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More Books by 'Abdu'l-Bahá

A Última Vontade e Testamento
Alicerces da Unidade Mundial
Epístola a Haia
Epístola ao Dr. Forel
Epístolas do Plano Divino
Narrativa de um Viajante
O Segredo da Civilização Divina
Palestras de 'Abdu'l-Bahá Londre 1911
Palestras de 'Abdu'l-Bahá Paris 1911 - Paris Talk
Promulgação da Paz Universal
Respostas a Algumas Perguntas
Selecao dos Escritos de 'Abdu'l-Baha
Tltima Vontade e Testamento, A
Tributo aos Fiéis
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'Abdu'l-Bahá : Palestras de 'Abdu'l-Bahá Londre 1911
Palestras de 'Abdu'l-Bahá
Londres - 1911
Compiladas por Eric Hammond
Título original: 'Abdu'l-Bahá in London
Editora Bahá'í do Brasil
Tradução: Bijan Ardjomand
Nota:

A primeira publicação destas palestras foi através dos bons serviços de Lady Blomfield, em 1912, pela revista bahá'í norte-americana "Star of the West", volume III, no 19. Em 1921, a Sociedade Bahá'í de Publicações de Chicago publicou-as como uma edição independente; entretanto, o material original não está mais disponível e sendo assim, a Casa Universal de Justiça pede que declaremos que não é mais possível verificar as traduções das palavras de 'Abdu'l-Bahá.

PREFÁCIO
À PRIMEIRA EDIÇÃO EM PORTUGUÊS

De 1911 a 1913, 'Abdu'l-Bahá empreendeu Suas audaciosas viagens de ensino ao continente europeu e norte-americano, divulgando incessantemente neles a mensagem curadora de paz e unidade da humanidade.

Com idade avançada (67 anos) e debilitado devido a uma vida inteira de exílio, privação, sofrimento e perseguição, 'Abdu'l-Bahá faz Seu primeiro discurso a um público ocidental no City Temple, Londres, em 10 de setembro de 1911. Em 3 de outubro, Ele deixa a Inglaterra e parte para a França, ficando em Paris por nove semanas. Deixando a Europa em 2 de dezembro de 1911, 'Abdu'l-Bahá retorna ao Egito na primavera seguinte, quando Ele inicia Sua segunda viagem ao Ocidente, desta vez para a América, onde no curso de oito meses, visita mais de quarenta cidades, do Atlântico ao Pacífico, em ambos os Estados Unidos e Canadá. Em Wilmette, Chicago, lança a pedra fundamental do primeiro Templo Bahá'í no Ocidente. Em dezembro de 1912, ele volta a visitar a Inglaterra e procede novamente para a França e subseqüentemente visita um grande número de cidades européias, incluindo Stuttgart, Viena e Budapeste, antes de embarcar para o Egito, onde permanece por quase 5 meses Se restabelecendo, e volta para Israel, em dezembro de 1913, nunca mais retornando ao Ocidente, vindo a falecer em Haifa, em 1921.

Durante estas estadias no Ocidente, proclamando a Mensagem divina de Bahá'u'lláh a todas as camadas da sociedade ocidental, Ele palestrava em persa e árabe, e simultaneamente elas eram traduzidas ou para o inglês, ou francês, ou alemão ou para a língua do país que estava visitando. Ao mesmo tempo, sempre que possível, alguém tomava notas estenográficas das palestras no idioma original e às vezes, na língua do país. Foram esses apontamentos em inglês e francês, compilados por devotados bahá'ís que deram origem à Coleção "Palestras de 'Abdu'l-Bahá".

O livro Palestras de 'Abdu'l-Bahá; Londres - 1911, é uma coletânea de Suas palestras durante Sua primeira estadia naquela cidade, compiladas por E. Hammond * e publicado em 1912 pelos bons préstimos de lady Blomfield. Ela, também, publica três outras palestras da segunda passagem de 'Abdu'l-Bahá em Londres (1912-1913), porém as inclui no final do livro de Paris - 1911.

* Peter Smith, A Concise Encyclopedia of the Bahá'í Faith, p. 20 e 337.

O livro Palestras de 'Abdu'l-Bahá; Paris - 1911, é outra coletânea de Suas palestras durante Sua primeira estadia naquela cidade, compiladas por lady Blomfield, com ajuda de suas duas filhas e Beatrice Platt. Elas foram publicadas a pedido de 'Abdu'l-Bahá.

O livro Palestras de 'Abdu'l-Bahá; Estados Unidos e Canadá - 1912, o único a receber um título pelo próprio 'Abdu'l-Bahá - A Promulgação da Paz Universal - é outra coletânea de Suas palestras durante Sua permanência no continente americano, compiladas por Howard MacNutt. Sua publicação foi estimulada por 'Abdu'l-Bahá.

Infelizmente, 'Abdu'l-Bahá não leu e não autenticou todas as transcrições de Suas palestras, algumas destas tendo sido traduzidas e publicadas em várias línguas. Muitas delas, incluídas nesta "coleção", nenhum texto autêntico foi ainda achado. No entanto, Shoghi Effendi, o Guardião da Fé Bahá'í, permitiu que estas compilações fossem usadas pelos amigos.

No caso específico de Palestras de 'Abdu'l-Bahá; Londres - 1911, nenhuma transcrição original existe e Shoghi Effendi esclarece que "'Abdu'l-Bahá in London não pode ser considerado como escritura devido a não haver texto original. Uma gravação verbal de Suas palestras em persa, seria, é claro, mais confiável que em inglês, porque Ele nem sempre era interpretado com precisão. Entretanto, este livro tem valor e certamente tem seu lugar em nossa Literatura". * E a respeito do status das palestras de 'Abdu'l-Bahá que estão publicadas no Palestras de 'Abdu'l-Bahá; Paris - 1911 e A Promulgação da Paz Universal algumas transcrições originais em persa destas palestras estão disponíveis, porém não todas. O Departamento de Pesquisa da Casa Universal de Justiça não pode no momento, providenciar uma lista detalhada de quais extratos são autênticos e quais não são, pois até o presente, tal lista não foi compilada. Isto não quer dizer que as não-identificadas tenham que parar de ser usadas - meramente que o grau de autenticação de cada documento terá de ser conhecido e compreendido. **

* Shoghi Effendi. Unfolding Destiny. BPT of U.K., 1981, p. 208.

** Trecho da carta da Casa Universal de Justiça de 23 de março de 1987.

No futuro, cada palestra *** terá de ser identificada e aquelas que não forem identificadas terão que ser claramente diferenciadas daquelas que fazem parte da Escritura Bahá'í.

*** Há outras compilações de Suas palestras. Das que são de conhecimento público, uma é de Sua segunda passagem por Paris em 1913; compiladas pela sra. I. Chamberlein: 'Abdu'l-Bahá on Divine Philosophy. Outra é uma compilação feita pela Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá'ís do Canadá, sobre a passagem de 'Abdu'l-Bahá no Canadá em 1912, intitulada 'Abdu'l-Bahá in Canada.

Editora Bahá'í do Brasil
ITINERÁRIO DE 'ABDU'L-BAHÁ
EGITO E VIAGENS AO OCIDENTE
Egito
1910 Partida de Haifa, ? Ago.
Port Said
Alexandria (Ramlih) até 11/8/1911
A Primeira Visita à Europa
1911 Londres, 4-23 Set.
Bristol, 23-25 Set.
Londres, 25 Set. - 3 Out.
Paris, 3 Out. - 2 Dez.
Retorna para o Egito
América do Norte
Costa Leste
1912 Partida de Alexandria, 25 Mar.
Nova York, 11-20 Abr.
Washington DC, 20-28 Abr.
Chicago, 29 Abr. - 6 Maio
Cleveland, OH, 6-7 Maio
Pittsburgh, 7-8 Maio
Washington DC, 8-11 Maio
Nova York, 11-14 Maio
(Montclair, NJ, 12 Maio)
Lake Mohawk, NY, 14-16 Maio
Nova York, 16-22 Maio
Boston, 22-26 Maio
(Worcester, MA, 23 Maio)
Nova York, 26-31 Maio
Fanwood, NJ, 31 Maio - 1 Jun.
Nova York, 1-3 Jun.
Milford, PA, 3 Jun.
Nova York, 4-8 Jun.
Filadélfia, 8-10 Jun.
Nova York, 10-20 Jun.
Montclair, NJ, 20-25 Jun.
Nova York, 25-29 Jun.
West Englewood, NJ, 29-30 Jun.
Morristown, NJ, 30 Jun.
Nova York, 30 Jun. - 23 Jul.
(West Englewood, NJ, 14 jul.)
Boston, 23-24 Jul.
Dublin, NH, 24 Jul. - 16 Ago.
Greenacre, nr. Eliot, ME, 16-23 Ago.
Malden, MA, 23-29 Ago.
Montreal, Quebec, 30 Ago. - 9 Set.
Buffalo, NY, 9-12 Set.
Centro-Oeste
Chicago, 12-15 Set.
Kenosha, WI, 15-16 Set.
Chicago, 16 Set.
Minneapolis, 16-21 Set.
Oeste
Omaha, NB, 21 Set
Lincoln, NB, 23 Set.
Denver, CO, 24-27 Set.
Glenwood Springs, CO, 28 Set.
Salt Lake City, UT, 29-30 Set.
São Francisco, 1-13 Out.
Pleasanton, CA, 13-16 Out.
São Francisco, 16-18 Out.
Los Angeles, 18-21 Out.
São Francisco, 21-25 Out.
Sacramento, 25-26 Out.
Denver, 28-29 Out.
Volta para o Leste
Chicago, 31 Out. - 3 Nov.
Cincinnati, OH, 5-6 Nov.
Washington, DC, 6-11 Nov.
Baltimore, 11 Nov.
Filadélfia, 11 Nov.
Nova York, 12 Nov. - 5 Dez.
Segunda Visita à Europa
Inglaterra
Liverpool, 13-16 Dez

Londres, 16 Dez - 6. Jan. 1913 (Oxford, 31 Dez.)

1913 Edinburgh, 6-11 Jan.
Londres, 11-15 Jan.
Bristol, 15-16 Jan.
Londres, 16-21 Jan. (Woking, 18 Jan.)
Europa Continental
Paris, 22 Jan. - 30 Mar.

Stuttgart, 1-8 Abril (Bad Mergentheim, 7-8 Abr.

Vienna, 8 Abr.
Budapeste, 9-19 Abr.
Stuttgart, 25 Abr. - 1 Maio
Paris, 2 Maio - 12 Jun.
Marselha, 12-13 Jun.
Egito Novamente
Port Said, 17 Jun. - 11 Jul.
Ismá'iliyyah, 11-17 Jul.
Alexandria (Ramlih), 17 Jul. - 2 Dez.
Retorno para Haifa, 5 Dez.
INTRODUÇÃO

Relativamente poucos dos fiéis em Londres e Paris haviam sido abençoados pela possibilidade de viajar a 'Akká para encontrar 'Abdu'l-Bahá face a face; ouvir Sua voz; ser nutridos física e espiritualmente por Sua própria pessoa. Muitos ansiavam vê-Lo, conversar com Ele, mas foram obstados por diferentes dificuldades. O crente firme que diligentemente havia mantido a chama acesa na Inglaterra, pôde sugerir que como os grilhões do Mestre haviam sido finalmente rompidos e os portões de Sua prisão abertos, Ele poderia ganhar saúde e conforto viajando; que poderia de fato visitar Seu povo no Ocidente. Para eles, tal satisfação parecia quase inacreditável e, quando houve atraso, eles perguntavam uns aos outros com hesitação: "Cadê a promessa de Sua vinda?" A felicidade deles concretizou-se com Sua vinda. Ele chegou em Londres, com o segredo da Suprema Paz, de modo praticamente inesperado. O objetivo principal e supremo de Sua vinda foi o estabelecimento da prometida Paz Universal.

Hospedado sob o teto daquela que Ele chamou de Sua "respeitada filha", imediata e alegremente Ele Se pôs "à vontade", o dia todo, todos os dias, com os visitantes que se apinhavam para Lhe prestar homenagem e receber Suas bênçãos. A atmosfera que O cercava harmonizava-se com o perfeito espírito de incansável cortesia e benevolência dEle próprio. Professores de diferentes credos vinham e eram conquistados pelo encanto de Suas maneiras e a convicção de Sua alma. Sua mensagem de unidade penetrava fundo nos corações de Seus ouvintes, quaisquer que fossem as suas religiões.

Muitas perguntas Lhe foram apresentadas. Suas respostas, apesar da possível desvantagem da necessidade de tradução, surpreenderam e deleitaram Seus ouvintes. Sua compreensão de seus pensamentos, e Suas prontas e calorosas respostas foram recebidas com admiração e cordialidade. Muito ocasionalmente Ele era persuadido a passear de carro por algumas ruas movimentadas da cidade ou em algum dos parques, sob o sol de um esplêndido verão. Ocasionalmente, também, para o deleite e elevação espiritual dos bahá'ís, Ele foi levado a sedes de associações e entidades. Lá Ele proferiu discursos, geralmente breves, mas sempre relevantes, tratando diretamente de Sua missão e Sua mensagem. Sua voz estava sempre vibrante com a expressão de unidade e paz. Apenas uma ou duas vezes Ele Se permitiu o prazer de visitar amigos no interior campestre do país. Num pequeno automóvel, Se deslocava a um típico povoado, ou até uma cidade grande, como Bristol na parte ocidental da ilha; nestas cidades Ele não só encontrou hospitalidade, mas reuniões muito reverentes e atenciosas. Em outros dias memoráveis, 'Abdu'l-Bahá dirigiu-Se a grandes audiências em locais de adoração e de assistência social. O pastor do Templo da Cidade, o reverendo R. J. Campbell, apresentou-O, de um modo extremamente bondoso, a uma congregação numerosa que ouviu 'Abdu'l-Bahá com imenso interesse, sendo que o discurso era imediatamente traduzido para o inglês.

Na Igreja de S. João, em Westminster, o venerável arquidiácono Wilberforce realizou um ofício semelhante, no qual, a seu pedido, a congregação ajoelhou-se para receber as bênçãos de 'Abdu'l-Bahá. Na Fundação Passmore Edward, em Tavistock Place, uma grande audiência reuniu-se para ver e ouvi-Lo.

Uma profunda impressão permaneceu nas mentes e memórias de homens e mulheres de todos os tipos e condições. A todo instante, a amplidão da compaixão de 'Abdu'l-Bahá mostrava-se tão eficaz quanto Seu discernimento e perspicácia em lidar com dificuldades tanto sutis como óbvias. Cada pessoa que se aproximava dEle sentia-se confortada e se via maravilhada e aliviada pela compreensão de 'Abdu'l-Bahá das diferenças religiosas e, acima de tudo, da concórdia religiosa - algumas vezes, durante um monólogo breve, porém magistral; em outras vezes, através de perguntas e respostas, cujos temas de interesse individual ou universal eram tratados e explicados.

A permanência de 'Abdu'l-Bahá em Londres foi muito apreciada; e Sua partida, muito lastimada. Ele deixou muitos amigos atrás de Si. Seu amor irradiou amor. Seu coração abriu-se ao Ocidente e os corações ocidentais se aglomeraram em torno de Sua presença patriarcal oriunda do Oriente. Suas palavras continham em si algo que atraía não somente Seus ouvintes diretos, mas a todos os homens e mulheres em geral. Sua perspectiva era tão confiante e Sua alma tão determinada na proclamação dos princípios de unidade e paz, que Seus discursos e Suas respostas não poderiam permanecer sem serem registrados. Esta tentativa de reproduzi-los para o benefício de todos é feita na certeza e na esperança segura de que em virtude delas, o propósito e o trabalho do Orador poderão ser compreendidos e Seus esforços apoiarão professores de todos os credos e os habitantes de todas as regiões.

Eric Hammond
A ANGÚSTIA DO MUNDO
PRÓLOGO

Por que as nações estão em angústia até os mais remotos confins da terra?

Que sinais são estes do Oriente para o Ocidente?
Que Salvador se esforça por nascer?

A China desperta de seu longo período de sono, pois é a terra do sol-nascente.

Mostrou ao Oriente que ela pode rivalizar com o Ocidente em mercadoria e pólvora;

Amarelos e pardos, mongóis e mouros, você pode contar com eles, meu filho.

Quem irá unir o Oriente ao Ocidente? Quem irá fazer um só desses díspares?

O Senhor Buda - o Iluminado, ou Aquele da planície do Jordão? O Profeta de Alá, ou Aquele que ultimamente caminhou ao sopé do Carmelo - o Filho Santíssimo da Pérsia que brilhou com o esplendor de Deus?

Jamais o Oriente aderirá a Ocidente, até que os deuses compartilhem da mesma morada.

Do Alcorão, o muçulmano ouve a Verdade que deve aprender; nos Vedas, o hindu vê o Caminho que seus pés devem seguir; em Moisés e nos Profetas, o judeu restaura sua alma; no Evangelho, o cristão encontra a Vida que é a totalidade; e todos compreenderão a mesma língua, não importa qual o pergaminho.

Que Deus é um; que os homens são um; a Fé é sempre a mesma.

Que o Amor ainda é a palavra mais próxima para indicar o Nome inominável.

Este é o Credo do Oriente e do Ocidente, quando se sonda as profundezas, meu filho.

Pois a Palavra do Senhor é unidade, e a Vontade do Senhor será cumprida.

Mãos são negras, brancas, amarelas ou pardas, mas a matiz do coração é uma só.

Harrold Johnson
jornalista do Daily News
Palestras Públicas
O Templo da Cidade
Introdução

Em 10 de dezembro, o primeiro domingo após a chegada de 'Abdu'l-Bahá à Inglaterra, Ele falou do púlpito do Templo da Cidade à congregação noturna, atendendo ao desejo especial do pastor, o reverendo R. J. Campbell.

Embora a vinda de 'Abdu'l-Bahá não tivesse sido divulgada, a igreja estava lotada ao máximo de sua capacidade. Dos que lá estavam, poucos esquecerão a visão daquela venerável figura, vestida em Seus trajes orientais, subindo os degraus do púlpito para Se dirigir a uma reunião pública pela primeira vez em Sua vida. O fato de ser um lugar de adoração cristã no Ocidente tem seu próprio significado profundo. O sr. Campbell apresentou o visitante com poucas e simples palavras, durante as quais disse: "Como seguidores do Senhor Jesus Cristo que para nós é e sempre será a Luz do Mundo, nós vemos com simpatia e respeito todo movimento do Espírito de Deus na experiência da humanidade, e por isso, em nome de todos aqueles que compartilham o espírito do nosso Mestre e procuram viver suas vidas de acordo com esse espírito, saudamos 'Abdu'l-Bahá. O movimento bahá'í é muito intimamente afim, e acho mesmo que posso dizer idêntico, ao espírito e propósito do cristianismo."

Antes de sair da igreja, 'Abdu'l-Bahá escreveu na antiga Bíblia, usada por gerações de pregadores, as seguintes palavras em Seu próprio idioma nativo, o persa, seguido da seguinte tradução:

Este é o Sagrado Livro de Deus, de inspiração celestial. É a Bíblia da salvação. O nobre Evangelho. É o mistério do Reino e sua luz. É a Graça Divina, o sinal da orientação de Deus.

'Abdu'l-Bahá 'Abbás
Palestra de 'Abdu'l-Bahá
no Templo da Cidade *

* Esta palestra é publicada com a gentil permissão, em 13 de setembro de 1911, da Comunidade Cristã. Proferida por 'Abdu'l-Bahá, na língua persa, do púlpito do Templo da Cidade, a tradução foi então lida para a congregação pelo sr. W. Tudor-Pole.

