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'Abdu'l-Bahá : Narrativa de um Viajante

Narrativa de um Viajante descrevendo o Episódio do Báb

'Abdu'l-Bahá
Editora Bahá'í do Brasil
Tradução do persa para o inglês: Edward G. Browne
Tradução: Robert P. Lowe Jr.

Revisão: Coordenação Nacional Bahá'í de Tradução e Revisão do Brasil

Prefácio

Em abril de 1891, um professor inglês da Universidade de Cambridge, Edward G. Browne, visitou Israel com o intuito de coletar maiores dados para suas teses sobre a Fé Bábí e durante cinco dias permaneceu em 'Akká, sendo concedido a ele quatro entrevistas com Bahá'u'lláh, das quais a primeira entrevista de vinte minutos tornou-se enormemente conhecida e publicada em várias línguas por todo o mundo1. Edward Browne foi o único ocidental a encontrar-se com Bahá'u'lláh.

Quem o conduziu, de Haifa à Bahjí, ao primeiro encontro com Bahá'u'lláh, foi Seu Filho mais velho, 'Abdu'l-Bahá, sendo que o professor Browne, também descreveu suas primeiras impressões sobre o Autor desta presente narrativa:

"...Levantei-me na manhã seguinte (terça-feira, 14 de abril) após uma noite de sono repousante, e recebi o chá do senhor de óculos. Em seguida, uma súbita movimentação lá fora anunciou a chegada de visitas e aquele que lá estivera na véspera entrou no quarto acompanhado de outras duas pessoas, sendo um deles o agente bábí de Beirute, enquanto que o outro, que adivinhei de imediato quem fosse, devido à extraordinária deferência que lhe era demonstrada, e que não poderia ser outro a não ser o filho mais velho de Bahá: 'Abbás Effendi. Dificilmente encontraria alguém cuja aparência me causasse tanta impressão. Um homem alto, forte, ereto como uma flecha, turbante e vestuários brancos, volumosos cabelos pretos chegando-lhe aos ombros, ampla e poderosa fronte indicativa de um intelecto perspicaz, combinado a uma determinação inabalável, olhos penetrantes como os de um falcão e feições muito marcadas, porém agradáveis. Tal foi minha primeira impressão de 'Abbás Effendi, "o Mestre" (Ákhá), conforme era chamado por excelência entre os bábís. A subseqüente conversa com ele serviu somente para elevar o respeito com o qual sua aparência, de início, me inspirara. Alguém com maior eloqüência ao falar, melhores argumentos, mais apto para ilustrar, mais intimamente capacitado em relação aos livros sagrados dos judeus, cristãos e muçulmanos, seria, creio eu, dificilmente encontrado mesmo dentre os mais eloqüentes, mais preparados e refinados de sua raça. Estas qualidades combinadas com um porte ao mesmo tempo majestoso e afável fizeram com que cessasse de me surpreender da influência e estima com que ele impunha até além do círculo dos seguidores de seu pai. Sobre a grandeza deste homem e seu poder, ninguém que o encontrasse, teria a menor dúvida. ..."2

No dia em que saía da Terra Santa, Browne recebeu de presente, entre outros livros bahá'ís, uma cópia do original em persa deste livro aqui publicado. Provavelmente, conforme conclusões do professor Browne, 'Abdu'l-Bahá o escreveu em 1886.

Narrativa de um Viajante Descrevendo o Episódio do Báb e O Segredo da Civilização Divina são os únicos dois livros de autoria de 'Abdu'l-Bahá. Eles foram inicialmente publicados (1891, na Inglaterra e 1875, na Índia) desconhecendo-se a autoria pública dEle. Conforme dr. Amin Banani, grande erudito bahá'í, este procedimento provavelmente deveu-se ao fato da "humildade de 'Abdu'l-Bahá perante Bahá'u'lláh, pois não quis colocar Seu nome, durante o tempo em que Seu Pai vivia, nos dois livros que escreveu perante o público da comunidade bahá'í"3.

Outros livros de 'Abdu'l-Bahá são compilações de Suas Epístolas, palestras, entrevistas e orações, e o Seu testamento.

O professor Browne, ao retornar à Inglaterra, coloca-se arduamente a traduzir este livro para o inglês e a Cambridge University Press o publica em 1891, em dois volumes, com uma profícua introdução, contando sua viagem ao Oriente Médio em busca de informações do movimento bábí e um extenso apêndice de suas notas interpretando esta narrativa de 'Abdu'l-Bahá.

Somente em 1930, o Comitê de Publicações Bahá'í dos Estados Unidos e Canadá, edita os dois volumes deste livro e, em 1975, a Philo Press, de Amsterdã, o publica em um só volume, tanto em persa como em inglês.

Em 1980, a Editora Bahá'í dos Estados Unidos, reedita o livro de autoria de 'Abdu'l-Bahá, como uma nova e corrigida versão, sem a introdução, apêndices e notas de Browne*, e é deste volume que se originou a presente tradução para o português. No futuro, uma tradução oficial do persa para o inglês deve ser feita pelo Centro Mundial Bahá'í, acertando os pequenos deslizes da tradução de Browne, mas isto não tira o mérito do seu trabalho feito em 1891. Todavia a Editora Bahá'í do Brasil tomou a precaução de utilizar, sempre que possível, as traduções oficiais das citações que 'Abdu'l-Bahá faz de Seu Pai ou do Báb.

*Conforme o prefácio da edição norte-americana de 1930: "Membros da Causa Bahá'í são agradecidos imensamente ao professor Browne por suas pesquisas eruditas a respeito da história e literatura desta Religião, e mais particularmente da dignificativa e poderosa tradução de Narrativa de um Viajante Descrevendo o Episódio do Báb. (Porém,)...a Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá'ís dos Estados Unidos da América chama à atenção do leitor para o fato de que a acuidade histórica dos textos escritos pelo professor Browne, infelizmente, não se estendem ao inteiro corpo das notas adicionadas pelo tradutor. Pois tornou-se muito evidente a qualquer pesquisador da Causa Bahá'í, que possa lê-las para adquirir o conhecimento e desenvolvimento dela durante estes quarenta anos desde 1891, que o professor Browne demasiadamente enfatizava o significado do movimento azalí, atribuindo a ele, de fato, uma importância como um contestador rival da Religião fundada por Bahá'u'lláh, na qual a história por si só, revelou que nunca possuiu. Atualmente, Subhi-Azal, o rebelde meio-irmão de Bahá'u'lláh, permanece meramente como uma das muitas figuras que, em vão, atentaram a interromper os incidentes pelos quais o poder espiritual de Bahá'u'lláh são claramente vindicados ao mundo. Um erro tão lamentável invalidou os pontos de vista do professor Browne, e há uma geração atrás, ficou notório que ele foi incapaz de seguir o curso da história bahá'í, do Báb a Bahá'u'lláh. Ele falhou em perceber que Bahá'u'lláh foi o Fundador desta Religião e que o Báb foi um de Seus seguidores, e como resultado devotou seus únicos recursos de erudição para a estéril meta de interpretar o movimento bahá'í nos termos do limitado entendimento de poucos bábís, cujas faces eram dirigidas ao passado. O interesse do professor Browne pelo Báb era tão profundo e suas pesquisas tão ardentes que sua inabilidade de reajustar seus pontos de vista, quando estudara o material gerado após o martírio do Báb, é tratado como uma perda trágica por todos os amigos desta Causa."

Esperamos que o leitor se delicie da forma poética, quase como uma partitura de música, com que 'Abdu'l-Bahá, intitulando-Se como um viajante, elucida o início da Causa Bahá'í, retirando os véus que as imaginações dos homens criaram sobre este momento da história da humanidade, do qual não há paralelos.

Editora Bahá'í do Brasil

NARRATIVA DE UM VIAJANTE DESCREVENDO O EPISÓDIO DO BÁB

Introdução

Diversas são as parábolas contadas pelas línguas e bocas dos homens, e variados são os relatos contidos nas páginas da história persa e nas folhas das crônicas européias mencionando Aquele conhecido como o Báb e a verdadeira natureza de Sua Fé. Porém, devido à variedade das suas asserções e a diversidade das suas narrativas, nenhuma é tão digna de confiança quanto deveria ser. Algumas pessoas pronunciaram-se em censura extrema e condenação, e certas crônicas estrangeiras falaram num forte tom de aprovação. Enquanto isso, um certo setor registrava aquilo que ouvia sem se interessar pela censura ou aprovação.

Uma vez que estes diversos relatos estão registrados em outros locais e devido ao fato de que a relação novamente dos mesmos levaria a uma prolixidade daquilo que se refere à história desta questão (busquei com a máxima diligência durante as minhas viagens em todas as partes da Pérsia, quer de longe ou de perto, quer dentro ou fora do país, com amigos e estranhos) e sobre a qual os inquisitores estão de acordo, será brevemente demonstrado aqui por escrito um resumo dos fatos para que esteja à disposição dos sedentos por fonte de conhecimento e àqueles que buscam inteirar-se de todos os eventos deste episódio.

'Abdu'l-Bahá 'Abbás
O Episódio do Báb

O Báb foi um jovem mercador de linhagem pura. Nasceu no ano 1235 (d.h.) no primeiro dia de Muharram*, e quando, após alguns anos, Seu pai, Siyyid Muhammad-Ridá faleceu, foi criado em Shíráz por Seu tio materno, Mírzá Siyyid 'Alí, o mercador. Ao atingir a maturidade, envolveu-Se na área do comércio em Búshihr, primeiro em parceria com Seu tio materno e depois por conta própria. Devido às Suas qualidades, Ele era notado por Sua religiosidade, devoção, virtude e piedade, sendo assim caracterizado na visão dos homens.

*20 de outubro de 1819.

No ano 1260 (d.h.), quando estava com vinte e cinco anos de idade†, certos sinais tornaram-se aparentes em Seu comportamento, costumes e conduta, através dos quais ficou evidente em Shíráz que estava em conflito e almejava outros vôos. Começou, então, a falar e declarar o grau do Báb.** Entretanto, o que pretendeu pelo termo Báb†† foi que Ele era o canal de graça de um grande Ser ainda atrás do véu da Glória - Aquele que era o possuidor de incontáveis e ilimitadas perfeições - através da vontade de Quem, Ele movia-Se, e pelo vínculo do amor de Quem, Ele apegava-Se. E, no primeiro livro que escreveu como sendo a explicação à Súriy de José1, dirigiu-Se em todas as passagens Àquele Ser oculto de Quem recebia ajuda e graça, implorando por ajuda dEle para que estivesse de acordo com Suas prerrogativas, e almejava o sacrifício de Sua vida no caminho do amor dEle.

†23 de maio 1844.
**Báb-hood (posição do Báb).
††Portão ou Porta. n.e.
Esta frase figura, entre outras:

"Ó Tu, Remanescente de Deus! Sacrifiquei-me inteiramente por Ti; aceitei maldições por amor a Ti e jamais ansiei por outra coisa senão o martírio no caminho de Teu amor. Testemunha suficiente para mim é Deus, o Excelso, o Protetor, o Ancião dos Dias."2

Do mesmo modo, compôs um número de obras explicando e elucidando versos do Alcorão, e sermões e orações em árabe, incitando e instando os homens a esperar a aparição dAquele Ser. A estes livros Ele designou: "Páginas Inspiradas" e "Palavra da Consciência". Mas, ao ser investigado, foi descoberto que não fez nenhuma reivindicação de tê-los recebidos através da revelação de um anjo.

Agora, uma vez que todos sabiam que não possuía instrução e estudo, esta circunstância apareceu, na visão dos homens, como sendo sobrenatural. Alguns dos homens curvaram-se a Ele, mas a maioria manifestou uma forte desaprovação. Enquanto todos os eruditos e advogados que ocupavam posições, altares e púlpitos eram unânimes na erradicação e na supressão, alguns sacerdotes da seita shaykhí que eram eremitas e reclusos, e que em conformidade com suas doutrinas, sempre buscaram por um grande Ser, confiável e incomparável, que conforme sua própria terminologia era a "Quarta Sustentação" e a Manifestação Central das verdades da religião perspícua.

Deste número, Mullá Husayn de Bushrúyih, Mírzá Ahmad de Azghand, Mullá Sádiq Muqaddas (o Santo), Shaykh Abú-Turáb de Ishtihard, Mullá Yúsúf de Ardibíl, Mullá Jalíl de Urúmíyyih, Mullá Mihdí de Kand, Shaykh Sa'íd (o Indiano), Mullá 'Alí de Bastám e outros do mesmo nível, vieram até Ele e espalharam-se por todos os cantos da Pérsia.

O próprio Báb dirigiu-Se para executar a circumambulação da Casa de Deus*. No Seu retorno, quando as notícias da Sua chegada em Búshihr alcançaram Shíráz, houve muitos debates, e uma estranha excitação e agitação ficou aparente naquela cidade. A grande maioria dos eruditos O repudiou, decretando Sua morte e Sua destruição, e induziu Husayn Khán Ajúdán-báshí, que era o governador de Fárs, para infligir um açoitamento nos missionários do Báb, ou seja, no Mullá Sádiq Muqaddas. Após terem queimado seu bigode e barba, juntamente com os de Mírzá Muhammad-'Alí de Barfurúsh e Mullá 'Alí-Akbar de Ardistán, colocaram arreios em todos os três e os fizeram caminhar por ruas e bazares.

*Empreender a peregrinação à Meca.

Uma vez que os eruditos da Pérsia não têm uma capacidade administrativa, pensaram que violência e interferência causariam a extinção e o silêncio, levando à supressão e ao esquecimento. Entretanto, a interferência em assuntos de consciência causa a estabilidade e a firmeza, e atrai a atenção dos homens de visão e alma. Tal fato tem recebido provas experimentais muitas vezes e freqüentemente. Assim esta punição causou notoriedade e a maioria dos homens começou a fazer indagações.

O governador de Fárs, agindo de acordo com aquilo que os eruditos julgavam ser apropriado, despachou vários cavaleiros, para que o Báb fosse trazido a ele, e na presença dos doutos e estudiosos, censurou-O e culpou-O e exigiu uma reparação. Quando o Báb o repreendeu e o resistiu com altivez, foi feito um sinal pelo governador e eles O golpearam violentamente, insultando-O e desdenhando-O, de tal maneira que Seu turbante caiu da Sua cabeça e a marca do golpe ficou aparente em Seu rosto. No final do encontro chegaram a um consenso e após receber a fiança e garantias do Seu tio materno Hájí Siyyid 'Alí, O mandaram de volta para Sua casa proibindo-O de Se comunicar com Seus parentes ou estranhos.

Um dia eles O convocaram à mesquita instando-O e compelindo-O a abjurar, mas Ele discursou do púlpito com tal maneira que silenciou e subjugou a todos os presentes e firmou e fortaleceu os Seus seguidores. Foi então entendido que Ele afirmou ser o Veículo da graça da Sua Alteza - o Senhor da Era - que sobre Ele esteja a paz. Então, ficou conhecido e posteriormente evidente que Seu significado era ser o Báb (Bábíyyat) de uma outra Cidade e a Intermediação das graças de um outro Ser cujas qualidades e atributos são contidos nos Seus livros e tratados.

Em todos os eventos, como fora mencionado, por razão da falta de experiência e habilidade dos eruditos na ciência da administração e da sucessão contínua das suas decisões, o comentário entre o povo era abundante. As interferências com o Báb lançaram um clamor por todo a Pérsia, causando um ardor crescente nos amigos e a aderência dos que vacilavam. Em razão destas ocorrências, o interesse das pessoas aumentou, e em todas as partes da Pérsia alguns dos servos (de Deus) se inclinaram em direção a Ele, até que a questão adquiriu tal importância que o rei, Muhammad Sháh*, que veio a falecer logo após estes acontecimentos, delegou uma certa pessoa de nome Siyyid Yahyá de Daráb, que era um dos mais conhecidos eruditos e siyyids e objeto de veneração e confiança, dando a ele um cavalo e dinheiro para a viagem para que se dirigisse à Shíráz e investigasse este assunto pessoalmente.

*Ele faleceu em 4 de setembro de 1848.

Quando o referido siyyid chegou em Shíráz, ele entrevistou o Báb três vezes. Na primeira e segunda conferência, perguntas e respostas foram trocadas; na terceira conferência, ele solicitou um comentário da sura chamada Kawthar3, e quando o Báb, sem pensar ou refletir, escreveu um elaborado comentário da Kawthar em sua presença, o siyyid acima mencionado ficou encantado e maravilhado com Ele, e prontamente, sem preocupação com o futuro ou ansiedade sobre os resultados desta afeição, apressou-se a Burújird para encontrar com seu pai, Siyyid Ja'far, conhecido como Kashfí, e o inteirou a respeito do acontecido. Embora ele fosse sábio e prudente, estava acostumado a respeitar as exigências da época e escreveu, sem medo ou precaução, um relatório detalhado das suas observações ao Mírzá Lutf-'Alí, o camareiro-mor, de modo que este pudesse o submeter à atenção do rei, enquanto ele mesmo viajou a todas as partes da Pérsia, e em cada cidade, qualquer que fosse a posição da pessoa, do alto dos púlpitos convocou a todos, de tal maneira que os eruditos concluíram que ele deveria estar demente e consideraram o fato como um caso certo de feitiçaria.

Porém, quando as notícias das decisões dos eruditos e o protesto e o clamor dos advogados chegaram à Zanján, o Mullá Muhammad-'Alí, o sacerdote, que era um homem de destaque, possuidor de um discurso penetrante, enviou um daqueles em quem confiava para Shíráz para investigar o assunto. Esta pessoa inteirou-se sabiamente, de forma necessária e apropriada, dos detalhes destas ocorrências, e retornou com alguns dos Escritos (do Báb). Quando o sacerdote ouviu quais eram os assuntos e inteirou-se dos Escritos, não obstante o fato de ser um homem perito em conhecimento e célebre pelas pesquisas profundas, este sacerdote desequilibrou-se e enlouqueceu conforme fora predestinado. Ele juntou os livros na sala de conferências dizendo:

-- A estação de primavera e vinho chegou. Buscar o conhecimento após ter alcançado o conhecido é censurável.

Então, do topo do púlpito, convocou e dirigiu todos os seus discípulos (a abraçar a doutrina), e escreveu ao Báb a sua declaração e confissão.

O Báb, em resposta, indicou-lhe a obrigação de oração congregacional.

Embora os doutos de Zanján ergueram-se com força e coragem para exortar e admoestar o povo, nada conseguiram efetuar. Finalmente, foram compelidos a ir à Teerã e fizeram suas reclamações diante do rei, Muhammad Sháh, requerendo que Mullá Muhammad-'Alí fosse convocado. Por fim, um decreto real foi emitido para que ele comparecesse à Teerã.

Quando chegou à Teerã, trouxeram-no diante de um conclave de eruditos, mas conforme relatam, após muitas controvérsias e disputas, nada foi feito dele perante àquela assembléia. O rei, então, concedeu a ele um cajado e cinqüenta tumáns para seus gastos e lhe deu permissão para retornar.

Em todos os eventos, em diversas partes e regiões da Pérsia, estas notícias foram disseminadas e quando vários novos crentes chegaram à Fárs, os eruditos perceberam que a questão adquiriu demasiada importância, que o poder de lidar com a mesma havia escapado de suas mãos, e que, encarceramento, açoitamento, tormenta e contumélia eram infrutíferos. Assim sendo, eles manifestaram-se ao governador de Fárs, Husayn Khán:

-- Se deseja a extinção deste fogo ou busca um impedimento para esta ruptura, tem a cura imediata e o remédio decisivo: matar o Báb. Ele tem agregado a Si uma multidão e medeia um levante.

Husayn Khán ordenou a 'Abdu'l-Hamíd Khán, o guardião-mor do castelo, a atacar à meia-noite, de todos os lados, a casa do tio materno do Báb, e trazê-Lo, juntamente com todos os Seus seguidores, algemados. Mas 'Abdu'l-Hamíd Khán e seu bando não encontraram ninguém na casa, salvo o Báb, Seu tio materno e Siyyid Kázim de Zanján. Por obra do acaso, naquela noite, uma peste proliferou e comitantemente com o clamor dos acontecimentos, compeliram Husayn Khán a fugir. Ele soltou o Báb na condição dEle deixar a cidade.

Na manhã seguinte àquela noite, o Báb com Siyyid Kázim de Zanján partiram de Shíráz para Isfahán. Antes de chegar em Isfahán, Ele escreveu uma carta ao Mu'tamídu'd-Dawlih, o governador da província, solicitando alojamento em um lugar apropriado com a sanção do governo. O governador indicou a mansão do Imám-Jum'ih, onde o Báb ficou por quarenta dias. Um dia, de acordo com a solicitação do Imám, Ele escreveu, sem nenhuma delonga, um comentário sobre (a sura de) V'al-'Asr na frente de um grupo.4 Quando esta notícia chegou ao mu'tamíd, este procurou uma entrevista com Ele e O questionou a respeito da "Missão Especial". Nesta mesma entrevista uma resposta provando a "Missão Especial" foi escrita.

O mu'tamíd então deu ordens para que todos os eruditos se congregassem e debatessem com Ele em um conclave, e que a discussão fosse registrada fielmente sem alteração pelo seu secretário particular, de modo que pudesse ser enviada para Teerã, e qualquer que fosse o decreto real, a ordem deveria ser executada.

Os eruditos, porém, consideraram este arranjo como sendo um enfraquecimento da lei e não concordaram, mas reuniram um conclave e escreveram: "Se tivesse dúvida na questão teríamos a necessidade de uma assembléia e uma discussão, mas como a discordância desta pessoa para com a Lei mais luminosa, que é mais clara do que o sol, conseqüentemente, a melhor coisa possível a fazer será a de colocar em prática a sentença da Lei."

O mu'tamíd, então, desejou fazer a conferência na sua própria presença, de modo que a verdade atual pudesse ser exposta e os corações colocados em paz, mas estes eruditos e ilustres estudiosos, relutantes em trazer desrespeito à lei perspícua, não aprovaram a discussão e continuaram a controvérsia com o jovem Mercador; as únicas exceções foram um sábio erudito, Áqá Muhammad-Mihdí e um platonista eminente, Mírzá Hasan de Núr. Por fim, a conferência terminou em questionamentos sobre certos pontos relacionados à ciência do dogma fundamental, e à elucidação e análise das doutrinas de Mullá Sadrá. Uma vez que, desta conferência, o governador não chegou em nenhuma conclusão, a severa sentença e a decisão cruel dos eruditos não foram executadas, mas, ansioso em minorar rapidamente a grande ansiedade e prevenir eficazmente um tumulto público, ele deu credibilidade a um relatório de que um decreto havia sido emitido ordenando que o Báb fosse enviado à Teerã a fim de que um arranjo decisivo fosse alcançado, ou que algum sacerdote corajoso pudesse ser capaz de refutá-Lo.

Ele, portanto, enviou o Báb para fora de Isfahán com uma companhia de seus próprios guarda-costas montados, mas quando chegaram em Murchih-Khar, o governador deu ordens secretas para o Seu retorno para Isfahán, aonde proporcionou um refúgio e abrigo nos seus próprios alojamentos particulares cobertos. Nenhuma alma, salvo os empregados leais e de confiança do mu'tamíd sabiam de algo.

Um período de quatro meses passou-se desta forma, porém o mu'tamíd adiantou-se para o Reino da misericórdia de Deus, falecendo. Gurgín Khán, o sobrinho do Mu'tamíd, estava ciente do fato do Báb estar nos aposentos particulares de seu tio, e reportou o assunto ao primeiro-ministro. Hájí Mírzá Aqásí, aquele célebre ministro, emitiu uma ordem decisiva e deu instruções para que enviassem o Báb secretamente, disfarçado com a escolta de cavaleiros de Núsayrí para a capital.

Quando Ele chegou à Kinár-Gird, uma nova ordem veio do primeiro-ministro indicando a Vila de Kulayn como um domicílio e o lugar de moradia. Lá, Ele permaneceu por um período de vinte dias. Depois disso, o Báb enviou uma carta ao rei, almejando uma audiência para colocar em evidência a verdade da Sua condição, esperando que isto fosse uma maneira de alcançar sua bondade. O primeiro-ministro não permitiu isto, e reportou à presença do rei:

-- A cavalaria real está na iminência de sair e empreender tais assuntos neste momento, conduzirá à desordem no reinado. Não há nenhuma dúvida que os eruditos mais notáveis da capital se comportarão do mesmo modo que os doutos de Isfahán e tal acontecimento será a causa de uma erupção popular, o que, de acordo com a religião do imaculado Imám, eles considerarão o sangue deste Siyyid como insignificante, até mesmo, como mais legítimo do que o leite materno. A caravana imperial está preparada para viajar, não há obstáculo ou impedimento em vista. Não há dúvida de que a presença do Báb causará o mais grave transtorno e o maior prejuízo. Assim, pela urgência do momento, o plano mais sábio é este: colocar esta pessoa na Fortaleza de Mákú durante o período da ausência da caravana real que a levaria para a sede do trono imperial, e protelar a obtenção de uma audiência para o tempo do seu retorno.

Em conformidade com esta visão, uma carta foi emitida e endereçada ao Báb do próprio punho de sua majestade e de acordo com o relatório tradicional. O teor desta carta segue em resumo:

"Uma vez que a caravana real está na iminência de partir de Teerã, é impossível encontrar uma maneira adequada. Vá a Mákú e permaneça e descanse lá por um período, ocupado em orar por nosso vitorioso Estado, pois nós temos feito arranjos para que em todas as circunstâncias demonstrem a vós atenção e respeito. Quando retornarmos da viagem, vos convocaremos especialmente."

