizava, que as Assembléias Espirituais que estavam sendo laboriosamente estabelecidas no mundo eram as precursoras das “Casas de Justiça” locais e nacionais previstas por Bahá’u’lláh. Como tais, eram partes inseparáveis da Ordem Administrativa que iriam, no tempo devido, “provar sua reivindicação e demonstrar sua capacidade de serem consideradas não somente como o núcleo, mas o próprio modelo da Nova Ordem Mundial destinada a incluir, na plenitude do tempo, a humanidade inteira”.71

Para algumas das jovens comunidades do Ocidente, tal mudança de conceitos tradicionais sobre a natureza e o papel da religião provou ser um grande teste, e as comunidades bahá’ís sofreram a angústia de ver valiosos companheiros de fé se afastarem em busca de objetivos espirituais mais afins com suas inclinações pessoais. Para a maioria dos crentes, no entanto, as grandes mensagens da pena do Guardião, como The Goal of a New World Order (A Meta de Uma Nova Ordem Mundial) e A Dispensação de Bahá’u’lláh, jorravam uma luz muito forte sobre, precisamente, o assunto que mais os preocupava, a relação entre a verdade espiritual e o desenvolvimento social, inspirando neles uma determinação de fazerem sua parte no estabelecimento das fundações do futuro da humanidade.

O Guardião enunciou, também, a estrutura metafórica para este grandioso trabalho. A “Idade Heróica” da Dispensação de Bahá’u’lláh, ele declarou, havia terminado com o passamento de ‘Abdu’l-Bahá. A comunidade bahá’í embarcava agora na “Idade de Ferro”, a “Idade Formativa”, na qual a Ordem Administrativa seria erigida em todo o planeta, suas instituições, estabelecidas e os poderes de “construção da sociedade”, revelados em sua plenitude. No futuro longínquo, afirmou Shoghi Effendi, virá o que ele chamou de “Idade Áurea” da Dispensação de Bahá’u’lláh, a qual levará finalmente ao surgimento da Nação Mundial Bahá’í, que representará o estabelecimento do Reino de Deus na Terra e a criação de uma civilização mundial.72 O impulso inicialmente dado à consciência humana através da revelação da própria Palavra Criativa, cujas revolucionárias implicações sociais haviam sido proclamadas pelo Mestre, estavam sendo agora traduzidas, por seu intérprete designado, em um vocabulário de transformação econômica e política no qual o discurso público do século se expressava em toda parte. Emprestando ao processo uma força irresistível, iluminando sempre novas dimensões da experiência bahá’í e servindo como mola mestra da unificação da humanidade que proclamava, estava o Convênio que Bahá’u’lláh havia estabelecido entre Ele próprio e aqueles que para Ele se voltam.

Embora não inicialmente designadas como “Assembléias Espirituais”, os conselhos que as comunidades locais na Pérsia, estimuladas por ‘Abdu’l-Bahá, haviam criado, tinham assumido a responsabilidade de administrar os assuntos da Fé em sua área. À luz do que iria acontecer, ninguém, com alguma compreensão do que é a História, pode deixar de se entusiasmar com o fato de a primeira Assembléia Espiritual da Fé, a de Teerã, ter sido formada em 1897, o ano do nascimento de Shoghi Effendi. Sob a guia do Mestre, reuniões contínuas realizadas pelas quatro Mãos da Causa na Pérsia foram se desenvolvendo gradualmente até resultar na instituição que serviu, simultaneamente, como a “Assembléia Espiritual Central” da Pérsia e como o corpo governante da comunidade local na capital. Até o falecimento de ‘Abdu’l-Bahá, havia mais de trinta Assembléias Espirituais Locais estabelecidas na Pérsia. Em 1922, Shoghi Effendi autorizou a convocação formal para o estabelecimento da Assembléia Espiritual Nacional da Pérsia, o que demorou até 1934 para ser concretizado, devido às demandas relacionadas com um censo com dados confiáveis da comunidade, como base para a eleição dos delegados.

Fora da Pérsia, os crentes de Ishqábád, no Turquistão russo, elegeram sua primeira Assembléia Espiritual Local, um corpo que assumiu um importante papel no projeto de construção do primeiro Mashriqu’l-Adhkár, em Ishqábád. Na América do Norte, uma variedade de arranjos consultivos – “Corpos de Conselho”, “Diretorias do Conselho”, “Corpos de Consulta” e “Comitês de Trabalho” – realizavam funções análogas, evoluindo gradualmente em corpos eleitos que se constituíram nos precursores das Assembléias Espirituais. Ao tempo do passamento do Mestre, havia talvez quarenta desses conselhos funcionando na América do Norte. Esses desenvolvimentos prepararam o caminho para a futura formação da primeira Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá’ís dos Estados Unidos e Canadá, que se desenvolveu do “Conselho de Unidade do Templo”, um corpo criado em 1909 para coordenar a construção da futura Casa de Adoração. Foi formada em 1923, mas exigências administrativas definidas pelo Guardião para esse passo foram satisfeitas apenas em 1925. Antes desta data, porém, Assembléias Espirituais Nacionais já haviam sido estabelecidas nas Ilhas Britânicas, na Alemanha e Áustria, na Índia e Birmânia, e no Egito e Sudão.73

Com a formação das Assembléias Espirituais Locais e Nacionais, o Guardião começou a dar ênfase sobre a importância de obterem reconhecimento oficial como “personalidades jurídicas” sob a lei civil. Assegurando tal registro formal, de qualquer forma que fosse possível, as instituições administrativas bahá’ís poderiam possuir propriedades, fazer contratos e gradualmente adquirir uma ampla gama de direitos legais, vital aos interesses da Causa. A importância que Shoghi Effendi deu a este novo estágio da evolução administrativa torna-se clara pelas fotocópias de tais instrumentos civis que começaram a tornar-se um dos principais aspectos da cobertura fotográfica da expansão da Fé em sucessivos volumes da série The Bahá’í World. Na verdade, quando a Mansão em Bahjí voltou à posse da Fé e foi inteiramente restaurada à sua condição original, e mobiliada apropriadamente, Shoghi Effendi reuniu uma coleção desta valiosa documentação para exposição, com a finalidade de estimular e educar o crescente fluxo de peregrinos ao Centro Mundial.

Os processos de incorporação civil das instituições começaram com a adoção, em 1927, de uma Declaração dos Estatutos e Registro pela Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá’ís dos Estados Unidos e Canadá, que recebeu reconhecimento civil como uma instituição voluntária devidamente legalizada dois anos mais tarde. Em 17 de fevereiro de 1932, a primeira Assembléia Local Bahá’í, a de Chicago, adotou documentos de registro, os quais, juntamente com aqueles adotados em Nova York em 31 de março daquele ano, iriam tornar-se um modelo para tais instrumentos de legalização das Assembléias Espirituais em todo o mundo. Em 1949, a Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá’ís do Canadá – formada quando as duas comunidades bahá’ís da América do Norte foram separadas no ano anterior – pôde obter reconhecimento formal com status de entidade jurídica através de um Ato especial do Parlamento, uma vitória que Shoghi Effendi exaltou como “um ato sem precedente nos anais da Fé em qualquer país, no Oriente ou no Ocidente”.74

Essas prementes demandas administrativas não desviaram Shoghi Effendi de outras tarefas vitais para a formulação da vida espiritual de uma comunidade global. A mais importante delas foi o árduo trabalho que ele teve de realizar sozinho, provendo ao crescente corpo de crentes, que não tinham antecedentes persas, acesso direto e confiável aos Escritos dos Fundadores da Fé. As Palavras Ocultas, o Kitáb-i-Íqán e os tesouros preciosos reunidos com muito amor e discernimento sob o título de Seleção dos Escritos de Bahá’u’lláh, Orações e Meditações de Bahá’u’lláh, e a Epístola ao Filho do Lobo, proporcionaram nutrição espiritual ao trabalho da Causa, urgentemente necessário, como foi a tradução e editoração por Shoghi Effendi da “Narrativa” de Nabíl sob o título de Os Rompedores da Alvorada.

Os bahá’ís peregrinos recebiam enriquecimento espiritual de ainda outro tipo, nos Lugares Sagrados e nos locais históricos que o Guardião adquiriu – quase sempre ao custo de demoradas e difíceis negociações – e carinhosamente restaurou. Shoghi Effendi, com sua perspectiva histórica, foi igualmente responsivo às inesperadas oportunidades que se apresentavam. Em 1925, uma corte religiosa muçulmana sunita, no Egito, negou reconhecimento civil a casamentos realizados entre mulheres muçulmanas e homens bahá’ís, insistindo que “A Fé Bahá’í é uma nova religião, inteiramente independente”, e que “nenhum bahá’í, pois, pode ser considerado um muçulmano...” (e, portanto, qualificado para casar-se com quem quer que fosse).75 Aproveitando as vastas implicações desta aparente derrota, o Guardião fez amplo uso do julgamento definitivo da corte para reforçar a reivindicação da Causa em círculos internacionais de ser uma Fé independente, separada e distinta de suas raízes islâmicas.

À medida em que a comunidade bahá’í construía bases administrativas que iriam lhe possibilitar realizar um papel efetivo nos assuntos humanos, o acelerado processo de desintegração que Shoghi Effendi discerniu estava minando a própria estrutura da ordem social. Suas origens, por mais que muitos dos teóricos sociais e políticos teimem em não reconhecê-las, estão começando, depois de decorridas várias décadas, a ganhar reconhecimento em conferências internacionais dedicadas à paz e ao desenvolvimento. Em nosso próprio tempo, não mais é difícil encontrar, em tais círculos, referências sinceras ao papel essencial que as forças “morais” e “espirituais” devem exercer na busca de soluções a problemas urgentes. Para um leitor bahá’í, tal reconhecimento tardio relembra ecos de advertências feitas mais de um século antes por Bahá’u’lláh aos governantes dos assuntos humanos: “A vitalidade da crença dos homens em Deus está morrendo em toda parte. ... A corrosão da impiedade está penetrando nas vísceras da sociedade humana...”76

A responsabilidade por esta que é a maior das tragédias, o Guardião enfatizou, pesa principalmente sobre os ombros dos líderes religiosos mundiais. A mais severa condenação de Bahá’u’lláh é dirigida àqueles que, presumindo falar em nome de Deus, impuseram às massas crédulas uma gama de dogmas e preconceitos que se constituíram no maior obstáculo contra o qual o avanço da civilização foi obrigado a lutar. Embora reconhecendo os serviços humanitários de incontáveis clérigos individuais, Ele destaca as conseqüências da forma pela qual grupos que se auto-intitularam elites religiosas através da História, interpuseram-se entre a humanidade e todas as vozes do progresso, não excluindo os próprios Mensageiros de Deus. “Qual a ‘aflição’ mais penosa”, Ele pergunta “do que a de uma alma que busca a verdade, desejosa de atingir o conhecimento de Deus, mas que não sabe aonde ir ou de quem buscá-lo?”77 Numa era de progresso científico e na qual a educação popular já estava amplamente espalhada, os efeitos acumulados das desilusões resultantes faziam com que a fé religiosa parecesse irrelevante. Eles próprios impotentes para resolver a crise espiritual, a maioria dos clérigos, de várias Fés, que tomaram conhecimento da mensagem de Bahá’u’lláh, ou não levaram em consideração a influência moral que demonstrava ou se opuseram a ela ativamente.78

O reconhecimento deste aspecto da história não diminui o mal causado por aqueles que buscaram tirar vantagem do vácuo espiritual então deixado. O anseio pela fé é inextinguível, uma parte inerente daquilo que torna uma pessoa humana. Quando é bloqueada ou traída, a alma racional é levada a buscar um novo ponto de apoio, ainda que inadequado ou indigno, em torno do qual possa organizar suas experiências e buscar novamente condições que lhe permitam assumir os riscos que são inevitáveis à vida. Foi nesta perspectiva que Shoghi Effendi advertiu os membros da Fé, em linguagem bastante enfática, que eles deviam tentar entender a calamidade espiritual que engolfava grande parte da humanidade durante as décadas que separaram as duas guerras mundiais:

O próprio Deus foi, de fato, destronado dos corações dos homens, e um mundo idólatra saúda clamorosamente e adora apaixonadamente os falsos deuses que suas próprias vãs fantasias criaram com tamanha fatuidade, e suas mãos desviadas impiamente exaltaram. ... Seus sacerdotes são os políticos e os especialistas do mundo, os chamados sábios da época; seu sacrifício consiste em carne e sangue das multidões trucidadas; seus encantamentos, em lemas obsoletos e fórmulas insidiosas e irreverentes; seu incenso, a fumaça da angústia que se eleva dos corações dilacerados daqueles que perderam os entes queridos, daqueles excluídos e dos sem teto.79

Como males infecciosos oportunistas, ideologias agressivas tiraram vantagem da situação criada com o declínio da vitalidade religiosa. Embora sem se poder distinguir um do outro na corrupção da fé que representavam, os três sistemas de fé que tiveram um papel dominante nos assuntos humanos durante o século vinte diferiam fortemente em suas características secundárias e mais marcantes, para as quais o Guardião chamou a atenção. Ao denunciar “as doutrinas obscuras, falsas e corrompidas” que trariam devastação sobre “qualquer pessoa ou povo que acreditasse nelas”, Shoghi Effendi advertiu particularmente contra os “três deuses do Nacionalismo, Racismo e Comunismo”.80

Sobre o Fascismo, regime criado pela chamada “Marcha sobre Roma” em 1922, pouco precisa ser dito. Muito antes que ele e seu líder tivessem sido varridos ao esquecimento durante os meses finais da Segunda Guerra Mundial, o Fascismo havia se tornado um objeto de ridículo entre a maioria até mesmo daqueles que o haviam inicialmente apoiado. Sua importância reside, na verdade, na onda de imitadores que espalhou e que iriam proliferar no mundo como uma série maléfica de mutações nas décadas seguintes. Alimentada por um nacionalismo maníaco, esta aberração do espírito humano deificava o estado, descobria em tudo ameaças imaginárias ao renascimento nacional de qualquer povo infeliz sobre o qual se atinha e pregava a todos os que lhe davam ouvidos a noção de que a guerra exercia uma influência “nobre” sobre a alma humana. A ópera cômica da parada de uniformes, botas, bandeiras e clarins, usualmente associada com ele, não podia esconder de um observador da época o legado virulento que deixara para nossa própria era, encoberto no vocabulário político com termos angustiantes como “os desaparecidos”.

Embora compartilhando da idolatria do Estado que o Fascismo pregava, sua ideologia irmã, o Nazismo, tornou-se a voz de uma mais antiga e insidiosa perversão. Em seu obscuro âmago encontrava-se uma obsessão com o que seus proponentes chamaram de “raça pura”. A determinação única com a qual perseguiram seus fins criminosos não foi, de forma alguma, enfraquecida pelos postulados comprovadamente falsos sobre os quais se baseava. O sistema nazista era singular na evidente bestialidade da ação mais comum associada com seu nome, o programa de genocídio sistematicamente executado contra populações consideradas ou sem valor ou prejudicial ao futuro da humanidade, um programa que incluía uma tentativa deliberada de exterminar o inteiro povo judeu. Por fim, foi a determinação nazista, de que uma “raça pura” devia dominar o planeta inteiro, a principal responsável pelo cumprimento da advertência profética de ‘Abdu’l-Bahá feita vinte anos antes de que outra guerra, mais terrível que a primeira, devastaria o mundo. Como o Fascismo, o Nazismo deixou um detrito para nosso tempo. Em seu caso, tomou a forma de uma linguagem e símbolos através dos quais elementos periféricos na sociedade atual, desmoralizados pela decadência social e econômica em torno deles, e desesperados com a ausência de soluções, deram vazão à sua ira impotente contra minorias às quais culpavam por seus desapontamentos.

O falso deus que o Mestre foi levado a identificar claramente, e denunciado pelo nome por Shoghi Effendi, havia demonstrado seu caráter logo em seu início ao destruir brutalmente, durante a última parte da Primeira Guerra Mundial, o primeiro governo democrático jamais estabelecido na Rússia. Por muitos anos, o sistema soviético criado por Vladimir Lenin conseguiu mostrar-se a muitos como um benfeitor da humanidade e defensor da justiça social. À luz dos eventos históricos, tais pretensões eram grotescas. A documentação agora disponível provê irrefutável evidência de crimes tão enormes e loucuras tão inimagináveis que não têm paralelo em todos os seis mil anos dos registros históricos da humanidade. A um grau jamais imaginado até então, pelo menos tentado, a conspiração leninista contra a natureza humana também buscou sistematicamente extinguir a fé em Deus. Seja qual for a visão da situação política que os teóricos possam agora ter, ninguém se surpreenderia de que tão deliberada violência contra as raízes da motivação humana levariam inexoravelmente à ruína política e econômica daquelas infelizes sociedades que caíram sob o domínio soviético. Seus duradouros efeitos espirituais tragicamente iriam perverter, ao serviço de sua própria agenda amoral, os anseios legítimos de liberdade e justiça dos povos oprimidos em todo o mundo.

Do ponto de vista bahá’í, a adoração pela humanidade de ídolos de sua própria invenção é de importância não devido aos eventos históricos associados com essas forças, por mais horrorosas que sejam, mas devido à lição que ela representa. Voltando a atenção para o mundo decadente no qual tais forças diabólicas desceriam sobre o futuro da humanidade, a pessoa deve se perguntar qual foi a fraqueza na natureza humana que a tornou tão vulnerável a tais influências. Ter visto em alguém como Benito Mussolini a figura de um “Homem do Destino”, sentir-se obrigado a entender as teorias raciais de Adolf Hitler como algo além de produtos, por si mesmos evidentes, de uma mente doentia, ter de aceitar seriamente a reinterpretação da experiência humana através de dogmas que haviam dado nascimento à União Soviética de Josef Stalin – tão obstinado abandono da razão por parte de um considerável segmento da liderança intelectual da sociedade exige uma prestação de contas para a posteridade. Se feita sem paixões, tal avaliação deve, cedo ou tarde, focalizar sua atenção sobre a verdade que perpassa como eixo central as Escrituras de todas as religiões da humanidade. Nas palavras de Bahá’u’lláh:

Sobre a realidade do homem... focalizou Ele o fulgor de todos os Seus nomes e atributos, e o fez um espelho de Seu próprio Ser... Essas energias... jazem nele latentes, todavia, assim como a chama se oculta dentro da vela e os raios de luz estão presentes, potencialmente, na lâmpada. ... Nem a vela, nem a lâmpada, pode acender-se por seus próprios esforços, nem será possível jamais que o espelho, por si só, se livre de suas impurezas.81

A conseqüência da louca paixão da humanidade para com ideologias criadas por sua própria mente iria produzir uma aceleração terrível no processo de desintegração que estava dissolvendo a estrutura da vida social e alimentando os impulsos mais baixos da natureza humana. A brutalidade que a Primeira Guerra Mundial havia engendrado tornava-se agora um aspecto onipresente da vida social na maior parte do planeta. “Assim, reunimos os obreiros da iniqüidade”, Bahá’u’lláh advertira um século antes. “Nós os vemos apressarem-se em direção a seus ídolos. ... Apressam-se em direção ao Fogo do inferno, e o confundem com a luz”.82

COM A ESTRUTURA ADMINISTRATIVA da Causa tomando forma, Shoghi Effendi voltou sua atenção para a tarefa que fora obrigado a retardar por tanto tempo, a implementação do Plano Divino do Mestre. Na Pérsia, tal desenvolvimento já estava bem avançado. Orientados primeiro por Bahá’u’lláh e, subseqüentemente, por ‘Abdu’l-Bahá, um grupo de instrutores especialmente designados – muballighín – estimulava o trabalho a nível local em todo o país, e a existência de uma vibrante vida comunitária ajudava na relativamente rápida integração dos novos declarantes. Os fundos do Huqúqu’lláh, suplementados pela prática da deputização – que já era uma característica marcante da consciência bahá’í persa – provia os recursos materiais para as atividades de ensino.

No Ocidente, a inspiração para a promoção da Fé havia sido provida pela resposta dada aos apelos do Mestre por parte de destacados indivíduos como Lua Getsinger, May Maxwell e Martha Root. A menção destes nomes é feita para mostrar apenas um aspecto do desenvolvimento da Causa no Ocidente, para o qual o Mestre chamou atenção particula Na América, as mulheres superaram os homens neste aspecto e tomaram a liderança neste campo. Elas se esforçam mais em guiar os povos do mundo, e seus esforços são maiores. Elas têm a confirmação das bênçãos e graças divinas.83

No Oriente, as condições sociais da época tinham virtualmente obrigado que as iniciativas na promoção da Causa fossem tomadas em maior proporção pelos homens. Poucas dessas restrições ocorriam na América do Norte e na Europa, onde uma galáxia de inesquecíveis mulheres tornaram-se os principais exponentes da mensagem bahá’í, em ambas as costas do Oceano Atlântico. Pensar em Sarah Farmer, cuja escola em Green Acre proveu à nascente comunidade bahá’í um fórum para a introdução da Fé a influentes pensadores; lembrar de Sara Lady Blomfield, cuja posição social ajudou muito no fortalecimento do ardor com o qual ela promoveu os ensinamentos; Marion Jack, imortalizada por Shoghi Effendi como um modelo para os pioneiros bahá’ís; Laura Dreyfus-Barney, que deu à Fé a valiosa coletânea de palestras do Mestre à mesa de jantar, Respostas a Algumas Perguntas*; Agnes Parsons, co-fundadora das iniciativas intituladas “Amizade Racial”, inspiradas por ‘Abdu’l-Bahá; Corinne True, Keith Ransom-Kehler, Helen Goodall, Juliet Thompson, Grace Ober, Ethel Rosenberg, Clara Dunn, Alma Knobloch e uma distinguida companhia de outras mulheres, a maioria delas pioneiras em alguns novos campos do serviço bahá’í.

A esta lista deve ser acrescentado o nome da Rainha Maria da Romênia, à qual eras futuras irão lembrar como a primeira cabeça coroada a reconhecer a Revelação de Deus para este Dia. A coragem demonstrada por esta mulher solitária, ao declarar publicamente sua fé através de cartas que destemidamente dirigiu a editores de inúmeros jornais, tanto na Europa como na América do Norte, com toda probabilidade introduziu o nome da Causa a uma audiência estimada em milhões de leitores.

A despeito da expressiva resposta que os primeiros desses esforços obtiveram, a falta de meios organizados para trabalhar tais resultados limitaram, de início, os benefícios advindos às comunidades bahá’ís em terras do Ocidente. O desenvolvimento da Ordem Administrativa dramaticamente transformou esta última situação. Com a formação de Assembléias Espirituais Locais, metas foram estabelecidas e recursos levantados para apoiar os esforços de ensino individual, e aqueles que declaravam sua fé viam-se logo envolvidos em muitas atividades de uma vida comunitária bahá’í cada vez mais ativa. Foi então possível traduzir sistematicamente e publicar literatura, compartilhar regularmente notícias de interesse geral, e os laços que ligavam os crentes com o Centro Mundial da Fé tornaram-se cada vez mais fortes.

Os dois principais instrumentos utilizados por Shoghi Effendi para cultivar uma elevada devoção ao ensino, tanto no Oriente como no Ocidente, foram os mesmos nos quais o Mestre também confiara. Uma contínua torrente de cartas, tanto às comunidades como aos indivíduos, abriu aos seus receptores novas dimensões sobre o significado das crenças que haviam abraçado. As mais importantes dessas comunicações, porém, eram aquelas dirigidas às Assembléias Espirituais Nacionais e Locais. O efeito que tiveram foi intensificado pela onda de peregrinos que voltavam da Terra Santa, os quais compartilhavam suas percepções obtidas nos contatos diretos com o Centro da Causa. Através dessas conexões, todos os crentes eram estimulados a ver a si mesmos como instrumentos do poder que fluía do Convênio. A valiosa compilação que posteriormente foi publicada sob o título de Messages to America, 1932-1946 retrata com clareza os passos através dos quais Shoghi Effendi levou os crentes norte-americanos a entenderem, cada vez mais profundamente, as implicações do Plano Divino do Mestre para “a conquista espiritual do planeta”:

Pela sublimidade e serenidade de sua fé, pela firmeza e clareza de sua visão, pela incorruptibilidade de seu caráter, pelo rigor de sua disciplina, pela santidade de sua moral e pelo exemplo inigualável de sua vida comunitária, eles podem, e na verdade devem – em um mundo poluído com uma incurável corrupção, paralisado por seus temores assustadores, arrasado por seus ódios devastadores e languescendo sob o peso de misérias apavorantes – demonstrar a validade de sua reivindicação de serem considerados como o único repositório daquela graça de cuja operação deve depender a libertação completa, a reorganização fundamental e a felicidade suprema de toda a humanidade.84

O Guardião descortinou aos olhos da comunidade bahá’í norte-americana a visão de seu destino espiritual. Seus membros eram, disse ele, “os descendentes espirituais dos heróis da Causa de Deus”, suas nascentes instituições eram “os símbolos visíveis de sua [da Fé] indubitável soberania”, os instrutores e pioneiros que enviavam eram “os porta-estandartes de uma civilização ainda por nascer” e seu desafio coletivo era assumir “um papel preponderante” na fundação das bases da Ordem Mundial que o Báb havia anunciado, que a mente de Bahá’u’lláh havia visionado e cujos aspectos ‘Abdu’l-Bahá, seu Arquiteto, delineou. ...”85

A linguagem das mensagens é magnificente, cativante. Ao mencionar a escuridão criada pela descrença generalizada, pela violência e imoralidade que se alastravam, Shoghi Effendi descreveu o papel que os bahá’ís em todas as partes devem exercer como instrumentos do poder transformador da nova Revelação:

Seu é o dever de manter, elevada e sempre acesa, a tocha da guia divina, enquanto as sombras da noite descem e finalmente irão encobrir a inteira raça humana. Sua é a função, em meio ao seus tumultos, perigos e agonias, de dar testemunho da visão e proclamar a aproximação daquela sociedade recriada, aquele Reino prometido por Cristo, aquela Ordem Mundial cujo impulso gerador é o espírito de ninguém mais senão o próprio Bahá’u’lláh, cujo domínio é o planeta inteiro, cuja palavra de ordem é unidade, cujo poder fortalecedor é a força da Justiça, cujo propósito diretivo é o reino da retidão e da verdade, e cuja suprema glória é a completa, tranqüila e duradoura felicidade da inteira espécie humana.86

Em 1936, o Guardião sentiu que a estrutura administrativa da Causa era suficientemente ampla e estava bem consolidada na América do Norte para que ele pudesse iniciar o primeiro estágio da implementação do próprio Plano Divino. Com o mundo caminhando para outra conflagração mundial, e como o âmbito de alcance dos esforços dos crentes persas estava muito limitado, o foco para a expansão e consolidação da comunidade bahá’í teria que necessariamente concentrar-se no hemisfério Ocidental, em preparação aos empreendimentos muito maiores que ocorreriam no futuro. Convocando os designados “executores” do Plano, os crentes da América do Norte, o Guardião lançou um Plano de Sete Anos, previsto para acontecer de 1937 a 1944. Seus objetivos eram estabelecer pelo menos uma Assembléia Espiritual Local em cada estado dos Estados Unidos e em cada província do Canadá, e, abrir à Causa, em quatorze repúblicas na América Latina. A esses objetivos foi adicionada a tarefa, imensamente pesada para uma comunidade com ainda um número muito limitado de membros e com sérias limitações em seus recursos financeiros, de completar a ornamentação exterior do “Templo Mãe do Ocidente”.