Domingo, 10 de Setembro de 1911

Ó nobres amigos, buscadores de Deus! Louvado seja Deus! Hoje a luz da Verdade resplandece profusamente sobre o mundo; as brisas do jardim celestial sopram por todas as regiões; o chamado do Reino é ouvido em todas as terras e o alento do Espírito Santo é sentido em todos os corações fiéis. O Espírito de Deus concede vida eterna. Nesta maravilhosa era, o Oriente é iluminado, o Ocidente é fragrante, e em toda parte a alma inala o perfume sagrado. O mar da unidade da humanidade ergue suas vagas com júbilo, pois há verdadeira comunhão entre os corações e as mentes dos homens. A bandeira do Espírito Santo é içada, os homens a vêem e são animados pelo conhecimento de que este é um novo dia.

Este é um novo ciclo de poder humano. Todos os horizontes do mundo estão luminosos, e o mundo haverá de se tornar deveras um jardim e um paraíso. É a hora da unidade dos filhos dos homens e da congregação de todas as raças e classes. Vós estais livres das antigas superstições que mantiveram os homens ignorantes, destruindo os fundamentos da verdadeira humanidade.

A dádiva de Deus a esta era iluminada é o conhecimento da unicidade da humanidade e a unicidade fundamental da religião. A guerra há de cessar entre as nações e pela vontade de Deus há de vir a Suprema Paz; o mundo será visto como um novo mundo e todos os homens viverão como irmãos.

Nas eras antigas, desenvolveu-se um instinto de guerra na luta com animais selvagens; isto já não é mais necessário; ao contrário, cooperação e entendimento mútuos é que são conducentes ao máximo bem-estar da humanidade. Hoje a inimizade é apenas o resultado de preconceito.

Em As Palavras Ocultas, Bahá'u'lláh diz: "A mais amada de todas as coisas é a Justiça." Louvado seja Deus, neste país o estandarte da justiça foi erguido; um grande esforço está sendo feito para conceder a toda alma uma posição eqüitativa e verdadeira. Este é o desejo de todo caráter nobre; hoje, este é o ensinamento para o Oriente e o Ocidente; por isso, o Oriente e o Ocidente se entenderão e se respeitarão mutuamente, e se abraçarão como amantes há muito separados que encontram um ao outro.

Deus é um; a humanidade é uma; os fundamentos da religião são um. Vamos adorá-Lo e dar louvores por todos os Seus grandes Profetas e Mensageiros que manifestaram Seu esplendor e glória.

Que a bênção do Ser Eterno esteja convosco em toda a sua plenitude, que cada alma, de acordo com sua capacidade, possa obter copiosamente de Sua fonte.

Amém.
IGREJA DE SÃO JOÃO DE WESTMINSTER
INTRODUÇÃO

Em 17 de setembro, a pedido do respeitável arquidiácono de Westminster, 'Abdu'l-Bahá dirigiu-se, após o serviço noturno, à congregação de São João, o Divino. Com poucas palavras calorosas, características de sua postura como um todo, o arquidiácono de Wilberforce apresentou o respeitável Mensageiro do Oriente que havia cruzado mares e países na Sua missão de paz e unidade pela qual havia sofrido quarenta anos de prisão e perseguição. Para seu Convidado, o arquidiácono havia colocado a cadeira do bispo sobre os degraus do altar, e ele próprio em pé ao Seu lado leu a tradução da palestra de 'Abdu'l-Bahá. A congregação ficou profundamente comovida e, seguindo o exemplo do arquidiácono, ajoelhou-se para receber as bênçãos do Servo de Deus - que permaneceu com os braços estendidos - Sua maravilhosa voz erguendo-Se e desaparecendo no silêncio com o poder de Sua invocação. Em seguida, o arquidiácono disse: "Verdadeiramente, o Oriente e o Ocidente se encontraram esta noite neste lugar sagrado." A assembléia inteira entoou o hino Ó Deus, nosso amparo em eras passadas, enquanto 'Abdu'l-Bahá e o arquidiácono, de mãos dadas, dirigiram-se através das galerias para o conselho paroquial.

Na parte externa da igreja, membros do Exército da Salvação estavam reunidos e 'Abdu'l-Bahá ficou impressionado e comovido ao ver homens, mulheres e crianças reunidos naquela noite tocando e cantando no canto da rua.

DISCURSO DE 'ABDU'L-BAHÁ NA IGREJA DE
SÃO JOÃO DE WESTMINSTER
17 DE SETEMBRO DE 1911

Ó nobres amigos! Ó buscadores do Reino de Deus! Em todo o mundo, o homem está buscando Deus. Deus é tudo que existe; mas a Realidade da Divindade é santificada acima de toda compreensão.

As imagens da Divindade que nos vêm à mente são produtos da nossa fantasia; elas existem no reino da nossa imaginação. Não correspondem à verdade; a verdade em sua essência não pode ser dita em palavras.

A divindade não pode ser abrangida porque ela é abrangente.

O homem, que também tem uma existência real, é abrangido por Deus; por isso, a Divindade que o homem pode compreender é parcial, não é completa. A Divindade é a Verdade efetiva e a existência real e não uma representação dela. A Divindade em si contém a Totalidade, e não é contida.

Embora o mineral, o vegetal, o animal e o homem possuam todos existência real, o mineral não tem qualquer conhecimento do vegetal. Não pode apreendê-lo. Não pode imaginar nem compreendê-lo.

O mesmo acontece com o vegetal. Qualquer que seja seu aperfeiçoamento, não importa o quanto possa se desenvolver, jamais poderá perceber o animal nem compreendê-lo. É, por assim dizer, desinformado a seu respeito. Não possui audição, visão ou compreensão.

O mesmo ocorre com o animal. Por mais que possa se desenvolver em seu próprio reino, por mais refinados que possam se tornar seus sentidos, não terá qualquer noção real do mundo humano ou de suas faculdades especiais do intelecto.

O animal não pode entender a esfericidade da terra, nem seu movimento no espaço, nem a posição central do sol, nem pode imaginar tais coisas como a abrangência do éter.

Embora o mineral, o vegetal, o animal e o próprio homem sejam seres reais, a diferença entre seus reinos impede os membros de um grau inferior de compreenderem a essência e a natureza daqueles de um grau superior. Assim sendo, como podem o temporal e o fenomênico compreender o Senhor das Hostes?

É evidente que isto é impossível!

Mas a Essência da Divindade, o Sol da Verdade, resplandece sobre todos os horizontes e difunde seus raios sobre todas as coisas. Cada criatura é o receptor de uma porção daquele poder, e o homem, que contém as perfeições do mineral, do vegetal e do animal, bem como as suas próprias qualidades distintivas, tornou-se o mais nobre dos seres criados. Está escrito que ele é criado à imagem de Deus. Ele descobre mistérios que eram ocultos; e traz à luz segredos que estavam escondidos. Através da ciência e da arte, ele traz poderes desconhecidos ao mundo visível. O homem percebe a lei oculta nas coisas criadas e colabora com ela.

Por fim, o Homem perfeito, o Profeta, é Alguém que é transfigurado, Alguém que tem a pureza e a clareza de um espelho perfeito - Alguém que reflete o Sol da Verdade. De tal Pessoa - de tal Profeta e Mensageiro - podemos dizer que a Luz da Divindade com as Perfeições celestiais nEle habitam.

Se dissermos que o sol é visto no espelho, não queremos dizer que o próprio sol desceu das sagradas alturas do céu e entrou no espelho! Isto é impossível. A Natureza Divina é vista nos Manifestantes e sua luz e esplendor são visíveis na máxima glória.

Por isso, os homens sempre foram ensinados e guiados pelos Profetas de Deus. Os Profetas de Deus são os Mediadores de Deus. Todos os Profetas e Mensageiros vêm do mesmo Espírito Santo e trazem a Mensagem de Deus, apropriada para a época em que aparecem. Neles há a mesma Luz e Eles são idênticos uns aos outros. Mas o Eterno não se torna fenomênico; nem pode o fenomênico se tornar eterno.

São Paulo, o grande Apóstolo, disse: "Nós todos, com face radiante, contemplando como num espelho a glória de Deus, somos transformados na mesma imagem de glória em glória, como pelo Espírito do Senhor."

Ó Deus Clemente! Ó Educador celestial! Esta assembléia é adornada com a menção de Teu santo Nome. Teus filhos volvem a face para Teu Reino, os corações estão jubilosos e as almas confortadas.

Deus misericordioso! Faze com que nos arrependamos de nossas falhas! Aceita-nos em Teu Reino celestial e concede-nos uma morada em que não haja erro. Dá-nos paz; dá-nos conhecimento, e abre diante de nós os portões de Teu céu.

Tu és Aquele que tudo concede! És o Perdoador! És o Misericordioso!

Amém.
SOCIEDADE TEOSÓFICA
INTRODUÇÃO

Em 30 de setembro, 'Abdu'l-Bahá visitou a Sociedade Teosófica em sua nova Sede a pedido explícito de sua presidenta, a sra. Annie Besant. Após um relato geral sobre o movimento e as simpáticas palavras de boas-vindas do sr. A. P. Sinnet, 'Abdu'l-Bahá levantou-Se e dirigiu-Se à enorme assembléia, falando sobre o caráter distintivo dos ensinamentos bahá'ís, elogiando calorosamente a avidez da Sociedade em sua busca da Verdade.

DISCURSO DE 'ABDU'L-BAHÁ NO CENTRO TEOSÓFICO
30 DE SETEMBRO DE 1911

Ó distinta assembléia! Ó amigos da Verdade! A natureza inerente do fogo é queimar, a natureza inerente da eletricidade é iluminar, a natureza inerente do sol é brilhar e a natureza inerente do solo é o poder de crescimento.

Não há separação entre uma coisa e suas qualidades inerentes.

A natureza inerente das coisas deste mundo é mudar, assim, em toda parte vemos a mudança das estações. Toda primavera é seguida de um verão e todo outono traz um inverno - todo dia, uma noite e toda noite, um amanhecer. Há uma seqüência em todas as coisas.

Assim, quando ódio, animosidade, luta, carnificina e frigidez de coração dominavam este mundo e escuridão cobria as nações, Bahá'u'lláh, como uma estrela brilhante, ergueu-Se do horizonte da Pérsia e resplandeceu com a poderosa Luz de Orientação, trazendo radiância celestial e estabelecendo o novo Ensinamento.

Ele declarou as máximas virtudes humanas; Ele manifestou os poderes Espirituais e os pôs em prática no mundo ao Seu redor.

Primeiro: Ele dá ênfase à busca da Verdade. Isto é o mais importante, pois as pessoas são facilmente levadas pela tradição. É por isso que elas freqüentemente se opõem umas às outras e contendem umas com as outras.

Mas a manifestação da Verdade revela a escuridão e se torna a causa da unicidade de fé e crença, pois a Verdade não pode ser dupla! Isto não é possível.

Segundo: Bahá'u'lláh ensinou a unicidade da humanidade; ou seja, todos os filhos dos homens estão abrigados pela misericórdia do Grande Deus. São os filhos de um só Deus; são educados por Deus. Ele colocou a coroa da humanidade sobre a cabeça de todos os servos de Deus. Portanto, todas as nações e povos devem se considerar irmãos. Todos eles são descendentes de Adão. São ramos, folhas, flores e frutos da mesma Árvore. São pérolas da mesma concha. Mas os filhos dos homens estão carentes de educação e civilização e precisam ser polidos até se tornarem radiantes e esplendorosos.

Homem e mulher devem ser ambos igualmente educados e igualmente respeitados.

São os preconceitos de raça, de pátria, de religião e de classe que têm sido a causa da destruição da humanidade.

Terceiro: Bahá'u'lláh ensinou que religião é o principal alicerce de amor e unidade e causa de unicidade. Se uma religião se tornar causa de ódio e desarmonia, será melhor que ela não exista. Ficar sem tal religião é melhor do que ficar com ela.

Quarto: Religião e ciência se entrelaçam uma com a outra e não podem ser separadas. Estas são as duas asas com as quais a humanidade deve voar. Uma asa só não é suficiente. Toda religião que não se relaciona com a ciência é mera tradição e não é a essencial. Portanto, ciência, educação e civilização são os mais importantes requisitos para a vida religiosa plena.

Quinto: A Realidade das religiões divinas é uma, pois a Realidade é una e não pode ser dupla. Todos os Profetas estão unidos em Suas mensagens, e inabaláveis. Eles são como o sol; nas diversas estações Eles aparecem em diferentes pontos de alvorecer no horizonte. Por isso, cada Profeta anterior deu as boas-novas do posterior, e cada posterior aceitou o anterior.

Sexto: Igualdade e fraternidade devem ser estabelecidas entre todos os membros do gênero humano. Isto está em concordância com a Justiça. Os direitos gerais do gênero humano devem ser guardados e preservados.

Todos os homens devem ser tratados eqüitativamente. Isto é inerente à própria natureza da humanidade.

Sétimo: as condições do povo devem ser administradas de tal modo que a pobreza desapareça e que, na medida do possível, cada um possa ter conforto segundo sua posição e grau. Enquanto os nobres e outros de alta posição se encontram em condições de tranqüilidade, os pobres também devem ser capazes de obter seu alimento diário sem passar pelos rigores da fome.

Oitavo: Bahá'u'lláh declarou o advento da Suprema paz. Todas as nações e povos se abrigarão à sombra da tenda da Suprema Paz e Harmonia - isto é, através de eleição geral será estabelecido um Grande Corpo de Arbitramento para apaziguar todas as diferenças e conflitos entre os governos a fim de que disputas não terminem em guerras.

Nono: Bahá'u'lláh ensinou que os corações devem receber a graça do Espírito Santo, de modo que seja estabelecida a civilização espiritual, pois a civilização material não é adequada para as necessidades do gênero humano e não pode ser causa de felicidade. A civilização material é como o corpo e a civilização espiritual como a alma. Sem alma, o corpo não pode viver.

Este é um pequeno resumo dos ensinamentos de Bahá'u'lláh. Para estabelecer isto, Bahá'u'lláh passou por grandes dificuldades e sofrimentos. Ele estava em constante confinamento e sofreu grande perseguição. Mas na fortaleza ('Akká) Ele ergueu um palácio espiritual e, da escuridão de Sua prisão, Ele irradiou um grande esplendor no mundo.

O desejo ardente dos bahá'ís é que estes ensinamentos sejam amplamente praticados e eles se esforçarão de coração e alma para dar suas vidas para este propósito, até que a luz celestial ilumine o mundo da humanidade por inteiro.

Eu estou muito feliz por poder conversar convosco nesta reunião e espero que esta minha profunda consciência seja aceitável para vós.

Oro por vós, para que sejais bem sucedidos em vossas aspirações e que as graças do Reino sejam vossas.

RECEPÇÃO DE DESPEDIDA
INTRODUÇÃO

Na véspera do dia de São Miguel, foi feita uma grande recepção de despedida para 'Abdu'l-Bahá no salão da Fundação Passmore Edwards que se encheu até sua máxima capacidade com pessoas representando todas as profissões, algumas vindo de longas distâncias.

Na plataforma, em torno de 'Abdu'l-Bahá, pessoas de diferentes nuanças de pensamento se agrupavam para expressar sua solidariedade para com a obra e a missão de Seu ilustre visitante. O professor Michael E. Sadler presidia a assembléia.

A reunião teve início com a Oração do Pai Nosso recitada em coro pela assembléia; esta foi seguida por uma oração pela unidade de Bahá'u'lláh e uma oração do século V atribuída ao papa Gelásio. Em seguida, o professor Sadler falou em palavras que jamais serão esquecidas por aqueles que as ouviram; e em Seu discurso usou uma citação de uma oração universal que um bahá'í havia apresentado a 'Abdu'l-Bahá no ano anterior no Egito e que havia sido completada por Ele e recomendada como uma que podia ser usada por povos de todas as religiões no Oriente e no Ocidente.

O presidente foi seguido por sir Richard Stapley, sr. Eric Hammond, sr. Claude Montefiore, sra. Stannard do Egito e outros. Assim que 'Abdu'l-Bahá deixou o salão, pessoas pobres da redondeza se aglomeraram na calçada para vê-Lo, entre elas, uma garota manca que usava muletas, de aparência ansiosa, Lhe foi especialmente apresentada.

REUNIÃO DE DESPEDIDA DE 'ABDU'L-BAHÁ *

* Reeditada mediante a gentil permissão, em 4 de outubro de 1911, da Comunidade Cristã.

29 DE SETEMBRO DE 1911

A convite do sr. Thornbourgh-Cropper, na noite da última sexta-feira, cerca de cento e sessenta pessoas representativas se encontravam no salão da Fundação Passmore Edwards, em Tavistock Place, para se despedirem de 'Abdu'l-Bahá 'Abbás na véspera de Sua partida a Paris. Chegando a Londres na segunda-feira à noite, 4 de setembro, Ele passou quatro semanas felizes e ativas em nosso meio. Com a exceção de uma breve visita a Bristol na semana passada, Ele permaneceu em Cadogan Gardens, no 97. Seu tempo ficou ocupado principalmente em entrevistas com pessoas que desejavam encontrá-Lo. Isto incluiu não poucos daqueles cujos nomes são familiares neste país, e alguns viajaram longas distâncias para vê-Lo.

Um belo espírito prevaleceu na sexta-feira à noite. A atmosfera estava muito diferente da de uma assembléia ordinária ou reunião religiosa. Todos os presentes foram enriquecidos pela sublime distinção dos procedimentos; todas as observações foram feitas no sentido de fraternidade, unidade e paz. Embora um relato das palestras dê uma idéia muito inadequada do efeito produzido, ainda assim, elas foram tão bem concebidas, tão sinceras, expressas de modo tão requinto que são todas dignas de serem reproduzidas. Entre outros, Amír 'Alí Siyyid escreveu lamentando sua impossibilidade de estar presente e o arquidiácono Willberforce enviou saudações afetuosas.

Após a Oração do Pai Nosso, a oração pela unidade de Bahá'u'lláh e a do papa Gelásio (século V), o professor Michael Sadler discursou como segue:

Discurso do Professor Michael Sadler

Nós nos reunimos para dar adeus a 'Abdu'l-Bahá e render graças a Deus por Seu exemplo de ensino e para que o poder de Suas orações traga luz aos pensamentos confusos, esperança onde haja temor, fé onde haja dúvida, e aos corações pesarosos o amor que supera egoísmo e temor.

Embora nós todos, entre nós próprios, tenhamos nossa lealdade pessoal ao objeto de nossa devoção, 'Abdu'l-Bahá trouxe a todos nós uma mensagem de unidade, de compaixão e paz. Ele nos convida a todos a sermos verdadeiros e sinceros naquilo que professamos crer, e a estimar acima de tudo, o espírito que se oculta por trás da forma. Com Ele, nós nos curvamos perante o Nome Oculto, perante aquilo que é a verdadeira vida, a Vida Interior! Ele nos convoca a venerarmos, com destemida lealdade, nossa própria Fé, porém a aspirarmos cada vez mais à unidade, fraternidade e amor, volvendo-nos em espírito e com todo o nosso coração de modo a podermos penetrar mais na vontade de Deus que está acima de classe, acima de raça e além do tempo.

O professor Sadler concluiu com uma bela oração de James Martineau.

O sr. Eric Hammond disse que o movimento bahá'í objetiva a unidade; um Deus, um povo; uma miríade de almas manifestando a divina unidade, uma unidade tão completa que nenhuma diferença de cor ou credo poderia fazer distinção alguma entre um Manifestante de Deus e outro, e uma harmonia tão abrangente que inclui o mais ínfimo, pobre e miserável dos homens; unidade, harmonia e fraternidade levando a uma concórdia universal. Ele concluiu com uma citação de Bahá'u'lláh, que a divina causa do bem-estar universal não pode ser confinado ao Oriente ou ao Ocidente.

A srta. Alice Buckton disse que nós nos encontramos numa das primaveras do mundo, e daquela assembléia de representantes de pensamento, trabalho e amor, poder-se-ia irradiar influências para a unidade e fraternidade, que a completa igualdade entre homens e mulheres era uma das principais características dos ensinamentos bahá'ís.

Sir Richard Stapley observou que a unidade não deve ser buscada nas formas externas da religião, mas no espírito íntimo. Na Pérsia houve tal impulso em direção à verdadeira unidade que foi uma censura a este chamado país cristão.