Depois disto, eles O despacharam juntamente com vários guardas montados (entre eles Muhammad Big, o Mensageiro) à Tabríz e depois à Mákú.

Além disso, os seguidores do Báb relatam certas mensagens transmitidas (dEle) através de Muhammad Big, entre as quais estavam a promessa de curar o pé do rei, mas sob a condição de conseguir uma entrevista e a supressão da tirania da maioria. Porém, em razão do primeiro-ministro reivindicar, ele próprio, ser um guia espiritual e estar preparado a realizar as funções de administrador religioso, o envio dessas cartas à presença do rei sempre foram burladas. Todavia, existem os que negam estes relatórios.

Ao longo do curso da Sua jornada, o Báb escreveu uma carta ao primeiro-ministro dizendo:

"Convocaste-me de Isfahán para encontrar com os doutos e para obter uma decisão conclusiva. O que ocorreu agora para que esta excelente decisão fosse modificada para Mákú e Tabríz?"5

Embora o Báb permanecesse por quarenta dias na cidade de Tabríz, os eruditos não se condescenderam ao se aproximarem dEle e não consideraram correto encontrarem-se com Ele. Então, despacharam o Báb para a Fortaleza de Mákú e por nove meses O alojaram naquela inaccessível fortaleza que é situada no cume de uma imponente montanha. Todavia, 'Alí Khán de Mákú, por causa do seu expressivo amor à família do Profeta, prestou a Ele tanta atenção quanto foi possível, e deu permissão (a algumas pessoas) para conversar com Ele.

Quando os talentosos sacerdotes de Ádhirbayján perceberam que em toda parte da cidade de Tabríz um clamor excessivo era ouvido como se o último dia tivesse chegado, solicitaram ao governo a punição dos seguidores (do Báb) e a remoção do Báb para a Fortaleza de Chihríq. Eles, então, O mandaram para aquela fortaleza e O consignaram à guarda de um curdo chamado Yahyá Khán.

Glorificado seja Deus! Não obstante estas decisões dos grandes eruditos e veneráveis advogados e severas punições e repreensão - açoitamentos, banimentos e encarceramentos por parte de alguns governadores - esta Fé estava diariamente aumentando, e a discussão e a disputa chegaram a tal ponto que em reuniões e assembléias, em todas as partes da Pérsia, não havia outra conversa a não ser sobre este tópico. Grande foi a comoção que se levantou: os doutos da Religião Perspícua estavam lamentando, o povo comum clamoroso e agitado, e os amigos regozijando e aplaudindo.

Mas, o próprio Báb não deu nenhuma importância a este alvoroço e tumulto, e, da mesma maneira como na estrada e nas fortalezas de Mákú e Chihríq, ao anoitecer e ao amanhecer, mais ainda, dia e noite, no mais extremo maravilhoso êxtase, Ele Se restringia à repetição e à meditação sobre as qualidades e atributos dAquele oculto, porém presente, venerado e venerando Ser.* Assim, Ele faz menção dEle conforme o teor a seguir:

*Uma referência a Bahá'u'lláh, "Aquele que Deus tornará manifesto", o Precurssor de Quem o Báb Se considerou.

"Embora o oceano da tribulação mostre-se enfurecido de todos os lados, e os dardos do destino seguem-se em rápida sucessão, e a escuridão dos pesares e aflições invadem a alma e o corpo, ainda assim Meu coração reluz com a lembrança de Teu semblante e Minha alma é como um jardim de rosas do perfume de Tua natureza."6

Em resumo, após Ele ter permanecido por três meses na Fortaleza de Chihríq, os eminentes eruditos de Tabríz e estudiosos de Ádhirbayján escreveram para Teerã e exigiram uma punição severa ao Báb por causa da intimidação e amedrontamento causado ao povo. Quando o primeiro-ministro, Hájí Mírzá Aqásí, observou a comoção e o clamor dos eruditos em todos os distritos da Pérsia, ele forçosamente tornou-se Seu cúmplice e ordenou que o Báb fosse trazido de Chihríq para Tabríz. No curso da Sua passagem por Urúmíyyih, o governador do distrito, Qásim Mírzá, O tratou com deferência extraordinária e uma congregação peculiar de pessoas de todos os níveis apareceu, comportando-se com extremo respeito.

Quando o Báb chegou em Tabríz, eles O trouxeram, após alguns dias, perante um tribunal do governo. Entre os vários sacerdotes e eruditos presentes, estavam: Nizámu'l-'Ulamá, Mullá Muhammad-i-Mamaqaní, Mírzá Ahmad, Imám-Jum'ih, Mírzá 'Alí-Asghar, Shaykhu'l-Islám. Eles perguntaram a respeito das reivindicações do Báb, e Ele afirmou a reivindicação de ser o Mihdí, em conseqüência disso, um grande tumulto iniciou-se. Os eminentes eruditos, de forma opressiva, O circundou por todos os lados, e tal foi o ataque da ortodoxia que não seria de se admirar se Aquele mero Jovem não tivesse resistido a montanha de Elburz. Eles exigiram provas e sem hesitação o Báb recitou textos, dizendo:

-- Esta é a prova permanente e mais poderosa.7

Eles criticaram a Sua gramática, e o Báb aduziu argumentos do Alcorão, demonstrando a partir do mesmo as instâncias de infrações similares das regras da gramática. Então a assembléia se desmanchou e o Báb retornou à Sua moradia.

O príncipe herdeiro do berço-do-céu era, nesta época, o governador de Ádhirbayján. Ele não pronunciou nenhuma sentença a respeito do Báb, nem tinha desejo de interferir a favor dEle. Os eruditos, porém, consideraram aconselhável infligir pelo menos um severo castigo, e o açoitamento foi decidido. Mas, nenhum dos oficiais de farráshes concordou em ser o instrumento para infligir esta punição. Então, Mírzá 'Alí-Asghar, o Shaykhu'l-Islám, que era um dos nobres siyyids, trouxe-O para sua própria casa e aplicou as bastonadas com suas próprias mãos. Depois disto, eles mandaram o Báb de volta à Chihríq e sujeitaram-nO a um confinamento rigoroso.

Quando as notícias destes açoitamento, castigo, encarceramento e rigor chegaram a todas as partes da Pérsia, os sacerdotes eruditos e os estimados advogados que detinham o poder e influência, empenharam-se para a erradicação e supressão desta Fé, conseqüentemente exerceram seus máximos esforços neste intuito. E escreveram a seguinte nota sobre as suas decisões: "Esta Pessoa e Seus seguidores estão em erro absoluto e são prejudiciais ao Islã e ao Estado." E, desde que os governadores na Pérsia desfrutavam da autoridade mais completa, em algumas províncias eles seguiram esta decisão e uniram-se a desarraigar e dispersar os bábís. Mas, o rei, Muhammad Sháh, agiu com deliberação neste assunto, refletindo: "Este Jovem é da linhagem pura e a família dEle intitulada de 'se não fosse por Ti'. Enquanto nenhuma ação ofensiva que não seja compatível com a paz pública e bem-estar procedam dEle, o governo não interferirá a respeito dEle." E quando os eruditos dos distritos circundantes apelaram a ele - ele ou não deu nenhuma resposta ou os ordenou a agirem com deliberação.

Entretanto, entre os eruditos e os ilustres estudiosos e aqueles instruídos que eram os opositores do Báb, a discussão e discórdia aumentaram de tal modo que em algumas províncias desejavam (a valer-se de) imprecação mútua e para os governadores das províncias, também, um meio de adquirir proveito foi produzido, de modo que grande tumulto e distúrbio surgiram. E, visto que a enfermidade de gota havia atacado violentamente o pé do rei e ocupado os seus pensamentos totalmente, o ministro-chefe, o famoso Hájí Mírzá Aqásí, tornou-se o pivô da condução dos problemas, e sua incapacidade e falta de recursos tornaram-se tão aparentes quanto o sol. O ministro formava a cada hora uma nova opinião e dava uma nova ordem: ora procurava apoiar a decisão dos eruditos, considerando a erradicação e supressão dos bábís como sendo necessárias; ora, acusava os eruditos de agressividade, considerando a indevida interferência contraria à justiça; e em um outro momento, tornava-se um místico dizendo:

-- Todas estas vozes são do Rei.8
Ou repetia, dizendo:
-- Moisés está guerreando com Moises.9
Ou recitava:
-- Isto não é mais do que Seu julgamento.10

Em resumo este ministro inconstante, por razão de sua má administração nos assuntos importantes e malogro no controle e comando dos negócios da comunidade, agiu de tal forma que a perturbação e o clamor surgiram de todos as regiões e direções - o mais notável e influente dos eruditos ordenou ao povo comum a molestar os seguidores do Báb, e uma investida geral ocorreu.

Mais especificamente quando a reivindicação da posição de Mihdí alcançou os ouvidos dos eminentes sacerdotes e dos sagazes doutos, estes começaram a lamentar e bradar e reclamar dos seus púlpitos, dizendo:

-- Uma das essências da religião e das tradições autênticas transmitidas pelos santos Imáms, mais ainda, a base principal das fundações do Islã de sua alteza Ja'far, é a Ocultação do décimo-segundo imaculado Imám (sobre ambos esteja a paz). O que terá acontecido com Jabúlqá? Para aonde foi Jabúlsá? O que é a Ocultação Menor? O que aconteceu com a Ocultação Maior? Quais são as declarações do Husayn ibn Rúh, e o que há com a tradição do Ibn Mihríyár? O que devemos compreender a respeito da fuga dos Guardiões e os Ajudantes? Como devemos lidar com a conquista do Leste e do Oeste? Onde está o animal que carrega o Anticristo? Quando acontecerá a aparição do Súfyán? Onde estão os sinais que fazem parte das tradições da Família Sagrada? Onde é que o vitorioso Islã está de comum acordo? Só há duas alternativas para a questão: ou devemos repudiar as tradições dos santos Imáms, ficando exaustos com o Islã de Ja'far e considerar as indicações claras do Imám como sendo sonhos perturbadores; ou, de acordo com as doutrinas primárias e secundárias da Fé e as declarações essenciais e explícitas da Lei mais luminosa, devemos considerar o repúdio e até mesmo a destruição desta pessoa como sendo o nosso dever principal. Se for para fecharmos os nossos olhos a estas tradições autênticas e doutrinas óbvias, universalmente reconhecidas, nenhum outro vestígio durará da base fundamental do Islã do Imám imaculado, nós não seremos nem sunitas, nem seremos da seita prevalecente* para continuar na espera do Santo prometido e acreditar no primogênito Mihdí. Por outro lado, devemos considerar como admissível a abertura do Portão da Santidade, e considerar que Aquele que Se levantará da família de Muhammad possuirá dois sinais: a primeira condição é a Linhagem Santa; a segunda, (que Ele é divinamente) fortificado com versos brilhantes. O que podemos fazer com estas crenças milenares do rebanho libertado dos xiitas ou o que diremos concernente aos seus doutos sagazes e preeminentes sacerdotes? Onde está o erro de todos eles? Viajaram eles ao vale da transgressão? Como é evidente que isto seja uma asserção falsa! Por Deus, esta é uma noção de quebrar a espinha-dorsal! Ó povo, extinga este fogo e esqueça estas palavras! Infelicidade! Ai de nossa Fé, ai de nossa Lei!

*Os xiitas.

Assim eles reclamaram nas mesquitas e capelas, em púlpitos e congregações.

Mas os dirigentes bábís compuserem tratados combatendo as asserções deles e montaram réplicas de acordo com seus próprios pensamentos. Fosse isto discutido em detalhes, conduziria o leitor à prolixidade, e o nosso objetivo é a afirmação da história e não de convencimentos para a crença ou a rejeição. Mas, de algumas das réplicas, a essência é esta: Que eles julgassem a Prova como suprema e que as evidências tivessem mais valor do que as tradições, considerando a primeira como a raiz e a segunda como o ramo, e dizendo:

-- Se o ramo não concorda com a raiz, este não serve como argumento e é desmerecedor de confiança, pois as evidências são uma conseqüência e, portanto, não tem direito a se opor ao princípio estabelecido e não pode argumentar contra o mesmo.

De fato, em tais casos, eles consideraram a interpretação como a verdade da revelação e a essência da verdadeira exegese. Assim, por exemplo, eles interpretaram a soberania do Qá'im como sendo uma soberania mística e Suas conquistas como sendo conquistas das cidades dos corações, abduzindo em apoio a esta brandura e a derrota do Chefe dos Mártires (que a vida de todos seja um sacrifício a Ele). Pois Ele fora a verdadeira manifestação do verso abençoado: "E de que Nossos exércitos sair-se-iam vencedores."11 Já, não obstante este fato, Ele tragou o cálice do martírio com brandura perfeita, e, no derradeiro momento da derrota mais esmagadora, triunfou sobre os Seus inimigos e Se tornou o mais poderoso dos soldados da Hoste Suprema. Semelhantemente, eles consideravam os numerosos Escritos que, a despeito da Sua falta de instrução, o Báb tinha composto, como sendo devido à indução do Espírito Santo; citavam os depoimentos contrários de livros escritos por homens de destaque; abduziram tradições que aparentemente concordavam com seus objetivos; e apegavam-se aos anúncios de certos notáveis dos tempos passados. Eles também consideravam a conversão dos doutos austeros e ascéticos e os devotos eminentes da Religião Perspícua (do Islã) como uma prova válida, julgavam a firmeza e a constância do Báb como sinais extremamente poderosos, e relatavam milagres e semelhanças.

Sendo tais coisas completamente distante ao nosso propósito, temos passado por cima e com brevidade. Agora procederemos com o nosso tópico original.

Durante estes eventos apareceram certas pessoas entre os bábís que tinham uma ascendência e uma aparência estranha aos olhos desta Fé. Entre estas estava Mírzá Muhammad-'Alí de Mazindarán*, que foi o discípulo do ilustre Siyyid Hájí Siyyid Kázim de Rasht (que Deus exalte a sua posição), e que foi o parceiro e companheiro do Báb na Sua viagem de peregrinação. Após um período, certas condutas e magnificência emanavam dele, de modo que todos, agindo com confiança absoluta, consideravam a obediência a ele como um baluarte inexpugnável, até mesmo Mullá Husayn de Bushrúyih, que era o líder de todos e o árbitro a quem apelavam tanto os nobres quanto os humildes desta Fé, costumava comportar-se na sua presença com grande humildade, em uma auto-submissão de servo.

*Quddús. n.t.

Esta personagem postou-se a exaltar a Palavra do Báb com a máxima firmeza, e o Báb fez honra plena à palavra em elogiá-lo e glorificá-lo, anunciando que o seu surgimento foi um auxílio do Invisível. Em elocução e estilo ele era "mágica evidente", e em firmeza e constância superior a todos. Finalmente, no ano 1265 (d.h.)†, por força da sentença do chefe dos advogados do Sa'ídu'l-'Ulamá, o sacerdote principal de Barfurúsh, ele cedeu sua cabeça e renunciou sua vida em meio a um extremo clamor e protesto.

†1849. n.t.

E entre eles estava aquela que foi intitulada Qurratu'l-'Ayn, a filha do Hájí Salíh, o sábio de Qazvín, o erudito. Ela, de acordo com o que foi relatado, era hábil em diversas artes, assombrou o entendimento e pensamentos dos mais eminentes mestres através da suas dissertações eloqüentes sobre o exegese e tradições do Livro Perspícuo, e foi um sinal considerável nas doutrinas do glorioso shaykh de Ahsá. Nos Santuários Supremos, ela apropriou-se da luz da lâmpada de Kázim nos assuntos sacros, e livremente sacrificou sua vida no caminho do Báb. Ela discutiu e disputou com os doutos e sábios, soltando sua língua para estabelecer a doutrina dEle. Tal foi a sua fama que a maioria das pessoas, estudiosa ou mística, procurava ouvir seu discurso e estava ansiosa a se familiarizar com seus poderes de especulação e dedução. Ela tinha um cérebro repleto de idéias tumultuosas e pensamentos veementes e agitados. Em muitos lugares ela triunfou sobre os contenciosos, expondo as questões mais sutis. Quando ela foi encarcerada na casa do (Mahmúd) kalantar de Teerã, e as festividades e regozijo de um casamento estavam em curso, as esposas dos magnatas da cidade que estavam presentes ficaram tão encantadas com a beleza da sua fala que, esquecendo-se das festividades, se juntaram em volta dela e divertiram-se ouvindo as melodias de suas palavras, e segundo os testemunhos, tornaram-se indiferentes às manifestações de alegria que são tão comuns numa festa de casamento. Em resumo, em elocução, ela era a calamidade da época, e em raciocínio, o transtorno do mundo. De receio ou timidez não havia traço no seu coração, nem tinha as admoestações de uma inclinação bondosa qualquer proveito ou fruto para ela. Embora ela fosse (tais com são) uma donzela (apropriada) para o noivado, contudo ela arrancava a preeminência dos homens valentes, e continuou a extenuar os pés da constância até que cedeu sua vida por força da sentença dos poderosos eruditos de Teerã. Porém, se formos nos ocupar com estes detalhes, o assunto terminaria em prolixidade.

Voltando ao tema, a Pérsia estava num estado crítico e os eruditos estavam perplexos e ansiosos, quando o príncipe Muhammad Sháh faleceu e o trono da soberania foi adornado com a pessoa do novo monarca, Mírzá Taqí Khán Amír-Nizám, que era o primeiro-ministro e regente-chefe. Ele segurou, até onde seu poder despótico alcançava, as rédeas dos assuntos da comunidade, e instou o corcel de sua ambição na arena da obstinação e possessão exclusiva. Este ministro era uma pessoa destituída de experiência e faltava de consideração para com as conseqüências das suas ações. Um sanguinário desavergonhado, prontamente animado para derramar sangue. Ele considerava a severidade em punições como sendo uma sábia administração, e tratar asperamente, afligir, intimidar e assustar o povo, pontos de apoio para o avanço da monarquia. E como a sua majestade, o rei, estava na plenitude de seus anos de juventude, o ministro caiu numa estranha ilusão e soou o tambor de despotismo nos (na condução dos) assuntos. Devido a sua própria resolução decisiva, sem procurar permissão do rei ou consultar os estadistas prudentes, ele emitiu ordens para perseguir os bábís, imaginando que através dessa força presunçosa, pudesse erradicar e suprimir assuntos desta natureza; e que a severidade produziria bons frutos, ao passo que (de fato) a interferência em questão de consciência, simplesmente dá a eles maior destaque e força. Quanto mais se esforcem para extinguir a chama, mais ela arderá, especialmente em assuntos de fé e religião, as quais espalham e adquirem influência tão logo seja derramado sangue, fortemente afetando os corações dos homens. Estas coisas têm sido colocadas à prova, e a maior prova são os diversos casos. Assim eles relatam que as possessões de um certo bábí em Káshán foram saqueadas e seus pertences domésticos espalhados e seu lar dispersado. Eles o deixaram nu e o chicotearam, macularam sua barba, montaram-no de costas num asno e ao som de tambores, trompetes, violões e pandeiros, fizeram-no desfilar pelas ruas e bazares com o máximo de crueldade.

Um certo gabr* que nada sabia do mundo ou de seus ocupantes, casualmente estava sentado separado num canto de um caravançarai. E quando o clamor do povo subiu num nível alto, apressou-se para a rua, e, ao tomar conhecimento a respeito da ofensa e do ofensor, e a causa da sua desgraça e punição pública em todos os detalhes, ele procurou saber o por que, e naquele mesmo dia entrou na sociedade dos bábís, dizendo:

-- Este maltrato e humilhação pública é prova da verdade e o melhor dos argumentos. Não fosse assim, poderia ter passado mil anos antes que alguém como eu ficasse informado.

*Zoroastriamo. n.e.

Em todos os eventos o ministro com a máxima de arbitrariedade, sem receber quaisquer instruções ou pedir permissão, emitiu ordens em todas as direções para punir e castigar os bábís. Governadores e magistrados buscaram um pretexto para acumular riqueza, e os oficias encontraram um meio de adquirir lucros; doutos célebres do topo dos seus púlpitos incitaram os homens a fazerem um violento ataque geral; os poderes da lei religiosa e civil entrelaçaram as mãos e esforçaram-se a erradicar e destruir este povo.

Os bábís não tinham adquirido ainda o correto e necessário conhecimento dos princípios fundamentais e doutrinas não disseminadas dos Ensinamentos do Báb, e conseqüentemente não conheciam seus deveres. As suas concepções e idéias eram de acordo com os modos antigos, e suas condutas e comportamentos correspondiam ao costumes antigos. A maneira de se aproximar ao Báb era, além do mais, fechada, e a chama das dificuldades ardia visivelmente por todos os lados. Por conta do decreto dos doutos mais célebres, o governo e, de fato, o povo comum, com poder irresistível, inaugurou saques e pilhagens por todos os lados, e estavam engajados em punir e torturar, matar e roubar, de modo que pudessem extinguir este fogo e enfraquecer estas desoladas almas. Nas cidades onde estavam em número limitado, todos, com as mãos atadas, se tornaram alimento para a espada, enquanto em cidades onde eram numerosos, eles se levantaram em autodefesa, conforme as suas crenças anteriores, uma vez que era impossível para eles fazerem averiguações a respeito de seus deveres, pois todas as portas estavam fechadas.

Em Mazindarán, entre outros lugares, o povo da cidade de Barfurúsh por força do comando do chefe dos advogados, o Sa'ídu'l-'Ulamá, fez um ataque geral ao Mullá Husayn de Bushrúyih e seus seguidores, assassinando de maneira violenta seis ou sete pessoas. Eles estavam ocupados em maquinar a destruição do restante, quando Mullá Husayn ordenou que o adhán fosse soado e empunhou sua espada; em conseqüência, todos procuraram fugir. Os nobres e lordes se apresentaram diante dele com a máxima penitência e deferência e concordaram em permitir sua partida. Eles ainda enviaram um guarda, Khusraw de Qádí-Kalá, com cavaleiros e soldados a pé, de modo que, conforme os termos do acordo, eles poderiam sair salvos e protegidos do território de Mazindarán. Quando eles, desconhecedores das travessias dos rios e dos caminhos, emergiram da cidade, Khusraw dispersou seus cavaleiros e soldados e os colocou numa emboscada na floresta de Mazindarán. Ele espalhou e separou os bábís naquela floresta, na estrada e fora dela e começou a caçá-los individualmente. Quando os estampidos dos mosquetes elevaram-se por todos os cantos, a emboscada tornou-se manifesta, sendo alguns viajantes e os que vagavam por lá, brutal e repentinamente fuzilados. Mullá Husayn ordenou que o adhán fosse soado para reunir seus seguidores espalhados, enquanto Mírzá Lutf-'Alí, o secretário, puxou sua adaga e abriu os órgãos vitais de Khusraw. Do bando de Khusraw alguns foram mortos e outros vagaram distraidamente no campo de batalha. Mullá Husayn quartelou seu bando num forte perto do local aonde jazia o shaykh Tabarsí, e, estando atento aos desejos da comunidade, pode descansar e interromper a marcha.

Este destacamento foi subseqüentemente reforçado mais ainda por Mírzá Muhammad-'Alí de Mazindarán e mais outras pessoas, de modo que o número naquele forte aumentou para trezentas e treze almas. Destes, porém, nem todos eram capazes de lutar. Somente cento e dez pessoas estavam preparadas para a guerra, pois a maioria era de eruditos ou estudantes, companheiros apenas de livros e áreas administrativas. Contudo, a despeito do fato de que estavam desacostumados com a guerra e aos golpes de espadas e de tiros, quatro vezes foram formados acampamentos e exércitos contra eles, sendo atacados e cercados por canhões, mosquetes e granadas, e em todas as quatro ocasiões infligiram derrota, até que o exército foi completamente debandado e dispersado. Na ocasião da quarta derrota, Abbás-Qulí Khán de Laríján era o capitão das forças e o príncipe Mihdí-Qulí Mírzá, o comandante no acampamento.O referido khán usou as noites para ocultar-se e esconder-se entre as árvores do lado de fora do acampamento, enquanto durante o dia ficava presente no acampamento. A última batalha aconteceu durante uma noite e o exército foi derrotado. Os bábís queimaram as tendas e choupanas deste exército, tornado a noite tão clara quanto o dia. Porém, de repente, a pata do cavalo de Mullá Husayn, único que estava montado, ficou enroscada num laço, e Abbás-Qulí Khán reconhecendo-o de longe, descarregou várias balas, com suas próprias mãos, de cima de uma árvore. Com um terceiro tiro, ele o derrubou. Mullá Husayn foi levado morto pelos seus seguidores para o forte; ali, eles enterraram o corpo. Apesar deste evento (as tropas) não puderam prevalecer através da força bruta.

Após um tempo, o príncipe fez um tratado - um convênio - jurando em nome dos Imáms Santos. Para este efeito confirmou seu juramento com votos baseados no Alcorão glorioso:

-- Vocês não serão molestados; retornem aos seus lugares.

Uma vez que as provisões havia sido, já há algum tempo, esgotadas e nem mesmo a pele e os ossos dos cavalos restava, e tendo eles subsistido por vários dias somente com água, finalmente concordaram. Quando chegaram no acampamento do exército foi preparada comida para eles, porém num lugar distante. E quando estavam comendo, tendo colocado de lado as suas armas e armaduras, os soldados os atacaram de todos os lados e assassinaram a todos. Alguns têm relatado esta bravura, demonstrada por este povo, como sendo algo milagroso, mas quando um grupo de homens está sitiado em algum lugar aonde todas as passagens e ruas são sem saída e qualquer esperança de resgate esteja eliminada, asseguradamente este grupo se defenderá desesperadamente e demonstrará valentia e coragem.

