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A Última Vontade e Testamento
Alicerces da Unidade Mundial
Epístola a Haia
Epístola ao Dr. Forel
Epístolas do Plano Divino
Narrativa de um Viajante
O Segredo da Civilização Divina
Palestras de 'Abdu'l-Bahá Londre 1911
Palestras de 'Abdu'l-Bahá Paris 1911 - Paris Talk
Promulgação da Paz Universal
Respostas a Algumas Perguntas
Selecao dos Escritos de 'Abdu'l-Baha
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'Abdu'l-Bahá : Alicerces da Unidade Mundial
ALICERCES DA UNIDADE MUNDIAL

COMPILAÇÃO DE PALESTRAS DE 'ABDU'L-BAHÁ NO OCIDENTE

SELECIONADAS POR: HORACE HOLLEY
Editora Bahá'í do Brasil
Título original: FOUNDATIONS OF WORLD UNITY

Tradução das Palestras números 10, 11 e 14: Rubens André Kirche Dantas. As outras Palestras foram retiradas de livros já publicados pela E.B.B. e estão referenciadas no final desta edição.

'ABDU'L-BAHÁ
(1844-1921)

'Abdu'l-Bahá ('Abbás Effendi), era o filho mais velho de Bahá'u'lláh e Seu sucessor como líder da Fé Bahá'í. Foi designado por Seu pai como o expositor autorizado e perfeito exemplar dos Ensinamentos Bahá'ís, e também como o Centro do Convênio de Bahá'u'lláh.

I. A VIDA DE 'ABDU'L-BAHÁ
1. 1844-92

'Abdu'l-Bahá nasceu em Teerã em 23 de maio de 1844 (o mesmo dia da Declaração do Báb) e foi chamado de 'Abbás, como Seu avô, Mírzá Buzurg Núrí. Sua mãe foi Ásíyih Khánum, Navváb, ela mesma pertencente a uma notável família iraniana. Logo após o nascimento de 'Abdu'l-Bahá, Seu pai tornou-Se um proeminente membro do movimento bábí, o que iria transformar a vida de Sua família de forma dramática. O evento mais memorável na infância de 'Abdu'l-Bahá foi o aprisionamento de Seu pai, em conseqüência do atentado à vida do xá no dia 15 de agosto de 1852. Bahá'u'lláh nada teve a ver com o atentado, mas o mero fato de ser um proeminente bábí foi suficiente para levá-Lo à prisão. As conseqüências para a família foram catastróficas. A despeito de Sua elevada posição social, Sua casa foi saqueada e a família ficou reduzida à pobreza. 'Abdu'l-Bahá, então um menino de 8 anos de idade, foi atacado nas ruas por outras crianças. Ele registrou Sua aflição quando, em uma ocasião, foi levado para ver Seu pai na prisão.

Após quatro meses, Bahá'u'lláh foi libertado da prisão mas condenado ao exílio. As condições da viagem para Bagdá, em março de 1853, foram muito adversas e sofridas, pois a família não estava preparada para viajar durante um inverno rigoroso como o que tiveram de enfrentar. A irmã de 'Abdu'l-Bahá, Bahíyyih Khánum, lembra que 'Abdu'l-Bahá tremia os dentes de frio durante a viagem. Em Bagdá houve um breve período de repouso para a família.

Alguns dos mais importantes anos formativos da vida de 'Abdu'l-Bahá foram aqueles vividos em Bagdá, como criança e como jovem. Ele lembra ter passado Seu tempo lendo os Escritos do Báb e decorando muitos deles. Sua educação tinha a supervisão pessoal de Bahá'u'lláh. Também usava parte do tempo para equitação e freqüentava os círculos intelectuais de Bagdá. Foi aqui, ainda aos dezessete anos de idade, que escreveu para o páshá 'Alí Sháwkat um tratado sobre misticismo e metafísica intitulado Sharh-i- Kuntu Kanzan Makhfiyan (Comentário sobre a Tradição Islâmica: 'Eu era um Tesouro Oculto...') um feito extraordinário para alguém tão jovem.

Durante o curso da viagem de Bagdá para Istambul, e mais tarde tanto para Edirne como para 'Akká, 'Abdu'l-Bahá assumiu um papel cada vez mais importante como o zelador e ajudante principal de Bahá'u'lláh, assumindo a responsabilidade pela organização da casa e atendendo a todas as Suas necessidades pessoais. Ele, também, gradualmente assumiu a responsabilidade pelos relacionamentos entre a pequena comunidade de exilados com o mundo externo. Foi Ele quem conseguiu que Bahá'u'lláh pudesse transferir Sua residência para fora de 'Akká em 1877. Pessoalmente fazia os contatos com as autoridades governamentais e supervisionava e recebia a onda de visitantes que vinham para falar com Seu pai, incluindo o número cada vez maior de peregrinos que chegavam do Irã.

2. INÍCIO DE SEU MINISTÉRIO: 1892-1911

Bahá'u'lláh faleceu em 29 de maio de 1892. Em obras como O Kitáb-i-Aqdas e a Epístola do Ramo, Bahá'u'lláh havia indicado que 'Abdu'l-Bahá seria Seu sucessor. A sucessão foi então clara e inequivocamente confirmada na última vontade e testamento de Bahá'u'lláh, A Epístola do Convênio.

Em 1908, 'Abdu'l-Bahá foi libertado de Seu aprisionamento, em decorrência da anistia geral concedida após o restabelecimento da constituição turca.

Os outros eventos importantes deste período foram o crescimento de uma grande comunidade bahá'í na América do Norte e de alguns grupos bahá'ís na Europa; a chegada do primeiro grupo de peregrinos bahá'ís ocidentais à 'Akká, em 10 de dezembro de 1898 (outros logo se seguiram); e o sepultamento dos restos-mortais do Báb em um Santuário no Monte Carmelo.

3. 1911-21

Em agosto de 1910, 'Abdu'l-Bahá viajou para o Egito. Permaneceu em Port Said por um mês e então dirigiu-Se à Alexandria até maio de 1911, quando transferiu-Se para o Cairo. Em 11 de agosto de 1911 embarcou em um navio rumo à Marselha. Nessa viagem visitou Londres, Bristol e Paris, retornando ao Egito em dezembro.

No ano seguinte iniciou uma viagem muito mais longa. Partiu com destino à Nova York em 25 de março de 1912, chegando à América em 11 de abril. Visitou Chicago, Cleveland, Pittsburg, Washington D.C., voltando à Nova York em 11 de maio. Durante os poucos meses seguintes, permaneceu em Nova York, fazendo visitas ocasionais a Boston, Filadélfia, e a algumas pequenas cidades como também à Conferência do Lago Mohonk Peace. Em agosto, deu início a uma viagem mais longa, começando em New Hampshire e na Escola Green Acre, no Maine, seguindo para Montreal, Buffalo, Chicago, Kenosha e Minneapolis. Viajou para o Oeste, indo até São Francisco no início de outubro. Na Califórnia visitou Oakland, Palo Alto e Los Angeles, antes de regressar para o Oeste em 26 de outubro. Viajou por Chicago, Cincinnati, Washington D.C., e de Baltimore para Nova York. Em 5 de dezembro partiu de navio de Nova York com destino a Liverpool, Inglaterra, onde chegou em 13 de dezembro. De Liverpool foi para Londres, onde permaneceu até 21 de janeiro de 1913, fazendo durante esse tempo pequenas viagens a Oxford, Edinburgh e Bristol. Em Paris, 'Abdu'l-Bahá permaneceu dois meses antes de viajar para Stuttgart, Budapest e Viena. Após nova permanência de seis semanas em Paris, viajou para Marselha em 12 de junho, tomando no dia seguinte o navio de volta a Terra Santa em Port Said. Ficou no Egito do dia 13 de junho a 2 de dezembro, e então foi para Haifa.

A Primeira Guerra Mundial irrompeu um ano depois do regresso das viagens de 'Abdu'l-Bahá ao Ocidente. Durante algum tempo, 'Abdu'l-Bahá transferiu a residência da maioria dos bahá'ís da zona de Haifa-'Akká para a vila de Druze em Abú-Sinán, devido à ameaça dos bombardeios aliados na costa. Mais tarde, o perigo sobre a pessoa de 'Abdu'l-Bahá foi renovado com as ameaças do comandante turco Jamál Páshá. Havia também uma onda de fome na Palestina. Assim que os anos de guerra se passaram e o mandato britânico foi imposto à Palestina, as ameaças a 'Abdu'l-Bahá acabaram e os anos finais de Sua vida foram plenos de visitantes e peregrinos de todas as partes do mundo, que vinham à Haifa para vê-Lo. Foi agraciado com a comenda de Cavaleiro do Império Britânico, no dia 27 de abril de 1920. 'Abdu'l-Bahá faleceu na madrugada de 28 de novembro de 1921, e Seu sepultamento foi precedido de uma enorme procissão de milhares de pessoas, sendo Seu corpo colocado em uma das salas do Santuário do Báb, no Monte Carmelo.

II. REALIZAÇÕES DO MINISTÉRIO DE 'ABDU'L-BAHÁ
1. DIREÇÃO DOS ASSUNTOS DA FÉ DE BAHÁ'Í

Bahá'u'lláh designou 'Abdu'l-Bahá como a autoridade dirigente da comunidade bahá'í. Por cerca de trinta anos, 'Abdu'l-Bahá pessoalmente supervisionou quase todos os aspectos do crescimento e do desenvolvimento da Fé Bahá'í. Ele utilizava dois métodos principais para assim fazê-lo. O primeiro, através de correspondência. 'Abdu'l-Bahá escreveu pouco tratados aos bahá'ís em geral, mas manteve enorme volume de correspondência durante o Seu ministério, respondendo pessoalmente a grande número de cartas que lhes eram enviadas pelos bahá'ís. O segundo método foi seu contato pessoal com centenas de peregrinos que iam à Terra Santa todos os anos. Com estes, mantinha um contato direto e pessoal, uma supervisão individual sobre o desenvolvimento geral da Fé Bahá'í.

A maior comunidade bahá'í durante o ministério de 'Abdu'l-Bahá foi a do Irã. 'Abdu'l-Bahá direcionou Seus esforços para essa comunidade, primeiro promovendo a unidade dentro da comunidade e, segundo, estimulando sua expansão e desenvolvimento. Em particular, fomentou o desenvolvimento social da comunidade, estimulou os bahá'ís a criarem escolas e atendimento médico aos necessitados, promoveu a valorização e o reconhecimento do papel das mulheres na comunidade. Orientou também o desenvolvimento institucional da comunidade, definindo o trabalho das Mãos da Causa e aconselhando o estabelecimento de assembléias e comitês. Além disso, deu instruções para a restauração da Casa do Báb em Shíráz.

A Comunidade Bahá'í de Ishkhabad, no Turquemaquistão, estava mais livre para desenvolver uma vida comunitária bahá'í distintiva. 'Abdu'l-Bahá estimulou os bahá'ís a criarem diversas instituições: escolas, uma clínica médica, uma pousada para viajantes, uma biblioteca com uma sala de leitura e banhos públicos. Tudo isso culminou com uma construção, entre 1902 e 1919, do primeiro Mashriqu'l-Adhkár do mundo bahá'í. Com o estímulo de 'Abdu'l-Bahá, os bahá'ís de Ishkhabad conseguiram, tão próximo quanto possível naquele tempo, estabelecer uma comunidade bahá'í ideal.

Entre as novas comunidades bahá'ís na América do Norte, 'Abdu'l-Bahá estimulou o crescimento e desenvolvimento de instituições administrativas, como as Assembléias Espirituais Locais e o Templo da Unidade Bahá'í, que mais tarde se desenvolveu, tornando-se uma Assembléia Espiritual Nacional.

2. SUPERVISÃO DA EXPANSÃO DA FÉ BAHÁ'Í

Uma das áreas de atividade que recebeu de 'Abdu'l-Bahá uma atenção direta foi a expansão da Fé Bahá'í. Ele continuamente monitorou as atividades dos bahá'ís e freqüentemente enviava instrutores bahá'ís para viajarem de um lugar para outro a fim de promover a Fé Bahá'í. No início de Seu ministério, a Fé Bahá'í estava confinada ao Oriente Médio e parecia, a um observador externo, ser meramente uma seita muçulmana perseguida. Ao tempo de Seu passamento, 'Abdu'l-Bahá havia supervisionado sua transformação em uma grande religião que circundava o globo, com crentes de muitas origens religiosas e o respeito de um grande número de proeminentes pessoas no Oriente Médio, na Europa e na América do Norte.

Um dos mais significativos desenvolvimentos durante o ministério de 'Abdu'l-Bahá foi a expansão da Fé Bahá'í no Ocidente. Isso começou com viagem de Ibráhím George Khayru'lláh aos Estados Unidos da América em 1892. Desde 1894, em Chicago, Khayru'lláh começou a ensinar a Fé Bahá'í e a registrar grande número de adeptos. 'Abdu'l-Bahá deu a este trabalho a mais elevada prioridade. Quando, em 1900, Khayru'lláh quis mais poder pessoal, culminando com sua expulsão da Fé Bahá'í, 'Abdu'l-Bahá enviou vários instrutores bahá'ís experientes. Tais como Mírzá Abu'l-Fadl Gulpáygání ao Ocidente a fim de dar a orientação certa e o apoio devido aos bahá'ís americanos.

A contribuição mais importante de 'Abdu'l-Bahá, a esse trabalho, foram Suas viagens ao Ocidente. Através delas, atraiu grande número de interessados à Fé Bahá'í e estimulou os bahá'ís a redobrarem seus esforços para promoverem a sua religião. 'Abdu'l-Bahá também demonstrou, com Suas ações, quais eram as formas mais eficazes para apresentar a Fé Bahá'í no mundo ocidental. Suas mesas-redondas, publicadas em Respostas a Algumas Perguntas, indicam Sua preocupação em apresentar a Fé em termos compreensíveis a ouvintes cristãos no Ocidente. Em Suas palestras públicas, 'Abdu'l-Bahá soube como melhor relatar os ensinamentos bahá'ís sobre assuntos sociais de maior interesse e preocupação dos pensadores ocidentais.

No Irã, 'Abdu'l-Bahá estimulou os bahá'ís a viajarem por todo o país e ensinarem a Fé Bahá'í. Também para outras partes do Oriente Médio, 'Abdu'l-Bahá orientou e estimulou a promoção da Fé Bahá'í, especialmente no Egito, onde Mírzá Abu'l-Fadl Gulpáygání era um conhecido professor na Universidade Al-Azhar, a instituição acadêmica mais famosa do mundo islâmico.

Durante o ministério de 'Abdu'l-Bahá, a Fé Bahá'í se espalhou pela Austrália, Nova Zelândia, China, Japão, África do Sul, América do Sul e ilhas do Pacífico. Isso em grande parte devido a dois fatores fortemente estimulados por 'Abdu'l-Bahá: o estabelecimento de pioneiros bahá'ís em outras partes do mundo e as longas viagens por todo o mundo de um pequeno número de bahá'ís muito dedicados que ajudaram a criar as condições básicas e o conceito de uma religião verdadeiramente mundial. Esses dois fatores alcançariam ainda maior importância e expansão durante o ministério de Shoghi Effendi.

3. A CONSTRUÇÃO DO SANTUÁRIO DO BÁB

Uma das tarefas determinadas por Bahá'u'lláh a 'Abdu'l-Bahá foi a construção de um edifício adequado para servir como santuário para o sepultamento dos restos mortais do Báb. Tão logo Lhe foi possível começar a trabalhar essa meta, 'Abdu'l-Bahá deu instruções para que os restos mortais do Báb fossem trazidos do Irã, onde haviam sido escondidos. Após uma viagem muito perigosa e com muitas dificuldades, os sagrados restos mortais chegaram a 'Akká no dia 31 de janeiro de 1899. Ao mesmo tempo, 'Abdu'l-Bahá iniciava diligências para a compra de terras no Monte Carmelo e a construção de um edifício adequado. Esses planos sofreram uma interrupção quando, em 1901, Mírzá Muhammad 'Alí delatou às autoridades governamentais que o Santuário era , na realidade, um forte que 'Abdu'l-Bahá estava construindo em preparação a uma revolva que estava planejando. Mas, por fim, a estrutura foi completada e uma das primeiras ações de 'Abdu'l-Bahá, quando obteve Sua liberdade política, foi colocar os restos mortais do Báb, em caráter permanente, no mausoléu especial erigido para essa finalidade no Monte Carmelo, no local indicado pelo próprio Bahá'u'lláh, em ato solene e muito emocionante ocorrido em 21 de março de 1909.

4. SEU PROCEDIMENTO COM OPOSITORES

'Abdu'l-Bahá passou grande tempo de Sua vida cercado por opositores de uma forma ou de outra. Durante o tempo em que Seu Pai vivia, Seus principais opositores eram de fora da Fé Bahá'í, autoridades do governo do Irã e do Império Otomano Turco, bem como líderes religiosos que atacavam os bahá'ís ou a liderança bahá'í. Ao tratar com esses opositores, 'Abdu'l-Bahá recebia orientações de Seu Pai. Inicialmente, apelava por reparações diretamente à pessoa que havia cometido a injustiça. Se não conseguisse, apelava a alguém em posto de autoridade mais elevado, quando tal autoridade existia. Finalmente, se nenhuma reparação ocorresse, Ele algumas vezes lançava um apelo geral. Se ainda nada conseguisse, acabava Se submetendo à injustiça para não causar instabilidade social, jamais pensando em recorrer à violência. Essa era a forma como 'Abdu'l-Bahá tratava com os opositores e foi assim que recomendou aos bahá'ís agirem.

A segunda principal forma de oposição vinha das próprias pessoas que se diziam bahá'ís, às quais 'Abdu'l-Bahá chamou de rompedores do Convênio, porquanto qualquer oposição contra Ele era com efeito oposição ao Convênio que foi estabelecido por Bahá'u'lláh. A mais importante dessas figuras durante o ministério de 'Abdu'l-Bahá foi Mírzá Muhammad 'Alí, meio-irmão de 'Abdu'l-Bahá . No período imediatamente após o passamento de Bahá'u'lláh, 'Abdu'l-Bahá manteve em segredo as ações de seu meio-irmão, para não tornar pública a desunião na família, mas como as atividades de Mírzá Muhammad 'Alí tornaram-se por demais hostis, tornou-se difícil para 'Abdu'l-Bahá impedir que outros ficassem sabendo de suas ações, especialmente aos peregrinos. Em qualquer caso, o próprio Mírzá Muhammad 'Alí expôs suas ações em cartas que escreveu ao Irã cerca de 1896. 'Abdu'l-Bahá então aconselhou aos bahá'ís a cortarem todos os seus contatos com Mírzá Muhammad 'Alí e seus apoiadores no Irã e na América do Norte.O assunto de "Firmeza no Convênio" tornou-se um dos principais temas nos escritos de 'Abdu'l-Bahá .

A cisão ocorrida na família e na comunidade, o descrédito que resultou para os bahá'ís aos olhos do público, a ocupação mantida pelos apoiadores de Mírzá Muhammad 'Alí da Mansão de Bahjí e seu conseqüente controle das áreas vizinhas ao Santuário de Bahá'u'lláh, todas causaram muita tristeza a 'Abdu'l-Bahá.

5. RELAÇÕES COM O GOVERNO E COM O PÚBLICO

'Abdu'l-Bahá sempre tentou manter boas relações com as autoridades públicas em 'Akká e em Haifa, e com o próprio governo. A facilidade com que conseguia fazer isso diferia marcadamente de tempos em tempos, dependendo das autoridades em seus postos e das atividades dos rompedores do Convênio. Em geral, porém, 'Abdu'l-Bahá foi sempre tratado com elevada consideração pelos membros do governo local em 'Akká, e era freqüentemente consultado quando decisões difíceis deviam ser tomadas. Foi também muito respeitado pelas pessoas comuns de 'Akká, que O conheciam como um grande benfeitor público, especialmente para os pobres e destituídos da cidade.

Durante muitos anos, 'Abdu'l-Bahá manteve correspondência com muitas das mais conhecidas figuras intelectuais e reformistas da Turquia Otomana. Em Edirne, tornou-Se amigo íntimo do governador, Khurshíd Páshá, e do vice-governador, 'Azíz Páshá. Em 1878, quando Se encontrava em 'Akká, foi convidado para visitar Beirute. Lá, manteve contato com importantes figuras do movimento reformista otomano, como Midhat Páshá e Shaykh Muhammad 'Abduh. Manteve correspondência com eles e com outros, fazendo Sua própria contribuição para a literatura dos movimentos reformistas do Irã e do Império Otomano na forma de dois livros: O Segredo da Civilização Divina e Risáliy-i-Siyásiyyih (Tratado sobre Política).

Durante Suas viagens ao Ocidente, 'Abdu'l-Bahá encontrou-se com muitas pessoas proeminentes, como o arquidiácono Wilberforce de Westminster, o dr. T.K. Cheyne, professor de Interpretação das Escrituras da Universidade de Oxford; o dr. J. Estlin Carpenter, pioneiro no campo das religiões comparadas; sra. Annie Besant, presidente da Sociedade Teosófica; a líder sufragista, sra. Emmeline Pankhust; o sr. Lee McLung, tesoureiro dos Estados Unidos; almirante Robert Peary, famoso com seu feito no Polo Norte; o inventor Alexandre Graham Bell; o dr. David Starr Jordan, presidente da Universidade de Stanford; os filósofos Henri Bergson e John Dewey; o escritor Khalil Gibran; vários embaixadores e muitos outros proeminentes. Quase que uniformemente, essas personalidades expressavam uma elevada opinião sobre 'Abdu'l-Bahá e muitas delas tornaram-se apoiadoras e amigas da Fé Bahá'í. Inúmeros iranianos e outras celebridades do Oriente Médio também se encontraram com 'Abdu'l-Bahá em Suas viagens, tendo uma excelente impressão da Fé pelos contatos mantidos. Durante estas viagens, 'Abdu'l-Bahá foi entrevistado por inúmeros jornais e revistas, e a publicidade resultante teve grande efeito no crescimento do prestígio da Fé.

III. CARACTERÍSTICAS PESSOAIS DE 'ABDU'L-BAHÁ

Os bahá'ís consideram 'Abdu'l-Bahá como o Exemplar Perfeito dos ensinamentos de Seu Pai e por essa razão esforçam-se para seguir o Seu exemplo de conduta. Assim, as características de 'Abdu'l-Bahá assumiram uma importante posição dos ensinamentos bahá'ís. Histórias sobre Ele são freqüentemente usadas para ilustrar pontos particulares sobre moralidade e relações interpessoais.

'Abdu'l-Bahá deixou profunda impressão sobre todos os que O conheceram. Um exemplo histórico disso foi a descrição feita pelo professor E. G. Browne em 1890 sobre 'Abdu'l-Bahá: "Raramente tenha visto um encontro que me impressionou mais... um eloqüente orador, com argumentos prontos, hábil na ilustração, intimamente familiarizado com os livros sagrados dos judeus, dos cristãos, e dos muçulmanos, penso que escassamente é achado outro igual..."

Mesmo inimigos declarados da Fé Bahá'í foram em uma ocasião transformados ao encontrar-se com 'Abdu'l-Bahá . Mírzá 'Abdu'l-Sultán, o Muhammad Írání Mu'addibu, um iraniano, e o Shaykh 'Alí Yúsuf, um árabe, ambos editores jornalistas no Egito que haviam publicado acerbos ataques contra a Fé Bahá'í em seus jornais, visitaram 'Abdu'l-Bahá quando Ele foi ao Egito e a atitude de ambos foi transformada completamente ao falarem com Ele. De forma semelhante, um clérigo cristão, o reverendo J. T. Bixby, autor de um artigo hostil contra a Fé Bahá'í nos Estados Unidos, não pôde deixar de dar um testemunho positivo das qualidades pessoais de 'Abdu'l-Bahá. O efeito causado por 'Abdu'l-Bahá sobre aqueles que já haviam reconhecido a Fé era ainda maior.

Existe uma concordância universal de que 'Abdu'l-Bahá possuía uma presença física que irradiava um ar de serenidade, majestade e autoridade. Era sempre bondoso no trato com as pessoas e generoso a ponto de que Sua própria família reclamava serem preteridos com nada. Possuía um grande senso de humor e freqüentemente contava piadas e casos pitorescos para explicar mais facilmente o que queria dizer. Sua vida pessoal era muito simples e os móveis de Sua casa eram apenas os imprescindíveis e os mais simples possíveis. Alimentava-Se e dormia muito pouco, e passava muitas horas do dia em orações e meditação.

'Abdu'l-Bahá dirigia os assuntos da comunidade bahá'í com muita sabedoria, encorajamento e compreensão. Sempre que uma comunidade dava sinais de progresso, era caloroso em Seus elogios, mas quando uma comunidade mostrava-se estagnada e com sinais de desunião, escrevia cartas e enviava emissários pessoalmente. Não Se satisfazia até ver as dificuldades superadas. Permitia-Se concordar com algumas interpretações pessoais dos ensinamentos contanto que não tivessem em contradição com os princípios fundamentais da Fé. A ocorrência de perseguições aos bahá'ís O afetava profundamente. Escrevia pessoalmente às famílias daqueles que eram martirizados.

Sempre que fosse preciso defender a Fé Bahá'í contra seus inimigos, 'Abdu'l-Bahá agia sempre com muita determinação e energia. Se, porém, um de Seus oponentes possuíam problemas, que acontecia freqüentemente quando os reveses de fortuna afligiam funcionários otomanos em 'Akká, por exemplo, 'Abdu'l-Bahá era sempre magnânimo e em tais ocasiões, ajudou a tais destituídos funcionários.

IV. A FAMÍLIA DE 'ABDU'L-BAHÁ

'Abdu'l-Bahá casou-Se em 8 de março de 1873 com Munírih Khánum. Do casamento resultaram nove filhos, cinco dos quais faleceram na primeira-infância: Husayn Effendi (falecido em 1887, com dois anos de idade), Mihdí (com dois anos e meio), Túbá, Fu'ádiyyih, e Rúhangíz. Quatro filhas chegaram à idade adulta. A mais velha delas foi Diyá'iyyih (falecida em 1951), casou-se em 1895 com Mírzá Hádí Shírází (falecido em 1955), tendo cinco filhos: Shoghi Effendi, Rúhangíz, Mihrangíz, Husayn e Riyád, todos adotando o sobrenome Rabbání. A segunda filha, Túbá Khánum (1880-1959), casou-se com Mírzá Muhsin Afnán (1863-1927), seus filhos foram Rúhí (1899-1971), Thurayyá, Suhayl, e Fu'ad (falecido em 1943), todos adotando o nome Afnán. A terceira filha de 'Abdu'l-Bahá, Rúhá, casou-se com Mírzá Jalál, o filho de Mírzá Muhammad Hasan, o Rei dos Mártires, seus filhos foram Maryan, Muníb, Zahrá e Hasan, os quais adotaram o sobrenome Shahíd. A quarta filha, Munavvar (falecida em 1971), casou-se com Mírzá Ahmad, o filho de Mírzá 'Abdu'r-Rahím Yazdí, eles não tiveram filhos.

Nos anos trinta e quarenta uma série de casamentos ligou os filhos de Sayyid 'Alí Afnán e Furúghiyyih Khánum, que haviam sido apoiadores de Mírzá Muhammad 'Alí, com os netos de 'Abdu'l-Bahá. Como resultado desses casamentos, e de outros, considerados não apropriados, ou pela recusa em cortar os contatos com os rompedores do Convênio na família, Shoghi Effendi, nos anos quarenta e no início dos anos cinqüenta, declarou todos os netos vivos de 'Abdu'l-Bahá (exceto ele mesmo) como rompedores do Convênio.

V. A VISÃO BAHÁ'Í SOBRE A POSIÇÃO DE 'ABDU'L-BAHÁ

No Kitáb-i-Aqdas, Bahá'u'lláh obriga Seus seguidores para dirigirem-se em direção a "Aquele eleito de Deus, Aquele que brotou desta Raiz Antiga".1 Na Epístola do Convênio, é explicado que esta frase se refere a 'Abdu'l-Bahá, "o Mais Poderoso Ramo (Ghusn-i-A'zam)".2 Também no Kitáb-i-Aqdas é mandado "submetei tudo o que não entendais no Livro Àquele que proveio desta poderosa Estirpe".3 No Epístola do Ramo, Bahá'u'lláh declara: "... em verdade, Ele é a maior de todas as graças, a mais perfeita dádiva a vós; e por Seu intermédio se ressuscitam até os ossos em decomposição. Quem se dirigir a Ele terá se dirigido a Deus, e quem dEle se desviar, terá se desviado de Minha Beleza, terá repudiado Minha Prova e transgredido contra Mim. Ele é Quem Deus confiou a vós, de quem Ele vos incumbiu, Seu manifestante entre vós, e o Seu aparecimento entre Seus servos favorecidos... Aqueles que se privam da sombra do Ramo estão perdidos na solidão do erro, consumidos pelo fogo dos desejos mundanos, são daqueles que, seguramente, hão de perecer."4

Com base nestas passagens, 'Abdu'l-Bahá assumiu autoridade como "o Centro do Convênio" e "o Intérprete da Palavra de Deus", enquanto ao mesmo tempo destacando "o significado real, o segredo íntimo destes versículos, destas palavras, é minha servitude ao sagrado Limiar da Beleza de Abhá, minha abnegação completa, e consciência de ser absolutamente nada perante Ele".5

Shoghi Effendi declara: "mostra como na pessoa de 'Abdu'l-Bahá se reúnem e harmonizam completamente as incompatíveis características de uma natureza humana e de um conhecimento e perfeição sobre-humanos"; estabelece 'Abdu 'l-Bahá como o "Exemplar Perfeito" de Bahá'u'lláh; afirma que 'Abdu'l-Bahá "encarna uma instituição sem paralelo nos reconhecidos sistemas religiosos do mundo"; e finalmente enfatiza a designação de Bahá'u'lláh a 'Abdu'l-Bahá como o "Mistério de Deus".6

VI. ENSINAMENTOS E ESCRITOS DE 'ABDU'L-BAHÁ
1. ENSINAMENTOS

Os ensinamentos de 'Abdu'l-Bahá estão firmemente enraizados naquilo que Seu Pai ensinou. Na verdade, as circunstâncias da vida de 'Abdu'l-Bahá virtualmente não Lhe permitiram receber nenhuma outra educação a não ser aquela que Lhe foi ministrada pelo próprio Pai. E como Ele atuava freqüentemente como secretário pessoal de Bahá'u'lláh, estava sempre presente quando Bahá'u'lláh transmitia Seus ensinamentos oralmente, e lia praticamente todos os textos escritos, ditados por Ele. 'Abdu'l-Bahá , portanto, tinha um conhecimento íntimo dos ensinamentos de Seu Pai.

O aspecto distintivo da contribuição de 'Abdu'l-Bahá foi a maneira como utilizou os ensinamentos de Bahá'u'lláh e os adaptou para os mais diferentes tipos de audiência em Suas palestras públicas e em Suas elocuções pessoais, principalmente durante as Suas viagens ao Ocidente. A despeito de ambientes com os quais não estava familiarizado, 'Abdu'l-Bahá foi capaz de entender as preocupações de Suas audiências ocidentais, tirando dos ensinamentos de Bahá'u'lláh aqueles aspectos que mais se adequavam às pessoas que O ouviam e lhes traziam as soluções esperadas. As apresentações dos ensinamentos bahá'ís que 'Abdu'l-Bahá fez durante Suas viagens ao Ocidente permanecem até os dias atuais como modelo de apresentação desses ensinamentos no mundo bahá'í.

2. OS ESCRITOS DE 'ABDU'L-BAHÁ

Os principais escritos de 'Abdu'l-Bahá são Suas correspondências mantidas com um incontável número de bahá'ís, admiradores, funcionários de governos, e outros. Escreveu principalmente em persa e árabe, mas existe também um pequeno volume de material escrito em turco otomano. O Centro Mundial Bahá'í atualmente tem em seus arquivos cerca de 27 mil cartas de 'Abdu'l-Bahá, mas Ele deve ter escrito muito mais. Um grande número de compilações dessas cartas foi publicado ao longo dos anos. Algumas das mais importantes Epístolas, como a Epístola ao Dr. Forel foram publicadas separadamente. Embora muitas das cartas sejam dirigidas a indivíduos bahá'ís, algumas delas são dirigidas a grupos bahá'ís e a comunidades. A mais importante desta última categoria é a série de Epístolas do Plano Divino, escritas em 1916-1917 e dirigidas aos bahá'ís da América do Norte, as quais Shoghi Effendi denomina-as de "Carta Magna" para a propagação da Fé Bahá'í. 'Abdu'l-Bahá também escreveu a organizações, tais como a "Organização Central para uma Paz Duradoura" em Haia, e ocasionalmente a jornais, tais como o Christian Commonwealth.

'Abdu'l-Bahá escreveu três livros: "O Segredo da Civilização Divina" (1875), "A Narrativa de um Viajante" (1886), e Risáliy-i-Siyásiyyih (Tratado sobre Política) (1892-1893). Dois desses livros foram escritos durante a vida de Bahá'u'lláh; depois do passamento de Seu Pai, quase não tinha tempo para escrever livros. Muitas de Suas entrevistas foram publicadas, como o Tributo aos Fiéis e Respostas a Algumas Perguntas, que foram lidas e corrigidas por Ele antes de serem publicadas.

'Abdu'l-Bahá também escreveu inúmeras orações, algumas Epístolas de Visitação para proeminentes bahá'ís falecidos, e algumas poesias. Por fim, existe a Última Vontade e Testamento de 'Abdu'l-Bahá, que Shoghi Effendi denomina de a "Carta da Nova Ordem Mundial de Bahá'u'lláh.". Existe, também, um enorme volume de literatura consistindo de notas de peregrinos, palestras e compilações de Seus escritos.

INTRODUÇÃO

É inegável que o tema essencial com o qual se confronta a presente geração é a busca de um princípio de unidade que seja adequado para unir os povos do mundo em alguma forma de relacionamento válida e criativa. Nada que não seja a unidade mundial poderá liberar as vastas energias produtivas que se acham à disposição da mente moderna; nada mais poderá substituir os idealismos raciais que já deram o fruto que tinham que dar, tornando-se, agora, fontes de conflito, mais do que causas de acordos. Coisa alguma, a não ser a unidade mundial, poderá deter as tendências para anarquia que estão corroendo até o âmago da estrutura política em cada uma das nações organizadas. A rápida e turbulenta corrente de modificações penetra com demasiada profundidade para permitir que acordos lhe represem a força e conseguir algum grau de estabilidade ou sossego atrás do qual o espírito humano possa repousar sem sobressaltos. A própria continuidade daquela miríade de inter-relacionamentos desenvolvida por forças ora cooperativas, ora competitivas, depende da implantação de uma unidade orgânica que corresponda ao fatos interiores, bem como aos exteriores da vida.

À medida que a necessidade de um tal princípio universal de unidade vai se mostrando mais e mais urgente e irretorquível, a humanidade mais sensibiliza-se a qualquer influência capaz de resolver a crise em que a civilização se transformou.

A característica distintiva do trabalho ao qual 'Abdu'l-Bahá dedicou a vida é o fato de que, longe de ser simplesmente uma nobre, abnegada e incansável insistência na unidade do mundo como um ideal, foi uma apresentação definitiva dessa unidade como programa de vida. Em uma época em que até mesmo a mais esclarecida forma de liberalismo concebia a unidade mundial em termos parciais - uma unidade limitada, afetando apenas um dos planos da experiência, tal como a religião, a ética, a ciência ou a política - 'Abdu'l-Bahá, com atos e palavras, criou uma concepção genuinamente universal do novo termo.

Para 'Abdu'l-Bahá, a unidade mundial era mais do que um simples atar de instituições formais, desenvolvidas pela sociedade em uma era de trevas espirituais e de divisão; era, isso sim, um encontro, uma harmonização de mentes e de corações despertados para uma nova percepção do destino da humanidade. Como se fosse pela ação de um puro solvente, a visão de 'Abdu'l-Bahá serviu para desfazer o eu exterior, imposto pelo meio ambiente, e vivificar o próprio âmago do ser, onde se responde à Vontade Universal. Os objetivos e os poderes dessa Vontade foram sustentados por Ele em uma vitória de amor tão completa que a somatória de Sua vida se torna uma reivindicação, não de um país ou de uma raça, nem de uma religião, mas sim de toda a humanidade.

'Abdu'l-Bahá testemunhou o triunfo de um amor que é inseparável da mente. Suas interpretações dos problemas humanos fundamentais anteciparam por uma geração inteira as conclusões da ciência e da filosofia, e possuem uma qualidade de síntese que a ciência e a filosofia jamais atingiram. Estavam combinados, em Sua natureza, o Ocidente e o Oriente, sendo preservadas a integridade bem como a verdade essencial de cada tipo de experiência; além disso, a Sua natureza unia e reconciliava também aquelas qualidades não relacionadas nos homens, tais como fé e raciocínio, amor humanitário e justiça, devoção mística e energia administrativa, cujas divergências em todos os seres humanos são a causa original da desunião em todas as suas formas. Sua percepção da unidade básica da vida expressava-se em uma simpatia que tudo abarcava e em uma compreensão cujo efeito poder-se-ia comparar ao da irrigação nas terras desérticas. Assim, de uma só vida, podemos divisar uma humanidade unificada, na qual atributos universais possibilitam formas sociais novas e superiores.

Quem lê superficialmente Suas cartas e palestras públicas na expectativa de encontrar o mesmo tratamento que é dado aos seus tópicos por alguém que se limite à atitude estereotipada do estudioso da religião ou do cientista social não consegue, em absoluto, alcançar a sabedoria tão liberalmente ofertada ao mundo moderno em sua hora de suprema necessidade. Essa sabedoria é revelada em declarações plenas de uma visão que abarca uma área mais ampla da realidade, antes de um esforço para desenvolver algum pensamento ou assunto específico pormenorizadamente, em sua íntegra. A tarefa de 'Abdu'l-Bahá excluía as metas a serem logradas por especialistas, mas incluía restabelecer a integridade da vida.

Também um novo enfoque, tanto mental quanto espiritual deve guiar o leitor - uma atitude na qual a vitória partidária ou a autoridade exclusivista, tanto de natureza sutil quanto a mais grosseira, é menos desejável do que a realidade, a qualquer custo. Sempre que esse enfoque for atingido, a assimilação da sabedoria de 'Abdu'l-Bahá conduzirá a um resultado distintivo, ou seja, um afastamento gradual, mas certo, daqueles véus sutis do preconceito que obscurecem a compreensão, por mais ativa ou aguçada que seja a mente. É que essa sabedoria nada tem a ver com a fórmula passiva do intelecto filosófico, mas é carregada com uma qualidade intensamente energizante, oriunda daquelas profundidades onde a verdade é vivida tanto quanto vista.

A presente obra consiste de seleções de algumas palestras feitas, publicamente, por 'Abdu'l-Bahá durante Sua viagem pela Europa e América, nos anos que precederam imediatamente à Primeira Guerra, e também de extratos de Suas cartas dirigidas aos amigos do Ocidente, respondendo a perguntas referentes a temas análogos. A própria viagem foi um símbolo bastante significativo da unidade mundial, uma vez que Ele falou para auditórios representativos de, praticamente, cada uma das categorias sociais ou dos diferentes segmentos de interesse de nossa complexa vida hodierna. Desde a Universidade de Columbia, em Nova York, até a Universidade de Stanford, na Califórnia, desde a Missão Bowery até a mesa de um diplomata em Washington, 'Abdu'l-Bahá atravessou tanto a área espiritual quanto a geográfica do povo americano, deixando atrás de Si a certeza de que, resolvido o maior dos seus problemas espirituais - o da amizade e cooperação entre brancos e negros - sua influência seria decisiva na promulgação da paz universal.

Em resumo, 'Abdu'l-Bahá pode ser comparado à pedra de Roseta, gravada com a história humana em três idiomas, a saber: a linguagem da mente, a linguagem do coração e a linguagem do espírito. Consultando esta tríplice realidade, encontramos a chave para aquilo que se encontra latente dentro de nós ou desconhecido no universo e, dessa forma, nos aproximamos daquela íntima percepção de Deus, que é o alicerce da Nova Era.