Rúhíyyih Khánum destaca o paralelo notável entre os dois desenvolvimentos naquele período da história. De um lado, nações poderosas lançavam exércitos de invasão cuja meta era tomar posse dos recursos naturais de estados vizinhos – ou simplesmente satisfazer um apetite de conquista. Durante esse mesmo período, Shoghi Effendi mobilizava o grupo, tão pequeno que dava pena, de pioneiros disponíveis a ele, enviando-os às metas de ensino do Plano que ele havia criado. Dentro de poucos anos, os enormes batalhões de agressão seriam desmantelados irrecuperavelmente, seus nomes e conquistas, apagados da história. O pequeno grupo de crentes que havia partido, decididamente, para cumprir a missão que lhes fora confiada pelo Guardião, alcançaria, ou até excederia, todos os seus objetivos – objetivos estes que em pouco tempo se tornariam as fundações de florescentes comunidades.87

Ao estudarem este empreendimento, será de ajuda aos bahá’ís entenderem não somente o papel que o planejamento exerce na vida da Causa, como também a natureza singular deste instrumento em sua expressão bahá’í. A identificação sistemática dos objetivos a serem alcançados e as decisões de como alcançá-los não significa que a comunidade bahá’í tenha assumido a responsabilidade de “delinear” um futuro para si mesma, como está normalmente implícito no conceito de planejamento. O que as instituições fazem, melhor dizendo, é esforçar-se para alinhar o trabalho da Causa com o processo divinamente impelido que, como eles vêem, está se desabrochando cada vez mais no mundo – um processo que, por fim, levará à realização de seu propósito, independentemente das circunstâncias ou dos eventos históricos. O desafio à Ordem Administrativa é assegurar que a ação da Providência tenha livre expressão e os esforços bahá’ís estejam em harmonia com este Plano Maior de Deus, porque, assim fazendo, os poderes implantados na Causa por Bahá’u’lláh irão frutificar. Que as provisões contidas em O Kitáb-i-Aqdas e A Última Vontade e Testamento de ‘Abdu’l-Bahá assegurarão o sucesso dos esforços dos bahá’ís, é algo dramaticamente demonstrado em uma série ininterrupta de triunfos alcançados com o cumprimento dos planos criados por Shoghi Effendi.

Em agosto de 1944, Shoghi Effendi pôde celebrar o término do primeiro Plano de Sete Anos. O Guardião marcou o momento com um presente aos bahá’ís do mundo, que representa uma das maiores realizações de sua vida. A publicação, em 1944, do livro A Presença de Deus, sua completa e analítica história dos primeiros cem anos da Causa, abriu à visão dos crentes, um panorama sobre o processo espiritual pelo qual o propósito de Bahá’u’lláh para a humanidade está sendo realizado.

A história é um instrumento poderoso. Provê uma perspectiva do passado e descortina um panorama do futuro. Povoa a consciência humana com imagens de heróis, santos e mártires, cujo exemplo desperta, em todos que são por ele tocados, capacidades que não imaginavam possuir. Ajuda a dar sentido ao mundo – e à experiência humana. Inspira, consola e ilumina. Enriquece a vida. No enorme conjunto de narrativas e lendas que legou à humanidade, a mão da história pode ser vista em ação, configurando, em grande parte, o curso da civilização – nas lendas que inspiraram os ideais de muitos povos, desde os primórdios dos tempos, como também nos registros épicos do Ramayana, nos atos de heroísmo destacados na Odisséia e no Aeneid, nas sagas nórdicas, no Shahnameh, e em muitas partes da Bíblia e do Alcorão.

A Presença de Deus eleva este grande trabalho da mente a um nível já tentado por muitos mas nunca alcançado por quem quer que fosse em eras passadas. Aqueles que abrem seus olhos à visão que o livro descortina, descobrem nele um instrumento através do qual podem entender o Propósito de Deus, um enfoque convergente com a vastidão da obra desfraldada nas incomparáveis traduções do Guardião dos Textos Revelados. Seu aparecimento no centenário do nascimento da Causa – justamente quando o mundo comemorava o sucesso do primeiro esforço coletivo que lhe fora possível empreender – resumindo para os crentes do mundo inteiro a magnitude e o significado de cem anos de incessantes sacrifícios.

Praticamente no início da Segunda Guerra Mundial, o Guardião mostrou aos bahá’ís uma perspectiva daquele conflito inteiramente diferente das que prevaleciam na época. A guerra deveria ser considerada, disse ele, “como uma continuação direta” da conflagração que irrompera em 1914. Será vista como “uma condição essencial à unificação do mundo”. A entrada na guerra pelos Estados Unidos, cujo presidente havia iniciado o projeto de um sistema de ordem internacional, mas que fora rejeitado como uma iniciativa visionária, levaria aquela nação, Shoghi Effendi predisse, a “assumir, em decorrência de adversidades, sua parte preponderante de responsabilidade no estabelecimento definitivo de bases estáveis, mundiais, daquele ainda desacreditado porém imortal Sistema”.88

Estas declarações provaram-se proféticas. Com o fim das hostilidades, tornou-se aos poucos aparente que uma mudança de consciência estava ocorrendo no mundo e que as concepções herdadas, as instituições e as prioridades que haviam sido progressivamente enfraquecidas pelas forças em operação durante a primeira metade do século, estavam agora desmoronando. Se a mudança não podia ser ainda descrita como uma convicção emergente sobre a unidade da humanidade, nenhum observador atento deixaria de reconhecer o fato de que as barreiras que bloqueavam tal realização, que haviam sobrevivido a todos os argumentos levantados contra elas até então, estavam, por fim, cedendo. Oportuno lembrar as proféticas palavras do Alcorão: “E vocês verão as montanhas e pensarão que são sólidas, mas elas passarão como passam as nuvens”. (27:88) O efeito foi inspirar em mentes progressistas a confiança de que seria possível construir um novo tipo de sociedade, a qual não iria apenas preservar uma paz duradoura no mundo, mas também enriquecer a vida de todos os seus habitantes.

Primariamente, este novo surgir de esperança resultara, como Shoghi Effendi havia previsto, da “provação causticante” que conseguira, por fim, “tornar realidade aquele senso de responsabilidade” que os líderes do século anterior procuraram evitar.89 A esta nova consciência foram adicionados os efeitos do temor induzido pela invenção e uso de armas atômicas – uma reação que faz lembrar aos bahá’ís as declarações inspiradas do Mestre na América do Norte de que, por fim, a paz viria porque as nações seriam compelidas a aceitá-la. O jornal Montreal Daily Star havia citado as palavras de ‘Abdu’l-Bahá: “Se [a paz] será universal no século vinte, é porque todas as nações serão forçadas a isso”.90 Os anos imediatamente após 1945 testemunharam os avanços na criação de uma nova ordem social que foram bem além das mais animadoras esperanças de décadas anteriores.

Mais importante de tudo foi a disposição dos governos nacionais de criarem um novo sistema de ordem internacional, e outorgar a ele a autoridade necessária para manter a paz mundial tão tragicamente negada à extinta Liga das Nações. Reunindo-se em São Francisco, em abril de 1945 – em cujo estado ‘Abdu’l-Bahá havia profeticamente declarado, “Que a primeira bandeira da paz internacional seja levantada neste estado” – delegados de cinqüenta nações adotaram a Carta da Organização das Nações Unidas, nome este proposto pelo Presidente Franklin D. Roosevelt.91 A ratificação da Carta pelo número exigido de nações membros ocorreu em outubro, e a primeira Assembléia Geral da nova organização foi realizada em 10 de janeiro de 1946, em Londres. Em outubro de 1949, foi colocada a pedra fundamental da sede permanente das Nações Unidas na cidade de Nova York, designada por ‘Abdu’l-Bahá trinta e sete anos antes como a “Cidade do Convênio”. Durante Sua visita a essa cidade, Ele predisse: “Não há dúvida de que... a bandeira do acordo internacional será desfraldada aqui, para espraiar-se em todas as nações do mundo.”92

Significativamente, foi também por iniciativa de um líder político de uma das nações do hemisfério ocidental mencionadas por Bahá’u’lláh, que Seus apelos por segurança coletiva – pela primeira vez refletidos nas sanções nominais votadas pela Liga das Nações contra a agressão fascista na Etiópia – tiveram, depois de muito tempo, um efeito prático. Em novembro de 1956, Lester Bowles Pearson, então Ministro das Relações Exteriores e mais tarde Primeiro-Ministro do Canadá, conseguiu aprovar a criação, pelas Nações Unidas, de sua primeira força internacional de paz – uma realização que propiciou ao seu autor o Prêmio Nobel da Paz.93 A plenitude da autoridade contida em tal mandado tornar-se-ia um sólido e muito importante aspecto das relações internacionais durante a segunda metade do século. Começando como um programa de ação resultante dos acordos feitos entre nações hostis, o princípio da ação coletiva em defesa da paz gradualmente foi ganhando forma de intervenções militares, tal como aconteceu na Guerra do Golfo, na qual a aplicação das resoluções do Conselho de Segurança foi imposta pela força sobre as facções e estados agressores.

Junto com o estabelecimento do novo sistema das Nações Unidas e dos passos para dar força oficial às suas sanções, uma segunda importante conquista ocorreu. Antes mesmo das hostilidades terem terminado, o público, em todo o mundo, que assistiu o filme da cobertura da libertação dos campos de morte nazistas, ficou horrorizado diante do que foi exposto, mostrando as conseqüências horríveis do racismo. O que mais adequadamente pode ser descrito como um profundo senso de vergonha da profundidade do mal que seres humanos foram capazes de cometer chocou a consciência da humanidade. Diante da janela de oportunidade que tal horror propiciou, um grupo de homens e mulheres dedicados e visionários, sob a inspirada liderança de figuras como Eleanor Roosevelt, conseguiram a adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos pelas Nações Unidas. O comprometimento moral que isso representou foi institucionalizado subseqüentemente, com o estabelecimento da Comissão das Nações Unidas sobre Direitos Humanos. No transcurso do tempo, a própria comunidade bahá’í teria uma boa razão para reconhecer, em primeira mão, a importância do sistema como um escudo de proteção das minorias contra os abusos do passado.

Um fato que ressaltou bem a importância desses avanços foi a decisão das nações que haviam triunfado no conflito que recém terminara, de levar à barra do tribunal figuras de liderança do regime nazista. Pela primeira vez na história, os líderes de uma nação soberana – homens que tentaram argüir a constitucionalidade das posições políticas que haviam ocupado – foram levados perante uma corte pública, onde seus crimes foram analisados e documentados sem indulgência, e condenados legalmente; aqueles que não escaparam pelo suicídio foram enforcados ou condenados a longos períodos de prisão. Nenhum protesto sério fora levantado contra este procedimento, o qual, teoricamente, constituiu-se numa transformação fundamental da aplicação das formas existentes de leis internacionais. Embora a integridade dos procedimentos tenha sido gravemente prejudicada pela participação de juizes designados pela ditadura soviética, cujos crimes se igualaram ou até excederam aos do regime dos acusados, o fato criou um precedente histórico. Demonstrou, pela primeira vez, que o fetiche da “soberania nacional” tem limites legais e reconhecidos.

Começando naqueles mesmos anos, o cumprimento de um ideal longamente sonhado se concretizou com a dissolução dos grandes impérios que não haviam meramente sobrevivido a 1918, mas haviam conseguido até mesmo ampliar seu poder através da aquisição de “mandatos”, “protetorados” e colônias, tomados dos poderes derrotados. Agora, esses sistemas antiquados de opressão política estavam submersos diante da onda que surgia de movimentos de liberação nacional, muito além de suas fracas capacidades de resistência. Com surpreendente rapidez, todos eles, ou voluntariamente abandonaram suas reivindicações ou foram forçados, pelas rebeliões nas colônias, a se submeterem ao mesmo fado que havia derrubado seus antecessores otomanos e hapsburgos no início do século.

Subitamente, os povos do mundo tinham ao seu dispor um lugar onde podiam ser recebidos com dignidade, um fórum no qual podiam expressar as preocupações que mais os afligiam, e o tênue começo de uma participação oficial na tomada de decisões sobre seu próprio futuro e o da humanidade em geral. Uma mudança completa de rumo ocorrera, deixando para trás seis ou mais milênios de história. Apesar de todas as inalteradas desvantagens educacionais, das iniqüidades econômicas e das obstruções criadas pelas manobras políticas e diplomáticas – apesar de todas estas limitações práticas, porém historicamente transitórias – uma nova autoridade entrava em ação no palco dos assuntos humanos, à qual todos podiam razoavelmente esperar poder recorrer. Representantes de povos outrora subjugados, cujos guerreiros, exoticamente vestidos, desfilaram no final da procissão do Jubileu de Ouro em Londres havia apenas cinco décadas, começavam agora a aparecer como delegados no Conselho de Segurança e ocupantes de postos elevados nas Nações Unidas e em Organizações Não-Governamentais de todo tipo. A magnitude da mudança é talvez melhor simbolizada pelo fato de que o Secretário-Geral das Nações Unidas atualmente é um nativo de Gana, e seus dois predecessores, cidadãos nativos, respectivamente, do Egito e do Peru.94

Mas esta transformação não foi meramente de caráter formal ou administrativo. Com o passar do tempo, um número crescente de figuras de destaque em todos os campos de atividade humana iriam superar os conhecidos limites de identidade racial, cultural ou religiosa. Em todos os continentes do globo, nomes como os de Anne Frank, Martin Luther King Jr., Paulo Freire, Ravi Shankar, Gabriel García Marques, Kiri Te Kanawa, Andrei Sakharov, Madre Teresa e Zhang Yimou, tornaram-se fontes de inspiração e encorajamento para grandes números de seus concidadãos.95 Em todos os setores da vida, o heroísmo, a excelência profissional ou a distinção moral cada vez mais falavam por si mesmos, merecendo abraços calorosos da generalidade da humanidade. A onda mundial de afeição e regozijo decorrente da libertação de Nelson Mandela da prisão, e sua subseqüente eleição como presidente de seu país, despertaria em todos os povos, raças e nações a certeza de que aqueles eventos históricos representavam vitórias da família humana como um todo.

Tornou-se evidente, também, que as concepções de antes da guerra, com relação ao uso e distribuição da riqueza, teriam de ser reavaliadas. À parte dos princípios de justiça social, o que sem dúvida influenciou um significativo número daqueles que tratavam dessa área, as deslocações econômicas produzidas pelos eventos das três décadas anteriores, tinham deixado claro que as normas existentes estavam ultrapassadas e mostravam-se ineficazes. Experiências para resolver tais problemas a nível nacional haviam sido tentadas em muitos países para enfrentar a Depressão durante os anos trinta. Agora, um sistema interativo de instituições, obrigadas a reconhecer que as economias nacionais constituem elementos de um todo global, estava dia a dia sendo desenvolvido e colocado em operação. O Fundo Monetário Internacional, o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio, o Banco Mundial e várias agências subsidiárias, começaram, embora tardiamente, a lutar contra as implicações de um mundo em integração, e com assuntos relacionados à distribuição da riqueza inerente nesse desenvolvimento. Pensadores em países em desenvolvimento não demoraram em dar destaque a tais iniciativas, que buscavam atender, primariamente, às necessidades do mundo Ocidental. No entanto, seu surgimento marcou uma mudança fundamental de direção, a qual iria permitir, cada vez mais, a participação de uma ampla gama de estados e instituições.

Uma iniciativa humanitária de um tipo jamais concebido abriu ainda outra dimensão para a ocorrência da integração global. Começando com o “Plano Marshall”, criado pelo governo dos Estados Unidos para reabilitar as nações européias prejudicadas com a guerra, aquelas nações que foram capazes de conseguir sua reabilitação deram séria atenção a programas que podiam fomentar o desenvolvimento social e econômico das nações emergentes. Ampla publicidade despertou um senso de solidariedade para com o restante do mundo, por parte de pessoas em terras que gozavam de razoáveis níveis de educação, saúde e aplicação da tecnologia. Com o tempo, esta iniciativa ambiciosa chegou a ser condenada por causa das segundas intenções atribuídas a ela. Ninguém pode negar que os resultados a longo prazo dos projetos de desenvolvimento foram lamentavelmente desapontadores, ao falharem na resolução do problema do enorme distanciamento social entre ricos e pobres. Mas há que se reconhecer que nenhuma destas circunstâncias pode obscurecer a consciência humanitária de seus objetivos, que falou, mais eloqüentemente talvez, na resposta que evocou de um exército de jovens idealistas em muitas terras.

Paradoxalmente, no Oriente Médio particularmente, até a própria guerra teve um certo efeito na consciência das pessoas. Já em 1904, o conflito russo-japonês fora visto, em algumas partes do Oriente, como uma evidência animadora de que povos não-ocidentais podiam resistir ao aparentemente invencível poder do Ocidente. O efeito fora ressaltado pelos eventos da Primeira Guerra Mundial e avançou significativamente com o sucesso das armas japonesas em enfrentar, por tão longo tempo, o esforço maciço ocidental para derrotá-las durante o período de 1941-1945. A segunda metade do século viu este novo conhecimento tecnológico dar nascimento às economias modernas em meia dúzia de nações da região, cujos produtos inovadores e energia industrial, particularmente nas áreas de transporte e informática, permitiram-lhes usufruir por si mesmas o que de melhor o restante do mundo podia oferecer.

Em 1946, o fim das hostilidades abriu o caminho para o lançamento de um segundo Plano de Sete Anos por Shoghi Effendi, plano este que se beneficiou da nova receptividade que a mensagem da Fé produziu, com uma mudança de consciência que já estava evidente. Mais uma vez, a comunidade bahá’í norte americana foi chamada a assumir o peso da responsabilidade, essencialmente fundamentada nas realizações do Plano anterior e ampliando as mesmas. A grande diferença, no entanto, foi que muitas outras comunidades bahá’ís estavam agora em condição de participar. Já em 1938, os bahá’ís da Índia, Paquistão e Birmânia tinham iniciado um plano de sua própria iniciativa. As hostilidades internacionais gradualmente chegaram ao fim, as Assembléias Espirituais Nacionais da Pérsia, das Ilhas Britânicas, da Austrália e Nova Zelândia, da Alemanha e Áustria, do Egito e Sudão, e a do Iraque – liberadas das limitações que lhes foram impostas pela guerra – embarcaram em projetos de várias durações para expandir a base da Ordem Administrativa, estabelecendo pioneiros em metas tanto internas como no exterior e multiplicando também a literatura bahá’í disponível.

Em 1953, todos esses empreendimentos tinham sido inteiramente concluídos. Três novas Assembléias Espirituais Nacionais foram estabelecidas e haviam, também, adotado planos de ensino suplementares; uma série de novas Assembléias Espirituais Locais foram formadas na Europa; iniciativas de cinco diferentes comunidades nacionais, atuando sob a coordenação da Assembléia Espiritual Nacional das Ilhas Britânicas, levaram ao estabelecimento de pioneiros na África oriental e ocidental, e o grande projeto iniciado pelo Mestre, com a colocação da pedra fundamental do Templo Mãe do Ocidente, fora, por fim, concluído.96

Antes que os crentes pudessem comemorar estas realizações, um novo desafio de dimensões pasmosas foi lançado por Shoghi Effendi. Impelido pelas forças históricas que somente ele tinha condições de avaliar devidamente, o Guardião anunciou o lançamento, no Ridván que estava por vir, de um Plano mundial com a duração de dez anos, que ele chamou de “Cruzada Espiritual”. Reunindo as energias de todas as doze Assembléias Espirituais Nacionais então existentes – a décima segunda sendo a da comunidade ítalo-suíça – o plano previa o estabelecimento da Fé em cento e oitenta e um países e territórios adicionais, juntamente com a formação de quarenta e quatro novas Assembléias Espirituais Nacionais, o registro jurídico de trinta e três delas, um vasto aumento na literatura bahá’í, a construção de Casas de Adoração no Irã e na Alemanha (sendo a primeira substituída pelos Templos tanto na África como na Austrália, quando o projeto de Teerã foi bloqueado), e a expansão do número de Assembléias Espirituais Locais no mundo para um total de cinco mil, das quais trezentos e cinqüenta deveriam ter registros jurídicos. Nada, em sua experiência coletiva, havia preparado os bahá’ís do mundo para tão colossal empreendimento. A magnitude do desafio foi definida por Shoghi Effendi em um cabograma de 8 de outubro de 1952:

Sinto a hora propícia para proclamar ao inteiro mundo bahá’í o lançamento previsto... a Cruzada Espiritual decisiva, arrebatadora, que abarcará o mundo inteiro e durará uma década, envolvendo... a participação conjunta de todas as Assembléias Espirituais Nacionais do mundo bahá’í, visando a expansão imediata do domínio espiritual de Bahá’u’lláh... em todos os remanescentes estados soberanos, territórios dependentes incluindo principados, sultanatos, emirados, territórios de xeques, protetorados, territórios em mandato e colônias coroadas espalhadas por toda a superfície do planeta. O inteiro corpo de fiéis apoiadores da triunfante Fé de Bahá’u’lláh é agora convocado para realizar, em uma única década, feitos que eclipsarão totalmente as realizações que durante o curso das onze décadas precedentes iluminaram os anais do pioneirismo bahá’í.97

Vitória em tão ambicioso empreendimento iria significar que a Fé abrangeria o globo inteiro, que as bases institucionais de sua Ordem Administrativa expandir-se-iam pelo menos cinco vezes mais e que sua vida comunitária seria enriquecida com a participação de crentes oriundos de um vasto número de culturas, nações e tribos ainda não representadas na Causa.

Com efeito, o Plano exigia que a Causa desse um salto gigantesco sobre o que, de outra forma, representaria muitos estágios de sua evolução. O que Shoghi Effendi viu claramente – e algo que somente os poderes de previsão inerentes na Guardiania possibilitavam ver – foi que uma conjunção histórica de circunstâncias apresentava à comunidade bahá’í uma oportunidade que não voltaria novamente e da qual o sucesso de futuros estágios no desenvolvimento do Plano Divino dependeria inteiramente. O que ele não hesitou em chamar de “uma convocação do Senhor das Hostes” foi incorporado em uma mensagem que arrebatou a imaginação dos bahá’ís em todas as partes do mundo:

Não importa quão longo seja o período que os separe da vitória final; embora árdua a tarefa e extraordinários os esforços deles exigidos; por mais obscuros que sejam os dias que a humanidade, perplexa e severamente testada, deva atravessar; por mais severas as provações através das quais aqueles que deverão redimir seus destinos ver-se-ão confrontados. ... Eu os adjuro, pelo sangue precioso derramado em grande profusão pelas vidas de inumeráveis santos e heróis que foram imolados, pelo supremo e glorioso sacrifício do Profeta Arauto de nossa Fé, pelas tribulações suportadas voluntariamente por Seu Fundador para que Sua Causa pudesse viver, Sua Ordem redimir um mundo despedaçado e sua glória difundir-se por todo o planeta – eu os adjuro, nesta hora solene que se aproxima, que resolvam jamais recuar, jamais hesitar, jamais descansar, até que cada um e todos os objetivos dos Planos a serem proclamados posteriormente sejam inteiramente consumados.98

A resposta foi imediata. Dentro de poucos meses mensagens do Centro Mundial começaram a compartilhar notícias de uma sucessão de vitórias em todos os países. Aqueles pioneiros que conseguiram estabelecer a Fé pela primeira vez em um país ou território ainda virgem à Causa foram chamados de “Cavaleiros de Bahá’u’lláh” e seus nomes escritos em um Rol de Honra destinado, no futuro, a ser depositado, como definido pelo Guardião, sob o limiar da entrada do Santuário de Bahá’u’lláh. Nada comprova, porém, tão dramaticamente a presciência incorporada nos sucessivos Planos de Shoghi Effendi do que o fato que em cada uma das novas nações criadas depois da Segunda Guerra Mundial, comunidades bahá’ís e Assembléias Espirituais já faziam parte da estrutura da vida nacional de cada país.

Uma sucessão brilhante de realizações seguiu-se a estas iniciais. Em outubro de 1957, quando a Fé já estava estabelecida em mais de duzentos e cinqüenta países e territórios, Shoghi Effendi pôde anunciar a compra de propriedades para locais de dez novos templos e o início das obras de construção das Casas de Adoração em Kampala, Sidney e Frankfurt; a aquisição de propriedades para quarenta e seis dos Hazíratu’l-Quds aprovados no Plano; um vasto aumento na produção de literatura bahá’í; registros jurídicos de novas Assembléias, elevando o número total para cento e noventa e cinco; o crescente reconhecimento do casamento bahá’í e dos Dias Sagrados Bahá’ís; e o progresso na construção dos Arquivos Bahá’ís Internacionais, o primeiro edifício a ser construído no amplo arco que o Guardião havia traçado na encosta do Monte Carmelo. Ninguém que analise os eventos daqueles dias poderá deixar de se comover profundamente com a atenção paternal com a qual Shoghi Effendi assegurou a realização desses resultados de elevada magnitude, como refletida em sua meticulosa lista nominal, na última mensagem que escreveu sobre a Cruzada, em abril de 1957, de cada um das sessenta e três conferências regionais de ensino e institutos realizados naquele ano no mundo bahá’í.

Tal análise seria incompleta sem um entendimento dos desenvolvimentos paralelos da Ordem Administrativa a nível internacional que o Guardião empreendeu durante aqueles anos. Tais ações provaram-se cruciais, não apenas para ganhar a Cruzada, mas também para consolidar e proteger o futuro da Causa. Juntamente com a autoridade de tomada de decisão outorgada às instituições eleitas da Fé, uma função paralela da Ordem Administrativa é exercer uma influência espiritual, moral e intelectual, tanto sobre as instituições como sobre as vidas dos membros individuais da comunidade. Concebida pelo próprio Bahá’u’lláh, essa responsabilidade de “difundir as Fragrâncias Divinas, elevar as almas dos homens, promover a educação, aperfeiçoar o caráter de todos os homens...” foi investida pela Última Vontade e Testamento do Mestre particularmente nas Mãos da Causa de Deus.99

Durante os ministérios tanto de Bahá’u’lláh como de ‘Abdu’l-Bahá, aqueles crentes aos quais foi dada tão elevada posição haviam desempenhado um papel crucial no avanço do trabalho de ensino no Oriente. Com a concepção da Cruzada de Dez Anos em sua mente, Shoghi Effendi passou a mobilizar o apoio espiritual que essa instituição podia trazer para a realização das tarefas do Plano. Em um cabograma de 24 de dezembro de 1951, ele anunciou a designação do primeiro contingente de doze Mãos da Causas de Deus, alocados em número igual para o trabalho na Terra Santa, na Ásia, nas Américas e na Europa. Esses distinguidos servos da Causa foram convocados a se concentrarem diretamente sobre o desafio de mobilização das energias dos amigos e proverem aos corpos eleitos encorajamento e conselho. Em seguida, o número de Mãos da Causa foi elevado de doze para dezenove.