Em Zanján e Nayríz do mesmo modo, devido aos decretos dos eruditos e advogados notáveis, uma força militar sanguinária os atacou e sitiou-os. Em Zanján, o chefe foi Mullá Muhammad-'Alí, o mujtahid, enquanto em Nayríz, Siyyid Yahyá de Daráb foi o líder e o árbitro. No começo, eles procuraram fazer uma reconciliação, mas, sendo recebidos com ferocidade cruel, eles chegaram ao ápice do desespero. Com uma força esmagadora, as tropas vitoriosas fecharam todas as passagens de fuga, e eles abriram mão em resistir. Mas, embora fossem muito fortes na batalha, assombrando os chefes do exército pela sua firmeza e persistência, a força militar esmagadora fechou a rota de fuga e derrubou suas esperanças de liberdade. Enfim, após numerosas batalhas, eles também cederam aos convênios e acordos, juramentos e promessas, votos registrados no Alcorão e às estratégias maravilhosas dos oficiais e foram todos submetidos ao fio da espada.

Fôssemos nos ocupar com as detalhes das guerras de Nayríz e Zanján, ou detalhar estes eventos do começo ao fim, este epítome se tornaria um tomo volumoso. Então, citarei brevemente os acontecimentos.

Durante o curso dos eventos que aconteceram em Zanján, o primeiro-ministro maquinou um remédio final e vigoroso. Sem um comando real, sem consultar com os ministros da corte que protegiam os súditos, ele, agindo com disposição arbitrária, determinação fixa e inteiramente de sua própria autoridade, emitiu ordens para executar o Báb. Sucintamente, descrevo o que se sucedeu.

O governador do Ádhirbayján, o príncipe Hamzih Mírzá, estava relutante em executar esta sentença com suas próprias mãos, e falou ao irmão do amír, Mírzá Hasan Khán:

-- Este é um negócio vil e fácil; qualquer um seria capaz e competente. Eu havia imaginado que a sua excelência, o regente, me comissionaria para guerrear contra os afegãos ou os usbequitaneses ou me designaria para atacar e invadir o território da Rússia ou da Turquia.

Foi assim que Mírzá Hasan Khán escreveu sua desculpa em detalhes ao amír.

O Siyyid Báb pôs em ordem todos os Seus negócios antes de sair de Chihríq em direção à Tabríz, acondicionou Seus Escritos, Seu anel e estojo de canetas numa caixa especialmente preparada, colocou a chave da caixa num envelope e o enviou por intermédio de Mullá Báqir, que era um dos Seus primeiros companheiros, à Mullá 'Abdu'l-Karím de Qazvín. Mullá Báqir confiou esta encomenda ao Mullá 'Abdu'l-Karím em Qum na presença de um grupo numeroso. Por força das solicitações daqueles presentes, abriu a tampa da caixa e disse:

-- Recebi ordens para conduzir isto e entregar em mãos a Bahá'u'lláh. Mais do que isto não me perguntem, pois não posso falar-vos.

Importunado pelo grupo, ele produziu uma longa epístola em tinta azul, caligrafada da maneira mais graciosa com a máxima delicadeza e firmeza num bonito estilo diminuto de shikastih, usando um formato de um homem, tão condensado que poderia ser imaginado que fosse uma única pintura de tinta no papel. Quando leram esta epístola, perceberam que havia produzido trezentos e sessenta derivações da palavra Bahá. Então, Mullá 'Abdu'l-Karím conduziu a incumbência ao seu destino.

Retornemos a nossa narrativa original. O primeiro-ministro emitiu uma segunda ordem para seu irmão, Mírzá Hasan Khán, sendo a essência desta ordem a seguinte:

"Obtenha uma sentença formal e explícita dos eruditos de Tabríz que são os sustentáculos firmes do Islã de Ja'far, sobre ele esteja a paz e a fortaleza inexpugnável da fé xiita. Convoque o regimento cristão de Urúmíyyih e suspenda o Báb diante de todo o povo, e dê ordens para descarregar uma saraivada de tiros."

Mírzá Hasan Khán convocou o chefe dos farráshes, e lhe deu suas instruções. Removeram o turbante e a faixa do Báb que eram sinais de Sua posição de siyyid, e O trouxeram, juntamente com quatro dos Seus seguidores, à praça do quartel. Ele foi confinado numa cela e designaram quarenta dos soldados cristãos de Tabríz para vigiá-Lo.

No dia seguinte, o chefe dos farráshes entregou o Báb e um jovem de nome Áqá Muhammad-'Alí que era de uma nobre família de Tabríz ao Sám Khán, o coronel do regimento cristão de Urúmíyyih, por força das sentenças dos eruditos Mullá Muhammad de Mámáqán, Mullá Mírzá Báqir, a segunda autoridade eclesiástica e Mullá Murtadá-Qulí, a terceira autoridade eclesiástica, entre outros. Um prego de ferro foi pregado no meio da escadaria da própria cela na qual estavam aprisionados, e duas cordas foram penduradas. Por uma das cordas o Báb foi suspenso e pela outra corda Áqá Muhammad-'Alí, ambos sendo firmemente amarrados de tal maneira que a cabeça do jovem ficou no peito do Báb. Os telhados das casas circunvizinhas estavam repletos com multidões eufóricas. Um regimento de soldados alinhou-se em três fileiras. A primeira fileira atirou; então a segunda fileira; e por fim foi a vez da terceira fileira, produzindo uma grande fumaça. Quando a fumaça dispersou, viram que o jovem estava em pé e o Báb encontrava-Se sentado ao lado do Seu amanuense, Áqá Siyyid Husayn, na mesma cela da escadaria da qual eles os haviam suspendido. A nenhum dos dois havia acontecido o menor ferimento.

Sám Khán, o cristão, pediu para ser dispensado; o turno de serviço caiu para um outro regimento e o chefe dos farráshes absteve-se deste ato. Áqá Ján Big de Khamsíh, coronel do corpo de guarda-costas, avançou e eles de novo amarraram o Báb junto com aquele jovem ao mesmo prego. O Báb pronunciou certas palavras que somente poucos que sabiam a língua persa entenderam, enquanto o restante ouviu apenas o som da Sua voz.

O coronel do regimento apareceu em pessoa, era antes do meio-dia do vigésimo-oitavo dia de Sha'bán no ano 1266 (d.h.)*. De repente, ele deu ordem para atirar. Com esta saraivada, as balas produziram tal efeito que os peitos das vítimas ficaram crivados e seus membros completamente dissecados; exceto os seus rostos que foram somente um pouco marcados.

*9 de julho de 1850.

Eles, então, removeram aqueles dois corpos da praça até a beirada de um fosso do lado de fora da cidade, e naquela noite, soldados permaneceram ao lado do fosso. No dia seguinte, o cônsul russo veio com um artista e fez um retrato daqueles dois corpos na posição em que haviam caído ao lado do fosso.

Na segunda noite, à meia-noite, os bábís levaram embora os dois corpos.

No terceiro dia, o povo não achou os corpos e alguns supuseram que os bichos selvagens os haviam devorado. Assim os eruditos proclamaram do topo dos seus púlpitos dizendo:

-- O corpo sagrado do Imame imaculado e daquele verdadeiro xiita não foram preservados de ferimentos ou da intromissão dos animais de rapina e rastejantes, pois os bichos selvagens os rasgaram em pedaços.

Após uma investigação e averiguação completa ficou provado que quando o Báb dispersou todos os Seus escritos e pertences pessoais, Ele deixou claro e evidente, por vários sinais, de que estes eventos iriam acontecer em breve. Então, no segundo dia destes eventos, Sulaymán Khán, o filho do Yahyá Khán, um dos nobres de Ádhirbayján, devoto do Báb, dirigiu-se à Tabríz e foi diretamente à casa do prefeito. Como o prefeito era um velho amigo, companheiro e confidente seu, e além disso, era de temperamento místico e não acolhia aversão ou antipatia por qualquer seita, divulgou este segredo ao prefeito dizendo:

-- Hoje à noite, eu e vários outros companheiros tentaremos por todos os meios e artifícios resgatar o corpo. Mesmo que não seja possível, e o que quer que aconteça, iremos fazer um ataque: ou atingimos o nosso objetivo ou perdemos livremente as nossas vidas desta maneira.

-- Tais transtornos - respondeu o prefeito - de maneira alguma são necessários.

Ele, então, enviou um dos seus servos particulares de nome Hájí Alláh-Yár, que por todos os meios e procedimentos, obteve os corpos sem problemas ou dificuldades e os entregou ao Hájí Sulaymán Khán. E ao amanhecer, as sentinelas, para se desculparem, disseram que os bichos selvagens os haviam devorado. Naquela noite, eles abrigaram os corpos na oficina de um bábí de Mílán, e no dia seguinte, fabricaram um caixão e os colocaram nele, deixando-os em confiança daquele bábí. Mais tarde, de acordo com instruções que chegaram de Teerã, enviaram o caixão para longe de Ádhirbayján. E esta transação permaneceu em segredo absoluto.

Pois bem, nos anos 1266 e 1267 (d.h.), por toda a Pérsia, o fogo caiu sobre os lares dos bábís, e a cada um deles, qualquer que fosse a aldeia, a quem se levantasse a mais leve suspeita, o fio de espada era passado. Mais de quatro mil almas foram mortas, e uma grande multidão de mulheres e crianças foi deixada sem proteção ou amparo; e as que estavam distraídas ou confusas eram pisoteadas e mortas. Todas estas ocorrências foram causadas unicamente pela decisão e comando de Mírzá Taqí Khán, que imaginou que, pela decretação de uma punição esmagadora, esta Fé dispersaria e desapareceria de tal maneira que todos os sinais e o conhecimento deles seriam abolidos. Porém em curto período de tempo, contrário do que imaginavam, tornou-se certo o crescimento dos bábís. A chama aumentou mais e a propagação tornou-se mais rápida. Incidentes cresceram de maneira grave e as notícias chegaram às outras regiões. No começo estava confinado à Pérsia, e mais tarde espalhou-se pelo resto do mundo. Tremor e aflição resultaram em constância e estabilidade, e tormentos e punições penosas causaram a aceitação e a atração. Os próprios acontecimentos produziram uma impressão; esta impressão levou à investigação; e a investigação resultou em crescimento. Através da política imponderada do ministro, este edifício tornou-se fortificado e fortalecido, e suas fundações firmes e sólidas. Inicialmente, o assunto era considerado como corriqueiro; posteriormente adquiriu importância aos olhos dos homens. Pessoas de todas as partes do mundo partiram para a Pérsia e começaram a buscar de coração aberto. Pois, foi provado pela experiência do mundo, que nos assuntos de consciência, a laceração causa a cura; a censura produz o aumento da diligência; a proibição induz à ânsia; e a intimidação cria a avidez. A raiz está escondida no próprio coração, enquanto o ramo está aparente e evidente. Quando um ramo é cortado, outros ramos crescem. Entretanto, pode-se observar que quando tais assuntos ocorrem em outros países, tornam-se extintos espontaneamente por falta de atenção e de interesse. Assim, até o presente momento, muitos movimentos concernentes à religião, têm aparecido em países da Europa, mas a não-interferência e a ausência de intolerância os têm privados de importância, dentro de um curto tempo se tornam ofuscados e dispersam-se.

Após este episódio, um certo bábí cometeu um grande erro com sua presunção, um crime que tem enegrecido a página da história desta Fé, criando uma imagem desfavorável através do mundo civilizado. Deste evento, a essência é esta: Durante o período em que o Báb estava residindo em Ádhirbayján, um jovem, de nome Sádiq, ficou sensibilizado com o máximo de devoção ao Báb. Dia e noite estava ocupado em servi-Lo, e ficou privado de pensamento e razão. Quando soube o que se sucedeu ao Báb em Tabríz, este servo, impulsionado por suas próprias insensatas fantasias, pensou em buscar uma vingança sangrenta. E como nada sabia dos detalhes do evento, nem estava ciente de que esta sentença havia sido promulgada absolutamente sem o conhecimento da corte real, e que tinha sido presunçosamente emitida sob a ordem de exclusiva responsabilidade do primeiro-ministro, a autocracia absoluta do Amír-Nizám, sob seu poder desenfreado e autoridade exclusiva; ele presumiu que, de acordo com o costume e meios normais, os atendentes da corte tinham tido uma parte e um conhecimento daquela sentença, conseqüentemente, impelido por insensatez, delírio e não somente isto, mais ainda, por completa demência, saiu de Tabríz e seguiu diretamente para Teerã, tendo uma outra pessoa como seu cúmplice. Então, uma vez que a caravana real tinha o seu domicílio em Shimírán, para lá ele dirigiu seus passos. Deus é nosso refúgio! Por ele foi efetuada uma façanha tão presunçosa que a língua é incapaz de declarar e a pena avessa a descrevê-la. Contudo, Deus seja louvado, este desvairado carregou sua pistola com chumbo, imaginando ser este preferível e superior a todos os outros projéteis. Então, todos em uma só comoção levantaram-se, e a Fé ficou com tamanha má fama que embora se esforçassem e se empenhassem ao máximo para escapar da maldição e da desgraça deste feito, foram incapaz de protege-la. Relatamos desde a manifestação do Báb até o presente momento, mas quando o fio do discurso chega neste evento, ficamos envergonhados e abaixamos nossas cabeças em humilhação, repudiando o feitor presunçoso e considerando-o o destruidor do edifício e a causa de vergonha para a humanidade.

Após a ocorrência deste grave fato, todos que pertenciam a esta Fé eram suspeitos. No começo não houve nem investigação ou averiguação, mas posteriormente, por mera justiça, foi decidido que deveria haver investigação, averiguação e pesquisa. Todos que eram conhecidos como crentes desta Fé caíram sob suspeita. Bahá'u'lláh estava passando o verão na vila de Áfchih, situada numa região de Teerã. Quando esta notícia foi espalhada amplamente e a punição começou, cada um que tinha condições se escondeu em algum retiro ou fugiu do país. Entre estes, Mírzá Yahyá, o irmão de Bahá'u'lláh, se ocultou, e como um fugitivo desnorteado, no disfarce de um dervixe com um kashkúl na mão, vagou pelas montanhas e planícies da estrada para Rasht. Mas Bahá'u'lláh cavalgou publicamente, com perfeita e calma compostura, de Áfchih para Níyávarán, que era a estação da caravana real e o acampamento imperial. Imediatamente após Sua chegada, Ele foi levado preso, e um regimento inteiro O vigiou rigorosamente. Após vários dias de interrogação, eles O mandaram em correntes e grilhões de Shimírán à prisão de Teerã. Esta severidade e punição foi devido a falta de oportunidade de Hájí 'Alí Khán, o Hajíbu'd-Dawlih. Parecia não haver qualquer esperança de libertação, até que a sua majestade, o rei, movido pelo seu próprio espírito ameno, comandou a circunspeção e ordenou que esta ocorrência fosse investigada e examinada e em particular por intermédio dos ministros da corte imperial.

Quando Bahá'u'lláh foi interrogado sobre este assunto, Ele respondeu em réplica:

-- O próprio episódio indica a verdade do assunto e testifica que esta foi a ação de um homem imprudente, ilógico e ignorante. Pois, nenhuma pessoa razoável carregaria sua pistola com chumbo em se tratando de um empreendimento tão sério. No mínimo, ele faria arranjos e planejamentos de tal modo que a ação fosse metódica e sistemática. A própria natureza do evento é tão clara e evidente quanto o sol, e que não foi a ação de alguém semelhante a Mim.12

Então foi estabelecido e provado que o assassino tinha, de sua própria responsabilidade, empreendido esta ação penosa e façanha monstruosa, com a idéia e a intenção de obter vingança sangrenta pelo seu Mestre, e sem respeito a mais ninguém. E quando a verdade do fato tornou-se evidente, a inocência de Bahá'u'lláh foi estabelecida de tal maneira que nenhuma dúvida permaneceu a qualquer um. A decisão da corte declarou a Sua pureza e isenção desta acusação, e se tornou aparente e claro que o que havia sido feito com respeito a Ele foi devido aos esforços dos Seus inimigos e a insensatez precipitada do Hajíbu'd-Dawlih. Foi por esta razão que o governo de duração eterna, desejou restaurar certas propriedades e patrimônios que haviam sido confiscados, para que, por meio disso, O pudesse apaziguar. Mas, visto que a maior parte dos patrimônios estava perdido e somente uma porção insignificante estava disponível, ninguém se apresentou para reivindicá-las. De fato, Bahá'u'lláh solicitou a permissão para se retirar até os Santuários Supremos* (Kárbilá e Najaf) e, após alguns meses, através da permissão real e com a licença do primeiro-ministro, partiu acompanhado por um dos mensageiros do rei para os Santuários.

*Átabát Álíyát, literalmente Santuários Supremos, um termo pelo qual os islamitas xiitas referiam-se às cidades de Kazímayn, Najaf e Kárbilá e geralmente aplicado à região leste do Iraque, da qual Bagdá foi o centro. Quando Bahá'u'lláh foi libertado da prisão e banido da Pérsia, Ele escolheu Bagdá para ser o local do Seu exílio.

Vamos retornar ao nosso assunto original. Dos Escritos do Báb, muitos permaneceram em posses pessoais. Alguns destes são comentários e interpretações dos versículos do Alcorão; outros são orações, sermões e alusões ao verdadeiro significado de certas passagens; enquanto outros são exortações, admonições, dissertações sobre os diversos ramos da doutrina da Unidade Divina, demonstrações da especial missão profética do Senhor das coisas existentes (Muhammad), e (conforme compreendemos) encorajamentos para o aperfeiçoamento do caráter, desprendimento dos estados mundanos e dependência das inspirações de Deus. Mas a essência e significado das Suas composições eram os elogios e descrição daquela Realidade que claramente foi Seu único objetivo e propósito, Seu Bem-Amado e Seu anelo.* Pois, Ele considerou Sua própria vinda como Aquele arauto das boas-novas, e considerou Sua verdadeira natureza como sendo meramente um meio para manifestar as maiores perfeições dAquele Ser. E realmente, Ele não cessava dia e noite de celebrá-Lo nem por um único instante, mas costumava dizer a todos os Seus seguidores que deveriam esperar Sua vinda. De tal maneira que Ele declara em Seus escritos:

*Bahá'u'lláh.

"Eu não sou senão uma letra desse poderosíssimo livro, uma gota de orvalho desse oceano ilimitado, e quando Ele aparecer, a Minha verdadeira natureza, os Meus mistérios e enigmas, se tornarão evidentes, e o embrião desta religião se desenvolverá através dos graus da sua existência e sua evolução, e atingirá a posição 'da mais perfeita forma'13, e se adornará com o manto do 'Louvado seja Deus, Criador por excelência'14. E esta manifestação realizar-se-á no ano 1269 (d.h.)†, que corresponde ao número do ano de 'após um tempo', e será cumprida a profecia15 de 'verás as montanhas, que te parecem firmes, passarem rápidas como as nuvens'."16

†1852. Hin, de acordo com a anotação Abjad, é igual a 68. Em 1268 (d.h.), Bahá'u'lláh, acorrentado na Fossa Negra de Teerã, recebeu as primeiras manifestações da Sua Missão Divina e naquele mesmo ano fez alusão disso em Suas odes.17

Em resumo, o Báb descreveu Bahá'u'lláh de tal modo que, na Sua própria expressão, considerou a aproximação da generosidade divina e a obtenção dos mais altos degraus de perfeição nos mundos da humanidade como dependentes no amor a Bahá'u'lláh, e tão inflamado estava o Báb com a chama de Bahá'u'lláh que a comemoração dEle era a vela luminosa de Suas noites escuras na fortaleza de Mákú, e a lembrança dEle era o melhor dos companheiros nas dificuldades da prisão de Chihríq. Por meio disso, o Báb obteve grande elevação espiritual. Com Seu vinho inebriava-Se e na lembrança dEle, o Báb regozijava-Se. Todos os Seus seguidores, também estavam na expectativa da aparição destes sinais, e cada um dos Seus amigos íntimos estava buscando o cumprimento destas previsões.

No início da manifestação do Báb havia em Teerã (que o Báb chamava de Terra Santa) um Jovem da família de um dos ministros e de linhagem nobre, talentoso em todas as maneiras e adornado com pureza e nobreza. Embora Ele combinasse uma linhagem elevada com conexões eminentes, e embora Seus ancestrais fossem homens de destaque na Pérsia, tendo a população se dirigido a eles, contudo, Ele não era de uma linhagem de eruditos ou de uma família de estudiosos. Este Jovem era, desde os primórdios da Sua adolescência, celebrado entre aqueles da classe dos ministros, mesmo entre parentes e estranhos, por Seu espírito singular, e era desde a infância apontado como sendo notável por Sua sagacidade e tido em alta estima aos olhos dos sábios. Ele, porém, contrário a maneira dos Seus ancestrais, não desejava galgar a posição dos imponentes nem buscava posições de destaque, pois estas são transitórias. A Sua capacidade extrema era, apesar de tudo, admitida por todos, e Sua perspicácia excessiva e inteligência eram universalmente reconhecidas. Aos olhos do povo comum Ele desfrutou de uma estima maravilhosa, e em todas as reuniões e assembléias Ele tinha um discurso e uma elocução magníficos. Não obstante a falta de instrução e ensino, tal foi a agudeza da Sua penetração e o desembaraço da Sua percepção que durante o auge de Sua mocidade, quando Ele aparecia nas assembléias onde questões de divindade e metafísica estavam sendo discutidas, na presença do grande concurso de doutos e estudiosos Se pronunciava e todos os presentes ficavam assombrados, consideravam isto como um tipo de prodígio além do discernimento normal da raça humana. Desde os Seus primeiros anos Ele era a esperança de seus parentes e um exemplo ímpar de Sua família e linhagem, mais ainda, o refúgio e abrigo deles.

Porém, a despeito destas condições e circunstâncias, com um kuláh* na Sua cabeça e madeixas fluindo sobre Seus ombros, ninguém imaginava que Ele tornaria-Se a fonte de tais assuntos, e que estas ondas torrenciais chegariam ao zênite deste firmamento.

*Turbante. n.r.

Quando a questão do Báb foi amplamente alardeada, sinais de parcialidade apareceram nEle. No começo, Ele informou tanto aos Seus parentes e amigos quanto às crianças e dependentes do Seu próprio círculo. Subseqüentemente, Ele direcionou Suas energias dia e noite para convidar amigos e estranhos a abraçar a nova Fé. Ele levantou-Se com vigorosa resolução, engajado com a máxima constância na sistematização e consolidação dos princípios éticos fundamentais daquela sociedade, cada uma à sua maneira, e esforçou-Se de todas as formas para proteger e guardar estas pessoas.

Quando Ele estabeleceu as fundações em Teerã, apressou-Se para Mazindarán, onde demonstrou em assembléias, reuniões, conferências, estalagens, mesquitas e faculdades um poder vigoroso de elocução e de exposição. Quem quer que observasse Sua mente aberta ou ouvisse Seus elogios vívidos, perceberia nEle Seus olhos de verdadeira visão sendo uma demonstração evidente, uma força magnética latente e uma influência permeante. Um grande número de ricos, pobres e eruditos foram atraídos pela Sua pregação e limparam seus corações e vidas, ficando tão incendiados que sacrificaram suas vidas em martírio, dançando (com alegria).

Um dia, entre muitas instâncias, quatro talentosos estudiosos e eruditos dos sacerdotes de Núr estavam presentes na Sua companhia, e Ele discursou de tal maneira que todos os quatro ficaram compelidos a suplicá-Lo para que os aceitasse em Seu serviço. Pois, pela força da Sua eloqüência, a qual era como "magnetismo manifesto", Ele satisfez estes eminentes eruditos, que na verdade eram crianças engajadas nos rudimentos de estudo e simples principiantes, e que conseqüentemente deveriam ler novamente o abecedário desde o começo. Várias prolongadas conferências foram proferidas na exposição e elucidação do Ponto e do Alif do Absoluto, e os doutos presentes ficaram pasmados e repletos de estupefação e perplexidade diante da ebulição e tempestuosidade do oceano da Sua elocução. O relato deste acontecimento chegou aos ouvidos dos que estavam próximos e distantes, e um desalento profundo caiu sobre os adversários. A região de Núr ficou em grande excitação e comoção devido a estes eventos, e o barulho desta perniciosidade e transtorno chegou aos ouvidos dos cidadãos de Barfurúsh. O sacerdote chefe de Núr, o mullá Muhammad, estava em Qishláq. Quando ele ouviu sobre estes fatos, mandou dois dos mais distintos e profundos eruditos, que possuíam o maravilhoso poder da eloqüência e talento em oratória, argumentação conclusiva, e, também, poderes brilhantes de demonstração para debelar este fogo e subjugar e superar este Jovem por força do argumento e reduzindo-O à penitência ou causando-Lhe desespero pelo resultado exitoso de Seus projetos. Glória a Deus por Seus decretos maravilhosos! Quando estes dois eruditos entraram na presença dAquele Jovem e viram as ondas da Sua eloqüência, ouvindo a força de Seus argumentos, eles desabrocharam-se como uma rosa e extremamente comovidos, abandonaram o altar e a posição, o púlpito e o destaque, a riqueza e o luxo, as congregações noturnas e matinais, e empregaram-se ao fomento dos propósitos desta Pessoa, e mais ainda, convidaram o chefe dos sacerdotes a oferecer sua fidelidade. Quando este Jovem com a capacidade do poder da palavra, semelhante a uma torrente impetuosa, partiu para Ámul e Sarí, foi encontrar-Se com o experiente erudito e ilustre sacerdote em Qishlaq de Núr, o povo de todas as regiões reuniu-se para esperar pelo resultado. Este acontecimento, reverenciou o sacerdote, embora esta Pessoa fosse de excelência muito universalmente reconhecida e na ciência O mais erudito dos Seus contemporâneos, entretanto, decidiu recorrer ao augúrio respeitando a discussão e debate, mesmo sem a necessidade de se engajar.