O sr. Claude Montefiore, como judeu, alegrou-se pelo crescimento do espírito de unidade e considerou a reunião como um prognóstico de tempos melhores e, em certo sentido, um cumprimento da idéia expressa por alguém que foi um mártir da Fé Católica Romana, sir Thomas More, que escreveu a respeito da Grande Igreja dos Utopistas, na qual todas as variedades de credos se reuniram com um serviço e uma liturgia que expressavam a mais elevada unidade, e ao mesmo tempo que admitiam lealdades particulares.

A sra. Stannard discorreu sobre o que aquela reunião e os sentimentos expressos significavam para o Oriente, especialmente para as mulheres, cujas condições eram de difícil compreensão para o Ocidente.

Tammaddun'ul-Mulk deu testemunho dos efeitos unificadores que o movimento bahá'í havia tido na Pérsia, e o maravilhoso modo pelo qual ela se difundiu pela América e outros países.

Então, 'Abdu'l-Bahá levantou-Se para o Seu discurso de despedida. Uma figura impressiva, com a face abatida mas os olhos plenos de vivacidade, Ele permaneceu em pé durante quinze minutos, falando num persa suave e melodioso. Com as mãos estendidas, de palmas para cima, Ele concluiu com uma oração.

Tendo sido lida a tradução do discurso de despedida pelo professor Sadler, 'Abdu'l-Bahá encerrou a reunião concedendo Sua bênção em cadenciados tons flutuantes.

Quando estas linhas aparecerem, 'Abdu'l-Bahá 'Abbás terá deixado nosso litoral, mas a memória de Sua graciosa personalidade é permanente. Sua influência será sentida durante muitos dias ainda por vir, e já fez muito para promover aquela união do Oriente e Ocidente, longamente almejada por muitos. Segue-se Suas Palavras:

PALAVRAS DE DESPEDIDA DE 'ABDU'L-BAHÁ
29 DE SETEMBRO DE 1911

Ó nobres amigos e buscadores do Reino de Deus! Cerca de sessenta anos atrás, num tempo em que a flama da guerra ardia entre as nações do mundo e a carnificina era considerada uma honra para a humanidade, num tempo em que o massacre de milhares de pessoas manchava a terra, quando pais estavam sem filhos e mães se consumiam em prantos, quando as trevas da animosidade e do ódio inter-racial pareciam envolver o gênero humano e extinguir a luz divina, quando o bafejo do santo sopro de Deus parecia estar interrompido - nesse tempo Bahá'u'lláh ergueu-Se como uma estrela radiante do horizonte da Pérsia, inspirado com a mensagem de paz e fraternidade entre os homens.

Ele trouxe a luz da orientação ao mundo; ateou o fogo do amor e revelou a grande realidade do verdadeiro Bem-Amado. Ele intentava destruir as bases do preconceito religioso e racial e da rivalidade política.

Ele comparou o mundo humano a uma árvore, e todas as nações a seus ramos e as pessoas a suas folhas, flores e frutos.

Sua missão era transformar o fanatismo ignorante em amor universal, estabelecer nas mentes de Seus seguidores a base da unidade da humanidade e realizar na prática a igualdade do gênero humano. Ele declarou que todos os homens são iguais sob a misericórdia e bondade de Deus.

Então, a porta do Reino foi escancarada e a luz de um novo céu na terra foi revelada aos olhos atentos.

Ainda assim, toda a vida de Bahá'u'lláh se passou em meio a grandes provações e cruel tirania. Na Pérsia, Ele foi lançado na prisão, foi acorrentado e viveu sob constante ameaça da espada. Ele foi escarnecido e flagelado.

Quando estava com cerca de trinta anos, Ele foi exilado a Bagdá, e de Bagdá a Constantinopla, de lá a Adrianópolis e finalmente à prisão de 'Akká.

Contudo, acorrentado e de Sua cela, Ele conseguiu difundir Sua Causa e levantar o estandarte da unicidade da humanidade.

Deus seja louvado! Nós vemos a luz do amor resplandecendo no Oriente e no Ocidente, e a tenda da fraternidade erguida entre todos os povos para aproximar todos os corações e almas.

O chamado do Reino soou, e o anúncio de que o mundo necessita da Paz Universal iluminou a consciência do mundo.

Minha esperança é que através do zelo e do ardor dos puros de coração, a escuridão do ódio e divergência será inteiramente abolida e a luz do amor e unidade há de brilhar; este mundo se tornará um novo mundo; as coisas materiais se tornarão o espelho das coisas divinas; os corações humanos se encontrarão e abraçarão uns aos outros; o mundo todo se tornará como a pátria do homem e as diferentes raças consideradas como uma só raça.

Então as disputas e divergências cessarão e o divino Bem-Amado Se revelará neste mundo.

Como o Oriente e o Ocidente são iluminados pelo mesmo sol, todas as raças, nações e credos serão vistos como servos do Deus uno. Toda a terra é um só lar, e todos os povos, se apenas soubessem, são banhados na unicidade da misericórdia de Deus. Deus criou a todos. Ele dá subsistência a todos. Ele guia e instrui todos à sombra de Sua bondade. Devemos seguir o exemplo que o próprio Deus nos dá e eliminar todas as disputas e rixas.

Louvado seja Deus! Os sinais da amizade estão surgindo, e como prova disso, hoje, eu, vindo do Oriente, me encontro nesta Londres do Ocidente com extrema gentileza, consideração e amor, e estou profundamente grato e feliz. Jamais esquecerei este período que estou passando convosco.

Resisti quarenta anos numa prisão turca. Então, em 1908, o Comitê da União e Progresso dos Jovens Turcos derrubou os portões do despotismo e libertou todos os prisioneiros, e eu entre eles. Suplico que sejam abençoados todos aqueles que trabalham pela união e progresso.

No futuro, serão difundidos falsos relatos a respeito de Bahá'u'lláh a fim de impedir a difusão da Verdade. Eu vos digo que deveis estar atentos e preparados.

Eu vos deixo com a súplica de que a beleza do Reino possa ser vossa. Com profundo pesar pela nossa separação, eu vos dou adeus.

CHENISTON GARDENS, Nº 10 *

* As notas anexas são extratos do The Quarterly Record of 'Higher Thought' Work, novembro de 1911.

Um dos mais interessantes e significativos eventos foi a visita de 'Abdu'l-Bahá a Londres. O Mago persa cuja vida, passada na prisão, foi dedicada à promoção da paz e da unidade pelo único método infalível de apoiar o desenvolvimento espiritual individual, deve, no verdadeiro sentido, ter "provado a angústia de sua alma e ficado satisfeito". Ele foi visitado privativamente não somente por quase todo sincero pesquisador da verdade e líder de elevado pensamento em Londres, mas sua mensagem foi levada ao conhecimento de milhares de pessoas que dificilmente haviam ouvido seu nome antes.

O Higher Thought Centre (Centro do Pensamento Elevado) era bem conhecido a 'Abdu'l-Bahá como o lugar em que os bahá'ís realizavam suas reuniões semanais sob a direção da srta. Rosenberg, e um convite ao Centro foi aceito por Ele apenas dois dias antes de Sua partida. Por intermédio de Seu intérprete, 'Abdu'l-Bahá apresentou uma gentil saudação e um curto e comovente discurso, falando sobre a bem-aventurança de tal assembléia reunida num espírito de unidade e aspiração espiritual. Ele concluiu com uma fervorosa oração humildemente oferecida em Sua própria língua, e uma bênção cuja sinceridade foi sentida por todos.

No dia seguinte foi transmitida uma mensagem de 'Abdu'l-Bahá ao Centro, expressando a plena apreciação de toda a bondade demonstrada pelos bahá'ís, e concluindo com as seguintes palavras:

Não importa como cada um se denomina - A Grande Obra é Uma. Cristo sempre está no mundo da existência. Ele jamais retirou-Se... Estai seguros de que Cristo está presente. A beleza espiritual que hoje vemos ao nosso redor é proveniente dos sopros de Cristo.

UMA MENSAGEM DE 'ABDU'L-BAHÁ
ESCRITA PARA A COMUNIDADE CRISTÃ *
* Publicada em 29 de setembro de 1911.

Deus envia Profetas para a educação do povo e o progresso do gênero humano. Cada um desses Manifestantes de Deus elevou a humanidade. Eles servem ao mundo inteiro pela graça de Deus. A prova segura de que Eles são Manifestantes de Deus está na educação e progresso do povo. Os judeus se encontravam na mais baixa condição de ignorância e cativos do faraó quando Moisés surgiu e os ergueu a um elevado estado de civilização. Foi assim que surgiu o reinado de Salomão e as ciências e artes foram levadas ao conhecimento do gênero humano. Mesmo os filósofos gregos se tornaram estudiosos dos ensinamentos de Salomão. Assim provou-se que Moisés foi um Profeta.

Depois de certo tempo os israelitas degeneraram e se tornaram súditos dos romanos e dos gregos. Então a brilhante Estrela de Jesus ergueu-se do horizonte sobre os israelitas, iluminando o mundo, até que a beleza da unidade foi ensinada a todas as seitas, credos e nações. Não pode haver melhor prova de que Jesus foi o Verbo de Deus.

O mesmo ocorreu com as nações árabes, as quais, sendo incivilizadas, eram oprimidas pelos governos da Pérsia e Grécia. Quando a luz de Muhammad resplandeceu, toda a Arábia foi iluminada. Esses povos oprimidos e degradados se tornaram esclarecidos e cultos; tanto assim que de fato outras nações absorveram a civilização árabe da Arábia. Esta foi a prova da missão divina de Muhammad.

Todos os ensinamentos dos Profetas são o mesmo; uma fé, uma luz divina luzindo por todo o mundo. Ora, sob a bandeira da unicidade da humanidade, todas as pessoas de todos os credos devem abandonar os preconceitos e se tornar amigos e crentes em todos os Profetas. Assim como os cristãos crêem em Moisés, os judeus deveriam crer em Jesus. Assim como os muçulmanos crêem em Cristo e Moisés, os judeus e cristãos deveriam crer em Muhammad. Então todas as disputas desapareceriam e todos seriam unidos. Bahá'u'lláh veio para este propósito. Ele fez das três religiões uma. Ele ergueu o estandarte da unicidade de fé e da honra da humanidade no centro do mundo. Hoje devemos nos reunir em torno dele e tentar, de coração e alma, realizar a união do gênero humano.

DISCURSO DE 'ABDU'L-BAHÁ
NA RESIDÊNCIA DA SRTA. E. J. ROSENBERG
REUNIÃO DE UNIDADE
8 DE SETEMBRO DE 1911

Louvado seja Deus que uma tal reunião de pureza e firmeza está sendo realizada em Londres. Os corações dos presentes são puros e estão volvidos para o Reino de Deus. Tenho a esperança de que tudo o que está contido e estabelecido nos Livros Sagrados de Deus possa se realizar em vós. Os Mensageiros de Deus são os principais e os primeiros Professores. Sempre que este mundo se tornar sombrio, dividido em suas opiniões e indiferente, Deus enviará um de Seus Santos Mensageiros.

Moisés veio num tempo de escuridão, quando a ignorância e a puerilidade prevaleciam entre o povo, e existiam pessoas vacilantes. Moisés foi o Professor divino; Ele deu os ensinamentos da santidade e educou os israelitas. Ele ergueu o povo de sua degradação e o tornou altamente honrado. Ensinou-lhes ciência e artes, treinou-os na civilização e aumentou-lhes as virtudes humanas. Depois de algum tempo, aquilo que eles haviam assim recebido de Deus perdeu-se; estendeu-se o caminho para o retorno das más qualidades e o mundo foi oprimido pela tirania.

Então, novamente o rumor da Luz da Realidade e os sopros do Espírito Santo se tornaram conhecidos. As nuvens da bondade deixaram cair sua chuva e a Luz da Orientação resplandeceu sobre a terra. O mundo se vestiu de nova roupagem, o povo se tornou um novo povo e a unicidade da humanidade foi proclamada. A grande unidade de pensamento transformou a humanidade e criou um novo mundo. Novamente, depois de um tempo, tudo isto foi esquecido pelas pessoas. Os ensinamentos de Deus não mais exerciam influência em suas vidas. Suas profecias e mandamentos se tornaram fracos e finalmente se extinguiram de seus corações, e mais uma vez prevaleceram a tirania e a negligência.

Então veio Bahá'u'lláh e novamente restabeleceu os fundamentos da fé. Ele trouxe de volta os ensinamentos de Deus e as práticas benevolentes do tempo de Cristo. Ele saciou a sede dos sedentos, despertou os desatentos e atraiu a atenção dos negligentes para os segredos divinos. Ele declarou a unidade da humanidade e difundiu amplamente o ensinamento da igualdade de todos os seres humanos.

Por isso, todos vós deveis vos esforçar com corações e mentes para conquistar as pessoas com bondade, de modo que esta grande unidade possa ser estabelecida e as superstições infantis abandonadas, e todos vós possais vos tornar um.

DISCURSO DE 'ABDU'L-BAHÁ
NA RESIDÊNCIA DA SRA. THORNBURGH-CROPPER
13 DE SETEMBRO DE 1911

Graças a Deus, esta é uma bela reunião. Ela é muito iluminada, ela é espiritual.

Segundo escreveu um poeta persa: "O Universo Celestial é formado de tal modo que o mundo inferior reflete o mundo superior." Isto quer dizer que tudo o que existe no céu reflete-se neste mundo fenomênico. Ora, louvado seja Deus, esta nossa reunião é um reflexo da Assembléia Celestial; é como se tivéssemos tomado um espelho e o fitássemos. Conhecemos este reflexo do mundo celestial como amor.

Do mesmo modo que o amor celestial existe na Assembléia Suprema, ele é refletido aqui também. A Assembléia Suprema é plena de desejo por Deus - graças a Deus, este desejo existe aqui também.

Portanto, se dissermos que esta reunião é celestial, será verdade. Por que? Porque não nutrimos nenhum outro desejo senão aquele que provém de Deus. Nenhum outro desejo temos, salvo a comemoração de Deus.

Algumas pessoas do mundo desejam conquistar outros; algumas anseiam por repouso e sossego; outras desejam altas posições; algumas desejam ficar famosas -agradeço a Deus que nosso desejo é espiritualidade e união com Deus.

Agora que estamos reunidos aqui, nosso desejo é erguer o estandarte da unidade de Deus, difundir a Luz de Deus e fazer com que os corações das pessoas se volvam ao Reino. Por isso, eu agradeço a Deus que Ele nos está levando a realizar esta grande obra.

Suplico por todos vós, para que vos torneis guerreiros celestiais, que possais difundir a unidade de Deus em todos os cantos e iluminar o Oriente e o Ocidente, e que possais dar o amor de Deus a todos os corações. Este é o meu maior desejo, e eu oro a Deus para que o vosso desejo possa ser o mesmo.

Estou muito feliz por estar com todos vós. Estou contente com o rei, o governo e o povo inglês.

Deveis agradecer a Deus que nesta terra sois tão livres. Não sabeis a falta de liberdade que há no Oriente. Quando alguém vem para este país ele fica satisfeito.

Peço a proteção de Deus para todos vós. Adeus a todos vós.

DISCURSO DE 'ABDU'L-BAHÁ
NA REUNIÃO DE UNIDADE DAS SRTAS. JACK E HERRICK
22 DE SETEMBRO DE 1911

Está um dia frio e ruim, mas como eu estava ansioso por vos ver, vim aqui. Para uma pessoa que tem amor, o esforço é repouso. Ele percorrerá qualquer distância para visitar seus amigos.

Agradeço a Deus por vos encontrar espirituais e tranqüilos; eu vos dou esta mensagem de Deus de que deveis estar volvidos a Ele. Louvor a Deus por estardes próximos a Ele! As coisas vãs deste mundo não vos impediram de buscar o mundo do Espírito. Estando em harmonia com o mundo, não vos preocupastes com as coisas que perecem; desejais aquilo que jamais se extingue e o Reino se encontrará aberto diante de vós. Tenho a esperança de que os ensinamentos de Deus se difundirão através do mundo e causarão a união de todos.

No tempo de Jesus Cristo, houve uma emanação da Luz do Oriente para o Ocidente que uniu o povo sob uma bandeira celestial e iluminou-o com a percepção divina. Países ocidentais foram iluminados pela Luz de Cristo. Oro sinceramente para que, nesta era avançada, a Luz ilumine o mundo de tal maneira que todos possam se reunir sob a bandeira da unidade e receber educação espiritual.

Então, não se verão mais aqueles problemas que criam divergência entre os povos da terra, pois em verdade não existem. Todos são ondas de um só oceano e espelhos da mesma reflexão.

Neste dia, os países da Europa estão tranqüilos; a educação se tornou amplamente difundida. A luz da liberdade é a luz do Ocidente e a intenção do governo é trabalhar pela verdade e justiça nos países ocidentais. Mas a luz da espiritualidade sempre resplandece a partir do Oriente. Nesta era em que a luz enfraqueceu, a religião se tornou uma questão de aparência e formalidade e o desejo do amor de Deus se perdeu.

Na própria era de grande escuridão espiritual, uma luz é acesa no Oriente. Assim, mais uma vez a luz dos ensinamentos de Deus veio a vós. Tal como a educação e o progresso vão do Ocidente para o Oriente, o fogo espiritual parte do Oriente para o Ocidente.

Espero que o povo do Ocidente possa ser iluminado pela luz de Deus; que o Reino possa chegar a eles, que encontrem a vida eterna, que o Espírito de Deus possa se espalhar entre eles como fogo, que possam ser batizados com a Água da vida e possam nascer de novo.

Este é o meu desejo; tenho a esperança que, se for a vontade de Deus, Ele fará com que o recebais e vos fareis felizes.

Do mesmo modo que tens educação e progresso material, que a luz de Deus possa ser vosso quinhão.

Que Deus proteja a todos vós.
Notas de Conversações
A CHEGADA EM LONDRES
4 DE SETEMBRO DE 1911

Na noite de Sua chegada a Londres, domingo, 4 de setembro de 1911, 'Abdu'l-Bahá disse: "O céu abençoou este dia." Foi dito que Londres seria um lugar para uma grande proclamação da Fé. "Quando embarquei no vapor eu estava cansado, mas quando cheguei a Londres e contemplei as faces dos amigos, minha fadiga me deixou. Vosso grande amor me refrescou. Estou muito satisfeito com os amigos ingleses."

"O sentimento que existia entre o Oriente e o Ocidente está mudando à Luz dos ensinamentos de Bahá'u'lláh. Costumava ser tal que se um ocidental bebesse do copo de um oriental, o copo seria considerado maculado e seria quebrado. Agora, quando um bahá'í ocidental janta com um bahá'í oriental, os copos e pratos por ele usados são guardados em separado e reverenciados em sua memória." Em seguida 'Abdu'l-Bahá deu este histórico exemplo do maravilhoso amor fraternal:

"Um dia, alguns soldados vieram à residência de um bahá'í e exigiram que de acordo com seu mandato um dos convidados fosse entregue para execução. O anfitrião tomou o lugar de seu convidado e morreu em seu lugar."

LONDRES

O ímã de vosso amor me trouxe a este país. Minha esperança é que a Luz Divina possa resplandecer aqui, e a Estrela Celestial de Bahá'u'lláh vos fortaleça, de modo que possais ser a causa da unicidade da humanidade, que possais ajudar a fazer desaparecer as trevas da superstição e do preconceito e a unir todos os credos e nações.

Este é um século radiante. Os olhos estão agora abertos à beleza da unicidade da humanidade, do amor e da fraternidade. A treva da superstição há de desaparecer e a luz da unidade brilhar. Não podemos produzir amor e unidade simplesmente falando a seu respeito. Conhecimento não é suficiente. Riqueza, ciências e educação são desejáveis, nós sabemos, mas devemos também trabalhar e nos esforçar para fazer amadurecer o fruto do conhecimento.