Horace Holley
Green Acre, Eliot, Maine
6 de agosto de 1927
ALICERCES
DA
UNIDADE
MUNDIAL
I
O VERDADEIRO MODERNISMO

Todas as coisas criadas têm seu grau ou estágio de maturidade. O período da maturidade na vida de uma árvore é a época de sua frutificação. A maturidade de uma planta é quando ela se desenvolve e floresce. O animal atinge o estágio de pleno crescimento e perfeição, e no reino humano, o homem chega à sua maturidade quando as luzes da inteligência estão em sua máxima capacidade e desenvolvimento.

Desde o princípio até o fim de sua vida, o homem passa por certos períodos ou estágios, cada um dos quais é marcado por certas peculiaridades. Por exemplo, durante o período da infância, suas condições e requisitos são característicos daquele grau de inteligência e capacidade. Depois de algum tempo ele entra no período da juventude, no qual suas condições e necessidades anteriores são substituídas por novos requisitos aplicáveis ao avanço de sua condição. Suas faculdades de observação se ampliam e se tornam profundas; sua capacidade de inteligência é treinada e despertada; as limitações e o ambiente da infância não mais restringem suas energias e realizações. Finalmente, ele deixa o período da juventude e entra no estágio ou estado de maturidade, o qual necessita de nova transformação e correspondente avanço nas atividades de sua vida. Ele é provido de novas capacidades e percepções, e aprendizado e educação correspondentes ao seu progresso ocupam sua mente, graças e dádivas especiais lhe são concedidas na proporção de sua ampliada capacidade, e seu período anterior de juventude e suas condições não mais satisfazem sua visão e perspectiva amadurecidas.

De modo semelhante, há períodos e estágios na vida coletiva da humanidade, a qual em certa época passou pela sua fase de infância, em outra, de juventude, mas agora entrou na sua fase há muito pressagiada de maturidade, cujas evidências estão visíveis e manifestas em toda parte. Por isso, os requisitos e condições de períodos anteriores mudaram e se transformaram em exigências que nitidamente caracterizam a idade atual do mundo humano. Aquilo que era aplicável às necessidades humanas durante os primórdios da história de sua espécie não poderiam se adequar nem satisfazer as necessidades do período atual de inovação e realização. A humanidade emergiu de suas condições anteriores de limitação e de instrução preliminar. O homem deve agora se imbuir de novas virtudes e poderes, nova moralidade e novas capacidades. Novas graças, dádivas e perfeições o esperam e lhe estão sendo concedidas. As dádivas e graças do período da juventude, embora apropriadas e suficientes durante a adolescência do gênero humano, são agora incapazes de se adequar aos requisitos de sua maturidade. Os brinquedos da infância e meninice não mais satisfazem ou interessam à mente adulta.

O mundo humano está sofrendo transformações sob todos os pontos de vista. As leis dos antigos governos e civilizações estão em processo de revisão; as idéias e teorias científicas estão se desenvolvendo e progredindo para se adequarem a nova categoria de fenômenos; invenções e descobertas estão penetrando campos até agora desconhecidos, revelando novas maravilhas e segredos ocultos do universo material; indústrias têm âmbito e produção imensamente mais amplos; em toda parte, a humanidade está passando pelas dores do parto da atividade evolutiva, que indicam o abandono das velhas condições e o advento de nova era de reforma. Velhas árvores não produzem frutos; velhas idéias e métodos são obsoletos e inúteis hoje em dia. Velhos padrões de ética, códigos morais e modos de vida do passado não satisfazem o presente estágio de avanço e progresso.

Este é o ciclo da maturidade e da reforma da religião também. Imitações dogmáticas de crenças ancestrais estão sendo abandonadas. Elas foram o eixo em torno do qual a religião girou, mas agora não são mais proveitosas; ao contrário, neste dia elas se tornaram causa de degradação e obstáculo para a humanidade. Fanatismo e adesão dogmática a velhas crenças se tornaram a fonte central e fundamental de animosidade entre os homens, o obstáculo ao progresso humano, a causa de guerra e conflito, o destruidor da paz, tranqüilidade e bem-estar no mundo. Considerai as condições dos Bálcãs hoje*: pais, mães e filhos em tristeza e lamentação, os fundamentos da vida destruídos, cidades devastadas e terras férteis desoladas pelas ruínas da guerra. Estes são os resultados da hostilidade e ódio entre as nações e povos da religião que imitam e aderem a formas, e violam o espírito e a realidade dos ensinamentos divinos.

*1912

Ao mesmo tempo em que isto é verdadeiro e visível, é igualmente evidente que o Senhor da humanidade concedeu graças infinitas ao mundo neste século de maturidade e realização. O oceano da misericórdia divina se agita, as chuvas vernais caem e o Sol da Realidade brilha gloriosamente. Ensinamentos celestiais aplicáveis ao avanço das condições humanas foram revelados nesta benévola era. Esta reforma e renovação da realidade fundamental da religião constituem o verdadeiro espírito de realização do modernismo, a inconfundível luz do mundo, o esplendor manifesto da Palavra de Deus, o remédio divino para todas as enfermidades humanas e a graça da vida eterna para toda a humanidade.

II
O MANANCIAL DA VERDADE

No nosso sistema solar, o foco de iluminação é o próprio sol. Pela vontade de Deus, este luminar central é a única fonte de subsistência e desenvolvimento de todas as coisas fenomenais. Quando observamos os organismos do reino material, vemos que seu crescimento e cultivo dependem do calor e da luz do sol. Sem este impulso vivificador não haveria crescimento das árvores e da vegetação; nem seria possível a existência do animal ou do ser humano; de fato, nenhuma forma de vida criada poderia se manifestar na terra. Mas se refletirmos profundamente perceberemos que o grande doador e vivificador é Deus; o sol é o intermediário de Sua vontade e plano. Sem as graças do sol, portanto, o mundo estaria na escuridão. Toda a iluminação do nosso sistema planetário procede e emana do foco solar.

Do mesmo modo, no reino espiritual da inteligência e idealismo deve haver um foco de iluminação, e o centro é o sempiterno e sempre brilhante Sol, a Palavra de Deus. Suas luzes são as luzes da realidade que brilharam sobre a humanidade, iluminando o reino do pensamento e da moral, conferindo as graças do mundo divino ao homem. Estas luzes são a causa de educação das almas e fonte de iluminação dos corações, irradiando com seu fulgente esplendor a mensagem das boas-novas do Reino de Deus. Em suma, o progresso do mundo moral e ético e do mundo da regeneração espiritual depende daquele Centro de iluminação celestial. Ele irradia a luz da religião e concede a vida do espírito, imbui a humanidade com virtudes arquetípicas e confere esplendor eterno. Este Sol da Realidade, este Centro de esplendor, é o Profeta ou Manifestante de Deus. Assim como o sol fenomênico brilha sobre o mundo material produzindo vida e crescimento, o Sol espiritual ou profético confere iluminação ao mundo humano do pensamento e da inteligência e, a menos que ele brilhe sobre o horizonte da existência humana, o reino humano se tornará tenebroso e extinto.

O Sol da Realidade é um mesmo Sol, mas alvorece em diversos lugares, tal como o sol fenomênico é um só, embora apareça em vários pontos do horizonte. Durante o verão, o luminar do mundo físico se levanta bem ao norte do equinócio, na primavera e no outono ele alvorece a meio caminho, e no inverno ele surge no ponto mais meridional de seu percurso zodiacal. Estes pontos de alvorecer mudam grandemente, mas o sol é sempre o mesmo - tanto no caso do luminar fenomênico como do espiritual. As almas que focam sua visão sobre o Sol da Realidade recebem a luz, não importa em que ponto ele se levante, mas aquelas que estão presas à adoração do ponto do alvorecer privam-se quando ele aparece numa posição diferente do horizonte espiritual.

Além disso, assim como o ciclo solar possui suas quatro estações, o ciclo do Sol da Realidade tem seus distintos e sucessivos períodos. Cada um traz sua estação vernal ou primaveril. Quando o Sol da Realidade retorna para vivificar o mundo da humanidade, a divina graça desce do céu da generosidade. O reino dos pensamentos e ideais é posto em movimento e abençoado com nova vida. As mentes se desenvolvem, as esperanças irradiam, as aspirações se tornam espirituais, as virtudes do mundo humano aparecem com renovado poder de crescimento, e a imagem e semelhança de Deus se torna visível ao homem. É a primavera do mundo interior. Após a primavera surge o verão em sua plenitude e frutificação espiritual; o outono se segue com seus ventos debilitantes que abatem a alma; o Sol parece distante, até que finalmente o manto do inverno se estende por toda parte e restam apenas traços débeis do esplendor do Sol divino. Assim como a superfície do mundo material se torna escura e monótona, o solo, dormente, as árvores, despidas e expostas, e não há nenhuma beleza ou frescor que compense a escuridão e o desolamento, o inverno do ciclo espiritual testemunha a morte e o desaparecimento do desenvolvimento divino e a extinção da luz e do amor de Deus. Mas novamente o ciclo se inicia e uma nova primavera surge. Nela ressurge a primavera anterior; o mundo é revivificado e iluminado, atingindo a espiritualidade; a religião é renovada e reorganizada, os corações se volvem a Deus, o chamado de Deus é escutado e a vida é novamente conferida ao homem. Por longo tempo o mundo religioso havia enfraquecido e o materialismo avançava; as forças espirituais da vida minguavam, a moralidade deteriorava, a tranqüilidade e a paz desvaneciam-se das almas, e qualidades satânicas dominavam os corações; contenda e ódio obscureciam a humanidade, carnificina e violência prevaleciam. Deus havia sido negligenciado; o Sol da Realidade parecia ter desaparecido completamente; a privação das graças celestiais era um fato; o inverno havia caído sobre a humanidade. Mas Deus, em Sua generosidade, fez surgir uma nova primavera, as luzes de Deus se irradiaram e o fulgente Sol da Realidade retornou e se manifestou, o mundo do pensamento e o reino dos corações se regozijaram, um novo espírito de vida insuflou-se no corpo do mundo, e revelou-se contínuo progresso.

Tenho a esperança de que as luzes do Sol da Realidade iluminarão o mundo todo, de modo que não permaneça qualquer conflito e guerra, qualquer batalha e derramamento de sangue. Que o fanatismo e a intolerância religiosos sejam desconhecidos, toda a humanidade participe dos laços de fraternidade, as almas se associem em perfeita harmonia, as nações da terra finalmente icem a bandeira da verdade, e as religiões do mundo adentrem o divino templo da unicidade, pois os fundamentos das religiões celestiais são uma mesma realidade. Realidade não é divisível; não admite multiplicidade. Todos os santos Manifestantes de Deus proclamaram e promulgaram a mesma realidade. Eles conclamaram a humanidade para a própria realidade, e a realidade é uma só. As nuvens e os nevoeiros da imitação obscureceram o Sol da Verdade. Devemos abandonar essas imitações, dispersar estas nuvens e nevoeiros, e libertar o Sol da escuridão da superstição. Então o Sol da Verdade brilhará com a maior glória; os habitantes do mundo tornar-se-ão unidos, as religiões serão uma só, seitas e denominações hão de se reconciliar, todas as nacionalidades se desenvolverão em conjunto, reconhecendo o mesmo Pai, e todas as camadas do gênero humano se reunirão ao abrigo do mesmo tabernáculo, sob a mesma bandeira.

Até que a civilização celestial seja estabelecida, a civilização material não dará qualquer resultado, assim mesmo como observais. Vede que catástrofes sobrevêm à humanidade. Considerai as guerras que perturbam o mundo. Considerai a inimizade e o ódio. A existência dessas guerras e condições indica e prova que a civilização celestial ainda não foi estabelecida. Se a civilização do Reino se estender a todas as nações, este pó da discórdia será disperso, estas nuvens desaparecerão e o Sol da Realidade brilhará sobre toda a humanidade com o máximo esplendor e glória.

III
O ALVORECER DA PAZ

A Paternidade de Deus, Sua amorosa bondade e favor são evidentes a todos. Em Sua misericórdia Ele provê plena e amplamente às Suas criaturas, e se qualquer alma peca, Ele não suspende Sua bondade. Todas as coisas criadas são manifestações claras de Sua Paternidade, mercê e dádivas divinas. A fraternidade humana é, igualmente, tão clara e evidente como o sol, pois todos são servos de um só Deus, pertencem à mesma espécie humana, habitam o mesmo globo, abrigam-se à sombra protetora da abóbada celeste e estão submersos no mar da misericórdia divina. A fraternidade humana e a dependência existem porque a solidariedade e cooperação mútuas são os dois necessários princípios subjacentes ao bem-estar humano. Este é o relacionamento físico da humanidade. Há uma outra fraternidade - a espiritual - que é mais elevada, mais santa e superior a todas as outras. Ela é celestial; emana dos sopros do Espírito Santo e dos esplendores dos atributos misericordiosos; ela se baseia nas suscetibilidades espirituais. Esta fraternidade é estabelecida pelos Manifestantes do Ser Sagrado.

Desde os dias de Adão, os Manifestantes divinos têm Se esforçado em unir a humanidade para que todos fossem como uma só alma. A função e o propósito de um pastor é juntar e não dispersar seu rebanho. Os Profetas de Deus têm sido os Pastores da humanidade. Eles estabeleceram um laço de amor e fraternidade no seio da humanidade, fizeram de povos dispersos uma só nação e de tribos errantes um grande reino. Eles estabeleceram as bases da unicidade de Deus e convocaram todos à paz universal. Todos esses santos Manifestantes divinos são um só. Eles serviram a um só Deus, proclamaram a mesma verdade, fundaram as mesmas instituições e refletiram a mesma luz. O aparecimento dEles foi sucessivo e correlato; cada um dEles anunciou e louvou Aquele que O sucederia, e todos colocaram os fundamentos da realidade. Convocaram e convidaram as pessoas ao amor e fizeram do mundo humano um espelho da Palavra de Deus. Por isso, as religiões divinas que Eles fundaram têm a mesma base; Seus ensinamentos, provas e evidências são um só; eles diferem em Seus nomes e formas, mas na verdade Eles concordam e são apenas um. Esses santos Manifestantes têm sido como o aparecimento da primavera no mundo. Embora a primavera deste ano seja designada por outro nome de acordo com a mudança do calendário, ainda assim tem a mesma vida e o mesmo despertar da primavera do ano passado. Pois cada primavera é tempo de uma nova criação, cujos efeitos, dádivas, perfeições e forças vivificadoras são as mesmas das primaveras anteriores, embora os nomes sejam múltiplos e variados. Este é o ano de 1912, o ano passado foi 1911, e assim por diante, mas não há qualquer diferença na realidade fundamental. O sol é um só, mas os pontos de alvorecer do sol são numerosos e variáveis. O oceano é uma só massa de água, mas cada parte dele tem uma designação particular - Atlântico, Pacífico, Mediterrâneo, Antártico, etc. Se considerarmos os nomes, há diferença; mas a água, o oceano em si, é apenas uma realidade.

De igual modo, as divinas religiões dos santos Manifestantes de Deus são, na realidade, a mesma, embora sejam designadas por nomes diferentes. O homem deve amar a luz, não importa em que horizonte ela surja. Ele deve amar a rosa, não importa em que solo ela cresça. Ele deve ser um buscador da verdade, não importa de que fonte ela provenha. Apego à lâmpada não significa amor à luz. Apego à terra é indigno, o que é digno é desfrutar a rosa que surge do solo. Devoção à árvore é inútil, benéfico é participar dos frutos. Frutos deliciosos devem ser saboreados, não importa em que árvore cresçam ou onde sejam encontrados. A palavra da verdade deve ser apoiada, não importa que língua a pronuncie. Verdades absolutas devem ser aceitas, não importa em que livro estejam registradas. Se fomentarmos o preconceito, ele será causa de privação e ignorância. O conflito entre religiões, nações e raças surge da incompreensão. Se investigarmos as religiões para descobrirmos os princípios subjacentes aos seus fundamentos, veremos que elas estão de acordo; pois a realidade fundamental delas é uma e não múltipla. Através disso, os seguidores das religiões do mundo chegarão à sua unidade e reconciliação. Eles chegarão à verdade de que o propósito da religião é a aquisição de virtudes louváveis, a melhora da moralidade, o desenvolvimento espiritual da humanidade, a verdadeira vida e as dádivas divinas. Todos os Profetas foram promotores desses princípios; nenhum dEles promoveu a corrupção, vício ou mal. Eles convocaram a humanidade a todo o bem. Eles uniram as pessoas no amor a Deus, convidaram-nas para as religiões da unidade da humanidade e as exortaram à amizade e concórdia. Mencionamos, por exemplo, Abraão e Moisés. Com isso, não nos referimos meramente às limitações de Seus nomes, mas sim às virtudes que esses nomes incorporam. Quando nos referimos a Abraão, queremos dizer a manifestação da guia divina, um centro das virtudes humanas, uma fonte de dádivas celestiais à humanidade, um horizonte de inspiração e perfeições divinas. Essas perfeições e graças não se confinam a nomes e limites. Quando encontramos essas virtudes, qualidades e atributos em qualquer personalidade, reconhecemos a mesma realidade que nela resplandece e nos curvamos diante do reconhecimento das perfeições de Abraão. De modo semelhante, reconhecemos e adoramos a beleza de Moisés. Algumas almas eram amantes do nome de Abraão, afeiçoando-se à lâmpada em vez da luz, e quando viram essa mesma luz brilhando em outra lâmpada, estavam tão apegadas à primeira lâmpada que não reconheceram a luz em seu aparecimento mais recente. Por isso, os que estavam apegados e tenazmente agarrados ao nome de Abraão privaram-se quando as virtudes abraâmicas apareceram em Moisés. De modo semelhante, os judeus acreditavam em Moisés e estavam esperando o Messias. As virtudes e perfeições de Moisés surgiram mais esplendorosas em Jesus Cristo, mas os judeus estavam apegados ao nome de Moisés e não adoravam as virtudes e perfeições nEle manifestas. Se estivessem adorando essas virtudes e buscando essas perfeições, eles seguramente teriam acreditado em Jesus Cristo quando as mesmas perfeições brilharam nEle. Se amamos a luz, nós a adoramos em qualquer lâmpada que ela se manifeste, mas se amamos a própria lâmpada e a luz é transferida a outra lâmpada, não a aceitamos nem a aprovamos. Por isso, devemos seguir e adorar as virtudes reveladas nos Mensageiros de Deus - sejam elas reveladas em Abraão, Moisés, Jesus ou outro Profeta - mas não devemos nos apegar à lâmpada e adorá-la. Devemos reconhecer o sol, não importa em que ponto do horizonte brilhe, seja ele o de Moisés, de Abraão ou de qualquer outro ponto de orientação, pois somos adoradores da luz do sol e não do ponto do horizonte. Somos amantes da iluminação e não de lâmpadas e velas. Somos buscadores de água, não importa de que rocha ela verta. Somos carentes do fruto, seja qual for o pomar em que ele amadureça. Ansiamos pela chuva, qualquer que seja a nuvem da qual ela cai. Não devemos estar presos. Se renunciarmos esses grilhões, entraremos em acordo, pois todos buscamos a verdade. A falsificação ou imitação da verdadeira religião adulterou a crença humana, e os fundamentos foram perdidos de vista. A divergência dessas imitações criou inimizade e conflito, guerra e derramamento de sangue. Agora, o glorioso e brilhante século vinte alvoreceu, e as graças divinas se irradiam universalmente. O Sol da Verdade resplandece com toda intensidade. Este é, em verdade, o século em que essas imitações devem ser eliminadas, superstições, abandonadas, e somente Deus deve ser adorado. Para podermos nos harmonizar, devemos considerar a realidade dos Profetas e Seus ensinamentos.

Louvado seja Deus! A primavera de Deus está ao alcance. Este século é, em verdade, a estação vernal. O mundo do espírito e o reino da alma se refrescaram e se tornaram verdejantes pelas suas dádivas. Ela ressuscitou todo o reino da existência. De um lado, as luzes da realidade estão brilhando; do outro, as nuvens da misericórdia divina fazem cair plenamente as graças celestiais. O maravilhoso progresso material está evidente, e grandes descobertas espirituais estão sendo feitas. Este realmente pode ser chamado o milagre dos séculos, pois está repleto de manifestações miraculosas. Já chegou o tempo em que toda a humanidade deve se unir, quando todas as raças devem ser leais a uma só pátria, o tempo de todas as religiões se tornarem uma só e os preconceitos raciais e religiosos serem eliminados. Este é o dia em que a unicidade da humanidade deve erguer seu estandarte e a paz internacional, como o próprio amanhecer, iluminar o mundo com sua luz. Por isso, suplicamos a Deus, pedindo-Lhe que disperse estas tenebrosas nuvens e erradique essas imitações a fim de que Oriente e Ocidente possam se tornar radiantes com amor e unidade, que as nações do mundo se abracem e a fraternidade espiritual ideal ilumine o mundo como o glorioso sol zenital.

IV
A CAUSA DA DISCÓRDIA

Para os historiadores, este século radiante é equivalente a cem séculos do passado. Se o compararmos com a totalidade das realizações anteriores do homem, veremos que as descobertas, o progresso científico e a civilização material deste século atual igualaram e até mesmo ultrapassaram em muito o progresso e as realizações de cem séculos anteriores. A produção de livros e as compilações de literatura dão testemunho suficiente de que o produto da mente humana neste século foi maior e mais iluminador do que o conjunto de todos os séculos anteriores. É evidente, portanto, que este século é de importância suprema. Refleti sobre os milagres das realizações que já o caracterizaram: as descobertas em todos os campos de pesquisa humana. Invenções, conhecimento científico, reformas e regulamentações éticas estabelecidas para o bem-estar da humanidade, mistérios da natureza explorados, forças invisíveis tornadas visíveis e dominadas - um mundo realmente prodigioso, de novos fenômenos e condições até então desconhecidos ao homem, agora aberto à sua utilização e maiores investigações. O Oriente e o Ocidente podem se comunicar instantaneamente. Um ser humano pode voar nos ares ou se aventurar pelas profundezas submarinas. A energia do vapor interligou os continentes. Trens cruzam os desertos e eliminam a barreira das montanhas; navios abrem caminhos seguros nos oceanos inacessíveis. Dia a dia aumentam as descobertas. Que século maravilhoso é esse! É uma época de reforma universal. Leis e estatutos de governos federais e civis estão em processo de mudança e transformação. As ciências e artes estão sendo renovadas. O pensamento sofre metamorfose. As bases da sociedade estão sendo mudadas e fortalecidas. Hoje as ciências do passado são inúteis. O sistema astronômico de Ptolomeu e inúmeros outros sistemas e teorias de explanação científica e filosófica são descartados e reputados como falsos e inúteis. Princípios e precedentes éticos não podem ser aplicados às necessidades do mundo moderno. Pensamentos e teorias de épocas passadas agora são estéreis. Tronos e governos estão cambaleando e caindo. Todas as condições e requisitos do passado, impróprios e inadequados para a época atual, estão sofrendo transformação radical. É evidente, portanto, que ensinamentos religiosos falsos e espúrios, e formas de crenças antiquadas e imitações ancestrais que divergem dos fundamentos da realidade divina também devem ser deixados de lado e reformados. Eles devem ser abandonados e novas condições devem ser reconhecidas. A moralidade humana deve passar por mudanças. Devem-se adotar novos remédios e soluções para os problemas humanos. Os próprios intelectos humanos devem mudar e se sujeitar à reforma universal. Assim como os pensamentos e hipóteses das eras passadas são inúteis hoje, dogmas e códigos inventados pelo homem são igualmente obsoletos e contraproducentes na religião. Na verdade são causa de inimizade e conduzem o mundo humano à contenda; guerra e carnificina são seus produtos, e a unicidade da humanidade não encontra abrigo nas suas observâncias. Portanto, é nosso dever, neste século radiante, investigar os aspectos essenciais da religião divina, buscar as verdades subjacentes à unicidade do mundo humano e descobrir a fonte de camaradagem e concórdia que unirá a humanidade nos laços celestiais de amor. Esta unidade é a luz da eternidade, a divina espiritualidade, o esplendor de Deus e a graça do Reino. Devemos investigar a fonte divina dessas dádivas celestiais e aderir a elas com toda firmeza. Pois se permanecermos presos e limitados pelos dogmas inventados pelo homem, dia a dia o mundo humano se degradará, dia a dia o conflito e a contenda crescerão e as forças satânicas convergirão para a destruição da raça humana.

Se amor e acordo se manifestarem numa única família, aquela família avançará, e se tornará iluminada e espiritual; mas se inimizade e ódio existirem em seu seio, a destruição e a dispersão são inevitáveis. Isto é verdadeiro também para uma cidade. Se os seus habitantes manifestarem um espírito de harmonia e fraternidade, ela progredirá constantemente e as condições humanas se tornarão mais radiantes, ao passo que através de inimizade e contenda ela degradará e seus habitantes se dispersarão. Do mesmo modo, o povo de uma nação se desenvolve e avança em direção à civilização e iluminação através de amor e concórdia, e se desintegra pela guerra e conflito. Finalmente, isto vale para a própria humanidade como um todo. Quando o amor for efetivo e os laços espirituais perfeitos unirem os corações humanos, toda a raça humana se elevará, o mundo continuamente crescerá em espiritualidade e radiância, e a felicidade e tranqüilidade da humanidade aumentarão imensuravelmente. Conflito e contenda serão eliminados, dissensão e discórdia serão deixados de lado e paz universal unirá as nações e os povos do mundo. Toda a humanidade viverá em conjunto como uma família, mesclada como as ondas de um mar, brilhará como estrelas de um firmamento e como frutos de uma mesma árvore. Esta é a alegria e a felicidade da humanidade. Esta é a iluminação do homem, a glória eterna e a vida imperecível; esta é a dádiva divina. Desejo esta condição para vós, e peço a Deus que o povo da América possa alcançar este grande destino de modo que as virtudes dessa democracia possam ser asseguradas e que seus nomes sejam eternamente glorificados.

V
PAZ UNIVERSAL

Hoje não há maior glória para o homem do que o serviço na causa da Suprema Paz. Paz é luz, ao passo que guerra é escuridão. Paz é vida; guerra é morte. Paz é guia; guerra é erro. Paz é o alicerce de Deus; guerra é uma instituição satânica. Paz é a iluminação do mundo da humanidade; guerra é o destruidor das bases humanas. Quando consideramos os resultados do mundo da existência, vemos que paz e companheirismo são fatores de construção e melhora, enquanto guerra e conflito são causas de destruição e desintegração. Todas as coisas criadas são a expressões da afinidade e coesão das substâncias elementares, e a inexistência é a ausência de sua atração e harmonia. Vários elementos se unem harmoniosamente na composição, mas quando esses elementos se tornam antagônicos, repelindo uns aos outros, o resultado é decomposição e inexistência. Tudo participa desta característica e está sujeito a este princípio, pois em todos os graus e reinos a base criativa é uma expressão ou resultado de amor. Considerai a intranqüilidade e a agitação do mundo humano hoje por causa da guerra. Paz é saúde e construção; guerra é enfermidade e dissolução. Quando a bandeira da verdade é erguida, a paz se torna causa de bem-estar e progresso do mundo humano. Em todas as eras e ciclos, a guerra foi um fator de transtorno e mal-estar, enquanto a paz e a fraternidade conferiram segurança e consideração aos interesses humanos. Esta distinção é especialmente saliente nas condições do mundo de hoje, pois em séculos passados a guerra não havia atingido o grau de selvageria e destruição que a caracteriza agora. No passado, se duas nações estivessem em guerra, dez ou vinte mil homens eram sacrificados, mas neste século, a destruição de cem mil homens num só dia é perfeitamente possível. A ciência da matança foi tão aperfeiçoada e tão eficientes se tornaram os meios e instrumentos de sua execução que toda uma nação pode ser eliminada em pouco tempo. Por isso, não há termo de comparação com os métodos e conseqüências das guerras antigas.

De acordo com uma lei intrínseca, todos os fenômenos da existência atingem um alto ponto e grau de consumação, após o qual uma nova ordem e condição é estabelecida. Como a ciência e os instrumentos de guerra alcançaram um grau de precisão e eficiência, espera-se que a transformação do mundo humano esteja à mão e que nos séculos vindouros todas as energias e invenções do homem sejam utilizadas na promoção dos interesses da paz e fraternidade. Por isso, que esta estimada e digna sociedade* seja confirmada e fortalecida por Deus nas suas sinceras intenções de estabelecer a paz universal. Então se apressará o tempo em que a bandeira da concórdia universal será erguida e o bem-estar internacional, proclamado e realizado, de modo que a escuridão que ora envolve o mundo há de passar.

*New York Peace Society

Há sessenta anos, Bahá'u'lláh estava na Pérsia. Há setenta anos, o Báb surgiu lá. Estas duas Almas Abençoadas dedicaram Suas vidas ao estabelecimento da paz e do amor internacionais entre a humanidade. Eles Se esforçaram de coração e alma para estabelecer os ensinamentos pelos quais os povos divergentes poderiam ser reunidos, sem conflito, rancor e ódio. Dirigindo-Se a toda a humanidade, Bahá'u'lláh disse que Adão, o pai da humanidade, pode ser comparado à árvore da vida, da qual vós sois folhas e flores. Uma vez que vossa origem foi uma, deveis agora ser unidos em harmonia; deveis vos associar uns com os outros com alegria e fragrância. Ele denominou o preconceito - seja religioso, racial, patriótico, político - como destruidor da sociedade. Ele disse que o homem deve reconhecer a unicidade da humanidade, pois originalmente todos pertencem ao mesmo lar e são servos do mesmo Deus. Portanto, o gênero humano deve continuar num estado de amizade e amor, emulando as instituições divinas e se afastando das sugestões satânicas, pois as dádivas divinas conduzem à unidade e harmonia, enquanto as tentações satânicas induzem ao ódio e à guerra.

Esta notável Personalidade conseguiu, através desses princípios, estabelecer laços de unidade entre diferentes seitas e povos antagônicos da Pérsia. Os que seguiram Seus ensinamentos, não importa a que denominação ou facção pertencessem, foram ligados pelos laços de amor e até hoje cooperam e convivem em paz e harmonia. São verdadeiros irmãos e irmãs. Não se vê qualquer distinção de classe entre eles, e prevalece completa harmonia. Dia a dia este laço de afinidade se fortalece e sua camaradagem espiritual se desenvolve constantemente. Para assegurar o progresso da humanidade e estabelecer estes princípios, Bahá'u'lláh sofreu todas as provações e dificuldades. O Báb foi martirizado e mais de vinte mil homens e mulheres sacrificaram suas vidas pela sua fé. Bahá'u'lláh foi aprisionado e submetido a severas perseguições. Finalmente, Ele foi exilado da Pérsia para a Mesopotâmia; de Bagdá foi mandado a Constantinopla e Adrianópolis, e de lá para a prisão de 'Akká, na Síria.* Através de todas essas provações, Ele Se empenhou, dia e noite, em proclamar a unicidade da humanidade e promulgar a mensagem da paz universal. Da prisão de 'Akká, Ele Se dirigiu aos reis e governantes do mundo através de longas cartas, convocando-os para a concórdia internacional, afirmando explicitamente que o estandarte da Suprema Paz certamente seria erguido no mundo.

*Atualmente, 'Akká pertence ao Estado de Israel. n.t.

Isso veio a acontecer. Os poderes da terra não podem se opor aos privilégios e dádivas que Deus ordenou para este grande e glorioso século. É uma necessidade e exigência do tempo. O homem pode impedir qualquer coisa exceto aquilo que é divinamente intencionado e indicado para a época e suas exigências. Ora - louvado seja Deus! - em todos os países do mundo podem ser encontrados amantes da paz, e estes princípios estão sendo difundidos entre o gênero humano, especialmente neste país. Louvado seja Deus! Este pensamento prevalece e as almas estão constantemente se levantando como defensores da unicidade da humanidade, esforçando-se para ajudar a estabelecer a paz internacional. Não há dúvida de que esta maravilhosa democracia conseguirá realizar isso, e a bandeira da conciliação internacional será desfraldada aqui para se difundir amplamente entre todas as nações do mundo. Dou graças a Deus por vos encontrar imbuídos com tais suscetibilidades e aspirações sublimes, e espero que sejais o instrumento para difundir esta luz entre todos os homens. Assim o Sol da Realidade poderá brilhar sobre o Oriente e o Ocidente. As envolventes nuvens se extinguirão, e o calor dos divinos raios dissipará o nevoeiro. A realidade do homem se desenvolverá e se apresentará como a imagem de Deus, seu Criador. Os pensamentos do homem voarão tão alto que as realizações anteriores parecerão brincadeira de criança, pois as idéias e crenças do passado, e os preconceitos relativos a raça e religião sempre rebaixaram o homem e impediram sua evolução. Tenho muita esperança de que neste século estes pensamentos elevados serão conducentes à prosperidade humana. Que este século seja o sol dos séculos anteriores, cujas fulgências durarão para sempre, de modo que no futuro se glorifique o século vinte, dizendo que o século vinte foi o século de luzes, que o século vinte foi o século de vida, que o século vinte foi o século da paz internacional, que o século vinte foi o século das dádivas divinas, e que o século vinte deixou sinais que jamais se extinguirão.

VI
OS PROFETAS E A GUERRA

Quando examinamos a história desde o início até o presente, vemos que conflito e contenda prevaleceram por todo o mundo humano. Guerras - religiosas, raciais ou políticas - originaram-se da ignorância humana, desentendimento e falta de educação. Vamos considerar primeiramente o conflito e a contenda religiosa.

É evidente que os Profetas divinos surgiram no mundo para estabelecer amor e concórdia entre o gênero humano. Eles foram os Pastores e não os lobos. O Pastor vem para reunir e conduzir seu rebanho, e não dispersá-lo criando contenda. Todo Pastor divino reuniu um rebanho anteriormente disperso. Entre os Pastores houve Moisés. Num tempo em que as tribos de Israel estavam dispersas e à deriva, Ele juntou, uniu e educou-as até os mais elevados graus de capacidade e progresso até saírem do deserto da disciplina para a sagrada terra da possessão. Ele transformou sua degradação em glória, sua pobreza em riqueza e substituiu seus vícios em virtudes até se erguerem a tais alturas que tornaram possível o esplendor da soberania de Salomão e a fama de sua civilização se estendeu para o Oriente e o Ocidente. É evidente, portanto, que Moisés foi um Pastor divino, pois congregou as tribos de Israel e uniu-as no poder e força de uma grande nação.

Quando a estrela messiânica de Jesus Cristo apareceu, Ele declarou ter vindo para juntar as tribos perdidas ou ovelhas dispersas de Moisés. Ele não somente conduziu o rebanho de Israel, mas reuniu os povos da Caldéia, do Egito, da Síria, da antiga Assíria e da Fenícia. Esses povos se encontravam num estado de máxima hostilidade, sedentos do sangue uns dos outros com a ferocidade de animais; mas Jesus Cristo os reconciliou, juntou e uniu em Sua Causa, e estabeleceu tal laço de amor entre eles que abandonaram a hostilidade e a inimizade. É evidente, portanto, que os ensinamentos divinos são para criar laços de união no mundo humano e estabelecer os fundamentos de amor e camaradagem entre o gênero humano. A religião divina não é causa de discórdia e desarmonia. Se a religião for fonte de antagonismo e contenda, a ausência de religião será preferível. A religião está destinada a ser uma nova vida para o corpo da sociedade humana; se ela fosse causar a morte da humanidade, sua inexistência seria uma bênção e um benefício para o homem. Portanto, neste dia, deve-se buscar os ensinamentos divinos, pois eles constituem o remédio para a condição atual do mundo humano. O propósito de um remédio é curar e restabelecer a saúde. Se ele ocasionar a piora dos sintomas, sua ausência e eliminação serão preferíveis.

Numa época em que as tribos árabes e povos nômades estavam completamente desunidos, vivendo no deserto, sem lei, em constante carnificina, sem que uma tribo estivesse livre da ameaça de ataque e destruição por outra - numa época crítica assim apareceu Muhammad. Ele congregou essas tribos selvagens do deserto, reconciliou-as, uniu-as e fez com que se congraçassem de modo que a inimizade e a guerra cessaram. A nação árabe progrediu imediatamente até seu domínio se estender em direção ao Ocidente até a Espanha e Andaluzia.

Desses fatos e premissas podemos concluir que o estabelecimento das divinas religiões visa a paz, não a guerra e a carnificina. Visto que todas elas se fundamentam numa só realidade que é amor e unidade, as guerras e dissensões que têm caracterizado a história da religião ocorreram devido às imitações e superstições que surgiram posteriormente. A religião é a realidade, e a realidade é uma só. Portanto, os fundamentos da religião de Deus são na verdade uma só. Não há distinção nem mudança em seus fundamentos. A diferença é causada pelas cegas imitações, preconceitos e adesão a formas externas que aparecem mais tarde; e uma vez que essas diferem entre si, ocasionam discórdia e contenda. Se as religiões do mundo eliminassem essas causas de dificuldades e procurassem os fundamentos, todos concordariam, e contenda e dissensão seriam banidas; pois religião e realidade são uma coisa só e não múltiplas.

Outras guerras são causadas por diferenças puramente imaginárias de raça; pois a humanidade é uma espécie, uma raça e ancestralidade, habitando o mesmo globo. No plano criativo, não há distinção e separação tal como franceses, ingleses, americanos, alemães, italianos ou espanhóis; todos pertencem ao mesmo lar. Essas fronteiras e separações são artificiais e de origem humana, não são naturais nem autênticas. Todos os homens são frutos de uma árvore, flores do mesmo jardim, ondas de um só mar. No reino animal não se vê tal distinção e separação. As ovelhas do Oriente e do Ocidente se associariam pacificamente. Os rebanhos do Oriente não pareceriam surpresos, como se dissessem: "Essas são ovelhas ocidentais; elas não pertencem ao nosso país." Todas se reuniriam em harmonia e desfrutariam do mesmo pasto, sem qualquer sinal de distinção de país ou de raça. Os pássaros de diferentes países se misturam em harmonia. Encontramos estas virtudes no reino animal. Deve o homem se privar dessas virtudes? O homem é dotado de um poder de raciocínio e percepção superior; ele é a manifestação das dádivas divinas. Será que idéias raciais devem prevalecer e obscurecer o propósito criativo da unidade em seu reino? Deve-se dizer: "Eu sou alemão", "Eu sou francês" ou "Eu sou inglês" e declarar guerra por causa desta distinção imaginária criada pelo homem? Deus proíba! Esta terra é um só lar e a terra natal de toda a humanidade; a raça humana deve, portanto, ignorar diferenças e fronteiras que são artificiais e conduzem à desarmonia e hostilidade. Nós viemos do Oriente. Louvado seja Deus! Encontramos este continente próspero, o clima é sadio e agradável, os habitantes são cordiais e amáveis, o governo é eqüitativo e justo. Devemos cultivar qualquer outro pensamento e sentimento que não seja amor por vós? Devemos dizer: "Esta não é a nossa terra natal; portanto tudo é censurável?" Isto seria uma ignorância grosseira à qual o homem não deve se sujeitar. O ser humano é dotado da capacidade de investigar a realidade, e a realidade é que a humanidade é uma só espécie e igual no plano da criação. Portanto, as falsas distinções de raça e de pátria, as quais são causadoras de conflito, devem ser abandonadas.