O sacerdote não se mostrou favorável e, por essa razão, desculpou-se, protelando (o debate) para um outro momento. A sua incompetência e deficiência, por meio disso, tornaram-se conhecidas e levantaram suspeitas, causando este fato a adesão, confirmação e aperfeiçoamento de muitos.

O breve sumário da narrativa é este: Por algum tempo, Bahá'u'lláh passeou entre aqueles distritos. Após a morte do príncipe Muhammad Sháh, retornou à Teerã, tendo em mente a intenção de corresponder-Se e entrar em contato com o Báb. Quem levou esta correspondência foi o celebrado Mullá 'Abdu'l-Karím de Qazvín, que era o suporte principal e amigo íntimo e de confiança do Báb. Uma vez que Bahá'u'lláh havia alcançado um grande renome em Teerã e os corações dos homens estavam inclinados a Ele, Bahá'u'lláh juntamente com Mullá 'Abdu'l-Karím consideraram como sendo conveniente não atrair atenção a si mesmos, em virtude da agitação entre os eruditos, a agressividade da maior parte da (do povo da) Pérsia e o poder irresistível do Amír-Nizám, por meio do qual tanto o Báb quanto Bahá'u'lláh ficariam em grave perigo e sujeitos a atrair sobre Si uma severa punição. Alguma medida deveria ser adotada para direcionar os pensamentos dos homens a outra pessoa, alguém que não estivesse presente - desta forma Bahá'u'lláh permaneceria protegido da interferência dos homens. E uma vez mais, tendo em vista diversas considerações, consideraram que um estranho não seria apropriado e jogaram a sorte deste augúrio no nome do irmão de Bahá'u'lláh - Mírzá Yahyá.

Com o auxílio e instrução de Bahá'u'lláh, então, tornaram-o notório e famoso nos círculos de amigos e inimigos, e escreveram cartas, ostensivamente ditadas por ele, ao Báb. E, uma vez que correspondências secretas estavam em curso, o Báb aprovou este esquema. Então, Mírzá Yahyá ficou oculto e escondido enquanto a menção dele estava na boca dos homens. E este plano poderoso era de uma eficácia maravilhosa, pois Bahá'u'lláh, embora fosse conhecido e visto, permaneceu salvo e seguro, e este véu foi a causa e o motivo para que ninguém de fora (da Fé) sondasse o assunto ou tivesse a idéia de molestá-Lo, até que Bahá'u'lláh saiu de Teerã com a permissão do rei para retirar-Se até os Santuários Supremos.

Quando Bahá'u'lláh chegou à Bagdá e a lua crescente do mês de Muharram do ano 1269 (d.h.), que foi denominado nos livros do Báb como sendo "o ano de após um tempo" e no qual Ele prometeu a revelação da verdadeira natureza de Sua Fé e seus mistérios, brilhou do horizonte do mundo e ficou aparente este segredo oculto entre todos de dentro e fora (da sociedade), conforme foi relatado. Bahá'u'lláh, com imensa constância, tornou-Se o alvo das flechas de todos, enquanto Mírzá Yahyá, disfarçado em trajes árabes, passou seu tempo na cercania e vizinhança de Bagdá, engajado, para se encobrir melhor, em diversos ofícios.

Sendo assim, Bahá'u'lláh agiu de tal maneira que os corações desta Fé foram atraídos por Ele, enquanto a maioria dos habitantes do Iraque estava reduzida ao silêncio, ficando muda e alguns maravilhados e outros encolerizados. Após permanecer lá por um ano, Ele abriu mão de todas as coisas, abandonou os parentes e amigos, e, sem o conhecimento dos Seus seguidores, partiu do Iraque sozinho e solitário, sem companheiro, auxiliador, associado ou colega. Por quase dois anos, Ele morou na região turca do Curdistão, geralmente passando a maior parte do tempo num lugar chamado Sar-Galú, situado nas montanhas e longe das habitações humanas. Em raras ocasiões, Ele costumava freqüentar o Sulaymáníyyih*. Num curto espaço de tempo, os mais eminentes eruditos daquela região ouviram os rumores das Suas circunstâncias e condições, e conversaram com Ele sobre a solução de certas questões difíceis, conectadas com os pontos mais abstrusos da teologia, tendo Bahá'u'lláh fornecido sinais amplos e explanações satisfatórias. Desta forma, eles despenderam respeito por Ele e o máximo de acatamento e deferência. Como conseqüência disso, Ele adquiriu uma grande fama e reputação maravilhosa naquelas regiões, e relatos fragmentados dEle circularam por todas as regiões e direções, falando que um estrangeiro, um persa, havia aparecido no distrito do Sulaymáníyyih e que o povo daquele país havia soltado sua língua em elogios a Ele. A partir destes rumores, soube-se que Aquela Pessoa não era outra a não ser o próprio Bahá'u'lláh. Várias pessoas, então, apressaram-se para lá, e começaram a suplicar e implorar, e estas súplicas fizeram com que Ele retornasse.

*Desde os tempos antigos, o lugar de onde surgiu a maioria dos eruditos mais versados dos sunitas. n.t.i.

Embora esta Fé não tenha sido afetada com tremores ou consternações nestes eventos penosos, tais como o martírio de seu Líder e o massacre de Seus seguidores, e aumentado e multiplicado o número de crentes, ainda assim, esta comunidade estava ignorante no que concerne à sua conduta correta, sua ação, seu comportamento e seus deveres, seu único princípio de guia era seu amor pelo Báb, sendo que Ele estava apenas começando a assentar as fundações da nova Fé quando foi morto. Esta ignorância foi a razão pela qual, em algumas partes, distúrbios aconteceram. Pois, ao experimentarem molestamentos violentos, eles partiram para a auto-defesa. Mas após Seu retorno, tais foram os esforços estrênuos de Bahá'u'lláh em educação, ensino, treinamento, regulamentação e reconstrução desta comunidade que, num curto período, todos estes problemas e desordens foram extinguidos e o máximo de tranqüilidade e sossego reinou nos corações dos homens. Deste modo, de acordo com o que fora ouvido, ficou claro e óbvio, mesmo para os estadistas, que as intenções fundamentais e idéias desta Fé eram espirituais, assim como são as conexões dos puros de corações, e que seus verdadeiros e essenciais princípios eram a melhoria da moral e o aperfeiçoamento da raça humana, e que com os assuntos materiais, eles não tinham, em absoluto, nenhuma preocupação.

Quando estes princípios, então, foram estabelecidos no coração desta Fé, os crentes agiram de tal modo que em todos os países tornaram-se celebrados entre estadistas pela suavidade de espírito, constância de coração, intenção correta, ações boas e excelência de conduta. Por este povo ser bem disposto à obediência e à submissão, e, ao receberem tal instrução, adaptaram suas condutas e comportamento a estas regras. No passado, era feita objeção às palavras, ações, comportamento moral e conduta desta Fé - agora, objeção é feita na Pérsia à sua doutrina e seu estado espiritual. Isto está além do poder do homem que poderia, por interferência ou objeção, modificar o coração e a consciência, ou intrometer-se nas convicções de qualquer um. Pois, no reino da consciência nada além de um raio de luz de Deus pode comandar, e no trono do coração nada além do poder universal do Rei dos Reis deve reinar. Desta forma, alguém pode deter e suspender (a ação de) qualquer faculdade exceto o pensamento e a reflexão, pois um homem não pode nem por sua própria volição impedir a si próprio a reflexão ou o pensamento, nem reter a sua imaginação.

De qualquer modo, a verdade incontestável é essa: que por quase trinta e cinco anos nenhuma ação de oposição ao governo ou de prejuízo à nação tem emanado desta Fé ou tem sido testemunhado (por parte deles), e que durante este longo período, apesar do fato de que o número e a força deles é o dobro do que era no passado, nenhuma voz tem se levantado de qualquer lugar, exceto, uma vez ou outra, quando os eruditos e os estudiosos eminentes (realmente para a extensão deste relatório ao redor do mundo e o despertar dos homens) condenam alguns à morte. Tal interferência não é a destruição, mas a edificação quando consideramos a verdade, pois ela não será extinta e esquecida por meio disso, mas, ao contrário, será estimulada e noticiada.

Relatarei pelo menos uma anedota curta que realmente aconteceu. Uma pessoa agrediu violentamente e feriu gravemente um bábí. A vítima seguiu em retaliação e levantou-se para se vingar, desembainhando sua arma contra o agressor. Ao tornar-se o objeto de censura e reprimenda desta Fé, debandou-se em fuga. Quando chegou em Hamadán, seu caráter ficou conhecido, e, como ele era de classe clerical, os doutos o perseguiram veementemente, entregando-o ao governo e ordenando que um castigo fosse infligido. Por obra do acaso, caiu da dobra de seu colarinho, um documento escrito por Bahá'u'lláh que tratava sobre a reprovação contra tentativas de retaliação, censurava e desaprovava a busca de vingança e proibia a procura por luxúria. Entre estes assuntos, acharam estas expressões contidas naquele documento:

"Verdadeiramente, Deus rejeita o sedicioso."18

"É melhor seres morto do que matar. E quando estiveres passando por algum tormento, busca recurso nos que controlam os assuntos e o refúgio do povo; e se fores negligenciado, então confia teus problemas ao Senhor da Justiça. Esta é a marca dos sinceros e a característica dos seguros."19

Quando o governador ficou ciente destes Escritos, dirigiu-se àquela pessoa dizendo:

-- Pelo decreto daquele Líder a quem você mesmo obedece, a correção é necessária e a punição e o castigo são obrigatórios.

-- Se - respondeu aquela pessoa - você for executar todos os Seus preceitos, terei o máximo de prazer em submeter-me à punição e à morte.

O governador sorriu e deixou o homem ir embora.

Assim, Bahá'u'lláh esforçou-Se ao máximo para educar (Seu povo) e incitar (neles) a moralidade; a aquisição das ciências e das artes de todos os países; o comércio cordial com todas as nações da Terra; o desejo para o bem-estar de todos os povos; a sociabilidade, concórdia, obediência, submissão e instrução das crianças; a produção daquilo que seja necessário para a raça humana e a inauguração da verdadeira felicidade para o gênero humano. Ele continuamente prosseguiu com o envio de Tratados e Admoestações para todas as partes (do mundo), por intermédio das quais um efeito maravilhoso era produzido. Algumas destas Epístolas foram, após buscas e indagações extremas, examinadas e algumas partes delas serão, agora, registradas.

Todas estas Epístolas consistiram de (exortações para a) purificação da moral, encorajamento à boa conduta, reprovação de certos atos dos indivíduos e denúncias dos sediciosos. Entre outras sentenças, estas são as que selecionei:

"Meu cativeiro não é o que Me envergonha; por Minha vida, é na verdade o que Me glorifica! Mas vergonhosa é a ação de Meus amigos que juntam-se a Nós e seguem o demônio em suas ações. Entre eles estão aqueles que entregam-se à luxúria e afastam-se daquilo que lhes é recomendado, porém há também, os que seguem a verdade e a guia reta. E quanto àqueles que cometem pecados e apegam-se às coisas do mundo, estes seguramente não são do povo de Bahá."20

"Bem-aventurado é aquele que adorna-se com os adereços das boas maneiras e da moralidade. Verdadeiramente, ele é dos que ajudam seu Senhor com perspícuas ações claras."21

"Ele é Deus, exaltada é Sua condição, sabedoria e elocução. O Ser Verdadeiro, magnificada é Sua glória, para expor as jóias dos ideais da mina que jaz no ser humano, tem enviado, em todas as eras, Aquele que é Confiável. A base primária da fé divina e da religião de Deus é esta: que eles não criem diversas seitas e vários caminhos, que são a causa e a razão de ódios. Estes princípios, leis e caminhos da certeza aparecem com uma alvorada e brilham de uma mesma fonte de luz, enquanto que as diversidades são contrárias às exigências do tempo, das estações, eras e épocas. Ó unitaristas, sede firmes em vossos esforços, para que a disputa religiosa e os conflitos possam ser removidos dos povos do mundo e definitivamente eliminados. Por amor a Deus, que Seus servos se engajem neste grande e poderoso assunto. O ódio religioso e o rancor entre as pessoas é um fogo que consome o mundo inteiro, e arrefecê-los é algo muito árduo, a não ser que a mão do Poder Divino conceda aos homens a liberação desta infrutífera calamidade. Considerai a guerra que se deflagra entre dois Estados: os súditos de ambos perdem suas riquezas e vidas, assim como muitas vilas ficam arrasadas, embora pensem o contrário. Este preceito é dado como a luz da lâmpada da elocução."22

"O que Deus pronuncia é uma lâmpada cuja luz são estas palavras: Vós sois os frutos de uma só árvore e as folhas de um mesmo ramo. Tratai uns aos outros com o maior amor e harmonia, em espírito amigável e fraternal. Aquele que é o Sol da Verdade dá-Me testemunho! Tão potente é a luz da unidade que pode iluminar toda a Terra. O Deus Uno e Verdadeiro, Quem conhece todas as coisas, testifica, Ele Mesmo, a verdade destas palavras.

Esforçai-vos para que possais atingir este transcendente e mais sublime grau, grau esse que pode garantir a proteção e segurança de toda a humanidade. Esta meta supera a qualquer outra meta; esta aspiração é o monarca de todas as aspirações."23

"Confiamos que Deus irá ajudar os reis da Terra a iluminar e adornar o planeta com a luz refulgente do Sol da Justiça. Em um tempo falamos na linguagem da Lei, em outro, na linguagem da Verdade e da Orientação; e o objetivo final e a meta mais remota foram a de revelar esta mais elevada posição. E Deus é suficiente como testemunha."24

"Ó amigos, convivei com todos os povos do mundo com alegria e fragrância. Se fores portador de uma palavra ou essência da qual outros são carentes, compartilhai-a com eles na linguagem da afeição e bondade. E se ela for recebida e tornada efetiva, o objetivo foi alcançado, porém caso não for, deixai-a com eles e sem vos preocupardes não atuai de forma rude, mas orai. A linguagem da bondade traz conforto aos corações e alimento à alma. Ela representa a relação entre as idéias e as palavras, e é como um horizonte de onde o Sol da sabedoria e do conhecimento brilham."25

"Se os unitaristas tivessem nos últimos tempos agido de acordo com a gloriosa Lei (que veio) após Sua Santidade, o Selo (dos Profetas) - que a vida de todos além dEle sejam Seu sacrifício! - e tivessem apegado-se à orla de Suas vestes, a base da fortaleza da religião não seria abalada e as cidades populosas não teriam sido destruídas, mas, sim, cidades e vilas teriam adquirido e sido adornadas com o ornamento da paz e da serenidade."26

"Em decorrência da desatenção e discórdia dos povos favorecidos e da fumaça que envolve as almas maldosas, a Nação Justa é vista como envolta em escuridão e enfraquecida. Tivessem eles agido (de acordo com o que sabiam), não teriam sido desatentos à luz do Sol da Justiça."27

"Esta Vítima tem sido afligida desde os primórdios até os dias de agora pelas mãos dos desatentos. Eles Nos exilaram sem razão durante um tempo para o Iraque, em outro, para Adrianópolis, e então para 'Akká, que era um lugar de exílio para assassinos e salteadores; e ninguém sabe para onde e a que lugar seremos levados a residir depois desta Maior Prisão. Deus é o Conhecedor, o Senhor do Trono e do pó, e o Senhor do mais elevado Assento. Em qualquer lugar que estejamos e o que quer que venha a Nos suceder, os santos devem voltar-se com perfeita firmeza e confiança para o Horizonte Supremo e ocuparem-se com a reforma do mundo e a educação das nações. O que tenha acontecido e o que vier a acontecer, é um instrumento e um meio para levar avante a Palavra da Unidade. Obedecei ao comando de Deus e apegai-vos verdadeiramente àquilo que vos foi enviado de ninguém mais além dAquele ordenador sábio."28

"Com perfeita compaixão e misericórdia temos guiado e dirigido os povos do mundo àquilo através do qual suas almas serão beneficiadas. Juro pelo Sol da Justiça, que brilha dos mais elevados horizontes do mundo, o povo de Bahá não teve e não tem qualquer intenção senão a prosperidade e reforma do mundo e purificação das nações. Esse povo tem sido sincero e caritativo com todos os homens. Sua aparência externa é igual a sua aparência interna (o coração) e seu íntimo (o coração) idêntico com sua aparência externa. A verdade deste assunto não está oculta ou escondida, mas é clara e evidente diante das faces (dos homens). Seus verdadeiros feitos são testemunhos desta asserção. Que todos aqueles dotados de visão encontrem hoje o caminho das boas ações e dos sinais dos objetivos do povo de Bahá, e através de suas palavras e condutas alcancem o conhecimento de seus intentos. As ondas do oceano da misericórdia divina surgem em sua altura máxima e as chuvas das nuvens de Sua graça e favor descem a todo momento. Durante os dias da permanência no Iraque, este Oprimido sentou-Se e fez companhia a todas as classes sem véu ou disfarce, e muitos de seus habitantes chegaram como inimigos e saíram em amizade. A porta da graça foi aberta diante das faces de todos. Conversamos de igual para igual, abertamente, com rebeldes e obedientes, para que os maldosos pudessem alcançar o oceano incomensurável do perdão. Os esplendores do Nome do Ocultador estavam de tal forma manifestos que os maldosos imaginavam estar sendo reconhecidos como corretos e bons. Nenhum mensageiro ficou desapontado e nenhum inquiridor deixou de ser atendido. A aversão e esquivo dos homens foram causados por certos doutos da Pérsia e pelos feitos impensados dos ignorantes. Por (pelo termo de) "doutos" mencionado nestas passagens significa aquelas pessoas que mantinham a humanidade longe das praias do Oceano da Unidade, mas quanto aos eruditos que praticam (seu conhecimento) e os sábios que agem corretamente, são eles como o espírito no corpo do mundo. Felizes os eruditos cujas cabeças estão ornadas com a coroa da justiça e cujo corpo é glorificado com o ornamento da honestidade. A Pena da Advertência exorta os amigos e concede-lhes caridade, piedade, sabedoria e brandura. O Ser Oprimido* é hoje um prisioneiro; Seus aliados são as hostes dos bons atos e virtudes, e não as posições que ocupam, nem os seus companheiros, nem suas armas ou canhões. Uma ação santificada transforma o mundo terreno no mais elevado paraíso."29

*Em todos os Seus Escritos, "o Ser Oprimido" refere-se ao próprio Bahá'u'lláh.

"Ó amigos, ajudai o Ser Oprimido com virtudes prazerosas e bons atos. Que cada alma busque alcançar hoje o grau mais elevado. A pessoa não deve considerar o que se encontra nela própria, mas, sim, o que se encontra em Deus. Não deve preocupar-se com o que traga vantagem exclusivamente para ela, mas que, através da Palavra de Deus, tudo aquilo que é para ser obedecido deve ser elevado. O coração deve ser santificado de todas as formas de egoísmo e cobiça, pois as armas dos unitaristas e dos santos foram e continuam sendo o temor a Deus - que é a armadura que defende o ser humano das setas do ódio e da abominação. Incessantemente o padrão de devoção e piedade tem sido vitorioso, e é considerado dentre as mais poderosas hostes do mundo. Através dele os santos conquistaram as cidades dos corações (dos homens) com a permissão de Deus, o Senhor das Hostes. A escuridão envolveu a Terra; a lâmpada que gera luz foi e será a sabedoria. Os ditames devem, portanto, ser observados sob toda as circunstâncias. E sábio é considerar o lugar e a elocução do discurso de acordo com a condição e a capacidade. Na sabedoria devem ser baseadas as decisões, pois o homem não deve aceitar qualquer coisa que qualquer um lhe diga."30

"Sob todas as circunstâncias deseja o Ser Verdadeiro - magnificada seja Sua glória - não privar Seus servos do vinho selado* e das luzes do Nome do Ser Auto-Subsistente."31

*As ordenações de Deus.

"Ó amigos de Deus, verdadeiramente, a Pena da Sinceridade concede-vos a maior fidelidade. Pela vida de Deus, sua luz é mais evidente que a luz do sol! Em sua luz e em seu brilho e sua radiância todas as luzes são eclipsadas. Rogamos a Deus para que Ele não retire de Suas cidades e terras a radiância e o fulgor do Sol da Fidelidade. Temos orientado a todos, dia e noite, à fidelidade, castidade, pureza e constância, e temos exaltado os bons atos e as qualidades elogiáveis. Tanto de noite, como de dia, o chiado da pena se faz ouvir e a língua fala, para que contra a espada se anteponha a palavra, e contra a ferocidade, a paciência, e em lugar da opressão, a submissão, e em tempo de martírio, a resignação. Por mais de trinta anos, com tudo o que aconteceu a esta comunidade oprimida, eles souberam suportar com paciência, entregando tudo a Deus. Todo aquele dotado de justiça e retidão, dá testemunho e confirma aquilo que tem sido dito. Durante este período, este Ser Oprimido esteve engajado em boas exortações e advertências suficientes e eficazes, até que se fez óbvia e estabelecida diante de todos que esta Vítima fez de Si mesma um alvo para as setas da calamidade, demonstrando os tesouros depositados nas almas (dos homens). Conflito e contenda foram e são dignos dos animais predadores da terra, (mas) as ações dignas de louvor são produtos dos homens."32

"Louvado seja o Ser misericordioso! Criou o homem e ensinou-lhe a eloqüência.33 Depois de todas essas agruras, nem os ministros de Estado mostraram-se satisfeitos e nem os doutos da igreja. Nenhuma alma é encontrada para expressar a palavra de Deus diante da corte de sua majestade, o rei, possa Deus perpetuar seu reino. Nada nos acontecerá salvo aquilo que Deus decretou para Nós. Eles não agem com bondade, nem existe qualquer falha nas suas disposições para a maldade. A justiça tornou-se como a fênix e a fidelidade como a pedra filosofal; ninguém defende o que é direito. Parece que a justiça tornou-se odiada pelos homens e foi banida de todas as terras como o povo de Deus. Gloria a Deus! No episódio da terra de Tá ninguém falou em defesa do que Deus havia ordenado. Tendo demonstrado poder e serviço na presença do rei - que Deus perpetue seu reino - eles chamaram o bem de mal e o reformador de criador de sedição. Pessoas como essas chamam a gota de oceano e uma partícula de pó de Sol. Chamam a casa de Kulayn de "a poderosa fortaleza", e fecham os olhos à verdade mais evidente. Atacam muitos reformistas do mundo com a acusação de sedição. Tão certo como Deus vive, essas pessoas não tinham e nem têm a intenção, nem a esperança, salvo na glória do Estado e no serviço à sua nação. Em nome de Deus falaram e em nome de Deus falam, e no caminho de Deus seguem suas jornadas."34

"Ó amigos, peçam a Ele - que é o Desejo dos habitantes da Terra - para que socorra sua majestade, o rei - que Deus perpetue seu reino - para que os domínios da Pérsia possam ser iluminados com a luz do Sol da Justiça, tornando-se adornados com os ornamentos da tranqüilidade e segurança. De acordo com as declarações feitas, ele, seguindo os impulsos de sua natureza abençoada, libertou aqueles que encontravam-se em grilhões, concedendo liberdade aos cativos. A apresentação de determinados assuntos diante das faces dos servos (de Deus) é obrigatória, e natural aos devotos, de forma que tornem-se conscientes e conhecedores do bem. Verdadeiramente, Ele inspira aquele que Lhe agrada com aquilo que Ele deseja, e é o Poderoso, o Ordenador, o Onisciente, o Sábio."35

"Uma palavra daquela terra chegou a este Ser Oprimido, a qual, em verdade, foi causa de admiração. O que sua alteza, o Mútamídu'd-Dawlih, Farhád Mírzá, disse em relação a este Prisioneiro, não é agradável sua repetição. Esta Vítima conviveu muito pouco com ele ou com alguém como ele. Tanto quanto recordamos, (apenas) em duas ocasiões ele visitou o Murgh-Mahallihy em Shimír'n, onde ficava a residência deste Ser Oprimido. Na primeira ocasião veio um dia à tarde e na segunda vez numa sexta-feira de manhã, retornando próximo ao pôr-do-sol. Ele sabe e está bem consciente de que não deve falar, senão a verdade. Se alguém estiver em sua presença que repita essas palavras diante dele em nome do Ser Oprimido: 'Ó príncipe! Peço justiça e retidão de sua alteza com relação ao que tem sido infligido a esta pobre Vítima.' Bem estará a alma cujas dúvidas dos perversos não a afastaram da justiça nem a privaram das luzes do luminar da eqüidade. Ó santos de Deus! Ao final de Nosso discurso concedemos a vós, uma vez mais, a castidade, fidelidade, santidade, sinceridade e pureza. Deixai de lado o mal e adotai o bem. Isso é o que vos é determinado no Livro de Deus, o Onisciente, o Sábio. Bem estarão aqueles que praticam (esta injunção). Neste momento a pena exclama, dizendo: 'Ó santos de Deus, considerai o horizonte da retidão e cortai, separai e libertai-vos de tudo o mais. Não há força e poder a não ser em Deus!'"36

Em resumo, anteriormente em todas as províncias da Pérsia, estórias e relatos diversos discordantes à esta Fé, até mesmos, incompatíveis com o caráter da raça humana e opostos ao dote divino, passaram pelas línguas e bocas dos homens e obtiveram notoriedade. Mas quando seus princípios adquiriram firmeza e estabilidade e sua conduta e seu comportamento ficaram conhecidos e apreciados, o véu da dúvida e suspeita caiu, e o verdadeiro caráter desta Fé tornou-se claro e evidente, chegando ao grau de convicção de que seus princípios eram dessemelhantes às ilusões dos homens e que sua fundação diferia da opinião e avaliação (popular). Na sua conduta, ação, moralidade e comportamento não havia lugar para a objeção; a objeção na Pérsia era com certas idéias e princípios desta Fé. E, das indicações de várias circunstâncias, tem sido observado que o povo têm adquirido a convicção e a confiança na fidelidade, lealdade e religiosidade desta Fé em todas as transações.