Conhecimento é o primeiro passo; resolução, o segundo passo; ação, o seu cumprimento, é o terceiro passo. Para construir um edifício, deve-se antes de tudo fazer um projeto, depois é preciso ter capacidade (dinheiro), então se pode construir. A Sociedade da Unidade está formada, isto é bom - mas reuniões e discussões não são suficientes. No Egito estas reuniões acontecem, mas há apenas conversa e nenhum resultado. Estas reuniões aqui em Londres são boas, o conhecimento e a intenção são bons, mas como pode haver resultado sem ação? Hoje, a força para a unidade é o Espírito Santo de Bahá'u'lláh. Ele manifestou este espírito de unidade. Bahá'u'lláh reconcilia o Oriente e o Ocidente. Fazei uma retrospectiva, pesquisai a história, não encontrareis um precedente disto.

DIFERENÇAS

Deus criou o mundo como um só - as fronteiras foram demarcadas pelo homem. Não foi Deus que dividiu as nações, mas cada pessoa possui sua casa e prado; cavalos e cães não dividem os campos em partes. É por isso que Bahá'u'lláh disse: "Que nenhum homem se vanglorie por amar seu país, mas por amar sua espécie." Todos são uma família, uma raça; todos são seres humanos. Diferenças devidas a divisão de países não deveriam ser causa de separação entre as pessoas.

Um dos grandes motivos de separação é a cor. Vede como este preconceito tem força na América, por exemplo. Vede como eles odeiam uns aos outros. Animais não brigam por causa de sua cor! Certamente o homem que é tão mais elevado na criação, não deveria ser inferior aos animais. Refleti sobre isto. Quanta ignorância! Pombos brancos não brigam com pombos azuis por causa de sua cor, mas homens brancos lutam com homens de cor escura. Este preconceito racial é o pior de todos.

O Velho Testamento diz que Deus criou o homem à Sua própria imagem; No Alcorão está dito: "Não há diferença na criação de Deus!" Pensai bem, Deus criou todos, e todos estão sob Sua proteção. A política de Deus é melhor do que a nossa. Nós não somos sábios como Deus!

RELIGIÃO

Para a maioria das pessoas que não ouviram a mensagem deste ensinamento, a religião parece ser uma aparência externa, uma desculpa, meramente uma marca de respeitabilidade. Alguns padres estão no santo ofício apenas para ganhar seu sustento. Eles próprios não crêem na religião que fingem ensinar. Dariam eles a sua vida pela sua Fé? Peça a um cristão deste tipo que renegue Cristo para salvar sua vida, e ele o fará.

Peça a um bahá'í que renegue qualquer um dos grandes Profetas, que renegue sua Fé ou renegue Moisés, Muhammad ou Cristo, e ele dirá: preferiria morrer. Assim um bahá'í mulçumano * é um melhor cristão do que os assim chamados cristãos.

* Refere-se aos bahá'ís de origem muçulmana. (n.t.)

Um bahá'í não nega religião alguma; ele aceita a Verdade em todas, e morreria para sustentá-la. Ele ama todos os homens como seus irmãos, sejam eles de qualquer classe, de qualquer raça ou nacionalidade, de qualquer credo ou cor, sejam bons ou maus, ricos ou pobres, belos ou horríveis. Ele não comete violência; se ele é atacado, não revida. Seguindo o exemplo de seu Senhor, Bahá'u'lláh, a nada atribui a qualidade de mau. Como proteção contra a intemperança, ele não bebe vinho ou bebidas alcoólicas. Bahá'u'lláh disse que não é bom que uma pessoa sã tome aquilo que destruirá sua saúde e percepção.

A religião de Deus possui dois aspectos em seu mundo. O espiritual (o real) e o formal (aparente). O lado formal muda conforme o homem muda de época em época. O lado espiritual que é a Verdade, nunca muda. Os Profetas e Manifestantes de Deus sempre trazem o mesmo ensinamento; no princípio as pessoas são fiéis à verdade, mas depois de algum tempo elas a desfiguram. A Verdade é distorcida pelas formas externas e leis materiais feitas pelo homem. O véu da materialidade e mundanismo entra em contato com a Verdade.

Do mesmo modo que Moisés e Jesus trouxeram Suas mensagens ao povo, Bahá'u'lláh traz a mesma Mensagem.

Cada vez que Deus nos envia um Grande Ser, uma nova vida nos é conferida, mas a Verdade que cada Manifestante de Deus traz é a mesma. A Verdade nunca muda, mas a visão dos homens muda. Ela se torna nublada e confusa pela complicação de aparências externas.

A Verdade é muito fácil de ser compreendida, embora a forma externa em que ela é expressa confunda a inteligência. À medida que os homens se desenvolvem, percebem a futilidade das formas criadas pelo homem e as despreza. Por isso, muitos abandonam as igrejas, pois esta última muitas vezes enfatiza a aparência externa.

DISCURSO A UMA ASSEMBLÉIA DE TEOSOFISTAS
SETEMBRO DE 1911

Estes são dias maravilhosos! Vemos um convidado oriental recepcionado com amor e cortesia no Ocidente. Apesar da indisposição, fui atraído para cá pelo ímã de vosso amor e simpatia.

Alguns anos atrás um embaixador foi enviado da Pérsia para Londres, onde permaneceu durante cinco anos. (Seu nome era Abdu'l-Hasan Khán). Quando ele voltou para Pérsia, pediram que ele falasse a respeito do povo inglês. Ele respondeu: "Eu não conheço o povo inglês, embora tenha estado em Londres por cinco anos apenas me encontrei com as pessoas da corte." Ele era um homem importante na Pérsia e foi enviado à Inglaterra por príncipes, e ainda assim não conheceu as pessoas embora tenha vivido entre ela por cinco anos. Agora, eu, prisioneiro por muito tempo, venho à Inglaterra pela primeira vez e, embora minha visita seja tão curta, eu já encontrei muitos amigos queridos e posso dizer que conheço o povo. Aqueles com quem me encontrei são verdadeiras almas que trabalham pela paz e unidade. Reflitam sobre quanta diferença há entre este tempo em que vivemos e setenta anos atrás! Considerem o avanço! O avanço em direção a unidade e paz.

É vontade de Deus que as diferenças entre nações desapareçam. Aqueles que auxiliam a causa da unidade estão fazendo a obra de Deus. A unidade é bondade divina para este século esplendoroso. Louvado seja Deus, hoje há muitas sociedades e muitas reuniões são realizadas em prol da unidade. Não é tanto a inimizade a causa de separação, como costumava ser, hoje a causa da desunião é principalmente preconceito. Por exemplo, anos atrás, quando os europeus visitavam o Oriente, eram considerados impuros e odiados. Agora é diferente, quando pessoas do Ocidente visitam as do Oriente, as quais são seguidoras da Nova Luz, elas são recebidas com amor e cortesia.

('Abdu'l-Bahá, tendo uma criança bem junto de Si, acrescenta:) Os verdadeiros bahá'ís amam as crianças, porque Jesus diz que elas são do Reino celestial. Um coração simples e puro está próximo de Deus; uma criança não tem ambições mundanas.

PRECONCEITOS

O Congresso Universal das Raças foi bom, pois objetivava o avanço e o progresso da unidade entre todas as nações e um melhor entendimento internacional. O propósito foi bom. As causas de disputa entre diferentes nações são sempre devidas a uma destas categorias de preconceitos: racial, lingüística, teológica, pessoal e preconceitos de costume e tradição. É necessária uma força ativa universal para superar estas diferenças. Uma pequena enfermidade requer um remédio fraco, mas uma doença que penetra no corpo todo precisa de um remédio muito forte. Uma lâmpada fraca pode iluminar um quarto, uma mais forte ilumina uma casa, uma ainda mais forte pode resplandecer na cidade, mas para iluminar o mundo todo é necessário o sol.

As diferenças de língua causam desunião entre as nações. Deve haver um idioma universal. A diversidade de religiões também é causa de separação. O verdadeiro fundamento de todas as religiões deve ser estabelecido e as diferenças exteriores abolidas. Deve existir uma unicidade de Fé. Extinguir todas estas diferenças é uma tarefa árdua. O mundo todo está enfermo e necessita do poder do Grande Médico.

Estas reuniões nos ensinam que unidade é bom e que afastamento (escravidão sob o jugo da tradição e preconceito) é causa de desunião. Saber disso não é suficiente. Todo conhecimento é bom, mas não pode produzir qualquer fruto senão através de ação. É bom saber que as riquezas são boas, mas esse conhecimento não tornará o homem rico; ele deve trabalhar, deve colocar seu conhecimento em ação. Esperamos que as pessoas percebam e saibam que a unidade é boa, esperamos também que elas não se contentem em permanecer imóveis nesse conhecimento. Não digais apenas que unidade, amor e fraternidade são bons; deveis trabalhar pela sua realização.

O czar da Rússia sugeriu a Conferência da Paz de Haia e propôs uma diminuição de armamentos para todas as nações. Nesta Conferência provou-se que a paz foi benéfica a todas as nações e a guerra destruiu o comércio, etc. As palavras do czar foram admiráveis, entretanto ele próprio foi o primeiro a declarar guerra (contra o Japão) depois de terminada a Conferência.

Conhecimento não é suficiente; esperamos que por amor a Deus colocaremos isto em prática. Para isto é necessária uma força espiritual universal. Reuniões são boas para engendrar força espiritual. Saber que é possível alcançar um estado de perfeição é bom; avançar no caminho é melhor. Sabemos que ajudar os pobres e ser misericordioso é bom e agrada a Deus, mas conhecimento apenas não alimenta os famintos, nem podem os pobres ser aquecidos por conhecimento e palavras durante o inverno rigoroso; devemos dar o auxílio prático de amorosa bondade.

E a respeito do Congresso de Paz?

Assemelha-se a um grupo de embriagados reunidos para protestar contra o consumo de álcool. Eles dizem que beber é horrível e saem de casa diretamente de volta à bebida.

TEOSOFIA

Quando se perguntou a 'Abdu'l-Bahá se Ele reconhecia o bem que a Sociedade Teosófica havia proporcionado, Ele respondeu:

Eu a conheço; penso muito a seu respeito. Sei que seu desejo é servir o gênero humano. Sou grato a esta nobre Sociedade em nome de todos os bahá'ís e em meu próprio. Espero que com a ajuda de Deus estes amigos conseguirão criar amor e unidade. É um importante trabalho e precisa do esforço de todos os servos de Deus.

PAZ

Durante os últimos seis mil anos as nações têm odiado umas às outras, agora é tempo de parar. A Guerra deve cessar. Sejamos unidos e amemos uns aos outros, e aguardemos o resultado. Sabemos que as conseqüências da guerra são tristes. Então vamos, como uma experiência, tentar a paz, e se os resultados da paz forem maus, então poderemos decidir se seria melhor voltar ao antigo estado de guerra! Vamos, de qualquer modo, fazer a experiência. Se percebermos que a unidade traz luz então continuaremos com ela. Por seis mil anos temos andado na contra-mão; que andemos na via certa. Passamos muitos séculos na escuridão; que avancemos à luz.

Pergunta: -- A Teosofia, foi frisado, ensina que a verdade em todas as religiões é a mesma. A tarefa de unificar todas as religiões tem a simpatia de 'Abdu'l-Bahá?

Resposta: -- Certamente.

Pergunta: -- Poderia 'Abdu'l-Bahá sugerir alguma maneira de melhor realizar isto?

Resposta: -- Pesquisai a verdade. Buscai as realidades nas religiões. Deixai de lado todas as superstições. Muitos de nós não compreendemos a realidade de todas as religiões.

MANIFESTANTES DIVINOS

Pergunta: -- Qual é o ensinamento de 'Abdu'l-Bahá a respeito das diversas manifestações divinas?

Resposta: -- A Realidade de todas é Uma. A Verdade é uma só. As religiões são como os ramos de uma árvore. Um ramo é alto, um é baixo e um está no centro, mas todas obtêm vida do mesmo tronco. Um ramo está carregado de frutos e outros não tão abundantemente carregados. Todos os Profetas são luzes, apenas diferem em intensidade; eles resplandecem como brilhantes corpos celestes, cada um possui seu próprio lugar e tempo de ascensão. Alguns são como lâmpadas, alguns como a lua, alguns são estrelas distantes, e algumas poucas são como o sol, luzindo de um extremo a outro da terra. Todos resplandecem com a mesma luz, no entanto são diferentes em intensidade.

BUDISMO

Alguns se referiram aos ensinamentos de Buda. 'Abdu'l-Bahá disse:

O verdadeiro ensinamento de Buda se assemelha ao ensinamento de Jesus Cristo. Os ensinamentos dos Profetas possuem o mesmo caráter. Os homens que modificaram os ensinamentos. Se observardes a atual prática da religião budista, vereis que pouco sobrou de sua realidade. Muitos adoram ídolos embora seus ensinamentos o proíbam.

Buda tinha discípulos e desejava enviá-los para o mundo afora para ensinarem, então lhes fez perguntas para saber se estavam preparados como Ele queria:

-- Quando fordes ao Oriente e ao Ocidente e as pessoas vos fecharem suas portas e se recusarem a falar convosco, o que fareis? - disse-lhes o Buda.

-- Seremos muito gratos por não nos causarem dano - os discípulos responderam.

-- E se vos causarem dano e vos motejarem, o que fareis?

-- Seremos muito gratos por não nos darem tratamento pior.

-- Se vos lançarem na prisão?
-- Ainda seremos gratos por não nos matarem.

-- E se vos matarem? - perguntou o Mestre pela última vez.

-- Ainda assim, seremos gratos por fazerem de nós mártires. Que destino mais glorioso do que este, morrer pela glória de Deus? - disseram os discípulos.

-- Muito bem! - disse o Buda.

O ensinamento de Buda foi como uma jovem e linda criança, e agora ele se tornou como um homem velho e decrépito. Como os idosos, ele não pode ver, não pode ouvir, não pode lembrar de nada. Por que voltar tão longe no passado? Considerai as leis do Velho Testamento: os judeus não seguem Moisés como exemplo nem guardam Seus mandamentos. O mesmo ocorre com muitas outras religiões.

Como podemos adquirir o poder de seguir o caminho certo?

O poder será concedido colocando-se os ensinamentos em prática. Sabereis que caminho seguir; não podereis vos enganar, pois há uma grande distinção entre Deus e o ente mau, entre luz e escuridão, verdade e falsidade, amor e ódio, generosidade e vileza, educação e ignorância, fé em Deus e superstição, leis boas e leis injustas.


Pergunta: -- Como se pode incrementar a fé?

Resposta: -- Deveis fazer esforço. Uma criança não tem conhecimento, ela obtém conhecimento através do estudo e pesquisa da verdade.

Há três espécies de fé: primeiro, aquela que provém da tradição e descendência. Por exemplo, uma criança nasce de pais muçulmanos. Esta é uma fé frágil, tradicional. Segundo, aquela que advém do conhecimento e é a fé do entendimento. Esta é boa, mas há uma melhor, a fé da prática. Esta é a verdadeira fé.

Ouvimos a respeito de uma invenção, acreditamos que é boa; então vamos vê-la. Ouvimos que há uma riqueza, nós a vemos; trabalhamos duro para consegui-la e nós próprios nos tornamos ricos e ajudamos outros. Sabemos que estamos vendo a luz, aproximamo-nos dela, somos aquecidos por ela, e refletimos seus raios sobre outros; esta é a verdadeira fé, e assim recebemos o poder de nos tornarmos eternos filhos de Deus.

CURA
'Abdu'l-Bahá disse:

Há duas espécies de doença: a material e a espiritual.

Tomemos por exemplo, um corte na mão; se rezardes para que o corte seja curado e não estancardes o sangue, pouco adiantará; é necessário um remédio material.

Algumas vezes, se o sistema nervoso for paralisado pelo medo, há necessidade de remédio espiritual. A loucura, incurável de outro modo, pode ser curada através da oração. Se a tristeza freqüentemente faz adoecer, isto pode ser curado por meios espirituais.

SOCIEDADES FILANTRÓPICAS

Pergunta: -- As sociedades humanitárias são boas?

Resposta: -- Sim, todas as sociedades, todas as organizações que trabalham pela melhora da raça humana são boas, muito boas. Todos aqueles que trabalham por seus irmãos e irmãs têm a bênção de Bahá'u'lláh. Eles certamente serão bem sucedidos.

'Abdu'l-Bahá complementa:

-- Ver todos os amigos em Londres me deixa feliz. Vós todos sois, de todas as raças e credos, membros de uma só família. Os ensinamentos de Bahá'u'lláh vos compelem a realizar a irmandade uns para com os outros.

O ENTENDIMENTO DO HOMEM A RESPEITO
DE DEUS E DOS MUNDOS SUPERIORES

A essência de Deus é incompreensível ao homem, e assim são também os mundos além deste e a sua condição. Ao homem é concedida a capacidade de obter conhecimento, de atingir grande perfeição espiritual, descobrir verdades ocultas e manifestar até mesmo os atributos de Deus; mas ainda assim o homem não pode compreender a essência de Deus. Onde o círculo sempre crescente do conhecimento humano encontra o mundo espiritual, um Manifestante de Deus é enviado para refletir Seu esplendor.

OS MANIFESTANTES DIVINOS
Pergunta: -- O Manifestante Divino é Deus?

Resposta: -- Sim, mas não na essência. Um Manifestante Divino é um espelho que reflete a luz do Sol. A luz é a mesma, mas o espelho não é o Sol. Todos os Manifestantes de Deus trazem a mesma luz; Eles diferem somente em intensidade, não em realidade. A Verdade é uma só. A luz é a mesma embora as lâmpadas sejam diversas; devemos contemplar a luz e não a lâmpada. Se aceitarmos que a luz é uma, devemos aceitar a luz que há em todas; todas concordam porque são todas iguais. O ensinamento é sempre o mesmo; é apenas a aparência externa que muda.

Os Manifestantes de Deus são como corpos celestes. Todos têm sua designada posição e tempo de ascensão, mas a luz que refletem é a mesma. Se alguém deseja ver o nascer do sol não olha sempre para o mesmo ponto, pois esse ponto muda com as estações. Quando vê o sol nascer mais além ao norte ele o reconhece, embora tenha nascido num ponto diferente.

NOTAS DE UMA CONVERSA COM 'ABDU'L-BAHÁ

Uma pessoa de raça negra, provinda da África do Sul, que estava visitando 'Abdu'l-Bahá disse que mesmo agora nenhuma pessoa branca dá muita atenção aos negros.

'Abdu'l-Bahá responde:

Comparai o tempo e o sentimento atual em relação à condição do sentimento para com as pessoas da raça negra de dois ou três séculos atrás, e vede como o presente é melhor. Num curto período, o relacionamento entre as pessoas de raça negra e as brancas há de melhorar ainda mais, e pouco a pouco nenhuma diferença permanecerá entre elas. Existem pombos brancos e de cor púrpura, mas ambas as espécies são de pombos.

Certa vez, Bahá'u'lláh comparou as pessoas da raça negra com a pupila do olho envolvida pelo branco. Nesta pupila negra se vê o reflexo daquilo que se encontra diante dela, e através dela a luz do Espírito se irradia.

Aos olhos de Deus a cor não faz qualquer diferença. Ele olha os corações dos homens. É o coração dos homens que Deus quer. Um negro de bom caráter é muito superior a um homem branco cujo caráter não é tão bom.

OS IDEAIS DO ORIENTE E DO OCIDENTE

Um dos organizadores presentes do Congresso das Raças referiu-se aos ideais ocidentais de Bahá'u'lláh como diferentes daqueles dos Profetas anteriores, matizadas pelas idéias e da civilização oriental. Em seguida ele perguntou se Bahá'u'lláh havia feito um estudo especial das escrituras ocidentais e construiu Seus ensinamentos de acordo com elas.