Considerai o que está acontecendo em Trípoli*: como os pobres estão sendo mortos e o sangue dos desamparados está sendo derramado em ambos os lados; pais lamentando a morte de seus filhos; mães velando a perda de seus queridos. E, afinal, qual a vantagem disso? Nada que se possa pensar. Seria, portanto, justificável? Os animais domésticos não manifestam ódio e crueldade uns aos outros; este é atributo dos animais selvagens e ferozes. Num rebanho de mil ovelhas não se vê um derramamento de sangue. Inúmeras espécies de pássaros são pacíficas em seus bandos. Lobos, leões e tigres são ferozes porque é o seu meio natural e necessário de obterem alimento. O homem não necessita de tal ferocidade; seu alimento é obtido de outras maneiras. Assim, é evidente que conflito, crueldade e carnificina no reino humano resultam da ganância, ódio e egoísmo humanos. Os reis e governantes das nações gozam de luxo e conforto em seus palácios, e mandam as pessoas comuns para o campo de batalha - fazem delas alimento e alvos de canhões. A cada dia inventam novos instrumentos para a mais completa destruição das fundações da raça humana. Eles são empedernidos e impiedosos aos seus semelhantes. O que pode reparar o sofrimento e a tristeza das mães que tão ternamente cuidaram de seus filhos? Quantas noites elas passaram sem dormir, e quantos dias de dedicação e amor para conduzir suas crianças até a maturidade! Mas a selvageria desses governantes sanguinários faz com que num só dia um grande número de suas vítimas seja dilacerado e mutilado. Quanta ignorância e degradação, até mesmo maior que a das próprias bestas selvagens! Pois um lobo leva e devora uma ovelha de cada vez, ao passo que um tirano ambicioso pode causar a morte de cem mil homens numa batalha e se vangloriar de sua bravura militar, dizendo: "Eu sou o comandante; eu conquistei essa grandiosa vitória." Considerai a ignorância e a incoerência da raça humana. Se um homem mata outro, não importa por que motivo, ele é acusado de assassinato, aprisionado e executado; mas o brutal opressor que matou cem mil é idolatrado como herói, conquistador ou gênio militar. Um homem rouba uma pequena quantia em dinheiro; ele é chamado de ladrão e é mandado para a penitenciária; mas um líder militar que invade todo um reino e o saqueia, é aclamado como um heróico e poderoso homem de valor. Quão vil e ignorante é o homem!

*1912.

Na Pérsia, antes dos meados do século dezenove, havia a máxima inimizade, contenda e ódio entre os diferentes povos, tribos, seitas e denominações. Naquele tempo todas as outras nações do Oriente também estavam nessas mesmas condições. Os homens da religião eram hostis e intolerantes, seitas eram inimigas, raças se odiavam uma às outras, tribos estavam em constante guerra, e em todo lugar prevaleciam antagonismo e conflito. As pessoas se afastavam e suspeitavam umas das outras. Um homem que matava muitos de seus semelhantes era glorificado pelo seu heroísmo e poder. Entre os religiosos era considerado um ato meritório matar alguém que tivesse uma crença oposta. Nessa época Bahá'u'lláh levantou-Se e declarou Sua missão. Ele inaugurou a unicidade do mundo humano, proclamou que todos são servos do Deus amoroso e misericordioso que criou, nutriu e proveu a todos; por que deveriam os homens, pois, ser injustos e maus uns com os outros, mostrando aquilo que é oposto a Deus? Uma vez que Ele nos ama, por que deveríamos nutrir animosidade e ódio? Se Deus não amasse a todos, Ele não teria criado, educado e provido a todos. A bondade amorosa é a política de Deus. Poderíamos considerar a atitude e a política humana superiores à sabedoria e política de Deus? Isto seria inconcebível, impossível. Portanto, devemos emular e seguir a política divina, tratando uns aos outros com o máximo amor e ternura.

Bahá'u'lláh proclamou a Suprema Paz e o arbitramento internacional. Ele anunciou estes princípios em numerosas Epístolas que circularam amplamente em todo o Oriente. Ele escreveu a todos os reis e governantes, encorajando, aconselhando e advertindo-os em relação ao estabelecimento da paz, deixando claro, através de provas conclusivas, de que a felicidade e a glória da humanidade só podem ser asseguradas através do desarmamento e arbitramento. Isto foi quase cinqüenta anos atrás. Por ter promulgado a mensagem da paz universal e harmonia internacional, os reis do Oriente se levantaram contra Ele, pois não viam seus interesses pessoais e nacionais satisfeitos com Suas admoestações e ensinamentos. Eles o perseguiram severamente, amontoaram sobre Ele todos os tormentos, encarceraram-No, submeteram-No à bastonada, baniram-No e finalmente O confinaram numa fortaleza. Depois se levantaram contra Seus seguidores. Pelo estabelecimento da paz internacional foi derramado o sangue de vinte mil bahá'ís. Suas casas foram destruídas, seus filhos foram presos e suas posses, pilhadas, mas nenhuma dessas pessoas se tornou fria ou hesitante em sua devoção. Ainda hoje os bahá'ís são perseguidos, e muito recentemente vários foram mortos, pois onde quer que eles se encontrem, envidam o maior esforço em estabelecer a paz no mundo. Não somente promulgam princípios; eles são pessoas de ação.

Por causa dos ensinamentos de Bahá'u'lláh, hoje encontrareis na Pérsia pessoas de várias crenças e denominações convivendo na maior paz e concórdia. Os antigos ódios e inimizades foram abandonados, e eles têm o máximo amor por toda a humanidade, pois percebem e sabem que todos são criaturas e servos de um só Deus. Isto é diretamente devido aos ensinamentos divinos. Quando muito, o que ocorre é o seguinte: os ignorantes devem ser educados, os enfermos devem ser curados, aqueles que, no aspecto de desenvolvimento são como crianças, devem ser ajudados a atingir a maturidade. Não devemos ser hostis a ninguém por causa de sua falta de conhecimento; nem devemos rejeitar os imaturos, ou desprezar os doentes, mas devemos administrar o remédio para cada necessidade humana até que todos sejam unidos sob a providência de Deus. É evidente, portanto, que os fundamentos essenciais das religiões divinas são unidade e amor. Se a religião for causa de discórdia entre os homens, ela é destrutiva e não divina, pois religião implica em unidade e congraçamento e não separação. O mero conhecimento de princípios não é suficiente. Nós todos sabemos e admitimos que justiça é algo bom, mas há a necessidade de vontade e ação para executá-la e manifestá-la. Por exemplo, podemos achar bom construir uma igreja, mas simplesmente pensar nisso como uma coisa boa não ajudará em erguê-la. Devem ser providos os meios e o modo; devemos ter vontade de construí-la e então executar sua construção. Todos nós sabemos que paz internacional é algo bom, que conduz ao bem-estar humano e à glória do homem, mas são necessárias vontade e ação para que ela possa ser estabelecida. Ação é essencial. Uma vez que este é o século de luz, a capacidade de ação é assegurada à humanidade. Os princípios divinos serão necessariamente difundidos entre os homens até que chegue o tempo de ação. Certamente isto aconteceu e em verdade agora a época e as condições estão maduras para ação. Todos os homens sabem, verdadeiramente, que a guerra destrói as bases humanas, e em todo país do mundo isto é sabido e claro. Acho os Estados Unidos da América uma nação extremamente progressista, o governo justo, o povo num estado de alerta e o princípio de igualdade estabelecido num grau extraordinário. Por isso, minha esperança é que, uma vez que o estandarte da paz internacional deve ser erguido, que seja sobre este continente, pois esta nação é mais merecedora e possui maior capacidade para tal passo inicial do que qualquer outra. Se outras nações tentassem fazer isso, o motivo seria mal compreendido. Se, por exemplo, a Grã-Bretanha fizesse uma declaração de paz internacional, diriam que isto foi feito para garantir a proteção de suas colônias. Se a França erguesse o estandarte, outras nações declarariam haver alguma política diplomática oculta por trás dessa ação; a Rússia seria suspeita de interesses nacionais se seu povo desse o primeiro passo, e o mesmo ocorreria com todos os governos europeus e orientais. Mas os Estados Unidos da América não poderiam ser acusados de qualquer um desses interesses egoístas. Estritamente falando, vosso governo não possui colônia alguma para proteger. Vós não estais empenhados em ampliar vosso domínio, nem tendes necessidade de expansão territorial. Por isso, se a América der o primeiro passo para o estabelecimento da paz mundial, isto certamente será atribuído a magnanimidade e altruísmo. O mundo dirá: "Não há outro motivo senão altruísmo e serviço à humanidade neste ato dos Estados Unidos." Assim, tenho a esperança de que vós possais vos destacar como os primeiros arautos da paz e erguer essa bandeira, pois essa bandeira será erguida. Erguei-a bem alto, pois vós sois a nação mais qualificada e merecedora. As outras nações aguardam esta convocação, esperam este chamado para o estandarte da reconciliação, pois o mundo inteiro está cansado do excessivo peso e dos irreparáveis danos da guerra. Os impostos o sobrecarregam até o esgotamento. Todo ano os encargos aumentam, e o povo está se consumindo. Agora mesmo a Europa está sendo um campo de batalha com munições prontas para serem disparadas, e um disparo inflamará o mundo todo. Antes que essas complicações e eventos cataclísmicos aconteçam, dai um passo para preveni-los.

Os fundamentos de todas as religiões divinas são a paz e a concórdia, mas o desentendimento e falta de conhecimento se expandiram. Se forem eliminados, vereis que todas as ações religiosas trabalharão pela paz e proclamarão a unicidade da espécie humana. Pois a base de todas é a verdade, e a verdade não é múltipla ou divisível. Moisés fundou-a, Jesus ergueu sua tenda, e sua brilhante luz se irradiou em todas as religiões. Bahá'u'lláh proclamou esta realidade única e difundiu a mensagem da Suprema Paz. Mesmo na prisão Ele não descansou até acender esta lâmpada no Oriente. Louvado seja Deus! Todos os que aceitaram Seus ensinamentos são amantes da paz, pacificadores prontos para sacrificar suas vidas e gastar suas posses em prol dela. Ora, que este estandarte seja erguido no Ocidente e muitos respondam a este chamado. A América se tornou renomada pelas suas descobertas, invenções e capacidade artística, famosa pela equidade de seu governo e surpreendentes empreendimentos; que agora ela seja também notada e celebrizada como a anunciadora e arauto da mensagem da paz universal. Que esta seja sua missão e empreendimento, e que seu abençoado ímpeto se difunda por todos os países. Oro por todos vós, para que possais prestar este serviço ao mundo da humanidade.

VII
OS ALICERCES DA UNIDADE MUNDIAL

Não existe nenhum ser humano cuja consciência não ateste que a mais relevante de todas as questões do mundo de hoje é a da paz universal. Todo homem justo dá testemunho disso e venera essa estimada Assembléia* por ser seu intuito a transformação dessas trevas em luz, dessa sede de sangue em bondade, desse tormento em bem-aventurança, desse sofrimento em bem-estar e dessa inimizade e ódio em amizade e amor. Portanto, o esforço dessas almas estimadas é merecedor de louvor e encômio.

*Os membros da Organização Central para uma Paz Duradoura, sediada em Haia, Holanda, aos quais esta Epístola foi enviada em resposta a diversas cartas.

Entretanto, as pessoas sábias que percebem as relações essenciais que emanam das realidades das coisas são de opinião que uma única questão isolada é incapaz, por si só, de exercer a devida e necessária influência sobre a realidade humana, pois enquanto as mentes dos homens não se unirem, nada de importante se realizará. Presentemente, a paz universal é uma questão de grande importância, mas a unidade de consciência é essencial, de modo que se tornem seguros os alicerces desta questão, firme seu estabelecimento e robusto seu edifício.

Por essa razão, há cinqüenta anos, Bahá'u'lláh esclareceu esse assunto - a paz universal - num tempo em que Se encontrava confinado na fortaleza de 'Akká, vítima de iniqüidade, mantido como prisioneiro. Ele escreveu sobre essa importante questão da paz universal a todos os grandes soberanos do mundo e estabeleceu-a entre Seus amigos do Oriente. O horizonte do Leste estava totalmente obscuro; as nações mostravam o maior ódio e inimizade mútuos, as religiões tinham sede do sangue umas das outras e predominavam trevas sobre trevas. Em semelhante época, Bahá'u'lláh resplandeceu como o Sol desde o horizonte do Oriente e iluminou a Pérsia com a luz desses ensinamentos.

Entre Seus ensinamentos figurava a proclamação da paz universal. As pessoas que O seguiram, oriundas de diferentes nações, religiões e seitas, uniram-se de tal maneira que reuniões notáveis foram estabelecidas, representativas das diversas nações e religiões do Oriente. Toda alma que ingressava nessas reuniões não via mais que uma única nação, um mesmo ensinamento, um caminho e uma só ordem, pois os princípios de Bahá'u'lláh não se limitavam ao estabelecimento da paz universal; compreendiam muitos preceitos que suplementavam e sustentavam esse princípio da paz universal.

Entre esses ensinamentos estava a investigação independente da realidade, para que o mundo humano possa ser salvo das trevas da imitação e chegue à verdade; para que arranque de si e jogue fora as vestes rotas e antiquadas de mil anos atrás e possa se adornar com o manto tecido com a maior pureza e santidade no tear da realidade é uma e não admite multiplicidade, as opiniões divergentes têm de fundir-se, afinal, em uma só.

E entre os ensinamentos de Bahá'u'lláh inclui-se a unidade do gênero humano: que todos os homens são as ovelhas de Deus e Ele é bondoso pastor trata com bondade todas as ovelhas, porque Ele as criou a todas, Ele as treinou, zelou e protegeu. Indubitavelmente, o Pastor é bondoso para com todas as ovelhas; e havendo entre elas algumas às quais faltam conhecimentos, cumpre educá-las; se existirem algumas imaturas, estas devem ser ensinadas até atingirem a maturidade; havendo ovelhas doentes, precisam ser curadas. Nenhum ódio ou inimizade deve haver, mas sim devem esses seres imaturos e enfermos ser tratados como que por um médico benévolo.

E entre os ensinamentos de Bahá'u'lláh está que a religião tem de ser causa de camaradagem e amor. Caso se torne motivo de desafeição dela não mais necessitamos, pois religião é como um remédio: se agrava o mal, torna-se desnecessária.

E outro dos ensinamentos de Bahá'u'lláh é que a religião deve estar em harmonia com a ciência e a razão, a fim de exercer influência sobre os corações dos homens. O alicerce deve ser sólido e não consistir em imitações.

E ainda outro dos preceitos de Bahá'u'lláh é o seguinte: os preconceitos raciais, políticos, econômicos e patrióticos destroem a estrutura da humanidade. Enquanto esses preconceitos predominarem, o mundo humano não encontrará sossego. A História informa-nos acerca de seis mil anos da vida da humanidade. Durante todos esses seis milênios, o mundo não se viu livre de guerra, contenda, matança e sede de sangue. Em cada período tem-se travado guerras em um ou outro país, e sempre por causa de algum preconceito - de religião, raça, política ou pátria. Logo, é fato evidente e provado que todos os preconceitos arrasam a estrutura humana; enquanto persistirem, a luta pela existência continuará a prevalecer, acompanhada de sede de sangue e rapacidade. Portanto, assim como no passado, o mundo humano não se salvará das trevas da natureza nem alcançará iluminação a menos que abandone os preconceitos e adquira a moral do Reino.

Se tal preconceito e inimizade nascem da religião, consideremos que a religião deveria ser causa de amizade; senão é infrutífera. E se esse preconceito for o de nacionalidade, ponderemos que toda a humanidade é da mesma nação; todos se originaram da árvore de Adão, sendo Adão a raiz. Essa árvore é uma só, e todas as nações são como os ramos, enquanto os seres humanos são suas folhas, flores e frutos. Assim, a constituição de nações diversas e a conseqüente carnificina e destruição da estrutura da humanidade resultam da ignorância humana e de fins egoístas.

Quanto ao preconceito patriótico, também provém de ignorância absoluta, pois a superfície do planeta é uma só terra natal. Cada um pode viver em qualquer parte do globo terrestre; o mundo inteiro, pois, é a pátria do homem. Essas divisões e fronteiras foram inventadas pelo homem; não foram determinadas na criação. A Europa é um único continente, a Ásia é um único continente, a África é um único continente, a Austrália é um único continente, mas algumas pessoas, movidas por fins pessoais e interesses egoístas, dividiram cada um desses continentes e consideraram certa parte como sendo seu próprio país. Deus não fixou divisa alguma entre a França e a Alemanha; são terras contínuas. Sim, nos tempos primitivos, almas egoístas, visando à promoção de seus próprios interesses, estabeleceram limites e divisões, aos quais deram mais e mais importância, até isso levar, em séculos subseqüentes, a intensa inimizade, rapacidade e carnificina. E assim continuará a ser por tempo indeterminado, e se esse conceito de patriotismo permanecer restrito a certo círculo, será a causa preponderante da destruição do mundo. Nenhuma pessoa sábia e justa admitirá essas distinções imaginárias. Consideramos nossa terra natal qualquer área circunscrita a que chamamos pátria, quando o globo terrestre é que é a terra natal de todos, não alguma área restrita. Em suma, vivemos por alguns dias nesta terra e, afinal, nela somos sepultados - é nosso jazigo perpétuo. Valerá a pena entregarmo-nos ao derramamento de sangue e despedaçarmos uns aos outros por este túmulo eterno? Não, longe disso! Tal conduta não pode aprazer a Deus, nem homem algum de juízo são a aprovará.

Considerai! Os animais abençoados não se envolvem em disputas patrióticas. Reina entre eles a maior amizade e vivem juntos, em harmonia. Se, por exemplo, um pombo do Leste, e um do Oeste, e outro do Norte, e outro do Sul chegam por acaso simultaneamente a um mesmo jardim, de imediato se associam com harmonia. Assim é com os quadrúpedes e aves abençoados. Os animais ferozes, todavia, logo que se defrontam, atacam-se e lutam e dilaceram-se mutuamente; é-lhes impossível viver em paz juntos no mesmo lugar. São todos insociáveis, ferozes, selvagens, pugnazes.

No que concerne ao preconceito econômico: é evidente que no momento em que os laços entre as nações se fortalecerem e se acelerar o intercâmbio de mercadorias, e qualquer princípio econômico for implantado em determinado país, isso terá influência, em última análise, sobre os demais países, e benefícios universais advirão. Por que, então, esse preconceito?

Com relação ao preconceito político: o que se deve seguir é o plano de ação de Deus, que é inquestionavelmente superior a qualquer esquema humano. Temos de nos guiar pela Política Divina, a qual se aplica a todos igualmente. Ele trata a todos da mesma forma, sem nenhuma distinção, e isso é a base das Religiões Divinas.

E entre os ensinamentos de Bahá'u'lláh figura a adoção de um idioma que possa ser difundido universalmente entre os homens. Esse preceito foi revelado pela pena de Bahá'u'lláh a fim de que, por meio dessa língua universal, se eliminassem os mal-entendidos entre os seres humanos.

E outro dos ensinamentos de Bahá'u'lláh é a igualdade entre homem e mulher. O mundo humano é dotado de duas asas: uma é a mulher, a outra o homem. A ave só poderá voar quando ambas as asas estiverem igualmente desenvolvidas. Se uma delas permanece fraca, o vôo é impossível. Enquanto o mundo feminino não se equiparar ao masculino na aquisição de virtudes e perfeições, não se atingirão devidamente o êxito e a prosperidade.

E entre os princípios de Bahá'u'lláh está a repartição voluntária dos bens com o semelhante. Essa partilha espontânea é superior à igualdade, e consiste em que o homem não se dê preferência a si mesmo sobre outrem, senão que sacrifique a vida e os haveres pelo próximo. Isso, entretanto, não deve ser introduzido pela coerção, de modo que se torne uma lei que o homem seja constrangido a obedecer. Não, antes, o ser humano deve, por sua própria vontade e opção, sacrificar as posses e a vida pelos outros e, de bom grado, dar aos pobres, assim como fazem os bahá'ís da Pérsia.

E entre os preceitos de Bahá'u'lláh inclui-se a liberdade do homem. Através do Poder ideal, ele deve libertar-se e emancipar-se do cativeiro do mundo natural. Pois enquanto o homem permanecer prisioneiro da natureza, será animal feroz, já que a luta pela existência é uma das exigências do mundo natural. Essa questão da luta pela existência é o manancial de todas as calamidades; é a aflição suprema.

E consta dos ensinamentos de Bahá'u'lláh que a religião é um poderoso baluarte. Se o edifício da religião for abalado e oscilar, seguir-se-ão comoção e caos, e a ordem das coisas será completamente transtornada, pois no mundo humano há duas salvaguardas que preservam o homem da perpetração de más ações. Uma é a lei, que pune o infrator, isto, porém, evita apenas o crime manifesto e não o pecado oculto; ao passo que a religião de Deus - a salvaguarda ideal - impede tanto a transgressão manifesta quanto a oculta, educa o homem, ensina a moral, leva ao desenvolvimento de virtudes e é o poder todo-abrangente que assegura a felicidade do mundo humano. Por religião entendemos, todavia, o que se averiguou mediante investigação, e não o que se baseia em mera imitação; queremos dizer os fundamentos das Religiões Divinas, não os arremedos humanos.

E é um dos princípios de Bahá'u'lláh que a civilização material, embora um dos meios do progresso do mundo humano, enquanto não estiver fundida com a civilização divina, não trará o resultado desejado, que é a felicidade do homem. Considerai! Essas belonaves que reduzem uma cidade a escombros no intervalo de uma hora são conseqüência da civilização material, como também o são os canhões Krupp, os rifles Mauser, a dinamite, os submarinos, os torpedeiros, os aviões de caça e os bombardeiros - todos esses instrumentos de guerra são os frutos malignos da civilização material. Tivesse a civilização material sido associada à divina, jamais tão terríveis armas teriam sido inventadas. Não, antes, a energia humana teria sido integralmente dedicada a invenções úteis e concentrada em descobrimentos louváveis. A civilização material assemelha-se a uma lâmpada e a divina, à luz. Sem luz, a lâmpada permanece escura. A civilização material é como o corpo. Por infinitas que sejam sua formosura, graça e beleza, ele é morto. A civilização divina é como o espírito. É o espírito que insufla vida no corpo; pois sem o espírito o corpo não passa de um cadáver. Conseqüentemente, está comprovado que o mundo humano necessita dos sopros do Espírito Santo. Sem espírito, o mundo humano carece de vida, e destituído dessa luz está em escuridão absoluta. Pois o mundo da natureza é um mundo animal, e o homem, até que renasça desse mundo, ou seja, se desprenda do mundo da natureza, será essencialmente animal. São os ensinamentos de Deus que transformam esse animal numa alma humana.

E outro dos princípios de Bahá'u'lláh é a promoção da educação. Toda criança deve ser instruída nas ciências tanto quanto necessário. Se aos pais for possível arcar com as despesas decorrentes dessa educação, ótimo; do contrário, incumbe à comunidade providenciar o ensino da criança.

E figuram entre os preceitos de Bahá'u'lláh a justiça e o direito. Enquanto estes não se estabelecerem no plano da existência, tudo permanecerá em desordem e imperfeição. O mundo humano é um mundo de opressão e crueldade, um reino de agressão e erro.

Em suma, tais ensinamentos são numerosos. Esses múltiplos princípios, que constituem a maior base para a felicidade da humanidade, e provêm da graça do Misericordioso, têm de ser adicionados à questão da paz universal e com esta combinados, a fim de se obterem resultados. Do contrário, difícil é a concretização da paz universal no mundo se tomada isoladamente. Os ensinamentos de Bahá'u'lláh, combinados com a paz universal, assemelham-se a uma mesa provida de toda sorte de alimento fresco e delicioso. Nessa mesa de generosidade infinita, cada alma pode encontrar o que deseja. Restringindo-se a questão exclusivamente à paz universal, os notáveis resultados esperados e desejados não serão atingidos. O escopo da paz universal deve ser tal que todas as comunidades e religiões nele vejam a realização de sua mais elevada aspiração. Os ensinamentos de Bahá'u'lláh são tais que todas as comunidades do mundo, quer religiosas, políticas ou éticas, quer antigas ou modernas, neles encontram a expressão de seu mais alto desiderato.

Os adeptos das religiões, por exemplo, encontram nos princípios de Bahá'u'lláh o estabelecimento da Religião Universal - religião esta que corresponde com perfeição às condições atuais, que efetua de fato a cura imediata do mal insanável, que alivia toda dor e proporciona o antídoto infalível de todo veneno mortífero. Pois se é nossa intenção ordenar e organizar o mundo humano de acordo com as imitações religiosas hodiernas - como, por exemplo, pela execução das leis da Tora ou das demais religiões conforme as imitações atuais -, então é possível e impraticável alcançar a felicidade do mundo humano. A base essencial de todas as Religiões Divinas, porém, que é pertinente às virtudes do mundo humano e é o alicerce de seu bem-estar, essa é encontrada nos ensinamentos de Bahá'u'lláh na mais perfeita apresentação.

Semelhantemente, no que respeita aos povos que clamam por liberdade: a liberdade moderada que garante o bem-estar do mundo humano e mantém e preserva as relações universais está presente, na plenitude máxima de seu vigor e extensão, nos princípios de Bahá'u'lláh.

De modo semelhante, com referência aos partidos políticos: aquilo que constitui a política maior que guia o mundo humano, não, ainda mais, que é a própria política divina encontra-se nos preceitos de Bahá'u'lláh.

Outrossim, no que tange ao partido da "igualdade", que se empenha na busca da solução dos problemas econômicos: até agora, todas as propostas de solução tem-se mostrado impraticáveis, com exceção das proposições econômicas dos ensinamentos de Bahá'u'lláh, que são exeqüíveis e não causam tormento à sociedade.

O mesmo se dá em relação aos demais grupos: se examinardes a fundo o assunto, descobrireis que as mais sublimes aspirações desses grupos estão presentes nos princípios de Bahá'u'lláh. Estes constituem o poder que a tudo abrange entre todos os homens, e são factíveis. ...

Consideramos, por exemplo, a questão da paz universal, acerca da qual Bahá'u'lláh afirma ser imperioso o estabelecimento do Supremo Tribunal: conquanto já tenha sido instituída a Liga das Nações, esta é incapaz de estabelecer a paz universal. O supremo Tribunal que Bahá'u'lláh descreve, porém, levará a cabo essa tarefa sagrada com a máxima pujança e poder. Eis o Seu plano: as assembléias nacionais de cada país e nação - ou seja, os parlamentos - devem eleger duas ou três pessoas que sejam as mais excelentes da nação - homens que estejam bem informados no que concerne às leis internacionais e às relações entre os governos, e conscientes das necessidades essenciais do mundo atual. O número desses representantes deve ser proporcional à população de cada país. A eleição dessas almas escolhidas pela assembléia nacional, isto é, pelo parlamento, tem de ser confirmada pela câmara alta, pelo congresso e pelo ministério, bem como pelo presidente ou monarca, de modo que essas pessoas sejam os eleitos de toda a nação e do governo. Dentre essas almas o Supremo Tribunal será eleito, e assim toda a humanidade nele terá participação, pois cada um desses delegados é plenamente representativo de sua nação. Ao tomar o Supremo Tribunal uma deliberação sobre qualquer questão internacional, seja por unanimidade, seja por maioria, não mais haverá pretexto para o querelante nem fundamento para objeção por parte do réu. Se qualquer governo ou nação for negligente ou dilatório no cumprimento da irrefutável decisão do Supremo Tribunal, contra ele erguer-se-ão todas as demais nações porquanto todos os governos e nações do mundo são os apoiadores dessa Corte Máxima. Considerai que alicerce forte é esse! A uma Liga limitada e restrita, porém, não será possível levar a efeito este propósito como cumpre e é necessário. Eis a verdade a respeito da situação, aqui exposta. ...

Hoje nada, a não ser o poder do Verbo de Deus, que envolve a realidade das coisas, pode reunir os pensamentos, as mentes, os corações e espíritos à sombra da mesma Árvore. Ele é o Potente em todas as coisas. Aquele que vivifica as almas e preserva e governa o mundo humano. Louvado seja Deus! Neste dia, a luz do Verbo de Deus irradiou sobre todas as regiões, religiões e seitas, vieram almas reunir-se à sombra da Palavra da Unidade, na mais íntima amizade, harmonia e união!

VIII
HARMONIA RACIAL

Hoje estou imensamente feliz, pois aqui* vejo uma reunião dos servos de Deus. Vejo brancos e negros sentados juntos. Não há brancos e negros perante Deus. Todas as cores são uma, e esta é a cor da servitude a Deus. Odor e cor não são importantes. O importante é o coração. Se o coração for puro, não faz diferença se é branco, negro ou de qualquer outra cor. Deus não olha as cores; Ele vê os corações. Aquele cujo coração é puro é melhor. Aquele cujo caráter é melhor é mais agradável. Aquele que se volve mais ao Reino de Abhá é mais adiantado.

*Howard University.

No reino da existência as cores não têm importância alguma. Observai, no reino mineral as cores não são causa de discórdia. No reino vegetal, as cores das flores multicoloridas não são causa de discórdia. Ao contrário, as cores são causa de adorno do jardim, pois uma só cor não é atraente; mas quando se vê flores de muitas cores, há encanto e beleza.

O mundo humano também é como um jardim, e a espécie humana, como as flores multicores. Por isso, as diferentes cores constituem adorno. Do mesmo modo, há muitas cores no reino animal. Os pombos são de muitas cores e, no entanto, vivem em completa harmonia. Eles nunca consideram cores, mas sim espécies. Quão freqüentemente pombos brancos voam junto com os pretos. Do mesmo modo, outros pássaros e animais de várias cores nunca levam cores em consideração; eles olham para a espécie.

Ora, ponderai sobre isto: os animais, apesar de carecerem de razão e entendimento, não fazem da cor um motivo de conflito. Por que o homem, que possui razão, deveria criar conflito? Isto é completamente indigno dele. Especialmente brancos e negros são descendentes do mesmo Adão; pertencem à mesma família. Em sua origem eles eram um; eram da mesma cor. Adão possuía uma só cor. Eva era de uma só cor. Toda a humanidades descende deles. Por isso, eles são da mesma origem. Posteriormente estas cores se desenvolveram devido a diferentes climas e regiões; não possuem qualquer significado. Por isso, hoje estou muito feliz, pois brancos e negros estão aqui reunidos. Tenho a esperança que esta união e harmonia cheguem a um grau tal que nenhuma distinção permaneça entre eles e que continuem juntos na máxima harmonia e amor.

Mas desejo dizer algo para que os negros sejam gratos aos brancos e os brancos, amorosos em relação aos negros. Se fordes à África e lá virdes os negros, vereis quanto progresso vós fizestes. Louvores a Deus! Sois como os brancos; não restam grandes distinções. Mas os negros da África são tratados como servos. A primeira proclamação da emancipação dos negros da África foi feita pelos brancos da América. Como eles lutaram e se sacrificaram até libertarem os negros! E isto se espalhou para outros lugares. Os negros da África estavam em completo cativeiro, mas vossa emancipação levou à libertação deles também - ou seja, os estados europeus emularam os americanos e a proclamação da emancipação se tornou universal. Foi por vossa causa que os brancos da América fizeram tal esforço. Se não fosse por esse esforço, a emancipação universal não teria sido proclamada.

Por isso, deveis ser muito gratos aos brancos da América, e os brancos devem se tornar muito amorosos convosco, a fim de que possais progredir em todos os graus humanos. Esforçai-vos em conjunto para fazer progresso extraordinário e mesclar-vos inteiramente. Em suma, deveis ser muito agradecidos aos brancos que foram a causa de vossa libertação na América. Não tivésseis sido libertados, outros negros tampouco o teriam sido. Então - louvado seja Deus! - todos são livres e vivem em tranqüilidade. Oro para que possais chegar a tal grau de bom caráter e conduta que a designação de negros e brancos se desvaneça. Todos devem ser chamados humanos, tal como a designação de um bando de pombos é pombo. Eles não são chamados de brancos e negros. O mesmo acontece com outros pássaros.

Espero que atinjais tal grau elevado - e isto é impossível senão através do amor. Deveis tentar criar amor entre vós, e este amor não acontece a não ser que sejais gratos aos brancos e os brancos sejam amorosos convosco, esforçando-se por promover vosso progresso e realçar vossa honra. Isto será causa de amor. Diferenças entre brancos e negros serão completamente obliteradas. De fato, todas as diferenças étnicas e nacionais desaparecerão.

Estou muito feliz em vê-los e grato a Deus por esta reunião estar composta de pessoas de ambas as raças, e por estarem ambas reunidas em perfeito amor e harmonia. Espero que isto se torne o exemplo de harmonia e amor universais até que nenhuma designação permaneça, exceto a de humanidade. Tal designação demonstra a perfeição do mundo humano e é a causa de glória eterna e felicidade humana. Oro para que vivais em máxima harmonia e amor, e vos esforceis em possibilitar ao outro uma vida confortável.

IX
O ESPÍRITO DA JUSTIÇA

O que poderia ser melhor perante Deus do que a consideração aos pobres? Pois os pobres são amados pelo nosso Pai celestial. Quando Cristo veio à terra, aqueles que nEle acreditaram e O seguiram foram os pobres e humildes, mostrando que os pobres estavam próximos a Deus. Quando um rico acredita e segue o Manifestante de Deus, isto é uma prova de que sua riqueza não é um obstáculo e não o impede de alcançar o caminho da salvação. Depois de ter sido testado e provado, ver-se-á se as suas posses são um obstáculo em sua vida religiosa. Mas os pobres são especialmente amados por Deus. Suas vidas são repletas de dificuldades, suas provações contínuas, suas esperanças são depositadas em Deus somente. Por isso, deveis ajudar os pobres tanto quanto possível, até mesmo através de vosso próprio sacrifício. Nenhum ato do homem é mais grandioso diante de Deus do que o auxílio aos pobres. As condições espirituais não dependem da posse de tesouros terrenos ou de sua ausência. Quando alguém é fisicamente desprovido, os pensamentos espirituais são mais prováveis. A pobreza é um estímulo em direção a Deus. Cada um de vós deve ter grande consideração para com o pobre e lhe prestar assistência. Organizai-vos num esforço para auxiliá-los e impedir o aumento da pobreza. O maior meio para a prevenção é aquele pelo qual as leis da comunidade sejam estruturadas e decretadas de modo que não haja a possibilidade de uns poucos serem milionários e muitos desprovidos. Um dos ensinamentos de Bahá'u'lláh é o ajuste dos meios de subsistência na sociedade humana. Sob este ajuste não pode haver extremos nas condições humanas relativas à riqueza e à subsistência. Pois a comunidade necessita de financistas, agricultores, comerciantes e operários, assim como um exército deve ser composto de comandante, oficiais e soldados. Todos não podem ser comandantes; todos não podem ser oficiais ou soldados. Cada um deve ser competente na sua posição dentro da estrutura social - cada um em sua função, de acordo com sua habilidade, mas com justiça de oportunidade para todos.

Licurgo, rei de Esparta, que viveu bem antes da época de Cristo, concebeu a idéia de igualdade absoluta no governo. Ele proclamou leis pelas quais todo o povo de Esparta foi classificado em certas categorias. Cada categoria tinha seus próprios direitos e funções. Primeiro, fazendeiros e lavradores. Segundo, artesãos e comerciantes. Terceiro, líderes ou nobres. Sob as leis de Licurgo, estes últimos não precisavam se ocupar com qualquer trabalho ou profissão, mas tinham a incumbência de defender o território em caso de guerra e invasão. Em seguida, ele dividiu Esparta em nove mil partes iguais ou províncias, designando nove mil líderes ou nobres para protegê-las. Deste modo, os fazendeiros de cada província tinham proteção assegurada, mas cada um deles era obrigado a pagar um imposto para manter o nobre daquela província. Os agricultores e comerciantes não eram obrigados a defender o território. Em vez de trabalho, os nobres recebiam os impostos. A fim de estabelecer isto como uma lei para sempre, Licurgo reuniu os nove mil nobres, disse-lhes que estava partindo para uma longa viagem e desejava que esta forma de governo permanecesse efetiva até seu retorno. Eles fizeram um juramento para proteger e preservar sua lei. Então, ele deixou seu reino, partiu para um exílio voluntário e nunca mais retornou. Nenhum homem jamais fez tal sacrifício para garantir a igualdade entre seus semelhantes. Passaram-se alguns anos e todo o sistema de governo que ele havia fundado entrou em colapso, embora tivesse sido estabelecido em bases tão justas e sábias.

A diferença de capacidade entre os indivíduos humanos é fundamental. É impossível a todos serem similares, todos serem iguais, todos serem sábios. Bahá'u'lláh revelou princípios e leis que realizarão o ajustamento das diversificadas capacidades humanas. Ele disse que tudo o que for possível realizar no governo humano será feito através destes princípios. Quando forem cumpridas as leis por Ele instituídas, na sociedade não haverá possibilidade de existirem milionários nem tampouco os extremamente pobres. Isto será realizado e regulado pelo ajustamento dos diferentes graus de capacidade humana. A base fundamental da sociedade é a agricultura, o cultivo da terra. Todos devem produzir. Cada pessoa na comunidade, cujas necessidades forem iguais à sua capacidade produtiva individual, deve ser isenta de taxação. Mas se a sua renda for maior do que suas necessidades deve pagar tributo até que um ajustamento seja estabelecido. Ou seja, a capacidade produtiva de uma pessoa e suas necessidades serão niveladas e reconciliadas através de tributação. Se sua produção exceder, ele pagará imposto; se suas necessidades excederem sua produção, ele receberá uma quantia suficiente para equilíbrio ou ajustamento. Portanto, a tributação será proporcional à capacidade e à produção, e não haverá pobres na sociedade.

X
COOPERAÇÃO

Parece que todas as criaturas podem viver por si próprias e sozinhas. Por exemplo, uma árvore pode viver solitária e isolada em uma dada campina ou em um vale ou na encosta de uma montanha. Um animal que habite em uma montanha ou um pássaro elevando-se pelo ar afora pode viver uma vida solitária. Eles não estão necessitados de cooperação ou solidariedade. Tais seres animados deleitam-se com o maior conforto e felicidade em suas respectivas vidas solitárias.

O homem, pelo contrário, não pode viver solitário e isolado. Ele está em necessidade de contínua cooperação e auxílio mútuo. Por exemplo, um homem que vive sozinho no deserto conseqüentemente passará fome. Ele jamais pode, por si próprio e isolado, prover-se de todas as necessidades à existência. Ele necessita, portanto, de cooperação e reciprocidade.

O mistério deste fenômeno, a causa disto, é que a humanidade foi criada de uma única origem, ramificou-se de uma só família. Assim, na realidade, toda a humanidade representa uma só família. Deus não criou qualquer diferença. Ele criou todos como um só, para que deste modo esta família possa viver em perfeita felicidade e bem-estar.

Com referência à reciprocidade e cooperação: cada membro da comunidade deve viver no máximo conforto e bem-estar porque cada indivíduo membro da humanidade é um membro da comunidade e, se um dos membros estiver em infortúnio ou for afligido por alguma enfermidade, todos os outros membros devem necessariamente sofrer. Por exemplo, o olho é um membro do organismo humano. Se o olho fosse afetado, aquela aflição afetaria o sistema nervoso por inteiro. Conseqüentemente, se um membro da comunidade tornar-se aflito, na realidade, do ponto de vista da ligação simpática, todos compartilharão essa aflição, uma vez que este (o aflito) é um membro do grupo, uma parte do todo. É possível a um membro ou parte estar em aflição e os outros membros permanecerem tranqüilos? É impossível! Por isso Deus deseja que no corpo político da humanidade cada um desfrute perfeito bem-estar e conforto.

Embora o corpo político seja uma só família, por causa da carência de relações harmoniosas alguns membros vivem confortavelmente e alguns na mais terrível miséria, alguns membros estão satisfeitos e alguns estão famintos, alguns membros estão vestidos com as mais dispendiosas roupas e algumas famílias encontram-se em carência de alimento e abrigo. Por quê? Porque esta família carece da necessária reciprocidade e simetria. Este lar não está bem organizado. Este lar não está vivendo sob uma lei perfeita. Todas as leis que são legisladas não asseguram felicidade. Não provêem conforto. Portanto uma lei deve ser concedida a esta família, através da qual todos os membros desfrutarão iguais bem-estar e felicidade.

É possível a um membro de uma família estar submetido à extrema miséria e à pobreza abjeta, e ao restante da família estar em conforto? É impossível, a não ser que esses membros da família sejam insensíveis, débeis, inóspitos, indelicados. Neste caso, eles diriam: "Embora tais membros de fato pertençam a nossa família, deixem-os abandonados. Deixem-os cuidar de si mesmos. Deixem que morram. Enquanto eu estiver confortável, eu for respeitado, eu for feliz, a este meu irmão, deixem-o morrer. Se ele estiver na miséria, deixem-o permanecer na miséria, contanto que eu esteja confortável. Se ele estiver com fome, deixem-o permanecer assim; eu estou satisfeito. Se estiver sem roupas, contanto que eu esteja vestido, deixem-o ficar assim. Se ele estiver sem abrigo, sem lar, contanto que eu tenha um lar, deixem-o permanecer no deserto."