Vamos retornar ao nosso tópico original. Durante o período de permanência no Iraque, estas pessoas se tornaram notórias através do mundo. Pois, o exílio resultou em fama, de tal maneira que um grande número de outros grupos procurou alianças e uniões, e inventaram maneiras de (adquirir) intimidade (com eles). Mas o Líder desta Fé, descobrindo as metas de cada facção, agiu com o máximo de consistência, circunspeção e firmeza. Sem adular ninguém, Ele aplicou tanto quanto possível admoestações a cada um, incitando-os e urgindo-os à boas resoluções e metas benéficas ao estado e à nação. E esta conduta e comportamento deste Líder adquiriram notoriedade no Iraque.

Assim, do mesmo modo, durante este período de Sua estada no Iraque, certos funcionários dos governos estrangeiros estavam desejosos de uma proximidade e buscaram relações amigáveis (com Ele), mas este Líder não concordou. Entre outros acontecimentos peculiares, aconteceu este: No Iraque, certos membros da família real fizeram entendimentos com estes governos (estrangeiros), e, (induzidos) por promessas e ameaças, conspiraram com eles. Mas esta Fé soltou brado em reprovação e começou a admoestá-los, dizendo:

-- Que torpeza é esta e qual a traição evidente que o homem deve, por vantagens mundanas, lucro pessoal, circunstâncias fáceis ou a proteção da vida e da propriedade, se lançar neste grande detrimento e na perda evidente, e embarcar num curso de ação que conduzirá à maior degradação e envolverá a máxima de infâmia e desgraça tanto agora como no futuro? Alguém pode suportar qualquer infâmia a não ser a traição para com seu país, pois todo pecado permite o perdão e a remissão, exceto (aquele da) a desonra ao seu governo e o prejuízo da sua nação. Imaginam eles que estão agindo de modo patriótico, demonstrando sinceridade e lealdade, e considerando sagrado os deveres da fidelidade, cuja meta nobre consideram uma obrigação moral.37

Assim, rumores disto foram espalhados ao longe através do Iraque, e aqueles que desejavam o bem para seu país, soltaram suas línguas na expressão de agradecimento, aprovação e respeito. E foi suposto que estes eventos seriam representados na presença do rei, mas, após um tempo, soube-se que certos shaykhs dos Santuários Supremos que comunicavam-se com a corte, e até mesmo com o rei, estavam em segredo, continuamente atribuindo a esta Fé afinidades e relações estranhas, imaginando que tais tentativas iriam conduzir favor na corte e causar o avanço das (suas) condições e posições. E como ninguém podia falar livremente deste assunto naquela corte, o qual era o pivô da justiça, enquanto os ministros justos e cientes (do verdadeiro estado do caso), também consideravam o silêncio como sendo a melhor política, a questão do Iraque, através de rumores e representações falsas, tornou-se grave em Teerã e foi enormemente exagerada. Mas o cônsul-geral, estando ciente da verdade, continuou a agir com moderação, até que Mírzá Buzurg Khán de Qazvín tornou-se o cônsul-geral em Bagdá. E, uma vez que esta pessoa estava acostumada a passar a maior parte do seu tempo num estado de intoxicação e era destituído de presciência, ele tornou-se o cúmplice e o aliado daqueles shaykhs no Iraque, e esforçou-se para destruir e demolir (esta Fé). Ele empregou todo seu poder de descrição e força de ação na feitura de representações e declarações. Cada dia, ele secretamente escrevia um despacho a Teerã, fazia votos e tratados com os shaykhs, e enviava notas diplomáticas à sua excelência, o embaixador-chefe (em Constantinopla). Porém, estas declarações e deposições não tinham bases ou fundamentos e eram todas postergadas e suspensas. Até que finalmente estes shaykhs convocaram uma reunião para consultar com o cônsul-geral, congregando um número de eruditos e grandes sacerdotes da (mesquita dos) "Dois Kázims", sobre eles esteja a paz, e, tendo chegado a um entendimento unânime, escreveram aos sacerdotes de Karbilá, o exaltado, e de Najaf, o mais nobre, convocando a todos. Eles vieram, alguns cientes, outros sem saber. Entre os últimos, chegou sem conhecimento (do assunto em discussão) o ilustre e perito douto, o nobre e celebrado estudioso, o selo dos que buscavam a verdade - Shaykh Murtadá - que agora está morto e enterrado, o qual era reconhecidamente o chefe de todos. Mas, tão logo ele foi informado dos desígnios verdadeiros, ele declarou:

-- Não sou devidamente informado do caráter essencial desta Fé, nem com os princípios secretos e doutrinas teológicas ocultas desta comunidade; nem tenho, até agora, testemunhado ou percebido no seu comportamento ou conduta qualquer coisa em discrepância com o Livro Perspícuo que me levaria a pronunciá-los infiéis. Portanto, considerai-me dispensado deste assunto, e deixai que aquele que o considera como sendo o seu dever a tomar uma ação.

Agora, o intento dos shaykhs e do cônsul era um ataque repentino e geral, mas, por motivo de falta de aquiescência do falecido shaykh, esta maquinação provou malogrado, resultando, na verdade, somente em vergonha e desapontamento. Assim, aquele concurso de shaykhs, doutos e gente comum que havia vindo de Karbilá, dispersou-se.

Justamente nesta hora, pessoas perniciosas - (incluindo) mesmo até certos ministros demitidos - empenharam-se em todas as partes para influenciar esta Fé, de modo que eles pudessem, possivelmente, alterar seu curso e conduta. De todas as regiões, mensagens mentirosas e relatos inquietantes fluíram continuamente um após o outro em sucessão ininterrupta e constante, no sentido de que a intenção deliberada da corte da Pérsia era a erradicação, supressão, aniquilação e destruição desta Fé. Correspondências eram continuamente enviadas às autoridades locais, em que todos (os bábís) no Iraque seriam, brevemente, entregues, com as mãos atadas, à Pérsia. Mas os bábís passaram o tempo em calma e silêncio, sem alterar, de qualquer maneira, seu comportamento e conduta.

Também Mírzá Buzurg Khán falhou em efetuar e realizar os desígnios de seu coração, e por intermédios de várias ações, ele, imprudentemente, pôs-se a refletir como poderia afligir e humilhar (os bábís). Cada dia procurou algum pretexto para oferecer insulto, incitar algum distúrbio e tumulto e levantar o estandarte da perniciosidade, até que a questão quase chegou na culminação do surgimento repentino de um motim, podendo provocar a perda das rédeas do controle das suas mãos e a precipitação dos corações (dos homens) na inquietação e perturbação destas mentes em angústia e agonia.

E, quando eles (os bábís) constatavam-se incapazes de tratar desta indisposição por qualquer meio, pois, por mais que se esforçassem, eram derrotados e frustrados, e quando falharam em achar qualquer solução para esta desordem ou qualquer formosura nesta flor, eles hesitaram por nove meses, sendo que finalmente um certo número deles, para parar a perniciosidade adicional, registraram-se como súditos do sublime governo otomano, para que (por meio disso) pudessem amenizar este tumulto. Por intermédio deste dispositivo, a perniciosidade foi atenuada e o cônsul parou de atormentá-los. Mas, ele notificou esta ocorrência à corte real divergindo os fatos, contrário à verdade, e, juntamente com os aliados shaykhs, usou de todas as maneiras e artifícios para distrair os sentimentos (dos bábís). Finalmente, ele foi demitido e dominado completamente pela desgraça, tornando-se penitente e arrependido.

Vamos proceder com o nosso tópico original. Por onze anos e um pouco mais, Bahá'u'lláh fixou residência no Iraque. O comportamento e a conduta desta Fé eram tal que a (Sua) fama e o (Seu) renome aumentaram. Ele estava, pois, manifesto e aparente entre os homens, consorciou-Se e associou-Se com todas as pessoas, e conversava com familiaridade com os doutos e estudiosos concernente à solução de questões teológicas difíceis e a verificação do verdadeiro sentido de pontos obscuros da doutrina das coisas divinas. Conforme relatado correntemente por pessoas de todas as classes, Ele agradava a todos, quer habitantes ou visitantes, pelo Seu intercurso e trato cortês. Este tipo de comportamento e conduta por parte dEle, os levou a suspeitar de feitiçaria e julgá-Lo um adepto das ciências ocultas.

Durante este período, Mírzá Yahyá permaneceu oculto e escondido, seguindo sua conduta e comportamento anterior, até que, quando o decreto para a remoção de Bahá'u'lláh de Bagdá foi emitido pela sua majestade, o monarca otomano, Mírzá Yahyá nem abandonava nem acompanhava (Bahá'u'lláh). Cada vez ele contemplava uma coisa: ir para a Índia ou se fixar no Turquistão. Mas, sendo incapaz de decidir um ou outro destes dois planos, ele finalmente, de sua própria volição, saiu diante de todos na vestimenta de um dervixe. Assim disfarçado e trocando os trajes, partiu para Kárkúk e Arbíl. Daquele lugar, num avanço contínuo, ele chegou à Mosul, aonde, com a chegada de todos, ele fixou-se e postou-se ao lado da caravana. E, embora em toda esta viagem, os governadores e oficiais deferissem o máximo de consideração e respeito, e apesar da marcha e da parada estarem igualmente dignificadas e honoráveis, contudo ele ficava sempre ocultado, trocando de vestuário, agindo cautelosamente, pois tinha a idéia de que algum ato de agressão poderia ocorrer.

Foi deste modo que chegaram em Constantinopla, onde foram reservados alojamentos numa casa de hóspedes por parte da gloriosa monarquia otomana. Inicialmente, o máximo de atenção, de todas as formas, foi prestado a eles. No terceiro dia, devido ao aperto dos alojamentos e a extensão de seu número, eles migraram e mudaram para uma outra casa. Certos nobres vieram para vê-los e conversar com eles, e estes, conforme é relatado, comportaram-se com moderação. Não obstante, muitos nas suas assembléias e reuniões continuaram a condená-los e vilipendiá-los, dizendo:

-- Esta seita é nociva para o mundo todo e destrói tratados e convênios; eles são malévolos; uma fonte de problemas para todas as terras; eles acenderam um fogo que tem consumido a terra; e embora exteriormente aparentam ser especiais, no entanto, são merecedores de castigo e punição.

Mesmo assim os bábís continuaram a conduzir-se com paciência, calma, deliberação e constância, de modo que eles, nem mesmo em autodefesa, importunaram (os ocupantes de) as posições altas ou freqüentaram as casas de quaisquer dos magnatas daquele reinado. Entre eles, os grandes, Ele (Bahá) entrevistou por Sua conta própria os que O encontravam, e nenhuma palavra a não ser das ciências e artes passou por eles. Até que um certo nobre procurou guiá-Lo e discursando em conselho amigável, disse:

-- Apelar e declarar seu caso, cobrando a justiça, são medidas exigidas pelo costume.

Bahá'u'lláh respondeu em réplica:

-- Seguindo no caminho da obediência ao comando do rei viemos para este país. Além disso, não tínhamos nem temos qualquer outro objetivo ou desejo que possa apelar ou causar distúrbios. O que está agora oculto atrás do véu do destino será conhecido no futuro. Não houve nem é necessário suplicar e importunar. Se os líderes conscientes (de sua nação) forem sábios e diligentes, eles com certeza inquirirão e ficarão conhecendo a verdadeira condição do caso; se não, então (sua) compreensão da verdade será impraticável e impossível. Sob estas circunstâncias seria necessário importunar os estadistas e suplicar aos ministros da Corte? Estamos livres de qualquer ansiedade, prontos e preparados para as coisas que nos estão predestinadas. 'Diz-lhes: Tudo emana de Deus.'* - é um sábio e suficiente argumento, e 'Se Deus te infligir algum mal, ninguém poderá dele te libertar, a não ser Ele.'† - um remédio curador."38

*Alcorão 4:80.
†Alcorão 6:17; 10:107.

Após alguns meses, um decreto real foi promulgado, como sendo Seu lugar de domicílio e residência, Adrianópolis, um distrito da Romélia. Para aquela cidade, os bábís, acompanhados por oficias (turcos), procederam todos juntos, e fizeram de lá, seu lar e habitação. De acordo com as declarações ouvidas de vários viajantes e de certos famosos homens e estudiosos daquela cidade, eles comportaram-se e tiveram conduta, de tal maneira que os habitantes daquele distrito e os oficiais do governo os elogiavam, e todos mostravam respeito e deferência a eles. Em resumo, Bahá'u'lláh desejava manter comunicação com os doutos, estudiosos, magnatas e nobres, (e por meio disso) obteve fama e celebridade por toda a Romélia, e conforto foi dado, e nem o medo nem o temor permaneceram, e eles repousaram no divã de tranqüilidade, passando o tempo em quietude. Neste ínterim, um siyyid de nome Muhammad, de Isfahán, um dos seguidores (do Báb), assentou as fundações de intimidade e familiaridade com Mírzá Yahyá, e (por conseguinte) tornou-se a causa de vexação e transtorno. Em outras palavras, ele começou uma intriga secreta e tentando Mírzá Yahyá, disse:

-- A fama desta seita tem subido alto no mundo, e seu nome tem se tornado nobre. Nem temor nem perigo permanecem, nem há qualquer medo ou (necessidade para) cautela diante de ti. Cesse, então, de segui-Lo, para que tu possas ser seguido pelo mundo. E sai do meio dos que aderiram, para que tu possas te tornar celebrado do começo ao fim dos horizontes.

Mírzá Yahyá, também por causa da falta de reflexão e pensamento a respeito das conseqüências e por carência de experiência, ficou enamorado de suas palavras e iludido por sua conduta. Este era (como) um bebê e o outro como um seio que tornou-se muito apreciado. Em todo o caso, muitas vezes alguns dos líderes desta Fé escreveram admoestações e apontaram o caminho da discrição, dizendo:

-- Por muitos anos tens tu sido nutrido nos braços do teu Irmão e tens repousado no travesseiro da comodidade e contentamento. Que pensamentos são esses que resultam em demência? Não sejais seduzido por este nome vazio,* que, por respeito a certas considerações e por questão de conveniência, foi concedido (a ti), nem busques a repreensão da comunidade. Teu grau e valor dependem de uma palavra, e tua exaltação e elevação foram uma proteção e uma consideração.

*O título de Mírzá Yahyá era Subh-i-Azal, a Manhã da Eternidade. Bahá'u'lláh, nesta conexão, cita Amos 4:12-13, que diz que Deus "faz da manhã as trevas".39

Contudo, quanto mais eles os admoestavam, menos os afetavam; e por mais que eles os aconselhassem, eles continuavam considerar a oposição como sendo idêntica à vantagem. Subseqüentemente, o fogo da ganância e da avareza foi também acendido, e embora não houvesse nenhuma necessidade, pois suas circunstâncias eram fáceis ao extremo, eles começaram a pensar em salário e estipêndio. Então, certas mulheres dependentes de Mírzá Yahyá foram ao palácio (do governador) e rogaram assistência e caridade. Quando Bahá'u'lláh observou tal conduta e comportamento da parte deles, os repudiou e os impeliu para longe dEle (Mirzá Yahyá e Siyyid Muhammad).

Então, Siyyid Muhammad partiu para Constantinopla para receber seu estipêndio, abrindo a porta do sofrimento. De acordo com o relato dado, este assunto causou maior tristeza e produziu a cessação do intercurso. Em Constantinopla, além disso, ele presunçosamente colocou em circulação certos relatórios, asseverando, entre outras coisas, que uma certa notável personagem que havia chegado do Iraque era Mírzá Yahyá. Diversos indivíduos, percebendo que o conteúdo deste material era excelente para a promoção de desordens e um meio para a promoção da amotinação, ostensivamente o apoiaram e o aplaudiram, e estimulando-o e incitando-o, disseram:

-- Tu és realmente o esteio principal e o sucessor reconhecido. Agi com autoridade, de modo que aquela graça e bênção se tornem aparentes. O oceano sem ondas não tem nenhum som, e a nuvem sem trovão não tem chuva.

Por tal tipo de discurso, então, foi este infortunado homem, ludibriado neste curso de ação, e levado a proferir palavras vãs que causaram a perturbação dos pensamentos (dos homens). Pouco a pouco aqueles que não eram inclinados à incitação e ao encorajamento, começaram sem exceção a exprimir denúncias violentas em cada canto e esquina, não somente isto, mas até na própria corte, dizendo:

-- Os bábís falam e expõem desta maneira: (seu) comportamento é tal, e (seu) discurso deste modo.

Tais perniciosidades e intrigas causaram questões a serem mal compreendidas, e além disso, certas maquinações iniciaram-se, as quais eram consideradas como medidas necessárias de auto-proteção. A expediência do banimento dos bábís entrou em consideração, e de repente uma ordem chegou, e Bahá'u'lláh foi removido da Romélia. Nem ficou conhecido qual era o propósito ou para onde eles O levariam. Diversos relatos corriam nas bocas (dos homens) e muitos exageros eram ouvidos de que não haveria esperança de escapatória.

Pois bem, todas aquelas pessoas que estavam com Bahá'u'lláh, com propósito unânime, imploraram e insistiram que deveriam (ser permitidas a) acompanhá-Lo, e, por mais que o governo admoestasse-os e proibisse, tudo era infrutífero. Até que um, de nome Hájí Ja'far, ficando transtornado nesta lamentação, cortou a sua garganta com sua própria mão. Quando o governo observou este acontecimento, deu permissão a todos para acompanhá-lo, conduzindo-os de Adrianópolis para a costa, e dali transportou-os para 'Akká. A Mírzá Yahyá, eles mandaram, de maneira semelhante, à Famagusta.

Durantes os últimos dias (passados) em Adrianópolis, Bahá'u'lláh compôs uma detalhada Epístola definindo minuciosamente e claramente todas as questões. Ele desdobrou e expôs os princípios fundamentais desta Fé e deixou claro e evidente sua ética, costumes, curso e modo de conduta. Em detalhes, Ele tratou certas questões políticas e aduziu diversas provas da Sua veracidade. Ele declarou as boas intenções, lealdade e sinceridade desta Fé e escreveu alguns fragmentos de orações, sendo algumas em persa, mas a maior parte em árabe. Ele, então, colocou-a num embrulho e adornou o endereço com o nome real da sua majestade, o rei da Pérsia, e escreveu (nele) que alguma pessoa de coração puro e de vida pura, dedicada a Deus e preparada para o sacrifício do martírio, deveria, com perfeita resignação e boa vontade, conduzir esta Epístola até a presença do rei. Um jovem de nome Mírzá Badí, um nativo de Khurásán, levou a Epístola, e apressou-se rumo à presença de sua majestade, o rei. A caravana real tinha a sua parada e estação do lado de fora de Teerã, então, ele tomou posição sozinho, e numa pedra, num local longínquo, mas oposto ao pavilhão real, esperou dia e noite pela passagem da escolta real ou para a obtenção de admissão para ir a presença imperial. Ele passou três dias em estado de jejum e vigilância, restando um corpo emaciado e um espírito enfraquecido. No quarto dia, a personagem real estava examinando todos os locais e direções com um telescópio, quando de repente seu olhar pousou sobre este jovem que estava sentado, em atitude de grande respeito, numa pedra. Foi inferido das indicações (percebidas) que ele certamente deveria ter agradecimentos (a oferecer), ou alguma reclamação ou reivindicação de reparação e justiça (a apresentar). (O rei) Ordenou a um daqueles a serviço da corte a inquirir sobre as circunstâncias deste jovem. Após a interrogação, (descobriu-se que) ele carregava uma carta que desejava conduzir com suas próprias mãos à presença real. Ao receber a permissão de se aproximar, ele exclamou, diante do pavilhão, com uma dignidade, compostura e respeito, sobrepujando a descrição e em uma voz alta:

-- Ó rei, trago a vós, de Sabá, uma notícia segura!40

(O rei) Ordenou que a carta fosse tomada e o condutor fosse preso. Sua majestade, o rei, almejou agir com deliberação e desejou descobrir a verdade, mas aqueles presentes diante dele soltaram suas línguas em repreensão violenta, dizendo:

-- Esta pessoa tem demonstrado grande presunção e audácia espantosa, pois ele trouxe, sem medo ou temor, a carta dAquele contra quem todo o povo está encolerizado, dAquele que é banido para a Bulgária e Eslovênia, até a presença do rei. Caso ele, instantaneamente, não sofra uma punição penosa, haverá um aumento desta grande presunção.

Então, os ministros da corte sinalizaram (que ele deveria sofrer) punição e ordenaram a tortura. Como um primeiro tormento, eles aplicaram a corrente e a cremalheira, dizendo:

-- Identifique os teus outros amigos para que tu sejas poupado de uma punição excruciante, e faze com que teus companheiros sejam presos para que tu escapes do tormento da corrente e o afiamento da espada.

Mas, torturar, marcar com ferro quente e atormentá-lo, da maneira que fosse, nada veriam além da constância e o silêncio, e descobriram nada além de resignação silenciosa (de sua parte). Então, quando a tortura não deu resultado, eles (primeiramente) o fotografaram, os algozes ao seu lado esquerdo e direito, e ele sentado, amarrado em grilhões e correntes abaixo da espada com perfeita submissão e compostura, e o mataram e o destruíram. Esta fotografia*, mandei buscar e achei merecedora de contemplação, pois ele estava sentado com uma humildade maravilhosa e uma distinta submissão, com máxima resignação.

*Esta fotografia está publicada em A Revelação de Bahá'u'lláh - Vol. III, p. 215. n.e.

Quando sua majestade, o rei, examinou certas passagens e ficou ciente do conteúdo da Epístola, ficou muito comovido pelo ocorrido e manifestou arrependimento, porque seus cortesãos agiram apressadamente e colocaram em execução uma punição muito severa. É relatado, ainda, que ele falou três vezes:

-- Quem pune aquele que apenas transporta a correspondência?

Então, a ordem real foi emitida para que os eruditos e os honrados e talentosos sacerdotes, escrevessem uma resposta àquela Epístola. Mas, quando os doutos mais versados da capital ficaram cientes do conteúdo daquela carta, eles determinaram:

-- Esta Pessoa, sem levar em consideração (o fato) que Ele está em divergência com a Religião Perspícua, é um intruso no costume e credo, e é um atormentador de reis e imperadores. Conseqüentemente, erradicar, subjugar, reprimir e repelir (esta Fé) são condições essenciais no caminho do Bem-Estabelecido, e de fato, a mais importante das obrigações.

Esta resposta não foi aprovada diante da presença (real), pois no conteúdo desta Epístola não havia nenhuma discordância óbvia com a lei ou com a razão, e não se intrometia nas questões políticas ou administrativas, nem interferia ou atacava o trono da soberania. Eles deveriam, então, discutir os reais pontos em questão e escrever claramente e explicitamente tamanha resposta que causasse o desaparecimento das dúvidas e a solução das dificuldades, e tornar-se, para todos, o sustentáculo da discussão.