Os recursos disponíveis para se desincumbirem desta responsabilidade foram grandemente aumentados pela decisão do Guardião, em outubro de 1952, convocando os Mãos da Causa a criar cinco corpos auxiliares, um para cada continente: aqueles nas Américas, Europa e África, consistindo de nove membros cada, enquanto aqueles na Ásia e Australásia, tendo sete e dois, respectivamente. Subseqüentemente, corpos auxiliares separados foram criados para ajudar na proteção da Fé, a outra das duas principais funções das Mãos da Causa.

Uma mensagem de 3 de junho de 1957 comemorou a ação do governo israelita ao executar a decisão final da corte de apelação daquele país, pela qual o grupo sobrevivente dos rompedores do Convênio foi, finalmente, despejado da área do Haram-i-Aqdas, o ponto central do mundo bahá’í em Bahjí.100 Apenas um dia depois, porém, um segundo cabograma anunciava ominosamente a necessidade urgente das principais instituições da Fé de agirem de forma unida para protegê-la de novos perigos que o Guardião percebeu estavam se formando no horizonte. Tal anúncio foi seguido, em outubro, por uma mensagem informando que o número das Mãos da Causa de Deus havia sido elevado de dezenove para vinte e sete, designando esses crentes especiais como “Porta-Estandartes Principais da embrionária Comunidade Mundial de Bahá’u’lláh”, e encarregando-os da responsabilidade de consultarem com as Assembléias Espirituais Nacionais sobre as medidas urgentemente necessárias para a proteção da Fé.

Menos de um mês depois, o mundo bahá’í ficou arrasado com a notícia da morte de Shoghi Effendi, em 4 de novembro de 1957, em decorrência de complicações que se seguiram a um ataque de gripe asiática contraída durante uma visita a Londres. O Centro da Causa, que por trinta e seis anos guiara dia a dia sua evolução, cuja visão englobava o fluxo de eventos e as ações que a comunidade bahá’í deveria tomar, e cujas mensagens de orientação e estímulo haviam sido a linha mestra espiritual de incontáveis bahá’ís no planeta, havia subitamente partido, deixando a grande Cruzada pela metade e o futuro da Ordem Administrativa em crise.

A aflição e o sentimento acabrunhador de desolação produzido pela perda do Guardião, tornam ainda maior a importância do triunfo do Plano que ele havia concebido e inspirado. Em 21 de abril de 1963, os votos de delegados de cinqüenta e seis Assembléias Espirituais Nacionais, incluindo quarenta e quatro novos corpos convocados e vitoriosamente formados durante a Cruzada de Dez Anos, trouxeram à existência a Casa Universal de Justiça, o corpo governante da Causa concebido por Bahá’u’lláh e assegurado por Ele inequivocamente da guia Divina no exercício de suas funções:

Incumbe aos Fideicomissários da Casa de Justiça, em conjunto, consultarem a respeito daqueles assuntos que não foram revelados ostensivamente no Livro, e fazerem vigorar o que lhes aprouver. Deus, em verdade, inspirar-lhes-á qualquer coisa que deseje, e Ele, em verdade, é Quem provê, o Onisciente.101

Afigurou-se ser especialmente condigno que a eleição – realizada pelos delegados reunidos e por aqueles que enviaram seu voto pelo correio – tenha ocorrido no lar onde viveu o Mestre, Cuja Última Vontade e Testamento havia descrito, cerca de sessenta anos antes, a razão de ser e o alcance da autoridade outorgada àquela instituição, nas seguintes palavras de Bahá’u’lláh:

Ao Livro Sacratíssimo devem todos se dirigir, e qualquer coisa que nele não esteja expressamente tratada deve ser referida à Casa Universal de Justiça. O que essa Casa resolver, quer seja por unanimidade, quer por maioria, será realmente a Verdade e a expressão da própria Vontade Divina. Qualquer um que se divirja dessa resolução é, em verdade, dos que amam a discórdia, está mostrando malícia e se afastando do Senhor do Convênio.102

Um importante passo preliminar para a eleição havia sido tomado por Shoghi Effendi em 1951, com a indicação dos membros do Conselho Internacional para ajudá-lo em seu trabalho. Em 1961, como explicou seria o caso, o segundo passo no processo foi tomado quando essa instituição evoluiu para um Conselho de nove membros, eleito pelos membros das Assembléias Espirituais Nacionais. Conseqüentemente, quando a Cruzada de Dez Anos chegou vitoriosamente a sua conclusão em 1963, o mundo bahá’í já ganhara importante experiência para o ato desafiador que foi, então, chamado a realizar.

Os historiadores não hesitarão em reconhecer o mérito das Mãos da Causa de Deus por terem mobilizado os esforços que tornaram esse momento possível, provendo a coordenação da qual a perda da liderança do Guardião privara o mundo bahá’í. Viajando incansavelmente pelo mundo para promover o Plano de Shoghi Effendi, reunindo-se em conclaves anuais para prover encorajamento e informação, inspirando os esforços de seus recém-criados auxiliares e afastando as tentativas de um novo grupo de rompedores do Convênio que visavam minar a unidade da Fé, esta pequena companhia de homens e mulheres enlutados conseguiu assegurar que os ambiciosos objetivos da Cruzada fossem alcançados no tempo previsto e que a base necessária fosse erigida, pronta para a eleição da unidade culminante da Ordem Administrativa. Ao solicitarem que seus próprios membros fossem dispensados de serem eleitos para a Casa Universal de Justiça, para que pudessem realizar as tarefas determinadas a eles pelo Guardião, as Mãos da Causa também dotaram ao mundo bahá’í, como um segundo grande legado, uma distinção espiritual sem precedente na história humana. Nunca antes haviam pessoas como elas, cujas mãos retinham o poder supremo de uma grande religião e que recebiam de sua inteira comunidade um reconhecimento incomparável, solicitado não serem consideradas para participação no exercício da autoridade suprema, colocando-se inteiramente a serviço do Corpo a ser escolhido pela comunidade de seus irmãos de fé para desempenhar este papel.103

POR MAIOR QUE SEJA A DISTÂNCIA entre a Guardiania e a posição única do Centro do Convênio, o papel desempenhado por Shoghi Effendi após o passamento do Mestre se destaca como singular na história da Causa. Continuará a ocupar este ponto focal na vida da Fé através dos séculos. Em importantes aspectos, Shoghi Effendi prorrogou, por um período adicional e crítico de trinta e seis anos, a influência da mão orientadora do Mestre na construção da Ordem Administrativa e na expansão e consolidação da Fé de Bahá’u’lláh. Imagine-se apenas qual poderia ter sido o destino da infante Causa de Deus se não estivesse sob o pulso firme, durante um período em que maior era sua vulnerabilidade, de alguém que fora preparado para esse propósito pelo próprio ‘Abdu’l-Bahá e que aceitou servir – no mais amplo sentido da palavra – como seu Guardião.

Embora enfatizando ao corpo de seus irmãos de fé que os Sucessores gêmeos do Mestre eram “inseparáveis” e “complementares” nas funções para as quais foram individualmente designados, é claro que Shoghi Effendi desde logo aceitou as implicações do fato de que a Casa Universal de Justiça não podia ser formada até que um longo processo de desenvolvimento administrativo fosse realizado, para criar a estrutura necessária de Assembléias Espirituais Nacionais e Locais. Ele foi muito franco com a comunidade bahá’í em relação às implicações do fato dele ter sido chamado a exercer sozinho sua suprema responsabilidade. Em suas próprias palavras:

Sem poder contar com a instituição não menos essencial da Casa Universal de Justiça, este mesmo Sistema do Testamento de ‘Abdu’l-Bahá ficaria paralisado em sua ação e seria incapaz de suprir aquelas lacunas que o Autor do Kitáb-i-Aqdas deixou, deliberadamente, no conjunto de Suas provisões legislativas e administrativas.104

Consciente desta verdade, Shoghi Effendi realizou todo o seu trabalho escrupulosamente atento às limitações colocadas sobre ele pelas circunstâncias, com uma fidelidade que seria o orgulho dos seguidores de Bahá’u’lláh por todas as eras futuras. O registro de seus trinta e seis anos de serviços à Fé – um registro, como o de Seu avô, que estará aberto à posteridade para análise – não contém, como ele próprio assegurou à comunidade bahá’í, nenhuma ação de sua parte que pudesse, em qualquer grau, “transgredir o domínio sagrado e inviolável” da Casa Universal de Justiça. Não é que Shoghi Effendi tenha apenas se refreado de legislar; ele foi capaz de cumprir seu mandato introduzindo apenas determinações provisórias, deixando a decisão em tais assuntos inteiramente para a Casa Universal de Justiça.

Em parte alguma este autodomínio é mais impressionante do que na questão central de um sucessor da Guardiania. Shoghi Effendi não tinha herdeiros próprios, e outros ramos da família sagrada haviam violado o Convênio. Os Escritos Bahá’ís não contêm orientação alguma quanto a essa eventualidade, mas a Última Vontade e Testamento do Mestre é explícita quanto à forma de como seriam resolvidos os assuntos sobre os quais pairasse alguma dúvida:

Incumbe a esses membros (da Casa Universal de Justiça) reunir-se num certo lugar e deliberar sobre todos os problemas que tenham causado divergências, sobre questões obscuras e assuntos não expressamente tratados no Livro. O que quer que eles decidam tem o mesmo efeito do próprio Texto.105

Em conformidade com esta orientação da pena do Centro do Convênio, Shoghi Effendi permaneceu silente, deixando a questão de seu sucessor, ou sucessores, nas mãos do único Corpo autorizado para determinar a respeito. Cinco meses após seu estabelecimento, a Casa Universal de Justiça esclareceu o assunto em uma mensagem, de 6 de outubro de 1963, a todas as Assembléias Espirituais Nacionais:

Após um estudo minucioso e profundo dos Textos Sagrados... e após prolongada consideração... a Casa Universal de Justiça chegou à conclusão de que não existe uma forma de indicar ou legislar para tornar possível designar um segundo Guardião para suceder a Shoghi Effendi.106

Ao embarcar em uma missão para a qual não houvera precedente na História, sobre a qual pudesse se basear, Shoghi Effendi não tinha onde buscar orientação a não ser nos Escritos dos Fundadores da Fé e no exemplo da própria vida do Mestre, para o trabalho que dele era exigido. Nenhum corpo de consultores podia determinar-lhe o significado dos Textos que ele devia interpretar para a comunidade bahá’í, que nele depositara toda a confiança. Embora fosse leitor assíduo das obras existentes de historiadores, economistas e pensadores políticos, tais pesquisas não podiam lhe suprir nada mais que o material básico que sua visão inspirada da Causa devia então organizar. A confiança e a coragem exigidas para a mobilização de uma comunidade heterogênea de crentes – para realizar tarefas que estavam, de um ponto de vista bem prático, muito além de suas capacidades – somente podiam ser encontradas nas fontes espirituais de seu próprio coração. Nenhum observador desapaixonado do século vinte, por mais céptico que seja quanto a assuntos religiosos, deixará de reconhecer que a integridade com que esse homem, jovem, nos primeiros anos da terceira década de sua vida, ao aceitar tão assustadora responsabilidade – e a magnitude da vitória que ele conquistou – são evidências de um imenso poder espiritual inerente à Causa que ele promoveu.

Tal reconhecimento leva à compreensão de que as capacidades com as quais o Convênio havia dotado a Guardiania não foram fórmulas mágicas. O trabalho bem sucedido que realizou comprova, como Rúhíyyih Khánum descreveu de forma emocionante, um processo interminável de provações, avaliações e aprimoramento. A pessoa fica estupefata diante da precisão com a qual Shoghi Effendi analisava os processos sociais e políticos nos primeiros estágios de seus desenvolvimentos, e a maestria com que sua mente abrangia um caleidoscópio de eventos, tanto atuais como históricos, relacionando suas implicações com o desdobramento da Vontade da Providência Divina. Que esse trabalho intelectual fosse realizado em um nível muito acima do que a mente humana normalmente opera, não torna o esforço menos real ou menos estressante. Melhor dizendo, considerando sua visão da natureza humana e da motivação humana, que era um aspecto inseparável da instituição que Shoghi Effendi representava, o oposto era o caso.107

Em uma análise dos mais de quarenta anos desde o passamento de Shoghi Effendi, a importância de seu trabalho, a longo prazo, na evolução da Ordem Administrativa, começa a transparecer com uma clareza impressionante. Tivessem sido diferentes as circunstâncias, a Última Vontade e Testamento do Mestre havia deixado aberta a possibilidade de que um ou mais sucessores pudessem dar seguimento à instituição que Shoghi Effendi incorporava. Nós, obviamente, não podemos penetrar na mente de Deus. O que é claro e inegável, porém, é que, através de sua autoridade de interpretação, a estrutura da Ordem Administrativa, como também o curso que seu futuro desenvolvimento seguiria, haviam sido permanentemente fixados pelo cumprimento por Shoghi Effendi – em todos os menores detalhes e na extensão máxima imaginável – do mandato a ele concedido pelo Mestre. Igualmente claro e inegável é o fato de que tanto a estrutura como o curso representam a Vontade de Deus.

COMO SHOGHI EFFENDI HAVIA profeticamente previsto, as forças destrutivas das convicções e sistemas herdados, de todos os tipos, cresciam continuamente, avançando passo a passo com os processos de integração em desenvolvimento no mundo. Não é surpresa, portanto, que a euforia induzida pela restauração da paz, tanto na Europa como no Oriente, provou ser de curtíssima duração. Nem bem haviam as hostilidades terminado, quando divisões ideológicas entre o Marxismo e a democracia liberal irromperam em tentativas de assegurar o domínio nos respectivos blocos de nações que inspiravam. O fenômeno da “Guerra Fria”, na qual a luta pelo predomínio parou bem próxima de um conflito militar, emergiu como o paradigma que iria prevalecer durante as próximas décadas.

A ameaça imposta por uma nova crise na ordem internacional cresceu com os avanços na tecnologia nuclear e pelo sucesso de ambos os blocos de nações em se equiparem com um arsenal cada vez maior de armas de destruição em massa. As imagens horríveis de Hiroshima e Nagasaki haviam despertado a humanidade à terrível possibilidade de uma série de relativamente menores infortúnios, tão imprevistos quanto o processo que teve início com o incidente de Sarajevo em 1914, os quais poderiam desta vez levar à aniquilação de uma parte considerável da população do mundo e deixar grandes áreas do globo inabitáveis. Para os bahá’ís, essa possibilidade podia somente fazer lembrar as advertências sombrias feitas por Bahá’u’lláh algumas décadas antes: “Coisas estranhas e surpreendentes existem na terra, mas se ocultam das mentes e da compreensão dos homens. Essas coisas são capazes de transformar toda a atmosfera da terra, e sua contaminação provará ser letal”.108

Mais que tudo, a maior tragédia resultante desta última disputa pelo domínio do mundo foi a influência nefasta que teve sobre as expectativas de uma oportunidade que os povos antes dominados acreditavam ter alcançado, para construir uma nova vida de acordo com suas próprias deliberações. A determinação obstinada de alguns dos poderes colonialistas sobreviventes para suprimir tais expectativas, embora fadados, aos olhos de um observador atento, a fracassarem, deixaram sem recurso muitos países que sonhavam alcançar a libertação almejada, sendo obrigados a assumirem uma posição de luta revolucionária. Nos anos sessenta, tais movimentos, que haviam sido uma característica da paisagem política durante as décadas anteriores, começavam a ser a forma principal de atividade política interna em muitas das nações subjugadas.

Considerando que a força impulsora do próprio colonialismo era a exploração econômica, foi talvez inevitável que muitos dos movimentos de libertação assumissem amplamente a ideologia socialista. Dentro de apenas poucos anos, essas circunstâncias haviam criado um solo fértil para a exploração pelas superpotências do mundo. Para a União Soviética, a situação parecia oferecer uma oportunidade para induzir uma mudança no vigente alinhamento de nações, conseguindo uma influência preponderante naquilo que começava a ser chamado de “Terceiro Mundo”. A resposta do Ocidente – sempre que falhava a assistência para o desenvolvimento em manter a lealdade das populações ajudadas – foi recorrer ao estímulo e à provisão de armamentos a uma grande variedade de regimes autoritários.

Enquanto forças externas manipulavam novos governos, a atenção se voltava cada vez mais de uma consideração objetiva das necessidades de desenvolvimento para disputas ideológicas e políticas que pouca ou nenhuma relação tinham com a realidade social ou econômica. Os resultados foram uniformemente devastadores. A falência econômica, as flagrantes violações dos direitos humanos, a derrocada da administração civil e o surgimento de elites oportunistas, que viam no sofrimento de seus países apenas oportunidades de enriquecimento – tal era o lamentável destino que engolfava, uma após outra, as novas nações, as quais apenas alguns anos antes, haviam iniciado uma vida tão promissora.

Inspirando essas crises econômicas, sociais e políticas, estavam o crescimento inexorável e a consolidação de uma doença da alma humana infinitamente mais destrutiva que qualquer de suas manifestações específicas. Seu triunfo marcou um novo e assustador estágio no processo da degeneração espiritual e social que Shoghi Effendi havia identificado. Com base no pensamento europeu do século dezenove, adquirindo enorme influência através das realizações da cultura capitalista americana, e alimentada pelo Marxismo, com a falsa credibilidade peculiar àquele sistema, o materialismo emergiu com um impacto enorme na segunda metade do século vinte como uma espécie de religião universal, reivindicando autoridade absoluta tanto na vida individual como social da humanidade. Seu credo era a própria simplicidade. A realidade – incluindo a realidade humana e o processo através do qual evolui – seria essencialmente de natureza material. O objetivo da vida humana seria, ou deveria ser, a satisfação das necessidades e dos desejos materiais. A sociedade existe para facilitar esta busca, e a preocupação coletiva da humanidade deveria ser um aprimoramento contínuo do sistema para dar resultados cada vez mais eficazes na realização de suas tarefas determinadas.

Com o colapso da União Soviética, os impulsos para criar e promover qualquer sistema formal de crença materialista desapareceram. Nem iriam servir tais esforços a qualquer propósito útil, já que o materialismo logo iria passar por uma mudança significativa em muitas partes do mundo. A religião, onde não havia retrocedido à condição de fanatismo e impensada rejeição ao progresso, foi progressivamente reduzida a uma espécie de preferência pessoal, uma predileção, um objetivo criado para satisfazer as necessidades emocionais e espirituais do indivíduo. O senso de missão histórica, que havia caracterizado as principais Fés, teve de contentar-se em apenas prover apoio religioso para campanhas de mudança social realizadas por movimentos seculares. O mundo acadêmico, que fora o cenário das grandes explorações da mente e do espírito, fixou-se no papel de uma espécie de indústria escolástica preocupada apenas com sua maquinaria de dissertações, simpósios, reconhecimento e premiação de suas publicações.

Seja como visão mundial ou como um simples anseio, o efeito do materialismo é afastar da motivação humana – e mesmo do interesse das pessoas – os impulsos espirituais que distinguem a alma racional. “Pois o amor próprio”, disse ‘Abdu’l-Bahá, “é misturado ao próprio barro do homem e não é possível que, sem qualquer esperança de uma recompensa substancial, ele negligencie seus próprios bens materiais atuais”.109 Na ausência de convicções sobre a natureza espiritual da realidade e das realizações que somente ela pode oferecer, não é de se surpreender encontrar no âmago da atual crise da civilização um culto ao individualismo, cada vez mais intenso e que exalta a aquisição e o cultivo das conquistas pessoais como sendo os principais valores culturais. A resultante pulverização da sociedade marcou um novo estágio no processo de desintegração sobre o qual os escritos de Shoghi Effendi falam tão insistentemente.

Aceitar como natural a ruptura dos componentes da estrutura moral que guia e disciplina a vida individual em qualquer sistema social, é um enfoque derrotista da realidade. Se os líderes de pensamento fossem imparciais em sua avaliação das evidências facilmente disponíveis, encontrariam nelas a raiz da causa de tais problemas que aparentemente não se inter-relacionam, como a poluição do meio ambiente, as diferenças econômicas, a violência étnica, a crescente apatia pública, o enorme aumento do crime e as epidemias que arrasam populações inteiras. Por mais importante que seja a aplicação do profissionalismo tecnológico, social e jurídico a tais assuntos, seria utópico imaginar que os esforços nesse sentido irão produzir qualquer recuperação significativa sem uma mudança fundamental na consciência e na conduta moral das pessoas.

O que o mundo bahá’í realizou durante esses mesmos anos adquire um brilho adicional contra a cena de fundo deste horizonte obscuro. É impossível exagerar a importância dos esforços que trouxeram à existência a Casa Universal de Justiça. Por aproximadamente seis mil anos, a humanidade conheceu quase que uma ilimitada variedade de métodos para a tomada coletiva de decisões. Observada desde o ângulo de visão do século vinte, a história política do mundo apresenta um cenário de constante mudança no qual nada havia que não fosse experimentado pelo engenho humano. Os sistemas baseados em princípios tão diferentes como teocracia, monarquia, aristocracia, oligarquia, república, democracia e quase anarquia têm proliferado livremente, junto com inovações sem fim que têm buscado combinar os diferentes e mais desejáveis aspectos dessas possibilidades. Embora muitas das opções tenham levado a abusos de uma espécie ou outra, a grande maioria, sem dúvida, contribuiu, em graus diferentes, para a realização das esperanças daqueles cujos interesses elas pretensiosamente buscavam servir.

Durante este longo processo evolucionário, populações cada vez maiores e mais diversificadas passaram ao controle de um ou outro sistema de governo, com a tentação de um império universal repetidamente presente na imaginação de Césares e Napoleões dirigindo tal expansão. A resultante série de derrotas calamitosas, que deram à história tanto de sua capacidade de fascinar e também aterrorizar, provê evidência inegável de que a realização desta ambição está longe do alcance de qualquer instituição humana, não importando quão grandes sejam os recursos disponíveis, ou quão firme seja sua confiança na genialidade de uma cultura particular.

No entanto, a unificação da humanidade sob um sistema de governo que possa liberar toda o potencial latente na natureza humana e permitir sua expressão em programas para o benefício de todos, é claramente o próximo estágio na evolução da civilização. A unificação física do planeta em nosso tempo e o despertar das aspirações das massas de seus habitantes, por fim produziram as condições que permitem a realização do ideal, embora de uma forma bem diferente daquela imaginada pelos sonhadores imperiais do passado. Nesse sentido, os governos do mundo contribuíram com a fundação da Organização das Nações Unidas, com todas as suas grandes bênçãos e todas as suas lamentáveis limitações.

Em algum lugar no futuro, encontram-se as grandes mudanças que irão, finalmente, levar à aceitação dos princípios de um governo mundial. A Organização das Nações Unidas não possui tal mandato, e nada existe no discurso atual dos líderes políticos que seriamente indique tão radical restruturação da administração dos assuntos do planeta. Que ela virá no tempo devido é uma assertiva que Bahá’u’lláh deixou indubitavelmente clara. Que ainda outro sofrimento maior e novas desilusões serão necessários para levar a humanidade a esse grande salto à frente, parece, infelizmente, ser igualmente claro. Seu estabelecimento exigirá que os governos nacionais e outros centros de poder apóiem uma fonte de poder internacional, de forma incondicional e irreversível, aceitando integralmente a autoridade irrestrita implícita na palavra “governo”.

Este é o contexto no qual os bahá’ís precisam basear-se para apreciar devidamente a vitória singular que a Causa alcançou em 1963 e que vem se consolidando com o passar dos anos. Um entendimento completo de seu significado está além do alcance da presente geração e talvez das próximas gerações de crentes. Assim que um bahá’í entender isso, ele ou ela não se refreará na sua determinação de servir aos seus propósitos.

O processo que levou à eleição da Casa Universal de Justiça – que foi possível graças ao cumprimento vitorioso dos três estágios iniciais do Plano Divino do Mestre, sob a liderança de Shoghi Effendi – certamente constitui a primeira eleição democrática global na história. Cada uma das eleições subseqüentes realizadas desde então tem sido levada a cabo por um corpo cada vez mais amplo e diversificado de delegados escolhidos pelas comunidades nacionais, um desenvolvimento que atualmente chegou ao ponto de incontestavelmente representar a vontade de uma amostra representativa da inteira raça humana. Nada existe na atualidade – nada realmente previsto por qualquer grupo de pessoas – que de alguma forma se assemelhe a este marco histórico.