Esta total indiferença na família humana é devida à ausência de controle, à falta de uma lei adequada, à falta de bondade em seu seio. Se houvesse sido demonstrada bondade aos membros desta família, certamente todos os seus membros teriam desfrutado conforto e felicidade.

Sua Santidade Bahá'u'lláh deu instruções relativas a cada uma das questões com as quais a humanidade se defronta. Ele deu ensinamentos e instruções com respeito a cada um dos problemas contra os quais o homem luta. Entre eles - os ensinamentos - figuram os que dizem respeito à questão econômica, a fim de que todos os membros da comunidade possam desfrutar da maior felicidade, bem-estar e conforto, sem que qualquer dano ou injúria agrida a ordem geral das coisas. Assim, nenhuma diferença ou dissensão ocorrerá. Não haverá lugar para sedição ou contenda. Tal solução é esta:

Primeiro e mais importante é o princípio de que a todos os membros da comunidade devem ser conferidas as maiores realizações do mundo da humanidade. Cada um deve ter a máxima prosperidade e bem-estar. Para resolver este problema, devemos começar com o agricultor; aí estabeleceremos um alicerce para um sistema e ordem, porque a classe dos camponeses e a classe agricultora excedem as demais classes na importância de seu serviço. Em cada aldeia deve ser estabelecida uma casa de tesouro-geral que terá diversas fontes de receita.

A primeira fonte de receita será aquela dos décimos ou dízimos.

A segunda fonte de receita será derivada dos animais.

A terceira fonte de receita, dos minerais, quer dizer, de cada mina prospectada ou descoberta um terço da mesma irá para este vasto tesouro.

A quarta é a seguinte: quando alguém falece sem deixar quaisquer herdeiros, toda sua herança irá para a casa de tesouro geral.

A quinta: se quaisquer tesouros forem encontrados na terra, serão consagrados a esta casa de tesouro.

Toda estas fontes de receita serão reunidas nesta casa de tesouro.

Quanto à primeira, os décimos ou dízimos: consideraremos um agricultor, um dos camponeses. Examinaremos seu rendimento. Constataremos, por exemplo, qual é sua receita anual e qual são suas despesas. Agora, se a sua receita for igual às suas despesas, de tal agricultor absolutamente nada será recebido. Isto é, ele não estará sujeito à taxação de qualquer espécie, necessitado que está de toda sua receita. Um outro agricultor pode ter despesas que alcançam mil dólares, digamos, e sua receita é de dois mil dólares. Deste, um décimo será requerido, pois ele tem um excedente. Entretanto, se a sua receita for de dez mil dólares e suas despesas de mil dólares, ou sua receita de vinte mil dólares, ele terá que pagar como impostos um quarto. Se sua receita for de cem mil dólares e suas despesas de cinco mil, ele terá que pagar um terço, uma vez que suas despesas são cinco mil dólares e sua receita cem mil. Se ele pagar, digamos, trinta e cinco mil dólares, além da despesa de cinco mil, ainda lhe restam sessenta mil. Mas se suas despesas forem de dez mil e sua receita de duzentos mil, então ele deve pagar uma justa metade, porque noventa mil serão nesse caso a soma remanescente. Uma escala tal como esta determinará o rateio de impostos. Todas as receitas de tais fontes irão para esta casa de tesouro geral.

Também devem ser consideradas emergências tais como a de um determinado agricultor cujas despesas elevem-se a dez mil dólares e cuja receita é de apenas cinco mil; ele receberá os necessários dispêndios da casa de tesouro. Cinco mil dólares ser-lhe-ão concedidos para que ele não se veja em necessidade.

Também os órfãos serão cuidados, todas as suas despesas serão administradas. Os aleijados da aldeia - todas as suas despesas serão cuidadas. Os pobres da aldeia - suas despesas necessárias serão custeadas. E assim outras pessoas que, por motivos válidos, encontrem-se incapacitados - os cegos, os anciãos, os surdos - o seu conforto deve ser assegurado. Na aldeia, ninguém permanecerá em necessidade ou em penúria. Todos viverão no maior conforto e bem-estar. Assim, nenhuma divisão atacará a ordem geral da comunidade.

Conseqüentemente, os gastos ou despesas da casa de tesouro-geral estão agora esclarecidas e suas atividades manifestas. A receita desta casa de tesouro-geral foi demonstrada. Certos fideicomissários serão eleitos pelo povo em uma determinada aldeia, a fim de cuidar destas transações. Os agricultores serão ajudados e, se após todas estas despesas terem sido custeadas, resultar qualquer superavit na casa de tesouro, ele deve ser transferido ao tesouro nacional.

Este sistema é, portanto, inteiramente ordenado de modo que, na aldeia, o realmente pobre estará em conforto, os órfãos viverão felizes e saudáveis; numa palavra, ninguém será deixado desamparado. Todos os indivíduos membros da comunidade deste modo viverão em conforto e bem-estar.

Para os centros urbanos maiores, naturalmente, haverá um sistema em uma escala maior. Se eu fosse entrar nessa resolução, os seus detalhes seriam muito prolongados. O resultado deste será que cada membro individual da comunidade viverá da forma mais confortável e feliz, sem dever favores a ninguém. Não obstante, haverá a preservação de graduações, pois no mundo da humanidade deve haver graduações. O corpo político bem pode ser comparado a um exército. Neste exército deve haver um general, deve haver um sargento, deve haver um marechal, deve haver a infantaria; mas todos devem desfrutar o maior conforto e bem-estar.

Deus não é parcial e não discrimina entre as pessoas. Ele tem provido a todas. A colheita se produz para todos. A chuva cai sobre todos e o calor do sol é destinado a aquecer a todos. A verdura da terra é para todos. Portanto deve haver a maior felicidade, o maior conforto, o maior bem-estar para toda a humanidade. Porém, se as condições forem tais que alguns estejam felizes e confortáveis, e alguns na miséria; alguns estejam acumulando riqueza exorbitante, e outros se encontrem em extrema carência - sob tal sistema é impossível que seres humanos sejam felizes, e é impossível que eles obtenham o beneplácito de Deus. Deus é bondoso a todos. O beneplácito de Deus consiste no bem-estar de todos os membros individuais da humanidade.

Um rei persa estava, certa noite, em seu palácio, vivendo no maior luxo e conforto. Com excessiva alegria e satisfação, dirigiu-se a um certo homem, dizendo:

-- Este é o momento mais feliz de toda a minha vida. Louvado seja Deus, de todos os lados a prosperidade desponta e a fortuna sorri! Meu tesouro está cheio e o exército está bem administrado. Meus palácios são muitos, minhas terras ilimitadas, minha família é abastada, minha honra e soberania são grandes. Que mais poderia eu desejar?

O pobre homem, às portas do palácio, respondeu dizendo:

-- Ó bondoso rei! Ainda que sejais tão feliz, sob todos os pontos de vista, livre de todas as preocupações e tristezas - será que não vos preocupais conosco? Vós dizeis que nada vos preocupa, mas será que nunca vos preocupais com os pobres em vossa terra? É justo ou adequado que sejais tão abastado, e nós em tão extrema carência e necessidade? À vista de nossas necessidades e atribulações, como podeis descansar em vosso palácio, como podeis mesmo dizer que sois livre de preocupações e tristezas? Como um soberano não deveis ser tão egoísta, a ponto de pensardes apenas em vós, mas deveis pensar naqueles que são seus súditos. Quando estivermos confortáveis, aí sim vós estareis confortável; enquanto estivermos na miséria, como podeis vós, como um rei, estar em felicidade?

O sentido é este, que todos nós habitamos um mesmo globo, a Terra. Na realidade, somos uma única família, e cada um de nós é um membro desta família. Devemos todos estar na maior felicidade e conforto, sob um governo e um regulamento justos, que estejam em harmonia com o beneplácito de Deus, assim tornando-nos felizes, pois esta vida é efêmera.

Se o homem fosse preocupar-se apenas consigo próprio, ele não seria mais do que um animal, pois apenas os animais são egoístas deste modo. Se trouxerdes mil ovelhas para um poço a fim de matardes novecentas e noventa e nove, a que sobrar continuaria pastando, sem pensar nas demais e preocupar-se tampouco com as perdidas, jamais se aborrecendo por sua própria espécie ter desaparecido, ou ter perecido ou sido morta. Cuidar apenas de si próprio é, portanto, uma propensão animal. É propensão animal viver solitária e isoladamente. É inclinação animal cuidar apenas do próprio conforto. Mas o homem foi criado para ser homem - para ser equânime, para ser justo, para ser misericordioso, para ser bondoso a toda sua espécie, jamais estar desejoso de que ele próprio seja abastado enquanto os demais estiverem na miséria e infortúnio - este é um atributo do animal e não do homem. Mais ainda, o homem deve estar desejoso por aceitar privações para si mesmo, a fim de outros possam desfrutar prosperidade; ele deve deleitar-se com o próprio sofrimento, para que os demais possam desfrutar felicidade e bem-estar. Tal é o atributo do homem. Isto é digno do homem. De outro modo, não é homem - é menos do que o animal.

O homem que pensa só em si mesmo e é negligente com os demais, é indubitavelmente inferior ao animal, uma vez que o animal não é possuidor da faculdade do raciocínio. O animal é perdoado; mas no homem existe a razão, a faculdade de justiça, a faculdade da misericórdia. Possuindo todas estas faculdades, ele não deve deixar de usá-las. Aquele que for de coração tão endurecido a ponto de pensar somente no próprio conforto, não será chamado homem.

Homem é aquele que se esquece de seus próprios interesses em benefício dos demais. Ele priva-se de seu próprio conforto pelo bem-estar de todos. Mais ainda, deve estar ele desejoso por sacrificar sua própria vida pela vida da humanidade. Tal homem é a honra do mundo da humanidade. Tal homem é a glória do mundo da humanidade. Tal homem é aquele que conquista eterna bem-aventurança. Tal homem está próximo ao limiar de Deus. Tal homem é a própria manifestação da felicidade eterna. De outro modo, os homens são como animais, exibindo as mesmas inclinações e propensões, como no mundo dos animais. Que distinção existe? Que prerrogativas, que perfeições? Absolutamente nenhuma! Os animais são certamente melhores - pensando apenas em si mesmos e negligentes das necessidades dos outros.

Considerai como os maiores homens do mundo - quer entre profetas ou filósofos - todos renunciaram ao seu próprio conforto, sacrificaram seu próprio prazer pelo bem-estar da humanidade. Eles sacrificaram suas próprias vidas pela comunidade. Eles sacrificaram sua própria prosperidade por aquela do bem-estar geral. Privaram-se de sua própria honra, pela honra da humanidade. Torna-se, portanto, evidente que esta é a mais elevada realização para o mundo da humanidade.

Nós suplicamos a Deus que dote as almas humanas de justiça, a fim de que possam ser justas, e possam se esforçar para prover conforto para todos, para que cada membro da humanidade passe sua vida no maior conforto e bem-estar. Então este mundo material tornar-se-á o próprio paraíso do Reino, este mundo elementar encontrar-se-á em um estado celestial e todos os servos de Deus viverão em extrema alegria, felicidade e contentamento. Nós todos devemos nos esforçar e concentrar todos os nossos pensamentos a fim de que esta felicidade possa advir ao mundo da humanidade.

XI
TRABALHO E CAPITAL*

*No original, o compilador uniu este texto com o anterior, apenas separando-o com um traço. Na versão eletrônica da Casa Universal de Justiça, este texto foi colocado como um novo capítulo e nesta versão em português, acrescentamos o título, sobre o qual esta palestra foi inicialmente publicada no Star of the West. Também, informamos que os dois últimos parágrafos que foram acrescidos ao texto, não fazem parte desta palestra, mas sim, são partes de uma Epístola de 'Abdu'l-Bahá à sra. Olly Schawarz. n.e.

A questão da socialização é assaz difícil. Não será resolvida por greves salariais. Todos os governos do mundo devem unir-se e organizar uma assembléia, cujos membros serão eleitos entre os parlamentos e os homens conceituados das nações. Estes devem planejar com sabedoria e autoridade, de modo que nem os capitalistas sofram enormes perdas, nem os trabalhadores tornem-se necessitados. Devem legislar com a maior moderação e anunciar então, ao público, que os direitos do trabalhador serão efetivamente preservados; também serão protegidos os direitos dos capitalistas. Quando por vontade de ambas as partes for adotada esta lei geral, se uma greve ocorrer, todos os governos do mundo devem resistir coletivamente. De outro modo, o trabalho conduzirá a muita destruição, especialmente na Europa. Coisas terríveis sucederão.

Esta questão será uma das várias causas de uma guerra geral na Europa. Os donos de propriedades, minas e fábricas, devem repartir seus rendimentos com seus empregados, dando uma certa porcentagem justa de seus lucros a seus trabalhadores, de modo que recebam, além de seus salários, parte da receita geral da empresa, e possam esforçar-se de corpo e alma no trabalho.

Nenhum monopólio restará no futuro. A questão dos monopólios será extinta completamente. Também, cada empresa que possui dez mil ações concederá duas mil ações destas dez mil aos seus funcionários, e subscreverá as ações em seus nomes, de modo que eles possam possuí-las, e o restante pertencerá aos capitalistas. Assim, ao final do mês ou ano, o que quer que resulte após serem pagos as despesas e os ordenados, de acordo com o número de ações, deve ser dividido entre ambos. Na realidade, até agora grande injustiça tem sucedido às pessoas comuns. Leis devem ser elaboradas, porque é impossível aos trabalhadores estarem satisfeitos com o presente sistema. Eles farão greves todos os meses e todos os anos. Finalmente, os empresários perderão. Nos tempos antigos, uma greve aconteceu entre soldados turcos. Disseram eles ao governo: "Nossos soldos são muito reduzidos e devem ser aumentados." O governo foi forçado a conceder-lhes suas demandas. Pouco tempo depois eles fizeram greve novamente. Finalmente, todas as receitas iam para os bolsos dos soldados, até o ponto em que eles mataram o rei, dizendo: "Por que não aumentaste mais a receita, de modo que nós pudéssemos ter recebido mais?"

É impossível a um país viver adequadamente sem leis. Para solucionar este problema leis rigorosas devem ser elaboradas, de modo que todos os governos do mundo serão seus protetores.

__________________

Segundo os princípios bolchevistas, a igualdade é efetivada através da força. As massas, que são oponentes às pessoas de posição e riqueza, desejam compartilhar de suas vantagens.

Mas nos ensinamentos divinos, a igualdade é estabelecida através de uma pronta espontaneidade de compartilhar. No tocante à riqueza, é ordenado que os ricos entre o povo, e os aristocratas, através de sua própria vontade e pela sua própria felicidade, preocupem-se e cuidem dos pobres. Esta igualdade é o resultado das elevadas características e nobres atributos do gênero humano.

XII
OS CRITÉRIOS DA VERDADE

No ano passado, durante minha visita a Londres e Paris*, eu tive muitas conversas com os filósofos materialistas da Europa. A base de todas as suas conclusões é que o conhecimento dos fenômenos é adquirido segundo uma lei fixa e invariável - uma lei matematicamente exata que opera através dos sentidos. Por exemplo, o olho vê uma cadeira; por isso não há dúvida a respeito da existência da cadeira. O olho olha para o céu e vê o sol; eu vejo flores sobre esta mesa; sinto seu perfume; ouço sons lá fora, etc. Isto, dizem eles, é uma lei matemática determinada de percepção e dedução, cuja operação não admite qualquer dúvida; pois uma vez que o universo está sujeito aos nossos sentidos, é prova intrinsecamente evidente de que nosso conhecimento dele deve ser adquirido por intermédio dos sentidos. Isto quer dizer que os materialistas proclamam que o critério e o padrão do conhecimento humano é a percepção pelos sentidos. Entre os romanos e gregos o critério do conhecimento era a razão - que tudo o que é provável e aceitável pela razão deve necessariamente ser admitido como verdade. Um terceiro padrão ou critério é a opinião sustentada pelos teólogos de que as tradições ou asserções proféticas e interpretações constituem a base do conhecimento humano. Há ainda um outro, um quarto critério, mantido pelos religiosos e metafísicos, que diz que a fonte e o canal da aquisição de todo conhecimento humano é a inspiração. Em suma, de acordo com o que os homens dizem, estes quatro critérios são: primeiro, a percepção através dos sentidos; segundo, a razão; terceiro, as tradições; e quarto, a inspiração.

*1911.

Na Europa eu disse aos filósofos e cientistas do materialismo que o critério dos sentidos não é confiável. Considerai, por exemplo, um espelho e as imagens nele refletidas. Estas imagens não têm existência física real. Mas se nunca tivésseis visto um espelho, insistiríeis e acreditaríeis firmemente que são reais. Os olhos vêem uma miragem no deserto em forma de um lago, mas não há qualquer realidade nela. Quando estamos no convés de um vapor a praia parece estar se movendo, embora saibamos que a terra é estacionária e nós é que nos movemos. Acreditava-se que a terra era fixa e que o sol se movia em sua volta, mas, embora pareça ser assim, agora sabemos que o inverso é que é verdadeiro. Uma tocha em movimento circular faz aparecer um círculo de fogo ante nossos olhos, mas sabemos que se trata de apenas um ponto de luz. Vemos uma sombra que se move pelo chão, mas ela não possui existência material nem substância. Nos desertos, os efeitos atmosféricos produzem ilusões que particularmente enganam a vista. Uma vez eu vi uma miragem na qual aparecia toda uma caravana viajando para o céu. No extremo norte aparece outro fenômeno ilusório que confunde a visão humana. Algumas vezes, três ou quatro sóis, que os cientistas chamam de falsos sóis, brilham ao mesmo tempo, enquanto nós sabemos que o grande orbe solar é um e que permanece estacionário e único. Em resumo, os sentidos continuamente nos enganam, e nós não sabemos distinguir entre aquilo que é real e aquilo que não é.

Quanto ao segundo critério - a razão - também não é confiável e não se pode confiar nele. Este mundo humano é um oceano de opiniões divergentes. Se a razão é o padrão e o critério perfeito para o conhecimento, por que as opiniões variam e por que os filósofos discordam tão completamente uns dos outros? Esta é uma prova clara de que não se pode confiar na razão humana como um critério infalível. Por exemplo, grandes descobertas e idéias consagradas de séculos anteriores são continuamente derrubadas e descartadas pelos sábios de hoje. Matemáticos, astrônomos, químicos continuamente desaprovam e rejeitam as conclusões dos antigos; nada é permanente, nada é final; tudo está em contínua mudança porque a razão humana avança em novos rumos de pesquisa e a cada dia chega a novas conclusões. No futuro, muito daquilo que hoje é aclamado e aceito como verdadeiro, será rejeitado e desaprovado. E assim continuará ad infinitum.

Ao considerarmos o terceiro critério - a tradição - sustentado pelos teólogos como o caminho e o padrão para o conhecimento, vemos que é igualmente inseguro e não merece crédito, pois as tradições religiosas são o relato e o registro da compreensão e da interpretação do Livro. Através de que meios se chegou a essa compreensão e essa interpretação? Pela análise da razão humana. Quando lemos o Livro de Deus, a faculdade de compreensão com a qual formamos conclusões é a razão. Razão é mente. Se não somos dotados de uma razão perfeita, como podemos compreender o significado da Palavra de Deus? Por isso, conforme já observamos, a razão humana é, pela sua própria natureza, finita e falha nas suas conclusões. Ela não pode abranger a própria Realidade, a Palavra Infinita. Uma vez que a origem das tradições e interpretações é a razão humana, e a razão humana é falha, como podemos confiar nas suas opiniões como conhecimento verdadeiro?

O quarto critério que citei é a inspiração, através da qual se reivindica ser possível atingir a realidade do conhecimento. O que é inspiração? É a indução do coração humano. Mas o que são as instigações satânicas que afligem o gênero humano? Também são induções do coração. Como podemos fazer distinção entre eles? Surge a questão: Como saber se estamos seguindo a inspiração de Deus ou as instigações satânicas da alma humana? Em resumo, o ponto é que, no mundo material humano dos fenômenos, esses são os únicos critérios ou caminhos do conhecimento existentes, e todos eles são falhos e não confiáveis. O que resta, então? Como atingir a realidade do conhecimento? Pelos sopros e estímulos do Espírito Santo, que é luz e o próprio conhecimento. Por seu intermédio, a mente humana é despertada e impelida para conclusões verdadeiras e conhecimento perfeito. Este é o argumento conclusivo que mostra que todos os critérios humanos disponíveis são falhos e imperfeitos, mas o padrão divino de conhecimento é infalível. Por isso não se justifica que o homem diga: "Eu sei porque percebo através dos meus sentidos", ou "eu sei porque é provado pela minha faculdade da razão", ou "eu sei porque está de acordo com a tradição e a interpretação do Livro Sagrado", ou "eu sei porque sou inspirado". Todos os critérios de julgamento humano são falhos e limitados.

XIII
O HOMEM E A NATUREZA

Se lançarmos um olhar aguçado sobre o mundo da criação, veremos que todas as coisas existentes podem ser classificadas do seguinte modo: primeiro, o mineral - isto é, matéria ou substância em diferentes formas de composição; segundo, o vegetal - possuindo as virtudes do mineral além da capacidade de aumento ou crescimento, indicando um grau mais avançado e mais especializado que o mineral; terceiro, o animal - possuindo os atributos do mineral e do vegetal, além do poder da percepção dos sentidos; quarto, o homem - o organismo mais altamente especializado da criação visível, incorporando as qualidades do mineral, do vegetal e do animal, além de um excelente dom absolutamente ausente nos reinos inferiores - o poder da investigação intelectual dos mistérios e dos fenômenos exteriores. O resultado desse dom intelectual é a ciência, que é característica específica do homem. Este poder científico investiga e compreende as coisas criadas e as leis que as regem. É o descobridor dos segredos e mistérios ocultos do universo material e é peculiar apenas ao homem. A mais nobre e digna realização do homem são, portanto, o conhecimento e o feito científicos.

A ciência pode ser comparada a um espelho no qual se refletem as imagens dos mistérios dos fenômenos exteriores. Gera e nos mostra, no campo do conhecimento, tudo o que foi produzido no passado. Interliga o passado e o presente. As conclusões filosóficas dos séculos anteriores, os ensinamentos dos Profetas e a sabedoria dos antigos sábios são cristalizados e resultam no avanço científico de hoje. A ciência é a descobridora do passado. De suas premissas do passado e do presente, tiramos conclusões para o futuro. A ciência é a governante da natureza e seus mistérios, o único meio pelo qual o homem explora as leis da criação material. Todas as coisas criadas são cativas da natureza e sujeitas às suas leis. Elas não podem transgredir o controle dessas leis nem por um detalhe ou pormenor. Os infinitos mundos estelares e os corpos celestes são súditos obedientes da natureza. A terra e suas miríades de organismos, todos os minerais, plantas e animais são servos de seu domínio. Mas o homem, através do exercício de seu poder intelectual e científico, pode sobrepujar essa condição, pode modificar, alterar e controlar a natureza de acordo com seus próprios desejos e necessidades. A ciência, por assim dizer, é a que rompe as leis da natureza.

Considerai, por exemplo, que o homem, de acordo com a lei natural, deve habitar sobre a superfície da terra. Superando essa lei e restrição, no entanto, ele iça suas velas sobre os oceanos, sobe ao zênite em aeroplanos e penetra nas profundezas do mar em submarinos. Isto é novamente contrário à ordem da natureza e uma violação de sua soberania e domínio. As leis e métodos da natureza, os segredos ocultos e os mistérios do universo, as descobertas e invenções humanas, todas as nossas aquisições científicas naturalmente permaneceriam ocultas e desconhecidas, mas, através de sua perspicácia, o homem as busca no plano do invisível, coloca-as no plano do visível, expondo-as e explicando-as. Por exemplo, um dos mistérios da natureza é a eletricidade. De acordo com a natureza, esta força, esta energia, deveria permanecer latente e oculta, mas, através da ciência, o homem rompe as próprias leis da natureza, apreende-a e até mesmo a aprisiona para seu uso.

Em suma, por possuir este primoroso dom da investigação científica, o homem é o mais nobre produto da criação, o governante da natureza. Ele toma a espada das mãos da natureza e a usa na cabeça da natureza. De acordo com a lei natural, a noite é o período da escuridão e da obscuridade, mas, utilizando o poder da eletricidade, empunhando esta espada da eletricidade, o homem vence a escuridão e dispersa as trevas. O homem é superior à natureza e faz cumprir sua ordem. O homem é um ser sensível; a natureza não tem sentidos. O homem possui memória e razão; a natureza carece delas. O homem é mais nobre do que a natureza. Nele há poderes de que a natureza é privada. Pode-se dizer que esses poderes são provenientes da própria natureza e que o homem faz parte da natureza. Respondendo a essa afirmativa, diremos que, se a natureza é o todo e o homem é parte desse todo, como é possível que a parte tenha qualidades e virtudes ausentes no todo? Sem dúvida, a parte deve ser dotada das mesmas qualidades e propriedades do todo. Por exemplo, o cabelo faz parte da anatomia humana. Ele não pode possuir elementos que não são encontrados em outras partes do corpo, pois, em todos os casos, os elementos componentes do corpo são os mesmos. Por isso é claro e evidente que o homem, embora fisicamente faça parte da natureza, seu espírito possui um poder que transcende a natureza; pois se fosse simplesmente uma parte da natureza e limitado às leis materiais, somente poderia possuir as coisas que a natureza incorpora. Deus lhe conferiu e lhe acrescentou um poder distintivo - a faculdade da investigação intelectual dos segredos da criação, a aquisição de conhecimento mais elevado - cuja virtude maior é o esclarecimento científico.

Este dom é o mais louvável poder do homem, pois através de seu uso e exercício o aperfeiçoamento da raça humana pode ser realizado, o desenvolvimento das virtudes do gênero humano se torna possível, e o espírito e os mistérios de Deus se tornam manifestos. Por isso estou muito satisfeito com minha visita a esta universidade. Louvor a Deus, pois este país está repleto de tais instituições de erudição nas quais o conhecimento das ciências e artes pode ser rapidamente adquirido.

Como as ciências materiais e físicas são ensinadas aqui* e estão constantemente se desenvolvendo com perspectivas de maiores realizações, estou esperançoso de que o desenvolvimento espiritual possa também avançar e caminhar junto com estas vantagens exteriores. Como o conhecimento material está iluminando aqueles que estão dentro dos muros deste grande templo de aquisição de conhecimento, que a luz do espírito, a secreta e divina luz da verdadeira filosofia, possa também glorificar esta instituição. O mais importante princípio da divina filosofia é a unicidade do mundo humano, a unidade da humanidade, o elo que liga Oriente e Ocidente, o laço de amor que mescla corações humanos.

*Universidade de Columbia em Nova Iorque.

Por isso, é nosso dever envidar o máximo esforço e chamar todas as nossas energias para que os laços de unidade e concórdia possam ser estabelecidos entre a humanidade. Por milhares de anos tivemos derramamento de sangue e contenda. Já basta, já é suficiente. Agora é tempo de se associar em amor e harmonia. Durante milhares de anos temos tentado a espada e a guerra; deixemos a humanidade viver pelo menos por algum tempo em paz. Examinai a história e considerai quanta selvageria, quanta carnificina e guerra o mundo já viu. Houve guerras religiosas, guerras políticas, ou algum outro choque de interesses humanos. O mundo humano jamais desfrutou a bênção de paz universal. Ano após ano os instrumentos de guerra são aumentados e aperfeiçoados. Considerai as guerras dos séculos passados; apenas dez, quinze ou no máximo vinte mil eram mortos. Mas hoje é possível matar cem mil num só dia. Nos tempos antigos, as guerras eram feitas com a espada; hoje é com arma sem fumaça. Anteriormente, os navios de guerra eram embarcações a vela, hoje são encouraçados. Considerai a multiplicação e o aperfeiçoamento das armas de guerra. Deus nos criou a todos, seres humanos, e todos os países do mundo são partes do mesmo globo. Somos todos Seus servos. Ele é bondoso e justo a todos. Por que deveríamos ser cruéis e injustos uns para com os outros? Ele provê a todos. Por que devemos privar uns aos outros? Ele protege e ampara a todos. Por que deveríamos matar nossos semelhantes? Se esta guerra e contenda forem por causa da religião, é evidente que violam o espírito e a base de toda religião. Todos os divinos Manifestantes proclamaram a unicidade de Deus e a unidade do gênero humano. Eles ensinaram que os homens devem se amar e se ajudar mutuamente para que possam progredir. Ora, se este conceito de religião for verdadeiro, seu princípio essencial é a unicidade da humanidade. A verdade fundamental dos Manifestantes é a paz. É isto que sustenta toda religião e toda a justiça. O propósito divino é que os homens vivam em unidade, concórdia e harmonia, e amem uns aos outros. Considerai as virtudes do mundo humano e percebei que a unicidade da humanidade é a base fundamental de todas elas. Lede o Evangelho e outros Livros Sagrados. Sabereis que seus fundamentos são um e o mesmo.

XIV
O MICROCOSMO E O MACROCOSMO

Ao ponderarmos sobre a realidade do microcosmo, descobrimos que no microcosmo estão depositadas três realidades. O homem é dotado de uma realidade exterior ou física. Ela pertence ao domínio material, o reino animal, porque brotou do mundo material. Esta realidade animalesca do homem, ele compartilha com os animais.

O corpo humano é, tal como os animais, sujeito às leis da natureza. Mas o homem é dotado de uma segunda realidade, a realidade racional ou intelectual, e a realidade intelectual do homem predomina sobre a natureza.

Todas estas ciências das quais desfrutamos eram os ocultos e recônditos segredos da natureza, incognoscíveis à natureza, mas o homem foi habilitado a desvendar estes mistérios e, do plano do invisível, ele os trouxe ao plano do visível.

Ainda há uma terceira realidade no homem, a realidade espiritual. Por seu intermédio descobrem-se as revelações espirituais, uma faculdade celestial que é infinita em relação aos domínios intelectuais e físicos. Esse poder é conferido ao homem através do sopro do Espírito Santo. É uma realidade eterna, uma realidade indestrutível, uma realidade que pertence ao plano divino, sobrenatural; uma realidade através da qual o mundo é iluminado, uma realidade que concede ao homem a vida eterna. Esta terceira, a realidade espiritual, é aquela que descobre eventos passados e fita, longinqüamente, as perspectivas do futuro. É o raio do Sol da Realidade. O mundo espiritual é esclarecido através dela, a plenitude do Reino está sendo iluminada através dela. Ela desfruta um mundo de beatitude, um mundo que não teve começo e que não terá fim.

Essa realidade celestial, a terceira realidade do microcosmo, liberta o homem do mundo material. Seu poder faz com que o homem escape do mundo da natureza. Escapando, ele encontrará uma realidade iluminadora que transcende a realidade limitada do homem e faz com que ele atinja a infinitude de Deus, abstraindo-o do mundo das superstições e imaginações e submergindo-o no mar dos raios do Sol da Realidade. Este fato é provado por evidências científicas, bem como espirituais!

Ao ponderarmos sobre as condições dos fenômenos, observamos que todo fenômeno é composto de elementos simples. Este elemento celular simples movimenta-se e tem seus percursos através de todos os graus de existência. Desejo que pondereis cuidadosamente sobre isso. Este elemento celular esteve, em algum tempo, no reino mineral. Enquanto permanecendo no reino mineral, teve seus percursos e transformações através de miríades de imagens e formas. Tendo aperfeiçoado sua jornada no reino mineral, ascendeu ao reino vegetal, e no reino vegetal teve novamente jornadas e transformações através de miríades de condições. Tendo cumprido suas funções no reino vegetal, o elemento celular ascende ao reino animal.

No reino animal, outra vez, ele passa pela composição de miríades de imagens e, então, o temos no reino humano. No reino humano, igualmente, ele tem suas transformações e percursos através de inumeráveis formas. Em resumo, este átomo primordial simples teve suas grandes jornadas através de cada estágio da vida e, em cada estágio foi dotado de uma virtude ou característica especial e particular.

Conseqüentemente, os grandes filósofos divinos tiveram o seguinte epigrama: "Todas as coisas estão envolvidas em todas as coisas. Pois cada fenômeno simples desfrutou dos postulados de Deus e, em cada forma destes infinitos elétrons, teve suas características de perfeição."

Assim, esta flor, em certo tempo, foi do solo. O animal alimenta-se com a flor ou seu fruto, que deste modo ascende ao reino animal. O homem ingere a carne do animal, e então o animal tem sua ascensão ao reino humano, visto que todos fenômenos são divididos entre aqueles que ingerem e os que são ingeridos. Portanto, cada átomo primordial destes átomos simples e indivisíveis teve seu percurso por toda a criação senciente, participando constantemente da composição dos vários elementos. Por esta razão tem-se a conservação da energia e a infinitude dos fenômenos, a indestrutibilidade dos fenômenos, constantes e imutáveis, porque a vida não pode sofrer aniquilação, mas somente modificação.

A aparente aniquilação é isto: que a forma, a imagem exterior, passa por todas estas modificações e transformações. Tomemos novamente o exemplo desta flor. A flor é indestrutível. A única coisa que podemos ver, esta forma exterior, é de fato destruída, mas os elementos, os elementos indivisíveis que entraram na composição desta flor são eternos e imutáveis. Portanto, as realidades de todos os fenômenos são imutáveis. A extinção ou mortalidade, nada mais é do que a transformação de ilustrações e imagens, por assim dizer - a realidade por trás destas imagens é eterna. E cada realidade das realidades é uma das graças de Deus.

Algumas pessoas acreditam que a divindade de Deus teve um começo. Elas dizem que antes deste começo específico o homem não tinha conhecimento da divindade de Deus. Com este princípio, limitaram a operação das influências de Deus. Por exemplo, pensam que houve um tempo em que o homem não existia, e que haverá um tempo no futuro em que o homem não existirá. Esta teoria circunscreve o poder de Deus, visto que como poderemos compreender a divindade de Deus a não ser conhecendo cientificamente as manifestações dos atributos de Deus? Como podemos entender a natureza do fogo, a não ser pelo seu calor, sua luz? Não fosse pelo calor e luz deste fogo, naturalmente não poderíamos afirmar que o fogo existisse.

Assim, se houve um tempo em que Deus não manifestou Suas qualidades, então não havia Deus, porque os atributos de Deus pressupõem a criação de fenômenos. Por exemplo, pela presente consideração, dizemos que Deus é o Criador. Então deve ter havido sempre uma criação, uma vez que a qualidade de criador não pode ser limitada ao momento em que algum indivíduo ou indivíduos percebam este atributo. Os atributos que descobrimos, um a um - tais atributos necessariamente anteciparam sua descoberta por nós. Portanto, Deus não teve começo nem fim; nem está Sua criação eternamente limitada quanto ao grau. Limitações de tempo e grau pertencem às coisas criadas, jamais à criação como um todo. Elas pertencem às formas das coisas, e não às suas realidades. A fulgência de Deus não pode ser suspensa. A soberania de Deus não pode ser interrompida. Desde que a soberania de Deus é imemorial, então a criação de nosso mundo, por toda a infinidade, é pressuposta. Ao fitarmos a realidade deste assunto, vemos que as graças de Deus são infinitas, sem começo e sem fim.

A maior das dádivas de Deus neste mundo fenomenal, são os Seus Manifestantes. Este é o maior postulado. Estes Manifestantes são os Sóis da Realidade. Pois é por intermédio do Manifestante que a realidade torna-se conhecida e estabelecida para o homem. A História nos prova que, sem a influência dos Manifestantes, o homem retrocede à sua condição animal, utilizando até mesmo seu poder intelectual para servir a um propósito animal. Portanto, não há absolutamente cessação, no futuro, ao aparecimento dos Manifestantes de Deus, porque Deus é infinito e Seu propósito não pode ser limitado de modo algum. Se ousarmos restringir ou circunscrever o desígnio de Deus dentro de quaisquer limites, então teremos ousado estabelecer limitações à onipotência de Deus. A criação terá ousado definir o seu Criador! Conseqüentemente, o homem perfeito sempre contempla os raios do Sol da Verdade. O homem perfeito aguarda e espera sempre a vinda do esplendor de Deus, ele sempre pondera sobre os métodos e propósitos de Deus, sabendo que, com certeza, as realidades do Divino não são finitas, os nomes e atributos do Divino não são finitos. As graças e bênçãos de Deus são ilimitadas, e a vinda dos Manifestantes de Deus não é circunscrita pelo tempo.

XV
OS CICLOS UNIVERSAIS

Todos os corpos luminosos deste imenso firmamento têm seus ciclos, os quais variam em duração, girando cada um em sua própria órbita; e, uma vez completa sua revolução, um ciclo novo principia. Assim a Terra, cada trezentos e sessenta e cinco dias, cinco horas, quarenta e oito minutos e alguns segundos, completa uma revolução, depois da qual se inicia um ciclo novo, ou melhor, o ciclo anterior renova-se. Assim também, para o universo inteiro, quer céus, quer homens, há ciclos de grandes acontecimentos, de ocorrências importantes. Ao findar um ciclo, outro começa, e o anterior, devido a esses acontecimentos importantes, é inteiramente esquecido, não restando dele traço ou recordação sequer. Vemos que não há documentos históricos de vinte mil anos atrás, embora já tenhamos provado ser a vida nesta terra muito antiga. Ela não tem cem mil anos, nem duzentos mil, nem ainda um milhão ou dois milhões de anos, mas é, sim antiqüíssima, havendo desaparecido completamente as provas e os vestígios antigos.

Assim também, cada um dos Manifestantes Divinos tem Seu ciclo, no qual são observados Seus mandamentos e Suas leis, e quando termina este, com a vinda de um novo Manifestante, um ciclo novo se inicia. Deste modo os ciclos principiam e atingem seu fim, depois do que se renovam, até ser consumido no mundo um ciclo universal. Então haverá grandes acontecimentos, ocorrências importantes, que apagarão todo e qualquer traço do passado, não deixando uma recordação sequer. Assim terá início no mundo um novo ciclo universal. Este universo não teve começo, mas já que demos provas sobre este assunto, não precisamos repeti-las.

Numa palavra, diremos que um ciclo universal no mundo existente significa grande duração de tempo - inúmeros períodos, eras incalculáveis. No decorrer de tal ciclo, os Manifestantes aparecem com esplendor no reino visível, até que um grande Manifestante universal faz do mundo o centro de Seu brilho. Graças à Sua Manifestação, o mundo atinge a maturidade, e a extensão de Seu ciclo é vasta. Outros Manifestantes surgirão depois, à Sua sombra, e renovarão, de acordo com as necessidades do tempo, certos mandamentos relativos aos assuntos e questões materiais, permanecendo sempre, porém, à Sua sombra.

Estamos no ciclo iniciado em Adão, e seu Manifestante universal é Bahá'u'lláh.

XVI
EDUCAÇÃO

De acordo com a afirmação dos filósofos, na espécie humana, a diferença de grau entre o mais baixo e o mais alto é devida à educação. As provas que eles apresentam são as seguintes: a civilização européia e a americana são uma evidência e resultado da educação, ao passo que as condições dos povos semicivilizados e bárbaros da África dão testemunho de que eles foram privados de suas vantagens. A educação torna o ignorante sábio, o tirano, justo, promove a felicidade, fortalece a mente, desenvolve a vontade e faz árvores infrutíferas da humanidade se tornarem frutíferas. Portanto, no mundo humano, alguns atingiram posições elevadas, enquanto outros tateiam no abismo do desespero. No entanto, a mais alta realização é possível a cada membro da raça humana, até mesmo alcançar a posição de Profetas. Eis o que afirmam e argumentam os filósofos.

Os Profetas de Deus são os primeiros educadores. Eles conferem educação universal ao homem e o fazem erguer-se dos mais baixos níveis de selvageria até os mais altos pináculos do desenvolvimento espiritual. Os filósofos também são educadores que avançam paralelamente na educação intelectual. Eles têm sido no máximo capazes de educar a si mesmos e um número limitado daqueles que os cercam, de melhorar sua própria moral e, por assim dizer, civilizar-se a si próprios; mas foram incapazes de dar educação universal. Falharam em fazer qualquer nação avançar da selvageria para a civilização.