Desta Epístola, diversas passagens serão colocadas em exposição, por escrito, para conduzir as pessoas a um entendimento melhor da questão. No começo da Epístola encontra-se uma passagem impressionante em árabe (tratando) das questões de fé e convicção; o sacrifício da vida no caminho do Bem-Amado; o estado de resignação e contentamento; a multiplicidade de infortúnios, calamidades, privações e aflições; a queda na suspeita de se ter caráter sedicioso através das maquinações dos inimigos; o estabelecimento da inocência de Bahá'u'lláh na presença da sua majestade, o rei; o repúdio das pessoas sediciosas e a desaprovação ao partido rebelde; as condições de crença sincera nos versos do Alcorão; a necessidade de virtudes divinas, distinção das outras criaturas nesta morada transitória; obediência aos mandamentos e evitar as coisas proibidas; a evidência de apoio divino no incidente do Báb; a inabilidade de quem quer que seja na Terra a opor-se a uma coisa divina; o despertar do próprio Bahá'u'lláh no afluxo divino e Sua queda, por conseguinte, em calamidades ilimitadas; a Sua aquisição da dádiva divina; a Sua participação na graça espiritual dada por Deus; a Sua iluminação e pronto conhecimento sem estudos em qualquer escola; a justificação do Seu esforço para admoestações da humanidade na direção de obter perfeições humanas e inflamar os seres humanos com o fogo do amor divino; encorajamento em direção à obtenção de energia para alcançar um grau mais elevado que a soberania terrestre; orações eloqüentes (escritos) no mais alto grau de humilhação, devoção e humildade; e assim por diante. Subseqüentemente, Ele examinou (outras) questões na língua persa. Esta é a Epístola41:

Esta é uma Epístola, ó Meu Deus, que tencionei enviar ao rei. Tu sabes que nada desejei dele, exceto que mostrasse justiça a Teus servos e estendesse seus favores aos povos de Teu reino. Para Mim próprio desejei somente o que Me desejaste, e através de Teu auxílio nada almejei, salvo o que Tu almejaste. Extinta seja a alma que buscar de Ti algo que não seja Teu próprio Ser! Juro por Tua glória! Teu beneplácito é o Meu maior desejo, e Teu desígnio a Minha mais alta esperança. Tem misericórdia, ó Meu Deus, desta pobre criatura que Se apegou à orla de Tuas riquezas, e desta alma suplicante que Te invoca, dizendo, "Tu és, verdadeiramente, o Senhor de poder e glória!" Ajuda Tu, ó Meu Deus, a sua majestade, o xá, a guardar Tuas leis entre Teus servos e a manifestar Tua justiça entre Tuas criaturas, para que ele possa tratar este povo como trata os demais. Tu és, em verdade, o Deus de poder, de glória e sabedoria.

Com a anuência e permissão do rei da época, este Servo viajou desde o Assento da Soberania* até o Iraque e habitou por doze anos naquela terra. No transcorrer de todo esse período, nenhum relato de Nossa condição foi submetido à corte de tua presença e nenhuma representação jamais foi feita às autoridades estrangeiras. Depositando toda Nossa confiança em Deus, residimos naquela terra, até que veio ao Iraque um certo oficial† que, ao chegar, encarregou-se de atormentar este pobre grupo de exilados. Dia após dia, sob a instigação dos aparentemente eruditos e de outros indivíduos, ele provocava transtorno para esses servos, embora, em nenhuma ocasião, tivessem eles cometido qualquer ato prejudicial ao país e a seu povo, ou que fosse contrário às regras e costumes dos cidadãos do reino.

*Teerã.

†Mírzá Buzurg Khán, o cônsul-geral persa em Bagdá.

Temendo que as ações desses transgressores pudessem produzir algum efeito em desacordo com teu ponderado julgamento, este Servo despachou um relato resumido do assunto a Mírzá Sa'íd Khán‡ no Ministério do Exterior, para que pudesse submetê-lo à presença real e que pudesse ser obedecida qualquer coisa que te aprouvesse decretar. Um longo período se passou, e nenhum decreto foi emitido. Finalmente o caso tomou tal vulto que era iminente a ameaça de luta e derramamento de sangue. Necessariamente, portanto, e para proteção dos servos de Deus, uns poucos deles apelaram para o governador do Iraque.*

‡Mu'tamin'ul-Mulk, Mírzá As'id Khán-i-ansárí, ministro de assuntos externos.

*Bahá'u'lláh refere-Se aqui a Sua solicitação e de Seus companheiros para obterem cidadania otomana.

Fosses olhar esses eventos com o olhar da justiça, tornar-se-ia claro e evidente no espelho luminoso de teu coração que o que ocorreu foi motivado pelas circunstâncias e que nenhuma outra alternativa podia ser encontrada. Sua majestade mesmo é testemunha de que, em qualquer cidade em que residam algumas dessas pessoas, a hostilidade de certos funcionários acende a chama do conflito e da contenda. Esta Alma Evanescente, entretanto, desde Sua chegada ao Iraque, proibiu a todos de se engajarem em dissensão e luta. Testemunha deste Servo são Seus próprios atos, pois todos estão bem cientes e testificarão que, embora um número maior dessas pessoas residisse no Iraque comparado com qualquer outra terra, ninguém ultrapassou seus limites ou transgrediu contra seu próximo. Fixando seu olhar em Deus, e depositando sua confiança nEle, todos têm vivido em paz por aproximadamente quinze anos, e quanto a qualquer coisa que lhes tenha sobrevindo têm demonstrado paciência e se resignado a Deus.

Após a chegada deste Servo nesta cidade, Adrianópolis, algumas pessoas do Iraque e de outros lugares indagaram sobre o significado do termo "prestar auxílio a Deus" que foi mencionado nas Sagradas Escrituras. Diversas respostas foram enviadas, uma das quais é anunciada nestas páginas, para que se possa demonstrar claramente, na corte de tua presença, que este Servo não tinha outro propósito em vista, salvo o de promover a melhora e o bem-estar do mundo. E se alguns dos favores divinos, que a Deus aprouve conceder-Me, ainda que Eu não seja merecedor, não estão evidentes e manifestos, este, ao menos, tornará claro e compreensível que Ele, em Sua insuperável misericórdia e infinita graça, não privou Meu coração do ornamento da razão. A passagem referida a respeito do significado de "prestar auxílio a Deus" é a seguinte:

Ele é Deus, exaltada seja Sua glória!

É claro e evidente que o Deus Uno e Verdadeiro - glorificada seja Sua menção! - está santificado acima do mundo e de tudo o que nele se encontra. "Prestar auxílio a Deus", então, não significa que uma alma devesse entrar em luta ou contenda com outras. Aquele Senhor Soberano que faz o que Lhe apraz, confiou o reino da criação, suas terras e seus mares, às mãos dos reis, que são, cada um de acordo com seu grau, as manifestações de Seu poder divino. Se eles entrarem no abrigo do Verdadeiro, serão considerados de Deus, caso contrário, teu Senhor, verdadeiramente, conhece e observa todas as coisas.

O que Deus - glorificado seja Seu Nome! - desejou para Si próprio, são os corações de Seus servos, que são os repositórios de Seu amor e Sua comemoração, e os recipientes de Seu conhecimento e Sua sabedoria. O desejo do Rei Eterno tem sido sempre purificar os corações de Seus servos das coisas do mundo e de tudo o que a eles pertence, para que possam se tornar recipientes dignos dos esplendores refulgentes dAquele que é o Rei de todos os nomes e atributos. O motivo pelo qual nenhum estranho deve ser permitido na cidade do coração é para que o Amigo incomparável possa entrar em Sua morada. Isto refere-se ao esplendor de Seus nomes e atributos, e não à Sua Essência excelsa, uma vez que aquele Rei inigualável sempre foi e para sempre permanecerá santificado acima de ascensão e descida.

Segue-se, portanto, que prestar auxílio a Deus, neste dia, não consiste e jamais consistirá em contender ou disputar com qualquer alma; não, antes, o que é preferível aos olhos de Deus é que as cidades dos corações dos homens, que são regidas pelas hostes do ego e da paixão, sejam subjugadas pela espada da expressão, da sabedoria e da compreensão. Assim, aquele que busca auxiliar a Deus deve, antes de tudo, conquistar, com a espada do significado e do entendimento interior, a cidade de seu próprio coração e guardá-lo da lembrança de tudo salvo de Deus, e somente então levantar-se para subjugar as cidades dos corações dos demais.

Tal é o verdadeiro significado de prestar auxílio a Deus. A sedição jamais foi agradável a Deus, nem foram os atos cometidos no passado aceitáveis a Seu ver. Sabei que ser morto no caminho de Seu beneplácito é melhor para vós do que matar. Os bem-amados do Senhor devem, neste dia, comportar-se de tal modo dentre Seus servos, que possam guiar, por suas próprias obras e ações, todos os homens ao paraíso do Todo-Glorioso.

Por Aquele que resplandece acima do Alvorecer da Santidade! Os amigos de Deus não colocaram, nem jamais colocarão, suas esperanças no mundo e em suas possessões efêmeras. O Deus Uno e Verdadeiro sempre considerou os corações dos homens como Sua própria, Sua exclusiva possessão - e isso também apenas como uma expressão de Sua misericórdia que a tudo abrange, para que talvez as almas mortais possam ser purificadas e santificadas de tudo o que pertença ao mundo do pó e obtenham acesso aos reinos da eternidade. Pois, caso contrário, aquele Rei ideal é, em Si mesmo e por Si mesmo, Auto-Suficiente e independente de todas as coisas. Nem o amor de Suas criaturas O pode beneficiar, nem sua maldade prejudicá-Lo. Todos surgiram das moradas do pó, e ao pó retornarão, enquanto o Deus Uno e Verdadeiro, só e único, está estabelecido sobre Seu Trono, um Trono que está além do alcance de tempo e de espaço, está santificado acima de toda afirmação ou expressão, sugestão, descrição e definição, e está elevado acima de toda noção de rebaixamento e glória. E ninguém é disso sabedor, salvo Ele e aqueles com quem está o conhecimento do Livro. Nenhum Deus há, exceto Ele, o Todo-Poderoso, o Todo-Generoso.

Cabe à benevolência do Soberano, entretanto, examinar todos os assuntos com o olhar da justiça e misericórdia, e não se contentar com as alegações infundadas de certos indivíduos. Suplicamos a Deus que bondosamente auxilie o Rei a cumprir o que Lhe aprouver e, verdadeiramente, aquilo que Ele deseja deveria ser o desejo de todos os mundos.

Posteriormente, este Servo foi chamado a Constantinopla, onde chegamos acompanhados de um pobre grupo de exilados. Depois disso, em nenhuma ocasião buscamos Nos encontrar com pessoa alguma, uma vez que nada tínhamos a solicitar e nenhum propósito em vista, a não ser demonstrar a todos que este Servo não abrigava nenhuma maldade em mente e que jamais se associara aos semeadores de sedição. Por Aquele que fez com que as línguas de todos os seres expressassem Seu louvor! Enquanto certas considerações tornavam difícil dirigir uma petição a qualquer autoridade, tais medidas foram forçosamente tomadas para proteger determinadas almas. Meu Senhor, verdadeiramente, sabe o que está em Mim, e Ele dá testemunha da verdade do que digo.

Um rei justo é a sombra de Deus na terra. Todos devem buscar amparo à sombra de sua justiça e repousar abrigados pelo seu favor. Não é coisa específica ou limitada em seu âmbito, que se pudesse restringir a uma ou outra pessoa, uma vez que a sombra refere-se a Quem a projeta. Deus - glorificado seja Sua lembrança - chamou a Si próprio o Senhor dos mundos, pois é Ele Quem tem nutrido, e ainda nutre a todos. Glorificada, pois, seja Sua graça que precedeu a todas as coisas criadas, e Sua misericórdia que superou todos os mundos.

É claro e evidente que, mesmo sendo esta Causa vista como certa ou errada pelo povo, aqueles que estão associados ao seu nome aceitaram-na e abraçaram-na como verdadeira, e abandonaram tudo o que possuíam em sua ânsia de participar das coisas de Deus. O fato de que vieram a demonstrar tal renúncia no caminho do amor ao Todo-Misericordioso, é em si próprio uma prova fiel e um eloqüente testemunho da verdade de suas convicções. Alguém já viu que um homem de juízo perfeito viesse a sacrificar sua vida sem causa ou razão? E se fosse insinuado que este povo perdeu sua razão, isso também é altamente improvável, desde que tal comportamento não foi confinado meramente a uma alma ou duas - não, uma vasta multidão de todas as classes sorveu o seu quinhão das águas vivas do conhecimento divino, e, extasiados, apressou-se de coração e alma ao campo do sacrifício, no caminho do Bem-Amado.

Se essas almas, que renunciaram a tudo o mais exceto a Deus, por Seu amor, e ofereceram sua vida e substância em Seu caminho, fossem consideradas falsas, então por qual prova e testemunho poderia, em tua presença, ser estabelecida a verdade do que os outros afirmam?

O falecido Hájí Siyyid Muhammad* - que Deus exalte sua posição e o faça imergir no oceano de Seu perdão e misericórdia! - foi um dos sacerdotes mais eruditos de sua época, e um dos homens mais devotos e piedosos de seu tempo. Tão elevada era a consideração para com ele, que seu louvor estava em todas as línguas, e sua retidão e devoção eram universalmente reconhecidas. Porém, quando as hostilidades irromperam na Rússia,† aquele que, ele próprio, havia proferido o decreto de guerra santa, e que ostentando o estandarte havia partido de sua terra natal para arregimentar o apoio à sua fé, abandonou, após a inconveniência de um breve encontro, todo o bem a que se havia proposto e retornou para o lugar de onde viera. Oxalá fossem levantados os véus, e aquilo que até agora permaneceu oculto dos olhos dos homens se tornasse manifesto!

*Áqá Siyyid Muhammad-i-Tabátaba'íy-i-Isfáhání, conhecido como "Mujáhid".

†A segunda guerra russo-persa de 1825-1828.

Por mais de vinte anos este povo, dia e noite, tem estado sujeito à potência da ira do Soberano, e tem sido disperso, pela ventania tempestuosa de seu desagrado, cada um para uma terra diferente. Quão numerosas são as crianças que foram deixadas órfãs, e quantos pais perderam seus filhos! Quantas mães que não ousaram, por medo e pavor, prantear seus filhos mortos! Quão numerosos aqueles que, ao anoitecer, estavam de posse da maior riqueza e abundância, e que, ao surgir a manhã, haviam descido à condição de completa humilhação e destituição. Não existe terra cujo solo não tenha sido tingido com seu sangue, nem lugar no céu para onde não tenham subido seus lamentos. Ao longo dos anos, os dardos da aflição verteram, incessantemente, das nuvens do decreto de Deus, no entanto, apesar dessas calamidades e tribulações, a chama do amor divino de tal modo resplandecia em seus corações que, ainda que seus corpos fossem despedaçados, não abandonariam seu amor por Aquele que é o Mais Amado dos mundos, e sim que acolhiam de coração e alma qualquer coisa que lhes pudesse suceder no caminho de Deus.

Ó rei! As brisas da graça do Todo-Misericordioso transformaram esses servos e os atraíram à Sua Santa Corte. "A prova de um verdadeiro amante é a demonstração de seus sentimentos." Entretanto, alguns dos aparentemente eruditos perturbaram o coração luminoso do rei da época a respeito dessas almas que giram em torno do Tabernáculo do Todo-Misericordioso e que buscam atingir o Santuário do verdadeiro conhecimento. Oxalá o desejo imperial, adorno do mundo, decretasse que este Servo falasse face a face com os sacerdotes da época e apresentasse provas e testemunhos na presença de sua majestade, o xá! Este Servo está pronto e tem esperança em Deus de que se realize esse encontro a fim de que a verdade do assunto se torne clara e manifesta diante de sua majestade, o xá. Incumbe-te, pois, mandar. Eu estou pronto, diante do trono de tua soberania. Decide, pois, por Mim ou contra Mim.

O Todo-Misericordioso revela no Alcorão, Seu testemunho duradouro a todos os povos do mundo: "Desejai, pois, a morte, se sois homens da verdade."42 Vê como Ele declarou ser o anseio pela morte a prova da sinceridade! E, no espelho luminoso de teu julgamento, é, sem dúvida, claro e evidente quais pessoas escolheram, neste dia, sacrificar suas vidas no caminho do Bem-Amado dos mundos. De fato, se os livros que sustentam as crenças dessas pessoas fossem escritos com o sangue derramado no caminho de Deus - exaltada seja a Sua glória! - então, incontáveis volumes já teriam surgido entre os homens, para todos constatarem.

Como é possível, bem poderíamos perguntar, refutar estas pessoas cujos atos estão de acordo com suas palavras, e por outro lado dar crédito àqueles que se recusaram renunciar à mais insignificante porção de sua autoridade, no caminho dAquele que é o Irrestrito?

Alguns dos eclesiásticos que decretaram ser este Servo um infiel nunca se encontraram Comigo. Apesar de jamais Me haverem visto, ou se informado de Meu propósito, falaram como bem entendiam e agiram de acordo com seus desejos. Porém, cada acusação exige uma prova, não meras palavras e nem exibição de religiosidade exterior.

Com relação a isso, os textos de várias passagens do Livro Oculto de Fátimih - que as bênçãos de Deus estejam sobre ela! - que são relevantes ao tema presente serão citados na língua persa, para que vários assuntos que até agora estavam ocultos possam ser revelados diante de tua presença. As pessoas referidas no Livro acima mencionado, que hoje é conhecido como "As Palavras Ocultas", são aquelas que, embora externamente sejam conhecidas pela sua erudição e religiosidade, internamente são escravas do ego e da paixão.

Ó vós que sois insensatos mas tendes nome de sábios! Por que usais as vestes de pastor, quando, interiormente, vos tornastes lobos, cobiçando Meu rebanho? Sois semelhantes à estrela que nasce antes do amanhecer e que, embora pareça radiante e luminosa, desvia da Minha cidade os caminhantes, conduzindo-os pelas veredas da perdição.

E igualmente Ele diz:

Ó vós belos de aparência, mas vis interiormente! Sois como água límpida porém amarga, de pureza cristalina, aparentemente, mas da qual nenhuma gota é aceita quando o Avaliador divino a experimenta. Sim, o raio solar cai igualmente sobre o pó e sobre o espelho, mas estes diferem quanto à sua capacidade de refletir, assim como a estrela difere da terra. Mais ainda, imensurável é a diferença!

E igualmente Ele diz:

Ó essência do desejo! Muitas vezes, ao alvorecer, Eu me volvia dos reinos do Infinito para tua morada e encontrava-te no leito do ócio, devotado a outros e não a Mim. Com isso, assim como o relampejar do espírito, Eu regressava aos domínios da glória celestial e nem o sussurrava às hostes da santidade, em Minhas plagas nas alturas.

E igualmente Ele diz:

Ó escravo do mundo! Muitas vezes, ao alvorecer, a brisa da Minha terna misericórdia soprava sobre ti e te encontrava no leito da incúria, completamente adormecido. Lastimando, pois, teu triste estado, regressava ao lugar donde viera.43

Portanto, no exercício da justiça real, não é suficiente dar ouvidos apenas ao reivindicador. Deus revela no Alcorão, a infalível Balança que distingue a verdade da falsidade: "Ó vós que credes! Se um pecador vier a vós trazendo novidade, examinai-a prontamente, para que, por ignorância, não tratei ninguém com injustiça e posteriormente vos arrependais do que cometestes."44 As Tradições sagradas, ainda mais, contêm a seguinte admoestação: "Não creiais no portador de falsidades." Certos eclesiásticos, que nunca Nos viram, formaram uma opinião errônea a respeito da natureza de Nossa Causa. Aqueles, entretanto, que se encontraram conosco, darão testemunho de que este Servo nada falou, salvo de acordo com o que Deus ordenou no Livro, e que Ele chamou a atenção para o seguinte versículo abençoado - exaltada seja Sua Palavra: "Não nos rejeitais meramente porque cremos em Deus, e naquilo que Ele enviou para nós, e naquilo que Ele enviou no passado?"45

Ó rei da época! Os olhos destes refugiados volvem-se para a clemência do Mais Clemente e nela se fixam. Sem dúvida alguma, a estas tribulações seguir-se-ão as emanações de uma misericórdia suprema, e a estas adversidades horrorosas, uma prosperidade transbordante. Seria Nosso desejo esperar, porém, que vossa majestade, o xá, examinasse, vós mesmo, estes assuntos e desse esperança aos corações. O que submetemos a vossa majestade é, realmente, para vosso maior bem. E Deus, em verdade é testemunha suficiente para Mim.

Glorificado és Tu, ó Senhor Meu Deus! Dou testemunho de que o coração do rei está, em verdade, entre os dedos de Teu poder. Se for de Teu desejo, inclina-o, ó Meu Deus, na direção da caridade e misericórdia. Tu, verdadeiramente, és o Todo-Poderoso, o Mais Excelso, o Mais Generoso. Nenhum Deus há além de Ti, o Todo-Glorioso, Aquele cujo auxílio é buscado por todos.

Com relação aos pré-requisitos dos eruditos, Ele diz: "Quem dentre os eruditos protege-se contra seu ego, defende sua fé, opõe-se a seus desejos e obedece ao mandamento de seu Senhor, então ao povo incumbe segui-lo."* Se o rei da época refletisse sobre este pronunciamento, que fluiu da língua dAquele que é o Alvorecer da Revelação do Todo-Misericordioso, perceberia que aqueles que foram adornados com os atributos enumerados nesta santa tradição são mais raros do que a pedra filosofal, motivo pelo qual, nem todo homem que reivindica possuir conhecimento merece crédito.

*Uma tradição atribuída ao décimo-primeiro Imame Abu Muhammad al-Hasan al-'Askarí.

Novamente, relativo aos eclesiásticos dos Últimos Dias, diz Ele: "Os doutos da religião daquela época serão os mais perversos dos eclesiásticos à sombra do céu. Deles o dano procedeu e a eles haverá de regressar."

E, novamente, diz Ele: "E quando se manifesta o Estandarte da Verdade, tanto o povo do Leste como o do Oeste o amaldiçoa."* Se alguém contestar estas Tradições, este Servo encarregar-se-á de estabelecer sua validade, uma vez que os detalhes de sua transmissão foram aqui omitidos, por razões de brevidade.

*Tradições atribuídas ao sexto Imame, Abu'Abdu'lláh Já'far as-Sádiq.

Aqueles doutos que, em verdade, sorveram do cálice da renúncia, nunca interferiram com este Servo. Assim, por exemplo, Shaykh Murtaá1† - que Deus exalte sua posição e o faça repousar sob o pálio de Sua graça! - demonstrou amabilidade durante Nossa estada no Iraque e nunca falou desta Causa de outra maneira senão aquela para a qual Deus concedeu permissão. Suplicamos a Deus que bondosamente auxilie a todos a fazer o que seja Sua vontade e de Seu agrado.

†Shaykh Murtadáy-i-Ansárí, um proeminente mujtahid.

Agora, entretanto, todos abandonaram qualquer outra consideração, e estão empenhados em perseguir este povo. Assim, se for perguntado a certas pessoas que, pela graça de seu Senhor, repousam sob o abrigo da misericórdia do rei e desfrutam de incontáveis favores: "Que serviço prestastes como retribuição a esses favores reais? Acaso tendes, por meio de diplomacia sábia, anexado mais um território ao reino? Tendes vos ocupado com algo que assegure o bem estar do povo, a prosperidade do reino e glória duradoura do estado?" - nenhuma outra resposta terão, senão apontarem, justa ou falsamente, um grupo de pessoas, diante de tua presença real, como bábís, e em seguida se engajarem em massacre e pilhagem. Em Tabríz, por exemplo, e na cidade egípcia de Mansúríyyih, várias dessas pessoas foram libertadas em troca de dinheiro e grandes somas foram alcançadas, embora nenhum relato desses assuntos tivesse sido apresentado na corte de tua presença.

A razão pela qual todas essas coisas ocorreram, é que seus perseguidores, encontrando esses desafortunados sem proteção, deixaram de lado assuntos mais importantes e se ocuparam, por outro lado, em atormentar este povo aflito.

Inúmeros credos e diversas crenças vivem pacificamente sob a proteção de tua soberania. Permite que esse povo seja também contado entre eles. Não, aqueles que servem ao rei deveriam ser animados por propósitos tão elevados e intenções tão sublimes, e continuamente se esforçarem para trazer todas as religiões para o abrigo de seu amparo, e governá-las com justiça perfeita.

Fazer cumprir as leis de Deus nada mais é do que justiça, e é a fonte do contentamento universal. Não, ainda mais, os estatutos divinos sempre foram, e sempre serão a causa e o instrumento da preservação da humanidade, conforme testemunham Suas palavras excelsas: "Na punição encontrareis vida, ó homens de discernimento!"46

Mal convém, entretanto, à justiça de tua majestade que, pela transgressão de uma única alma, todo um grupo de pessoas seja sujeito ao castigo de tua ira. O Deus Uno e Verdadeiro - glorificado seja Seu Nome! - disse: "Ninguém arcará com a culpa alheia."47 É claro e evidente que, em toda comunidade, tem existido e sempre existirão os eruditos e os ignorantes, os sábios e os negligentes, os devassos e os devotos. É muito improvável que uma alma sábia e ponderada venha a cometer um ato abominável, uma vez que tal pessoa, ou busca este mundo ou já o abandonou: se for deste último tipo, seguramente a nada dará atenção exceto a Deus; além disso, o temor a Deus o impediria de cometer ações ilícitas e repreensíveis; e se for do primeiro tipo, ele, seguramente, evitaria tais atos que pudessem alienar e alarmar o povo, e agiria de tal maneira a conquistar sua confiança e probidade. É, portanto, evidente que, ações repreensíveis sempre emanaram, e sempre emanarão, das almas tolas e ignorantes. Imploramos a Deus que guarde Seus servos de se volverem para qualquer outro salvo Ele, e que os aproxime de Sua presença. Seu poder, em verdade, é igual a todas as coisas.

Louvor a Ti, ó Senhor Meu Deus! Ouves a voz de Minha lamentação, e vês Minha condição, Minha angústia e aflição! Tu és conhecedor de tudo que está em Mim. Se o clamor que levantei for totalmente por amor a Ti, inclina, então, os corações de Tuas criaturas para o céu de Teu conhecimento, e o coração do Soberano para a mão direita do trono de Teu nome, o Todo-Misericordioso. Provê-lhe então, ó Meu Deus, uma porção daquele sustento esplêndido que desceu do céu de Tua generosidade e das nuvens de Tua misericórdia, para que possa abandonar tudo o que lhe pertence, e volver-se para a corte de Teu favor. Ajuda-O, ó Meu Deus, a auxiliar Tua Causa e a exaltar Tua Palavra em meio às Tuas criaturas. Fortalece-O, então, com as hostes do visível e do invisível, para que possa conquistar toda cidade em Teu Nome, e manter o domínio, através de Tua soberania e poder, sobre todos os que habitam a terra, ó Tu, em cuja mão está o reino da criação! Tu, verdadeiramente, és o Supremo Ordenador, tanto no início como no fim. Nenhum Deus há além de Ti, o Mais Poderoso, o Todo-Glorioso, o Onissapiente.