Quando alguém considera, ainda mais, a atmosfera espiritual que prevalece durante as eleições bahá’ís e a forma, baseada em princípios, determinada para até mesmo as mais simples de suas operações, a pessoa sente-se humilde diante de tão profunda realidade. No soerguimento da instituição governante suprema de nossa Fé, testemunha-se um esforço máximo da capacidade humana para alcançar o bel-prazer de Deus, uma determinação unida e calorosa no sentido de que nada, qualquer que seja o condicionamento cultural ou os impulsos egoístas que possam existir, possa macular a pureza deste supremo ato coletivo. Nada mais, além disso, está ao alcance do poder humano. Por sua ação, a humanidade fez literalmente tudo o que seria capaz de fazer, e Deus, ao aceitar este esforço consagrado de parte daqueles que abraçaram Sua Causa, dota a instituição, assim criada, com aqueles poderes prometidos no Kitáb-i-Aqdas e na Última Vontade e Testamento de ‘Abdu’l-Bahá. Não é de se admirar que ‘Abdu’l-Bahá tenha previsto no processo que levaria ao momento histórico culminante de 1963, no centenário da Declaração pública de Bahá’u’lláh sobre Sua missão, o cumprimento da visão do profeta Daniel: “Abençoado é aquele que espera e chega aos mil trezentos e trinta e cinco dias”. Nas palavras do Mestre:

Pois de acordo com este cálculo um século terá transcorrido desde o alvorecer do Sol da Verdade; então os ensinamentos de Deus estarão firmemente estabelecidos sobre a terra, e a Luz Divina inundará o mundo do Oriente ao Ocidente. Então, neste dia, os fiéis regozijar-se-ão!110

Com o estabelecimento da Casa Universal de Justiça, a segunda das duas instituições sucessoras designadas por ‘Abdu’l-Bahá para garantir a integridade da Causa havia surgido. O vasto volume dos escritos do Guardião e o modelo de vida administrativa que ele criou, e que foram gravados indelevelmente na consciência bahá’í, dotaram o mundo bahá’í com os meios para assegurar uma concordância universal sobre o objetivo da Revelação de Deus. Na Casa Universal de Justiça também repousa a autoridade máxima concebida por Bahá’u’lláh para o exercício das funções de tomada de decisão da Ordem Administrativa. Como a Última Vontade e Testamento explica, as duas instituições compartilham juntas a promessa Divina de guia infalível:

O sagrado e jovem ramo, o Guardião da Causa de Deus, como também a Casa Universal de Justiça, a ser universalmente eleita e estabelecida, estão ambos sob o cuidado e proteção da Beleza de Abhá, sob o abrigo e infalível guia de Sua Santidade, o Excelso (seja minha vida sacrificada por ambos). Qualquer coisa que eles decidam é de Deus.111

O relacionamento entre estes dois centros de autoridade, Shoghi Effendi mais tarde explicou, é de natureza complementar, no qual algumas funções são compartilhadas em comum, e outras, especializadas para cada uma das duas instituições. No entanto, ele foi muito claro ao enfatizar:

Deve ser... claramente entendido por todo o crente que a instituição da Guardiania, sob circunstância alguma, irá ab-rogar, ou, no menor grau que seja, desviar-se dos poderes assegurados à Casa Universal de Justiça por Bahá’u’lláh no Kitáb-i-Aqdas, repetida e solenemente confirmada por ‘Abdu’l-Bahá em Seu Testamento. Não constitui, de forma alguma, uma contradição ao Testamento e aos Escritos de Bahá’u’lláh, nem anula qualquer de Suas determinações reveladas.112

A compreensão de quão singular foi o que Bahá’u’lláh trouxe à existência faz-nos ver mais claramente a contribuição que a Causa pode fazer para a unificação da humanidade e para a construção de uma sociedade global. A responsabilidade imediata quanto ao estabelecimento de um governo mundial repousa nos ombros das nações. O que a comunidade bahá’í é convocada a fazer, neste estágio da evolução social e política da humanidade, é contribuir com todos os meios a seu dispor para a criação das condições que irão estimular e facilitar este enorme e imperioso empreendimento. Da mesma forma que Bahá’u’lláh assegurou aos monarcas de Sua época, ao afirmar: “Não é Nosso desejo apoderar-Nos dos vossos reinos”113, assim também a comunidade bahá’í não tem interesse político, abstém-se de qualquer envolvimento em atividades partidárias e aceita integralmente a autoridade do governo civil em assuntos públicos. Qualquer preocupação que os bahá’ís possam ter com relação às condições atuais ou sobre as necessidades de seus próprios membros é tratada através dos canais oficiais.

O poder que a Causa possui para influenciar o curso da história repousa, desta forma, não somente na potência espiritual de sua mensagem, mas no exemplo que provê. “Tão poderosa é a luz da unidade”, assegura Bahá’u’lláh, “que pode iluminar a terra inteira”.114 A unidade da humanidade incorporada na Fé representa, como Shoghi Effendi enfatizou, “não uma mera explosão de emocionalismo ignorante, ou uma expressão de esperança vaga e piedosa”. A unidade orgânica do corpo de crentes – e a Ordem Administrativa que torna isso possível – são evidências do que Shoghi Effendi chamou de “o poder que a Fé possui de construir uma sociedade”.115. À medida em que a Causa se expanda e as capacidades latentes de sua Ordem Administrativa se tornem cada vez mais evidentes, ela crescentemente atrairá a atenção dos líderes de pensamento, inspirando mentes progressistas com a confiança de que seus ideais serão por fim atingidos. Nas palavras de Shoghi Effendi:

Líderes religiosos, expoentes de teorias políticas, dirigentes de instituições humanas, os quais no momento estão testemunhando com perplexidade e desalento a falência de seus ideais e a desintegração de suas obras, bem fariam em voltar sua atenção para a Revelação de Bahá’u’lláh e meditar sobre a Ordem Mundial que, entesourada em Seus ensinamentos, está vagarosa e imperceptivelmente se desenvolvendo em meio à confusão e ao caos da atual civilização.116

Tal análise deverá focalizar sua atenção no poder que tornou possível alcançar a unidade bahá’í, consolidá-la e mantê-la. “A luz dos homens”, diz Bahá’u’lláh, “é a Justiça”. Seu propósito, ele acrescenta, “é o aparecimento da unidade entre os homens. O oceano da sabedoria divina surge dentro desta palavra elevada”.117 A designação de “Casas de Justiça” dada às instituições que irão governar a Ordem Mundial por Ele concebida, nos níveis local, nacional e internacional, reflete quão importante é este princípio nos ensinamentos da Revelação e na vida da Causa. À medida em que a comunidade bahá’í vai se tornando mais e mais familiar, participando na vida da sociedade, sua experiência oferecerá cada vez mais comprovações da efetividade desta lei crucial para a cura dos incontáveis males que, em última instância, são as conseqüências da desunião que aflige a família humana. “Sabe tu, em verdade”, explica Bahá’u’lláh, “essas grandes opressões que têm sobrevindo ao mundo estão preparando-o para o advento da Suprema Justiça”.118 Claramente, o estágio culminante na evolução da sociedade humana ocorrerá num mundo muito diferente daquele que hoje conhecemos.

O EFEITO IMEDIATO DA CONCLUSÃO da Cruzada de Dez Anos e do estabelecimento da Casa Universal de Justiça foi dar um impulso poderoso ao avanço da Causa. Desta vez, o progresso – que afetou virtualmente todos os aspectos da vida bahá’í – tomou a forma de desenvolvimentos de longo prazo que são melhor apreciados quando o inteiro período, desde 1963, é visto como um todo. Durante estes trinta e sete anos cruciais o trabalho foi avante rapidamente, sempre ao longo de dois caminhos paralelos: a expansão e a consolidação da própria comunidade bahá’í e, juntamente com ela, um crescimento dramático que a influência da Fé veio a exercer na vida da sociedade. Ao mesmo tempo em que o campo das atividades bahá’ís grandemente se diversificava, a tendência de tais esforços sempre contribuía diretamente a um ou outro destes dois desenvolvimentos principais.

Uma decisão tomada pela Casa de Justiça nos primeiros anos daquele período provou ser crucial para todos os aspectos, tanto do ensino como do desenvolvimento administrativo. A conclusão de que não havia sucessor para Shoghi Effendi trouxe com ela o reconhecimento de que não seria mais possível designar novas Mãos da Causa. Quão essenciais são as funções dessa instituição para o progresso da Fé, havia sido demonstrado com uma força inesquecível durante os anos de expectativa entre 1957 e 1963. Por esta razão, e de acordo com o mandato outorgado para criar novas instituições bahá’ís,119 e como as necessidades da Causa exigiam, a Casa de Justiça criou, em junho de 1968, os Corpos Continentais de Conselheiros. Com a finalidade de dar continuidade às funções das Mãos da Causa para a proteção e propagação da Fé, a nova instituição assumiu a responsabilidade de guiar o trabalho dos já existentes Corpos Auxiliares e compartilhou com as Assembléias Espirituais Nacionais a responsabilidade pelo progresso da Fé. As grandes vitórias comemoradas ao final do Plano de Nove Anos, em 1973, esplêndidas em si mesmas, refletiram a extraordinária facilidade com que a nova entidade administrativa havia assumido seus deveres e a alegria com que foi recebida tanto pelos crentes como pelas Assembléias. O momento foi marcado por outro importante desenvolvimento da Ordem Administrativa, a criação do Centro Internacional de Ensino, o corpo que iria encarregar-se de determinadas responsabilidades realizadas pelo grupo de “Mãos da Causa residindo na Terra Santa”, e, deste ponto em diante, coordenar o trabalho dos Corpos de Conselheiros no mundo inteiro.

Prevendo o curso que o crescimento da Causa teria, Shoghi Effendi havia escrito a respeito do “lançamento de empreendimentos mundiais destinados a serem deslanchados em épocas futuras daquela mesma Era [Formativa] pela Casa Universal de Justiça, que iriam simbolizar a unidade e coordenar e unificar as atividades das... Assembléias Nacionais”.120 Estes empreendimentos globais começaram em 1964 com o Plano de Nove Anos, seguido pelo Plano de Cinco Anos (1974), pelo Plano de Sete Anos (1979), pelo Plano de Seis Anos (1986), pelo Plano de Três Anos (1993), pelo Plano de Quatro Anos (1996) e por um Plano de Doze Meses que terminou no final do século. As mudanças nos enfoques que distinguiram esses esforços sucessivos entre um e outro Plano, provêm um referencial útil sobre o crescimento que a Causa alcançava naquelas décadas e as novas oportunidades e desafios que tal crescimento produziu. Muito mais importante que as diferenças entre cada um deles, porém, é o fato de que as atividades solicitadas em cada Plano foram extensões de iniciativas que haviam sido lançadas por Shoghi Effendi, quem, por sua vez, havia puxado e destrinçado os mesmos fios tecidos pelos Fundadores da Fé – a capacitação das Assembléias Espirituais; a tradução, produção e distribuição de literatura; o estímulo à participação universal dos amigos; atenção ao enriquecimento espiritual da vida bahá’í; esforços no sentido do envolvimento da comunidade bahá’í na vida da sociedade; fortalecimento da vida familiar bahá’í; e a educação das crianças e dos jovens. Embora esses vários processos continuem indefinidamente para trazerem ainda novas possibilidades, o fato de que cada um deles se originou no impulso criativo da própria Revelação demonstra que em tudo que a comunidade bahá’í realiza existe uma força unificadora que é tanto o segredo como a garantia de seu sucesso final.

As primeiras duas décadas do processo estiveram entre os mais produtivos períodos que a comunidade bahá’í viveu. Dentro de um período de tempo surpreendentemente breve, o número de Assembléias Espirituais Locais se multiplicou e a diversidade étnica e cultural de seus membros tornou-se, cada vez mais, um aspecto distintivo da vida bahá’í. Embora a falência da sociedade criasse problemas para as instituições administrativas bahá’ís, um efeito paralelo foi a geração de um enorme interesse na mensagem da Causa. No início, a comunidade recebeu o desafio do “ensino às massas”. Em 1967, foi convocada a “lançar, em uma escala global e a todos os segmentos da sociedade humana, uma proclamação intensiva e duradoura da mensagem alvissareira de que o Prometido já chegou...”121

À medida em que os crentes dos centros urbanos se lançaram em campanhas prolongadas para alcançar as massas dos povos do mundo, que vivem em pequenas vilas e em áreas rurais, encontraram uma receptividade à mensagem de Bahá’u’lláh muito além do que se podia imaginar. Embora a resposta normalmente ocorresse de formas bem diferentes daquelas que os instrutores conheciam, os novos declarados foram calorosamente acolhidos na Causa. Dezenas de milhares de novos bahá’ís adentraram a Causa em áreas como a África, Ásia e América Latina, quase sempre representando a maior parte de inteiras vilas rurais. Os anos sessenta e setenta foram dias de glória para a comunidade bahá’í, cujo maior crescimento fora do Irã sempre havia sido vagaroso e lento. Aos amigos no Pacífico, coube a grande distinção de atrair à Causa o primeiro Chefe de Estado, Sua Alteza Malietoa Tanumafili II, de Samoa, uma distinção cuja adequada avaliação somente será possibilitada por futuros eventos.

No âmago de tal desenvolvimento, como tem ocorrido na Causa desde o seu início, estava o comprometimento assumido pelos crentes individualmente. Já durante o ministério de Shoghi Effendi, pessoas de visão haviam tomado a iniciativa de contatar populações indígenas em países como Uganda, Bolívia e Indonésia. Durante o Plano de Nove Anos, números cada vez maiores de tais instrutores foram atraídos ao trabalho, particularmente na Índia, em várias ilhas do Pacífico, no Alasca, e entre os povos nativos do Canadá e nas populações rurais negras do sul dos Estados Unidos. O pioneirismo deu um apoio vital ao trabalho, estimulando o surgimento de grupos de instrutores entre os próprios crentes indígenas.

Mesmo assim, tornou-se logo aparente que unicamente a iniciativa individual, embora inspirada e ativa, não podia atender adequadamente às oportunidades que se abriam cada vez mais. O resultado foi lançar as comunidades bahá’ís em um vasto campo de projetos coletivos de ensino e proclamação, relembrando os dias heróicos dos rompedores da alvorada. Grupos de ardorosos instrutores descobriram ser então possível apresentar a mensagem da Fé não apenas a interessados individualmente, mas a grupos de pessoas e até mesmo a comunidades inteiras. As dezenas de milhares tornaram-se centenas de milhares. O crescimento da Fé significava que os membros das Assembléias Espirituais – cuja experiência se limitava a confirmar o entendimento da Fé de indivíduos interessados, experiência obtida em culturas de ceticismo ou fanatismo religioso – tiveram de se ajustar às manifestações de aceitação e apoio à Fé de parte de grupos inteiros de pessoas para as quais a consciência religiosa e a observância das leis divinas eram aspectos normais de sua vida diária.

Nenhum segmento da comunidade realizou uma contribuição mais firme ou ativa nesse processo de crescimento do que a juventude bahá’í. Suas façanhas durante aquelas décadas cruciais – como, na verdade, em toda a história dos últimos cento e cinqüenta anos – lembram sempre e cada vez mais o fato de que a grande maioria do exército de heróis que lançaram a Causa em seu curso nos anos da metade do século dezenove foram jovens. O próprio Báb declarou Sua missão quando tinha vinte e cinco anos de idade, e Anís, que alcançou a glória imperecível de sacrificar sua vida com seu Senhor, era apenas um jovem. Quddús respondeu à Revelação aos vinte e dois anos de idade. Zaynab, cuja idade jamais foi registrada, era uma jovem mulher. Shaykh ‘Alí, tão amado que foi, tanto por Quddús como por Mullá Husayn, foi martirizado aos vinte anos, enquanto Muhammad-i-Báqir-Naqsh deu sua vida quando tinha apenas quatorze anos de idade. Tahirih estava em sua terceira década de vida quando abraçou a Causa do Báb.

Seguindo o caminho que essas extraordinárias figuras haviam aberto, milhares de jovens bahá’ís se levantaram nos anos seguintes para proclamar a mensagem da Fé em todos os cinco continentes e ilhas espalhadas em todo o globo. Com o surgimento de uma cultura internacional juvenil na sociedade em fins dos anos sessenta e nos anos setenta, jovens com talentos na música, na dramaturgia e nas artes plásticas demonstraram algo cuja natureza Shoghi Effendi mencionara ao destacar: “Aquele dia a Causa irá espalhar-se como fogo num palheiro, quando seu espírito e seus ensinamentos serão apresentados em palcos ou através das artes e da literatura...”122 O espírito de zelo e entusiasmo característico da juventude também criou um contínuo desafio para a comunidade em geral no sentido de explorar, cada vez mais audaciosamente, as implicações sociais e revolucionárias dos ensinamentos de Bahá’u’lláh.

A explosão de declarações trouxe com ela, porém, problemas igualmente grandes. De imediato, os recursos das comunidades bahá’ís, que eram aplicados no trabalho, tornaram-se logo insuficientes diante da tarefa de prover um aprofundamento contínuo que as massas de novos crentes necessitavam, e para a consolidação das novas comunidades e das Assembléias Espirituais Locais. Além disso, os desafios culturais, como aqueles encontrados pelos primeiros crentes persas que saíram para levar a Fé a terras ocidentais, multiplicavam-se agora no mundo inteiro. Os princípios teológicos e administrativos, que podiam ser de grande interesse aos pioneiros e instrutores, eram raramente aqueles que mais preocupavam os novos declarados de diferentes origens sociais e culturais. Muitas vezes, as diferentes formas de ver as coisas, mesmo sobre determinados assuntos elementares como o uso do tempo ou simples convenções sociais, criavam diferenças de entendimento que tornavam a comunicação extremamente difícil.

Inicialmente, tais problemas provaram-se estimulantes, tanto para as instituições como para os crentes, na medida que procuravam encontrar novas formas de ver as situações – novas formas, na verdade, de entendimento de importantes passagens dos próprios Escritos Bahá’ís. Esforços resolutos foram feitos para seguir as orientações do Centro Mundial de que a expansão e a consolidação eram processos gêmeos que deviam seguir lado a lado. Porém, quando os resultados esperados não se materializavam, ocorriam algumas frustrações e diminuição do entusiasmo. O ritmo de crescimento, inicialmente tão rápido, diminuiu marcadamente em muitos países – o que gerou uma tentação em algumas instituições e comunidades bahá’ís de se voltarem para atividades mais familiares e a públicos mais acessíveis.

O principal efeito dos reveses, porém, foi ter conscientizado as comunidades de que as grandes expectativas dos primeiros anos eram, em alguns aspectos, nada realistas. Embora os sucessos facilmente alcançados nas atividades iniciais de ensino fossem encorajadores, eles, por si mesmos, não construíam uma vida comunitária que pudesse satisfazer as necessidades de seus novos membros e que se auto-perpetuasse. Em vez disso, os pioneiros e os novos crentes igualmente enfrentavam questões para as quais a experiência em terras ocidentais – ou mesmo no Irã – oferecia poucas soluções. Como seriam estabelecidas as Assembléias Espirituais Locais – e uma vez estabelecidas como iriam funcionar – em áreas onde grandes números de novos crentes haviam, da noite para o dia, entrado na Causa, simplesmente com a força da apreensão espiritual que tinham de Sua verdade? Como, em sociedades dominadas por homens desde o início dos tempos, teriam as mulheres os mesmos direitos doravante? Como seria feita a educação de grandes números de crianças, de forma sistemática, em condições culturais onde prevaleciam a pobreza e o analfabetismo? Que prioridades deveriam guiar os ensinamentos morais bahá’ís, e como podiam esses objetivos ser melhor relacionados com as convenções nativas prevalecentes? Como podia ser cultivada uma vibrante vida comunitária que pudesse estimular o crescimento espiritual de seus membros? Que prioridades, também, deveriam ser estabelecidas com respeito à produção da literatura bahá’í, particularmente considerando a súbita explosão que ocorrera no número de idiomas representados na comunidade? Como podia a integridade da instituição bahá’í da Festa de Dezenove Dias ser mantida, ao abrir esta atividade vital à influência enriquecedora de diferentes culturas? E, em todas as áreas de atividade, como seriam levantados e coordenados os recursos necessários, e providos os fundos?

A pressão destes desafios urgentes e interligados lançou o mundo bahá’í em um processo de aprendizado que provou ser tão importante quanto a própria expansão. É correto dizer que durante aqueles anos não houve virtualmente qualquer tipo de atividade de ensino, nenhuma combinação de expansão, consolidação e proclamação, nenhuma opção administrativa, nenhum esforço cultural de adaptação que não fosse energicamente tentado em alguma parte do mundo bahá’í. O resultado final da experiência foi uma educação intensiva de uma grande parte da comunidade bahá’í quanto às implicações do trabalho de ensino em massa, uma educação que não poderia ter ocorrido de outra forma. Por sua própria natureza, o processo foi basicamente local e regional, mais qualitativo do que quantitativo em seus resultados, e incremental, mais que a realização de um progresso em larga escala. Não fosse pelos esforços, sempre difíceis e quase sempre frustrantes, do trabalho de consolidação realizado naqueles anos, a estratégia subseqüente de sistematizar a promoção da entrada em tropas teria sido muito frágil para ser aplicada com sucesso.

O fato de que a mensagem bahá’í estava agora penetrando na vida não de apenas pequenos grupos de indivíduos, mas de inteiras comunidades, também teve o efeito de reviver o aspecto vital de um estágio anterior no avanço da Causa. Pela primeira vez em décadas, a Fé se viu mais uma vez em uma situação onde o ensino e a consolidação eram inseparavelmente relacionadas com o desenvolvimento social e econômico. Nos primeiros anos do século, sob a guia do Mestre e do Guardião, os crentes iranianos – a quem era negada a oportunidade de participar em igualdade de condições em quaisquer benefícios limitados que a sociedade daqueles dias oferecia – levantaram-se, com determinação e muito esforço, para construir uma vida comunitária completa, de uma qualidade além da necessidade ou do alcance dos grupos bahá’ís relativamente isolados existentes na América do Norte e na Europa Ocidental. No Irã, o avanço moral e espiritual, as atividades de ensino, a criação de escolas e clínicas, a formação das instituições administrativas e o estímulo às iniciativas individuais voltadas à auto-suficiência e prosperidade econômicas – todas haviam sido, desde os estágios iniciais, aspectos inseparáveis de um processo organicamente unificado de desenvolvimento. Agora – na África, na América Latina e em algumas partes da Ásia – os mesmos desafios e oportunidades haviam ressurgido.

Embora as atividades de desenvolvimento social e econômico já havia bastante tempo estivessem em andamento, particularmente na América Latina e na Ásia, eram projetos isolados trabalhados por grupos de crentes e sob a guia de suas Assembléias Nacionais, mas não relacionados a plano algum. Em outubro de 1983, porém, as comunidades bahá’ís em todo o mundo foram convocadas a começar a incorporar tais esforços em seus programas regulares de trabalho. Foi criado, no Centro Mundial, um Escritório de Desenvolvimento Social e Econômico para coordenar o aprendizado e ajudar na busca de apoio financeiro.

A década seguinte testemunhou a ocorrência de amplas experiências em um campo de trabalho para o qual a maioria das instituições bahá’ís tinha pouco preparo. Ao mesmo tempo em que se esforçavam para se beneficiar dos modelos que estavam sendo experimentados por muitos dos órgãos encarregados dos projetos de desenvolvimento em operação no mundo, as comunidades bahá’ís enfrentavam o desafio de relacionar o que descobriam em várias áreas de atividade – educação, saúde, alfabetização, agricultura e tecnologia da comunicação – com seu entendimento dos princípios bahá’ís. A tentação era grande, dada a magnitude dos recursos que eram investidos pelos governos e fundações, e marcante a confiança depositada nestes esforços, de apenas utilizar os métodos vigentes ou adaptar os esforços bahá’ís às teorias prevalecentes. À medida em que o trabalho se desenvolvia, porém, as instituições bahá’ís começaram a voltar sua atenção para a meta de criação de paradigmas de desenvolvimento que pudessem harmonizar o que observavam na sociedade externa aos conceitos bahá’ís sobre as potencialidades humanas.

Em nenhum outro lugar as estratégias de Planos sucessivos foram tão impressionantemente marcantes quanto na Índia. A comunidade indiana tornou-se um gigante da Causa, englobando hoje bem mais de um milhão de almas. Seu trabalho se estende através de um vasto subcontinente, lar de uma imensa variedade de culturas, idiomas, grupos étnicos e tradições religiosas. Em muitos aspectos, a experiência deste enorme e abençoado corpo de crentes sintetiza as lutas do mundo bahá’í, suas experiências, revezes e vitórias durante todas essas críticas três décadas. O dramático crescimento de declarações trouxe com ele todos os problemas encontrados em outras partes do mundo, mas em uma escala maciça. O longo caminho trilhado pela comunidade bahá’í indiana até o estado proeminente de hoje foi cercado de muitas e dolorosas dificuldades, algumas delas ameaçando, às vezes, extrapolar seus recursos administrativos disponíveis. As vitórias alcançadas, porém, nos dão uma antevisão das confirmações que, com o decorrer do tempo, abençoarão os esforços das comunidades bahá’ís que hoje lutam para vencer idênticos desafios em outros continentes. Em 1985, o crescimento da Fé na Índia alcançara o ponto onde as necessidades e oportunidades, de tantas e tão diversificadas regiões, exigiram uma atenção muito mais concentrada que a Assembléia Espiritual Nacional sozinha pudesse prover. Assim, nasceu a nova instituição dos Conselhos Regionais Bahá’ís, colocando em ação o processo de descentralização administrativa que desde então tem se provado tão eficaz em muitas outras terras.

Em 1986, a expansão e a consolidação que ocorriam na Índia foram condignamente abençoadas com a inauguração do belíssimo “Templo de Lótus”. Embora o projeto tivesse criado expectativas otimistas com relação ao impacto que seu término teria sobre o reconhecimento público da Fé, a realidade ultrapassou infinitamente as mais elevadas expectativas. Hoje, a Casa de Adoração da Índia tornou-se a maior atração de visitantes no subcontinente, recebendo uma média de mais de dez mil visitantes por dia e se destacando de forma proeminente em publicações, filmes e produções de televisão. O interesse criado por uma Fé que podia inspirar e englobar em si mesma tão magnificente criação deu um novo significado à descrição de ‘Abdu’l-Bahá sobre os Templos Bahá’ís como “instrutores silenciosos” da Fé.

O progresso da comunidade bahá’í indiana, tanto em seu desenvolvimento interno como em seu relacionamento com a sociedade em geral, foi bem ilustrado por uma iniciativa pioneira realizada em novembro de 2000, no campo do desenvolvimento social e econômico. Aproveitando a reputação que conquistara nos círculos progressistas do país, a Assembléia Espiritual Nacional sediou, em colaboração com o Instituto para Estudos de Prosperidade Global, recentemente criado pela Comunidade Internacional Bahá’í,123 um simpósio sobre o tema “Ciência, Religião e Desenvolvimento”. O projeto envolveu a participação de mais de uma centena das mais influentes organizações no país e atraiu cobertura da mídia nacional. Assinalando uma singular contribuição bahá’í à promoção do progresso social, o evento está inspirando outros simpósios, com a mesma finalidade, na África, na América Latina e em outras regiões, onde existem criativas comunidades bahá’ís em condições de incorporar o que bem poderá tornar-se uma das principais histórias bem sucedidas da Fé.

Durante esses mesmos anos, o continente asiático também viu a repentina emergência da comunidade bahá’í da Malásia como um motor do trabalho de expansão, vencendo suas primeiras metas a uma velocidade espantosa e enviando pioneiros e instrutores viajantes para as terras vizinhas. Um desenvolvimento que tornou este extraordinário avanço possível foram os laços de parceria espiritual criados entre os crentes de procedência chinesa e indiana. Visitantes da Malásia relataram, até um tanto espantados, a forma pela qual a comunidade da Malásia, embora trabalhando sob muitas restrições e falta de experiência, parecia ser uma verdadeira incorporação das metáforas militares com as quais os escritos de Shoghi Effendi buscavam retratar o espírito dos esforços de ensino bahá’í.