'Abdu'l-Bahá sorriu cordialmente e disse que os livros de Bahá'u'lláh, escritos e impressos há sessenta anos, continham os ideais agora tão familiares ao Ocidente, mas naquela época não haviam sido impressos ou ensinados no Ocidente. "Por outro lado," continuou Ele, "supondo que um grande pensador do Ocidente tenha ido visitar Bahá'u'lláh para Lhe ensinar, teriam permanecido desconhecidos o nome de tal grande homem e o fato de sua visita? Não! Em épocas anteriores, no tempo de Buda e Zoroastro, a civilização na Ásia e no Oriente era bem mais elevada do que no Ocidente e os pensamentos e idéias dos povos orientais muito superiores e mais próximos dos pensamentos de Deus do que aqueles do Ocidente. Mas desde aquele tempo as superstições adentraram a religião e os ideais do Oriente e por muitas diferentes causas o caráter dos povos orientais foi decaindo mais e mais e se rebaixando cada vez mais, enquanto os povos do Ocidente estiveram avançando constantemente e se empenhando em direção à luz. Conseqüentemente, nesta época, a civilização ocidental estava bem mais elevada do que a oriental e os pensamentos e idéias dos povos do Ocidente mais próximos ao pensamento de Deus do que os do Oriente. Por isso os ideais de Bahá'u'lláh haviam sido mais rapidamente realizados no Ocidente."

'Abdu'l-Bahá mostrou ainda quão exatamente Bahá'u'lláh havia descrito, num de Seus livros, aquilo que desde então fora efetivado no Conselho Internacional de Arbitramento, descrevendo suas diversas funções, algumas da quais ainda não haviam sido realizadas e ele ('Abdu'l-Bahá) descreveu-as para nós, de modo que quando fossem realizadas, o que em breve aconteceria, nós soubéssemos que haviam sido profetizadas por Bahá'u'lláh.

"A guerra era a maior calamidade que poderia se apossar das nações, porque as pessoas que normalmente trabalhavam na agricultura, ofícios, comércio e outras artes utilitárias eram afastadas de suas ocupações e transformadas em soldados, de modo que havia um grande desperdício e perda além da destruição e do massacre da guerra."

"Bahá'u'lláh dissera que as funções da Corte Internacional seriam para apaziguar disputas que de tempos em tempos surgissem entre as nações; definir com exatidão as fronteiras das diferentes nações e decidir a quantidade de soldados e armas a serem mantidas por cada nação, de acordo com sua população, a fim de preservar a ordem interna. Por exemplo, um país poderia ter dez mil soldados, outro vinte mil, outro quinze mil, e assim por diante, de acordo com o tamanho e a população da nação; também, se qualquer povo se rebelasse contra a decisão da Corte e a rejeitasse, a Corte autorizaria os outros a juntarem suas forças para apoiar sua decisão, unidos em ação caso fosse necessário."

"Ainda não vimos a realização de qualquer uma destas coisas, mas no futuro veremos."

CIÊNCIA E FÉ

O cavalheiro, então, propôs uma questão que disse considerar de grande importância em relação a um movimento religioso que se diz universal. "Que posição", perguntou ele, "se é que há alguma, Bahá'u'lláh deu às idéias e concepções modernas da ciência em Seus ensinamentos? Toda a estrutura da civilização moderna se baseia nos resultados do conhecimento obtido através de laboriosa e paciente observação de fatos coletados pelos homens de ciência. Em alguns casos através de centenas de anos de diligente investigação." Para se fazer mais claro, ele deu o exemplo de ética e ensinamentos morais dos filósofos chineses, além dos quais nada podia conceber de mais elevado. "No entanto", segundo ele, "esses ensinamentos tiveram muito pouco efeito fora da China porque não eram primariamente baseados nos ensinamentos da ciência."

'Abdu'l-Bahá respondeu que "foi atribuída grande importância à ciência e ao conhecimento nos ensinamentos de Bahá'u'lláh, O qual escreveu que se uma pessoa educar os filhos de pobres, aqueles que não dispõem de recursos próprios para tal fim, aos olhos de Deus isto seria como se ele tivesse educado o Filho de Deus."

"Se qualquer religião rejeitasse a ciência e o conhecimento, tal religião seria falsa. Ciência e religião deveriam avançar juntas - na verdade deveriam ser como dois dedos de uma mão."

"Em Seus escritos, Bahá'u'lláh deu ainda a mais importante posição à arte e à prática de ofícios especializados. Ele disse que a prática de artes ou ofícios em verdadeiro espírito de serviço é idêntico à adoração a Deus."

EDUCAÇÃO

Um cavalheiro ligado à obra de uma Fundação perguntou "qual o melhor método de elevar e civilizar as pessoas mais decaídas, as mais degradadas e ignorantes, e se sua educação se realizaria gradualmente através da iluminação do espírito, ou se havia algum meio especial para se atingir esse fim?"

'Abdu'l-Bahá respondeu que "a melhor maneira é lhes dar ensinamentos espirituais e esclarecimento." Ele observou também que "o modo de alargar a visão dos mesquinhos e preconceituosos, e fazer com que atentem a um ensinamento mais amplo é lhes mostrar a máxima bondade e amor. Que o exemplo de nossas vidas é mais valioso do que palavras."

CONVERSAÇÃO COM PESSOAS FALECIDAS
Foi formulada a pergunta:

-- É possível estabelecer comunicação com os mortos, e se é sábio ou aconselhável participar de sessões espíritas, se dedicar a mesa-branca, invocação de espíritos, etc?

O Mestre disse que:

-- Essas invocações, etc., tratam-se de coisas da matéria e do corpo. É necessário passar para além do material para o reino do puramente espiritual. Mesa-branca e coisas semelhantes são materiais, um efeito natural e não espiritual. Mas que é possível se comunicar com os mortos pela condição do caráter e do coração.

AS SUPERSTIÇÕES SÃO ÚTEIS?
Uma senhora perguntou:

-- Algumas superstições não poderiam ser boas para as pessoas ignorantes, sem as quais estas talvez ficassem sem crença de espécie alguma?

'Abdu'l-Bahá respondeu:

-- Superstições são de duas espécies: as prejudiciais e perigosas, e as que são inofensivas e produzem alguns bons resultados.

Há, por exemplo, algumas pessoas pobres que acreditam que infortúnios e punições são causados por um grande anjo com uma espada na mão, que golpeia aqueles que roubam e cometem assassinatos e crimes.

Elas acham que os clarões do relâmpago são as armas desse anjo, e que se elas cometessem erro seriam atingidas pelo relâmpago. Esta crença as impede de más ações.

Os chineses possuem uma superstição de que se queimarem certos pedaços de papel afastarão os demônios; algumas vezes queimavam estes pedaços de papel a bordo de navios em que viajavam a fim de espantar os demônios e assim incendiavam os navios e destruíam muitas vidas. Este é o tipo de superstição prejudicial e perigosa.

A VIDA APÓS A MORTE

A sra. S. fez algumas perguntas referentes às condições da existência no mundo vindouro e à vida depois da morte. Ela disse que tendo recentemente perdido um parente muito próximo, ela estava pensando muito a respeito desse assunto. Muitos acham que somente depois de um longo período de tempo é que ocorre a reunião com aqueles que amamos e que passaram para a vida do além. Ela queria saber se a pessoa se reuniria com aqueles que se foram anteriormente logo depois de morrer?

'Abdu'l-Bahá respondeu que isto dependeria da respectiva condição das duas pessoas. Se ambas tivessem o mesmo grau de desenvolvimento, elas se reuniriam imediatamente após a morte.

Então, a que perguntava indagou como este grau de desenvolvimento poderia ser adquirido? 'Abdu'l-Bahá respondeu que através de incessante esforço, procurando fazer o que é correto e adquirindo qualidades espirituais.

A pessoa que questionava frisou que há muitas opiniões divergentes a respeito das condições da vida do além. Algumas pessoas pensam que todos teremos exatamente as mesmas perfeições e virtudes; que todos seremos iguais e idênticos.

'Abdu'l-Bahá disse que haveria diversidade e diferentes graus de realização, como neste mundo.

Então, foi feita a pergunta de como seria possível reconhecer diferentes entidades e personalidades sem corpos materiais ou ambientes, quando tudo estaria na mesma condição e no mesmo plano de existência?

'Abdu'l-Bahá disse que se diversas pessoas olhassem para um espelho ao mesmo tempo, elas veriam todas as diferentes personalidades, suas características e movimentos; o vidro do espelho para o qual eles olham é o mesmo. Ele disse que a mente possui uma variedade de pensamentos, mas todos esses pensamentos são separados e distintos. Talvez possamos, ainda, ter centenas de amigos, mas quando os invocamos à nossa memória não confundimos uns com os outros; cada um é separado e distinto, tendo suas próprias individualidades e características.

Em resposta a outro indagador, Ele disse que quando duas pessoas, marido e mulher, por exemplo, estiverem perfeitamente unidos nesta vida, sendo suas almas como uma só alma, após a morte de um deles esta união de corações e almas permanece inquebrantável.

MENSAGEM ÀS MULHERES

Na noite de 28 de setembro, 'Abdu'l-Bahá estava com um grupo de convidadas, onde um médico persa de Qazvín disse que era uma grande obra de Deus o Oriente e o Ocidente se tornarem tão unidos, e que devemos sempre agradecer a Deus que a Causa Bahá'í produziu tamanha harmonia e união entre nós. O resultado dessa visita de 'Abdu'l-Bahá ao Ocidente irá ser muito grandioso.

'Abdu'l-Bahá disse:

Vós todas sois irmãs. A relação corpórea há de passar; até mesmo duas irmãs podem ser inimigas uma da outra, mas a relação espiritual é eterna e cria amor e serviço mútuos.

Sede sempre bondosas para com todos e um refúgio para aqueles que estão desabrigados.

Sede filhas daqueles que são mais idosos que vós.
Sede irmãs para aqueles que são da vossa idade.

Sede mães para aqueles que são mais moços que vós.

Sede enfermeiras para os doentes, tesouros para os pobres e oferecei alimento celestial aos famintos.

A CERIMÔNIA DE CASAMENTO BAHÁ'Í

Um toque totalmente oriental foi dado ao final da visita de 'Abdu'l-Bahá a Londres, com o casamento de um jovem casal persa que havia solicitado Sua presença na cerimônia, sendo que a noiva havia viajado de Bagdá, acompanhada por seu tio para encontrar seu noivo aqui e se casar antes da partida de 'Abdu'l-Bahá. O pai e o avô da noiva haviam sido seguidores de Bahá'u'lláh na época de Seu exílio.

Hesitamos em alterar a descrição feita pelo noivo da cerimônia e por isso a publicamos em sua própria linguagem simples e bela. Ela servirá para mostrar um lado não citado em outros lugares, e sem a qual, nenhuma idéia de Sua visita é completa. Referimo-nos à atitude de reverência com a qual as pessoas do Oriente vinham ver 'Abdu'l-Bahá como seu grande Mestre. Eles invariavelmente permaneciam em pé com as cabeças curvadas sempre que Ele entrava no salão.

Mírzá Dáwud escreve:

No domingo de manhã, 1o de outubro de 1911 d.C., correspondente a 9 de Tishi de 5972 (Calendário Hebraico), Regina Núr Mahal Khánum e Mírzá Dáwud foram admitidos na santa presença de 'Abdu'l-Bahá, seja minha vida um sacrifício a Ele.

Depois de nos receber, 'Abdu'l-Bahá disse: "Sois muito bem-vindos e fico muito feliz em vê-los aqui em Londres."

Olhando para mim, Ele disse: "Nunca antes eu uni alguém em casamento, exceto minhas próprias filhas, mas como tu prestaste um grande serviço ao Reino de Abhá, tanto neste país como em outras terras, hoje eu celebrarei a cerimônia de teu casamento. É minha esperança que possais ambos continuar no abençoado caminho do serviço."

Então, 'Abdu'l-Bahá primeiro levou Núr Mahal Khánum à sala adjacente e lhe disse: "Tu amas Mírzá Yuhanna Dáwud com todo o teu coração e alma?" Ela respondeu: "Sim, eu amo."

Em seguida, 'Abdu'l-Bahá me chamou e fez uma pergunta semelhante, ou seja: "Tu amas Núr Mahal Khánum com todo o teu coração e alma?" Eu respondi: "Sim, eu amo." Juntos retornamos à sala e 'Abdu'l-Bahá tomou a mão direita da noiva e a colocou na do noivo e nos pediu para repetirmos depois dEle: "Nós, tudo fazemos para agradar a Deus."

Nós todos sentamos e 'Abdu'l-Bahá continuou: "O casamento é uma instituição sagrada e muito encorajada nesta abençoada Causa. Agora vós dois não sois mais dois, mas um. O desejo de Bahá'u'lláh é que todos os seres humanos tenham o mesmo propósito e se considerem partes de uma grande família, que a mente do gênero humano não seja divergente de si mesma."

"É meu desejo e esperança que vós sejais abençoados em vossas vidas. Que Deus vos ajude a prestar grande serviço ao Reino de Abhá e que vos torneis meios para o seu avanço."

"Que a alegria aumente para vós à medida que os anos passam, e que possais vos tornar árvores viçosas, produzindo frutos deliciosos e fragrantes que são as bênçãos no caminho do serviço."

Quando saímos, todos os amigos reunidos, tanto da Pérsia como de Londres, congratularam-nos pela grande honra que nos foi concedida e fomos convidados para jantar com a bondosa anfitriã.

Logo depois reunimo-nos com Ele em torno da mesa. Durante a refeição um dos amigos perguntou a 'Abdu'l-Bahá sobre "como Ele desfrutou Sua permanência em Londres e o que achou do povo inglês?" 'Abdu'l-Bahá respondeu: "Eu apreciei muito Londres e as faces radiantes dos amigos deleitaram meu coração. Eu fui atraído para cá pela sua unidade e amor. No mundo da existência não há ímã mais poderoso do que o ímã do amor. Estes poucos dias hão de passar, mas sua significação será lembrada pelos amigos de Deus em todas as épocas e todas as terras."

"Existem nações vivas e nações mortas. Síria perdeu sua civilização por causa da letargia do espírito. A nação inglesa está viva, e quando nesta primavera espiritual a verdade divina avança com vitalidade renovada, os ingleses serão como árvores fecundas e o Espírito Santo fará com que medrem abundantemente. Então eles ganharão não só materialmente, mas naquilo que é muito mais importante, progredirão espiritualmente, o que os fará capazes de prestar um grande serviço ao mundo humano."

Outra pessoa perguntou "por que os ensinamentos de todas as religiões são amplamente expressas em parábolas e metáforas e não na linguagem clara do povo?"

'Abdu'l-Bahá respondeu: "Os assuntos divinos são demasiadamente profundos para serem expressos em palavras comuns. Os ensinamentos celestiais são expressos em parábolas para serem preservados de era em era. Quando os de disposição espiritual mergulham profundamente no oceano de seus significados, trazem à superfície as pérolas de seus significados interiores. Não há prazer maior do que estudar a Palavra de Deus com disposição espiritual."

"O objetivo dos ensinamentos de Deus ao homem é que ele possa conhecer a si próprio a fim de poder compreender a grandeza de Deus. A Palavra de Deus é para entendimento e concórdia. Se fordes à Pérsia, onde os amigos de Abhá são numerosos, imediatamente percebereis a força unificadora da obra de Deus. Eles fazem o melhor que podem para estreitar este laço de amizade. Lá, pessoas de diferentes nacionalidades se reúnem numa assembléia e entoam as epístolas divinas numa só harmonia. Supor-se-ia que são todos irmãos. Não consideramos ninguém como estranho, pois Bahá'u'lláh disse: 'Sois todos os raios do mesmo sol, os frutos de uma só árvore e folhas de um mesmo ramo.' Nós desejamos a verdadeira fraternidade da humanidade. Assim será, e já começou. Louvado seja Deus, o Auxiliador, o Perdoador!"

A VISITA A BRISTOL *
* por Thomas Pole.

'Abdu'l-Bahá passou o fim de semana de 23 a 25 de setembro no Clifton Guest House em Clifton, Bristol.

Na primeira tarde, enquanto andava de carro, Ele expressou muito interesse pela área rural da Inglaterra, maravilhando-Se diante de árvores seculares e o vívido verde das matas e colinas, tão diferente do árido Oriente. "Embora seja outono parece ser primavera", disse Ele. As casas com seus pequenos canteiros de gramado sugeriam uma citação que 'Abdu'l-Bahá fez dos Escritos de Bahá'u'lláh nos quais Ele alude a cada família possuindo uma casa com um pedaço de terra. 'Abdu'l-Bahá comparou o campo à alma e a cidade ao corpo do homem, dizendo: "O corpo não pode viver sem a alma. É bom", disse Ele, "viver sob o céu, exposto ao sol e ar fresco." Observando uma jovem senhora que estava montando um cavalo, com seus cabelos flutuando soltos, e alguns que passavam pedalando suas bicicletas sozinhos, Ele disse: "Esta é a era da mulher. Ela deve receber a mesma educação que seu irmão e gozar o mesmo privilégio, pois todas as almas são iguais perante Deus. O sexo, de acordo com as exigências do plano físico, não tem relação com o espírito. Nesta era de despertar espiritual, por meio do caminho do progresso o mundo entrou para a arena do desenvolvimento, no qual o poder do espírito ultrapassa o do corpo. Logo o espírito terá domínio sobre o mundo humano."

À noite foi enviado cabograma de saudações aos bahá'ís de Teerã, informando-os da presença de 'Abdu'l-Bahá em Bristol. Ele transmitiu Seu amor e queria que eles soubessem que Ele estava bem e feliz com os amigos de Clifton. Este foi enviado em resposta a um cabograma anteriormente recebido de Teerã congratulando as pessoas do Guest House pela futura visita de 'Abdu'l-Bahá.

Posteriormente houve uma recepção geral, sendo que noventa pessoas que vieram ao encontro de 'Abdu'l-Bahá ouviram-Lhe falar com comovente fervor.

'Abdu'l-Bahá disse:

Vós sois muito bem-vindos. Vim de longe para vos ver. Louvo a Deus que após quarenta anos de espera finalmente me foi permitido vir e trazer minha mensagem. Esta é uma assembléia cheia de espiritualidade. Aqueles que se encontram presentes volveram seus corações a Deus. Eles procuram e anseiam por boas novas. Nós nos reunimos aqui pelo poder do espírito, por isso nossos corações estão palpitantes de gratidão. "Irradia Tua Luz e Tua Verdade, ó Deus. Faze com que nos conduzam às sagradas montanhas!" Que sejamos refrescados pelas sagradas fontes que renovam a vida do mundo! Assim como o dia segue a noite e após o pôr-do-sol vem o alvorecer, Jesus Cristo apareceu no horizonte deste mundo como o Sol da Verdade; ainda assim, quando as pessoas - depois de se esquecerem dos ensinamentos de Cristo, Seu exemplo de amor a toda a humanidade - novamente se cansaram das coisas materiais, mais uma vez uma Estrela celestial resplandeceu na Pérsia, uma nova iluminação surgiu e agora uma grande luz se difunde por todas as terras.

Os homens preservam suas posses para seu próprio proveito e não compartilham suficientemente com outros a generosidade recebida de Deus. Assim, a primavera se transforma no inverno do egoísmo e da presunção. Jesus Cristo disse que "deveis nascer de novo" a fim de que a vida divina possa nascer de novo em vós. Sede bondosos para com todos aqueles que vos cercam e servi uns aos outros; sede justos e verazes em todos os vossos procedimentos; orai sempre e assim vivei vossas vidas de modo que o aborrecimento não vos possa atingir. Considerai as pessoas de vossa própria raça e as de outras raças como membros de um organismo; filhos do mesmo Pai; deixai transparecer, através de vosso comportamento, que sois de fato o povo de Deus. Então guerras e disputas deixarão de existir e sobre a terra se difundirá a Paz Máxima."

Depois de 'Abdu'l-Bahá se retirar, Tamaddun'ul-Mulk e o sr. W. Tudor Pole proferiram pequenos discursos nos quais fizeram referências aos martírios dos fiéis na Pérsia, com menção especial à eminente poetisa Qurratu'l-'Ayn.