É evidente que, embora a educação melhore a moral da humanidade, confira as vantagens da civilização e eleve o homem dos mais baixos níveis para a posição de sublimidade, há, no entanto, uma diferença na capacidade intrínseca ou inata dos indivíduos. Dez crianças da mesma idade, nascidas na mesma posição social, educadas na mesma escola, alimentando-se da mesma comida, em todos os aspectos sujeitas ao mesmo ambiente, sendo comuns e iguais os seus interesses, mostrarão diferentes e distintos graus de potencialidade e progresso; algumas serão extremamente inteligentes e capazes de progredir, algumas serão medianamente capazes, outras, limitadas e incapazes. Uma poderá se tornar um erudito mestre, enquanto outra, nas mesmas condições de educação, mostrar-se-á inepta e tola. De todos os pontos de vista, as oportunidades foram iguais, mas os resultados e efeitos variam desde o mais alto até o mais baixo grau de progresso. É evidente, portanto, que a humanidade varia em capacidade inata e dom intelectual intrínseco. Não obstante, embora as capacidades não sejam as mesmas, todo membro da raça humana está capacitado para a educação.

Jesus Cristo foi um Educador da humanidade. Seus ensinamentos foram altruístas; Suas dádivas, universais. Ele ensinou a humanidade pelo poder do Espírito Santo e não por intermédio de intervenção humana, pois o poder humano é limitado, enquanto o poder divino é ilimitável e infinito. A influência e as realizações de Cristo atestarão este fato. Galeno, o médico e filósofo grego que viveu no segundo século depois de Cristo, escreveu um tratado sobre a civilização das nações. Ele não era cristão, mas deu testemunho de que as crenças religiosas exerciam uma extraordinária influência sobre os problemas da civilização. Em essência, ele disse: "Há certas pessoas entre nós que seguem Jesus, o nazareno, que foi morto em Jerusalém. Estas pessoas são realmente imbuídas de princípios morais que são a inveja dos filósofos. Eles crêem em Deus e o temem. Têm esperança em Seus favores; por isso eles se afastam de atos indignos e tendem para ética e moral louváveis. Dia e noite eles se esforçam para que suas ações sejam meritórias e possam contribuir para o bem-estar da humanidade; por isso, cada um deles é virtualmente um filósofo, pois estas pessoas atingiram aquilo que é a essência e o sentido da filosofia. Eles têm uma moral louvável, mesmo que sejam iletrados."

O propósito disso é mostrar que os santos Manifestantes de Deus, os divinos Profetas, são os primeiros Professores do gênero humano. Eles são Educadores universais, e os princípios fundamentais que delinearam são causas e fatores do progresso das nações.

XVII
O ESPÍRITO SANTO

Os átomos elementares, que constituem toda a existência e vida fenomênica neste ilimitável universo, estão em perpétuo movimento, passando por sucessivos graus de desenvolvimento. Vamos imaginar, por exemplo, um átomo no reino mineral evoluindo para o mundo vegetal ao entrar na composição e nas fibras de uma árvore ou planta. Daí ele é assimilado e transferido para o reino animal e, finalmente, através da lei e processo de composição, torna-se parte do corpo de um homem. Isto quer dizer que ele atravessou graus e posições intermediários da existência fenomênica, entrando na composição de vários organismos na sua jornada. Este movimento ou transferência é progressivo e perpétuo, pois após a desintegração do corpo humano no qual entrou, ele retorna ao reino mineral do qual viera e continua a atravessar os reinos dos fenômenos como anteriormente. Esta é uma ilustração que se propõe a mostrar que os átomos elementares que constituem os fenômenos passam por uma transferência e movimento progressivos através de todos os reinos materiais.

Em seu incessante desenvolvimento e jornada, o átomo se torna imbuído de virtudes e capacidades de cada grau ou reino pelo qual passa. Na posição do mineral, ele possui coesão mineral; no reino do vegetal, ele manifesta a virtude ou poder de crescimento; no organismo animal, ele reflete a inteligência daquele grau; e no reino humano ele adquire a qualidade dos atributos e virtudes humanas.

Além disso, são miríades e inumeráveis as formas e organismos da vida e da existência fenomênica em cada um dos reinos do universo. O plano ou reino vegetal, por exemplo, possui sua infinita variedade de tipos e estruturas materiais de vida vegetal - cada um singular e distinto em si mesmo, não há dois exatamente iguais em composição e detalhes - pois não há repetição na natureza, e a virtude do crescimento não pode ser confinada a qualquer imagem ou forma. Cada folha possui sua própria identidade particular - por assim dizer, sua própria individualidade como folha. Por isso, cada um dos inumeráveis átomos elementares, durante seu incessante movimento através dos reinos da existência como um elemento constituinte da composição orgânica, não somente se torna imbuído das capacidades e virtudes dos reinos que atravessa, mas também reflete os atributos e qualidades das formas e organismos daqueles reinos. Como cada uma destas formas possui suas virtudes particulares e próprias, cada átomo elementar do universo tem a oportunidade de expressar uma infinita variedade dessas virtudes individuais. Nenhum átomo é impedido ou privado desta oportunidade ou direito de expressão. Nem se pode dizer que a qualquer átomo sejam negadas oportunidades iguais às dos outros átomos; ao contrário, todos têm o privilégio de possuir as virtudes existentes nestes reinos e de refletir os atributos de seus organismos. Nas várias transformações ou passagens de um reino a outro, as virtudes expressas pelos átomos em cada grau são peculiares a esse grau. Por exemplo, no mundo do mineral, o átomo não exprime a forma e o organismo vegetal, e quando, através do processo de transmutação, ele assume as virtudes do grau de vegetal, ele não reflete os atributos do organismo animal, e assim por diante.

É evidente, então, que cada átomo elementar do universo possui a capacidade de expressar todas as virtudes do universo. Isto é uma percepção sutil e abstrata. Meditai sobre isso, pois nela se encontra a verdadeira explicação do panteísmo. Deste ponto de vista e percepção, o panteísmo é uma verdade, pois cada átomo no universo possui ou reflete todas as virtudes da vida, cuja manifestação ocorre através de mudança e transformação. Portanto, a origem e a conseqüência dos fenômenos é, realmente o Deus onipresente; pois a realidade de toda a existência fenomênica se realiza através dEle. Não existe realidade nem a manifestação da realidade senão através de Deus. A existência se realiza e é possível através da graça de Deus, assim como o raio ou o brilho que emana desta lâmpada é concebido através da graça da lâmpada, da qual se origina. Ainda assim, todos os fenômenos são concebidos através da graça divina, e a explanação da verdadeira asserção e princípio panteísta é que os fenômenos do universo realizam-se por intermédio do único poder que anima e domina todas as coisas, e todas as coisas são apenas manifestações de sua energia e graça. A virtude da vida e da existência só existe através desse meio. Por isso, nas palavras de Bahá'u'lláh, o primeiro ensinamento é a unicidade do mundo humano.

Quando o homem é espiritualmente sagaz e dotado de visão considera o mundo humano, ele observa que as luzes da graça divina estão inundando toda a humanidade, assim como as luzes do sol irradiam seu esplendor sobre todas as coisas existentes. Todos os fenômenos da existência material são revelados pelo raio que emana do sol. Sem luz nada seria visível. Do mesmo modo, todos os fenômenos do mundo interior da realidade recebem as graças de Deus da fonte de dádiva divina. Este plano, ou reino humano, é uma criação, e todas as almas são os sinais e traços da graça divina. Neste plano não há exceções; a todos foram concedidas as dádivas da graça celestial. Podeis encontrar uma alma privada da proximidade de Deus? Podeis encontrar alguém que Deus tenha privado de seu sustento diário? Isto é impossível. Deus é bondoso e amoroso para com todos, e todos são manifestações da graça divina. Esta é a unicidade do mundo humano.

Mas algumas almas são fracas; devemos nos esforçar em fortalecê-las. Algumas são insipientes, desinformadas das graças de Deus; devemos nos esforçar por torná-las conhecedoras. Algumas são enfermas; devemos procurar restaurar sua saúde. Algumas são imaturas como crianças; devem ser treinadas e ajudadas a atingir a maturidade. Cuidamos dos doentes com ternura e afável espírito de amor; não os desprezamos por estarem doentes. Por isso, devemos ter extrema paciência, compaixão e amor a toda a humanidade, sem rejeitar qualquer alma. Se olharmos uma alma com desprezo teremos desobedecido os ensinamentos de Deus. Deus é amoroso com todos. Devemos ser injustos ou indelicados com alguém? Deus provê a todos. Convém a nós que impeçamos a emanação de Suas providências misericordiosas sobre a humanidade? Deus criou todos à Sua imagem e semelhança. Manifestaremos ódio a Suas criaturas e servos? Isto seria contrário à vontade de Deus e de acordo com a vontade do Satã, ou seja, as inclinações naturais da natureza inferior. Esta natureza inferior no homem é simbolizada por Satã - o ego perverso que existe em nós, não uma personalidade perversa exterior.

Bahá'u'lláh ensina que os fundamentos da religião divina são uma só realidade que não admite multiplicidade ou divisão. Por isso, os mandamentos e ensinamentos de Deus são apenas um. As diferenças e divisões religiosas que existem no mundo são devidas às cegas imitações de formas, sem conhecimento ou investigação da realidade divina fundamental subjacente a todas as religiões. Visto que estas imitações de formas ancestrais são variadas, surgiram dissensões entre o povo da religião. Por isso, é necessário libertar a humanidade desta submissão à crença cega, mostrando o caminho da orientação à própria realidade, que é a única base da unidade.

Bahá'u'lláh diz que a religião deve conduzir ao amor e à unidade. Se ela se mostrar fonte de ódio e inimizade, sua ausência é preferível; pois a vontade e a lei de Deus são o amor, e amor é o laço entre os corações humanos. A religião é a luz do mundo. Se através do desentendimento e ignorância humanos ela for transformada em causa de escuridão, sua ausência será melhor.

A religião deve estar em conformidade com a ciência e a razão; senão ela é superstição. Deus criou o homem a fim de que ele perceba a verdade da existência e dotou-o de mente e razão para que descubra a verdade. Por isso, o conhecimento científico e a crença religiosa devem se harmonizar com a análise desta faculdade divina existente no homem.

Preconceitos de todos os tipos - seja religioso, racial, patriótico ou político - são destrutivos dos fundamentos divinos no homem. Todas as guerras e derramamentos de sangue na história humana resultaram do preconceito. Esta terra é um só lar e uma só terra natal. Deus criou a humanidade com o mesmo dom e direito de viver sobre a terra. Assim como uma cidade é o lar de todos os seus habitantes, embora cada um tenha sua própria residência estabelecida nela, a superfície da terra é uma ampla terra natal ou lar para todas as raças da humanidade. O preconceito racial ou a divisão em nações como a francesa, a alemã, a americana, e assim por diante não é natural e provém da motivação e da ignorância humanas. Todos são filhos e servos de Deus. Por que deveríamos ser separados por fronteiras artificiais e imaginárias? No reino animal os pombos voam juntos em harmonia e concórdia. Eles não têm preconceitos. Nós somos humanos e superiores em inteligência. É condizente que as criaturas inferiores manifestem virtudes que não encontram expressão no homem?

Bahá'u'lláh proclamou e promulgou os fundamentos da paz internacional. Durante milhares de anos homens e nações foram ao campo de batalha para ajustarem suas diferenças. A causa disto tem sido a ignorância e a degeneração. Louvado seja Deus! Neste século radiante as mentes se desenvolveram, as percepções se tornaram aguçadas, os olhos estão iluminados e os ouvidos atentos. Por isso, será impossível que a guerra continue. Considerai a ignorância e a inconsistência do homem. Um homem que mata outro é punido com a execução, mas um gênio militar que mata cem mil de seus semelhantes é imortalizado como herói. Um homem rouba uma pequena soma em dinheiro e é preso como ladrão. Um outro pilha uma nação inteira e é honrado como patriota e conquistador. Uma única fraude acarreta repreensão e censura, mas os ardis de políticos e diplomatas despertam a admiração e o elogio de uma nação. Considerai a ignorância e a inconsistência da humanidade. Quão sombrios e selvagens são os instintos da humanidade!

Bahá'u'lláh anunciou que não importa quanto o mundo humano avance na civilização material, ela apesar disso terá necessidade de virtudes espirituais e das graças de Deus. O espírito do homem não é iluminado e vivificado por fontes materiais. Não é ressuscitado pela investigação dos fenômenos do mundo da matéria. O espírito do homem precisa da proteção do Espírito Santo. Assim como ele avança, através de estágios progressivos, do mundo do ser meramente físico para o domínio intelectual, ele deve se desenvolver em atributos morais e graças espirituais. No processo desta realização, ele sempre precisa das dádivas do Espírito Santo. O desenvolvimento material pode ser comparado ao vidro da lâmpada, enquanto as virtudes divinas e as suscetibilidades espirituais são como a luz que nela brilha. Sem luz, a manga do candeeiro não tem valor; do mesmo modo, o homem, na sua condição material, precisa do esplendor e da vivificação das graças divinas e dos atributos misericordiosos. Sem a presença do Espírito Santo, ele é sem vida. Embora física e mentalmente vivo, ele é espiritualmente morto. Cristo declarou: "O que nasceu da carne é carne, o que nasceu do Espírito é espírito", querendo dizer que o homem deve nascer de novo. Assim como o bebê nasce para a luz deste mundo físico, o homem físico e intelectual deve nascer para a luz do mundo da Divindade. No ventre da mãe, a criança ainda por nascer estava privada e inconsciente do mundo da existência material, mas depois de nascer ela contempla as maravilhas e belezas de um novo reino de existência e vida. No mundo do ventre ela estava completamente inconsciente e incapaz de conceber estas condições, mas após sua transformação descobre o radiante sol, as árvores, as flores e uma infinidade de bênçãos e graças à sua espera. No reino humano, o homem é cativo da natureza e ignora o mundo divino até nascer das condições físicas de limitação e privação através dos sopros do Espírito Santo. Então ele contempla a realidade do Reino espiritual, percebe as estreitas restrições do mundo da existência meramente humana e se torna consciente das ilimitadas e infinitas glórias do mundo de Deus. Por isso, não importa quanto possa avançar nos planos físico e intelectual, ele sempre carece das ilimitadas virtudes da Divindade, da proteção do Espírito Santo e da face de Deus.

XVIII
CIÊNCIA

As virtudes da humanidade são muitas, mas a ciência é a mais nobre de todas. A distinção da qual o homem desfruta acima e além do estado do animal é devida a esta virtude suprema. É uma dádiva de Deus; não é material, é divina. A ciência é o esplendor do Sol da Realidade, o poder de investigar e descobrir as verdades do universo, um meio pelo qual o homem encontra caminho em direção a Deus. Todos os poderes e atributos do homem são humanos e de origem hereditária - produzidos pelo processo da natureza - exceto o intelecto, que é supranatural. Por intermédio de pesquisa intelectual e inteligente, a ciência descobre todas as coisas. Ela une o presente e o passado, revela a história de nações e eventos passados, e confere ao homem atual a essência de todo o conhecimento e realizações humanas através das eras. Por processos intelectuais e dedução lógica da razão, este grande poder existente no homem pode penetrar os mistérios do futuro e antecipar seus eventos.

A ciência é a primeira emanação de Deus ao homem. Todas as coisas criadas incorporam a potencialidade da perfeição material, mas o poder da investigação intelectual e conquista científica é a maior virtude especificamente do homem apenas. Outros seres e organismos são privados dessa potencialidade e realização. Deus criou ou depositou no homem este amor à realidade. O desenvolvimento e progresso de uma nação estão de acordo com a medida e o grau de suas realizações científicas. Por esse intermédio, sua grandeza aumenta continuamente, e dia a dia o bem-estar e a prosperidade das pessoas são assegurados.

Todas as bênçãos são de origem divina, mas nenhuma pode ser comparada a esse poder da investigação intelectual e da pesquisa, que é uma dádiva eterna, produzindo frutos de infindável deleite. O homem está sempre participando desses frutos. Todas as outras bênçãos são temporárias; esta é uma posse imorredoura. Até mesmo a soberania tem suas limitações e derrotas; esta é uma soberania e domínio que ninguém pode usurpar ou destruir. Em suma, é uma bênção eterna e uma dádiva divina, o supremo presente de Deus ao homem. Por isso, deveis envidar vossos mais sinceros esforços na aquisição de ciências e artes. Quanto maiores as vossas realizações, mais elevado o vosso nível no propósito divino. O homem de ciências é perceptivo e dotado de visão, enquanto aquele que é ignorante e alheio a esse desenvolvimento, é cego. A mente investigativa é atenta e viva; a mente insensível e indiferente é surda e morta. Um homem de ciência é um verdadeiro indicador e representante da humanidade, pois através do processo de raciocínio indutivo e pesquisa ele se informa de tudo o que se refere à humanidade, seu estado, suas condições e acontecimentos. Ele estuda a sociedade humana, entende os problemas sociais e tece a trama e a constituição da civilização. Na verdade, a ciência pode ser comparada a um espelho no qual se revelam e se refletem as infinitas formas e imagens das coisas existentes. É o próprio fundamento de todo desenvolvimento individual e nacional. Sem esta base de investigação, o desenvolvimento é impossível. Por isso, buscai com esforço diligente o conhecimento e realização de tudo que se encontra no poder dessa maravilhosa dádiva.

Já vimos que a ciência ou o atributo da perspicácia científica é supranatural e que todas as outras bênçãos de Deus estão confinadas dentro dos limites da natureza. Qual é a prova disso? Todas as coisas criadas são cativas da natureza, exceto o homem. As estrelas e os sóis que flutuam através do espaço infinito, todas as formas de vida e existência terrena - seja mineral, vegetal ou animal - estão sob o domínio e o controle da lei natural. O homem, por intermédio do conhecimento e do poder científicos, governa a natureza e utiliza suas leis para realizar sua própria vontade. De acordo com as limitações da natureza, ele é uma criatura da terra, restrita a viver sobre sua superfície, mas através da utilização científica das leis físicas ele voa no céu, navega sobre o oceano e mergulha no seu interior. Os produtos de suas invenções e descobertas, tão familiares no nosso dia-a-dia, eram mistérios da natureza. Por exemplo, o homem trouxe a eletricidade do plano do invisível para o plano do visível, subordinou e aprisionou aquele misterioso agente natural e o fez servo de suas necessidades e desejos. Há muitos exemplos semelhantes, mas não nos prolongaremos. O homem, por assim dizer, tira a espada da mão da natureza e, usando-a como cetro de autoridade, domina a própria natureza. A natureza não possui a coroa das faculdades e atributos humanos. O homem possui inteligência consciente e reflexão; a natureza não. Este é um fundamento estabelecido entre os filósofos. O homem é dotado de vontade e memória, a natureza não possui nem uma nem outra. O homem pode desvendar os mistérios latentes na natureza, enquanto a natureza não está consciente dos fenômenos que ela própria oculta. O homem progride; a natureza é estacionária, sem poder progredir ou retroceder. O homem é dotado de virtudes ideais - por exemplo, intelecto, vontade, fé, confissão e reconhecimento de Deus - enquanto a natureza é privada de tudo isso. As faculdades ideais do homem, incluindo a capacidade da conquista científica, estão além do alcance da natureza. Estes são poderes pelos quais o homem é diferenciado e distinguido de todas as outras formas de vida. Esta é a dádiva do idealismo divino, a coroa que adorna a cabeça humana. A despeito da dádiva deste poder supranatural, é extremamente espantoso que os materialistas continuem a se considerar restritos e cativos da natureza. A verdade é que Deus dotou o homem de virtudes, poderes e faculdades ideais, dos quais a natureza é completamente privada e pelos quais o homem é elevado, distinto e superior. Devemos agradecer a Deus por essas dádivas, por esses poderes que Ele nos deu, por essa coroa que Ele colocou sobre nossas cabeças.

Como devemos utilizar essas dádivas e empregar essas bênçãos? Dirigindo nossos esforços para a unificação da raça humana. Devemos usar esses poderes no estabelecimento da unicidade do mundo humano, apreciar essas virtudes realizando a unidade entre brancos e negros, dedicar essa inteligência divina para aperfeiçoar a amizade e a harmonia entre todos os ramos da família humana, de modo que, sob a proteção e providência de Deus, Oriente e Ocidente possam tomar as mãos um do outro e se amarem mutuamente. Então a humanidade será como uma nação, uma raça e uma espécie - como ondas de um só oceano. Embora essas ondas possam diferir na forma e aspecto, são ondas do mesmo mar. Flores podem ser multicores, mas são todas flores do mesmo jardim. Árvores variam, embora cresçam no mesmo pomar. Todas são nutridas e vivificadas pela graça da mesma chuva, todas crescem e se desenvolvem pelo calor e luz de um mesmo sol, todas se refrescam e se alegram pela mesma brisa para produzirem diversos frutos. Isto está de acordo com a sabedoria criativa. Se todas as árvores produzissem o mesmo tipo de fruto, deixaria de ser delicioso. Em sua interminável variedade, o homem encontra satisfação em vez de monotonia.

E agora, ao contemplar vossas faces, lembro-me das árvores de diferentes cores e formas, mas todas carregadas de deliciosos e deleitáveis frutos, fragrantes e agradáveis tanto aos sentidos interiores como exteriores. A radiância e a espiritualidade desta reunião provêm dos favores de Deus. Nossos corações estão elevados em gratidão a Ele. Louvado seja Deus! Viveis no grande continente ocidental, usufruindo perfeita liberdade, segurança e paz deste governo justo. Em nenhum lugar há motivo para pesar e infelicidade; estais cercados por todos os meios de felicidade e satisfação, pois neste mundo humano não há maior bênção do que a liberdade. Vós não sabeis. Eu, que por quarenta anos fui prisioneiro, sei. Eu sei o valor e a bênção da liberdade. Pois vós tendes vivido e continuais a viver em liberdade, e não tendes medo de ninguém. Existe bênção maior do que isto? Liberdade! Liberdade! Segurança! Estas são as grandes dádivas de Deus. Por isso, louvai a Deus!

XIX
PRIMAVERA ESPIRITUAL

No mundo da existência, o homem atravessou sucessivos graus até atingir o reino humano. Em cada estágio de sua evolução, ele desenvolveu capacidade para avançar à seguinte posição e condição. Enquanto no reino mineral, ele estava adquirindo a capacidade para galgar a posição do vegetal. No reino vegetal, ele se preparou para o mundo do animal, e daí chegou à posição ou reino humano. Durante toda esta jornada de evolução, ele sempre e invariavelmente foi potencialmente humano.

No início de sua vida humana, o homem estava em estado embrionário no mundo do ventre. Nessa condição, ele recebeu capacidade e dom para a realidade da existência humana. Nesse estado limitado, as forças e capacidades necessárias para este mundo lhe foram concedidas. Neste mundo ele precisava de olhos; ele os recebeu potencialmente no outro. Ele precisava de ouvidos; lá ele os obteve em preparação à sua nova existência. As capacidades necessárias neste mundo lhe foram conferidas no mundo do ventre, de modo que ao chegar a este reino de verdadeira existência ele não só possuía todas as funções e capacidades necessárias mas também encontrou provisões para sua subsistência material esperando por ele.

Por isso, neste mundo ele deve se preparar para a vida do além. Aquilo que ele necessita no mundo do Reino deve ser obtido aqui. Assim como ele se preparou no mundo do ventre, adquirindo as forças necessárias para esta esfera da existência, as forças indispensáveis à existência divina devem ser potencialmente obtidas neste mundo.

Que coisas ele precisa no Reino que transcende a vida e as limitações desta esfera mortal? O mundo do além é um mundo de santidade e de esplendor; por isso, é necessário que neste mundo ele adquira estes atributos divinos. Naquele mundo há necessidade de espiritualidade, fé, certeza, conhecimento e amor a Deus. Estas coisas ele deve adquirir neste mundo para que após sua ascensão do reino terreno para o Reino celestial ele possa encontrar preparado tudo o que lhe é necessário na vida eterna.

Aquele mundo divino é claramente um mundo de luzes; por isso, o homem precisa de iluminação aqui. Aquele é um mundo de amor; o amor a Deus é essencial. É um mundo de perfeições; virtudes ou perfeições devem ser adquiridas. Aquele mundo é vivificado pelos sopros do Espírito Santo; neste mundo devemos buscá-los. Aquele é o Reino de vida imperecível; deve ser alcançado durante esta existência efêmera.

Por que meios o homem pode adquirir estas coisas? Como ele obtém estas dádivas e poderes misericordiosos? Primeiro, através do conhecimento de Deus. Segundo, através do amor a Deus. Terceiro, através da fé. Quarto, através de atos filantrópicos. Quinto, através de auto-sacrifício. Sexto, através do desprendimento deste mundo. Sétimo, através da pureza e da santidade. A menos que adquira estas capacidades e atinja estes requisitos, ele certamente será privado da vida eterna. Mas se possuir o conhecimento de Deus, inflamar-se com o fogo do amor de Deus, testemunhar os grandes e poderosos sinais do Reino, tornar-se a causa de amor entre a humanidade e viver no máximo grau de pureza e santidade, ele certamente nascerá pela segunda vez, será batizado pelo Espírito Santo e desfrutará a existência imperecível.

Não é espantoso que embora o homem tenha sido criado para conhecer e amar a Deus, para as virtudes do mundo humano, para a espiritualidade, iluminação celestial e vida eterna, continue ignorante e negligente a tudo isto? Vede como ele busca conhecimento de tudo exceto de Deus. Por exemplo, seu maior desejo é penetrar os mistérios da camada mais profunda da terra. Dia a dia se esforça por saber o que pode ser encontrado dez metros abaixo da superfície, o que ele pode descobrir no interior da pedra, o que pode aprender pela pesquisa arqueológica no pó. Ele se dedica a um árduo trabalho para sondar os mistérios terrestres, mas não tem a mínima preocupação em conhecer os mistérios do Reino, atravessar as ilimitadas regiões do mundo eterno, informar-se das realidades divinas, descobrir os segredos de Deus, atingir o conhecimento de Deus, testemunhar os esplendores do Sol da Verdade e perceber as glórias da vida imperecível. Ele está desatento e negligente em relação a estas coisas. Como ele é atraído pelos mistérios da matéria e quão completamente inconsciente está dos mistérios da Divindade! Mais ainda, ele está totalmente negligente e esquecido dos segredos da Divindade. Como é grande a sua ignorância! Como isto o leva à degeneração! É como se um bondoso e amoroso pai tivesse providenciado uma biblioteca de maravilhosos livros para seu filho para que ele pudesse se informar dos mistérios da criação, cercando-o, ao mesmo tempo, com todos os meios de conforto e recreação, mas o filho se divertisse com seixos e brinquedos, negligenciando todos os presentes e provisões de seu pai. Como o homem é ignorante e desatento! O Pai desejou eterna glória para ele, e ele se contenta com cegueira e privação. O Pai construiu para ele um palácio real, mas ele brinca com o pó; preparou-lhe um traje de seda, mas ele prefere permanecer nu; proveu-lhe deliciosos alimentos e frutas, mas ele procura seu alimento na grama dos campos.

Louvado seja Deus! Vós ouvistes o chamado do Reino. Vossos olhos estão abertos; volvestes vossas faces a Deus. Vosso propósito é o beneplácito de Deus, a compreensão dos mistérios do coração e a investigação das realidades. Dia e noite deveis vos esforçar para atingir os significados do Reino celestial, perceber os sinais da Divindade, adquirir a certeza de compreender e perceber que este mundo tem um Criador, um Vivificador, um Provedor, um Arquiteto - sabendo disto através de provas e evidências e não por meio de suscetibilidades, mais ainda, através de argumentos conclusivos e verdadeira visão - ou seja, visualizando isto tão claramente como os olhos exteriores vêem o sol. Que possais deste modo contemplar a presença de Deus e atingir o conhecimento dos santos Manifestantes.

XX
UNIDADE ETERNA

O que é verdadeira unidade? Quando observamos o mundo humano, nele encontramos várias expressões coletivas de unidade. Por exemplo, o homem distingue-se do animal pelo seu grau ou reino. Esta distinção abrangente inclui toda a posteridade de Adão e constitui uma grande família, ou a família humana, que pode ser considerada a unidade fundamental ou física da espécie humana. Além disso, há uma distinção entre os vários grupos humanos de acordo com a linhagem, cada grupo formando uma unidade racial separada dos outros. Há também uma unidade lingüística entre aqueles que falam o mesmo idioma como meio de comunicação; a unidade nacional em que vários povos vivem sob uma forma de governo como o francês, o alemão, o inglês, etc.; e unidade política, que preserva os direitos civis dos partidos ou facções do mesmo governo. Todas essas unidades são imaginárias e sem base real, pois nada de real procede delas. O propósito da verdadeira unidade é produzir resultados reais e divinos. Dessas unidades restritas que mencionamos provêm apenas resultados restritos, enquanto unidade irrestrita produz resultados irrestritos. Da restrita unidade de raça ou nacionalidade, por exemplo, os resultados serão no máximo limitados. É como uma família que vive só e solitária; dela nada resulta que seja ilimitado e universal.

A unidade que produz resultados irrestritos é primeiramente uma unidade da humanidade que reconhece que todos estão abrigados sob a sombra protetora de glória do Todo-Glorioso, que todos são servos do mesmo Deus; pois todos respiram a mesma atmosfera, vivem sobre a mesma terra, caminham sob o mesmo céu, recebem o esplendor do mesmo sol e estão sob a proteção de um só Deus. Esta é a suprema unidade, e seus resultados são duradouros se a humanidade aderir a ela; mas até agora a humanidade violou-a, aderindo a unidades sectárias e outros tipos restritos de unidade como a racial, patriótica ou de interesses próprios; por isso, nenhum grande resultado surgiu disso. No entanto, certamente a radiância e os favores de Deus são abrangentes, as mentes se desenvolveram, as percepções se tornaram aguçadas, as ciências e as artes se difundiram e existe capacidade para a proclamação e promulgação da verdadeira e derradeira unidade da humanidade, a qual trará resultados maravilhosos. Ela reconciliará todas as religiões, tornará afetuosas as nações guerreiras, fará com que reis hostis se tornem amistosos e trará paz e felicidade ao mundo humano. Unirá Oriente e Ocidente, removerá para sempre os fundamentos da guerra e erguerá a insígnia da Suprema Paz. Essas unidades limitadas são, portanto, sinais da grande unidade que tornará uma toda a família humana, exercendo atração de consciência no gênero humano.

Outra unidade é a espiritual, a qual emana dos sopros do Espírito Santo. Esta é maior do que a unidade do gênero humano. A unidade humana ou a solidariedade pode ser comparada ao corpo, enquanto a unidade proveniente dos sopros do Espírito Santo é o espírito que anima o corpo. Esta é a unidade perfeita. Ela cria tal condição na humanidade que cada um fará sacrifícios pelo outro, e o maior desejo será dar a vida e tudo que lhe pertence em benefício do outro. Esta é a unidade que existia entre os discípulos de Jesus Cristo e que uniu os Profetas e Almas santas do passado. É a unidade que, através da influência do espírito divino, permeia os bahá'ís de modo que cada um oferece sua vida pelo outro e se esforça com toda sinceridade para agradá-lo. Esta é a unidade que fez com que, em sua devoção e amor por ela, vinte mil pessoas dessem suas vidas na Pérsia. Ela tornou o Báb alvo de mil dardos e fez com que Bahá'u'lláh sofresse exílio e prisão por quarenta anos. Esta unidade é o próprio espírito do corpo do mundo. É impossível o corpo do mundo ser ressuscitado sem sua vivificação. Jesus Cristo - possa minha vida ser um sacrifício por Ele! - proclamou essa unidade entre o gênero humano. Toda alma que acreditou em Jesus Cristo foi revivificada e ressuscitada por esse espírito, atingiu o ápice da glória eterna, sentiu a vida imperecível, experimentou o segundo nascimento e elevou-se ao cume da felicidade.

No Verbo de Deus há ainda outra unidade - a unicidade dos Manifestantes de Deus, Abraão, Moisés, Jesus Cristo, Muhammad, o Báb e Bahá'u'lláh. Esta é uma unidade divina, celestial, radiante e misericordiosa - a mesma realidade que apareceu em sucessivos Manifestantes. Por exemplo, o sol é um só e o mesmo, mas os pontos em que ele alvorece são vários. Durante o verão ele surge no ponto setentrional da eclíptica; no inverno, surge no ponto de alvorecer meridional. A cada mês, ele surge numa certa posição zodiacal. Embora esses pontos de alvorecer sejam diferentes, o sol que aparece em todos eles é o mesmo. A importância disso é a realidade profética que é simbolizada pelo sol e os santos Manifestantes são os pontos de alvorecer ou posições zodiacais.

Há também a unidade ou entidade divina, a qual está santificada acima de toda concepção humana. Ela não pode ser compreendida nem concebida porque é uma realidade infinita e não pode se tornar finita. As mentes humanas são incapazes de abranger essa realidade porque todos os pensamentos e conceitos a seu respeito são finitos, criações intelectuais, e não a realidade do Ser Divino que é conhecida somente por Ele mesmo. Se, por exemplo, formarmos uma idéia a respeito da Divindade como um Ser vivente, todo-poderoso, subsistente por Si próprio e eterno, este será um conceito apreendido por uma realidade intelectual humana. A realidade da Divindade está santificada acima desse grau de conhecimento e percepção. Sempre esteve oculta e reclusa em sua própria santidade além da nossa compreensão. Embora ela transcenda nossa percepção, sua luz, dádivas, sinais e virtudes se tornaram manifestos nas realidades dos Profetas, assim como o sol resplandece em vários espelhos. Essas santas realidades são como refletores, e a realidade da Divindade é como o sol, o qual, embora se reflita nos espelhos, e suas virtudes e perfeições resplandeçam neles, não desce de sua própria posição de majestade e glória para se abrigar em espelhos; ele permanece no seu céu de santidade. Quando muito, sua luz se torna manifesta e evidente em seus espelhos ou manifestantes. Por isso, sua graça proveniente deles é a mesma graça, mas os receptáculos dessa graça são muitos. Esta é a unidade de Deus; isto é unicidade - unidade da Divindade, santificada além de toda descida e subida, encarnação, compreensão e concepção - unidade divina. Os Profetas são seus espelhos; sua luz se revela por intermédio dEles; suas virtudes resplandecem nEles; mas o Sol da Realidade jamais desce de sua altíssima posição. Isto é unidade, unicidade, santidade; esta é a glorificação pela qual nós louvamos e adoramos a Deus.

XXI
AS LUZES OBSCURECIDAS

Desde o tempo da criação de Adão até hoje houve dois caminhos no mundo da humanidade: um é o instintivo ou materialista, o outro, religioso ou espiritual. O caminho dos instintos é o do reino animal. O animal age de acordo com os requisitos da natureza, segue seus próprios instintos e desejos. Quaisquer que sejam seus impulsos e inclinações, ele tem a liberdade de satisfazê-los; ainda assim, ele é cativo da natureza. Ele não pode se desviar, nem no mínimo grau, do caminho que a natureza estabeleceu. Ele carece completamente de sensibilidade espiritual, ignora a religião divina e desconhece o Reino de Deus. O animal não tem qualquer capacidade de formar idéias ou de inteligência consciente; é cativo dos sentidos e é privado de tudo além deles. Está sujeito àquilo que o olho vê, o ouvido ouve, as narinas sentem, a gustação detecta e o tato revela. Estes sentidos são aceitáveis e suficientes para o animal. Mas aquilo que está além do alcance dos sentidos, o domínio daqueles fenômenos através dos quais o caminho consciente ao Reino de Deus passa, o mundo das sensibilidades espirituais e da religião divina - desses o animal é absolutamente inconsciente, pois na sua mais elevada posição ele é cativo da natureza.

Uma das coisas mais estranhas é que os materialistas de hoje se orgulham de seus instintos e dependências naturais. Eles afirmam que nada é digno de crédito e aceitação exceto aquilo que é sensível e tangível. Pela sua própria afirmativa, eles são cativos da natureza, inconscientes do mundo espiritual, alheios ao Reino divino e insipientes das dádivas divinas. Se isto é uma virtude, o animal a atingiu em grau superlativo, pois o animal desconhece completamente o domínio do espírito e é privado de qualquer contato com o mundo interior da percepção consciente. O animal estaria de acordo com os materialistas em negar a existência daquilo que transcende os sentidos. Se admitirmos que limitar-se ao plano dos sentidos é uma virtude, o animal é de fato mais virtuoso que o homem, pois é inteiramente privado daquilo que se encontra além e absolutamente inconsciente do Reino de Deus e seus sinais, enquanto Deus entesourou na criatura humana uma ilimitada capacidade pela qual ele pode reger o mundo da natureza.

Considerai como todos os outros seres fenomênicos são cativos da natureza. O sol, aquele colossal centro do nosso sistema solar, as estrelas e planetas gigantes, as imensas montanhas, o próprio globo terrestre e seus reinos inferiores ao ser humano - são todos cativos da natureza, exceto o homem. Nenhum outro ser criado pode, nem que seja no mais ínfimo grau, desviar-se da submissão às leis da natureza. O sol, em sua glória e grandeza, milhões de milhas afastado, é cativo em sua órbita de revolução universal, sujeito ao controle natural do universo. O homem é o regente da natureza. De acordo com a restrição e lei natural ele deveria permanecer sobre a terra, mas vede como ele transgride essa lei e voa por sobre as montanhas em aviões. Ele navega a superfície do oceano e submerge nas profundezas em submarinos. O homem faz da natureza sua serva; ele subordina, por exemplo, a poderosa energia da eletricidade e a aprisiona numa pequena lâmpada para seu uso e conveniência. Ele fala do Oriente para o Ocidente através de um fio. Ele é capaz de armazenar e guardar sua voz num fonógrafo. Embora viva sobre a terra, ele penetra os mistérios dos mundos estelares inconcebivelmente distantes. Descobre realidades ocultas no interior da terra, descobre tesouros, desvenda segredos e mistérios do mundo fenomênico e traz à luz aquilo que de acordo com as cuidadosas leis da natureza deveria permanecer oculto, desconhecido e insondável. Por intermédio de uma perfeita capacidade interior o homem traz essas realidades do plano invisível para o visível. Isto é contrário à lei da natureza.

É evidente, portanto, que o homem exerce domínio sobre o campo da natureza. A natureza é inerte; o homem é progressista. A natureza não possui consciência; o homem é dotado dela. A natureza não possui vontade e age forçosamente, enquanto o homem possui uma poderosa vontade. A natureza é incapaz de descobrir mistérios e realidades, ao passo que o homem é especialmente capaz de fazer isso. A natureza não tem relação com o domínio de Deus; o homem se sintoniza com suas evidências. A natureza não tem conhecimento de Deus; o homem tem consciência dEle. O homem adquire virtudes; a natureza é privada delas. O homem pode voluntariamente eliminar vícios; a natureza não possui poder de modificar a influência de seus instintos. Em suma, é evidente que o homem é mais nobre e superior, e que nele existe uma capacidade perfeita que supera a natureza. Ele tem consciência, vontade, memória, inteligência, atributos divinos e virtudes de que a natureza carece totalmente; por isso, o homem é mais elevado e nobre devido à perfeita força celestial latente e manifesta nele.

Como parece estranho que o homem, apesar de ser dotado desse poder perfeito, possa descer a um nível que lhe é inferior e simplesmente se declarar claramente inferior à sua verdadeira posição. Deus criou nele um tal espírito consciente que ele é o mais maravilhoso de todos os seres contingentes. Ignorando essas virtudes ele desce ao plano material, considera a matéria o governante da existência e nega aquilo que está além dela. Será isso virtude? No sentido mais amplo, isso é animalesco, pois o animal nada mais percebe. Na verdade, desse ponto de vista o animal é o maior filósofo, pois ignora completamente o Reino de Deus, não tem qualquer sensibilidade espiritual e não possui conhecimento algum do mundo celestial. Em suma, esta é uma visão do caminho da natureza.

O segundo caminho é o da religião, o caminho do Reino divino. Ele implica a aquisição de atributos louváveis, iluminação celestial e atos justos no mundo humano. Este caminho conduz ao progresso e elevação do mundo. É fonte de iluminação humana, educação e melhoramento ético - o ímã que atrai o amor de Deus por causa do conhecimento de Deus que ele concede. Este é o caminho dos santos Manifestantes de Deus; pois na realidade Eles são a base da divina religião da unicidade. Não há mudança ou transformação nesse caminho. É a causa do aperfeiçoamento humano, a aquisição de virtudes e iluminação do gênero humano.