Nem o crescimento mundial da comunidade bahá’í, nem o processo de aprendizado pelo qual passa atualmente, porém, refletem a história completa dessas décadas tumultuosas e criativas. Quando a história do período for mais tarde escrita, um de seus capítulos mais brilhantes registrará as vitórias espirituais ganhas pelas comunidades bahá’ís, particularmente na África, que sobreviveram à guerra, ao terror, à opressão política e a privações extremas, e que emergiram destas provações com sua fé intacta, determinadas a recomeçar o trabalho interrompido da construção de uma vida bahá’í coletiva efetiva. A comunidade da Etiópia, terra natal de uma das mais antigas e ricas tradições culturais, conseguiu manter o moral de seus membros e a coerência de suas estruturas administrativas sob pressões intermináveis de uma ditadura brutal. Dos amigos em outros países do continente, pode-se dizer que sua firmeza na Causa fez com que passassem por um inferno de sofrimento raramente igualado na história moderna. Os anais da Fé possuem poucos testemunhos tão comoventes sobre o puro poder do espírito do que as histórias de coragem e pureza de coração que emergiram do inferno que engolfou os amigos no que era então o Zaire, histórias que irão inspirar gerações futuras e que representam uma contribuição preciosa à criação de uma cultura bahá’í global. Tais países, como Uganda e Ruanda, somaram suas próprias e inesquecíveis realizações a este registro heróico de luta.

Inspiradora, também, foi a demonstração da capacidade de renovação que é inerente na Causa e que surgiu dos campos de refugiados no Camboja ao longo da fronteira com a Tailândia. Através de esforços heróicos de um punhado de instrutores, Assembléias Espirituais Locais foram estabelecidas entre pessoas que haviam sobrevivido a uma campanha de genocídio quase além da capacidade do coração humano suportar e que roubara incontáveis vidas de amigos queridos, como também tudo o que possuíam em termos de segurança material, mas nos quais ardia ainda o anseio da alma humana pela verdade espiritual. Uma realização extraordinária similar foi a demonstrada pela comunidade bahá’í da Libéria. Expulsos de seus lares e exilados em países vizinhos, muitos desses intrépidos crentes transportaram com eles sua vida comunitária completa, estabelecendo Assembléias Espirituais Locais, dando continuidade ao trabalho de ensino, à educação dos filhos, usando seu tempo para aprender novas habilidades e encontrando na música, na dança e na dramaturgia poderes do espírito que os ajudaram a manter viva sua esperança até que pudessem voltar ao seu país.

À medida em que o processo de educação em métodos de ensino em massa ocorria, o corpo de crentes da Fé foi sendo transformado. Em 1992, o mundo bahá’í comemorou seu segundo Ano Santo, este marcado pelo centenário da ascensão de Bahá’u’lláh e pela promulgação de Seu Convênio. Mais eloqüentemente que as palavras poderiam descrever, a diversidade étnica, cultural e nacional de mais de 27 mil crentes que se reuniram no Centro de Convenções Javits, na cidade de Nova York – juntos com os milhares presentes nas nove conferências auxiliares realizadas, respectivamente, em Bucareste, Buenos Aires, Moscou, Nairóbi, Nova Déli, Cidade do Panamá, Cingapura, Sidney e Samoa Ocidental – deram uma demonstração incontestável do sucesso do trabalho de ensino em todo o mundo. Um momento especial foi aquele quando a rede mundial de transmissão via satélite conectou a reunião em Moscou com a que se realizava em Nova York, e os bahá’ís no mundo inteiro, emocionados diante da saudação em russo – a língua comum de cerca de 280 milhões de pessoas de pelo menos quinze países – que proclamavam uma nova fase da resposta da humanidade a Bahá’u’lláh.

Nas conferências de Moscou e Bucareste, podia-se ter um vislumbre do renascimento das comunidades bahá’ís que haviam sido praticamente extintas sob a opressão do regime soviético e seus colaboradores. Uma das três Mãos da Causa de Deus remanescentes, ‘Alí-Akbar Furútan, que viveu na Rússia, teve a grande alegria de retornar a Moscou, na idade de 86 anos, para a eleição inaugural da Assembléia Espiritual Nacional daquele país. Assembléias Espirituais Locais surgiram em todas as terras recentemente abertas à Fé, e seis novas Assembléias Espirituais Nacionais foram eleitas. Em um breve espaço de tempo, atividades pioneiras e de ensino em países ao longo da margem sul do antigo império soviético – onde a Fé havia sido também proscrita – logo despontaram, trazendo à existência ainda mais Assembléias Espirituais Locais e oito Assembléias Espirituais Nacionais adicionais. A literatura bahá’í foi traduzida em uma grande variedade de novos idiomas, passos enérgicos foram dados para assegurar o reconhecimento civil das instituições bahá’ís, e representantes da Europa oriental e dos países do agora extinto bloco soviético começaram a participar com seus irmãos bahá’ís no trabalho de assuntos externos da Fé no campo internacional.

Gradualmente, também, a mensagem da Fé começou a receber boa acolhida em muitas partes da China e entre a população chinesa no exterior. A literatura bahá’í foi traduzida em mandarim, públicos universitários em muitas cidades chinesas estendiam convites a eruditos bahá’ís, um Centro de Estudos Bahá’ís foi estabelecido no conhecido Instituto das Religiões Mundiais em Beijing124 (que opera dentro da Academia de Ciências Sociais), e muitos dignitários chineses têm sido generosos em suas referências aos princípios que descobriram nos Escritos Bahá’ís. À luz do destacado louvor que o Mestre fez à civilização chinesa e seu papel no futuro da humanidade, pode-se prever a contribuição criativa que os crentes dessa ascendência irão trazer à vida moral e intelectual da Causa nos anos vindouros.125

A importância dessas três décadas de luta, aprendizado e sacrifício tornou-se aparente com a chegada do momento de criar um Plano global que capitalizasse as percepções decorrentes das experiências ganhas e dos recursos que foram desenvolvidos. A comunidade bahá’í que deu início ao Plano de Quatro Anos em 1996 diferenciava-se em muito daquele grupo animado, mas novo e ainda inexperiente, de crentes que, em 1964, haviam se aventurado no primeiro desses empreendimentos mundiais não mais com a guia direta de Shoghi Effendi. Em 1996, tornou-se possível ver todas as diferentes nuanças do empreendimento como partes integrantes de um mesmo todo coerente.

Com essa educação surgiu também outra perspectiva, vitalmente necessária, com relação ao que havia sido realizado. A expansão da Causa durante as três décadas precedentes representara a resposta de muitos milhões de seres humanos que haviam sido afetados por seu encontro com a mensagem de Bahá’u’lláh ao ponto de se identificarem, em diferentes graus, com a Causa de Deus. Ficaram conscientes de que um novo Mensageiro Divino havia surgido, sentiram algo do espírito da Fé e foram fortemente atraídos ao ensinamento bahá’í da unidade da humanidade. Uma pequena minoria entre eles foi capaz de ir além deste ponto. Em sua maioria, porém, esses amigos eram essencialmente os participantes dos programas de ensino realizados por instrutores e pioneiros de fora. Um dos principais pontos fortes das massas da humanidade, das quais os recém-declarados bahá’ís procediam, foi a abertura e sinceridade de seus corações – qualidades com o potencial de gerar uma transformação social duradoura. A maior dificuldade dessas mesmas populações tem sido até agora uma passividade aprendida durante gerações em que foram expostas a influências externas que, por maiores que tenham sido suas vantagens materiais, tinham quase sempre agendas relacionadas apenas tangencialmente – quando muito – com a realidade das necessidades e da vida diária dos povos indígenas.

O Plano de Quatro Anos, que representou um grande avanço em relação aos últimos planos que o precederam, foi destinado a aproveitar as oportunidades e as percepções oferecidas desta maneira. A meta de acelerar o processo de entrada em tropas tornou-se o objetivo fundamental de todos os empreendimentos. As lições aprendidas durante os Planos anteriores levaram-nos agora a enfatizarem o desen-volvimento das capacidades dos crentes – onde quer que estivessem – de tal maneira que todos pudessem se levantar como confiantes protagonistas da missão da Fé. O instrumento para a realização desse objetivo havia sido continuamente aprimorado durante os Planos anteriores e já havia demonstrado sua eficácia.

Como ocorre com outros métodos e atividades através dos quais a Fé tem se desenvolvido, este instrumento tinha sido, da mesma forma, concebido décadas antes pelo Mestre, que clama, nas Epístolas do Plano Divino, por crentes aprofundados para “reunir os jovens do amor de Deus em escolas de instrução e ensinar-lhes todas as provas divinas e os irrefutáveis argumentos, explicar e elucidar a história da Causa, interpretando inclusive as profecias e provas que estão registradas e preservadas nos livros e epístolas divinos a respeito da manifestação do Prometido...”.126 O trabalho pioneiro e a capacitação organizada desta natureza já haviam sido feitos no Irã durante os primeiros anos do século, pelo muito amado Sadru’s-Sudúr.127 Com o passar dos anos, escolas de verão e inverno foram se multiplicando, e sucessivos Planos também estimularam a experimentação no desenvolvimento de institutos bahá’ís.

De longe, o mais significativo avanço neste último processo ocorreu durante um período de mais de duas décadas, começando em 1970, na Colômbia, onde um programa sistemático e contínuo de educação sobre as Escrituras foi concebido e logo adaptado para uso em países vizinhos. Influenciado pelos esforços paralelos da comunidade colombiana no campo do desenvolvimento social e econômico, o resultado foi o mais expressivo, considerando o fato de que foi alcançado contra um pano de fundo de violência e anormalidade que estavam destruindo a vida da sociedade à sua volta.

O sucesso alcançado na Colômbia provou ser uma fonte de grande inspiração e exemplo para as comunidades bahá’ís em outras partes do mundo. Com o término do Plano de Quatro Anos, mais de cem mil crentes estavam envolvidos em programas de âmbito mundial, em mais de trezentos institutos permanentes de capacitação. Ao cumprir esta meta, a maioria dos institutos regionais havia levado o processo a um estágio mais avançado com a criação de redes de “círculos de estudo”, que utilizam o talento dos crentes para reproduzir o trabalho do instituto a nível local. Já é fato comprovado que o sucesso do trabalho do instituto tem reforçado de forma significativa o processo de longo prazo pelo qual um sistema universal de educação bahá’í será estruturado.128

Embora os esforços dessas décadas tenham sido relativamente modestos -– pelo menos quando comparados com os padrões da Idade Heróica – eles provêm à presente geração de bahá’ís um vislumbre daquilo que Shoghi Effendi descreve como a natureza cíclica da história da Fé: “uma série de crises internas e externas, de severidade variável, devastadoras em seus efeitos imediatos, mas cada uma liberando, misteriosamente, uma medida correspondente de poder divino, dando assim um novo impulso a seu desenvolvimento”.129 Estas palavras colocam na perspectiva devida a sucessão de esforços, experiências, frustrações e vitórias que caracterizaram o início do ensino em larga escala e prepararam a comunidade bahá’í para os desafios muito maiores que se encontram à sua frente.

Ao longo da história, as massas da humanidade têm sido, no máximo, apenas espectadoras do avanço da civilização. Seu papel tem sido servir aos desígnios de qualquer elite que temporariamente assuma o controle do processo. Mesmo as sucessivas Revelações Divinas, cujo objetivo foi sempre liberar o espírito humano, foram, em seu tempo, feitas cativas do “ego insistente”, ficando presas aos dogmas, rituais, privilégios clericais e disputas sectárias, todos criados pelos próprios homens, e todas chegaram ao fim com seus propósitos mais elevados frustrados.

Bahá’u’lláh veio para libertar a humanidade desta antiga sujeição, e as últimas décadas do século vinte foram devotadas pela comunidade de Seus seguidores a uma prática criativa utilizando meios pelos quais Seu objetivo pudesse ser realizado. A prossecução do Plano Divino exige nada menos que o envolvimento do inteiro corpo da humanidade no trabalho de seu próprio desenvolvimento social e intelectual. As provações sofridas pela comunidade bahá’í nas décadas posteriores a 1963 são as necessárias para dar refinamento aos esforços e purificar as motivações de todos aqueles que desejem desempenhar um papel digno de tão grande fideicomisso. Tais provações são as evidências mais seguras do processo de maturação que ‘Abdu’l-Bahá com tanta confiança descreveu nas seguintes palavras:

Alguns movimentos surgem, manifestam um curto período de atividade e então são interrompidos. Outros mostram uma medida maior de crescimento e força, mas antes de atingir um desenvolvimento maduro, enfraquecem, desintegram-se e perdem-se no esquecimento... Existe ainda outro tipo de movimento ou causa que, a partir de um início muito pequeno e sem muita importância, vai avante rumo a um progresso seguro e firme, gradualmente ampliando-se e crescendo até assumir dimensões universais. O movimento bahá’í é desta natureza.130

A MISSÃO DE BAHÁ’U’LLÁH não está limitada à construção da comunidade bahá’í. A Revelação de Deus veio para toda a humanidade e terá o apoio das instituições da sociedade à medida em que vejam nela um exemplo de encorajamento e inspiração para seus esforços com vistas ao assentamento dos alicerces de uma sociedade justa. Para apreciar a importância desta segunda preocupação, deve-se apenas lembrar o tempo e a atenção que o próprio Bahá’u’lláh devotou em Seu relacionamento com membros de governos, líderes de pensamento, figuras proeminentes em vários grupos minoritários e representantes diplomáticos de governos estrangeiros em postos de serviço no império otomano. O efeito espiritual deste esforço se comprova pelos tributos prestados ao Seu caráter e aos Seus princípios, até mesmo por inimigos implacáveis como ‘Alí Páshá e o embaixador da Pérsia em Constantinopla, Mirzá Husayn Khán. O primeiro, quem condenou seu Prisioneiro a banimento para a colônia penal de ‘Akká, foi, no entanto, levado a descrevê-Lo como “um homem de grande distinção, de conduta exemplar, grande moderação, e uma figura muito destacada”, cujos ensinamentos eram, na opinião do ministro, “dignos de alta estima”.131 O segundo, cujas maquinações foram também responsáveis pelo envenenamento das mentes de ‘Alí Páshá e seus colegas, abertamente admitiu, anos depois, o grande contraste entre a estrutura moral e intelectual de seu Inimigo e o mal causado nas relações turco-persas pela reputação de ganância e desonestidade que caracterizavam muitos de outros compatriotas que residiam em Constantinopla.

Desde o início, ‘Abdu’l-Bahá interessou-Se por todos os esforços que trouxessem à existência uma nova ordem internacional. É significativo o fato, por exemplo, de que Suas primeiras referências públicas na América do Norte, quanto ao propósito de Sua visita àquele país, colocavam ênfase particular no convite que Lhe foi feito pelo comitê de organização da Conferência de Paz do Lago Mohonk, para que fizesse uso da palavra naquela reunião internacional. Também havia sido generoso no encorajamento que deu à Organização Central para uma Paz Duradoura, em Haia. Ele foi, porém, inteiramente cândido nos conselhos que deu. As cartas que o Comitê Executivo da organização de Haia havia escrito a Ele, durante o período da guerra, deram-Lhe a oportunidade de apresentar uma resposta que chamou a atenção dos organizadores às verdades espirituais enunciadas por Bahá’u’lláh, as quais, em síntese, definem os alicerces para a realização de seus objetivos:

Ó vós, estimados senhores, que sois pioneiros entre aqueles que procuram o bem-estar do mundo inteiro! ... No momento, a Paz Universal é um assunto de grande importância, mas é essencial que haja unidade de consciência, de forma que seus alicerces sejam seguros, firme seu estabelecimento e forte seu edifício. ... Hoje, nada, a não ser o poder do Verbo de Deus, que envolve as realidades de todas as coisas, pode reunir os pensamentos, as mentes, os corações e os espíritos à sombra da mesma Árvore. Ele é potente em todas as coisas, Aquele que vivifica as almas, que preserva e governa o mundo humano.132

Além disso, a lista de pessoas influentes com as quais o Mestre passou horas, pacientemente, em entrevistas tanto na América do Norte como na Europa – particularmente pessoas que lutavam pela promoção da paz mundial e assuntos humanitários – reflete Seu grau de consciência quanto à responsabilidade da Causa para com a humanidade de um modo geral. Tudo o que, de forma extraordinária, ocorreu após Seu passamento, comprova ter Ele mantido esse curso de ação até o final da vida.

Shoghi Effendi assumiu este legado praticamente desde o início de seu ministério. Já em 1925, estimulou o interesse de um crente americano, Jean Stannard, a estabelecer uma “Agência Bahá’í Internacional”, encaminhando-a a Genebra, sede da Liga das Nações. Embora a Agência não tivesse autoridade administrativa, agia, nas palavras do Guardião, “como intermediário entre Haifa e outros centros bahá’ís” e servia como “um centro de informações” no coração da Europa, seu papel sendo formalmente reconhecido quando a editora da Liga das Nações solicitou e publicou um relato das atividades da Agência.133

Como tem acontecido muitas vezes na história da Causa, uma crise inesperada serviu para um grande avanço do envolvimento bahá’í com a sociedade em geral a nível internacional. Em 1928, Shoghi Effendi estimulou a Assembléia Espiritual de Bagdá a apelar à Comissão de Representantes Permanentes da Liga das Nações contra a apreensão, por oponentes xiitas, da Casa de Bahá’u’lláh naquela cidade. Reconhecendo a injustiça que havia sido perpetrada, o Conselho da Liga unanimemente convocou a autoridade do mandato britânico, em março de 1929, a pressionar o governo iraquiano “com vistas a uma imediata reparação pela injustiça sofrida pelos Peticionários”. Repetidas evasivas do governo iraquiano, incluindo a violação de uma promessa solene de parte do próprio monarca, resultou em um processo que se arrastou durante anos em sucessivas sessões da Comissão de Mandatos, deixando a Casa nas mãos daqueles que a haviam apreendido ilegalmente, uma situação que permanece até hoje sem solução.134 Não se deixando abater por esse fato, Shoghi Effendi dirigiu a atenção da comunidade bahá’í para o histórico benefício que o caso trouxe para a Causa. Como já ocorrera anteriormente com o caso da rejeição, pela corte muçulmana sunita, do apelo feito pela comunidade bahá’í egípcia com relação ao casamento religioso bahá’í, o Guardião ressaltou que:

Basta dizer que, a despeito desses intermináveis atrasos, protestos e subterfúgios... a publicidade obtida para a Fé por meio desse memorável litígio, e a defesa de sua causa – a causa da verdade e da justiça – pelo mais alto tribunal do mundo, tem sido tal que deixou os amigos maravilhados e os inimigos totalmente consternados.135

O nascimento das Nações Unidas abriu à Fé um fórum muito mais amplo e mais efetivo para seus esforços em prol do exercício da influência espiritual na vida da sociedade. Já em 1947, um “Comitê da Palestina” das Nações Unidas solicitou os pontos de vista do Guardião sobre o futuro daquele território sob mandato. A resposta que enviou ao Comitê deu-lhe uma oportunidade para que pudesse apresentar uma exposição autorizada da história e dos ensinamentos da Causa. No mesmo ano, com o encorajamento de Shoghi Effendi, a Assembléia Espiritual Nacional dos Estados Unidos e Canadá submeteu à organização internacional um documento intitulado “Uma Declaração Bahá’í sobre Direitos e Obrigações Humanas”, que iria inspirar o trabalho de escritores bahá’ís e porta-vozes da Fé durante as décadas que se seguiram.136 Um ano depois, as oito Assembléias Espirituais Nacionais então existentes no mundo, obtiveram do órgão responsável das Nações Unidas o credenciamento para a instalação da “Comunidade Internacional Bahá’í” como uma organização não-governamental internacional.

Não foi somente o fato da Fé estar emergindo lentamente em seu relacionamento com a nova ordem internacional que obteve um apoio deste tipo do Guardião. As páginas do livro A Presença de Deus e das memórias de Amatu’l-Bahá sobre o Guardião estão cheias de referências sobre as respostas que pessoas e organizações de renome deram às iniciativas lançadas por Shoghi Effendi e para os eventos no mundo em que representantes bahá’ís foram convidados a participar. Na perspectiva da história, a pessoa se surpreende pela enorme disparidade entre muitas dessas ocasiões relativamente inconseqüentes e a atenção que mereceram de uma figura cujo trabalho não só era de importância enorme para o futuro da humanidade, mas que entendia profundamente o que significavam os eventos que ocorriam ao seu redor. O que a comunidade bahá’í herdou desses registros cuidadosamente preservados foram orientações práticas de como aproveitar as oportunidades crescentes decorrentes de inícios modestos.

Desde o momento de seu credenciamento, a Comunidade Internacional Bahá’í teve um desempenho muito ativo nos assuntos das Nações Unidas. Uma das atividades que lhe trouxe grande reconhecimento foi um programa realizado, através da crescente rede de Assembléias Bahá’ís no mundo, para a difusão de informações públicas sobre a própria Organização das Nações Unidas, o que em muito colaborou para o generoso apoio dado ao trabalho das laboriosas entidades da ONU existentes no mundo. Em 1970, a Comunidade Internacional Bahá’í obteve status consultivo junto ao Conselho Econômico e Social (ECOSOC), e em 1974 a associação formal ao Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP). Em 1976, conseguiu status consultivo junto ao Fundo das Nações Unidas para as Crianças (UNICEF). A influência e o profissionalismo da Comunidade durante esses anos foram comprovados, em 1955 e em 1962, quando a Comunidade Internacional Bahá’í conseguiu a intervenção das Nações Unidas em favor dos sofredores crentes perseguidos no Irã e em Marrocos, respectivamente.

Em 1980, as pacientes atividades em assuntos externos das Assembléias Espirituais Nacionais e do Escritório da Comunidade junto às Nações Unidas foram subitamente levadas a um novo estágio de desenvolvimento. O catalisador foi o atentado do clero xiita no Irã para exterminar a Causa na terra de seu nascimento. As conseqüências decorrentes surpreenderam tanto os perseguidores como os defensores da Fé.

Durante longas décadas, nas quais os crentes no berço da Fé sofreram intermitente perseguição em razão de suas crenças religiosas, os mullás*, que instigaram e lideraram esses ataques, agiam em consonância com a sucessão de monarcas no país. O último, ostensivamente absoluto em sua autoridade, foi levado por manobras políticas que o deixaram vulnerável a pressões externas, particularmente de governos do Ocidente. Foi assim que a voz enfurecida das missões diplomáticas russa, inglesa e de outros países, havia compelido Násiri’d-Dín Sháh, contra a sua vontade, a dar um fim à orgia de violência que tirara a vida de tantos crentes no início dos anos cinqüenta do século dezenove e ameaçara até o próprio Bahá’u’lláh. Durante o século vinte, seus sucessores da Dinastia Qájár estiveram também preocupados em aplacar a opinião de outros governos. O padrão foi repetido em 1955, quando o segundo dos xás da Dinastia Pahlaví, que fora induzido pelos mullás a aprovar uma onda de violência anti-bahá’í, viu-se forçado, diante do protesto das Nações Unidas e das objeções por parte do governo americano, a suspender a campanha abruptamente – ambas intervenções precursoras de eventos futuros.

Tais restrições à conduta do clero pareciam ter sido varridas pela Revolução Islâmica de 1979. De repente, os mullás tornaram-se o próprio poder, designando seus próprios candidatos às posições mais altas na nova república e, por fim, eles mesmos assumindo tais postos. “Cortes revolucionárias” foram criadas, respondendo unicamente ao clero mais graduado. Um exército de “guardas revolucionários”, muito mais atuantes que a anterior polícia secreta do xá, e tão brutal quanto ela, assumiu o controle de todos os aspectos da vida pública.

Enquanto a atenção da nova casta dominante se focalizava principalmente no que acreditava serem ameaças dos governos estrangeiros, elementos influentes nela existentes viram uma oportunidade para, finalmente, poder destruir a comunidade bahá’í iraniana.137 Os detalhes angustiantes da campanha que se seguiu não precisam ser revistos aqui. Antes, sua importância reside na resposta dada a esses ataques pelos milhares de indivíduos bahá’ís – homens, mulheres e crianças – em todo o país. Sua recusa em renegar sua fé, mesmo ao custo da vida, inspirou em seus irmãos de fé no mundo inteiro uma dedicação cada vez maior à Causa pela qual esses sacrifícios estavam sendo feitos. Não foram, porém, somente os membros da Fé que foram atingidos por esses eventos. Décadas antes, em 1889, um famoso comentarista ocidental, ao escrever sobre o heroísmo dos rompedores da alvorada da Fé, havia profeticamente dito o seguinte sobre os sacrifícios dos primeiros crentes:

São suas vidas e mortes, sua esperança que não conhece desespero, seu amor que não arrefece, sua firmeza que não titubeia, que marcam este maravilhoso movimento com uma característica inteiramente própria. ... Não se trata de algo pequeno ou fácil de suportar o que eles têm suportado, e certamente o que eles consideram digno da própria vida é o que vale a pena tentar entender. Nada digo da poderosa influência que, como creio, a Fé Bábí [sic] irá exercer no futuro, nem da nova vida que eventualmente possa criar em um povo morto; pois, se será vitoriosa ou derrotada, o heroísmo esplêndido dos mártires do Báb é algo eterno e indestrutível. ... Mas o que espero não ter deixado de transmitir a vocês é o extraordinário zelo desses homens e a influência indescritível que esta dedicação inabalável, combinada com outras qualidades, exerce sobre qualquer um que tenha realmente entrado em contato com eles.138

Estas palavras antevêem o surgimento de um sentimento similar entre os observadores não-bahá’ís durante os anos da revolução islâmica; e isto se tornaria uma das forças mais poderosas que levou a Causa a sair da obscuridade. Tais palavras deixam claro, também, a natureza espiritual de algo que tem sido sempre ameaçado no berço da Fé. Muito além da repulsa diante da insensível brutalidade da perseguição, a opinião pública, cada vez mais numerosa, ficou profundamente comovida com a resposta dos bahá’ís iranianos.

O século vinte, indiscutivelmente, ficou abismado diante do sofrimento de incontáveis vítimas da opressão. O que deu uma característica singular à situação bahá’í foi a atitude adotada por aqueles que suportaram o sofrimento. Os crentes iranianos recusaram-se a aceitar o papel muito familiar de vítimas. Como os Fundadores da Fé antes deles, aceitaram o peso moral decorrente da diferença entre eles e seus adversários. Foram eles, não as cortes ou os guardas revolucionários, que rapidamente definiram os termos do embate; e esta extraordinária atitude afetou não somente os corações, mas também as mentes daqueles que observavam a situação externamente, de fora da Fé Bahá’í. A comunidade perseguida não atacou seus opressores, nem buscou tirar vantagem política da crise. Nem os defensores bahá’ís em outras terras pediram o desmantelamento da constituição iraniana, muitos menos clamaram por vingança. Todos pediam apenas justiça – o reconhecimento dos direitos garantidos pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, endossados pela comunidade internacional de nações, ratificados pelo governo iraniano, e muitos deles incorporados até mesmo nas cláusulas da constituição islâmica.