O dia seguinte foi um luminoso domingo e 'Abdu'l-Bahá saiu com os amigos de carro e caminhou pelas colinas. Depois Ele reuniu os serventes da casa, falou-lhes a respeito da dignidade do trabalho e agradeceu-lhes pelos seus serviços, dando a cada um deles uma lembrança de Sua visita. Foi até a casa de hóspedes e abençoou-a como um centro para peregrinos de todas as partes do mundo e disse que ela realmente se tornará uma Casa de Repouso.

Na manhã do terceiro dia, um dignitário da Igreja Anglicana foi ao Seu encontro no café da manhã. A conversa girou em torno da relutância dos ricos em compartilhar suas possessões. 'Abdu'l-Bahá citou palavras de Jesus: "Os que possuem riquezas dificilmente entrarão no Reino do Céu." Ele frisou que somente quando o verdadeiro buscador percebe que o apego às coisas materiais o afastam de sua herança espiritual, é que ele alegremente entra no caminho da renúncia. Desta forma, o rico compartilhará jubilosamente suas possessões terrenas com os necessitados. 'Abdu'l-Bahá destacou a diferença entre a despretensiosa hospitalidade a Ele oferecida e os custosos banquetes dos abastados, os quais muitas vezes se reúnem em suas festas e esquecem das multidões famintas.

Ele urgiu seus ouvintes a difundirem a Luz em suas próprias casas de modo que ela pudesse finalmente iluminar a comunidade inteira.

Em seguida, 'Abdu'l-Bahá retornou a Londres. O desejo mais sincero dos que tiveram o privilégio de encontrá-Lo foi que Seus seguidores em outras terras soubessem o quanto o povo de Clifton apreciou Sua visita e percebeu Seu poder espiritual e amor.

EM BYFLEET

À tarde de 9 de setembro, um grupo de funcionárias da Fundação Passmore Edward que passava suas férias com a srta. Schepel e a srta. Buckton, em Vanners, Byfleet, um povoado a cerca de vinte milhas de Londres, teve o privilégio de visitar 'Abdu'l-Bahá. Elas escreveram, para si mesmas, um pequeno relato das conversas com Ele. Aqui está um excerto do mesmo:

Nós nos reunimos num círculo em torno dEle, e Ele nos fez sentar junto a Si próximo à janela. Um dos membros que estava enfermo recebeu dEle uma saudação especialmente comovente. Ao sentar, 'Abdu'l-Bahá começou dizendo: "Estais felizes?" Nossas faces devem ter Lhe mostrado que estávamos. Então Ele disse: "Eu vos amo a todas, sois as filhas do Reino e aceitas por Deus. Embora possais ser pobres, aqui sois ricas nos tesouros do Reino e eu sou o Servo dos pobres. Recordai como Sua Santidade Jesus disse: 'Bem-aventurados são os pobres!' Se todas as rainhas da terra se reunissem aqui, eu não poderia estar mais feliz!"

'Abdu'l-Bahá soube que nós tínhamos um fundo com o qual ajudávamos pessoas menos afortunadas do que nós próprias. Logo Ele Se levantou e disse: "Vós sois caras a mim. Quero fazer algo por vós! Não posso cozinhar para vós (antes Ele nos havia visto ocupadas na cozinha), mas eis aqui algo para o vosso fundo." Ele percorreu o círculo com um belo sorriso a cada uma, apertando a mão de todas dizendo a saudação bahá'í: "Alláh'u'Abhá!"

Depois, Ele caminhou pelo povoado e muitas crianças pobres, mães com crianças doentes e homens desempregados foram ao Seu encontro. Ele falou a todos eles por intermédio de um tradutor. Na hora do chá outros amigos se juntaram a nós. 'Abdu'l-Bahá apreciou o jardim dos chalés em Vanners, com seu pequeno pomar e as rosas. Ele disse: "Este é como um jardim persa. O ar é muito puro."

Ao partir para Londres, Ele presenteou todos com um amor-perfeito de cor púrpura do jardim, e disse várias e várias vezes: "Good-bye" em inglês.

Em 28 de setembro, 'Abdu'l-Bahá novamente visitou Vanners, a pequena casa de campo no antigo solar real que data da época de Eduardo II. Partindo de Londres de automóvel, ficou naquela cidade uma noite e retornou ao anoitecer do segundo dia.

Durante a viagem de carro, 'Abdu'l-Bahá ficou muito comovido com dois destacamentos de escoteiros marchando pela estrada. Quando soube do lema dos escoteiros "Sempre Alerta" e que um ato de bondade a cada dia é uma de suas leis, que alguns desses meninos haviam apagado um incêndio e ajudado num recente acidente de trem, Ele disse: "Isto me deixa muito feliz."

Ao chegar a Vanners, Ele encontrou uma grande multidão incomumente mesclada, reunida junto ao portão para saudá-Lo, desde os muito pobres até os ricos que haviam vindo de suas casas de campo. Uma grande multidão O seguiu e tantos quantos podiam se apinharam no jardim e sentaram em torno dEle. O silêncio era muito impressionante. Cada vez que 'Abdu'l-Bahá apareceu no povoado notou-se entre as pessoas a mesma atenção e avidez por ouvir.

Depois de expressar Sua alegria por estar com eles, Ele começou a falar ao pequeno grupo em resposta a uma pergunta sobre a esmerada civilização do Ocidente.

O CATIVEIRO DO HOMEM
'Abdu'l-Bahá disse:

O fausto elimina a liberdade de comunicação. Aquele que é cativo dos desejos é sempre infeliz; os filhos do Reino se desvencilharam de seus desejos. Rompei todas as cadeias e buscai felicidade e esclarecimento espiritual; então, embora caminheis sobre esta terra, havereis de vos sentir como no divino horizonte. Isto é possível apenas ao homem. Ao olharmos em torno de nós percebemos que qualquer outra criatura é cativa do seu meio-ambiente.

O pássaro é cativo no ar e o peixe é cativo no mar. Somente o homem se mantém à parte e diz para os elementos: Farei de vós meus servos! Posso governar-vos! Ele toma a eletricidade, e por meio de sua engenhosidade a aprisiona e a transforma numa maravilhosa força de iluminação e num meio de comunicação a uma distância de milhares de milhas. Mas o próprio homem pode se tornar escravo das coisas que ele inventou. Seu verdadeiro segundo nascimento ocorre quando ele é libertado de todas as coisas materiais, pois é livre somente aquele que não é escravo de seus desejos. Então ele se terá tornado cativo do Espírito Santo."

O PODER DE DEUS

Um amigo perguntou a 'Abdu'l-Bahá até que ponto um indivíduo pode chegar àquela consciência de Cristo a que São Paulo se refere como nossa esperança de Glória.

'Abdu'l-Bahá voltou-se com um olhar de grande júbilo e disse com um comovente gesto:

A graça e o poder de Deus são ilimitados para cada alma humana. Considerai o poder vivificador de Cristo quando Ele esteve na terra. Vede Seus discípulos! Eles eram homens pobres e sem cultura. Do rude pescador, Ele fez o grande Pedro, e da pobre aldeã, Madalena, Ele fez aquela que é um poder no mundo inteiro hoje. Houve muitas rainhas que são lembradas por suas épocas na história e nada mais se sabe a respeito delas. Mas Maria Madalena é maior do que todas elas. Foi ela cujo amor fortaleceu os discípulos quando sua fé estava se desvanecendo. O que ela fez pelo mundo não pode ser avaliado. Vede que poder divino foi aceso nela - o poder de Deus!

MENSAGEIROS INSPIRADOS

Quando Lhe foi perguntado se sempre seria necessário que Profetas viessem de tempos em tempos e se não iria o mundo, no curso dos acontecimentos, atingir a completa percepção de Deus através de progresso, 'Abdu'l-Bahá respondeu:

O gênero humano precisa de uma força motriz universal que o vivifique. O Mensageiro inspirado que é diretamente assistido pelo poder de Deus produz resultados universais. Bahá'u'lláh ergue-Se como uma luz na Pérsia e agora essa luz está se espalhando pelo mundo todo.

É isto que se quer dizer pela segunda vinda de Cristo! Cristo é uma expressão da Realidade Divina, a única Essência da Entidade Celestial, a qual não tem começo ou fim. Ele surge, ergue-Se, manifesta-Se e Se põe em cada um dos ciclos.

OS POBRES

Aqueles que estiveram com 'Abdu'l-Bahá perceberam que freqüentemente após francamente falar às pessoas, Ele repentinamente Se virava e Se afastava para ficar sozinho. Em tais ocasiões ninguém O seguia. Porém, numa ocasião, quando Ele terminou Sua conversa e passou pelo portão do pomar e seguiu em direção ao povoado, todos se surpreenderam com Sua livre e maravilhosa caminhada que foi descrita por um dos nossos amigos americanos como a de um pastor ou um rei.

À medida que Ele passava pelas crianças maltrapilhas que se aglomeravam às dúzias em Sua volta, os meninos O saudavam como haviam sido ensinados na escola, mostrando quão instintivamente sentiam a grandiosidade de Sua presença.

Extremamente notável era o silêncio, mesmo do mais rude dos homens, quando 'Abdu'l-Bahá apareceu.

Um pobre mendigo exclamou: "Ele é um bom homem", e acrescentou: "Ah, Ele é sofrido!"

Ele tinha particular interesse nas crianças doentes, mutiladas e malnutridas. Mães choravam enquanto seus pequeninos O seguiam, e um amigo explicou que este grande Visitante veio da Terra Santa, através dos mares, onde Jesus nasceu.

O dia todo, pessoas de todas as condições se aglomeravam próximo ao portão esperando uma chance de vê-Lo, e mais de sessenta pessoas vieram a Vanners de carro ou bicicleta para vê-Lo, muitas desejando Lhe fazer perguntas a respeito de algum assunto especial. Entre eles estavam clérigos de diversas denominações, um diretor de uma escola pública para rapazes, um membro do parlamento, um médico, um famoso escritor político, o vice-chanceler de uma Universidade, diversos jornalistas, um bem conhecido poeta e um magistrado de Londres.

Ele será lembrado por longo tempo, sentado à janela em arco, sob o sol da tarde, com Seus braços envolvendo um menino muito esfarrapado mas muito feliz que havia vindo para pedir um vintém a 'Abdu'l-Bahá para seu cofre e para sua inválida mãe, enquanto em Sua volta na sala estavam reunidos homens e mulheres discutindo educação, socialismo, a primeira reforma do Judiciário, e a relação de submarinos e telegrafia sem fio com a nova era em que o homem estava entrando.

Durante a noite, um jovem casal de noivos do povoado que havia lido alguns livros bahá'ís, pediu permissão para se encontrar com Ele. Eles entraram timidamente, sendo o homem conduzido pela moça. 'Abdu'l-Bahá levantou-Se para cumprimentá-los e os fez tomarem seus lugares no grupo. Ele lhes falou com fervor a respeito da sacralidade do matrimônio, da beleza de uma união verdadeira, e da importância da criança pequena e de sua educação. Antes de partirem, Ele abençoou-os e passou um perfume persa nos seus cabelos e testas.

EDUCAÇÃO

'Abdu'l-Bahá deu grande ênfase à educação. Ele disse:

Hoje a educação da menina é mais importante que a do menino, pois ela é a mãe da futura raça. É a tarefa de todos cuidarem das crianças. Aqueles que não têm filhos deveriam, se possível, ser responsáveis pela educação de uma criança.

A condição dos destituídos nos povoados rurais bem como em Londres causou grande impressão em 'Abdu'l-Bahá. Numa conversa séria com o dirigente de uma paróquia, 'Abdu'l-Bahá disse:

Eu acho a Inglaterra alerta; há vida espiritual aqui. Mas vossos pobres também são muito pobres! Isto não deveria ocorrer. De um lado tendes riqueza e grande luxo; de outro, homens e mulheres estão vivendo em extrema fome e necessidade. Este grande contraste de vida é uma das manchas da civilização desta era iluminada.

Deveis volver vossa atenção mais seriamente à melhora das condições dos pobres. Não vos deixeis satisfazer até que cada um que vos diz respeito vos seja como membro de vossa família. Considerai cada um como um pai ou um irmão, ou uma irmã, ou uma mãe, ou um filho. Se puderdes atingir esta condição vossas dificuldades desaparecerão e sabereis o que fazer. Este é o ensinamento de Bahá'u'lláh.

A TRANSFORMAÇÃO DO CORAÇÃO

A alguém que falou do desejo das pessoas de possuírem terra, e da forte tendência de rebelião da parte das classes trabalhadoras, 'Abdu'l-Bahá disse:

Luta e emprego de força, mesmo por uma causa justa, não trará bons resultados. Os oprimidos que têm a legitimidade do seu lado, não devem se apoderar desse direito a força; o mal continuaria. Os corações devem ser transformados. Os ricos devem ter o desejo de doar! A vida no homem deveria ser como uma chama, aquecendo todos aqueles com quem entra em contato. Os espiritualmente despertos são como tochas brilhantes aos olhos de Deus, dão luz e conforto aos seus semelhantes.

Quando Lhe perguntaram se não achava os modos dos ingleses rudes e desagradáveis comparados aos do Oriente, 'Abdu'l-Bahá disse que não sentiu assim. À medida que uma nação cresce em espiritualidade, os modos se tornam diferentes.

CRISTO E BAHÁ'U'LLÁH

Um amigo perguntou como os ensinamentos de Bahá'u'lláh se diferenciam dos de Jesus Cristo. 'Abdu'l-Bahá declarou:

Os ensinamentos são os mesmos. É o mesmo alicerce e o mesmo templo. A verdade é uma e sem divisão. Os ensinamentos de Jesus estão numa forma concentrada. Hoje os homens não concordam sobre o significado de muitas das Suas palavras. Seus ensinamentos são como uma flor em botão. Hoje, o botão está se abrindo e se tornando uma flor! Bahá'u'lláh expandiu e completou os ensinamentos e os aplicou detalhadamente ao mundo todo.

Não existem solitários e eremitas entre os bahá'ís. O homem deve trabalhar com seus semelhantes. Todos devem ter algum ofício, arte ou profissão, seja rico ou pobre, e com isso deve servir à humanidade. Este serviço é aceitável como a mais elevada forma de adoração.

ARTE

Uma pintora perguntou: "Será a arte uma profissão meritória?" 'Abdu'l-Bahá, voltando-se para ela de modo impressivo, disse: "Arte é adoração."

Um ator mencionou o drama e sua influência. "O drama é da maior importância", disse 'Abdu'l-Bahá. "Ele foi uma grande força educacional no passado e assim o será novamente." Ele relatou que quando jovem assistiu ao drama religioso da traição e paixão de 'Alí que O afetou tão profundamente que Ele chorou e não pôde dormir por muitas noites.

SÍMBOLOS

Alguém deseja saber se é um bom costume usar um símbolo, como, por exemplo, uma cruz. Ele disse:

Usais a cruz para vos lembrar; ela concentra vossos pensamentos, porém não possui qualquer poder mágico. Os bahá'ís freqüentemente usam uma jóia com o Máximo Nome gravado sobre ela; não há influência mágica alguma na jóia. É algo para lembrar, um companheiro. Se estiverdes prestes a fazer algum ato egoísta ou precipitado, e vossos olhos caírem sobre o anel em vossa mão, havereis de lembrar e mudar vossa intenção.

ESPERANTO

Um amigo perguntou a respeito da profecia de Bahá'u'lláh, em Palavras do Paraíso, de que uma língua universal seria constituída, desejando saber se o Esperanto poderia ser a língua escolhida. E 'Abdu'l-Bahá respondeu:

O amor e o esforço empregados no Esperanto não serão perdidos, mas nenhuma pessoa sozinha pode construir uma língua universal. Ela deve ser feita por um Conselho representando todas as nações e deve conter palavras de diferentes idiomas. Ela será regulada pelas mais simples regras e não haverá exceções; nem haverá gênero nem letras extras e mudas. Toda coisa designada terá apenas um nome. Em árabe há centenas de nomes para o camelo! Nas escolas de cada nação será ensinada a língua pátria, assim como a revisada língua universal.

TOLSTOY

A mesma pessoa disse: "Eu li muito sobre Tolstoy e vejo muito paralelo entre os ensinamentos dele e os Seus. Num de seus livros ele fala do Enigma da Vida e descreve como a vida é desperdiçada em nosso esforço para encontrar a Chave. Mas Tolstoy prossegue dizendo: 'Há um homem na Pérsia que possui o segredo.'"

"Sim", disse 'Abdu'l-Bahá, "Eu recebi uma carta de Tolstoy e nela ele disse que deseja escrever um livro sobre Bahá'u'lláh."

CURA

Um amigo interessado em cura citou as palavras de Bahá'u'lláh: "Se alguém estiver doente que vá ao melhor médico."

'Abdu'l-Bahá disse:

Existe apenas um poder que cura - Deus. O estado e a condição através do qual a cura acontece é a confiança do coração. Alguns atingem este estado através de pílulas, poções e médicos. Outros, por meio de higiene, jejum e oração. Outros, por percepção direta.

Em outra ocasião, em relação ao mesmo assunto, 'Abdu'l-Bahá disse: "Tudo o que vemos em torno de nós é o trabalho da mente. É a mente no vegetal e no mineral que age sobre o corpo humano e modifica sua condição."

Depois, a conversa se desenvolveu num discurso erudito sobre a filosofia de Aristóteles.

MORTE
Um amigo perguntou: "Como se deve ver a morte?"
'Abdu'l-Bahá respondeu:

Como se olha para o fim de uma jornada? Com esperança e com expectativa. É o mesmo que acontece com o fim desta jornada terrena. No mundo do além o homem se verá livre de muitas incapacidades das quais sofre agora. Aqueles que passaram pela morte possuem uma posição própria. Ela não é afastada da nossa; a obra deles, a obra do Reino, é nossa; mas é santificada daquilo que chamamos 'tempo e espaço'. Para nós o tempo é medido pelo sol. Quando não há mais alvorecer nem pôr-do-sol, o tempo não existe para o homem. Aqueles que ascenderam possuem atributos diferentes daqueles que ainda permanecem sobre a terra, ainda assim não há verdadeira separação. Na oração há uma mescla de estados, uma mistura de condições. Orai por eles assim como eles oram por vós. Quando estais numa atitude receptiva, sem que saibam, eles são capazes de vos dar sugestões se estiverdes em dificuldades. Isto algumas vezes acontece em estado de sono. Porém, não há qualquer relação fenomenal! Aquilo que parece uma relação fenomenal tem outra explicação.

O inquiridor exclamou: "Mas eu ouvi uma voz!" 'Abdu'l-Bahá disse:

Sim, isto é possível; nós ouvimos vozes claramente em sonhos. Não é com o ouvido físico que ouvis; o espírito daqueles que faleceram estão livres do mundo dos sentidos e não utilizam meios físicos. Não é possível colocar estes grandes temas em palavras humanas; a linguagem humana é linguagem de criança, e a explicação humana muitas vezes nos desvia do caminho.

Um dos presentes perguntou: "Como é que em oração e meditação o coração freqüentemente se volta com instintivo apelo a algum amigo que passou para a outra vida?" 'Abdu'l-Bahá respondeu:

É uma lei da criação de Deus que o fraco deve se apoiar sobre o forte. Aqueles a que vos volveis podem ser mediadores do poder de Deus a vós, da mesma forma que quando sobre a terra. Mas é o Espírito Santo que fortalece todos os homens." Em seguida, outro amigo referiu-se à comunhão de Jesus com Moisés e Elias no monte da transfiguração, e 'Abdu'l-Bahá disse: "Os fiéis são sempre apoiados pela presença da Assembléia Suprema. Na Assembléia Suprema se encontram Jesus, Moisés, Elias e Bahá'u'lláh, e outras Almas Supremas; lá estão também os mártires.