Infelizmente a humanidade está completamente submersa em imitações e falsidades, embora a verdade da religião divina tenha sempre permanecido a mesma. Superstições obscureceram a verdade fundamental, o mundo escureceu e a luz da religião está oculta. Esta escuridão leva a divergências e dissensões; há muitos e variados rituais e dogmas; por isso surgiu discórdia entre os sistemas religiosos, enquanto a religião é para a unificação da espécie humana. A verdadeira religião é fonte de amor e harmonia entre os homens, a causa de desenvolvimento de qualidades louváveis, mas os povos se apegam à falsificação e à imitação, negligenciam a realidade que unifica, privando-se assim da radiância da religião. Seguem superstições herdadas de seus pais e ancestrais. De tal modo isto prevaleceu que eles retiraram a luz celestial da verdade divina e permanecem na escuridão das imitações e imaginações. Aquilo que estava destinado a conduzir à vida tornou-se causa de morte; aquilo que era um fator de conhecimento, agora é prova de ignorância; aquilo que era um elemento de sublimidade da natureza humana mostrou-se como sua degradação. Por isso, o domínio dos religiosos restringiu-se e obscureceu-se gradativamente, ampliando-se e avançando o campo dos materialistas; pois os religiosos se prenderam à imitação e à falsidade, negligenciando e abandonando a santidade e a sagrada realidade da religião. Quando o sol se põe, é o tempo dos morcegos voarem. Eles avançam porque são criaturas da noite. Quando a luz da religião obscurece, os materialistas aparecem. Eles são os morcegos da noite. O declínio da religião é o tempo de sua atividade; eles procuram as sombras quando o mundo mergulha na escuridão e as nuvens se espalham sobre ele.

XXII
A NECESSIDADE DE EDUCAÇÃO DIVINA

Nos Livros dos Profetas estão registradas certas boas-novas absolutamente verdadeiras e acima de qualquer dúvida. O Oriente sempre foi o ponto do alvorecer do Sol da Realidade. Todos os Profetas de Deus apareceram lá. As religiões de Deus foram proclamadas, os ensinamentos de Deus foram divulgados e a lei de Deus foi fundada no Oriente. O Oriente sempre foi o centro das luzes. O Ocidente adquiriu iluminação do Oriente, mas em alguns aspectos o reflexo da luz foi mais intenso no Ocidente. Isto é especialmente verdadeiro no Cristianismo. Cristo surgiu na Palestina e Seus ensinamentos foram fundados lá. Embora as portas do Reino tenham sido abertas naquela terra e as dádivas da Divindade amplamente difundidas desde seu centro, os povos do Ocidente abraçaram e proclamaram o cristianismo mais plenamente do que os do Oriente. O Sol da Realidade brilhou do horizonte oriental, mas seu calor e sua luz são mais resplandecentes no Ocidente, onde o radiante estandarte de Cristo foi erguido. Tenho grandes esperanças de que as luzes do surgimento de Bahá'u'lláh possam também encontrar a mais plena manifestação e reflexão nestas regiões ocidentais, pois os ensinamentos de Bahá'u'lláh são especialmente aplicáveis às condições dos povos daqui. As nações ocidentais são dotadas da capacidade de entender as palavras racionais e incomparáveis de Bahá'u'lláh e de perceber que a essência dos ensinamentos de todos os Profetas anteriores pode ser encontrada em Sua elocução.

Os ensinamentos de Cristo foram proclamados por Bahá'u'lláh, que também revelou novos ensinamentos aplicáveis às condições atuais do mundo humano. Ele treinou os povos do Oriente através do poder e da proteção do Espírito Santo, consolidou as almas da humanidade e estabeleceu os fundamentos da unidade internacional.

Através do poder de Suas palavras, os corações dos povos de todas as regiões se harmonizaram. Por exemplo, entre os bahá'ís da Pérsia existem cristãos, muçulmanos, zoroastrianos, judeus e muitas outras das diversas denominações e crenças que foram reconciliadas em unidade e amor na Causa de Bahá'u'lláh. Embora estas almas anteriormente fossem hostis e antagônicas, cheias de ódio e inimizade umas para com as outras, sanguinárias e invasoras, que consideravam a animosidade e a agressão meios de agradar a Deus, agora elas se tornaram amorosas e plenas do radiante fervor de companheirismo e fraternidade, sendo que o propósito de todas elas é o serviço ao mundo da humanidade, a promoção da paz internacional, a unificação das religiões divinas e atos de filantropia universal. Por intermédio de suas palavras e ações estão provando a veracidade de Bahá'u'lláh.

Considerai a animosidade e o ódio hoje existentes entre as várias nações do mundo. Que discórdia e hostilidades surgem, que guerras e contendas, quanto derramamento de sangue, quanta injustiça e tirania! Neste exato momento há guerra na Turquia oriental e também entre a Turquia e a Itália. As nações se dedicam à conquista e derramamento de sangue, cheias de sentimento de ódio religioso, buscando o beneplácito de Deus através da matança e destruição daqueles que, em sua cegueira, consideram inimigos. Quão ignorantes são eles! Aquilo que é proibido por Deus eles consideram aceitáveis por Ele. Deus é amor; Deus quer companheirismo, pureza, santidade e paciência; são estes os atributos da Divindade. Por isso, estas nações hostis e ferozes, levantaram-se contra a Divindade pensando estar servindo a Deus. Que ignorância grosseira! Que injustiça, que cegueira e falta de percepção! Em suma, devemos nos esforçar de coração e alma a fim de que esta escuridão do mundo contingente possa se dispersar, que as luzes do Reino brilhem sobre todos os horizontes, o mundo da humanidade se ilumine, a imagem de Deus se torne aparente nos espelhos humanos, a lei de Deus seja bem estabelecida e todas as regiões do mundo desfrutem a paz, conforto e tranqüilidade sob a proteção eqüitativa de Deus. Eis minha advertência e exortação a vós: Sede bondosos para com todas as pessoas, amai a humanidade, considerai toda a humanidade como vossos parentes e servos do Deus altíssimo. Esforçai-vos dia e noite para que a animosidade e a contenda sejam abandonadas pelos corações humanos, que todas as religiões se reconciliem e as nações amem umas às outras, de modo que nenhum preconceito racial, religioso ou político permaneça e o mundo humano contemple a Deus como o princípio e o fim de toda a existência. Deus criou todos e todos retornam a Deus. Portanto, amai a humanidade de todo coração e alma. Se encontrardes um homem pobre, auxiliai-o; se virdes alguém doente, curai-o; restitui confiança ao temeroso, fazei do covarde um nobre e corajoso, educai o ignorante, associai-vos ao estranho. Emulai Deus. Considerai quão bondosamente, quão amavelmente Ele trata a todos e segui Seu exemplo. Deveis tratar as pessoas de acordo com os preceitos divinos - em outras palavras, tratai-as tão gentilmente como Deus as trata, pois esta é a maior realização possível para o mundo humano.

Além disso, sabei que Deus criou no homem o poder da razão, através do qual ele é capaz de investigar a realidade. Deus não tencionou que o homem imitasse cegamente seus pais e ancestrais. Ele o dotou de mente, ou faculdade do raciocínio, através da qual ele deve investigar e descobrir a verdade, e aceitar aquilo que julgar real e verdadeiro. Não deve ser um cego imitador ou seguidor de qualquer alma. Não deve confiar irrestritamente na opinião de qualquer homem sem investigar; ao contrário, cada alma deve investigar com inteligência e independência, e chegar a uma conclusão real e se restringir somente àquela realidade. A maior causa da privação e do desalento no mundo humano é a ignorância baseada na imitação cega. É devido a isto que guerras e conflitos prevalecem; é por isso que ódio e animosidade surgem continuamente em meio à humanidade. Por causa da falha em investigar a verdade, os judeus rejeitaram Jesus Cristo. Eles esperavam Sua vinda, dia e noite pranteavam e lamentavam, dizendo: "Ó Deus! Apressai o dia do advento de Cristo", expressando o mais intenso anseio pelo Messias; mas quando Cristo apareceu, eles O negaram e rejeitaram, trataram-No com arrogante desprezo, condenaram-No à morte e finalmente O crucificaram. Por que isto aconteceu? Porque eles estavam seguindo cegamente imitações, acreditando naquilo que lhes havia chegado como herança de seus pais e ancestrais, apegando-se tenazmente a isso e recusando-se a investigar a realidade de Cristo. Por isso, eles se privaram das graças de Cristo, ao passo que se tivessem evitado imitações e investigado a realidade do Messias, certamente teriam sido orientados a crer nEle. Em vez disso, eles disseram: "Ouvimos de nossos pais e lemos no Velho Testamento que Cristo deve vir de um lugar desconhecido; mas sabemos que Este veio de Nazaré." Imersos na interpretação literal e imitando as crenças dos pais e ancestrais, eles deixaram de entender o fato de que embora o corpo de Jesus tivesse vindo de Nazaré, a realidade de Cristo veio do lugar desconhecido do Reino divino. Disseram também que o cetro de Cristo seria de ferro - ou seja, Ele deveria empunhar uma espada. Quando Cristo apareceu, Ele possuía uma espada; mas era a espada de Sua língua com a qual Ele separou o falso do verdadeiro. Mas os judeus estavam cegos ao significado e simbolismo espirituais das palavras proféticas. Esperavam também que o Messias sentasse sobre o trono de Davi, mas Cristo não possuía trono nem aparência de soberania; ao contrário, Ele era um homem pobre, aparentemente desprezível e derrotado; por isso, como poderia Ele ser o verdadeiro Cristo? Esta era uma de suas mais insistentes objeções baseadas nas interpretações e ensinamentos ancestrais. Na realidade, Cristo foi glorificado com uma soberania eterna e domínio imperecível - espirituais e não temporais. Seu trono e Reino estavam estabelecidos nos corações dos homens, sobre os quais Ele reina com poder e autoridade infindável. Apesar do cumprimento de todos os sinais proféticos em Cristo, os judeus O negaram e entraram no período de privação por causa de sua devoção a imitações e paradigmas ancestrais.

Dentre outras objeções, eles diziam: "Da língua dos Profetas recebemos a promessa de que, na época de Sua vinda, Cristo proclamaria a lei da Torá, ao passo que vemos este Homem ab-rogar os mandamentos do Pentateuco, interrompendo nosso abençoado sábado e abolindo a lei do divórcio. Ele não deixou nada da antiga lei de Moisés; portanto, Ele é inimigo de Moisés." Na realidade, Cristo proclamou e completou a lei de Moisés. Ele foi o verdadeiro auxiliador e assistente de Moisés. Difundiu o Livro de Moisés por todo o mundo e restabeleceu os fundamentos da lei revelada por Ele. Aboliu certas leis e formas sem importância, que não eram mais compatíveis com as necessidades da época, tais como o divórcio e a pluralidade de esposas. Os judeus não compreenderam isto, e a causa de sua ignorância era o apego cego e tenaz às imitações das antigas formas e ensinamentos; por isso, eles finalmente condenaram Cristo à morte.

Disseram, ainda: "Pela língua dos Profetas foi anunciado que durante o tempo do aparecimento de Cristo a justiça de Deus prevaleceria por todo o mundo, a tirania e a opressão seriam desconhecidas, a justiça se estenderia até mesmo ao reino animal, bestas ferozes se associariam em bondade e paz, o lobo e o cordeiro beberiam da mesma fonte, o leão e a gazela conviveriam no mesmo prado, a águia e a codorniz habitariam o mesmo ninho; mas, ao invés disso, vemos que na época deste suposto Cristo, os romanos conquistaram a Palestina e a governam com extrema tirania, em nenhum lugar há justiça e os sinais de paz no reino animal estão claramente ausentes." Estas afirmativas e atitudes dos judeus foram herdadas de seus antepassados - submissão cega a expectativas literais que não ocorreram no tempo de Jesus Cristo. O verdadeiro sentido destas asserções proféticas era que vários povos, simbolizados pelo lobo e pelo cordeiro, entre os quais o amor e o companheirismo eram impossíveis, associar-se-iam durante o reinado do Messias, beberiam da mesma fonte de vida nos Seus ensinamentos e se tornariam Seus devotados seguidores. Isto foi realizado quando pessoas de todas as religiões, nacionalidades e tendências se tornaram unidas em suas crenças e seguiram Cristo com humildade, associando-se em amor e irmandade à sombra de Sua divina proteção. Os judeus, cegos a isto e apegados às suas fanáticas imitações, foram insolentes e arrogantes para com Cristo e O crucificaram. Tivessem investigado a realidade de Cristo, eles teriam percebido Sua beleza e verdade.

Deus deu ao homem olhos investigadores através dos quais ele pudesse ver e reconhecer a verdade. Ele dotou o homem de ouvidos para que pudesse ouvir a mensagem da realidade e conferiu-lhe o dom do raciocínio com o qual ele pudesse descobrir as coisas por si mesmo. Estes são seus dons e seu instrumento para investigar a verdade. O homem não foi destinado a ver com os olhos alheios, ouvir através dos ouvidos de outros ou entender com a mente dos outros. No plano da criação de Deus, cada criatura humana tem seu dom, capacidade e responsabilidade individuais. Portanto, dependei de vossa própria razão e julgamento, e aderi ao resultado de vossa própria investigação; caso contrário, estareis completamente submersos no mar da ignorância e privados de todas as graças de Deus. Volvei-vos a Deus, suplicai humildemente em Seu limiar, buscando ajuda e confirmação, para que Deus possa romper os véus que obscurecem vossa visão. Então vossos olhos serão plenamente iluminados, contemplareis a realidade de Deus, face a face, e vossos corações se tornarão completamente purificados da escória da ignorância, refletindo as glórias e as graças do Reino.

Almas santas são como o solo que foi arado e cultivado com dedicação, retirados os espinhos e cardos e arrancadas as ervas daninhas. Um solo assim é extremamente fértil, e sua colheita será abundante e copiosa. Do mesmo modo, o homem deve se livrar das ervas daninhas da ignorância, dos espinhos da superstição e dos cardos da imitação para poder descobrir a realidade nas colheitas do verdadeiro conhecimento. Caso contrário, a descoberta da realidade é impossível, contenda e divergência de crença religiosa sempre hão de permanecer e os seres humanos, como lobos violentos, enfurecer-se-ão e atacarão uns aos outros com ódio e hostilidade. Suplicamos a Deus que destrua os véus que limitam nossa visão e que estas nuvens que obscurecem a manifestação das luzes brilhantes possam ser dispersas a fim de que o fulgente Sol da Realidade possa resplandecer. Imploramos e invocamos a Deus, buscando Seu auxílio e confirmação. O homem é um filho de Deus, o mais nobre, sublime e amado por Deus, seu Criador. Portanto, ele deve sempre se esforçar para que as graças e virtudes divinas a ele conferidas possam prevalecer e controlá-lo. Por ora, o solo dos corações humanos é como a terra escura, mas no âmago da substância deste solo escuro jazem latentes milhares de fragrantes flores. Devemos nos empenhar em cultivar e despertar estas potencialidades, descobrir o tesouro secreto nesta mina e repositório de Deus, revelar estes poderes resplandecentes há muito ocultos nos corações humanos. Então, as glórias de ambos os mundos serão mescladas e incrementadas e a quintessência da existência humana tornar-se-á manifesta.

Não devemos nos contentar em simplesmente seguir um certo caminho porque nossos pais o seguiram. É dever de cada um investigar a realidade, e a investigação da realidade realizada por outros não nos servirá. Se todos no mundo fossem ricos e apenas um homem pobre, de que serviriam essas riquezas àquele homem? Se o mundo todo fosse virtuoso e uma pessoa mergulhada em vício, que bons resultados adviriam dele? Se todo o mundo fosse resplandecente e um homem cego, quais seriam seus benefícios? Se o mundo inteiro tivesse abundância e um homem faminto, que sustento ele obteria? Por isso, todo homem deve ser um investigador por si mesmo. Idéias e crenças herdadas de seus pais e ancestrais não serão suficientes, pois aderir a estas nada mais é senão imitação, e imitação sempre foi causa de decepção e desencaminhamento. Sede investigadores da realidade para que possais atingir a essência da verdade e da vida.

Perguntastes por que é necessário à alma proveniente de Deus empreender esta jornada de volta a Deus. Gostaríeis de entender a realidade desta questão tal como eu a ensino, ou quereis conhecê-la como o mundo a ensina? Porque se eu a respondesse de acordo com este último modo, isto seria apenas imitação e não esclareceria o assunto.

A realidade subjacente a esta questão é que o espírito mau, o Satã ou o que quer que seja interpretado como mal, refere-se à natureza inferior no homem. Esta natureza inferior é simbolizada de várias maneiras. No homem existem duas expressões. Uma é a expressão da natureza; a outra, a expressão do reino espiritual. O mundo da natureza é imperfeito. Olhai-o com clareza, deixando de lado todas as superstições e imaginações. Se abandonardes um homem deseducado e bárbaro na selva africana, há alguma dúvida de que ele permanecerá ignorante? Deus nunca criou um espírito mau; todas estas idéias e nomenclaturas são símbolos que expressam a natureza meramente humana ou terrena do homem. É uma condição essencial do solo que dele germinem espinhos, cardos e árvores infrutíferas. Relativamente falando, isto é mau; é simplesmente o mais baixo estado e o mais desprezível produto da natureza.

É evidente, portanto, que o homem tem necessidade de educação e inspiração divinas, que o espírito e as graças de Deus são essenciais ao seu desenvolvimento. Ou seja, os ensinamentos de Cristo e dos Profetas são necessários à sua educação e orientação. Por que? Porque Eles são os Jardineiros divinos que cultivam o solo dos corações e mentes humanos. Eles educam o homem, extirpam as ervas daninhas, queimam os espinhos e transformam os lugares ermos em jardins e pomares em que crescem árvores frutíferas. A sabedoria e o propósito de Sua instrução é que o homem deve se desenvolver progressivamente, de grau em grau, até atingir a perfeição. Por exemplo, se um homem viver sua vida inteira numa cidade, não poderá conhecer o mundo todo. Para ser perfeitamente informado ele deve visitar outras cidades, observar as montanhas e os vales, cruzar os rios e atravessar as planícies. Em outras palavras, sem educação progressiva e universal a perfeição não será alcançada.

O homem deve caminhar por muitos caminhos e se sujeitar a vários processos em sua evolução. Fisicamente, ele não nasce com desenvolvimento pleno, mas passa pelos estágios consecutivos de feto, bebê, infância, juventude, maturidade e velhice. Suponhamos que ele tivesse a capacidade de permanecer jovem por toda a sua vida. Então ele não entenderia o significado de velhice e não poderia crer em sua existência. Não podendo perceber a condição da velhice, não saberia que é jovem. Não saberia a diferença entre o jovem e o velho sem experimentar a velhice. A menos que se tenha passado pela infância, como se poderia saber que esta é uma criança ao seu lado? Se não houvesse erro, como se poderia reconhecer o certo? Se não fosse pelo pecado, como se poderia apreciar a virtude? Se más ações fossem desconhecidas, como se poderia louvar as boas ações? Se não existisse a doença, como se perceberia a saúde? O mal não tem existência; ele é a ausência do bem. Doença é a perda da saúde; pobreza é a falta de riqueza. Quando a riqueza desaparece, temos a pobreza; procura-se dentro do cofre, mas não se encontra nada. Sem conhecimento há ignorância; portanto, ignorância é simplesmente falta de conhecimento. A morte é a ausência de vida. Por isso, de um lado temos a existência; do outro, a inexistência, a negação ou a falta de existência.

Em resumo, a jornada da alma é necessária. O caminho da vida é aquele que conduz ao conhecimento e à presença divina. Sem instrução e orientação, a alma jamais poderia progredir para além das condições de sua natureza inferior, que é insipiente e imperfeita.

XXIII
RELIGIÃO: ESSENCIAL E NÃO-ESSENCIAL

O mundo da existência é uma emanação do atributo misericordioso de Deus. Deus irradiou sobre os fenômenos da existência o esplendor de Sua misericórdia, e Ele é clemente e generoso a toda a Sua criação. Por isso, o mundo humano deve sempre ser o receptáculo das graças provenientes de Sua majestade, o eterno Senhor, tal como Cristo declarou: "Portanto deveis ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito." Pois Suas graças, como a luz e o calor do sol no céu material, descem igualmente sobre toda a humanidade. Conseqüentemente, o homem deve aprender a lição da bondade e benevolência do próprio Deus. Assim como Deus é gentil a toda a humanidade, o homem também deve ser gentil aos seus semelhantes. Se sua atitude for justa e amorosa em relação aos seus semelhantes, em relação a toda a criação, então será de fato digno de ser considerado a imagem e semelhança de Deus.

Há diferentes tipos de irmandade ou fraternidade. Pode ser associação familiar, a relação de intimidade da família. Esta é limitada e sujeita a mudança e ruptura. Quão freqüentemente, numa família, o amor e a harmonia se transformam em inimizade e antagonismo. Outra forma de fraternidade se manifesta no patriotismo. O homem ama seus semelhantes porque pertencem à mesma pátria. Esta é igualmente limitada e sujeita a mudança e desintegração, como quando os filhos da mesma pátria, por exemplo, opõem-se uns aos outros em guerra, carnificina e batalha. Há ainda outra irmandade ou fraternidade, a que surge da unidade racial, a unicidade de origem racial, criando laços de afinidade e amizade. Esta também tem suas limitações e está sujeita a mudança, pois muitas vezes se testemunha guerras e lutas mortais entre povos e nações da mesma linhagem racial. Há uma quarta espécie de fraternidade, a atitude do homem face à própria humanidade, o amor altruísta da espécie humana e o reconhecimento do laço humano fundamental. Esta, embora ilimitada, é suscetível a mudança e destruição. Nem mesmo deste laço de fraternidade universal se vê o resultado esperado. Qual é o resultado esperado? Amorosa bondade entre todas as criaturas humanas e uma firme e indestrutível fraternidade que inclua todas as possibilidades e expressões divinas na humanidade. Por isso, é evidente que esta fraternidade, amor e generosidade baseados na família, pátria, raça, ou uma atitude de altruísmo não são suficientes nem permanentes, visto que todos eles são limitados, restritos e sujeitos a mudança e ruptura. Pois na família há discórdia e alienação; entre filhos da mesma pátria se vê lutas e guerras civis; entre os da mesma raça há freqüente hostilidade e ódio; e, até mesmo entre os altruístas, as divergências de opinião e falta de abnegada devoção oferecem pouca promessa de unidade permanente e indestrutível entre a humanidade.

Por isso, o Senhor do gênero humano fez os Seus santos e divinos Manifestantes virem ao mundo. Ele revelou Seus Livros celestiais a fim de estabelecer a fraternidade espiritual e, através do poder do Espírito Santo, tornou possível a realização da fraternidade perfeita entre o gênero humano. E quando, por intermédio dos sopros do Espírito Santo, esta fraternidade e harmonia perfeita forem estabelecidas entre os homens - sendo espiritual esta fraternidade e amor, celestial esta amorosa bondade, e divinos estes laços estreitos - há de surgir uma unidade indissolúvel, imutável e jamais sujeita a transformação. É sempre a mesma e assim permanecerá eternamente. Considerai, por exemplo, a fundação da fraternidade estabelecida por Cristo. Observai como essa fraternidade conduziu à unidade e concórdia, e como ela fez diversas almas atingirem o mesmo nível, no qual voluntariamente sacrificaram suas vidas umas pelas outras. Estavam satisfeitas em renunciar posses e prontas a jubilosamente dar a própria vida. Conviviam com tal amor e companheirismo que Galeno, o famoso filósofo grego, mesmo não sendo cristão, em sua obra intitulada "O Progresso das Nações" disse que as crenças religiosas são altamente conducentes ao fundamento da verdadeira civilização. Como prova disso, ele disse: "Há certas pessoas contemporâneas a nós, conhecidas como cristãos. Elas possuem um grau superlativo de civilização moral. Cada uma delas é um grande filósofo, pois convivem em máximo amor e cordialidade. Sacrificam a vida umas pelas outras. Oferecem possessões terrenas umas em prol das outras. Pode-se dizer que os cristãos são como uma só pessoa. Há entre eles um laço de caráter indissolúvel."

É evidente, portanto, que o fundamento da verdadeira fraternidade, a causa da amorosa cooperação e reciprocidade e a fonte da verdadeira bondade e abnegada devoção nada mais são do que os sopros do Espírito Santo. Sem essa influência e disposição isto é impossível. Talvez possamos perceber algum grau de fraternidade através de outros motivos, mas estas são associações limitadas e passíveis de mudança. Quando a fraternidade humana se fundamenta no Espírito Santo, ela é eterna, imutável, ilimitada.

Houve um tempo em que em várias partes do Oriente a fraternidade, a amabilidade e todas as qualidades louváveis da humanidade pareciam haver desaparecido. Não havia qualquer sinal de fraternidade patriótica, religiosa ou racial, mas, em vez disso, prevaleciam o fanatismo, o ódio e o preconceito. Os adeptos de cada religião eram inimigos ferozes dos outros, cheios de espírito de hostilidade e ávidos por derramamento de sangue. A atual guerra nos Bálcãs oferece um paralelo destas condições. Considerai a carnificina, a ferocidade e a opressão que lá se manifestam, mesmo neste século iluminado - tudo isso se baseia fundamentalmente no preconceito e discórdia religiosa. Pois as nações envolvidas pertencem às mesmas raças e pátrias; no entanto são selvagens e impiedosas umas com as outras. Condições igualmente deploráveis prevaleceram na Pérsia no século dezenove. Obscurantismo e fanatismo ignorante grassavam; não havia qualquer traço de fraternidade e camaradagem entre as raças. Ao contrário, os corações humanos estavam cheios de fúria e ódio; escuridão e trevas estavam manifestas nas vidas e condições humanas por toda parte. Numa época como esta Bahá'u'lláh surgiu sobre o horizonte divino, como o esplendor do sol, e, naquela grande escuridão e desesperança do mundo humano, irradiou uma intensa luz. Ele estabeleceu a unicidade do mundo humano, declarando que todos os membros da espécie humana são como ovelhas, e Deus o verdadeiro Pastor. O Pastor é um só, e todos os povos são Seu rebanho.

O mundo humano é um, e Deus é igualmente bondoso para com todos. Qual é, então, a fonte de malevolência e ódio no mundo humano? Este verdadeiro Pastor ama todas as Suas ovelhas. Ele as conduz nas verdes pastagens. Ele as cria e protege. Qual é, pois, a fonte de inimizade e alienação entre o gênero humano? Qual o motivo deste conflito e contenda? A verdadeira causa subjacente é a falta de unidade e associação religiosa, pois em cada uma das grandes religiões encontramos superstição, cega imitação de credos, e adesão a fórmulas teológicas em vez dos fundamentos divinos, criando diferenças e divergências em meio ao gênero humano em vez de entendimento e solidariedade. Conseqüentemente, surgiram conflito, ódio e hostilidade baseados nessa divergência e divisão. Se investigarmos os fundamentos das religiões divinas, constataremos que são um só, absolutamente imutável e jamais sujeito a transformação. Por exemplo, cada uma das divinas religiões encerra dois tipos de leis e mandamentos. O primeiro se refere ao mundo da moralidade e instituições éticas. Estes são mandamentos essenciais. Instilam e despertam o conhecimento e o amor de Deus, o amor pela humanidade, as virtudes do mundo humano, os atributos do Reino divino, o renascimento e a ressurreição do reino da natureza. Constituem uma espécie de lei divina que é comum a todas e jamais está sujeita a mudança. Desde o alvorecer do ciclo adâmico até hoje esta lei fundamental de Deus continua imutável. Este é o fundamento da religião divina.

O segundo tipo inclui leis e instituições que provêem as necessidades e condições humanas de acordo com as exigências de tempo e lugar. Estas são contingentes e não são de importância essencial e nunca deveriam ter sido a causa e a fonte de conflito humano. No tempo de Moisés, por exemplo - que a paz esteja com Ele! - de acordo com as exigências daquele período, o divórcio foi permissível. Durante a época de Cristo, como o divórcio não estava em conformidade com o tempo e as condições, Jesus Cristo ab-rogou-o. No tempo de Moisés a pluralidade de esposas foi admissível, mas na época de Cristo a exigência que a sancionara não mais existia; por isso foi proibida. Moisés viveu no isolamento do deserto do Sinai; por isso, Suas leis e mandamentos estavam em conformidade com aquelas condições. A punição pelo roubo era cortar a mão da pessoa. Uma lei como essa era adequada à vida no deserto, mas não é compatível com as condições atuais. Tais leis constituem, portanto, a segunda categoria ou a não essencial das religiões divinas e não são de importância primordial, pois tratam das transações humanas que são sempre mutáveis de acordo com os requisitos de tempo e lugar. Por isso, os fundamentos intrínsecos das religiões divinas são os mesmos. Como isto é verdade, por que deve existir hostilidade e contenda entre elas? Por que este ódio e conflito, ferocidade e carnificina devem continuar? É admissível ou justificável? Deus o proíba!

XXIV
A RELIGIÃO RENOVADA

A criação é a expressão de movimento. Movimento é vida. Um objeto em movimento é um objeto vivo, ao passo que um imóvel e inerte é como morto. Todas as coisas criadas são progressivas em seus planos ou reinos de existência, e estimulados pelo poder do espírito de vida. A energia universal é dinâmica. Nada é estacionário no mundo material dos fenômenos exteriores ou no mundo interior do intelecto e da consciência.

A religião é a expressão exterior da realidade divina. Por isso deve ser viva, vitalizada, dinâmica e progressiva. Sem movimento e progresso, ela carece de vida divina; ela está morta. As instituições divinas estão em constante atividade e progresso; por isso, sua revelação deve ser contínua e progressiva. Todas as coisas estão sujeitas a reforma. Este é um século de vida e de renovação. As ciências e artes, a indústria e as invenções foram reformadas. A lei e a ética foram reconstituídas e reorganizadas. O mundo do pensamento regenerou-se. As ciências e filosofias de épocas passadas não servem mais para hoje. As necessidades atuais exigem novos métodos e soluções; os problemas do mundo não têm precedentes. Velhas idéias e antigos modos de pensar rapidamente se tornam obsoletos. Leis antigas e sistemas éticos arcaicos não satisfazem os requisitos e as condições modernas, pois este é claramente o século de uma nova vida, o século da revelação da realidade e, por isso, o maior de todos os séculos. Considerai como o desenvolvimento científico de cinqüenta anos superou e eclipsou o conhecimento e as realizações de todas as eras passadas juntas. Poderiam os enunciados e as teorias dos antigos astrônomos explicar nossos conhecimentos atuais sobre o sol e o sistema planetário? Poderia o véu da obscuridade que nublou os séculos medievais satisfazer as exigências da clareza de visão e compreensão que caracteriza o mundo de hoje? Poderá o despotismo dos antigos governos responder ao brado de liberdade que se ergueu do coração da humanidade neste ciclo de iluminação? É evidente que hoje nenhum resultado vital pode surgir dos costumes, instituições e pontos de vista do passado. Em vista disso, deveriam as antigas formas de cegas imitações e interpretações teológicas continuar a guiar e controlar a vida religiosa e o desenvolvimento espiritual da humanidade de hoje? Deveria o homem, dotado que é do poder da razão, seguir e aderir irrefletidamente aos dogmas, credos e crenças hereditárias que são inconsistentes à análise da razão neste século de refulgente realidade? Isto, inquestionavelmente, não satisfará aos homens de ciência, pois quando eles encontram premissas ou conclusões contrárias aos atuais padrões de comprovação e destituídas de bases reais, eles rejeitam aquilo que foi anteriormente aceito como padrão e verdadeiro, e seguem adiante a partir de novas bases.

Os Profetas divinos revelaram e fundaram religiões. Eles formularam certas leis e princípios celestiais para guiar a humanidade. Ensinaram e promulgaram o conhecimento de Deus, estabeleceram ideais éticos louváveis e inculcaram os mais altos padrões de virtudes no mundo humano. Esses ensinamentos celestiais e alicerces da realidade foram gradualmente sendo nublados pelas interpretações humanas e imitações dogmáticas de crenças ancestrais. As realidades essenciais que os Profetas tão arduamente trabalharam para estabelecer nos corações e mentes dos homens enquanto sofriam provações e severas torturas da perseguição, haviam agora quase desaparecido. Alguns desses Mensageiros celestiais foram mortos, alguns aprisionados, todos Eles desprezados e rejeitados por proclamarem a realidade da Divindade. Logo depois de Sua partida deste mundo, a verdade essencial de Seus ensinamentos se perdia de vista e se aderiam imitações dogmáticas.

Uma vez que as interpretações humanas e cegas imitações divergem amplamente, conflito e discórdia religiosa começavam a surgir entre a humanidade, a luz da verdadeira religião se extinguia e a unidade do mundo humano era destruída. Os Profetas de Deus proclamaram o espírito de unidade e acordo. Eles foram os Fundadores da realidade divina. Por isso, se as nações do mundo evitarem a imitação e investigarem a realidade subjacente à Palavra revelada de Deus, hão de se harmonizar e se reconciliar. Pois a realidade é uma e não múltipla.

As nações e religiões imergem em cegas e fanáticas imitações. Um homem é judeu porque seu pai foi judeu. O muçulmano segue implicitamente as crenças e observâncias de seus ancestrais. O budista é fiel à sua herança budista. Isto quer dizer que eles professam crença religiosa cegamente, sem investigação, tornando a unidade e a harmonia impossíveis. É evidente, portanto, que esta condição não terá solução sem uma reforma no mundo da religião. Em outras palavras, a realidade fundamental das religiões divinas deve ser renovada, reformada, novamente anunciada à humanidade.

Da semente da realidade, a religião se desenvolveu numa árvore que deu ramos e folhas, flores e frutos. Depois de algum tempo essa árvore entrou numa condição de decadência. As folhas e as flores murcharam e pereceram; a árvore definhou e se tornou estéril. Não é justo que o homem se apegue à velha árvore, alegando que suas forças vitais estão inalteradas, seus frutos, inigualáveis, sua existência, eterna. A semente da realidade deve ser novamente semeada nos corações humanos para que daí possa surgir uma nova árvore e novos frutos divinos refresquem o mundo. Por seu intermédio as nações e povos agora em divergência religiosa serão unidos, as imitações serão deixadas de lado e a verdadeira fraternidade universal será estabelecida. Conflito e contenda cessarão entre a humanidade; todos serão reconciliados como servos de Deus, pois todos se abrigam sob a árvore de Sua providência e mercê. Deus é bondoso para com todos; Ele concede Sua graça a todos igualmente, tal como Jesus Cristo declarou que Deus faz "cair a chuva sobre justos e injustos" (Mateus 5:45) - ou seja, a misericórdia de Deus é universal. Toda a humanidade se encontra sob a proteção de Seu amor e favor, e a todos Ele mostrou o caminho da orientação e do progresso. O progresso é de dois tipos: o material e o espiritual. O primeiro é alcançado através da observação do mundo exterior e constitui a base da civilização. O progresso espiritual é concedido pelos sopros do Espírito Santo e é o despertar da alma consciente do homem para perceber a realidade divina. O progresso material garante a felicidade no mundo humano. O progresso espiritual garante a felicidade e a eternidade da alma. Os Profetas de Deus inauguraram as leis da civilização divina. Eles foram a raiz e a primeira fonte de todo conhecimento. Estabeleceram os princípios da fraternidade, da irmandade humana, que é de vários tipos - tais como a fraternidade familiar, de raça, de nação e de motivos éticos. Essas formas de fraternidade, esses laços de irmandade, são meramente temporais e transitórios. Não asseguram harmonia e geralmente são causa de desavença. Não impedem conflito e contenda; são, ao contrário, egoístas, restritas e muitas vezes causa de inimizade e ódio entre o gênero humano. A fraternidade espiritual, que se acende e é estabelecida pelos sopros do Espírito Santo, une as nações e remove as causas do conflito e da discórdia. Transforma a humanidade numa grande família e estabelece as fundações da unicidade da humanidade. Promulga o espírito da concórdia internacional e assegura a paz universal. Por isso, devemos investigar os fundamentos desta fraternidade celestial. Devemos nos afastar de todas as imitações e promover a realidade dos ensinamentos divinos. De acordo com esses princípios e ações, e pela assistência do Espírito Santo, tanto a felicidade material como a espiritual serão alcançadas. Enquanto todas as nações e povos não se unirem nesta fraternidade verdadeira pelos laços do Espírito Santo, enquanto os preconceitos nacionais e internacionais não forem eliminados da realidade desta fraternidade espiritual, o homem não atingirá o verdadeiro progresso, prosperidade e felicidade duradoura. Este é o século de uma nacionalidade nova e universal. As ciências avançaram; a indústria progrediu; a política foi reformada; a liberdade, proclamada; a justiça está despertando. Este é o século de movimento, de estímulo divino e de realizações, o século da solidariedade humana e serviço altruístico, o século da paz universal e da realidade do Reino divino.

XXV
O AMOR DIVINO

Qualquer assunto apresentado a uma audiência ponderada deve ser apoiado por provas racionais e argumentos lógicos. Há quatro tipos de provas: primeiro, através da percepção dos sentidos; segundo, através da faculdade do raciocínio; terceiro, da autoridade da tradição ou da escritura; quarto, por meio de inspiração. Quer dizer, há quatro critérios ou padrões de julgamento pelos quais a mente humana chega às suas conclusões. Primeiro consideraremos o critério dos sentidos. Este é um padrão ainda sustentado pelos filósofos materialistas do mundo. Eles crêem que qualquer coisa perceptível aos sentidos é verdadeira e existe com certeza absoluta. Eles dizem, por exemplo: "Aqui está uma lâmpada que se vê, e por ser perceptível ao sentido da visão, não se pode duvidar de sua existência. Lá está uma árvore; o sentido da visão assegura a sua realidade, a qual é inquestionável. Eis um homem; vê-se que é um homem; portanto ele existe." Numa palavra, tudo o que for confirmado pelos sentidos é considerado indubitável e inquestionável como o produto de cinco multiplicado por cinco; não pode ser vinte e seis, nem menos do que vinte e cinco. Conseqüentemente, os filósofos materialistas consideram o critério dos sentidos como o primeiro e o mais importante.

Mas, na avaliação dos filósofos divinos, esta prova e convicção não são confiáveis; mais ainda, eles consideram falso o critério dos sentidos por ser ele imperfeito. A visão, por exemplo, é um dos sentidos mais importantes, ainda que sujeito a muitas aberrações e imprecisões. O olho vê a miragem como uma massa de água; considera imagens no espelho como realidades, quando elas são apenas reflexos. Um homem, navegando um rio, imagina que as coisas à sua margem é que se movem, ao passo que ele está em movimento e elas paradas. Para o olho, a terra parece fixa enquanto o sol e as estrelas se movem em torno dela. O fato é que os corpos celestes são estacionários e a terra é que gira em torno de seu eixo. Os colossais sóis, planetas e constelações que brilham no firmamento parecem pequenos, ou melhor, infinitesimais ao olho humano, ao passo que na realidade eles são imensamente maiores do que a terra tanto em dimensão como em volume. Uma faísca rodopiando parece uma bola de fogo para o olho. Há inúmeros exemplos deste tipo que mostram o erro e a imprecisão dos sentidos. Por isso, os filósofos divinos consideraram este critério de julgamento imperfeito e não confiável.

O segundo critério é o do intelecto. Os antigos filósofos, em especial, consideravam o intelecto como o mais importante agente de julgamento. Entre os sábios da Grécia, Roma, Pérsia e Egito o critério da verdadeira prova era a razão. Eles mantinham que qualquer assunto submetido à faculdade do raciocínio poderia ser comprovado como verdadeiro ou falso, e deveria ser correspondentemente aceito ou rejeitado. Mas para as pessoas de percepção este critério é igualmente imperfeito e não confiável, pois estes mesmos filósofos que se apegavam à razão ou intelecto como critério de julgamento divergiam amplamente entre si a respeito de qualquer assunto de investigação. As afirmativas dos filósofos gregos são contraditórias às conclusões dos sábios persas. Até mesmo entre os próprios filósofos gregos há constante divergência e falta de concordância a respeito de qualquer assunto. Grande diferença de pensamento também prevalecia entre os sábios da Grécia e de Roma. Portanto, se o critério da razão e do intelecto constituísse um padrão correto e infalível de julgamento, os que o testaram e aplicaram deveriam ter chegado às mesmas conclusões. Como eles divergem e são contraditórios em suas conclusões, isto é uma evidência de que o método e o padrão de teste devem ter sido falhos e insuficientes.