A crise despertou o mundo bahá’í para a realização de feitos extraordinários. As Assembléias Espirituais Nacionais, que tinham pouca ou nenhuma experiência em desenvolver relações de trabalho com autoridades dos governos de seus países, foram convocadas a solicitar o apoio de seus governos nas resoluções em vários níveis do sistema internacional de direitos humanos, e o fizeram com muito sucesso. Ano após ano, por vinte anos ininterruptos, o caso dos bahá’ís iranianos teve continuidade no sistema internacional de direitos humanos, ganhando apoio em sucessivas resoluções, garantindo atenção oficial às injustiças aos bahá’ís nas missões de representantes designados pela Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, e consolidando esses ganhos através das decisões do Terceiro Comitê da Assembléia Geral das Nações Unidas. Todas as tentativas do regime iraniano de escapar da condenação internacional pelo tratamento infligido aos cidadãos bahá’ís falharam em abalar o apoio que o caso bahá’í recebeu de uma maioria persistente de nações simpatizantes representadas na Comissão. O fato foi ainda mais marcante no contexto da composição dos membros da Comissão, que mudavam constantemente, mas cujos membros mantinham sempre na agenda de trabalhos o tema do desrespeito aos direitos humanos em outros países que afetava milhões de vítimas.

Paralelamente à pressão direta exercida sobre o governo iraniano, o caso atraía uma publicidade sem precedente nos jornais, revistas e na mídia radiofônica e televisiva do mundo inteiro. Jornais como o The New York Times, Le Monde e Frankfurter Allgemeine Zeitung, com enorme público leitor, deram ampla cobertura à perseguição, e as cadeias de televisão da Austrália, Canadá, Estados Unidos e de vários países europeus divulgaram programas que tratavam do caso em profundidade. Os abusos foram denunciados também em fortes editoriais dos jornais. Além do apoio dado, desta forma, aos esforços para assegurar uma efetiva intervenção da Comissão de Direitos Humanos, tal publicidade teve o efeito de divulgar os ensinamentos bahá’ís, quase sempre pela primeira vez, a uma audiência de milhões de pessoas, de uma forma correta e com apreciações sobre a Fé por parte de jornalistas e de pessoas formadoras de opinião. Tanto a publicidade pela mídia, como a campanha realizada através do sistema das Nações Unidas, possibilitaram que autoridades e proeminentes no mundo inteiro pudessem julgar por si mesmos, com base em fatos, tanto os ensinamentos da Causa como o caráter da comunidade bahá’í.

Um problema que surgiu decorrente da perseguição foi o enfrentado por dezenas de milhares de bahá’ís iranianos que se viram, de repente, como que perdidos, sem passaportes válidos nos países onde serviam como pioneiros, ou forçados a fugirem de sua terra natal porque eles, ou seus familiares, haviam sido escolhidos como alvos do programa de extermínio. Em 1983, um Escritório Internacional Bahá’í para Refugiados foi estabelecido no Canadá,139 onde o governo fora particularmente atencioso e cooperativo para com os representantes da Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá’ís daquele país. Durante os anos seguintes, com a ajuda do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, vários outros países, da mesma forma, abriram suas portas para receber mais de dez mil bahá’ís iranianos, muitos deles cumprindo metas pioneiras nas novas regiões onde fixaram residência.

Não somente a comunidade bahá’í, mas o próprio sistema de direitos humanos das Nações Unidas, beneficiaram-se com esta longa luta. Inicialmente, depois da revolução islâmica, a comunidade de crentes no Irã enfrentara forte ameaça à sua própria sobrevivência. Com o tempo, a Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, por mais lenta e burocrática que suas operações possam parecer a alguns observadores externos, teve sucesso em compelir o regime iraniano a interromper a parte pior da perseguição aos bahá’ís no Irã. Deste modo, o “caso dos bahá’ís do Irã” representou uma vitória importante, tanto para a Comissão como para a Fé Bahá’í. Serviu como uma demonstração surpreendente do poder da comunidade das nações, atuando através de uma maquinária criada para tal finalidade, para conseguir controlar as formas de opressão que haviam obscurecido as páginas dos registros da história ao longo das eras.

Esta circunstância enaltece a relevância das atividades da Fé para a vida da maior parte da sociedade na qual esses esforços estão ocorrendo. Junto com a paz mundial, a necessidade da comunidade internacional de tomar ações efetivas para concretizar os ideais da Declaração Universal dos Direitos Humanos e seus convênios é um desafio urgente à frente da humanidade na fase atual de sua história. Existem relativamente poucos lugares no mundo onde populações minoritárias não tenham sido privadas de necessidades humanas básicas de algum tipo, devido aos preconceitos religiosos, étnicos, raciais ou de nacionalidade. Nenhum grupo de pessoas no planeta entende melhor este assunto do que a comunidade bahá’í. Ela sofreu – e continua ainda a sofrer em alguns países – maus tratos por algo que não tem qualquer justificativa razoável, seja legal ou moral; tem produzido mártires e derramado lágrimas de dor, mas permanecido sempre fiel às suas convicções de que o ódio e a retaliação corroem a alma; e tem aprendido, como poucas comunidades o fizeram, como usar o sistema das Nações Unidas para tratar de casos de violação dos direitos humanos, da forma como foi a intenção de seus criadores, sem necessidade de recorrer ao partidarismo político de qualquer natureza, muito menos à violência. Decorrente dessa experiência, ela está hoje engajada em um programa de estímulo aos governos de dezenas de países para instituir programas de educação pública sobre o assunto de direitos humanos, provendo qualquer ajuda prática dentro de suas próprias possibilidades.140 No mundo inteiro, ela é particularmente ativa na promoção dos direitos humanos das mulheres e das crianças. Mais importante que tudo, provê exemplos vivos de fraternidade, dos quais incontável número de pessoas fora de seu alcance deriva coragem e esperança.

À medida em que a crise iraniana se desenvolvia, uma iniciativa tomada pela Casa Universal de Justiça subitamente levou o trabalho de assuntos externos da comunidade bahá’í a um patamar inteiramente novo. Em 1985, A Promessa da Paz Mundial, dirigida à generalidade da humanidade, foi divulgada através das Assembléias Espirituais Nacionais. Nela, a Casa de Justiça afirma, em termos não provocativos porém firmes, a confiança bahá’í no advento da paz internacional como o próximo estágio da evolução da sociedade. Foram expostos, também, alguns elementos da forma que este tão aguardado desenvolvimento deve ter, muitos deles bem além dos termos políticos nos quais o assunto é geralmente discutido. A mensagem conclui:

A experiência da comunidade bahá’í pode ser vista como um exemplo desta crescente unidade [da humanidade]. ... Se a experiência bahá’í puder contribuir, de alguma forma, para reforçar a esperança na unidade da raça humana, estamos felizes em oferecê-la como um modelo de estudo.

Enquanto o propósito imediato da divulgação do documento foi prover as instituições e indivíduos bahá’ís com uma linha coerente de discussão para seus contatos com autoridades governamentais, organizações da sociedade civil, a mídia e personalidades influentes, um efeito colateral colocaria em ação uma campanha contínua e intensiva de educação da própria comunidade bahá’í sobre inúmeros e muito importantes ensinamentos bahá’ís. A influência das idéias e das perspectivas no documento logo se fez sentir amplamente em convenções, publicações, escolas de verão e inverno, e no discurso geral dos crentes em todas as partes.

Em muitos aspectos, A Promessa da Paz Mundial pode ser considerada como tendo determinado a agenda para a interação bahá’í com as Nações Unidas e suas organizações colaboradoras nos anos seguintes a 1985. Com base na reputação que já havia alcançado, a Comunidade Internacional Bahá’í tornou-se, em apenas alguns anos, uma das mais influentes das organizações não-governamentais. Por ser inteiramente não-partidária e pelo fato de assim ser vista, ela tem crescentemente recebido a confiança geral como uma voz moderadora em discussões complexas, e quase sempre estressantes, em círculos internacionais, sobre importantes assuntos relacionados ao progresso social. Essa reputação tem se fortalecido pela apreciação do fato de que a Comunidade evita, por questão de princípios, tirar vantagens para si mesma de tal confiança para impor qualquer agenda partidária própria. Em 1968, um representante bahá’í foi eleito como membro do Comitê Executivo das Organizações Não-Governamentais afiliado ao Escritório de Informação Pública, subseqüentemente ocupando os cargos de coordenador e vice-coordenador. Deste ponto em diante, representantes da Comunidade viram-se cada vez mais solicitados a participar de funções como convocadores ou coordenadores de um vasto campo de entidades: comitês, oficinas, grupos de trabalho e corpos consultivos. Durante os últimos quatro anos, a Comunidade atuou como secretário da Conferência das Organizações Não-Governamentais, o corpo coordenador central dos grupos não-governamentais afiliados às Nações Unidas.

A estrutura da Comunidade Internacional Bahá’í reflete os princípios que guiam seu trabalho. Não pode ser rotulada como meramente mais um grupo especial de lobistas. Utilizando todos os recursos especializados e a capacidade executiva de seu Escritório das Nações Unidas e Escritório de Informação Pública, a Comunidade foi reconhecida por suas congêneres organizações não-governamentais como essencialmente uma “associação” de “conselhos” nacionais eleitos democraticamente, representativa de um segmento completo da humanidade. As delegações bahá’ís aos eventos internacionais normalmente incluem membros designados por várias Assembléias Espirituais Nacionais, pessoas experientes nos assuntos em discussão e que colaboram provendo perspectivas regionais aos temas em pauta.

Este aspecto do envolvimento da Fé na vida da sociedade – no qual o princípio motivador e o método operacional representam duas dimensões de um enfoque unificado dado aos assuntos sociais – demonstrou seu poder em uma série de conferências de cúpula e outras conferências relacionadas, organizadas pelas Nações Unidas, durante o período de 1990 a 1996. Nesse período de aproximadamente seis anos, os líderes políticos do mundo reuniram-se várias vezes sob a égide do Secretário-Geral das Nações Unidas para tratar dos desafios principais à frente da humanidade à medida que o século vinte chegava ao seu final. Nenhum bahá’í pode rever os temas desses encontros históricos sem perceber quão intimamente a agenda refletiu os principais ensinamentos de Bahá’u’lláh. Parece ser apropriado que o centenário de Sua ascensão devesse ter ocorrido no ponto mediano do processo, dotando as reuniões, para os bahá’ís, de um significado espiritual bem além de suas metas definidas.

Dentre essas reuniões, a Conferência Mundial sobre Educação para Todos, na Tailândia (em 1990), a Cúpula Mundial para as Crianças, em Nova York (em 1990), a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, no Rio de Janeiro (em 1992), uma angustiante e caótica Conferência Mundial sobre Direitos Humanos, em Viena (em 1993), a Conferência Internacional sobre Assuntos Populacionais, no Cairo (em 1994), a Cúpula Mundial para o Desenvolvimento Social, em Copenhague (em 1995) e a particularmente vibrante Quarta Conferência Mundial sobre Mulheres, em Beijing (em 1995),141 destacam-se como pontos altos deste processo de debate global sobre os problemas que afligem os povos do mundo. Nas conferências não-governamentais realizadas paralelamente às acima citadas, as delegações bahá’ís, formadas por membros de uma grande variedade de países, tiveram a oportunidade de apresentar os assuntos em uma perspectiva espiritual e social. Evidência da confiança que a Comunidade recebe dentre outras centenas de organizações não-governamentais co-irmãs foi o fato de que as delegações bahá’ís foram sempre selecionadas por seus companheiros para a inclusão dentre aqueles pequenos grupos que tiveram a oportunidade muito especial de usar da palavra nas conferências, falando do pódio, mais do que simplesmente distribuindo cópias impressas dos temas apresentados.

Durante os anos finais do século, muitas Assembléias Espirituais Nacionais conquistaram vitórias expressivas por si mesmas no campo de assuntos externos. Dois exemplos marcantes mostram o caráter e a importância de tais progressos. O primeiro foi alcançado pela Assembléia Espiritual Nacional da Alemanha, onde a natureza dos corpos bahá’ís eleitos havia sido questionada pelas autoridades locais como sendo tecnicamente incompatível com as exigências da lei civil alemã. Ao apoiar o apelo da Assembléia Espiritual Local dos Bahá’ís de Tübingen contra esta decisão, a Alta Corte constitucional da Alemanha concluiu que a Ordem Administrativa Bahá’í é uma característica integrante da Fé e, como tal, inseparável da crença bahá’í. A Alta Corte justificou sua jurisdição no caso aduzindo evidência que a própria Fé Bahá’í é uma religião, um julgamento com vastas implicações em uma sociedade onde os oponentes da igreja têm, por muito tempo, procurado descrever enganosamente a Causa como um “culto” ou “seita”. O texto definitivo do julgamento merece ser repetido:

... o caráter da Fé Bahá’í como uma religião e da Comunidade Bahá’í como uma comunidade religiosa é evidente, na realidade da vida diária, na tradição cultural e no entendimento do público em geral, como também da ciência de religiões comparadas.142

Mas coube à comunidade bahá’í brasileira alcançar a vitória no campo dos assuntos externos que é, até o momento, singular na história bahá’í. Em 28 de maio de 1992, o corpo legislativo mais elevado no país, a Câmara dos Deputados, realizou uma reunião especial para prestar tributo a Bahá’u’lláh no centenário de Sua ascensão. O presidente dos trabalhos leu uma mensagem da Casa Universal de Justiça e os representantes de todos os partidos se levantaram, um a um, para prestar reconhecimento público à contribuição da Fé e de seu Fundador ao aperfeiçoamento humano. Um comovente pronunciamento de um proeminente deputado descreveu os ensinamentos bahá’ís como “a mais colossal obra religiosa jamais escrita pela pena de um único Homem”.143

Tais referências à natureza da Causa e ao trabalho que tenta realizar – procedentes, como foram, dos níveis judicial e legislativo mais elevados, respectivamente, de duas das maiores nações do mundo – foram vitórias do espírito tão importantes, em sua forma, como aquelas conquistadas no campo de ensino. Elas ajudaram a abrir aquelas portas através das quais a influência curativa de Bahá’u’lláh começa a influir na vida da própria sociedade humana.

A IMAGEM USADA POR ‘ABDU’L-BAHÁ para comunicar aos seus ouvintes a natureza da transformação vindoura da sociedade foi a da luz. A unidade, declarou, é o poder que ilumina e faz progredir todas as formas do esforço humano. A idade que se iniciava seria considerada no futuro como “o século de luz”, porque nela seria alcançado o reconhecimento universal da unidade da humanidade. Com este fundamento assentado, começaria o processo de construção de uma sociedade global que incorporará os princípios da justiça.

A visão foi enunciada pelo Mestre em várias Epístolas e pronunciamentos públicos. Sua expressão mais completa ocorre em uma Epístola enviada por ‘Abdu’l-Bahá a Jane Elizabeth Whyte, esposa do antigo Presbítero da Igreja Livre da Escócia. A Sra. Whyte era simpatizante ardente dos ensinamentos bahá’ís, visitara o Mestre em ‘Akká e mais tarde estaria preparando a recepção particularmente calorosa que Lhe foi dada em Edimburgo. Usando a metáfora familiar das “velas”, ‘Abdu’l-Bahá escreveu à Sra. Whyte:

Ó honrada senhora!... Vede como sua luz [da unidade] agora alvorece no tenebroso horizonte do mundo. A primeira vela é unidade no campo da política, da qual podem ser discernidos os primeiros vislumbres. A segunda vela é unidade de pensamento em realizações mundiais, cuja consumação dentro em breve se haverá de testemunhar. A terceira vela é unidade em liberdade, a qual seguramente se realizará. A quarta vela é unidade na religião, sendo esta a pedra angular do próprio alicerce, a qual, pelo poder de Deus, será revelada em todo seu esplendor. A quinta vela é a unidade das nações – unidade esta que será seguramente estabelecida neste século, fazendo com que todos os povos do mundo considerem-se cidadãos da mesma pátria. A sexta vela é unidade das raças, fazendo todos que habitam a terra povos e semelhantes de uma raça. A sétima vela é unidade de idioma, isto é, a escolha de uma língua universal na qual todos os povos serão instruídos e conversarão. Tudo isso, sem exceção, haverá de se realizar, inevitavelmente, porque o poder do Reino de Deus ajudará e facilitará sua realização.144

Embora ainda se passem décadas – ou talvez muito mais tempo - antes que a visão contida neste extraordinário documento seja inteiramente realizada, os aspectos essenciais do que está prometido são agora fatos estabelecidos no mundo inteiro. Em várias das grandes transformações previstas – a unidade das raças e a unidade da religião – a intenção das palavras do Mestre é clara e os processos envolvidos estão bem adiantados; porém, poderá ainda ocorrer forte resistência em algumas áreas. Em grande parte, o mesmo se aplica à Sua previsão quanto à unidade de idioma. A necessidade desta unidade já é reconhecida em todas as partes, conforme refletida nas circunstâncias que levaram as Nações Unidas e muitas das comunidades não-governamentais a adotarem diversos “idiomas oficiais”. Até que seja tomada uma decisão por acordo internacional, o efeito do progresso alcançado em áreas como a Internet, o controle do tráfego aéreo, o desenvolvimento dos vocabulários técnicos de vários tipos, a própria educação universal, tornou possível, em boa parte, que a língua inglesa suprisse essa carência.

“A unidade de pensamento nas realizações mundiais”, um conceito para qual as aspirações mais idealistas no início do século vinte careciam até de pontos referenciais, está, também, em grande parte, evidente em todas as partes, nos grandes programas de desenvolvimento social e econômico, de ajuda humanitária e preocupação quanto à proteção do meio ambiente do planeta e seus oceanos. Quanto à “unidade no campo da política”, Shoghi Effendi explicou que a referência é à unidade que os estados soberanos realizam entre si, um processo de desenvolvimento cujo estágio atual é o estabelecimento da Organização das Nações Unidas. A promessa do Mestre da “unidade das nações”, por outro lado, visa a atual aceitação geral entre os povos do mundo do fato que, apesar das grandes diferenças existentes entre eles, são todos habitantes de uma mesma terra natal global.

“A unidade em liberdade” tornou-se hoje, com certeza, uma aspiração universal dos habitantes da Terra. Entre as conquistas principais que consubstanciam essa unidade, o Mestre deve ter tido em mente a dramática extinção do colonialismo e o conseqüente surgimento da auto-determinação como um aspecto dominante da identidade nacional ao fim do século.

Quaisquer que sejam as ameaças que ainda perdurem sobre o futuro da humanidade, o fato é que o mundo foi transformado pelos eventos do vigésimo século. E as características desse processo, que foram descritas pela Voz que o predisse com tal confiança, deveriam levar a uma atenta reflexão por parte de mentes sérias em todas as partes.

As mudanças ocorridas na vida social e moral da humanidade receberam endosso poderoso em uma série de reuniões internacionais convocadas pelas Nações Unidas para marcar o iminente fim de um “milênio” e o começo de um novo. De 22 a 26 de maio de 2000, representantes de mais de mil organizações não-governamentais reuniram-se em Nova York, a convite de Kofi Annan, Secretário-Geral das Nações Unidas. Na declaração decorrente dessa reunião, porta-vozes da sociedade civil comprometeram suas organizações com o ideal que afirma: “... somos uma família humana, em toda a nossa diversidade, vivendo em uma pátria comum e compartilhando de um mundo justo, sustentável e pacífico, guiado por princípios universais de democracia...”145

Logo depois, de 28 a 31 de agosto de 2000, uma segunda convocação reuniu líderes da maioria das comunidades religiosas do mundo num encontro que também se realizou na sede de Nações Unidas. A Comunidade Internacional Bahá’í esteve presente, representada por seu Secretário-Geral, que falou em uma das sessões plenárias. Nenhum observador poderia ficar insensível ao chamado formal dos líderes religiosos do mundo para suas comunidades “respeitarem o direito à liberdade de religião, buscarem reconciliação e se engajarem em ações de perdão e de cura das feridas. ...”146

Esses dois eventos preliminares prepararam o caminho para o que havia sido designado como a Cúpula do Milênio, encontro realizado na sede das Nações Unidas de 6 a 8 de setembro de 2000. Reunindo 149 chefes de estado e de governo, as consultas tiveram como objetivo dar esperança e garantia às populações das nações representadas. A reunião de Cúpula aprovou algo bem-vindo e esperado por todos, que foi convidar um porta-voz do Fórum das Organizações Não-Governamentais para compartilhar as preocupações que tinham sido identificadas em sua reunião preparatória. Para os bahá’ís, representou uma oportunidade significativa e gratificante o fato da pessoa escolhida para tão grande honra ter sido um bahá’í, o representante oficial de Comunidade Internacional Bahá’í junto às Nações Unidas, na oportunidade atuando como Co-Presidente do Fórum. Nada ilustra tão dramaticamente a diferença entre o mundo de 1900 e o de 2000 quanto o texto da Resolução da Cúpula, assinada por todos os participantes e enviada por eles à Assembléia Geral das Nações Unidas:

Nós solenemente afirmamos, nesta histórica ocasião, que a Organização das Nações Unidas é o indispensável lar comum da inteira família humana, através da qual buscamos realizar nossas aspirações universais de paz, cooperação e desenvolvimento. Portanto, confirmamos nosso apoio irrestrito a esses objetivos comuns e nossa determinação de realizá-los.147

Ao encerrar essa seqüência de encontros históricos, o Sr. Annan dirigiu-se aos líderes mundiais reunidos em Nova York, em termos surpreendentemente francos – termos que, para muitos bahá’ís, são como que ecos das severas admoestações de Bahá’u’lláh àqueles reis e imperadores, hoje desaparecidos, que foram os predecessores desses líderes atuais: “Está em vosso poder, e, portanto, é vossa responsabilidade, realizar os objetivos por vós definidos. Somente vós podereis determinar se as Nações Unidas estarão à altura do desafio”.148

A despeito da importância histórica dos encontros e o fato de que a maior parte das lideranças políticas, civis e religiosas tenha delas participado, a Cúpula do Milênio não causou a impressão esperada na mente do público na maioria dos países. Generosa foi a atenção que a mídia deu a alguns dos eventos, mas poucos leitores ou ouvintes deixaram de notar a expressão de ceticismo que caracterizou o tratamento editorial dos assuntos, ou o ar de dúvida – até mesmo de cinismo – demonstrado em muitas das coberturas dadas pela própria mídia. Esta disjunção profunda entre um evento que podia legitimamente considerar-se como sendo um marco de um destacado ponto de mutação na história humana, por um lado, e a falta de entusiasmo ou mesmo de interesse, que teve junto às populações que eram os supostos beneficiários, por outro lado, foi talvez o aspecto mais marcante das observações sobre o milênio, cujo evento acabou expondo a profundidade da crise que o mundo atravessava ao final do século, no qual o processo, tanto de integração como de desintegração, que alcançou destaque durante os últimos cem anos, parece estar se acelerando dia a dia.

Aqueles que anelam crer nas declarações visionárias dos líderes mundiais se defrontam, ao mesmo tempo, com dois fenômenos que solapam sua confiança. O primeiro já foi considerado, parcialmente, nestas páginas. O colapso das bases morais da sociedade deixou a maior parte da humanidade desorientada e sem pontos de referência em um mundo que se torna cada vez mais ameaçador e imprevisível. Sugerir que o processo praticamente chegou ao fim seria apenas levantar falsas esperanças. Pode-se ver que intensos esforços políticos estão sendo feitos, que os impressivos avanços científicos continuam, ou que melhoraram as condições econômicas para uma boa parte da humanidade – sem se ver em tais desenvolvimentos qualquer sinal de esperança de uma vida segura para a pessoa, ou, mais importante, para seus filhos. O sentimento de desilusão que, Shoghi Effendi advertiu, o crescimento da corrupção política iria criar na mente das massas da humanidade, está agora generalizado. O aumento da violência e da ilegalidade tornou-se pandêmico, tanto nos meios urbanos quanto nas áreas rurais em muitas regiões. A falta de controle social, o esforço para justificar as mais estranhas formas de aberração de conduta como sendo principalmente questões de direitos humanos, e a quase universal ocorrência, nas artes e na mídia, da degenerescência e violência – estas e outras manifestações similares de uma condição que se aproxima da anarquia moral, indicam um futuro que paralisa a imaginação. Contra o cenário desta desolada paisagem, o hábito intelectual em voga nesta era, buscando tirar virtudes da triste necessidade, adotou para si o nome e a missão de “desconstrucionismo”.

O segundo desses dois desenvolvimentos que minam a fé no futuro da humanidade, foi o ponto crucial de alguns dos mais angustiantes debates da Cúpula do Milênio. A revolução ocorrida nos sistemas de informação na última década do século, com a invenção da World Wide Web, transformou irreversivelmente muitas das atividades humanas. O processo de “globalização”, que havia seguido uma longa curva ascendente durante um período de vários séculos, foi galvanizado por novos poderes que estão além da imaginação de muitas pessoas. As forças econômicas, que estão rompendo barreiras tradicionais, trouxeram à existência durante as últimas décadas do século uma nova ordem global no planejamento, geração e distribuição da riqueza. O próprio conhecimento tornou-se algo significativamente valioso, mais valioso até mesmo que o capital financeiro e os recursos materiais. Em um impressionantemente curto espaço de tempo, as fronteiras nacionais, já ameaçadas, tornaram-se permeáveis, resultando que enormes somas agora passassem instantaneamente por elas, ao comando de um sinal de computador. Complexas operações de produção foram reconfiguradas de forma a integrar e maximizar as economias disponíveis com a contribuição de um vasto número de participantes especialistas, independentemente do país em que se localizem. Se alguém reduzir seus horizonte a considerações puramente materiais, a terra já assumiu algo do caráter de “um só país” e os habitantes das diferentes terras o status de seus “cidadãos” consumidores.

Nem é esta transformação meramente econômica. De forma crescente, a globalização assume dimensões políticas, sociais e culturais. Tornou-se evidente que os poderes da instituição “estado-nação”, que já foi o juiz e protetor dos destinos da humanidade, foram drasticamente desgastados. Enquanto governos nacionais continuam a exercer um papel crucial em todo o processo de globalização, eles devem agora abrir espaço para os novos centros de poder como as corporações multinacionais, os órgãos das Nações Unidas, as organizações não-governamentais de todos os tipos e os enormes conglomerados da mídia, cuja cooperação geral é vital para o sucesso de muitos programas que visam alcançar significativos fins sociais e econômicos. Assim como a migração do dinheiro de corporações encontra pouca resistência nas fronteiras nacionais, nem podem estas últimas exercer por mais tempo controle efetivo sobre a disseminação do conhecimento. A comunicação via Internet, que tem a habilidade de transmitir em segundos todo o conteúdo de bibliotecas que levaram séculos de estudo para serem reunidas, enriquece vastamente a vida intelectual de alguém que saiba usá-la, como também provê capacitação sofisticada e de amplo alcance em todos os campos profissionais. O sistema, tão profeticamente previsto por Shoghi Effendi há sessenta anos, cria um senso de comunidade compartilhada entre seus usuários, uma comunidade impaciente com outras distâncias, tanto culturais como geográficas.