Nossa Causa foi tão grosseiramente deturpada diante de tua presença real que, se um ato impróprio for cometido por uma única dessas pessoas, é apresentado como se fosse instigado por sua crença. Por Aquele além do Qual não há outro Deus! Este Servo recusou-Se a sancionar até mesmo o cometimento de atos repreensíveis, muito menos aqueles que foram explicitamente proibidos no Livro de Deus.

Deus proibiu aos homens a ingestão de vinho, e esta proibição foi revelada e registrada em Seu Livro. Apesar disso, e do fato de todos os doutos eruditos da época - que Deus amplie seu número! - terem proibido o povo de ato tão desprezível, ainda resta alguns que o cometem. A punição que tal ato acarreta, entretanto, aplica-se apenas aos perpetradores negligentes, enquanto aquelas nobres manifestações de santidade suprema permanecem exaltadas acima e isentas de toda culpa. Sim, toda a criação, tanto visível como invisível, dá testemunho de sua santidade.

Sim, esses servos consideram o Deus Uno e Verdadeiro como Aquele que "faz o que queira"48 e "ordena o que Lhe apraz"49. Assim eles não consideram impossível o contínuo aparecimento, no mundo contingente, dos Manifestantes de Sua Unidade. Se alguém asseverasse o contrário, como ele se diferenciaria daqueles que crêem que a mão de Deus está "atada"?50 E se o Deus Uno e Verdadeiro - glorificada seja Sua menção! - for verdadeiramente considerado como irrestrito, então, qualquer Causa que aprouver ao Rei Antigo manifestar do manancial de Seu Domínio deve ser abraçada por todos. Não há nenhum refúgio para quem quer que seja, e nenhum abrigo para fugir salvo Deus, nenhuma proteção há para qualquer alma e nenhuma defesa a ser buscada exceto nEle.

... Fora disto, a rejeição do povo, tanto erudito como ignorante, nunca foi, nem será jamais, de qualquer efeito. Os Profetas de Deus, aquelas Pérolas do oceano da Unidade Divina e os Repositórios da Revelação Divina, sempre foram objeto do repúdio e negação dos homens. Assim como Ele diz: "Cada nação tem tramado sinistramente contra seu Mensageiro, querendo prendê-lo com violência e disputar, com palavras vãs, a fim de invalidar a verdade."51 E novamente: "Não lhes vem Mensageiro algum, que não seja objeto de seu escárnio."52

Considera a Dispensação dAquele que é o Selo dos Profetas e o Rei dos Eleitos - que as almas de toda a humanidade sejam oferecidas em sacrifício por Ele! Logo após o alvorecer do Sol da Verdade do horizonte de Hijáz, como foram grandes as calúnias que os expoentes do erro infligiram sobre aquela incomparável Manifestação do Todo-Glorioso! Tal era a sua negligência, que consideravam cada injúria infligida Àquele Ser sagrado como sendo estimada entre os maiores de todos os atos, e constituindo um meio de alcançarem a Deus, o Altíssimo. Por esse motivo, nos primeiros anos de Sua missão, os sacerdotes daquela época, tanto cristãos como judeus, desviaram-se daquela Estrela d'Alva do céu da glória, em conseqüência do que todo o povo, ilustres e humildes igualmente, apressou-se em extinguir a luz daquele Luminar do horizonte dos significados interiores. Os nomes de todos esses sacerdotes foram mencionados nos livros do passado; entre eles estão Wahb Ibn-i-Ráhib, Ka'b Ibn-i-Ashraf, 'Abdu'lláh-i-Ubayy e outros semelhantes.

Finalmente, o caso chegou a tal ponto que esses homens se aconselharam entre si e conspiraram para derramar Seu sangue puro, assim como Deus - glorificada seja Sua menção! - diz: "E recorda-Te de quando os incrédulos conspiraram contra Ti, para aprisionar-Te, ou matar-Te, ou expulsar-Te; e assim conspiraram, e Deus conspirou, e Deus, verdadeiramente, é o melhor dos conspiradores."53 Novamente, diz Ele: "Mas se sua oposição Te for penosa - se puderes, busca uma abertura para dentro da terra, ou uma escada para o céu e traze-lhes um sinal; todavia, se Deus o desejasse, Ele poderia guiá-los à senda verdadeira; não sejas, pois, dos ignorantes."54 Por Deus! Os corações de Seus favorecidos são consumidos pelo significado desses dois versículos abençoados. Tais fatos estabelecidos e indiscutíveis foram esquecidos, e ninguém parou para refletir, nos dias passados ou nos atuais, sobre as coisas que levaram os homens a rejeitarem os Reveladores da luz de Deus, no tempo de sua manifestação.

Da mesma forma, antes do aparecimento do Selo dos Profetas, considera Jesus, o Filho de Maria. Quando aquele Manifestante do Todo-Misericordioso revelou-Se, todos os sacerdotes acusaram aquela Quinta-essência da Fé de cometer impiedade e rebelião. Finalmente, com a sanção de Anás, o mais erudito dos sacerdotes de Seu Dia, e Caifás,* o sumo sacerdote, fizeram com que Sua Pessoa Abençoada viesse a sofrer aquilo de que a pena se envergonha de mencionar e se acha impotente para descrever. O mundo inteiro, com toda a sua vastidão, já não podia contê-Lo, até que, enfim, Deus O alçou ao céu.

*Ver Bíblia: João 11:49-50; 18:13-28; Atos 4:6-10.

Se fôssemos dar aqui um relato detalhado sobre todos os Profetas, tememos que isso poderia levar ao enfado. ...

Oxalá Me permitisse, ó xá, enviar-te aquilo que poderia alegrar os olhos e tranqüilizar as almas e fazer toda pessoa justa acreditar que com Ele (Bahá'u'lláh) está o conhecimento do Livro. ... Se não fosse o repúdio dos insensatos e a conivência dos sacerdotes, Eu teria pronunciado um discurso que extasiaria os corações, transportando-os para um reino cujos ventos se fazem ouvir, murmurando: "Nenhum Deus há senão Ele!" No momento, entretanto, considerando que a época não é propícia, a língua de Minha elocução foi silenciada e o vinho da exposição selado, até o tempo em que Deus, através da potência de Seu poder, Se compraza em descerrá-lo. Ele, verdadeiramente, é o Grande, o Mais Poderoso.

Louvor a Ti, ó Senhor Meu Deus! Peço-Te por Teu Nome, através do qual subjugaste a todos os que estão nos céus e todos os que estão na terra, que protejas a lâmpada de Tua Causa dentro do globo de Tua onipotência e de Teu generoso favor, para que não seja exposta aos ventos da negação daqueles que permanecem descuidados dos mistérios de Teu Nome, o Irrestrito. Aumenta, pois, com o óleo de Tua sabedoria, o brilho de sua luz. Tu, verdadeiramente, tens poder sobre todos os habitantes de Tua terra e de Teu céu.

Imploro-Te, ó Meu Senhor, por aquela Palavra mais excelsa, que infligiu terror nos corações de todos os que estão nos céus e na terra, salvo somente aqueles que se seguraram firmemente a Tua Guia Certa, que não Me abandones em meio às Tuas criaturas. Alça-Me a Ti próprio, faze-Me entrar no abrigo de Tua mercê, e dá-Me de beber do vinho puro de Tua providência, para que Eu possa habitar no tabernáculo de Tua majestade e sob o pálio de Teu favor. Potente és Tu para fazer o que Te apraz. Tu, verdadeiramente, és o Amparo no Perigo, O que subsiste por Si próprio.

Ó rei! As lâmpadas da eqüidade foram apagadas, e o fogo da tirania de tal modo resplandeceu de todos os lados, que Meu povo foi conduzido cativo... Este não é o primeiro ultraje sofrido no caminho de Deus. Incumbe a toda alma ponderar e recordar aquilo que sobreveio à família do Profeta quando o povo a fez cativa e a trouxe a Damasco. Entre eles estava o Príncipe daqueles que adoram a Deus, o Esteio dos que se aproximaram dEle e o Santuário daqueles que anseiam por Sua presença - que a vida de todos os demais seja um sacrifício por ele!*

*'Alí Ibn Husayn, conhecido como "Zayn'ul-'Ábidín", o segundo dos filhos do Imame Husayn, que se tornou o quarto Imame.

Perguntaram a eles: "Sois da facção dos Dissidentes?"† Ele respondeu: "Não, pelo Senhor Todo-Poderoso. Somos apenas servos que acreditaram em Deus e em Seus versículos. Através de nós a face da fé veio a irradiar júbilo, Através de Nós resplandeceu o sinal do Todo-Misericordioso. Ao serem mencionados nossos nomes, o deserto de Bathᇠinundou-se e foi dispersa a escuridão que separa a terra e o céu."

†Os kharijites, uma facção oposta tanto aos imames quanto ao Estado de Umayyad.

‡Meca.

"Proibistes", perguntaram a eles, "aquilo que Deus legitimou, ou aprovastes aquilo que Ele proibiu?" "Fomos os primeiros a seguir os mandamentos divinos", ele respondeu. "Somos a raiz e a origem de Sua Causa, o início e o fim de todo o bem. Somos o sinal do Ancião dos Dias e a fonte de Sua comemoração entre as nações."

Perguntaram a eles: "Abandonastes o Alcorão?" "Em nossa Casa", foi sua resposta, "o Misericordioso o revelou. Somos as brisas do Todo-Glorioso em meio à Sua criação. Somos os rios que procederam do Mais Grandioso Oceano, através do qual Deus revivificou a terra, e por cujo intermédio Ele a revivificará novamente, após haver ela perecido. Por Nosso intermédio Seus sinais foram difundidos, Suas provas reveladas e Seus sinais manifestados. Conosco está o conhecimento de Seus significados ocultos e Seus mistérios não narrados."

"Por qual crime fostes punidos?" perguntaram a eles. "Por nosso amor a Deus", foi a resposta, "e por nosso desprendimento de tudo o mais, salvo dEle."

Não relatamos suas palavras exatas - que a paz esteja sobre ele! - mas, antes, comunicamos umas poucas gotas daquele Oceano de Vida Eterna que jaz entesourado dentro delas, para que aqueles que as ouvem sejam vivificados e tornados conscientes daquilo que sobreveio aos fiéis de Deus nas mãos de uma geração desobediente e perdida. Vemos o povo, neste dia, censurando os opressores de eras passadas, enquanto eles próprios cometem transgressões ainda maiores, e não o sabem!

Deus dá-Me testemunho de que Meu propósito não foi fomentar sedição, mas sim purificar Seus servos de tudo o que os impediu de se aproximarem dEle, o Senhor do Dia do Juízo. Eu estava adormecido em Meu leito, quando, eis, as brisas de Meu Senhor, o Todo-Misericordioso, fluíram sobre Mim, despertaram-Me de Meu sono e Me ordenaram que Eu erguesse Minha voz entre a terra e o céu. Isto não é de Mim, mas de Deus. Disto dão testemunho os habitantes de Seu Domínio e de Seu Reino, e os moradores das cidades de Sua glória imperecível. Por Aquele que é a Verdade! Não temo a tribulação em Sua vereda, nem a aflição em Meu amor por Ele e no caminho de Seu beneplácito. Verdadeiramente Deus fez a adversidade como o orvalho da manhã sobre Sua pastagem verdejante e como um pavio para Sua lâmpada que ilumina terra e céu.

Pode a prosperidade de um homem durar para sempre, ou protegê-lo dAquele que, dentro em breve, o apanhará pelos cabelos? Ao se olhar para aqueles que descansam sob as lápides dos túmulos, ocultadas pelo pó, poder-se-ia distinguir entre a caveira desintegrada de um soberano e os ossos decomponentes de um súdito? Não, por Aquele que é o Rei dos Reis! Poder-se-ia discernir o senhor do vassalo, ou aqueles que desfrutavam de prosperidade e riquezas daqueles que não possuíam nem sapatos nem capacho? Por Deus! Toda distinção foi obliterada, salvo apenas para aqueles que defendiam o que é correto e que governavam com justiça.

Para onde foram os eruditos, os sacerdotes, e os potentados de antigamente? O que sucedeu a suas visões penetrantes, suas percepções perspicazes, seus discernimentos sutis e sábios pronunciamentos? Onde estão seus tesouros ocultos, seus ornamentos pomposos, seus ricos leitos, seus tapetes e almofadas espalhadas? Para sempre se foi sua geração! Todos pereceram, e, pelo decreto de Deus, nada deles restou, exceto pó esparramado. Exaurida está a fortuna que juntaram, dispersos estão os bens que acumularam, dissipados os tesouros que ocultaram. Nada pode ser visto agora, salvo os locais que freqüentavam, agora desertos, suas habitações destelhadas, os troncos desenraizados de suas árvores, e seu esplendor desvanecido. Nenhum homem de discernimento permitirá que a prosperidade desvie seu olhar de seu objetivo final, e nenhum homem de compreensão permitirá que a riqueza o impeça de volver-se para Aquele que Tudo Possui, o Altíssimo.

Onde está o comandante da legião escura e aquele que levantava o estandarte dourado? Onde está o governante de Zawrá'*, e onde se encontra o tirano de Fayhá'?† Onde estão aqueles diante de cuja munificência as câmaras de tesouro da terra se encolhiam de vergonha, e diante de cuja generosidade e espírito elevado o próprio oceano se consternava? Onde está aquele que estendia seu braço em rebelião, e que voltava sua mão contra o Todo-Misericordioso?

*Bagdá.
†Alusões às dinastias 'Azbbásid e Umayyad.

Onde estão aqueles que foram em busca dos prazeres terrenos e dos frutos dos desejos carnais? Para onde fugiram suas formosas e graciosas mulheres? Onde estão seus ramos envergados, seus galhos estendidos, suas mansões imponentes, seus jardins gradeados? E o que foi feito dos deleites desses jardins - sua terra primorosa e brisas suaves, seus riachos murmurantes, seus ventos sussurrantes, o arrulhar de seus pombos e o farfalhar de suas folhas? Onde estão agora suas manhãs esplendorosas e suas faces radiantes adornadas de sorrisos? Ai deles! Todos pereceram e foram repousar sob um abrigo de pó. Deles não se ouve nem nome, nem menção; ninguém sabe de seus assuntos, e nenhum sinal seu resta.

...Questionará o povo, então, aquilo que ele próprio dá testemunho? Negarão aquilo que eles sabem ser a verdade? Não sei em que ermo perambulam! Não vêem que embarcaram numa viagem da qual não há retorno? Por quanto tempo vagarão eles da montanha ao vale, da baixada à colina? "Não veio o tempo para aqueles que crêem em submeter seus corações enquanto fazem menção de Deus?"55 Abençoado é aquele que disse, ou que dirá agora, "Sim, veio o tempo e soou a hora!", e aquele que, depois disso, desprender-se de tudo o que tem sido, e entregar-se inteiramente Àquele que é o Possuidor do universo e o Senhor de toda a criação.

...Pois, nada se colhe, salvo aquilo que se planta, e nada se ceifa, salvo o que semeia,56 a não ser por intervenção da graça e favor do Senhor. Já terá concebido o ventre do mundo alguém a quem os véus da glória não o impeça de ascender ao Reino de seu Senhor, o Todo-Glorioso, o Altíssimo? Ainda mais, estará ao Nosso alcance realizar tais atos que dissipam Nossas aflições e Nos aproximam dAquele que é o Causador das causas? Imploramos a Deus que nos trate de acordo com Sua generosidade, e não com Sua justiça, e que nos permita sermos daqueles que volveram suas faces ao seu Senhor e se desprenderam de tudo o mais.

Tenho visto, ó xá, no caminho de Deus, o que olhos jamais viram nem ouvidos ouviram. Meus conhecidos Me repudiaram e Meus caminhos se estreitaram. A fonte do bem-estar secou-se e as folhas do caramanchão da tranqüilidade murcharam. Quão numerosas as tribulações que choveram, e que em breve choverão sobre Mim. Sigo adiante, com a face volvida para Aquele que é o Onipotente, o Todo-Generoso, enquanto atrás de Mim desliza a serpente. Meus olhos têm derramado lágrimas até ensopar Meu leito.

Minha tristeza não é por Minha própria causa, entretanto. Por Deus! Nunca passei por uma árvore sem que Meu coração não lhe tivesse dirigido estas palavras: "Oxalá fosses cortada em Meu nome, e Meu corpo sobre ti crucificado, na vereda de Meu senhor!", pois vejo o povo vagando desatento e inconsciente em seu estupor embriagado. Elevaram às alturas suas paixões e diminuíram seu Deus. Parece-Me que tomaram Sua Causa por zombaria e a consideram uma brincadeira e um passatempo, acreditando o tempo todo que agem bem, e que habitam com segurança na cidadela da proteção. Não obstante, o assunto não é como eles insensatamente imaginam: amanhã verão aquilo que hoje estão habituados a negar!

Dentro em breve, os expoentes da riqueza e do poder Nos banirão da terra de Adrianópolis para a cidade de 'Akká. De acordo com o que se diz, é a mais desoladora cidade de todo o mundo, a de mais feio aspecto, mais detestável por ser a metrópole das corujas, dentro de cujos arredores nada se pode ouvir, salvo o eco de seu lamento. Lá resolveram aprisionar este Servo, para que se fechem, diante de Nossas Faces, as portas da tranqüilidade e do conforto, e para nos privarem de cada benefício deste mundo, ao longo do restante de nossos dias.

Por Deus! Embora a fadiga Me abata e a fome Me consuma, a rocha dura seja Meu leito e as feras do deserto Minhas companheiras, não Me queixarei, mas, sim, sofrerei pacientemente, como sofreram aqueles dotados de constância e firmeza, através do poder de Deus, o Rei Eterno e Criador das nações, e agradecerei a Deus sob todas as condições. Pedimos que, por Sua bondade - exaltado seja Ele - através deste encarceramento, Ele livre das cadeias e correntes os pescoços dos homens e os leve a volverem-se, com face sincera, para a Face dAquele que é o Potente, o Generoso. Prontamente, Ele responde a quem O invoca, e próximo está de quem com Ele comunga. Imploramos, ademais, que Ele faça desta tribulação sombria uma proteção para o Templo de Sua Causa, e a proteja do ataque das espadas afiadas e das adagas pontiagudas. A adversidade tem sempre dado origem à exaltação de Sua Causa e à glorificação de Seu Nome. Tal tem sido o método de Deus levado a cabo nos séculos e eras passadas. Em breve, aquilo que agora o povo não consegue compreender, descobrirá no dia em que seus corcéis tropeçarem, seus adornos forem descartados, suas espadas enterradas e seus pés obrigados a recuar.

Não sei por quanto tempo esporearão o cavalo de batalha do ego e da paixão e vagarão no ermo do erro e da negligência! Durará a pompa dos poderosos, ou a miséria dos humildes? Subsistirá para sempre aquele que repousa no mais elevado assento de honra, que alcançou o pináculo do poder e da glória? Não, por Meu Senhor, o Todo-Misericordioso! Tudo na terra passará, e somente a face de Meu Senhor permanecerá, o Todo-Glorioso, o Mais Generoso.57

Que armadura não foi trespassada pela flecha da destruição, e que fronte real não foi despojada pela mão do Destino? Que fortaleza resistiu à aproximação do Mensageiro da Morte? Que trono não foi despedaçado, que palácio não reduzido a entulho? Se o povo pudesse ao menos provar daquele Vinho seleto da misericórdia de seu Senhor, o Todo-Poderoso, o Onissapiente, que jaz entesourado para ele no mundo do além, seguramente cessaria sua censura e buscaria apenas alcançar o beneplácito deste Servo. Por hora, entretanto, ocultaram-Me atrás de um véu de escuridão, cujo tecido trançaram com as mãos da vã fantasia e imaginações fúteis. Dentro em breve, a mão nívea de Deus rasgará uma abertura em meio à escuridão desta noite e destrancará um poderoso portal para Sua Cidade. Naquele dia o povo nela entrará em tropas, proferindo aquilo que os censuradores outrora exclamaram,58 que se tornará manifesto no fim, aquilo que surgiu no princípio.

É seu desejo tardar-se aqui, quando já têm um pé no estribo? Consideram voltar, quando já partiram? Não, por Aquele que é o Senhor dos Senhores! Exceto no Dia do Juízo, o Dia em que as pessoas se levantarão de seus túmulos e serão questionadas por seus atos. Bem aventurado é aquele que não será encontrado em falta naquele Dia, o Dia no qual as montanhas passarão e todos se reunirão para prestar contas na presença de Deus, o Excelso. Severo, em verdade, é Ele quando pune!

Imploramos a Deus que purifique os corações de certos sacerdotes do rancor e da inimizade, para que venham a olhar os assuntos com olhos que não estejam nublados pelo desdém. Que Ele os eleve à uma posição tão alta, que nem o fascínio do mundo, nem a sedução da autoridade possam desviar-lhes o olhar do Horizonte Supremo, e que nem os benefícios mundanos, nem os desejos carnais os impeçam de atingir aquele Dia em que as montanhas serão reduzidas a pó. Embora, presentemente, se regozijem com a adversidade que Nos sobreveio, em breve virá um dia em que se lamentarão e prantearão. Por Meu Senhor! Se fosse Me dada a escolha entre, por um lado, a prosperidade e a opulência, a tranqüilidade e o conforto, a honra e a glória de que desfrutam, e, por outro, as adversidades e tribulações que são Minhas, Eu, sem hesitar escolheria Minha condição atual e Me recusaria a trocar um único átomo desses sofrimentos por tudo o que foi criado no mundo do ser.

Não fosse pelas tribulações que Me atingiram no caminho de Deus, a vida nenhuma doçura teria Me proporcionado e Minha existência não Me seria de nenhum benefício. Para aqueles dotados de discernimento, cujos olhos estão fixados na Sublime Visão, não é segredo algum que tenho sido, na maior parte dos dias de Minha vida, assim como um escravo, sentado sob uma espada suspensa por um fio, sem saber se ela cairá mais cedo ou mais tarde sobre ele. E ainda mais, não obstante tudo isso, damos graças a Deus, o Senhor dos mundos, e rendemos louvores a Ele, em todos os tempos e sob todas as condições. Ele, verdadeiramente, é testemunha de todas as coisas.

Imploramos a Deus que estenda amplamente sua sombra,* para que os verdadeiros crentes possam se apressar a ela e que Seus amantes sinceros venham a buscar proteção nela. Que Ele conceda aos homens flores do caramanchão de Sua graça e estrelas do horizonte de Sua providência. Oramos a Deus, além disso, que por Sua graça auxilie o rei a cumprir Sua vontade e prazer, e a confirmá-lo naquilo que o fará aproximar-se do Alvorecer dos mais excelentes nomes de Deus, para que não tolere a injustiça que testemunhar, possa ver seus súditos com os olhos da misericórdia, e os proteja da opressão. ...

*Referência ao xá da Pérsia.

E, finalmente, imploramos a Deus, exaltada seja Sua glória, que te capacite a auxiliar Sua Fé e volver-te para Sua justiça, para que venhas a julgar entre o povo assim como julgas entre tua própria família, e possas escolher para eles aquilo que escolhes para ti próprio. Ele, verdadeiramente, é o Todo-Poderoso, o Excelso, o Amparo no Perigo, O que subsiste por Si próprio.

Agora, uma vez que uma ocasião apropriada tem chegado, foi considerada apropriada que alguns dos preceitos de Bahá'u'lláh que são contidos em tratados e epístolas sejam, também, inseridos brevemente nesta obra, de modo que os principais princípios e práticas e (as suas) fundações e base podem se tornar claros e aparentes. E estes textos foram copiados de numerosos tratados.