Quando Lhe foi perguntado a respeito da persistência da personalidade animal após a morte, 'Abdu'l-Bahá disse: "Nem mesmo o mais desenvolvido cão possui a alma imortal do homem; ainda assim o cão é perfeito em sua própria posição. Vós não disputais com uma roseira porque ela não consegue cantar!"

UM VERDADEIRO BAHÁ'Í

Um estudante de novos métodos de higher criticism * perguntou a 'Abdu'l-Bahá se seria bom ele continuar na igreja com a qual ele esteve associado durante toda a sua vida e cuja linguagem lhe era cheia de significado. 'Abdu'l-Bahá respondeu:

* Uma das correntes de pensamento da época. (n.e.)

Você não deve se dissociar dela. Saiba disso; o Reino de Deus não se encontra em qualquer sociedade; alguns buscadores passam por muitas sociedades da mesma maneira que o viajante passa por muitas cidades até atingir seu destino. Se você já pertence a uma sociedade, não abandone seus irmãos. Você pode ser um cristão bahá'í, franco-maçom bahá'í, judeu bahá'í, muçulmano bahá'í. O número nove contém o oito, o sete e todos os outros números e não nega qualquer um deles. Não magoeis nem negueis a ninguém, dizendo: 'Ele não é bahá'í!' Ele será conhecido por seus atos. Não há segredo algum entre os bahá'ís. Um bahá'í não esconde nada.

DIFUNDINDO OS ENSINAMENTOS

Quando um amigo americano Lhe perguntou: "Qual é a melhor maneira de difundir os ensinamentos?" Ele disse: "Por meio de atos. Este caminho é aberto a todos e atos são entendidos por todos. Associai-vos àqueles que trabalham pelos pobres, os fracos e os desafortunados - isto é muito louvável. Ensinar por palavras requer a destreza de um médico sábio. Ele não oferece ajuda àqueles que não querem ser tratados. Não imponhais ajuda àqueles que não precisam de vossa ajuda. O trabalho de ensino não é para todos."

O seguinte incidente mostra como a atenção de 'Abdu'l-Bahá é dirigida aos mínimos detalhes naquilo que há envolvimento de outros. Ao ouvir que alguns de Seus amigos haviam vindo de Londres e planejavam passar a noite no povoado a fim de estarem próximos a Ele, 'Abdu'l-Bahá imediatamente os fez Seus convidados na hospedaria e, preocupando-Se com o conforto deles, inspecionou pessoalmente os quartos, pois à noite estava começando a esfriar.

EM BROOKLANDS

Na manhã do segundo dia, uma vizinha mandou seu carro, perguntando a 'Abdu'l-Bahá se Ele não gostaria de levar Seus convidados ao campo de aviação de Brooklands. Embora estivesse ventando, um aviador se encontrava na pista e ao saber quem era o Visitante ofereceu-se para voar para Ele. 'Abdu'l-Bahá deixou Seus amigos e foi até o centro da pista, onde ficou parado observando o biplano fazer grandes círculos acima dEle.

Um hindu que estava aprendendo a voar na escola uniu-se aos amigos de 'Abdu'l-Bahá e perguntou: "Quem é o homem em vestes orientais?"

Quando lhe disseram, ele exclamou: "Oh, eu O conheço muito bem pelos Seus ensinamentos que estudei" e imediatamente foi ao encontro de 'Abdu'l-Bahá.

Por algum tempo eles conversaram em árabe e o jovem mostrou grande alegria por estar em Sua presença. Depois disse que durante muitos anos havia ansiado por esse momento.

Enquanto tomavam chá ao ar livre, sentados na extremidade do longo banco que havia sido arranjado, 'Abdu'l-Bahá e o jovem hindu falavam alegremente com todos.

'Abdu'l-Bahá notou que dois dos aviadores estavam praticando luta-livre no campo, e quando eles pararam, Ele se aproximou deles batendo palmas e dizendo alto em inglês: "Bravo! Bravo! Este é um bom exercício."

Em Seu retorno ao Egito, 'Abdu'l-Bahá enviou uma gentil mensagem de recordação ao povo de Byfleet, dizendo que jamais os esqueceria.

OS DIAS EM LONDRES

Durante a permanência de 'Abdu'l-Bahá em Cadogan Gardens as pessoas chegavam todos os dias, o tempo todo, desde a manhã cedo até o cair da noite, na esperança de vê-Lo e ouvi-Lo. Houve muitas reuniões em torno da mesa daquela casa hospitaleira e centenas de pessoas foram acolhidas. Muitos vieram sem serem apresentados e ninguém foi recusado. Entre eles havia sacerdotes de várias denominações, membros do parlamento, magistrados e homens de letras.

Os visitantes não eram somente ingleses; numerosos persas viajaram de Teerã e de outras cidades orientais para um encontro descontraído com Aquele que por tanto tempo foi separado deles por causa de Seu cativeiro.

O editor de um jornal publicado no Japão alterou sua rota de retorno a Tóquio para poder passar a noite próximo de 'Abdu'l-Bahá, e uma visita de última hora foi feita por um médico zoroastriano de Bombaim, na véspera de seu retorno a Índia.

O TRABALHO DA MULHER

O interesse de 'Abdu'l-Bahá no trabalho e progresso das mulheres é bem conhecido, e entre as notáveis líderes que vieram vê-Lo pode-se mencionar Annie Besant, a presidente da Sociedade Teosófica, as organizadoras de várias entidades sufragistas, agentes cívicas e filantrópicas, diretoras de vários colégios femininos, e médicas.

Uma animada conversa que resultou da visita de uma ardorosa sufragista será lembrado por longo tempo por aqueles que tiveram o privilégio de estarem presentes. A sala estava repleta de homens e mulheres e muitos persas, que em sua usual atitude de respeito, estavam sentados no chão.

Depois de comparar a posição geral das mulheres orientais e ocidentais, e expor o fato de que em muitos aspectos a mulher oriental possui vantagens sobre sua irmã ocidental, 'Abdu'l-Bahá voltou-Se e disse à visitante: "Diga-me por que razões crê que hoje a mulher deveria votar?"

Resposta: "Creio que a humanidade é divina e que ela deve se elevar mais e mais alto, mas não pode voar com apenas uma asa."

'Abdu'l-Bahá expressou Seu prazer diante dessa resposta e sorrindo replicou: "Mas o que fará se uma asa estiver mais forte que a outra?"

Resposta: "Então devemos fortalecer a asa mais fraca, senão o vôo sempre será dificultado."

'Abdu'l-Bahá sorriu e perguntou: "O que dirá se eu lhe provar que a mulher é a asa mais forte?"

A resposta veio naquele mesmo tom brilhante: "Terá a minha eterna gratidão!", e todos os presentes ficaram felizes.

Depois 'Abdu'l-Bahá prosseguiu mais seriamente:

A mulher é realmente da maior importância para a raça. Ela é portadora de uma carga maior e uma obra maior. Considerai os mundos vegetal e animal. A tamareira mais carregada de frutos é a mais estimada pelo cultivador de tâmaras. O árabe sabe que para uma longa jornada a égua tem maior fôlego. Devido à sua maior força e ferocidade, a leoa é mais temida pelo caçador que o leão.

O mero tamanho do cérebro não representa qualquer medida de superioridade. A mulher tem coragem moral superior ao homem; ela possui também dons especiais que a capacitam a manter controle em momentos de perigo e crise. Se necessário ela pode se tornar uma guerreira.

ZENÓBIA

'Abdu'l-Bahá perguntou aos presentes se lembravam da história de uma mulher chamada Zenóbia e a queda de Palmira. E então continuou como segue, gesticulando com as mãos de um modo grave e simples, característico dEle:

Havia certa vez um governante na antiga Síria que possuía uma bela e inteligente esposa. Ela era tão capaz que quando o governante morreu, ela o sucedeu como governante. A terra prosperou sob seu domínio e os homens reconheceram que ela era melhor governante que seu marido. Depois de algum tempo as legiões de Roma invadiram o país, mas por várias vezes ela os expulsou, lhes dando grande embaraço. Ela soltou seu formoso cabelo, cavalgando ela mesma à frente de seu exército, vestida num manto escarlate, usando uma coroa de ouro, e empunhando uma espada de dois gumes. Então, o imperador romano retirou suas forças de cinco outras províncias a fim de subjugá-la. Depois de uma longa e destemida luta, Zenóbia recolheu-se na cidade de Palmira, fortificou-a com admiráveis baluartes e lá suportou um cerco de quatro meses, sem que César fosse capaz de expulsá-la. As provisões que ela havia armazenado no interior dos muros finalmente se acabaram e a penúria de seu faminto e flagelado povo a obrigou a se render.

César ficou profundamente admirado com essa grande mulher devido à sua coragem e persistência e pediu-lhe que se tornasse sua esposa. Mas ela recusou-se, dizendo que jamais consentiria em ter como esposo o inimigo de seu povo. Por isso, César enfureceu-se e decidiu humilhá-la. Ao voltar, ele a levou para Roma em seus navios. Foi preparado um grande desfile para sua entrada triunfal e as ruas ficaram repletas de gente. No desfile, primeiro passaram os elefantes, depois dos elefantes passaram os camelos, depois dos camelos, os tigres e os leopardos, depois dos leopardos, os macacos, e finalmente, depois dos macacos, passou a Zenóbia com uma corrente de ouro em torno do pescoço. Ela permaneceu com a cabeça erguida, firme em sua decisão. Nada podia abater sua vitalidade! Ela se recusou a se tornar a imperatriz de César, então foi lançada numa masmorra e finalmente morreu.

'Abdu'l-Bahá parou. O silêncio tomou conta da sala e passou algum tempo até que fosse rompido.

Numa outra ocasião, 'Abdu'l-Bahá disse a um grupo de amigos reunidos em Sua volta:

De um modo geral, hoje as mulheres possuem um senso de religião mais forte que os homens. A intuição da mulher é mais acurada; ela é mais receptiva e sua inteligência é mais ágil. Dia virá em que a mulher reivindicará sua superioridade em relação ao homem.

Em todos os lugares a mulher foi louvada por sua fé. Depois do sofrimento de Cristo, os discípulos choraram e se entregaram à tristeza. Eles achavam que suas esperanças foram destruídas e a Causa estava completamente perdida, até que Maria Madalena foi ao encontro deles e os fortaleceu, dizendo: "Vós lamentais pelo corpo de Nosso Senhor ou pelo Seu Espírito? Se lamentais pelo Seu Espírito, estais equivocados, pois Jesus está vivo! Seu Espírito jamais nos deixará!" Assim, através de sua sabedoria e encorajamento, a Causa de Cristo foi confirmada para todo o futuro. Sua intuição capacitou-a a compreender o fato espiritual.

Mas, perante Deus não faz qualquer diferença. É maior aquele ou aquela que estiver mais próximo de Deus.

Uma manhã, ao entrar na sala, 'Abdu'l-Bahá olhou em Sua volta e disse:

É quase um milagre nós estarmos aqui reunidos. Não há restrições raciais, políticas ou patrióticas. Nós fomos unidos pelas palavras de Bahá'u'lláh, e da mesma maneira todas as raças da terra serão unidas. Estai seguros disso!

O VERDADEIRO BAHÁ'Í

"Eu nunca ouvi falar de Bahá'u'lláh", disse um jovem. "Apenas recentemente li a respeito deste movimento, mas reconheço a missão de 'Abdu'l-Bahá e desejo ser um discípulo. Eu sempre acreditei na fraternidade do homem como a suprema solução de todas as nossas dificuldades nacionais e internacionais." A resposta de 'Abdu'l-Bahá foi:

Não faz diferença se já ouvistes falar de Bahá'u'lláh ou não. A pessoa que vive a vida de acordo com os ensinamentos de Bahá'u'lláh já é um bahá'í. Por outro lado, uma pessoa pode se chamar de bahá'í por cinqüenta anos e se não viver a vida (bahá'í) não é bahá'í. Uma pessoa feia pode se chamar bela, mas não engana a ninguém, e um negro pode se chamar de branco, ainda assim não ilude a ninguém nem mesmo a si próprio!

O ADVENTO DA PAZ

"Por que processo", continuou o indagador, "esta paz haverá de ser estabelecida na terra? Virá imediatamente após a declaração universal da Verdade?"

Não, ela acontecerá gradualmente - disse 'Abdu'l-Bahá. Uma planta que cresce muito rapidamente dura apenas pouco tempo. Vós sois minha família - e Ele lançou um olhar sorridente - meus novos filhos! Se uma família viver em harmonia, grandes resultados serão obtidos. Ampliai o círculo; quando uma cidade vive em íntimo acordo, maiores resultados surgirão, e um continente perfeitamente unido unirá igualmente todos os outros continentes.

O CORAÇÃO PURO

Quando Lhe foi perguntado sobre uma definição de um coração puro, 'Abdu'l-Bahá disse:

O coração puro é inteiramente afastado do ego. Ser abnegado é ser puro.

A VERDADEIRA ESPIRITUALIDADE

Outra manhã 'Abdu'l-Bahá começou a falar imediatamente depois de Se reunir ao grupo de pesquisadores. Ele disse:

Louvado seja Deus, este é um século glorioso, que o amor cresça a cada dia; que ateie o fogo para acender a vela na escuridão, como uma dádiva e misericórdia de Deus.

Sabei, ó vós que possuís percepção, que a verdadeira espiritualidade é como um lago de águas cristalinas que reflete o divino. Tal foi a espiritualidade de Jesus Cristo. Há outro tipo que se assemelha a uma miragem, parecendo ser espiritual sem sê-lo. Aquilo que é realmente espiritual deve iluminar o caminho de Deus, e deve resultar em atos. Não podemos aceitar reivindicação espiritual quando não há resultado. Espírito é realidade, e quando em cada um de nós o espírito procura se aproximar da Grande Realidade deve, por sua vez, conceder vida. No tempo de Cristo, os judeus estavam mortos, não possuíam verdadeira vida, e Jesus realmente insuflou uma nova vida em seus corpos. Vede o que foi realizado desde então.

CONHECIMENTO DEVE RESULTAR EM AÇÃO

Um representante de uma bem conhecida sociedade referiu-se à suas reuniões com objetivo de pesquisa acerca da realidade da verdade, e 'Abdu'l-Bahá disse:

Eu conheço a vossa obra e penso muito sobre ela. Acho que vosso desejo é servir ao gênero humano e unir a humanidade sob a bandeira da unicidade; mas vossos membros devem tomar cuidado a fim de que ela não se torne apenas uma discussão. Olhai à vossa volta. Quantos comitês foram formados e, depois de viverem por pouco tempo, se tornaram mortos! Comitês e sociedade não podem criar ou dar vida.

Pessoas se reúnem e conversam, mas apenas a Palavra de Deus é poderosa em seus resultados. Considerai por um momento: não fareis negócio se dele não obtiverdes renda nem vantagem! Vede os seguidores de Cristo. Seu poder foi devido ao fervor e ações deles. Todo esforço deve ter seus resultados, senão não será verdadeiro esforço. Deveis vos tornar o meio de iluminação para o mundo da humanidade. Esta é uma prova e um sinal infalível. Todo progresso depende de duas coisas: conhecimento e ação. Primeiro adquiri conhecimento e, ao atingirdes a convicção, colocai-o em prática.

Certa vez um erudito viajou para me encontrar e receber minha bênção, dizendo que conhecia e compreendia os ensinamentos bahá'ís. Quando lhe disse que podia receber as bênçãos do Espírito Santo sempre que se colocasse numa atitude receptiva para recebê-las, ele disse que estava sempre em atitude receptiva.

"O que você faria", eu lhe perguntei, "se subitamente eu me voltasse e o golpeasse?" Ele imediatamente enfureceu-se com indignação, e zangado caminhou a passos largos pela sala.

Logo depois, fui atrás dele e tomando-lhe pelo braço, disse: "Mas você deve retribuir o mal com o bem. Quer eu o honre ou o despreze, você deve seguir os ensinamentos; por ora você meramente os leu. Lembre-se das palavras de Jesus que disse: 'Os primeiros serão os últimos e os últimos os primeiros.'" O homem voltou-se, apertou minha mão e se foi, e desde então soube de muitos atos bondosos feitos por ele.

SUA POSIÇÃO

Quando 'Abdu'l-Bahá era chamado de profeta, Ele respondia:

"Meu nome é 'Abdu'l-Bahá, o Servo de Deus." *

* Literalmente Servo da Glória. Compare: "Meu nome é 'Abdu'l-Bahá. Minha realidade é 'Abdu'l-Bahá e serviço a toda a humanidade é a minha perpétua religião... 'Abdu'l-Bahá é a Bandeira da Suprema Paz... O Arauto do Reino é Ele, para assim Ele possa despertar os povos do Oriente e do Ocidente. Ele é a Voz da Amizade, da Verdade, e da Reconciliação, vivificando todas as regiões. Jamais terá qualquer nome ou título exceto 'Abdu'l-Bahá. Este é o meu anelo. Esta é minha suprema perfeição. Ó vós amigos de Deus! 'Abdu'l-Bahá é a manifestação de serviço e não é Cristo. O servo da humanidade ele é, e não o chefe. Convocai o povo à posição de servitude de 'Abdu'l-Bahá e não à posição de Cristo."

(De uma carta enviada aos amigos em Nova York, 1º de janeiro de 1907)

VISITA AO PREFEITO

Ao desejo expresso do sr. prefeito, 'Abdu'l-Bahá lhe fez uma visita certa manhã cedo na Mansion House. A conversa girou principalmente em torno das condições sociais das grandes cidades e 'Abdu'l-Bahá disse que Londres era a cidade mais bem administrada que Ele viu.

Ele disse: "Toda pessoa que anda pelas ruas é livre como se estivesse em seu próprio reino. Há uma grande luz espiritual em Londres. O esforço em prol da justiça é real neste país, a lei é a mesma para os pobres e os ricos." Ele teve grande interesse em saber a respeito do cuidado para com os prisioneiros que deixam a cadeia, e falou que era feliz a terra onde os magistrados são como pais para o povo.

Antes de 'Abdu'l-Bahá partir de Londres, Ele foi a um hospital em East-End para visitar um jovem escritor que estava muito ansioso para vê-Lo.

ALGUMAS CARACTERÍSTICAS PESSOAIS

Há uma característica na personalidade de 'Abdu'l-Bahá que ainda não foi enfatizada, sem a qual nenhuma idéia a Seu respeito é completa. A notável dignidade que distingue Sua presença e porte é ocasionalmente iluminada por um delicado e discreto humor que é tão espontâneo quanto contagiante e encantador.

Na Sua última tarde em Londres, um repórter foi ao Seu encontro para Lhe perguntar a respeito de Seus futuros planos, encontrando-O cercado de inúmeros amigos que vieram para Lhe dizer adeus. Quando, em resposta à sua pergunta, 'Abdu'l-Bahá lhe disse, em inglês perfeito, de Sua intenção de visitar Paris e de lá ir para Alexandria, o representante da imprensa mostrou-se surpreso diante de Sua impecável pronúncia. Logo a seguir, 'Abdu'l-Bahá começou a caminhar de modo descontraído de um lado para o outro da perfumada sala de estar, Sua vestimenta oriental contrastando estranhamente com aquilo que o cercava; e, para a alegria dos presentes, pronunciou uma série de elaboradas palavras em inglês, terminando sorridente: "Falo palavras muito difíceis em inglês!" Então, um momento depois, com a rápida transição de alguém que sabe ser sério e alegre, ele Se mostrou extremamente sério.

Ele havia ordenado que ninguém fosse mandado embora, mas uma pessoa que por duas vezes havia buscado Sua presença, e por algum descuido havia sido impedida de vê-Lo, escreveu-Lhe uma pungente carta demonstrando ter se sentido rejeitada. Ela foi traduzida pelo tradutor persa. Imediatamente 'Abdu'l-Bahá vestiu Seu sobretudo e, dirigindo-Se à porta, disse com expressão de indizível tristeza: "Um amigo meu foi martirizado e eu estou muito angustiado. Vou sair sozinho." E apressou-Se escada abaixo. Poder-se-ia dizer como o título "Mestre" Lhe cai bem.