Os benefícios para muitos milhões de pessoas são óbvios e impressionantes. A efetividade de custo que resulta da coordenação das operações anteriormente competitivas entre si tende a criar bens e serviços ao alcance de populações que até então não podiam esperar usufrui-los. Os enormes aumentos de fundos disponíveis para pesquisa e desenvolvimento expandiram a variedade e quantidade desses benefícios. Algo de efeito nivelador na distribuição de oportunidades de emprego pode ser visto na facilidade com que as operações comerciais podem mudar de uma base para outra em qualquer parte do mundo. O abandono das barreiras ao comércio internacional reduz ainda mais o custo das mercadorias para os consumidores. Não é difícil observar, de uma perspectiva bahá’í, o potencial de tais transformações para o estabelecimento das estruturas da sociedade global prevista nos Escritos de Bahá’u’lláh.

Longe de inspirar otimismo sobre o futuro, porém, a globalização é vista, de uma forma geral e por crescente número de pessoas no mundo, como a principal ameaça àquele futuro. A violência dos distúrbios decorrentes das reuniões da Organização Mundial do Comércio, do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional durante os últimos dois anos, dá testemunho da profundidade do temor e ressentimento que o surgimento da globalização provocou. A cobertura da mídia dessas inesperadas explosões de emoções chamou a atenção pública sobre os protestos contra a enorme disparidade na distribuição de benefícios e oportunidades, os quais a globalização parece somente aumentar, e sobre as advertências de que, se controles efetivos não forem rapidamente impostos, as conseqüências serão catastróficas, em termos sociais e políticos, como também econômicos e ambientais.

Tais preocupações parecem ser justificadas. Olhando apenas para as estatísticas econômicas, pode-se ter um retrato de como são profundamente perturbadoras as atuais condições globais. A distância cada vez maior entre o quinto da população mundial que vive nos países de maior renda e outro quinto que vive nos países de menor renda é suficiente para nos mostrar uma realidade muito lamentável. De acordo com o Relatório sobre o Desenvolvimento Humano, de 1999, publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, esta distância representava, em 1990, a proporção de sessenta para um. Isso significa que um segmento da humanidade tinha acesso a sessenta por cento da riqueza do mundo, enquanto outra população, igualmente grande, lutava apenas para sobreviver com um por cento daquela riqueza. Em 1997, como conseqüência do rápido avanço da globalização, o abismo havia se alargado em somente sete anos a uma proporção de setenta e quatro para um. Mesmo este fato assustador não leva em consideração o crescente empobrecimento da maioria dos restantes bilhões de seres humanos confinados num istmo cada vez mais estreito entre esses dois extremos. Longe de ser controlada, a crise claramente se acelera. As implicações para o futuro da humanidade, em termos da privação e desespero que envolvem mais de dois terços da população da Terra, explicam as razões da apatia em relação à celebração pela Cúpula do Milênio de realizações que eram, por todos os critérios razoáveis, verdadeiramente históricos.

A própria globalização é um aspecto intrínseco da evolução da sociedade humana. Trouxe à existência uma cultura sócio-econômica que, a nível prático, constitui o mundo no qual as aspirações da raça humana serão perseguidas no século que se inicia. Nenhum observador objetivo, se for razoável em seu julgamento, negará que ambas as reações contraditórias que estão surgindo são, em grande parte, bem justificadas. A unificação da sociedade humana, forjada pelos fogos do século vinte, é uma realidade que a cada dia que passa abre novas e encorajadoras possibilidades. Uma realidade que também está sendo imposta a mentes importantes em toda parte é a afirmativa de que a justiça é o único meio capaz de arrear essas grandes potencialidades para o progresso da civilização. Não mais se faz necessário o dom da profecia para se entender que o destino da humanidade, no século que agora se inicia, será determinado pelo relacionamento a ser estabelecido entre essas duas forças fundamentais do processo histórico, os princípios inseparáveis de unidade e justiça.

Na perspectiva dos ensinamentos de Bahá’u’lláh, o maior perigo, tanto da crise moral como das iniqüidades associadas com a globalização em sua forma atual, é uma atitude filosófica intrínseca que busca justificar e desculpar tais fracassos. A derrubada dos sistemas totalitários do século vinte não significou o fim da ideologia. Pelo contrário. Não existe uma sociedade na história do mundo, por mais pragmática, experimentalista e multiforme que tenha sido, que não haja derivado sua filosofia política de alguma interpretação dos fundamentos da realidade. Tal sistema de pensamento reina ainda hoje através do planeta, praticamente sem ser desafiado, sob a designação nominal de “civilização ocidental”. Filosófica e politicamente, ela se apresenta como um tipo de relativismo liberal; econômica e socialmente, como capitalismo – dois sistemas de valores que agora se ajustaram um ao outro e se tornaram tão mutuamente reforçadores que se constituem numa única e abrangente visão do mundo.

A apreciação dos benefícios – em termos da liberdade pessoal, prosperidade social e progresso científico usufruídos por uma significativa minoria dos povos da Terra – não pode impedir uma pessoa consciente de reconhecer que o sistema está moral e intelectualmente falido. Contribuiu com o que podia para o avanço da civilização, como fizeram os sistemas que o precederam e, como aqueles, é também incapaz de resolver as necessidades de um mundo jamais imaginado pelos profetas que viveram no século dezoito e que conceberam a maioria de seus elementos componentes. Shoghi Effendi não limitou sua atenção às monarquias que reclamavam o direito divino de existir às igrejas estabelecidas ou às ideologias totalitárias, quando questionou, de maneira penetrante: “Por que, em um mundo sujeito à imutável lei de transformação e declínio, tais sistemas estariam isentos da deterioração que deve necessariamente ocorrer em todas as instituições humanas?”149

Bahá’u’lláh convoca a todos os que nEle crêem para ver “com teus próprios olhos e não com os alheios”, a saber “pela tua própria compreensão e não pela compreensão de teu semelhante”. Tragicamente, o que os bahá’ís vêem na sociedade atual é uma exploração desenfreada das massas da humanidade pela ganância que procura se justificar como a operação das “formas impessoais do mercado”. O que seus olhos observam em toda parte é a destruição das bases morais vitais ao futuro da humanidade, pela total auto-indulgência mascarada como “liberdade de expressão”. Aquilo contra o que se vêem lutando diariamente é a pressão de um materialismo dogmático, afirmando ser a voz da “ciência”, que busca excluir, sistematicamente, da vida intelectual, todos os impulsos que surgem do nível espiritual da consciência humana.

E para um bahá’í os assuntos decisivos são espirituais. A Causa não é um partido político, nem uma ideologia, muito menos um instrumento de agitação política contra este ou aquele mal social. O processo de transformação que colocou em ação segue avante buscando criar uma mudança fundamental de consciência, e o desafio que coloca diante de todos os que dela participam é libertar a pessoa dos apegos às preferências e pontos de vistas herdados, que são irreconciliáveis com a Vontade de Deus para a era de maturidade da humanidade. Paradoxalmente, mesmo a angústia causada pelas condições prevalecentes, que violam a consciência da pessoa, ajudam neste processo de libertação espiritual. Em uma análise final, tal desilusão leva o bahá’í a confrontar-se com uma verdade enfatizada repetidamente nos Escritos da Fé:

Dentre o mundo inteiro Ele escolheu os corações de Seus servos e de cada um fez um assento para a revelação de Sua glória. Santificai-os, pois, de toda contaminação, para que neles seja gravadas as coisas para as quais eles foram criados.150

A AFIRMATIVA CONSTANTE do Evangelho, atribuída ao discípulo de Jesus, João – “No começo era o Verbo...” – tem fascinado leitores por dois mil anos. A passagem continua, afirmando, com empolgante simplicidade e clareza, uma verdade espiritual que tem sido um ponto central em todas as religiões reveladas, vindicada continuamente em uma sucessão de civilizações através dos tempos: “Ele estava no mundo, e o mundo foi criado por Ele”. A prometida Manifestação de Deus aparece; uma comunidade de crentes se forma em torno deste ponto focal de vida e autoridade espirituais; um novo sistema de valores começa a reordenar tanto a consciência quanto a conduta; as artes e as ciências respondem; uma reestruturação das leis e da administração dos assuntos sociais ocorre. Vagarosamente, mas de forma irresistível, surge uma nova civilização, uma civilização que satisfaz os ideais e, desta forma, utiliza as capacidades de milhões de seres humanos que, na verdade, constituem um novo mundo, um mundo muito mais real para aqueles que nela “vivem, movem-se e têm sua existência”151 do que as bases terrenas sobre as quais se assenta. Através dos séculos que se seguem, a sociedade continua a depender primariamente, para sua coesão e autoconfiança, do impulso espiritual que a gerou.

Com o aparecimento de Bahá’u’lláh, o fenômeno se repetiu –- agora em uma escala que abrange a totalidade dos habitantes da terra. Nos eventos do século vinte, podem ser vistos os primeiros estágios da transformação universal da sociedade colocada em ação pela Revelação da qual Bahá’u’lláh escreveu:

Dou testemunho de que, tão logo a Primeira Palavra procedeu de Sua boca, através da potência de Tua vontade e propósito... a criação inteira foi revolucionada, e tudo o que há nos céus e tudo o que existe na terra foi abalado profundamente. Através da Palavra, as realidades de coisas criadas foram sacudidas, divididas, separadas, espalhadas, combinadas e reunidas, mostrando, tanto no mundo contingente como no reino celestial, entidades de uma nova criação, e revelando, nos reinos invisíveis, os sinais e símbolos de Tua unidade e unicidade.152

Shoghi Effendi descreve este processo da unificação do mundo como o “Plano Maior” de Deus, cuja operação continuará, reunindo força e ímpeto, até que a raça humana seja unificada em uma sociedade global que terá banido a guerra e assumido seu destino coletivo. O que as lutas do século vinte conseguiram foi a fundamental mudança de direção exigida pelo propósito Divino. Esta mudança é irreversível. Não existe volta a um antigo estado de coisas, embora alguns elementos da sociedade possam, de vez em quando, ser tentados a buscar tal caminho.

A importância do avanço histórico ocorrido não pode ser de forma alguma minimizada pelo reconhecimento que o processo tenha apenas começado. Este deverá levar, com o decorrer do tempo, como Shoghi Effendi deixou bem claro, à espiritualização da consciência humana e ao surgimento de uma civilização global que encarnará a Vontade de Deus. Meramente afirmar a meta é reconhecer a grande distância que a raça humana tem ainda que atravessar. Foi enfrentando a mais intensa resistência em todos os níveis da sociedade, entre governantes e governados de forma igual, que as mudanças conceituais sociais e políticas dos últimos cem anos foram alcançadas. Na realidade, foram conseguidas somente ao custo de terríveis sofrimentos. Seria irreal imaginar que os desafios à frente não irão aumentar em muito a carga que pesa sobre a raça humana, que ainda busca, por todos os meios ao seu alcance, evitar as implicações espirituais das experiências pelas quais está passando. As palavras de Shoghi Effendi sobre as conseqüências desta teimosia, tanto no coração como na mente das pessoas, fazem delas uma leitura que leva a uma reflexão profunda:

Adversidades, assustadoras como não se pode imaginar; crises e revoltas, com as quais nem sonhamos; guerra, fome e doenças, poderão, combinadas, gravar na alma de uma geração desatenta aquelas verdades e princípios que desdenhou reconhecer e seguir.153

Apenas um terço do século vinte havia transcorrido quando o Guardião convocou os seguidores de Bahá’u’lláh a uma compreensão bem mais profunda da própria Causa da que até então haviam alcançado. A Fé havia atingido o ponto, disse ele, quando deveria “cessar de designar-se um movimento, uma fraternidade, ou algo semelhante”, designações que, embora talvez apropriadas em um tempo quando a mensagem foi pela primeira vez introduzida no Ocidente, usadas agora “cometiam uma grave injustiça ao seu sistema cada vez mais abrangente”. Deveria ser rejeitado, como inadequado, até mesmo o termo “religião” em seu sentido mais conhecido. Shoghi Effendi destacou que a Fé estava já:

... visivelmente conseguindo demonstrar sua pretensão e seu direito de ser considerada como uma Religião Mundial, destinada a alcançar, com o decorrer do tempo, a condição de uma Comunidade Mundial, que seria ao mesmo tempo o instrumento e o guardião da Paz Máxima anunciada por seu Autor.154

À medida que o século avançou, a mesma Força criativa que estava despertando a generalidade da humanidade para sua unidade, progressivamente liberava os poderes inerentes na Causa, criando um novo papel para ela nos assuntos humanos. Durante as duas primeiras décadas do século, através da atenção carinhosa do Mestre, as bases espirituais e administrativas necessárias ao propósito de Bahá’u’lláh foram estabelecidas. Sobre essas bases, então disponíveis – durante os trinta e seis anos de seu próprio ministério, e nos seis anos subseqüentes durante os quais sua Cruzada Mundial de Dez Anos guiou os esforços da comunidade – Shoghi Effendi devotou-se a aprimorar os instrumentos administrativos necessários para levar avante o Plano Divino. Com o estabelecimento esperado, em 1963, da Casa Universal de Justiça, os bahá’ís do mundo iniciaram o primeiro estágio de uma missão de longa duração: o fortalecimento espiritual da humanidade inteira como protagonista de seu próprio progresso. Ao final do século, este esforço imenso trouxera à existência uma comunidade representativa da diversidade da inteira raça humana, unificada em suas crenças e fidelidade, e comprometida com a construção de uma sociedade global que irá refletir na terra a visão moral e espiritual de seu Fundador.

Este processo foi imensamente fortalecido em 1992 pela publicação da longamente esperada tradução em inglês, em edição enriquecida de notas esclarecedoras, do Kitáb-i-Aqdas, um repositório da guia Divina para a era de maturidade da humanidade. Logo a seguir, começaram a surgir traduções em outros idiomas, provendo aos seguidores da Fé no mundo inteiro acesso direto ao Livro descrito por seu Autor como: “a Alvorada do conhecimento divino, se sois dos que percebem, a Fonte dos mandamentos de Deus, se sois dos que compreendem”.155 Além do reconhecimento do Manifestante de Deus pelo ser humano, nada mais desperta tão grande senso de confiança e vitalidade na consciência humana – tanto individual quanto coletiva – como a força da certeza moral. No Kitáb-i-Aqdas, leis que são fundamentais tanto à vida pessoal como comunitária, foram reformuladas no contexto de uma sociedade que abarca todas as nuanças da diversidade humana. Novas leis e conceitos atendem a todas as necessidades de uma raça humana que está entrando em sua maturidade coletiva. “Ó povos da terra!”, é o apelo de Bahá’u’lláh, “Rejeitai o que possuís e, nas asas do desprendimento, elevai-vos acima de tudo o que foi criado. Assim vos ordena o Senhor da criação, o movimento de Cuja Pena revolucionou a alma da humanidade”.156

Um aspecto dos últimos cem anos do desenvolvimento bahá’í que deve chamar a atenção de qualquer observador é o sucesso da Fé em superar os ataques lançados contra ela. Como ocorreu durante os ministérios do Báb e de Bahá’u’lláh, elementos na sociedade que se ressentiam com o surgimento de uma nova religião, ou temiam os princípios que ensinava, buscaram, de todas as formas possíveis, sufocá-la. Nem sequer uma década do último século passou sem que se testemunhassem tentativas neste sentido – desde perseguições sangrentas incitadas pelo clero xiita e as indecentes falsidades forjadas e espalhadas por suas correlativas cristãs, a esforços sistemáticos para suprimi-la de parte de vários regimes totalitários e, finalmente, violações de seu comprometimento com Bahá’u’lláh por parte de alguns insinceros, ambiciosos e malévolos dentre seus adeptos declarados. Por qualquer medida humana, a Causa deveria ter sucumbido à forte avalanche de oposição, sem paralelo na história de nosso tempo. Longe de sucumbir, floresceu. Sua reputação cresceu, o número de seus adeptos aumentou, sua influência espalhou-se além do que imaginaram gerações anteriores de seus seguidores. As perseguições serviram para galvanizar os esforços de seus seguidores. As calúnias levaram seus crentes a buscarem um entendimento mais maduro de sua história e ensinamentos. E, como prometido, tanto pelo Mestre como pelo Guardião, a violação do Convênio varreu para fora de suas fileiras aquelas pessoas cuja conduta e atitudes ameaçavam solapar a fé de outros crentes e inibir seu progresso. Se a Causa não tivesse qualquer outro testemunho dos poderes que a sustêm, essa sucessão de triunfos seria suficiente, por si só, para prová-los.

Três anos antes de seu falecimento, Shoghi Effendi aproveitou a oportunidade para adquirir a última parcela de terra necessária para construir o Edifício dos Arquivos Internacionais, descrevendo ao mundo bahá’í a natureza e a importância do projeto de construção dos edifícios nas encostas do Monte Carmelo, que o Mestre havia inaugurado e a que ele próprio estava dando continuidade:

Estes Edifícios, na forma de um extenso arco, e seguindo um estilo harmonizado de arquitetura, circundarão os sepulcros da Folha Mais Sagrada... de seu Irmão... e de sua Mãe. ... O término final deste estupendo empreendimento marcará a culminação do desenvolvimento de uma Ordem Administrativa, mundial em seu alcance e divinamente ordenada, cujos primórdios datam dos anos finais da Idade Heróica da Fé.157

O estágio atual desta ambiciosa empreitada chegou à sua conclusão de forma vitoriosa no último ano do século. Uma torrente de recursos dos crentes em todo o mundo foi a resposta para tornar realidade a visão de Bahá’u’lláh sobre este local sagrado, anunciada em Sua Epístola do Carmelo: “Exultai, pois Deus, neste Dia, estabeleceu sobre ti Seu trono, fez de ti o alvorecer de Seus sinais e a aurora das evidências de Sua Revelação.” No complexo de majestosos edifícios que se estendem ao longo do Arco e nas escadarias dos jardins em patamares que sobem desde a base da montanha até seu cume, a Causa, cuja influência se expandiu fortemente através do mundo durante o século de luz, emergiu, por fim, com uma presença visível e poderosa. As multidões de visitantes de todas as terras que se aglomeram, todos os dias, na escadaria e nos caminhos que a circundam, e a onda de distinguidos hóspedes que são recebidos nos salões do Centro Mundial, fazem com que mentes atentas sintam, de alguma forma, o alvorecer do cumprimento da visão registrada há 2.300 anos pelo Profeta Isaías: “E virá o tempo, nos últimos dias, que a montanha da casa do Senhor será estabelecida no alto das montanhas, e será exaltada acima das colinas; e todas as nações fluirão para ela”.158

A Causa Bahá’í se distingue, acima de tudo, por sua natureza como um todo orgânico independente. Incorporando o princípio da unidade que se encontra na raiz da Revelação de Bahá’u’lláh, esta natureza é o sinal da presença do Espírito que anima a Fé. Única entre as religiões da história – e a despeito dos repetidos esforços de quebrarem sua unidade – a Causa tem resistido, sempre com sucesso, à constante ameaça de cisma e facções. O sucesso do trabalho de ensino da comunidade é assegurado pelo fato de que os instrumentos que utiliza foram criados pela própria Revelação, que foram os Fundadores da Fé que conceberam os métodos para a realização do Plano Divino, e que foram Eles que guiaram, em todos os detalhes importantes, o lançamento desta empreitada. Durante o século vinte, através dos esforços de ‘Abdu’l-Bahá e do Guardião, o próprio Monte Carmelo tornou-se uma expressão desta unidade da Fé. Em contraste com as circunstâncias de outras religiões mundiais, os centros administrativo e espiritual da Causa estão ligados inseparavelmente neste mesmo local da Terra, suas instituições orientadoras centralizadas no Santuário de seu Profeta martirizado. Para muitos visitantes, mesmo a harmonia que é conseguida com a variedade de flores, árvores e plantas que envolvem os jardins, parece proclamar o ideal de unidade na diversidade que eles reconhecem ser uma característica vital nos ensinamentos da Fé.

Nada marcou de modo mais dramático a conclusão dos cem anos de realizações do que o evento que também causou profundo pesar nos crentes do mundo inteiro. Em 19 de janeiro de 2000, uma mensagem da Casa Universal de Justiça anunciou:

Nas primeiras horas desta manhã, a alma de Amatu’l-Bahá Rúhíyyih Khánum, bem-amada consorte de Shoghi Effendi e o último elo bahá’í remanescente no mundo com a família de ‘Abdu’l-Bahá, foi libertada das limitações desta existência terrena... Seus vinte anos de íntima associação com Shoghi Effendi evocaram de sua pena tais referências como “minha companheira”, “meu escudo”, “minha colaboradora incansável nas árduas tarefas que pesam sobre meus ombros”. ...

Assim que o choque inicial começou a diminuir, o reconhecimento de ainda outra das intermináveis graças de Bahá’u’lláh gradualmente foi tomando seu lugar. Para uma figura cuja longa vida se estendeu pela maior parte do século – e cujo espírito indomável sustentou lutas e sacrifícios pela Fé por mais da metade de sua vida – foi concedida vida e oportunidade para comemorar as magnificentes vitórias para as quais ela, de forma tão grandiosa, contribuíra.

Ao convocar aqueles que O reconheceram para compartilhar a mensagem do Dia de Deus com os outros, Bahá’u’lláh utiliza novamente a linguagem da própria criação: “Todo corpo clama por uma alma. Almas celestiais precisam ser despertadas com o sopro do Verbo de Deus, e os corpos mortos vivificados com um novo espírito”.159 O princípio é verdadeiro tanto para a vida coletiva da humanidade, ‘Abdu’l-Bahá assinala, como para a vida de seus membros individuais: “A civilização material é como o corpo. Por infinitas que sejam sua formosura, graça e beleza, ele é morto. A civilização divina é como o espírito, e o corpo obtém sua vida do espírito... .”160

Nesta analogia é resumida a relação entre os dois desenvolvimentos históricos da Vontade de Deus, impulsionados ao longo de convergentes caminhos durante o século de luz. Somente uma pessoa cega às capacidades sociais e intelectuais latentes na raça humana, e insensível às desesperadoras necessidades da humanidade, poderia deixar de sentir profunda satisfação com os avanços alcançados por aquela sociedade nos últimos cem anos, e particularmente com os processos que estão unindo os povos e nações do mundo. Quão mais são tais realizações apreciadas pelos bahá’ís, que vêem nelas o próprio Propósito de Deus. Mas este Corpo da civilização material da humanidade clama em alta voz, anseia cada vez mais desesperadamente a cada dia que passa, por sua Alma. Como toda grande civilização na história, até que essa civilização seja desta forma vivificada, e despertadas suas faculdades espirituais, não encontrará nem paz nem justiça, nem uma unidade que esteja acima do nível de negociação e acordo. Dirigindo-Se aos “representantes eleitos dos povos em todas as terras”, Bahá’u’lláh escreveu:

Aquilo que o Senhor ordenou como o remédio soberano e o mais poderoso instrumento para a cura de todo o mundo é a união de todos os seus povos em uma Causa universal, em uma Fé comum.161

Não é, portanto, apenas a provisão de apoio, nem de encorajamento, nem mesmo de exemplos, que constitui o trabalho principal da Causa. A comunidade bahá’í continuará a contribuir, de todas as formas possíveis, aos esforços que levem à unificação global e à melhoria social; mas tais contribuições são secundárias ao seu propósito. Seu propósito básico é ajudar os povos do mundo a abrirem suas mentes e corações ao único Poder que pode atender ao seu anseio mais profundo. Não existe alguém, exceto aqueles que tenham se despertado à Revelação de Deus, capaz de prover tal ajuda. Não existe alguém que possa oferecer um testemunho evidente da vinda de um mundo de paz e justiça, a não ser aqueles que entendem, embora vagamente, as palavras com as quais a Voz de Deus convocou Bahá’u’lláh a levantar-Se e empreender Sua missão:

Podes tu descobrir qualquer outro, senão Eu, ó Pena, neste Dia? Que sucedeu com a criação e suas manifestações? E com os nomes e seu reino? Aonde foram todas as coisas criadas, quer visíveis ou invisíveis? Que sucedeu com os segredos do universo e suas revelações? Eis, a criação inteira passou! Nada resta senão Minha Face, a Sempiterna, a Resplandecente, a Toda-Gloriosa.

Este é o Dia em que nada pode ser visto a não ser os esplendores da Luz que irradia da face de Teu Senhor, o Clemente, o Mais Generoso. Em verdade, fizemos cada alma expirar em virtude de Nossa soberania irresistível e predominante. Então chamamos para a existência uma criação nova, em sinal de Nossa graça aos homens. Sou, verdadeiramente, o Todo-Generoso, o Ancião dos Dias”.162

Referências

1. Shoghi Effendi, O Advento da Justiça Divina (Rio de Janeiro: Editora Bahá’í do Brasil, 1977), pp. 123-124.

2. Shoghi Effendi, O Dia Prometido Chegou (Mogi-Mirim: Editora Bahá’í do Brasil, 1998), p. 1.

3. Eric Hobsbawm, Age of Extremes: The Short Twentieth Century, 1914-1991 (Londres: Abacus, 1995), p. 584.

4. Leopoldo II, Rei dos Belgas, operou a colônia como uma reserva particular durante cerca de três décadas (1877-1908). As atrocidades perpetradas sob seu desgoverno suscitaram protestos internacionais e, em 1908, ele foi forçado a entregar o território à administração do governo belga.

5. Os processos que resultaram nestas mudanças foram detalhados por A. N. Wilson, et al., God’s Funeral (Londres: John Murray, 1999). Em 1872, um livro publicado por Winwood Reade sob o título The Martyrdom of Man (Londres: Pemberton Publishing, 1968), que se tornou algo como uma “bíblia” secular nas primeiras décadas do século vinte, manifestou a confiança de que “finalmente, os homens dominarão as forças da Natureza. Eles mesmos se tornarão arquitetos de sistemas, fabricantes de mundos. O homem então será perfeito; ele será um criador; portanto, ele será aquilo que os vulgares adoram como um deus”. Citado por Anne Glyn-Jones, Holding up a Mirror: How Civilizations Decline (Londres: Century, 1996), pp. 371-372.

6. ‘Abdu’l-Bahá, Seleção dos Escritos de ‘Abdu’l-Bahá (Mogi-Mirim: Editora Bahá’í do Brasil, 1993), pp. 28-29.

7. ‘Abdu’l-Bahá, O Segredo da Civilização Divina (Mogi-Mirim: Editora Bahá’í do Brasil, 2003), p. 2-3.

8. Makátib-i-’Abdu’l-Bahá (Tablets of ‘Abdu’l-Bahá), vol. 4 (Teerã: Iran National Publishing Trust, 1965), pp. 132-134.

9. Idem.
10. Idem.

11. A escola foi fechada em 1934, por ordem de Reza Sháh, porque havia comemorado os Dias Sagrados bahá’ís como feriados religiosos. Seguiu-se o fechamento de todas as outras escolas bahá’ís no Irã.