"Convivei com os seguidores de todas as religiões em espírito amistoso e fraternal. Assim o sol de Sua sanção e autoridade resplandeceu acima do horizonte do decreto de Deus, Senhor dos mundos."59

"Nós vos temos proibido a dissensão e o conflito em Meus Livros, Minhas Escrituras, Meus Pergaminhos e Minhas Epístolas, nada desejando com isso, senão vossa elevação e vosso progresso. Disso dão testemunho os céus e suas estrelas, o sol e seu brilho, e as árvores e as folhas que nelas crescem, e os mares e suas ondas, e a terra e os tesouros que nela jazem. Pedimos a Deus que ajude a Seus bem-amados, os auxilie naquilo que com eles seja condigno neste estado bendito, poderoso e admirável. Ainda mais, Lhe suplicamos que benevolamente capacite àqueles que Me rodeiam a observarem o que Minha Pena de Glória lhes prescreveu."60

A mais formosa árvore do conhecimento são estas sublimes palavras: "Sois os frutos de uma só árvore e as folhas do mesmo ramo."61 "Que não se vanglorie quem ama seu próprio país, mas sim, quem ama o mundo inteiro."62

"Quem cria o seu próprio filho, ou o filho de outrem, é como se criasse um filho Meu; sobre ele repousem Minha glória, Minha ternura e Minha mercê, que envolveram o mundo inteiro."63

"Ó povo de Bahá! Sois os pontos de alvorecer do amor de Deus e as auroras de Sua benevolência. Não poluais vossas línguas com a maldição ou o rebaixamento de qualquer alma, e guardai vossos olhos contra aquilo que não seja digno. Apresentai aquilo que possuís. Se for recebido favoravelmente, vosso objetivo será alcançado; se não, é inútil protestar. Deixai aquela alma a si própria e volvei-vos ao Senhor, o Amparo, O que subsiste por Si Próprio. Não sejais causa de tristeza - muito menos de discórdia e contenda. Alimenta-te da esperança de que possais obter a verdadeira educação à sombra da árvore de Sua terna misericórdia e agir de acordo com aquilo que Deus deseja. Vós todos sois as folhas de uma só árvore e as gotas de um só oceano."64

"O propósito fundamental que anima a Fé de Deus e Sua Religião consiste em salvaguardar os interesses e promover a unidade do gênero humano, e nutrir entre os homens o espírito de amor e amizade. Não permitimos que se torne fonte de dissensão e discórdia, de ódio e inimizade.65 A melhor forma e o principal instrumento para (produzir) o aparecimento e a irradiação do luminar da concórdia é a religião de Deus e a Lei do Senhor; enquanto que o crescimento do mundo, a educação das nações e a paz e o bem-estar daqueles que habitam todas as terras ocorrem através dos mandamentos divinos e seus decretos. Este é o meio principal para obter esta dádiva mais preciosa; ela provê o cálice da vida, concede vida eterna e confere felicidade para sempre. Os líderes da Terra, especialmente os exemplares da justiça divina, devem envidar todos os esforços para manter-se neste estado, elevá-lo e preservá-lo. Desta forma aquilo que é necessário é buscar conhecer a condição do povo, e saber dos feitos e das circunstâncias de cada uma das diferentes classes. Desejamos dos que são exemplares do poder de Deus, particularmente os reis e líderes em geral, que se esforcem para que a discórdia possa ser banida de seu meio (deles), e os horizontes possam ser iluminados com a luz da concórdia. Todos devem firmar-se naquilo que flui da Pena do Recordador, e praticá-lo. Deus testemunha e (todos) os átomos de vida confirmam que temos mencionado aquilo que será a causa de exaltação, elevação, educação, preservação e reforma dos habitantes da Terra. Desejamos de Deus que Ele fortaleça (Seus) servos. Que este Ser Oprimido busca de todos justiça e retidão; que não se satisfaçam em ouvir, mas que ponderem sobre aquilo que se tornou manifesto deste Ser Oprimido. Juro pelo Sol da Revelação que tem brilhado do horizonte do céu do Reino do Misericordioso, se algum (outro) expositor ou orador foi visto fazendo tal chamamento, Eu faria de Mim mesmo um objeto de malevolência e de calúnias da humanidade."66

Procurei dispor à qualquer pessoa, através destas frases, um indício dos princípios, idéias, linha de conduta, comportamento e intenções desta Fé; enquanto que, se buscarmos nos inteirar da verdade deste assunto através dos relatos e estórias que estejam nas bocas dos homens, a verdade será completamente ocultada e escondida por motivo de suas múltiplas diferenças e contrariedade. É, então, melhor descobrir os princípios e objetivos desta Fé a partir do conteúdo dos seus ensinamentos, tratados e epístolas. Não há nenhuma autoridade nem quaisquer provas ou textos superiores a estes, pois este é o fundamento dos fundamentos e o critério insuperável. Não é possível alguém julgar a regra geral através do discurso ou da ação de indivíduos, pois a diversidade de estados é uma das peculiaridades e concomitâncias da raça humana.

Em todo o caso, no começo do ano 1285 (d.h.)* transferiram Bahá'u'lláh e todas as pessoas que com Ele estavam, de Adrianópolis para a prisão de 'Akká, e Mírzá Yahyá para a fortaleza de Famagusta, e ali eles permaneceram. Mas na Pérsia, após um tempo, várias pessoas que eram dotadas de discernimento, notáveis por suas políticas sabias e atentas e cônscias da verdade dos eventos prévios e posteriores, fizeram uma representação diante da presença de sua majestade, o rei, dizendo:

*1868.

"O que foi, até agora, reportado, relatado, asseverado e alegado concernente à esta Fé na presença real ou foi uma exageração ou, então, (os locutores) fabricaram declarações com a finalidade de (seus) propósitos individuais e a obtenção de vantagens pessoais.

Fosse sua majestade investigar o assunto por sua própria nobre pessoa, acreditar-se-ia de que se tornará claro diante da sua presença que esta Fé não tem nenhum objetivo mundano nem concernência com questões políticas. O fulcro de seu movimento e o pivô da sua disposição e conduta são restringidos às coisas espirituais e confinado às questões de consciência; não há nada a ver com os afazeres do governo nem quaisquer relações com os poderes do trono. Seus princípios são a retirada dos véus, a verificação dos sinais, a educação das almas, a reformação dos caracteres, a purificação dos corações e a iluminação com os vislumbre de alumiação. Aquilo que condisseres à dignidade real e convieres ao diadema de consagração mundial é esta: que todos os súditos de todas as classes e credos deverão ser os objetos de abundância, e (deverão permanecer) na maior tranqüilidade e prosperidade abaixo da sombra larga da justiça do rei. Pois a sombra divina é o refúgio de todos os habitantes da Terra e o abrigo de toda a humanidade - não é limitado a um partido.

Em particular, a verdadeira natureza e a real doutrina desta Fé tem (agora) se tornado evidentes e bem conhecidas. Todos os seus escritos e tratados tem repetidamente e freqüentemente caído nas (nossas) mãos, e podem ser achados preservados na posse do governo. Se fossem examinados, a verdade vigente e a veracidade interna ficariam claras e aparentes. Estas páginas estão inteiramente tomadas com proibições de sedição, (recomendações de) conduta honesta entre a humanidade, obediência, submissão, lealdade, conformidade, aquisição de qualidades louváveis e encorajamento para se tornar dotado de realizações e características dignas de elogios. Eles não têm, em absoluto, nenhuma referência às questões políticas nem tratam daquilo que poderia causar distúrbios ou sedição.

Nestas circunstâncias, para um governo justo, não pode haver (se achar) nenhuma desculpa, nem nenhum pretexto (para a continuação da perseguição desta Fé) exceto (uma reivindicação para o direito de) interferência do pensamento e consciência, que são as posses privadas do coração e da alma. E, quanto a este assunto, (já) muito têm sido a interferência e incontáveis os esforços. Quanto sangue têm sido derramado! Quantas cabeças têm sido penduradas! Milhares de pessoas têm sido mortas; milhares de mulheres e crianças tornadas andarilhas ou cativas; muitos são os prédios que foram arruinados; e quantos nobres e famílias se tornaram sem cabeças e sem lares! Contudo nada tem sido efetuado e nenhuma vantagem tem sido ganha. Nenhum remédio tem sido descoberto para esta enfermidade, nem qualquer bálsamo para este ferimento.

(Para assegurar) Liberdade de consciência e tranqüilidade do coração e da alma é um dos deveres e funções de um governo, e verdadeiramente em todas as épocas, é a causa de desenvolvimento e progresso sobre outras terras. Outros países civilizados não adquiriram esta preeminência, nem atingiram estes altos graus de influência e poder, até que chegou o tempo em que eliminaram do seu meio, a contenda de seitas e trataram todas as classes de acordo com um único padrão. Todos são um único povo, uma nação, uma espécie, um gênero. O interesse comum é igualdade completa. A justiça e a igualdade entre os seres humanos são, entre os promotores principais de autoridade, o meio principal da extensão da orla da conquista. De qualquer parte ocupada por eles na Terra, de onde aparecerem sinais da contenda, punição imediata é requerida de um governo justo, enquanto qualquer pessoa que cinja os lombos de empenho e conduza a meta da prioridade é digna dos favores reais e merecedora de esplêndidas dádivas.

Os tempos mudaram, e as necessidades e os costumes do mundo têm mudado. Interferência com a crença e a fé em todos os países causa detrimento manifesto, enquanto a justiça e a conduta igual para com todos os povos na face da Terra, são os meios pelo qual o progresso é efetuado. É direito exercer a cautela e o cuidado em respeito às facções políticas e ficar receoso e apreensivo de seitas materialistas, pois os assuntos que ocupam os pensamentos dos primeiros são (esquemas de) a interferência nas questões políticas e (o desejo de) a ostentação, enquanto as ações e a conduta dos últimos são subversivas à segurança e à tranqüilidade. Mas as pessoas desta Fé são imutáveis no seu próprio caminho e firmemente estabelecidas em conduta e fé; são piedosas, devotadas, tenazes e consistentes, de tal maneira que livremente sacrificam suas vidas, e, de sua própria maneira, procuram a agradar a Deus; são pessoas vigorosas no esforço e determinadas em empenho; são a essência da obediência e muitíssimo pacientes na privação e dificuldade; elas sacrificam sua existência e não reclamam nem lamentam; o que elas exprimem é, na verdade, o anseio oculto do coração, e o que elas buscam e perseguem é seguir o Guia. É, então, necessário considerar seus princípios e seu Líder, e não fazer de uma coisa trivial um pretexto. Agora, uma vez que a conduta do Líder, os ensinamentos das Suas Epístolas e o teor dos Seus Escritos estão aparentes e bem conhecidos, a linha de ação desta Fé está clara e tão óbvia quanto o sol.

O que quer que fosse possível e praticável como meio de desencorajamento, impedimento, erradicação, intimidação, repreensão, matança, banimento e chicotadas não faltou, mas mesmo assim nada disso surtiu efeito. Em outros países quando perceberam que a severidade e a perseguição teria o mesmo efeito que estímulo e incitação, e que ignorá-las seria mais efetivo, minoraram o fogo da revolução.

Deste modo, foram universalmente proclamados os direitos iguais de todas as denominações e fizeram soar a liberdade de todas as classes do oriente ao ocidente. Este clamor e protesto, este alvoroço e conflagração, são as conseqüências da instigação, tentação, incitamento e provocação. Por trinta anos não houve nenhum rumor de distúrbios ou rebeliões, nem qualquer sinal de sedição. Não obstante a duplicação do número dos que a aderiram a esta Fé e o aumento e a multiplicação deste corpo, através de muitas admoestações e encorajamentos à virtude desta Fé, todos permaneceram com o máximo de calma e estabilidade, pois eles têm feito da obediência o seu traço distintivo, e em submissão e subordinação extrema se tornaram os súditos leais do rei. Sob quais fundamentos pode o governo molestá-los mais, ou permiti-los a serem menosprezados? Além disso, a interferência na consciência e crença de povos e a perseguição de diversas denominações de seres humanos são um obstáculo à expansão do reinado, um impedimento à conquista de outros países, uma obstrução à multiplicação dos súditos e que contraria os princípios estabelecidos da monarquia.

Na época em que o poderoso governo da Pérsia não interferia nas consciências (dos homens), diversas seitas entraram e se sustentaram sob o estandarte do grande rei e (muitos) povos diferentes repousaram e serviram sob a sombra da proteção daquele governo poderoso. A extensão do império aumentava dia após dia; a maior parte do continente da Ásia estava sujeito ao mando de sua administração, e a maioria das diferentes religiões e raças estava (representada) entre os súditos daquele que vestia sua coroa. Mas quando o costume de interferência nas crenças de todas as seitas nasceu, e o princípio de indagação dos pensamentos dos homens tornou-se a moda e a prática, os domínios extensos do império persa diminuíram e muitas províncias e vastos territórios passaram para fora de suas mãos, e chegou a tal ponto em que as grandes províncias de Túrán, Assíria e Chaldea foram perdidas; até - qual a necessidade da prolixidade? - a maior parte das regiões de Khurásán, do mesmo modo, saiu fora do controle do governo da Pérsia em razão da interferência nos assuntos da consciência e o fanatismo dos seus governadores. Pois, a independência Afghan e a revolta das tribos turcomanas não teriam ocorrido se não fossem estas interferências, não estando em nenhum tempo ou período separadas da Pérsia.

Em face de sua não evidente nocividade, qual necessidade de perseguição aos inofensivos? Mas, se desejamos colocar em vigor a sentença (dos doutos da religião) ninguém escapará aos grilhões e às correntes e à agudeza da espada, pois na Pérsia, à parte desta Fé, existem diversas seitas, tais como as mutásharrís, as shaykhís, as súfís, as nusayris e outras, cada qual considera a outra como sendo infiel e acusam-se mutualmente de crimes. Nestas circunstâncias qual é a necessidade para o governo em perseguir esta ou aquela, ou incomodar-se com as idéias e as consciências dos seus súditos e povo? Todos são os súditos do rei e estão sob a sombra da proteção real. Qualquer um que ouve e obedece, deveria permanecer sem ser incomodado e molestado, enquanto qualquer um que seja rebelde e desobediente, merece a punição das mãos de sua majestade, o rei. Acima de tudo, os tempos são completamente diferentes, e os princípios e as instituições têm sofrido alteração. Em todos os países, tais ações estorvam o desenvolvimento e o progresso, e causam o declínio e a deterioração.

Da agitação violenta que tem sucedido aos esteios do governo oriental, a causa essencial e o fator principal são, em verdade, estas leis e os hábitos de interferência; enquanto aquele Estado localizado nas regiões remotas do Norte e com domínio sobre o Atlântico e o Báltico, procede eqüitativamente estabelecendo direitos políticos de diversas nacionalidades uniformemente, adquirindo colônias extensas em cada um dos cinco continentes do mundo.* Onde está esta pequena ilha no Atlântico Norte e onde está o território vasto das Índias Orientais? Pode tal extensão ser obtida salvo através de justiça igual para todos os povos e classes? Em todo caso, por intermédio das leis justas, da liberdade de consciência, dos procedimentos uniformes e da equidade para com todas as nacionalidades e povos, eles têm efetivamente dominado quase todo o quadrante habitado do mundo, e por razão destes princípios de liberdade, têm adicionado, dia após dia, a força, o poder e a extensão de seu império, e durante todo este tempo a maioria dos povos na face da Terra celebra o nome deste Estado por causa de sua justiça. Com respeito ao zelo religioso e à piedade verdadeira, a sua pedra de toque e prova são a firmeza e a constância em virtudes, perfeições e qualidades nobres que são as maiores bênçãos da raça humana, mas não a interferência nas crenças deste ou daquele, a demolição de edifícios e a incisão da raça humana.

*Inglaterra.

Na idade média, que teve início com a queda do Império Romano e findou-se após a captura de Constantinopla pelas mãos (dos seguidores) do Islã, intolerância feroz e perseguição, tanto de longe como de perto, apareceram em (todos os) países da Europa por razão da influência soberana dos líderes religiosos. O assunto chegou a tal ponto que o edifício da humanidade cambaleou para sua queda, e a paz e o conforto do chefe e do vassalo, o rei e o súdito, ficaram escondidos atrás do véu da aniquilação. Dia e noite, todas as facções eram escravas da apreensão e da inquietude. A civilização estava absolutamente destruída; o controle e a ordem dos países estavam negligenciados; os princípios e a essência da felicidade da raça humana estavam suspensos; os esteios da autoridade real estavam abalados, mas a influência e o poder dos chefes da religião e dos monges estavam em todas as partes completas. Quando removeram estas diferenças, perseguições e intolerâncias do seu meio, e proclamaram os direitos iguais de todos os súditos e a liberdade da consciência dos homens, as luzes da glória e do poder se ergueram e luziram dos horizontes daquele reinado, de tal maneira que aqueles países progrediram em todas as direções, e o monarca mais poderoso da Europa que havia sido servil e humilhado pelo menor governo da Ásia, viu os grandes Estados da Ásia incapazes de oporem-se aos pequenos Estados da Europa.

Estas são provas efetivas e suficientes de que a consciência do homem é sagrada e deve ser respeitada, e que a liberdade desta produza a ampliação de idéias, o melhoramento da moral, o aperfeiçoamento da conduta, a revelação dos segredos da criação e a manifestação das verdades ocultas do mundo contingente. Mais ainda, se a interrogação da consciência que é uma das posses privadas do coração e da alma, se realizar neste mundo, que outra recompensa permaneceria para os homens na corte da justiça divina no dia da ressurreição geral? As convicções e idéias estão dentro do escopo da compreensão do Rei dos reis, e não dos reis, pois a alma e a consciência estão entre as mãos do controle do Senhor dos corações, e não dos (Seus) servos, e no mundo da existência não podem ser encontradas duas pessoas unânimes em todos os graus (de pensamento) e em todas as crenças. 'Os caminhos até Deus são tão numerosos quanto os sopros das (Suas) criaturas', é uma verdade misteriosa, e 'A cada povo temos instituído ritos (separados)'67, é uma das sutilezas do Alcorão. Se esta vasta energia e tempo precioso que foram despendidos na perseguição de outras religiões, e por intermédio do qual nenhum tipo de resultado ou efeito foi obtido, tivesse sido gasto no fortalecimento da base da monarquia, fortificando o trono imperial, fazendo prosperar os domínios do soberano e revivificando os súditos do rei, até agora os domínios reais teriam ficado prósperos, o viveiro do povo teria sido regado pela generosidade da justiça principesca e o esplendor do reinado da Pérsia seria evidente e aparente como a verdadeira alvorada através dos horizontes do mundo."

Em todo o caso, estas questões e considerações têm sido reportado por certas pessoas. Mas, deixe-nos retornarmos ao nosso assunto original. A personagem real estava contente em ele próprio investigar esta obscura Fé. De acordo com um relato transmitido, ficou claro e óbvio para a presença (real) que a maioria destas suspeitas surgiram das intrigas de pessoas de influência que estavam continuamente empenhadas na fabricação de assuntos por trás do véu da fantasia e na imputação de suspeitas sobre a comunidade e que, para obter vantagens para si próprias e para preservar suas próprias posições, estavam acostumadas a fazer partículas parecerem como se fossem globos e palhas como montanhas no espelho de suas imaginações. Para estas suspeitas não havia, em absoluto, nenhuma fundação ou base, nem havia nestas afirmações quaisquer provas ou verossimilhanças. Qual poder e habilidade têm este desamparado povo, ou qual audácia e força têm estes pobres súditos para que eles pudessem infligir injúria ou detrimento na força soberana, ou serem capazes de se opor às forças militares do trono?

Daquela época até agora, a desordem e a sedição vêm diminuindo na Pérsia, e o clamor e a contenda têm cessado; embora (ainda) em ocasiões raras, certos doutos oficiais, visando vantagem pessoal e particular, têm incitado o povo comum, levantado um clamor e brado, e, por sua importunidade e pertinácia, molestado um ou dois indivíduos desta Fé, conforme aconteceu há dez ou doze anos em Isfahán. Pois, havia entre os habitantes de Isfahán dois irmãos siyyids de Tabátabá, Siyyid Hasan e Siyyid Husayn, celebrados naquela região por sua piedade, fidelidade e nobreza; homens de posses, engajados no comércio, tratando todos os homens com perfeita benevolência e cortesia. E, até onde era aparente, ninguém havia observado nestes dois irmãos qualquer desvio daquilo que fosse, ou melhor, muito menos qualquer conduta ou comportamento que pudesse merecer tormenta ou punição. Pois, conforme é relatado, eles estavam admitidos por todos (os proeminentes) em todas as louváveis e salutares qualidades, enquanto os seus feitos e ações eram como exortações e admoestações. Eles haviam realizado negócios com Mír Muhammad Husayn, o Imám-Jum'ih de Isfahán, e quando vieram para acertar suas contas tornou-se aparente que a soma de dezoito mil tumáns era devida a eles. Eles (então) interromperam as (novas) transações, prepararam uma carta de fiança para esta soma, e desejaram que esta fosse selada.

Este fato foi tão penoso para o Imám-Jum'ih, que ele chegou ao estágio de raiva e inimizade. Encontrando-se endividado e não tendo nenhum recurso a não ser pagar, ele levantou clamor e brado, dizendo:

-- Estes dois irmãos são bábís e merecem uma punição do rei.

Uma turba imediatamente atacou a casa deles, saqueou e pilhou seus bens, afligiu e aterrorizou suas esposas e crianças, e este Imám apoderou-se de todas as posses deles. Então, com medo de que estes dois irmãos fossem encaminhar a punição ao degrau do trono do rei e soltar suas línguas na reclamação de reparação, ele (o Imám-Jum'ih) começou a pensar como maquinar suas mortes e os destruir. Ele, então, persuadiu certos eruditos a cooperarem com ele, e estes pronunciaram as sentenças de morte. Subseqüentemente, prenderam aqueles dois irmãos, os colocaram em correntes e os trouxeram perante uma assembléia pública.

Mas, ao buscar uma maneira de afixar neles alguma acusação, descobrir alguma falta ou algum pretexto, eles foram incapazes de o fazer. Após um tempo falaram:

-- Ou vocês renunciam esta Fé ou deitam suas cabeças debaixo da espada da punição.

Alguns dos presentes urgiram:

-- Digam meramente: "Nós não somos desta seita." Isto será suficiente e será o meio de sua libertação e proteção.

Eles de maneira alguma consentiram, mas pelo contrário, confirmaram a sua Fé e declararam um discurso eloqüente e comovente, de modo que a ira e a violência do Imám-Jum'ih entrou em ebulição, e, não satisfeito em matá-los e destruí-los, infligiu várias indignidades em seus corpos até mesmo após suas mortes, a menção das quais não é apropriada e seus detalhes estão além do poder da palavra.

De fato, de tal maneira foi o sangue destes dois irmãos derramado que até mesmo o padre cristão de Julfá clamou, lamentou e chorou naquele dia. Este evento sucedeu-se de tal modo que todos choraram sobre o destino daqueles dois irmãos, pois durante o período inteiro de suas vidas, eles nunca haviam causado aflição nos sentimentos nem mesmo de uma formiga, enquanto, pelo relato geral, eles, na época da crise de fome na Pérsia haviam gastado toda sua riqueza no alívio dos pobres e dos aflitos. Porém, apesar desta reputação, foram cruelmente assassinados diante do povo.

Todavia, já há algum tempo, enquanto a justiça do rei tem impedido e retido, ninguém atreve-se tentar tais penosas perseguições.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
PREFÁCIO
1 Documento Bahá'u'lláh, 1ª edição, 1991, p. 58.

2 A Traveller's Narrative; vol. I; edição de Edward Granville Browne; 1891, pp. xxxv-xxxvi.

3 Eunice Braun. A Reader's Guide. George Ronald Publishers, 1986, p. 14.

O EPISÓDIO DO BÁB
1 Alcorão 12.

2 Seleção dos Escritos do Báb, Rio de Janeiro, Editora Bahá'í do Brasil, 1978, p. 65.

3 Alcorão 108.
4 Alcorão 103.
5Sem referência bibliográfica.
6 Ibid.
7 Ibid.
8 O Mathnaví.
9 Ibid.
10 Alcorão 7:154.
11 Alcorão 37:173.
12 Sem referência bibliográfica.
13 Alcorão 95:4.
14 Alcorão 23:14.
15 Alcorão 27:90.
16 Sem referência bibliográfica.

17 Os Rompedores da Alvorada (Rio de Janeiro, RJ.: Editora Bahá'í do Brasil, 1990),Volume I, p. 67, nota 28.

18 Sem referência bibliográfica.
19 Ibid.
20 Ibid.
21 Ibid.
22 Ibid.

23 Seleção dos Escritos de Bahá'u'lláh, seção CXXXII.

24 Sem referência bibliográfica.
25 Ibid.
26 Ibid.
27 Ibid.
28 Ibid.
29 Ibid.
30 Ibid.
31 Ibid.
32 Ibid.
33 Alcorão 55:3-4.
34 Sem referência bibliográfica.
35 Ibid.
36 Ibid.
37 Ibid.
38 Ibid.

39 Bahá'u'lláh, Epístola ao Filho do Lobo (Rio de Janeiro: Editora Bahá'í do Brasil, 1997), p. 131. Ver Shoghi Effendi, A Presença de Deus (Rio de Janeiro: Editora Bahá'í do Brasil, 1981), p.169, para os outros títulos de Mírzá Yahyá.

40 Alcorão 27:22.

41 Textos extraídos do livro: O Chamado do Senhor das Hostes; 1ª edição; 2003.pp. 86-113.

42 Alcorão 2:88; 62:6.
43 As Palavras Ocultas, Persa 24, 25, 28 e 30.
44 Alcorão 49:6.
45 Alcorão 5:64.
46 Alcorão 2:179.
47 Alcorão 6:164; 17:15; 35:18; 39:7; 53:38.
48 Alcorão 3:40; 14:27; 22:18.
49 Alcorão 5:1.
50 Alcorão 5:64.
51 Alcorão 40:5.
52Alcorão 36:30.
53 Alcorão 8:30.
54 Alcorão 6:35.
55 Alcorão 57:16.
56 Bíblia: Lucas 19:21.
57 Alcorão 55:26.
58 Alcorão 12:31.
59 Epístolas de Bahá'u'lláh, p. 30.
60 Ibid, p. 133.

61 Seleção dos Escritos de Bahá'u'lláh, seção CXII.

62 Ibid, seção CXVII.
63 O Kitáb-i-Aqdas; número 48.
64 Epístolas de Bahá'u'lláh, pp. 35-6.
65 Ibid, p. 187.

66 Somente a primeira linha foi localizada sua referência, conforme ítem 65. O restante do texto não possui referência bibliográfica.

67 Alcorão 22:35.

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