Outro aspecto de Seu caráter que quem quer que O tivesse visto jamais poderia esquecer era Sua atitude em relação às crianças que Lhe eram apresentadas. Muitas de Suas palestras foram proferidas enquanto Ele permanecia sentado com uma delas em Seus braços.

Ele invariavelmente admoestava os pais desta forma:

Dai a esta criança uma boa educação; envidai todo esforço para que ela possa ter o melhor de vossos recursos, de modo que possa ser capaz de desfrutar as vantagens desta gloriosa era. Fazei tudo que for possível para estimular nelas a espiritualidade.

Alguém que buscou a presença de 'Abdu'l-Bahá, percebeu que Sua simpatia era paternal. Ao falar de seu amor e do amor de outros a 'Abdu'l-Bahá, a resposta foi:

Eu sei que você me ama, posso ver que é assim. Eu orarei por você para que seja firme e sirva à Causa, tornando-se um verdadeiro servo de Bahá'u'lláh. Embora eu vá embora, estarei sempre presente com todos vós.

Estas palavras foram ditas com uma amável compaixão e compreensão das dificuldades; durante os momentos desta pequena conversa, 'Abdu'l-Bahá afagou a mão do interlocutor, e no final tomou sua cabeça nas mãos e delicadamente puxou-a para si beijando a testa daquele jovem que sentiu ter encontrado um pai e um amigo.

DE UMA ENTREVISTA CONCEDIDA
POR 'ABDU'L-BAHÁ AO WEEKLY BUDGET *
* por Isabel Fraser.
23 DE SETEMBRO DE 1911
Algumas das experiências de Seus
40 anos de encarceramento

Num apartamento em Cadogan Gardens está sentado um Oriental espiritualmente iluminado, cuja recente vinda a Londres marca a união do Oriente e do Ocidente.

Os ensinamentos de 'Abdu'l-Bahá já ocasionaram a reunião de milhares de ingleses e inglesas com orientais de todas as regiões do Oriente. Sobre a base de auxílio mútuo, amizade e adoração a Deus, sem consideração de credo e denominação, eles se deram as mãos com uma sinceridade e amor fraterno, ao contrário de certos poetas e filósofos cínicos.

A maior parte da vida de 'Abdu'l-Bahá foi vivida numa prisão oriental, a qual Ele suportou com alegria em vez de renunciar Sua Fé, um dos princípios da qual é a absoluta igualdade das almas, independente das diferenças físicas como sexo e cor. Ele não reconhece qualquer distinção de classe exceto aqueles concedidos pelo serviço do amor fraternal. Por esta e outras doutrinas semelhantes Ele foi mantido prisioneiro por quarenta anos na fortaleza da cidade de 'Akká, na Palestina. Quando eu solicitei para falar com Ele, disseram-me para chegar cedo e, portanto, fui admitida para uma entrevista às nove horas. Já era meio-dia para 'Abdu'l-Bahá que acordara às quatro e que antes do desjejum, às seis e meia, já havia Se encontrado com dezoito pessoas.

Representantes de muitas línguas e nacionalidades O aguardavam na sala de estar.

Sentamo-nos num círculo, de frente a 'Abdu'l-Bahá que indagou se havia alguma pergunta que gostaríamos de Lhe fazer. Eu disse que meu editor me mandou para averiguar algo acerca de Sua vida na prisão, e 'Abdu'l-Bahá imediatamente relatou de um modo simples e impessoal uma das mais notáveis histórias que se pode conceber.

"Aos nove anos de idade, eu acompanhei meu Pai, Bahá'u'lláh, em Sua jornada de exílio a Bagdá, juntamente com setenta de Seus discípulos. Este decreto de exílio que se seguiu a persistente perseguição, intentava efetivamente erradicar da Pérsia aquilo que as autoridades consideravam uma religião perigosa. Bahá'u'lláh, juntamente com Sua família e seguidores, foi banido e viajou de um lugar a outro. Quando eu estava com cerca de vinte e cinco anos, nós fomos transferidos de Constantinopla a Adrianópolis e de lá, com uma escolta de soldados, fomos levados à fortaleza de 'Akká, onde fomos aprisionados e estritamente vigiados."

O Primeiro Verão

"Ele não tinha qualquer comunicação com o mundo exterior. Cada pedaço de pão era cortado pelos guardas para ter a certeza de que não continha qualquer mensagem. Todos os que acreditavam na manifestação bahá'í, crianças, homens e mulheres, foram aprisionados conosco. Éramos cento e cinqüenta pessoas aglomeradas em duas salas e ninguém tinha permissão de deixar o local com exceção de quatro que a cada manhã, escoltados, iam ao bazar fazer compras. O primeiro verão foi terrível. 'Akká é uma cidade escaldante. Dizia-se que se um pássaro tentasse sobrevoá-la cairia morto. A comida era pobre e insuficiente, a água era tirada de um poço infectado e o clima e as condições eram tais que até mesmo os nativos da cidade adoeciam. Muitos soldados sucumbiam e oito dos dez guardas que nos vigiavam morreram. Durante o calor intenso, os prisioneiros foram atacados por malária, febre tifóide e disenteria, de modo que todos, homens, mulheres e crianças estavam doentes ao mesmo tempo. Não havia médicos, nem remédios ou comida adequada, e nem qualquer espécie de tratamento."

"Eu costumava fazer sopa para as pessoas, e por praticar muito, faço uma boa sopa", concluiu 'Abdu'l-Bahá sorridente.

Nesse ponto, um dos persas me explicou que era por causa da maravilhosa paciência, assistência e resignação de 'Abdu'l-Bahá que Ele era sempre chamado de "Mestre". Facilmente se poderia sentir Sua posição de mestre em Sua completa independência de tempo e de lugar e absoluto desprendimento de tudo que até mesmo uma prisão turca poderia infligir.

Melhores Condições

"Depois de dois anos do mais rigoroso confinamento permitiram-me encontrar uma casa, de modo que pudemos viver fora dos muros da prisão, mas ainda assim dentro das fortificações. Muitos crentes vieram da Pérsia para se unir a nós, mas não lhes foi permitido fazer isso. Nove anos se passaram. Algumas vezes nossas condições eram melhores e outras vezes muito piores. Dependia do governador que, caso fosse bondoso e brando, permitia-nos sair da fortaleza, e dava aos crentes livre acesso para visitarem a casa, mas se o governador fosse mais rigoroso, cercavam-nos de mais guardas e freqüentemente peregrinos que haviam vindo de longe eram mandados embora."

Posteriormente, através de um persa que durante os tempos difíceis havia residido na casa de 'Abdu'l-Bahá, eu soube que o governo turco não confiava no fato de que o interesse de visitantes ingleses e americanos era puramente espiritual e não político. Freqüentemente esses peregrinos eram impedidos de O visitar, e muitas vezes toda a viagem da América era recompensada simplesmente por um vislumbre de 'Abdu'l-Bahá da janela da prisão.

O governo achava que o sepulcro do Báb, uma imponente construção no Monte Carmelo fosse uma fortificação erigida com a ajuda de dinheiro americano e que estava sendo armada e guarnecida secretamente. Cada nova chegada fazia aumentar a suspeita, e o resultado era mais espiões e guardas.

A Delegação de 'Abdu'l-Hamíd

"Um ano antes de 'Abdu'l-Hamíd ser destronado, ele mandou uma delegação de investigação extremamente arrogante, traiçoeira e insultuosa. O chefe era um membro do corpo de assistentes do governador, Aríf Bey, e com ele estavam três comandantes do exército de diferentes categorias.

"Imediatamente depois de sua chegada, Aríf Bey começou a denunciar-me e tentou reunir provas suficientes para justificar que me mandassem a Fízán, ou me jogassem no mar. Fízán é uma parada de caravanas localizada na fronteira de Trípoli na qual não há casas nem água. É uma viagem de um mês a camelo de 'Akká.

"Por duas vezes a delegação foi enviada para ouvir o que eu tinha a dizer em minha própria defesa e por duas vezes eu a mandei de volta dizendo: 'Conheço vosso propósito, não tenho nada a dizer.'

"De tal modo isto enfureceu Aríf Bey que ele declarou que retornaria a Constantinopla e traria uma ordem do sultão para me enforcar em frente ao portão de 'Akká. Ele e sua delegação embarcaram com seu relatório contendo as seguintes acusações: 'Abdu'l-Bahá está estabelecendo uma nova nação da qual ele deverá ser o rei; 'Abdu'l-Bahá está erguendo a bandeira de uma nova religião; 'Abdu'l-Bahá construiu ou fez construir fortificações em Haifa, um vilarejo próximo e está comprando todos os terrenos da vizinhança.

"Por volta desse tempo um navio italiano apareceu no porto, enviado por ordem de um cônsul italiano. Foi planejado que à noite eu fugisse a bordo dele. Os bahá'ís em 'Akká me imploraram para que eu fosse, mas eu enviei a seguinte mensagem ao capitão: 'O Báb não fugiu; Bahá'u'lláh não fugiu; eu não fugirei.' Assim o navio partiu depois de esperar três dias e três noites.

"Quando a delegação do sultão se encontrava nas proximidades da pátria, a primeira bomba foi lançada no campo de 'Abdu'l-Hamíd e a primeira arma da liberdade foi disparada na pátria do despotismo. Foi a arma de Deus." - disse 'Abdu'l-Bahá com um de Seus maravilhosos sorrisos.

"Quando a delegação chegou à capital turca, eles tinham assuntos mais urgentes para se preocupar. A cidade estava em estado de tumulto e rebelião e a delegação, como parte do corpo de assessoria do governo, foi incumbida de investigar a insurreição. Nesse meio tempo, o povo estava estabelecendo um governo constitucional e 'Abdu'l-Hamíd não teve qualquer chance de agir."

A Libertação

"Com a supremacia dos Jovens Turcos, efetivada por intermédio da Sociedade de União e Progresso, todos os presos políticos do império otomano foram libertados. Os acontecimentos tiraram as correntes do meu pescoço e as colocaram em torno do de Hamíd; 'Abdu'l-Bahá saiu da prisão e 'Abdu'l-Hamíd entrou."

"O que aconteceu à delegação?", alguém perguntou, rompendo o profundo silêncio que se seguiu ao relato dessa emocionante página da história. "Aríf Bey", continuou 'Abdu'l-Bahá, "foi executado com três balas, o general foi exilado, o de posição seguinte morreu e o terceiro fugiu para o Cairo onde buscou e obteve auxílio dos bahá'ís."

"Podeis nos dizer como vos sentistes na prisão e como considerais a vossa liberdade?", perguntei. "Estamos felizes porque estais aqui."

"Obrigado", disse Ele benevolamente, e continuou:

"Liberdade não é uma questão de lugar. Ela é uma condição. Eu era grato pela prisão, e a falta de liberdade era muito prazerosa para mim, pois aqueles dias foram passados no caminho do serviço, em condições extremas de dificuldades e provações, produzindo frutos e resultados.

"Não se atinge a liberdade a menos que se aceite terríveis dificuldades. Para mim, a prisão é liberdade, as dificuldades me confortam, a morte é vida, e ser desprezado é honra. Portanto, eu estava feliz todo aquele tempo na prisão. Quando alguém se liberta da prisão do ego, esta é a verdadeira libertação, pois ele é a maior prisão. Quando acontece esta libertação, então não se pode ser exteriormente aprisionado. Quando eles prendiam minhas pernas eu dizia ao guarda: 'Você não pode me aprisionar, pois aqui eu tenho luz, ar, pão e água. Tempo virá em que meu corpo estará na terra, e não terei nem luz, nem ar, nem comida e nem água, mas nem mesmo então poderei ser preso.' As dificuldades que sobrevêm à humanidade algumas vezes, tendem a centrar a consciência nas limitações, e esta é a verdadeira prisão. A libertação resulta quando se faz da vontade uma porta através da qual as confirmações do Espírito emanam."

Isto me pareceu tão semelhante à antiga teologia que o moderno em mim fez surgir dúvidas se a disciplina poderia ser substituída pelo esforço. "O que quereis dizer com confirmações do Espírito?", perguntei.

"As confirmações do Espírito são todos aqueles poderes e dons com os quais alguns nascem (e que as pessoas algumas vezes chamam de gênio), mas pelos quais outros têm que se esforçar com infinito sofrimento. Eles advêm àquele homem ou mulher que aceita sua vida com aquiescência radiante."

Aquiescência radiante - essa é a qualidade pela qual nós todos repentinamente parecíamos inspirados enquanto 'Abdu'l-Bahá despedia-Se de nós.

Foi uma experiência notável ouvir Alguém que passou quarenta anos na prisão declarar: "Não há prisão senão a prisão do ego"; e conferiu convicção à mente enquanto este Mensageiro oriental de vestes alvas mostrava o caminho - não pelo caminho da "renúncia", mas do "desprendimento", aquiescência radiante - o caminho resplendente que conduz para fora da "maior prisão do ego", como 'Abdu'l-Bahá tão graciosamente chama aquelas barreiras que nos afastam de nossa realização.

O ADEUS

Na última manhã da permanência de 'Abdu'l-Bahá em Londres muitos amigos se reuniram tanto no Cadogan Gardens como na estação para Lhe dar adeus. Uma notável e interessante cerimônia foi realizada na casa por um médico zoroastriano que enviou um elaborado telegrama a alguns pársis em Bombaim, dizendo: "A Tocha da Verdade foi novamente acesa no Oriente e no Ocidente por 'Abdu'l-Bahá." Instruído pelos seus irmãos, este seguidor de uma das mais antigas religiões do mundo havia trazido consigo um óleo sagrado de raro perfume, com o qual ungiu a cabeça e o peito de 'Abdu'l-Bahá, tocando em seguida as mãos de todos os presentes. Em seguida colocou uma belíssima grinalda de botões de rosa e lírios em torno do pescoço e ombros de 'Abdu'l-Bahá.

O último vislumbre que os amigos tiveram na estação de trem "Victoria" foi da venerável Face e do Semblante em pé na janela, lançando para fora um olhar de benevolência e maravilhosa ternura sobre aqueles que estava deixando.

Depois de deixar Londres e durante Sua permanência de dois meses em Paris, 'Abdu'l-Bahá freqüentemente mandava mensagens aos Seus amigos ingleses, alguns dos quais viajaram até lá para desfrutar das conferências.

SAUDAÇÕES DE 'ABDU'L-BAHÁ
ENVIADAS DE PARIS A LONDRES *

* Ditas à sra. Enthoven para serem comunicadas a todos os amigos, e agora transcritas de memória.

OUTUBRO DE 1911

'Abdu'l-Bahá enviou Suas saudações a todos, pedindo a todos que continuassem adquirindo força em sua crença e coragem na proclamação da mesma.

Ele falou muito na satisfação que sentiu no ambiente da Inglaterra. Ele disse que havia uma força de determinação no povo inglês e uma firmeza que Ele apreciava e admirava, havia honestidade e retidão. Que eles eram lentos em iniciar uma nova idéia, mas que a começavam porque sua mente e senso comum lhes diziam que a idéia era boa.

Os ingleses, como nação, haviam lhe agradado muito.

"Os crentes", acrescentou Ele, "devem mostrar sua crença na sua vida cotidiana, de modo que o mundo possa ver a luz em suas faces. Uma face brilhante e feliz alegra as pessoas. Se estiverdes tristes e passardes por uma criança que esteja sorrindo, ela vendo vossa face triste, deixará de sorrir sem saber por quê. Se o dia estiver escuro, como é aprazível um vislumbre dos raios do sol; portanto, que os crentes mostrem faces felizes e sorridentes, brilhando como raios solares na escuridão. Que a luz da veracidade e honestidade resplandeça neles, de modo que todos aqueles que os contemplarem possam saber que sua palavra, no trabalho ou no lazer, será uma palavra para se confiar e depender.

"Esquecei o ego e trabalhai para toda a raça. Lembrai sempre que trabalhamos pelo mundo, não por uma cidade ou mesmo por um país; pois uma vez que todos somos irmãos, cada país é como se fosse o nosso próprio.

"Lembrai, acima de tudo, os ensinamentos de Bahá'u'lláh a respeito de mexerico e conversa indecorosa sobre os outros. Histórias repetidas a respeito de outrem raramente são boas. Uma língua silenciosa é a mais protegida. Até mesmo o bem pode ser prejudicial se falado em hora imprópria, ou para a pessoa errada."

Finalmente, 'Abdu'l-Bahá mandou Suas saudações e bênçãos a todos, e me assegurou que estava constantemente pensando e orando por todos.

A um cavalheiro que Lhe estava questionando, Ele observou: "No início todas as grandes religiões eram puras; mas os sacerdotes, dominando as mentes das pessoas, encheram-nas com dogmas e superstições, de modo que a religião gradualmente se tornou corrupta. Eu não vim ensinar uma nova religião. Meu único desejo é, através das bênçãos de Deus, mostrar o caminho para a Grande Luz." Tocando delicadamente o cavalheiro no ombro, como um amoroso pai tocaria um filho, Ele disse: "Eu não sou um Profeta, sou apenas um homem como o senhor."

UMA AMOROSA DESPEDIDA

Na véspera de Sua partida para Alexandria, Ele despediu-Se com a seguinte advertência ao povo da Inglaterra e da França, dizendo incessantemente:

Trabalhai pelo dia da Paz Universal. Esforçai-vos sempre para que possais ser unidos. Bondade e amor no caminho do serviço devem ser os vossos recursos.

Eu me despeço amorosamente do povo da França e da Inglaterra. Estou muito satisfeito com eles. Aconselho-os para que dia após dia possam fortalecer os laços de amor e amizade para esse fim - que se tornem a personificação enfática de uma nação. Que possam se tornar uma fraternidade universal para proteger os interesses e direitos de todas as nações do Oriente - que possam desfraldar a bandeira divina da justiça - que possam tratar cada nação como uma família composta de cada um dos filhos de Deus e saibam que aos olhos de Deus os direitos de todos são iguais. Pois todos nós somos filhos de um só Pai. Deus está em paz com todos os Seus filhos; por que deveriam se empenhar em luta e combate entre eles mesmos? Deus está derramando bondade; por que os habitantes deste mundo deveriam trocar entre si selvageria e crueldade?

Eu orarei por vós para que sejais iluminados com a luz do Eterno.

MENSAGEM DE 'ABDU'L-BAHÁ
AOS BAHÁ'ÍS DE LONDRES PARA O DIA DO CONVÊNIO *
* Especialmente enviada para a sra. Enthoven.
26 DE NOVEMBRO DE 1911
Boas Novas! Boas Novas!
As portas do Reino de Deus estão abertas!
Boas Novas! Boas Novas!
Exércitos de anjos estão descendo do Paraíso!
Boas Novas! Boas Novas!
O Sol da Verdade está despontando!
Boas Novas! Boas Novas!
Alimento celestial está sendo mandado do alto!
Boas Novas! Boas Novas!
A Trombeta está soando!
Boas Novas! Boas Novas!
A bandeira da Grande Paz tremula em todo lugar!
Boas Novas! Boas Novas!

A luz da lâmpada da Unicidade da Humanidade está resplandecendo!

Boas Novas! Boas Novas!
O fogo do amor de Deus flameja!
Boas Novas! Boas Novas!
O Espírito Santo está sendo emanado!
Boas Novas! Boas Novas!
Pois a Vida eterna se encontra aqui!
Ó vós que estais adormecidos, despertai!
Ó vós desatentos, adquiri sabedoria!
Ó cegos, recebei vossa visão!
Ó surdos, ouvi!
Ó mudos, falai!
Ó mortos, ressuscitai!
Sede felizes!
Sede felizes!
Sede plenos de júbilo!
Este é o dia da Proclamação do Báb!
É o Festival do Arauto da Abençoada Beleza. *
É o dia do alvorecer da Manhã da Orientação.
* Bahá'u'lláh.

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