12. Vide The Bahá’í World, vol. XIV (Haifa: Bahá’í World Centre, 1975), pp. 479-481, para a história.

13. Shoghi Effendi, The World Order of Bahá’u’lláh (Wilmette: Bahá’í Publishing Trust, 1991), p. 156.

14. “O círculo mais externo deste vasto sistema, o correlativo visível da posição primordial conferida ao Arauto da nossa Fé, é o próprio planeta inteiro. Dentro do coração deste planeta se encontra a ‘Terra Mais Sagrada’, aclamada por ‘Abdu’l-Bahá como ‘o Ninho dos Profetas’, e que deve ser considerado o centro do mundo e o Qiblih das nações. Dentro desta Terra Mais Sagrada se ergue a Montanha de Deus, de santidade imemorial, a Vinha do Senhor, o Retiro de Elias – cujo retorno o próprio Báb simboliza. Repousando no seio desta montanha sagrada se encontram as amplas propriedades permanentemente dedicadas ao, e constituindo o sagrado recinto do, santo Sepulcro do Báb. No meio destas propriedades, reconhecidas como as dotações internacionais da Fé, situa-se o pátio mais sagrado, um invólucro constando de jardins e patamares que ao mesmo tempo embelezam e emprestam um charme todo especial a este recinto sagrado. Abrigado nesta paisagem linda e verdejante ergue-se, em toda sua delicada beleza, o mausoléu do Báb – a concha destinada a preservar e adornar a estrutura original levantada por ‘Abdu’l-Bahá como o sepulcro do Arauto-Mártir da nossa Fé. Dentro desta concha está entesourada aquela Pérola de Grande Valor, o sacrário – aqueles cômodos que constituem o próprio túmulo e que foram construídos por ‘Abdu’l-Bahá. No coração deste sacrário fica o tabernáculo, a câmara mortuária onde repousa o caixão mais sagrado. Dentro desta câmara mortuária descansa o sarcófago alabastrino em que está depositada aquela jóia de valor inestimável, o sagrado pó do Báb”. Shoghi Effendi, Citadel of Faith (Wilmette: Bahá’í Publishing Trust, 1995), pp. 95-96.

15. Idem, p. 95.

16. Shoghi Effendi, A Presença de Deus (Rio de Janeiro: Editora Bahá’í do Brasil, 1981) p. 374.

17. H. M. Balyuzi, ‘Abdu’l-Bahá: The Centre of the Covenant of Bahá’u’lláh, 2a ed. (Oxford: George Ronald, 1992), p. 136.

18. ‘Abdu’l-Bahá, Seleção dos Escritos de ‘Abdu’l-Bahá, op. cit., pp. 221-222.

19. Shoghi Effendi, A Presença de Deus, op. cit., p. 350.

20. Idem, p. 351.

21. The Bahá’í Centenary, compilado pela Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá’ís dos Estados Unidos e Canadá, 1944, Wilmette, pp. 140-141.

22. Shoghi Effendi, A Presença de Deus, op. cit., p. 378-379.

23. ‘Abdu’l-Bahá in London: Addresses and Notes of Conversations (Londres, Bahá’í Publishing Trust, 1982), pp. 19-20.

24. ‘Abdu’l-Bahá, Epístolas do Plano Divino (Mogi-Mirim: Editora Bahá’í do Brasil, 2001) p. 96.

25. Shoghi Effendi, A Presença de Deus, op. cit., pp. 380-381.

26. ‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace (Wilmette: Bahá’í Publishing Trust, 1995), p. 121.

27. ‘Abdu’l-Bahá, Seleção dos Escritos de ‘Abdu’l-Bahá, op. cit., p. 90.

28. Idem, p. 18.

29. ‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, op. cit., pp. 455-456.

30. Juliet Thompson, The Diary of Juliet Thompson (Los Angeles: Kalimát Press, 1983), p. 313.

31. Shoghi Effendi, A Presença de Deus, op. cit., p. 333.

32. Bahá’í World Faith (Wilmette: Bahá’í Publishing Trust, 1976), p. 429.

33. ‘Abdu’l-Bahá in Canada (Forest: National Spiritual Assembly of Canada, 1962), p. 51.

34. ‘Abdu’l-Bahá, Palestras de ‘Abdu’l-Bahá – Paris 1911 (Mogi-Mirim: Editora Bahá’í do Brasil, 1997), p. 50-51.

35. Eric Hobsbawm, Age of Extremes: The Short Twentieth Century, 1914-1991, op. cit., p. 23.

36. Seleção dos Escritos de Bahá’u’lláh (Mogi-Mirim: Editora Bahá’í do Brasil, 2001), seção CXXV.

37. Edward R. Kantowicz, The Rage of Nations (Cambridge: William B. Eerdmans Publishing Company, 1999) p. 139. Kantowicz acrescenta que a perda total de população na Europa foi de quarenta e oito milhões, incluindo quinze milhões que foram “varridos” porque sua condição precária de saúde tornou-os vulneráveis à epidemia de gripe ocorrida depois da guerra, e por motivo da redução causada pela grande queda no coeficiente de natalidade em conseqüência desses desastres. Hobsbawm estima que a França perdeu quase vinte por centro de seus homens em idade militar. A Inglaterra perdeu um quarto de seus graduados de Oxford e Cambridge, que serviram no exército durante a guerra, enquanto que a perda na Alemanha chegou a um milhão e oitocentos, ou treze por cento da população em idade militar (Vide Eric Hobsbawm, Age of Extremes: The Short Twentieth Century, 1914-1991, op. cit., p. 26).

38. O Presidente Wilson teve várias biografias nos anos desde sua morte. Três delas, mais recentes, são: Louis Auchincloss, Woodrow Wilson. (Nova York: Viking Penguin, 2000); A. Clement Kendrich, Woodrow Wilson: World Statesman. (Lawrence: University Press of Kansas, 1987); Thomas J. Knock, To End All Wars: Woodrow Wilson and the Quest for a New World Order. (Oxford: Oxford University Press, 1992).

39. ‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Univesal Peace, op. cit., p. 305.

40. Shoghi Effendi, Citadel of Faith, op. cit., p. 32.

41. Idem, p. 32-33.

42. Como foi finalmente adotado, o Artigo X do Convênio da Liga das Nações não exigia intervenção militar coletiva em casos de agressão, mas afirmava apenas que “... o Conselho irá recomendar os meios pelos quais esta obrigação será cumprida.”

43. Shoghi Effendi, The World Order of Bahá’u’lláh, op. cit., pp. 29-30.

44. Shoghi Effendi, Citadel of Faith, op. cit., p. 28-29.

45. Idem, p. 7.

46. Seleção dos Escritos do Báb (Rio de Janeiro: Editora Bahá’í do Brasil, 1978), p. 62.

47. Bahá’u’lláh, O Kitáb-i-Aqdas: O Livro Sacratíssimo (Mogi-Mirim: Editora Bahá’í do Brasil), parágrafo 88.

48. Epístolas de Bahá’u’lláh reveladas após o Kitáb-i-Aqdas (Rio de Janeiro: Editora Bahá’í, 1983), p. 22.

49. A citação faz referência ao valor do “conselho” do Mestre às autoridades britânicas que estavam tentando restaurar a vida civil após a derrubada do regime turco na área, acrescentando que “toda a sua influência tem sido para o bem”. Vide Moojan Momen, ed., The Bábí and Bahá’í Religions, 1844-1944 – Some Contemporary Western Accounts (Oxford: George Ronald, 1981), p. 344.

50. The Bahá’í World, vol. XV (Haifa: Bahá’í World Centre, 1976) p. 132.

51. Horace Holley, Religion for Mankind (Londres: George Ronald, 1956), p. 243-244.

52. A Última Vontade e Testamento de ‘Abdu’l-Bahá (Rio de Janeiro: Editora Bahá’í do Brasil, 1982), p. 14.

53. Shoghi Effendi, A Presença de Deus, op. cit., p. 439.

54. Shoghi Effendi, Bahá’í Administration (Wilmette: Bahá’í Publishing Trust, 1998) p. 15.

55. Rúhíyyih Rabbání, A Pérola Inestimável(Mogi-Mirim: Editora Bahá’í do Brasil, 2003), pp. 148-150.

56. Shoghi Effendi, Bahá’í Administration, op. cit., pp. 187-188, 194.

57. Caso após caso, a aberta má conduta por parte dos irmãos, irmãs e primos de Shoghi Effendi, não deixaram a ele outra alternativa senão informar ao mundo bahá’í que aquelas pessoas haviam violado o Convênio.

58. Shoghi Effendi, The World Order of Bahá’u’lláh, op. cit., p. 36.

59. Shoghi Effendi, Chamado às Nações (Rio de Janeiro: Editora Bahá’í do Brasil, 1979), pp. 47-48.

60. Shoghi Effendi, The World Order of Bahá’u’lláh, op. cit., p. 202.

61. Shoghi Effendi, Chamado às Nações, op. cit., pp. 71-72.

62. Shoghi Effendi, Chamado às Nações, op. cit., p. 71.

63. Shoghi Effendi, O Advento da Justiça Divina, op. cit., pp. 137, 31, 130.

64. Nabíl-i-A’zam, The Dawn-Breakers: Nabíl’s Narrative of the Early Days of the Bahá’í Revelation (Wilmette: Bahá’í Publishing Trust, 1999), pp. 92-94.

65. Shoghi Effendi, Bahá’í Administration, op. cit., p. 52.

66. Seleção dos Escritos de ‘Abdu’l-Bahá, op. cit., p. 72.

67. Shoghi Effendi, The World Order of Bahá’u’lláh, op. cit., p. 4.

68. Idem, p. 19.

69. Seleção dos Escritos de Bahá’u’lláh, op. cit., XXV.

70. Shoghi Effendi, The World Order of Bahá’u’lláh, op. cit., p. 19.

71. Idem, p. 144.

72. Shoghi Effendi, A Presença de Deus, op. cit., p. 26.

73. The Bahá’í World, vol. X (Wilmette: Bahá’í Publishing Committee, 1949), pp. 142-149, provê uma detalhada pesquisa sobre a expansão da Causa até a conclusão do primeiro Plano de Sete Anos.

74. Shoghi Effendi, Messages to Canada, 2a ed. (Thornhill: Bahá’í Canada Publications, 1999), p. 114.

75. Shoghi Effendi, A Presença de Deus, op. cit., p. 491.

76. Seleção dos Escritos de Bahá’u’lláh, op. cit., XCIX.

77. Bahá’u’lláh, O Kitáb-i-Íqán (Rio de Janeiro: Editora Bahá’í do Brasil, 1977), p. 24.

78. “Na Europa, no início do século vinte, a maior parte das pessoas aceitaram a autoridade da moralidade. ... [Então] pensadores europeus também estavam aptos a acreditar em progresso moral e a ver a depravação e barbarismo humanos retrocedendo. No final do século, é difícil estarmos certos ou a respeito da lei moral ou sobre o progresso moral”: Jonathon Glover, Humanity: A Moral History of the Twentieth Century (Londres: Jonathan Cape, 1999), p. 1. O estudo de Glover se concentra particularmente na ascensão e influência das ideologias do século vinte.

79. Shoghi Effendi, O Dia Prometido Chegou, op. cit., p. 156.

80. Idem.

81. Seleção dos Escritos de Bahá’u’lláh, op. cit., XXVII.

82. Idem, XVII.

83. Women: Extracts from the Writings of Bahá’u’lláh, ‘Abdu’l-Bahá, Shoghi Effendi and the Universal House of Justice, compilados pelo Departamento de Pesquisa da Casa Universal de Justiça, (Thornhill: Bahá’í Canada Publications, 1986), p. 50.

84. Shoghi Effendi, Messages to America (Wilmette: Bahá’í Publishing Committee, 1947), p. 28.

85. Idem, pp. 9, 10, 14, 22.
86. Idem, p. 28.

87. Rúhíyyih Rabbání, A Pérola Inestimável, op. cit., p. 453.

88. Shoghi Effendi, Messages to America, op. cit., p. 53.

89. Shoghi Effendi, The World Order of Bahá’u’lláh, op. cit., p. 46.

90. ‘Abdu’l-Bahá in Canada, op. cit., p. 51.

91. ‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, op. cit., p. 377.

92. ‘Abdu’l-Bahá, Foundations of World Unity (Wilmette: Bahá’í Publishing Trust, 1979), p. 21.

93. Lester Bowles Pearson (1897-1972) recebeu o Prêmio Nobel da Paz, em 1957, por sua formulação de políticas internacionais no período logo após a Segunda Guerra Mundial, particularmente por seu plano que levou ao estabelecimento da primeira força de emergência das Nações Unidas para ao Canal de Suez, em 1956 – uma resposta à crise criada com a invasão do Egito pelas forças militares da Inglaterra e da França, atuando em conjunto com as forças de Israel, depois da tomada do Canal de Suez pelo Egito. A primeira votação formal de sanções contra a agressão, feita em 1936 pela Liga das Nações, quando a Itália fascista invadiu a Etiópia, foi exaltada por Shoghi Effendi como “um evento sem paralelo na história humana”. (Vide, Shoghi Effendi, The World Order of Bahá’u’lláh, op. cit., p. 191)

94. Os três Secretários Geral mencionados foram, por ordem cronológica, Javier Pérez de Cuellar (1982-1992), Peru; Boutros Boutros-Ghali (1992-1996), Egito; e Kofi Annan (1997 até os dias atuais), Gana.

95. Anne Frank (1929-1945) – jovem judia, vítima do genocídio nazista, capturada em esconderijo em casa de sua família na Holanda em agosto de 1944. Seu diário foi publicado em 1952 sob o título “O Diário de uma Jovem Mulher”, e posteriormente dramatizado em um filme. Martin Luther King Jr. (1929-1968) – pastor norte americano laureado com o Nobel da Paz, um dos principais líderes do movimento pelos direitos civis na América do Norte, foi assassinado em 4 de abril de 1968, em Memphis, Tennessee. Esse dia é comemorado nos Estados Unidos como feriado, na terceira segunda feira de janeiro. Paulo Freire (1921-1997) – educador brasileiro inovador, cujo trabalho pioneiro na educação de adultos lhe trouxe fama e reconhecimento internacionais, mas que o levou a dois períodos de prisão em seu próprio país. Kiri Te Kanawa (1944-) nascida na Nova Zelândia de origem maori, hoje uma das mais famosas cantoras de opera do mundo. Recebeu a Ordem de Dama Comandante do Império Britânico, outorgada por Sua Majestade a Rainha Elizabeth II, em 1982. Gabriel Garcia Marques (1928-) Escritor colombiano e novelista, vencedor do Nobel de Literatura em 1982, foi compelido a exilar-se de 1960 a 1970 no México e Espanha para escapar da perseguição em sua própria terra natal. Ravi Shankar (1920-) – compositor indiano e citarista, cujo extraordinário talento e recitais pela Europa e América do Norte muito contribuíram para o despertar do interesse pela música da Índia no Ocidente. Andrei Dmitriyevich Sakharov (1921-1989) – Físico nuclear russo, que abandonou a pesquisa científica para tornar-se um líder em prol das liberdades civis na União Soviética, por cujo trabalho recebeu o Prêmio Nobel da Paz de 1975, quando ainda exilado em seu próprio país. “Madre Teresa de Calcutá” (Agnes Gonxha Borjaxhiu, 1910-1997) – Nascida na Albânia, freira da Igreja Católica, fundadora dos Missionários da Caridade, cujo trabalho abnegado em prol dos pobres, dos destituídos e dos famintos em Calcutá mereceu o Prêmio Nobel da Paz em 1979. Zhang Yimou (1951-) Um proeminente diretor de cinema da “Quinta Geração” de diretores da China, vencedor de muitos prêmios internacionais por sua sensibilidade e impressionante trabalho visual.

96. As três Assembléias Espirituais Nacionais eram a do Canadá, que foi formada em 1947 ao ser desmembrada da Assembléia Espiritual Nacional dos Estados Unidos, e as Assembléias Regionais da América Central e das Antilhas, em 1951, e da América do Sul, em 1951 também.

97. Shoghi Effendi, Messages to the Bahá’í World, 1950-1957 (Wilmette: Bahá’í Publishing Trust, 1995), p. 41.

98. Idem, pp. 38-39.

99. A Última Vontade e Testamento de ‘Abdu’l-Bahá, op. cit., p. 17.

100. Sob a liderança de dois meio-irmãos de ‘Abdu’l-Bahá, Muhammad ‘Alí e Badí’u’lláh, juntos com um primo, Madji’d-Dín, o grupo de rompedores do Convênio que por longo tempo ocupou a Mansão de Bahjí depois da morte de Bahá’u’lláh, iniciou uma campanha incansável de ataques e maquinações, tanto contra o Mestre como contra o Guardião. Sob o Mandato Britânico, eles foram obrigados a deixar a Mansão devido à sua negligência, deixando a propriedade em estado de abandono, podendo então o Guardião restaurar a Mansão e estabelecer sua condição aos olhos das autoridades civis como um Lugar Sagrado. Subseqüentemente, Shoghi Effendi conseguiu com o recém formado governo de Israel o reconhecimento de que a inteira propriedade tinha esse caráter privilegiado; e uma ordem oficial foi emitida, exigindo que os remanescentes rompedores do Convênio deixassem definitivamente a propriedade ao lado da Mansão, que ainda ocupavam. Quando o apelo que fizeram à Corte Suprema, contra esse julgamento, falhou, a ordem de despejo foi executada, a casa demolida por instrução do Guardião, e o último obstáculo para o embelezamento da propriedade foi vitoriosamente superado.

101. Epístolas de Bahá’u’lláh, op. cit., p. 79.

102. A Última Vontade e Testamento de ‘Abdu’l-Bahá, op. cit., p. 25.

103. Um relato completo do papel exercido pelas Mãos da Causa durante esses anos críticos foi feito por Amatu’l-Bahá Rúhíyyih Khánum, no livro Ministry of the Custodians (Haifa: Centro Mundial Bahá’í, 1997).

104. Shoghi Effendi, A Dispensação de Bahá’u’lláh, op. cit., p. 70.

105. A Última Vontade e Testamento de ‘Abdu’l-Bahá, op. cit., p. 25.

106. Casa Universal de Justiça, Messages from the Universal House of Justice, 1963-1986: The Third Epoch of the Formative Age (Wilmette: Bahá’í Publishing Trust, 1996), p. 14.

107. O assunto é discutido em vários lugares no livro The Priceless Pearl. Vide particularmente as páginas 79, 85, 90, 128 e 159.

108. Epístolas de Bahá’u’lláh Reveladas após o Kitáb-i-Aqdas, op. cit., p. 80.

109. ‘Abdu’l-Bahá, O Segredo da Civilização Divina, op. cit., pp. 113.

110. J. E. Esslemont, Bahá’u’lláh e a Nova Era (Mogi-Mirim: Editora Bahá’í do Brasil, 2001), p. 239.

111. Última Vontade e Testamento de ‘Abdu’l-Bahá, op. cit., p. 14.

112. Shoghi Effendi, The World Order of Bahá’u’lláh, op. cit., p. 8.

113. Bahá’u’lláh, O Kitáb-i-Aqdas, op. cit., parágrafo 83.

114. Bahá’u’lláh, Epístola ao Filho do Lobo (Mogi-Mirim: Editora Bahá’í do Brasil, 1997), p. 33.

115. Shoghi Effendi, The World Order of Bahá’u’lláh, op. cit., pp. 43, 195.

116. Idem, p. 24.

117. Epístolas de Bahá’u’lláh Reveladas após o Kitáb-i-Aqdas, op. cit., pp. 77-78.

118. Shoghi Effendi, O Advento da Justiça Divina, op. cit., p. 44.

119. The Establishment of the Universal House of Justice, compilado pelo Departamento de Pesquisa da Casa Universal de Justiça (Oakham: Bahá’í Publishing Trust, 1984), p. 17.

120. Universal House of Justice, Messages from the Universal House of Justice, 1963-1986: The Third Epoch of the Formative Age, op. cit., p. 52.

121. Idem, p. 104.

122. Bahá’í News, n. 73, maio de 1933 (Wilmette: Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá’ís dos Estados Unidos), p. 7.

123. O Instituto foi criado pela Casa Universal de Justiça em 1998 como um órgão da Comunidade Internacional Bahá’í, reportando-se à Casa Universal de Justiça através do Escritório de Informação Pública. Seu mandato descreve o Instituto como sendo uma agência “dedicada à pesquisa tanto espiritual como material dos fundamentos do conhecimento humano e dos processos de desenvolvimento social”.

124. A finalidade do Centro é descrita como de promover “pesquisa de uma forma sistemática sobre a Fé Bahá’í, incluindo sua cultura religiosa, espírito humanitário e ética religiosa.

125. Citado em Star of the West, vol. 13, n. 7 (outubro de 1922), pp. 184-186.

126. ‘Abdu’l-Bahá, Epístolas do Plano Divino, op. cit., p. 54-55.

127. Começando em aproximadamente 1904, um crente iraniano conhecido como Sadru’s-Sudúr estabeleceu o primeiro curso de capacitação de professores para a juventude bahá’í, em Teerã, com o estímulo de ‘Abdu’l-Bahá. A classe se reunia diariamente, e os graduados, que eram capacitados também sobre as crenças de outras religiões, aprendiam vários aspectos da Fé Bahá’í, contribuíram muito para a expansão e consolidação da Causa em sua terra natal.

128. O modelo em questão é o “Instituto Ruhi”, cujos materiais e métodos foram adaptados por muitas comunidades bahá’ís por todo o mundo. Sua filosofia pedagógica consiste da integração das atividades de serviço com o estudo concentrado dos próprios Escritos Bahá’ís. Organizado como uma série de graus de estudo, que formam um “tronco” central de entendimento básico sobre os pontos essenciais ensinados por Bahá’u’lláh, o sistema permite expansão para o desenvolvimento quase infinito de parte das comunidades que o utilizam com a criação de galhos complementares para atender a necessidades particulares.

129. Shoghi Effendi, A Presença de Deus, op. cit., p. 19.

130. ‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, op. cit., pp. 43-44.

131. Moojan Momen, The Bábí and Bahá’í Religions, 1844-1944: Some Contemporary Western Accounts, op. cit., pp. 186-187.

132. The Bahá’í World, vol. XV, op. cit., pp. 29, 36.

133. The Bahá’í World, vol. IV (Nova York: Bahá’í Publishing Committee, 1933), pp. 257-261. Provê uma curta história da fundação e do funcionamento da agência.

134. The Bahá’í World, vol. III (Nova York: Bahá’í Publishing Committee, 1930), pp. 257-261. Contém o texto de uma Petição formal à Comissão de Mandatos Permanentes da Liga, de parte dos bahá’ís do Iraque, e que faz um sumário da história do caso.

135. Shoghi Effendi, A Presença de Deus, op. cit., p. 483.

136. O texto completo da Declaração pode ser encontrada em World Order Magazine, abril de 1947, vol. XIII, n. 1.

137. The Bahá’í Question, Iran’s Secret Blueprint for the Destruction of a Religious Community. An Examination of the Persecution of the Bahá’ís of Iran (Nova York: Bahá’í International Community, 1999), preparado pela Comunidade Internacional Bahá’í, Escritório das Nações Unidas, para distribuição aos membros da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas [este trabalho foi publicado em português pela Câmara de Deputados do Brasil (n.t.)].

138. Excertos de um artigo de Edward Granville Browne, publicado em Religious Systems of the World: A Contribution to the Study of Comparative Religion, 3a. ed. (Nova York: Macmillan, 1892), pp. 352-353.

139. Durante os nove anos de sua existência, o escritório foi responsável pelo estabelecimento de cerca de dez mil refugiados bahá’ís iranianos em vinte e sete países.

140. Até esta data, noventa e nove Assembléias Espirituais Nacionais receberam treinamento intensivo no programa.

141. A Conferência de Mulheres de Beijing permitiu que cinqüenta dentre duas mil organizações não-governamentais participantes apresentassem oralmente suas declarações. Tendo em vista o fato da Comunidade Internacional Bahá’í ter tido este privilégio em duas conferências anteriores, mais especialmente a do Rio de Janeiro sobre o meio ambiente e a de Copenhague sobre desenvolvimento social e econômico, os representantes da Comunidade cederam este privilégio ao Centro de Moscou para o Estudo de Gênero.

142. Um relato completo, incluindo o texto da decisão da Corte Constitucional Federal Alemã, pode ser encontrado em The Bahá’í World, vol. XX (Haifa; Centro Mundial Bahá’í, 1998), pp. 571-606.

143. Sessão Solene da Câmara Federal, Brasília, 28 de maio de 1992 (reimpressa, com uma versão em língua inglesa, pela Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá’ís do Brasil, 1992).

144. Seleção dos Escritos de ‘Abdu’l-Bahá, op. cit., p. 29, seção 15.

145. Assembléia Geral das Nações Unidas, Qüinquagésima Quarta Sessão, Agenda Item 149 (b) “United Nations Reform Measures and Proposals: The Millennium Assembly of the United Nations”, 8 de agosto de 2000 (documento no A/54/959), p. 2.

146. Vide Commitment to Global Peace, declaração do “Millennium World Peace Summit of Religions and Spiritual Leaders”, apresentado ao Secretário-Geral das Nações Unidas Kofi Annan em 29 de agosto de 2000 durante sessão de cúpula na Assembléia Geral das Nações Unidas.

147. Assembléia Geral das Nações Unidas, Qüinquagésima Quarta Sessão, Agenda Item 61 (b) “The Millennium Assembly of the United Nations”, 8 de setembro de 2000 (documento no A/55/L.2), seção 32.

148. Os respectivos propósitos dos três encontros do Milênio, bem como o envolvimento da comunidade bahá’í nestes encontros, foram resumidos numa carta da Casa Universal de Justiça a todas as Assembléias Espirituais Nacionais, datada de 24 de setembro de 2000.

149. Shoghi Effendi, The World Order of Bahá’u’lláh, op. cit., p. 42.

150. Seleção dos Escritos de Bahá’u’lláh, op. cit., CXXXVI.

151. Bahá’u’lláh, O Kitáb-i-Íqán, op. cit., p. 25.

152. Bahá’u’lláh, Prayers and Meditations (Wilmette, Bahá’í Publishing Trust, 1998 ), p. 295, (seção CLXXVIII).

153. Shoghi Effendi, The World Order of Bahá’u’lláh, op. cit., p. 193.

154. Idem, p. 196.

155. Bahá’u’lláh, O Kitáb-i-Aqdas, op. cit., parágrafo 186.

156. Idem, parágrafo 54.

157. Shoghi Effendi, Messages to the Bahá’í World, 1950-1957, op. cit., p. 74.

158. Isaías 2:2.

159. Shoghi Effendi, O Advento da Justiça Divina, op. cit., p. 125.

160. Seleção dos Escritos de ‘Abdu’l-Bahá, p. 276.

161. Bahá’u’lláh, A Proclamação de Bahá’u’lláh (Rio de Janeiro: Editora Bahá’í do Brasil, 1977), pp. 79-80.

162. Seleção dos Escritos de Bahá’u’lláh, op. cit., XIV.


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