O terceiro critério ou padrão de prova é o da tradição ou da escritura - ou seja, que toda afirmativa ou conclusão deveria ser apoiada por tradições registradas em certos livros religiosos. Quando consideramos até mesmo os Livros Sagrados - os Livros de Deus - somos levados a perguntar "Quem entende estes livros? Através de que autoridade de explanação estes Livros podem ser compreendidos?" Deve ser pela autoridade da razão humana, e se a razão ou intelecto é incapaz de explicar certas questões, ou se os possuidores de intelecto se contradizem uns aos outros na interpretação das tradições, como se pode confiar em tal critério para conclusões precisas?

O quarto critério é o da inspiração. Em séculos passados, muitos filósofos reivindicaram iluminação ou revelação, anunciando suas afirmações pela proclamação de que "este assunto foi revelado por meu intermédio" ou "assim eu falo por inspiração." A esta categoria de filósofos pertenciam os Illuminati. Inspirações são sugestões ou suscetibilidades do coração humano. As sugestões do coração algumas vezes são satânicas. Como podemos distingui-las? Como podemos dizer se certa afirmativa é uma inspiração e sugestão do coração proveniente da assistência misericordiosa ou da intervenção satânica?

Conseqüentemente, tornou-se evidente que os quatro critérios ou padrões de julgamento através dos quais a mente humana chega às suas conclusões são deficientes e imprecisos. Todos eles estão sujeitos ao equívoco e ao erro nas suas conclusões. Mas uma afirmação apresentada à mente, acompanhada por provas que os sentidos podem perceber como corretas, que a faculdade da razão pode aceitar, que está de acordo com a autoridade tradicional e é aprovada pelas sugestões do coração, pode ser julgada e considerada como perfeitamente correta, pois foi provada e testada por todos os padrões de julgamento e considerada completa. Quando aplicamos apenas um teste, há possibilidades de erro. Isto é evidente e manifesto por si mesmo.

Consideraremos agora a questão do amor que foi sugerida, submetendo-o aos quatro padrões de julgamento e daí chegar às nossas conclusões.

Declaramos que o amor é a causa da existência de todos os fenômenos e a ausência de amor é causa de desintegração ou inexistência. O amor é a dádiva deliberada de Deus, o laço de união em todos os fenômenos. Primeiro consideraremos a prova disto através da percepção dos sentidos. Ao olharmos para o universo, observamos que todos os seres complexos ou fenômenos existentes são feitos primariamente de elementos simples unidos por uma força de atração. Através desta força de atração, a coesão se tornou manifesta entre os átomos destes elementos componentes. O ser resultante é um fenômeno do tipo contingente inferior. O poder de coesão expresso no reino mineral é, na realidade, amor ou afinidade manifesta em baixo grau, de acordo com as exigências do mundo mineral. Damos um passo maior em direção ao reino vegetal, no qual descobrimos que um mais elevado poder de atração se tornou manifesto entre os elementos componentes que formam os fenômenos. Através deste grau de atração é produzida uma combinação celular entre estes elementos que formam o corpo de uma planta. Por isso, no nível do reino vegetal existe o amor. Entramos no reino animal e encontramos o poder de atração unindo elementos simples, tal como no mineral, mais uma combinação celular, tal como no vegetal, mais o fenômeno de sensações ou sensibilidades. Observamos que os animais são suscetíveis a certos tipos de união e companheirismo, e que eles exercem a seleção natural. Esta atração elementar, esta combinação e afinidade seletiva é o amor manifesto no grau do reino animal.

Finalmente chegamos ao reino humano. Por ser este o reino superior, a luz do amor é mais resplendente. No homem encontramos o poder de atração entre os elementos que compõem seu corpo material, mais a atração que produz a combinação celular ou o poder de crescimento, mais a atração que caracteriza os sentidos do reino animal, mas acima e além de todos estes poderes inferiores descobrimos no ser humano a atração do coração, as suscetibilidades e afinidades que unem os homens, capacitando-os a viverem e se associarem em amizade e solidariedade. É evidente, portanto, que no mundo humano o mais excelente rei e soberano é o amor. Se o amor se extinguisse, o poder de atração se dissipasse e a afinidade dos corações humanos fosse destruída, o fenômeno da vida humana desapareceria.

Esta é uma prova perceptível aos sentidos, aceitável pela razão, em harmonia com as tradições e ensinamentos dos Livros Sagrados e comprovada pelas sugestões dos próprios corações humanos. É uma prova na qual podemos confiar plenamente e declarar completa. Estes são, entretanto, apenas graus de amor existentes no mundo natural ou físico. Sua manifestação sempre se dá de acordo com os requisitos das condições e padrões naturais.

O verdadeiro amor é o que existe entre Deus e Seus servos, o amor que congrega as almas santas. Este é o amor do mundo espiritual, não o amor dos corpos e organismos físicos. Por exemplo, considerai e observai como as dádivas de Deus descem sucessivamente sobre a humanidade, como as fulgências divinas continuamente brilham sobre o mundo humano. Não pode haver dúvida de que estas dádivas, estas graças, estes esplendores emanam do amor. Se o amor não fosse o motivo divino, seria impossível ao coração humano atingi-los ou recebê-los. Se o amor não existisse, as bênçãos divinas não poderiam descer sobre qualquer objeto ou coisa. Se não fosse o amor, o recipiente do esplendor divino não poderia irradiar e refletir esse esplendor sobre outros objetos. Se formos dos que percebem, compreenderemos que as graças de Deus se manifestam continuamente, tal como os raios do sol emanam incessantemente do centro solar. O mundo fenomênico é radiante e resplendente devido à esplendorosa fulgência do sol. Do mesmo modo, o domínio dos corações e espíritos é iluminado e ressuscitado pelos brilhantes raios do Sol da Realidade e pelas graças do amor de Deus. Por meio disso, o mundo da existência e o reino dos corações e espíritos são eternamente vivificados. Não fosse o amor de Deus, os corações seriam inanimados, os espíritos definhariam e a realidade do homem seria privada dos favores perenes.

Considerai até que ponto o amor de Deus se manifesta. Entre os sinais de Seu amor que aparecem no mundo estão os pontos do alvorecer de Seus Manifestantes. Que infinito grau de amor é refletido sobre a humanidade pelos Manifestantes divinos! Para guiar o povo, Eles desejosamente ofereceram Suas vidas para ressuscitar os corações humanos. Eles aceitaram a cruz. A fim de capacitar as almas humanas a atingir o supremo grau de progresso, durante Seus limitados anos Eles sofreram imensas provações e dificuldades. Se Jesus Cristo não tivesse amor ao mundo humano certamente não teria acolhido a cruz. Ele foi crucificado pelo amor à humanidade. Considerai o infinito grau desse amor. Sem amor à humanidade João, o Batista, não teria oferecido sua vida. O mesmo ocorreu com todos os Profetas e Almas Santas. Se o Báb não tivesse manifestado amor à humanidade, certamente não teria oferecido Seu peito a mil projéteis. Se Bahá'u'lláh não estivesse inflamado pelo amor à humanidade, não teria de boa vontade aceitado quarenta anos de aprisionamento.

Observai quão raramente as almas humanas sacrificam seu prazer ou conforto em prol de outros, como é improvável que uma pessoa ofereça seu olho ou se permita mutilar em benefício de outrem. No entanto, todos os Manifestantes divinos sofreram, ofereceram Suas vidas e Seu sangue, sacrificaram Sua existência, conforto e tudo que possuíam pelo amor à humanidade. Considerai, pois, o quanto eles amam. Não fosse por Seu amor à humanidade, o amor espiritual seria mera terminologia. Não fosse por Sua iluminação, as almas humanas não seriam radiantes. Quão efetivo é Seu amor! Este é um sinal do amor de Deus, um raio do Sol da Realidade.

Por isso, devemos dar louvores a Deus, pois é a luz de Sua generosidade que se irradiou sobre nós através de Seu amor que é sempiterno. Seus Manifestantes divinos ofereceram Suas vidas pelo amor a nós. Considerai, portanto, o que o amor de Deus significa. Se não fosse o amor de Deus todos os espíritos seriam inanimados. O significado disto não é morte física; muito mais que isso, é aquela condição a respeito da qual Cristo declarou: "Deixa que os mortos enterrem os seus mortos", (Mateus 8:22) pois "O que nasceu da carne é carne, o que nasceu do Espírito é espírito." (João 3:6) Se não fosse o amor de Deus, os corações não seriam iluminados. Se não fosse o amor de Deus, a senda do Reino não estaria aberta. Se não fosse o amor de Deus, os Livros Sagrados não teriam sido revelados. Se não fosse o amor de Deus, os Profetas divinos não teriam sido enviados ao mundo. O fundamento de todas estas dádivas é o amor de Deus. Por isso, no mundo humano não há poder maior do que o amor de Deus. É o amor de Deus que nos reuniu aqui esta noite. É o amor de Deus que interliga o Oriente e o Ocidente. É o amor de Deus que ressuscitou o mundo. Ora, devemos agradecer a Deus pois uma tão grande dádiva e resplendor nos foram revelados.

Agora chegamos a outro aspecto do nosso assunto: Será que a operação e os efeitos do amor se confinam a este mundo ou se estendem mais e mais, a uma outra existência? Sua influência afetará somente nossa existência aqui ou se estenderá à vida eterna? Ao observarmos o reino humano, imediatamente percebemos que é superior a todos os outros. Quanto à diferenciação da vida no mundo da existência, há quatro graus ou reinos: o mineral, o vegetal, o animal e o humano. O reino mineral possui certa virtude que denominamos coesão. O reino vegetal possui propriedades coesivas mais o poder de crescimento ou poder aumentativo. O reino animal é possuidor das virtudes do mineral e do vegetal, além da capacidade dos sentidos. Mas o animal, embora dotado dos sentidos, é completamente privado de consciência, absolutamente desligado do mundo da consciência e do espírito. O animal não possui qualquer capacidade pela qual possa fazer descobertas que estejam além do domínio dos sentidos. Ele não tem qualquer capacidade de origem intelectual. Por exemplo, um animal que se encontre na Europa não é capaz de descobrir o continente americano. Ele só compreende fenômenos que se encerram dentro dos limites de seus sentidos e instintos. Ele é incapaz de qualquer raciocínio abstrato. O animal não consegue conceber o fato de que a terra é esférica ou que gira em torno de seu eixo. Ele não é capaz de entender que as pequenas estrelas nos céus sejam mundos extraordinários, imensamente maiores do que a terra. O animal não pode ter uma concepção abstrata pelo intelecto. Ele é privado destas capacidades. Portanto, estas capacidades são peculiares ao homem, e é evidente que no reino humano há uma realidade da qual o animal é destituído. Que realidade é essa? É o espírito do homem. Por seu intermédio, o homem se distingue acima de todos os demais reinos fenomênicos. Embora ele possua todas as virtudes dos reinos inferiores, ele é adicionalmente dotado da faculdade espiritual, o dom celestial da consciência.

Todos os fenômenos materiais estão sujeitos à natureza. Todos os organismos materiais são cativos da natureza. Nenhum deles pode sofrer o mínimo desvio das leis da natureza. Esta terra, estas grandes montanhas, os animais com suas maravilhosas capacidades e instintos não podem ir além das limitações naturais. Todas as coisas são cativas da natureza, exceto o homem. O homem é o soberano da natureza; ele rompe as leis da natureza. Embora seja um animal adaptado pela natureza para viver sobre a superfície da terra, ele voa pelo ar como um pássaro, navega sobre o oceano e mergulha profundamente sob suas ondas em submarinos. O homem é dotado de um poder através do qual penetra e descobre as leis da natureza, trazendo-as do mundo invisível para o plano do visível. Houve tempo em que a eletricidade era uma força latente da natureza. De acordo com as leis da natureza, ela deveria permanecer um segredo oculto, mas o espírito do homem a descobriu, extraiu-a de seu repositório secreto e tornou visíveis os seus fenômenos. É evidente e manifesto que o homem é capaz de romper as leis da natureza. Como ele realiza isso? Por intermédio de um espírito que Deus o dotou na criação. Esta é uma prova de que o espírito do homem o diferencia e distingue acima de todos os reinos inferiores. É este espírito a que o versículo do Velho Testamento se refere quando afirma: "Deus disse: façamos o homem à nossa imagem como nossa semelhança." Somente o espírito do homem penetra as realidades de Deus e participa das graças divinas.

XXVI
O ALICERCE DA RELIGIÃO

Deus é um, o esplendor de Deus é um, e a humanidade é constituída dos servos desse único Deus. Deus é amável a todos. Ele cria e provê a todos, e todos se encontram sob Seu cuidado e proteção. O Sol da Verdade, o Verbo de Deus, resplandece sobre toda a humanidade; a nuvem divina faz cair sua preciosa chuva; os suaves zéfiros de Sua misericórdia sopram e toda a humanidade está submersa no oceano de Sua eterna justiça e amorosa bondade. Deus criou o gênero humano da mesma progênie para que todos possam se associar em espírito de camaradagem, exercerem amor uns aos outros e conviverem em unidade e fraternidade.

Mas nós temos agido de modo contrário à vontade e agrado de Deus. Temos sido a causa de inimizade e desunião. Nós nos separamos uns dos outros e nos levantamos em oposição e luta uns contra os outros. Quantas foram as guerras entre os povos e as nações! Quanta carnificina! Inúmeras são as cidades e lares que foram arruinados. Tudo isto é contrário ao agrado de Deus, pois Ele desejou amor para a humanidade. Ele é clemente e misericordioso a todas as Suas criaturas. Ele ordenou amizade e solidariedade entre os homens.

O mais lastimável de tudo é o estado de diferença e divergência que criamos entre nós em nome da religião, imaginando que o supremo dever em nossa crença religiosa é o de alienação e divergência, que devemos evitar uns aos outros e considerarmo-nos mutuamente contaminados por erro e infidelidade. Na verdade, os fundamentos das religiões divinas são um só e o mesmo. As divergências que surgiram entre nós são devidas a cegas imitações e crenças dogmáticas e adesão a formas ancestrais de adoração. Abraão foi o fundador da verdade. Moisés, Cristo, Muhammad, foram as manifestações da verdade. Bahá'u'lláh foi a glória da verdade. Isto não é uma simples afirmação; isto será comprovado.

Deixai-me solicitar vossa mais estrita atenção em relação a este assunto. As religiões divinas encerram dois tipos de mandamentos. Primeiro, aquelas que constituem os ensinamentos essenciais ou espirituais da Palavra de Deus. São estas a fé em Deus, a aquisição das virtudes que caracterizam a perfeita humanidade, a moralidade louvável, a aquisição das dádivas e graças que emanam dos esplendores divinos - em suma, os mandamentos que dizem respeito à moral e à ética. Este é o aspecto fundamental da religião de Deus, e é da máxima importância, pois o conhecimento de Deus é o requisito fundamental do homem. O homem deve compreender a unicidade da Divindade. Ele deve conhecer e aceitar os preceitos de Deus e ter a certeza de que o desenvolvimento ético da humanidade depende da religião. Ele deve se libertar de todas as imperfeições e buscar a aquisição de virtudes celestiais a fim de poder se tornar a imagem e semelhança de Deus. Na Bíblia Sagrada está registrado que Deus disse: "Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança." É evidente por si próprio que a imagem e semelhança mencionadas não se aplicam à forma e aparência do ser humano, pois a realidade da Divindade não se limita a qualquer forma ou imagem. Referem-se, sim, aos atributos e características de Deus. Assim como se diz que Deus é justo, o homem deve ser igualmente justo. Tal como Deus é amoroso e bondoso a todos os homens, o homem também deve manifestar amorosa bondade a toda a humanidade. Do mesmo modo que Deus é leal e sincero, o homem deve mostrar os mesmos atributos no mundo humano. Assim como Deus é misericordioso para com todos, o homem deve ser a manifestação da misericórdia. Numa palavra, a imagem e semelhança de Deus constituem as virtudes de Deus, e o objetivo é que o homem se torne o recipiente dos esplendores dos atributos divinos. Este é o alicerce fundamental de todas as religiões divinas, a própria verdade, comum a todas. Abraão promulgou-a; Moisés proclamou-a. Cristo e todos os Profetas sustentaram este estandarte, este aspecto da religião divina.

Segundo, há leis e mandamentos que são temporários e não essenciais. Estes dizem respeito a procedimentos e relações humanas. Estes são contingentes e sujeitos a mudança de acordo com as exigências de tempo e lugar. Estes mandamentos não são permanentes nem fundamentais. Na época de Noé, por exemplo, foi oportuno considerar os frutos do mar permissíveis; por isso Deus ordenou que Noé se alimentasse de toda a vida animal marinha. No tempo de Moisés isto não estava de acordo com as exigências da vida de Israel; por isso, foi revelado um segundo mandamento que ab-rogava parcialmente a lei referente aos alimentos marinhos. Na época de Abraão - que a paz esteja com Ele! - o leite de camela foi considerado um alimento lícito e aceitável, assim como a carne de camelo; mas na época de Jacó, por causa de um juramento feito por Ele, isto se tornou ilícito. Estas leis são não-essenciais e temporárias. Na Bíblia Sagrada há certos mandamentos que, de acordo com aquelas épocas passadas, constituíam o próprio espírito da época, a própria luz daquele período. De acordo com a lei da Torá, por exemplo, se um homem roubasse uma certa quantia, sua mão era cortada. É praticável e razoável que na época atual se corte a mão de uma pessoa pelo roubo de um dólar? Na Torá existem dez mandamentos concernentes a homicídio. Poderiam estes ser efetivos nos dias de hoje? Inquestionavelmente, não; os tempos mudaram. De acordo com o texto explícito da Bíblia, se alguém modificar ou infringir a lei do sábado ou tiver contato com fogo no sábado, deverá ser morto. Hoje, esta lei é ab-rogada. A Torá declara que se uma pessoa disser algo desrespeitoso ao seu pai, deve sofrer pena de morte. Será isso passível de execução atualmente? Não, as condições humanas sofreram mudanças. Do mesmo modo, no tempo de Cristo, certos mandamentos de menor importância, apropriados àquela época, foram sancionados.

Foi, portanto, demonstrado conclusivamente que o fundamento da religião de Deus permanece inalterado e imutável. É este fundamento imóvel que assegura o progresso e a estabilidade da sociedade e a iluminação da humanidade. Sempre foi a causa de amor e justiça entre os homens. Está a serviço da verdadeira solidariedade e unificação de toda a humanidade, pois jamais se modifica e nem está sujeito a substituição. As leis contingentes ou não essenciais que regulam os procedimentos da sociedade e os afazeres do dia-a-dia são mutáveis e sujeitas a ab-rogação.

Eu vos pergunto: Qual é o propósito da missão de Profeta? Por que Deus enviou os Profetas? É evidente por si próprio que os Profetas são os Educadores dos homens e os Instrutores da raça humana. Eles vêm para conferir educação universal à humanidade, para instruir a humanidade, para elevar a raça humana do abismo do desespero e da desolação e capacitar o homem a alcançar o apogeu do progresso e da glória. Os povos se encontram na escuridão; os Profetas os trazem para o reino da luz. Eles estão numa condição de completa imperfeição; os Profetas os imbuem de perfeições. O propósito da missão profética nada mais é que educar e guiar os povos. Por isso, devemos ter consideração e estar atentos à pessoa assim qualificada - ou seja, qualquer alma que demonstra ser o Educador do gênero humano e o Professor da raça humana é, indubitavelmente, o Profeta de Sua época.

Por exemplo, examinemos os eventos relacionados à história de Moisés - que a paz esteja com Ele! Ele habitava em Mídiã*, numa época em que os filhos de Israel estavam em cativeiro e escravidão na terra do Egito, sujeitos a toda sorte de tirania e severa opressão. Eles eram iletrados e ignorantes, passando por experiências e provações cruéis. Estavam em tal estado de desamparo e incapacidade que se tornou proverbial dizer que um só egípcio podia dominar dez israelitas. Numa época como esta e em condições tão horríveis é que surgiu Moisés e irradiou o esplendor celestial. Ele salvou os israelitas da escravidão do Faraó e libertou-os do cativeiro. Ele os conduziu da terra do Egito para a Terra Santa. Eles haviam estado dispersos e arruinados; Ele unificou e disciplinou-os, conferiu-lhes as bênçãos da sabedoria e do conhecimento. Haviam sido escravos; Ele os tornou príncipes. Ignorantes; Ele transformou-os em sábios. Imperfeitos; Ele capacitou-os a atingir perfeição. Numa palavra, Ele os retirou de sua condição de desespero e os conduziu à plenitude da confiança e valor. Eles se tornaram renomados por todo o mundo antigo até que finalmente, no ápice e esplendor de sua nova civilização, atingiram a glória da soberania de Salomão. Através da orientação e instrução de Moisés, estes escravos e cativos se tornaram o povo preponderante entre as nações. Eles se tornaram célebres não somente em superioridade física e militar, mas sua fama se difundiu amplamente em todos os níveis das artes, letras e refinamento. Até mesmo os célebres filósofos da Grécia viajavam a Jerusalém para estudar com os sábios israelitas, e foram muitas as lições de filosofia e sabedoria que receberam. Entre estes filósofos estava o famoso Sócrates. Ele visitou a Terra Santa e estudou com os profetas de Israel, adquirindo os princípios de seus ensinamentos filosóficos e o conhecimento de suas avançadas artes e ciências. Depois de voltar à Grécia, ele fundou o sistema conhecido como a unidade de Deus. O povo grego levantou-se contra ele e, finalmente, ele foi envenenado na presença do rei. Hipócrates e muitos outros filósofos gregos sentavam-se aos pés dos sábios doutores israelitas e absorviam suas exposições de sabedoria e verdade interior.

*Mídiã é uma antiga região situada a noroeste da Península Árabe. n.r.

Já que Moisés, através da influência de Sua grande missão, foi capaz de libertar os israelitas do baixo estado de aviltamento e humilhação, firmando-os numa posição de prestígio e glorificação, disciplinando-os e educando-os, é necessário que cheguemos a um julgamento íntegro e justo em relação a um Instrutor tão maravilhoso. Pois nesta grandiosa realização Ele Se manteve sozinho e sem auxílio. Poderia Ele ter conseguido tal transformação e estabelecido tal condição entre este povo sem a confirmação e a assistência do poder celestial? Poderia Ele ter levado um povo da humilhação para a glória sem um apoio sagrado e divino?

Nenhum outro poder senão o divino poderia ter realizado isto. Nisso reside a prova da condição de Profeta, pois a missão de um Profeta é educar a raça humana, assim como fez este Personagem, provando ser Ele um poderoso Profeta entre os Profetas, e Seu Livro o próprio Livro de Deus. Esta é uma prova racional, direta e perfeita.

Em suma, Moisés - que a paz esteja com Ele! - estabeleceu a lei de Deus, purificou a moral do povo de Israel e concedeu-lhe um ímpeto rumo a realizações mais nobres e elevadas. Mas, após a partida de Moisés, seguindo o declínio da glória da era salomônica, durante o reinado de Jeroboão, houve uma grande mudança nesta nação. Os elevados padrões éticos e perfeições espirituais deixaram de existir. As condições e a moralidade se tornaram corrompidas, a religião foi depreciada e os perfeitos princípios da lei mosaica foram obscurecidos pela superstição e politeísmo. Surgiram guerra e discórdia entre as tribos e sua unidade foi destruída. Os seguidores de Jeroboão declararam-se legítimos e verdadeiros sucessores ao trono, e os apoiadores de Roboão fizeram a mesma reivindicação. Finalmente, as tribos foram despedaçadas por hostilidade e ódio, a glória de Israel foi eclipsada, e tão completa foi a degradação que um bezerro de ouro foi erguido como objeto de adoração na cidade de Tiro*. Por isso Deus enviou Elias, o profeta, que redimiu o povo, renovou a lei de Deus e estabeleceu uma era de nova vida para Israel. A história revela ainda uma mudança e transformação posterior, quando esta unidade e solidariedade foram seguidas por uma outra dispersão das tribos. Nabucodonozor, rei da Babilônia, invadiu a Terra Santa e levou cativos setenta mil israelitas à Caldéia, onde este dasafortunado povo foi submetido às maiores reveses, provações e sofrimentos. Em seguida, os profetas de Deus mais uma vez reformaram e restabeleceram a lei de Deus e, em sua humilhação, o povo novamente a seguiu. Isto resultou em sua libertação, e sob o édito de Ciro, rei da Pérsia, retornaram à Cidade Santa. Jerusalém e o Templo de Salomão foram reconstruídos e a glória de Israel foi restabelecida. Isto, porém, não durou muito tempo; a moralidade do povo decaiu e as condições chegaram a tal ponto que Tito, o general romano, tomou Jerusalém e arrasou-a até as suas fundações. Pilhagem e subjugação completaram a desolação; a Palestina se transformou em ruína e devastação, e os judeus fugiram da Terra Santa de seus ancestrais. A causa desta desintegração e dispersão foi o afastamento do povo de Israel do fundamento da lei de Deus revelada por Moisés - a saber, a aquisição de virtudes divinas, moralidade, amor, desenvolvimento das artes e ciências, e o espírito de unicidade da humanidade.

*Tiro é o antigo nome de Sur, cidade portuária do atual Líbano, a meio caminho entre Beirute e Haifa, esta última, cidade portuária de Israel. Tiro foi a capital da antiga Fenícia. n.r.

Agora gostaria que examinásseis* certos fatos e afirmações que são dignos de consideração. É meu propósito e intenção remover dos corações dos homens a inimizade e o ódio religiosos que os agrilhoaram, e conduzir todas as religiões à concórdia e unidade. Uma vez que este ódio e inimizade, este fanatismo e intolerância são conseqüências de divergências, a realidade da unidade religiosa surgirá quando estas divergências forem dispersas, pois o fundamento das religiões divinas é um único alicerce. Esta é a unicidade de revelação ou de ensinamento. Mas, infelizmente, nós nos afastamos desse fundamento, apegando-nos tenazmente a várias formas dogmáticas e a cega imitação de crenças ancestrais. Esta é a verdadeira causa da inimizade, ódio e carnificina no mundo - motivo de alienação e desavença entre a humanidade. Por isso, desejo que sejais bem justos e imparciais em vosso julgamento das seguintes afirmações.

*A congregação do Eight Street Temple, em Washington, D.C..

Na época em que o povo de Israel estava sendo abalado e afligido por aquelas condições que mencionei, Jesus Cristo apareceu entre eles. Jesus de Nazaré era um judeu. Ele estava só e sem apoio, sozinho e sem par. Não possuía nenhum assistente. Os judeus imediatamente O acusaram de ser inimigo de Moisés. Declararam-No destruidor das leis e mandamentos mosaicos. Examinemos os fatos como eles são, investiguemos a verdade e a realidade para chegar ao verdadeiro ponto de vista e conclusão. Para um ponto de vista completamente honesto a respeito desta questão, devemos deixar de lado tudo que possuímos e investigar de modo independente. Esta Personalidade, Jesus Cristo, declarou que Moisés foi Profeta de Deus e afirmou que todos os profetas de Israel foram enviados por Deus. Ele proclamou a Torá como o verdadeiro Livro de Deus, convocou todos a viverem de acordo com seus preceitos e seguirem seus ensinamentos. É um fato histórico que, durante um período de mil e quinhentos anos, os reis de Israel foram incapazes de proclamar amplamente a religião judaica. De fato, durante esse período o nome e a história de Moisés estiveram confinados dentro dos limites da Palestina, e a Torá era um livro bem conhecido somente naquele país. Mas, por intermédio de Cristo, através da bênção do Novo Testamento de Jesus Cristo, o Velho Testamento, a Torá, foi traduzida para seiscentos diferentes idiomas e difundida por todo o mundo. Foi através do Cristianismo que a Torá chegou à Pérsia. Antes disso não havia naquele país qualquer conhecimento daquele livro, porém Cristo promoveu sua difusão e aceitação. Por Seu intermédio, o nome de Moisés foi elevado e reverenciado. Ele tornou público o nome e a grandeza dos profetas de Israel e provou ao mundo que os israelitas constituíam o povo de Deus. Qual dos reis de Israel poderia ter conseguido isto? Se não fosse através de Cristo, teria a Bíblia, a Torá, chegado a esta terra americana? E poderia o nome de Moisés ter se espalhado pelo mundo todo? Recorrei à história. Todo mundo sabe que quando o Cristianismo foi difundido, houve uma difusão simultânea de conhecimento do Judaísmo e da Torá. Por toda a Pérsia não havia sequer um volume do Velho Testamento até a religião de Jesus Cristo o fazer surgir em toda parte, de modo que hoje a Bíblia Sagrada é um livro familiar naquele país. É evidente, então, que Cristo foi amigo de Moisés, que Ele amou e acreditou em Moisés; de outro modo Ele não teria comemorado Seu nome e Sua Missão Profética. É evidente por si só. Portanto, cristãos e judeus deveriam ter o maior amor uns pelos outros, pois os Fundadores destas duas grandes religiões estiveram em perfeita harmonia no Livro e nos ensinamentos. Seus seguidores também deveriam ser assim.

Já citamos as legítimas provas da Missão Profética. Vimos que as próprias evidências da legitimidade de Moisés foram testemunhadas e repetidas em Cristo. Cristo também foi um Personagem único e incomparável, nascido da linhagem de Israel. Pelo poder de Sua Palavra, Ele foi capaz de unir povos das nações romana, grega, caldéia, egípcia e assíria. Eles haviam sido cruéis, sanguinários e hostis, matando, pilhando e levando cativos uns aos outros, Ele os uniu com perfeitos laços de unidade e amor. Fez com que se entendessem e se reconciliassem. Tão poderosos efeitos resultaram da manifestação de uma única Alma. Isto é prova conclusiva de que Cristo recebeu a assistência de Deus. Hoje, todos os cristãos admitem e acreditam que Moisés foi um Profeta de Deus. Declaram que Seu Livro foi o Livro de Deus, que os profetas de Israel foram verdadeiros e legítimos, e que o povo de Israel constituiu o povo de Deus. Que mal proveio disto? Que mal poderia haver se os judeus afirmassem que Jesus também foi um Manifestante da Palavra de Deus? Terão os cristãos sofrido por crerem em Moisés? Tiveram alguma perda de entusiasmo religioso ou testemunharam alguma frustração em sua crença religiosa por declararem que Moisés foi um Profeta de Deus, que a Torá foi um Livro de Deus e que todos os profetas de Israel foram profetas de Deus? É evidente que nenhuma perda resulta disto. E agora é tempo de os judeus declararem que Cristo foi o Verbo de Deus, e então esta inimizade entre duas grandes religiões deixará de existir. Durante dois mil anos esta inimizade e preconceito religioso permaneceram. Houve derramamento de sangue e provações. Estas poucas palavras resolverão a dificuldade e unirão duas grandes religiões. Que dano poderia advir disto: que assim como os cristãos glorificam e louvam o nome de Moisés, os judeus igualmente comemorassem o nome de Cristo e O declarassem o Verbo de Deus, considerando-O um dos Mensageiros eleitos de Deus?

Algumas palavras a respeito do Alcorão e dos muçulmanos: Quando Muhammad surgiu, Ele falou de Moisés como um grande Homem de Deus. No Alcorão, Ele Se refere às palavras de Moisés em sete diferentes lugares, proclama-O um Profeta e possuidor de um Livro, o Fundador da lei e do Espírito de Deus. Ele disse: "Quem nEle acreditar é aceitável aos olhos de Deus, e quem se afastar dEle ou de qualquer um dos Profetas, é rejeitado por Deus." De igual modo, ao concluir, Ele convoca Seus próprios parentes, dizendo: "Por que rejeitastes e deixastes de crer em Moisés? Por que não reconhecestes a Torá? Por que não acreditastes nos profetas judeus?" Numa certa surata do Alcorão, Ele menciona os nomes de vinte e oito dos profetas de Israel, louvando cada um e todos eles. A tal ponto Ele confirmou e elogiou os profetas e a religião de Israel. O objetivo é o seguinte: que Muhammad louvou e glorificou Moisés e confirmou o judaísmo. Ele declarou que quem quer que negue Moisés está corrompido e, mesmo que se arrependa, seu arrependimento não será aceito. Ele declarou Seus próprios parentes infiéis e impuros porque negaram os profetas. Ele disse: "Sois infiéis e contaminados porque não acreditastes em Cristo, porque não acreditastes em Moisés, porque não acreditastes nos Evangelhos." Foi desse modo que Muhammad louvou a Torá, Moisés, Cristo e os Profetas do passado. Ele apareceu entre os árabes que eram um povo nômade e iletrado, de natureza bárbara e sanguinária. Ele os guiou e instruiu até atingirem um alto grau de desenvolvimento. Através de Sua educação e disciplina, eles se ergueram dos mais baixos níveis de ignorância às alturas de conhecimento, tornando-se mestres de erudição e filosofia. Vemos, portanto, que as provas aplicáveis a um Profeta são igualmente aplicáveis a outro.

Concluindo: uma vez que os próprios Profetas, os Fundadores, amaram, louvaram e deram testemunho uns aos outros, por que nós discordamos e nos alienamos? Deus é um só. Ele é o Pastor de todos. Nós somos Suas ovelhas e, portanto, devemos conviver em amor e unidade. Devemos manifestar o espírito de justiça e boa vontade uns para com os outros. Faremos isto ou censuraremos e pronunciaremos anátemas, louvando a nós mesmos e condenando todos os demais? Que bem pode resultar de tal atitude e ação? Ao contrário, nada a não ser inimizade e ódio, injustiça e desumanidade podem resultar. Não foi esta a maior causa de carnificina, pesar e tribulação no passado?

Louvado seja Deus! Vós viveis na terra da liberdade. Sois abençoados com homens de erudição, homens bem versados no estudo comparativo das religiões. Vós percebeis a necessidade da unidade e sabeis o grande mal que provém do preconceito e da superstição. Eu vos pergunto: não são preferíveis a solidariedade e a fraternidade à inimizade e ódio na sociedade e na comunidade? A resposta é evidente por si mesma. Amor e solidariedade são absolutamente necessários para conquistar o beneplácito de Deus, que é o objetivo de todas as conquistas humanas. Devemos ser unidos. Devemos amar uns aos outros. Devemos sempre louvar uns aos outros. Devemos render elogios a todas as pessoas, removendo assim a discórdia e o ódio que têm causado alienação entre os homens. Pois se louvarmos a nós próprios e condenarmos os demais, as condições do passado continuarão; as guerras religiosas serão infindáveis, e o preconceito religioso, a causa primária desta devastação e tribulação, haverá de crescer. Isto deve ser abandonado, e o modo de fazê-lo é investigar a realidade subjacente a todas as religiões. Esta realidade subjacente é o amor à humanidade. Pois Deus é um e a humanidade é uma e o único credo dos Profetas é amor e unidade.

XXVII
O ESPÍRITO VIVIFICADOR

Hoje o mundo humano necessita de um grande poder através do qual esses gloriosos princípios e propósitos possam ser realizados. A causa da paz é uma grande causa; é a Causa de Deus, e todas as forças do mundo se opõem a ela. Os governos, por exemplo, consideram o militarismo como um passo em direção ao progresso humano, a divisão entre seres humanos e nações é causa de patriotismo e honra, que se uma nação ataca e conquista outra, ganhando assim riqueza, território e glória, este conflito e conquista, esta carnificina e crueldade são causa de avanço e prosperidade da nação vitoriosa. Isto é o maior dos equívocos. Comparai as nações do mundo aos membros de uma família. Uma família é uma nação em miniatura. Simplesmente alargai o círculo da família e tereis uma nação. Ampliai o círculo de uma nação e tereis toda a humanidade. As mesmas condições que envolvem a família envolvem a nação. Os fatos que ocorrem na família são os fatos que ocorrem na vida da nação. Se surgisse uma dissensão entre os membros de uma família, todos brigando e pilhando uns aos outros, desconfiados e vingativos pela injúria, buscando vantagens egoístas, isso acrescentaria ao progresso e avanço da família? Ao contrário, isto seria causa de obstrução do progresso e do avanço. O mesmo ocorre na grande família das nações, pois nações nada mais são do que um agregado de famílias. Portanto, tal como contenda e dissensão destroem uma família e impedem seu progresso, nações também são destruídas e seu avanço, impedido.

Todos os Livros celestiais, os Profetas divinos, sábios e filósofos concordam que conflito é destrutivo para o desenvolvimento humano, e a paz, construtiva. Eles concordam que guerra e contenda são um golpe à estrutura da humanidade. Por isso, é necessário um poder para prevenir a guerra, e proclamar e estabelecer a unicidade da humanidade.

Mas saber da necessidade de tal poder não é suficiente. Perceber que riqueza é desejável não é tornar-se rico. Admitir que realização científica é louvável não traz conhecimento científico. Reconhecer a excelência da honra não torna um homem honrado. Conhecer as condições humanas e a necessidade de soluções para elas não proporciona sua melhora. Aceitar que saúde é bom não restabelece a saúde. É necessário um médico hábil para remediar as atuais condições humanas. Tal como a um médico é necessário completo conhecimento de patologia, diagnóstico, terapêutica e tratamento, este Médico do Mundo deve ser sábio, hábil e capaz para poder restabelecer a saúde. Seu mero conhecimento não é saúde; ele deve ser aplicado e o remédio, administrado.

Atingir qualquer objetivo depende de conhecimento, vontade e ação. A menos que haja uma conjunção dessas três condições, não há execução ou realização alguma. Para erigir uma casa, é necessário primeiro conhecer o terreno e desenhar uma casa adequada a ela; segundo, obter os meios e a quantia necessários para a construção; terceiro, construí-la de fato. Por isso é necessária a capacidade de executar e realizar aquilo que é sabido e admitido como remédio para a situação humana - ou seja, a unificação da humanidade. Além disso, é evidente que isto não pode ser realizado através de processos e meios materiais. Essa unificação não pode ser atingida pela força racial, pois as raças são diferentes e possuem tendências distintas. Não pode ser efetuada através do poder patriótico, pois as nacionalidades não são iguais. Nem pode ser por intermédio do poder político uma vez que as políticas governamentais e as nações são várias. Isto quer dizer que qualquer esforço em se unificar através desses meios materiais beneficiaria uns e prejudicaria outros, pois os interesses são desiguais e individuais. Alguns podem achar que esta grande solução pode ser encontrada insistindo-se dogmaticamente em imitações e interpretações. Isto seria igualmente inconsistente e infrutífero. Por isso, é evidente que nenhum meio pode sanar esse mal mundial da guerra, dissensão e discórdia, a não ser a perfeita intermediação, um poder espiritual, as dádivas divinas e os sopros do Espírito Santo. Nada mais é possível; nada mais se pode conceber. Mas através de meios espirituais e do poder divino isto é possível e praticável.

Considerai a história. O que foi que uniu nações, conferiu moralidade aos povos e beneficiou a humanidade? Se refletirmos sobre isso, veremos que o estabelecimento das divinas religiões foi o maior meio de chegar à unicidade da humanidade. O fundamento da realidade divina existente na religião é que realizou isso, não a imitação de formas de religião ancestral. Imitações se opõem umas às outras e sempre foram causa de contenda, inimizade, suspeita e guerra. As religiões divinas são centros coletivos em que diversos pontos de vista podem se encontrar, harmonizar e unificar. Elas realizam a unicidade de pátrias, raças e políticas. Cristo, por exemplo, uniu várias nações, pacificou povos belicosos e estabeleceu a unicidade da humanidade. Os conquistadores gregos e romanos, os intolerantes egípcios e assírios estavam todos em conflito, inimizade e guerra, mas Cristo reuniu esses povos divergentes e eliminou as bases da discórdia - não através do poder racial, patriótico ou político, mas do poder divino, o poder do Espírito Santo. Isto não era possível de outra maneira. Todos os outros esforços de homens e nações permanecem como meras menções na história, sem resultado.

Como este grande resultado depende do poder e das dádivas divinas, onde o mundo pode obter esse poder? Deus é eterno e antigo - não é um novo Deus. Sua soberania é antiga, não recente - não existe meramente durante esses cinco ou seis mil anos. Este universo infinito existe desde a eternidade. A soberania, o poder, os nomes e atributos de Deus são eternos, antigos. Seus nomes pressupõem criação e proclamam Sua existência e vontade. Dizemos que Deus é Criador. O nome Criador implica em criação. Dizemos que Deus é o Provedor. Este nome pressupõe e prova a existência de alguém que é provido. Deus é Amor. Este nome prova a existência de alguém que é amado. Do mesmo modo, Deus é Misericórdia, Deus é Justiça, Deus é Vida, etc. Por isso, como Deus é Criador, eterno e antigo, sempre existiram criaturas e súditos por Ele providos. Não há dúvida de que a soberania divina é eterna. Soberania necessita de súditos, ministros, fideicomissários e outros subordinados à soberania. Poderia haver um rei sem país, súditos e exército? Se concebêssemos um tempo sem existência de criaturas, servos e súditos do domínio divino, estaríamos destronando Deus e declarando que houve um tempo em que Deus não era. Seria como se Ele tivesse sido recentemente designado e que o homem Lhe deu esses nomes. A soberania divina é antiga e eterna. Desde a eternidade Deus era Amor, Justiça, Poder, Criador, Provedor, o Onisciente, o Generoso.

Como a entidade divina é eterna, os divinos atributos são coexistentes e coeternos. As dádivas divinas, portanto, não têm começo nem fim. Deus é infinito; as obras de Deus são infinitas; os favores de Deus são infinitos. Uma vez que Sua divindade é eterna, Seu domínio e perfeições não têm fim. Como a graça do Espírito Santo é eterna, jamais podemos dizer que Suas dádivas cessam ou que Ele deixa de existir. Se imaginarmos o sol e tentarmos conceber o término de sua chama e seu calor, teremos afirmado sua inexistência, pois é inconcebível separar o sol de seus raios e seu calor. Por isso, se limitarmos as dádivas de Deus, estaremos limitando Seus atributos, estaremos limitando o próprio Deus.

Confiemos, então, na graça e no favor de Deus. Alegremo-nos com o sopro divino, e sejamos iluminados e exaltados pelas boas-novas celestiais. Deus sempre tratou o homem com misericórdia e bondade. Ele, que nos tempos antigos conferiu o espírito divino, é perfeitamente capaz de conceder as mesmas dádivas em todas as épocas e eras. Por isso, sejamos esperançosos. O Deus que anteriormente favoreceu o mundo, fará o mesmo agora e futuramente. O Deus que insuflou o sopro do Espírito Santo em Seus servos haverá de insuflá-lo neles agora e doravante. Não há término para Sua generosidade. O Espírito Divino penetra desde a eternidade e por toda a eternidade, pois é a graça de Deus, e a graça de Deus é eterna. Podeis conceber a limitação do poder divino na realidade atômica, ou a cessação da graça divina nos organismos existentes? Podeis imaginar o poder de coesão que ora se manifesta nos átomos deste vidro tornar-se inexistente? A energia que constitui as águas do mar deixar de se manifestar e o mar desaparecer? Uma chuva cair hoje e depois nunca mais? O esplendor do sol cessar e não mais conceder luz e calor?

Quando vemos que no reino mineral as graças divinas são contínuas, quão maior deve ser nossa expectativa e percepção no Reino espiritual divino! Quão maior deve ser a radiância das luzes de Deus e a graça da vida eterna na alma do homem! Assim como a totalidade do universo é contínua e indestrutível, as graças e favores do espírito divino são perenes.

Dou louvores a Deus por ter o privilégio de estar presente nesta respeitável assembléia* vivificada com sensibilidade espiritual e atração celestial - seus membros investigando a verdade, nutrindo a máxima esperança pela paz internacional e tendo como seu maior propósito o serviço ao mundo humano.

*Sociedade Teosófica.

Quando observamos o mundo dos fenômenos criados, descobrimos que cada um dos átomos da matéria move-se através de vários graus e reinos do mundo orgânico. Por exemplo, consideremos o elemento etéreo que penetra e viaja através de todas as realidades contingentes. Quando há vibração ou movimento no elemento etéreo, o olho é impressionado pela vibração e contempla o que chamamos de luz.

Do mesmo modo, as dádivas de Deus se movem e circulam por todas as coisas criadas. Essa ilimitada graça divina não teve começo e não terá fim. Ela se move, circula e age quando encontra capacidade para recebê-la. Em cada condição há uma capacidade específica. Por isso, devemos ter esperança de que, por intermédio da graça e do favor de Deus, este espírito de vida infundido em todos os seres criados vivifique a humanidade, e através de suas dádivas o mundo humano se torne um mundo divino, este reino terreno se torne o espelho do Reino da Divindade, as virtudes e perfeições do mundo humano sejam desveladas e a imagem e semelhança de Deus refletidas a partir desse templo.

XXVIII
A LEI DE DEUS

Certamente, para tudo há uma sabedoria toda-abrangente, especialmente para os grandes e importantes assuntos da vida. O supremo e o mais importante acontecimento no mundo humano é a vinda do Manifestante de Deus e a descida da lei de Deus. Os santos e divinos Manifestantes não Se revelaram com o propósito de fundar uma nação, seita ou facção. Eles não surgiram para que alguns pudessem reconhecer Sua Missão profética. Eles não declararam Sua missão celestial e Sua mensagem para estabelecer a fundação de uma crença religiosa. Nem mesmo Cristo Se manifestou para que nós meramente acreditássemos nEle como o Cristo, seguindo-O e adorando Sua menção. Todas estas coisas são limitadas em seu âmbito e exigências, ao passo que a realidade de Cristo é uma essência ilimitada. A Realidade infinita e ilimitada não pode ser confinada por qualquer limitação. Não, pelo contrário, Cristo apareceu para iluminar o mundo humano, transformar o mundo terreno em celestial, tornar o reino humano um domínio angelical, unir os corações, acender a luz do amor nas almas humanas, de modo que tais almas pudessem se tornar independentes, atingindo completa unidade e companheirismo, volvendo-se a Deus, entrando no Reino divino, recebendo as graças e dádivas de Deus e participando do maná celestial. O propósito era que, através de Cristo, eles fossem batizados pelo Espírito Santo, alcançassem um novo espírito e atingissem a vida eterna. Todos os sagrados preceitos e a proclamação das leis proféticas foram para estes diversos objetivos celestiais. Por isso, agradecemos a Deus, pois embora não haja qualquer relação terrena entre nós, ainda assim - louvado seja Deus! - somos unidos por laços divinos e ideais. Nós nos reunimos aqui neste encontro, antecipando ansiosamente o anúncio das dádivas divinas.

Nos séculos anteriores, as nações do mundo imaginavam que a lei de Deus exigia cega imitação de formas ancestrais de crença e adoração. Os judeus, por exemplo, eram cativos das observâncias raciais e religiosas herdadas. Os muçulmanos, igualmente, foram mantidos no cativeiro das formas e cerimônias tradicionais. Os cristãos, da mesma forma, seguiram implicitamente as antigas tradições e ensinamentos herdados. Ao mesmo tempo, o fundamento básico da religião de Deus, que sempre foi o princípio de amor, unidade e solidariedade humanas, foi deixado de lado, sendo que cada sistema religioso se apegou tenazmente à imitação de formas ancestrais como a essência suprema. Por isso, em vez da frutificação divina de unidade e amor, surgiram ódio e hostilidade no mundo. Por esta razão, os seguidores das religiões estavam impossibilitados de se associarem com solidariedade e concórdia. Até mesmo o contato e a comunicação eram considerados meios de contaminação, e o resultado foi uma condição de completa alienação e mútuo fanatismo. Não havia qualquer investigação da base subjacente à realidade. Aquele cujo pai fosse judeu, invariavelmente se tornava judeu, um muçulmano nascia de um muçulmano, um budista era budista por causa da fé de seu pai, e assim por diante. Em suma, a religião era uma herança que passava de pai para filho, dos ancestrais para a posteridade, sem investigação da realidade fundamental; conseqüentemente, todos os seguidores da religião estavam velados, obscurecidos e divergentes entre si.

Louvado seja Deus! Estamos vivendo neste século mais radiante, no qual as percepções humanas se desenvolveram e a investigação dos fundamentos da verdade caracteriza a humanidade. Individual e coletivamente, o homem está experimentando e penetrando a realidade das condições internas e externas. É por isso que estamos abandonando todos os vestígios da cega imitação e investigando a verdade de modo imparcial e independente. Vejamos o que constitui a realidade das religiões divinas. Se um cristão deixar de lado as formas tradicionais e a cega imitação dos cerimoniais e investigar a verdade dos Evangelhos, descobrirá que os princípios fundamentais dos ensinamentos de Cristo foram misericórdia, amor, solidariedade, benevolência, altruísmo, o brilho ou esplendor das dádivas divinas, a aquisição dos sopros do Espírito Santo e a unicidade de Deus. Além disso, perceberá que Cristo declarou que o Pai "faz nascer o sol igualmente sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos." O significado dessa declaração é que a misericórdia de Deus abrange todo o gênero humano, que nem um único indivíduo é privado da misericórdia de Deus, e a nenhuma alma são negadas as resplendentes dádivas de Deus. Toda a raça humana é submersa no mar da mercê do Senhor, e todos nós somos as ovelhas do mesmo Pastor divino. Qualquer falha que exista entre nós deve ser remediada. Por exemplo, os insipientes devem ser educados de modo a se tornarem sábios; os enfermos devem ser tratados até se restabelecerem; os imaturos devem ser instruídos a fim de atingirem a maturidade; os adormecidos devem ser despertados. Tudo isto deve ser realizado através do amor, e não do ódio e da hostilidade. Além disso, referindo-Se à profecia de Isaías, Jesus Cristo falou daqueles que, mesmo possuindo olhos, não vêem, tendo ouvidos, não ouvem, tendo coração não percebem; não obstante, eles deveriam ser curados. Por isso, é evidente que as graças de Cristo concederam visão ao olho que estava cego, tornaram atento o ouvido anteriormente surdo, e transformaram os corações endurecidos e insensíveis em ternos e suscetíveis. Em outras palavras, o significado é que, embora as pessoas possuam olhos exteriores, sua visão interior, ou percepção da alma está cega; embora seus ouvidos externos ouçam, seus ouvidos espirituais estão surdos; embora possuam corações conscientes, carecem de iluminação; e as graças de Cristo salvam as almas dessas condições. É evidente, então, que a manifestação do Messias era sinônimo de misericórdia universal. Sua providência era universal e Seus ensinamentos eram para todos. Sua luz não se restringia a poucos. Cada Cristo veio para o mundo da humanidade. Por isso, devemos investigar os fundamentos da religião divina, descobrir sua realidade, restabelecê-la e difundir sua mensagem por todo o mundo, para que se torne a fonte de iluminação e esclarecimento para a humanidade, os espiritualmente mortos sejam vivificados, os espiritualmente cegos recebam visão e os desatentos a Deus sejam despertados.

XIX
A CONTINUIDADE DA REVELAÇÃO

Os desinformados a respeito do mundo da realidade, que não compreendem as coisas existentes, que não têm percepção da verdade interior da criação, que não penetram os verdadeiros mistérios dos fenômenos materiais e espirituais, e que possuem apenas uma idéia superficial da vida universal, são apenas personificações da pura ignorância. Eles acreditam apenas naquilo que ouviram de seus pais e ancestrais. De si próprios nada ouvem, nada vêem, nenhuma razão, nem intelecto; confiam apenas na tradição. Tais pessoas imaginam que o domínio de Deus é um domínio ou Reino contingente.

Por exemplo, acreditam que este mundo da existência foi criado seis ou sete mil anos atrás, como se Deus não reinasse antes desse tempo e não houvesse criação antes desse período. Pensam que a Divindade é contingente, pois para eles a Divindade depende das coisas existentes, ao passo que, na realidade, desde que existe um Deus, sempre existiu uma criação. Desde que houve luz, sempre houve recipientes dessa luz, pois a luz não pode se tornar manifesta a menos que existam as coisas que a percebam e apreciem. O mundo da Divindade pressupõe criação, pressupõe recipientes de graça, pressupõe a existência de mundos. Nenhuma Divindade pode ser concebida separada da criação, senão seria como imaginar um império sem um povo. Um rei necessariamente deve ter um reino, deve necessariamente ter um exército e súditos. É possível um rei sem país, sem exército, e sem súditos? Isto é um absurdo. Se dissermos que houve um tempo em que não existia nenhum país, nenhum exército ou súditos, como poderia então haver um rei ou soberano? Pois estas coisas são essenciais a um rei.

Conseqüentemente, tal como a realidade da Divindade nunca teve um início - ou seja, que Deus sempre foi o Criador, Deus sempre foi o Provedor, Deus sempre foi o Vivificador, Deus sempre foi o Dadivoso - do mesmo modo nunca houve um tempo em que os atributos de Deus deixassem de se manifestar. O sol é o sol por causa de seus raios, por causa de seu calor. Se concebêssemos um tempo em que houvesse um sol sem calor e luz, isto significaria que absolutamente não existia nenhum sol e que ele veio a existir posteriormente. Assim, da mesma forma, se dissermos que houve um tempo em que Deus não tinha criação ou criaturas, um tempo em que não havia aqueles que recebessem Suas bênçãos e que Seus nomes e atributos não se haviam manifestado, isto seria equivalente à completa negação da Divindade, pois significaria que a Divindade é contingente. Para explicar isto ainda mais claramente, se cogitássemos que cinqüenta ou cem mil anos atrás não havia uma criação, que não existiam mundos, nem seres humanos e nem animais, este nosso pensamento significaria que antes desse período não havia qualquer Divindade. Se disséssemos que em certa época houve um rei, porém não havia súditos, nem exército, nem país para ele governar, isto realmente equivaleria a dizer que houve um tempo em que não existia nenhum rei e que o rei é contingente. É, portanto, evidente que uma vez que a realidade da Divindade não teve início, a criação também não teve início. Isto é tão claro como o sol. Quando contemplamos este imenso mecanismo de poder onipresente, percebemos este espaço ilimitado e seus inumeráveis mundos, torna-se evidente para nós que o tempo de vida desta infinita criação é mais do que seis mil anos; não, é muito, muito mais antigo.

Apesar disso, lemos no Gênesis, no Velho Testamento, que a criação existe há apenas seis mil anos. Isto tem um sentido e um significado interiores; não deve ser tomado literalmente. Por exemplo, no Velho Testamento está dito que certas coisas foram criadas no primeiro dia. A narrativa indica que nesse tempo o sol ainda não havia sido criado. Como podemos conceber o dia se não havia o sol no firmamento? Pois o dia depende da luz do sol. Já que o sol não havia sido criado, como se poderia conceber o primeiro dia? Por isso, essas afirmações têm outros significados além do literal.

Para ser breve, nosso propósito é mostrar que a soberania divina, o Reino de Deus, é uma soberania antiga e não uma soberania contingente, assim como um reino pressupõe a existência de súditos, de um exército, de um país; pois de outro modo não se poderia conceber a condição de domínio, autoridade e soberania. Por isso, se imaginássemos que a criação é acidental, seríamos forçados a admitir que o Criador é acidental, ao passo que a graça divina sempre flui e os raios do Sol da Verdade brilham continuamente. Não há possibilidade de interrupção da graça divina, da mesma maneira que não há possibilidade de interrupção dos raios do sol. Isto é claro e óbvio.

Por isso, houve muitos santos Manifestantes de Deus. Mil anos atrás, duzentos mil anos atrás, um milhão de anos atrás, a graça de Deus fluía, o esplendor de Deus resplandecia e o domínio de Deus existia.

Por que surgiram estes santos Manifestantes de Deus? Qual é a sabedoria e o propósito de Seu aparecimento? Qual o resultado de Sua missão? É evidente que a personalidade humana possui dois aspectos: a imagem e semelhança de Deus e o aspecto satânico. A realidade humana se encontra entre esses dois aspectos: o divino e o satânico. É evidente que além deste corpo material, o homem é dotado de outra realidade que é o mundo dos padrões que constituem o corpo celestial do homem. Ao falar, o homem diz: "Eu vi", "Eu falei", "Eu fui". Quem é este eu? É evidente que este eu é diferente deste corpo. É claro que quando o homem pensa, é como se estivesse consultando com alguma outra pessoa. Com quem ele está consultando? É evidente que é uma outra realidade, ou algo além deste corpo, com o qual ele entra em consulta ao pensar: "Devo fazer isto, ou não?" "Qual será a conseqüência deste meu ato?" Ou, ao perguntar à outra realidade: "Qual a objeção a este ato se eu o realizá-lo?" E então essa realidade existente no homem comunica-lhe sua opinião a respeito do assunto em questão. Por isso, essa realidade existente no homem é clara e obviamente diferente de seu corpo - um ego com o qual o homem entra em consulta e cuja opinião ele busca.

Muitas vezes uma pessoa toma positivamente uma resolução a respeito de um assunto; decide, por exemplo, empreender uma viagem. Então pensa bem sobre o assunto - ou seja, consulta sua realidade interior - e finalmente conclui que deve desistir de sua viagem. O que aconteceu? Por que abandonou seu objetivo inicial? É evidente que consultou sua realidade interior, a qual lhe expressou as desvantagens de tal viagem; assim, a pessoa se submete àquela realidade e muda sua intenção original.

Além disso, o homem vê no mundo dos sonhos. Embora seu corpo esteja aqui, em repouso, ele viaja pelo Oriente, ele viaja pelo Ocidente. É aquela realidade nele existente que faz a viagem enquanto o corpo dorme. Não há dúvida de que existe uma realidade além da realidade física exterior. Por outro lado, por exemplo, uma pessoa morre e é enterrada. Depois de algum tempo a vereis no mundo dos sonhos e falareis com ela, embora seu corpo esteja enterrado. Quem é a pessoa que vedes em vossos sonhos, com quem conversais e que fala convosco? Isto também prova que há outra realidade diferente da física que morre e é enterrada. Assim é certo que existe uma realidade no homem que não é o corpo físico. Algumas vezes o corpo enfraquece, mas a outra realidade permanece em sua própria condição normal. O corpo adormece, torna-se como um morto; mas aquela realidade se move, compreende coisas, expressa-as e é até mesmo consciente de si própria.

Esta outra realidade interior é chamada de corpo celestial, a forma etérea que corresponde a este corpo. Esta é a realidade consciente que descobre o significado íntimo das coisas, pois o corpo físico do homem não descobre coisa alguma. A realidade etérea interior capta os mistérios da existência, descobre verdades científicas e indica sua aplicação técnica. Ela descobre a eletricidade, produz o telégrafo, o telefone, e abre a porta do mundo das artes. Se o corpo material, exterior, fizesse isso, o animal seria igualmente capaz de fazer maravilhosas descobertas científicas, pois o animal tem em comum com o homem todas as capacidades e limitações físicas. Qual é, então, esse poder que penetra as realidades da existência e que não é encontrado no animal? É a realidade interior que compreende as coisas, lança luz sobre os mistérios da vida e do ser, descobre o Reino celestial, desvela os mistérios de Deus e diferencia o homem dos animais. Não pode haver nenhuma dúvida quanto a isso.

Conforme dissemos anteriormente, esta realidade humana se encontra entre a natureza superior e inferior do homem, entre o mundo animal e o mundo da Divindade. Quando a inclinação animal predomina no homem, ele desce a um nível ainda mais baixo que o animal. Quando triunfam as capacidades celestiais de sua natureza, ele se torna o mais nobre e excelente ser do mundo da criação. Todas as imperfeições encontradas no animal são encontradas no homem. Nele há antagonismo, ódio e luta egoísta pela sobrevivência; em sua natureza espreitam desconfiança, vingança, ferocidade, astúcia, hipocrisia, ganância, injustiça e tirania. A realidade do homem, por assim dizer, é coberta pela vestimenta exterior do animal e pela roupagem do mundo da natureza, o mundo da escuridão, das imperfeições e ilimitada vileza.

Por outro lado, nele encontramos justiça, sinceridade, fidelidade, conhecimento, sabedoria, iluminação, misericórdia e clemência, juntamente com intelecto, compreensão, capacidade de entender as realidades das coisas e a habilidade de penetrar as verdades da existência. Todas estas grandes perfeições devem ser encontradas no homem. Por isso dizemos que o homem é uma realidade que paira entre a luz e as trevas. Deste ponto de vista, sua natureza é tríplice: animal, humana e divina. A natureza animal é escuridão; a celestial é luz sobre luz.

Os santos Manifestantes de Deus vêm ao mundo para dissipar as trevas da natureza animal ou física do homem e purificá-lo de suas imperfeições, para vivificar sua natureza espiritual e celestial, despertar suas qualidades divinas, tornar visíveis suas perfeições, revelar suas potencialidades e trazer à existência todas as virtudes do mundo humano nele latentes. Estes santos Manifestantes de Deus são os Educadores e Instrutores do mundo da existência e Professores do mundo humano. Eles libertam o homem da escuridão do mundo da natureza, salvam-no do desespero, do erro, da ignorância, das imperfeições e de todas as más qualidades. Eles o vestem com a roupagem das perfeições e virtudes elevadas. Os homens são insipientes; os Manifestantes de Deus os tornam sábios. Eles são animalescos; os Manifestantes de Deus os tornam humanos. Eles são selvagens e cruéis; os Manifestantes os conduzem aos reinos de luz e amor. Eles são injustos; os Manifestantes fazem com que eles se tornem justos. Os homens são egoístas; Eles os afastam do ego e do desejo. Os homens são arrogantes; Eles os tornam meigos, humildes a amigáveis. Os homens são mundanos; Eles os tornam celestiais. Os homens são materiais; os Manifestantes os transformam em semelhança divina. São crianças imaturas; os Manifestantes os desenvolvem à maturidade. Os homens são pobres; Eles os dotam de riquezas. Os homens são vis, traiçoeiros e mesquinhos; os Manifestantes de Deus os elevam para a dignidade, nobreza e sublimidade.

Estes santos Manifestantes libertam o mundo humano das imperfeições que o afligem e fazem com que o homem se apresente na beleza das perfeições celestiais. Não fosse pela vinda destes santos Manifestantes de Deus, toda a humanidade se encontraria no plano animal; permaneceria na escuridão e na ignorância como aqueles a quem foi negada a escolaridade e que jamais tiveram um mestre ou instrutor. Sem dúvida, tais desafortunados permanecerão na sua condição de carência e privação.

Se as montanhas, colinas e planícies do mundo material forem deixadas selvagens e sem cultivo, sob o domínio da natureza, permanecerão como mata virgem, sem que nelas se possa encontrar árvores frutíferas. Um verdadeiro agricultor transforma esta floresta, esta densa mata, num jardim, cultivando suas árvores para que produzam frutos e fazendo germinar flores em vez de espinhos e cardos. Os santos Manifestantes são os Jardineiros ideais das almas humanas, os Cultivadores divinos dos corações humanos. O mundo da existência é apenas uma floresta de desordem e confusão, um estado de natureza que nada produz senão árvores estéreis e inúteis. O Jardineiro perfeito educa estas selvagens e brutas árvores humanas, torna-as frutíferas, irriga e cultiva-as dia após dia para que adornem o mundo da existência e continuem a florescer na máxima beleza.

Conseqüentemente, não podemos dizer que a graça divina tenha cessado, que a glória da Divindade tenha se exaurido ou que o Sol da Verdade tenha entrado no ocaso eterno, na escuridão que não é seguida pela luz, na noite que não é sucedida pelo alvorecer, na morte que não é seguida pela vida, no erro que não é sucedido pela verdade. Será concebível que o Sol da Realidade venha a se pôr na escuridão eterna? Não! O sol foi criado a fim de que possa irradiar luz sobre o mundo e adestrar todos os reinos da existência. Como pode, então, o perfeito Sol da Realidade, o Verbo de Deus, pôr-se para sempre? Pois isso significaria a suspensão da graça divina, e a graça divina é, por sua própria natureza, contínua e incessante. Seu sol resplandece sempre, suas nuvens sempre produzem chuvas, suas brisas sempre sopram, seus favores são amplamente abrangentes, suas dádivas são sempre perfeitas. Conseqüentemente, devemos sempre esperar, sempre ter esperança e orar a Deus que Ele nos enviará Seus santos Manifestantes em Seu mais perfeito poder, com o penetrante poder divino de Sua Palavra, de modo que esses Seres celestiais possam se distinguir acima de todos os outros seres em todos os aspectos, em todos os atributos, tal como o glorioso sol se distingue de todos os outros astros.

Embora as estrelas sejam cintilantes e brilhantes, o sol é superior a elas em esplendor. De modo semelhante, esses santos e divinos Manifestantes são e devem sempre Se distinguir acima de todos os outros seres em todos os atributos de glória e perfeição, de modo que se possa comprovar que o Manifestante é o verdadeiro Mestre e o genuíno Instrutor; que Ele é o Sol da Verdade, dotado de um esplendor supremo e refletindo a beleza de Deus. De outro modo, não nos é possível treinar um indivíduo humano e, depois de treiná-lo, crer nele e aceitá-lo como o santo Manifestante da Divindade. O verdadeiro Manifestante de Deus deve ser dotado de conhecimento divino e não dependente de conhecimento adquirido em escolas. Ele deve ser o Educador e não o educando; Seu padrão, o de intuição em vez de instrução. Ele deve ser perfeito e não imperfeito, grande e glorioso em vez de fraco e impotente. Ele deve ser rico nas riquezas do mundo espiritual, e não pobre. Numa palavra, o santo e divino Manifestante de Deus deve Se distinguir acima de todos os outros seres humanos em todos os aspectos e qualificações, de modo a poder estar apto a efetivamente treinar a sociedade humana, eliminar a escuridão que envolve o mundo humano, elevar a humanidade de um reino inferior para um reino superior, ser capaz de, por intermédio do poder penetrante de Sua Palavra, promover e difundir amplamente a benéfica mensagem da paz universal entre os homens, unificar o gênero humano em crença religiosa através de um manifesto poder divino, harmonizar todas as seitas e denominações e converter todas as pátrias e nacionalidades numa só pátria e terra natal.

É nossa esperança que as graças de Deus nos abranjam a todos, que as dádivas divinas se tornem manifestas, a luz do Sol da Verdade ilumine nossos olhos, inspire nossos corações, conceda as agradáveis boas-novas de Deus às nossas almas, torne nossos pensamentos elevados e faça nossos esforços produzirem resultados gloriosos. Numa palavra, nossa esperança é que possamos atingir aquilo que é o auge das aspirações e desejos humanos.

APÊNDICE
SOBRE O COMPILADOR
(Foto de Horace Hotchkiss Holley )
Horace Hotchkiss Holley
Mão da Causa de Deus
(1887-1960)
JUVENTUDE

Horace Hotchkiss Holley nasceu em 7 de abril de 1887, em Torrington, Connecticut, Estados Unidos da América. Sua família era próspera e seus antepassados incluíram ministros congregacionistas e notáveis pedagogos. Ele se formou na famosa Escola de Lawrenceville de Nova Jersey, em 1906, e estudou literatura na Academia de Williams.

Em 1909, ele estava determinado a ir para a Europa com a intenção de passar o verão e a completar seus estudos. No navio encontrou uma artista jovem, Bertha Herbert, que lhe emprestou um livro do Myron Phelps sobre 'Abdu'l-Bahá, introduzindo-o à Fé Bahá'í. Herbert e Holley casaram-se em outubro de 1909 e permaneceram na Europa, primeiro na Itália e mais tarde na França. Enquanto eles viveram na Itália, sua primeira filha, Hertha, nasceu.

Em 1911, sua família foi para Thonon-les-Bains, França, encontrar 'Abdu'l-Bahá que passava por lá. Em 1912, eles mudaram para Paris e se encontraram novamente com 'Abdu'l-Bahá. Em Paris, Horace abriu uma galeria de arte moderna e Bertha estudou moda. Enquanto vivendo em Paris, Holley publicou seus primeiros livros de versos e seu primeiro trabalho sobre a Fé Bahá'í: Bahaism: The Modern Social Religion.

A visão de Holley sobre a Fé Bahá'í estava muito apegada às condições sociais, no início destes anos. Foi somente mais tarde que ele desenvolveu uma avaliação de seus aspectos especificamente religiosos.

NOVA IORQUE

Depois da erupção de Primeira Guerra Mundial, os Holleys estavam entre aqueles que fugiram de Paris. Eles foram primeiro à Londres, e então para Nova Iorque onde ficaram inicialmente com a família Kinney, membros fortes da comunidade bahá'í de Nova Iorque.

Os Holleys estabeleceram-se na Greenwich Village, Nova Iorque, e associaram-se bastante com a sociedade boêmia, literária e artística de lá. Sua segunda filha, Marcia, nasceu em 1916. Horace continuou a escrever, publicando mais versos, peças teatrais, e ensaios sobre a Fé Bahá'í. Porém, a renda que tiveram não foi tão longe em Nova Iorque como a que ele teve na Europa e qualquer honorário provindo da literatura ou empenhos artísticos tanto de Bertha como de Horace era incoerente. Então, Horace entrou num mundo mais comercialmente viável, o da publicidade; trabalhando primeiro com a Iron Age Publishing Company, de 1918 até 1920, e então como chefe do departamento de cópias da Agência de Publicidade de Redfield, de 1921 até 1925.

As dificuldades dos Holleys não eram só financeiras. Seu casamento cambaleou por algum tempo e os círculos em que eles entraram em Greenwich Village não contribuíram para sua estabilidade. Horace e Bertha divorciaram-se em 1919. Naquele mesmo ano, Holley casou-se com Doris Pascal, que havia conhecido em Paris.

Embora divorciados, Horace e Bertha permaneceram amigos por muitos anos, talvez pela triste condição de saúde de sua filha mais velha. Infelizmente, Bertha passou por períodos de perturbação mental que se agravaram até sua morte, em 1936, desgastando toda a família, financeiramente e emocionalmente.

Desde sua chegada em Nova Iorque, Holley foi ativo em círculos bahá'ís, como também no bairro de Greenwich Village, e pelo início dos anos vinte, ele ficou, também, conhecido nacionalmente na comunidade bahá'í. Era, também, um membro ativo da Igreja Episcopal de St. Mark, em Nova Iorque, onde desenvolveu uma associação entre eles e comunidade bahá'í. Holley serviu como guardião da sacristia, de 1928 até 1933, escrevendo os materiais de publicidade da igreja, e como gerente de aluguel de seus edifícios de apartamento, e na angariação de fundos. Holley deixou a igreja em 1933, juntamente com muitos bahá'ís, como conseqüência de uma discordância entre a sacristia e o reitor acima de finanças de igreja.

Em 1923, Holley foi eleito para a Assembléia Espiritual Nacional do bahá'ís dos Estados Unidos pela primeira vez. Ele serviria neste corpo até 1959. Foi o secretário nacional de 1924 até 1930 e de 1932 até 1959. Foi durante seu primeiro turno que a posição foi obrigatoriamente de ser a tempo integral e Holley desistiu de sua carreira, então bem estabelecida, em publicidade.

Holley serviu, também, como editor da World Unity Magazine e trabalhava com a World Unity Foundation. Ele iniciou e editou Bahá'í News - estava envolto com numerosos editoriais e escrevia atividades relacionadas ao Star of the West e The Bahá'í World, como também, às publicações dos Escritos Sagrados Bahá'ís.

WILMETTE

Nos anos de 1930, a Assembléia Espiritual Nacional do E.U.A. decidiu mover a sede administrativa nacional bahá'í da costa leste até as imediações do Mashriqu'l-Adhkár em Wilmette, Illinois. Holley mudou-se para Wilmette em 1939. Isto, juntamente com as restrições impostas pela Segunda Guerra Mundial, encorajaram um centralizar de atividades por parte de comitês nacionais, como, também, as funções administrativas da secretaria de Assembléia Nacional.

A consciência e disponibilidade de Holley às vezes encorajaram um "deixe que Horace faz isto"; esta atitude resultou mais em um fardo e responsabilidade para os assuntos nacionais da Fé, sobrecarregando os ombros da pessoa que já eram bastante ocupados. Esta consciência Shoghi Effendi tinha total noção: ambas por lidar com assuntos dentro dos Estados Unidos e internacionalmente. Shoghi Effendi era provavelmente o único, que preocupado com os assuntos da Fé Bahá'í, tinha uma posição que podia apreciar a extensão de trabalhos de Holley e legitimamente exigir mais dele, sabendo que por isto seria, Holley, mais atacado.

Depois da mudança para Wilmette, Holley continuou seu trabalho editorial, apesar do crescente papel administrativo, e serviu em comitês nacionais. Ele era também ativo na comunidade de local bahá'í de Wilmette, recepcionando banquetes e firesides. Ele participou na vida social da cidade, também, tornando-se um membro de Rotary, ajudando na Comissão Histórica de Wilmette, e até servindo como guardião da força aérea durante a guerra.

Em 1944, Holley sofreu um ataque cardíaco e daquele ano em diante, esteve periodicamente doente, ambos por causa de seu coração e mais tarde por causa de uma estafa que causava uma dor quase constante. Ele teve também problemas com sua vista. Apesar de tudo, continuou a servir bem além do ponto onde a preocupação com sua saúde poderia tê-lo decidido a se aposentar. Realmente, ele até alargou o âmbito de suas atividades para incluir uma dimensão internacional, foi então que a Assembléia Nacional estabeleceu o posto de secretário-assistente para o ajudar, elegendo Charlotte Linfoot para esta posição, e ela assumiu o comando do dia-a-dia do escritório.

MÃO DA CAUSA

O esforço lançado no meio dos anos de 1930 para aumentar a extensão da Fé Bahá'í nas Américas começou a frutificar depois de Segunda Guerra Mundial com a criação de novas Assembléias Nacionais. Holley representou a Assembléia de Nacional dos Estados Unidos Espirituais na eleição da primeira Assembléia Nacional do Canadá (previamente debaixo da jurisdição do corpo dos Estados Unidos) em 1948. Juntamente com Dorothy Baker, ele representou a Assembléia dos Estados Unidos na eleição, no Panamá, da primeira Assembléia Nacional para a América Central, em 1951.

Mais tarde em 1951, Shoghi Effendi designou Holley como uma Mão da Causa de Deus. Subseqüente, o instruía a eventos internacionais, tanto como representante de Shoghi Effendi como também da Assembléia Nacional dos Estados Unidos. Das conferências internacionais celebradas no Ano Santo de 1953, Holley assistiu as de Kampala na Uganda, Estocolmo na Finlândia, e Nova Deli na Índia, como também a de Chicago.

Foi somente em 1953 que Holley e Shoghi Effendi se encontraram pela primeira vez depois de três décadas de colaboração por correspondência quando Holley visitou Haifa, Israel, em dezembro. Como secretário do mais firmemente estabelecido corpo nacional administrativo bahá'í, ainda que Shoghi Effendi tivesse que restringir a propensão de Holley por querer estabelecer regras processuais, Holley desempenhou um papel importante em ajudar os esforços de Shoghi Effendi para dar uma expressão prática aos princípios bahá'ís administrativos. Impetuosamente, Holley parecia mais confortável com firmes limites e foi um esforço para ele imaginar uma estrutura administrativa que aproximavasse a situações contextuais e flexíveis. Para alguns, isto o fez parecer rígido, até intolerante. Estas ocasiões sempre o surpreenderam, pois ele pensava ser imparcial nos melhores interesses do todo, todavia suas ações eram vistas de forma muito ditatoriais.

Em 1957, Holley assistiu à convenção em Lima, Peru, quando foi realizada a primeira eleição da Assembléia Nacional da América do Sul, como representante pessoal do Shoghi Effendi.

Depois da morte de Shoghi Effendi em novembro de 1957, Holley desempenhou um papel proeminente nos conclaves das Mãos da Causa que estavam tentando guiar a Fé Bahá'í para um curso seguro. Subseqüentemente, foi pedido para se tornar uma das Mãos da Causa a residir em Israel.

Ele renunciou a Assembléia Espiritual Nacional dos Estados Unidos em 1959. Ele e Doris chegaram em Haifa em dezembro daquele ano. Sua enfermidade progrediu consideravelmente e ele ficou muito fraco. Ele morreu em julho de 1960 e foi enterrado aos pés do Monte Carmelo, em Haifa.

Embora não exista nenhuma biografia disponível de Holley, qualquer memória, ou história relacionada à comunidade bahá'í norte-americana entre 1910 e 1960 é provável ter menção dele. Um tributo pessoal, valioso, de Holley que dá uma boa noção do ser humano lapidado que foi, é o In Memorian, artigo escrito por Ruhíyyih Khánum no The Bahá'í World: XIII (849-858).

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

p. III. Palestras de 'Abdu'l-Bahá, Londres/1911; E.B.B.; 2005; p. 4.

SOBRE O AUTOR DAS PALESTRAS:

Texto eletrônico retirado do site da Bahá'í Publishing Trust of U.S.A..

1. Bahá'u'lláh. Kitáb-i-Aqdás. no 12, p. 50.
2. Epístolas de Bahá'u'lláh. p. 244.
3. Kitáb-i-Aqdás no 174, p. 66.

4. Shoghi Effendi. A Ordem Mundial de Bahá'u'lláh. p.p 177-8.

5. Ibid. p. 182.
6. Ibid. pp. 171-84.
ALICERCES DA UNIDADE MUNDIAL

1. A Promulgação da Paz Universal, Palestras de 'Abdu'l-Bahá - Estados Unidos e Canadá/1912. E.B.B.; 2005; pp. 550-2.

2. Ibid. pp. 113-7.
3. Ibid. pp. 185-9.
4. Ibid. pp. 176-8.
5. Ibid. pp. 152-5.
6. Ibid. pp. 144-51.

7. Este texto é parte da famosa Epístola que 'Abdu'l-Bahá enviou à Convenção de Haya sobre a Paz Duradoura, em 1919. Informamos que apesar desta Epístola estar publicada no livro A Revelação Bahá'í; E.B.B.; 2ª edição, 1976, pp. 208-14, somente foi reproduzido o último parágrafo desta tradução, pois a outra parte desta Epístola, encontra-se, atualmente, com sua tradução oficial no livro Seleção dos Escritos de 'Abdu'l-Bahá. E.B.B; 1993; seção 227; pp. 271-9.

8. A Promulgação da Paz Universal. pp. 53-5.
9. Ibid. pp. 267-9.

10. Parte da palestra de 'Abdu'l-Bahá proferida no Coronation Hall, em Montreal, Canadá, em 1912. Star of the West, vol. 13, pp. 227-30. Também, pode ser encontrada no livro 'Abdu'l-Bahá in Canadá; B.P.T. of Canadá; 1962; pp. 10-13.

11. Parte da palestra de 'Abdu'l-Bahá proferida na casa de veraneio de um oficial do governo dos E.U.A., em Dublin, New Hampshire, em 4 de junho de 1912. Star of the West, vol. 7, p. 84. A tradução dos 2 primeiros parágrafos foram retirados do livro Bahá'u'lláh e a Nova Era; E.B.B.; 9ª edição, 2001; p. 141.

Os 2 últimos parágrafos fazem parte de uma Epístola de 'Abdu'l-Bahá dirigida à sra. Olly Schawarz, Sttugart, Alemanha, enviada em fevereiro de 1920. Star of the West, vol. 13; p. 231.

12. A Promulgação da Paz Universal. pp. 22-5.
13. Ibid. pp. 33-7.

14. Parte da palestra de 'Abdu'l-Bahá proferida no The White Hodge, em Wimbledon, Inglaterra, em 3 de janeiro de 1913. Star of the West, vol. 7, pp.117-9 e p. 124.

15. 'Abdu'l-Bahá. Respostas a Algumas Perguntas. E.B.B. 5ª edição, 2001, pp. 139-40.

16. A Promulgação da Paz Universal. pp. 102-4.
17. Ibid. pp. 356-62.
18. Ibid. pp. 58-62.
19. Ibid. pp. 279-82.
20. Ibid. pp. 236-9.
21. Ibid. pp. 219-223.
22. Ibid. pp. 362-70.
23. Ibid. pp. 492-6.
24. Ibid. pp. 171-5.
25. Ibid. pp. 315-23.
26. Ibid. pp. 507-17.
27. Ibid. pp. 193-8.
28. Ibid. pp. 556-9.
29. Ibid. pp. 580-7.

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